EU, ESTUDANTE
Sem incentivo
Poucas escolas e universidades brasileiras investem na formação de atletas. Lucas e David não desperdiçaram a chance rara.
Iano Andrade/CB/D.A Press
Bola Murcha
Por que as escolas e universidades brasileiras não investem em esporte? E saiba sobre os planos dos governos local e federal para apoiar os jovens atletas
Camila de Magalhães A vida de Lucas Morais, 17 anos, mudou completamente de dois anos para cá. Estudante da rede pública e morador de Recanto das Emas, sua rotina era ir de casa para a escola, no Guará, e viceversa. Lá começou a se interessar pelo basquete e a se destacar no esporte, com uma ajudinha de sua altura. Ele mede nada menos do que 2 metros. A primeira chance veio com a seletiva de basquete na escolinha Lance Livre, terceirizada pelo Colégio Santa Dorotéia. Foi convidado para integrar a seleção brasiliense, ganhou bolsa de estudos na escola particular e até aluguel de uma quitinete bem próxima à instituição, na Asa Norte, para facilitar o acesso aos estudos e treinos durante a semana. Ele divide o apartamento com o colega David Henrique Conrado, 16. Morador de Sobradinho, o garoto madrugava para chegar às aulas a tempo e ficava fora de casa até tarde para treinar. Iano Andrade/CB/D.A Press
O jovem tem consciência de que a vida no esporte não é fácil. ―Se não continuar no basquete, pelo menos tenho os estudos‖, pondera. Mas seu sonho é representar o país na seleção brasileira de basquete. David e Lucas são exemplos de uma minoria de jovens do Distrito Federal que conseguiram apoio no esporte e tem um futuro brilhante pela frente. Para milhares de estudantes, o cenário é bem diferente. Das 1.070 escolas de ensino básico do DF — públicas e particulares — , 43% não têm quadras de esportes. No resto do país, a realidade é ainda menos animadora: 73% das quase 200 mil escolas não têm espaço para prática desportiva. Os dados são do Censo Escolar 2008, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação.
Investimento público
Este ano, a Secretaria de Esporte e Lazer do DF recebeu R$ 12 milhões para investimento. Parte dos recursos é destinada aos programas Bolsa Atleta e Compete, Brasília. O primeiro contempla atualmente 125 atletas indicados pelas federações e que não têm apoio empresarial. O benefício atende prioritariamente atletas estudantis, aproximadamente 50% do benefício. O restante é dividido entre as categorias de participação esportiva estadual (21,4%), nacional (17,4%), internacional (11,1%) e olímpica (1,6%). Já o programa Compete, Brasília atendeu 662 atletas de janeiro a julho deste ano. Foram custeadas 80 passagens terrestres e 582 aéreas para disputarem competições nacionais e internacionais. ―Embora estejamos aquém da necessidade, o que fazemos aqui não acontece nos outros estados‖, garante o secretário Aguinaldo de Jesus.
Grandes atletas analisam os problemas do país nessa área
Rodrigo "Dentro do cenário esportivo, o Brasil tem uma Rosenthal/Divulgacao tradição de formação de clubes. Várias universidades entram com conceito de clube, não de universidade. O modelo americano é difícil de ser seguido, onde há esportes fortíssimos. Mas poderíamos ter uma organização, incentivos para que universidades tivessem parques adequados e competições adequadas para os clubes, não só Jogos Universitários, que não sei se é uma forma muito competitiva. No entanto, o investimento tem que ser de maneira ampla, em todos os níveis. O Brasil também merece atenção voltada para o aspecto de conhecimento dos profissionais ao redor. Falta capacitação‖. Gustavo Borges, 36, ex-nadador, quatro vezes medalhista olímpico, recordista brasileiro em medalhas pan-americanas, recordista brasileiro em medalhas da Copa do Mundo, recordista mundial de natação.
Evandro Teixeira/COB "Brasília é muito carente de pistas para atletismo. Aqui a única pista oficial é a do CIEF, mas há uma burocracia danada para treinarmos. Em termos de estrutura, a cidade deixa muito a desejar. Atleta bom tem demais, porém a região é muito carente em termos de empresários. Muitos atletas já tiveram que deixar a cidade. Aparecem patrocínios de São Paulo e Rio de Janeiro e os atletas têm que abrir mão daqui. Sobradinho, onde comecei, agora que tem uma pista, com muita dificuldade. As quadras estão destruídas. Poderiam sair atletas de lá. Já vi muitos amigos se perderem em drogas, tiros. Eles se desviaram para outro lado pela falta de condições. Para ser atleta de ponta, tem que ralar muito. Brasília não tem projeto. É difícil ver atleta de iniciação‖. Hudson de Souza, 32, corredor meio-fundista (800m a 5 km), tem 12 títulos de campeão brasileiro, cinco recordes sul-americanos, quatro medalhas em Jogos Panamericanos, participou de três jogos olímpicos e quatro mundiais. É bolsista da Universidade Católica de Brasília. ―São poucas as universidades que incentivam o esporte. Eles não têm uma visão de que vão colher um fruto a longo prazo. Tem muita universidade que acha que, investindo hoje, vai colher o fruto amanhã. Mas leva um ano, um ano e meio. A gente perde muito atleta para fora porque não há esse investimento. No Brasil, o esporte é clubístico. Na universidade, você pode estudar e ter todo o acompanhamento. Seria mais fácil para o atleta. Numa faculdade que possa propor a bolsa para o aluno atleta, há tranquilidade para os pais e o adolescente não vai precisar optar por deixar a prática esportiva‖. Rebeca Gusmão, 24, nadadora, medalhista de ouro nos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro 2007. Cursa educação física no UniCeub, de onde é ex-bolsista. Representa o Centro universitário no futebol feminino. ―Brasília tem um potencial humano enorme. Há muitas crianças ansiosas porque tem muito espaço e pouca oportunidade de desenvolver a prática esportiva. Todos os colégios particulares têm ginásios bons e de qualidade. O que falta é o apoio, que, aos poucos, o governo e iniciativa privada estão entendendo que é importante para a juventude não optar pela criminalidade. Na minha época, o esporte tinha um certo glamour. A aula de educação física era o momento mais esperado pela turma. Mas o apoio ao esporte se perdeu junto com o interesse pela educação física. Minha torcida é para que as pessoas, o governo e a iniciativa privada entendam que esporte é uma ferramenta imprescindível na formação do cidadão, passa lições, regras e valores muito importantes. Sou filha de mecânico com dona de casa, passei por uma realidade dura de brigas de rua em Taguatinga e o esporte me abriu um horizonte enorme. Quando saí, senti muito, mas tive que sair porque sabia que a cidade não oferecia estrutura para minha vida. Mas Brasília pode novamente ressuscitar e alimentar sonhos de muitos atletas‖. Leila Barros, 37, foi atleta da seleção brasileira de vôlei, medalhista nas Olimpíadas de Atlanta (Estados Unidos), em 1996, e jogou por cinco anos no vôlei de praia. Ela toca um projeto social em Brasília, Amigos do Vôlei, ao lado da também exjogadora da seleção brasileira Ricarda Negrão, 38.
GDF quer construir vilas olímpicas
Mas ainda há esperança para que o esporte brasiliense dê uma guinada. Reforma de ginásios, criação de novos campos para escolinhas e cobertura de todas as quadras de escolas públicas do DF estão nos planos da Secretaria de Esporte e Lazer. A última, segundo o secretário Aguinaldo de Jesus, está em fase de licitação. As obras devem começar até o fim do ano. Uma nova forma de aliar esporte e educação, na avaliação do secretário, é a construção de 14 grandes vilas olímpicas nas cidades do DF. A primeira deve ser inaugurada em 16 de outubro, em Samambaia. Segundo Aguinaldo, cada vila olímpica vai abrigar 5 mil estudantes no contra-turno da escola. ―Queremos transformar a escolinha num centro de excelência do esporte de Brasília, pinçando aquele aluno ou pessoa da comunidade que seria um atleta de ponta amanhã e trazê-lo para os centros com bolsa atleta, passagens e atendimento médico‖. Para cuidar da saúde desse grupo, também será criado o Instituto do Atleta, um centro de tratamento médico com apoio de profissionais da saúde pública do DF, seguindo o modelo de Cuba. Serão oferecidos serviços de nutricionista, fisioterapeuta, ortopedista, psicólogo, com custo zero. Em fase de licitação, as instalações estão sendo preparadas para que se possa construir o projeto no ginásio e conjunto aquático Cláudio Coutinho, ao lado do estádio Mané Garrincha. A ideia é atender não só estudantes da educação básica, mas também a comunidade. Outra aposta é a criação de um centro de excelência do esporte no Eixo Monumental. A área utilizada será a do Centro Poliesportivo Ayrton Senna (antigo Departamento de Educação Física, Esportes e Recreação - Defer). Em breve, o Centro de Educação Física e Desporto de Alto Rendimento Escolar (Cefare, antigo Cief) deve tornar-se uma referência ainda maior.
Até Lula já pediu aos reitores para apoiar os atletas
Camila de Magalhães Embora o orçamento do Ministério do Esporte tenha aumentado nos últimos anos, de R$ 371,3 milhões em 2003 para R$ 1,3 bilhão em 2009, os recursos ainda são insuficientes para um bom desenvolvimento do esporte em nível nacional, conforme destaca o ministro Orlando Silva. "As escolas também precisam aprimorar seu caráter de espaços formadores de atletas. Elas sempre foram os locais mais indicados para o processo de estímulo e formação esportiva, para além das aulas de educação física", observa. Silva também lembra a importância da ação de empresas privadas. ―O Ministério do Esporte, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, tem estimulado o empresariado brasileiro a investir nessa área fazendo uso da aplicação direta dos impostos devidos‖, afirma. ―É importante reforçar essa possibilidade, pois ela pode significar aumento direto de investimentos no esporte e ser uma chance importante e rica para nossa juventude e nossa população‖. O investimento ainda precário no esporte se reflete no desempenho do país em
competições. Nas Olimpíadas de Pequim, no ano passado, o Brasil ficou na 23ª posição geral, com 15 medalhas. Os Estados Unidos ficaram em segundo, atrás da China, mas conseguiram nada menos do que 110 medalhas. Na terra do Tio Sam, o esporte é levado a sério desde a escola. E aqueles que se destacam são convidados para estudar nas universidades privadas do país para representar as instituições em campeonatos nacionais e internacionais. E há muitos brasileiros que acabam aproveitando esse benefício para alcançar passos maiores no mundo competitivo, como o nadador Gustavo Borges, ex-bolsista da Universidade de Michigan, onde formou-se em economia. Durante encontro com cerca de 25 atletas da equipe brasileira de natação no mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao ministro do Esporte, Orlando Silva, que fale com os reitores das universidades públicas federais e das instituições privadas para encontrar formas de apoiar os nadadores com bolsas de estudo, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos.
Esporte terceirizado
Conheça escolas que investem em esportes no Distrito Federal. Algumas delas terceirizam os serviços de professores, outras oferecem bolsas de estudo ou patrocínio aos atletas
O incentivo à permanência no esporte não é restrito aos alunos Lucas Morais e David Henrique Conrado. Doze alunos do basquete, handebol e voleibol recebem bolsas integrais e parciais a partir de 50% no Colégio Santa Dorotéia. O benefício é dado não só a jovens carentes, mas também a antigos alunos da escola que têm talento esportivo. O carro-chefe da escola é o basquete, que se sobressai hoje, com cinco jogadores da seleção brasiliense. Há alunos moradores de Planaltina, Brazlândia, Sobradinho e Recanto das Emas. Breno Sena, 16 anos, começou a estudar na escola a partir da 8ª série, quando foi convidado para receber bolsa de estudos integral. Foi convocado para a seletiva da seleção brasileira em sua categoria. Guilherme Parreira Passos, 17, também ingressou para a escola por causa do projeto. O trabalho com bolsa para atletas já dura 30 anos, mas é condicionado às boas notas nas disciplinas escolares. Para isso, contam com acompanhamento pedagógico e reforço escolar, se necessário, pois são liberados em algumas etapas para viagens e repõem o conteúdo depois. Há uma década, os treinamentos são dados por profissionais de uma empresa terceirizada, a Lance Livre, porém na estrutura da escola. Nos federativos, representam a Lance Livre. O colégio arca ainda com custos de inscrições, uniforme, apoio de fisioterapia, Iano Andrade/CB/D.A Press
transporte para jogos e não cobra pela participação dos atletas nas equipes. ―Muitos estudantes querem vir para cá porque, além do estudo bom, tem o incentivo ao esporte‖, destaca o coordenador do basquete, Ricardo Oliveira. O resultado é satisfatório na vida escolar, como disciplina, organização e trabalho de comando, conforme destaca a supervisora pedagógica Valéria Calmon.
As meninas do vôlei
Em 2003, o técnico Fernando Alves era treinador do Instituto Amigos do Vôlei na Candangolândia, conheceu o coordenador de esportes do colégio Nossa Senhora de Fátima, Fabrício Carvalho, e sugeriu levar para a escola atletas de destaque com bolsas de estudos. A ideia foi aprovada e hoje, 40 jogadoras recebem bolsas permanentes, de 50% a 100%. Cadu Gomes/CB/D.A Press
Meninas não só da Candangolândia ganharam a oportunidade de dar um salto na vida após serem convidadas para deixar a escola pública e representar o colégio particular Nossa Senhora de Fátima no time de voleibol. Garotas de Ceilândia, Santa Maria, Taguatinga, Gama, São Sebastião, Guará, Cruzeiro, Riacho Fundo I e II, Samambaia e até Santo Antônio do Descoberto tiveram seus destinos modificados pelo projeto. Noely Oliveira, 15 anos, estava cansada das aulas de educação física praticadas ao sol e resolveu começar o treinamento de voleibol perto de casa, na Candangolândia. ―Entrei no vôlei porque achava bonito usar joelheira, mas só vim usar há pouco tempo‖, lembra. Há três anos, ela e a irmã foram convidadas para estudar no Nossa Senhora de Fátima. ―Mudou muita coisa, conheci recursos, aprendi a me virar sozinha, andar de ônibus.‖ A moça acorda todos os dias às 6h para ir às aulas e treina três vezes por semana. ―Meu sonho é entrar na seleção brasileira, mas, se não der, pelo menos a gente tentou.‖ Desde o início, o trabalho já colhe frutos. Logo no primeiro ano, a equipe venceu os Jogos Escolares do DF e garantiu o 5º lugar nas Olimpíadas Escolares Brasileiras. Hoje, é tetracampeã do JEDF. Tainara Holanda, 16 anos, está na seleção brasiliense de voleibol. ―Meu sonho é ser jogadora profissional, não falo só em seleção brasileira, mas em continuar jogando‖, diz. A ex-aluna Tandara, de Vicente Pires, hoje está jogando por um time de Brusque (SC) e foi eleita a melhor atacante da América do Sul em 2005, quando foi campeã mundial pela seleção brasileira infanto-juvenil. ―Para mim, não há o que pague esse reconhecimento‖, afirma Fernando Alves. ―Ganho muito mais com o prazer de ver as meninas brilharem do que com o lado financeiro da profissão.‖ O mesmo aconteceu com os meninos do futsal, cujo projeto começou no ano passado, com 30 bolsas permanentes, parte para alunos carentes, parte para alunos da escola que se destacam no esporte . Para manter o benefício, é preciso ter bom desempenho nos estudos. As inscrições, uniformes e transporte para jogos são custeados, assim como a preparação física, com equipamentos de musculação e o atendimento de um fisioterapeuta.
Patrocínio para atletas
Desde 2003, o Mackenzie investe em categorias profissionais, patrocinando atletas de alto rendimento. Sete atletas e uma equipe integram o quadro esportivo da instituição. Em São Paulo, o apoio vai para o nadador paraolímpico Daniel Dias, outros dois para-atletas, uma equipe de vôlei feminina e um time de futebol feminino. Em Brasília, os beneficiados são os atletas da equipe olímpica brasileira de saltos ornamentais, César Castro, Hugo Parisi e Ian Mattos. O apoio foi responsável pelo retorno do brasiliense Hugo Parisi, 25 anos, à cidade de origem, já que ele teve de se mudar para o Rio de Janeiro para dar prosseguimento à carreira no salto ornamental. ―Sempre tive vontade de voltar, mas não aparecia oportunidade concreta‖, observa. A estrutura da capital federal conta com uma referência em plataforma de salto e piscina, o que chamou a atenção do paraense Ian Matos, 20 anos. Ele deixou o Norte do país para tentar a vida no esporte e conseguiu o patrocínio do Mackenzie. ―Eu me joguei, não tinha muita coisa a perder‖, comenta o campeão brasileiro e pan-americano de salto sincronizado. O investimento também tem gerado alguns frutos internos no colégio, como a motivação dos alunos ao esporte. Hoje, 48 alunos do ensino fundamental e médio estão divididos entre a escolinha e o treinamento de saltos ornamentais. O estudante Thiago Cirilo, 16 anos, é um deles. Inspirado pelo pai, saltava do trampolim em casa. Mas, ao ver os atletas olímpicos, resolveu começar a treinar de verdade. ―Gostaria muito de seguir a carreira, competir e chegar ao nível deles‖, adianta. O Mackenzie concede dez bolsas (de 20% a 50%) a alunos que integram as equipes de natação, handebol, futsal, saltos ornamentais, vôlei e basquete. O critério para receber o benefício é estudar na escola há, pelo menos, um ano, ter boas notas e não repetir de ano. ―Nosso estímulo é pegar os menores para terem tempo de chegar ao nível de ponta‖, resume o coordenador de esportes em Brasília, Adailton Santanna. Um exemplo desse investimento é a corredora Ana Paula Brandão, que ingressou na escola na 3ª série e só saiu ao fim do ensino médio, sempre com bolsa. Além das bolsas, a escola oferece o apoio da infraestrutura, parque esportivo, professores capacitados, pagamento de inscrições e transporte para torneios locais. As viagens internacionais são parcerias entre pais e escola. Cadu Gomes/CB/D.A Press
Investindo em atletas de ponta
Bruno Peres/CB/D.A Press Como o próprio nome diz, o Centro de Educação Física e Desporto de Alto Rendimento Escolar (Cefare, antigo Cief) é uma instituição do governo do DF voltada para o desenvolvimento de atletas de ponta em idade escolar. As equipes de ginástica rítmica, ginástica acrobática, atletismo, natação, nado sincronizado, boxe e judô são formadas por 215 estudantes, em sua maioria da rede pública de Camila Rodrigues e Aline Gomes ensino, que treinam e competem pela Secretaria de brilham na ginástica rítmica Educação em torneios escolares e federativos. O local também é utilizado por escolas da rede para prática de educação física e escolinhas esportivas. Não há recursos da Secretaria do Esporte e Lazer. Com exceção do atletismo, os demais esportistas não recebem bolsas para participar das equipes. O incentivo é o treinamento de qualidade e a estrutura oferecidos. Apesar disso, os resultados são excelentes. Em ação há dez anos, a equipe de ginástica rítmica, com alunos de 4 a 23 anos, é um dos maiores destaques do centro. Coleciona 17 medalhas em campeonatos brasileiros e ótimas colocações no pan-americano e na Copa Vancouver, no Canadá. A ginasta heptacampeã brasiliense Camila Rodrigues (esquerda na foto), 19 anos, treina no grupo desde o começo. Ao longo dos anos, conseguiu importantes colocações em torneios nacionais. Quando estava para terminar o ensino médio, veio a dúvida sobre o que fazer. Continuar no esporte ou largá-lo? Ela não pensou duas vezes. Resolveu cursar educação física na Universidade Católica de Brasília, onde recebe bolsa, e continuar a fazer o que gosta. Hoje, além de atleta, ela é estagiária e treinadora de pequenas ginastas lá mesmo, no Cefare. ―A ginástica foi o que deu sentido à minha vida‖, desabafa. Aline Gomes (direita na foto), 22, tem a história bem parecida com a da colega de equipe e de faculdade Camila. A jovem começou a treinar ginástica rítmica na mesma época e não largou mais o esporte. ―É uma paixão, não consigo me ver fazendo outra atividade‖, revela a bicampeã brasileira em conjuntos, campeã individual do Torneio Nacional de Ginástica Rítmica em 2002 e quarto lugar em conjuntos no Panamericano da Venezuela, em 2001. As atletas contam que muitas participações em campeonatos se deram com ajuda do programa Compete, Brasília, da Secretaria de Esporte e Lazer do DF. Mas elas já deixaram de participar de campeonatos internacionais por falta de patrocínio. A escassez de recursos e a burocracia para participação em campeonatos fora do DF é o principal problema enfrentado no Cefare, segundo o coordenador do local, Guilherme Samy. Ele diz que o centro faz o que pode, mas nem sempre consegue ajudar os atletas em viagens. ―A verba não atende a todas as necessidades, mas, se não fosse a Secretaria de Educação, não participaríamos de nada‖, revela. ―O esporte em Brasília é feito com suor, é extremamente talentoso, mas não tem o apoio que precisa‖, lamenta o coordenador. O ingresso no Cefare se dá de duas maneiras. A primeira é por meio da visita de professores aos centros de iniciação desportivas (CIDs) em todas as cidades do DF para descobrir talentos e levá-los para treinar. A outra possibilidade é que os estudantes vão ao Cefare em qualquer época do ano para fazer testes e avaliar a
possibilidade de entrada.
Handebol é forte
Há seis anos, a equipe de professores esportivos do Sigma conseguiu despertar na escola a necessidade de oferecer aos alunos escolinhas de esportes. Até lá, os estudantes apenas participavam das aulas de educação física. Foram montadas equipes do ensino fundamental e médio para participação em competições de voleibol, basquete, futsal e handebol, sem custos para os atletas. Os bons resultados foram aparecendo e a instituição decidiu, no ano passado, conceder bolsas parciais de 15% a todos os atletas das equipes. O pré-requisito é que eles tenham, no mínimo, nota 7 em todas as disciplinas escolares. ―Conseguimos melhorar muito o rendimento dos alunos‖, comemora o coordenador de educação física, Carlos Roberto Teles. Dezesseis atletas recebem hoje o desconto. Além do benefício, a escola arca com todas as despesas de inscrições em campeonatos locais e nacionais, além de transporte para torneios locais e uniformes. O time de handebol feminino do ensino médio é a menina dos olhos do coordenador. As garotas foram vice-campeãs do campeonato da Federação Regional do Desporto em 2008, conquistaram a medalha de bronze nos Jogos Escolares do DF em 2007, além da sexta colocação no Curitiba International Cup no mesmo ano. Várias atletas são convocadas para a seleção brasiliense de handebol.
Saiba como as instituições de ensino superior investem em esporte
Aposta nos melhores O Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) patrocina oito alunos atletas das seguintes modalidades: mountain bike, atletismo, triatlo e ciclismo. Todos treinam fora da instituição. A cada semestre, são oferecidas bolsas de estudos que variam de 60% a 100%. Os alunos prestam vestibular, escolhem o curso e recebem a bolsa em cima dos resultados esportivos. O calouro em sistemas de informação Pedro Ciciliano (foto), 18 anos, é uma das apostas do UDF. Praticante de mountain bike e ciclismo speed, ele tem conquistado os primeiros lugares em vários campeonatos importantes, como Torneio Pedala Brasília, Torneio Leões de Ferro e 70km do Cerrado. Treina seis vezes por semana e recebe bolsa de 70%. ―Com o incentivo, dá mais gás para treinar e conseguir resultado‖, comenta ele, que começou a pedalar aos 14 anos, por influência de amigos. O benefício pode ser concedido durante todo o curso. Mas, para isso, o atleta precisa ser atuante no esporte. Os jovens são, em sua maioria, carentes. E não teriam condições de pagar a mensalidade de uma universidade particular. A priori, só se concedem bolsas de estudos e uniformes. Para inscrições em campeonatos, cada caso é estudado, mas muitos atletas conseguem o pagamento. Zuleika de Souza/CB/D.A Press
No momento, o UDF não busca novos atletas para patrocínio. A ideia é trabalhar de forma mais intensiva com os atuais beneficiados. O centro universitário está aberto para receber portifólios, porém não pode firmar compromissos. O diretório central acadêmico (DCE) está se mobilizando para reconstruir os times de esportes coletivos, mas não há previsão de quando.
Destaque no atletismo Segundo o diretor da Associação Atlética Acadêmica da Unip São Paulo, Roberto Toledo, a universidade conta com uma política de incentivo ao esporte. ―Como temos muitos câmpus, apoiamos atletas que participam das Olimpíadas Universitárias‖, afirma Toledo. Apesar de a base das equipes ser de São Paulo, Brasília também é beneficiada muitas vezes.
José Varella/CB/D.A Press
Este ano, o atleta brasiliense Rodrigo de Souza (foto), 23 anos, representou a instituição na prova de salto em distância no mês passado, em Fortaleza (CE), após ser campeão nos Jogos Universitários do DF. Ganhou passagem de avião e bolsa de estudos. ―É excelente o incentivo, não é à tôa que a Unip é campeã geral do JUDF‖, diz Rodrigo. A Unip Brasília conta ainda com equipes de várias outras modalidades, como futsal, handebol, basquete, futebol de campo, voleibol feminino, natação, tênis de mesa, xadrez, atletismo e jiu-jitsu. Os treinamentos com técnicos ocorrem durante todo o ano na universidade e não há custo para participar. A universidade subsidia uniformes e taxas de participação em campeonatos locais. Os interessados em ingressar nas equipes devem participar das seletivas, que ocorrem todo início de semestre. Informações: 2192-7089.
De olho nos campeões
Adauto Cruz/CB/D.A Press
O investimento nos esportes tem trazido bons frutos para a Faculdades Integradas (Upis). Com estrutura para treinamento, ginásio, técnicos, material de treino e custeio das inscrições e viagens para competições, a universidade concede ainda 190 bolsas parciais e integrais. Entre os destaques da Upis, estão os times de voleibol e futebol masculino (foto). O vôlei é hexacampeão brasileiro universitário e vice-campeão no mundial universitário. O futsal é tetracampeão brasileiro universitário. No atletismo, o maior orgulho é Lucélia Peres, 26, medalhista da Pan-americana no Rio, vencedora da São Silvestre de 2006, vencedora da Volta da Pampulha em 2004, 2005 e 2006. ―É uma dificuldade para o atleta estudar e praticar esporte‖, observa Flávio Thiessen, coordenador esportivo da instituição. ―O que oferecemos é uma opção de rendimento, estudar simultaneamente ao esporte‖.
Corte no patrocínio e aposta nos alunos
Filipe Guedes/Divulgação
Ao contrário de alguns anos, quando o Centro Universitário de Brasília (UniCeub) patrocinava atletas de ponta como a nadadora Rebeca Gusmão e oferecia mais bolsas com maior porcentagem de desconto, hoje praticamente se restringe a incentivar a participação dos alunos no esporte. Cerca de mil estudantes praticam modalidades como futsal, voleibol, handebol, basquete, futebol de campo, natação, jiu jitsu, karatê e boxe chinês, sem custo. Desse total, apenas 20 recebem bolsas parciais de 25%, todas distribuídas pelo Diretório Central Acadêmico (DCE). ―Temos a oferta de estrutura e oportunidade para que alunos pratiquem esportes dentro do UniCeub‖, observa o professor Daniel Veloso. Além disso, o centro universitário cobre as despesas de inscrições, passagem e uniformes, no caso de participação dos atletas em campeonatos universitários. Aluno de relações internacionais, Udson Santos (foto), 22 anos, recebe a bolsa atleta por se destacar na natação. Nas categorias 50m e100m livre, ele tem títulos como campeão do Centro-Oeste, campeão brasiliense, finalista do campeonato brasileiro e das olimpíadas universitárias. ―Acho importante ter um auxílio por causa do esporte, mas deveria ter mais‖, opina Udson. A estudante do 4º semestre de educação física Raquel Rosa Araújo, também nadadora e dona de títulos locais e regionais, recebe bolsa de estudos por ter conseguido boa colocação no vestibular, mas isso a impediu de ter uma bolsa atleta. Para ela, isso a deixa desmotivada para representar a faculdade nos campeonatos.
Bolsa atleta: desconto nas mensalidades
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
A Universidade Católica de Brasília (UCB) conta com o Programa Sistemático de Treinamento Universitário. São oferecidas atividades desportivas — para todos os atletas universitários da Católica – em 19 modalidades. Os cerca de 400 atletas têm seguro saúde, atendimento de fisioterapia, treinamento complementar e musculação. Aqueles que se destacam são convidados a receber a bolsa atleta, com descontos na mensalidade. Atletas de rendimento — com reconhecimento regional, nacional e internacional também recebem apoio. Por serem alunos, ganham bolsas de até 80%. Há ainda seis atletas paraolímpicos, com títulos mundiais. As participações em competições federativas e universitárias são custeadas pela universidade. É o caso de inscrições, taxas de arbitragem, deslocamento e hospedagem. Os uniformes são de empréstimo. Vitor Braga, (foto) 18 anos, calouro em gestão financeira, faz parte da equipe de judô. Ele começou no esporte há cinco anos, por incentivo do tio, o judoca Mário Tranquilini, e já é dono de títulos como campeão pan-americano júnior, campeão brasileiro regional sênior e campeão brasileiro juvenil. Na equipe feminina, o
destaque é Gislaine Garcia, 18, estudante de educação física. Ela é vice-campeã pan-americana júnior meio-pesado, campeã sul-americana juvenil meio-pesado e tetracampeã brasileira. Informações: 3356-9041.
Na garra As equipes esportivas da Universidade de Brasília (UnB) são organizadas pelos próprios alunos, com apoio da Associação Atlética Acadêmica da instituição. Foi assim que surgiu a equipe feminina de basquete (foto). As atletas já haviam praticado o esporte na escola, conheciam-se e resolveram montar um time. O empenho foi tão grande que as moças foram campeãs dos Jogos Universitários do DF e garantiram uma vaga nas Olimpíadas Universidades, ocorridas no mês passado em Fortaleza (CE). Terminaram o campeonato em 9º lugar na primeira divisão. ―A gente tinha três bolas para o time‖, comenta Daniele Leão, 22 anos , estudante de estatítica. Segundo ela, o que a fez permanecer treinando foi o amor ao esporte. Depois de procurarem a atlética, conseguiram uniforme e ultimamente, passagens aéreas para viajar a Fortaleza.
Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Este semestre, lembra a estudante de direito Adriana Mindêllo, 21 anos, as atletas tiveram acesso à academia do Centro Olímpico, mais bolas foram compradas e há apoio de fisioterapeutas e psicólogos. O técnico de basquete Carlos Gomes está há 10 anos na chefia do time e sempre trabalhou como voluntário. ―Este é o primeiro ano que o esporte recebe auxílio da UnB para contratação‖, revela. As melhorias antecipam o que virá com o Programa de Desenvolvimento do Esporte e Valorização do Atleta da UnB, lançado este mês pelo Decanato de Assuntos Comunitários (DAC). A ideia é incentivar mais a participação dos atletas em competições esportivas e avançar no atendimento não só do atleta, mas de toda a comunidade universitária para usar o esporte e o lazer como instrumento para qualidade de vida e integração. De acordo com a diretora de esporte, arte e cultura do DAC, Lucila Rondon, a ação prevê a contratação temporária de técnicos para 14 modalidades esportivas para treinamentos mais rigorosos; concessão de bolsas atletas a partir deste mês (inicialmente serão 50); auxílio-esporte (passagens de ônibus); reforma e construção da estrutura física para treinos; fundação de novos clubes; parcerias internas para atendimento médico, psicológico, nutricional e fisioterapêutico; parcerias externas para suporte ao deslocamento em caso de competições; observatório esportivo com pesquisas; além de agenda esportiva e de lazer para as mais de 30 mil pessoas que circulam pela universidade. ― Essa é a nossa meta, não se sabe se será possível atingí-la, mas vamos fazer todo o esforço‖, destaca Lucila Rondon.
Correio Braziliense, Caderno “Eu, estudante”, 07/09/2009