O TEMPO DAS REFORMAS NO CRISTIANISMO
As reformas, (e podemos entender este termo como o movimento iniciado no século XVI como
contestação à autoridade do papa de Roma e em certas modificações da doutrina católica) tiveram
antecedentes que as tornaram possíveis ou facilitaram a adesão das pessoas às novas doutrinas.
Antes das reformas, bem como durante e algum tempo depois a Igreja passava por períodos de crise,
para os quais contribuiu o desprestigio do papado, resultado das lutas entre o poder temporal e o
poder espiritual.
A Querela das Investiduras, ocorreu durante os séculos XI e XII, séculos em que os Papa de muitos
modos procuraram proibir a reis e principies a investidura de Bispos. Esta questão só foi findada em
1122 com a concordata de Worms, com a qual se separava o podre espiritual do temporal, em
questões religiosas os Bispos deviam obediência a Roma, em questões internas deviam obediência
ao Rei/Imperador.
O Cisma do Ocidente desencadeado no século XIV pelo rei de França, Filipe IV, que alargou os
impostos ao clero, o que levou o Papa Bonifácio VIII a excomunga-lo. A ousadia de Filipe IV foi tal
que influenciou a escola de um novo Papa, o arcebispo de Bordéus, Clemente V, que deixou Roma e
se veio instalar em Avinhão. Com a morte de Clemente V outro Papa foi investido, Gregório XI, de
naturalidade italiana, que se mudou para Roma, facto que desagradou a muitos cardeais que
investiram um outro Papa para ficar a residir em Avinhão. De 1378 a 1417 a cristandade estava
dividida pela obediência a dois Papas, questão só resolvida com o concilio de Constança.
O clero também deixara de ser um modelo de virtudes e tinha atitudes que em muito escandalizavam
os fiéis. Papas como Alexandre VI, sem qualquer tipo de moralidade e com filhos, ou como Leão X
que não dispensava o luxo e tinha uma vida como um príncipe laico e não como um Papa. Também a
vida luxuosa dos Bispos era uma afronta para os pobres acrescido ainda do facto de não morarem
nas suas paróquias. Também o clero regular não era de modo nenhum um modelo de virtudes e a sua
falta de preparação teológica não lhes permitia discernir do verdadeiro e do erro.
Todas as infelicidades que infligiram a humanidade nos séculos XIV e XV, apresentavam-se como
um castigo divino para os erros da humanidade. Chegou-se até a espalhar a ideia de que depois do
Cisma do Ocidente nenhuma alma mais entrara no paraíso. Sentido a Igreja longe dos crentes este
procuraram abrigo na superstição e a feitiçaria ganhou muitos adeptos e as proposições de flagelos
abundavam; outros optaram pelas contestação religiosa, as heresias propagaram-se e os humanistas
fizeram ouvir a sua voz.
Posto tudo isto era evidente que no século XVI haveriam de surgir reformas que suprimissem os
erros dos ministros da Igreja e apaziguassem as almas inquietas dos fiéis.
Foi Martinho Lutero (1483-1546), aquele que deu o primeiro passo. Lutero era um monge Agostinho
alemão mestre em filosofia e doutor em teologia.
Em 1517, Lutero afixa na porta da Catedral de Wittenberg as suas "95 teses contra as Indulgências"
(em Latim), é este o marco do inicio das reformas protestantes. [As indulgências consistiam em
graças (perdão dos pecados) concedidas pelo Papa Leão X aos cristãos que contribuíssem com
donativos para a construção da Catedral de S. Pedro, no Vaticano.] .
Contando com o apoio da burguesia e com fracções da nobreza, Lutero vai empreender uma
autêntica revolução no Cristianismo. As 95 teses eram acusações que atingiam dogmas da Igreja,
nomeadamente que a salvação se atinge pela fé e não pelas boas obras. Só depois de 1520, data em
que foi excomungado, Lutero publica três livros, a base da sua doutrina. "Manifesto à Nobreza
Alemã"; "Cativeiro da Babilónia da Igreja"; "A Liberdade do Cristão".
Das muitas ideias que compunham a doutrina luterana alguma merecem destaque:
>> Reduziu os sacramentos de sete para dois, alegando que apenas o Baptismo e a ceia (comunhão
ou eucaristia) eram os únicos verdadeiros porque sinais externos de uma graça instituída por Cristo.
Os restantes eram falsos, porque prescritos pelo papado uma instituição humana e não divina. Pelo
baptismo todos os crentes são iguais, pelo que todos são padres embora nem todos possam exercer
tais ofícios, fica entregue a que cada congregação eleja um cidadão devoto para seu sacerdote.
Pertencem então todos ao sacerdócio (sacerdócio universal) embora desempenhem funções
diferentes. Em relação à ceia, Lutero rejeitava a transubstanciação, o milagre de transformar o pão e
vinho em corpo e sangue de Cristo, respectivamente e opunha-lhe a consubstanciação, em que na
ceia o corpo e sangue de Cristo coexistem com o vinho e pão.
>> A tradução da Bíblia e a sua livre interpretação foram também uma das suas reformas. Para
Lutero a Bíblia era a única fonte de fé e de autoridade doutrinal, no entanto não conferia ao Papa a
autoridade quanto à interpretação das escrituras. Rejeitou o culta da Virgem e dos Santos e o valor
infalível dos concílios.
>> A justificação pela fé, ou seja, um homem pode ser considerado justo só e apenas pela fé, é pelo
acto de crer, pela fé, que se chega à santificação. Só a fé torna o homem justo, não sendo as boas
obras suficientes para apagar os pecados e garantir a salvação.
>> A predestinação. A fé para Lutero é uma questão de eleição e de graça divina, cabe a Deus a
escola, o destino de se ser crente ou não, posto isto, as pessoas já nasciam com o destino de serem
crentes, partilharem a graça da fé e serem salvas, independentemente das boas obras.
>> O servo-arbítrio que se opunha ao livre-arbítrio defendido pelos católicos e por grande parte dos
humanistas, como o caso de Erasmo, era explicado pelo facto de o pecado original ter destruído a
vontade e a inteligência dos homens.
Para Lutero a pratica cristã assentava na relação pessoal do crente com Deus e não pelo
comprometimento com regras, leis e ritos estabelecidos pelo homem. a vida religiosa era o absoluto
e incondicional amor fraternal a Deus a que se deveria expressar uma fé profunda.
A difusão da reforma luterana beneficiou de uma intensa e eficaz propaganda, através dos meios de
difusão existentes na época, caricaturas, editais, panfletos, sermões e livros. Em 1521 Lutero dá
inicio à tradução da Bíblia para alemão.
A difusão da reforma no norte e centro da Alemanha foi extremamente rápida em boa parte devido à
nobreza. Os príncipes que adoptaram a reforma luterana tinham-se apropriado dos bens da igreja e
como tal tinham manifesto interesse no êxito do movimento de forma a que pudessem ficar com os
bens secularizados. Por outro lado como Lutero defendia a unificação da autoridade religiosa com a
autoridade civil, o luteranismo era para os príncipes alemães uma forma de emancipação do
imperador.
Até aos fins do século XVI a expansão do luteranismo no norte da Europa foi uma realidade.
Em Zurique um padre humanista, Ulrico Zuíglio (1484-1531) empreendeu uma reforma semelhante
à de Lutero: defendeu a graça da fé concebida por Deus aos predestinados, a livre interpretação da
Bíblia, negou a autoridade da Igreja, mas ao contrário de Lutero contestou a presença de Cristo na
Eucaristia e a existência de qualquer tipo de sacramentos, para ele eram meras cerimonias.
Em 1536, João Calvino (1509-1564) um francês estudioso de humanidades, direito e Teologia,
publicou em latim "Da Instituição da Religião Cristã", quando exilado em Genebra. Esta obra
contém o essencial do calvinismo.
Tal como Lutero defendia a justificação pela fé, o servo-arbítrio, o sacerdócio universal e a
autoridade exclusiva da Bíblia. Há no entanto, como não poderia deixar de ser, algumas alterações,
fruto do seu espirito lógico e racional. Para Calvino a predestinação era absoluta. Se alguma vez se
tivesse tido fé, e como a graça não se perde uma vez adquirida a salvação estava garantida; já Lutero
dizia que se uma pessoa perdesse a fé a sua salvação poderia estar em risco.
Calvino não admitia nenhum mediador entre Deus e os homens, senão Cristo, proibia assim o culto
dos Santos e da Virgem. A Bíblia era a única fonte de fé reconhecida, mas só a interpretação do
Evangelho por Calvino é que deveria ser aceite.
No que respeita aos sacramentos apenas reconhecia dois, o Baptismo e a Eucaristia, mas nesta ultima
a presença de cristo era meramente espiritual.
Também no calvinismo o poder religioso e o poder civil devem compartilhar a mesma fonte com a
diferença Calvino era o Estado que devia ser absorvido pela Igreja. Assim Genebra (a "Roma do
Calvinismo" como também era conhecida) tornou-se uma sociedade teocrática, dirigida por uma
assembleia eclesiástica através da qual Calvino exercia uma perseguição intolerante quer a católicos
quer a outros protestantes. Pelos ideais do calvinismo, um calvinista deveria sentir-se no número dos
eleitos, dos predestinados e só esses faziam parte da Igreja.
Apoiado também pela nobreza que beneficiava dos bens da igreja o calvinismo propagou-se pela
Escócia, Suíça, Países Baixos, etc..
Na medida em que abençoava os lucros e os bens provenientes do comercio e de actividades
especulativas, o calvinismo foi adequado à expansão do capitalismo, o lucro capitalista é mesmo um
sinal de eleição divina.
O Anglicanismo surge na Inglaterra, pela pessoa de Henrique VIII, considerado por Leão X como
"Defensor da Fé" por o Papa Clemente VII se recusar a anular o casamento do monarca com
Catarina de Aragão para este se poder casar com Ana Bolena, tal acção levou a que Henrique VIII se
declara-se como chefe da Igreja Inglesa e rompesse com o papado. 1534 o Parlamento Inglês aprova
o Acto de Supremacia, que cortaria definitivamente com os vínculos a Roma. Para conquistar o
apoia da nobreza procede à venda dos terrenos da igreja a preço muito baixos, de forma que a
nobreza apoia o seu monarca e adopta o anglicanismo.
Durante o reinado não houve grandes alterações no que diz respeito aos dogmas católicos, já que a
ruptura não se deu por motivos ideológicos, essas alterações dogmáticas surgem com Eduardo VI,
filho de Henrique VIII, que em 1549 impôs o "Livro de Orações Comuns" obrigatoriamente escrito
em Inglês e em 1553 publicou a "Lei dos 42 Artigos" em que suprimia a missa e autorizava o
casamento dos padres.
Entre 1553 e 1558 a rainha Maria Tudor tenta, mas sem sucesso, fazer voltar a Inglaterra o
catolicismo.
No ano de 1558 com a subida ao trono de Isabel I estabelece-se definitivamente a reforma anglicana
pela "Lei dos 39 Artigos" (1563) o anglicanismo era assim uma comunhão de catolicismo na forma
(hierarquia, latim e liturgia) e de calvinismo no conteúdo (base dogmática).
Também a igreja teve uma resposta a todos estes acontecimentos que ficou conhecida por contra-
reforma. Esta expressão designa a actividade da Igreja e das várias nações católicas no sentido de
proceder a uma reformatio in capite et in membris ("reforma na cabeça e nos membros") em toda a
Cristandade, tornada urgente no período entre os concílios de Constança (1414-1418) e de Trento
(1545-1563). O grande objectivo era a defesa dos dogmas contestados por Lutero, da autoridade
papal e da unidade dos católicos, contra a Reforma Protestante iniciada por aquele antigo frade
Agostinho em 1517, que contestara, em termos globais, a indisciplina, o luxo e a ignorância que
imperavam no seio da hierarquia da Igreja, representante da Cristandade.
O Concílio de Trento é o maior esforço de reacção da Igreja, tendendo a um reforço da mesma e ao
lançamento de bases sólidas para a sua reforma, fixando e clarificando os dogmas atacados por
Lutero e Calvino. Redefiniu-se a mensagem de salvação (pela fé e pelas obras reafirmando o livre-
arbítrio) e a doutrina sacramental da Igreja (os sete sacramentos, o sacrifício da Missa e a existência
do purgatório), bem como várias doutrinas, regras disciplinares (formação do clero, obrigação de
residência dos bispos nas dioceses, celibato, proibição de venda de cargos eclesiásticos e de
indulgências), as fontes de Fé ( a Bíblia, na versao oficial a Vulgata, e também a tradição da Igreja) e
pastorais: não há ruptura ou novidade, antes reforma jurídica. Deste concilio saiu ainda reforçada a
autoridade do Papa.
Para além de Trento, existiram outros propulsores da reforma da Igreja Católica. Os papas, por
exemplo, continuarão o projecto delineado naquele concílio, cumprindo-os e aplicando-os, agora
com autoridade reforçada. Paulo III (1534-1549) convocou-o, depois de ter reorganizado a
Inquisição (1542) e criado a Congregação do Índex (censura de livros e ideias perigosas para a
Igreja) - instituições que exercerão um papel relevante neste período, organizando uma autêntica
caça às bruxas e aos heréticos -, e aprovou o projecto de Sto. Inácio de Loyola para a criação da
Companhia de Jesus (1540), O lema da nova congregação é "defender e proteger a fé", visando-se o
progresso espiritual dos fiéis. Para isso acentua-se o apostolado sacerdotal, caracterizado por uma
grande mobilidade e capacidade de adaptação dos seus membros às contingências do mundo
exterior. Para além dos três votos solenes (pobreza, castidade e obediência), alguns jesuítas
pronunciam um quarto, o de obediência especial ao papa como chefe da Igreja e vigário de Cristo.
Com uma hierarquia centralizadora, a Ordem é governada por um prepósito geral (cargo máximo
dos jesuítas), eleito pela Congregação Geral, única e plena autoridade legislativa. A estrutura da
Companhia é composta por noviços, coadjutores espirituais e professos.
A tarefa missionária dos Jesuítas é deveras importante, tal como o combate à Reforma Protestante e
a reforma e instrução do clero. Várias missões são empreendidas pela Companhia em toda a
América, especialmente nas colónias espanholas, no Brasil, e no Canadá francês (onde sucede o
martírio de S. João Brébeuf em 1649). Na América Latina, face à brutalidade dos colonos sobre os
Índios e à constante mobilidade das populações, os Jesuítas concebem as chamadas reduções, áreas
onde os nativos eram agrupados sem qualquer sujeição à apropriação por parte dos colonos. Os
Jesuítas davam-lhes formação religiosa e instalavam-nos em aldeias geridas por um sistema
comunitário no qual os Índios participavam.
As congregações de clérigos regulares que serão um dos instrumentos mais importantes para a
contra-reforma, conseguindo recatolicizar regiões ganhas pelo Protestantismo.
Outros papas continuarão o esforço de Paulo III, instituindo seminários para formação do clero.
Paulo IV (1555-1559), fanático, e Pio V (1566-1572) deram impulsos decisivos ao projecto
tridentino.
O fervor religioso mantém-se, ganhando uma dimensão cultural maior. Pretende-se uma hierarquia
culta e impregnada de espírito evangélico, capaz de lutar contra as heresias. A criação de uma série
de novas ordens e congregações religiosas atesta o desejo de reforma latente no clero. Aliás, a
reforma católica teve os seus maiores frutos nas ordens religiosas, gravemente abaladas pelo
movimento protestante. As antigas ordens reformaram-se profundamente; outras surgem após
Trento, imbuídas de objectivos de orientação espiritual do povo, educação do clero, ensino e
protecção dos pobres e assistência aos enfermos, para além da pregação e das missões no estrangeiro
(colónias).
O clero reanima-se com novas formas de devoção, suscitando grande adesão popular e seguindo
exemplos de prelados notáveis, em fervor e santidade, como o célebre arcebispo de Milão, S. Carlos
Borromeu (1538-1584), ou o Bispo de Genebra, S. Francisco de Sales (1567-1622). Para além dos
bispos, houve ainda outros heróis de santidade. Os santos autênticos tinham de ser homens
autênticos, o que os tornava modelos de conduta e de vida, exemplos aos olhos de uma Cristandade
em renovação. O século XVI contou inúmeros, muitos deles fundadores de institutos religiosos,
como S. Filipe Neri, S. João da Cruz, Sta. Teresa de Ávila, Sto. Inácio de Loyola, S. João de Deus
(português) e S. Vicente de Paula.
Esta resposta da Igreja Católica mais não foi do que uma defesa e reacção contra o Protestantismo,
uma tentativa de o confrontar com uma instituição forte, disciplinada e em fase de purificação
espiritual, influenciada pelos humanistas.
João Simão, 2002
simaocc@portuglamail.pt