Por Uma Outra Globaliza��o

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1/4/2012
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							Por Uma Outra Globalização


       "Produção do Grupo de Estudos Redes, Cidadania e Cidade Educadora, 2000"
                                                Coordenação Érika Juffernbruch
Limites à Globalização Perversa
    Introdução
   Alguns sinais que mostram a existência de processos
    paralelos à globalização nos levam a pensar que
    vivemos uma fase de transição para um novo
    período.
      o sistema ideológico que sustenta a globalização
       parece não resistir aos fatos.
      a promessa de que as técnicas contemporâneas
       pudessem melhorar a existência de todos cai por
       terra e o que se observa é a expansão acelerada
       do reino da escassez, atingindo as classes médias
       e criando mais pobres.
A Variável Ascendente
   A Globalização (ou pós-modernidade) é um processo
    demarcado da história, um período.

   Existem variáveis que ganham vigor, que o autor
    chama de ascendentes, e outras que perdem, as
    descendentes. As ascendentes apontam tendências.

   As variáveis ascendentes atuais são sistêmicas, o que
    leva a crer sejam um prenúncio de uma grande
    mudança, para um novo período histórico.
    Fatos característicos das mudanças em curso:
    - Crescente desencanto com a técnica;

    - A gradativa substituição do senso comum pelo bom senso,
    sendo o senso comum a racionalidade sugerida pelas técnicas e
    pelas políticas que determinam seu uso;

    - Crescimento da parcela à margem das técnicas, por causa do
    aumento da pobreza;

    - Técnicas não-hegemônicas sobrevivem e são criadas, criando
    pólos resistentes à opressão absoluta das técnicas hegemônicas.
Os limites da racionalidade
dominante
   A racionalidade totalitária é acompanhada pela perda
    da razão.
    - O deboche das carências de uma parcela da
    sociedade que cresce a cada dia é um sinal desse
    processo.
    - O descaso gera o crescimento do desinteresse pelas
    normas, leis e costumes, e a conseqüente
    proliferação dos ilegais, irregulares e informais.
    - Tem-se, a partir daí, um caldo de cultura que
    mistura práticas e teorias novas e herdadas.
    - É nesse ambiente, excluído da realidade dominante,
    que as pessoas passam a ter consciência de sua
    situação, e abandonam o conformismo para ficar
    O imaginário da velocidade

   A idéia de que a velocidade é um dado
    irreversível na produção da história encontra-
    se amplamente difundida; mas grande parte
    da população produz, circula e vive sem que
    ela esteja tão arraigada em sua vida.
   É a força do imaginário, como já vimos, que
    faz com que a velocidade acessível à minoria
    represente uma totalidade.
    Velocidade: técnica e poder
   Assim configurada, a velocidade é
    duplamente política.
   De um lado, tem-se a escolha relacionada ao
    poder dos agentes; de outro, a justificação
    dessa escolha.
   Mas a técnica poderia ser usada de forma
    diferente a partir de escolhas sociais
    diferentes.
   A técnica só pode ser vista como
    determinante quando não associada à
    presença humana, que obrigatoriamente vai
    relativizá-la.

   As populações pobres e excluídas combinam
    várias formas de capitalismo, freando e
    relativizando a velocidade.

   As duas realidades são interdependentes e
    intercorrentes.
Do relógio despótico às
temporalidades divergentes
       A interdependência globalizada de lugares
    e a planetarização dos aspectos técnicos
    parecem se impor, servindo até como
    parâmetros de eficácia para lugares e
    sistemas técnicos diferentes.
   As crises atuais decorrem da utilização que se
    faz da velocidade, usada privilegiadamente
    por alguns atores.
    O movimento é desprovido de objetivo moral
    e encontra justificativa em si mesmo – Ex:
    mercado financeiro.
Just-in-time versus o cotidiano
   Just-in-time: vocação para        Cotidiano: a razão de viver
    uma racionalidade única,           seria tida como
    que comanda todas as               irracionalidade face à
    outras, desejosa de                racionalidade do just-in-time.
    homogeneização.
                                      O que se dá são outras
    Racionalidade desprovida de       formas de ser racional.
    razão, que leva à alienação.
                                       Várias temporalidades
    Competitividade em escala         coexistem e permitem
    planetária                         considerar a existência de
   Homogeneização                     cada um e de todos.
    empobrecedora e limitada.         Heterogeneidade criadora.
Um emaranhado de técnicas: o
reino do artifício e da escassez
   As várias técnicas se apresentam num
    emaranhado aparentemente impossível de se
    desfazer

    Do artifício à escassez
   O emaranhado de técnicas em que vivemos é
    fundamentado na ciência e obedece aos
    imperativos do mercado.
   Sua intencionalidade leva à hegemonia de
    uma produção “racional” de coisas e
    necessidades.
“O homem, cada homem, é afinal definido pela
soma dos possíveis que lhe cabem, mas
também pela soma dos seus impossíveis.”

   Ao mesmo tempo em que criam
    desigualdades, a velocidade, as técnicas e a
    potência geram necessidades, já que não há
    satisfação para todos.
       Não é que a produção necessária seja
        globalmente impossível, mas sua distribuição é
        desigual.
   A sensação da escassez transforma-se em
    consciência de que falta a mim, mas não ao
    outro mais bem colocado socialmente.
Da escassez ao entendimento
   A experiência da escassez é a ponte entre o
    cotidiano vivido e o mundo
   A escassez não satisfeita acaba a se
    diferenciar de todas as outras e, assim,
    reforçar a individualidade e a alteridade.
   A cidade é palco privilegiado para essa
    revelação, pois potencializa os contatos, o
    que exibe a multiplicidade da escassez
    contemporânea.
    Papel dos pobres na produção do
    presente e do futuro

   São eles quem melhor entendem a sociabilidade urbana, já que
    dependem desse entendimento para lutar pela sobrevivência.
   Política dos de baixo: construída pelos excluídos a partir de sua
    visão do mundo.
      Baseada no cotidiano vivido por pobres e não-pobres;

      alimentada pela necessidade de continuar vivendo.

   As duas formas se confundem e a ideologia do consumo
    também se infiltra na vida dos pobres, gerando desejos que
    eles não podem suprir.
   A ausência de um movimento organizado e de idéias claras não
    significa que a consciência e a insatisfação não existam.
A metamorfose das classes
médias
   Acostumada a ver seus problemas solucionados pelos
    políticos, a classe média percebe que não partilha
    mais o poder e, em vez de desejar mais participação,
    se afasta.
   A expansão da consciência não é uma decorrência
    direta da experiência de escassez. Se dá em níveis:
      preocupação de defender situações individuais
       ameaçadas; consumo como motor de luta; novas
       manifestações de individualismo.
      após reflexão mais profunda, o processo social
       fica mais claro e tais reclamações alcançam um
       nível superior.
      o consumidor pode assumir o papel de cidadão e
       Um dado novo na política

   O passo seguinte para as classes médias é a
    união com os pobres. Juntos, podem
    contribuir para reformar os partidos.
   Materialmente mais despojadas, as classes
    médias forçam os partidos a completarem a
    implantação da democracia que seja eleitoral,
    mas também econômica, política e social.
A Transição em Marcha
   A gestação do novo acontece de forma quase
    imperceptível para quem a vive, já que
    começa a se impor quando o velho ainda é
    quantitativamente dominante.
   No nosso século, o sistema de técnicas é
    comandado pelas técnicas da informação,
    que atuam como elo entre as demais e
    asseguram sua presença planetária.
    Cultura popular, período popular

   Um exemplo do que foi dito é a cultura.
      um esquema arbitrário mostraria um esforço

       mundial de homogeneização, com a cultura de
       massa impondo-se sobre a popular.
            essa conquista não é completa, porque encontra
             resistência da cultura preexistente.
       o resultado são formas sincréticas – cultura
        popular domesticada associando um fundo
        genuíno a formas exóticas que incluem novas
        técnicas
   mas há também a revanche, quando a
    cultura popular se difunde usando
    instrumentos da cultura de massa
    a cultura de massa não é deformada como
    um todo pelos “de baixo”, mas é adequada
    em cada lugar que chega
    As condições empíricas da mutação

   A mistura de povos, raças, religiões e gostos
    deve contribuir para a reemergência das
    massas. Essa “contaminação” é positiva.
   “Da divisão do trabalho por cima cria-se uma
    solidariedade gerada de fora e dependente
    de vetores verticais e de relações
    pragmáticas freqüentemente longínquas. Na
    divisão do trabalho por baixo, o que se
    produz é solidariedade criada de dentro e
    dependente de vetores horizontais
    cimentados no território das culturas locais.”
A precedência do homem e o período
popular
   Uma outra globalização precisa de uma
    mudança radical das condições atuais, onde o
    homem, e não o dinheiro, seja o centro de
    todas as ações.
    O novo modelo seria capaz de garantir a
    satisfação da necessidade para o maior
    número de pessoas.
    Abolida a competitividade como padrão de
    relacionamento, a vontade de ser potência
    não guiaria o comportamento dos estados,
    que se norteariam pelas necessidades de
    suas populações.
A Centralidade da periferia
   A idéia da irreversibilidade da globalização atual está
    relacionada à de que a história é sempre feita pelos países
    centrais.

     Limites à cooperação
   Europa, EUA e Japão impõem a globalização aos demais países,
    enquanto disputam poder internamente.
        Mantém o domínio já obtido sobre as nações ao mesmo tempo em
         que brigam por ampliar sua área de influência.
   Essa competição é também o limite da cooperação entre esses
    países, chamada de Tríade.
    Enquanto as empresas e estados utilizam
    máximas massacrantes da globalização nos
    países periféricos, mantêm posturas internas
    diferentes.
       A cidadania ainda é forte nesses países e torna-se
        impossível descuidar do interesse das populações.
    Na relação global, os estados periféricos
    entram como parceiros mais fracos.
       A cooperação da Tríade representa o interesse das
        grandes potências.
       Organismos internacionais como FMI, Banco
        Mundial e BID atuam como intérpretes desses
O desafio ao Sul
   “Os países subdesenvolvidos, parceiros cada
    vez mais fragilizados nesse jogo tão desigual,
    mais cedo ou mais tarde compreenderão que
    nessa situação a cooperação lhes aumenta a
    dependência”.
   Essa consciência não chegará ao mesmo
    tempo a todos os países e seus resultados
    podem variar.
       Já são numerosas as manifestações de
        desconforto com as conseqüências do atual
        sistema.
   Os grandes negócios são de interesse
    de um número cada vez menor de
    pessoas.
    Existem formas crescentes de desordem social.
      No Brasil, por exemplo, não se sabe até quando será
        possível manter o modelo econômico atual e a calma das
        populações excluídas, crescentemente insatisfeitas.
   Os países centrais buscarão adaptar suas regras às novas
    realidades. A manutenção da hegemonia levará a maiores
    sacrifícios, incentivando ainda mais a busca das nações
    periféricas por outras soluções.
   “Uma coisa parece certa: as mudanças a serem introduzidas,
    no sentido de alcançarmos uma outra globalização, não virão
    do centro do sistema, como em outras fases de ruptura na
    marcha do capitalismo. As mudanças sairão dos países
    subdesenvolvidos.”
    A Nação ativa, a nação
    passiva
   A necessidade de rever conceitos chega à idéia de país.

Ocaso do projeto nacional?
   O reconhecimento da estrutura do país é dificultado na
    globalização, assim como a visualização do projeto nacional.
        Talvez por isso os projetos das grandes empresas acabem guiando
         a evolução dos países.
   Destino nacional e projeto nacional costumam perder para
    preocupações menores, pragmáticas, imediatistas.
   “A idéia de história, sentido, destino é amesquinhada em nome
    da obtenção de metas estatísticas, cuja única preocupação é o
    conformismo frente às determinações do processo atual de
    globalização”.
  Alienação da nação ativa /
  Conscientização e riqueza da nação
  passiva

Nação ativa:                    Nação passiva:
 aceita, prega e conduz           maioria mundial;
  uma modernização com             participa de modo residual do
  base no dinheiro.                 mercado.
 modelo conduzido pelas           contradição entre a exigência
  burguesias internacionais         prática de participar da
  nacionais associadas.             racionalidade dominante e
 pra ter eficácia local, seu       insatisfação com os resultados
  discurso ganha sotaque            dessa participação.
  doméstico, estimulando           relações cotidianas que criam
  um pensamento nacional            espontaneamente uma cultura
  produzido por mentes              própria, resistente, que pode
  cativas.                          ser alicerce para a produção de
 sorrateira, veloz,                uma política.
  externamente articulada.         dinamismo e criatividade.
    A globalização atual não é
    irreversível

   “A globalização atual é muito menos um
    produto das idéias atualmente possíveis e,
    muito mais, o resultado de uma ideologia
    restritiva adrede estabelecida.”
A dissolução das ideologias


    O confronto com a realidade contribui para a
    dissolução dessas ideologias. O próprio credo
    financeiro aparece menos aceitável.
    A ideologia que nos cerca, original ou disfarçada
    em objetos e produtos, dificulta a visão de um
    futuro diferente.
      Surge aí o grande conformismo que se vê
       atualmente.
    Mas “essa visão repetitiva de mundo
    confunde o que já foi realizado com as
    perspectivas de realização”.
    Visto pela lente do pensamento único, o
    mundo apresenta um conjunto limitado de
    possibilidades. Mas, se queremos a lista
    completa, temos de levar em conta não
    apenas o que já existe, mas também o que é
    empiricamente factível.
    A situação atual parece definitiva, mas não é
    uma verdade eterna.
A pertinência da utopia
   É preciso retomar concretamente a utopia e os projetos.
      Frutos de dois tipos de valores: aqueles fundadores do
         homem, como a liberdade, a dignidade e a felicidade;
         aqueles que surgem da história do presente.
      Dessa combinação virão a densidade e factibilidade do
         projeto.
      “Por isso é possível dizer que o futuro são muitos”, pois eles
         nascem desses diversos arranjos.
   As precárias relações de trabalho e o aumento do desemprego
    dificultam o consumo e acabam funcionando como uma virada
    do feitiço contra o feiticeiro.
Outros usos possíveis para as técnicas
atuais
   Embora sejam atualmente direcionados a diminuir o escopo da
    vida humana, nunca houve conjunto de sistemas tão propícios a
    facilitar vida e a felicidade.
        A comparação com as técnicas utilizadas na
         industrialização traz uma idéia clara da docilidade
         das técnicas atuais.
        As máquinas exigiam investimento maciço, que
         gerava a concentração de capitais. Não eram
         flexíveis.
   Os computadores, símbolos das técnicas de informação, exigem
    capital relativamente pequeno e têm uso flexível – novo tipo de
    artesanato.
   Os computadores contradizem a lógica que
    dita que o avanço tecnológico gera
    concentração econômica.
    As técnicas contemporâneas tornaram-se,
    assim, mais fáceis de inventar ou reproduzir
    do que as das máquinas.
    Possibilitam a retomada da criatividade.
    A produção do novo passa a ser possível a
    um número crescente de pessoas e seu uso é
    popularizado.
    Geografia e aceleração da história

    As grandes cidades contribuem para os efeitos da vizinhança.
       Com mais informação disponível, maiores são as possibilidade de
        identificação das situações de escassez e das diferenças.
       A partir da ampliação da consciência, o indivíduo pode substituir
        sua busca por consumo pela busca por cidadania.
            A primeira busca o fortalecimento das condições materiais e
            jurídicas para possibilitar o bem-estar individual; a segunda, a
            reforma das práticas e instituições políticas.
   A precariedade e a pobreza inspira o uso consciente e criativo das
    técnicas.
    Como a mídia se dirige às pessoas, e elas não são homogêneas,
    poderá deixar de representar o senso comum.
       O resultado é uma informação mais verdadeira.
Um novo mundo possível
   As mudanças descritas tornam plausível pensar na
    produção local de entendimento local e mundial
    progressivo.
       Novo ethos, baseado na solidariedade.
   “A crise por que passa hoje o sistema, em diferentes
    países e continentes, põe à mostra não apenas a
    perversidade, mas também a fraqueza da respectiva
    construção.Isso, conforme vimos, já está levando ao
    descrédito dos discursos dominantes, mesmo que
    outro discurso, de crítica e de proposição, ainda não
    haja sido elaborado de modo sistêmico.”
A história apenas começa
    A humanidade como um bloco revolucionário
   Com sua recente entrada na história como um bloco é que a
    humanidade passa a poder identificar-se como um todo.
   A uniformidade da técnica e das políticas é um ponto positivo
    àqueles que pensam nossa época, pois permite, ao mesmo
    tempo, análises globais e localizadas.
   Nossa época é marcada pela liberação do homem frente à
    natureza: cada vez mais, os materiais usados em atividades
    preponderantes são manufaturados, não extraídos da natureza.
A nova consciência de ser mundo
     Os progressos da informação aproximam o
      mundo de cada indivíduo.

      O mundo se instala como diversidade, as
      cidades se formam com gente vinda de todas
      as culturas.

      O cotidiano se enriquece pela troca de
      experiências próprias e outras, fundadas em
      tradições completamente diferentes, mas
      vividas pelo vizinho de porta.
A grande mutação contemporânea
     As condições materiais para a grande
      mutação estão dadas, mas seu andamento
      depende da política.
      Talvez as técnicas sejam irreversíveis, mas
      seu uso e sua significação podem ser
      completamente diversas.
      Frente às discutidas mutações biológicas,
      defendemos a importância das mudanças
      filosóficas, capazes de atribuir novos sentidos
      à vida de cada um e à existência do planeta.

						
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