Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Faculdade de Comunicação e Filosofia
O QUE É TERRORISMO?
Uma análise semântica e sociopolítica
João Marinho
Matr. 01000453
Jornalismo
Dezembro - 2004
Introdução
Ao longo do século XX, a palavra “terrorismo” passou a fazer parte do vocabulário
cotidiano de grande parte do mundo.
Tido como alternativa legítima de luta por certos grupos, o terrorismo destilou seu
amargor em nações espalhadas por todos os continentes (Itália, Espanha, Rússia, Reino
Unido, França, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Uruguai, Peru, Argentina, Chipre,
Quênia, Somália, Indonésia e Filipinas, para dar alguns exemplos). Siglas e nomes como
ETA, IRA e Hamas tornaram-se comuns nos noticiários e leva(ra)m a insegurança e o
medo para muitas sociedades.
Mais recentemente, na aurora do século XXI, ganhou destaque o terrorismo
alimentado pelo que se convencionou chamar de fundamentalismo islâmico, graças ao
maior ataque terrorista da história, impetrado contra as torres gêmeas do World Trade
Center e contra o prédio do Pentágono, nos Estados Unidos.
Os termos “terrorismo” e “terrorista” tornaram-se tão corriqueiros que, mesmo neste
simples texto introdutório, parecem dispensar mais explicações, mas será que isso é
verdadeiro?
Polêmica do terror
Há alguns meses, uma polêmica relacionada ao uso dessas expressões atingiu em
cheio o jornal Folha de S. Paulo. No dia 26 de julho de 2004, a Folha publicou uma
reportagem, citando como fonte as agências de notícias internacionais, sobre um ato
realizado por colonos judeus contra a possibilidade de sua saída da faixa de Gaza, território
ocupado por Israel e reivindicado pelos palestinos. Em certa passagem, o texto informa que
“seis membros do grupo terrorista Brigadas dos Mártires de Al Aqsa” (grifo nosso) foram
mortos pelo exército israelense.
Quatro dias depois, um leitor, Nassib Rabeh, escreveu para o jornal, criticando-o.
Rabeh comparou a cobertura da Folha às de outros dois jornais: o concorrente O Estado de
S. Paulo e o francês Le Monde. Nenhum dos dois usou o termo “terrorista” para se referir
às Brigadas.
A Folha, em nota, respondeu que “considera terroristas grupos que atacam civis de
forma deliberada”. Foi o bastante para provocar reações inflamadas contra e a favor desse
posicionamento, a ponto de um outro leitor, Jairo Luis de Mattos, lançar uma importante
questão: se grupos armados que atacam civis são terroristas, qual o estatuto do Exército
israelense, que ataca sistematicamente a população civil palestina? Por que não se referir a
ele também como “terrorista”?
O assunto chegou ao ombudsman do jornal, Marcelo Beraba, que se preocupou em
contatar a redação da Folha e os editores d’O Globo e d’O Estado. A secretária de Redação
da Folha, Suzana Singer, disse que os atos praticados por Israel, na visão do jornal,
equivalem aos adotados por grupos terroristas, mas fez a ressalva de que o termo
“terrorista”, no Manual de Redação do jornal, não pode ser usado para se referir a Estados.
Eduardo Nogueira, editor de Internacional d’O Estado de S. Paulo, argumentou que,
em casos como esse das Brigadas, o jornal não utiliza o termo “terrorista” porque ele se
tornou um rótulo, uma caracterização negativa dada a um dos lados de um conflito a outro,
e utilizá-lo significa assumir um desses lados ou versões.
Por fim, Sandra Cohen, editora de Internacional d’O Globo, diz que sua redação lança
mão do bom senso e que usa o termo “terrorista” para se referir a atentados ou
determinadas ações realizadas por grupos palestinos contra a população civil israelense.
Origem dos termos
Toda essa discussão leva, forçosamente, à constatação de que os termos “terrorista” e
“terrorismo” estão longe de representar um consenso, e emergem daí três significados
distintos para eles, significados estes que são o objeto de investigação, ainda que não de
forma esgotada, deste trabalho.
O termo “terrorismo” tem uma origem historicamente bem determinada. Ele vem do
francês terrorisme, palavra forjada no século XVIII a partir dos verbos latinos terrere e
deterrere e que significa “sob o Terror”.
A origem francesa do termo não é por acaso. Terror foi o nome pelo qual ficou
conhecido o período entre 1793 e 1794 da Revolução Francesa, quando foi instaurada a
ditadura do Comitê de Saúde Pública, chefiado por Robespierre e Saint-Just, que levou
milhares de franceses à guilhotina e instalou uma perseguição generalizada contra toda e
qualquer forma de heterodoxia dentre dos partidários da Revolução.
Da França do século XVIII até os dias atuais, o termo “terrorismo” guardou as
principais características que, em linhas gerais, o definem: o uso sistemático da violência
contra uma população, como forma de alcançar um objetivo político por meio do medo
generalizado; e o caráter punitivo e extremista que age como força motriz dessas ações.
Ambas as qualidades terminam por se unir em uma demonstração de força ou mobilização
do grupo que pratica o terrorismo.
Isso, porém, não é propriamente uma novidade, nem agora e nem na Revolução
Francesa. Quase três séculos antes da Revolução, o famoso pensador político Maquiavel já
dizia que para conservar o poder estatal adquirido, “era necessário periodicamente espalhar
aquele terror e aquele medo nos homens que o tinham utilizado ao tomar o poder” (cf.
Dicionário de Política).
Em seu artigo “Bíblia e Terrorismo”, o psicanalista Sérgio Paulo Annes elenca
algumas passagens bíblicas que, pelos padrões atuais, seriam tachadas de terroristas. Sem
entrar no mérito se as passagens são ou não científica e historicamente comprováveis, a
“acusação” tem relevância por insinuar que o “terrorismo” pode ser tão antigo quanto a
própria idéia de civilização e estaria mesmo no bojo da tradição judaico-cristã, que se
constitui em um dos pilares do pensamento ocidental.
O terrorismo enquanto estratégia (“O Globo”)
O surgimento do termo “terrorismo” a partir das ações de Robespierre e de seus
partidários e a constatação de que práticas “terroristas” podem ter permeado toda a história
da humanidade evoca o primeiro sentido que podemos dar ao conceito de terrorismo, que se
atém à estratégia terrorista.
Retomando o que dissemos há pouco, o terrorismo se caracterizaria pelo uso
sistemático da violência para que, por meio do medo generalizado, se chegasse à
consecução de um objetivo político, o que, por sua vez, estaria impregnado de um caráter
punitivo e extremista e de uma qualidade demonstrativa.
Os dicionários em língua portuguesa registram sentidos muito próximos a esse,
apenas sem abordar ou reforçar esse caráter punitivo e extremista. O Dicionário Houaiss
define terrorismo, em duas das quatro acepções que registra, como o “emprego sistemático
da violência para fins políticos” e “modo de impor a vontade pelo uso sistemático do
terror”, enquanto o Aurélio diz, na primeira acepção destacada para o termo, que terrorismo
é um “modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas, ou de impor-lhes a vontade
pelo uso sistemático do terror”. Já a Nova Enciclopédia Folha o define como “emprego ou
ameaça de violência com propósitos políticos”.
Todas essas definições apontam para uma abordagem do terrorismo enquanto
estratégia e enquanto prática. O terrorismo é uma estratégia à medida que faz uso dos
meios disponíveis ao grupo que o pratica aplicando-os de maneira a chegar a um objetivo.
Um ato ou atentado terrorista é, portanto, uma forma de luta que participa de uma
engrenagem que visa a alcançar uma meta previamente estabelecida.
Em comum, as estratégias do terror têm exatamente o fato de tencionar espalhar o
medo por meio da violência sistemática para que, com a intimidação, o objetivo seja
alcançado, seja este objetivo a independência, a expulsão de um invasor ou a tomada de
poder pelo grupo.
Nessa acepção, apenas os atos (práticos) e a estratégia em si podem ser efetivamente
chamados de “terroristas”, enquanto “terrorismo” parece estar especificamente ligado à
segunda. Com efeito, o terrorismo torna-se aqui uma estratégia que está à disposição,
podendo o grupo eventualmente utilizá-la ou lançar mão dela freqüentemente.
Esse grupo, por sua vez, pode ser uma guerrilha, como diz o Manual de Redação da
Folha, ou uma organização, um partido, um governo ou mesmo um Estado (a aplicação de
“terrorista” a Estado, porém, é rejeitada pelo Manual da Folha, como vimos e discutiremos
adiante).
Dessa forma, é do enfoque na estratégia que emerge também o conceito de terrorismo
de Estado, relativamente recente, polêmico e largamente proposto e utilizado por
estudiosos como Octavio Ianni.
O terrorismo de Estado nada mais seria do que uma das formas possíveis de dispor da
estratégia do terror, com algumas particularidades que são atinentes ao poderio e alcance do
poder estatal.
O próprio Ianni declarará em sua Sociologia do terrorismo: “o terrorismo é apenas
uma técnica de violência, assustadora, espetacular, mortífera, mas apenas uma técnica de
violência. Nunca o terrorismo esgota-se em si”. Vê-se o reforço no sentido de abordar o
terrorismo como um meio.
Com efeito, publicações como o já citado Houaiss (“regime de violência instituído por
um governo”, em uma terceira acepção) e o Michaelis – Moderno Dicionário da Língua
Portuguesa (“sistema governamental que impõe, por meio de terror, os processos
administrativos sem respeito aos direitos e às regalias dos cidadãos”, primeira acepção) já
registram significados que se conectam ao conceito de terrorismo de Estado.
Luigi Bonanate, autor do texto do verbete “Terrorismo político” no Dicionário de
Política, também se refere ao terrorismo a partir de um ponto de vista técnico-estratégico.
Bonanate cita, em particular, casos de atos terroristas como estratégia, muitas vezes, de
“despertar” a consciência popular com vistas a levar a cabo uma revolução, como no caso
do assassinato do czar russo Alexandre II, em 1881.
O autor também aborda o caráter punitivo e extremista da estratégia: os atos
terroristas têm, em primeiro lugar, o papel de “‘vingar’as vítimas do terror exercido pela
autoridade”, ou seja, o terrorismo enquanto estratégia busca, além de uma mudança política
de paradigmas, punir o adversário pelo que considera injusto ou imoral.
Por fim, Bonanate propõe uma possível e polêmica distinção entre terrorismo
revolucionário e contra-revolucionário: o primeiro seria feito a favor das massas menos
favorecidas, de forma dirigida a certos elementos de um grupo opressor; e o segundo teria
como diferencial o aspecto indiscriminado das ações (casos de explosões recentes de
homens-bomba, como temos visto nos noticiários).
De toda forma, o significado de terrorismo como estratégia parece-nos impor
limitações evidentes, embora nem sempre tão claras: por “terrorismo” denomina-se apenas
a estratégia com as características discutidas acima; e, por “terrorista”, designa-se apenas o
ato em si ou a pessoa que dele toma parte enquanto praticante ou mentor direto.
Um grupo ou seu integrante ordinário não poderia ser corretamente chamado de
“terrorista”, porquanto o terrorismo é apenas uma das estratégias à disposição e, com efeito,
muitos dos grupos correntemente denominados “terroristas” fazem uso de outras estratégias
para a consecução de seus objetivos, que incluem interferências de cunho social e
humanitário e instituição de partidos políticos regulares.
Quando Sandra Cohen, editora de Internacional do Globo, diz que o jornal usa o
termo “terrorista” para se referir a atentados ou determinadas ações realizadas por grupos
palestinos contra a população civil israelense, é este significado técnico-estratégico que está
evocando.
O terrorismo enquanto fenômeno político (“Folha de S. Paulo”)
O segundo significado para “terrorismo” e “terrorista” emerge do primeiro, mas
possui algumas particularidades que impedem que ambos os termos sejam amplamente
utilizados para se referirem a um número muito variado de ações violentas, mesmo que
estas sejam dotadas do elemento terror.
A nosso ver, é a abordagem de Suzana Singer, secretária de Redação da Folha,
quando diz que os atos praticados por Israel equivalem aos adotados por grupos terroristas,
mas o termo “terrorista” não pode ser usado para se referir a Estados.
Esta abordagem considera “terrorismo” como uma referência a um fenômeno típico
da arena sociopolítica do século XX e tem suas raízes mais profundas na Teoria Política,
que modernamente define o poder político como monopólio da violência ou força.
Nas fontes por nós consultadas, o maior expoente dessa acepção é o já citado Luigi
Bonanate, um dos autores do Dicionário de Política, que, no verbete “terrorismo político”,
diz o seguinte: “como terror, entende-se, de fato, um tipo de regime particular, ou melhor,
o instrumento a que um governo recorre para manter-se no poder. [...] O recurso ao terror
por parte de quem já detém o poder dentro do Estado [porém] não pode ser arrolado entre
as formas de Terrorismo político, porque este se qualifica, ao contrário, como o
instrumento ao qual recorrem determinados grupos para derrubar um governo acusado de
manter-se por meio do terror (grifos nossos)”.
Observa-se que o autor defende uma distinção entre os termos “terror” e “terrorismo”,
entendendo “terror” como um regime imposto por um governo para perpetuar seu poder. Já
o “terrorismo”, ou Terrorismo político, por sua vez, seria uma forma de resistência, uma
resposta a esse “governo do terror”, com a função – e aqui reaparece o caráter punitivo e o
enfoque estratégico arrolado acima – de fazê-lo experimentar de “seu próprio veneno” e,
por meio disso, alcançar o objetivo proposto pelo grupo de resistência, que passa
necessariamente pela tomada de poder ou cessação de hostilidade por parte do governo.
Portanto, nota-se que, embora Bonanate também trate o terrorismo em termos
estratégicos, a palavra não pode ser utilizada indiscriminadamente, mas necessita de um
contexto social específico para ser empregada.
Extrapolando o pensamento do autor, encontramos a Teoria Política pelo seguinte
motivo: se o poder político é o monopólio da força ou da violência, quem o detém já se
encontra potencialmente investido de um tipo de terror, posto que esse poder, a princípio,
legitima os atos violentos.
O que Bonanate chama de terror, portanto, é a extrapolação do poder político, quando
quem o detém excede as atribuições inerentes ao próprio poder, o que resulta em um regime
excessivamente cruel, imoral ou injusto.
A contrapartida é o terrorismo – terror-ismo, significando a partícula final um
movimento social, político, ideológico ou religioso (cf. Dicionário Houaiss) –, que, como
movimento, busca punir o governo e, ao mesmo tempo, faz uso do instrumento do terror
para a consecução de seus objetivos.
Os termos “terrorista” e “terrorismo” ganham, portanto, outra significação, e passam a
poder designar os grupos em si, enquanto movimentos de diferentes matizes que recorrem a
uma determinada estratégia terrorista. Entretanto, para ser denominado “terrorista”, o grupo
tem de ser analisado sob as condições sociais em que se situa.
O Estado não pode ser chamado de “terrorista”, mesmo que faça uso do “terror”, na
acepção dada por Bonanate, porque um Estado não é um movimento sociopolítico (ou
religioso, ou ideológico) e porque o uso do “terror estatal” não se constitui em uma
estratégia de revide ou resistência que emerge de condições sociais específicas, mas é
inerente ao exercício do próprio poder político, podendo ser aplicado ou não por quem o
detém.
É interessante observar que, nesse sentido, o terrorismo sugere a existência ou
prevalência de uma guerra assimétrica no sentido dado por Francisco Carlos Teixeira da
Silva na Enciclopédia de Guerras e Revoluções do Século XX: “formas de enfrentamento
não-convencionais visando confrontar um poder militar, técnico e econômico superior”, o
que parece evidente, já que o outro lado tem a seu favor todo o peso e eficiência da
máquina estatal.
Dessa forma, quando Suzana Singer diz que as ações israelenses equivalem (mas não
são iguais) aos atos terroristas, quer dizer que as estratégias são semelhantes, mas apenas
aos grupos isolados podem ser aplicados os conceitos de “terrorismo” e “terrorista”, porque
esses conceitos devem ser usados em referência a quem está do “lado mais fraco” (contra o
Estado), pelos motivos elencados acima. Aliás, muitas vezes, nesse sentido, os atos
terroristas surgem precisamente porque o grupo não tem outra forma ou alternativa de
combate.
Embora a definição aqui apresentada pareça muito local, ela também pode ser
aplicada ao terrorismo internacional, que mantém em relação ao terrorismo clássico (local)
a diferença da emergência do demonstrativo fora das fronteiras do Estado. Aqui, a
estratégia, como diria o Manual da Folha, é também de propaganda: chamar a atenção das
demais nações para o problema local, envolvendo-as no conflito.
A abordagem do terrorismo como fenômeno político tem a vantagem de analisar um
dado histórico muito próprio do século XX e de poder estender o conceito para além dos
limites impostos pelo enfoque técnico-estratégico, mas peca pelo risco de se converter em
instrumento de pressão ideológica pelos motivos que elencaremos e por não fornecer um
conceito alternativo pelo qual designaríamos, por exemplo, o terrorismo de Estado.
Ademais, é uma acepção que naturalmente exime qualquer governo da acusação,
muitas vezes justa, de “terrorista” (a inclusão dos governos no Manual da Folha é uma
tentativa de enquadrar o terrorismo de Estado – um pouco fora de lugar, parece-nos) e
torna-se muito imprecisa em certos momentos.
Com efeito, embora haja uma separação conceitual entre Estado e governo, na prática,
especialmente durante os conflitos, é difícil estabelecer os limites. Quem ataca os
palestinos? O Estado israelense ou o governo Ariel Sharon? E como classificar um Estado
como o nazista, que como diz Michel Foucault, promoveu a violência não apenas na
perseguição a judeus, homossexuais, ciganos, comunistas, etc., mas também como forma de
expor sua própria população “ariana” ao perigo, como forma purificação? Por fim, como
entender ou classificar os exaustivos bombardeios norte-americanos e britânicos na zona de
exclusão aérea antes da II Guerra no Iraque aterrorizando a população?
O terrorismo enquanto (des)qualificação (“O Estado de S. Paulo”)
O terceiro significado para “terrorismo” e “terrorista” é recente. Mistura elementos do
primeiro e do segundo conceito e refere-se a um uso muito particular que tomou vulto com
a Guerra contra o Terrorismo promovida pelos Estados Unidos no pós-11 de setembro.
Lançada pelo presidente George W. Bush, a tal guerra, conceitualmente, primou pelo
encolhimento do espaço internacional de negociação “face à ameaça de confundir
discordância (de métodos, alvos, oportunidades, etc.) com apoio ao terrorismo” (SILVA,
2004).
O terrorismo ganhou, portanto, ao status de “palavra maldita por excelência”, status
este alimentado pela dimensão algo religiosa alimentada por Bush (com expressões como
“eixo do mal”), e passou a ser utilizado como um rótulo empregado por um dos lados
envolvidos em um conflito para desqualificar o outro.
Com efeito, chamar o outro de “terrorista” significou desqualificá-lo aos olhos da
opinião pública internacional, ainda chocada com a magnitude do atentado no World Trade
Center e, em retrospecto, revoltada com os atos terroristas de qualquer natureza,
especialmente em países como Espanha e Inglaterra, que já conviviam muito proximamente
com o problema.
Os atentados de 11 de setembro foram, sem dúvida, terroristas (usando-se a acepção
técnico-estratégica do termo), mas o conceito logo se banalizou e passou a ser utilizado por
governos interessados em desmoralizar adversários internos, mesmo que estes não fossem
terroristas, em nenhuma das acepções explicitadas acima. Isso ocorreu, por exemplo, com a
Colômbia em relação às FARCs e com a Rússia em relação aos separatistas tchetchenos,
pelo menos até os eventos de Beslan, na Ossétia do Norte.
Aqui se explica o temor d’O Estado de S. Paulo, quando, nas palavras do editor
Eduardo Nogueira, afirma que “não utiliza o termo ‘terrorista’ porque ele se tornou um
rótulo, uma caracterização negativa dada a um dos lados de um conflito a outro”.
Embora a carga ideológica seja mais ou menos inerente a qualquer dos usos de
“terrorismo” e “terrorista” apresentados neste trabalho, nesta terceira acepção, ela aparece
em níveis tão altos que se pode chegar ao ponto de não termos (mais) como definir o que é
terrorismo e terrorista e o que não é.
Conclusão
Não nos parece adequado instituir, de antemão, qual seria o uso “correto” dos termos
aqui analisados, pois, como tudo o mais na história da humanidade, isso é definido pelo
jogo de forças sociais e de interesses econômicos e sociopolíticos.
Entretanto, a fim de exercermos um jornalismo responsável, pensamos que convém
aos veículos de comunicação informar previamente a seus leitores, ouvintes e
telespectadores o porquê de usar ou não usar um termo e, no primeiro caso, qual uso está
em questão. Como diria Marcelo Beraba, essa discussão não termina aqui.
Aporte empírico
Entrevista com Luiz Carlos Ramos, repórter especial d’O Estado de São Paulo e
professor da PUC-SP. Testemunhou e fez a cobertura dos atentados de 11 de março de
2004 em Madri, Espanha. A entrevista foi feita no dia 23/11/2004. Os grifos são nossos.
João Marinho: Luiz, eu gostaria que você me contasse o que viu em Madri. Em que
região da cidade estava, se viu as explosões ou chegou logo depois...
Luiz Carlos Ramos: Eu cheguei à estação Atocha pouco depois das explosões. Na
verdade, houve uma coincidência. Eu estava em Madri para fazer uma reportagem sobre
turismo e embarcaria para Barcelona naquela estação duas horas após do horário em que
ocorreram as explosões, por volta das 7h45 da manhã.
Então, eu estava no metrô, indo para estação, quando soube que havia um problema. Mudei
de metrô e cheguei por trás da estação, a tempo de ver todo aquele movimento de tentativa
de socorrer os feridos, tudo muito traumático.
Liguei para o meu jornal, e o jornal me pediu para fazer a cobertura. Fiquei na cidade
durante mais uma semana para fazer a cobertura, não só dos desdobramentos do ato
terrorista, mas também da eleição espanhola, que foi apenas quatro dias depois.
JM: Os atentados foram definidos como terroristas. A princípio, o governo acusou o
grupo separatista basco e depois se descobriu que era uma organização ligada à Al-
Qaeda. Na sua opinião, ou na sua definição, o que vem a ser um grupo terrorista?
LCR: É uma boa pergunta. O pessoal costuma dizer que “terrorista”, “grupo terrorista”,
é aquele que não é ligado a governo, ou seja, são extremistas que resolvem usar a violência
em defesa de uma determinada tese, de uma ideologia, de um princípio, mas eu sou um
pouco radical com relação a isso.
Penso que terroristas também são determinados chefes de governo. Eu considero George
W. Bush um verdadeiro terrorista, a partir do momento em que ele ataca países livres, sob
alegação de que esse país ou aquele está sob domínio de uma ditadura.
Se ele começar a atacar todos os países dominados por ditadura de direita ou de esquerda,
atacará pelo menos 120 países. Então, eu considero que não apenas ele, mas também
aqueles que apoiaram a Guerra no Iraque, como Berlusconi na Itália, José María Aznar na
Espanha e Tony Blair na Inglaterra, são também terroristas, “terroristas oficiais”. Portanto,
essa é uma questão em definição.
Em relação ao que ocorreu na Espanha, simplesmente, no início, parecia que era algo da
ETA. Seria, portanto, algo de origem interna, mas eu, particularmente, logo percebi que o
atentado tinha o estilo da Al-Qaeda.
Com a detenção de seis árabes, dentre os quais cinco marroquinos, foi possível perceber
que havia essa ligação e que, portanto, se tratava de uma ação contra o primeiro-ministro
Aznar, que havia jogado a Espanha na Guerra contra o Iraque sem consultar a população.
Foi uma decisão unilateral e ele, inclusive, telefonou para todos os principais jornais
espanhóis, garantindo que se tratava de uma ação da ETA. Estava, portanto, interessado que
fosse isso, porque, assim, o candidato dele acabaria ganhando as eleições.
Acontece que, um pouco antes, os terroristas árabes foram detidos e ficou bastante claro
que se tratava de algo da Al-Qaeda. Venceu o candidato de oposição, José Luis Rodriguez
Zapatero.
JM: A respeito ainda da definição de terrorismo. Você colocou que Bush, Tony Blair e
outros seriam “terroristas oficiais”. O que leva você a definir esses governantes como
terroristas? Seria o fato de ir à guerra ou existe uma característica específica que
permite fazer alguma uma diferenciação?
LCR: Nem sempre quando um governante resolve declarar guerra a um país ele é
terrorista. Ele é terrorista quando não deixa bastante claro por que fez isso.
No caso do Bush, ele vinha com a alegação de que o Iraque tinha armas de destruição em
massa, mas, com o tempo, ficou comprovado que o Iraque não tinha essas armas.
Bush foi lá, acabou com o país, conseguiu prender o ditador Saddam Hussein, mas a
alegação dele era furada.
Então, ele pode resolver atacar o Brasil sob alegação de que não estamos cuidando da
Amazônia. Pode resolver atacar a Argentina sob a alegação de que o presidente pretende
novamente invadir as ilhas Falkland ou Malvinas e assim por diante.
Isso, sob minha óptica, é completamente errado. Agora, a gente nota que, no caso do
terrorismo internacional, um ingrediente muito forte é a polêmica em torno de Israel e dos
palestinos.
Israel é um Estado judeu desde 1948, aprovado pela ONU, e o grande erro por parte dos
britânicos e da própria ONU foi não estabelecer na mesma época também um Estado
palestino, já que naquele período a Palestina era uma colônia britânica.
Grande parte do terrorismo que ocorre, inclusive nas Olimpíadas de 72, aquele ataque à
delegação de Israel, são palestinos já clamando por terra, clamando por um Estado. Está na
hora de o mundo acordar – e o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, que eu também
considero um terrorista, poderia perfeitamente abrir mão de determinadas manias e
conceder, afinal, um determinado espaço para os palestinos.
JM: Nesse caso, o terrorismo estaria ligado à falta de um “ingrediente concreto” para
ir à guerra, ou seja, é algo de fundo ideológico, não existe algo “palpável”, há uma
ideologia motivando os ataques...
LCR: No caso do George W. Bush, é uma ideologia. Ele “herdou” aquela guerra de 91 do
pai dele, mas há também interesses econômicos por causa do petróleo que há no Iraque,
isso é evidente.
A questão, quando a gente analisa o Oriente Médio, é que caímos num saco sem fundo. Um
grupo árabe resolve praticar um ato terrorista sob a alegação de que se trata de uma reação
a determinada atitude de Israel. Israel resolve atacar, alegando que se trata de uma reação a
um ataque árabe – e não termina nunca.
Quando houve aquele atentado do dia 11 de setembro de 2001, claramente havia uma
postura do terrorismo árabe contra aquela situação de Bush apoiando a política de Israel.
Depois, os Estados Unidos resolveram reagir, atacando o Afeganistão, mais tarde o Iraque,
e não termina nunca.
Do jeito que a coisa está, os Estados Unidos não vão conseguir acabar com o terrorismo,
porque nem conseguiram encontrar o Osama bin Laden, que acaba rindo dos americanos,
aparecendo toda hora na televisão para dizer que vai atacar novamente.
JM: Quando um Estado que entra em guerra não é um Estado terrorista?
LCR: Eu citaria um exemplo o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial. Os EUA
resolveram entrar na guerra por terem sido atacados pelos japoneses. Nesse caso, foi uma
coisa legítima, não existe terrorismo.
Terrorismo foi o que Hitler fez. Hitler é tido como grande terrorista, Stálin também. Nós
notamos que determinados governantes de esquerda e de direita agem como verdadeiros
terroristas, enquanto outros são estadistas e recorrem à violência apenas em último caso.
Essa é a ressalva que eu faço. A violência não deve ser afastada. Em determinados
momentos, ela tem de existir, mas, eu insisto, apenas em último caso.
O que se viu na questão do Iraque com a adesão de inúmeros países à causa americana foi
uma covardia, gente que quis fazer média com os Estados Unidos.
Até hoje, de fato, eu não entendo a postura do Tony Blair, do Berlusconi... Afinal, eles
lideram países importantes. Como é que resolvem lançar esses países numa guerra?
Acabaram tendo uma resposta, no caso da Espanha, com a derrota do Aznar. Na época do
terrorismo na Espanha, dizia-se que o terrorismo faria o espanhol se acovardar e votar
contra o primeiro-ministro. Não foi isso, foi uma decisão política, ou seja, uma resposta
àquele que lançou o país numa guerra e foi mentiroso ao tentar esclarecer o terrorismo.
JM: Eu gostaria de saber se, na sua opinião, o ETA, que agora tem um partido, um
braço político, saiu lucrando com o que aconteceu indiretamente.
LCR: O que aconteceu mais recentemente é que houve um enfraquecimento da ETA. O
terrorismo na Espanha está sendo muito questionado.
No norte da Espanha, o País Basco é bastante desenvolvido, e a maioria do povo, na
verdade, não quer separar.
Há um grupo separatista pequeno, extremista, mas uma boa parte acabou sendo presa e
outros foram mudando de posição.
Então, houve realmente um enfraquecimento no sentido de perceber que não é o momento
de separar o País Basco, mesmo porque ele tem autonomia na Espanha, da mesma maneira
que a Catalunha e a Galícia. Sob esse aspecto, até que melhorou bastante a situação
espanhola.
JM: Uma última pergunta, relacionada aos tratamentos dispensados pelos jornais.
Recentemente, houve uma polêmica, na Folha de S. Paulo, quando uma reportagem
tratou o grupo Brigadas dos Mártires de Al Aaqsa como terroristas. Na época, o
ombudsman escreveu um artigo a respeito, recorrendo inclusive ao seu jornal, O
Estado, que informou que a posição dele é não usar o termo “terrorista” e tratar os
grupos como “extremistas”, enquanto a secretária de redação da Folha informou que
terrorista é quem não está ligado a um Estado. Como você vê isso?
LCR: Acho que sempre há paixão nessas histórias. Nós somos um país que conta com a
participação de muitos imigrantes – japoneses, espanhóis, alemães e também árabes,
libaneses, sírios e imigrantes judeus.
Então, muitas dessas reclamações contra os jornais são frutos de paixões que se vêem
feridas. A questão da definição é muitas vezes uma questão semântica, mas muitas vezes
questão de forçar a barra.
Eu, como brasileiro, acho que devemos tentar uma certa neutralidade nisso tudo, ou seja,
nós não somos nem do Estado de Israel e nem da Palestina.
Torcemos é para que haja paz naquela região e, a partir do momento em que há paz lá,
haverá paz em boa parte do mundo.
Nesse tipo de discussão sobre quem é ou não é terrorista tem gente que acaba forçando a
barra, ou pró-Israel ou pró-árabe. Eu não forço a barra para nenhum lado.
Bibliografia
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