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os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas

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os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas Powered By Docstoc
					                     "os hereges devem ser esmagados
                        como serpentes venenosas"

(bula AD EXSTIRPANDA, publicada por Inocêncio IV em 1252)


(tópico da OMED criado e orientado por rubens zárate em
dez2011/jan.2012)


A história dos massacres e perseguições perde-se no tempo. Quase impossível para os
historiadores é levantar o número exato ou aproximado de vítimas da Inquisição. O banho de
sangue começou na Europa, mais precisamente em França, e se estendeu por países vizinhos.
Havia, por parte da Igreja de Roma, uma preocupação constante com a propagação do
Evangelho, com o conhecimento da Palavra, com a tradução da Bíblia em outras línguas.
Preocupação no sentido de proibir. Só pelo fato de um católico passar a ler as Escrituras estava
sujeito a ser considerado um herege e, como tal, ser excomungado e levado à fogueira. A
Bíblia era, assim, considerada um obstáculo às pretensões da Igreja de Roma, de colocar todos
os povos sob seus domínios.

1229 - o Concílio de Tolouse (França), o mesmo que criou a Inquisição, determinou: "Proibimos
os leigos de possuírem o Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda mais severamente que
estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As casas, os mais humildes lugares de
esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de homens condenados por possuírem as
Escrituras devem ser inteiramente destruídos. Tais homens devem ser perseguidos e caçados
nas florestas e cavernas, e qualquer que os abrigar será severamente punido." (Concil.
Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons 14:2).

Foi este mesmo Concílio que decretou a Cruzada contra os albigenses. Em "Acts of Inquisition,
Philip Van Limborch, History of the Inquisition, cap. 08, temos a seguinte declaração conciliar:
"Essa peste (a Bíblia) assumiu tal extensão, que algumas pessoas indicaram sacerdotes por si
próprias, e mesmo alguns evangélicos que distorcem e destruíram a verdade do evangelho e
fizeram um evangelho para seus próprios propósitos... (elas sabem que) a pregação e
explanação da Bíblia é absolutamente proibida aos membros leigos".

1866 - O Papa Pio IX, em sua encíclica "Quanta cura", em 8 de dezembro de 1866, emitiu uma
lista de oito erros sob dez diferentes títulos. Sob o título IV ele diz: "Socialismo, comunismo,
sociedades clandestinas, sociedades bíblicas... pestes estas devem ser destruídas através de
todos os meios possíveis".

A palavra herege origina da palavra grega "hairesis" e do latim haeresis e significa doutrina
contrária ao que foi definido pela Igreja Católica em matéria de fé. No que diz respeito
propriamente ao conceito de heresia, foi aceita a definição do teólogo medievalista M. D.
Chenu, de que herege é "o que escolheu’’ , o que isolou de uma verdade global uma verdade
parcial, e em seguida se obstinou na escolha. A heresia é uma ruptura com o dominante e ao
mesmo tempo é uma adesão a uma outra mensagem. É contagiosa e em determinadas

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condições dissemina-se facilmente na sociedade. Daí o perigo que representa para a ordem
estabelecida, sempre preocupada em preservar a estrutura social tradicional.

No fim do século XV, isto é, no início da época moderna, foi criada na Espanha uma instituição
que se inspirou nos moldes das que haviam funcionado na Europa durante a época medieval:
O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição.

Há contudo um fato importante que deve ser cuidadosamente anotado para que possamos
entender o complexo fenômeno da perseguição as heresias na Espanha e Portugal: a palavra
"heresia" adquiriu com o tempo diversas conotações, e para os inquisidores portugueses tinha
um sentido muito definido e específico, que estava registrado em seus regimentos. Diz
textualmente o Regimento da Inquisição de 1640, no Livro III, p.151: "contra os hereges e
apóstolos que, sendo cristãos batizadores, deixam de ter e confessar nossa fé católica". E
também contra os indivíduos "que confessam nela" ( na Inquisição ) "as culpas de judaísmo, ou
de qualquer outra heresia ou apostasia". É, pois, o português batizado, descendente de judeus
convertidos ao catolicismo e praticante secreto do judaísmo, um herege perante a Igreja
Católica em Portugal.
http://www.miniweb.com.br/historia/artigos/i_media/heresia_inquisi%E7%E3o1.html

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     O episódio ocorreu num dos grandes hospitais psiquiátricos do Rio.
     Uma cliente, pessoa simples, com baixo nível de escolarização e tida como louca, falava
     de sua vida em família. Dizia que um irmão tinha sido preso por tráfico de drogas e
     outro, morto pela polícia. Um dos terapeutas perguntou-lhe por que seu irmão havia sido
     morto. Ela respondeu: "Porque eles (os policiais) não gostam de gente"!

     De vez em quando é preciso dar ouvidos à desrazão. A onda de violência que vivemos
     hoje deve-se a incontáveis motivos. Um deles parece-me especialmente virulento: o
     desinvestimento cultural na idéia do "próximo". Muitos historiadores, filósofos e cientistas
     políticos referem-se ao "nascimento do próximo" como um evento particular ao Ocidente.
     Nem sempre o outro foi visto como próximo, ou seja, como alguém que, pelo simples
     fato de ser humano, é aceito como "um de nós". Este fato cultural surgiu com o
     cristianismo, prosseguiu no Renascimento, ganhou realidade político-jurídica nas
     Revoluções Americana e Francesa e continuou presente nos projetos liberal-democrático
     e socialista dos séculos 19 e 20.
     http://jfreirecosta.sites.uol.com.br/artigos/artigos_html/devoracao.html

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ENTREVISTA / FRANCISCO BETHENCOURT HÉLIO DANIEL

Inquisição: a multinacional da tortura

Francisco Bethencourt, historiador português radicado em Paris, veio
a São Paulo para o lançamento de seu livro História das Inquisições
(Ed. Companhia das Letras), um dos estudos mais completos sobre a
instituição repressiva católica que atuou em Portugal, Espanha e
Itália. JUDAICA entrevistou-o com exclusividade.

De que forma seu livro História das Inquisições vai além de
trabalhos anteriores, como dos historiadores Henry Kamen e de
Alexandre Herculano?
A pesquisa de Kamen é restrita à Espanha e seu impacto social da
Inquisição nesta nação. Herculano, por sua vez, estudou sobretudo o
período do estabelecimento da Inquisição em Portugal, incluindo as disputas
de bastidores entre a corte portuguesa e o Vaticano. Meu livro, além de
dispor de mais informações descobertas nas últimas décadas, ainda faz um
estudo comparativo sobre a instituição nos três países onde ela mais atuou,
desde o final do século XV até o princípio do século XIX.

Abordo temas até então pouco comentados em trabalhos anteriores,
mesmo por outros autores. Entre eles, as formas de organização, os rituais
e etiquetas, modelos de ação inquisitorial com o números de vítimas e, por
fim, as formas de representação através de imagens e pinturas da época,
tanto por parte dos inquisidores quanto por parte dos judaizantes e
protestantes.

De uma Espanha relativamente harmoniosa entre judeus, cristãos e
muçulmanos, vemos o aparecimento da intolerância e conflitos
sociais já no século XIV. Como analisa este fato?
A idéia de tolerância religiosa na Espanha medieval está sendo contestada,
sobretudo nos Estados Unidos. O momento de aparente tranqüilidade social
termina no final do século XIV e início do século XV, com as conversões
forçadas e as grandes pregações de San Vicente de Ferrer (de origem
judaica), aumentando as pressões sobre as comunidades judaicas
especialmente no norte do Espanha. A partir daí, os cristãos-novos passam
a ser estigmatizados pelos cristãos-velhos, criando um problema social e
religioso grave na sociedade espanhola. Mais ou menos na mesma época
acontecem os primeiros motins contra os judeus em Lisboa.

A Inquisição era uma instituição eclesiástica ou estatal?
Eclesiástica. A Inquisição era claramente um tribunal eclesiástico. Mas no
caso da Península Ibérica ela acaba por ter uma jurisdição mista e é
absorvida pelos organismos das monarquias de Castela e de Portugal,


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porque os reis propõem o inquisidor-geral. Nestes reinos, a Inquisição
consegue perpetuar-se, porque joga com esta dupla fidelidade.

O Estado se encarregava da execução das penas. Há uma sutileza no Direito
Canônico de que os eclesiásticos não podem condenar ninguém à morte.
Portanto a sutileza é esta: os eclesiásticos excomungavam os condenados -
e inclusive pediam clemência às autoridades civis, o que é o máximo de
hipocrisia - os enviavam para a justiça civil e eram imediatamente
executados. A excomunhão era uma sentença de morte.

Portugal foi o país que viveu mais intensamente o fenômeno
criptojudaico. Por isso mesmo a Inquisição foi mais terrível aos
judeus portugueses?
O primeiro aspecto é que a população de origem judaica está mais
concentrada em Portugal. O segundo aspecto é que há pela Igreja católica
uma hierarquia dos chamados "crimes". A pessoa que fosse acusada de
judaísmo (verídica ou supostamente) era considerada um apóstata. O seu
caso não era de heresia, mas de apostasia, o que significava abandonar
completamente a religião cristã. As pessoas acusadas de judaísmo tinham
as penas mais graves. O protestantismo, por sua vez, era apenas uma
heresia, pois ocorria dentro do cristianismo, logo, ficava abaixo da
hierarquia. As penas mais graves estavam reservadas ao judaísmo.

Quais as principais diferenças entre a Inquisição ibérica com a
italiana?
Os inquisidores em Portugal e Espanha são juristas, ou seja, clérigos
seculares formados em Direito Canônico. Na Itália os inquisidores são
basicamente dominicanos e franciscanos, com formação em Teologia. Em
ambos os casos a Inquisição funcionava como um trampolim para a carreira
eclesiástica.

Em Portugal, a Inquisição vai perseguir sobretudo os cristãos-novos. Cerca
de 80% dos processos portugueses dizem respeito aos cristãos-novos. Na
Espanha, a ação inquisitorial se dá mais intensamente no final do século XV
e início do XVI, dedicando-se depois a perseguir os mouriscos, muçulmanos
convertidos ao catolicismo. Logo em seguida, a perseguição se volta para os
cristãos-velhos dos campos por blasfêmias e heresias. E ainda numa outra
fase se voltam novamente contra os cristãos-novos que haviam entrado na
Espanha após a unificação das coroas ibéricas em 1580.

Na Itália, a Inquisição estava mais voltada aos conflitos entre as ordens
religiosas e às heresias, como no caso dos protestantes no norte. É, assim,
menos coesa e mais aberta à dinâmica de poder dentro da Igreja, onde se
constituía como um verdadeiro lobby. Nada menos de que três papas, no
século XVI, foram membros da Congregação do Santo Ofício em Roma. Da
mesma forma que o Santo Ofício elegia papas, também invalidava a eleição
de outros, como a do cardeal Moroni.

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Entre os historiadores há diferentes correntes sobre a Inquisição.
Quais são as principais e em que elas consistem?
A tese da instrumentalização social da Inquisição é defendida por Antônio
José Saraiva e Henry Kamen. A tese de Saraiva (marxista) considera que a
Inquisição era uma fábrica de judeus e a Inquisição era um instrumento da
aristocracia contra os cristãos-novos, formadores em parte da burguesia
anunciante. Nesta linha também está Herman Salomon. A tese da
mentalidade da época, defendida por Maria José Ferro, é uma teoria
perniciosa. Se a mentalidade da época fosse tão importante, se todos
participassem do mesmo esquema de valores, não existiria vítimas. As
vítimas existem e mesmo fora do judaísmo, como o padre Antônio Vieira e
entre os cristãos-velhos. Já Israel Salvador Revah considerava que os
cristãos-novos de origem judaica eram sinceros judeus que estavam numa
situação muito difícil e que continuavam com suas crenças. Por outro lado,
para Bentzion Netanyahu os cristãos-novos haviam renegados sua antiga
fé.

Qual a sua teoria, em particular?
Para mim a Inquisição não pode ser vista pela ótica marxista, porque havia
uma parte da nobreza e da Igreja que tinha relação de interesses com
cristãos-novos. Há diferenças dentro da aristocracia e dentro da burguesia.
A Inquisição não pode ser vista como uma instituição de um grupo contra
outro. Há uma pluralidade de situações que a envolve.

As funções dos Familiares do Santo Ofício eram semelhantes à do
Comissário: colher informações, investigar, confiscar, prender. Os Familia-
res constituíam uma rede semelhante à da Gestapo durante a Alemanha
nazista.

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A Igreja no Brasil Colônia: agentes da inquisição - Anita W. Novinsky
http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/2395

O Santo Ofício da Inquisição, apesar de não ter instituído no Brasil um Tribunal, nos
moldes de Portugal e da América Espanhola, teve uma profunda penetração na sociedade
colonial, que permanece ainda mal conhecida. Talvez o fato dos contemporâneos terem
nos deixado raras informações sobre a Inquisição no Brasil tenha levado os historiadores a
lhe darem tão pouca atenção. Com o acesso aos arquivos do extinto Tribunal português e
com a classificação dos milhares de documentos que estavam dispersos, tornaram se
possíveis as pesquisas sobre seu funcionamento e um quadro praticamente ignorado da
Igreja no Brasil começa agora a desvendar se. Ficamos assim sabendo que seu trabalho foi
possível devido à existência de um fiel corpo de agentes, especialmente nomeados,
conhecidos pelos nomes de Comissários e Familiares do Santo Ofício.


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Esses agentes eram funcionários da grande empresa inquisitorial, com sede em Lisboa, e
tinham como função principal auxiliar os inquisidores na sua missão "santa" de manter a
ortodoxia em todo o império português. Os Inquisidores eram informados sobre tudo o
que se passava na colônia brasileira, em termos de comportamento e de crença religiosa,
pois seus agentes fiscalizavam minuciosamente atitudes, linguagens, presenças, obras,
idéias, pertences. tudo que dizia respeito à vida e à morte dos indivíduos no Brasil.

Sobre os Comissários podemos dizer que, segundo o Manual dos Inquisidores, de Nicolau
Eymerich, deviam receber informações, delações e acusações sobre tudo que se
relacionava com a fé católica e os costumes. Ouviam as confissões, examinavam nas e
convocavam novas testemunhas, conforme o caso pedisse. Tinham o direito de prender os
suspeitos e encaminhá los ao Tribunal da Inquisição, onde seriam julgados. Segundo
Eymerich, o Comissário, juntamente com o Bispo, podia torturar o suspeito até obter a
confissão desejada. Mas não encontramos no Brasil nenhum caso de tortura para esses
fins; apenas extorsões, ameaças e algumas vezes disputas violentas. 0 Comissário podia
fazer tudo o que o Inquisidor fazia, quando este não se encontrasse fisicamente no lugar.
Mas a sentença definitiva pertencia sempre ao Inquisidor. Segundo o Manual citado, o
Inquisidor podia delegar seus poderes ao Comissário, mas aconselhava que reservasse a si,
pessoalmente, os casos relapsos e impenitentes, isto é, os casos em que devia condenar à
morte .

Os jesuítas tiveram na Inquisição do Brasil um desempenho importantíssimo. Nos lugares
onde, por qualquer circunstância, não havia Comissário, os reitores dos colégios da
Companhia serviam de Comissários, tendo todos os seus poderes. No Brasil, sua função foi
decisiva nos inquéritos, nas investigações, nas devassas. Os jesuítas foram na colônia os
grandes aliados dos Inquisidores. É importante lembrar que os jesuítas não tiveram
sempre um comportamento homogêneo dentro da Ordem e suas opiniões dividiam se
conforme o momento e os interesses (a relação dos padres da Companhia com a Inquisição
e os cristãos novos será abordada em outro trabalho). No Pará e Maranhão, por exemplo, o
primeiro Comissário da Inquisição, em 1663, foi o jesuíta padre Manuel de Lima e,
posteriormente, o padre João Felipe Bettendorf, autor da "Crônica da Missão dos Padres da
Companhia de Jesus no Estado do Maranhão" .
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                               Os crimes cometidos pela Igreja ibérica na época moderna e pelo
                          nazismo no século XX são encobertos pela tradicional judeofobia, que
                                          penetra cada vez mais fundo no inconsciente coletivo.
                                                                                Anita Novinsky

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UMA TRAJETÓRIA RACISTA: O IDEAL DE PUREZA DE SANGUE NA
SOCIEDADE IBÉRICA E NA AMÉRICA PORTUGUESA
http://periodicos.uesb.br/index.php/politeia/article/viewFile/270/303

Grayce Mayre Bonfim Souza*
∗ Professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutoranda em História Social pela Universidade Federal
da Bahia (Ufba). E-mail: graycebs@yahoo.com.br.


A judeofobia é um fenômeno histórico que se estende por vários séculos e se manifesta
em diferentes culturas. Ainda no período anterior ao surgimento do cristianismo,
elementos marcantes do judaísmo, como a circuncisão, o sabat, a abstenção de carne
suína, a asnolatria (adoração da cabeça de asno) e até mesmo o monoteísmo foram
vistos com estranheza e condenados por parte das populações que compuseram o
mundo greco-romano.

A estigmatização dos judeus tornou-se mais crítica a partir do momento em que o
cristianismo foi elevado à categoria de “religião do Ocidente”. Desde então, como
resume Maria Tucci Carneiro (2000, p. 7), o tratamento dispensado aos judeus foi
“caracterizado por três etapas: conversão, expulsão e eliminação”.

Em relação ao cristianismo, podemos dizer que, desde a Antiguidade, a sua relação com
o judaísmo foi bastante conflituosa, começando pela acusação de que os judeus seriam
os responsáveis pela morte de Cristo e deviam ser considerados, portanto, como um
“povo deicida”.

No final do Império Romano, embora a religião judaica fosse tolerada, os judeus
começaram a sofrer restrições e discriminações na vida civil: passaram a ser proibidos
de casar com cristãos, de servir no exército, de exercer cargos administrativos e de
praticar a advocacia.

No período que comporta os séculos V ao IX, alguns governantes civis e religiosos
buscaram adotar políticas de tolerância e não perseguição aos judeus. Os exemplos mais
claros foram o do papa Gregório I (590-604) – que não permitiu o ataque a sinagogas –
e o de Carlos Magno (771-814).

Entretanto, a partir do fim do período carolíngio, a política antijudaica se tornou parte
integrante e importante de um projeto da Igreja cristã do Ocidente, de solidificação da
hegemonia e unidade monolítica da fé.

É nesse contexto que se verifica, na Península Ibérica, a ampliação das acusações com
relação à chamada “gente da nação”. Os judeus foram, desde então, considerados
responsáveis por terremotos, culpados por envenenamento de cristãos, acusados de
ajudar a resistência moura, na Península Ibérica, e a ocupação normanda, no norte da
França; foram responsabilizados, também, pelo fenômeno da peste negra, que assolou
parte da Europa no século XIV,(1) e por outras epidemias.
1 “Durante a peste negra, um certo número de pogroms foi perpetrado na Renânia pelos flagelantes, bandos de penitentes místicos logo
combatidos pela Igreja, mas que se tomavam por cristãos de elite. Além disso, as próprias autoridades religiosas não haviam anteriormente
sugerido que os judeus podiam ser envenenadores? Desde 1267 os concílios de Breslau e de Viena tinham proibido os cristãos de comprar
víveres dos israelitas”
(Delumeau, 1993, p. 283).




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As Cruzadas também estimularam o fanatismo antijudaico – embora muitos papas
tivessem condenado a perseguição – e a literatura e o teatro se encarregaram de deixar
para a posteridade a imagem que os homens e as instituições faziam dos judeus na
Península Ibérica durante o período medieval.

Os boatos e acusações contra os judeus só aumentavam: torna-se corrente a “circulação
do mito do assassínio ritual de um cristão para misturar o seu sangue ao pão ázimo na
Páscoa” (Lopez, 1993, p. 66).

São reincidentes também as acusações de profanação da hóstia, de envenenamento de
poços de água etc. No final da Idade Média, a perseguição se fundamenta na associação
entre o sabat dos judeus e as cerimônias rituais das bruxas.
Um judeu não podia ter servidores cristãos e nem bens imóveis, o que dificultava o seu
acesso à agricultura; por força das expulsões às quais estava continuamente sujeito, só
poderia ter um patrimônio fácil de carregar.

Dentre outras limitações e humilhações impostas aos judeus, pode-se citar a
obrigatoriedade de utilização da rodela (círculo de pano amarelo sobre a roupa), o
confinamento em guetos e a acusação de avidez, de ganância e de exercício de práticas
de usura. Em Avignon, eles só podiam sair às ruas utilizando brincos e, na Pérsia,
durante o século XVI, para sair de casa, deveriam carregar uma tora de madeira.

Em 1628, Felipe III de Portugal fez algumas concessões possibilitando, por exemplo, o
casamento entre judeus e cristãos em troca de grandes quantias.

Porém, a reação de setores da população foi tão ferrenha que o rei foi obrigado a rever
suas decisões. Os judeus foram, então, acusados de provocar os males do reino.
Divulgava-se, por meio de escritos, que eles “eram os culpados pelo enfraquecimento
do valor lusitano, por terem inoculado o judaísmo, religião e raça, ou ainda, que o
tinham debilitado pelo amor do luxo e das riquezas incutidos ao povo” (Salvador, 1976,
p. 4-5).

As humilhações às quais os judeus estavam submetidos não eram atitudes aleatórias de
governantes, religiosos ou da população cristã-velha; eram, antes de tudo, práticas
institucionalizadas por meio de editos, decretos e Ordenações.

As “Ordenações Filipinas”, versão atualizada das “Ordenações Manuelinas”,
promulgadas no governo de Felipe II, no ano de 1603, determinavam:

Os Mouros e Judeos, que em nossos Reinos andarem com nossa licença, assi sejão
conhecidos, convém a saber, os judeos carapuça, ou chapeu amarello, e os Mouros
huma lua de panno vermelho de quatro dedos, cosida no hombro direito, na capa e no
pelote.

E o que não trouxer, ou o trouxer coberto, seja preso, e pague pola primeira vez mil réis
da Cadèa. E pola segunda dous mil réis para o Meirinho, que o prender. E pola terceira,
seja confiscado, ora seja captivo, ora livre.2
2 Ordenações Filipinas, Livro V, Titulo XCIV, p. 1243. Compilado da edição de Cândido Mendes de Almeida (Rio de Janeiro, 1870).




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O advento das Reformas Protestantes não modificou significativamente a situação dos
judeus. Embora, nos países calvinistas, tenham sido adotadas políticas de tolerância
religiosa, nas demais regiões protestantes manteve-se o quadro de intolerância e
perseguição:

No século XVI, nas regiões calvinistas e nos países anglo-saxões, adotouse uma política
de tolerância em relação aos judeus, os quais, inclusive, se tornaram um dos temas
preferenciais da arte de Rembrandt. A tolerância calvinista era resultado da afinidade
ideológica, já que eles valorizavam, de um modo muito especial, o Velho Testamento.
Quanto a Lutero, em 1523, conclamou a aceitação dos judeus, mas, anos mais tarde, em
1542, exigiu a destruição das sinagogas e a expulsão deles, presumivelmente frustrado
em seus esforços para convertê-los (Lopez, 1993, p. 69).
...

Mesmo entre os iluministas, de propalados ideais racionalistas e deístas, é possível
observar, em que pesem algumas condenações à discriminação aos judeus,
manifestações racistas e preconceituosas, que prolongam convicções exibidas por
intelectuais e teólogos dos séculos anteriores. Somente com a Constituição Francesa de
1791 os judeus teriam acesso a um estatuto jurídico de plena cidadania.

O Iluminismo não alumbrou, na mesma hora, todos os desvãos da intolerância. Mesmo
na França manteve-se um ranço medieval na pregação humanista dos filósofos, que
combatiam as perseguições mas conviviam com preconceitos. Como todos os avanços,
foi uma coleção de ambigüidades. Montesquieu ridicularizou a Inquisição mas
registrou que “em qualquer parte que haja dinheiro, há judeus” (XL). No Espírito das
Leis (XXV, 13), ataca o SO [Santo Ofício], mas não hesita em propor a segregação dos
judeus em uma cidade fronteiriça com a Espanha, entreposto racial e de comércio.
Voltaire disfarçava seu racismo com o ódio ao sectarismo religioso, do qual o judeu
seria exemplo: “Se se pode conjeturar sobre o caráter de uma nação pelas preces que
faz a Deus, percebe-se facilmente que os judeus são um povo sanguinário” (Ensaio
sobre os Costumes das Nações). Diderot, em nome da tolerância, inimiga das religiões,
fustigava judeus e galileus. Dos 618 verbetes do Dictionnaire Philosophique, cerca de
trinta denegriam os judeus e um destes assim terminava: “porém não se deve queimá-
los”. Rousseau, o idealista, também cometeu seu pecadilho iluminado: judeus são “o
mais vil dos povos” [...] (Dines, 1992, p. 78).

Nas monarquias ibéricas do Antigo Regime, o preconceito histórico contra os judeus foi
coroado com o racismo institucionalizado, como se pode atestar a partir de diversas
disposições das Ordenações do Reino,(3) dos Estatutos das Ordens Militares, Religiosas
e de Misericórdia e dos Regimentos da Inquisição.(4)
3 Segundo Daniela Calainho, “nas Ordenações Manuelinas de 1514/1521 os cristãos-novos passaram a
ser discriminados na vida pública e religiosa, considerados como ‘filhos da maldição’, supostamente
obstinados no ódio à Fé Católica e na promoção dos 'grandes males’ e ‘blasfêmias contra o Reino’. Seu
‘sangue impuro’ transformava-os em um grupo de párias, tomando o lugar dos judeus enquanto foco de
estigma e perseguição, expressos num rol de medidas legais que só tendeu a aumentar a partir do século
XVI, generalizando-se, portanto, os estatutos de pureza de sangue no mundo lusitano que iriam englobar
todas as instituições portuguesas.
Os judeus e cristãos-novos de Portugal sofreram toda a sorte de interdições: em 1499 iniciaram-se as leis
anti-emigratórias; em 1514 foram proibidos de ocupar cargos públicos e, a partir de 1529, de ingressar em
ordens militares; a partir de 1581 não mais se podiam casar com cristãos-velhos; a partir de 1600 não lhes

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foi mais permitido ingressar nas misericórdias; em 1604, vedou-se-lhes o acesso à Universidade de
Coimbra e, em 1671, impôs-se aos cristãos-novos a proibição de exigirem Morgados. [...] Nas
Ordenações Manuelinas de 1514 a inabilitação passou a incluir, além daqueles, os ciganos e descendentes
de índios ou ‘mamelucos’ [...]. As Ordenações Filipinas de 1603 ampliaram o estigma para os mulatos e
negros, também considerados, a exemplo dos cristãos-novos, mouriscos e índios, ‘raças infectas’ nos
domínios d’El Rei”. (Calainho, 1992, p. 38-39)

4 Diferentemente da Inquisição Espanhola (regida pelo Manual dos Inquisidores de Nicolau Eymerich e
por normas compiladas da época do Inquisidor-mor Tomás de Torquemada), a Portuguesa foi regida por
quatro Regimentos (1552, 1613, 1640, 1774) elaborados de acordo com o contexto de cada momento. Por
meio destes regimentos podemos conhecer os ritos, cerimônias, etiquetas, formas de organização,
modelos de ações e sistemas de representações, mecanismos de orientação para o funcionamento do Santo
Ofício e atribuições de seus agentes.

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imaginários de destruição
por luiz nazario - crítico de cinema, doutor em história social pela universidade de s. paulo

Foi acompanhando, na adolescência, um seminário sobre o filme documentário do ‘Terceiro
Reich’ ministrado por Jean Claude Bernardet que descobri a dimensão política do mundo. A
projeção de alguns filmes de propaganda nazista fez-me compreender a essência do mal. Mais
tarde, seguindo outra mostra de documentários nazistas, coordenada por Matthias Riedel e
Silvio Tendler, comecei a aprofundar-me no estudo do nacional-socialismo.

A visão de uma cópia de Verwethe Spuren (A peste em Paris, 1937), de Veit Harlan,
encontrada nos anos de 1980 pelo colecionador de filmes Alceu Massini, de Santo André, e
que ele me projetou na sala de cinema de sua casa, despertou-me o interesse em desvendar
os mecanismos da propaganda nazista embutida no cinema de ficção. Já neste neste sentido
colaborei com Massini, junto à imprensa, na organização de uma sessão aberta daquele filme
no auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP). O enigma do nacional-socialismo, que os
historiadores tentavam em vão decifrar, parecia-me mal iluminado pelas falhas interpretações
dadas à forma que a propaganda nazista assumiu no cinema, sobretudo no filme de
entretenimento.

Eu havia apresentado, a 12 de julho de 1989, uma dissertação de mestrado à Universidade de
São Paulo (USP), orientada por Anita Novinsky, sobre Autos-da-fé como espetáculos de
massa, que mostrava como a propaganda antissemita, disseminada pela cultura de massa da
época, monopolizada pela Igreja, conduziu, na Península Ibérica, à destruição moral e física
dos judeus; as pesquisas para essa dissertação ajudaram-me a identificar as estruturas
originais do totalitarismo, fornecendo-me os conceitos básicos para abordar a modelagem do
imaginário coletivo da Alemanha nazista pela propaganda antissemita, disseminada pela
cultura de massa (imprensa, rádio, cinema) controlada pelo Ministério do Esclarecimento
Público e da Propaganda de Joseph Goebbels, e que culminou nos rituais de destruição moral
e física de seis milhões de judeus da Europa nos campos de concentração, trabalho e
extermínio montados pelo ‘Terceiro Reich’.

Na Península Ibérica à época da Inquisição, a cultura de massa, monopolizada pela Igreja,
havia conduzido à destruição dos cristãos-novos. Da mesma forma, na Alemanha nazista, a
cultura de massa, monopolizada pelo Estado, conduziu à destruição dos judeus. Mas havia
uma diferença entre esses dois totalitarismos antijudaicos: as vítimas da Inquisição foram
presas, garroteadas e queimadas após demorados processos individuais, numa perseguição
que durou séculos na meta do extermínio ou da conversão in extremis, sendo os cristãos-
novos tratados, apesar de tudo, como “seres humanos”, ou corpos portadores de alma, por
mais “diabólica” que ela fosse aos olhos dos inquisidores, dos carrascos e das gentes que
gozavam ao ver os relapsos queimarem nos autos-de-fé públicos e gerais; já as vítimas do
nazismo foram exterminadas secretamente e em massa, sem processos, indistintamente como
reses num matadouro, peças de carne sem alma, numa linha industrial de montagem,

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empacotamento em série, em doze anos de terror concentrado, na meta de um extermínio sem
qualquer ilusão de salvação.

http://tesededoutorado.wordpress.com/2011/01/15/introducao/


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rubens zárate (comentários de )
"O que se critica na inquisição, mais do que a morte
de milhares de pessoas, é a morte de milhares de pessoas em nome de Deus "


isso.

nem assírios, nem persas, nem gregos, nem macedônios, nem romanos
justificavam a violência pela necessidade de combate à heresia,
ao desvio da 'verdade'.

indo além - se substituirmos a palavra 'deus'
por 'progresso', 'razão' ou 'civilização' (a 'verdade'),
 teremos um retrato da intolerância contemporânea instituída.
...
outro ponto importante de controvérsia sobre a Inquisição é o período
em que ela se desenvolveu.

para muitos, o termo “inquisição” remete à Idade média - o que não é
totalmente errado, uma vez que foi nesse período histórico que ela
existiu por curto período.

mas foi na modernidade que a inquisição foi recriada como máquina
de extermínio - foi no momento da revolução científica moderna
que o Santo Ofício mais perseguiu e mais realizou execuções.

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 “A Igreja fazia uma tremenda propaganda do demônio. Ele estava em toda parte...”

 Carioca nascido em 1956, o historiador Ronaldo Vainfas é um profundo conhecedor dos
documentos inquisitoriais, está sempre à procura dos rastros de personagens do passado e
recheia esta entrevista com os mais variados “causos”. Contrariando o senso comum, ele
garante que os chamados “desvios sexuais e morais foram muito mais perseguidos do que a
feitiçaria”.

REVISTA DE HISTÓRIA Como a feitiçaria era vista na Europa na época moderna?
RONALDO VAINFAS A feitiçaria era um dos maiores inimigos da Igreja, da cristandade e das
monarquias. Essa perseguição já vinha ocorrendo desde a Baixa Idade Média, mas isso se
intensificou na modernidade, com o fortalecimento dos Estados e de uma política de
cristianização adotada pelas igrejas protestante e católica. As religiosidades populares que
escapassem aos cânones das igrejas oficiais eram consideradas como feitiçaria. E mesmo


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estadistas escreveram que o demônio era o maior inimigo do rei. Não era só um fenômeno
religioso.

RH Bruxaria e feitiçaria eram sinônimos?
RV A bruxaria aludia mais à relação de pacto com o demônio. A feitiçaria ficava em um
território mais vago, de práticas mágicas. Veja bem: a própria Inquisição trabalhava com a
noção de pacto tácito e pacto explícito. A ideia de pacto tácito dizia respeito ao território
dos feitiços. Era aquele em que a pessoa firmava o pacto sem saber, sem passar pelos rituais
indicados pelos demonólogos, como, por exemplo, a cópula com o diabo. Caso isso ocorresse,
era configurado o pacto explícito. Os inquisidores arguiam muito sobre as circunstâncias desse
acordo, especialmente sobre a ocorrência da cópula.

RH Como essas práticas atravessaram o Atlântico?
RV Os primeiros casos de bruxaria ou de feitiçaria no Brasil ainda eram muito típicos do que
acontecia na Europa. Ainda não se fazia sentir o sincretismo religioso que marcaria a nossa
formação cultural a partir do século XVI. Aliás, quem tratou desse assunto com muita
propriedade foi Laura de Mello e Souza em seu clássico O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Com
o tempo, a feitiçaria se tornou mais sincrética. Ou seja: é preciso ter cuidado quando nos
deslocamos da Europa para a Colônia. O universo das religiosidades era muito mais
diversificado e multifacetado deste lado do Atlântico. Não se trata de uma religiosidade que
traz resíduos de paganismo, como na Europa, mas um fenômeno muito maior, marcado pelos
encontros com as religiões indígenas e, pouco depois, com as africanas, e as próprias crenças
populares portuguesas.

RH Os colonos desrespeitavam as normas católicas de maneira consciente?
RV Eles não desconheciam as normas de uma maneira geral, mas consideravam perfeitamente
lícito fazer esse tipo de combinação entre santos e demônios. Eu me lembro do caso de um
indivíduo que respondia a um processo da Inquisição porque usava bolsa de mandinga. Ele
acabou confessando que fazia mesmo acordos com o demônio e que não via nenhum problema
em servir nem a este, nem a Deus. Quando queria coisas boas, virtuosas, pedia a Deus.
Quando eram coisas um pouco mais sórdidas, ele se dirigia ao demônio.

RH Não foi a Igreja que introduziu a ideia de demônio?
RV Claro. A Igreja fazia uma tremenda propaganda do demônio. Ele estava em toda parte,
mesmo se a pessoa não percebesse. Podia assumir a figura que quisesse. Há quadros da época
mostrando pessoas aparentemente inofensivas, com umas patinhas indicativas de que, na
verdade, tratava-se do demônio. Até mesmo as chamadas visionárias, freiras que haviam sido
supostamente tocadas pela Graça (a Virgem ou o Cristo), passavam por todo um escrutínio.
Era preciso estar atento ao que elas diziam e como o faziam.

RH As visões poderiam ser manifestações da Graça ou do demônio?
RV Pois é. Às vezes, as visionárias falavam coisas lascivas que Cristo teria dito. Isso era
indicativo de que o demônio havia passado por ali. Coisas como declarações de amor. Se há
erotização, o demônio está presente. O modelo, digamos, teórico para se averiguar a licitude
de uma visão beatífica era o da Teresa de Ávila. Ela explicou com detalhes como era a visão,
qual era o estado (êxtase), quais eram os pré-requisitos, etc. O que não deixa de ser curioso,
porque os textos da Teresa de Ávila são muito sensuais. É uma espécie de erótica celeste,
mas com uma linguagem excessivamente ardorosa. E, neste sentido, o historiador tem que ter
muito cuidado, pois encontramos coisas como: “meu querido, meu amado, eu gozo só de
sentir a sua presença”. Imagina o resultado de uma leitura desatenta e pouco erudita de
alguém que não saiba, por exemplo, dos mistérios gozosos?

RH Por que essa predominância das mulheres na prática da bruxaria e da feitiçaria?
RV Difícil dizer. No discurso, há uma demonização muito maior do sexo feminino. Isso é
inegável, tanto para o mundo católico quanto para o protestante. As mulheres eram
consideradas vulneráveis, mais propensas às seduções e artimanhas do demônio. Se fôssemos
fazer uma metáfora disso no corpo humano, eu diria que os homens são o alto, a cabeça. As
mulheres são o baixo. E o demônio gosta de entrar por baixo. Inclusive, nos tratados de
demonologia, um dos elementos mais importantes a serem detectados para descobrir o pacto

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é a cópula. Então, as mulheres têm o perfil, o physique du rôle para fazer essa aliança com o
demônio. Isso tudo no discurso.

RH E na prática?
RV Eu não saberia dizer. A verdade é que muitos homens foram acusados de feitiçaria. Na
Europa, esse clima de pânico, de histeria, que as igrejas disseminaram teve um efeito
deletério nas relações sociais. Essa atmosfera acabou desembocando em acusações de
feitiçaria ou de bruxaria contra uma série de pessoas. E, assim, assuntos que se resolviam na
comunidade ou na instituição, conforme suas respectivas regras, começaram a exigir a
intervenção dos poderes estatais, fossem eles seculares ou eclesiásticos. Muitos homens
foram acusados. Mesmo no Brasil, vários foram presos e processados por acusações desse tipo.
Talvez tenha havido uma predominância das mulheres em termos estatísticos, mas essa
presença não é tão maior, ao contrário do que poderíamos supor inicialmente.

RH É fácil estudar as práticas mágico-religiosas dos negros escravizados?
RV É dificílimo estudar as religiosidades africanas. Para início de conversa, é muito
complicado identificar a proveniência de determinadas crenças. Todos os historiadores que se
debruçam sobre as africanidades no campo religioso a partir dos papéis do Santo Ofício
esbarram nesse problema. Nós conseguimos alcançar uma africanidade evidente, mas
genérica, com uma consistência antropológica muito frágil.

RH E os índios?
RV No caso dos índios, o grande movimento que se tem documentado é a Santidade de
Jaguaripe, no sul da Bahia. Foi um movimento, no século XVI, de restauração das tradições
tupinambás por parte de índios já cristianizados. Acabou se tornando uma manifestação de
resistência à escravidão. Os índios incendiavam engenhos e igrejas. Seus pregadores diziam
mesmo que, com o triunfo da Santidade, os portugueses seriam todos mortos ou se tornariam
escravos. Era uma resistência a um só tempo social e cultural dos índios ao colonialismo.

RH Como os inquisidores lidaram com este movimento?
RV Eles não entendiam rigorosamente nada do assunto. E tudo ficou ainda mais nebuloso
quando o núcleo da Santidade acabou protegido por um grande senhor de engenho da Bahia.
Como era possível que uma suposta seita que pregava o fim dos portugueses, ou mesmo a
escravização deles, vai abrigar-se na terra de um senhor de escravos, que também não
entendia nada da cultura tupinambá? O interessante é que todo este processo foi muito
documentado. As partes envolvidas não se entendiam. Tudo tinha de ser anotado. Então, a
riqueza etnográfica dos papéis ligados à Santidade da Bahia é muito grande. A verdade é que
eu tive muita sorte ao estudar o tema, assim como um dos meus maiores inspiradores, Carlo
Ginzburg.

RH Como assim?
RV Ginzburg teve muita sorte na feitura de um de seus livros mais importantes, I Benandanti
[Os andarilhos do bem: feitiçarias e cultos agrários nos séculos XVI e XVII]. E isso porque,
como no caso da Santidade na Bahia, tudo foi minuciosamente anotado pelos inquisidores.
Eles não entendiam como aquelas pessoas, que aparentemente faziam cerimônias diabólicas,
na verdade estavam combatendo bruxas para salvar as colheitas. Os Benandanti eram
andarilhos que praticavam cultos de fertilidade. A Inquisição não entendia como aquilo
funcionava. Por isso que o Carlo Ginzburg escreveu um artigo muito interessante chamado “O
inquisidor como antropólogo”.

RH A documentação inquisitorial pode distorcer o olhar do pesquisador?
RV Claro. Nós temos que estar atentos a isso. Os processos inquisitórios se compõem de várias
peças. E algumas delas são melhores para uma leitura histórico-antropológica do que outras.
Sobretudo aquelas que implicam diálogo. Agora, alguns documentos são pobres em
informação etnográfica. As sentenças inquisitoriais, por exemplo, costumam ser
espetaculosas.



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RH Os processos eram montados de maneira fidedigna?
RV Eram montados segundo a norma do regimento. E os inquisidores, de maneira geral,
seguiam os procedimentos regimentais. Mas tudo nos estilos do Antigo Regime. O indivíduo
era considerado culpado até provar a sua inocência. Soa completamente absurdo hoje, mas
na época era perfeitamente legítimo. Havia outras regras. Muitas vezes os réus solicitavam
revisões, o que levava a Inquisição a fazer diligências que alongavam o processo. Isso foi
mudando ao longo do tempo.

RH Em que sentido?
RV Os inquisidores do século XVI estavam perfeitamente convencidos da existência do perigo
do demônio e de outras heresias. Os inquisidores já da segunda metade do século XVIII não
estavam. Eles já pertenciam a uma instituição que tinha sobrevivido por inércia e por
conveniências do poder. E os regimentos, mesmo o processo do século XVIII ou a ciência dos
próprios inquisidores, haviam mudado. O mundo tinha mudado. Veja: a visitação no Grão-Pará
em 1763, já no século XVIII, é bem diferente da de 1591 na Bahia.

RH Poderia falar um pouco sobre a visitação no Grão-Pará?
RV Esta foi uma Inquisição mais secularizada. É claro que havia muito de tradicional na
visitação do Grão-Pará. Tem casos incríveis de pessoas que foram mandadas para Portugal
para serem investigadas sobre o pacto diabólico. Muitos indígenas foram denunciados por
casos de bruxaria e feitiçaria. Muitos mesmo. Era uma coisa espantosa. Nem os inquisidores
portugueses acreditavam mais nisso, mas era preciso seguir os procedimentos.

RH Os casos de feitiçaria e bruxaria são os mais frequentes nos documentos da Inquisição?
RV Não. Eles não ocupariam lugar de destaque no conjunto dessa documentação. Isso porque
a perseguição à bruxaria no caso português foi muito frouxa. Os desvios sexuais e morais
foram muito mais perseguidos do que a feitiçaria, mas muito abaixo do judaísmo. O mesmo
aconteceu no Brasil. São poucos os processos relacionados às religiosidades coloniais,
sincréticas. Teria sido um verdadeiro banquete para a Inquisição se ela tivesse essa
prioridade. Eu vou dar um exemplo: o Acotundá, uma casa de santo nas Minas Gerais do
século XVIII, que foi muito estudada pelo antropólogo Luiz Mott. O Acotundá foi muito bem
documentado a partir das diversas denúncias feitas na época. Mas o que a Inquisição fez com
esse caso? Nada. Assim como outras acusações feitas a africanos, de portar ou fazer bolsas de
mandinga para fechar o corpo, etc.

RH Por quê?
RV Simples: porque não era possível conservar o sistema colonial e a escravidão e ao mesmo
tempo perseguir religiosidades sincréticas e africanas. Caso contrário, quantos escravos iriam
acabar tragados pela máquina inquisitorial? Muitas vezes, os senhores escondiam os escravos
acusados. E a Inquisição não tinha sequer um tribunal estabelecido no Brasil e dependia de
uma máquina muito mais lenta, não tinha força para desafiar o poder senhorial.



RH Então a escravidão acabou protegendo as religiosidades africanas?
RV Eu diria que sim. Mas por interesses senhoriais. Os senhores não queriam ter seus escravos
envolvidos com a Inquisição. Existem casos em que os escravos foram presos, processados e
penalizados sem direito a indenização. O senhor ficava literalmente a ver navios. Há um caso
incrível em Minas Gerais. O nome da moça era Luzia da Silva Soares. Ela foi acusada de ter
feito malefícios na casa senhorial e causado a morte de um recém- nascido. A escrava acabou
sendo barbaramente torturada pelos senhores para confessar o fato de ter feito um pacto
diabólico. Ela foi estropiada. A certa altura, quando ela já não prestava mais para nada de
tanto que a vilipendiaram, um parente do senhor de Luzia, que era familiar do Santo Ofício,
levou-a para a Inquisição. A jovem se recuperou, respondeu ao processo e acabou inocentada.
Ela só admitiu aquilo porque estava sob tortura. Então, não só a absolveram como também a
alforriaram. É um caso incrível.

RH A documentação inquisitorial ainda pode apresentar novidades para os estudiosos?
RV Acredito que sim. O Luiz Mott tem feito estudos de como era o tribunal em várias
capitanias. Esse tipo de pesquisa ainda não foi feito. Os chamados Cadernos do Promotor da
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Inquisição de Lisboa, uma coleção de códices com acusações dos mais variados delitos,
também são uma fonte ainda pouco explorada. Porém, o mais importante é o fascínio que os
temas ligados à ação da Igreja, inclusive do ponto de vista institucional, ainda exerce sobre os
pesquisadores brasileiros. Um exemplo claro desse fascínio e de como coisas novas ainda
podem surgir por aí está no trabalho da Daniela Calainho [Metrópole das Mandingas:
religiosidade negra e Inquisição portuguesa no Antigo Regime]. Ela conseguiu autorização para
abrir uma bolsa de mandinga que estava dentro de um processo.

RH E o que a bolsa continha?
RV Coisas como unhas, cabelo, pedaços de ossos de defuntos. Tudo já muito apodrecido. Uma
coisa incrível. Aliás, os grandes mandingueiros eram homens. Isso vale dizer. A bolsa era uma
espécie de patuá da população africana da região do Sudão, já parcialmente islamizada, mas
ainda apegada a cultos fetichistas. Era uma bolsinha discreta ou um sachezinho com uma
tirinha para proteger. A Daniela mostra que, à medida que a bolsa de mandinga vai se
expandindo pela África subsaariana, ela vai aumentando de tamanho e de ingredientes, não
só físicos, como culturais. Começam, por exemplo, a entrar ossos, que têm ligação com o
culto de ancestrais, e a pedra de ara, um elemento importante para os cristãos. Nós ainda
não descobrimos documentação que trate desses bastidores da bolsa de mandinga. Só a
conhecemos quando ela já é um produto acabado. Mas é muito interessante, não é?

RV Mas vocês não me perguntaram se eu acredito no demônio.
RH O senhor acredita?
RV Acredito! (risos)

RH O que a inquisição veio fazer no brasil?
RV A Inquisição portuguesa só passou a frequentar as terras brasileiras no final do século XVI.
Entre os anos 1540 e 1560, só houve dois casos: o do donatário de Porto Seguro, o blasfemo
Pero do Campo Tourinho, e o do francês calvinista Jean de Bolés. O primeiro foi enviado para
Lisboa a ferros, e o segundo, preso pelo bispo da Bahia, que tinha jurisdição sobre as
heresias. Foram ocorrências isoladas e desvinculadas da preocupação maior do Santo Ofício
lusitano desde a sua criação: perseguir os cristãos-novos judaizantes.

A estreia da Inquisição no Brasil ocorreu em 1591, com a primeira visitação do Tribunal de
Lisboa à Bahia e a Pernambuco. Justifica-se: na segunda metade do século XVI, o Brasil
recebeu muitos cristãos-novos envolvidos com a nascente economia açucareira. Eles viveram
em paz durante décadas. Muitos continuaram a professar o judaísmo nas sinagogas
domésticas, além de se unirem, pelo matrimônio, com os cristãos-velhos. A ameaça de índios
na terra e de piratas no mar funcionava como força de coesão.

Tudo mudou com a chegada da visitação, que integrou nova estratégia inquisitorial, em
tempo de União Ibérica, voltada para o Atlântico hispano-português. A estreia do Santo Ofício
no Brasil amedrontou mais do que prendeu os cristãos-novos, embora tenha destroçado a
sinagoga de Matoim, no Recôncavo Baiano. Em todo caso, deixou um rastro deletério,
rompendo a solidariedade cotidiana que unia cristãos-velhos e novos da Colônia.

Ao longo do século XVII, outras visitações deram seguimento à ação inquisitorial, reforçada,
no século XVIII, pela consolidação de uma rede de familiares e comissários, além da justiça
eclesiástica, que pinçava suspeitos de heresia em suas visitas diocesanas. Foi esta a máquina
que viabilizou a Inquisição no Brasil, resultando no seguinte balanço: 1.074 presos, sendo 776
homens e 298 mulheres; 48% deles e 77% delas eram cristãos-novos acusados de judaizar; a
grande maioria dos homens presos (62%) morava na Bahia, em Pernambuco e no Rio de
Janeiro, enquanto a maioria das mulheres (54%) vivia em terra fluminense, seguidas de longe
pelas mulheres da Bahia (14%).



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O auge da ação inquisitorial ocorreu na primeira metade do século XVIII (51% dos presos).
Vinte homens e duas mulheres da Colônia foram queimados em Lisboa, todos por judaizar.
Dentre eles, o dramaturgo carioca Antônio José da Silva (1739) e a octogenária Ana Rodrigues,
matriarca do engenho de Matoim. A velha sinhá embarcou para Lisboa acompanhada de uma
escrava e morreu no cárcere em 1593. Nem assim ela escapou da fogueira. O Santo Ofício
desenterrou seus ossos para queimá-los em auto de fé, no Terreiro do Paço.

Ronaldo Vainfas é professor da Universidade Federal Fluminense e autor de Trópico dos
pecados (Civilização Brasileira, 2010) e organizador de Confissões da Bahia. São (Companhia
das Letras, 2005).

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rubens zárate (comentários de)
sim, a inquisição deixou um forte legado para a mentalidade moderna.

diversos autores têm apontado o caráter inquisitorial
das perseguições políticas, ideológicas & culturais
ao longo do século XX - entre elas,
na alemanha nazi & na urss stalinista.




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Inquisição à brasileira: sucesso ou fracasso?

Biblioteca Fazendo História traz Vainfas e Lana Lage a um debate
caloroso sobre o Santo Ofício no Brasil e suas supostas influências até
hoje

Alice Melo 14/10/2011

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/inquisicao-a-brasileira-sucesso-ou-
fracasso




                       Ronaldo Vainfas, Marcello Scarrone e Lana Lage

Uma brasa acendeu no debate “Inquisição à brasileira”, que reuniu Lana Lage da Gama Lima
e Ronaldo Vainfas, na última quinta-feira (13/10/2011) na Biblioteca Nacional. Comedidos, os
colegas discutiram sobre a ação do Tribunal do Santo Ofício no Brasil e seus possíveis
resquícios nos dias de hoje. De um lado, Vainfas chamava a Inquisição de “frouxa”, afirmando
que a instituição no Brasil foi um tremendo fracasso; de outro, sem concordar com o termo
pejorativo utilizado pelo professor mas aderindo à ideia geral, Lana reforçava a
predominância de uma mentalidade inquisitorial na Justiça do país e em suas formas de ação
nos interrogatórios atuais – o que fez Vainfas “acatar”, mas não compartilhar da mesma
opinião.

 “A tradição do processo inquisitorial se mantém no Brasil como um processo acusatório, em
que se identifica primeiro o suspeito para depois provar a inocência dele”, conta Lana, mas
acrescenta que não está falando de violência policial. “Estou falando do inquérito policial, na
medida em que se caracteriza por uma processualística que é ilegal do ponto de vista da
tortura do porão. A tortura é praticada e é legitimada na sociedade como uma forma de
investigação. E isso vem em parte, sim, do Santo Ofício”, finaliza.

A teoria não agradou muito a Vainfas, que não concorda em atribuir apenas à Inquisição os
traços de brutalidade na investigação policial no Brasil. Para ele, muito teria sido importado
do próprio modelo da escravidão, como a tortura nos anos de ditadura.

Mas Lana reitera a condição das características do tribunal inquisitorial permanecerem no
campo das mentalidades jurídicas, o que acarreta na dificuldade de se implantar novas leis ou

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políticas públicas que combatam o interrogatório vexatório e violento. Essas táticas podem
ter sido implantadas pelo tribunal “às avessas” do Santo Ofício no Brasil. Às avessas, ou um
fracasso, nas palavras de Vainfas, porque por aqui nunca foi implantada uma sede do tribunal
durante os anos em que os hereges eram perseguidos Europa afora - como ocorreu em Goa,
por exemplo.


Poucos condenados

Só foram condenados à morte pelas leis de Lisboa 27 moradores do Brasil. A baixa condenação
se deveu também ao fato de o poder clerical estar submetido a outros poderes regionais,
como ao da elite política. “Comparativamente falando, a Inquisição no Brasil foi frouxa.
Quem acompanha os processos aqui vê que vários pararam por algum tipo de interferência”,
comenta o pesquisador acrescentando que, tanto na colônia quanto na metrópole, os alvos
preferidos da instituição foram os cristãos novos.

Para finalizar, Ronaldo Vainfas afirma que “a ação inquisitorial no Brasil fracassou
completamente, num balanço de conjunto. O tribunal era para agir em defesa da igreja,
baseado no estatuto de pureza de sangue. E, na verdade, o período colonial no Brasil foi uma
grande mestiçagem. Não tinha como a Igreja lutar contra isso”. E, apesar disso tudo, alguns
traços implantados no país pela instituição permanecem vivos até hoje.




Para saber mais sobre Inquisição à brasileira, leia o dossiê desta edição da Revista de
História.


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Por que os homossexuais foram
perseguidos pela Inquisição no Brasil?
Proporcionalmente, os gays constituíram o grupo social tratado com maior
intolerância pelo Santo Ofício, mas apenas aqueles que praticaram a “sodomia
perfeita” arderam nas fogueiras

Depois dos cristãos-novos judaizantes, os homossexuais foram os mais perseguidos pela
Inquisição portuguesa: trinta homens “sodomitas” foram queimados na fogueira.
Proporcionalmente, os gays constituíram o grupo social tratado com maior intolerância por
esse Monstrum Terribilem. Foram mais torturados e degredados que os demais condenados e,
não bastasse, receberam as penas mais rigorosas. Metade foi condenada a remar para sempre
nas galés del Rei.

Mas somente os praticantes do que a Inquisição classificava como “sodomia perfeita” ardiam
nas fogueiras. Esta perfeição consistia “na penetração do membro viril desonesto no vaso
traseiro com derramamento de semente de homem”. Os demais atos homoeróticos eram
considerados pecados graves ou “molice”.




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A sodomia, entretanto, não foi estigmatizada e perseguida em todos os tribunais do Santo
Ofício da Espanha, nem mesmo pela Inquisição portuguesa em seus primeiros anos de
instalação. Isto demonstra que inexplicáveis fatores históricos, políticos e culturais estariam
por trás do maior ou menor radicalismo da homofobia católica.

Variações e contradições da condenação moral dos desvios sexuais refletem a condição
pantanosa, imprecisa e ilógica do catolicismo em relação ao amor entre pessoas do mesmo
sexo. As razões cruciais que levaram a Inquisição a perseguir os homossexuais masculinos
teriam sido duas. Ao condenar à fogueira apenas os praticantes da cópula anal, os
Inquisidores reforçavam a mesma maldição bíblica que condenava ao apedrejamento “o
homem que dormir com outro homem como se fosse mulher”.

Ou seja, o crime é derramar o sêmen no vaso “antinatural”, uma vez que judaísmo,
cristianismo e islamismo se definem como essencialmente pronatalistas, quando o ato sexual
se destina exclusivamente à reprodução. Daí a perseguição àqueles que ousassem ejacular
fora do vaso natural da fecundação, uma insubordinação antinatalista inaceitável para povos
dominados pelo dogma demográfico do “crescei e multiplicai-vos como as estrelas do céu e as
areias do mar”.

A segunda razão tem a ver com o estilo de vida andrógino e irreverente, quiçá revolucionário,
dos próprios sodomitas, chamados de “filhos da dissidência”. Eis o trecho de um discurso
homofóbico lido num sermão de um Auto de Fé de Lisboa em 1645: “O crime de sodomia é
gravíssimo e tão contagioso, que em breve tempo infecciona não só as casas, lugares, vilas e
cidades, mas ainda Reinos inteiros! Sodoma quer dizer traição. Gomorra, rebelião. É tão
contagiosa e perigosa a peste da sodomia, que haver nela compaixão é delito. Merece fogo e
todo rigor, sem compaixão nem misericórdia!”

 Luiz Mott é professor da Universidade Federal da Bahia e autor de Sexo proibido: virgens,
gays e escravos nas garras da Inquisição (Papirus, 1988).

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Inquisição protestante
Na Inquisição, assim como os católicos, os protestantes também perseguiram os fiéis -
com direito torturas, execuções e espionagem da 'polícia da fé'

A Inquisição não foi o único caso de intolerância movida em nome de Deus na Época Moderna.
Embora não houvesse a institucionalização de tribunais similares aos do Santo Ofício, também
foram usadas estratégias de controle da fé nos locais em que o protestantismo era
dominante, levando à perseguição por crimes como adultério, discordância dos dogmas
protestantes e bruxaria.

Na Alemanha, o líder protestante Martinho Lutero (1483-1546) exigiu perseguições aos
anabatistas, grupo cristão mais radical da Reforma, porque, entre outras questões, eles não
aceitavam as regras da Igreja Evangélica e divergiam sobre o batismo. A decisão causou a
expulsão, o encarceramento, a tortura e a execução de milhares de pessoas. Lutero também
divulgou textos com críticas aos judeus – embora sem maiores repercussões na época, estes
escritos acabariam utilizados pela Alemanha nazista, em pleno século XX.


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Em Genebra, um dos berços da Reforma Protestante e onde ela se mostrou bastante radical,
funcionou uma verdadeira “polícia da fé”. João Calvino (1509-1564), devido à sua autoridade
sobre os protestantes suíços, era conhecido como o “papa de Genebra”. Ao organizar a Igreja
Presbiteriana, instaurou comissões compostas de religiosos e leigos: a Venerável Companhia,
responsável pelo magistério, e o Consistério, que zelava pela disciplina religiosa. Para isso,
promovia confissões, denúncias, espionagens e visitas às residências, levando muitos à prisão,
à tortura, ao julgamento e, em alguns casos, à morte.

A população era proibida de cultivar certos hábitos, como jogar, dançar e representar. Alguns
pensadores foram perseguidos, como o médico e humanista espanhol Miguel Servet Griza. Ele
foi preso, condenado e queimado em efígie – representado por um boneco. Fugiu em direção
à Itália, mas acabou preso em Genebra, onde foi processado pelo Conselho presidido por
Calvino e queimado por causa de proposições vistas como antibíblicas e heréticas, entre
outras culpas.

Na Inglaterra, uma verdadeira caça às bruxas levou à morte centenas de mulheres acusadas
de feitiçaria. A experiência persecutória inglesa foi ainda “exportada” para as colônias na
América do Norte, como no famoso episódio das “bruxas de Salem”, ocorrido em
Massachusetts, em fins do século XVII, em que várias adolescentes foram mortas, acusadas de
promover reuniões em torno de uma fogueira nas quais, supostamente, invocavam espíritos.

Angelo Adriano Faria de Assis é professor da Universidade Federal de Viçosa e co-
organizador de Religiões e religiosidades: entre a tradição e a modernidade. (Edições
Paulinas, 2010).

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Fogo que arde sem se ver
 As heranças da Inquisição, presentes até hoje no Brasil, podem ser reavivadas com a
reforma do Código de Processo Penal
Cristina Romanelli

A Inquisição em Portugal e nas colônias pode ter acabado oficialmente em 1821, mas, pelo
menos no Brasil, suas chamas continuam acesas, ainda que discretamente. Em breve, a
Câmara dos Deputados terá a chance de reavivá-las. Nada de perseguições, torturas ou
bruxaria: o único instrumento necessário é um projeto de reforma do Código de Processo
Penal, já aprovado pelo Senado. Como em uma viagem no tempo, o projeto propõe a criação
de um modelo de juiz que surgiu nos primórdios da Inquisição espanhola e nunca mais foi
utilizado. Diferentemente do sistema atual, esse juiz passa a poder apresentar provas a favor
do réu.

O chamado “juiz-defensor” era importante para neutralizar um depoimento de acusação que
tivesse o objetivo de prejudicar o réu. Ele surgiu nas Instruções do primeiro inquisidor-geral
espanhol, Tomás de Torquemada, em 1484. Mas, e hoje? Qual seria o benefício desse tipo de
juiz para a Justiça brasileira? “Não sei qual o lado bom, pois esse juiz é tendencioso, já nasce
tendo que proteger o réu. Mas se você for acusado, vai preferir um juiz que fique do seu lado
ou um juiz isento? Daí dá para se ter uma ideia de quem propôs isso”, ironiza Mauro Fonseca
Andrade, promotor de Justiça do Rio Grande do Sul e autor de Inquisição espanhola e seu
processo criminal – As Instruções de Torquemada e Valdés (2006).

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O projeto ainda não tem data para ser analisado na Câmara, mas já vem sendo criticado por
vários juristas e organizações. “O sistema judiciário brasileiro não tem juízes suficientes; essa
ideia está fora da realidade. Além disso, o juiz tem que ser imparcial; essa mudança vai
contra os princípios da democracia brasileira”, protesta Gabriel Wedy, presidente do Instituto
dos Advogados Brasileiros.

Talvez a criação da figura do juiz-defensor nunca seja aprovada. De qualquer modo, ela seria
só mais lenha na fogueira, pois no Brasil não faltam heranças da Inquisição – e a Justiça
concentra boa parte delas. Dois exemplos positivos são a concessão de defensor público a
quem não tem dinheiro para pagar um advogado e a figura do Ministério Público, criada na
esfera inquisitorial, mas ainda no fim da Idade Média. Naquela época, a Igreja e a Coroa
tinham uma espécie de funcionário chamado “fiscal”, encarregado de apresentar acusações à
Inquisição. “Isso acontecia justamente porque os particulares não tinham intenção ou então
tinham medo de acusar quem cometia algum crime ou praticava heresia”, explica o promotor
Andrade. Ainda hoje, na Espanha, o nome do órgão equivalente ao nosso Ministério Público
é Ministerio Fiscal.

O segredo de processo é outra herança desse período. Na Idade Média, ele era uma forma de
os inquisidores manterem maior controle sobre as ações. Antes disso, os julgamentos eram
públicos e chegavam a ter a presença de até seis mil pessoas. Essa participação permitia uma
espécie de fiscalização popular. Mesmo com o fim dessa plateia, os acusados não ficaram
totalmente desamparados: surgiu na mesma época o recurso em benefício do réu. Em alguns
países, passou a ser possível recorrer das decisões impostas pelo tribunal. A francesa Joana
D’Arc (1412-1431), por exemplo, só pôde apelar ao papa por causa deste recurso. Ele não foi
tão eficaz quanto o esperado, mas retardou sua morte.

Esses e outros resquícios da Inquisição se fixaram no processo penal de forma que nem o
discurso liberal no Império nem a influência americana na Constituição republicana de 1891
conseguiram eliminá-los. “Isso se intensificou com o Código de Processo Penal de 1941,
elaborado no clima do Estado Novo e vigente até hoje. O código se baseia na hipertrofia do
poder e na presunção de culpa do acusado. Ele se choca com a Constituição de 1988, cujos
pressupostos se encaminham para um modelo acusatório que privilegia três entes separados:
a promotoria, a defesa e o juiz, em lugar da concentração, típica do modelo inquisitorial”,
afirma Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e autor
de Direito e Justiça no Brasil Colonial – o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro (1751-
1808) (2004), com Maria José Wehling.

Por mais óbvias que sejam para especialistas em história jurídica, essas heranças inquisitoriais
dificilmente são percebidas pela população. Uma das maneiras mais simples de notarmos os
resquícios do Santo Ofício nos dias de hoje talvez seja por meio de expressões populares,
como “a carapuça serviu”. Há quem garanta que a origem está no ritual que obrigava os réus
da Inquisição a colocar um gorro cônico na cabeça, assumindo a culpa. E quem nunca “ficou a
ver navios”? Esta expressão teria surgido em Portugal, quando os judeus se preparavam para
deixar o reino na data marcada por D. Manuel, ainda no século XV. Tudo não passava de uma
farsa montada pelo rei, que não queria que eles partissem. Resultado: todos foram
convertidos à força ao catolicismo, e os navios que os levariam embora nunca apareceram.

Um exemplo que mostra bem o clima de perseguição da época é o ditado “mesa de mineiro
tem gaveta para esconder a comida quando chega visita”. Facilmente relacionado à sovinice,
pode ter uma origem bem diferente, já que os cristãos-novos eram obrigados a esconder

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comidas tipicamente judaicas para não serem identificados por possíveis delatores. “Quando
chegava uma visita, que muitas vezes era um cristão-velho, dizem que eles escondiam a
comida kasher nas gavetas e tiravam, por exemplo, carne de porco, que é proibida aos
judeus. Isto é o que se conta, mas não se tem como comprovar”, diz Tânia Kaufman,
presidente do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco.

 Outro exemplo, mais conhecido, já deixou amedrontadas crianças de todas as religiões.
Muita gente costuma dizer que quando se aponta para as estrelas, nascem verrugas nos
dedos. Claramente, isso não passa de uma lenda, provavelmente criada por causa da
tradicional cerimônia do shabat, que começa na sexta-feira à tarde, quando a primeira
estrela aparece no céu. A história era uma maneira de evitar que as crianças de origem
judaica – habituadas a venerar o astro que dava início ao ritual – apontassem para a estrela e
se denunciassem à Inquisição.

A lista de mitos e expressões conhecidos até hoje é longa, e inclui itens também pejorativos,
como a palavra “judiar”. Usada na maioria das vezes por pessoas que nem fazem ideia de sua
origem, ela aparece no Dicionário Houaiss como “ato de judiar, de fazer alguém alvo de
escárnio ou de maus-tratos; judiaria”. Exatamente o que acontecia com os cristãos-novos de
origem judaica, os mais perseguidos pela Inquisição portuguesa.

Outras palavras, embora já existissem antes, também adquiriram, durante a Inquisição, um
significado relacionado à perseguição aos cristãos-novos.Em dicionários da época, a palavra
“infecto”, por exemplo, era sinônimo de quem tinha sangue judeu ou mouro, entre outros
grupos nada bem-vindos. “É difícil estudar o racismo de hoje sem entender que é uma
questão de mentalidade a longo prazo. Por mais que sejam manifestações distintas, a origem
de tudo está ali, nesse pensamento racista de fundamentação teológica”, explica Maria Luiza
Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e
Discriminação (Leer) da USP.

Apesar de ainda restarem hoje expressões negativas, piadas sobre judeus e algumas
manifestações de racismo isoladas, não se pode dizer que o povo brasileiro é antissemita. “Há
algumas pessoas que têm antipatia pelos judeus, mas não sabem o porquê. Até a Igreja, que
manteve a antipatia por um tempo, já pediu perdão pela Inquisição”, lembra Anita Novinsky,
presidente e fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP. Segundo ela,
apesar de ter sido uma “instituição de horror”, a ação inquisitorial teve outros
desdobramentos: “Ela fez com que vários cérebros ilustres fugissem para o Brasil. Sem contar
os primeiros plantadores de açúcar, os primeiros mineradores. Esse foi seu maior legado”.

Entre tantas heranças, a lista parece infinita. E atinge praticamente todos os campos da
cultura popular, incluindo a rejeição de muitos nordestinos à carne de porco – denunciando aí
um judaísmo clandestino – e até a tradicional festa de São João. Pois é, quem pula as
fogueiras juninas nem imagina que elas estão associadas às chamas da Inquisição. Mas ambas
foram tentativas da Igreja de desfazer a imagem negativa das fogueiras acesas nas festas
pagãs.Consideradas desde então “fogos eclesiásticos”, as fogueiras da Inquisição nunca
chegaram a arder aqui no Brasil. No entanto, sua versão mais inocente continua a fazer muito
sucesso no país e está, junto com as demais heranças na cultura e na Justiça, mantendo as
chamas da Inquisição acesas, discretamente, por mais de 200 anos.

A Associação Brasileira dos Descendentes de Judeus da Inquisição (ABRADJIN) é uma iniciativa cultural (em
processo de registro) criada e dirigida sem finalidade econômica ou lucrativa, sem número limitado de
participantes, tendo como objetivo principal auxiliar todo interessado em descobrir e, eventualmente, restaurar


                                                                                                            23
suas raízes judaicas caso acredite ou tenha evidências de procedência judaica portuguesa, espanhola ou
mesmo de outros países, como Holanda, Marrocos, etc; e cujos antepassados, por causa da Inquisição, tenham
vindo para o Brasil a partir do século XVI.


Através de seu material bibliográfico, a ABRADJIN auxilia possíveis descendentes de Judeus perseguidos
durante o período da Inquisição no Brasil, Portugal e Espanha, a descobrirem ou compreenderem melhor suas
raízes étnicas e culturais.


http://www.anussim.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1&Itemid=1




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Documentos da Inquisição
A digitalização da Torre do Tombo pode revolucionar a historiografia sobre Inquisição
Renato Venâncio
Quem frequenta arquivos sabe que pesquisa custa caro. São necessárias várias horas de
dedicação e deslocamentos constantes à instituição que guarda os documentos. E esse
trabalho é ainda mais dificultado quando os arquivos ficam em outros países.

Talvez o exemplo mais conhecido dessa restrição seja o relativo aos processos inquisitoriais.
Desde que foram abertos à pesquisa e despertaram interesse dos historiadores brasileiros, a
consulta a eles dependeu de viagens a Portugal e de complicadas e dispendiosas encomendas
de cópias microfílmicas ou digitais.

Em fins de 2008, esse problema começou a ser resolvido graças à disponibilização progressiva
da documentação inquisitorial, relativa a Portugal e demais áreas do império português,
no site da Torre do Tombo da Direção Geral de Arquivos de Portugal.

Várias preciosidades já estão disponíveis. Um exemplo é o processo ocorrido em Traíras,
arcebispado da Bahia, que se iniciou em 1793 e diz muito sobre as crenças religiosas
populares. Nele, João da Silva, filho de Pedro (vulgo “o Maneta”), é acusado de “desacato ao
Santíssimo Sacramento”.
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A nova geração pesquisa a história
desse tribunal corrupto
Entrevista com Anita Novinsky
Por Rodrigo Elias

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Pioneira na pesquisa sobre a perseguição aos cristãos-novos pela Inquisição no Brasil, Anita
Novinsky é referência nos estudos judaicos no mundo luso-brasileiro. Autora de obras que
permanecem essenciais na abordagem do Santo Ofício, como Inquisição. Cristãos novos na
Bahia (1970, 1ª edição), a professora livre-docente da Universidade de São Paulo foi
desbravadora dos arquivos portugueses sobre o assunto. Nesta breve entrevista, ela avalia a
atual produção brasileira e conclui que ainda há muito para se descobrir.

REVISTA DE HISTÓRIA A Inquisição é um tema urgente no século XXI?
ANITA NOVINSKY A Inquisição foi uma instituição repressiva, de extermínio, própria de um
regime político totalitário. Hoje o mundo sofre ameaças do fundamentalismo, do fanatismo, e
isso é preocupante para o futuro da humanidade. Conhecendo o passado histórico, talvez os
homens se conscientizem dos perigos que corremos.

RH O que despertou o seu interesse pelo tema?
AN Muita gente ignora a presença da Inquisição no Brasil durante 300 anos. Houve prisões,
confiscos, tortura e morte de brasileiros inocentes. Dois professores da USP me incentivaram:
João Cruz Costa, de Filosofia, e Lourival Gomes Machado, de Sociologia. Os dois diziam que é
impossível escrever a História do Brasil sem estudar os cristãos-novos.

RH Percebe algum progresso nos estudos?
AN A nova geração acordou para a necessidade de compreendermos que a História do Brasil
foi escrita ignorando a ação de um tribunal de terror, que atuou em todos os níveis da vida
brasileira – econômico, social, religioso e cultural. Hoje, em todos os estados, estudantes
pesquisam a história desse tribunal corrupto e arbitrário. As novas pesquisas estão trazendo à
tona os interesses materiais dos inquisidores.

RH O que, de fato, ignoramos?
AN Tudo ainda está por ser estudado na história da Inquisição no Brasil, que atuou do
Amazonas ao Rio Grande do Sul. Há estados ainda não pesquisados, completamente virgens,
como Alagoas. Interessam-nos as relações econômico-financeiras internacionais, a vida
clandestina, a resistência, o contrabando, a religiosidade, os cristãos-novos na governança, as
blasfêmias de uma população heterodoxa.

RHComo a Inquisição afetou a colonização no Brasil?
AN Afetou, por exemplo, a criatividade da população, ao proibir leituras, críticas, estudos
superiores e imprensa. A Inquisição foi responsável, de acordo com o poeta português Antero
de Quental, pela decadência dos povos peninsulares.

RH O Santo Ofício uniu ou separou os cristãos-novos?
AN Os cristãos-novos foram solidários com os que chegavam sem coisa alguma. Recebiam os
fugitivos, os desterrados, a quem davam terras para trabalhar. Muitas vezes a população
brasileira se recusou a compactuar com os agentes da Inquisição, o que levou um governador
a tomar medidas severas. Durante toda a história colonial, os cristãos-novos mantiveram uma
visão do mundo bem diferente da dos cristãos-velhos.

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Anita Novinsky – Inquisição. Prisioneiros do Brasil
(Séculos XVI a XIX)

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A Editora Perspectiva vem de promover uma segunda edição, magnificamente
ilustrada e muito bem cuidada, da obra capital representada pelo texto clássico
de Anita Novinsky, que intitulou de Inquisição: Prisioneiros do Brasil.

Ainda em 1973, na Revista de História (editada pela USP, nº 94) deu notícia de
haver localizado, na Torre do Tombo (denominação do Arquivo Nacional hoje
sob a responsabilidade da Universidade de Lisboa) o que indicava ser “uma
fonte inédita para a história do Brasil”. Tratava-se de uma relação de
“culpados” (processados pela Inquisição de Lisboa, que se ocupava,
simultaneamente, da sede do Império e do Brasil) com algumas indicações
preciosas. Além da proveniência, atividade que exercia e natureza do processo.
A partir dessa documentação fundamental, nas três décadas subseqüentes
valeu-se de diversas outras fontes.


      Em conformidade com o levantamento concluído em 1994 (e
presumivelmente mais completo), efetivado pelo prof. Francisco Bethencourt
(Universidade Nova de Lisboa), o número total de processados pela Inquisição
ascendeu a 44.817, sendo 9.726 a cargo da Inquisição de Lisboa (os outros
tribunais situavam-se em Évora, Coimbra e Goa), dentre os quais os
prisioneiros do Brasil corresponderiam à metade, cerca de cinco mil, portanto.

     Em minucioso e paciente trabalho de anos, Anita Novinsky conseguiu
identificar como provenientes do Brasil 1.076 prisioneiros, com variada gama de
detalhes (local do nascimento; moradia; origens étnicas; ocupações; crimes e
sentenças). O conjunto é da maior relevância. Assim, embora não consista
numa (impossível) pesquisa exaustiva, trata-se, sem sombra de dúvida, de
amostra definitiva.

 (...) A primeira metade do século XVIII registra, paralelamente, o auge da
Contra Reforma no país. Estão identificados os principais autores da pregação
contra o lucro e a riqueza. A conclusão se impõe: a Inquisição coroa o processo
de opção pela pobreza instaurada entre nós. O empreendimento açucareiro
representa uma espécie de ante-sala da Revolução Industrial. Na consideração
desse processo tem-se perdido de vista, no país, que é precisamente nessa fase
(colonial) que se estabelecem as distinções básicas entre o Brasil e os Estados
Unidos, ambos incorporados à civilização ocidental em consequência dos
Descobrimentos. Com este agravante: no século XVI, segundo a reconstituição
da renda per-capita, efetivada por Mircea Buescu, o Brasil podia ser
considerado um país rico. Enquanto os Estados Unidos sequer existiam
porquanto ainda fragmentado nas colônias, cujo território somente seria
ocupado, com maior intensidade, depois da década de sessenta daquela
centúria.

 Do que precede, deve-se considerar a obra de Anita Novinsky como de
permanente atualidade.



                                                                             26
Antonio Paim

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a sinagoga das mulheres e a sobrevivência do
judaísmo feminino no Brasil colonial

                                                                       Angelo Adriano Faria de Assis
                                                                   Doutorando-Universidade Federal Fluminense


A visitação do Santo Ofício ao Nordeste açucareiro entre 1591e 1595 traria à tona
os conflitos sociais e a disputa de interesses entre cristãos velhos e novos.
Principais delatados, os neoconversos tornam-se figuras centrais das acusações
feitas à mesa e vítimas em potencial das generalizações sobre seu suposto
comportamento criptojudaico, acusados das mais diversas heresias. Dentre os
delatados, chama a atenção o significativo número de mulheres, baluartes da
resistência judaica, difusoras de sua cultura e tradições para as novas gerações.
Responsáveis pelo ambiente doméstico, seriam as grandes propagadoras do
judaísmo secreto e diminuto que se tornara possível após as proibições de livre
crença no mundo português a partir de 1497, e a instauração da Inquisição, em
1536, quando os lares passaram a representar papel preponderante para a
divulgação e sobrevivência das tradições dos filhos de Israel.

Impedidos de denunciar suas preferências doutrinárias, e procurando driblar as
desconfianças da sociedade, os criptojudeus viam-se obrigados a abandonar certas
cerimônias marcantes da sua profissão de fé em favor de práticas menos
conhecidas ou delatoras de sua real entrega religiosa: substituíram-se assim, as
circuncisões pelas orações e vigílias domiciliares; a guarda pública de certas datas e
festas, como o Ano Novo ou o Pentecostes, pelos jejuns. Com o mesmo intuito,
celebrações que no judaísmo tradicional ocupavam posição de menor destaque
passavam, por serem menos acusadoras, a tema central da resistência marrana,
como foi o caso do "Jejum de Ester"  rainha judia que escondia suas origens ao
próprio marido, vivendo, como os criptojudeus, da dissimulação , tornando-se a
"Oração de Ester" a "prece marrana por excelência". É bastante significativo o fato
de ser uma mulher a heroína dos cristãos-novos, e o exemplo de Ester se repetiria
constantemente devido às necessidades impostas aos criptojudeus. O judaísmo de
"portas a dentro" mostrar-se-ia, nos mais ínfimos detalhes, influenciado pela figura
da mulher.

Anita Novinsky assim define o novo quadro da resistência judaica:
(...) proibida a sinagoga, a escola, o estudo, sem autoridades religiosas, sem
mestres, sem livros, o peso da casa foi grande. A casa foi o lugar do culto, a casa
tornou-se o próprio Templo. No Brasil Colonial, como em Portugal, somente em
casa os homens podiam ser judeus. Eram cristãos para o mundo e judeus em casa.
Isso teria sido impossível sem a participação da mulher14.
Aqui como lá, o núcleo familiar tornou-se locus privilegiado para a irradiação da lei
mosaica, içando as mulheres aostatus de grandes responsáveis por sua reprodução.

A nova importância destinada à mulher neoconversa não passaria em branco para a
Inquisição. Assim, desmascarar a fonte de disseminação da heresia judaica e
reprimir exemplarmente os seus responsáveis fazia-se imprescindível. Na

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documentação produzida pelo Santo Ofício português durante a visitação às
capitanias açucareiras do Nordeste brasílico entre 1591 e 1595, encontram-se
indícios do judaísmo vivenciado na colônia, mormente ligado a ritos, prática da
"esnoga", cultos funerários, interdições alimentares, formas de benzer heterodoxas,
negações à religião dominante em seus símbolos e dogmas, onde,
indiscutivelmente, a importância das mulheres salta aos olhos.

 Dentre aquelas mais insistentemente acusadas ao Santo Ofício como judaizantes, a
causarem escândalo nas duas principais capitanias coloniais à época da primeira
visitação, destacam-se os nomes das cristãs-novas Branca Dias, em Pernambuco, e
Ana Rodrigues, na Bahia, exemplos definitivos do "rabinato feminino" exercido na
colônia, não só pelo alto número de acusações de que foram vítimas, mas pela
riqueza de detalhes sobre as práticas de judaísmo que mantinham em seu
cotidiano. Verdadeiras matriarcas do criptojudaísmo brasílico, as duas senhoras
teriam suas vidas vasculhadas e detalhes de seus comportamentos revelados com
insistência ao visitador.

Branca Dias deixara o reino depois de cumprir pena no Santo Ofício de Lisboa,
denunciada pela própria mãe e irmã de práticas judaicas, ambas também presas
pelo Tribunal Inquisitorial. Livre, viera para Pernambuco, onde já se encontrava seu
marido, o comerciante Diogo Fernandes, e viveriam com os filhos, a quem eram
transmitidos os valores da antiga fé. Abriria com o esposo um internato para moças
com boa procura de alunas, dotando-as ainda mais para o disputado mercado
matrimonial. Em sua escola, algumas donzelas da colônia aprendiam a lavar,
costurar, cozinhar, trabalhos do lar e boas maneiras.

Era exemplo típico de criptojudaísmo. Corria a fama de que o casal possuía uma
sinagoga em seu engenho, a famosa "esnoga de Camaragibi", uma das mais
denunciadas durante a visitação de Heitor Furtado, freqüentada por boa parte dos
acusados de práticas judaicas em Pernambuco, entre eles, alguns dos principais da
capitania. A sinagoga de Camaragibi era, dentre as citadas na documentação
referente à primeira visitação inquisitorial, a que mantinha seus trabalhos por mais
tempo: certas denúncias davam conta de suas atividades há mais de quarenta
anos. Fora erguida nas terras pertencentes ao casal Diogo Fernandes e Branca
Dias, ambos já falecidos quando da chegada de Heitor Furtado e de seu séquito.
Em Camaragibi, era fama pública que existiam judeus e se adorava
a toura  metáfora bastante usada para dizer que se seguia a lei mosaica ou dos
judeus. Em denúncia ao visitador datada de 16 de novembro de 1593, Felipe
Cavalcanti afirma que a "gente da Nação" olindense se reunia na tal esnoga de
Camaragibi, a quatro ou cinco léguas de distância da vila, onde "faziam suas
cerimônias e que nas ditas luas novas de agosto iam", em seus carros enramados e
com festas "ao dito Camaragibi a celebrar a festa do jejum" do Iom Kipur, o dia
mais sagrado do calendário judaico. Nos dias de reunião, os judaizantes eram
convocados de forma singela: o cristão-novo Tomás Lopes, alfaiate aposentado
conhecido pela alcunha de O Maniquete, usando código previamente combinado,
desfilava pelas principais ruas de Olinda com um pano branco amarrado a um pé
descalço: era, por isso, denominado o "campainha dos judeus".

Quando o inquisidor chegou a Pernambuco, Branca já era falecida, o que não a
impediria de estar no rol das mais denunciadas. Algumas de suas antigas
aprendizes e conhecidas de longa data relembrariam o estranho comportamento e
costumes malvistos da professora de boas maneiras, alguns dos fatos ocorridos há
mais de trinta anos. Joana Fernandes fora uma delas: "viu a dita Branca Dias nos
sábados de todo o dito ano que em uma casa aprendeu não fiar nunca. E viu que
nos ditos sábados pela manhã se vestia com camisa lavada e apertava a cabeça
com seu toucado lavado", vestindo aos filhos com "o melhor vestido que tinha". Nas
sextas-feiras à tarde, mandava lavar e esfregar o sobrado e, nos sábados, jantava
                                                                                  28
"mais cedo que nos outros dias, e (...) chamava acima do sobrado as ditas suas
filhas (...) e todos iam então acima jantar com ela", quando "jantavam sempre uma
iguaria que nunca comiam".

Outras ex-alunas procurariam o inquisidor para relatar o que presenciaram: Maria
Álvares, ressaltaria o descaso cristão da mestra: ao trazer certa vez "no pescoço
umas contas de rezar com uma cruz pendurada nelas, correndo-lhe a cruz para
diante dos peitos, tomou com a mão a cruz e, dizendo para a cruz dou-te ao demo,
a lançou para detrás das costas". Ana Lins, que por três anos fora "doutrinada e
ensinada a cozer e a lavrar" afirmava que, aos domingos, estando nas missas,
"quando levantavam ao senhor na hóstia consagrada, olhando a dita Branca Dias
para a hóstia, dizia estas palavras: ah, cães encadeados!", enquanto apontava para
o altar. Reparara ainda que a antiga professora possuía sobre a cama "uma cabeça
de boi sem cornos", que "se punha muitas vezes sobre a dita cama às sextas-
feiras", onde ficava até os domingos. A cabeça de boi, ou "toura", era a corruptela
a que foi submetido o livro sagrado dos judeus, a Torá. Para Lipiner,
... dada a clandestinidade que envolvia todos os atos da prática judaica, é de
admitir-se que os próprios cristãos-novos adotassem o estratagema de confundir
sua toura com a cabeça de boi, em linguagem cifrada, subtraindo, assim, o
verdadeiro significado à compreensão dos espias do Santo Ofício".

O mais estarrecedor dos casos envolvendo mulheres acusadas de práticas
judaizantes na documentação referente às visitações inquisitoriais ao Brasil, sem
dúvida, seria o de Ana Rodrigues, moradora em Matoim, no Recôncavo Baiano.
A cristã-nova Ana Rodrigues viera do reino com Heitor Antunes, seu marido,
senhor-de-engenho e "cavaleiro da casa del-rei", que se orgulhava em apontar sua
descendência direta dos Macabeus  célebre família de sacerdotes e militares
judeus do século II a. C., cuja epopéia é narrada no Antigo Testamento.

Segundo diziam, o "cavaleiro macabeu" possuíra sinagoga em suas terras durante
décadas. A esnoga de Matoim era a mais conhecida de toda a Bahia. Localizava-se
nas terras pertencentes aos Antunes. O templo sagrado teria sido construído por
Heitor em seu engenho, numa "casinha separada", localizada ao lado da residência.
Freqüentada por importantes figuras da capitania, nela reuniam-se secretamente os
judaizantes em dias específicos, "deixando dito na cidade que iam fazer
peso"  numa tentativa, sem muito sucesso, de despistar o verdadeiro destino dos
que para lá se dirigiam.

O funcionamento da "esnoga dos Antunes" iria longe, ultrapassando em muito a
vida de seu próprio fundador, falecido mais de uma década antes da chegada do
visitador Furtado de Mendonça. Algumas das várias denúncias que citam a
"casinha" de Matoim ao inquisidor diziam ter conhecimento da sua existência há
cerca de trinta anos, o que a transformava na mais antiga sinagoga em
funcionamento de que se tinha notícia na Bahia e uma das mais tradicionais de
toda a região colonial. Nem mesmo a presença da visitação inquisitorial na
capitania-sede do governo português na América, a espalhar o medo e o aumento
de intrigas por todos os lados, e a tornar os cristãos-novos em geral mais
comedidos em seus atos e palavras, teria sido motivo suficiente, afirmavam alguns
delatores, para que cessassem as reuniões judaicas em Matoim, num claro sinal de
desrespeito e enfrentamento ao Santo Ofício e à religião dominante.

A presença da Inquisição acabaria com a tranqüilidade da família, seguidamente
acusada de criptojudaísmo e de desrespeito à fé católica. Dentre os Antunes, seria
Ana Rodrigues a denunciada com maior gravidade e insistência. Prevendo as
trágicas conseqüências da visita do Tribunal, alguns membros do clã aproveitariam
o período da graça para confessar os erros, adiantando-se à avalanche de

                                                                                 29
acusadores do clã, procurando, assim, mostrar boa vontade com o Santo Ofício e
amenizar as culpas que lhes eram imputadas.

Judaizante ao extremo e de idade bastante avançada, era conhecida pelas
blasfêmias que pronunciava. O inacreditável parentesco bíblico de que outrora se
orgulhara o marido passara a símbolo do escárnio público de que era vítima ao lado
das filhas, chamadas pejorativamente de "Macabéias". Suas histórias geravam
escândalo. No batismo de uma bisneta, teria Ana afirmado: "olhai que negro
batismo"! Quando de um dos partos de suas filhas, clamando-se por Nossa
Senhora, dissera, "não me faleis nisso que não no posso dizer"! Uma parenta cristã
velha contaria sobre a octogenária matriarca que, adoecida certa vez, "suas filhas
lhe mostravam um crucifixo e que ela o não queria ver, dizendo: tirai-o lá",
recebendo o auxílio de um filho para livrar-se da incômoda presença. O receio de
ter a crença proibida desvendada e da rejeição social daí decorrente levaria uma de
suas filhas a retrucar: "mãe, não nos desonreis porque somos casadas com homens
cristãos velhos e nobres". Quando em lucidez, tentava, assim como as filhas,
manter as aparências, "sendo devotas de Nossa Senhora e fazendo romarias, indo
às igrejas, dando esmolas e fazendo outras boas obras de boas cristãs".

A velha senhora seria acusada de judaísmo, e seus denunciantes desfilariam o rol
de suas culpas repetidas vezes. Com mais veemência, seria delatada por guardar o
dia sagrado dos judeus; não comer certos tipos de alimento; jurar pelo mundo que
tem a alma do marido e guardar-lhe luto ao modo dos judeus; lançar a água de
casa fora em caso de falecimento; fazer jejuns e orações judaicas, movimentando o
corpo à maneira dos judeus; recusar um crucifixo quando doente, e benzer filhos e
netos escorregando-lhes a mão pelo rosto.

Em seu primeiro depoimento a Heitor Furtado, a matriarca daria início a um
procedimento que se tornaria freqüente durante todo o tempo em que procurou
fazer sua defesa das acusações de que era vítima: usou da dissimulação,
procurando confundir o inquisidor na apuração das culpas. Idas e vindas seriam
comuns nos seus depoimentos, mudando versões, negando afirmações anteriores,
escondendo dados importantes e citando informações falsas ou desconexas. É
assim que afirma primeiramente possuir 80 anos aproximados, depois mudando a
idade para 86 e para 110 anos, fato de extrema importância no processo, visto que
o fator idade poderia significar prova cabal de judaísmo contra a velha senhora:
apresentando-se como octogenária, teria nascido na primeira ou segunda década
do século XVI, o que a tornava filha de pais conversos, dos quais teria herdado os
ensinamentos hebraicos, tendo conhecido e convivido com antigos judeus, mas
educada dentro das normas cristãs.

O teatro armado pela anciã  e também alimentado por seus familiares, a
insistirem em sua inocência não convenceria o visitador do Santo Ofício. Ana
Rodrigues seria presa e enviada para Lisboa, em uma câmara comprada para ela,
enjaulada e incomunicável, (digo:) acompanhada de uma escrava negra de nome
Brisida, para agasalhá-la e servi-la durante a viagem, "por a dita Ana Roiz ser
velha, entrevada, costumada a ser agasalhada com a dita escrava".

Idosa e doente, vingar-se-ia da prisão morrendo no cárcere, o que não a livraria de
ser processada pela Inquisição, condenada ao "braço secular" e relaxada em efígie,
tendo sua memória amaldiçoada e os ossos desenterrados, "queimados e feitos em
pó em detestação de tão grande crime". Para evitar que seu exemplo fosse
repetido, um quadro retratando-a entre labaredas e seres demoníacos ficaria
exposto na igreja de Matoim, onde morara, a mando do Santo Ofício. Além da
matriarca macabéia, outras gerações de familiares sofreriam acusações, e alguns
deles seriam processados pela Inquisição: Heitor Antunes, seu falecido marido;
Beatriz, Violante e Leonor, suas filhas, e a neta, Ana Alcoforado. Como os Macabeus
                                                                                  30
bíblicos que lhe emprestaram o nome, seria, ela e os familiares, vítimas da
intolerância religiosa de uma sociedade que não os compreendia nem aceitava em
suas especificidades.

Sua condenação traria, afora as complicações sociais para os membros da família,
afamados como judaizantes e/ou coniventes e acobertadores de práticas
criptojudaicas, um outro agravante para seus descendentes: os bens em nome da
velha senhora seriam confiscados pela Inquisição, o que levaria os seus genros
anos depois, em 1600, a apresentarem, pessoalmente, diversas petições em Lisboa
para revisão da pena, novamente alegando idade avançada e insanidade da velha
matriarca, procurando não só limpar o nome da família, mas recuperar os bens
tomados pelos inquisidores para continuar os negócios do clã na Bahia. Como
define Elias Lipiner,

(...) a jurisdição do Tribunal da fé não se extinguia com as labaredas da fogueira
em que eram sacrificadas suas vítimas. Não parava em quem fora por ele
condenado, mas estendia-se aos descendentes vivos para serem diretamente
atingidos, proibindo-se-lhes o exercício de ofícios públicos e certas profissões
liberais, e expondo-os, particularmente, à malevolência pública.
......................................

rubens zárate (comentário de)
no século XIX antropólogos & historiadores diferenciavam
magia & religião, considerando a magia uma espécie de pré-história
das religiões.

essa tese foi abandonada no século XX - entende-se hoje q toda
magia é religiosa & toda religião é mágica.

por isso as ciências sociais atualmente preferem falar em
complexo mágico-religioso.

de fato, nada mais 'quimbandeiro' do q um templo neopentecostal;
a diferença é q estes últimos são fundamentalistas.

...........................................


Nomes de árvores e animais
correspondem a sobrenomes judeus?
É impossível descobrir a origem de um lusodescendente só pelo nome de família
Paulo Valadares

É comum ouvir que certos sobrenomes usados por lusodescendentes identificam origem
judaica, herança de ancestrais cristãos-novos. De acordo com esta explicação popular,
sobrenomes como Lobo ou Pereira identificariam a procedência. Será verdade? Para
responder, é bom que se conheça um pouco do desenvolvimento da onomástica judaica.

Os judeus sempre usaram, para se identificar, um patronímico, o nome do pai. É só verificar
no Velho Testamento – a Bíblia Hebraica – os nomes dos personagens como Fulano ben (filho

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de) Sicrano. Hoje eles são usados apenas nas cerimônias religiosas. Os sobrenomes foram
incorporados primeiro na Península Ibérica e depois, por influência napoleônica, fora dela. No
mundo ibérico, já no século XIV, havia judeus que se identificavam com prenome bíblico e um
sobrenome de variadas origens geográficas – Abravanel, Amado, Arruda, Cavaleiro, Cohen,
Crespim, Franco, Navarro, Negro, Pinto, Toledano, Valentim etc –, que, com o passar dos
anos, foram incorporados aos patrimônios familiares.

A permanência dos judeus, como convertidos, a partir do século XV, tornou obrigatório o
recebimento de novos nomes e sobrenomes sem que houvesse um ordenamento jurídico para
sua aquisição. Somente os prenomes tradicionalmente usados, como Abraão, Isaac e Jacó
foram convenientemente abandonados, mas como o objetivo era a incorporação desta
minoria à população majoritária, não havia sinais que os distinguissem pela onomástica. Os
convertidos que se renomeavam também nada traziam do passado. O objetivo era
desaparecer na massa circundante.

Mas como encontrar os sobrenomes utilizados pelos cristãos-novos e seus descendentes se eles
desapareceram na população geral? Convém consultar a documentação produzida pela
Inquisição, como as listas de penitenciados e cerca de 40 mil processos movidos contra
cristãos-novos entre os séculos XVI e XVIII. Lá está a maioria dos sobrenomes usados pelos
portugueses. Do simples Santos ao dinástico Bragança. Em alguns casos, é possível encontrar a
autoridade inquisitorial e o réu com o mesmo nome de família, sem que eles tenham vínculos
de parentesco entre si.

O desconhecimento desse passado levou pesquisadores amadores a buscarem uma teoria para
localizá-los. Baseados no discurso religioso, principalmente nas bênçãos aos filhos de Jacó
(Gênesis, 49:1-33), chegaram à conclusão de que nomes de plantas e animais correspondem
aos sobrenomes judeus, mas sem qualquer fundamentação na realidade.

É impossível descobrir a origem de um lusodescendente só pelo nome de família. É
equivocado afirmar que alguém tem origem judaica só por ter um sobrenome como Barata,
Bezerra, Carneiro, Carvalho, Cordeiro, Falcão, Figueira, Leão, Leitão, Lobo, Oliveira ou
Pereira. A afirmação não se sustentaria na documentação produzida durante 300 anos. Não há
sobrenome cristão-novo, mas um sobrenome ibérico usado por cristãos-novos, que muitas
vezes foi o mesmo usado também por cristãos-velhos, ciganos, mouriscos, indígenas...

Paulo Valadares é autor de A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova
brasileira nos séculos XIX e XX(Fundação Ana Lima, 2007) e editor doBoletim do Arquivo
Histórico Judaico Brasileiro.
.....................................




O Santo Ofício vai à escola
Processos da Inquisição que mostram o dia-a-dia na Colônia podem tornar bem mais
atraente o ensino da História
Angelo Adriano Faria de Assis

A História é considerada matéria chata e desinteressante para muitos alunos. Este pesadelo
que atormenta os professores pode ser superado, ou, pelo menos, minimizado, com a
utilização em sala de aula de fontes pouco exploradas. A documentação produzida pelo
Tribunal do Santo Ofício da Inquisição relativa ao Brasil é um material valiosíssimo, com

                                                                                             32
detalhes sobre o dia-a-dia da vida nas vilas e nos engenhos coloniais, sobre os acontecimentos
políticos e seus principais personagens, as guerras de conquista e pacificação, a produção
econômica de subsistência e de exportação. Aparecem também as disputas militares e as
entradas pelo sertão em busca de metais ou de indígenas e negros fugidos, as festas religiosas
e as cerimônias fúnebres, as questões de fé e o sem-número de heresias praticadas, além dos
registros sobre a catequização dos nativos e escravos. Os representantes da Inquisição fizeram
meticulosas descrições da vida na Colônia, e muitas vezes deixaram transparecer o seu
espanto diante do que ocorria.

Apesar dos avanços nas pesquisas e da publicação de vários livros sobre o tema nos últimos
anos, falar da Inquisição em sala de aula ainda causa surpresa. Os professores que utilizam
este tipo de documentação constantemente se deparam com o assombro dos alunos ao
descobrirem a presença do Tribunal do Santo Ofício e a existência de acusações e processos
inquisitoriais envolvendo habitantes do Brasil colonial.

Perde o aluno, mas também o professor, ao deixar de lado fontes riquíssimas, que poderiam
tornar mais atraente uma disciplina que ainda carrega a densa pecha de que mais se decora
do que se aprende. Muito melhor seria usar estes documentos em sala de aula para incentivar
o gosto pelo estudo do Brasil dos primeiros séculos.

A Inquisição surgiu no século XIII com o papa Gregório IX (1170-1241), que contou com o apoio
das ordens Franciscana e Dominicana para combater os cátaros ou albingenses, difusores de
doutrinas consideradas falsas pela Igreja [as heresias], atuantes na região de Albi, sul da
França. Após a perseguição aos hereges e o extermínio de comunidades inteiras, o Tribunal
foi extinto. Voltou a funcionar no início da Idade Moderna (século XV), quando a Igreja se viu
novamente ameaçada pelo problema das heresias. O Tribunal exercia vigilância sobre a moral
dos fiéis e censurava a produção cultural e científica, visando conter inovações contrárias ao
dogma da Igreja. Caso os inquisidores julgassem que o réu não demonstrava arrependimento
em relação ao crime de que era acusado ou fosse reincidente, ele poderia sofrer condenações
as mais variadas, que iam desde a obrigação de fazer orações e penitências até ser entregue
ao poder secular, que podia condená-lo a morrer na fogueira, em cerimônias públicas
denominadas autos-de-fé. A península ibérica, envolvida com os problemas da reconquista do
território ocupado pelos árabes e do monopólio da fé, foi um dos palcos para o ressurgimento
da Inquisição.

O Tribunal do Santo Ofício foi instaurado em Portugal no ano de 1536. Havia três sedes:
Coimbra, Évora e Lisboa, esta última responsável pelos domínios de além-mar, entre eles o
Brasil. O objetivo era zelar pela pureza da fé católica, reprimindo comportamentos
considerados heréticos. Os cristãos-novos – judeus batizados, convertidos ao catolicismo por
decreto em fins do século XV –, e seus descendentes eram considerados a principal ameaça ao
catolicismo em Portugal, acusados de manter as práticas religiosas judaicas em segredo
(crime de judaizar). Em conseqüência, se transformariam nas principais vítimas do Santo
Ofício português.

Sobre a presença da Inquisição no Brasil, foram publicados documentos referentes às
visitações de 1591-95 (Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), 1618-21 (Salvador e
Recôncavo baiano) e 1763-69 (Grão-Pará). Infelizmente, a maioria destas publicações está
fora de catálogo e só é encontrada em bibliotecas. São relatos que impressionam o leitor pela
variedade de assuntos e riqueza de informações, por se tratar de documentação pautada pelo
segredo, visto que os inquisidores não esperavam que fosse um dia tornar-se pública.


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São histórias extraordinárias, que despertam o maior interesse, relatadas nas entrelinhas dos
testemunhos feitos à mesa do Santo Ofício. Embora produzidos com fim religioso, estes
documentos permitem enxergar muito além das questões da fé: a estruturação econômica,
política, cultural e social das regiões visitadas, num leque que se estende das formas de
moradia, alimentação, festas e confraternização dos denunciados, confidentes e acusadores;
intrigas na disputa pelo poder local; brigas entre famílias, passando por feitiços para arrumar
casamento ou curar doenças; registros de concubinatos; comportamentos sexuais; vinganças
pessoais; zombarias; hábitos alimentares; assuntos do cotidiano e mais um sem-número de
práticas e costumes presenciados na Colônia.

Comer, amar e ler no cotidiano: vejamos, em breves exemplos, a variedade de dados que
podem ser extraídos de alguns depoimentos da primeira visitação, recuperando parte da
biografia de alguns dos inúmeros acusados e confessantes presentes nas páginas das fontes
inquisitoriais.

Em Pernambuco, Beatriz Mendes foi acusada de cozinhar ao modo judaico: “toda a carne de
carneiro ou de vaca que vinha do açougue para comer, lhe tirava primeiro o sebo e adubava
na panela com azeite, misturando grãos com seus adubos na panela”, e preparava galinha
“com azeite e com uma pequenina de cebola”.

Na Bahia, Maria da Costa denunciou Francisco Feio, “mulato casado nesta cidade com uma
negra”, de ser “casado duas vezes”, ou seja, da prática de bigamia. Já Nuno Fernandes
deixou pistas sobre os livros, mesmo os proibidos, que se liam na Colônia: “haverá quatro ou
cinco anos que, sabendo ele que o livro Diana era defeso [proibido], ele, contudo, leu por ele
muitas vezes, e tem Metamorfoses, de Ovídio, em linguagem, não sabendo ser defeso.
Confessou mais que, sabendo que Eufrozina é defeso, leu por ele uma vez”.

Em sala de aula, o professor deve seguir o mesmo cuidado do historiador em suas pesquisas. A
responsabilidade, como mediador deste diálogo entre aluno e fonte documental, deve ser
apurada, orientando nas indagações ao documento, auxiliando na construção de conceitos,
fazendo criticar as fontes, entendendo a época, os motivos e por quem foram produzidas,
evitando generalizações. O trabalho com este material permitirá um contato mais direto com
a História e uma aula mais dinâmica e participativa. Em pequenos grupos, os alunos podem
ser incentivados a debater as diferenças entre sua época e o momento em que foram
produzidos os documentos: a grafia diferenciada de algumas palavras, termos e expressões
que tiveram seu significado modificado ao longo do tempo, mudanças nos hábitos cotidianos,
e até mesmo noções de paleografia, desenvolvendo nos alunos a habilidade da leitura de
textos antigos, caso o professor consiga levar uma imagem do documento original manuscrito,
mostrando as transformações no próprio processo e materiais utilizados para a escrita, entre
outras tantas possibilidades. Como suporte, pode ainda contar com uma imensa quantidade
de iconografias e trechos de documentos inquisitoriais ou fontes complementares,
encontrados sem maiores dificuldades na Internet, além de alguns filmes e documentários
sobre o assunto.
..........................



                             Ser marrano em Minas Colonial
                                    Anita Novinsky

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01882001000100008&script=sci_arttext
http://www.scielo.br/pdf/rbh/v21n40/a08v2140.pdf
                                                                                             34
Contrabando, fraudes, roubos era o cotidiano das Minas, mas no ano de 1725 seu grau
foi alarmante. O próprio governador, D. Lourenço de Almeida foi um infatigável
contrabandista de diamantes. Tanto cristãos velhos como cristãosnovos realizavam o
tráfico ilegal, que no tempo não era visto como uma grave contravenção moral, mas
comumente aceito nas práticas comerciais e encarado como parte inerente das
atividades metropolitanas e coloniais.17 Na corte, nos mares, nos mercados, padres da
Igreja, homens de Estado, mercadores, mineiros, senhores de engenho, lojistas,
profissionais e artesãos aceitavam a prática do contrabando como algo inevitável.18 A
Metrópole procurou continuamente, sem sucesso, controlar essas fraudes. As denúncias
eram graves, principalmente sobre uma “casa da Moeda” ilegal, clandestina, na qual
aparece também envolvido o rico cristão-novo Manuel de Albuquerque Aguilar .(pg 7)

 (cont. pg 9)
Examinando os processos de Diogo Corrêa do Vale e seu filho Luiz Corrêa, ambos
presos em Minas Gerais, temos confirmada a opinião do padre Antônio Vieira, sobre o
funcionamento do Tribunal e a inocência dos réus. Diogo nasceu em Sevilha e residia
no Porto. Doutor em medicina pela Universidade de Coimbra, já viúvo e devido à prisão
de vários membros de sua família pela Inquisição, fugiu com o filho para o Brasil, onde
se estabeleceu em Vila Rica de Ouro Preto. Foi preso em 12 de setembro de 1730, junto
com seu filho Luiz Miguel Corrêa.21

Numa carta enviada pelo familiar do Santo Ofício, Dr. Lourenço de Valadares Freire
aos senhores Inquisidores, datada de Vila Rica no ano de 1730, ficamos conhecendo os
sentimentos de Luiz Miguel Corrêa. Quando o Tenente Martinho Alvarez o prendeu,
murmurou: “dizem que o Santo Ofício é reto, agora vejo que não, porque prende aos
homens inocentes.”22

Tanto Diogo Corrêa do Vale como seu filho Luiz Miguel Corrêa foram acusados de
“judaizar” há mais de 20 anos , quando ainda viviam no Porto. Os Inquisidores não
conseguiram juntar nenhuma prova de judaísmo contra ambos, durante os anos em que
viveram em Minas. A prisão de Diogo se deve a intrigas e antigas rivalidades de seus
colegas do Porto e sobre divergências que tinham quanto ao tratamento que devia ser
dado aos doentes. Alguns amigos tentaram interceder a seu favor, confirmando sua reta
conduta e sua caridade como cristão e como médico, que “atendia doentes pobres sem
cobrar”. Diogo também tentou se defender afirmando, até o fim, serem falsas todas as
acusações, mas os Inquisidores não alteraram sua sentença de morte. Diogo insistiu ter
sempre vivido na Lei de Cristo nela querendo morrer, mas o que foi decisivo na sua
sorte foi sua origem judaica.23

O destino de Luiz Miguel Corrêa foi tão triste quanto de seu pai. Com fortes inclinações
para a vida religiosa, seu apego a fé cristã transparece em todo seu julgamento.
Querendo tornar-se sacerdote, procurou o Bispo do Rio de Janeiro pedindo que o
ajudasse. O Bispo logo o desiludiu, mostrando-lhe quão inúteis eram seus sonhos de
entrar para a Igreja, uma vez que era cristão-novo e tinha tantos membros de sua família
presos pelo Santo Ofício. Numa desesperada e última tentativa Luiz disse ao Bispo que
estava disposto a vender todos seus escravos e bens para pagar a compra do “exame de
limpeza de sangue”, “como tantos faziam”. Foi inútil. Na última sessão de seu
julgamento rogou aos Inquisidores que, mesmo se acreditassem na sua inocência e o
declarassem, o condenassem a cárcere perpétuo, para que assim pudesse tratar de sua

                                                                                      35
salvação “já que não podia ser frade pela impureza de seu sangue”. Dizia ainda que o
medo da morte o pusera em tal “desesperação” que o levou a confessar de si e denunciar
outras pessoas “falsamente”, afirmando que eram praticantes da Lei de Moisés. Até o
último momento Luís declarou-se inocente do crime que o acusavam, ser judeu. Foi
queimado na mesma tarde que seu pai.24

.......................................



                       BARBÁRIE E MODERNIDADE NO SÉCULO 201
http://www4.fct.unesp.br/entidades/estudantis/caef/escritos/Barbarie%20e%20modernidade%20no%20seculo%2020%2
0-%20Michael%20Lowy.pdf

Michael Löwy*
A palavra “bárbaro” é de origem grega. Ela designava, na Antigüidade, as nações
nãogregas,
consideradas primitivas, incultas, atrasadas e brutais. A oposição entre civilização e
barbárie
é então antiga. Ela encontra uma nova legitimidade na filosofia dos iluministas, e será
herdada pela esquerda. O termo “barbárie” tem, segundo o dicionário, dois significados
distintos, mas ligados: “falta de civilização” e “crueldade de bárbaro”.

A história do século 20 nos obriga a dissociar essas duas acepções e a refletir sobre o
conceito – aparentemente contraditório, mas de fato perfeitamente coerente – de
“barbári e civilizada”.

Em que consiste o “processo civilizador”? Como bem demonstrou Norbert Elias, um de
seus aspectos mais importantes é que a violência não é mais exercida de maneira
espontânea, irracional e emocional pelos indivíduos, mas é monopolizada e centralizada
pelo Estado, mais precisamente, pelas forças armadas e pela polícia. Graças ao processo
civilizador, as emoções são controladas, o caminho da sociedade é pacificado e a
coerção física fica concentrada nas mãos do poder político[1]. O que Elias não parece
ter percebido é o reverso dessa brilhante medalha: o formidável potencial de violência
acumulado pelo Estado... Inspirado por uma filosofia otimista do progresso, ele podia
escrever, ainda em 1939: “Comparada ao furor do combate abissínio (...) ou daquelas
tribos da época das grandes migrações, a agressividade das nações mais belicosas do
mundo civilizado parece moderada (...); ela só se manifesta em sua força brutal e sem
limites em sonho e em alguns fenômenos que nós qualificamos de ‘patológicos’”.[2]

Alguns meses depois dessas linhas terem sido escritas, começava uma guerra entre
nações “civilizadas” cuja “força brutal e sem limites” é simplesmente impossível de
comparar com o pobre “furor” dos combatentes etíopes, tamanha é a desproporção. O
lado sinistro do “processo civilizador” e da monopolização estatal da violência se
manifestou em toda sua terrível potência.

Se nós nos referimos ao segundo sentido da palavra “bárbaro” – atos cruéis, desumanos,
a produção deliberada de sofrimento e a morte deliberada de não-combatentes (em
particular, crianças) – nenhum século na história conheceu manifestações de barbárie
tão extensas, tão massivas e tão sistemáticas quanto o século XX. Certamente, a história
humana é rica em atos bárbaros, cometidos tanto pelas nações “civilizadas” quanto
pelas tribos “selvagens”. A história moderna, depois da conquista das Américas, parece

                                                                                                        36
uma sucessão de atos desse gênero: o massacre de indígenas das Américas, o tráfico
negreiro, as guerras coloniais. Trata-se de uma barbárie “civilizada”, isto é, conduzida
pelos impérios coloniais economicamente mais avançados.
...
Em seu notável ensaio sobre Auschwitz[11], Enzo Traverso destaca, com palavras
sóbrias, precisas e lúcidas, o contexto do genocídio. Não se trata nem de uma simples
“resistência irracional à modernização”, nem de um resíduo de barbárie antiga, mas de
uma manifestação patológica da modernidade, do rosto escondido, infernal, da
civilização ocidental, de uma barbárie industrial, tecnológica, “racional” (do ponto de
vista instrumental). Tanto a motivação decisiva do genocídio – a biologia racial –
quanto suas formas de realização – as câmaras de gás – eram perfeitamente modernas.
Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição
necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma
combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a
prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, “a organização
científica do trabalho” de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max
Weber.

(comentário de rubens zárate - neste outro trecho pode-se fazer uma conexão
com a inquisição

Existe entretanto um domínio específico da “barbárie civilizada” em que se pode
efetivamente falar de regressão: a tortura. Como destaca Eric Hobsbawn em seu
admirável ensaio de 1994, “Barbárie: um guia para o usuário”: “A partir de 1782 a
tortura foi formalmente eliminada do procedimento judiciário dos países civilizados.
Em teoria, ela não era mais tolerada nos aparelhos coercitivos do Estado. O preconceito
contra essa prática era tão forte que ela não pôde retornar após a derrota da Revolução
Francesa que a havia seguramente abolido (...) Pode-se suspeitar que nos redutos da
barbárie tradicional, que resistem ao progresso moral – por exemplo as prisões militares
ou outras instituições análogas – ela de fato não desapareceu...” Ora, no século XX, sob
o fascismo e o estalinismo, nas guerras coloniais – Argélia, Irlanda etc. – e nas ditaduras
latino-americanas, a tortura é de novo empregada em grande escala.

Os métodos são diferentes – a eletricidade substitui o fogo e os torniquetes – mas a
tortura de prisioneiros políticos tornou-se, no curso do século XX, uma prática rotineira
– mesmo se não oficial – de regimes totalitários, ditatoriais, e mesmo, em certos casos
(as guerras coloniais), “democráticos”. Nesse caso, o termo “regressão” é pertinente, na
medida em que a tortura era praticada em inúmeras sociedades pré-modernas, e também
na Europa, da Idade Média até o século XVIII. Um uso bárbaro que o processo
civilizador parecia ter suprimido no curso do século XIX voltou no século XX, sob uma
forma mais “moderna” – do ponto de vista das técnicas – mas não menos desumana.

...............................

rubens zárate (comentário de)
pois é, o legado autoritário da inquisição já não é exclusividade
da igreja.

eu disse isso no início do tpc: o estado laico herdou o autoritarismo

                                                                                        37
inquisitorial.

por outro lado, gosto de foucault qdo diz:
o poder se encontra por toda parte.
...................................................................



Bruxas, santas e inquisidores
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=1008

Jan Duarte

Quando nos debruçamos sobre a relação entre acusadas de feitiçaria1 e os inquisidores que
conduziram seus processos, muitas vezes nos deparamos com a seguinte pergunta: de que
forma os julgamentos de pessoas evidentemente inocentes dos crimes a elas atribuídos
puderam produzir relatos e confissões, que não apenas lhes imputavam a culpa, mas
igualmente confirmavam o imaginário (teológico e popular) a respeito da bruxaria?

Um dos argumentos constantemente utilizados para responder essa pergunta vem sendo o da
tortura. Segundo esse argumento, uma vez que uma grande parte das confissões foi obtida sob
tortura – e com requintes de crueldade – as acusadas confessavam qualquer coisa que as
livrasse de novos suplícios, sendo que a execução – quase inevitável após a confissão – seria
considerada por elas como um alívio para os seus sofrimentos.

Esse componente não pode ser desprezado, em especial em julgamentos ocorridos na
Alemanha, França, Itália e Espanha, onde o uso da tortura era disseminado, mas dois contra-
argumentos precisam ser levados em consideração: em processos ingleses e norte-americanos
(como no caso de Salem, Massachussets, em 1692), nos quais não se recorria ostensivamente
à tortura para a obtenção de confissões, surge o mesmo tipo de depoimento das acusadas,
que não apenas confirma a acusação, mas igualmente se enquadra no discurso teológico dos
inquisidores. Além disso, existe uma característica comum nos processos de bruxaria:
confissões extraídas após uma sessão de tortura eram, posteriormente, negadas pelas
acusadas, que obstinavam-se em dizer que falaram tais coisas pelo temor de novos suplícios.

Entre o “confessar sob tortura”, pura e simplesmente, e a assimilação de uma culpa dentro de
moldes precisos, ajustados ao dizer dos teólogos, existia portanto um lapso temporal no qual
afirmações e negativas se sucediam. Depreende-se dessa maneira a existência de um processo
pelo qual as negativas gradualmente eram anuladas.

Outro argumento normalmente utilizado – e que não difere grandemente do anterior – é que
as acusadas de feitiçaria, em suas confissões, apenas repetiam o discurso teológico corrente,
uma vez que a confissão espontânea, algumas vezes, evitava a pena de morte. Ou seja: a bruxa
confessava aquilo que o inquisidor queria ouvir na esperança de, com isso, poupar a própria
vida. Esse argumento, embora me pareça mais próximo daquilo que se pode efetivamente


                                                                                            38
apurar, falha por estabelecer uma relação causal demasiado simplista.

Sem dúvida, muitas acusadas confessavam por saber que a confissão poderia evitar a pena
capital. Essas confissões, indubitavelmente, acabavam por enquadrar-se, em um determinado
momento, no discurso teológico. Mas existe nos processos, quase sem exceção, um intervalo
de tempo entre as primeiras confissões (mesmo naquelas obtidas sob tortura) e aquelas que,
finalmente, registravam coerência com aquilo que os compêndios contemporâneos sobre
bruxaria pontificavam. Era nesse intervalo que a mudança do discurso se processava e que a
suposta bruxa deixava de falar a “sua língua”, passando a falar a “língua do inquisidor”.

Para deixar mais claro essa mudança de discurso, consideremos o seguinte: a grande maioria
dos processos de bruxaria tem uma dinâmica característica. Suas diferenças, por mais
profundas que sejam sob o aspecto regional, não tornam impossível traçar linhas gerais que
tipifiquem o “processo de bruxaria” por excelência. Pude vislumbrar essas características
persistentes ao examinar os julgamentos de Salem, Massachussets, em 1692, e Carlo Ginzburg
nos dá um exemplo modelar ao referir-se ao julgamento de Chiara Signorini, em Modena, em
princípios do século XVI2.




A acusação de bruxaria surgia, sempre, a partir de um suposto maleficia: este podia ser a
doença repentina de uma pessoa ou de animais domésticos ou, em casos menos comuns,
problemas causados à plantação ou ainda ao próprio clima. Denúncias relativas à “provas
espectrais”3 ou à participação da acusada em sabás, etc., costumavam ser sempre posteriores
e em corroboração às denúncias iniciais: em Salem, as denúncias surgiram a partir da doença
inexplicável das meninas “aflitas”, iniciando-se pela família Parris. Em Modena, a partir da
doença de Margherita Pazzani. Em Boston, em 1688, são as filhas de John Goodwin que
adoecem e levam a julgamento Mary Glover.

A acusada era tipicamente alguém do convívio daquele que foi afligido ou prejudicado. De uma
forma geral, um subordinado direto, alguém em posição social inferior ou, ainda, alguém que,
mesmo em posição de destaque na comunidade, tinha incorrido na ira ou em situação de
disputa com o acusador. Chiara Signorini era ex-colona de Margherita Pazzani. Tituba, a grande
catalisadora dos eventos de Salem, era escrava dos Parris. A própria família Parris, embora
influente, tinha disputas importantes com outras famílias da região. Quando as acusações
chegavam ao ponto de generalizar-se, ocasionando um verdadeiro episódio de caça às bruxas,

                                                                                           39
os alvos preferenciais eram pessoas que não se enquadravam ao quadro social vigente:
beberrões, solteirões ou viúvas amargas e maledicentes, curandeiras e blasfemos. Foi o caso,
em Salem, de Sarah Good, mendiga semi-louca que se transformou em alvo preferencial por
seu comportamento anti-social. Foi também o caso de inúmeros judeus e cristãos-novos –
desprezando-se, obviamente causas e interesses escusos diversos – que foram entregues pelos
seus vizinhos à Inquisição.

A acusação, obviamente, era sempre a mesma: tais pessoas seriam as causadoras dos
infortúnios, graças às suas artes mágicas. E é justamente aqui que começa a se estabelecer a
diferença: a acusação inicial baseia-se na crença popular de que determinadas pessoas, por
serem como são, ou por terem aprendido de “outras como elas” determinadas artes, podem
causar o maleficia. Já a acusação formal sempre atribui essa capacidade ao pacto demoníaco e
não a um poder pessoal inato ou aprendido de forma tradicional. A distância entre o universo
mental do acusador e do acusado e aquele universo mental específico dos inquisidores, se
evidencia justamente nessa fase inicial. A partir daí, inicia-se um processo em que os
inquisidores, à revelia de acusadores e acusados, buscarão de todas as formas enquadrar estes
últimos num esquema de pensamento pré-estabelecido – marcado pela figura do pacto, do
sabá, da anti-religião – que é estranho, via de regra, tanto aos acusados quanto a seus
acusadores.

Ginzburg afirma que a resignificação das confissões das acusadas de feitiçaria por parte do
inquisidor, fazendo com que elas se adequassem ao discurso teológico e, dessa forma, se
enquadrassem às exigências legais que permitiriam a condenação, somente era possível
devido à peculiaridade das crenças das acusadas4. Quando Chiara Signorini admitiu ter
causado o maleficia contra Margherita Pazzani, ela inicialmente alegou tê-lo feito por
intermédio de Nossa Senhora, para depois, sob influência do inquisidor, dizer que fora o diabo
o seu auxiliar. Para Ginzburg, Nossa Senhora e o diabo são simplesmente representações
distintas de uma mesma divindade popular: uma divindade que vem em auxílio dos excluídos,
para vingá-los ou propiciá-los, e justamente por isso é possível com alguma facilidade
transformar uma imagem (N. Senhora) na outra (o diabo).




                                                                                            40
Creio estar sobejamente demonstrada essa particularidade da religiosidade popular, em
especial no Medievo e princípios da Idade Moderna, que mistura figuras “sagradas” a figuras
“demoníacas” com propósitos práticos. Isto não apenas na obra do próprio Ginzburg, como em
diversos outros estudos sobre bruxaria. Laura de Mello e Souza, por exemplo, ao discorrer
sobre as visitações do Santo Ofício ao Brasil, nos dá diversos exemplos de orações e conjuros
onde os nomes de Cristo, da Virgem Maria e de santos misturam-se, numa mesma frase, aos
de Satanás, Lúcifer e outras potestades infernais5. Porém, julgo que essa característica dúbia e
decididamente pragmática da religiosidade popular (especialmente camponesa), não basta
para explicar toda e qualquer apropriação do discurso da feiticeira por parte do inquisidor e
seu ajustamento ao discurso teológico.

Existem inúmeros registros de curas miraculosas ou sobrenaturais, ou mesmo de vinganças
sobrenaturais – aparições da Virgem, “conversas” com santos, visões e vozes espectrais que se
fazem ouvir, êxtase e prostração – que não resultaram em acusações de feitiçaria. Muito pelo
contrário, foram exatamente esses elementos e alegações, feitas publicamente e com a
corroboração de diversas testemunhas, que levaram à canonização de inúmeros santos! Qual
era, então, a diferença entre a santa e a bruxa? Por que o discurso, igualmente baseado nas
crendices e na religiosidade popular da primeira, não era demonizado pela Igreja, ao passo que
o da segunda era? Ou melhor: por que o discurso da santa, ao ser resignificado – pois ele
obviamente também o era – transformava-se na prova do seu contato direto com a graça
divina, ao passo que o da bruxa atestava seu contato direto com o demônio?


                                                                                             41
Arrisco aqui uma hipótese que, embora já tenha sido aventada – mesmo que em outros
moldes – por autores como Michelet e Palou (para citar apenas dois)6, merece maior estudo e
atenção: a diferença entre a bruxa e a santa residia na condição prévia de exclusão social da
primeira.

Em princípio, tanto a “santa” quanto a “bruxa” eram, de alguma forma, acusadas: uma do
milagre e a outra do maleficia. Ambas, cada qual à sua maneira, confessavam diante do
inquisidor ou de seus iguais aquilo que supunham ter vivenciado, visto ou praticado, usando o
seu próprio conjunto de símbolos, conjunto este inserido plenamente na cultura daquela que
confessava. Ou seja: descreviam, perante seus pares ou perante o inquisidor, a experiência
pela qual supunham ter passado, usando a sua própria linguagem, reflexo do extrato social na
qual estavam inseridas. O material que se apresentava frente ao inquisidor, para ser avaliado e
traduzido em termos da cultura teológica, era em ambos os casos o acontecimento de
fenômenos “extraordinários” ou o contato com seres “sobrenaturais”, descrito em termos da
cultura comum, ou “popular”. Essa tradução, no entanto, ao ser feita não o era de forma
inocente: ela carregava o peso da condição social da visionária, que determinava seu
encaminhamento à beatitude ou ao cadafalso.

Como exemplo, vejamos o caso de Vincenza Pasini, esposa de mestre Francesco de Giovanni
de Montemezzo, idosos proprietários de terras no século XV, na cidade de Vicenza, norte da
Itália, não muito distante da Modena de Chiara Signorini, citada por Ginzburg. Segundo
registros da época, a Sra. Vincenza

levava uma vida simples e honesta, devotada ao Senhor e a Sua Mãe Santíssima, pela qual
alimentava uma devoção excepcional: seus dias eram ritmados por muita oração e boas obras;
sua freqüência à igreja e às celebrações litúrgicas, e em especial sua caridade para com todos,
faziam dela uma verdadeira cristã.7

 Em duas ocasiões, 1426 e 1428, com a cidade assolada há anos pela peste, Dona Vicenza teve
visões da Virgem Maria, que ameaçava com a continuidade da doença a não ser que se
providenciasse a construção de uma igreja em sua homenagem. No mesmo ano de 1428, a
construção foi iniciada e, até hoje, o Santuário de Nossa Senhora do Monte Berico recebe,
todo primeiro domingo do mês, mais de 30 mil peregrinos.

Quais as diferenças existentes entre as visões da Virgem de Vincenza Pasini, que levaram à
construção de uma monumental basílica, e aquelas de Chiara Signorini, que a enviaram para a
prisão perpétua? Ambas se encaixam no protótipo da “divindade popular”, que ameaça, pune
e agracia, conforme a vontade, necessidade ou súplica de sua interlocutora.

No entanto, longe de serem reconhecidamente uma devota e dedicada esposa de um velho
proprietário de terras, a exemplo de Vicenza e Mestre Francesco, Chiara e seu marido são
“dois camponeses malvistos, temidos pelos patrões, constantemente despedidos, que se
vingam das injustiças de que são vítimas”8. Sendo ambas levadas frente a Inquisição, suas
condições sociais e a imagem que delas se fazia as precediam.


                                                                                             42
No caso da pia Vicenza, pouco importava que sua aparição impusesse a construção de uma
basílica em sua homenagem, com todo o sofrimento e privações que isso pudesse acarretar,
sob a pena da desgraça de toda a comunidade. Aquela que impunha que se prostrassem aos
seus pés e a adorassem havia de ser a Virgem Maria. Para a malvista Chiara, entretanto, o ser
que exigia a sua adoração por algo muito pequeno (doença e desconforto para a patroa
injusta), não poderia ser a Virgem, mas única e exclusivamente o diabo.




Não era, portanto, a qualidade ou a abrangência do fato sobrenatural que o levava a ser
reinterpretado pelos inquisidores de acordo com os manuais demonológicos da época. Era,
sim, a necessidade dessa reinterpretação, conforme os fatores sociais preexistentes ao fato.
Qualquer bruxa que fosse levada diante os tribunais eclesiásticos já era, irremediavelmente,
bruxa. Da mesma forma, qualquer santa que fosse obrigada a prestar depoimento diante
desses tribunais já era, de antemão, santa. O processo inquisitorial apenas sancionava aquilo
que a condição social da acusada já havia definido.

Vistos por esse ângulo, os métodos inquisitoriais – ameaças, privação, tortura – não podem ser
considerados (como foram alhures) formas de adequar a um discurso teológico corrente as
palavras de “inocentes” pagãos, curandeiros, supersticiosos ou belas mulheres que
provocavam ciúmes. Seriam, sim, a resposta teológica a um discurso popular, que precisava
condenar aqueles que já estavam previamente condenados pelos seus pares.

Notas:

1 Utilizo aqui as expressões “bruxas”, “feiticeiras” e “acusadas de feitiçaria”, no feminino,
levando em consideração que uma parte significativa da documentação disponível sobre os
processos inquisitoriais refere-se a mulheres, além do fato que o estereótipo da “bruxa” está
muito mais consolidado do que o do “bruxo”. As observações constantes no texto, no entanto,

                                                                                            43
aplicam-se igualmente aos muitos homens acusados, julgados e condenados pela Inquisição.

2 GINZBURG, Carlo. Feitiçaria e piedade popular in Mitos, Emblemas, Sinais. São Paulo: Cia. Das
Letras, 1989.

3 Prova espectral: aparição do espectro da acusada à vítima, ou às vítimas, geralmente em
sonho. As primeiras críticas à aceitação desse tipo de “prova” nos processos surgem
relacionadas aos julgamentos de Salem’s Village.

4 GINZBURG, Carlo. Opus cit., p. 41.

5 SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras,
1986.

6 Ver, por exemplo, MICHELET, Jules. A Feiticeira. São Paulo: Aquariana, 2003, e PALOU, Jean.
A Feitiçaria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

7 Cf. Baglioni, Pina. Um farol de salvação e de refúgio nas tempestades da vida in 30 Dias, nº
11, ano XXIII. Roma: 30 Giorni, novembro de 2005.

8 GINZBURG, Carlo. Opus cit., p. 21.

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Até aqui tudo ok
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=69226133&ti
d=5689909263076388284&na=3&nst=331&nid=69226133-
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5693647443481748291&refresh=0.410507985406515




                                                                                                 44

				
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