Dispepsia by O3i66Q

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									                                         Dispepsia

        É um conjunto de sintomas gastrointestinais, sendo as queixas mais comuns:
epigastralgia ou desconforto no andar superior do abdome. São exemplos: saciedade
precoce, empachamento, ânsia, vômitos e sensação de distensão abdominal, plenitude
pós-prandial e eructações freqüentes.
        Várias patologias podem apresentar este espectro como: DRGE, gastrite, úlcera
péptica, CA gástrico, etc. Quando não há alterações orgânicas a dispepsia é chamada de
funcional,mas pode vir associada à, por exemplo, a DRGE,e quando há é chamada de
dispepsia orgânica.
        Critérios de Roma II: estudiosos se reuniram em Roma para propor uma
classificação para os distúrbios funcionais (as afecções em que não se consegue
estabelecer uma causa orgânica ou morfológica recebem o nome genérico de distúrbios
funcionais do aparelho digestório) do TGI. Os distúrbios funcionais são divididos em sete
grupos: a. Desordens esofágicas, b. Desordens gastrointestinais
c. Desordens intestinais, d. Dor abdominal funcional, e. Desordens funcionais de vias
biliares e pâncreas, f. Desordens anorretais, g. Desordens funcionais pediátricas.
               A dispepsia está no grupo B, junto com aerofagia e vômitos funcionais. Os
critérios de Roma II definiram dispepsia funcional ou idiopática como alteração digestiva,
caracterizada por dor ou desconforto localizado no abdome superior, sem evidências de
alteração orgânica ou morfológica que explique tais sintomas. Nesses casos não se
observa melhora com o ato de defecar e não se observa relação com alterações na forma
e consistência das fezes. Os sintomas devem ter duração de no mínimo 12 semanas
(consecutivas ou não), dentro de um período de 12 meses.
               Estes pacientes podem ser agrupados de acordo com a sintomatologia
predominante em:
        a. Dispepsia tipo úlcera: dor no andar superior do abdome é a queixa principal;
        b. Dispepsia tipo dismotilidade (síndrome hipoestênica): desconforto epigástrico é
a principal queixa, podendo vir associada com empachamento pós-prandial, saciedade
precoce, distensão epigástrica, ânsia e náuseas;
       c. Dispepsia tipo não específica: queixas referidas não podem ser agrupadas em nenhum
dos grupos anteriores.

       Epidemiologia

       Dados norte-americanos apontam que cerca de 25% da população descreve dor
epigástrica crônica ou recidivante no andar superior do abdome, sendo a dispepsia
funcional o diagnóstico mais prevalente encontrado. A incidência parece girar em torno
de 1% ao ano. A maioria dos dispépticos se mantém sintomático por um período
bastante longo, apesar de apresentarem alguns períodos de remissão espontânea. O
risco de desenvolver doença ulcerosa péptica, contudo, não parece ser diferente da
população assintomática. A prevalência é menor em idosos e parece ser discretamente
maior no sexo masculino.

       Fisiopatologia

       Não está totalmente definida, ma há pesquisas em diversos fatores:

       Função motora gástrica: controvertida. Estudos mostram que 50% dos
dispéoticos têm algum grau de retardamento do esvaziamento gástrico. Mas é
discutível o fato de a dispepsia ser intermitente e a dismotilidade ser constante.
       Sensibilidade visceral: pesquisas têm se voltado a este tema. Inapropriada
resposta à dor. Os pacientes podem ter hiperalgesia ou alodínia, limiar reduzido para
dor.
       Helicobacter pylori: participação bastante controvertida.
       Disfunção autonômica: disfunção de nervos eferentes e aferentes vagais pode
levar a exacerbação de sensações viscerais e, assim, a sintomatologia.
       Atividade gástrica mioelétrica: disritmias gástricas podem originar-se no antro
ou corpo. Tais alterações poderiam ser responsáveis por sintomas tipo dismotilidade,
mas a exata prevalência neste grupo de pacientes e falta de correlação sintoma-
alteração motora levanta dúvidas quanto à importância destas alterações.
       Alterações hormonais: vários hormônios têm sido estudados, tentando-se
estabelecer alguma relação entre suas alterações e a dispepsia funcional. Entre os
provavelmente implicados podemos citar: motilina, gastrina, CCK, prolactina, opiáceos
endógenos e outros. Até o momento, contudo, anormalidades hormonais não parecem
ter importância na fisiopatologia da dispepsia funcional.
       Fatores psicossociais: nenhuma personalidade específica tem sido relacionada à
dispepsia funcional, embora ansiedade, neuroticismo e depressão possam estar
aumentados nestes pacientes, quando comparados a doentes saudáveis.
       Dieta: controverso
       Secreção de ácido gástrico: contorverso
       Acomodação: o estômago proximal acomoda os alimentos e regula a
transferência para o estômago distal. Este tritura e mistura o conteúdo gástrico, além
de participar da saída dos nutrientes para o duodeno. Há evidências de que há
alterações no relaxamento do estômago proximal.
       Provavelmente a dispepsia funcional é resultado de interação complexa de
fatores psicossociais e fisiológicos.

      Diagnóstico

         Principais doenças orgânicas presentes em dispépticos: úlcera péptica,
colelitíase, neoplasias...
         Clínico e exclusão de causas orgânicas.Os mais importantes são:
a. Endoscopia digestiva alta: deve revelar resultado normal ou apresentar alterações
mínimas que não são capazes de explicar a sintomatologia. Visa afastar causas
orgânicas, como úlceras, tumores etc.;b. Ultra-sonografia abdominal: visa afastar
causas biliares, inflamatórias e tumorais;c. Hemograma: pode alertar ao médico para
doenças orgânicas, como a presença de anemia, leucocitose, plaquetose, eosinofilia
etc.;d. Protoparasitológico: em nosso meio é essencial devido às más condições de
saneamento básico, que acarretam grande incidência de parasitoses intestinais.

      Tratamento

Plano dietético:Recomenda-se ao paciente que coma devagar, lembrando que o
próprio ato da ingestão de alimentos é importante, como a conotação social o
demonstra. O ambiente onde se realiza a alimentação deve ser tranqüilo, evitando
discussões ou assuntos que gerem tensão, com a mastigação realizando-se
satisfatoriamente. As refeições muito vultosas devem ser evitadas, bem como alimento
que o paciente julgue que não lhe faça bem. Líquidos, sobretudo gasosos, devem ser
evitados às refeições.A inclusão ou exclusão de determinados alimentos na dieta vai
depender da queixa referida pelo paciente, o que quer dizer, do tipo de alteração
funcional que apresenta.
Plano comportamental: Os pacientes devem ser informados sobre a íntima relação
entre as emoções e os sintomas. A autopercepção para este tipo de inter-relação e a
conscientização de sua própria somatização variam muito de pessoa para pessoa, mas
cabe ao clínico com sensibilidade avaliar e auxiliar o paciente nesse sentido. Devem ser
sugeridas ao paciente algumas medidas práticas de comportamento, como a melhoria
das condições de higiene mental através do lazer e remoção das fontes de tensão
quando factível. As recomendações sobre hábitos de vida são fundamentais: horas
adequadas de sono, prática regular de exercícios físicos e suspensão do tabagismo.

Plano medicamentoso
 a. Antieméticos e estimuladores da motilidade gastrointestinal (procinéticos) têm sua
melhor indicação nos casos de dispepsia tipo dismotilidade: metoclopramida,
domperidona, bromoprida, cisaprida, eritromicinas, antagonistas 5HT3 (ondansetron,
alosentron). Esses fármacos devem ser administrados 15 a 30 minutos antes das
refeições.A cisaprida é uma droga quimicamente relacionada à metoclopramida e age
como agente procinético, aumentando a liberação de acetilcolina pelos neurônios pós-
ganglionares do plexo mioentérico. A metoclopramida é um antagonista dopaminérgico
em nível central e periférico, parecendo também possuir efeitos tipo colinérgicos.
Efeitos adversos, como ansiedade, fraqueza, sonolência, inquietação, sintomas
extrapiramidais, galactorréia e ginecomastia, muitas vezes limitam, contudo, o uso
crônico. A bromoprida possui eficácia semelhante à metoclopramida.
A domperidona apresenta eficácia semelhante à metoclopramida. Seus efeitos
adversos são menores que os medicamentos acimaDos macrolídeos, o principal
representante é a eritromicina cujo efeito procinético se deve à estimulação dos
receptores de motilina e também a efeitos colinérgicos. Entre os antagonistas dos
receptores 5HT3, o ondansetron é o mais estudado. Estas drogas aceleram
discretamente o esvaziamento gástrico e inibem os vômitos induzidos por
quimioterápicos. Os análogos da somatostatina estão ainda em investigação quanto ao
seu uso na dispepsia funcional.
b. Redutores da acidez gástrica: têm indicação nos casos de dispepsia funcional tipo
úlcera. Inclui antiácidos, bloqueadores dos receptores H2 da histamina e os inibidores
da bomba de prótons (IBP).Os antiácidos são medicamentos muito antigos utilizados
para tratar este grupo de pacientes. Os mais usados nos dias de hoje incluem a
associação de hidróxidos de magnésio e de alumínio. A posologia varia de acordo com
o antiácido utilizado. Deve ser ministrado cerca de uma ou duas horas após as
refeições ou quando o paciente se queixar de queimação epigástrica ou retroesternal.
Os bloqueadores dos receptores H2 da histamina são eficientes redutores da acidez
gástrica. Cimetidina, ranitidina, famotidina e nizatidina são as drogas disponíveis no
mercado brasileiro, tendo eficácia semelhante quando utilizadas em doses
equivalentes. Devem ser ministradas através de dose única noturna ou divididas em
duas tomadas.
Os IBP são as drogas mais potentes e também as mais onerosas atualmente
disponíveis para a redução da acidez gástrica. Deve-se ministrá-los, inicialmente,
utilizando-se metade da dose terapêutica preconizada para doenças orgânicas do trato
digestivo alto; aumentando-se a dose se necessário.
c. Protetores da mucosa gástrica. Os protetores de mucosa gástrica mais eficientes são
os análogos das prostaglandinas representados pelo misoprostol, o qual, devido aos
seus efeitos colaterais (diarréia e abortamento), tem sua aquisição dificultada. Mais
facilmente disponível, embora deva ser manipulado, o sucralfato tem sido também
utilizado, mas com resultados menos evidentes. A posologia é de 1 g antes das
refeições e antes de dormir.
d. Erradicação do Helicobacter pylori: como se referiu, a associação do Helicobacter
pylori com a dispepsia funcional é ainda controversa: quimioterápicos, sais de bismuto,
bloqueadores H2. Existem diversos esquemas terapêuticos, sendo adotado em nosso
serviço, como primeira escolha, o seguinte: IBP (dose dupla) + claritromicina (1g/dia)
+ amoxicilina (2g/dia), administrados por uma semana ou 14 dias.
e. Antidepressivos: este grupo de medicamentos pode ter importância no tratamento
dos quadros funcionais do aparelho digestivo (amitriptilina, nortriptilina, fluoxetina,
buspirona etc.), sobretudo quando se observam quadros de depressão leve associados.

f. Medicamentos em estudo: A fedotozina é um agonista dos receptores opióides kappa
que estimula a motilidade antral.O trinitrato de gliceril (nitroglicerina)

								
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