O valor formativo da educação geográfica
Frederico Valle
A geografia tem […] como objectivo fazer-nos compreender a organização dos homens
e das actividades na Terra, explicar as relações entre o meio e a sociedade, aplicar os
conhecimentos para aproveitar melhor e de forma sustentável estes espaços de vida.
Viagem à Geografia. Uma Geografia para o mundo, Uma Geografia para todos
(2009)
A Geografia é uma ciência que estuda os grupos humanos em sociedade. Integrando a
família das ciências sociais e humanas, embora na encruzilhada com as ciências
naturais, nela está sempre presente como objecto de investigação os problemas
sociais. O ensino da Geografia visa dotar o aluno de uma formação de base em
conhecimentos geográficos, em competências e capacidades de observação,
compreensão e interpretação do mundo que o rodeia. Promove no indivíduo a
sensibilidade para os problemas humanos e o desenvolvimento do espírito de
cidadania, particularmente territorial, esforço de incutir uma atitude geograficamente
observadora, reflexiva, problematizadora, autónoma, crítica e interventiva na
sociedade na procura de soluções, nunca perdendo de vista a perspectiva e dimensão
geográfica, nas suas diferentes escalas espaciais, dos problemas sociais presentes e
futuros. O futuro é imprevisível, mas é precisamente por ser imprevisível que merece
ser pensado (Roberts, M., 2011). Um estímulo ao pensar geográfico (Baily, A., Scariati,
R., Simões, J. M., 2009), se poderá definir como um lema para o ensino e transmissão
de valores geográficos.
A valorização da educação geográfica pode ser considerada em duas perspectivas
indissociáveis: o ensino de conteúdos inerentes à própria Geografia como forma de
conhecimento científico; e a relação destes conhecimentos de âmbito geográfico com
as outras disciplinas sociais e naturais. A formação geográfica centra-se, num primeiro
momento, na divulgação de conhecimentos factuais e descritivos que pretendem dar a
conhecer e compreender melhor o mundo em que vivemos, como a localização dos
lugares e a distribuição das sociedades humanas no território a diferentes escalas do
espaço geográfico. A Carta Internacional da Educação Geográfica (1992) assim o
sintetiza, objectivando a necessidade da formação geográfica incidir sobre o
conhecimento dos lugares, contextualizando-os num quadro geográfico amplo,
nacional e internacional, dos sistemas naturais e sócio-económicos mais importantes
da Terra e da diversidade cultural e civilizacional dos povos e sociedades que a
habitam. Porém, o conhecimento de base geográfico, só por si, não tem consequências
práticas. Numa segunda fase de valorização de conhecimentos do indivíduo, a
educação em Geografia procura sair do nível do concreto, o conhecimento do
território, para o abstracto, a compreensão dos diferentes modelos de organização
espacial e das relações, interacções e interdependências no território entre as diversas
sociedades humanas que o habitam desde a escala local à global. A Carta Internacional
da Educação Geográfica é determinante para a consagração da Geografia e dos seus
valores como factores de desenvolvimento da educação à escala internacional,
promovendo a compreensão e tolerância entre os povos, e da educação ambiental e
para o desenvolvimento, contribuindo para o conhecimento da realidade física da
Terra, dos seus recursos, do cultivo de um espírito e atitude de empreendimento
sustentável não comprometedor das gerações humanas futuras, e que permita um
desenvolvimento económico viável, territorial e socialmente justo.
Em suma, conhecer, compreender e explicar os fenómenos geográficos, e aplicar os
conhecimentos adquiridos. A formação geográfica procura concretizar estes
propósitos. A Geografia coloca as questões do ponto de vista das relações territoriais,
pensa o espaço onde se inserem as sociedades humanas, procura conhecer a
heterogeneidade das nações, raças e religiões, como estas se desenvolvem e se
organizam no espaço, e reflectir sobre os aspectos problemáticos inerentes. Esta é a
sua principal função social, assim educando e promovendo no indivíduo um espírito de
cidadania activa, de compreensão e sensibilização para a diversidade do mundo,
fundamentalmente contribuindo para o desenvolvimento de valores como o respeito,
a tolerância e a amizade, na partilha dos diferentes povos da humanidade deste
espaço terrestre comum onde os extremos estão cada vez mais próximos, e onde os
2
problemas, os desafios e as oportunidades de desenvolvimento urgem em ser
pensados a uma escala local, regional e nacional, mas cada vez mais global.
Bibliografia
BAILY, A.; SCARIATI, R.; SIMÔES, J. M. (2009). Viagem à Geografia. Uma Geografia para
o mundo, Uma Geografia para todos. João Azevedo Editor, Mirandela, p. 15.
PINCHEMEL, P. (1989). Fines y valores de la educación geográfica. In N. Graves Nuevo
método para la enseñanza de la geografía. Teide, Barcelona, p. 17.
ROBERTS, M. (2011). Conclusion. In G. Butt Geography, Education and the Future.
Continuum, London, p. 244-253
U.G.I. (1992). Carta Internacional da Educação Geográfica, Separata da revista Apogeu,
Associação de Professores de Geografia, Lisboa.
Importância da Geografia e da educação Geográfica
Nuno Gil
A abrangência de um conceito
Uma das questões com a qual os profissionais de Geografia são confrontados inúmeras
vezes é a da utilidade do ensino da Geografia. Uma primeira definição, a partir do
significado do próprio conceito geografia, parece comportar uma visão imediatista,
cerceada, da própria ciência: geografia é o estudo (grafia) da terra (geo) e,
3
concomitantemente, permanece latente essa complexidade e ambiguidade
manifestada na expressão estudo da terra.
Todavia, o processo evolutivo enquanto ciência fê-la desembocar num nível mais lato e
abrangente. É insofismável atualmente a complexificação do domínio teórico da
Geografia que resulta da emergência das suas duas dimensões distintas, a geografia
física e a geografia humana.
A mutação do antigo paradigma de Geografia tradicional, enquanto ciência mais
descritiva e quantitativa por um novo, com a designada «nova geografia» a partir dos
anos 50, trouxe métodos mais dedutivos, explicativos e técnicas quantitativas para a
resolução analítica de questões práticas. Assim, o aumento do quadro conceptual e de
modelos de análise conduziu inexoravelmente a uma necessidade de especialização e
diferenciação que levou ao aparecimento de outros ramos dentro da Geografia. Com
efeito, na área da Geografia Física vamos encontrar a Hidrogeografia, enquanto ramo
da Hidrologia, Geomorfologia, Climatologia, Biogeografia, Ecologia Física etc. No
âmbito da Geografia Humana desabrochou uma maior variedade: Geografia da
População, Geografia Económica, Geografia Urbana, Geografia Social, Geografia
Histórica, Geografia Cultural, Geografia Rural, Geografia Política, Geografia do Lazer ou
ainda outras concepções, como o de Geoestratégia (Comissão da Educação Geográfica,
1992).
A Geografia seguiu a tendência geral das outras ciências em especializar-se enquanto
ciência da Terra e enquanto ciência social e humana. Esta abrangência confere uma
formação útil e alargada ao geógrafo. O profissional da Geografia deve inculcar nos
seus alunos esta ideia de riqueza dos conhecimentos geográficos. A percepção desta
realidade poderá acicatar nos alunos a sensibilidade pelos problemas da Geografia.
A Geografia dirige-se a jovens e adolescentes que, com o seu idealismo, afiguram-se
como indivíduos disponíveis para a consciencialização de certas questões. Existem
recursos naturais que não estão limitados pelas fronteiras político-administrativas e
que por isso são de todos e todos temos de empreender uma defesa intransigente
desses recursos, a água, o solo, a paisagem etc. Evidencia-se, assim, a periclitante
situação vivida, a diferentes escalas, em países e regiões, bem como a sua
interdependência. A uma escala pessoal, cada aluno deve perceber que, como seres
sociais, estamos dependentes de uma ou de outra forma de pessoas que se podem
4
encontrar espacialmente próximas ou longínquas.
Entretanto, como refere Jean-Michel Brabant (1989), um dos primeiros motivos da
inclusão da Geografia na escola foi a «função patriótica», ao pretender-se inculcar nos
cidadãos a consciencialização da delimitação de um quadro territorial onde se inseriam
e em que as condições naturais surgiam como determinantes. O ensino da Geografia é
útil do ponto de vista ideológico, no sentido de uma função patriótica, direccionada
para a afirmação da Nação, a valorização e respeito pelas características físicas, a
coesão cultural e identitária do país. Na prática, tal desiderato deve traduzir-se na
demonstração das vantagens e potencialidades duma determinada região, território e
país. Assim, a Geografia deve fazer apelo ao aluno para estar atento à realidade social
e económica que o rodeia, numa postura crítica e atenta que pode suscitar propostas
úteis ao desenvolvimento do país. Por outro lado, porque a Geografia ajuda a
compreender porque é que existem diferenças de riqueza entre as várias realidades
espaciais, dever-se-ia incentivar os jovens a empreender trabalhos de pesquisa sobre
projectos de empresas e negócios e o seu contexto espacial, quer fossem à escala
local, regional ou planetária. No aprofundamento desta dimensão, a Geografia ajuda a
compreender, por exemplo, porque é que uma determinada empresa de um
determinado ramo tem sucesso e outra não tem, porque é que se situa num
determinado local e não noutro, que tipo de benefícios fiscais usufrui, quais as
condicionantes climatológicas e hidrológicas, se tem mão-de-obra e que tipo ou se
beneficia da existência de matérias-primas. A Geografia pode/deve ajudar a economia.
Por último, a dimensão geográfica é central na abordagem das várias questões do
mundo físico e humano (Margaret Roberts, 2011: 245). As grandes problemáticas do
mundo atual são importantíssimas para a sociedade porque põem em causa a própria
continuidade da civilização humana: o aumento continuado da população mundial, a
ausência de recursos alimentares nalgumas regiões do planeta, a globalização, as
questões energéticas, o aumento do fosso entre países ricos e países pobres, a
transferência do centro da economia mundial para a Ásia, o aquecimento global e as
alterações climáticas, a poluição etc. É precisamente pelo peso que tais questões
acarretam para a civilização humana e pelo carácter imprevisível do futuro, que a
Geografia se torna imprescindível enquanto ciência de intervenção e de prevenção
destes problemas.
5
Para onde caminha a Geografia?
Uma questão central é a da crise da escola e, associada, a crise da própria Geografia
(Brabant, 1989: 20-22). O que está em jogo é a redefinição do lugar da Geografia na
escola, em particular, e na sociedade, em geral. Com efeito, as ciências sociais, em que
a Geografia tradicionalmente se integra, sempre estiveram vocacionadas para uma
formação abrangente, intelectualizada, na esteira da tradição da universidade liberal.
Os docentes desta elite diminuta transmitiam os seus conteúdos abstractos aos alunos
e estes enquanto professores repetiam-nos. Estes profissionais escudavam-se no
Estado social e por conseguinte, um profissional da Geografia ou de outro saber do
ramo das ciências sociais e humanas, ou era professor ou ocupava outro cargo na
função pública. A metamorfose da sociedade despoletada pela massificação do ensino,
pelo maior acesso das mulheres ao saber e sobretudo pelo desenvolvimento
tecnológico que revolucionou profundamente todas as áreas da sociedade e que
desembocou na globalização, acabou por fazer as ciências sociais resvalar numa
profunda crise na qual ainda se encontram, por conseguinte, arrastou a escola no
geral. Assim, esta situação de crise resulta da mutação da sociedade e da economia.
Este novo paradigma de sociedade globalizada assenta num pressuposto economicista,
norteado pela ideia de rentabilização de meios humanos e de recursos financeiros.
Esta óptica tem-se consubstanciado claramente pelo enveredar da privatização de
vários aspectos da sociedade e, paulatinamente, esta mentalidade conduziu as pessoas
a outros valores. Assim, se anteriormente a questão profissional não se afigurava com
premência, porque um curso ou uma formação asseguravam uma opção de vida
profissional, hoje em dia, perspectivam-se os estudos e a formação, em primeiro lugar,
como um investimento do qual é necessário retirar retorno que se deve traduzir
inquestionavelmente na esperança de uma vida melhor. Não se pode subestimar a
realidade do mercado trabalho inerente a cada formação. A sociedade e a economia
exigem outras profissões e conhecimentos para suprir necessidades específicas. A crise
da Geografia é, ainda, a da inadaptação à realidade que deriva da não aplicabilidade de
conhecimentos às necessidades e exequibilidade de questões concretas diárias.
6
A ideia de que uma formação e a correspondente profissão são para toda a vida está
ultrapassada e nesse sentido, a sociedade e em particular, o professor, são fulcrais
neste processo de consciencialização dos alunos. Com efeito, cabe aos docentes e em
particular aos profissionais da Geografia, com a sua própria espontânea predisposição
para tratar do mundo que nos rodeia (Brabant, 1989: 15), sensibilizar os alunos para a
importância da multidisciplinaridade dos conhecimentos e da sua versatilidade face à
volatilidade do mundo laboral. A Geografia pela sua abrangência analítica do real,
pode e deve fazer parte da formação dos jovens e dos adultos, sem descurar outros
saberes, que em conexão só poderão trazer enriquecimento mental e cultural para o
indivíduo.
A Geografia e as demais ciências sociais poderão vislumbrar a solução para a crise se
os cidadãos perceberem que a sua formação de base pode coexistir com outros
conhecimentos. Refira-se a realidade dos países anglo-saxónicos. Essa versatilidade em
termos profissionais é observável nos E.U.A, onde investigadores e professores
possuem uma formação de base mas podem enveredar ao nível profissional e da
investigação por campos diferentes da sua formação inicial. Esta perspectiva ainda só
agora se começa a afirmar em Portugal onde por vezes, infelizmente, espera-se que a
formação de base resolva por si só os problemas da empregabilidade, ainda que isso
em determinados contextos seja difícil.
A Geografia deverá apostar nas questões promissoras que lhe podem insuflar uma
alma nova e despir a veste bafienta de disciplina abstrata e repleta de conceitos que
apenas servem para memorizar, como é o caso da prevenção e resolução de desastres
naturais ou do planeamento e ordenamento do território, só para referir as mais
importantes.
A Geografia só se afirmará definitivamente na escola e na sociedade quando os
cidadãos se aperceberem destas potencialidades e da grandeza da própria ciência e
isso cabe aos profissionais da Geografia.
Palavras-chave: Geografia, ciências sociais, sociedade, consciencialização, mundo.
7
Bibliografia
BRABANT, Jean-Michel (1998) - Crise da Geografia, Crise da Escola. in A. U. OLIVEIRA
(org.) Para onde vai o ensino da geografia? Editora Contexto, São Paulo, pp. 15-23.
COMISSÃO DA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA/UNIÃO GEOGRAFICA INTERNACIONAL (1992)
– Carta Internacional da Educação Geográfica. Separata da revista Apogeu/Associação
de Professores de Geografia.
DESPLANQUES, Pierre (1994) – Profession Enseignant. La Géographie en Collège et en
Lycée. Hachette Éducation, Paris, pp. 10-23.
GONZÁLEZ, X. M. Souto (1998) – Didactica de la Geografia. Ediciones del Serbal,
Barcelona, pp. 11-15.
MERENNE SCHOUMAKER, B. (1985) – Savoir Penser l`espace – Pour un renouveau
conceptuel et méthodologique de l` enseignement de la géographie dans le
secondaire. L´Information Gèographique, n.º 49, pp. 151-160.
PINCHEMEL, Philippe (1989) - Fines y valores de la educacíon geográfica. in Norman
GRAVE (coord.) Nuevo método para la enseñanza de la geografia. Editorial Teide,
Barcelona, pp. 7-21.
A educação geográfica. Uma necessidade, uma premência.
António Tereno
1. A Importância da Carta Internacional da Educação Geográfica
A Educação Geográfica assume cada vez mais um papel preponderante na sociedade
contemporânea. Inato ao próprio conhecimento geográfico e à necessidade de
adaptação a novas realidades e, à prevenção das realidades preexistentes, fica
8
subjacente uma ideia de pró-actividade, expressa na vontade dos autores da Carta
Internacional da Educação Geográfica (1992). A Comissão que presidiu à elaboração
desta Carta reconhece que uma Educação Geográfica deve ser Convencida, Consciente,
Informada, Preocupada e Pronta. Nesta súmula de qualidades se revêem aqueles que
propugnam por tal pró-actividade. Esta Carta Internacional da Educação Geográfica é
um documento ancorado nos princípios estabelecidos por vários documentos de
entidades de grande reputação como são o caso das Nações Unidas e da Unesco. A
preocupação com a condição do ser humano, das suas garantias, direitos e liberdades,
onde se vão encontrar associados e implícitos valores que expressam a preocupação
com as relações sociais, económicas e de desenvolvimento sustentável, lança uma
série de recomendações. Principia por anunciar os seus objectivos, lança um alerta
para a necessidade que os países têm de uma Educação Geográfica, tornando os
jovens de hoje, decisores de amanhã, indivíduos dotados de uma consciência da
importância do desenvolvimento sustentado, do inter-relacionamento local e global e,
principalmente, dotando-os de uma consciência de cidadania, na pró-actividade da
identificação de problemas e na procura da sua resolução, respeitando os outros e o
ambiente. A Carta vai mais além, delineando as competências que devem nortear os
alunos educados geograficamente, tratando de balizar, em termos latos, os conteúdos
e conceitos, assim como a investigação nesta área da Educação Geográfica, dividindo-a
em três áreas fundamentais: Investigação Básica, Aplicada e a Metodologia. Aponta
para a cooperação internacional de professores de Geografia, como tentativa de achar
um máximo denominador comum, advindo do enriquecimento proporcionado pela
troca de experiências, conhecimentos, projectos, entre outros recursos.
No entanto, a Carta Internacional não passa de um plano de intenções: «Os apelos
lançados a partir das Nações Unidas não parecem ter o eco desejado, dentro e fora dos
sistemas de ensino. Estes aparecem alheados, tal como um espelho das portas e
janelas fechadas das escolas»1, algumas das intenções da Carta já foram contrariadas
por outra publicação mais recente, da mesma organização (UGI – União Geográfica
Internacional): «Em 2000, no XXIX Congresso de Geografia, em Seul/Coreia, a
Comissão de Educação Geográfica da UGI produz uma nova Declaração, agora sobre a
educação geográfica para a diversidade cultural. Este novo documento representa um
1
Cf. Souto González, Sérgio Claudino, op. cit., p. 8.
9
retrocesso em relação às preocupações sociais da Carta Internacional.»2. Como é feito
notar por Souto González e Sérgio Claudino, «[…] de há muito o ensino da Geografia
tem estado ao serviço dos interesses das classes hegemónicas do Estado-Nação […]»3.
Mas, o Ensino da Geografia, apesar de tudo, tem servido para problematizar a
sociedade, estando «[…] empenhada na concretização dos direitos sociais dos vários
grupos humanos.»4, não se limitando, em surdina, apenas às classes hegemónicas.
2. Da Importância da Educação Geográfica
A Educação Geográfica, segundo Graham Butt (2011), levanta as seguintes questões:
Como é que a Educação Geográfica pode preparar os jovens para os lugares,
ambientes e sociedades que vierem a ocupar no futuro? Como é que pode a Geografia
e a Educação Geográfica estabelecer uma agenda que permita, de forma honesta e
realista, ser levada a cabo no séc. XXI? Como pode ser reformulada a Geografia para
que possa levar em conta as grandes transformações sociais, ambientais e
tecnológicas, causadas pelo consumo desenfreado, e as respectivas economias, assim
como as dinâmicas entre o local e o global? Como se pode aferir, são de facto questões
muito pertinentes e que devem ser trabalhadas com as camadas jovens, para que
tomem conhecimento das problemáticas e tenham uma consciência mais em sintonia
com a necessidade de uma adaptação sustentável. A necessidade da Educação
Geográfica é feita notar por Roberts (2011), recorrendo ao exemplo do aluno Bart,
inserido no contexto do projecto de pesquisa Hopwood, confrontado com a
imprevisibilidade e a perplexidade sobre o que há-de vir, ela afirma: «Bart said, ‘the
future is unpredictable’ but is precisely because of its unpredictability that its worth
thinking about.»5. Esta preocupação sobre o futuro e a sua imprevisibilidade, a par de
um desenvolvimento sustentável, levam a que haja uma necessidade propedêutica de
formar as camadas jovens da sociedade, consciencializando-as para a problemática da
existência humana e das suas inter-relações com o mundo onde habita e a sociedade,
quer no contexto local, bem como no contexto global.
2
Idem, ibidem, p. 8.
3
Idem, ibidem, p. 10.
4
Idem, ibidem, ibidem.
5
Cf. Graham Butt, op. cit., p. 245.
10
Tão importante como a tomada de consciência desta problemática é a própria
Didáctica do Ensino da Geografia. O papel relevante para a actualização curricular, na
selecção adequada de conteúdos de interesse relevante e com um cariz utilitário, vai
ao encontro do sentido prático que deve presidir a um conhecimento que, ao nível do
ensino básico e secundário, se quer com um carácter generalista. Nem sempre é fácil
conseguir estes resultados, compaginados com uma obrigatoriedade programática,
dificultando o processo de leccionação. Como diz Souto (1998), é imprescindível que o
professor conheça os seus alunos, de modo a adequar a selecção de informação que
quer passar: «[…] Conociendo las dificuldades que ellos poseen podrá determinar qué
tipo de informacíon es lá más adecuada en cada momento.»6 Souto está consciente,
existem muitos obstáculos para um ensino capaz e eficaz; por isso, dá especial atenção
aos problemas que afectam a aprendizagem dos seus alunos, no horizonte das suas
metas está: «[… en formar indivíduos autónomos para uma sociedad superinformada,
plural y democrática.»7. Para Souto, não basta que sejam transmitidos conhecimentos
ao aluno, que lhe permitam inserir-se no mundo presente. São necessário um conjunto
de métodos para a aprendizagem, sendo que uma apreciação ou análise crítica de
fontes seria fundamental, numa sociedade onde a multiplicidade de informação é tão
grande, i.e., o escolho é imenso e muitas vezes de qualidade e rigor científico
duvidosos.
Não subsistem dúvidas quanto à necessidade de reformular o ensino, as metodologias
e os materiais de apoio. A adaptação do Ensino da Geografia aos tempos e
necessidades contemporâneas, são uma realidade já instalada no seio da comunidade
de Professores de Geografia.
3. Vox Populi em Português
A necessidade de uma Educação Geográfica é uma necessidade que não é sentida nem
percepcionada por todos do mesmo modo. Existe um exemplo paradigmático de
anacronismo cultural, consubstanciado no programa exibido por uma estação de
televisão privada portuguesa, em 2011, designado por “A Casa dos Segredos”, onde os
seus concorrentes, jovens seleccionados criteriosamente quer pela sua ignorância,
6
Cf. X. M. Souto González, op. cit., p. 13.
7
Idem, ibidem, p.13.
11
quer pela sua capacidade inata em gerar níveis de audiência economicamente
lucrativos, dão contas da sua ignorância geográfica. Não conseguem, na sua maioria,
percepcionar o espaço onde estão inseridos e desconhecem onde esse espaço se
insere, num contexto global. Esperemos que estes casos não traduzam por isso a
maioria da juventude estudantil portuguesa.
4. Conclusão
O exemplo real que demos no ponto 3 demonstra bem a necessidade de uma
Educação Geográfica. Felizmente que estes participantes não estão em órgãos
decisores, se não o mal poderia ser irreparável. Mais uma vez se reforça a necessidade
da Educação Geográfica, para uma audiência em geral, pois nela estão inclusos os
decisores de amanhã. Para que esta educação surta o efeito desejado, é necessário
ajustar a didáctica às exigências actuais. É necessário que no ensino não universitário,
não seja vertida a complexidade que é própria de quem aprofunda técnica e
cientificamente as matérias geográficas. O ensino deveria ser mais exemplificativo,
onde os alunos são convidados a construir o seu próprio conhecimento 8, dando-lhe um
sentido mais utilitário e menos universitário, menos académico, evitando-lhe assim um
desgosto idêntico ao desintegrar das ilusões românticas por Gustave Flaubert, em A
Educação Sentimental. Seria um desgosto para todos os geógrafos, em especial para
Orlando Ribeiro, tendo há muito a Geografia deixado de ser uma ciência auxiliar, para
ter o seu lugar próprio, a par de todas as ciências principais, vir a sofrer uma regressão,
em virtude das alterações curriculares que visam diminuir a sua importância, tendo em
conta uma perspectiva de racionalização “cega” de recursos financeiros. Seria também
uma pena e uma perda considerar a Geografia como uma disciplina dispensável no
currículo oficial não universitário, alijando, de forma profunda, a formação para a
cidadania dos nossos alunos.
8
Bernadette Merrene-Schoumaker, no seu artigo Pour un renouveau conceptuel et
méthodologique de l’enseignement de la géographie dans le secondaire, resultado da sua
comunicação, apresentada ao 25.º Congresso da UGI, Paris 1984, levanta esta mesma questão:
«[…] - pour enseigner l’essentiel, pour cerner au mieux l’actualite, pour apprendre la maîtrise
des principaux outils ou techniques tout en motivant ses élèves et en les aidant à prendre en
charge progressivement leur propre formation ?».
12
BIBLIOGRAFIA
BUTT, G. (2011), Introduction. In G. Butt Geography, Education and the Future.
London: Continuum, p. 1-11
ROBERTS, M. (2011). Conclusion. In G. Butt Geography, Education and the Future.
Continuum, London, p. 244-253
SOUTO GONZÁLEZ, X. M. (1998). Didáctica de la Geografia. Barcelona: Ediciones del
Serbal, 397 pp.
SOUTO GONZÁLEZ, X. M.; CLAUDINO, Sérgio (2004). Educação Geográfica e Cidadania
no Século XXI. Actas do V Congresso da Geografia Portuguesa Portugal: Território e
Protagonistas. Guimarães, Universidade do Minho e Associação Portuguesa de
Geógrafos, 14-16 de Outubro, 14 pp.
UNIÃO GEOGRÁFICA INTERNACIONAL (UGI)/Comissão da Educação Geográfica
(1992). Carta Internacional da Educação Geográfica. Lisboa: Associação de Professores
de Geografia. (tradução portuguesa de Manuela Malheiro Dias Ferreira).
13