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Das escondidas a sala de aula - Marcelo Ragner Silva

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Das escondidas a sala de aula - Marcelo Ragner Silva Powered By Docstoc
					DAS ESCONDIDAS A SALA DE AULA: uma abordagem sociocultural da Capoeira Angola
como instrumento educacional

Marcelo Ragner Guerra da Silva*
ej.marceloragner@gmail.com

Resumo
Esse artigo tem por desígnio investigar a contribuição da cultura popular de matriz africana
(ancestral) na formação de cidadãos atuantes e conscientes. Sendo a Capoeira Angola eleita
manifestação de valor significativo, e que se enquadram perfeitamente nos parâmetros éticos e
étnicos da educação “oficial”. Instituindo artifícios em prol da educação e do respeito ao
próximo. Entendemos como outra forma de educação formal extraclasse e multidisciplinar.
Os valores base que sustentam a Capoeira Angola em sua essência lúdica são a ancestralidade,
a ritualidade, musicalidade e as relações comunais. Remetendo-nos aquele passado de
humilhação e perseguição, apresentando como instrumento de luta corporal pela libertação de
um povo e de resistência cultural. Transformando o, até então, estivador do porto ou um
valentão, em cidadãos politizados, conscientes de sua negritude e com a mesma gana de
mudança que sussurravam em ânsia dentro das senzalas.

Palavras-chave: Capoeira Angola, cultura popular, educação popular.

Summary
This article is by design to investigate the contribution of popular culture of African origin
(ancestry) in the formation of act citizens. Being elected Capoeira Angola demonstration of
significant value, and that fit perfectly in the ethical and ethnic standards of "official”
education. Instituting devices for education and respect for others. Understood as another
form of extra formal education class and multidisciplinary. The values underpinning Capoeira
Angola in her playful essence are the ancestry, the spirituality, the musicality and the
community relations. Referring back to that past of humiliation and persecution, presenting as
an instrument of wrestling for the liberation of a people and of cultural resistance.
Transforming then stevedores in the port or in a reckless in politicized citizens conscious of
their blackness and with the same desire for change that whispered in craving in the slave
quarters.

Keywords: Capoeira Angola, popular culture, popular education.
   1. INTRODUÇÃO

Ao nos depararmos com a história do Brasil contada pelos olhares eurocentristas e
preconceituosos da maioria dos autores de livros didáticos entenderam os porquês da falta de
identidade dos afrodescendentes e indígenas que populam as turmas de ensino médio e
fundamental das escolas públicas do nosso país. Desprezada dessa história, está a capoeira,
que permeia todos os períodos históricos do Brasil, com diferentes aceitações, mas com seu
objetivo principal, que é a libertação, sempre estabelecido. Libertação do próprio indivíduo
enquanto indivíduo, do indivíduo do sistema dominante. Por estar sempre às margens, a
resistência da capoeira se solidifica a cada um dos períodos de sua história, assim como os
rituais das religiões afrodescendentes, os diversos folguetos e brincadeiras, sem perder a
essência ancestral, essas manifestações demonstram como a cultura popular é capaz de
relacionar a ludicidade, espiritualidade, a harmonia musical rítmica, dentro de fundamentos
pedagógicos e descendentes. A Capoeira Angola encontra-se nesse ramo dentro deste mesmo
contexto de resistência e dificuldades. Podemos afirmar que diferentes de outras ações
descendentes dos africanos, a capoeira teve importâncias políticas e bélicas, porém nunca
deixou de ser vista negativamente pela sociedade brasileira, esse quadro se modifica a partir
do século XX quando as buscas pelos símbolos nacionais colocam a capoeira como “luta
brasileira”.
A capoeira é a história do Brasil! Contada por afrodescendentes, a custa de rasteiras e
cabeçadas, que hoje tem a liberdade de expressão na roda, nas escolas de capoeira, nos
debates sobre nosso povo, na escolha dos governantes, nas salas de aula. Esse aspecto de
poder confrontar, contestar e opinar é característica fundamental da cultura popular que
representa as vozes dos excluídos.
Esse cuidado que as manifestações populares possuem de suas raízes atualmente está se
fragilizando, pois a indústria cultural dilacera a ancestralidade, na busca pelos entretenimentos
da moda, algumas organizações se vendem de tal forma que aceitam tudo o que o capital é
capaz. A globalização atinge todos setores da sociedade, na cultura popular a preocupação das
instituições e representações religiosas que desenvolvem trabalhos sérios edificam uma
barreira onde a conservação do fundamento e da tradição não pode exceder os limites do
sagrado do ritual. Esses recintos, em sua maioria nos subúrbios, são mantenedores de
conhecimentos que transcendem os séculos e vieram do além mar, mantendo em suas práticas
as competências de ensino que necessitam os parâmetros educacionais em vigor e buscando a
reafricanização da nossa cultura. Sobre a preocupação com o abafe da identidade ancestral
afetada pela exploração cultural Pedro Abib¹ diz que:

                               “(...) no Brasil podemos também perceber o quanto esse processo de
                      homogeneização cultural causado pela globalização, vem modificando os
                      comportamentos, inaugurando novas formas de expressão e compreensão do mundo,
                      fortemente influenciadas por uma indústria cultural que consegue estabelecer-se
                      enquanto referência hegemônica e determinante de gostos e preferências, onde muito
                      de nossas tradições artístico-culturais vão sendo pouco a pouco substituídas por um
                      tipo de produto pasteurizado (...)




       __________________________________
       ¹. ABIB, Pedro. Cultura Popular e Educação: um estudo sobre a Capoeira Angola. São Paulo,
       2004, 16 f. Artigo da tese de doutorado em Ciências Sociais aplicadas à Educação. Programa
       de Pós-Graduação, Unicamp.
É com a preocupação em zelar a cultura dos antepassados que a Capoeira Angola se mostra
disposta a derrubar barreiras sociais e intelectuais que a globalização impõe, buscando sim
uma adaptação aos novos modelos socioeconômicos, mas sem perder os valores harmônicos
(ancestrais). Ao afirmar essa transformação da cultura em produto, o autor referido confirma a
idéia de que o interesse das classes dominantes nos “produtos culturais” diz respeito a um
curto espaço de tempo, havendo nenhum compromisso com aquela atividade, apenas a
exploração dos elementos verdadeiros e significativos, que são tratados de forma folclórica. É
na busca pela quebra dessas correntes que a Capoeira Angola se infiltra como instrumento
político e educacional. Buscando uma maior discussão sobre as ações positivistas da educação
popular e resgatando os valores humanos atualmente minimizados.

A base da denominada educação popular está nos ensinamentos didaticamente passados por
gerações e que se mantiveram de forma ocultada, lecionados em locais de difícil acesso longe
dos olhos do patrão. Tendo a oralidade como a principal forma de resistência fonográfica,
ortográfica e gramatical. Todas as manifestações de origem africana e afro-brasileira
estabeleceram na prática oral suas raízes tradicionais que aderiram de seus ancestrais, em um
macro conhecimento, conservaram sua religião, suas divindades e Deuses, suas danças/lutas
ritualísticas, atualmente nomenclaturados de cultura popular e suas transmissões descrito
nesse artigo como educação popular.

É a partir desse entendimento que esse texto pretende demonstrar as transformações do ethos
dos adeptos da capoeira, desde seu período de gestação, passando pelas sociedades
escravagistas e pós-escravidão, chegando aos dias de hoje. Utilizando a mudança nas
denominações dos praticantes dessa arte como meio de simplificar as alterações que
ocorreram no mundo capoeirístico e dos capoeiras, demonstrando a adaptação do sujeito
marginal à sociedade etnocêntrica, expondo o poderio da capoeira como elemento cultural
resistente, vindo a ser um meio de navegação e inclusão social e instrumento cultural
educativo.

A própria denominação da arte capoeira está longe de ter uma verdade absoluta. A etimologia
da palavra capoeira está fortemente ligada aos vocábulos indígenas Tupy ou Guarany ou
Tupy-Guarany (ARAÚJO, apud MARINHO, 2004)², porém as defesas sobre a origem da
nomenclatura indígena a essa arte são quase unânimes entre os pesquisadores, afirmando a
capoeira ser proveniente das palavras kapw (mato) e era (rasteiro) ou tupwera, local na
vegetação de Mata Atlântica onde o mato ralo seria o refúgio dos africanos e
afrodescendentes para os treinamentos corporais. Outra corrente de pensadores dá ao período
agrícola indígena da coivara e da capoeira a origem da expressão nominal capoeira,
afirmando ser na cultura (agricultura) o local da prática corporal donde os escravos iam
trabalhar e, em seu tempo livre, praticavam suas danças/lutas (evidentemente o n´golo dos
negros Bantos) e quando seu dono indagava sobre onde estaria seu escravo respondiam: tá na
capoeira! Vale ressaltar que estamos tratando da gênese etimológica da manifestação corporal
capoeira e não dos seus adeptos.

        __________________________________
       ². a) ARAÚJO, Paulo Coelho. Capoeira Novos Estudos – Abordagens sócio-antropológicas.
       Juiz de Fora: Notas & Letras, 2004.
       b) MARINHO, Inezil Penna. Subsídios para o estudo da metodologia de treinamento da
       capoeiragem. Divisão de Educação Física. Rio de Janeiro, 1945.
Outra corrente afirma ser urbana a criação da denominação capoeira, sendo os vendedores
ambulantes (escravos de ganho) do Rio de Janeiro homens que carregava na cabeça balaios de
palha com galináceas, chamados de capões ou capoeira. Esses trabalhadores em seu tempo
livre desenvolviam seus folguedos herdados de sua terra natal.

Todas essas controvérsias enriquecem a ânsia dos capoeiristas e seus pesquisadores pela
decodificação da origem do nome, tornando uma longa linha de estudo que não vem ao caso o
aprofundamento desse artigo.

O início do entendimento antropológico e educacional da Capoeira Angola necessita de
recapitulações para chegarmos ao juízo amplo do que foram os capoeiras e quem são os
angoleiros. Quando iniciamos pela origem da palavra descobrimos a amplidão do tema e
como são controversas e imprecisas as informações, porém já sabemos do que vamos tratar. É
a partir daí que nasce a figura do capoeira, africano ou afrodescendente que tem em seus
minúsculo momentos de trégua a oportunidade de exercitar suas danças/lutas ritualísticas em
locais de vegetação rasteira dentro da mata, da senzala ou até mesmo em locais escondidos
nas vilas e cidades. Danças/lutas que são provenientes de diversas regiões do continente
africano, mas que por intermédio dos Bantos e de outras etnias se importaram na diáspora. O
N´golo trazido por esses povos Bantos da África austral é a dança/luta que mais se assemelha
com a atual Capoeira Angola, sendo ele o acontecimento ritualístico mais defendido pelos
pesquisadores que buscam a africanização da origem da capoeira. Essa expressão lúdica,
bélica e festiva acontece em períodos determinados pelo desenvolvimento das meninas
quando entram em sua idade reprodutiva, havendo combates entre os pretendentes das moças,
podendo o vencedor se tornar apto ao casamento, esse período da mudança biológica das
moças é conhecido como muficuenas. O N’golo é uma expressão corporal inspirada nas
danças/lutas de acasalamento das zebras, havendo entre elas embates a base de coices e
cabeçadas. Esse ritual é desenvolvido pelos Muxilingues (de Benguela) e os Mulondos (de
Huíla), e principalmente pelos Mucopes do sul de Angola, onde continuam sua tradição, mas a
perca da cultura é notória pelos mais novos. Em Luanda, Bassula é a denominação dada a
uma manifestação semelhante ao N’golo. O pastor sem rebanhos torna-se um marginal. Os
piores bandidos de Benguela em geral são Muxilingues que na cidade usam os passos do
N’golo como arma (NEVES E SOUZA, s/d)³.

Não podemos nos prender apenas ao N’golo e a Bassula como manifestações paternais da
capoeira, outras atividades (como a Ladja de Martinica e o Mani em Cuba) foram trazidas
pelos africanos de outras etnias, porém as informações escritas de cunho cultural e explicativo
são limitadíssimas, mas está evidente nos movimentos corporais que a familiarização entre as
danças/lutas ritualísticas Bantos e a capoeira do Brasil aconteceu e acontece.

Se tratando do dono da roda de Capoeira, o arco musical berimbau, é um instrumento
percussivo milenar com origem também africana, mas que não fazia nem faz parte dos rituais
de danças/luta do antigo macro Banto, atual África austral. Porém é bastante utilizado pelos
povos da costa ocidental da África. Usado como um instrumento pastoril angolano
denominado hungu ou m’bolumbumba, sua utilização também é comum em rodas de griots
que com estes transmitem consciência de vida quase como dizem os provérbios chineses,



 ________________________________________
³. NEVES E SOUZA, Albano. Da minha África e do Brasil que eu vi. Angola, s/d.
corriqueiras nas comunidades comunais da África. Sua confecção veio junto ás centenas de
habilidades intelectuais, manuais e musicais dos africanos escravizados. Utilizado nas feiras
como instrumentos que chamava atenção e atraía os fregueses. No Brasil, por instrução da
cultura oral africana popularizou-se de berimbau. Em cumplicidade com a musicalidade,
nossos griots, os mestres de capoeira, exploram o melhor das frases, reproduzindo os
sentimentos humanos maus e bons para reflexões que vão de uma geração a outra.

Assim, o presente estudo foi conduzido para elucidar as contribuições africanas
(principalmente Bantos) para a formação da cultura (popular) brasileira, buscando o cunho
lúdico e educativo dessas contribuições, popularizando-os ainda mais nas raízes culturais
nordestinas e brasileiras e no cotidiano dos seus favoráveis. A Capoeira Angola desenvolvida
na linhagem do Mestre Pastinha é a maior significação da arte capoeira volvida para a
reafricanização cultural, a conservação de valores, o respeito ao capoeirista e ao ritual da roda
de capoeira e o desenvolvimento educacional do alistado a Capoeira Angola. A Capoeira
Angola foi a formalização popular da prática da capoeiragem, os velhos mestres possuíam
uma indumentária “impecável”, considerando a vestimenta completa alvinha, com chapéus de
estilo sombreiros Panamá e com sapatos brilhosos, procuravam a melhor roupa para vadiar
nas rodas e após o término seguiam na boemia ou iriam trabalhar. Regulamentos foram
criados nas escolas de Capoeira Angola e Regional organizando burocraticamente a capoeira,
padronizando os capoeiristas, parecia que a capoeira estava salva, e bons tempos (do meio
para o final da primeira metade do século XX) marcavam na história dos capoeiristas as rodas
repletas de mestres que jogavam capoeira feito “cobra pelo chão” e não se sujavam, mestres
como Waldemar da Paixão (possuía um barracão de Capoeira Angola na Liberdade,
Salvador), Aberrê, Siri de Mangue, Cobrinha Verde, Traíra, Noronha, Bobó, Totonho da
Maré, Bimba criador da Capoeira Regional Baiana e Vicente Ferreira Pastinha mantenedor da
tradição da Capoeira Angola. A politica nacionalista da época explorava a capoeira na
tentativa da impregnação de uma identidade nacional, que por sinal, colocou a capoeira como
um elemento apenas folclórico, negando a devida importância nos benefícios pedagógicos que
eram oferecidos pelos mestres. Mestre Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira
Angola – C.E.C.A.- onde se difundiu uma imensa árvore genealógica da Capoeira Angola
gerando frutos até hoje.

É a partir dos fundamentos educacionais práticos e teóricos da escola “pastiniana” que a
Capoeira Angola se coloca como atividade integrante da educação popular, que tem na
ancestralidade sua essência, a oralidade como meio de comunicação transmissor dos
conhecimentos e experiências e a musicalidade, complemento artístico que faltava, trazendo
no sentimento de lealdade, a cumeeira do ato cidadão. A ludicidade do jogo desenvolve o
nosso eu próprio, conhecendo nosso corpo e seus limites, buscando os limites na roda (não
machucar seu camarada de jogo e ter noção de tempo e espaço).

A respeito da ancestralidade e das atitudes éticas comenta mestre Pastinha ao jornal Tribuna
da Bahia, 29 de julho de 1973.




[Digite texto]
                               Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a
                         ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meus avós é a lei da
                         lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não dexei mudar aqui na
                         Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são
                         meus.

Sobre a verdadeira autenticidade da Capoeira Angola e de sua singularidade o referido mestre
diz:

                               É lógico que nos referimos à Capoeira Angola, a legitima Capoeira
                         trazida pelos africanos e não à mistura de Capoeira com box, luta livre
                         americana, judô, jiu-jitsu etc, que lhe tiram suas características, não
                         passando de uma modalidade mista de luta ou defesa pessoal onde se
                         encontram golpes e contragolpes de todos os métodos de luta
                         conhecidos.(PASTINHA, 1964)4

Os benefícios extra físicos da Capoeira Angola são conhecidos e investigados pelo Mestre
Pastinha, afirmando mudanças positivas nos capoeiristas.

                               O capoeirista deve ter em mente que a Capoeira não visa,
                         exclusivamente, preparar o individuo para o ataque ou defesa contra uma
                         agressão, mas, desenvolver, ainda, por meio de exercícios físicos e mentais
                         um verdadeiro estado de equilíbrio psico-físico fazendo do capoeirista um
                         autentico desportista um homem que sabe dominar-se antes de dominar o
                         adeversário.
                         O capoeirista deve ser calmo, tranquilo, calculista. (PASTINHA, 1964)


Relacionando os ideais educativos e socializadores do sábio Mestre Pastinha aos ensejos do
maior educador brasileiro Paulo Freire, percebo a naturalização da Capoeira Angola nos
moldes positivistas que a prática liberdade da à educação. Possuindo um valoroso aprendizado
nas relações pessoais e entendendo o ser social como integrante de um sistema de relações
que poderei ser útil e modificador.

Paulo Freire descreve da seguinte forma os beneficios do entendimento harmônico social.

                         (...) As relações que o homem trava no mundo com o mundo (pessoais,
                         impessoais, corpóreas, incorpóreas) apresentam uma ordem tal de
                         características que distinguem totalmente dos puros contatos, típicos da outra
                         esfera animal. Entendemos que, para o homem, o mundo é uma realidade
                         objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É fundamental,
                         contudo, partimos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não
                         está no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua
                         abertura à realidade, que o faz ser ente de relações que é. (FREIRE, 1980)5

O indivíduo não pode se enxergar como membro único, nem mesmo como dono da verdadeira
teoria, o poder de se entender como membro complementar das relações sociais é essencial
para as práticas educativas, principalmente da que chamamos educação popular.
  ________________________________________
4
    . PASTINHA,Vicente Ferreira. Capoeira Angola por Mestre Pastinha. 3ª ed. Salvador: Fundação
Cultural do Estado da Bahia, 1964.
5
  . FREIRE, Paulo. Educação Como Prática de Liberdade. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
As manifestações populares têm em sua particularidade o dom de devolver ás comunidades,
de forma ainda mais rica, a educação formal que permeia de forma oculta nas atividades
lúdicas ancestrais. Sobre as contribuições e a valorização da cultura como lógicas da
educação, Freire relata:

                              Experimentáramos métodos, técnicas, processos de comunicação.
                       Superamos procedimentos. Nunca, porém, abandonamos a convicção que
                       sempre tivemos, de que só nas bases populares e com elas, poderíamos
                       realizar algo de sério e autêntico para elas. Daí, jamais admitirmos que a
                       democratização da cultura fôsse a sua vulgarização, ou por outro lado, a
                       doação ao povo, do que a êle formulássemos nós mesmos (...) (FREIRE,
                       1980)

As expressões da Capoeira Angola estão presentes em todos os seus extremos, nos
movimentos corporais o fingimento, a mentira, o molejo e os golpes de ataque e defesa
constituem uma gama de artifícios lúdicos utilizados no jogo. Na musicalidade os tocadores
de todos os instrumentos deverão reproduzir os sons em perfeita harmonia evitando a quebra
da energia (como em um ritual onde a música dita suas etapas), os berimbaus devem ser
impecáveis em suas funções, sendo o berimbau Gunga o maestro da roda. O cantador deve
cantar de acordo com o que está acontecendo no jogo ou transmitindo mensagens para quem
esta na roda ou fora dela, buscando cantos que tenham ritmos sequenciais e que não
inferiorizem a imagem humana e sua determinada cultura. Todos esses elementos contribuem
para uma admirável roda de Capoeira Angola e as expressões positivisam a tradição ancestral.
A harmonia entre os elementos musicais e corporais colocam a capoeira como um ritual de
integração psicomotora, que, feito dentro do respeito à ancestralidade, nos remete ao passado
de festejos ás escondidas, em que a luta (adaptada à dança) era pela liberdade.

A mandinga é algo que não pode deixar de ser comentado nas pesquisas sobre capoeira, em
diferentes temáticas, é mais uma particularidade da capoeiragem. Quando falamos atualmente
em mandinga na capoeira, nos referimos àquele sujeito que tem movimentos de enganação,
que joga de forma exemplar e que traz malandragem em suas expressões (musicais e
corporais). Porém, antigamente a mandinga era utilizada por aqueles capoeiras que tinham
ligação efetiva com o Candomblé e que dificilmente se davam mal nas rodas, pois suas
proteções espirituais não falhavam. A mandinga na capoeira também contribui para a
formação de indivíduos ativos e espertos ao opressor, tendo que utilizá-las no dia a dia
constantemente. A mandinga é tudo, é o ato de correr atrás do capital para sobreviver, é aturar
o ônibus lotado e os empecilhos da viajem, é desviar das pessoas em locais com grande
lotação, é se capacitar para enfrentar o mercado de trabalho e muito mais. A mandinga é tão
ampla que pode se tornar um único alvo para uma pesquisa científica. Mas ressaltamos a
prática de mandigar para demostrar seu lado educacional, que está na malandragem (astúcia)
positiva e que torna o mandingueiro da capoeira um cidadão bem mais preparado para as




[Digite texto]
adversidades. Sobre a mandinga, Mestre Pastinha coloca como um artefato malicioso de
funcionalidade e importância impar para o capoeirista:

                              O capoeirista lança mão de inúmeros artifícios para enganar e
                       distrair o adversário. Finge que se retira e volta-se rapidamente. Pula para
                       um lado e para outro. Deita-se e levanta-se. Avança e recúa. Finge que não
                       está vendo o adversário para atraí-lo. Gira para todos os lados e se
                       contorce numa “ginga” maliciosa e desconcertante.
                        Não tem pressa em aplicar o golpe, ele será desferido quando as
                       probabilidades de falhar sejam as mínimas possíveis.
                       O capoeirista sabe se aproveitar de tudo que o ambiente lhe proporciona.
                       (PASTINHA, 1964)

As junções de fenômenos dessemelhantes (roda, jogo, música, respeito, violência, liberdade,
harmonia, etc.) complementam a capoeira como aparelho lúdico e de ligação essencialmente
ancestral, transmitindo não apenas a cidadania, mas também a educação ambiental, que
igualmente às manifestações religiosas e culturais, veem na diáspora africana. A conservação
do ambiente e o respeito aos elementos dos ecossistemas fazem parte da conjuntura cultural
dos povos africanos. Esse fato implica a necessidade da introdução dos conhecimentos
técnicos e científicos de origem africana e afro-brasileira nos parâmetros escolares de todos os
níveis e em estâncias que tratem com a população em geral (de lixões aos iluminados
shoppings). Vivemos em um período histórico em que as ações de mudanças imediatas são
determinantes para o futuro próximo, na tentativa de minimização dos problemas climáticos e
ambientais. As manifestações populares de matriz afroindígena trazem em suas profundezas a
relação harmônica entre homem e natureza de forma sustentável e respeitosa. A respeito da
temática ambiental que envolve o conhecimento filosófico ancestral, o influente acadêmico e
griot baiano Jorge Conceição6 comenta que “as filosofias ancestrais africanas acreditam nas
potencialidades diferentes complementares e transmutáveis nas direções das melhores
qualidades coletivas e ambientais!” A Capoeira Angola e outras atividades afrodescendentes
e africanas buscam a preservação de todos os valores ancestrais e transportam um arcabouço
pedagógico que trabalha em prol a consciência pluriétnica e ambiental.


Uma breve leitura cronológica da Capoeira Angola e seu desfecho educativo

Compreendendo o período colonial do Brasil (XVI ao XVIII) já podemos afirmar a chegada
das primeiras levas de negros africanos de diversas regiões, mas principalmente e inicialmente
da África Central. Pondo em evidencia a zona cultural do Congo e Angola (HEYWOOD,
2008)7. Toda a gama cultural dos africanos na condição de escravos estava exilada nos porões
dos tumbeiros, logo depois nas sujas senzalas e nas escondidas. É nesse processo inicial de
“construção” do Brasil que a capoeira vai se gerar, porém acreditamos que a denominação
capoeira só é firmada no século XVIII. Nos dizeres negativistas das classes dominantes do
período colonial, a capoeira ou o capoeira (individuo praticante), é entendida como situação
marginal de extrema periculosidade para o “cidadão” branco da época. Iniciando assim seu
longo e heroico processo de resistência e fortificação como manifestação cultural marginal.
  ________________________________________
6.
    CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola – educação pluriétnica corporal e ambiental. Salvador:
Vento Leste, 2009.
7
  . HEYWOOD, Linda M.. A Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2008.
 Como todas as manifestações físicas e espirituais de origem africanas ou indígenas, a
capoeira também foi vítima das represálias públicas e proibições. Mas o perfil lutador do
capoeira da época citada, não permitiu o a extinção por completo dessa atividade de
dança/luta. A mesclagem de diferentes danças/lutas africanas Bantos ou não, geraram a
capoeira, que proibida pelos senhores, se ergueu nos locais de difícil acesso dos capitães do
mato e da policia. Acredita-se que a repressão inicial é decorrente do temor dos senhores nas
habilidades corporais dos negros, e que se rebelando poderiam trazer grandes prejuízos para o
mercado escravagista. Devemos também levar em conta que toda e qualquer manifestação
africana (de escravos) nessa época era totalmente abominada, ridicularizada e diabolizada
pela sociedade colonial brasileira.
Alguns datam a criação da capoeira aos escravos fugados dos engenhos do Recôncavo Baiano
e confirma o elemento indígena na origem etimológica, como Waldeloir Rego (1968)8.
Entretanto não temos registros escritos da presença de capoeira nem de seus aspectos no
século XVI e XVII. O que encontramos atualmente são dados em registros policias do século
XVIII em diante, que descrevem todos os tipos de desordeiros como capoeiras.

As cidades que receberam mais escravos no período colonial vieram a serem as que
desenvolveram a luta de capoeira em busca da liberdade. Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco
possuíam um enorme contingente negro e a capoeira a todo instante ligada (com outro nome
ou não) as revoltas e tentativas de rebelião dos escravos ganhou um rótulo negativo na
sociedade. No Quilombo dos Palmares os negros que resistiam as caçadas venciam os
perseguidores se escondendo na vegetação e atacando a base de pernadas, cabeçadas e
rasteiras.

O ser capoeira se torna um individuo de desconfiança, em Pernambuco a criação das Bandas
reunia os afrodescendentes libertos e não libertos e outros para confrontos sangrentos com as
Bandas de outros bairros, mais tarde com a deportação dos capoeira para o presídio da Ilha de
Fernando de Noronha a capoeira quase se extingue vindo a gerar outra manifestação, o frevo
(que se utiliza de movimentos de capoeira, porém sem ataques). No Rio de Janeiro as Maltas
representam a organização dos capoeiras, dividindo os bairros da cidade em continua
rivalidade e servindo aos políticos (principalmente os Conservadores) serviços de
capangagem (CONDE, 2007)9. Na Bahia também houve perseguição aos adeptos, porém o
que a distingue dos outros locais citados, é a escolarização da capoeira, não em locais
públicos ou escolas convencionais, mas na transmissão e conservação dos valores da capoeira
por africanos e afrodescendentes em espaços ocultados. A aceitação e o apreço de parte da
sociedade também ajudou a capoeira baiana a se legitimar e se institucionalizar.

É no século XIX que mudanças e acontecimentos no Brasil modificaram a capoeira e os
capoeiras. Sobre essas mudanças comenta Bernardo Veloso Conde:

                       Alguns acontecimentos foram processando-se lentamente desde 1850. A
                       proibição do tráfico atlântico de escravos, o grande aumentos da imigração
                       portuguesa, as reformas na estrutura urbana e, finalmente, a Guerra do

  ________________________________________
8
          Waldeloir. Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico. Bahia: Ed. Itapuã, 1968.
    . REGO,
9
  . CONDE, Bernardo Velloso. A Arte da Negociação: a Capoeira como Navegação Social. Rio de
Janeiro: Novas Idéias, 2007. (Série Capoeira Viva).
                       Paraguai trouxeram significativas mudanças à vida do capoeira. (CONDE,
                       2007)

A Guerra do Paraguai reformulou o exército brasileiro e acionou a força dos capoeiras nessa
batalha, criando a Guarda Negra, prometendo aos ainda escravos sua alforria no regresso da
guerra. Com a utilização do contingente negro capoeira na Guerra do Paraguai, todas as
organizações (Maltas e Bandas) são desmanteladas e só após o término da guerra voltam,
agora na condição de heróis. As Maltas de capoeira passam a interferir no processo eleitoral,
chegando sua força a receber a alcunha de “Partido Capoeira”, nome de porte no processo
político da época.

Mas é com o advento da República que a capoeira leva um grande revés. A adesão
monárquica e do Partido Conservador desprotege os célebres capoeira e é na figura de
Sampaio Ferraz que aparece um dos principais algozes do quase desaparecimento da capoeira.
Este então, é nominado chefe de polícia da capital e tem por tarefa dizimar os capoeiras,
perseguindo os melhores e mais perigosos. Capturados e levados a Fortaleza de Santa Cruz,
posteriormente para Fernando de Noronha, sem direito a defesa.

Mas é em 11 de outubro 1890 que a capoeira encerra seu ciclo de institucionalização, com a
promulgação da lei que estabelece a capoeira como crime.

Dos Vadios e Capoeiras

Art. 402 – Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal,
conhecidos pela denominação de capoeiragem: andar em correrias, com armas ou
instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordens,
ameaçando pessoa certa ou incerta, incutindo temor ou algum mal:
Pena: De prisão celular de dois a seis meses.
Art. 403 – No caso de reincidência será aplicado ao capoeira, no grau máximo a pena do art.
400. [Pena de um a três anos em colônias penais que se fundarem em ilhas marítimas, ou na
fronteiras do território nacional, podendo para esse fim serem aproveitados os presídios
militares existentes.
Paragrafo único – Se for estrangeiro será deportado depois de cumprir pena.

Praticamente a capoeira se encerra, nos olhos das classes dominadoras, mas como toda
manifestação resistente, guarda ainda pessoas com conhecimentos de repasse que não foram
mortos nem presos, continuando assim nas escondidas, o desenvolver da capoeiragem.

Só em 1930 a capoeira deixa de ter decreto criminoso, e ganha um caráter nacional. Com a
valorização da cultura baiana por meio do então governador da Bahia Juracy Magalhães, o
atual presidente do Brasil Getúlio Vargas decide tirar a capoeira do código penal, entendendo
como a única luta de origem totalmente brasileira. Nesse período os movimentos nacionalistas
encontram nas manifestações populares os símbolos nacionais que estes buscavam,
oficializando a capoeira como prática esportiva. É ai que o capoeira passa a ser capoeirista.
Surge a presença de dois seres iluminados que buscando a institucionalização e organização
da capoeira se destacam e influenciam até os dias de hoje, o Mestre Bimba e o Mestre
Pastinha. Mestres da capoeira baiana que se diferenciam nas linhas de capoeira.

Manuel do Reis Machado o Mestre Bimba cria a Luta Regional Baiana, introduzindo golpes
de outras lutas na sua escola. Buscando um caráter lutador e esportivo da capoeira. Já Vicente
Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha presa pela africanização da capoeira, desenvolvendo a
Capoeira Angola, que é a capoeira mãe (a partir dos movimentos da chamada Capoeira
Angola se inventou outros e outros), não limitando a Capoeira Angola apenas luta e sim como
manifestação cultural ancestral.

Nesse artigo o Mestre Pastinha é o principal contribuinte, pois seus ensinamentos repercutem
até hoje, sua busca pela valorização do capoeirista e da Capoeira Angola colocam a cultura
popular como um meio transmissor de conhecimentos ancestrais e despeja métodos
pedagógicos em seus ensinamentos.

Mas foi a Capoeira Regional do Mestre Bimba quem mais se desenvolveu e se inseriu nas
instituições de ensino, devido a sua relação com os conhecimentos de educação física e na
busca pela marcialidade da dança/luta.

A Capoeira Angola, com o falecimento do Mestre Pastinha na década de 80 viveu um longo
período de decadência, seus principais discípulos, os Mestres João Pequeno de Pastinha e
João Grande, vivam em condições de esquecimento (igualmente o Mestre Pastinha em seus
últimos dias de vida), porém o Mestre João Pequeno continuava a lecionar, mas adotou a
inovação de Mestre Bimba quando acionou a utilização de cordões como meio de graduação
de seus alunos, sofismando dos moldes da Capoeira Angola do Mestre Patinha. O Mestre João
Grande deixa de treinar e dar aulas. Daí que surge a figura emblemática de Pedro Moraes
Trindade que inicia na academia do Mestre Pastinha com oito anos, (mas não chegou a
aprender com seu Pastinha, já cego e com saúde bastante debilitada), se instruindo com os
Mestres João Grande e João Pequeno.

A decadência da Capoeira Angola é interrompida quando o Mestre Moraes busca o resgate da
Capoeira Angola e dos velhos mestres da Bahia, colocando o Mestre João Grande, até então
afastado do mundo capoeirístico, para lecionar novamente. O Mestre João Pequeno também
aboliu o uso de cordas de graduação e volta sua origem que é a Capoeira Angola. Esse
movimento de resgate cultural da Capoeira Angola encabeçado pelo Mestre Moraes10
aconteceu nas décadas de 70 e 80, difundindo o ensinamento dessa arte pelo país.

Professor de inglês da rede estadual de ensino da Bahia e doutorando em História Sociais o
Mestre Moraes contribui para valorização da Capoeira Angola como instrumento educacional
e de modificações sócias assiduamente. O mestre referido possui indagações que nos fazem
entender como a Capoeira Angola é rica e complexa em sua magnitude didática e afetiva.
Perguntado em minhas pesquisas sobre o papel contribuinte da Capoeira Angola como meio
formador e capacitador dos cidadãos, o Mestre Moraes é categórico:

10
 . Pedro Moraes Trindade, Mestre e fundador do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP),
professor de inglês titular da rede estadual da Bahia, Mestre em e doutorando em História Sociais,
principal responsável pela emergia da Capoeira Angola da linhagem do Mestre Pastinha em seu
período de quase extinção, dono de um pleno conhecimento prático e teórico na defesa da Capoeira
Angola como utensílio socializador e modificador de realidades sociais.
                             A Capoeira Angola é um instrumento de luta. Instrumento de luta do
                     proletariado, e os conceitos de cidadania ele nos reporta a direitos que tem
                     sidos cerceados pelas classes dominantes e nós através da capoeira, podemos
                     entender toda essa complexidade da sociedade brasileira e procurarmos uns
                     caminhos para chegarmos no lugar onde merecemos estar. A própria
                     capoeira pode no processo de formar cidadãos, levar a entender a forma
                     como nossos direitos são tirados e a partir daí podemos lutar. Que é uma
                     outra luta, é uma luta que ela não está na roda de capoeira, mas você
                     aprende na roda de capoeira e usa fora da roda, em direção ao sistema.

Sobre a prática educativa para crianças e adolescentes o Mestre Moraes diz:

                              A educação de criança deve ser estimulada pelo lúdico e a capoeira
                       tem uma vertente lúdica que vai facilitar o aprendizado das crianças.
                       Através da capoeira você pode orientar a criança ao respeito do espaço do
                       outro, pra o respeito à ancestralidade, pro respeito à cidadania, entender o
                       que é cidadania. E através da capoeira vão entender, por exemplo, falando
                       das crianças afrodescendentes que elas não são pobres por que estão
                       pagando um pecado divino, através da capoeira vão entender que elas são
                       pobres sem o direito aquilo que elas tem direitos, por que isso é histórico, o
                       afrodescendente no Brasil ele sempre sofreu pelo fato de ser negro e através
                       da capoeira os mestres de capoeira orientar às crianças pra isso. O ruim é
                       quando vejo mestres ensinando as crianças unicamente a ser atletas, o
                       atleta qualquer um pode ser desde que ele tenha o mínimo pra ser atleta,
                       que é a comida, a casa pra morar, e uma criança que não tem esse mínimo
                       não pode ser um atleta, então tem que ser um pensador e ser um pensador
                       através da capoeira.

É dentro desses conceitos que a Capoeira Angola feita de forma correta desempenha seu papel
principal de ajudar na formação e informação do povo brasileiro. Os métodos educacionais
formais estão ultrapassados e na tentativa de melhoria imediata outros métodos vão sendo
colocados quase que obrigatoriamente sem melhoria alguma. As escolas tornam-se locais de
depósito de crianças, sem artifícios de apresamentos positivos e lúdicos nas atividades
acadêmicas. É ai que a Capoeira Angola se insere para artistificar a mesmice pedagógica,
visando o conhecimento mútuo dos praticantes, tornando-os cientes do real estado social dos
cidadão brasileiros, desenvolvendo a musicalidade e o lado artístico de cada um, preservando
e resgatando os laços ancestrais afroindigenas permanentes (mesmos que incubados em
muitos) em cada um dos brasileiros.

Consideramos a educação popular como forma mais aceitável para a transmissão dos valores
humanos, ambientais e sociais. E a Capoeira Angola exala em seus conhecimentos ancestrais
formalizados por seu Pastinha, a pedagogia necessária para a obtenção de melhorias na
educação pública, modificando positivamente a autoestima dos afrobrasileiros que se
reconheceram dentro do sistema dominador e excludente, não sendo pacífico aos descasos
públicos e os desrespeitos sociais.
Referências

* Marcelo Ragner Guerra da Silva, graduado em Geografia, pós-graduando especialização em
História da África e praticante da Capoeira Angola.

ARAÚJO, Paulo Coelho. Capoeira Novos Estudos – Abordagens sócio-antropologicas.
Juiz de Fora: Notas & Letras, 2004.

CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola – educação pluriétnica corporal e ambiental.
Salvador: Vento Leste, 2009.

CONDE, Bernardo Velloso. A Arte da Negociação: a Capoeira como Navegação Social.
Rio de Janeiro: Novas Idéias, 2007. (Série Capoeira Viva).

DECRETO nº 487, de 11 de outubro de 1890. Código Penal Brasileiro. Capítulo XXII-Dos
vadios e capoeira. Artigos 402 a 403.

FERREIRA, Izabel. A Capoeira no Rio de Janeiro 1890-1950. Rio de Janeiro: Novas
Idéias, 2007. (Série Capoeira Viva).

FREIRE, Paulo. Educação Como Prática de Liberdade. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1980.

HEYWOOD, Linda M.. A Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2008.

PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola por Mestre Pastinha. 3ª ed. Salvador:
Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1964.

PEQUENO, João. Mestre João Pequeno - Uma Vida de Capoeira. 1ª ed. Salvador: 2000.

SANTOS, Jorge Egídio dos. Jogo de Angola-Vida e Obra. 1ª ed. Salvador: 2010.

				
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