Caro Alexandre,
evidentemente, nenhum dos artistas que falam horrores de Belo Monte entende
de Belo Monte, nem dos porquês de Belo Monte, nem dos problemas que
possa causar e nem das virtudes que possa ter. Logo, fizeram o que sabem -
representar algo de um roteirista que recebeu uma encomenda com fins
definidos. Espontaneamente, esse vídeo jamais existiria.
Por outro lado, a crítica a Belo Monte tem vários componentes, e como um
deles é poderoso - a grande mídia antigoverno - tudo se torna possível e
motiva mais e mais pessoas, mesmo do bem, para entrarem nessa guerra
santa. Nunca vi tamanha mobilização por uma causa que não é decididamente
popular.
Não fora o esforço de morte da oposição e da grande mídia para derrubar
todas as obras do governo Lula, e agora do governo Dilma, Belo Monte já
estaria pronta há tempos e com um reservatório o triplo do agora projetado.
Os interesses que se juntam no caso são simples de entender:
1. da oposição: para tentar levar ao fracasso o governo do PT, com falta
de energia e ainda criar uma atmosfera de governo ruim para o meio
ambiente;
Sem as “Belo Montes”, a economia vai à lona com certeza. A demanda
de energia elétrica cresce entre 5-10%, ou mais por ano, e precisamos
assim inaugurar duas Belo Monte a cada ano!;
2. da grande mídia: pelo seu pavor de governo ou sistema político que
possa um dia se voltar contra ela, como na Venezuela, Equador,
Argentina e tantos outros lugares. E também seu pavor de estatais, pois
precisam de muitas empresas fazendo muitas coisas para terem seu
ganha pão aumentado por mais propaganda;
3. dos lobistas das alternativas que têm na Petrobras e na Eletrobras
seus alvos prediletos pois dominantes no mercado de energia: não
importa quão porca ou custosa ou parcial seja a alternativa, mas ela
será revestida de um brilhantismo arrebatador, como se, por si só, fosse
a salvação. Por exemplo, ninguém discute, com ênfase, Goiás, Triângulo
Mineiro e Paraná, bem como todas as únicas terras férteis do Nordeste
(Alagoas, Pernambuco, Paraíba) terem se voltado para a cana e
obrigando a levar alimentos do Centro Oeste e a destruição da Mata
Atlântica com esse fim;
4. dos ambientalistas oportunistas: que vivem em um plano de vida de
consumismo ocidental e gastador de energia e, portanto, destruidor do
planeta pelo exagero;
5. dos poucos ambientalistas que agem não por interesse pessoal ou
comercial, mas sim pela causa ambiental: Estes últimos são poucos
e deveriam centrar suas bandeiras: no capitalismo, que é
intrinsecamente consumista e por isso gera a dependência de mais e
mais energia; nos desmatamentos, na produção desenfreada de soja e
cana que desmata direta ou indiretamente (pois ocupa áreas que
poderiam ser utilizadas por culturas diversificadas ou para
reflorestamento que sequestra carbono).
Mas por que derrubar as obras? Simples: se feitas perpetuam a situação
PT no governo e aliados no poder e mostram a incompetência dos tucanos
no poder por nada terem feito. O Brasil até a entrada do Lula estava
literalmente parado. Nada fazia e nada gerava por isso. Então cunharam
mantras que parte da grande mídia expõe como: O PAC não existe;
nenhuma obra anda de fato etc. Mas para isso tem que tentar retardar tudo
com todos os expedientes, que incluem tentar jogar a opinião pública contra
as obras do governo. As consequências? Não pensam nisso. Aliás,
pensam sim, preferindo que sejam bem negativas para não enterrar de vez
a chance tucana e para enterrar de vez o governo PT.
Um símbolo da incompetência tucana foi o apagão de 2001, por falta de
energia gerada e linhas de transmissão do Sul para o Sudeste. O País ficou
MESES sujeito ao racionamento e à perda do crescimento. Isso decorreu
das privatizações mal feitas, pois os compradores não investiram em
geração e transmissão e mais ninguém o fez, pois o governo não deixava
as estatais remanescentes atuarem. As obras só retornaram no governo
Lula/Dilma, para recuperar o atraso deixado. Agora as faltas de energia
elétrica têm ocorrido por acidentes humanos ou de equipamentos, como
sempre ocorre em todo o mundo, e suas durações nem de longe se
assemelham às de 2001. A lógica da oposição é bloquear as obras pelo
garrote dos recursos (por exemplo, não aprovando a CPMF que
indiretamente tirou dinheiro de tudo), pelo estímulo à campanha contra as
hidroelétricas (todas tiveram o mesmo destino, mas quase todas estão
sendo construídas depois da saída da Marina). Será um desastre para a
oposição e para a mídia a inauguração de cada uma delas (são várias). Não
houve apagão no governo PT por falta de energia, pois o governo através
da Petrobras construiu umas dezenas de termoelétricas a gás que
funcionam como reserva para anos ou períodos ruins de chuva e somente
são ligadas nesse casos.
Dito isso, vejamos algo muito simples.
Não há forma melhor e mais barata de produzir energia elétrica que a de
origem nos rios (mesmo que se admita corrupção). Todos os países
desenvolvidos do mundo exploraram praticamente 100% do seu potencial
hídrico, E os candidatos a país rico buscam avidamente usar essa forma de
produzir energia elétrica. Eólica nunca terá o suficiente para substituir as
hidroelétricas e também não oferecem garantia de fornecimento, o que
obriga a triplicar os investimentos para oferecer energia firme. Assim,
comparar qualquer energia com Belo Monte precisa ser com a equação:
energia real fornecida por ano. Exemplo: quando não venta não ha energia
eólica, e isso ocorre em boa parte do tempo. Assim, não dá para comparar
o custo da obra de catálogo da eólica com o custo da obra de Belo Monte e
sua capacidade mínima. As bases teriam que ser as mesmas, isto é:
energia média fornecida por ano por kw instalado de placa. Equivale a
multiplicar por umas três vezes o custo do kw da eólica.
Se solar, o custo seria mais de três a seis vezes para mesma energia média
fornecida. Se de cana ou outra matéria verde nem pensar, a menos que
queiramos que todo mundo passe fome para ter uma energia que também
não é nada limpa.
Uma hidroelétrica se vale de rios, e todos têm ciclos de cheia (anos e
meses de mais chuva) e ciclos de seca. O reservatório ideal seria o que
guardasse água para dois ou três anos de chuvas fracas, ou seja,
simplesmente armazenaria a água da época das chuvas para liberar mais
volume na época da seca. Como sempre foram. Tudo mudou com a
pressão dos ambientalistas, da mídia no governo PT (antes queriam obras
maiores) e complacência da Marina que paralisou tudo enquanto esteve
ministra. O Brasil vai pagar muito caro por essa mudança, pois trocamos
áreas que seriam inundadas por uso eterno de combustíveis fosseis
(lembrar que sempre podemos raciocinar que uma energia hidráulica
deixada de fazer representa um energia fóssil a mais no circuito, pois as
alternativas serão todas usadas com o tempo mas nunca serão suficientes
ou viáveis (pelo menos nos próximos trinta a quarenta anos).
Como o sistema elétrico nacional, caso especial no mundo, é praticamente
100% interligado, os vários ciclos do País se complementam, otimizando e
barateando o fornecimento de energia. Isso quer dizer: com bons
reservatórios é possível economizar água em uma região quando outra
região estiver com carga de chuva acima do necessário para guardar o
excedente (vertendo água, como se diz no jargão). Por outro lado, como o
sistema é integrado, também tudo melhora para as pequenas produções -
as alternativas que podem entrar na rede em qualquer lugar ajudando a
compor a produção nacional. Neste contexto a energia eólica tem um papel
complementar, mas não será nunca o papel principal. Dessa forma, Belo
Monte deve ser medido da seguinte forma: sempre operará na máxima
capacidade que o sistema permitir gerando energia firme - POIS QUEM
FIRMA A ENERGIA É O SISTEMA INTERLIGADO. Isso confunde. Para o
País a energia firme é a que se obtém com a programação otimizada dos
sistemas hidráulicos e térmico pela Coordenação Nacional do Sistema. Ou
seja, é primário falar sobre Belo Monte isoladamente como globais fizeram.
E é desonesto falar que sua capacidade plena é tão baixa como disseram.
Ela operará na capacidade máxima na cheia e diminuirá ao longo do tempo
na seca. Seu valor será uma média.
Quando olhamos as vantagens e desvantagens de qualquer alternativa ou
da hidráulica, temos que entender que também há desvantagens para
todas. Por exemplo, a eólica não vem de bucólicos moinhos de vento como
na antiga Holanda. São parques geradores de centenas de imensos postes
com turbinas na ponta. Demanda áreas físicas imensas também (pois cada
poste pouco produz) e nelas o dono do terreno pode utilizá-lo, mas não
pode fazer uma série de coisas (tipos de plantio e de uso). São contratos
draconianos por trinta anos renováveis. Ou seja, a terra deixa de ser livre .
Também venta em todo lugar, mas só é viável colocar usinas eólicas onde
venta muito e por mais tempo - e isso ocorre em poucos lugares! Se a
alternativa for biomassa para energia, temos que pensar nos alimentos, no
reflorestamento para sequestrar carbono que poderia usar a mesma área,
na biodiversidade e não em ficar produzindo verde para queimar como se a
terra para mais nada prestasse (o argumento de que se usaria terras
degradadas é falso por duas razões - é como se disséssemos para uma
pessoa prostituída que continue na profissão já que fora prostituída; ou
disséssemos para o País que não existe nenhuma outra maneira de
aproveitar bem essas áreas, o que é uma mentira e uma maldade).
Um reservatório inunda áreas, mas então porque não fazer um estardalhaço
cinquenta vezes maior contra o desmatamento para fazer carvão, para criar
novos pastos que foram deslocados pela cana, para plantar cana nova ou
soja? A propósito, a área inundada de Belo Monte 2/3 já são inundáveis
quando o rio sobe naturalmente.
Um reservatório cria o controle das cheias que, sem ele, destroem muito
mais, possibilita cultura de peixes como nunca, cria novas áreas de
preservação e pequenas culturas nas margens aproveitando a cheia e a
descida das águas, permite um turismo excelente, aumenta a umidade do
ar e pode levar o progresso para a região. Ao permitir ciclos regulares para
o rio favorece a vida de todos na região. Por outro lado, tecnicamente é
possível resolver todos os problemas que um reservatório pode trazer à
vida fluvial. Mas é impossível resolver todos o problemas que a falta de
energia traz ou que as constantes cheias trazem para todos.
Uma ótima campanha dos artistas globais seria: para criarmos uma
civilização menos consumista, menos capitalista, com menos televisões
ligadas por casa, menos ar condicionado por casa, menos elevadores,
menos bugigangas elétricas, menos consumo inútil, pois tudo gasta energia;
para movimentos por mais conservação/economia de energia (esse o maior
filão). Também, campanhas para: menos canavial; menos áreas para soja;
menos pasto; mais reflorestamento; mais dinheiro para a Embrapa ajudar a
resolver ainda mais os problemas brasileiros. Ou campanhas contra: o
consumismo; a tuberculose; as drogas; os alimentos industrializados; os
agrotóxicos; o cigarro; os corruptores; os corruptos de todos os partidos; o
poder midiático concentrado e manipulador; o sistema financeiro; e muita
coisa mais.
Mas como nunca antes fizeram na dimensão vista no caso Belo Monte,
gastaram seu cacife em uma empreitada carimbada por interesses, alguns
escusos, outros ingênuos.
Por errarem tanto conseguiram unanimidade contra a besteira que fizeram,
sendo derrotados por estudantes e outros com muito menor poder que eles.
Mas dentro da estratégia de prejudicar a imagem do governo, foram felizes.
Pois algo que é visto por um milhão ou mais de pessoas acaba
conquistando milhares contra o governo e contra Belo Monte. A estratégia
montada pela grande mídia - oposição é tentar solapar de qualquer maneira
a imagem da Dilma e do PT, o que não conseguiram com o Lula. Esta
estratégia já está nas novelas, programas da tv e rádios em geral, inclusive
com colunistas dia e noite desqualificando o Brasil, suas realizações e
oportunidades.
Há o 'complexo de vira lata" histórico, mas também cultivado pelos que se
alinham com as luzes externas ou com a excelência da elite brasileira,
mesmo agora, quando não estão tão brilhantes. Nesse contexto,
transformam uma bela obra essencial em um monte de asneiras,
conseguindo reunir alhos com bugalhos, o bom e o ruim ao mesmo tempo.
O autor desta resposta à minha indagação é um amigo, especialista em energia, e não tem
qualquer relação com a empresa que toca Belo Monte. Para fins da divulgação que faremos
agora, pediu para não ter o seu nome citado.