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O ATAQUE DOS CONSUMIDORES EMERGENTES

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O ATAQUE DOS CONSUMIDORES EMERGENTES
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1/5/2012
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O ATAQUE DOS CONSUMIDORES EMERGENTES1

As marcas dos produtos de consumo das empresas multinacionais mantiveram-se na

liderança de seus mercados e na mente dos consumidores brasileiros durante décadas.

Algumas marcas tornaram-se sinônimos de categorias de produtos, como Gillette,

Band-Aid, Danone, Maizena e Omo. No entanto, na virada do Milênio, essa liderança

passou a ser ameaçada. Não se tratava de uma batalha entre Coca e Pepsi. Os novos

desafiantes eram pequenas e médias empresas nacionais, oferecendo produtos até pela

metade do preço das grandes fabricantes. Eram os produtos chamados marcas-B ou

marcas econômicas. No início de 2001, estimava-se em mais de 30% a participação

das marcas B no mercado brasileiro. Nos EUA e Europa, essa participação era de

20%.

 Entre 1998 e 2000, as marcas líderes perderam participação em volume em

63% de 157 categorias de produtos pesquisados. As maiores perdas

ocorreram nas categorias de bebidas não-alcoólicas, alimentos doces e

limpeza caseira.

 Apenas 12% das líderes ganharam participação no período analisado.

 As marcas de baixo preço avançaram em seis de cada dez categorias. No

caso dos biscoitos de 250 gramas, as marcas baratas passaram a 41% das

vendas, um acréscimo de 7 pontos percentuais.

 Em setores como alimentos e bebidas, higiene pessoal e limpeza, as empresas

brasileiras vinham crescendo mais que as multinacionais.

 Os cereais matinais Kellogg’s tinham 72% de participação em 1995. De 1995

até 2002, perderam 25 pontos percentuais, num mercado em que cada ponto

valia 1,6 milhões de reais. A Kellogg’s passou a sofrer a concorrência da

Nestlé, que chegou a 2002 com 21% das vendas. No entanto, a vice-liderança

era do conjunto das marcas mais baratas. De cada 100 pacotes de cereais

consumidos no Brasil, 32 eram de nomes pouco conhecidos.

 Em dez anos, o número de marcas de achocolatados em pó chegou a 40,

ganhando 22% de participação. Até a metade dos anos 90, o líder Nescau

detinha 63% das vendas. Em novembro de 2001, era de 52%.

Os consumidores emergentes

Uma combinação de crescimento do mercado, produtos tradicionais vulneráveis e

consumidores insatisfeitos aconteceu nos anos seguintes ao Real. A população de

baixa renda passou a ter mais dinheiro para gastar e aumentou o consumo de

alimentos e outros itens domésticos. Não faltaram oportunidades para novas marcas

de produtos como leite longa vida, biscoitos, adoçantes, refrigerantes, amaciantes e

fraldas. As vendas de leite longa vida mais do que triplicaram. As de suco pronto, de

adoçantes e até de rações para cães, dobraram. A demanda por esses produtos estava

mais reprimida entre os consumidores mais pobres do que entre os de renda mais alta.

A hegemonia das marcas principais já vinha sendo ameaça desde 1995, o ano seguinte





1Preparado com base na matéria A Invasão das Marcas Talibãs, de Nelson Blecher, Revista Exame, 9

de janeiro de 2002, pp. 32-49.

ao Real. A Figura 1 mostra a distribuição das classes de renda no Brasil no ano de

2000. A classe C teve um crescimento de 37% em relação a 1992.





CLASSE RENDA CONSUMO MILHÕES DE

MENSAL = EM BILHÕES DOMICÍLIOS

SALÁRIOS DE REAIS

MÍNIMOS



A/B MAIS DE 10 428 (52%) 19% =



C DE 4 A 10 226 (28%) 30% = 12,6



D/E DE 1 A 3 163 (20%) 51% =





Uma vez que a renda e a disposição para o consumo aumentaram, por que não ocorreu

o mesmo com a participação das marcas principais? Segundo um estudo do Boston

Consulting Group, as multinacionais orientaram-se, durante décadas, pela noção

errônea de um piso de consumo restrito às classes A e B. De acordo com um

executivo da Elma Chips, essa noção vigorou porque foi possível construir grandes

negócios fornecendo apenas para uma parte da população do Brasil. Nos três anos que

se seguiram ao Real, o faturamento da Elma mais do que dobrou, mas a empresa

perdeu participação. A explicação: o mercado informal das feiras livres e camelôs,

que tomaram conta da periferia das grandes cidade, cresceu mais rápido que o

mercado oficial. Esse executivo acreditava que o mercado informal era 2,5 vezes

superior ao oficial, movimentando cerca de quatro vezes por ano o faturamento da

Elma. As grandes marcas, como a Elma, tinham se preparado para atender à ponta da

pirâmide, mas não haviam investido para produzir em escala de grandes massas. Com

a explosão do consumo, pequenos e médios fabricantes regionais ocuparam o vazio

deixado pelas grandes marcas.

As grandes redes e o pequeno comércio varejista

Com a estabilização, o poder de barganhar preços e impor condições passou para o

lado dos varejistas. Contribuiu para isso o processo de concentração das redes de

supermercados. Em 1992, as cinco maiores redes geravam 27,7 das vendas. Em 2002,

a proporção subira para 40,7%. As grandes empresas industriais, que já haviam feito

cortes em seus custos desde o início da década de 90, começaram a perder

rentabilidade, devido às crescentes exigências das grandes redes varejistas: promoções

de preços, propaganda cooperada, compra de espaço nas lojas, promotores e

mercadoria grátis na inauguração de lojas.

A grande indústria passou ainda a enfrentar o crescimento das marcas próprias dos

varejistas. No início de 2001, eram 12.854 itens embalados como marcas próprias,

mais que o dobro do que havia em 1999. Além de fazer concorrência, esses itens

ocupavam espaço na prateleira. As marcas próprias respondiam por 6% das vendas

nos supermercados. Em 2003, deveriam chegar a 17%, movimentando 7,9 bilhões de

reais.

Parte da distribuição dos produtos das grandes indústrias já havia sido terceirizada

para atacadistas e distribuidores. Com os impostos em cascata, os produtos chegavam

a preços pouco competitivos nas lojas tradicionais da periferia e pequenos

supermercados, frequentados por consumidores de baixa renda. De 1997 a 2002, esse

foi o segmento que mais proliferou. O número de lojas com quatro ou menos caixas

aumentou 35% nesse período, chegando a 52 mil.

Os pontos de venda populares eram ideais para a introdução das marcas B. Na rede

Econ, com 30 lojas para a classe D na periferia de São Paulo, as marcas principais

ficavam expostas para que o consumidor fizesse comparações. De seus 231

fornecedores, 180 eram de marcas B.

As classes de baixa renda revelavam-se pouco fiéis a marcas. Quando a situação

financeira ficava difícil, 43% das consumidoras optavam pela marca conhecida mais

barata, mas 30% a substituíam por outro produto. Menos da metade das entrevistadas

de uma pesquisa com a classe C consumia a marca que seria sua primeira opção.

As marcas B também tinham a vantagem da informalidade. Estimava-se que no setor

de refrigerantes, os informais já seriam responsáveis por quase um quarto dos 12

bilhões de reais faturados anualmente pela indústria. Com a carga tributária de 40%

sobre uma empresa, não pagar imposto representava grande vantagem.

A reação

Uma estratégia para reagir a essa situação poderia ser o lançamento de marcas B,

como fizeram diversas empresas.

Unilever. Na Índia, a Unilever perdeu, na década de 1990, expressiva participação no

mercado de detergentes para uma marca popular. Depois de estudar o universo do

consumo emergente, a empresa fez uma completa revisão de seus processos e lançou

uma marca competitiva, vendida por quase um terço do preço da marca mais cara.

Com essa marca, a empresa recuperou sua participação. No Brasil, esse projeto serviu

de modelo para o produto Ala, o primeiro sabão em pó para os consumidores

emergentes, vendido no Nordeste pela metade do preço do Omo, principal marca da

Unilever.

Outro exemplo era o xampu Seda. Lançado em 1968, o Seda chegara a 1995 com 7%

de participação. As vendas de xampu aumentavam, mas o Seda estava estacionado.

Para conhecer os consumidores emergentes, a Unilever mandou 40 gerentes

entrevistarem famílias em lares da classe C. Essa equipe descobriu, por exemplo, as

diferentes necessidades dos biotipos raciais dos brasileiros. Surgiram assim produtos

específicos para cabelos ondulados e crespos, antes só fabricados por empresas de

segunda linha. Para garantir a distribuição às milhares de lojas do comércio

tradicional, a Unilever contratou distribuidores especializados em produtos de higiene

pessoal, que vendiam pequenos lotes em pontos de venda nas localidades mais

distantes. Em 2002, a marca Seda alcançava 25% do mercado de xampus.

Mabesa. Outra empresa a usar a mesma estratégia era a mexicana Mabesa, atuando no

mercado brasileiro de fraldas, que, desde 1995, crescia em média 21,7% anuais em

volume. A Mabesa já se tornara a segunda do mercado. Quando começou, o índice de

bebês que usavam fraldas era de apenas 15%. Suas fraldas para a classe D eram

vendidas em pacotes com menor número de unidades. Em 2001, a Mabesa passou a

deter uma fatia de 18% das vendas de 3,8 bilhões de unidades, contra 22% da

Kimberly Clark, a líder do mercado. Além de suas marcas, a Mabesa produzia 75% de

todas as marcas próprias de fraldas das redes varejistas, o que rendia 20% de sua

receita.

Coca-Cola. Em poucos anos, o número de fabricantes de tubaína cresceu de 55 para

750. Foi a embalagem PET de dois litros, sem retorno, inventada pela Coca-Cola, que

viabilizou o negócio dos tubaineiros, que tinham 33% do mercado. Para se defender, a

Coca-Cola comprou o guaraná Jesus, que tinha expressiva participação no mercado do

Nordeste.

Nestlé. Nem sempre a estratégia funcionava. O número de fabricantes de biscoitos

cresceu de 100 para 540 nos anos 90. A Nestlé, além de reduzir seus preços, o que

diminuiu sua rentabilidade, lançou em 1996 a marca Bônus, cuja produção foi

interrompida. Segundo um executivo da empresa, era difícil uma corporação produzir

ao mesmo tempo marcas de prestígio e marcas B. Para isso funcionar, seria necessário

ter duas organizações, com culturas diferentes, aproveitando algumas áreas comuns,

como logística e informática. Apesar disso, a Nestlé preparava-se para lançar linhas

econômicas de biscoitos e modificaria o visual e o tamanho das embalagens, para

tornar seus produtos mais acessíveis à classe C. Também procuraria aumentar sua

distribuição, para atingir as padarias e lojas tradicionais.

O crescimento das marcas B mudou os paradigmas de marketing. As marcas líderes,

que ensinaram aos brasileiros os primeiros passos do marketing e dos produtos como

margarina, sabão em pó e maionese, não conseguiram reconhecer o poder de consumo

das classes C e D. Também concentraram as vendas nas grandes redes varejistas,

abrindo mão de atender o pequeno e médio varejo do interior, o que mais cresce

atualmente.

No início de 2001, tudo indicava que as grandes marcas iriam enfrentar uma

prolongada e surpreendente guerra de guerrilha.

As guerrilheiras

Algumas das empresas que ameaçavam a liderança das grandes marcas eram as

seguintes:

 Sabão Fontana, de Encantado (RS), fabricante dos sabonetes Iara, Encanto e

Anafont e do detergente líquido Font. Com 17 mil clientes ativos em 2001,

pretendia chegar a 25 mil em 2002. Fechou o ano de 2001 com faturamento

de 75 milhões de reais.

 Aroma do Campo, de Nova Iguaçu (RJ), fabricante da tintura de cabelo

Luminous Colour e de produtos de beleza específicos para a raça negra,

xampus, condicionadores, cremes e maquiagem. Faturou 60 milhões de reais

em 2001.

 Coelho, fabricante de macarrão e biscoito, de Sobral (CE), faturou 9 milhões

de reais em 2001, com foco no mercado nordestino.

 Comércio de Doces Lucky, de São Paulo (SP), produz diariamente 100

toneladas de salgadinhos. Desde 1998, suas vendas crescem 50% ao ano.

 Asa, de Recife (PE), fabricante de detergente líquido, massa de tomate, fralda

descartável e flocos de milho, faturou 100 milhões de reais em 2001, atuando

principalmente no Nordeste.

Questões

1. Explique por que as grandes marcas perderam a oportunidade de explorar o

mercado das marcas de baixo preço. Use para isso os conceitos apresentados

neste Capítulo e nos Capítulos 4 e 5.

2. Se você fosse consultado sobre o que as grandes marcas deveriam seguir para

combater as marcas B, quais estratégias consideraria? Apresente as

vantagens e desvantagens de cada alternativa que considerar, inclusive a de

não fazer nada e deixar as marcas B atuarem em seus nichos.

3. Como se explica o sucesso das marcas B?

4. O que pode ameaçar o desempenho das marcas B?

5. Que estratégia você recomendaria para as marcas B preservarem suas

posições e avançarem ainda mais no mercado das grandes marcas? Apresente

os fundamentos de sua recomendação.


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