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Das escondidas a sala de aula - Marcelo Ragner Silva

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12/21/2011
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DAS ESCONDIDAS A SALA DE AULA: uma abordagem sociocultural da Capoeira Angola

como instrumento educacional



Marcelo Ragner Guerra da Silva*

ej.marceloragner@gmail.com



Resumo

Esse artigo tem por desígnio investigar a contribuição da cultura popular de matriz africana

(ancestral) na formação de cidadãos atuantes e conscientes. Sendo a Capoeira Angola eleita

manifestação de valor significativo, e que se enquadram perfeitamente nos parâmetros éticos e

étnicos da educação “oficial”. Instituindo artifícios em prol da educação e do respeito ao

próximo. Entendemos como outra forma de educação formal extraclasse e multidisciplinar.

Os valores base que sustentam a Capoeira Angola em sua essência lúdica são a ancestralidade,

a ritualidade, musicalidade e as relações comunais. Remetendo-nos aquele passado de

humilhação e perseguição, apresentando como instrumento de luta corporal pela libertação de

um povo e de resistência cultural. Transformando o, até então, estivador do porto ou um

valentão, em cidadãos politizados, conscientes de sua negritude e com a mesma gana de

mudança que sussurravam em ânsia dentro das senzalas.



Palavras-chave: Capoeira Angola, cultura popular, educação popular.



Summary

This article is by design to investigate the contribution of popular culture of African origin

(ancestry) in the formation of act citizens. Being elected Capoeira Angola demonstration of

significant value, and that fit perfectly in the ethical and ethnic standards of "official”

education. Instituting devices for education and respect for others. Understood as another

form of extra formal education class and multidisciplinary. The values underpinning Capoeira

Angola in her playful essence are the ancestry, the spirituality, the musicality and the

community relations. Referring back to that past of humiliation and persecution, presenting as

an instrument of wrestling for the liberation of a people and of cultural resistance.

Transforming then stevedores in the port or in a reckless in politicized citizens conscious of

their blackness and with the same desire for change that whispered in craving in the slave

quarters.



Keywords: Capoeira Angola, popular culture, popular education.

1. INTRODUÇÃO



Ao nos depararmos com a história do Brasil contada pelos olhares eurocentristas e

preconceituosos da maioria dos autores de livros didáticos entenderam os porquês da falta de

identidade dos afrodescendentes e indígenas que populam as turmas de ensino médio e

fundamental das escolas públicas do nosso país. Desprezada dessa história, está a capoeira,

que permeia todos os períodos históricos do Brasil, com diferentes aceitações, mas com seu

objetivo principal, que é a libertação, sempre estabelecido. Libertação do próprio indivíduo

enquanto indivíduo, do indivíduo do sistema dominante. Por estar sempre às margens, a

resistência da capoeira se solidifica a cada um dos períodos de sua história, assim como os

rituais das religiões afrodescendentes, os diversos folguetos e brincadeiras, sem perder a

essência ancestral, essas manifestações demonstram como a cultura popular é capaz de

relacionar a ludicidade, espiritualidade, a harmonia musical rítmica, dentro de fundamentos

pedagógicos e descendentes. A Capoeira Angola encontra-se nesse ramo dentro deste mesmo

contexto de resistência e dificuldades. Podemos afirmar que diferentes de outras ações

descendentes dos africanos, a capoeira teve importâncias políticas e bélicas, porém nunca

deixou de ser vista negativamente pela sociedade brasileira, esse quadro se modifica a partir

do século XX quando as buscas pelos símbolos nacionais colocam a capoeira como “luta

brasileira”.

A capoeira é a história do Brasil! Contada por afrodescendentes, a custa de rasteiras e

cabeçadas, que hoje tem a liberdade de expressão na roda, nas escolas de capoeira, nos

debates sobre nosso povo, na escolha dos governantes, nas salas de aula. Esse aspecto de

poder confrontar, contestar e opinar é característica fundamental da cultura popular que

representa as vozes dos excluídos.

Esse cuidado que as manifestações populares possuem de suas raízes atualmente está se

fragilizando, pois a indústria cultural dilacera a ancestralidade, na busca pelos entretenimentos

da moda, algumas organizações se vendem de tal forma que aceitam tudo o que o capital é

capaz. A globalização atinge todos setores da sociedade, na cultura popular a preocupação das

instituições e representações religiosas que desenvolvem trabalhos sérios edificam uma

barreira onde a conservação do fundamento e da tradição não pode exceder os limites do

sagrado do ritual. Esses recintos, em sua maioria nos subúrbios, são mantenedores de

conhecimentos que transcendem os séculos e vieram do além mar, mantendo em suas práticas

as competências de ensino que necessitam os parâmetros educacionais em vigor e buscando a

reafricanização da nossa cultura. Sobre a preocupação com o abafe da identidade ancestral

afetada pela exploração cultural Pedro Abib¹ diz que:



“(...) no Brasil podemos também perceber o quanto esse processo de

homogeneização cultural causado pela globalização, vem modificando os

comportamentos, inaugurando novas formas de expressão e compreensão do mundo,

fortemente influenciadas por uma indústria cultural que consegue estabelecer-se

enquanto referência hegemônica e determinante de gostos e preferências, onde muito

de nossas tradições artístico-culturais vão sendo pouco a pouco substituídas por um

tipo de produto pasteurizado (...)









__________________________________

¹. ABIB, Pedro. Cultura Popular e Educação: um estudo sobre a Capoeira Angola. São Paulo,

2004, 16 f. Artigo da tese de doutorado em Ciências Sociais aplicadas à Educação. Programa

de Pós-Graduação, Unicamp.

É com a preocupação em zelar a cultura dos antepassados que a Capoeira Angola se mostra

disposta a derrubar barreiras sociais e intelectuais que a globalização impõe, buscando sim

uma adaptação aos novos modelos socioeconômicos, mas sem perder os valores harmônicos

(ancestrais). Ao afirmar essa transformação da cultura em produto, o autor referido confirma a

idéia de que o interesse das classes dominantes nos “produtos culturais” diz respeito a um

curto espaço de tempo, havendo nenhum compromisso com aquela atividade, apenas a

exploração dos elementos verdadeiros e significativos, que são tratados de forma folclórica. É

na busca pela quebra dessas correntes que a Capoeira Angola se infiltra como instrumento

político e educacional. Buscando uma maior discussão sobre as ações positivistas da educação

popular e resgatando os valores humanos atualmente minimizados.



A base da denominada educação popular está nos ensinamentos didaticamente passados por

gerações e que se mantiveram de forma ocultada, lecionados em locais de difícil acesso longe

dos olhos do patrão. Tendo a oralidade como a principal forma de resistência fonográfica,

ortográfica e gramatical. Todas as manifestações de origem africana e afro-brasileira

estabeleceram na prática oral suas raízes tradicionais que aderiram de seus ancestrais, em um

macro conhecimento, conservaram sua religião, suas divindades e Deuses, suas danças/lutas

ritualísticas, atualmente nomenclaturados de cultura popular e suas transmissões descrito

nesse artigo como educação popular.



É a partir desse entendimento que esse texto pretende demonstrar as transformações do ethos

dos adeptos da capoeira, desde seu período de gestação, passando pelas sociedades

escravagistas e pós-escravidão, chegando aos dias de hoje. Utilizando a mudança nas

denominações dos praticantes dessa arte como meio de simplificar as alterações que

ocorreram no mundo capoeirístico e dos capoeiras, demonstrando a adaptação do sujeito

marginal à sociedade etnocêntrica, expondo o poderio da capoeira como elemento cultural

resistente, vindo a ser um meio de navegação e inclusão social e instrumento cultural

educativo.



A própria denominação da arte capoeira está longe de ter uma verdade absoluta. A etimologia

da palavra capoeira está fortemente ligada aos vocábulos indígenas Tupy ou Guarany ou

Tupy-Guarany (ARAÚJO, apud MARINHO, 2004)², porém as defesas sobre a origem da

nomenclatura indígena a essa arte são quase unânimes entre os pesquisadores, afirmando a

capoeira ser proveniente das palavras kapw (mato) e era (rasteiro) ou tupwera, local na

vegetação de Mata Atlântica onde o mato ralo seria o refúgio dos africanos e

afrodescendentes para os treinamentos corporais. Outra corrente de pensadores dá ao período

agrícola indígena da coivara e da capoeira a origem da expressão nominal capoeira,

afirmando ser na cultura (agricultura) o local da prática corporal donde os escravos iam

trabalhar e, em seu tempo livre, praticavam suas danças/lutas (evidentemente o n´golo dos

negros Bantos) e quando seu dono indagava sobre onde estaria seu escravo respondiam: tá na

capoeira! Vale ressaltar que estamos tratando da gênese etimológica da manifestação corporal

capoeira e não dos seus adeptos.



__________________________________

². a) ARAÚJO, Paulo Coelho. Capoeira Novos Estudos – Abordagens sócio-antropológicas.

Juiz de Fora: Notas & Letras, 2004.

b) MARINHO, Inezil Penna. Subsídios para o estudo da metodologia de treinamento da

capoeiragem. Divisão de Educação Física. Rio de Janeiro, 1945.

Outra corrente afirma ser urbana a criação da denominação capoeira, sendo os vendedores

ambulantes (escravos de ganho) do Rio de Janeiro homens que carregava na cabeça balaios de

palha com galináceas, chamados de capões ou capoeira. Esses trabalhadores em seu tempo

livre desenvolviam seus folguedos herdados de sua terra natal.



Todas essas controvérsias enriquecem a ânsia dos capoeiristas e seus pesquisadores pela

decodificação da origem do nome, tornando uma longa linha de estudo que não vem ao caso o

aprofundamento desse artigo.



O início do entendimento antropológico e educacional da Capoeira Angola necessita de

recapitulações para chegarmos ao juízo amplo do que foram os capoeiras e quem são os

angoleiros. Quando iniciamos pela origem da palavra descobrimos a amplidão do tema e

como são controversas e imprecisas as informações, porém já sabemos do que vamos tratar. É

a partir daí que nasce a figura do capoeira, africano ou afrodescendente que tem em seus

minúsculo momentos de trégua a oportunidade de exercitar suas danças/lutas ritualísticas em

locais de vegetação rasteira dentro da mata, da senzala ou até mesmo em locais escondidos

nas vilas e cidades. Danças/lutas que são provenientes de diversas regiões do continente

africano, mas que por intermédio dos Bantos e de outras etnias se importaram na diáspora. O

N´golo trazido por esses povos Bantos da África austral é a dança/luta que mais se assemelha

com a atual Capoeira Angola, sendo ele o acontecimento ritualístico mais defendido pelos

pesquisadores que buscam a africanização da origem da capoeira. Essa expressão lúdica,

bélica e festiva acontece em períodos determinados pelo desenvolvimento das meninas

quando entram em sua idade reprodutiva, havendo combates entre os pretendentes das moças,

podendo o vencedor se tornar apto ao casamento, esse período da mudança biológica das

moças é conhecido como muficuenas. O N’golo é uma expressão corporal inspirada nas

danças/lutas de acasalamento das zebras, havendo entre elas embates a base de coices e

cabeçadas. Esse ritual é desenvolvido pelos Muxilingues (de Benguela) e os Mulondos (de

Huíla), e principalmente pelos Mucopes do sul de Angola, onde continuam sua tradição, mas a

perca da cultura é notória pelos mais novos. Em Luanda, Bassula é a denominação dada a

uma manifestação semelhante ao N’golo. O pastor sem rebanhos torna-se um marginal. Os

piores bandidos de Benguela em geral são Muxilingues que na cidade usam os passos do

N’golo como arma (NEVES E SOUZA, s/d)³.



Não podemos nos prender apenas ao N’golo e a Bassula como manifestações paternais da

capoeira, outras atividades (como a Ladja de Martinica e o Mani em Cuba) foram trazidas

pelos africanos de outras etnias, porém as informações escritas de cunho cultural e explicativo

são limitadíssimas, mas está evidente nos movimentos corporais que a familiarização entre as

danças/lutas ritualísticas Bantos e a capoeira do Brasil aconteceu e acontece.



Se tratando do dono da roda de Capoeira, o arco musical berimbau, é um instrumento

percussivo milenar com origem também africana, mas que não fazia nem faz parte dos rituais

de danças/luta do antigo macro Banto, atual África austral. Porém é bastante utilizado pelos

povos da costa ocidental da África. Usado como um instrumento pastoril angolano

denominado hungu ou m’bolumbumba, sua utilização também é comum em rodas de griots

que com estes transmitem consciência de vida quase como dizem os provérbios chineses,







________________________________________

³. NEVES E SOUZA, Albano. Da minha África e do Brasil que eu vi. Angola, s/d.

corriqueiras nas comunidades comunais da África. Sua confecção veio junto ás centenas de

habilidades intelectuais, manuais e musicais dos africanos escravizados. Utilizado nas feiras

como instrumentos que chamava atenção e atraía os fregueses. No Brasil, por instrução da

cultura oral africana popularizou-se de berimbau. Em cumplicidade com a musicalidade,

nossos griots, os mestres de capoeira, exploram o melhor das frases, reproduzindo os

sentimentos humanos maus e bons para reflexões que vão de uma geração a outra.



Assim, o presente estudo foi conduzido para elucidar as contribuições africanas

(principalmente Bantos) para a formação da cultura (popular) brasileira, buscando o cunho

lúdico e educativo dessas contribuições, popularizando-os ainda mais nas raízes culturais

nordestinas e brasileiras e no cotidiano dos seus favoráveis. A Capoeira Angola desenvolvida

na linhagem do Mestre Pastinha é a maior significação da arte capoeira volvida para a

reafricanização cultural, a conservação de valores, o respeito ao capoeirista e ao ritual da roda

de capoeira e o desenvolvimento educacional do alistado a Capoeira Angola. A Capoeira

Angola foi a formalização popular da prática da capoeiragem, os velhos mestres possuíam

uma indumentária “impecável”, considerando a vestimenta completa alvinha, com chapéus de

estilo sombreiros Panamá e com sapatos brilhosos, procuravam a melhor roupa para vadiar

nas rodas e após o término seguiam na boemia ou iriam trabalhar. Regulamentos foram

criados nas escolas de Capoeira Angola e Regional organizando burocraticamente a capoeira,

padronizando os capoeiristas, parecia que a capoeira estava salva, e bons tempos (do meio

para o final da primeira metade do século XX) marcavam na história dos capoeiristas as rodas

repletas de mestres que jogavam capoeira feito “cobra pelo chão” e não se sujavam, mestres

como Waldemar da Paixão (possuía um barracão de Capoeira Angola na Liberdade,

Salvador), Aberrê, Siri de Mangue, Cobrinha Verde, Traíra, Noronha, Bobó, Totonho da

Maré, Bimba criador da Capoeira Regional Baiana e Vicente Ferreira Pastinha mantenedor da

tradição da Capoeira Angola. A politica nacionalista da época explorava a capoeira na

tentativa da impregnação de uma identidade nacional, que por sinal, colocou a capoeira como

um elemento apenas folclórico, negando a devida importância nos benefícios pedagógicos que

eram oferecidos pelos mestres. Mestre Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira

Angola – C.E.C.A.- onde se difundiu uma imensa árvore genealógica da Capoeira Angola

gerando frutos até hoje.



É a partir dos fundamentos educacionais práticos e teóricos da escola “pastiniana” que a

Capoeira Angola se coloca como atividade integrante da educação popular, que tem na

ancestralidade sua essência, a oralidade como meio de comunicação transmissor dos

conhecimentos e experiências e a musicalidade, complemento artístico que faltava, trazendo

no sentimento de lealdade, a cumeeira do ato cidadão. A ludicidade do jogo desenvolve o

nosso eu próprio, conhecendo nosso corpo e seus limites, buscando os limites na roda (não

machucar seu camarada de jogo e ter noção de tempo e espaço).



A respeito da ancestralidade e das atitudes éticas comenta mestre Pastinha ao jornal Tribuna

da Bahia, 29 de julho de 1973.









[Digite texto]

Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a

ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meus avós é a lei da

lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não dexei mudar aqui na

Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são

meus.



Sobre a verdadeira autenticidade da Capoeira Angola e de sua singularidade o referido mestre

diz:



É lógico que nos referimos à Capoeira Angola, a legitima Capoeira

trazida pelos africanos e não à mistura de Capoeira com box, luta livre

americana, judô, jiu-jitsu etc, que lhe tiram suas características, não

passando de uma modalidade mista de luta ou defesa pessoal onde se

encontram golpes e contragolpes de todos os métodos de luta

conhecidos.(PASTINHA, 1964)4



Os benefícios extra físicos da Capoeira Angola são conhecidos e investigados pelo Mestre

Pastinha, afirmando mudanças positivas nos capoeiristas.



O capoeirista deve ter em mente que a Capoeira não visa,

exclusivamente, preparar o individuo para o ataque ou defesa contra uma

agressão, mas, desenvolver, ainda, por meio de exercícios físicos e mentais

um verdadeiro estado de equilíbrio psico-físico fazendo do capoeirista um

autentico desportista um homem que sabe dominar-se antes de dominar o

adeversário.

O capoeirista deve ser calmo, tranquilo, calculista. (PASTINHA, 1964)





Relacionando os ideais educativos e socializadores do sábio Mestre Pastinha aos ensejos do

maior educador brasileiro Paulo Freire, percebo a naturalização da Capoeira Angola nos

moldes positivistas que a prática liberdade da à educação. Possuindo um valoroso aprendizado

nas relações pessoais e entendendo o ser social como integrante de um sistema de relações

que poderei ser útil e modificador.



Paulo Freire descreve da seguinte forma os beneficios do entendimento harmônico social.



(...) As relações que o homem trava no mundo com o mundo (pessoais,

impessoais, corpóreas, incorpóreas) apresentam uma ordem tal de

características que distinguem totalmente dos puros contatos, típicos da outra

esfera animal. Entendemos que, para o homem, o mundo é uma realidade

objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É fundamental,

contudo, partimos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não

está no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua

abertura à realidade, que o faz ser ente de relações que é. (FREIRE, 1980)5



O indivíduo não pode se enxergar como membro único, nem mesmo como dono da verdadeira

teoria, o poder de se entender como membro complementar das relações sociais é essencial

para as práticas educativas, principalmente da que chamamos educação popular.

________________________________________

4

. PASTINHA,Vicente Ferreira. Capoeira Angola por Mestre Pastinha. 3ª ed. Salvador: Fundação

Cultural do Estado da Bahia, 1964.

5

. FREIRE, Paulo. Educação Como Prática de Liberdade. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

As manifestações populares têm em sua particularidade o dom de devolver ás comunidades,

de forma ainda mais rica, a educação formal que permeia de forma oculta nas atividades

lúdicas ancestrais. Sobre as contribuições e a valorização da cultura como lógicas da

educação, Freire relata:



Experimentáramos métodos, técnicas, processos de comunicação.

Superamos procedimentos. Nunca, porém, abandonamos a convicção que

sempre tivemos, de que só nas bases populares e com elas, poderíamos

realizar algo de sério e autêntico para elas. Daí, jamais admitirmos que a

democratização da cultura fôsse a sua vulgarização, ou por outro lado, a

doação ao povo, do que a êle formulássemos nós mesmos (...) (FREIRE,

1980)



As expressões da Capoeira Angola estão presentes em todos os seus extremos, nos

movimentos corporais o fingimento, a mentira, o molejo e os golpes de ataque e defesa

constituem uma gama de artifícios lúdicos utilizados no jogo. Na musicalidade os tocadores

de todos os instrumentos deverão reproduzir os sons em perfeita harmonia evitando a quebra

da energia (como em um ritual onde a música dita suas etapas), os berimbaus devem ser

impecáveis em suas funções, sendo o berimbau Gunga o maestro da roda. O cantador deve

cantar de acordo com o que está acontecendo no jogo ou transmitindo mensagens para quem

esta na roda ou fora dela, buscando cantos que tenham ritmos sequenciais e que não

inferiorizem a imagem humana e sua determinada cultura. Todos esses elementos contribuem

para uma admirável roda de Capoeira Angola e as expressões positivisam a tradição ancestral.

A harmonia entre os elementos musicais e corporais colocam a capoeira como um ritual de

integração psicomotora, que, feito dentro do respeito à ancestralidade, nos remete ao passado

de festejos ás escondidas, em que a luta (adaptada à dança) era pela liberdade.



A mandinga é algo que não pode deixar de ser comentado nas pesquisas sobre capoeira, em

diferentes temáticas, é mais uma particularidade da capoeiragem. Quando falamos atualmente

em mandinga na capoeira, nos referimos àquele sujeito que tem movimentos de enganação,

que joga de forma exemplar e que traz malandragem em suas expressões (musicais e

corporais). Porém, antigamente a mandinga era utilizada por aqueles capoeiras que tinham

ligação efetiva com o Candomblé e que dificilmente se davam mal nas rodas, pois suas

proteções espirituais não falhavam. A mandinga na capoeira também contribui para a

formação de indivíduos ativos e espertos ao opressor, tendo que utilizá-las no dia a dia

constantemente. A mandinga é tudo, é o ato de correr atrás do capital para sobreviver, é aturar

o ônibus lotado e os empecilhos da viajem, é desviar das pessoas em locais com grande

lotação, é se capacitar para enfrentar o mercado de trabalho e muito mais. A mandinga é tão

ampla que pode se tornar um único alvo para uma pesquisa científica. Mas ressaltamos a

prática de mandigar para demostrar seu lado educacional, que está na malandragem (astúcia)

positiva e que torna o mandingueiro da capoeira um cidadão bem mais preparado para as









[Digite texto]

adversidades. Sobre a mandinga, Mestre Pastinha coloca como um artefato malicioso de

funcionalidade e importância impar para o capoeirista:



O capoeirista lança mão de inúmeros artifícios para enganar e

distrair o adversário. Finge que se retira e volta-se rapidamente. Pula para

um lado e para outro. Deita-se e levanta-se. Avança e recúa. Finge que não

está vendo o adversário para atraí-lo. Gira para todos os lados e se

contorce numa “ginga” maliciosa e desconcertante.

Não tem pressa em aplicar o golpe, ele será desferido quando as

probabilidades de falhar sejam as mínimas possíveis.

O capoeirista sabe se aproveitar de tudo que o ambiente lhe proporciona.

(PASTINHA, 1964)



As junções de fenômenos dessemelhantes (roda, jogo, música, respeito, violência, liberdade,

harmonia, etc.) complementam a capoeira como aparelho lúdico e de ligação essencialmente

ancestral, transmitindo não apenas a cidadania, mas também a educação ambiental, que

igualmente às manifestações religiosas e culturais, veem na diáspora africana. A conservação

do ambiente e o respeito aos elementos dos ecossistemas fazem parte da conjuntura cultural

dos povos africanos. Esse fato implica a necessidade da introdução dos conhecimentos

técnicos e científicos de origem africana e afro-brasileira nos parâmetros escolares de todos os

níveis e em estâncias que tratem com a população em geral (de lixões aos iluminados

shoppings). Vivemos em um período histórico em que as ações de mudanças imediatas são

determinantes para o futuro próximo, na tentativa de minimização dos problemas climáticos e

ambientais. As manifestações populares de matriz afroindígena trazem em suas profundezas a

relação harmônica entre homem e natureza de forma sustentável e respeitosa. A respeito da

temática ambiental que envolve o conhecimento filosófico ancestral, o influente acadêmico e

griot baiano Jorge Conceição6 comenta que “as filosofias ancestrais africanas acreditam nas

potencialidades diferentes complementares e transmutáveis nas direções das melhores

qualidades coletivas e ambientais!” A Capoeira Angola e outras atividades afrodescendentes

e africanas buscam a preservação de todos os valores ancestrais e transportam um arcabouço

pedagógico que trabalha em prol a consciência pluriétnica e ambiental.





Uma breve leitura cronológica da Capoeira Angola e seu desfecho educativo



Compreendendo o período colonial do Brasil (XVI ao XVIII) já podemos afirmar a chegada

das primeiras levas de negros africanos de diversas regiões, mas principalmente e inicialmente

da África Central. Pondo em evidencia a zona cultural do Congo e Angola (HEYWOOD,

2008)7. Toda a gama cultural dos africanos na condição de escravos estava exilada nos porões

dos tumbeiros, logo depois nas sujas senzalas e nas escondidas. É nesse processo inicial de

“construção” do Brasil que a capoeira vai se gerar, porém acreditamos que a denominação

capoeira só é firmada no século XVIII. Nos dizeres negativistas das classes dominantes do

período colonial, a capoeira ou o capoeira (individuo praticante), é entendida como situação

marginal de extrema periculosidade para o “cidadão” branco da época. Iniciando assim seu

longo e heroico processo de resistência e fortificação como manifestação cultural marginal.

________________________________________

6.

CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola – educação pluriétnica corporal e ambiental. Salvador:

Vento Leste, 2009.

7

. HEYWOOD, Linda M.. A Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2008.

Como todas as manifestações físicas e espirituais de origem africanas ou indígenas, a

capoeira também foi vítima das represálias públicas e proibições. Mas o perfil lutador do

capoeira da época citada, não permitiu o a extinção por completo dessa atividade de

dança/luta. A mesclagem de diferentes danças/lutas africanas Bantos ou não, geraram a

capoeira, que proibida pelos senhores, se ergueu nos locais de difícil acesso dos capitães do

mato e da policia. Acredita-se que a repressão inicial é decorrente do temor dos senhores nas

habilidades corporais dos negros, e que se rebelando poderiam trazer grandes prejuízos para o

mercado escravagista. Devemos também levar em conta que toda e qualquer manifestação

africana (de escravos) nessa época era totalmente abominada, ridicularizada e diabolizada

pela sociedade colonial brasileira.

Alguns datam a criação da capoeira aos escravos fugados dos engenhos do Recôncavo Baiano

e confirma o elemento indígena na origem etimológica, como Waldeloir Rego (1968)8.

Entretanto não temos registros escritos da presença de capoeira nem de seus aspectos no

século XVI e XVII. O que encontramos atualmente são dados em registros policias do século

XVIII em diante, que descrevem todos os tipos de desordeiros como capoeiras.



As cidades que receberam mais escravos no período colonial vieram a serem as que

desenvolveram a luta de capoeira em busca da liberdade. Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco

possuíam um enorme contingente negro e a capoeira a todo instante ligada (com outro nome

ou não) as revoltas e tentativas de rebelião dos escravos ganhou um rótulo negativo na

sociedade. No Quilombo dos Palmares os negros que resistiam as caçadas venciam os

perseguidores se escondendo na vegetação e atacando a base de pernadas, cabeçadas e

rasteiras.



O ser capoeira se torna um individuo de desconfiança, em Pernambuco a criação das Bandas

reunia os afrodescendentes libertos e não libertos e outros para confrontos sangrentos com as

Bandas de outros bairros, mais tarde com a deportação dos capoeira para o presídio da Ilha de

Fernando de Noronha a capoeira quase se extingue vindo a gerar outra manifestação, o frevo

(que se utiliza de movimentos de capoeira, porém sem ataques). No Rio de Janeiro as Maltas

representam a organização dos capoeiras, dividindo os bairros da cidade em continua

rivalidade e servindo aos políticos (principalmente os Conservadores) serviços de

capangagem (CONDE, 2007)9. Na Bahia também houve perseguição aos adeptos, porém o

que a distingue dos outros locais citados, é a escolarização da capoeira, não em locais

públicos ou escolas convencionais, mas na transmissão e conservação dos valores da capoeira

por africanos e afrodescendentes em espaços ocultados. A aceitação e o apreço de parte da

sociedade também ajudou a capoeira baiana a se legitimar e se institucionalizar.



É no século XIX que mudanças e acontecimentos no Brasil modificaram a capoeira e os

capoeiras. Sobre essas mudanças comenta Bernardo Veloso Conde:



Alguns acontecimentos foram processando-se lentamente desde 1850. A

proibição do tráfico atlântico de escravos, o grande aumentos da imigração

portuguesa, as reformas na estrutura urbana e, finalmente, a Guerra do



________________________________________

8

Waldeloir. Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico. Bahia: Ed. Itapuã, 1968.

. REGO,

9

. CONDE, Bernardo Velloso. A Arte da Negociação: a Capoeira como Navegação Social. Rio de

Janeiro: Novas Idéias, 2007. (Série Capoeira Viva).

Paraguai trouxeram significativas mudanças à vida do capoeira. (CONDE,

2007)



A Guerra do Paraguai reformulou o exército brasileiro e acionou a força dos capoeiras nessa

batalha, criando a Guarda Negra, prometendo aos ainda escravos sua alforria no regresso da

guerra. Com a utilização do contingente negro capoeira na Guerra do Paraguai, todas as

organizações (Maltas e Bandas) são desmanteladas e só após o término da guerra voltam,

agora na condição de heróis. As Maltas de capoeira passam a interferir no processo eleitoral,

chegando sua força a receber a alcunha de “Partido Capoeira”, nome de porte no processo

político da época.



Mas é com o advento da República que a capoeira leva um grande revés. A adesão

monárquica e do Partido Conservador desprotege os célebres capoeira e é na figura de

Sampaio Ferraz que aparece um dos principais algozes do quase desaparecimento da capoeira.

Este então, é nominado chefe de polícia da capital e tem por tarefa dizimar os capoeiras,

perseguindo os melhores e mais perigosos. Capturados e levados a Fortaleza de Santa Cruz,

posteriormente para Fernando de Noronha, sem direito a defesa.



Mas é em 11 de outubro 1890 que a capoeira encerra seu ciclo de institucionalização, com a

promulgação da lei que estabelece a capoeira como crime.



Dos Vadios e Capoeiras



Art. 402 – Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal,

conhecidos pela denominação de capoeiragem: andar em correrias, com armas ou

instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordens,

ameaçando pessoa certa ou incerta, incutindo temor ou algum mal:

Pena: De prisão celular de dois a seis meses.

Art. 403 – No caso de reincidência será aplicado ao capoeira, no grau máximo a pena do art.

400. [Pena de um a três anos em colônias penais que se fundarem em ilhas marítimas, ou na

fronteiras do território nacional, podendo para esse fim serem aproveitados os presídios

militares existentes.

Paragrafo único – Se for estrangeiro será deportado depois de cumprir pena.



Praticamente a capoeira se encerra, nos olhos das classes dominadoras, mas como toda

manifestação resistente, guarda ainda pessoas com conhecimentos de repasse que não foram

mortos nem presos, continuando assim nas escondidas, o desenvolver da capoeiragem.



Só em 1930 a capoeira deixa de ter decreto criminoso, e ganha um caráter nacional. Com a

valorização da cultura baiana por meio do então governador da Bahia Juracy Magalhães, o

atual presidente do Brasil Getúlio Vargas decide tirar a capoeira do código penal, entendendo

como a única luta de origem totalmente brasileira. Nesse período os movimentos nacionalistas

encontram nas manifestações populares os símbolos nacionais que estes buscavam,

oficializando a capoeira como prática esportiva. É ai que o capoeira passa a ser capoeirista.

Surge a presença de dois seres iluminados que buscando a institucionalização e organização

da capoeira se destacam e influenciam até os dias de hoje, o Mestre Bimba e o Mestre

Pastinha. Mestres da capoeira baiana que se diferenciam nas linhas de capoeira.



Manuel do Reis Machado o Mestre Bimba cria a Luta Regional Baiana, introduzindo golpes

de outras lutas na sua escola. Buscando um caráter lutador e esportivo da capoeira. Já Vicente

Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha presa pela africanização da capoeira, desenvolvendo a

Capoeira Angola, que é a capoeira mãe (a partir dos movimentos da chamada Capoeira

Angola se inventou outros e outros), não limitando a Capoeira Angola apenas luta e sim como

manifestação cultural ancestral.



Nesse artigo o Mestre Pastinha é o principal contribuinte, pois seus ensinamentos repercutem

até hoje, sua busca pela valorização do capoeirista e da Capoeira Angola colocam a cultura

popular como um meio transmissor de conhecimentos ancestrais e despeja métodos

pedagógicos em seus ensinamentos.



Mas foi a Capoeira Regional do Mestre Bimba quem mais se desenvolveu e se inseriu nas

instituições de ensino, devido a sua relação com os conhecimentos de educação física e na

busca pela marcialidade da dança/luta.



A Capoeira Angola, com o falecimento do Mestre Pastinha na década de 80 viveu um longo

período de decadência, seus principais discípulos, os Mestres João Pequeno de Pastinha e

João Grande, vivam em condições de esquecimento (igualmente o Mestre Pastinha em seus

últimos dias de vida), porém o Mestre João Pequeno continuava a lecionar, mas adotou a

inovação de Mestre Bimba quando acionou a utilização de cordões como meio de graduação

de seus alunos, sofismando dos moldes da Capoeira Angola do Mestre Patinha. O Mestre João

Grande deixa de treinar e dar aulas. Daí que surge a figura emblemática de Pedro Moraes

Trindade que inicia na academia do Mestre Pastinha com oito anos, (mas não chegou a

aprender com seu Pastinha, já cego e com saúde bastante debilitada), se instruindo com os

Mestres João Grande e João Pequeno.



A decadência da Capoeira Angola é interrompida quando o Mestre Moraes busca o resgate da

Capoeira Angola e dos velhos mestres da Bahia, colocando o Mestre João Grande, até então

afastado do mundo capoeirístico, para lecionar novamente. O Mestre João Pequeno também

aboliu o uso de cordas de graduação e volta sua origem que é a Capoeira Angola. Esse

movimento de resgate cultural da Capoeira Angola encabeçado pelo Mestre Moraes10

aconteceu nas décadas de 70 e 80, difundindo o ensinamento dessa arte pelo país.



Professor de inglês da rede estadual de ensino da Bahia e doutorando em História Sociais o

Mestre Moraes contribui para valorização da Capoeira Angola como instrumento educacional

e de modificações sócias assiduamente. O mestre referido possui indagações que nos fazem

entender como a Capoeira Angola é rica e complexa em sua magnitude didática e afetiva.

Perguntado em minhas pesquisas sobre o papel contribuinte da Capoeira Angola como meio

formador e capacitador dos cidadãos, o Mestre Moraes é categórico:



10

. Pedro Moraes Trindade, Mestre e fundador do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP),

professor de inglês titular da rede estadual da Bahia, Mestre em e doutorando em História Sociais,

principal responsável pela emergia da Capoeira Angola da linhagem do Mestre Pastinha em seu

período de quase extinção, dono de um pleno conhecimento prático e teórico na defesa da Capoeira

Angola como utensílio socializador e modificador de realidades sociais.

A Capoeira Angola é um instrumento de luta. Instrumento de luta do

proletariado, e os conceitos de cidadania ele nos reporta a direitos que tem

sidos cerceados pelas classes dominantes e nós através da capoeira, podemos

entender toda essa complexidade da sociedade brasileira e procurarmos uns

caminhos para chegarmos no lugar onde merecemos estar. A própria

capoeira pode no processo de formar cidadãos, levar a entender a forma

como nossos direitos são tirados e a partir daí podemos lutar. Que é uma

outra luta, é uma luta que ela não está na roda de capoeira, mas você

aprende na roda de capoeira e usa fora da roda, em direção ao sistema.



Sobre a prática educativa para crianças e adolescentes o Mestre Moraes diz:



A educação de criança deve ser estimulada pelo lúdico e a capoeira

tem uma vertente lúdica que vai facilitar o aprendizado das crianças.

Através da capoeira você pode orientar a criança ao respeito do espaço do

outro, pra o respeito à ancestralidade, pro respeito à cidadania, entender o

que é cidadania. E através da capoeira vão entender, por exemplo, falando

das crianças afrodescendentes que elas não são pobres por que estão

pagando um pecado divino, através da capoeira vão entender que elas são

pobres sem o direito aquilo que elas tem direitos, por que isso é histórico, o

afrodescendente no Brasil ele sempre sofreu pelo fato de ser negro e através

da capoeira os mestres de capoeira orientar às crianças pra isso. O ruim é

quando vejo mestres ensinando as crianças unicamente a ser atletas, o

atleta qualquer um pode ser desde que ele tenha o mínimo pra ser atleta,

que é a comida, a casa pra morar, e uma criança que não tem esse mínimo

não pode ser um atleta, então tem que ser um pensador e ser um pensador

através da capoeira.



É dentro desses conceitos que a Capoeira Angola feita de forma correta desempenha seu papel

principal de ajudar na formação e informação do povo brasileiro. Os métodos educacionais

formais estão ultrapassados e na tentativa de melhoria imediata outros métodos vão sendo

colocados quase que obrigatoriamente sem melhoria alguma. As escolas tornam-se locais de

depósito de crianças, sem artifícios de apresamentos positivos e lúdicos nas atividades

acadêmicas. É ai que a Capoeira Angola se insere para artistificar a mesmice pedagógica,

visando o conhecimento mútuo dos praticantes, tornando-os cientes do real estado social dos

cidadão brasileiros, desenvolvendo a musicalidade e o lado artístico de cada um, preservando

e resgatando os laços ancestrais afroindigenas permanentes (mesmos que incubados em

muitos) em cada um dos brasileiros.



Consideramos a educação popular como forma mais aceitável para a transmissão dos valores

humanos, ambientais e sociais. E a Capoeira Angola exala em seus conhecimentos ancestrais

formalizados por seu Pastinha, a pedagogia necessária para a obtenção de melhorias na

educação pública, modificando positivamente a autoestima dos afrobrasileiros que se

reconheceram dentro do sistema dominador e excludente, não sendo pacífico aos descasos

públicos e os desrespeitos sociais.

Referências



* Marcelo Ragner Guerra da Silva, graduado em Geografia, pós-graduando especialização em

História da África e praticante da Capoeira Angola.



ARAÚJO, Paulo Coelho. Capoeira Novos Estudos – Abordagens sócio-antropologicas.

Juiz de Fora: Notas & Letras, 2004.



CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola – educação pluriétnica corporal e ambiental.

Salvador: Vento Leste, 2009.



CONDE, Bernardo Velloso. A Arte da Negociação: a Capoeira como Navegação Social.

Rio de Janeiro: Novas Idéias, 2007. (Série Capoeira Viva).



DECRETO nº 487, de 11 de outubro de 1890. Código Penal Brasileiro. Capítulo XXII-Dos

vadios e capoeira. Artigos 402 a 403.



FERREIRA, Izabel. A Capoeira no Rio de Janeiro 1890-1950. Rio de Janeiro: Novas

Idéias, 2007. (Série Capoeira Viva).



FREIRE, Paulo. Educação Como Prática de Liberdade. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

1980.



HEYWOOD, Linda M.. A Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2008.



PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola por Mestre Pastinha. 3ª ed. Salvador:

Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1964.



PEQUENO, João. Mestre João Pequeno - Uma Vida de Capoeira. 1ª ed. Salvador: 2000.



SANTOS, Jorge Egídio dos. Jogo de Angola-Vida e Obra. 1ª ed. Salvador: 2010.


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