KONSALIK

Document Sample
KONSALIK Powered By Docstoc
					KONSALIK
AMOR COSSACO
Título original: KOSAKENLIEBE

Capítulo 1

Ouviam-se tocar os sinos quando as carruagens entraram em
Moscovo.
 Já estavam habituados: os sinos repicavam em Moscovo porque
o czar implorava o perd¦o de Deus ou, ent¦o, porque mandara
executar diante do Kremlin espiSes, inimigos, nobres
insubmissos, traidores ou simples suspeitos. Em Moscovo
ouviam-se constantemente os sinos, como se a vida quotidiana
fosse uma sucess¦o de festas.
 E, enquanto deslizavam pelas ruas da cidade, surgia diante
dos seus olhares a mesma vis¦o familiar: dos dois lados, à
sua passagem, os citadinos olhavam-nos, boquiabertos, como
perante um espectáculo inacreditável.
 Desbarretavam-se, curvavam-se e, depois, as cabeças
aproximavam-se: "Viste, meu caro? Trenós forrados de
zibelina! Cavalos com arreios de prata! Os sinos das tróicas
s¦o de ouro puro e os seus gorros cintilam, cravejados de
pedras preciosas. Que opulência! Que altivez!
 Quanto tempo ainda durará tudo isto? Será permitido ser mais
rico do que o czar? E mostrá-lo, ainda por cima?"
 - Deus os defenda, aos ricos senhores do país de Perm...
 Os guardas do Kremlin n¦o se opuseram à entrada dos trenós.
Quem se apresentasse envolvido em peles de raposa azul tinha
a passagem livre.

 Transposta a muralha do Kremlin, foram recebidos pelo coro
dos monges, vindo da igreja da Ressurreiç¦o. Mas o caminho
entre a igreja e o palácio encontrava-se ladeado por
soldados. O príncipe Chouisky acabava justamente de transpor
a entrada, quando os trenós se detiveram. Vieram serviçais
pegar nas rédeas dos cavalos fumegantes e retirar as pesadas
mantas de pele de raposa do interior dos trenós. Três homens,
envergando longos cafetSes de zibelina, apearam-se e
desentorpeceram as pernas, confrontados com o ar glacial.
 - Os irm¦os Stroganov acabam de chegar.
 - Príncipe Chouisky! - exclamou Jacob, o primogénito. - É de
bom augúrio vermos-te a ti em primeiro lugar! Como vai o
czar!
 - Sempre a rezar.
 O príncipe Chouisky apontou para a igreja:
 - Assistimos ontem a noventa e quatro execuçSes. O czar reza
por ter sido obrigado a tomar tal decis¦o.
 O coro dos monges elevou-se, encheu a atmosfera. Os irm¦os
Stroganov calaram-se, de olhos fixos nos campanários dourados
em forma de bolbos. Mas o seu silêncio n¦o traduzia
respeito... Enquanto os cânticos religiosos louvavam o
Senhor, os três irm¦os, em silêncio, faziam contas às dívidas
que o czar contraíra junto deles. Quanto ouro, prata, cobre,
quantas peles, sedas, brocados e até rublos lhe deram a fim
de que ninguém pudesse dizer: "Vejam só estes Stroganov! A
sua riqueza cresce dia a dia como massa de fermento no forno!
Acabar¦o por estoirar com tanto poder e abundância! Chegámos
ao ponto de n¦o ser possível distinguir o que pertence ao
czar do que é propriedade dos Stroganov!"

 - Quer entrar na igreja? - perguntou o príncipe Chouisky,
descendo a escada e desdobrando a gola de pele.
 Os irm¦os Stroganov hesitaram. Em seguida aquiesceram, abanando
a cabeça. O coro dos monges e dos padres desceu de tom; os sinos
repicaram. O czar Ivan IV, de alcunha o Terrível, recebia a
bênç¦o do metropolita de Moscovo, que se encarregava pessoalmente
deste dever, pois como primeiro príncipe da Igreja que era, tinha
os pés bem assentes na terra. O seu antecessor fora torturado,
castrado e privado da vista, exemplo que nenhum versículo da
Bíblia obriga a seguir.
 - Os vossos emissários chegaram anteontem - transmitiu o
príncipe Chouisky a Jacob, Gregor e Sime¦o Stroganov. - Trocaram
beijos fraternos e o czar parecia feliz - acrescentou.
 - Precisa de dinheiro! - replicou Gregor Stroganov, dando uma
gargalhada. - Trazemo-lhe cem mil rublos em ouro!
 - Agradecer-vos-á do fundo do coraç¦o!
 O príncipe encaminhou os três irm¦os para a porta que, por um
curto atalho, conduzia do palácio à igreja, e cujo batente o czar
entreabria pelo menos três vezes por dia, a fim de ouvir os
cânticos religiosos. Até aí, todos os czares, ao envelhecerem,
procuravam protecç¦o no seio da igreja... O que parecia estranho,
porém, é que, com a idade, também se tornavam mais cruéis.
 Os czares isolavam-se, assim, do mundo, e aniquilavam-no...
 - Entrem depressa! - sugeriu Chouisky. - As oraçSes já
terminaram e, se o czar os vir no átrio e n¦o no interior da
igreja, pode irritar-se!
 Atravessaram rapidamente algumas vastas antecâmaras, longos
corredores abobadados, salas ornadas de colunas torcidas e
cobertas de tapeçarias e, depois, aguardaram à porta da sala de
audiências, tendo deparado com um grupo de boiardos que já se
encontravam lá. Estes cumprimentaram os Stroganov com uma
cortesia distante, já que, desde o primeiro grande Stroganov,
Anika, o Salineiro, se tornara t¦o poderosamente rico que
conseguira mandar construir um palácio e ter junto de si um
médico alem¦o, desde que esse mesmo Anika Stroganov fora nomeado
fornecedor particular do czar e abastecia o imperador da Alemanha
em peles preciosas, a rainha Isabel de Inglaterra em capas de
zibelina, e os leitos das czarinas em mantas de uma leveza
impalpável, ninguém sabia ao certo qual o poder concedido por
Ivan IV aos filhos de Anika.
 De resto, os Stroganov obtinham tudo o que se lhes pedia:
salm¦o, trutas, solhas, caviar, peles de rena da tundra,
castores, zibelinas, peles de esquilo, arminhos e raposas.
Chegaram mesmo a encontrar pérolas no rio Iksa, o que pareceu
misterioso, embora as tivessem exibido! Importavam vinhos de
Itália e, na feira de Kola, trocavam peles por pipas de vinho. Na
rude Rússia, no reino moscovita, o vinho era uma raridade e a
venda de vinho ao czar e aos boiardos revelava-se bastante
rendosa.

 N¦o se mostrarem invejosos! Era um dos princípios dos Stroganov.
Prudência, e atenç¦o ao futuro. Esta a principal preocupaç¦o de
todos, príncipes e boiardos. E assim corriam os negócios, melhor
ou pior, com a ajuda de pequenos presentes e de serviços
prestados. Construir amizades, e boas defesas!
 O czar envelhecera, tornara-se uma sombra do que fora,
decrépito, curvado, nunca tendo recuperado depois de ter morto o
filho mais velho num furioso ataque de raiva. O actual herdeiro
era um débil meio-idiota. Quem sucederia a Ivan se este morresse
subitamente? Quem se encarregaria do destino da imensa santa
Rússia? Esse bruto do Boris Godounov? O sensato Chouisky?
Dimitri, o Lactente?
 Que recomendava aos filhos Anika Stroganov? "Calcular os lucros,
esquecer as despesas." O que significava conquistar o poder fosse
qual fosse o potentado reinante no Kremlin. Eles precisam de
dinheiro, os czares! E, sem os Stroganov, o cofre do czar
encontrar-se-ia meio-vazio. O brilho de Moscovita tinha origem no
longínquo país de Perm, berço de uma dinastia de comerciantes
como o mundo nunca conhecera, e em relaç¦o aos quais os
comerciantes alem¦es de Augsburgo n¦o passavam de pequenos
lojistas!
 Um sentimento de inquietaç¦o propagava-se entre todos os que se
encontravam à espera. A guarda do palácio, composta por
gigantescos russos brancos, usando enormes gorros de peles que os
faziam parecer ainda mais altos, defendia as entradas. O czar
regressara da igreja.
 Uma teoria de mulheres de rosto velado, como freiras penitentes,
percorria os corredores: aves nocturnas de reflexos azuis, a
czarina e as damas de companhia.
 Os boiardos aproximaram-se uns dos outros, os irm¦os Stroganov
olharam-se, a porta da sala de audiências abriu-se bruscamente e
Boris Godounov apareceu, envergando um longo manto bordado a
ouro, cujas pregas ainda exalavam o perfume do incenso.
Dirigiu-se aos Stroganov e estendeu-lhes a m¦o, pois beijá-los
seria despropositado. N¦o eram nobres e, aos olhos de todos,
apresentavam-se como comerciantes vindos da massa anónima do
povo, bem cotados, mas n¦o tratados como iguais.
 Só mais tarde, nos seus aposentos privados, Godounov os honraria
com um abraço, como fizera o príncipe Chouisky. Os Stroganov
importavam-se pouco com estes pormenores, tinham mais consciência
do seu valor do que Boris Godounov do dele.
 - O czar dignar-se-á recebê-los - disse Godounov num tom de voz
t¦o forte que todos os presentes ouviram.
 - Deus abençoe o czar!
 - Deus o abençoe! - murmuraram em coro os irm¦os Stroganov.
"Basta de salamaleques", pensaram eles, passando diante de
Godounov, para penetrarem na sala de audiências. Baixaram a
cabeça e, atrás deles, fecharam-se os pesados batentes da porta.
Encontravam-se sozinhos em frente de Ivan, o Terrível, tal como
este ordenara. Godounov e Chouisky aguardavam na antecâmara. Mais
uma prova da importância que estes comerciantes assumiam aos
olhos do czar! Encontrarem-se a sós com o czar equivalia a uma
bênç¦o...

 O que ouviam contar na longínqua regi¦o de Perm, em Oriol, nas
margens do rio Kama, residência dos Stroganov, podiam vê-lo
agora, à sua frente: um czar sentado no trono, curvado, de rosto
macilento, do qual sobressaía um nariz aquilino. Sobre o cabelo
grisalho, um gorro de zibelina. Quanto à pelica, de brocado
francês e guarnecida de peles, vinha da casa Stroganov... A barba
do czar era rala. Ivan, mesmo sentado, apoiava-se no seu bast¦o
de ponta ferrada, no seu possoch todo ornamentado a ouro e prata
trabalhada, o maldito bast¦o com o qual zurzira, matara,
traspassara, empalara o próximo, símbolo do seu poder ilimitado,
só suplantado por Deus. A pior característica de Ivan:
assassinava enquanto orava...
 Os irm¦os Stroganov, sempre de cabeça baixa, espreitavam o czar.
Assustados com o seu aspecto de moribundo, pensaram todos o
mesmo: teremos de conseguir hoje mesmo aquilo de que
necessitamos, nós, os Stroganov, mas também a Rússia: o domínio
do mundo inteiro! Nascerá hoje o povo mais rico, mais feliz do
Universo, a grande Rússia!
 - Ent¦o, vis traficantes? - lançou-lhes Ivan, em voz alta.
 Os Stroganov ergueram a cabeça. Este acolhimento traduzia boas
intençSes: se Ivan lhes chamava traficantes, estava bem-disposto.
De contrário, qualificá-los-ia de lobos uivando à sua porta,
lobos que ele alimentava e pretendiam pagar-lhe em excrementos...
Era difícil falar com o czar, o que o velho pai Anika sabia
perfeitamente. Só o sucesso contava. "Calcular os lucros,
esquecer as dádivas..."
 - Sois a essência de Moscovo, senhor - disse Jacob, o mais
velho. - Oxalá Deus n¦o se lembre de que uma essência pode
volatilizar-se...
 - Que querem de mim?
 O czar apontou para um banco estofado, no qual se sentaram os
três irm¦os, constrangidos como colegiais, até que Gregor, o mais
diplomata, tomou a palavra:
 - Grande Czar, trazemos cem mil rublos em moedas de ouro, duas
mil peles de esquilo, novecentas raposas azuis...
 Ivan observava atentamente os três irm¦os, com o seu olhar
penetrante que se tornara ainda mais insuportável nos últimos
anos. A vítima desse olhar emudecia ao imaginar a crueldade em
todo o seu horror.
 - Trazem tudo isso da vossa regi¦o de Perm?
 - N¦o.
 Sime¦o Stroganov, o estratega da família, tentou suportar o
olhar do czar. Conseguiu-o, mas o seu coraç¦o batia tanto que o
sentia na garganta.
 - Como sabeis, senhor, caçadores estrangeiros fornecem-nos peles
que vêm do outro lado dos rochedos, dos vales, das montanhas dos
Urales, é um país a que chamam Mangaseja...
 - Mangaseja! - Ivan debruçou-se para a frente e apoiou-se ainda
mais no bast¦o dourado. - Sempre Mangaseja! Já o vosso pai me
falava de Mangaseja!
 - N¦o o ignoramos, grande czar - Jacob, o frio calculista,
lançou esta observaç¦o e acrescentou: - E sabemos que projectavas
penetrar nesse país pela força das armas, a fim de o conquistar
para a Rússia. Mas é impossível. Um exército deve dispor de uma
via de penetraç¦o, precisa de receber víveres e muniçSes. N¦o é
possível enviar homens e guarniçSes para regiSes selvagens que
ninguém conhece, exceptuando alguns caçadores de peles. A cadeia
montanhosa inacessível dos Urales impede o acesso. N¦o existe
nenhum caminho para além de alguns carreiros que orlam
precipícios e se elevam a altitudes vertiginosas...
 - Mangaseja - prosseguiu Sime¦o - é um país indescritível, de
inimaginável riqueza.

 O czar bateu com o possoch nas lajes do ch¦o.
 - Palavras! Só palavras! - exclamou. - Onde est¦o os actos?
 Gregor Stroganov, o diplomata, debruçou-se para a frente:
 - Recolhemos as últimas informaçSes respeitantes a Mangaseja,
czar! Vivem lá muitas tribos, diz-se que as populaçSes, possuem
olhos amendoados, como os dos Chineses ou dos Tártaros. No Ver¦o,
está tanto calor que os habitantes dessas regiSes vivem nos rios,
para que o sol n¦o lhes queime a pele. Mas no Inverno o frio é
tanto que mal encontram mantimentos e, quando n¦o conseguem
abater uma rena ou pescar um peixe através das espessas camadas
de gelo, devoram-se uns aos outros... Samoiedos, é assim que se
chamam, o que significa que se alimentam da sua própria carne...
Outros povos desse país têm a boca colocada no cimo da cabeça e
n¦o conseguem falar...
 - S¦o histórias das nossas avós - replicou Ivan, num tom que
traduzia alguma reserva. - Vejamos, essas coisas n¦o existem, vis
traficantes!
 Mas os irm¦os Stroganov sentiram que a flecha disparada atingira
o coraç¦o do czar.
 - Ainda há outra coisa em Mangaseja, czar! Há povos que criam
gigantescos rebanhos de zibelinas negras a fim de se alimentarem
da sua carne! Zibelinas preciosas! As raposas azuis s¦o
utilizadas como vacas, mungem-nas! Ensinaram ursos polares a
pescar nos rios peixes que eles depois comem. Todo o país
transborda de animais com peles apreciadíssimas, de peixes dos
mais nobres, de ouro, de prata, de sal, de cobre, de chumbo e de
pedras preciosas!
 - E por que raz¦o ninguém conquista esse país situado mesmo à
minha porta? - rugiu o czar. Levantou-se de um pulo e arremessou
o possoch em direcç¦o a Jacob Stroganov. Mas este encontrava-se
demasiado longe para poder ser atingido:
 - Vil traficante! N¦o me digas que vieste a Moscovo com os teus
irm¦os para me falares do país onde ordenham as raposas azuis!
 - Para lá dos Urales reina um czar... - retomou Sime¦o, o
estratego impassível.
 Era uma frase de tal modo temerária que os irm¦os estremeceram,
já na defensiva. Mesmo admitindo que exprimia a verdade,
tencionavam apresentar o facto a Ivan com mais rodeios. Mas
Sime¦o devia estar a encarar a situaç¦o de um ponto de vista
diferente.
 Ivan, o Terrível, considerou fixamente os três interlocutores. O
rosto de ave de rapina estremeceu imperceptivelmente debaixo do
gorro de peles.
 - Um czar! - exclamou por fim, numa voz rouca.
 - Existe mais algum czar para além de mim? E chamam-lhe mesmo
czar?
 - Intitula-se "Senhor do Mundo" - respondeu Gregor, o diplomata.
- É um sucessor de Gengisç¦o e o seu verdadeiro nome é Koutchoum.
Mandou proclamar por toda a parte: "Sou o primeiro czar de toda a
Sibéria!"

 Nos últimos meses, os seus soldados, chefiados por Mametkoul,
seu sobrinho, têm efectuado incursSes ao país de Perm, assaltando
as nossas aldeias, destruindo as nossas salinas, afundando os
nossos barcos ancorados no Kama e, quando as nossas tropas de
vigilância avançam, desaparecem nas regiSes selvagens, para nós
ainda impenetráveis, dos Urales. Raptam mulheres, crianças,
queimam cidades até aos alicerces e sublevam as tribos que
negoceiam connosco, organizam justas equestres em que os
prisioneiros s¦o amarrados a postes: o jogo consiste em lhes
cortar o pescoço a galope!
 Já começámos a construir muralhas e recintos em que os aldeSes
possam encontrar segurança.
 Ivan, o Terrível, observava os Stroganov em silêncio. Segundos
que pareciam uma eternidade... Mas nesses segundos decidiu-se o
futuro da Rússia, isto é, a conquista da Sibéria, ou Mangaseja,
imenso país inexplorado. "S¦o poderosos, estes mercadores",
pensava Ivan IV, "e o seu poder aumenta todos os anos... um dia,
estes senhores desconhecidos da Rússia ser¦o maiores do que o
czar. Poderemos admitir tal situaç¦o? Deveremos, como já
aconteceu, conceder aos Stroganov autorizaçSes excepcionais,
abrir-lhes, por especial favor do príncipe de Moscovo, o caminho
do Oriente, permitir que descubram a Sibéria, para a Rússia, é
certo, mas cujos tesouros ir¦o para os seus bolsos? Essas
lendárias terras de Mangaseja merecer¦o verdadeiramente que um
comerciante - mesmo com o desconhecimento do resto da corte -
possa desprezar e desafiar o czar? Estas informaçSes vindas do
outro lado dos Urales n¦o ser¦o exageradas?"
 - Querem ter o direito de pilhar esse país conquistado em meu
nome! - exclamou Ivan com dureza.
 - Só pedimos autorizaç¦o para unir a Sibéria à Rússia! -
respondeu Jacob Stroganov. - Nada mais. Sublime czar.
 - É quanto basta para quem conheça os Stroganov!
 Ivan esboçou um gesto que obrigou os Stroganov a levantarem-se
do banco todos ao mesmo tempo.
- Chamar-vos-ei se a minha decis¦o coincidir com a vontade de
Deus!
 - É urgente, czar! - arriscou Sime¦o Stroganov, inclinando-se
muito. - Todos os dias arde uma aldeia nas nossas terras de Perm.
 - Na Rússia, todos os dias arde qualquer coisa... - replicou o
czar impassível. - Prometo pensar em Mangaseja.
 Terminara a audiência. Os Stroganov abandonaram a sala pouco
satisfeitos, mas n¦o totalmente decepcionados.
Sabiam, pelo pai Anika, que Ivan hesitava sempre antes de
conceder uma autorizaç¦o.
 Acontecera o mesmo quanto à obtenç¦o dos direitos de exploraç¦o
das salinas, por ocasi¦o do encerramento das fronteiras do país
de Perm, e quanto à interdiç¦o de navegar nas águas do Kama, por
ocasi¦o da fundaç¦o das cidades que fizeram da casa Stroganov um
estado dentro do Estado... Ivan acabara sempre por ceder. A
Rússia era eterna, os Stroganov n¦o: era este o ponto mais
importante. E, além disso, a Rússia só poderia crescer sob a
protecç¦o dos Stroganov.
 - Aguardaremos em Moscovo - disseram os irm¦os ao príncipe
Chouisky quando, na ala do Kremlin reservada aos visitantes, se
encontravam sentados à volta de uma travessa de frangos assados,
acompanhados de vinho italiano. - O czar que suceder a Ivan
poderá gabar-se de reinar sobre metade do mundo!
 O príncipe Chouisky guardou esta frase na memória.
 Como Boris Godounov, acreditava que chegaria a hora em que seria
coroado czar. Os herdeiros da raça de Ivan n¦o viveriam muito
tempo no trono. Era certo que depois da morte de Ivan...

 Os irm¦os Stroganov mantiveram-se em Moscovo até à Primavera.
Enquanto estabeleciam novas relaçSes comerciais, cumularam de
presentes os boiardos e os príncipes que lhes eram favoráveis, e
compraram aqueles que ainda n¦o eram seus parceiros. Souberam,
assim, por intermédio de Boris Godounov, que Ivan enviara um
embaixador ao czar siberiano Koutchoum, a fim de exigir que este
lhe pagasse um tributo, considerando-se Ivan o único verdadeiro
czar do mundo. Tomaram também conhecimento da resposta de
Koutchoum, que replicou, insolente: "Eu, czar siberiano,
potentado livre de Koutchoum, faço saber ao grande duque branco
de Moscovo: quem quiser a paz poderá concluí-la comigo, mas quem
quiser a guerra tê-la-á!" O embaixador que regressou com a
mensagem confessou ter atravessado a fronteira russa sob uma
chuva de bastonadas, ordenada pelo sobrinho de Koutchoum,
Mametkoul.
 - Conseguiremos! - concluiu Jacob Stroganov, satisfeito. - Ivan
n¦o cederá perante um bárbaro...

 A 30 de Maio do ano de 1574, Ivan IV recebeu mais uma vez os
irm¦os Stroganov. Em traje de cerimónia, Jacob e Gregor
atravessaram o Kremlin. Sime¦o regressara de trenó a Oriol, a fim
de zelar pelos negócios, há tanto tempo abandonados. Agora, no
início da Prima vera, chegariam os caçadores de peles com todo o
espólio do Inverno...
 - Reflecti muito - disse-lhes Ivan, num tom de voz muito cortado
(só o brilho do olhar traía a violência dos sentimentos que
tentava refrear). - Concedo-vos autorizaç¦o para conquistarem
esse país, até ao rio Tobol, e para construírem fortalezas e
praças fortes a fim de libertarem os povos submetidos a esse
pretenso czar!
 Como recompensa pelos vossos grandes serviços, outorgo-vos, por
escrito, o direito de explorarem indefinidamente as minas de
ferro, de chumbo, de cobre e o de negociarem livremente com os
Quirguizes e os Buchares, se fortificarem as colónias que vierem
a fundar.
 Os Stroganov fizeram uma profunda vénia, quase até ao ch¦o.
"Esqueceu-se do mais importante", pensavam eles, "pois n¦o disse
uma palavra quanto ao apoio do seu exército aos nossos
empreendimentos. Teremos de ser nós, os Stroganov, a conquistar
sozinhos a Sibéria?"
 A um gesto do czar, Boris Godounov acompanhou os dois irm¦os até
à porta, e esperou que esta se fechasse sobre os três, para
murmurar:
 - N¦o se esqueçam do papel que desempenhei nesta hora
decisiva...
 O mesmo era dizer aos Stroganov quem seria, um dia, o novo czar.

Capítulo 2

 Passaram-se cinco anos. Os Stroganov, n¦o obstante o direito
extraordinário que lhes fora concedido, n¦o empreenderam nenhuma
acç¦o. N¦o recebendo apoio das tropas do czar, teria sido uma
loucura atacar isoladamente os exércitos de Koutchoum. De resto,
Mametkoul, o sobrinho pouco conformista, cessara de investir para
além das suas fronteiras e o negócio corria melhor. Por que raz¦o
conquistar aquele país se tudo se passava sem sobressaltos?

 Nestes cinco anos, morreram Jacob e Gregor Stroganov. O irm¦o
Sime¦o, auxiliado pelos filhos de seus irm¦os, Nikita e Máximo,
retomou o projecto de conquistar o fabuloso país de Mangaseja.
Ivan, o Terrível, ainda era vivo, mais sanguinário do que nunca.
Os Stroganov pagavam escrupulosamente os seus tributos a Moscovo,
mas nenhuma das partes voltou a referir-se à Sibéria. O czar
encontrava-se mais preocupado com os problemas da Lituânia e da
Polónia, decerto mais tangíveis! Mangaseja parecia... pura
fantasia!
 O mesmo n¦o acontecia com a jovem geraç¦o dos Stroganov, os
sobrinhos Nikita e Máximo, que prestavam atenç¦o a todos os
rumores e souberam, assim - e quem o n¦o soube, na Rússia? - o
que se passava com um estranho e pequeno povo que vivia nas
margens do Don, e a quem chamavam Cossacos. Ninguém conseguia
compreender o seu comportamento. Por vezes, combatiam ao lado do
czar, como os mais valorosos guerreiros; em outras ocasiSes,
atravessavam os campos como assaltantes, incendiando, pilhando,
violando, batendo-se contra os seus antigos camaradas, os
czaristas. O povo admirava-os por serem homens livres. Nos
arquivos do Kremlin, estavam qualificados como ladrSes,
salteadores, assassinos, bandidos e desertores. Batiam-se contra
os Turcos nas margens do mar Azov. Este aspecto agradava ao czar,
embora eles também pilhassem os navios do Volga, fugindo em
seguida nos seus cavalos, velozes como um relâmpago, para os
confins da estepe...
 "Os Cossacos s¦o os únicos capazes de medir forças com os
cavaleiros de Koutchoum", pensava Nicolas Stroganov, depois de
recolher informaçSes suficientes a respeito destes habitantes do
Don e das estepes próximas do mar Cáspio. "Abater o adversário,
ser enforcado ou perseguido, é essa a vida deles! Se queremos
conquistar Mangaseja, terá de ser como esses povos! Seria
conveniente discutir com eles..."
 Sime¦o, o único sobrevivente dos três irm¦os, admirava a
intuiç¦o dos sobrinhos e sentia-se orgulhoso. A autorizaç¦o
assinada por Ivan, e que confirmava os Stroganov como mercadores
mais ricos do Universo, permanecia inútil dentro do cofre. Esta
triste situaç¦o trazia Sime¦o verdadeiramente doente. Mas, até
agora, n¦o descobrira nenhuma maneira de penetrar na Sibéria sem
o auxílio das tropas do czar.
 - Vou escrever aos Cossacos! - anunciou a Nikita e Máximo. -
Quem é o seu chefe?
 - O mais conhecido é Jermak Timofeiévitch, condenado à morte
pelo governador da província, mas nunca aprisionado... - Máximo
Stroganov consultava os documentos: - os povos das margens do
Volga temem-no como à peste, mas os habitantes das regiSes do Don
chamam-lhe destemido irm¦o. Que lhe vais dizer tio?
 - Que Deus necessita deles! - respondeu Sime¦o Stroganov
suavemente.
 - O que n¦o pode deixar de lhes agradar. - Nikita recostou-se na
cadeira estofada de pele e deu uma gargalhada. Era naturalmente
alegre. - Nunca pilharam nem roubaram em nome de Deus!
 - Mas ter¦o de ser pagos! - Sime¦o tocou uma sineta. O escriba
apresentou-se, trazendo um tinteiro de prata cinzelada e algumas
penas. - Se o vosso avô Anika fosse vivo... - retomou Sime¦o a
meia-voz, emocionado. - A Sibéria foi o grande sonho da sua vida.
Nós realizá-lo-emos.


 A aldeia de Blagodornié situa-se algures no Don, rodeada de
estepes e de matas de bétulas, de cerejais e de roseiras bravas.
Possui algumas casas toscas de madeira, um caminho de terra
batida, jardinzinhos rodeados de sebes e até mesmo uma minúscula
capela.
 à frente das casas, as águas preguiçosas do Don, por detrás, a
estepe infinda e, por cima de tudo, o vasto céu azul... Deviam
viver aqui os homens capazes de compreender o significado da
palavra eternidade.
 Mas acontecera o contrário. Blagodornié vivera a experiência das
coisas perecíveis; por três vezes incendiada pelas tropas do czar
e reconstruída pela quarta vez, a aldeia conseguira sobreviver às
expediçSes punitivas do czar, vira executar os seus homens, os
que haviam sido apanhados, e ouvira os juramentos de vingança
daqueles que regressavam, uma vez afastado o perigo.
 Por agora, reinava a paz; os homens que orgulhosamente se
intitulavam "Cossacos", deslocaram as suas campanhas para sul e
pilhavam os nómadas vindos do mar de Azov em busca de pastagens.
Esta situaç¦o n¦o desagradava ao czar de Moscovo, mas pouco
rendia. Recomeçar as querelas com Moscovo afigurava-se demasiado
perigoso a Jermak. A nova geraç¦o ainda n¦o crescera o suficiente
para preencher as vagas criadas nas hordas de cavaleiros. Os
sobreviventes das guerras travadas aspiravam à paz e a um pouco
de repouso. Uma pequena ajuda de vez em quando.., era uma espécie
de exercício necessário a fim de n¦o degenerarem em camponeses
imobilizados. Era, de facto, o que de pior poderia acontecer a um
cossaco.

 Foi num dia de Abril do ano de 1579 que três cavaleiros cobertos
de pó irromperam em Blagodornié e perguntaram onde se situava a
casa de Timofeiévitch. Como perguntas semelhantes feitas por
outros forasteiros sempre tinham suscitado alguma desgraça, os
três cavaleiros foram, em primeiro lugar, apeados das
cavalgaduras e desprovidos dos seus haveres, tarefa que um bom
cossaco nunca se esquece de realizar, e interrogados na praça
grande, entre o Don e a igreja. As explicaçSes, segundo as quais
eram enviados dos comerciantes Stroganov e portadores de uma
mensagem dirigida a Jermak, n¦o produziram nenhum efeito imediato
nos cossacos. No Don, o poder da casa Stroganov era ignorado.
 Mas, nesse mesmo dia de Abril, a situaç¦o alterou-se. Os três
forasteiros foram conduzidos a casa de Jermak, onde os atiraram
para um canto. Em seguida, partiram emissários em busca de
Jermak. Este encontrava-se tranquilamente sentado à beira do Don,
ocupado a pescar e a conversar com o amigo Ivan Matveiévitch
Mouchkov, o qual, deitado de costas, esculpia, com a ajuda de uma
faca, um pedaço de madeira, sonhando com os heróicos tempos
passados.
 - Uma carta? - surpreendeu-se Jermak quando os cavaleiros o
encontraram. - Uma carta de um Stroganov para mim? Existe, ent¦o,
alguém que me escreva uma carta? Na verdade, os tempos est¦o a
mudar, Ivan Matveiévitch! Antigamente, ia o carrasco buscar-me a
casa!
 - O mundo está a tornar-se deserto, Jermak Timofeiévitch -
respondeu melancolicamente Mouchkov, lançando a obra inacabada às
águas do Don. - Agora querem relacionar-se connosco como se
fôssemos citadinos imbecis!

 Entretanto, na cabana de Jermak, o pope debruçava-se sobre a
carta. Era o único habitante da aldeia que sabia ler. Antes de se
alistar no exército de Jermak, dispusera de tempo para aprender
esta ciência, cerca de dezassete anos antes, no mosteiro ao qual
fora entregue ainda adolescente. E, apesar das pilhagens e das
incursSes, continuava a ser, para grande surpresa de Jermak, um
bom pope. A ele se devia a pequena capela de Blagodornié.
 Como é evidente, participava, de vez em quando, em expediçSes de
pilhagem, mas unicamente com o objectivo de obter ícones para
ornamentar a capela da aldeia, cruzes para as bênç¦os, e cálices
para a missa.
 Assim, Blagodornié possuía uma das mais belas iconostases que
imaginar se pode, e um verdadeiro tesouro constituído por cálices
incrustados de pedras preciosas e por vestes sacerdotais.
 - Trata-se verdadeiramente de uma carta! - exclamou Jermak
quando o pope lhe mostrou a mensagem, fazendo-lhe sinais por cima
das cabeças dos paroquianos presentes.
 Todos os homens da aldeia se reuniram em casa de Jermak a fim de
viverem o acontecimento: alguém de longe, do norte, escrevera
para Blagodornié! foi o "dia do século" e assim ficou conhecido
na história da Rússia e do mundo.
 - A paz! - gritou o pope Oleg com todo o poder da sua voz
tonitruante. - Eu vou ler! Jermak Timofeiévitch, esta carta foi
escrita por um certo Sime¦o Stroganov, da cidade de Oriol, nas
margens do Kama...
 - Se viesse da Lua, ser-me-ia igualmente desconhecida! -
exclamou Jermak, sentando-se. Examinava os três emissários, ainda
estendidos no canto do compartimento, inquietos, com o medo
estampado no rosto, brancos como a cal.
- E que pretende esse Sime¦o, das margens do Kama?
 - Diz o seguinte: "Ao comandante dos Cossacos, Jermak
Timofeiévitch, escrito a 6 de Abril de 1579, em Oriol. Caro irm¦o
em Cristo Jermak..."
 - Idiota! - exclamou Jermak em voz alta.
 - No entanto, o início é animador! - replicou o pope com um
olhar de desaprovaç¦o. - Eu continuo: "A tua reputaç¦o chegou até
nós acompanhada pelo brilho do teu heroísmo e pelo relato das
perseguiçSes de que foste alvo. A confiança que temos em Deus
incita-nos a convencer-te de que seria preferível renunciares a
essas actividades indignas de um combatente crist¦o, tornares-te
guerreiro do czar branco, desprezando os perigos inglórios e
reconciliando-te com Deus e com a Rússia.
 - Continua a ser idiota! - concluiu Jermak, ainda mais
brutalmente. Em seguida olhou para os três emissários e
debruçou-se sobre eles.
 - Quem é esse Sime¦o Stroganov, hem?
 - É o homem mais rico da Rússia - replicou um dos interpelados
numa voz hesitante.
 - É encorajador! - observou Jermak. - Continua, pope!
 "Possuímos fortalezas e domínios, mas muito poucos soldados.
Venham ajudar-nos a proteger a regi¦o do grande Perm, assim como
os limites orientais da cristandade..."

 - Praças fortes e domínios... - repetiu Jermak, pensativo. - E,
para além das fronteiras, estendem-se terras desconhecidas...
Conviria examinar esta proposta... Façamos o que fizermos lá de
longe, no Norte, será pelo czar e pela cristandade!
 Estendeu as pernas um pouco arqueadas, de cavaleiro, e lançou um
olhar ao seu amigo Mouchkov, cujos olhos brilhavam de felicidade.
Quer a actividade se desenvolvesse no Kama ou nas margens do mar
Negro, nos Urales ou perto do Volga, a "calma" chegara ao fim,
desta inacç¦o constante, esta edificante sabedoria, este tédio
que corrói como um verme. Calcorrear de novo as imensas terras,
penetrar nas aldeias e fazendas com gritos de fazer gelar o
sangue... Um país rico e desconhecido... na verdade, teria de ser
rico, já que nenhum cossaco lá entrara.
 - Submeteremos a decis¦o a votaç¦o! - exclamou Jermak, que
compreendera o olhar radioso do amigo Mouchkov.- Ninguém será
forçado a abandonar Blagodornié, mas quem quiser partir comigo
deverá procurar-me hoje à noite na praça grande! - Ergueu -se de
um pulo, passou entre alas de m¦os que o aplaudiam com entusiasmo
e voltou-se uma última vez.
 - Enviem recrutadores para as margens do Don. Reunam por meio de
tambores os habitantes do Volga. Levarei comigo todos os que
tiverem coragem!
 Era uma frase pérfida. Algum cossaco carecia de coragem? Ao
ouvir tais palavras, quem ousaria ficar na aldeia a plantar
couves?
 - Irm¦os, todos para Kama! - gritou Mouchkov, na retaguarda.
 - E quais s¦o as garantias? - perguntou o pope,, meneando a
cabeça.
 - Garantias?
 - Sim, precisamos de ter a certeza de que exigem os nossos
préstimos para a defesa da cristandade!
 "Desde que tenhamos oportunidade de encher os bolsos!", pensavam
eles todos. "Mas quem nos garante que assim será?" Era um sábio,
o pope! Poderia esta carta imbecil servir de garantia?
 - Partiremos, a cavalo, ao encontro de Sime¦o Stroganov e os
três emissários servir-nos-¦o de guias! - Jermak sorriu ao
apontar para as três silhuetas amedrontadas coladas à parede. -
Se nos tiver enganado, arrancar-lhe-emos a pele e faremos o mesmo
aos três emissários! N¦o é impunemente que se incomoda Jermak
Timofeiévitch!
 - Viva a liberdade! - gritou Mouchkov, erguendo os braços,
entusiasmado. - Irm¦os, a caminho! Aqui v¦o os cossacos!

 Em meados de Maio, as forças combatentes de Jermak estavam
prontas para o combate. Os cossacos acorreram de todos os
lugares, deixando atrás de si casas, mulheres, filhos e parentes
idosos, respondendo ao apelo de Jermak que os convidava a
lançarem-se em novas aventuras, ao assalto de um país
desconhecido, de reputaç¦o carregada de fantasia.

 Na praça grande de Blagodornié reuniram-se quinhentos e quarenta
cavaleiros. Formavam filas cerradas até às margens do Don, lá
muito ao fundo, pois a praça da igreja n¦o bastava para os conter
a todos. O pope, Oleg Vassiliévitch Koulakov, que vestira a
sotaina negra de sacerdote sobre as calças e as botas de cossaco,
passava a cavalo por um caminho deixado livre, entre as filas de
cavaleiros, e benzia homens e animais, salpicando-os com água
benta e cantando o Kyrie Eleison. O momento era solene. Muitos
cavaleiros tinham lágrimas nos olhos e rezavam com um fervor
sincero. Só depois desta cerimónia Jermak montou a cavalo e
ergueu os braços.
 - Cossacos! - gritou. - Rumo ao Norte!
 Em seguida, partiu a galope, passando à frente dos três
mensageiros dos Stroganov e de Mouchkov, que comandava o primeiro
grupo de cavaleiros.
 - Para norte! - rugiram em coro quinhentos e quarenta vozes. E,
assim, Blagodornié desapareceu sob uma gigantesca nuvem de pó.
 O pope, montado no seu cavalo, foi o último a abandonar a
aldeia. Fechara a igreja, mas n¦o se esquecera de pendurar na
porta uma tabuleta de madeira: "Encerrado por vontade de Deus".
Porém, ninguém na aldeia a poderia ler.
 Uma coluna de cossacos em deslocaç¦o durante várias semanas n¦o
se assemelha em nada a uma coluna normal de homens e cavalos de
outras regiSes. A distância do Don ao Kama era grande, e nenhum
verdadeiro cossaco consentiria em percorrer tamanha extens¦o de
terras sem roubar ou pilhar pelo caminho... aquilo a que Jermak
chamava "viver da terra".
 As aldeias que atravessavam lamentavam-se, pois, ao vê-los
chegar, desesperadas, espoliadas até à última migalha de víveres
e a braços com mulheres e raparigas grávidas. Era inútil
defenderem-se, mortalmente perigoso esconder o que quer que
fosse, impossível fugir. Quinhentos e quarenta cossacos de uma
assaltada, uma calamidade comparável a uma invas¦o de gafanhotos
ou a um tornado. Era preciso suportar, de cabeça baixa.
 Quando muito, poderiam prevenir os outros aldeSes. Assim, alguns
camponeses cavalgavam sempre a alguma distância do pequeno
exército de Jermak, descrevendo grandes círculos em volta dos
cavaleiros, semeando o alarme pelas aldeias por que passavam.
 Foi o que aconteceu em Novo Orpotchkov, aldeia situada a
montante do Volga, e que era chefiada por um "antigo", Alexandre
Grigoriévitch Loupin.
 Loupin, o estiraste, n¦o era um homem forte, mas também n¦o
carecia de coragem. Quando os cavaleiros que vinham à frente o
preveniram, tocou a reunir, ocupou a rua principal com os seus
homens, chegou mesmo a armar as mulheres com mocas, barras de
ferro, ancinhos, enfim, tudo o que pudesse servir para repelir e
atacar. E, sobretudo, preparou uma armadilha: escondeu a metade
da populaç¦o, a fim de que, chegado o momento, pudessem atacar
pela retaguarda os cavaleiros cossacos, uma vez iniciados os
combates na frente. Nem um cossaco consegue facilmente lutar em
duas frentes.
 Novo Orpotchkov.
 Segundo Ivan Matveiévitch Mouchkov, era o nome de um aglomerado
rústico que o diabo construíra mas que Deus cobrira com um manto
protector...
 - Devíamos ter feito um desvio para o evitar - repetia ele
constantemente. - Logo que vi aquela multid¦o de camponeses na
rua, n¦o agoirei nada de bom.
 Passou-se tudo como estava previsto. Jermak e Mouchkov, que
cavalgavam à frente das tropas, avistaram, mais divertidos do que
surpreendidos, todos aqueles homens que lhes barravam o caminho.

 - Também acontecem destas coisas! - exclamou Mouchkov
alegremente, detendo a marcha. Os cossacos estacaram, rindo.
Quinhentas e quarenta vozes produziram um clamor retumbante que
se repercutiu pelos campos tranquilos antes de ir cair sobre os
corajosos camponeses.
 - N¦o se afoitem! - rosnou Loupin. - Agora ainda riem, meus
caros cossacos, mas dentro de momentos chorar¦o!
 - Devíamos ser poupados a tanta estupidez - observou Mouchkov,
limpando as lágrimas de tanto rir. - Que te parece, Jermak?
 - Nada!
 Jermak aprumou-se, desembainhou o sabre preso à sela e
brandiu-o.
 - Avancem! - gritou, por seu lado, o estiraste Loupin num tom
surdo, dirigido aos seus camponeses. - Irm¦os, n¦o seremos
esmagados sem nos defendermos!
 Os cossacos atacaram. Um imenso clamor encheu a atmosfera,
produzindo um efeito que nem os quinhentos e quarenta cavalos e
cavaleiros armados de sabres tinham esperado conseguir. Os homens
de Novo Orpotchkov desfizeram-se das armas e dispersaram por
todos os lados.
 Só Loupin se manteve no seu posto, imóvel no meio da rua, e
Jermak, ao passar por ele, limitou-se a empurrá-lo. O estiraste
rebolou pelo ch¦o, caiu num fosso e só por isso sobreviveu aos
dois mil cascos que lhe passaram por cima.
 Meia hora mais tarde, a aldeia estava a arder. Os cossacos
traziam para a rua peles, sacos de farinha, jóias de pechisbeque,
carne fumada, frascos de pepino de conserva e pipas de couve
salgada, antes de incendiarem as casas com mechas feitas de ervas
secas. Alguns perseguiam as mulheres. Deitavam-nas no ch¦o, à
porta das casas em chamas, ou nos jardins, e violavam-nas.
 Mouchkov também errava pelas ruas, em busca de uma jovem que lhe
agradasse. Acabou por encontrá-la numa casa de porta de madeira
esculpida... uma criança ainda magrizela, de cabelo louro, que
veio ao seu encontro munida de um grande pau e, sem proferir uma
palavra, lhe aplicou uma violenta pancada no crânio. Mouchkov
ficou de tal modo alarmado que nem tentou evitar a segunda
paulada. Mas n¦o chegou a receber a terceira.
 Pegando na pequena gata brava pelo cachaço, arrastou-a para um
quintal e manietou-a. A rapariga arranhava e mordia, dava-lhe
pontapés no baixo-ventre e cabeçadas no peito. Conseguiu fugir
mas, em três passadas, Mouchkov alcançou-a e atirou-se a ela da
mesma maneira que, na sua aldeia, se agarrava uma galinha fugida.
 Rolaram pelo ch¦o agarrados um ao outro até esbarrarem contra
uma moita. Mouchkov, deitado sobre a jovem, palpava-lhe os seios
ainda adolescentes. Os grandes olhos azuis da rapariga
fixavam-no. N¦o demonstravam medo, apenas uma selvagem
determinaç¦o.
 - Mata-me! - pediu ela em voz baixa. - Mata-me! Se n¦o me
matares antes, matar-me-ei eu depois! Diabos! S¦o todos uns
ignóbeis diabos!
 - Chamo-me Ivan Matveiévitch Mouchkov... disse-lhe ele.
 Até ao fim dos seus dias, nunca foi capaz de explicar por que
dissera o nome naquela ocasi¦o... Mas foi certamente forçado a
fazê-lo devido ao olhar da rapariga.
 Ela, ent¦o, respondeu:
 - E eu sou Marina Alexandrovna Loupin...
 - Marina...

 Mouchkov libertou-a um pouco. Em toda a volta, lavravam
incêndios entre gritos de mulheres e risos de vitória dos
cossacos, enquanto os cavalos relinchavam, excitados.
 - Levo-te comigo! - decidiu ele subitamente.
 - Nunca conseguirás fazê-lo! - gritou ela.
 - És a minha prisioneira de guerra!
 - Ent¦o agarra-a bem, Satanás!
 Lutaram de novo, rebolando pelo ch¦o. Marina mordeu Ivan no
ombro e só cedeu quando os cabelos se lhe prenderam num arbusto.
Foi-lhe impossível libertar-se.
 Assim imobilizada, estendida à frente dele, fechou os olhos.
 - Porque esperas? - perguntou numa voz sumida.
- Serve-te do que quiseres...
 E Mouchkov respondeu num tom de voz que lhe pareceu
desconhecido:
 - N¦o tenhas medo, Marina.
 Desprendeu-lhe os cabelos do arbusto, quase com ternura.
 - Que idade tens? - perguntou-lhe.
 - Catorze anos.
 - A tua aldeia está a arder - observou ele -, vou levar-te
comigo, Marina.
 - N¦o! - gritou a rapariga.
 Mas permaneceu estendida e n¦o se mexeu.

Capítulo 3

 Novo Orpotchkov ardeu completamente. Depois de terem chicoteado
mulheres, crianças, velhos e doentes, os cossacos de Jermak
acamparam como puderam dentro dos limites da aldeia. Cantavam,
praguejavam e aqueciam-se nas labaredas das casas incendiadas, as
suas fogueiras preferidas. Tinham prendido os cavalos uns aos
outros. Porcos e vitelos assavam em espetos, canecas de vinho de
bétula passavam de m¦o em m¦o. Era a vida pela qual um cossaco
n¦o se importava de morrer: a liberdade tal como a entendia! "O
mundo pertencer-nos-á logo que o conquistemos!" E, à sua frente,
estendia-se um país que os esperava. Tinham-lhes prometido a
fabulosa riqueza dos Stroganov, o país de Mangaseja de que os
três emissários tanto falaram... os três emissários que fizeram a
travessia para norte, para o Kama, imbuídos de um indescritível
pavor...
 - Uma cadeia de montanhas... - comentava Jermak, enquanto
imaginavam o que talvez vissem dentro de algumas semanas... - e
povos de olhos em amêndoa, o que é isso, afinal? Amarelos, já
vimos alguns: até já lhes despedaçámos o crânio! E um pedregulho
é um pedregulho, mesmo medindo mil vertas de altura! Alguém tem
medo dos pedregulhos, irm¦os?
 O aniquilamento de Novo Orpotchkov n¦o teve consequências.
Os camponeses das aldeias em redor trataram os homens do
estiraste Loupin como idiotas. Quem poderia defrontar quinhentos
e quarenta cossacos? Deixavam-nos passar pela aldeia, davam de
beber aos cavalos, ofereciam-lhes provisSes, aceitavam com mal
contida raiva que as mulheres engravidassem... poderiam
sobreviver a tudo isso e o mais importante era sobreviver. Lutar
contra os cossacos? Por Santo Estefánio, que mau-olhado teriam
lançado sobre Alexandre Grigoriévitch Loupin para que lhe
tivessem subido à cabeça t¦o loucas ideias?

 Os homens de Novo Orpotchkov, sentados na encosta da colina
perto da aldeia, viam arder as suas casas. As mulheres
regressavam uma a uma, auxiliando um velho ou um doente,
transportando crianças em lágrimas.
 A maior parte das mulheres tinha sido espancada até fazer
sangue, trazia as roupas em farrapos. Como nos jogos equestres,
em que saltavam de cavalo em cavalo, os cossacos tinham passado
de umas mulheres para as outras - orgia infernal acompanhada dos
reflexos das chamas, dos estalidos das choupanas desmoronadas.
 Só a pequena igreja de Novo Orpotchkov permanecia intacta. Foi
aí que o pope de Blagodornié, Oleg, se apresentou ao seu
confrade:
 - Deus criou o homem e, portanto, também os Cossacos - disse ele
na sua estranha lógica, enquanto se benzia. A sotaina cheirava a
fumo, as botas de cossaco traziam lama até aos joelhos, a barba
confundia-se com a fuligem. - Irm¦o pelo Senhor - retomou ele -,
oremos a fim de que as almas pecadoras possam beneficiar no Céu
de um olhar benevolente...
 E os dois popes, ajoelhados diante da iconostase, rezavam as
suas oraçSes, enquanto lá fora a aldeia se consumia e as mulheres
perseguidas tagarelavam.
 - Estás a ver, irm¦o - observou mais tarde o pope dos cossacos,
enquanto os homens de Jermak cantavam, sentados em redor da
aldeia destruída que a pouco e pouco se apaziguava -,
conservámos-te a tua igreja. Dá graças ao Senhor! E, como apoio
para a longa caminhada rumo ao desconhecido, dá-me a tua cruz
pascal...
 O pope de Novo Orpotchkov lamentou-se, mas foi buscar a cruz
incrustada de pérolas barrocas, bela obra rústica que lançou aos
pés do colega.
 - Que Deus esteja contigo em cada uma das tuas bênç¦os! -
exclamou.
 - Amem! - respondeu Oleg Vassiliévitch Koulakov com fervor e
humildade. Entretanto, Loupin, o esterroaste, milagrosamente
poupado pela cavalaria cossaca, percorria todas as mulheres,
torcendo as m¦os:
 - Viram a minha Marina? - gritava ele, debatendo-se com uma
enorme angústia. - Onde estará a minha menina? O meu raio de sol,
a minha nuvem dourada...
 Viram-na? Porque n¦o aparece? Porque n¦o ma trazem? Estará
morta? Digam-me, n¦o me escondam a verdade, sou um homem forte,
suportarei o golpe! Quem viu Marina? Quem?...
 Entre as mulheres que regressavam, nenhuma vira Marina. Sabiam
apenas que a casa do esterroaste estava a arder. De resto,
parecia-lhes justo, pois fora Loupin quem tivera a peregrina
ideia de resignar! Os homens n¦o lhe falavam e, na verdade,
Loupin podia felicitar-se por n¦o ter sido afogado no Volga pelos
companheiros. Ninguém sentia pena dele: um perdera Marina, o
outro Olga ou Jelisaveta. E previa-se que, dentro de nove meses,
muitos bastardos viriam ao mundo - facto que teriam de suportar.
Na Rússia, viver era sempre duro, mas eles estavam calejados.
Assim, deixavam Loupin gritar e correr em todas as direcçSes,
como um varr¦o com uma faca enterrada nas entranhas, à espera que
alguém surgisse e dissesse: "É verdade, a tua Marinouchka morreu!
Os cossacos aproveitaram-se da tua lourinha até à morte..."

 Mas ninguém apareceu. Ninguém vira Marina... além disso, quem
visse Novo Orpotchkov arder ao longe, entre um mar de chamas do
qual só sobressaía a igreja, deduziria que Loupin n¦o voltaria a
ver a filha...
 - Vou procurar a minha filha - declarou ele subitamente, quando
anoiteceu -, n¦o me retenham!
 Ninguém tentara fazê-lo. Dois estados psicológicos podem
conduzir um homem à loucura: o heroísmo e o amor paternal. A
primeira destas aberraçSes já ficara para trás... por que raz¦o o
impediriam de experimentar a segunda? Os homens olharam-no de
olhos bem abertos e indiferentes, felizes por estarem vivos e
terem recuperado as mulheres. Construiriam um novo Orpotchkov e
chamar-lhe-iam "Novo" pela nona vez, como rezava a crónica
conservada na pequena igreja. Afinal, os cossacos apenas tinham
introduzido uma variante na monotonia da existência nas margens
do Volga. Furac¦o que passara, tonitruante. E a igreja
mantivera-se de pé: n¦o teria sido o dedo de Deus?
 Ao cair da noite, quando a aldeia já n¦o era mais do que um
enorme monte de cinzas incandescentes e traves de madeira
fantasmagóricas, Alexandre Grigoriévitch Loupin regressou ao meio
das ruínas, em busca da querida filha Marina.
 Os cossacos dormiam. Só os homens de sentinela, perto dos
cavalos, formavam um círculo, distraindo-se com algumas mulheres
que ainda detinham. Loupin aproximara-se, rastejando para as
poder reconhecer à claridade das chamas... Mas Marina n¦o se
encontrava no grupo, a sua cabeleira dourada teria brilhado ao
longe.
 Deitado no ch¦o, escondido entre grandes tufos de ervas, Loupin
permaneceu algum tempo junto dos cavalos e apercebeu-se do estado
em que se encontrava a sua aldeia. Sentia o coraç¦o apertado.
"Marina deve estar além, coberta pelas brasas incandescentes",
pensava ele. "Lutou, defendeu a sua honra até à morte. Uma
verdadeira filha da minha raça... Nunca ceder, nem que rachem o
crânio! Orgulho-me dela, mesmo com o coraç¦o a sangrar". Pousou a
cabeça no ch¦o coberto de ervas, aspirou o odor da terra e
abandonou-se ao sentimento de ter perdido a filha.
 - Já n¦o podes escapar - disse Mouchkov, ajoelhando-se diante de
Marina -, as outras mulheres já abandonaram a aldeia e se tu
agora corresses atrás delas... N¦o conheces os meus camaradas! Se
virem uma rapariga como tu, matam-me também a mim! Só estás em
segurança ao pé de mim.
 Estavam deitados numa vala, ao longo da sebe do jardim. Tudo, à
sua volta, se apaziguara, mas o calor libertado pelas brasas
quase os assava. Os cossacos reuniam-se, carregando nos braços o
produto do saque.
 Formavam grupos, mostravam uns aos outros pequenos objectos
preciosos, depois deitavam-se à roda das fogueiras.
Jermak corria de um para outro, interrogava-os sobre o amigo
Mouchkov, mas apenas obtinha um encolher de ombros como resposta.
 - Quantos mortos temos? - perguntou.
 - Nenhum! - respondeu o pope, que saíra da igreja.
 - E feridos?
 - Poucos. Quase todos foram arranhados, mordidos, espancados
pelas mulheres. Um deles recebeu uma paulada na cabeça, mas estou
a vê-lo além, comendo carne fumada e recobrando forças.
 - Nesse caso, só nos falta Ivan Matveiévitch.
 Jermak apoiou as m¦os no largo cintur¦o que suportava vários
punhais, um deles curvo.

 - Procurem-no nos escombros! Se tiver acontecido alguma coisa a
Mouchkov, enforco cinco camponeses!
 - Só disponho de uma maneira de te salvar - dizia nesse mesmo
instante Mouchkov a Marina. - Considero-te prisioneira de guerra
e meto-te num saco, que uma besta de carga carregará. É a única
soluç¦o. Se n¦o matam-te, Marina, desfazem-te como lobos
esfaimados...
 - E para que me queres salvar? - perguntou ela.
 - N¦o sei.
 Mouchkov tinha os olhos fixos no incêndio. Na verdade, ignorava
porque alimentava o desejo de a salvar.
 Estava indeciso e pensativo. "Nem sequer lhe toquei", pensava.
"N¦o lhe despi a roupa esfarrapada, n¦o caí sobre ela como me
aconteceu fazer com outras mulheres. Que se passará comigo?
Porque estarei deitado a seu lado, aqui junto da sebe, em vez de
me servir dela, recambiando-a em seguida? Estou aqui deitado,
converso com ela e preocupo-me com a possibilidade de os meus
amigos a poderem ver... Provavelmente, tenho o cérebro avariado."
 - Quem faz três perguntas já perdeu a cabeça duas vezes, diz-se
na minha terra - retomou ele. - Está decidido: levo-te comigo e
sobreviverás. Aceita as coisas como elas s¦o!
 - Mas nem por isso deixas de ser um assassino e um malfeitor!
 - Sou cossaco!
 - Qual é a diferença?
 Mouchkov espreguiçou-se. O calor que os envolvia tornara-se
insuportável. Mas, simultaneamente, constituía a sua protecç¦o.
Ninguém os procuraria naquele recanto t¦o próximo do incêndio. O
fosso no qual se entrincheiraram assemelhava-se a uma espécie de
caverna, rodeada por uma muralha em chamas.
 - Só por essa pergunta, qualquer cossaco te enforcaria na
primeira árvore que encontrasse! - respondeu ele brutalmente.
 - Ent¦o porque esperas, Ivan Matveiévitch?
 - Olha! Lembras-te do meu nome?
 - Quem poderia esquecer o nome de um diabo?
 N¦o muito longe, elevavam-se vozes e Mouchkov julgou ouvir
pronunciar o seu nome. Mas o crepitar das chamas e o estilhaçar
das traves de madeira, por efeito do calor, sobrepunham-se aos
outros ruídos. "Se me chamam, é porque me procuram", pensava
Mouchkov "e, se me encontrarem, n¦o poderei continuar a proteger
Marina. Porque será que ela n¦o compreende?"
 Pousou a m¦o no ombro da jovem e reteve-a no fundo do fosso.
Subitamente, sentia o que nunca experimentara ao longo de todos
esses anos em que cavalgara em todos os sentidos, com os
companheiros, às ordens de Jermak, participando em confrontos
sangrentos: medo!
 Medo por uma jovem que era quase uma criança.
 As vozes tornavam-se mais insistentes: agora ouvia com clareza o
seu nome e distinguia silhuetas que corriam de um lado para o
outro, procurando n¦o sabia o quê entre os escombros
carbonizados.
 Mouchkov coseu-se o mais possível com o ch¦o, ao lado de Marina,
e pousou-lhe um dedo nos lábios:
 - N¦o te mexas!
 Marina compreendeu e olhou-o com tanta incredulidade como
gratid¦o, antes de ocultar o rosto entre os braços dobrados.
 Os cossacos afastaram-se, gritando:

 - Ivan Matveiévitch! Ivan Matveiévitch!
 - Obrigada - murmurou Marina alguns momentos depois, erguendo a
cabeça. Mouchkov mordia o lábio inferior, considerando ter-se
comportado como um louco.
 - O pior ainda está para vir! - exclamou. - prisioneira de
guerra ou n¦o, Jermak n¦o permite que nenhuma mulher cavalgue nas
nossas fileiras!
 - Ent¦o, deixa-me neste fosso. - Marina deitou-se de costas e
Mouchkov viu novamente os seios pequenos, as coxas, os lábios bem
delineados, o cabelo louro e comprido do qual pendiam pedaços de
fuligem. "Tem catorze anos... dentro de um ano será uma rosa
desabrochada e um ano passa depressa! Que diabo, Ivan, leva-a
contigo!"
 - Nenhum cossaco restitui o espólio de que se apropriou! -
exclamou ele, grosseiro -, ou ver-se-ia obrigado a cuspir em si
mesmo!
 - Ent¦o cospe, Ivan Matveiévitch!
 - Vais comigo... vestida de rapaz. Direi a Jermak: olha para
este tipo! Retire-o do lume antes que asse! Rachamo-lhe o crânio?
Estive quase a fazê-lo! Mas o que é que ele me pediu? "Leva-me
contigo, cossaco sempre quis ser dos vossos, n¦o nasci para ser
camponês! A vida em Novo Orpotchkov é uma pasmaceira! Leva-me
contigo!" E eu embainhei o punhal dizendo para comigo: "Sabe
falar, poderemos fazer alguma coisa dele!" Falarei a Jermak
exactamente nestes termos. Ele observar-te-á e dirá com certeza
que és muito jovem, mas se montares um cavalo à sua frente... -
Mouchkov calou-se subitamente, embaraçado. - Sabes, ao menos,
montar a cavalo? - acrescentou, desanimado.
 - Como um cossaco! - respondeu Marina, em voz baixa. -
Possuía-mos quatro cavalos antes da vossa chegada a Novo
Orpotchkov!
 - Quando te vir a cavalo, Jermak gritará: chamas a isso montar a
cavalo? pareces um galo agarrado a uma galinha! Ivan
Matveiévitch, ensina-o a montar como um homem! E assim
ganharemos, pois ninguém perguntará como serás tu em roupa
interior!
 - E se eu recusar a participar? - perguntou Marina, muito
duramente.
 - Ent¦o, estarás perdida... - E Mouchkov olhou-a, assustado.
Os seus grandes olhos, num belo rosto, estavam cheios de
determinaç¦o. - Queres morrer?
 - N¦o há nenhum rapaz que use o cabelo t¦o comprido!
 - Cortamo-lo.
 - O meu cabelo?
 - É mais precioso que a tua vida?
 - Seria mais simples se partisses sozinho...
 - Precisamos de falar assim tanto? - Mouchkov segurou a cabeça
de Marina entre as m¦os, desembainhou o punhal que trazia à
cintura e, num gesto brusco, cortou metade da cabeleira loura. O
cabelo curto bailava em volta do rosto de Marina, enquanto ele se
preparava para cortar o resto, exclamando:

 - É uma vergonha! Mas voltará a crescer. - E continuou a cortar
o cabelo da jovem até parecer um rapaz. Marina, estranhamente,
manteve-se imóvel. Encontrava-se sentada no fosso, rodeada das
últimas fogueiras que consumiam a aldeia. Só os olhos falavam a
Mouchkov, perguntando-lhe: "Porque me deixas viver? Acreditas
verdadeiramente que posso cavalgar a vosso lado rumo ao norte?
Terei de me transformar num cossaco assassino e destruidor?
Queres que mostre ao teu amigo Jermak os meus talentos de
estribeiro? Queres que me faça passar por rapaz? Julgas que só os
cossacos têm amor-próprio?
 - Vamos! - ordenou Mouchkov, - uma vez terminado o trabalho,
evitando olhar para Marina, cujo aspecto n¦o conseguia suportar.
"Está estropiada, desfigurada", pensava ele, "mas que lhe
aconteceria se caísse nas m¦os dos meus camaradas?" Respirou
profunda mente, como que suspirando, e, em seguida, sacudiu as
madeixas louras que se lhe tinham colado aos dedos. Que belo
rapaz! Agora, deves esfregar a cara com fuligem - acrescentou
numa voz embargada e reticente.
 - Sempre quis ser um rapaz - respondeu Marina, passando as m¦os
pelo cabelo curto. - Os rapazes podem fazer tantas coisas!
 - N¦o abuses! Limita-te a adquirir o aspecto de um verdadeiro
rapaz! - disse Ivan. - Talvez tudo se passe de um modo diferente
daquele que imaginámos, quando nos encontrarmos diante desse tal
Sime¦o Stroganov!
 Ainda esperaram um pouco, rastejando em volta a fim de achar,
entre os objectos que os cossacos tinham retirado dos armários e
baús e que agora se apinhavam no ch¦o, um fato masculino, botas,
um gorro de Kulak suficientemente sebento.
 - Despe-te! - ordenou Mouchkov depois de reunirem tudo aquilo de
que necessitavam.
 Marina n¦o se mexeu. Com a roupa debaixo do braço, mantinha-se
encostada à parede de uma cavalariça que resistira ao incêndio,
por ser feita de pedras retiradas do rio.
 - Aqui? à tua frente?
 - Se me prometeres que n¦o foges, viro-me de costas!
 "Perdi o juízo", pensava Mouchkov, assustado com a sua própria
metamorfose. "Ainda está para nascer o cossaco que desvie o olhar
quando uma rapariga se despe! Ah, n¦o! E, de repente, aqui está
um cretino nessas condiçSes, chamado Ivan Matveiévitch Mouchkov!
Satanás do Inferno, que se passa comigo?"
 Na verdade, virou-se de costas, meteu a m¦o esquerda na boca e,
desesperado, roeu as unhas. "Isto n¦o pode continuar assim",
pensou. "Preciso de a zurzir conscienciosamente pelo menos uma
vez para fortalecer o meu amor-próprio! Está a transformar-me num
rato, mas ficará a saber que sou um urso!"
 - Acabaste? - perguntou ele, arrogante.
 - Ainda n¦o! As botas s¦o muito grandes, nado dentro delas e n¦o
poderei montar a cavalo...
 - N¦o há tempo para encomendar botas por medida! - resmungou
Mouchkov. - E o resto, está tudo bem?
 - Vê com os teus olhos!

 Voltou-se de repente e deu consigo em frente de um jovem Kulak
emporcalhado. O boné era a única peça que lhe assentava bem, o
casaco ficava-lhe demasiado largo e comprido, e as calças
entalavam-se em botas que deviam ter pertencido a um gigante.
Estava ridícula mas, mesmo assim, Mouchkov sentia bater
fortemente o coraç¦o. "Levo-a comigo" - este pensamento
dilacerou-o - "e ninguém adivinhará o que se esconde debaixo
deste fantoche. Cavalgará como todos nós: um futuro cossaco!
Jermak, ao vê-lo, n¦o deixará de se rir e o seu riso significa
pena de morte ou uma vida salva: tudo depende da tonalidade do
riso!
 - Vais tal como estás e se, no futuro, te dou um pontapé no
traseiro, n¦o com muita força, mas o suficiente para n¦o passar
despercebido, n¦o te admires! Est¦o habituados a ver-me comandar
prisioneiros à chicotada e, como é evidente, n¦o poderei
apresentar-me de braço dado contigo!
 - É assim que te comportas? - perguntou ela, puxando o boné para
a testa. - Atreves-te a dar chicotadas aos prisioneiros? N¦o
terás muito prazer em me conhecer, Ivan Matveiévitch!
 - Vamos! - ordenou Ivan em voz alta.
 - E quando me libertarás?
 - Quando tiver oportunidade.
 Marina olhou-o novamente, de olhos muito abertos, enquanto Ivan,
de olhos baixos, se acusava interiormente de fraco por se deixar
dominar por uma rapariga, em vez de a repelir depois de se servir
dela, como tantas vezes fizera entre o Volga e o mar Cáspio.
 - N¦o me olhes assim! - vociferou ele, deixando transparecer a
excitaç¦o.
. - Como queiras - Marina encolheu os ombros estreitos debaixo do
casaco demasiado largo. - Se quiseres, abstenho-me pura e
simplesmente de olhar para ti.
 Marina avançou à frente de Ivan e a claridade provocada pelo
incêndio envolveu a sua silhueta, plantada nas enormes botas,
como uma flor num solitário.
 "Meti-me em grandes trabalhos", pensava Mouchkov, seguindo-a a
passos largos. "Teria sido necessário? para terminar, violo-a e
depois abandono-a! Sou um cossaco livre, que diabo!"
 - Aqui tens o primeiro pontapé, Marina - disse ele,
aproximando-se muito. - Desculpa-me, mas tem que ser, os meus
camaradas já est¦o a olhar para nós.
 Manteve-se um passo atrás e aplicou-lhe um pontapé, moderando o
seu furor. Mas Marina caiu e conservou-se estendida no ch¦o
durante alguns momentos. O coraç¦o de Mouchkov quase parou de
pulsar, enquanto pensava: "Quebrei-lhe a espinha dorsal!" Marina,
porém, ergueu-se e equilibrou-se nas gigantescas botas:
 - Ajustaremos contas mais tarde! - sussurrou ela por cima do
ombro.
 Mouchkov respondeu-lhe meneando a cabeça. "Pois, bem", pensava
ele, "ajustaremos contas! Mas, louvado seja Deus, ela está viva!
Avança, Marinouchka, os próximos pontapés ser¦o carícias!"

 Passou-se tudo exactamente como Mouchkov previra, Jermak riu-se
ao avistar o rapazelho que pretendia ser cossaco e os cossacos
riram-se com ele. Rodearam Mouchkov e a sua descoberta, clamaram
perante as botas disformes em t¦o pequenos pés, e só por ainda
ser quase uma criança, as opiniSes dividiram-se quando se tratou
de escolher entre lançá-lo à água ou à fogueira da aldeia.
 - É preciso nascer-se cossaco! - gritou Jermak de bom humor,
dando uma palmada nas costas do rapaz.
- Ninguém se faz cossaco!
 - Monto a cavalo t¦o bem como qualquer de vós! - declarou
Marina. A voz fina e um pouco roufenha podia passar pela voz de
um adolescente. - O meu pai foi cavaleiro do czar!

 - E onde está o teu pai agora? - gritou-lhe Kolka, um dos
subchefes da horda.
 - N¦o sei.
 - Está sentado à beira do rio, borrado de medo! - afirmou
Mouchkov a fim de intervir, o que lhe parecia natural. -
Tragam-lhe um cavalo! Ele vai mostrar-nos o que aprendeu com o
pai! Cavaleiro do czar! Veremos, irm¦os, como um bode monta um
burro!
 Jermak assobiou e esboçou um gesto. Da massa de cavalos em
repouso destacou-se um que foi trazido a Marina. Os cossacos
continuavam a rir, dando cotoveladas uns aos outros:
trouxeram-lhe Liouba, o cavalo de Jermak! quando a égua sentir
algo diferente das coxas de ferro do dono, tornar-se-á t¦o
pérfida como o gelo da Primavera! Ouviremos, ent¦o, todos os seus
ossos rangerem. ..
 - Monta! - resmungou Mouchkov com uma brutalidade estudada,
aplicando um pontapé em Marina, suficientemente forte para a
projectar contra o flanco do animal. Os cossacos gritaram,
entusiasmados. "Que desgraça! ", pensou Mouchkov. "Foi um pontapé
suave como uma brisa! E ela quase saltou por cima da sela! N¦o se
lhe pode tocar sem a magoar! Que avezinha t¦o delicada!" Nunca
vira nada semelhante... Em geral, quando as suas m¦os actuavam,
levavam tudo de vencida...
 Marina saltou para a sela. N¦o era difícil; no entanto, teve
dificuldade em conservar as botas calçadas. Crispou os pés tanto
quanto pôde, a fim de n¦o perder as monstruosas botas.
 Jermak aprumou-se. A égua ia desenfrear-se. Começou por se
empinar, escoiceou e quem resistisse a estes exercícios sentia-a
imediatamente pular nos quatro cascos. Nunca ninguém a conseguira
dominar, nem mesmo Mouchkov, a quem nenhum cavalo resistia -
excepto Liouba!
 Marina mantinha-se firme e olhou de relance para trás.
 Os cossacos fixavam-na sem pestanejar e, de súbito, instalou-se
o silêncio no imenso círculo de espectadores.
 Mouchkov era o único que respirava ruidosamente, como após uma
longa corrida.
 - Que devo fazer agora? - perguntou Marina, debruçando-se para
Jermak, que já n¦o reconhecia a sua égua. Liouba nem se mexia,
limitava-se a agitar as orelhas. - Quem me dá uma lança e ergue
bem alto um pedaço de carne? Sou capaz de o apanhar, obrigando o
cavalo a galopar!
 - Ataca! Vamos, ataca! - gritou Jermak que, n¦o se contendo,
ergueu a perna e aplicou um pontapé no ventre do seu animal
preferido. Liouba estremeceu, olhou para trás, mas n¦o se mexeu.
 - Vem, meu cavalinho! - disse Marina com ternura, pousando a m¦o
entre as orelhas da égua. Em seguida, afastou-se, a galope, do
círculo de espectadores. Liouba deu uma grande volta antes de
largar pela estepe, como se se tratasse de atingir Moscovo num
dia.
 "Perdi-a para sempre", pensou Mouchkov, assustado ao ver que
Marina desaparecera na noite. "Ivan Matveiévitch, grande parvo,
reconhece que era o que ela queria! Fugiu-te e, montada em
Liouba, n¦o corre o risco de ser alcançada! Está tudo perdido!
Levou-me à certa, aquele diabrete louro!"
 Mas, subitamente, recortaram-se na claridade do braseiro as
sombras do cavalo e do cavaleiro, lançados num galope infernal,
que se fechava em volta dos cossacos.

 Jermak esperava que Liouba se detivesse, escorrendo sangue. Mas,
após uma nova fase de galope, rasando, desta vez, o grupo de
cossacos, Marina estancou sob o olhar taciturno de Jermak.
 - Ele sabe, ou n¦o, andar a cavalo? - perguntou Mouchkov,
entusiasmado. - N¦o vos trouxe um bom prisioneiro? Jermak
Timofeiévitch, com a mesma idade, eu n¦o era capaz de me
equilibrar assim num cavalo!
 "Marina regressou!", rejubilava ele interiormente. "Graças a
Deus, ou ao Diabo! Vejo-a rir montada na égua do chefe, com o
nariz chamuscado de fuligem! Se eles soubessem que o rapazinho é
uma rapariga! ... Mas, Marina, porque voltaste?..."
 - Desmonta! - ordenou Jermak com rispidez. Pegou na pistola,
puxou o c¦o e preparou a pólvora. Ao mesmo tempo examinava Liouba
que, suportando o seu pequeno cavaleiro, dava mostras de grande
nervosismo. - Desmonta, é uma ordem!
 Entre a massa de cossacos, reinava um terrível silêncio. "N¦o
terá coragem de o fazer!", pensavam os homens. "N¦o, n¦o fará
aquilo que um cossaco só decide fazer em última instância! N¦o
abaterá o seu próprio cavalo!"
 Marina também adivinhara a decis¦o tomada por Jermak. Sempre a
cavalo, avançou para ele, de olhos postos nos seus:
 - Mata-me também a mim! - pediu ela em voz alta.
 - O meu cavalo traiu-me! - vociferou Jermak. - Aprende, em
primeiro lugar, que trair é morrer! - Apontou a pistola e lançou
um olhar à sua volta. Os cossacos fixavam-no em silêncio.
Mouchkov, muito perto dele, ergueu as m¦os.
 - Alguém ousa impedir-me? - gritou Jermak. - Este cavalo n¦o
vale nada!
 - N¦o é o único que n¦o vale nada - replicou Marina, muito
calma. - Outros como ele continuam vivos! Dispara, se isso te
alivia!
 Passaram-se alguns terríveis segundos de silêncio e expectativa.
Em seguida, Jermak assoprou a pólvora da caçoleta e largou o c¦o.
 - Desmonta, meu rapaz. Como te chamas?
 "Senhor! Como se chamará ela?", gritou dentro de si o coraç¦o de
Mouchkov, atravessado por uma indescritível angústia. "N¦o
pensámos em nenhum nome masculino!"
 - Boris Stepanovitch - respondeu Marina, impassível, deixando-se
escorregar para o ch¦o. - Posso acompanhá-los?
 - Pede um cavalo para ti - respondeu Jermak de cabeça baixa,
observando a égua Liouba. - É como todas as fêmeas - acrescentou
simplesmente -, perdem a cabeça quando s¦o montadas por um
adolescente. E, voltando-se para Marina: - Ivan Matveiévitch
ensinar-te-á a montar! Foi ele que te descobriu, pertences-lhe e
sou eu quem decidirá quando poderás ser considerado um cossaco!
 Voltou-se e desapareceu. Num segundo, Liouba hesitou, mas
depois, a trote, juntou-se-lhe e manteve-se a seu lado. Jermak
lançou-lhe um olhar furtivo, esboçou um esgar que lhe descontraiu
o rosto e, abraçando-a pelo pescoço, prosseguiu o seu caminho.
 - Pertences-me - repetiu Mouchkov a Marina, muito baixinho. -
Ouviste? És propriedade minha...
 - Ainda tenho três pontapés para te devolver, Ivan Matveiévitch
- respondeu ela no mesmo tom. - E agora dá-me um cavalo!
 - Amanh¦, quando partirmos.

 Ela encolheu os ombros dentro do fato disforme, aproximou-se de
uma das fogueiras e deitou-se na erva. Mouchkov deitou-se mesmo a
seu lado. Subitamente, com a rapidez de um raio, Marina
apoderou-se do punhal que o companheiro trazia à cinta e
encostou-o ao seu próprio peito.
 - A partir de agora, será o meu namorado! Dormirá sempre comigo!
- afirmou Marina num tom firme mas t¦o baixo que só Mouchkov
conseguiu ouvir. - É um amante ciumento, Ivan Matveiévitch!
 Mouchkov suspirou e afastou-se. Obter um novo punhal n¦o
constituía um problema, quarenta animais de carga seguiam os
cossacos, transportando armas e víveres. Nada lhes faltava. Mas o
facto de Marina pretender defender-se, e dominá-lo incrivelmente,
atormentava-o e n¦o lhe dava um momento de descanso. Conhecera-a
há algumas horas apenas e, desde ent¦o, em que se tornara ele?
Esta aldeia, Novo Oportchkov, fora certamente construída pelo
Diabo!
 Entretanto, ao ouvir a respiraç¦o ritmada de Marina, nada mais
sentiu sen¦o a alegria de se encontrar perto dela.

 Alexandre Grigoriévitch Loupin reconheceu imediatamente a filha
quando, disfarçada dentro de uma farpela masculina, a viu sair da
aldeia fumarenta, arrastada por um cossaco. Qual o pai que n¦o
reconhece a filha, mesmo mascarada?
 "Está viva", pensou ele, "mas as preocupaçSes continuam. V¦o
enforcá-la e terei de assistir ao seu suplício sem o poder
impedir. Mas ela saberá morrer! Deus te abençoe, minha filha. Que
o céu se abra aos teus pés..."
 E Loupin continuou estendido na erva, invisível na escurid¦o, de
olhar fixo no exército dos cossacos, sempre na expectativa de ver
Marina enforcada numa das cerejeiras. E foi assim, deitado no
ch¦o de barriga para baixo, que Loupin viu, com extrema surpresa,
que a filha partiu a galope num cavalo cossaco, regressando quase
de imediato para discutir com o chefe do bando. "Enlouqueceu!",
pensou Loupin. "Deus misericordioso, o incêndio da aldeia
secou-lhe o cérebro! Na posse de um cavalo, dádiva inesperada,
foge a galope e regressa para junto dos cossacos! Pobre pai,
pobre de mim!" Loupin continuou estendido na erva, na
impossibilidade de se aproximar da filha. Em seguida, viu-a
deitada junto de uma fogueira, entre os cossacos, enquanto ele
próprio se atormentava pela calada da noite.
 Só de madrugada, enquanto todos os homens dormiam, Loupin se
aventurou, descrevendo um semicírculo, até às ruínas de Novo
Orpotchkov, tendo conseguido penetrar na igreja.
 "Um pope ressonava junto da iconostase, vestindo calças e botas
cossacas, cheirando terrivelmente a aguardente neste recinto
sagrado. Quanto ao pope da aldeia, encontrava-se sentado,
alquebrado, nos degraus do altar, olhando fixamente em frente.
Quando viu que Loupin transpusera o limiar da porta, rastejando,
ergueu a m¦o direita e abençoou-o.
 - Padre, n¦o sei que partido tomar! - murmurou Loupin, olhando
de relance, apavorado, para o pope cossaco.
 - Nem eu! - replicou o pope da aldeia. - O firmamento agita-se.
A harmonia dos céus foi destruída.
 Esboçou um gesto, apontando para o colega que ressonava e meneou
a cabeça, em silêncio.

 - O céu está longe - observou Loupin -, mas a minha filha Marina
está muito perto: parece-me que os cossacos pretendem levá-la.
 - Deus a proteja! - respondeu simplesmente o pope.
 - Melhor seria se eu me encarregasse disso! - replicou Loupin.-
Assim, seguirei os cossacos, também a cavalo, e sabe Deus onde,
quando e como, acabarei por recuperar Marina: surgirá certamente
alguma ocasi¦o propícia! N¦o sei de quanto tempo necessitarei
para conseguir! Neste caso, Novo Orpotchkov será reconstruído sem
mim!
 - Vai, Alexandre Grigoriévitch, prometo-te que me "encarregarei
dessa tarefa - afirmou o pope solenemente. - Ent¦o, padre,
abençoa-me...- Loupin ajoelhou-se e, enquanto o pope cossaco
ressonava como um porco, peidando-se ruidosamente de vez em
quando, o pope da aldeia proferia a oraç¦o das grandes despedidas
e traçava três sinais da cruz sobre a cabeça inclinada do seu
paroquiano.
 Pela madrugada enevoada, os cossacos meteram-se a caminho.
Totalizavam, agora, quinhentos e quarenta e um cavaleiros.
 Os camponeses, as mulheres, as crianças, os velhos e os doentes
assistiram à partida, das margens do Volga, donde n¦o tinham
chegado a sair. Nenhum cossaco se abeirava do local, embora
distasse da aldeia apenas umas centenas de passos. Os habitantes
de Novo Orpotchkov, de m¦os postas, deram graças ao Senhor por
tudo se ter passado t¦o misericordiosamente.
 Quando os cossacos desapareceram entre uma nuvem de pó surgiu da
sombra da igreja, único edifício de pé, um cavaleiro solitário
que se lançou em sua perseguiç¦o. O pope, imóvel à entrada do
pórtico, ergueu a m¦o, mas uma m¦o vazia, pois a cruz que deveria
empunhar fora-lhe confiscada pelo colega.
 "A minha filha é tudo o que me resta no mundo", pensava Loupin,
de olhos postos na nuvem de pó que se elevava no horizonte. "A
minha mulher Larissa morreu de febres há dois anos, a minha casa
e a minha aldeia arderam... O mundo, para mim, reduz-se a Marina.
Seguí-la-ei até aos confins da terra..."
 Era bom de dizer, mas a cavalgada afigurava-se difícil! Os
cossacos avançavam a uma velocidade que Alexandre Grigoriévitch
tinha dificuldade em atingir.
 E a infeliz cavalgadura que o pope conseguira descobrir para lhe
dar apresentava sinais alarmantes de velhice. Todos os cavalos
válidos da aldeia tinham fugido do incêndio, dispersando-se pela
estepe como um bando de animais selvagens. Os aldeSes
necessitariam certamente de vários dias para reunir de novo
cavalos, éguas e potros.
 O garrano que Loupin montava n¦o seguira o bando de fugitivos,
com certeza por ter compreendido que n¦o resistiria a t¦o louca
corrida através da estepe. Assim, escondera-se atrás da igreja e
foi aí que o pope - à procura de um cavalo para Loupin - o
descobriu.
 - Andava em busca da protecç¦o dos locais sagrados - explicou o
pope, colocando a m¦o entre as orelhas do cavalo, embora o pobre
animal ignorasse o santo baptismo. - Deus é Todo-Poderoso.


 Mas Loupin n¦o beneficiou em nada das piedosas disposiçSes da
cavalgadura. Por diversas vezes, o bando de cossacos fugiu ao seu
olhar, mas n¦o havia dúvidas quanto ao itinerário escolhido, pois
as marcas dos cascos, ou os gemidos que os aldeSes soltavam à sua
passagem, guiavam Loupin t¦o seguramente quanto o teriam feito
postes indicativos.
 - Porque se queixam e gritam? - perguntava Loupin sempre que as
mulheres choravam, enquanto os homens erguiam os punhos sujos de
vencidos. - Foram apenas roubados ou sovados. Na nossa terra,
incendiaram a aldeia e raptaram a minha filha Marina! Irm¦os,
preciso de um cavalo descansado! Olhem para este! Vacila a cada
passo e, se o pico, começa a tremer! Como poderei perseguir os
cossacos nestas condiçSes? Dêem-me um cavalo, irm¦os!
 Assim, no segundo dia, Loupin conseguiu obter um novo cavalo. É
verdade que n¦o era bonito, mas a sua estatura, o seu pescoço
forte sugeriam vigor e resistência. Loupin desfizera-se de alguns
rublos para o adquirir.
 O que é certo é que, a partir daí, as coisas se compuseram.
Loupin ganhou terreno e encontrou-se novamente a uma distância
razoável da terrível nuvem de pó que pesava sobre a paisagem como
uma maldiç¦o divina; por vezes, encontrava-se com alguns soldados
que os cossacos de Jermak deixavam para trás percorrendo os
campos, roubando o que lhes pudesse ser útil, ou seja, tudo, pois
n¦o há nada que um cossaco n¦o possa utilizar!
 Ao anoitecer do quarto dia, Loupin ousou aproximar-se tanto
daqueles que perseguia que viu claramente as suas fogueiras.
Deixou o cavalo num bosque, preso a uma bétula, esperou pela
noite escura e acercou-se, ent¦o, do bivaque.
 Os cossacos entregavam-se ao seu habitual comportamento durante
as expediçSes de pilhagens. Homens e cavalos dormiam lado a lado,
cada cavaleiro encostado à sua montada. Todos igualmente
preparados para o combate.
 Há três semanas que tinham deixado Blagodornié e todas as
guarniçSes do czar tinham sido alertadas para a sua passagem. Por
toda a parte os camponeses reuniam-se, queixosos, apontando ao
comandante as mulheres violadas. O general comandante da regi¦o
de Saratov dispôs-se a enviar de imediato uma expediç¦o punitiva
contra os cossacos, mas soube pelos rumores que corriam que
Jermak e o seu bando selvagem caminhava ao encontro dos
Stroganov, a fim de se colocarem ao seu serviço.
 - Deixemos andar... sejamos prudentes - disse, ent¦o, aos
oficiais. - Este povo n¦o passa de um inculto monte de merda, mas
nós sabemos quem s¦o os Stroganov! Os Stroganov podem estar a
agir secretamente por vontade do czar, é preferível tapar os
olhos e os ouvidos...
 Quem poderá conhecer o verdadeiro móbil do empreendimento? O
próprio Jermak nem sequer sabia quem era Stroganov. Para ele, a
cavalgada em direcç¦o ao Norte n¦o passava de mais uma expediç¦o
no decurso da qual se defrontariam, mais tarde ou mais cedo, com
as tropas do czar. Jermak conhecia os riscos, cadáveres
atravessados nas selas, o que era considerado uma honra, ou
enforcados, o que constituía um dos "ossos do ofício", como se
costuma dizer. De qualquer modo, eram vidas perdidas.
 Jermak aplicava as leis da guerra e os cossacos comportavam-se
como em todas as incursSes: homem e cavalo bem unidos, sentinelas
alerta no centro de cada círculo, postos avançados, patrulhas a
cavalo nos arredores! Jermak nunca fora assaltado de surpresa.

 Foi o que Loupin pôde verificar. Por vezes, era obrigado a
transformar-se num verme rastejante. Os cossacos percorriam toda
a regi¦o e, por diversas vezes, um deles passou t¦o perto do
local em que se encontrava que quase apanhou um coice do cavalo.
 "Marina ainda deve estar viva", pensava Loupin. N¦o fora
abandonada em nenhuma das aldeias por onde passara e também n¦o a
encontrara estendida à beira do caminho. "Portanto, ainda se
encontra com os cossacos, vestida de homem! Ideia simultaneamente
boa e perigosa... Que fará ela se os cossacos tiverem de
atravessar um curso de água a nado, obrigados a despirem-se?
 E porque n¦o fugirá? Poderia ter ficado numa das aldeias por que
passaram: só se teriam apercebido da sua ausência à hora do
recolher!
 Quantos enigmas! Loupin continuava deitado no ch¦o.
 Abrigado por uma ligeira prega do terreno, pôs-se a observar a
fogueira do acampamento. Em v¦o: n¦o conseguiu distinguir Marina
entre o emaranhado de cavaleiros e cavalos. "E, contudo,
encontro-me bem perto dela", pensava para consigo, muito feliz,
"mesmo num mundo de cossacos, recuperá-la-ei!"

Capítulo 4

 N¦o surpreende que Ivan Matveiévitch tenha amaldiçoado cem vezes
o dia em que encontrou Marina. A situaç¦o entre os dois n¦o
mudara, o que só por si deveria constituir motivo de regozijo.
 Mas a verdade é que o coraç¦o de Mouchkov parecia cada vez mais
pesado só de ver Marina. E ele era obrigado a observá-la
constantemente, pois devia cavalgar sempre a seu lado. Jermak
dera-lha, era o seu espólio de guerra. Mas pela primeira vez,
tratava-se de um espólio que n¦o podia utilizar.
 Só Mouchkov descobria os contornos dos seus belos seios quando o
vento colava a camisa disforme ao seu jovem peito; só ele
conhecia o verdadeiro aspecto do seu cabelo louro, quando o
galope do cavalo lhe empurrava para a testa as madeixas curtas e
sedosas. Só ele conhecia as esbeltas pernas, cuja elegância
ninguém poderia suspeitar ao ver as pesadas botas que usava.
Quando Mouchkov pensava em tudo aquilo que ainda lhe era
inacessível, suspirava profundamente e fixava um ponto longínquo,
com um ar irritado.
 à noite, pousava o punhal atravessado sobre o peito até que
Mouchkov dissesse:
 - Que queres mais? Sei como comportar-me!
 - às vezes, esquecemo-nos daquilo que sabemos, Ivan
Matveiévitch!
 - Prometo, por tudo o que há de mais sagrado...
- O que significa sagrado para um cossaco? - perguntou ela.
- O vosso pope reza, e pilha as igrejas ao mesmo tempo. Durmo
melhor com este punhal, irm¦o.
 Mouchkov voltava a suspirar e permanecia acordado durante muito
tempo, ao lado de Marina, debaixo de um cobertor que fedia a suor
de cavalo. Lutava contra o seu coraç¦o, que Marina ocupava t¦o
solidamente como um cossaco ocupava a sela.
 E combatia igualmente o seu orgulho cossaco que, seja como for -
Deus seja louvado! -, se vira lesado pelo comportamento de
Marina. Nesses momentos, Mouchkov amaldiçoava Novo Orpotchkov, a
aldeia do Volga que ele abordara como homem livre e cujas ruínas
fumarentas abandonara transformado em fantoche, devido aos
encantos de uma jovem. Deplorável aventura e, além do mais, mesmo
nas barbas de Jermak, que n¦o desconfiava de nada!
 Jermak chegava mesmo a reconhecer grandes méritos no campónio
Boris Stepanovitch:
 - Ivan Matveiévitch - dizia ele ao deprimido Mouchkov -, este
rapaz monta como um diabo! E ainda por cima é resistente:
 - Resistente, lá isso é verdade! - respondia Mouchkov, pensando
em outra coisa.
 - É inteligente! - exclamava Jermak.
 - Corajoso e ousado!
 - É obediente!
 "É isso", pensava Mouchkov, com um aceno de cabeça. Na verdade,
um punhal colocado, todas as noites, entre um homem e uma mulher
n¦o é propriamente uma prova de obediência...
 - Quando estivermos na terra dos Stroganov, se ele continuar
como até agora - prosseguiu Jermak -, e se tivermos de organizar
um exército para conquistar essa tal Mangaseja, poderíamos
nomeá-lo chefe-adjunto. Que te parece, Ivan Matveiévitch?
 - Devemos esperar que se desenvolva um pouco mais, Jermak -
respondeu Mouchkov, prudente. - Já se tem visto uma montanha
parir um rato!
 - Por vezes, este Boris Stepanovitch tem trejeitos femininos...
- observou Jermak pensativo.
 Mouchkov julgou que o seu coraç¦o ia parar de bater.
Subitamente, sentira-se petrificado de medo.
 - Trejeitos femininos... ele? Ah! Ah! - riu-se Mouchkov,
exagerando.
 - Eu disse "por vezes"! - justificou-se Jermak, meneando a
cabeça. - Quando galopa... rapazelho que ainda n¦o acabou de
CRESCER, AINDA SE LHE ADIVINHA A HARMONIA DO PEITO MATERNO... MAS
DENTRO DE UM OU DOIS ANOS SERÁ UM HOMEM CAPAZ DE DESEMPENHAR AS
ACTIVIDADES QUE LHE DESTINARMOS...
 - COM A AJUDA DO DIABO, TUDO PODE ACONTECER! - RETORQUIU
MOUCHKOV QUE, NESSE DIA, ESTAVA MUITO FILÓSOFO. - DEIXEMOS
ANDAR...
 DENTRO DE DOIS ANOS MARINA TERIA DEZASSEIS ANOS! E O QUE S¦O
DOIS ANOS PARA UM RUSSO? QUANDO SE DISPSE DE TEMPO, PODE-SE
GASTÁ-LO GENEROSAMENTE, COMO OS BOIARDOS FAZEM COM AS SUAS
fortunas. Deste ponto de vista, cada cossaco é um homem rico!
 Felizmente, estas conversas com Jermak eram pouco frequentes.
Davam conta dos nervos de Mouchkov, sempre inquieto perante a
ideia de que poderiam descobrir qual o verdadeiro sexo de Marina.
 - N¦o há nada a fazer - disse ele a Marina no nono dia de
cavalgada comum, em direcç¦o ao Norte. - De vez em quando, terei
de te zurzir diante dos meus camaradas, sem esquecer uns pontapés
bem aplicados. Faz parte da tua formaç¦o!
 - N¦o hesites, Ivan - respondeu Marina tranquilamente. - Se é
uma quest¦o de segurança...
 - Mas n¦o posso! - gemeu Mouchkov. - Se te bato, despedaço-te o
crânio! ...
 - E n¦o consegues ser um pouco mais meigo?
 - Nunca experimentei. Mas, em todo o caso, um pontapé meu
provocar-te-á sempre nódoas negras.

 Mouchkov afastou-se devagar, resmungando. "Como ela pronuncia o
meu nome! Dir-se-ia uma carícia e uma bofetada ao mesmo tempo...
e o olhar, sinto-me perdido...
Como poderei suportar esta situaç¦o durante dois anos?"
 Mouchkov dirigiu-se ao pope e travou-se de razSes com ele, o que
lhe permitiu proferir tantas injúrias que se sentiu aliviado da
angústia.- Obrigado! - resmungou por fim.- Era disso que eu
precisava...
 O pope dos cossacos, - Oleg Vassiliévitch Koulakov, - agarrou
energicamente Mouchkov pelo braço e bateu com o indicador na
testa:
 - O que é que se passa, Ivan Matveiévitch? - perguntou.
 - N¦o é nada! - respondeu Mouchkov entredentes. - É uma coisa cá
dentro de mim... mas tu, pope, tu n¦o podes compreender...

 As fogueiras crepitavam, um doce calor pairava sobre a noite de
Junho, ainda fria. - os cavalos espelham o ar pelas narinas
dilatadas, escoicinhando no ch¦o. - os cossacos, com excepç¦o de
alguns jogadores apaixonados, debruçados sobre um tabuleiro de
damas, ressonavam enrolados nos cobertores.
 - Porque n¦o foges? - perguntou subitamente Mouchkov a Marina.
 Há dias que este pensamento o perseguia. N¦o faltavam
"ocasiSes". Ainda ontem, por exemplo, enquanto atravessavam a
passo a pequena cidade de Ougounovsk, onde uns tantos idiotas
dispararam sobre eles, - o que os obrigou a carregar a galope
através das ruas, porque, dessa vez, n¦o tiveram tempo para
incendiar o pequeno burgo até às caves! Nesse momento, ela
poderia ter fugido, pois, quando os tiros se fizeram ouvir e a
m¦o de Jermak se ergueu para ordenar o ataque, ninguém teria
prestado atenç¦o a esse rapazote do Boris Stepanovitch.
 Mas n¦o! O seu grande cavalo mazela continuava de focinho colado
à cauda do cavalo de Mouchkov, e este chegou mesmo a pensar que
Marina lançara o grito de guerra dos cossacos, cujo significado
cruel coagula o sangue.
 - Prometi a mim mesma desempenhar uma determinada tarefa -
respondeu Marina, tapando a cabeça com o cobertor.
 - Uma tarefa? Que tarefa?
 - Transformar um certo Ivan Matveiévitch num homem respeitável.
 - Que queres tu? - perguntou ele, pasmado. - Queres matar-me,
Marina? - Mouchkov rangia os dentes de forma horrível. Que diabo,
como poderia um homem suportar uma coisa destas?
 - No fundo, és um bom rapaz, Mouchkov.
 - Quando o diabo abana a cauda, parece pacífico!
 - N¦o espero concessSes da tua parte, Mouchkov - retomou Marina,
espreguiçando-se no aconchego do cobertor, enquanto Mouchkov
imaginava os seus pequenos seios distendidos. - Tu és feito de
duas metades muito diferentes que n¦o se ajustam muito bem uma à
outra.
 - O que é que n¦o se ajusta? - perguntou Mouchkov numa voz
roufenha.
 - N¦o podes compreender...
 - Mas tu, tu sabes do que se trata, hem?
 - Sei!
 Mouchkov encarou-a e distinguiu, debaixo do cobertor, a forma do
punhal pousado no peito, pronto a servir. Afastou-se com
brusquid¦o.

 "Terei de correr com ela!", pensou ele, taciturno. "Ou ent¦o,
desanco-a violentamente segundo os velhos princípios: baixa os
olhos, fêmea! Bem, limitar-me-ei a zurzi-la até que lhe apeteça
fugir!"
 Fácil de imaginar, embora soubesse que nunca se decidiria a
passar aos actos.
 De noite, como n¦o conseguia adormecer, Mouchkov dirigiu-se mais
uma vez ao pope. O sacerdote bebera novamente e estava a polir os
diversos objectos de culto, "oferecidos" pelos colegas
encontrados pelo caminho. No dia seguinte era domingo... e
celebraria missa ao ar livre, antes que o grupo prosseguisse a
caminhada.
 - Vai-te embora, Ivan Matveiévitch! - sugeriu o pope, brandindo
uma cruz pascal. - Conheço bem os teus grosseiros palavrSes! Mas
ainda sou capaz de te ensinar alguns!
 - Venho apenas pedir um conselho, padre...
 Mouchkov demonstrara uma atitude t¦o humilde que o pope encolheu
os ombros, resignado a ouvi-lo.
 - Estou a ouvir-te.
 - Padre, é verdade que sou feito de duas metades diferentes que
n¦o se ajustam bem?
 O pope cossaco olhou primeiro para o seu paroquiano muito
surpreendido, mas depois lembrou-se de que Ivan Matveiévitch
mudara muito depois de partirem de Blagodornié, a ponto de
parecer desarranjado da cabeça.
 - O que interessa é que a cola seja boa! - respondeu o pope num
tom paternal.
 - Ent¦o o que é que n¦o se ajusta?
 - Como n¦o és uma cadeira, da qual poderíamos cair, tudo se
resolverá!
 - Eu n¦o sou uma cadeira, padre.
 - Ent¦o, que Deus te abençoe!
 O pope aplicou uma canelada numa das tíbias do interlocutor e
Ivan Matveiévitch regressou ao acampamento meio consolado.
 Marina dormia a sono solto. Mouchkov debruçou-se com muito
cuidado sobre ela e contemplou-a com ternura. Tinha os lábios
entreabertos e respirava suavemente, deixando ver os dentes
limpos e brilhantes.
 "Como é bonita e frágil!" pensou ele. "Meu Deus, amanh¦ terei de
a açoitar para poder pensar em outra coisa!"

 Perto de Tchiélny, onde o rio Kama descreve uma grande curva,
Loupin conseguiu finalmente ver a filha e, sobretudo, falar-lhe.
 Foi a 14 de Junho de 1579 e, se Loupin possuísse um calendário,
teria decerto sublinhado esta data a vermelho - nem que fosse com
o próprio sangue. Assim, limitou-se a chorar de alegria, o que,
dado o louco empreendimento em que se empenhara, era um
verdadeiro prodígio.
 Os cossacos encontravam-se acampados nas margens do Kama. Jermak
e os colaboradores discutiam há horas, no intuito de prever o
futuro. Pela primeira vez, podiam formar uma ideia exacta da
importância dos Stroganov. O que os três emissários tinham
contado era demasiado fantástico para ser verdade. Mas, agora, os
cossacos escutavam os camponeses que conheciam bem os Stroganov.
Quem, nas margens do Kama, e mais longe, no país de Perm,
ignorava os Stroganov?

 O czar está longe, mas um Stroganov está em toda a parte. Era
uma verificaç¦o com a qual convinha saber viver, e bem. Os
Udmurtes e os Bachkirios que colonizavam estas regiSes começaram
por pegar em armas quando o czar ofereceu estes territórios ao
avô Anika Stroganov. Foi um presente fácil de oferecer, pois a
regi¦o n¦o pertencia a Ivan IV. Apenas passou a pertencer-lhe
quando Anika Stroganov surgiu nas margens do Kama, para contar a
todos os habitantes que o grande czar branco, da longínqua cidade
de Moscovo, o encarregara de os proteger a todos. E foi ent¦o que
Anika começou a explorar o país, as florestas. Estabeleceu
tratados com os habitantes, que n¦o sabiam ler nem escrever.
Estava estipulado nestes contratos que o país de Perm, e tudo o
que se encontrava tanto na margem esquerda como na margem direita
do Kama, pertenceria de futuro a Moscovo, e que Stroganov aí
exerceria todos os seus direitos. De início sonhou-se um pouco,
depois pegou-se em armas. Mas Anika n¦o era homem para conquistar
um país à paulada. Preferiu reunir os chefes das tribos e
mostrar-lhes o novo e magnífico palácio construído segundo a
tradiç¦o de Moscovo. Impressionados pelo esplendor e pelas
palavras de Stroganov. "Um dia também h¦o-de viver assim!",
aceitaram toda a espécie de presentes, confiando aos seus homens:
 - Este Stroganov é um mago que nos enriquecerá a todos!
 E foi, de resto, o que aconteceu. O país beneficiava da
actividade dos cérebros Stroganov. Os pequenos senhores
construíram pequenos Kremlins nos quais se pudessem refugiar, em
caso de ataque por parte dos bandidos ou de outras tribos.
Dispunham de uma força defensiva reduzida mas bem armada, que
apenas tinha o defeito de chegar demasiado tarde, mas pagavam
generosamente as peles, a caça e o peixe que pretendiam.
Instituírem feitorias e elaborarem um plano de compras estável
para os negociantes. Podia-se confiar nos comissionados dos
Stroganov. Anika chamava-lhes verdadeiros profissionais, que
chegavam sempre nas datas previstas. E todos sabiam o que isso
significava nessa imensa Rússia, privada de estradas, onde as
armadilhas tecidas pela natureza eram constantes.
 Assim, ainda hoje, com Sime¦o Stroganov e os dois sobrinhos
Nikita e Máximo, toda a gente vivia contente. Deus abençoe ainda
por muito tempo os benfeitores Stroganov.
 - Dir-se-ia um conto de fadas - comentava Jermak para os seus
ajudantes de campo, quando todas as informaçSes lhe foram
fornecidas. Os relatos dos três mensageiros eram verdadeiramente
incaracterísticos. Os factos ultrapassavam tudo o que se contava
sobre a Rússia, a qual era t¦o rica em prodígios como em
terrores. Irm¦os, vamos penetrar num país onde correm o leite e o
mel! Leite de zibelinas, mel de ouro puro!
 - Aleluia, louvemos o Senhor! - exclamou piedosamente o pope.
 Jermak olhou para ele, preocupado:
 - N¦o! Trata-se de uma situaç¦o nova, irm¦os!
 Acabaram-se os ataques de surpresa, as pilhagens, as mulheres
violadas! Fomos chamados a este país para o defender, em nome do
czar, das hordas de homens de raça amarela vindos do Leste.
Cabe-nos cumprir uma miss¦o sagrada! Conduzam-se, n¦o como
demónios, mas como homens dotados de sabedoria!
 - Seria terrível, Jermak, se nos comportássemos como homens
sensatos! - respondeu o pope, compenetrado. - Na verdade,
comparado com um cossaco, o Diabo n¦o passa de um menino educado
num mosteiro!

 - Ent¦o, comportem-se como eleitos do céu, o que somos, de
resto. A partir de agora, as nossas vitórias ser¦o para o czar!
 - Por quanto tempo? - perguntou um dos auditores.
 Jermak coçou a cabeça.
 - Os camponeses dizem que, dentro de dez dias, estaremos em
Oriol, junto dos Stroganov.
 - N¦o tocar¦o em nada! É uma ordem!
 Os tenentes cossacos estavam mudos, consternados. Jermak ordena,
eles compreendem. Mas vai ser preciso explicar tudo aos outros. E
que se passa quando um cossaco desobedece? Sobre isso nem é bom
falar! Há puniçSes que deixam marcas para sempre!
 - E mais tarde? - perguntou outro.
 - Depois se vê. Discutirei com os Stroganov o que poderemos
fazer ou n¦o. Mas prometo que nunca far¦o de nós c¦es raivosos! -
Jermak aprumou-se, de olhos cintilantes. Já era uma
personalidade, reconheçamo-lo.
- Seremos os cossacos mais famosos da Rússia! - concluiu,
arrebatado pelos seus próprios pensamentos. - Nunca mais um czar
poderá afirmar que os cossacos s¦o bandidos e assassinos!
 Foi um momento histórico. Um sonho que iria tornar-se
realidade...

 Enquanto os chefes dos cossacos se reuniam e recebiam ordens de
Jermak, enquanto os outros instalavam o acampamento, três grupos
de dez homens iam buscar água ao rio em odres de couro. Outros
destacamentos conduziam os cavalos para um local do rio em que
estes pudessem beber e entre os soldados que executavam esta
tarefa encontrava-se Marina.
 Loupin, desta vez, deparou com menos dificuldades para realizar
os seus intentos. Graças a uma ordem de Jermak, os camponeses n¦o
eram obrigados a submeter-se aos maus tratos do bando, como
acontecia outrora.
 Já n¦o se roubava descaradamente e só as mulheres muito bonitas
eram molestadas na erva, o que Loupin considerava razoável, já
que se aproximavam dos domínios dos Stroganov, esse estado dentro
do estado do czar.
 Loupin n¦o era parvo e dizia para consigo que se o próprio
Jermak se emendasse, n¦o viria longe o dia em que reencontraria a
filha.
 Misturou-se com a multid¦o de colonos udmurtes, enterrou o boné
até aos olhos e pôs-se a observar os soldados que conduziam os
cavalos ao bebedouro. Imagem de respeito: seiscentos cavalos
selados, carregados de sacos bem repletos de riquezas, cavalos
para os quais nada era demasiado longe, que devoravam o colmo
apodrecido dos telhados das casas dos aldeSes como se fosse erva
luxuriante da Primavera. Cavalos que nunca se cansavam, ignoravam
a doença e rivalizavam em coragem com os cavaleiros.
 Loupin avistou Marina no meio de uma fila de cossacos que se
dirigiam para o rio. Montando um cavalo de pêlo mesclado, já n¦o
envergava um fato demasiado grande nem calçava botas gigantescas.
Vestia um verdadeiro uniforme cossaco, um pouco largo no peito,
cinto alto de couro, boné vermelho-vivo sobre o cabelo louro e
curto. Como todo o cossaco que se preza, trazia um punhal curvo à
cintura e, quando brandia o chicote, gritava "Ho+! Ho+! Ho+!",
n¦o se distinguindo em nada dos outros soldados.

 - Um bom disfarce - pensou Loupin, satisfeito e mesmo orgulhoso.
- Ela sobreviveu a tudo! É uma rapariga atilada! Mas em breve
terminará esta brincadeira e voltaremos a cavalo para um Novo
Orpotchkov reconstruído!
 Permaneceu entre a multid¦o de indígenas até atingir os cavalos,
e esforçou-se por n¦o cuspir de repulsa em contacto com os
cossacos. Depois aguardou, um pouco à distância, que os cavalos
matassem a sede nas profundas águas das margens do Kama. Marina
encontrava-se entre os relinchos, os coices, os roncos dos
cavalos que soltavam tais bufados que dificilmente se ouviria um
tiro de canh¦o. Na verdade, seiscentos cavalos à solta fazem um
barulho dos diabos!
 Mesmo assim, Loupin tentou lançar o assobio agudo que toda a
gente conhecia, em Novo Orpotchkov, e ninguém deixaria de ouvir.
Introduziu, pois, dois dedos na boca, e o assobio partiu! Muitos
dos seus vizinhos insistiam em treinar o mesmo assobio, mas o
efeito obtido era sempre um lamentável guincho. Só o pope
conseguiu um dia acertar com a nota, quando exercitava em segredo
atrás da iconostase. O assobio foi t¦o penetrante que uma velha
que se encontrava a orar, diante da imagem de S¦o José, caiu sem
sentidos, julgando que o santo assobiara. A partir daí, o pope
interrompeu os treinos.
 Loupin assobiou, pois, e por milagre, ou porque a direcç¦o do
vento era favorável, ou ainda porque duas almas que se procuram
têm mais possibilidades de se encontrar, o facto é que Marina se
voltou e viu um homem imóvel na margem do rio.
 Loupin esboçou um gesto e tirou o boné, pondo a descoberto o
cabelo grisalho e muito curto.
 Apercebeu-se de que Marina foi percorrida por um arrepio,
levando a m¦o ao coraç¦o. Em seguida, voltou-se por diversas
vezes, a fim de n¦o ser notada, e começou a avançar com o cavalo,
lentamente, aproximando-se do pai através da massa formada pelos
cavalos.
 Loupin arquejava ruidosamente. "Meu Deus ", implorava ele, "n¦o
permitais que o meu coraç¦o deixe de bater perante t¦o grande
alegria! Concede-me mais esta hora em que encontrarei a minha
filhinha!" Mas sentia-se como que paralisado e via o rosto
infantil de Marina, que entretanto adquirira uma express¦o de
mulher, através de uma névoa. "Cavalguei tanto, durante tanto
tempo", rezava Loupin, "para agora morrer... pois sinto-me
desfalecer como um boi que recebeu o golpe de misericórdia.
Marina..."
 - Paizinho - disse ela quando se encontrou à sua frente. Mas n¦o
pôde abraçá-lo nem beijá-lo... Teria sido indigno de um cossaco!
 - Minha querida - balbuciou Loupin. Proferidas estas palavras, a
névoa dissipou-se e ele viu claramente Marina mesmo à sua
frente.- Minha filhinha! Como estás bonita, mesmo com esse
uniforme!
 - Meu Deus, papá, como chegaste até aqui?
 - Tenho vindo sempre a segui-los - murmurou Loupin. -Estive
sempre perto de ti, Marinouchka. Nunca estiveste sozinha, pois o
teu pai esteve sempre contigo!
 Loupin n¦o se mexia e, de longe, quem observasse o colóquio
pensaria que o jovem soldado interrogava severamente um velho,
suspeito de hostilidade. Mouchkov ainda se encontrava junto de
Jermak; quanto aos outros homens, - os cavalos prendiam-lhes toda
a atenç¦o.

 - Toda esta caminhada! Oh, paizinho! - os olhos de Marina
encheram-se de lágrimas. Inclinou a cabeça e mordeu o lábio
inferior.- Disseram-me que tinhas morrido!
 - Quem te disse?
 - Os cossacos. Perguntei o que acontecera ao chefe da aldeia e
eles gritaram, rindo: "Ah, esse? Assámo-lo dentro de casa!" N¦o
pude deixar de acreditar. A nossa aldeia ardeu e convenci-me de
que pereceras nas chamas.
 Também eu teria morrido queimada se ele n¦o tivesse tido a ideia
de me vestir de homem!
 - Ele, quem?
 - Ivan Matveiévitch Mouchkov.
 - Um cossaco?
 - O amigo e braço direito de Jermak.
 - Foi um desses sugadores de sangue quem te salvou?
 - Loupin passou as m¦os pelo cabelo.- Que te fez ele, minha
pobre filha? Deus do céu, que sofreste tu?
 - N¦o me fez absolutamente nada, salvou-me a vida.
 - Sem...- articulou Loupin, angustiado.
. - Sim, pai, sem.
 - Devem ter-lho cortado por ocasi¦o de alguma expediç¦o
punitiva.
 - N¦o sei, paizinho, mas n¦o me parece...
 - Seja como for... - Loupin voltou-se, ninguém os observava. -
Se nos deitássemos na erva, num ápice, e nos deixássemos rebolar
até ao fundo da encosta, até àquelas moitas, ninguém nos veria...
Esperaríamos pelo cair da noite. - Ergueu o olhar acima do Kama;
o dia declinava no reflexo rosado do poente; os campos
tornavam-se pouco nítidos e sem contrastes, cobertos por uma
claridade semelhante à que devia ter existido no primeiro dia da
criaç¦o, quando Deus experimentou a luz solar. - Agora já n¦o
falta muito!
 - O quê, papá?
 - A nossa fuga! Galoparemos durante toda a noite. Jermak é
obrigado a prosseguir o seu caminho, n¦o enviará ninguém atrás de
nós. A nossa fuga pode desde já considerar-se bem sucedida!
 Marina, procurando evitar o olhar do pai, observava o
ajuntamento formado pelos cavalos e, mais adiante, as fogueiras
que se acendiam no acampamento. Como era difícil dizer ao pai que
gastara em v¦o forças e dores! Como era penoso explicar-lhe que
há outro mundo para além do Novo Orpotchkov e que a vida pode ser
dominada pelo desejo do desconhecido!
 - Pai, n¦o somos plantas enraizadas na terra, somos jovens e o
mundo é muito vasto. Além disso, há Ivan Matveiévitch... N¦o o
conheces, mas salvou-me a vida e devia ser um filho para ti...
N¦o quero fugir, papá - disse ela baixinho. - E agora preciso de
ir dar de beber aos cavalos.
 Loupin ergueu a cabeça como se tivesse compreendido mal.
 - N¦o queres... - repetiu ele, num tom meigo.
 - N¦o, papá.
 - Ent¦o, estás com eles de livre vontade...
 Era de tal modo inacreditável que Loupin mal conseguia respirar.
 - Sim, papá.
 - E n¦o queres voltar para a nossa aldeia?
 - Por agora, n¦o. Mais tarde, certamente que sim.
 - Marinouchka...

 A express¦o de Loupin crispou-se. Escorriam-lhe lágrimas pelas
faces; n¦o sabia que fazer nem que dizer.
 Desesperado, arrancava os cabelos com as duas m¦os:
 "Fica com os cossacos! A minha querida filha! O único bem da
minha vida!"
 - Que será de mim? - perguntou por fim.
 - Voltaremos a ver-nos, papá.
 - É tudo? Tudo o que me resta de ti? Esperar! Esperar que a
minha filha regresse verdadeiramente... será isso viver?
 - E vegetar em Novo Orpotchkov é viver?
 - É.
 - Eu penso que n¦o, papá. - Marina encostara-se ao cavalo
cossaco que, permanecia imóvel habituado como estava, como um
monumento. Só as orelhas mexiam, enquanto a respiraç¦o lhe
dilatava as narinas.
 - Que faria eu na aldeia? Jardinaria, casaria com um camponês,
daria à luz os meus filhos sem me afastar de casa e, por fim,
morreria. É para nos submetermos a este destino que estamos
vivos?
 - N¦o foi assim que a tua m¦e viveu? - balbuciou Loupin. "Será
mesmo a minha filha?", pensava ele.
 "Os olhos, a boca, o mesmo rosto de anjo, mas que espírito
maligno habitará aquela linda cabecinha? Marinouchka, estou a
chorar..."
 Loupin soluçava, de rosto oculto entre as m¦os, aguardando mais
explicaçSes.
 - A minha m¦e? - retomou Marina. - N¦o era mais do que um animal
de duas patas! Na rua labutavam os cavalos e os bois, em casa
labutava ela tanto como eles. Qual a diferença? Recusava-se mesmo
a pensar, isso era, para ti, papá. N¦o quero ser como a minha
m¦e.
 - Ent¦o queres cavalgar pelos campos, assassinando e incendiando
tudo à tua passagem? - perguntou Loupin, sentindo a língua pesada
como chumbo. "A minha filha quer...". Baixou os olhos e
encarou-a. - Se tivesse forças para te matar e, em seguida,
acabar comigo... Como poderei viver depois disto...
 - N¦o incendiarei nem pilharei o que quer que seja!
 - E eles? - perguntou Loupin estendendo o braço.
 - Eles?!
 - Que importam os outros? Trata-se de mim e de Ivan...
 - Esse cossaco! - Loupin arquejava, como se lutasse contra uma
carroça totalmente enterrada na lama. - Estás apaixonada por ele?
Por esse cossaco?
 - N¦o sei o que é amar. - Marina puxou o boné vermelho mais para
a testa. - Mas se é amor, a maneira como me comporto... ent¦o
tens raz¦o.
 - E que fazes tu?
 - Faço de Ivan um homem!
 - De um cossaco?
 - Sim.
 - Deus me perdoe, já n¦o é a minha filha, é uma cabecinha oca!
Um cossaco! Um homem, dizes tu? Mais depressa transformarias um
lobo em c¦ozinho de estimaç¦o.
 - Com certeza! - Marina sorria eternamente. - Mouchkov já está
mais moderado. - Se as árvores necessitam de tempo para crescer,
porque é que um homem n¦o há-de levar tempo a modificar-se? N¦o
podes compreender, papá!
 - N¦o, n¦o posso, Marinouchka.

 Loupin voltou-se para o rio. A noite descia lentamente sobre a
terra, mal se adivinhara o Sol. "Talvez eu já esteja muito
velho?" Enterrou a cabeça nos ombros, como se sentisse frio
naquela bela noite de Junho. "Que irá passar-se?"
 - Volta para casa, papá. Um dia também regressarei.
 - Quando, minha filha?
 - Dentro de dois ou três anos. N¦o sei de quanto tempo
precisarei para modificar Mouchkov. Mas só voltarei com ele.
 Loupin meneou a cabeça várias vezes seguidas. "Quem devo
acusar?", pensava. "O destino? O czar? por n¦o ter enforcado
todos os cossacos? Eu próprio, por ter querido resistir aos
cossacos, provocando assim o encontro de Mouchkov com Marina? Que
fazer? Valerá a pena lançar-me ao rio?"
 - Está bem, minha filha - articulou penosamente Loupin. Para
proferir estas palavras despendeu mais energia do que teria
necessitado para dominar dois touros.- N¦o te compreendo, mas que
Deus te acompanhe!
 - Obrigada, papá.- e, subitamente, numa voz hesitante: - N¦o
posso dar-te um beijo... é impossível, neste momento...
 - Evidentemente, já que és um cossaco.
 Marina esboçou um gesto de despedida, voltou-se para pegar nas
rédeas do cavalo e abeirou-se do rio. Loupin, por sua vez,
virou-se lentamente para acompanhar a filha, com o olhar. Esta
afastava-se entre os últimos raios de sol ainda reflectidos nas
águas do rio, jovem cossaco de ombros estreitos, escondendo o
cabelo louro num gracioso boné vermelho.
 - Fico contigo! - gritou Loupin. Ninguém o ouviu.
 Os seiscentos cavalos continuavam a dessedentar-se no rio.- Que
farei eu em Novo Orpotchkov? Foges de mim, minha filha, mas eu
seguir-te-ei. O teu velho pai vai perseguir-te. Que faria ele sem
ti, neste mundo? De resto, terás necessidade de mim, sei-o bem.
 Viu-a regressar ao acampamento, cavalgando, com o primeiro grupo
de cavalos. Mantinha-se bem firme na montada. Loupin sentiu-se
orgulhoso e disse para consigo: "Fui eu que lhe ensinei a montar
assim!"
 Seguiu-a com o olhar até a sua silhueta se apagar na escurid¦o
glauca das garupas dos cavalos. Só ent¦o voltou para trás,
juntando-se aos camponeses udmurtes, reunidos nas margens do
Kama, para prestar atenç¦o aos seus comentários.
 Jermak e os seus homens iam ao encontro de um certo Stroganov,
que os chamara em nome do czar.
 - Cossacos chamados em nome do czar?
 Loupin já n¦o compreendia nada do mundo. "Parece que o tempo
passou por mim, deixando-me para trás. Só a minha filha o
percebeu. Já n¦o há pessoas sensatas." Era duro habituar-se.
 Agachou-se à beira do rio e só ent¦o se congratulou por a filha
ter sobrevivido, a despeito de todos os perigos.
 Do acampamento vinha o coro dos cossacos, enquanto a atmosfera
se carregava de fumo da carne de vaca grelhada.

 Mouchkov, sentado à fogueira junto de Marina, saboreava
antecipadamente o gosto da comida.
 - Que idade tens? - perguntou ela de repente.
 - Vinte e oito anos, penso eu.
 - O dobro da minha idade!
 Mouchkov olhou-a de esguelha. "Que mais teremos?", pensou.
"Quando ela começa a fazer perguntas, temos perigo à vista!"

 - Porquê? - replicou com rudeza.
 Ela deu uma gargalhada e deitou-se para trás, na erva aquecida
pela proximidade da fogueira.
 - De facto, já estás velho! - exclamou ela. - Mas n¦o te
preocupes a esse respeito.
 Durante a noite, Mouchkov n¦o conseguiu dormir, sempre a pensar
no que Marina lhe dissera, com toda a sua maldita alegria. Um
velho... estas palavras continuavam cravadas na sua carne como
uma seta. E, depois, todas estas noites sem dormir... t¦o
numerosas que Mouchkov emagrecera, andava pálido e vagueava como
um homem acossado.
 Até mesmo Jermak se apercebera. Mouchkov cavalgava muitas vezes
a seu lado durante a longa caminhada rumo ao Norte e vira-o fixar
o horizonte com um olhar demasiado ausente, prostrado no cavalo
como um saco de centeio.
 - Pareces doente - disse-lhe Jermak no dia seguinte. - É do
estômago, irm¦o? Talvez tenhas comido de mais? Ou precisas de uma
rapariga vigorosa, meu grande mariola?
 Jermak soltou uma gargalhada sonora, saudável, provocante.
 Mouchkov sorriu, por entre um esgar:
 - Uma fêmea! - esclareceu ele, desgostoso. - Jermak, n¦o me
venhas recordar um certo corpo muito branco, tépido, delicioso!
Só me falta chorar!
 - Ah! ent¦o é isso... Escolhe uma... Ainda atravessaremos muitas
aldeias antes de chegarmos à terra dos Stroganov. Acabaram-se as
pilhagens! Foi ordem que vos dei! Quem se entregar às pilhagens
será enforcado! Mas deitar uma rapariga na erva é um gesto
perfeitamente natural... De resto, elas gostam, as frágeis
pombas...
 Pouco importa que seja musique ou cossaco, desde que se trate de
um homem robusto! Ivan Matveiévitch, tu eras assim, antigamente!
 - Antigamente! Quando penso nesses tempos, vêm-me as lágrimas
aos olhos!
 Aprumou-se na sela, olhou de esguelha por cima do ombro e viu
Marina, que avançava na terceira fila de cavaleiros. O seu boné
vermelho brilhava ao sol. O vento que lhe colava ao corpo o
uniforme demasiado largo deixava adivinhar os seios firmes
através da camisa. Mouchkov sentiu um choque: "Se um destes
bandidos a observar com atenç¦o neste momento, estará perdida!
 Felizmente, ninguém olha para um jovem demasiado magro que a
generosidade de Jermak admitiu entre os cossacos. Porque haveriam
de olhar?"
 - Boris Stepanovitch está-me atravessado na garganta! -
confessou Mouchkov. - Foi um erro trazê-lo connosco.
 - A ideia foi tua, Ivan Matveiévitch! - Jermak encolheu os
ombros largos: - Vejamos, trata-lhe da saúde com uma boa surra,
linguagem que os camponeses n¦o ignoram! De qualquer modo, penso
que se fará um bom cossaco!
 - Se lhe bastasse uma surra...
 Mouchkov deixou-se ficar para trás, insinuou-se pela fila em que
seguia Marina e pôs-se a mirá-la fixamente.
Era uma jovem muito alegre, de olhos sempre brilhantes e que
ocupava a sela como se aí tivesse nascido.
 - Porque me dizes tantas maldades?
 - O quê, meu ursinho?

 O coraç¦o de Mouchkov saltou-lhe dentro do peito. Pela primeira
vez, ela chamara-o assim e ele n¦o sabia ao certo se seria por
verdadeira ternura ou por zombaria. Vá lá o Diabo entender as
mulheres! Nascem com a língua carregada de raiva e veneno!
 - Pretender que sou velho! Merecias ser mergulhada à força no
rio, durante uma hora, para amansares!
 Marina deu uma gargalhada e, cravando as esporas nos flancos do
animal, juntou-se a Jermak, à frente da cavalgada. Mouchkov
seguiu-a, de ar carrancudo e coraç¦o apertado. "Como poderei
surrá-la ou expulsá-la se só penso em a acariciar? É impossível
sová-la como a qualquer camponesa, pois ela pagaria na mesma
moeda! Ou apunhalar-me-ia..."
 Jermak mostrava-se de muito bom humor. Aproximavam-se dos
domínios Stroganov. A sua influência era bem visível por toda a
parte: aldeias limpas, dotadas de pequenas fortalezas contra os
ataques imprevistos, contra os Ostíacos pouco seguros, campos e
jardins bem cultivados, algumas minas de prata vigiadas por
homens de Stroganov e rodeadas por cercas aguçadas.
Paliçadas cujo ataque, mesmo para um cossaco, apresentaria
numerosas dificuldades!
 Pescava-se à beira do rio. Os caminhos estavam cuidados. Grandes
barcaças de madeira, largas e achatadas, transportavam
mercadorias. Subindo o rio, rebocadores em longas colunas
avançavam junto às margens, guiando filas de barcos através da
corrente indolente enquanto se cantavam surdas melopeias
escondidas a cada passo - uma nota por passo - pelos homens
debruçados para a frente, nos seus trajes de couro.
 - Porque é que Ivan Matveiévitch está t¦o preocupado contigo? -
perguntou Jermak quando viu Marina a seu lado. - Queixa-se tanto
que até parece que a Lua está para cair do céu!
 - N¦o sei de nada, Jermak Timofeiévitch - respondeu Marina,
mantendo-se ao seu lado, numa posiç¦o só autorizada ao braço
direito do chefe. O facto de Jermak tolerar esta impertinência
provou, a todos os que testemunharam a cena, que o rapazelho
louro tinha um belo futuro em perspectiva entre os cossacos.
 - Ele tem exigências estranhas... - confessou Marina, por fim.
 - Mouchkov? A que te referes?
 - Quer obrigar-me a dormir com ele...
 Mouchkov, que os seguia de muito perto, rangeu os dentes
ruidosamente, surpreendido por n¦o ter tombado da sela ao ouvir
t¦o ousado impropério. "É um demónio, esta rapariga" pensou ele.
Jermak virou-se para trás e lançou-lhe um olhar reprovador.
 - Devias ser borrifado com água fria! - disse ele com dureza. -
Na próxima aldeia, escolherás uma rapariga para ti, quero ver
isso! E Boris Stepanovitch também assistirá ao espectáculo!
 Mouchkov arregalou os olhos, apavorado, deixando-se ficar para
trás, na esperança de que Marina regressasse ao seu lugar.
 - Fá-lo-ei! - resmungou ele quando se encontraram novamente lado
a lado. - à tua frente, arrastarei uma bonita mulher e hei-de
montá-la como um garanh¦o, enquanto tu aplaudirás com as tuas
próprias m¦os. Ousas dizer a Jermak que pretendo dormir com um
rapaz! É mais humilhante do que borrar-me de medo durante um
ataque! Ah! Prometo-te que na próxima aldeia...

 - N¦o jures, ursinho - avisou suavemente Marina Alexandrovna -,
se n¦o terás de renegar por perjúrio. Se tocares numa mulher,
regressarei a galope para Novo Orpotchkov.
 - Jermak deu-me uma ordem! - gritou Mouchkov fora de si. Ela
chamara-lhe novamente "ursinho", era de endoidecer. - N¦o sabes
que sou obrigado a obedecer a Jermak?
 - Ent¦o arranja uma desculpa, Ivan Matveiévitch, uma velha
raposa como tu deve ter experiência!
 Marina ria perdidamente. Inclinando o belo rosto para trás,
partiu de novo a galope. Mouchkov fechou os punhos, segurando bem
as rédeas, cuspiu nas crinas do inocente cavalo e gemeu baixinho.
"Ela dá cabo de mim", pensou ele. Mas o sentimento que
experimentava era simultaneamente estranho e maravilhoso. "Se
continuar assim, endoideço! Eu, o grande Mouchkov, o suplente do
herói Jermak! Que todos os santos do céu me protejam desta
mulher!"

 A 24 de Junho de 1579, os cavaleiros de Jermak atingiram a
cidade de Oriol, construída pelos Stroganov, burgo do longínquo
país de Perm, quase lendário, em que se encontravam acumuladas as
maiores riquezas da Rússia.
 A chegada dos cossacos fora previamente anunciada por cavaleiros
emissários; Sime¦o Stroganov despachara ao seu encontro quatro
"enviados" envergando sumptuosos mantos bordados, a fim de, como
eles próprios disseram, saudar os futuros libertadores do país da
dominaç¦o dos Anticristos! A regi¦o com que depararam era
totalmente diferente das paisagens conhecidas dos rudes
companheiros de Jermak. Tratavam-se de campos cultivados segundo
planos preestabelecidos. O Kremlin dos Stroganov era uma
imponente fortaleza de pedra situada numa língua de terra que
avançava pelo rio, muito fundo nesse local. Apresentava um
aspecto sinistro e fechado por todos os lados, embora a capela
privada fosse encimada por quatro cruzes que, dizia-se, eram
feitas de ouro puro e n¦o apenas douradas.
 Quanto à cidade de Oriol, era edificada ora em madeira ora em
pedra, cortada por largas avenidas, dotada de grandes praças e de
duas igrejas; e todas as casas particulares se orgulhavam de
possuir um pequeno jardim. Os habitantes encontravam-se todos à
porta, curiosos e um pouco apreensivos, pois a reputaç¦o do
"temperamento cossaco" chegara ao país de Perm.
 Assim, só os homens se encontravam na rua, enquanto as mulheres
espreitavam pelas persianas entreabertas das janelas. De vez em
quando, adivinhava-se na penumbra das casas um lenço de cabeça,
uma madeixa de cabelo.
 Contudo, algumas mulheres mais intrépidas ousavam encarar esses
mal afamados, que despiam as calças t¦o depressa como saltavam do
cavalo... Era, pelo menos, o que constava...
 - Esconderam as mulheres! - Jermak ria a bom rir e, voltando-se
para os enviados dos senhores da terra, vestidos de brocado,
perguntou, numa voz tonitruante:
 - Pensar¦o que somos um exército de santos? - Observava a
cidade, que se estendia a seus pés, pois encontravam-se numa
colina donde a abrangiam na sua totalidade. - Est¦o aqui
quinhentos homens vigorosos que n¦o s¦o castrados! Queremos uma
mulher para cada um de nós! De contrário, arrancamos os telhados
das casas!

 - O senhor pensou em tudo. N¦o vos faltará nada em Oriol! -
respondeu um dos enviados designado por "Senhor" Sime¦o
Stroganov, soberano absoluto do país.
 Jermak ergueu-se nos estribos para contemplar o kremlin e o rio,
a cidade e a multid¦o de homens que os aguardava nas ruas. A
cavalo do seu lado encontravam-se Mouchkov e Marina; seguia-se a
horda densa, movediça, relinchante e inquieta de homens e
cavalos, lado a lado, garupa contra garupa, o exército dos
cossacos. E, muito mais atrás, simples ponto recortado no céu
azul claro, um cavaleiro solitário, de camisa em farrapos, cuja
cabeleira branca ondulava ao vento do Ver¦o: Alexandre
Grigoriévitch Loupin, o pai que cavalgava no rasto da filha...
 - Mulheres, alimentaç¦o abundante, boas instalaçSes para homens
e cavalos, os bolsos bem recheados de copeques... quero ter a
certeza de que tudo isto nos será proporcionado. Se assim n¦o
for, n¦o nos limitaremos a atravessar a cidade, assaltá-la-emos!
- gritou Jermak.
 Os cossacos sublinharam as suas palavras com o clamor
característico, tanto entusiasta como ameaçador, que se propagou
pela cidade como um trov¦o. Os citadinos que passavam nas ruas
abanavam a cabeça, horrorizados. Este grito diria muito sobre o
que poderiam esperar.
 - O Senhor confirmará o que vos digo!
 O enviado dos Stroganov que tomara a palavra obrigou o cavalo a
voltar-se para apontar o caminho aos recém-chegados, mas Jermak
n¦o os seguiu logo. Olhou de esguelha para Mouchkov, que tentara
passar despercebido nos últimos quinze dias. Como é evidente, n¦o
deitara na erva, nem violara na presença de Marina nenhuma sólida
camponesa, como lhe ordenara Jermak, pois no dia seguinte
Mouchkov foi visto a coxear, com a cabeça entrapada. O cavalo
aplicara-lhe um corte no crânio, inadvertidamente, quando o
cavaleiro se encontrava encostado à sua ilharga, segundo os
hábitos cossacos.
 - Animal estuporado! Deu-me um coice que me fez ir pelos ares! -
resmungava Mouchkov. Assim, Jermak n¦o teve oportunidade de
recompensar o seu maltratado cossaco com o conforto de uma
meretriz.
 E foi também assim que Mouchkov evitou submeter-se às ordens de
Jermak, o que lhe valeu um cumprimento da parte de Marina:
 - Basta ser velho para ter boas ideias, ursinho!
 A palavra "velho" perturbou mais uma vez Mouchkov, que só se
libertou das ligaduras à vista da cidade de Oriol.
 - Tens mais alguma exigência a fazer, Ivan Matveiévitch?
Ter-me-ei esquecido de alguma coisa? Ainda estamos a tempo! Pensa
bem, irm¦o. Neste momento, ainda podemos falar... - Jermak
voltou-se para trás, na sua sela.- N¦o precisamos do grande
Stroganov, mas ele precisa de nós!
 - Observemos em primeiro lugar o que se passa com esse
maravilhoso país conhecido pelo nome de Manga seja - respondeu
Mouchkov, desanimado.- Se for verdade que se encontram pepitas de
ouro penduradas nos ramos das árvores, terá valido a pena a
deslocaç¦o!

 Enquanto falava, n¦o ousava olhar para Marina. Com efeito,
sentia-se verdadeiramente digno de piedade. - os seus camaradas
tinham enchido os alforges de dinheiro sonante e jóias roubadas.
Vendo bem, obtém-se uma boa maquia ao cabo de dois meses de
rapina! Jermak, por seu lado, levava à retaguarda duas bestas de
carga bem fornecidas. Quanto ao pope, esse representante do céu,
merecia respeito, pois muito se poderia aprender com ele ao ver
como procedia no enriquecimento da sua paróquia. Levava consigo
dois ícones, cruzes de ouro, vestes sacerdotais bordadas a ouro,
taças de prata cinzelada, objectos todos eles "oferecidos " pelos
caros colegas visitados pelo caminho durante a viagem em direcç¦o
a Perm.
 Só Mouchkov tinha os alforges completamente vazios: uma vergonha
para um cossaco. Mas, assim que avistavam uma aldeia, Marina
advertia-o:
 - N¦o voltarás a pilhar.- E ainda acrescentava: - Ou volto para
casa!
 - Ent¦o volta! - gritara-lhe uma vez Mouchkov. - Vai para o
Diabo! De que serve viver se n¦o pudermos roubar?
 Mas, de noite, quando ela se foi deitar encostada ao cavalo,
Mouchkov correra atrás dela, sussurrando baixinho:
 - Manouchka, Marina, minha pomba, n¦o me partas o coraç¦o! -
Marina concordara em n¦o fugir e Mouchkov comprometera-se a n¦o
roubar. Limitava-se a ver os outros roubar, rangendo os dentes,
agarrado ao seu amor como um c¦o de guarda à sua casa, o qual tem
licença de ladrar mas sabe que n¦o lhe perdoar¦o nenhuma
mordedura.
 Finalmente, atravessavam a cavalo a cidade de Oriol, com direito
a sorrisos sardónicos dirigidos aos homens que erguiam os olhos,
e procuravam descortinar por detrás das janelas as pobres
mulheres assustadas. Os cossacos começaram, ent¦o, a cantar em
voz muito alta, para mostrarem qu¦o livres se sentiam.
 Do kremlin dos Stroganov, os dois sobrinhos de Sime¦o, Nikita e
Máximo, saíram ao seu encontro, em pequenos cavalos tártaros bem
almofadados e fogosos. Sem desmontarem, Jermak e os dois
Stroganov beijaram-se três vezes nas faces, cientes de que se
enganariam reciprocamente ao longo dos anos com inimaginável
astúcia.
 - Que país rico e aprazível! - exclama Jermak, felicíssimo.
- É uma atmosfera quase desconhecida no reino moscovita!
 - Mantemos a ordem, é tudo!
 Máximo Stroganov observou com olhar crítico a avalanche de
cavalos suados e de cabeças de cossacos hirsutas:
 - O czar delegou em nós o direito de fazer justiça em todas as
regiSes que conquistarmos.
 Jermak Timofeiévitch compreendeu: era a primeira ameaça velada,
o primeiro pontapé no traseiro. Sorriu abertamente, mas os olhos
negros brilhavam de dureza, como os olhos de um urso que ignora a
piedade.
 - Respondemos ao apelo que nos impele a defender a cristandade -
afirmou. - O rei dos céus recompensar-nos-á... e Sime¦o Stroganov
também!
 O grande senhor esperava Jermak e Mouchkov na enorme sala de
audiência, que, pela sua imensidade apresentava um aspecto pelo
menos t¦o sumptuoso e t¦o deprimente como a sala do trono de Ivan
IV, no Kremlin de Moscovo. Encostados às paredes forradas de
seda, viam-se bancos cobertos de peles de raposas azuis e de
esquilos cinzentos. Tapetes da Mongólia revestiam as lajes do
ch¦o. Os candeeiros a petróleo, obras de artistas tártaros, eram
de ouro cinzelado com incrustaçSes de pedras preciosas.

 Sime¦o Stroganov envergava, a despeito do calor do Ver¦o, um
gib¦o talhado na mais delicada pele de zibelina. Tinha calor,
visivelmente, mas importava mostrar a esse bárbaro Jermak que n¦o
era o czar moscovita mas Stroganov, o soberano de Oriol, nas
margens do Kama, o homem forte da Rússia.
 E, mais uma vez, Jermak compreendeu perfeitamente o que
pretendiam dizer-lhe. Ent¦o, pela primeira vez na vida, esboçou
uma espécie de cumprimento, inclinando um pouco a cabeça num
breve movimento, gesto este que causou uma extraordinária
impress¦o em Mouchkov.
 - Bem-vindo, irm¦o Jermak - saudou Sime¦o Stroganov, abraçando o
maior bandido que a Rússia jamais produziu. Mas estas palavras
saíram-lhe dos lábios sem dificuldade, pois quem quer conquistar
um país como Mangaseja n¦o deve deter-se em ninharias como s¦o as
consideraçSes de ordem moral. - Pensámos em ti e nos teus irm¦os,
mandámos construir uma cidade que vos está reservada, assim como
uma bela zona nas margens do Kama, pois ainda teremos que
trabalhar muito, antes que o apelo de Deus nos conduza a transpor
os Urales!
 Uma cidade cossaca reservada... Jermak estava contente. Nos
nossos dias diríamos que Stroganov tinha construído uma
gigantesca caserna, afastada de Oriol e dos seus arredores, um
gueto, que representava simultaneamente uma protecç¦o para as
mulheres que vivessem fora da caserna.
 - E onde est¦o as mulheres que nos prometeste, Sime¦o Stroganov?
- perguntou Mouchkov. Marina n¦o se encontrava presente e ele
sentia que era seu dever formular tal pergunta a fim de aumentar
o seu prestígio.
Jermak dirigiu-lhe um sinal de aprovaç¦o.
 - Mulheres n¦o faltam - respondeu Sime¦o, com um sorriso de
compreens¦o. - N¦o ignoro aquilo de que um soldado necessita,
pois cresci entre soldados.
 Entretanto, o pope dos cossacos, Oleg Vassiliévitch Koulakov,
visitava os seus piedosos colegas, comungando da mesma fé,
reunidos na capela privada dos Stroganov. Os cossacos, apeados,
mantinham-se de pé, cada um junto do seu cavalo, no grande pátio
do kremlin, deixando-se admirar pela criadagem como ursos
capturados. Algumas criadas mantinham-se a uma distância
prudentemente respeitosa, rindo à socapa. Os primeiros convites
lascivos pairavam sobre o vasto pátio.
 - Kyrie Eleison - dizia o pope dos cossacos na sumptuosa capela,
admirando, boquiaberto, o esplendor da iconostase, o maravilhoso
altar-mor dourado, os preciosos cálices, as cabeleiras dos
sacerdotes, bordadas a pérolas e pedras preciosas, que se
encontravam alinhadas em cima de uma mesa, semelhantes a bolos
monumentais. Oleg Vassiliévitch Koulakov lamentava com amargura
n¦o poder exigir nenhum "presente", t¦o tentador era tudo o que
via.
 - Deus esteja connosco! - respondeu o pope dos Stroganov
piedosamente, fazendo um grande sinal da cruz sobre a sua própria
pessoa.- Na verdade, precisaremos da sua ajuda!
 - Irm¦os perante o Senhor, viemos a fim de expandir os limites
da cristandade e de entoar louvores ao Senhor.
 - Amem - respondeu o irm¦o numa voz surda. - Construímos uma
igreja para ti na "cidade cossaca"!
 - T¦o bonita como esta?
 - Nem por isso, meus irm¦os.

 - Deus lamentá-lo-á! Todos os homens s¦o irm¦os, tu próprio o
dizes! - O pope dos cossacos aproximou-se mais um passo, agarrou
o colega pela longa barba e invectivou:
 - No mundo da fé n¦o pode reinar a desigualdade.
 Promete-me alguns ícones, irm¦o! Um cossaco também se deleita a
admirar imagens sagradas!
 Passada meia hora, tinham chegado a um acordo para que a igreja
dos cossacos também possuísse algum brilho, n¦o se reduzindo
apenas a uma granja deserta.
 Finalmente, Alexandre Grigoriévitch Loupin entrava no kremlin
dos Stroganov, guiado pelo passo cansado do seu esgalgado cavalo,
e procurou do imediato um moço de estrebaria. Marina viu o pai
apear-se e, determinado, dirigir-se para os edifícios alinhados
que se destinavam aos estábulos dos cavalos. o coraç¦o da jovem
batia dolorosamente.
Encostou a cabeça ao cavalo de Jermak e sentiu os olhos marejados
de lágrimas.
 - Meu querido pai! Como é bom sentir-te aqui!
 Loupin viu que teria de se impor quando chegou à presença do
cavalariço-mor: n¦o necessitavam de nenhum palafreneiro como ele,
tanto mais que, em Oriol, n¦o havia falta de homens e n¦o se
descortinava raz¦o alguma para aceitar os serviços de um
desconhecido vindo do longínquo Sul.
 - Também sou médico de cavalos! - sugeriu Loupin, corajoso.- É
um dom que passa de pais para filhos! Alguma vez tiveram um
médico para as vossas cavalgaduras? Como é que sabem quando um
cavalo tem uma febre biliosa?
 - Quando caga verde! - gritou o cavalariço-mor.
 - Isso pode ser da luzerna, senhor. N¦o, a doença vê-se nos
olhos! E eu, eu sei ver!
 - Vem comigo, tagarela - respondeu o cavalariço-mor -, e diz-me
por que raz¦o este cavalo n¦o quer sair da cavalariça e conserva
a cabeça baixa, sem arredar os cascos!
 Loupin deu uma volta em redor do animal, bateu-lhe amigavelmente
no pescoço e declarou:
 - Tem uma espécie de vertigem convulsiva! É por isso que está
cada vez mais magro.
 O cavalariço ficou de boca aberta.
 Foi um momento memorável, aquele em que Loupin se viu assumir o
cargo de médico veterinário, perante Nicolas Stroganov em pessoa,
depois do cavalariço-mor o ter apresentado ao seu jovem amo. E
foi assim que Loupin se apropriou também de um quarto de
habitaç¦o ao fundo da estrebaria, onde lhe serviam alimentaç¦o
abundante e lhe pagaram mais dinheiro ao fim de uma semana do que
em seis meses na sua aldeia. E, ao mesmo tempo, era médico de
cavalos! Quando se dirigiu à igreja para agradecer ao senhor,
Loupin atravessou a grande praça que se estendia diante da casa
senhorial. A praça encontrava-se deserta, pois os cossacos já se
tinham apoderado da cidade construída expressamente para eles.
Viam-se apenas alguns criados, que varriam os excrementos em
volta dos estábulos. No ar quente do Ver¦o, pairava um penetrante
odor a suor de cavalo e a homens imundos.
 Um adolescente aproximou-se dele num passo hesitante. Olhou
Loupin com um ar interrogador e perguntou:
 - N¦o serás, por acaso, Alexandre Grigoriévitch?
 - Sim, sou - respondeu Loupin surpreendido. - Donde me conheces?

 - Tenho uma coisa para te entregar, da parte de um dos cossacos.
Diabos levem todos esses bandidos!
 O adolescente abriu a m¦o e mostrou uma madeixa de cabelos
louros, brilhando ao sol na palma da m¦o suja.
 Loupin sentiu um nó na garganta.
 - Obrigado - agradeceu com voz enrouquecida. Pegou no caracol e
regressou a passos largos para a cavalariça, onde ninguém o viu
refugiar-se num canto obscuro para poder levar aos lábios a
madeixa loura.
 - Marinouchka - balbuciou. - Meu anjo!
 E n¦o pôde deixar de chorar, cobrindo de beijos o pequeno anel
feito de cabelo.

 A "cidade" ou, mais exactamente, o acampamento dos cossacos
revelou-se um aglomerado de cabanas de madeira rodeado por uma
alta paliçada. Tinha ruas, uma praça principal, estábulos,
entrepostos, uma capela que se resumia a um armazém meio
deteriorado, o que amargurava o coraç¦o do pope Koulakov, um
matadouro, cozinhas e, por fim, uma "loja" onde três escribas de
rosto pálido, nomeados por Stroganov, se encontravam instalados.
Tinham por miss¦o dedicar-se ao comércio com os cossacos. Era uma
das ideias típicas dos Stroganov os, rublos entregues como
garantia deviam voltar aos bolsos dos Stroganov.
 Era assim. E depois, havia também aquilo a que se chamava a
"casa das mulheres", imponente construç¦o feita de toros de
madeira, assentes numa base de pedra. As "pensionistas"
encontravam-se na rua quando os cossacos desfilaram a cavalo,
exemplarmente ordenados, dirigindo-lhes gestos de bom
acolhimento. Eram mulheres de todas as raças, predominando as
asiáticas de membros muito delgados. Vestiam saias e blusas
brancas e, nos cabelos cor de ébano, brilhavam chapelinhos
escarlates.
 - Sinto o coraç¦o dilatar-se como uma bexiga de porco! -
exclamou Mouchkov, procurando humilhar Marina. - Vês aquela linda
jovem de chapéu azul? Está reservada a Ivan Matveiévitch!
 - S¦o poucas! - observou Jermak, irritado. - Que te parece?
Quarenta e cinco, no total, n¦o mais! Como poder¦o satisfazer
quinhentos e quarenta cossacos? V¦o matar-se uns aos outros, os
desgraçados, para se aproximarem delas! - Afastou o cavalo para o
lado e os outros passaram por ele, como numa parada. - Quem se
aproximar das raparigas será enforcado! - Gritou Jermak, por cima
da cabeça dos homens.
 O bando de brutamontes fixou-o, de olhar vazio e surpreendido:
ao verem as mulheres, o contacto com as selas tornara-se
insuportável.
 - Enforcarei todos aqueles que desobedecerem! - insistiu Jermak.
- Amanh¦, ou nos d¦o o triplo destas pegas, ou vamos procurá-las
à cidade!
 - Ho+! Ho+! - gritaram em coro os cossacos, de braço levantado.
 O grito ressoou pela cidade, ouvindo-se no kremlin dos
Stroganov. As mulheres que se encontravam à porta da casa grande
agruparam-se numa massa compacta, como galinhas assustadas. Os
funcionários de serviço à "loja" persignaram-se.

 - Isto é que é boa vida! Que te parece? - gritou Mouchkov,
batendo no ombro de Marina. Esta sobressaltou-se e mordeu os
lábios; logo a seguir, debruçou-se sobre Mouchkov e
sussurrou-lhe, mordaz:
 - Fica com a pegazinha de chapéu azul. Quanto a mim, vi lá em
baixo, no pátio do kremlin, um belo rapaz que me agradou. É forte
e sobretudo... jovem! Vou procurá-lo amanh¦!
 - Darei cabo dele! - resmungou Mouchkov, crispando as m¦os nas
rédeas. - Estrangulo-o... como a uma pomba! E a ti, encosto-te à
parede, vestida com o uniforme. N¦o me escaparás!
 Aplicou um pontapé no cavalo, que deu um salto em frente e
partiu a galope para a primeira fila. Jermak cavalgava na
retaguarda, observador e guardi¦o impiedoso. Era impossível
deslizar sorrateiramente em direcç¦o ao grupo formado pelas
mulheres.
 O único que ficou para trás foi o pope Oleg Vassiliévitch
Koulakov. Podia permitir-se tal atitude, pois devia tomar posse
da sua igreja. Mas, vendo bem, fez um desvio, contornou a capela
e, subitamente, viu-se diante de um grupo de jovens envergando
trajes coloridos. Os cossacos tinham desaparecido atrás dos
estábulos, onde se apearam e esperaram que Jermak e Mouchkov
distribuíssem os homens pelos alojamentos.
 - Aproxime-se de mim a que tenha cometido mais pecados e eu a
reconfortarei! - ordenou o pope Koulakov, mirando, benevolente, o
bando de alegres raparigas.
 Uma imponente filha das margens do Volga, chamada Leila,
apresentou-se-lhe. O seu corpo e o seu rosto era t¦o claramente a
imagem do pecado, que o barbudo sacerdote perdeu o fôlego. Para
quem queira compreender, ou seja, perdoar, recordemos que a
igreja ainda n¦o fora consagrada...

 à noite, nenhum cossaco de Jermak conseguiu adormecer.
 Aquartelados, tinham arrastado as selas para o interior,
desfeito as trouxas e estendido os cobertores sobre as camas de
tábuas. Quatro açougueiros encontraram dois bois no matadouro e
abateram-nos imediatamente. Os cozinheiros cossacos ocupavam-se
já das fogueiras acesas, onde ferviam caldeirSes de água. A
cozinha estava bem organizada e providas de pipas de couve-azeda,
feij¦o-seco, pepino de conserva. Havia um estrado coberto de p¦o
fresco, e muitos cereais, na sua maioria, desconhecidos de resto,
para os novos hóspedes. A tudo isto juntavam-se ainda enormes
recipientes de barro, da altura de um homem, cheios de cerveja
caseira... Os Stroganov tratavam bem dos seus mercenários.
 Mas quando, mais tarde, depois de saciados, se dei taram pelo
ch¦o, arrotando, a fim de repousarem da longa cavalgada, ao mesmo
tempo que a fadiga se lhes apoderava dos ossos, a proximidade das
raparigas instilava nas suas veias uma irreprimível agitaç¦o.
 Alguns temerários arriscaram-se a rastejar até à casa grande
mas, ao passarem pelos estábulos, foram interceptados pelas
sentinelas de Jermak, que os zurziram convenientemente e os
recambiaram para as respectivas camaratas.
 A miss¦o era dura para os guardas. Na verdade, eram homens
semelhantes àqueles que chamavam à ordem. Quando inspiravam a
leve brisa estival, parecia-lhes captar o odor das raparigas,
como c¦es farejando uma cadela. Maldita noite, convenhamos.

 Jermak dirigira-se aos Stroganov, queixando-se do número
restrito de raparigas. Mouchkov, o seu braço direito,
encarregara-se de apoiar as suas reivindicaçSes. O único cossaco
que dormia de facto, desprovido de qualquer desejo escaldante,
era Boris Stepanovitch. Marina encontrava-se estendida na cama,
na casa que ocupava com Jermak e Mouchkov. Era a única casa de
pedra. Sime¦o Stroganov mandara construí-la a pensar em Jermak:
primeiro berço de uma nova Sibéria, se os planos de Stroganov se
concretizassem.
 Noite maldita, repetimos. Quente, sufocante, silenciosa, a ponto
de cada um ouvir correr o seu próprio sangue, sangue este que
murmurava como as águas de um rio depois do degelo, enquanto
sonhava com as raparigas! Só este clima particular explica que
Mouchkov tivesse rompido o juramento que lhe apertava o coraç¦o:
depois de ter contemplado Marina, que adormecera de joelhos junto
à boca, lançou-se sobre ela, soltando um profundo suspiro.
 Há segundos de terror que, na verdade, duram apenas segundos. E,
quem conhecesse Marina Alexandrovna, sabia que as suas reacçSes
eram rápidas, mesmo quando arrancada a um sono profundo. Mas,
naquele momento, tudo dentro dela pareceu renunciar à luta:
manteve-se imóvel, n¦o se defendeu e conservou os olhos fechados.
Mouchkov nem chegou a saber se ela estava acordada. O seu
delicado rosto, meio oculto pelo cabelo em desalinho, parecia
perfeitamente descansado.
 Mouchkov suspirou de novo, respirando ruidosamente, t¦o nervoso
se sentia. Com as m¦os trémulas, desabotoou a jaqueta da jovem e,
pegando-lhe nos seios, ajoelhou a seus pés, amaldiçoando as
calças e as botas de cossaco, obstáculos que só poderia superar
por vontade de Marina, a n¦o ser que a estrangulasse ou
aniquilasse...
 - Marinouchka... - balbuciou Mouchkov - amo-te... juro-te que
farei tudo o que quiseres! N¦o fiz já o suficiente para que
acredites em mim? N¦o sou o cossaco mais miserável, mesmo
reconhecido como representante de Jermak? N¦o vês o que fizeste
de mim?
 Mouchkov beijava os seios rijos de Marina, enquanto se debatia
com um par de botas, louco de desejo.
 Como dissemos, Marina permanecera até ent¦o imóvel, de olhos
fechados e calada. Mas se dentro de todas as mulheres habita um
diabo, como se costuma dizer, Mouchkov pôde nesse momento
comprová-lo. Inesperada, viva como um raio, invisível ao homem
cego pela sua paix¦o, a m¦o direita de Marina ergueu-se, o punhal
descreveu uma curva... e Mouchkov soltou um grito abafado, largou
as botas e os lindos seios e deu um salto, de m¦os apoiadas nas
nádegas. Uma mancha quente e viscosa alastrava sob os seus dedos
pelo tecido das calças.
 - Feriste-me - balbuciou ele -, feriste-me profundamente,
Marinouchka... Tu...
 Surpreendido por este ataque fulgurante, Mouchkov tentava conter
a dor que lhe invadia os rins. Um cossaco apunhalado nas nádegas!
Era o cúmulo do ridículo!
 Exactamente no local mais precioso para um cavaleiro. Que
justificaç¦o poderia fornecer?
 - Mato-te! - ameaçou Mouchkov num gemido, rangendo os dentes. -
Deus perdoar-me-á: sou obrigado a matar-te!

 - Ent¦o mata-me! - Marina sentou-se, tapou o peito com a camisa,
apertou o cinto que Mouchkov desafivelara e limpou a lâmina do
punhal curvo ao cobertor. A bem-dizer, via-se apenas um pouco de
sangue na ponta... Marina atacara de mansinho, de certo modo para
recordar que n¦o era uma prostituta como as outras raparigas
colocadas à disposiç¦o dos cossacos.
 - Mata-me! - insistiu ela. - N¦o hesites! Nunca serás um homem,
Ivan Matveiévitch! Eu n¦o me mexo, deixa-te de rodeios, prefiro
morrer!
 Há paixSes que n¦o podem ser dominadas. Certos amores loucos
constituem um bom exemplo, amores que se apoderam dos seres
apaixonados e n¦o lhes d¦o descanso; amores que transformam o
mais sensato num idiota; amores que, no entanto, s¦o saboreados
como um filtro...
 Ivan Matveiévitch era uma dessas vítimas. Milhares de homens
como ele, sucumbindo ao poder de uma mulher-demónio, tinham
apresentado o mesmo comportamento. N¦o matou Marina, como é
natural: limitou-se a correr, protegendo as nádegas com as duas
m¦os, até ao pátio, onde lavou no bebedouro o sangue que lhe
escorria pelas pernas. Por sorte, Jermak ainda se encontrava em
negócios com os Stroganov, pelo que ninguém se apercebeu do
sucedido. Mouchkov conseguiu envolver as nádegas com um pano,
sempre entre insultos dirigidos a Marina, que ele entrecortava
com pedidos de perd¦o, proferidos em voz baixa, por ousar
invectivá-la assim.
 Na verdade Ivan Matveiévitch era um cossaco totalmente
desamparado. Tenhamos piedade deste homem t¦o cruelmente
apaixonado.

 Conter o entusiasmo de quinhentos e quarenta cossacos, quando
têm à sua frente toda a imensid¦o de um país desconhecido e
anseiam pela embriaguez de novas aventuras, n¦o é tarefa fácil.
Podemos qualificar Jermak de bandido e assumido tratante, mas n¦o
podemos negar-lhe o mérito de saber manter uma disciplina de
ferro entre os seus homens, exigindo que se submetessem a uma
vida regrada na sua "cidade cossaca", pelo menos na medida do
possível.
 Passados quinze dias, os Stroganov já lhes tinham fornecido
noventa mulheres da vida. Como? Era esse o mistério. Libertou-se
uma ampla cavalariça, que foi dividida em compartimentos, e onde
os cossacos puderam entregar-se àquilo que, para além das
cavalgadas e da pilhagem, continuava a ser a sua actividade
favorita, sobretudo quando o tédio os invadia.
 - E, durante esse Ver¦o, o tédio foi insuportável. Os Stroganov
n¦o autorizavam Jermak e o seu bando a lançar-se às cegas pela
cadeia dos Urales; n¦o arriscavam nada que lhes pudesse custar um
simples copeque. O czar de Moscovo n¦o se comprometia com
despesas, limitava-se a esperar riquezas que deveriam vir do
lendário país de Mangaseja, esse país do ouro do czar siberiano
Koutchoum, no reino moscovita.
 Com a consciência dos grandes guerreiros, os Stroganov
preparavam a expediç¦o tendo em vista a conquista dessa
desconhecida Sibéria. Tratava-se de organizar a marcha do
exército de mercenários comandado por Jermak, de prever
itinerários de abastecimento, depósitos de víveres que n¦o
distassem uns dos outros mais do que um dia de cavalgada, a fim
de que o exército, avançando através do país, nunca se afastasse
da sua retaguarda e pudesse eventualmente refugiar-se nas praças
fortes que, antes de tudo, seria preciso criar. Fortalezas estas
que, um dia, seriam novas cidades.

 - O solo será nosso quando os indígenas armazenarem a primeira
colheita dos territórios conquistados! - dizia Sime¦o Stroganov,
o sábio. - N¦o pretendemos percorrer a Sibéria, queremos
incorporá-la na grande Rússia.
 Assim, os recrutadores percorriam o país em todos os sentidos, a
fim de alistar combatentes. Quirguizes, lituanos, alem¦es -
prisioneiros de guerra arrastados até ao país de Perm - afluíam.
Para eles, o apelo: "Unam-se ao exército dos Stroganov!" n¦o
significava apenas o fim da escravatura mas também, talvez, a
realizaç¦o dos seus mais caros desejos. Algures para lá dos
Urales, recomeçar uma nova existência, ser um homem livre na sua
própria parcela de terra! Esquecer, sob a protecç¦o dos poderosos
Stroganov, as fúrias do grande czar Ivan!... Uma paz, uma vida
com que se sonhava...
 E, no entanto, eclodiram conflitos. Por causa dos alem¦es e dos
lituanos. N¦o por serem hostis aos cossacos - tinham estabelecido
com eles relaçSes de boa camaradagem - ou refractários à
equitaç¦o -, possuíam outros tantos talentos guerreiros que
completavam maravilhosamente os dos cossacos em matéria de
cavalaria. N¦o, os atritos com os cossacos surgiram devido às
mulheres. Poderia deixar de ser assim? Surge um cossaco, aponta
uma rapariga, esboça um esgar e apodera-se do objecto da sua
cobiça. Os alem¦es e os lituanos, por outro lado, tratavam as
prostitutas como senhoras, rodeavam-nas de belas palavras,
acariciavam os seus corpos depravados, dando assim às raparigas o
sentimento de n¦o serem simples presas, mas também apreciadas.
N¦o tardou muito a saber-se: correram rumores de que os alem¦es
viviam com as mulheres, enquanto os cossacos eram obrigados a
contentar-se com migalhas.
 As querelas multiplicaram-se até ao dia em que foi encontrado um
alem¦o morto na margem do Kama, com um punhal enterrado no
baixo-ventre.
 O que aconteceu em seguida deixou sem voz o mais turbulento dos
cossacos.
 Há já vários dias que se viam jangadas amarradas à riba,
balançando nas águas do Kama. Tratava-se de jangadas rústicas,
feitas de toros de madeira, grosseiramente cortados e reunidos.
Bastaria uma grande vaga para as desconjuntar. Jermak, que
presidira à sua construç¦o, disse aos seus carpinteiros:
 - N¦o pretendo navegar nestas jangadas! Destinam-se a outros
fins.

 Compreenderam o que ele pretendera dizer quando, nas jangadas,
foram erguidos cadafalsos munidos de grandes cordas. Mouchkov
parecia preocupado e, quando Marina o interpelou, respondeu numa
voz surda:
 - Há anos que conheço Jermak, deve ter as suas razSes! Nunca age
sem reflectir.
 Entretanto, Jermak mandara procurar o autor do crime.
Descobriram-se dois culpados, que foram conduzidos à presença de
um tribunal de cossacos, solidamente amarrados. Na manh¦ que
seguiu ao veredicto, Jermak mandou reunir todos os seus homens na
margem do Kama. Camponeses, artífices e empregados de Stroganov
acorreram em grupos e, quando Sime¦o Stroganov surgiu em pessoa,
acompanhado dos sobrinhos Nikita e Máximo, todos compreenderam
que iria ter lugar um acontecimento importante.
 Os dois assassinos foram transportados numa carroça.

 De cabeças rapadas e corpos nus, apenas cobertos com
serapilheira grosseira, pareciam atados como embrulhos, sem se
poderem mexer. Lançaram olhares assustados sobre os colegas e
jangadas, que continuavam a balançar à tona da água.
 Máximo Stroganov, que cavalgava ao lado de Jermak, debruçou-se
sobre ele. Os seus lábios tremiam. Na Rússia de ent¦o, n¦o se
perdia tempo. Se alguém devia perder a vida, logo havia quem lha
tirasse. E ninguém experimentava grandes emoçSes, quando se
enforcava, esquartejava, cegava, capava, arrancava a língua ou se
cortavam as orelhas a um condenado, ou quando este era amarrado a
um cavalo de corrida... Simplesmente, louva-se Deus por n¦o estar
no lugar do delinquente! Mas perante o que se iria passar nesse
dia, até um Stroganov estremeceria.
 - Pelo que vejo, a tua m¦o é singularmente dura - comentou
Máximo Stroganov, aproximando-se de Jermak Timofeiévitch. - N¦o
bastava enforcar os dois homens?
 - Nunca mato um amigo! - replicou Jermak, lançando um olhar
crispado aos condenados. - Nós, cossacos, somos todos irm¦os e
amigos, mas sabes t¦o bem como eu qual o preço a pagar para impor
o mesmo pensamento a quinhentas cabeças diferentes! N¦o, eu nunca
mato um amigo.
 Quando a carroça se abeirou do rio, Mouchkov e quatro cossacos
avançaram para ela. Ajudaram os dois condenados a descer e
depois, para grande surpresa de toda a assistência, desataram os
sacos de serapilheira em que se enrolavam e encheram-nos de areia
seca retirada da margem do rio. Em seguida, os sacos bem cheios
foram atados ao pescoço dos homens. Os quatro cossacos
transportaram penosamente os fardos até às jangadas e
prenderam-nas às cordas das forcas.
 - Larguem as amarras! - gritou Jermak.
 O pope Oleg começou a cantar com a sua voz tonitruante. Voz de
baixo que ressoava em toda a volta, pois um silêncio paralisador
oprimia os milhares de espectadores reunidos à beira do rio.
Ouvia-se apenas um leve assobio do vento. Mas n¦o era vento, era
a respiraç¦o laboriosa dos homens.
 Soltaram-se as amarras e, lentamente, à deriva, as jangadas
afastaram-se para o meio do rio, onde se detiveram, uma vez que
entre as duas margens pesadas pedras mantinham esticadas várias
cordas. Mouchkov, que embarcara na primeira jangada, agarrava-se
ao cadafalso com um sentimento de mal-estar evidente ao
aperceber-se da água que emergia entre as tábuas mal ajustadas da
jangada, e lançou novamente um olhar fugaz na direcç¦o de Jermak.
 - Vamos! Mergulhem-nos! - rugia Jermak, erguendo-se firme nos
estribos e olhando por cima da cabeça dos cossacos. - S¦o os
primeiros criminosos! Que o seu castigo sirva de exemplo!
Juro-vos que afundarei todo o homem que, de futuro, n¦o respeite
a disciplina instituída! Vamos!

 Lentamente, os sacos cheios de areia contendo os condenados
deslizaram para o Kama, imergindo até ao pescoço. Depois de
verificada a solidez das cordas, os homens que se encontravam nas
jangadas instalaram-se numa barca. Mouchkov foi o último a
afastar-se, sentou-se na barca e, empalidecendo, olhou fixamente
para as águas do rio. os dois condenados estavam calados.
Pareciam surpreendidos, ninguém os enforcava, ninguém os
decapitava, ninguém lhes fazia nada... A areia impregnava-se de
água e transbordava dos sacos como sopa a ferver ou leite
derramado. O peso começou a sufocar os homens, que sentiam uma
angustiante press¦o entre o pescoço e os calcanhares,
comprimindo-lhes a caixa torácica, impedindo-os de respirar,
esmagando-lhes as costas. Uma hora mais tarde, os dois homens
começaram a gritar. Silenciosos, imóveis, os cossacos continuavam
amontoados na margem do rio. Jermak avançou a cavalo entre as
filas de cavaleiros e, sempre que algum se mexia, perguntava-lhe:
- Queres ser o seguinte?
Uns atrás dos outros, os habitantes de Oriol regressavam em
silêncio a suas casas. os gritos selvagens, desesperados dos dois
homens mergulhados no Kama perseguiam-nos, e ficaram para sempre
gravados nas suas memórias.
Depois de Sime¦o e Nikita Stroganov terem partido, apenas Máximo
permaneceu na margem do rio perguntando a si mesmo se, com a
ajuda das suas gentes, n¦o deveriam pôr termo a semelhante
horror.
- Esqueça isto, meu bom Senhor! - sugeriu Jermak ao passar perto
de Máximo Stroganov e duvidando do que o outro projectava fazer.-
assim, eles n¦o morrem...
- Mas enlouquecem - respondeu Máximo, num murmúrio.
 Jermak n¦o fez comentários e afastou-se, a cavalo. Até ao
meio-dia, os condenados gritaram em uníssono. Depois, os seus
queixumes foram enfraquecendo, até se tornarem simples gemidos,
quase inaudíveis, pois o sussurro das águas do rio sobrepunha-se
às suas vozes. Continuavam vivos. A areia n¦o os esmagara, mas a
água fria roía-lhes os ossos e o sol crestava-lhes sem piedade os
crânios rapados.
 A pouca distância, afastado dos cossacos em silêncio, de pé à
beira do rio, estava sentado Alexandre Grigoriévitch Loupin, o
novo veterinário dos estábulos dos Stroganov. Observava a sua
querida filha Marina que se encontrava na primeira fila dos
cavaleiros reunidos à beira do rio. Firme nas pernas ligeiramente
afastadas, de boné vermelho enterrado no cabelo louro, como um
rapazote selvagem para quem n¦o soubesse o que a sua camisa
cossaca encobria. A seu lado encontrava-se Mouchkov, acabrunhado,
de rosto pálido. Loupin disse para consigo: "Deve ser ele! Por
causa daquele bandido, a minha Marinouchka fugiu-me! Grande
animal! N¦o foi ele que transportou os condenados para as
jangadas e que comandou a acç¦o dos carrascos? E ela ama-o? Que
se passará naquele coraç¦ozinho?"
 O papá Loupin suspirou. Mas continuava à espera. N¦o sabia se
Marina o teria visto; de qualquer modo, o terrível Jermak
acabaria por ordenar o regresso à cidade cossaca e, ent¦o, talvez
Marina passasse junto dele.
 à beira do rio, ainda ninguém se mexera. Só Jermak estava a
cavalo. Aguardava que alguém pedisse clemência para os dois
camaradas flutuando à tona do rio, mas todos os cossacos se
mantinham calados. Um silêncio opressivo. Contudo, alguém falava,
em voz baixa, de lábios quase cerrados. Era Marina. E Mouchkov, a
seu lado, n¦o podia ignorar o seu discurso.
 - Irei habitar algures! - dizia ela. - N¦o posso continuar ao pé
de um carrasco! N¦o olhes para mim, que me conspurcas!
 - Marinouchka! - gemeu Mouchkov. - Foi uma ordem! Tive de
obedecer! N¦o podia ser de outra maneira!
 - Podia, sim!
 - Mas n¦o com Jermak!

 - Também com ele!
 - E ent¦o eu seria o terceiro a ser enfiado no saco!
 - Se assim fosse, rebolar-me-ia com Jermak na primeira cama que
aparecesse!
 - Marinouchka! - Mouchkov revirou os olhos, como se estivesse
prestes a desfalecer. - Que podia eu fazer? Tratava-se de dois
assassinos!
 - N¦o tens um punhal?
 - E que querias que fizesse?
 - Eu, no teu lugar, quando me encontrasse a sós com eles na
jangada, tê-los-ia apunhalado através da serapilheira, a fim de
lhes poupar tamanho suplício.
 - É assim que pensas, tu? - balbuciou Mouchkov.
 - Ouviste-me perfeitamente.
 Mouchkov sobressaltou-se:
 - Chego a ter medo de ti! - murmurou ele num tom baço.
- E Marina respondeu, entre dentes:
 - Ainda bem que compreendeste, urso velho!
 Pelo calor do meio-dia, Jermak autorizou os seus homens a
regressar à cidade. E eles partiram apressados, como c¦es
acossados, em grupo ou isoladamente, tremendo Como varas verdes.
Jermak, o pope e Mouchkov permaneceram junto ao rio, assim como
alguns observadores enviados pelos Stroganov e que n¦o se sentiam
nada à vontade entre os cossacos.
 - Quando os retiramos da água? - perguntou o pope.
 - N¦o os retiraremos! - Jermak aplicou uma cotovelada em
Mouchkov. - Vai a remar até junto deles e corta as cordas
amarradas às pedras. Assim, poder¦o descer o rio com a corrente
e, se Deus se lembrar deles, sobreviver¦o.
 Mouchkov remou até à jangadas, subiu para os esquifes de madeira
flutuante e olhou, horrorizado, para os crânios rapados dos
supliciados. Tinham os olhos abertos e desvairados, mas das suas
bocas n¦o se ouvia nenhum som. Estavam vivos, mas muito próximo
da demência.
 Mouchkov soltou as cordas e as jangadas derivaram lentamente,
transportadas pela corrente do rio. Os sacos e os condenados
neles encerrados flutuavam, desapareciam sob as ondas, emergiam
ao sabor do ritmo das águas.
 De repente Mouchkov sobressaltou-se e agarrou-se à borda da
canoa. Um dos condenados, o cossaco Andréi Petrovitch, começara a
rir ruidosamente, um riso dilacerante, demente. Riu até que uma
vaga penetrou na sua boca aberta.
 - Tinha de ser! - declarou mais tarde Jermak, quando Mouchkov
acostou, de rosto pálido e tremendo dos pés à cabeça. - Ivan
Matveiévitch, como dominar meio milhar de homens? E, no próximo
ano, ser¦o mil, estou certo disso. Portanto, quero que todos se
lembrem do que se passou esta manh¦!
 Entre os últimos cossacos a afastar-se do rio, encontrava-se
Marina. Passou por um homem sentado à beira do caminho sem sequer
lhe dirigir o olhar. Mas quando ele assobiou baixinho - o famoso
assobio de Loupin outrora conhecido em todo o Novo Orpotchkov -
voltou imediatamente a cabeça. Parou, puxou o boné para trás com
um gesto desenvolto e fingiu troçar do velho, à maneira de um
insolente jovem cossaco em busca de conflitos. Contudo, dizia em
voz sumida, estrangulada pela emoç¦o:
 - Assististe a tudo, paizinho?

 - A tudo, minha filha, até ao mais ínfimo pormenor! Segundo me
pareceu, escolheste um companheiro diabólico!
 - Foram ordens de Jermak!
 Nesse momento, Marina cuspiu aos pés do pai. Viu-se obrigada a
realizar este gesto insultuoso porque três cossacos, ao passarem
por eles, dirigiram-se a Marina:
 - O velho tem uma filha e quer vender-ta? Boris Stepanovitch,
n¦o te deixes enganar! Mete-lhe uma vela por debaixo das saias,
para te certificares de que possui tudo aquilo de que necessitas!
 Os cossacos afastaram-se, rindo.
 - Ivan Matveiévitch n¦o obedeceu de boa vontade, papá -
justificou-se Marina, alvoroçada -, e nunca mais fará nada de
semelhante! Estarei atenta!
 - Tu? - Loupin fixou demoradamente a filha. - Nunca farás de um
cossaco um homem sensível!
 - Preciso de tempo!
 Tirou o boné e serviu-se dele para esbofetear o rosto enrugado
do pai, sem violência, mas com um gesto suficientemente teatral
para dar a entender, a um eventual observador, que batera
realmente no velho. Representaç¦o necessária, pois Jermak estava
justamente a observá-los. De quanto tempo precisa um urso para
aprender a dançar? Ora, Mouchkov era mais obtuso do que um urso!
Marina voltou a enfiar o boné vermelho na cabeça.
 - Como v¦o os teus cavalos, papá?
 - Bem, bem! N¦o está nenhum doente. - Loupin suspirou. O seu
coraç¦o de pai estava t¦o pesado como a mó de um moinho. - Como é
possível amar um indivíduo como Mouchkov?
 - N¦o sei explicar, papá. De repente, aconteceu.
 Marina encolheu os ombros e, como, ao realizar este gesto, a
camisa se lhe colou ao peito, o pai Loupin apercebeu-se de que a
filha estava a tornar-se verdadeiramente uma mulher. Os seus
seios desenvolviam-se magníficos.
 - Quem sabe donde vêm as estrelas? - perguntou Marina.
 - Foi Deus que as criou, Marinouchka.
 - E também se lembrou de criar o amor! Poderemos opor-nos à sua
vontade?
 Marina prosseguiu o seu caminho, depois de simular um pontapé no
traseiro do velho. Loupin caiu para trás - era um refinado
comediante! - e deixou-se ficar a estrebuchar.
 "Tenho uma filha bastante desembaraçada ", pensou ele, muito
orgulhoso. "Tem resposta para tudo. Mas como conseguirá ela, de
futuro, ocultar a sua identidade?"
 E Loupin sentiu um suor frio percorrê-lo da cabeça aos pés.

 Podemos pensar de Mouchkov o que entendermos. Mas, de homem para
homem, convenhamos que era digno de piedade.
 A mais ampla das cavalariças fora aumentada, compreendendo agora
numerosos compartimentos. As prostitutas que os habitavam
ganhavam bem a vida, tal como os Stroganov, de resto, que
recebiam uma parte da receita.
 Os cossacos tinham adquirido melhores modos. Alguns deles,
poetas nas horas livres, celebravam o olhar ardente de Olga
Maximovna, ou as alvas coxas de Irina Grigoriévna. Daí resultavam
estribilhos variados, dos quais, porém, nem todas as palavras
podem ser divulgadas. Em suma, reinava a satisfaç¦o entre os
homens de Jermak: todos eles dispunham de carne fresca a seu
belo-prazer... todos, menos um.

 De facto, Mouchkov vivia como um monge. Cobria Marina de olhares
apaixonados, pensava na punhalada sofrida e evitava novos
assaltos de surpresa.
 Quando Jermak e os outros se dirigiam para o bordel, quando até
mesmo o pope, preocupado com a sorte das suas almas, se
consagrava às recém-chegadas - os Stroganov zelavam pela
renovaç¦o dos efectivos -, Mouchkov deambulava, inactivo,
maldizendo o dia em que passara por Novo Orpotchkov. Por vezes,
sentia necessidade de exteriorizar e gritava, grosseiro:
 - Sou um homem!
 Numa noite em que Jermak e o pope, de braço dado e bastante
avinhados, saíram ao encontro das prostitutas, Mouchkov n¦o se
conteve e perguntou a Marina:
 - E tu, minha flor, sabes o que é um homem?
 - Já que dizes que és um homem, deve ser alguém parecido
contigo! - replicou Marina. Estas respostas desarmavam Mouchkov,
que necessitava sempre de um certo tempo de reflex¦o antes de ser
capaz de admirar a presença de espírito de Marina.
 Desta vez também reflectiu mas, sujeito às suas próprias
sensaçSes, rugiu:
 - Vou rebentar!
 - Gostaria de ver, Ivan Matveiévitch!
 - Nem acreditarias no que visses, se eu despisse as calças!
 Marina sorriu suavemente, pegou no punhal curvo pendurado à
cinta e pousou-o sobre as coxas bem apertadas:
 - Tem cuidado, Ivan Matveiévitch, os ramos mais fortes também se
podam!
 - Serias capaz? - gaguejou ele, recuando.
 - Sem hesitar.
 - Desgraçado de mim! - gritou Mouchkov, rangendo os dentes.
- Quanto tempo durará ainda mais esta brincadeira? Amo-te,
ouviste? Amo-te, Marinouchka, a ponto de ter vontade de te
despedaçar! Se soubesses o que é um homem, n¦o me atormentarias
assim. - Deu um passo em frente, mas manteve-se a uma distância
prudente de Marina. - Sabes perfeitamente que também me amas!
 - É verdade! - concordou ela.
 Era a primeira vez que o confessava t¦o abertamente.
 Mouchkov sobressaltou-se, passou a m¦o pela cabeleira hirsuta e
suspirou:
 - Tu... tu concordaste - balbuciou ele. - É mesmo verdade que me
amas?
 - E por que raz¦o teria continuado junto de ti?
 - E como será o nosso futuro? Mesmo amando-nos iremos passar a
vida a olhar um para o outro, como num sonho? Marinouchka, uma
mulher consegue resistir assim tanto? As mulheres n¦o s¦o
diferentes de nós?
 - N¦o há nenhuma diferença, Ivan Matveiévitch!
 - Ent¦o vem! - exclamou ele, abrindo os braços.
 Mas o punhal já familiar para Mouchkov brilhou imediatamente nas
m¦os de Marina, impedindo-o de avançar um passo que fosse.
 - Tu ainda és um cossaco! - declarou ela, marcando as palavras.
 - E nunca serei outra coisa! - gritou ele.
 - Nesse caso, n¦o haverá nada entre nós, ursinho - concluiu
Marina tranquilamente.

 Mouchkov afastou-se, jurando que levaria para o quarto cinco
mulheres ao mesmo tempo. Mas, quando se viu ao relento, sentou-se
num cepo de madeira, estendeu as pernas e bateu com os
calcanhares no ch¦o. N¦o servia de muito, mas sempre transmitia
parte do seu desespero à terra lavrada.

Capítulo 5

 Os anos passam com uma rapidez incrível. Mal chega o Ver¦o e nos
deitamos nos verdes prados, logo um vento gelado soprando do
norte varre todo o bem-estar estival.
Choveu durante uma semana, os campos estavam saturados de
humidade, os caminhos tornaram-se impraticáveis e o céu parecia
t¦o baixo que quase se podia tocar com a m¦o... E depois veio a
neve, e o gelo. O Kama solidificou-se. Os habitantes de Oriol
fendiam o gelo com o auxílio de um machado, para poderem pescar.
Um pro fundo silêncio desceu sobre os campos. Os caçadores
entrelaçados, ou em trenós puxados por renas pPerseguiam linces,
arminhos, zibelinas, visSes e raposas brancas. A riqueza da
floresta transportava-se para casa dos Stroganov.
 Os cossacos entediavam-se. Teriam vindo para o país de Perm para
cochilar e galhofar com mulheres, de vez em quando? Os Stroganov
n¦o tinham prometido um rico espólio, do qual se apoderariam num
país chamado Mangaseja? Tinham sonhado com conquistas ou, ainda,
como declararam ao czar, com cruzadas contra o pag¦o Koutchoum
para lá da barreira rochosa dos Urales.
 Tinham sonhado com ouro e pedras preciosas e, afinal, que lhes
restava? Tarefas de morrer de tédio, alguns jogos equestres para
evitar a "ferrugem", rixas com os homens de Oriol, sempre por
pequenos nadas entre os quais figuravam as mulheres e, além
disso, os "exercícios" instituídos por Jermak, uma novidade a que
os cossacos se submetiam com ilimitado espanto.
 Começaram pela reorganizaç¦o das tropas. O exército particular
dos Stroganov contava presentemente com oitocentos e quarenta
homens que Jermak dividiu em pelotSes de cavalaria, todos eles
comandados por capit¦es. Seguiam-se os grupos de cinquenta e cem
homens. A velha ordem cossaca de tempos heróicos, durante muito
tempo esquecida, renascia. O chefe de todos os comandantes era
Jermak e o seu adjunto, Ivan Mouchkov. Neste aspecto, nada
mudara.
 O que era novo, era a nomeaç¦o de um adjunto encarregado de
transmitir as ordens de Jermak aos chefes das formaçSes de
cavalaria. Gratificado com o melhor e mais rápido cavalo do
exército, o adjunto, em pleno combate, devia assegurar a ligaç¦o
entre o comandante supremo e os pelotSes de cavaleiros, e
vice-versa. Para este cargo importante Jermak escolheu o jovem
Boris Stepanovitch. E, quando Jermak abraçou o companheiro Boris
para o felicitar pela promoç¦o que lhe concedera, Mouchkov teve
de fazer um esforço para n¦o gritar.
 Marina já completara dezasseis anos e n¦o podia ser mais
feminina. De seios redondos e firmes, de coxas bem torneadas, as
elegantes pernas calçando as grandes botas cossacas como hastes
de roseiras mergulhadas numa jarra... era o que Mouchkov pensava,
tornando-se poeta ao contemplar Marina.

 O seu rosto perdera a harmonia da infância, mas assumia agora
uma beleza singular. Os olhos de Marina continuavam alegres e
azuis, mas o contorno da boca afirmara-se, realçando as maç¦s do
rosto quando sorria. Nestes momentos os dentes brilhavam-lhe, a
língua passava pelos lábios com uma rapidez serpentina e Mouchkov
recomeçava a sonhar. "Ah! Santo André", pensava ele, "o meu
coraç¦o deixará de bater quando um dia a tiver finalmente nos
meus braços!"
 E, entretanto, Jermak abraçava Marina e Mouchkov assistia a este
espectáculo com uma sensaç¦o de terror que lhe gelava as
entranhas. "Se for um tudo-nada perspicaz, aperceber-se-á de que
Boris é uma rapariga! N¦o poderá deixar de sentir a press¦o dos
seios! Qual o homem que n¦o reage a estes contactos? E Jermak é
um macho famoso!"
 Mas nada aconteceu. Jermak afastou-se de Boris Stepanovitch e,
em seguida, os chefes de pelotSes e de formaçSes de cavalaria
avançaram em grupo para cumprimentar o jovem eleito. Que sucesso!
Passara-se apenas um ano depois da captura de Marina e já fora
nomeada para o posto de agente de ligaç¦o, graças aos seus dons
sequestres.
 - Reparaste que estiveste próximo da morte? - perguntou
Mouchkov, com a voz embargada pelo susto quando, por fim, se
encontrou a sós com Marina. - Se Jermak descobrisse que és uma
rapariga...
 - Que terias feito ent¦o, Ivan Matveiévitch? - perguntou ela, de
m¦os na anca e boné às três pancadas sobre o cabelo louro, agora
um pouco mais comprido, o que lhe conferia ao rosto a suavidade
que tanto assustava Mouchkov.
 - Nada! Que poderia eu fazer?
 - Matar Jermak, por exemplo! - respondeu ela, esboçando um
sorriso suave. - Terei de ser eu a ensinar-te tudo?
 - Estás louca! - gaguejou Mouchkov. - Marinouchka, estás louca!
Seria absolutamente impossível.
 - Quando se ama, a palavra impossível n¦o existe.
 - Morrerias, ent¦o, por mim se me acontecesse alguma coisa? -
perguntou Mouchkov, respirando ruidosamente.
 - Sempre, fosse qual fosse o caso, Ivan Matveiévitch! Sempre!
Quem te matar, será morto por mim.
 - Amas-me assim tanto?
 - Sabe-lo bem.
 - N¦o, n¦o sei! - gritou Mouchkov, arrepelando os cabelos. - Nem
sequer te posso abraçar!
 - Quem sabe... - murmurou Marina, voltando-se.
 Lançou a cabeça para trás num movimento provocante e afastou-se,
requebrando-se, o que fez subir o sangue à cabeça de Mouchkov...
e a outra parte do corpo também.
 - Aos poucos, estás a tornar-te um ser humano! - declarou Marina
por cima do ombro. - Pensa bem e descobre uma maneira de
ocultarmos o nosso amor! N¦o podes dormir na mesma cama que o
adjunto de Jermak, que te poria imediatamente a flutuar no rio,
enfiado num saco de areia!
 Emudecido, e boca aberta como uma r¦ gigante, Mouchkov viu-a
afastar-se.


 Veio a Primavera, a do ano de 1581. As árvores floriram mas, nos
campos, a água proveniente do degelo ainda estagnava, pois sob a
camada superficial de terra amolecida, o gelo continuava a
resistir nas profundezas do solo. Os habitantes de Oriol voltavam
a pescar no Kama e os Stroganov faziam o balanço de um frutuoso
Inverno...
 Mas era tudo no que se refere a actividades.
 Nada de novo quanto ao país das maravilhas, Mangaseja. Nem o
mais leve rumor quanto a uma expediç¦o militar em preparaç¦o,
nada que dissesse respeito às riquezas prometidas aos cossacos.
Presentemente, o exército contava com mil homens, e encontrava-se
preparado para combater; mantinha uma disciplina de ferro, um bom
treino depois de Jermak ter sido obrigado, por quatro vezes, a
suspender criminosos à tona das águas ou, num caso particular -
tratava-se de um cossaco que assassinara um camarada -, a
enterrar vivo o culpado. O mais terrível é que Marina, como
adjunto e porta-voz de Jermak, era obrigada a ler a sentença de
morte em nome dele. Uma vez cumprido este dever, Marina
gratificava sempre o inocente Mouchkov com algumas bofetadas
mestras, fungando ruidosamente. Mouchkov sofria estes maus tratos
em silêncio, sabendo que ela se aliviava assim do seu desgosto,
do seu horror. Além dele, quem poderia Marina espancar? Ele era
dela e partilhava a sua desolaç¦o.
 Em seguida, Marina correu ao Kremlin dos Stroganov, em busca do
pai. Contudo, o sensato Loupin, esse pai único no género,
pegou-lhe pelo braço e arrastou-o até à capela dos Stroganov,
onde acendeu uma vela benta, rezando ao pope para que perdoasse
os pecados a este jovem cossaco e o abençoasse.
 - Isto n¦o pode continuar assim - anunciou Jermak, num dia do
mês de Maio, a Máximo e Nikita Stroganov.
 O tio Sime¦o, o último da sua geraç¦o que ainda podia olhar de
frente para o czar Ivan, o Terrível, enquanto os mais jovens se
prostravam diante dele de rosto no ch¦o, retirara-se para um
mosteiro, onde definhava. Era, de resto, uma tradiç¦o dos
Stroganov. No fim dos seus dias - e eles sabiam exactamente
quando chegava a sua hora - abandonavam as suas imensas riquezas
e iam viver para uma cela de um convento, a fim de se
encontrarem, nesta humilde condiç¦o, mais próximos de Deus quando
este os chamasse. Assim se comportara também Anika Stroganov, o
grande sagre que, de uma simples família de mercadores, fizera
uma grande potência russa: sentindo aproximar-se a morte,
instalou-se no mosteiro de Sohtchegodsk e optou pelo nome de
irm¦o José.
 - E n¦o continuará, Jermak Timofeiévitch - respondeu Nikita
Stroganov, que era o chefe militar da família. Máximo ocupava-se
essencialmente dos assuntos comerciais e da gest¦o do património.
- Tu tens raz¦o, mas pensa no seguinte: conquistar a Sibéria e
aniquilar o exército de Koutchoum é uma empresa perante a qual o
próprio czar recua.
 - O czar é um velho palrador! - exclamou Jermak com altivez. -
Ele que se ocupe do bordel e nos confie os destinos da Sibéria!
 - Mas será a força do nosso exército...
Jermak interrompeu Nikita:
 - Um homem destemido vale mais do que cem indecisos! Somos um
milhar de combatentes: Koutchoum dispSe de cem mil guerreiros?
 - Vamos examinar a situaç¦o.
 Nikita Stroganov dirigiu-se para uma grande mesa sobre a qual se
encontrava desdobrado um gigantesco pergaminho representando um
mapa geográfico do país de Perm, com rios, colinas, montanhas,
lagos, cidades e aldeias, praças fortes, caminhos e pântanos.

 - Temos algumas preocupaçSes, Jermak - disse Máximo Stroganov,
que até ent¦o se mantivera calado.
 - PreocupaçSes? Com mil cossacos dispostos a combater?
 - Aqui - Nikita apontou com o indicador para uma das regiSes do
enorme mapa -, aqui encontram-se os rios Sylva e Tchousovaia. Nas
margens situam-se boas aldeias, um solo fértil que outrora
desbravámos, belas peles de animais. Há quatro dias que nove
aglomerados se encontram em chamas! Moursa Begouly atacou-os com
setecentos Vogulos e Ostíacos, e pilhou-os antes de os incendiar.
 - Quem é esse Moursa Begouly? - perguntou tranquilamente Jermak
contemplando o mapa.
 - É um príncipe que até agora pagava tributo e permanecia calmo.
De repente, revoltou-se, já n¦o reconhece o czar e invadiu o
país.
 - Seja bem-vindo! - exclamou Jermak, sorrindo. Nikita Stroganov,
os cossacos provar¦o o que entendem por vitória!
 - Conto com essa prediç¦o - respondeu Nikita Stroganov, cruzando
as m¦os sobre o mapa de tal maneira que a ponta dos dedos
assentou nos Urales. - Se venceres, Jermak, o caminho para a
Sibéria ficará livre!

 O dia 22 de Julho nasceu claro e luminoso. O país brilhava, como
que polido, mas o solo encontrava-se seco e o pó elevava-se do
ch¦o quando os cavalos percorriam os campos. Que dizer, ent¦o, da
nuvem de poeira provocada por mil cossacos galopando nos seus
pequenos e velozes cavalos no rasto dos lanceiros, de estandarte
ao vento, e dos tocadores de trombeta! Dir-se-ia que a terra
estava prestes a explodir. Qualquer coraç¦o pararia de pulsar à
vista de tanto poderio selvagem.
 Numa estepe perto do Sylva, encontraram-se pela primeira vez os
pequenos ostíacos e os Vogulos de olhos amendoados, contra os
cossacos de Jermak, que n¦o cabiam em si de alegria perante a
iminência do combate!
 Encontravam-se frente a frente. Dois pequenos exércitos. Nenhum
deles tinha outra soluç¦o sen¦o o aniquilamento do adversário.

 Moursa Begouly, que, como Jermak, se encontrava à frente das
suas tropas, protegeu os olhos com a m¦o a fim de ver melhor
contra a reverberaç¦o do sol. Ignorava o que seria um cossaco.
Pensava defrontar nova mente camponeses, angustiados e ansiosos
por se defender, servos de Stroganov como aqueles, muito
numerosos, a quem já tinham esfacelado o crânio.
 - Derrotá-los-emos! - gritou Moursa Begouly. - Em frente!
 Nesse mesmo instante, Jermak gritava também, de sobrolho
carregado:
 - Ao ataque! Carregar! Corneteiros, dêem o sinal!
 - Endireitou-se nos estribos e ergueu o punho para o céu
escaldante.- Boris Stepanovitch, a terceira e a quarta centúrias!
Formaç¦o em leque! Para a frente, cossacos!

 Um ruído ensurdecedor veio encobrir o dia luminoso, tendo-lhe
respondido um clamor ostíaco e vogulo impressionante. Marina
obrigou o cavalo a dar meia volta e, nesse instante, apercebeu-se
de que Mouchkov perdia o controlo dos seus nervos. O medo que
sentia por Marina parecia privá-lo de tudo o que a vida de
cossaco lhe ensinara. Em vez de permanecer ao lado de Jermak, que
galopava na dianteira, manteve-se no flanco da carga de cavalaria
a fim de proteger Marina.
 à sua volta gritava-se ao ataque, esvoaçavam crinas, acometiam
cossacos de lanças espetadas, galopavam de pé nos estribos os
portadores de armas de fogo, carregando contra os asiáticos de
Begouly.
 Ainda antes das ordens transmitidas por Marina, desdobrou-se o
famoso leque cossaco. As formaçSes dispersaram a galope e
escalonaram-se, demónios furiosos ao ataque do adversário. Os
cascos dos cavalos ressoavam no solo poeirento como um clamor de
tempestade, as trombetas soltavam apelos estridentes, as lâminas
dos sabres e as pontas das lanças brilhavam ao sol.
 - Marina! - rugiu Mouchkov, do fundo do coraç¦o, pondo de lado
toda a prudência. - Pára!
 - Ivan! - gritou ela como resposta -, fica comigo!
 Mas, em seguida, foram arrastados, arrebatados pelo galope dos
seus cavalos, ultrapassando os outros cavaleiros. Subitamente,
contra a sua vontade, encontraram-se de novo à frente dos
cossacos. De facto, além de Jermak, eram eles que montavam os
melhores cavalos.
 Lançados contra eles, envolvidos numa nuvem de pó amarelo,
guinchavam, como um bando de macacos, ostíacos e vogulo.
 - N¦o podes morrer! - gritou Marina. - Ivan, amo-te!
 Depois aconteceu algo que, na confus¦o geral, n¦o foi visto por
ninguém, tanto mais que a poeira encobria tudo e que todos
olhavam em frente, ávidos de ver o homem que pretendiam matar...
Mouchkov desequilibrou-se devido a um choque violento, rebolou
pelo ch¦o e ficou estendido, imóvel, tapando a cabeça com os
braços, à espera de que cem pares de cascos o pisassem até à
morte. Mas sobreviveu e, apesar de rudemente massacrado, cedo
viu-se simplesmente envolto numa camada de pó. Ouviu com nitidez
os dois exércitos que se defrontavam a pouca distância e os
primeiros gritos de morte que trespassavam a nuvem de pó.
 Sentou-se no ch¦o, viu que o seu cavalo se encontrava perto e,
mesmo ao lado, o cavalo de Marina, enquanto esta, de pé, assente
nas pernas afastadas com firmeza e de pistola em punho, com o
boné vermelho descaído para trás, fixava insistentemente os
combatentes.
 Mouchkov ergueu-se com dificuldade e aproximou-se de Marina,
coxeando:
 - Caí do cavalo - disse ele, cuspindo para o ch¦o. - Pela
primeira vez na minha vida, caí do cavalo durante um ataque do
inimigo! N¦o compreendo...
 - Talvez te tenham empurrado! - sugeriu Marina, tranquilamente.
 Um vogulo isolado, que conseguira transpor a formaç¦o em leque
dos cossacos, avançava para eles, gritando.
 Marina ergueu a pistola, visou e disparou sobre o homenzinho de
raça amarela. Mouchkov arrancou-lhe a arma e fixou Marina,
desconcertado.
 - Falaste em empurrar? - perguntou ele.
 - Sim, fui eu que te deitei abaixo do cavalo! Preciso de ti
vivo, e estás vivo! Amo um homem e n¦o uma cruz espetada num
monte de terra. Ivan Matveiévitch, sinto-me t¦o feliz por ter
conseguido...
 Marina pôs-se em bicos de pés e deu-lhe um beijo.
 - Sinto-me t¦o confuso! - declarou Mouchkov em voz surda. - Por
todos os santos, já n¦o sou um cossaco.
 O pequeno exército de Moursa Begouly, os velozes ostíacos e
vogulos de olhos amendoados, foram batidos até à derrota total.
Os cossacos de Jermak limparam o terreno como se se tratasse de
destruir um viveiro de ratos. A galope, abriam fogo sobre a massa
dos cavaleiros inimigos e depois baixavam as lanças ou brandiam
os iatag¦s, gritando vitoriosamente perante o prazer demoníaco de
matar.
 Durante mais de um ano, os cossacos tinham esfriado, pois como
única distracç¦o apenas tinham exercícios militares t¦o
fastidiosos que acabaram por abominar os ataques simulados contra
recipientes de madeira enterrados no ch¦o ou fantoches feitos de
palha. Agora, munidos de sabres curvos, investiam contra homens
de raça amarela projectando-os para longe das selas como
camponeses que revolvem o feno. Abriam-lhes as cabeças,
esmagavam-lhes os ombros, empalavam-nos entre gritos: Ho+! Ho+!
Os homens de Moursa Begouly nunca tinham enfrentado semelhantes
assaltos. A resistência dos colonos que atacavam parecia-lhes
natural. As violentas lutas contra as tropas dos Stroganov que os
defendiam nas suas praças fortes eram combates leais. Mas o que
agora se passava, quem atacava a galope, gritando e rindo,
inebriados de uma raiva inextinguível, n¦o pareciam seres
humanos, e deviam vir de outro mundo! Neste caso, restava apenas
uma soluç¦o: a retirada, a fuga!
 O exército dos cavaleiros de Moursa Begouly foi aniquilado. Para
todos os lados fugiam homens montados em pequenos cavalos,
fazendo-se ainda mais pequenos nas suas selas, embora se tornasse
perfeitamente inútil qualquer artimanha. Os cossacos perseguiam
os fugitivos um a um, como galinholas, enchendo os gnomos
cavaleiros de estocadas, até caírem por terra.
 Mouchkov e Marina também se encontravam nos respectivos cavalos
e deviam abrir fogo ou atacar com os sabres os cavaleiros que
fugiam em debandada para a estepe, acometidos de verdadeiro
pânico. Mouchkov protegia Marina com o corpo e esta aproveitava
para recarregar a arma, disparando em seguida por cima do ombro
do companheiro.
 N¦o se perdia nenhum tiro. Mas os disparos dos mosquetes dos
cavaleiros, passando pelos ouvidos, provocam detonaçSes às quais
nenhum tímpano resiste. Após quatro tiros, Mouchkov já n¦o ouvia
o barulho provocado pelos combates. O aniquilamento
desenrolava-se à sua frente como um sonho silencioso e mesmo
quando Marina lhe gritou aos ouvidos, aproveitando uma pausa:
"Amo-te, meu velho!", reteve apenas a palavra "velho",
perguntando a si mesmo em que é que teria errado mais uma vez.
 Jermak abeirou-se deles quando se encontravam rodeados de
feridos gemebundos e de alguns mortos. Contornou o massacre e
interpelou o adjunto e o ajudante.
 - As tropas est¦o sem comandante! - gritou ele. - Que fazem
aqui?
 Mouchkov, mais uma vez, n¦o ouviu nada. Olhava o chefe,
sorrindo, julgando que Jermak o felicitava.
 Marina, pelo contrário, replicou t¦o alto quanto possível:
- N¦o nos escondemos borrados de medo, batemo-nos tal como tu! -
Apontou para os mortos e feridos.
 - Pensas que se estenderam no ch¦o de livre vontade?
 - O meu adjunto deve permanecer ao pé de mim! Quê?

 - Os cavaleiros n¦o formaram em leque - perguntou Marina.
 - Dei outras ordens. Quem é que n¦o estava presente para as
transmitir? Boris Stepanovitch! - Jermak avançou para ela,
perguntando com os seus olhos frios e impiedosos: - Também queres
ser suspenso no rio, rapaz?
 - Empurraram Ivan, que se desequilibrou - esclareceu ela,
calmamente. - Ajudei-o a levantar-se e, quando montámos de novo,
apercebi-me de que os outros já iam longe. Devia ter permitido
que ele fosse pisado? É assim que demonstras a tua amizade,
Jermak Timofeiévitch? .
 Este fitava-a, desconcertado. Desde que comandava os cossacos,
nunca ninguém ousara falar-lhe neste tom. Só a sua palavra
contava, n¦o admitia ser contrariado.
 Os cossacos nunca tinham tido nenhum rei, mas Jermak reinava
como um déspota.
 - Manda tocar a reunir! - ordenou Jermak com dureza. - Os homens
de Moursa Begouly ainda vivos que desapareçam, e propaguem a
notícia de que se iniciou uma nova época, que nós mesmos
introduziremos. N¦o é verdade, Boris Stepanovitch?
 - Talvez - respondeu Marina, cuja desenvoltura impertinente
surpreendeu Jermak ainda mais. - Mas essa época nova precisa n¦o
só de homens fortes como também de bom senso!
 Dito isto, Marina deu meia volta e partiu a galope. Jermak
seguiu-a com o olhar e, depois, assentou uma palmada no ombro do
sorridente Mouchkov.
 - Este tipo está a tornar-se insolente - observou Jermak. - É
preciso vigiá-lo, Ivan Matveiévitch!
 - N¦o ouço nada, irm¦o - respondeu Mouchkov, desculpando-se com
um sorriso.
 Aos seus ouvidos chegava apenas um zumbido confuso, como se
tivesse a cabeça mergulhada no mar Negro. Jermak endereçava-lhe
certamente palavras amigas, pois a palmada no ombro exprimia uma
franca amizade - conhecia o gesto.
 - N¦o te rias de maneira t¦o estúpida! - gritou Jermak. - Como é
que pudeste cair do cavalo?
 - Sim, sim - respondeu Mouchkov que, continuando sem ouvir nada,
n¦o parava de sorrir.
 - Endoideceste? - gritou Jermak.
 - N¦o ouço absolutamente nada - respondeu Mouchkov, gritando
também. Jermak vacilou ao ouvir a sua voz tonitruante, mas
poder¦o os surdos controlar a voz? - Boris disparava mesmo junto
do meu ouvido! Como poderia resistir?
 Recusando-se a tratar Mouchkov como deficiente, Jermak deu meia
volta, sempre montado no seu cavalo, e partiu em busca de Marina,
que transmitia aos corneteiros as ordens dadas pelo seu superior.
 Acercou-se dela no auge de um combate entre cinquenta cossacos a
cavalo, atacando em todas as direcçSes, e um grupo de vogulo em
fuga. Marina apoderava-se, nesse preciso momento, do estandarte
de um porta-bandeiras que, ferido por uma flecha, vacilava na
sela.
 - N¦o tens medo, rapaz? - gritou-lhe Jermak. - E sentes prazer
em matar, sem dúvida?
 - Matar é um acto terrível, Jermak Timofeiévitch! - respondeu
Marina, espetando o pau da auriflama no estribo. Parecia Joana
d'Arc, mas quem conhecia a virgem de Domrémy na longínqua e
ignorante Rússia? - Procedo deste modo para me proteger, tal como
Mouchkov. Mas detesto os combates!

 - Lutamos pela cristandade! - observou Jermak taciturno.
 - Bem sei.
 Marina riu-lhe na cara e, de repente, Jermak pensou:
 "Bem podia tratar-se de uma rapariga! Este Boris Stepanovitch é
demasiado bonito para ser rapaz... n¦o me surpreende que, ao
vê-lo, haja quem tenha pensamentos estranhos..." Nas faces de
Boris desenhavam-se duas covinhas: n¦o há cossaco que n¦o minta
descaradamente... E, ent¦o, Jermak também se riu, exclamando:
"Ho+ Ho+", e partiu a galope em direcç¦o a um grupo de cavaleiros
que por sua vez perseguiam alguns ostíacos. A vitória foi
esmagadora, os Stroganov mostraram-se muito contentes. Como
recompensa, pagaram a Jermak cinco mil rublos em ouro, uma
fortuna fabulosa no ano da graça de 1581.

 Nikita e Máximo puderam aperceber-se de que a prova tinha sido
positiva. O poder combativo do seu pequeno exército era evidente.
Bem treinado, poderia arriscar-se a transpor os Urales,
penetrando no lendário país de Mangaseja. A Sibéria estava
amadurecida para a conquista.
 Tudo o que se sabia desse país imenso - segundo os relatos dos
caçadores de peles e dos monges peregrinos, que conservavam as
memórias de Santo Estefánio, o primeiro religioso a ter
percorrido sozinho essas paragens desconhecidas - foi novamente
compilado. Desenharam-se mapas de acordo com essas escassas
informaçSes, conhecia-se a existência dos grandes rios Tobol e
Irtych, do calmo Toura e do pedregoso Toungouska. N¦o se
ignoravam as florestas incomensuráveis, os pântanos, as riquezas
ilimitadas em castores, zibelinas e raposas. Ali, a riqueza
rasava simplesmente o solo e ninguém se preocupava!
 Conquistar o país para a cristandade... era esse o pretexto
oficial. Na realidade, tratava-se de obter uma riqueza imensa,
destinada ao czar de Moscovo, aos Stroganov, a Jermak e ao seu
bando de selvagens... tarefa que jamais se apresentara a um
homem.
 Até mesmo o velho e sábio Sime¦o Stroganov abandonou o retiro no
mosteiro Solvytchegodsk partindo rumo às margens do Kama, tanta
importância atribuía ao momento histórico: a realizaç¦o do grande
projecto!
Aquilo que o czar Ivan concedera aos Stroganov pelo decreto de
1574: autorizaç¦o para agir livremente, dava enfim frutos. Os
Stroganov seriam os homens mais ricos do mundo se a expediç¦o de
Jermak à Sibéria fosse um sucesso.
 Numa bela noite, saiu do Kremlin dos Stroganov um mensageiro a
fim de ir convidar Jermak, da parte dos senhores do país.
 - Venham comigo! - ordenou Jermak a Mouchkov e Marina. - E
coloquem-me cem homens de sentinela à frente do Kremlin: que
ninguém apanhe Jermak distraído!
 Na sala de audiências da residência dos Stroganov estava posta a
mesa gigantesca. Havia vinho de França, um porco assado inteiro,
aves, pratos de legumes e fruta. Lindas raparigas, elegantes e
louras, da Livónia, serviam à mesa, substituindo os pagens, e um
pequeno grupo de músicos, tocadores de flauta e címbalo, e de
viola, encontrava-se por detrás de um grande reposteiro de seda
da China, acompanhando a refeiç¦o com as suas melodias.

 Jermak estava alerta como um pássaro preso numa gaiola dourada.
Sempre atento, pesava bem todas as palavras e preparava-se para
uma grande revelaç¦o, pois o convite só assim teria sentido.
Conhecia suficientemente os Stroganov. E a presença do velho
Sime¦o provava, claramente, só por si, que nesse mesmo dia iria
ser tomada uma grande decis¦o.
 Máximo, o comerciante, encarregou-se de entrar no assunto depois
de, por várias vezes, ter sido servido vinho em taças de prata
vindas de França. Nikita, por seu lado, desdobrara alguns mapas
em cima de uma mesa, cobrindo-os em seguida com uma tapeçaria dos
Gobelins. Sime¦o, a velha raposa, vestia hábito de monge e
sentava-se à mesa dos ágapes, parecendo ausente deste mundo,
embora fosse ele, na realidade, o espírito superior que tudo
decidia e dirigia. Elaborara a lista das diversas missSes a
realizar, estava tudo escrito, faltavam apenas as assinaturas dos
"encarregados de miss¦o". Todas as acçSes dos Stroganov eram
regidas por contratos em regra.
 - Jermak Timofeiévitch - começou Máximo Stroganov -, hoje é um
grande dia!
 - Já comi carne de porco muitas vezes! - replicou
 Jermak prontamente.
 - Um dia, poderás comer como um boiardo!
 - Um boiardo n¦o é nada! - observou Jermak, orgulhoso. - Se se
tratasse de proclamar que alguém iria viver como Jermak, ent¦o
sim, teria o céu a seus pés!
 - Exactamente! - apoiou Mouchkov numa voz sonora, atirando um
osso para trás das costas.
 Marina, por debaixo da mesa, aplicou-lhe um pontapé nas canelas.
Ele esboçou um esgar, olhou-a de relance e compreendeu de
imediato que a sua atitude à mesa de um senhor poderoso deixava
muito a desejar.
 - Quando partimos para a Sibéria? - perguntou Marina na sua voz
clara de adolescente.
 Máximo Stroganov dirigiu-lhe um sorriso, meneando discretamente
a cabeça:
 - Logo que os armamentos sejam distribuídos.
 - Está tudo pronto, Jermak Timofeiévitch! As últimas semanas
foram consagradas à compra das melhores armas provenientes da
província da Livónia.
 - Os alem¦es, os livónios, os suecos sabem combater - reconheceu
Jermak. - Eu próprio, na juventude, fui carregador de navios
atracados no cais, vivendo com os marinheiros nos rios das
províncias do Norte. Nesse tempo, n¦o reinava a segurança nas
margens do Volga.
 "Nesse tempo, eras perseguido pelos soldados do czar", pensou
Sime¦o Stroganov, sorrindo abertamente.
 "N¦o foi na época das campanhas cossacas contra os Nogais? A
capital do C¦nogai chamava-se Saraitchik e foi pilhada por vós:
saquearam as mesquitas, assaltaram lojas e violaram raparigas,
chegaram mesmo a desenterrar os mortos para lhes arrancar as
jóias... nesse tempo, as pessoas beijavam-se quando matavam um
cossaco... um demónio a menos neste mundo - dizia-se - e vens tu
falar-nos de descarregamentos na Livónia, Jermak Timofeiévitch!
Conhecemos muito bem a tua história!"
 - Nikita encarregar-se-á de vos explicar o nosso plano! -
declarou o velho Sime¦o numa voz matraqueada. - Agora vamos
discutir a remuneraç¦o que receberá cada um dos homens que parta
para a Sibéria.

 - Uma parte justa retirada do espólio no seu conjunto! -
declarou imediatamente Jermak, pousando os dois punhos na mesa. E
Mouchkov acrescentou, num tom de voz claro:
 - As promessas n¦o contam! Queremos um contrato em regra, n¦o é
verdade, Boris Stepanovitch?
 Marina n¦o dizia nada. Preferia calar-se, já que era o conviva
mais jovem. Jermak observava-a pelo canto do olho.
 - Os contratos já est¦o feitos... - Sime¦o, no seu hábito de
monge, apontava para uma sacola de couro bem recheada, de fechos
dourados, ostentando as armas dos Stroganov. - Em primeiro lugar,
os equipamentos. Vou enumerá-los...
 Pegou num rolo de pergaminho que Máximo lhe estendeu,
aproximou-o muito dos olhos e começou a ler:
 - Para todo o exército, três canhSes do modelo mais recente,
fabricados por fundidores alem¦es. As melhores espingardas. Para
cada homem, três libras de pólvora e chumbo em quantidade
suficiente. E ainda cem libras de farinha de centeio, trinta
libras de biscoitos, sal, sessenta libras de fermento, cem libras
de tolokono...
 Sime¦o calou-se e olhou Jermak por cima do pergaminho. O
tolokono, para qualquer soldado dos Urales e do Adriático, era um
alimento t¦o precioso quanto exótico - aveia-torrada ou moída com
a qual confeccionavam bolos e as mais saborosas iguarias. Com
tolokono no alforge, os Russos tinham conquistado o seu
gigantesco império. A Sibéria n¦o constituiria uma excepç¦o à
regra.
 - É pouco - declarou Jermak após uns momentos de reflex¦o.
 - Muito pouco! - reforçou Mouchkov.
 - Um cossaco devora como três bois - concluiu Marina.
 A observaç¦o n¦o foi particularmente lisonjeira, e Jermak
perguntou a si mesmo se n¦o seria preferível expulsar aquele
malandro da roda dos convivas por meio de uma valente surra.
Mouchkov empalideceu e pôs-se a observar fixamente o tecto de
vigas pintadas. "Minha Nossa Senhora, Santo Estefánio, a vida de
Marina está em perigo!", pensava ele, aterrorizado.
 - Ainda n¦o acabei - retomou Sime¦o Stroganov, debruçando-se
novamente sobre a lista. - Cada homem terá ainda direito a uma
porç¦o de manteiga e a metade de um porco.
 - Joha+! - exclamou Mouchkov. - Assim está berxi!
 - E quanto aos cavalos? - perguntou Jermak.
 Os Stroganov olharam uns para os outros. Nikita, o estratego,
levantou-se e soergueu a tapeçaria dos Gobelins, mostrando,
assim, o estendal de mapas:
 - Construímos os melhores barcos fluviais que imaginar se possa
- respondeu.- Recolhemos todas as informaçSes, o que nos permitiu
criar novos navios, grandes mas leves, capazes de transportar
muitos homens e material, mas que s¦o eles próprios
transportáveis sem grandes dificuldades.
 - Barcos? - Jermak ergueu-se lentamente, apoiando-se nos pulsos.
- Barcos? Teremos de transportar barcos?
 - É a única maneira de atravessar os Urales, subindo o
Tchousovaia até á linha de divis¦o das águas no Ural. Aí, os
homens ter¦o de carregar os barcos às costas até à outra vertente
do maciço montanhoso, depois do qual atingir¦o o Toura. Aí,
voltam a embarcar, descem o Toura e atingem o Tobol.
Encontrar-se-¦o, ent¦o, no coraç¦o das terras do czar siberiano
Koutchoum. - Nikita calou-se e, logo a seguir, acrescentou
precipitadamente: - Esse pag¦o!
 - Para sempre, amem! - respondeu Jermak, sarcástico.

 Fixava intensamente os Stroganov, como se visse fantasmas.
 - E os nossos cavalos? - perguntou, por fim.
 - Só poder¦o penetrar na Sibéria pelos rios, os cavalos ter¦o de
ficar aqui!
 Pode dizer-se a um cossaco que o Sol e a Lua acabar¦o por se
encontrar, que o Volga corre para o Norte e n¦o para o mar Negro,
que se semeia fermento para colher couves... ele aceitará ou
limitar-se-á a encolher os ombros. Mas adverti-lo de que n¦o
poderá montar um cavalo, é anunciar-lhe o fim do mundo!
 - Sem cavalos? - repetiu Jermak numa voz embargada.
 - Ent¦o n¦o irei a cavalo para a Sibéria? - gaguejou Mouchkov.
 E Marina ousou acrescentar um murmúrio:
 - Sem cavalos? É impossível!
 - Vamos embora! - ordenou, por fim, Jermak, numa voz
tonitruante. - Os Senhores Stroganov precisam de homens que mijem
para o vento! Mas nós, é contra o vento que mijamos e sabemos
vencê-lo! Os senhores ter¦o de contratar outros homens para essa
empresa...
 - Olha bem para os mapas, Jermak Timofeiévitch! - replicou
Nikita Stroganov. - Se conheces outra via de penetraç¦o, diz!
Estamos prontos para alterar tudo!
 Jermak aproximou-se da mesa em que se encontravam os mapas e
estudou-os atentamente. Debruçou-se sobre os itinerários
indicados, reflectiu, roeu as unhas, fechou os olhos. Ninguém
interrompeu as suas meditaçSes.
 Máximo Stroganov percorreu as listas de equipamentos. Nikita
mantinha-se afastado, perto da tapeçaria dos Gobelins, que
escorregara da mesa; Sime¦o, o velho, saboreava o vinho francês;
Mouchkov mordia o lábio inferior e bem teria gostado de, pelo
menos, tocar muito ao de leve em Marina, o que o tranquilizava
sempre, estranhamente. De noite, permitia-se fazê-lo, enquanto
ela dormia. Ent¦o, pousava a m¦o com muito cuidado nos seus seios
jovens e desapareciam todas as preocupaçSes... Era um sentimento
maravilhoso, incomparável.
 - Subir o Tchousovaia, transpor o Ural de barco, descer o Toura
até ao Tobol é o caminho mais fácil - insistiu Nikita, enquanto
Jermak mantinha o silêncio. - Mais a sul, as cadeias de montanhas
s¦o mais elevadas, os vales mais profundos, os carreiros
impraticáveis, tanto de barco como a cavalo. Enquanto n¦o se
descobrir um bom caminho, a Sibéria só poderá ser conquistada a
pé ou através dos rios. Os homens de Koutchoum têm a tarefa
facilitada: é o seu país, conhecem-no. Como é que os seus
cavaleiros transpSem as montanhas, vindo até aos nossos domínios,
ninguém sabe... Santo Estefánio também o fez, mas a pé...
 - N¦o sou santo! - exclamou Jermak, grosseiro. - Preciso de
cavalos para carregarem o meu espólio! Os homens ter¦o, ent¦o, de
transportar tudo às costas? Um cossaco sem cavalo...
 - Em Mangaseja encontrar¦o de novo cavalos! - Sime¦o Stroganov,
o velho, procurou aprumar-se, gemendo. Há um ano que a gota o
torturava. - Mas deves mostrar-te razoável e aceitar a travessia
do rio, Jermak: um cavalo pode morrer, mas um rio corre
lentamente.
 - Preciso de reflectir... - Jermak afastou-se da mesa em que se
encontravam os mapas. - N¦o tenho coragem para avisar os meus
homens de que n¦o podem penetrar na Sibéria a cavalo!

 - Nesse caso, encarregar-me-ei de lhes explicar - replicou
Nikita Stroganov.
 - Experimenta, meu donzel! - Jermak esboçou um sorriso maldoso.
- Despedaçar-te-¦o! Um cossaco sem cavalo n¦o é um homem!
 O rosto de Mouchkov resplandecia:
 - Ouviste? - murmurou ele, dirigindo-se a Marina, de pé à sua
frente. - Afinal, sempre somos seres humanos !
 - Poderemos falar sobre isso - respondeu ela, baixinho. - E é o
que faremos depois... meu urso!
 Mouchkov suspirou, dirigiu-se a Jermak e disse, em voz bem alta:
 - Jermak Timofeiévitch, a minha opini¦o é que deveríamos
regressar ao Don, depois de destruirmos Oriol! Fomos enganados!
 Os Stroganov sustiveram a respiraç¦o. Agora, ia ser tomada a
decis¦o final... sabiam que, entregue a mil cossacos bem
treinados, a sua fortaleza, feita de negócios e de dinheiro,
estava perdida.
 - Nikita Stroganov tem raz¦o - disse, por fim, Jermak em voz
pausada, embaraçada, pois sentia relutância em reconhecer a
verdade. - Só através dos rios poderemos atingir a Sibéria! Os
nossos cavalos n¦o chegar¦o ao cimo dos montes Urales: aí domina
Satanás!
 - Que Deus vos ajude! - murmurou o velho Sime¦o, piedoso. -
Partir¦o para o desconhecido erguendo estandartes bordados com a
efígie da nossa santa M¦e, de todos os santos...
 - E o nosso espólio? - insistiu Mouchkov, teimoso.
 - Será tudo o que possam transportar! - respondeu Sime¦o
Stroganov, cruzando as m¦os sobre o hábito de monge. - O vosso
equipamento custou-nos vinte mil rublos em ouro! Nem o czar
dispSe desta quantia para as suas tropas! O vosso exército é o
mais bem equipado do mundo!

 Foram precisas três semanas para que os homens de Jermak se
resignassem perante a perspectiva de n¦o associarem os seus
cavalos à conquista da Sibéria. Prostravam-se nas margens do Kama
a examinar as embarcaçSes leves, largas e achatadas, de concepç¦o
estranha, obra dos construtores de barcos alem¦es. Mas insultavam
e maldiziam os Stroganov. Depois, Jermak instituiu os exercícios
de transporte dos barcos. Estes eram colocados sobre estacas de
madeira que assentavam nos ombros dos carregadores, tendo-se
chegado à conclus¦o de que convinha escolher carregadores todos
da mesma estatura, capazes de caminhar pelo mesmo passo. Só
nestas condiçSes se conseguia que as barcaças n¦o oscilassem
muito. Surgiram veementes protestos quando Jermak pretendeu
inculcar nas tropas a marcha "à alem¦" .
 Alexandre Grigoriévitch Loupin, o veterinário dos cavalos dos
Stroganov, também faria parte da expediç¦o. Coube-lhe a delicada
miss¦o de explicar aos cossacos que deveria acompanhar as tropas,
pois a sua presença era necessária. Um veterinário, quando n¦o
permitem a presença de cavalos! Contudo, conseguiu o que queria,
apresentando a raz¦o de que tanto sabia tratar de cavalos como de
homens. Qual a expediç¦o militar que dispensa um cirurgi¦o?

 O homem mais ocupado, e que definhava a olhos vistos, como que
roído interiormente, era Oleg Vassiliévitch Koulakov, o pope dos
cossacos. Com efeito, era a ele que as infatigáveis costureiras
dos Stroganov entregavam os estandartes cobertos de imagens da
Virgem e de cabeças de Cristo. Verdadeiras obras-primas do
bordado, em que cada ponto custava uma lágrima... Contudo,
ninguém chorava por causa deste penoso trabalho, pensando apenas
nos cossacos que se introduziam secretamente nas granjas e nas
residências das bordadeiras para lhes ensinarem toda a espécie de
talentos. Ao longo de um ano e meio, as tropas de Jermak tinham
tido tempo de descobrir mil caminhos secretos, para, através
deles, atingir o objectivo. No domingo teria lugar a bênç¦o antes
da partida...
 O pope recebia os estandartes já prontos, examinava-os com olhar
crítico, assim como às bordadeiras, autoras da obra, e se um
estandarte lhe agradava em particular - ou a respectiva
bordadeira - decidia abençoá-los imediatamente. Nem mesmo um pope
conseguia resistir a esta actividade e Koulakov queixou-se a
Jermak de que os Stroganov encomendavam mais bandeiras bordadas
do que o número de homens destinados a empunhá-las.
 - Cada grupo de cinquenta homens tem direito a um estandarte! -
ordenou Jermak. - Combatemos em nome da cristandade, padre!
 - Deus misericordioso! - exclamou o pope, esfregando as m¦os. Em
seguida, cofiando a barba, abandonou a casa de Jermak.
 Durante um dia inteiro, recusou-se a abençoar estandartes e
permaneceu sentado à beira do Kama, a fim de recobrar forças.
Quando, no dia seguinte, abriu a porta da igreja e viu sete
bandeiras empunhadas por sete jovens e bonitas raparigas, que
penetraram nos locais sagrados com o ar mais respeitável do
mundo, ergueu os olhos ao céu:
 - Senhor, bem sei que necessitas de mártires. Fortalece, pois, o
meu coraç¦o e... o resto!
 Mouchkov e Marina tiveram de superar algumas dificuldades,
Mouchkov, receando que Marina n¦o resistisse à campanha da
Sibéria, ordenou-lhe, pondo de lado a prudência:
 - Tu ficas aqui! Espera pelo meu regresso, pois n¦o vais para a
Sibéria! N¦o permitirei.
 Mas Marina respondeu com igual determinaç¦o:
 - Sou adjunto de Jermak, de resto, tu também n¦o vais?
 - Eu sou um homem! - gritou Mouchkov,
 Teria sido sensato falar de outro modo, pois Marina
respondeu-lhe com um riso aberto que lhe cavava duas covinhas nas
faces e realçava os olhos azuis. Mouchkov sabia perfeitamente
porque se ria ela e, contrariado, rangeu os dentes.
 - N¦o queres que se mate! - vociferou. - Mas nós, é para matar
que lá vamos!
 - Eu sei, Ivan Matveiévitch, também é para isso que eu parto.
Impedir-te-ei de matares!
 - Julgas que me desarmas sempre que queiras?
 - Se n¦o houver outro processo serei forçada a recomeçar!
 - E n¦o queres que tome parte nas pilhagens?
 - N¦o permitirei sequer que te apoderes de um sapato velho que
n¦o te pertença!
- Maldito seja Novo Orpotchkov! - resmungou Mouchkov,
gesticulando sem se conter.

 - Demasiado tarde! Incendiaram a minha terra e, ainda para mais,
raptaste-me! Fizeste de mim um espólio! - Marina soltou uma
gargalhada e deu meia volta sobre si mesma com tanta graciosidade
que o coraç¦o de Ivan se crispou.- Agora, terás de arrastar
contigo a tua presa, meu tesouro! Há doenças incuráveis, o amor é
uma delas!
- Um dia, na cama, despedaço-te - declarou ele, numa voz surda -,
e esmago-te como couve-azeda! É mesmo disso que estás a precisar!
- Beijar-me-ás t¦o derretido como manteiga ao sol - respondeu
ela, aprumando-se e deixando adivinhar o peito por debaixo da
camisa cossaca. Ivan viu-lhe os mamilos salientes e engoliu em
seco, penosamente.
 - Quando? - balbuciou ele. - Quando, minha rosa de ouro? Quando,
diabinho maravilhoso?
 - Talvez... - Marina olhava de soslaio, e de cabeça baixa. -
Quando regressares de m¦os a abanar de mais uma cidade
conquistada.
 Depois, Marina afastou-se.

 A 25 de Agosto de 1581, os navios de carga encontravam-se
atracados nas margens do Tchousovaia.
 O exército dos Stroganov parecia de muito bom humor, apesar da
perspectiva de subir a remos o maldito rio, de fundo rochoso e
irregular, com muitas correntes, e de abandonarem os seus fogosos
cavalos. Se, no local em que se encontravam, a estepe ainda
reinava, já se avistava no horizonte o ameaçador maciço
montanhoso dos Urales, barreira rochosa que atingia o céu.
 A presença de Alexandre Grigoriévitch Loupin n¦o se fez notar no
meio do exército dos futuros invasores, já que, além dos homens
de Jermak, aquele comportava ainda um pequeno grupo de
combatentes já reunidos nas margens do Tchousovaia: aventureiros,
caçadores, empregados dos Stroganov encarregados de estabelecer
pontos de resistência e de penetraç¦o. Havia ainda intérpretes,
conhecedores dos estranhos idiomas ostíacos, dos vogulos, dos
tártaros, dos tagil e de outros povos asiáticos, e também
barqueiros especializados na navegaç¦o fluvial e, por fim,
religiosos!
 Vinham sobretudo do mosteiro de Ouspensk para se juntarem ao
exército de Jermak e o pope dos cossacos observava-os pensativo e
de sobrolho carregado. Os seus colegas avançavam para ele
empunhando estandartes dourados, acompanhados de cantores e de
serviçais, como se n¦o se tratasse de conquistar um país
selvagem, mas sim de organizar uma prociss¦o pascal. Até o bispo
de Ouspensk fazia parte do grupo - n¦o por desejar partir para a
Sibéria, mas para benzer os barcos, os corajosos combatentes, as
mulheres e as filhas em pranto, e para lhes dedicar um serm¦o
segundo o qual o objectivo desta expediç¦o guerreira consistia em
expulsar o czar pag¦o siberiano, levando a cruz aos descrentes.
Ninguém proferiu uma palavra que fosse sobre zibelinas, raposas
prateadas, visSes, castores, esquilos e outros animais de preço.
Toda a conquista tem o seu lado sórdido...
Já é um grande feito embarcar um milhar de homens armados, três
canhSes, equipamentos e víveres e, ainda para mais, quinhentos
porcos inteiros - as mil metades atribuídas pelos Stroganov e...
que seria impossível transportar. Os Stroganov assim pensavam e a
sua generosa oferta fora, inicialmente, uma prenda envenenada.

 Mouchkov lastimou-se até mais n¦o poder, arrepelou os cabelos e
acabou por calcular que seriam precisos dez barcos de carga para
incluir os porcos nas bagagens.
 - Mesmo salgando-os e cortando-os aos pedaços - explicou Marina
- n¦o serviria de nada. Já temos muitas coisas para levar! N¦o é
verdade que teremos de transportar as embarcaçSes através dos
Urales?
 - Bandidos! Verdadeiros safados! - praguejava Mouchkov,
observando a vara de porcos, grunhindo à beira do rio.
 Sentia o coraç¦o despedaçado. Alguns cossacos já tinham começado
a amanhar uns tantos animais, mas daí só lhes viria alimento para
dois dias de caminho.
 - Marinouchka, tu és uma rapariga sensata. N¦o tens nenhuma
ideia?
 - N¦o. - Marina enterrou o boné na cabeça. - Para além de
podermos fugir esta noite e cavalgarmos rumo ao sul...
 à beira do rio, Jermak fazia-lhe sinal. Precisava certamente do
seu adjunto.
 - Abandonar Jermak? Enganar os camaradas? nunca! - gritou
Mouchkov.
 - Ent¦o, um dia terás de roer troncos de árvore como os
castores! - concluiu Marina, afastando-se.
 No dia 1 de Setembro, os barcos fizeram-se finalmente ao Kama,
entre cânticos entoados e repetidos por um milhar de vozes
masculinas. O bispo de Ouspensk benzeu os servidores movimentando
o turíbulo, as bandeiras agitaram-se ao vento, as mulheres
choravam ruidosamente e os homens viram desaparecer ao longe,
satisfeitos o bando apaixonado. "Se Deus fosse um pai generoso,
como dizem, fá-los-ia desaparecer para sempre! Que sejam tragados
pela Sibéria!", eram estes, em geral, os fervorosos votos que
acompanhavam as barcaças e os respectivos ocupantes.
 - Vai em paz! - dissera Nicolas Stroganov a Jermak, no momento
da despedida, abraçando-o como a um irm¦o e dando-lhe três beijos
nas faces. Avaliava a situaç¦o com mais objectividade do que o
comandante dos cossacos. Para os Stroganov, tratava-se de uma
incrível aventura, cujo desfecho era essencialmente uma quest¦o
de sorte. Se, por um lado, Jermak estava certo de vencer, os
Stroganov, por outro, mostravam-se pouco seguros de si. Davam
tudo por tudo. Ao longo da história, alguns Stroganov já tinham
arriscado tudo, mas saíram sempre vitoriosos.
 Desta vez, debatiam-se com muitas incógnitas. E dispunham apenas
de um trunfo: Jermak, que n¦o temia nada.
 Seria suficiente para conquistar a Sibéria?
 A maneira como os cossacos se despediram dos cavalos foi
comovedora. Todos os animais se encontravam alinhados ao longo do
rio, em grupos de dez, como numa parada, e os cossacos avançaram
para os respectivos cavalos, abraçando-os entre lágrimas. Nunca
se vira um milhar de cavaleiros chorando ruidosamente, enquanto
acariciavam os focinhos dos animais, murmurando-lhes ao ouvido
palavras mais ternas do que as que dirigiam às mulheres.

 Em seguida, Jermak ordenou que o corneteiro desse o sinal de
partida. Mas, quando os cossacos se encontraram todos a bordo, e
enquanto os religiosos entoavam cânticos, a sua natureza brutal
veio ao de cima e abafaram os cânticos de acç¦o de graças,
gritando cançSes que nada tinham de seráfico. Os grandes remos
mergulharam nas águas sussurrantes do Tchousovaia. O barco de
Jermak comandava, seguindo-se-lhe Mouchkov e Marina... Cada um
dos outros transportava vinte homens e material. Tratava-se, sem
dúvida, de uma frota enorme que se dirigia para os Urales, a
primeira invas¦o de envergadura a esse país desconhecido.
 Embora o sol brilhasse, como um disco incandescente no céu, e o
Outono ainda mal se adivinhasse, enfrentavam um vento glacial.
Eram as primeiras saudaçSes dos Urales.
 No primeiro barco seguiam, juntamente com Jermak, os marinheiros
e o pope Oleg Vassiliévitch Koulakov. O coro ritmado de um milhar
de vozes era acompanhado pelo bater dos remos, enchendo a
atmosfera. A exaltaç¦o geral encontrava-se ainda no auge.
 - Por quanto tempo navegaremos neste miserável rio? - perguntou
Jermak a um dos timoneiros.
 - Dentro de quatro dias devemos atingir os primeiros
contrafortes das montanhas. - O timoneiro, um velho navegador e
pescador de longas barbas, observou a enorme frota que os seguia.
- Trouxemos mais carga do que a necessária, Jermak Timofeiévitch!
 - Eu sei, velho - respondeu Jermak, de olhos postos nas águas
revoltas. - Mas só assim consegui que os meus homens embarcassem!
Mais tarde, nos Urales acordar¦o. É preferível que lhes seja
impossível voltar atrás!

 Livres da zona de vigilância dos Stroganov, os guerreiros, até
ent¦o aquartelados, voltaram a ser os cossacos intratáveis que
sempre foram. Nem precisavam de cavalos: para pilhar e assaltar
mulheres, possuíam pernas suficientemente rápidas.
 Contudo, nos três primeiros dias n¦o tiveram ocasi¦o de as pôr à
prova. O Tchousovaia revelou-se um curso de água muito perigoso,
repleto de bancos e recifes.
Afundaram-se várias barcaças. Foi necessário mergulhar na água
fria e, a ombros, libertar os barcos das pedras ou da areia que
os retinham presos. Ao crepúsculo, acampavam na margem, acendiam
fogueiras, o odor da carne e das couves pairava como uma nuvem
sobre as tropas saídas do rio. Pequenos grupos de batedores
sondavam a regi¦o em todas as direcçSes, descobrindo amáveis
indígenas que acolhiam os estrangeiros sem preconceitos,
recebendo maus tratos como paga.
 No quarto dia - o rio estreitava cada vez mais e o leito era
formado apenas por pedras - atingiram os Urales. O cimo dos
montes pareceu-lhes menos imponente do que imaginaram, o poderoso
maciço montanhoso começava mais adiante, a sul. Ali, onde se
encontravam, a montante do Tchousovaia, erguiam-se escarpas
pedregosas formando extractos despidos, de silhuetas bizarras,
sem quaisquer caminhos. Deserto de pedras que teriam de
atravessar transportando os barcos. Terminara a viagem fluvial.
Começava a longa marcha. Acontecimento sem precedentes, esta
conquista efectuada a pé, por cossacos!

 Jermak, Mouchkov, Marina, as centúrias e os religiosos
reflectiam sobre cada pormenor dos mapas que Stroganov lhes
entregara. Tinham sido elaborados pelos melhores cartógrafos,
embora fossem t¦o incompletos como os ensinamentos recolhidos
sobre estas regiSes. Sabia-se apenas uma coisa: começava aqui o
velho caminho que conduzia à Sibéria, aquele que monges e
caçadores já tinham percorrido: o "Serebrianka". Este carreiro
contornava picos, atravessava estreitos vales encimados por
rochedos a pique, passando ao longo de muitos precipícios... e
algures, a norte, abrir-se-ia um pórtico de rochedos sobre o
infinito siberiano.
 E teriam de superar todos estes obstáculos carregando os barcos
às costas!
 Nessa noite, quando as tropas de Jermak montaram um novo
acampamento, servindo-se de uma técnica t¦o precisa que o
acampamento mais parecia uma pequena fortaleza. Ivan Matveiévitch
Mouchkov e Alexandre Grigoriévitch Loupin encontraram-se. Ambos
se entregavam à remoç¦o de rochedos.
 - Ouve lá, velhote - gaguejou Mouchkov, olhando de soslaio para
Loupin -, n¦o és tu o pai do nosso adjunto Boris Stepanovitch?
 - Sim, sou - reconheceu Loupin.
 - Ent¦o, n¦o me enganei! Vi-os algumas vezes juntos e, um dia,
disposto a espiar-vos, rastejei até vós, roído de ciúmes e... que
ouvi eu? Paizinho, dizia ela! Talvez n¦o signifique nada, pois
ela também me chama "meu velho", a mim, um jovem de trinta anos,
mas tranquilizou-me saber que és pai dela.
 - E tu és o amante - concluiu Loupin, muito desgostoso, como se
pode imaginar.
 - Se ao menos o fosse! - suspirou Mouchkov, nostálgico e
deixando cair um pedaço de rocha, o que o obrigou a fugir para o
lado. - Se quiseres, podemos conversar. A tua filha parece
protegida por uma couraça! Sinto-me desesperado! .
 Dirigiram-se para uma colina de pedras, limpando a testa e
arquejando ruidosamente.
 - Devíamos entender-nos, velhote - retomou Mouchkov, passado um
momento. - Amo Marinouchka e, por isso, alguma coisa terá de
acontecer antes de deixarmos os Urales para trás. Receio que lhe
aconteça alguma coisa na Sibéria!
 Este diálogo travava-se numa noite sinistra. O céu, carregado de
nuvens, descia sobre os Urales. A paisagem mineral parecia
mergulhada numa densa escurid¦o. Lá em baixo, junto do
acampamento de cossacos, bruxuleavam grandes labaredas e os seus
reflexos iluminavam os rochedos em volta, mas ali, onde se
encontravam Mouchkov e Loupin, reinava o silêncio. Os dois
homens, escondidos atrás de um rochedo, escapavam aos olhares
indiscretos. Era um local propício para conversar e tomar
decisSes.
 Contudo, Marina andava à procura de Mouchkov. Formavam-se grupos
em volta das fogueiras e ela circulava entre os camaradas,
interrogando em v¦o os carregadores de rochedos e os construtores
que, por ordem de Jermak, erguiam uma muralha de pedras, uma
praça forte, como fora previsto durante a reuni¦o com os
Stroganov. Estas torres delimitavam, à laia de albergues, o
caminho para a Sibéria. Mais tarde, seriam os pontos fortes de
novas colónias: simultaneamente centros de trocas comerciais,
fortalezas defensivas e eventuais refúgios. Plano genial que iria
permitir a passagem dos Urales e a expans¦o comercial para lá
desta barreira.
 - Amo Marinouchka - repetiu Mouchkov. - Mantém-te atento,
velhote, e retém-na com todas as tuas forças! É preciso salvá-la!
 - Retê-la? - Loupin encolheu os ombros. - Dizes isso como se n¦o
houvesse nada mais fácil. És capaz de o fazer, tu?
 - Mas tu és o pai!
 - E tu? Ela n¦o te ama?

 Permaneceram em silêncio durante alguns momentos, após os quais
Mouchkov retomou:
 - Teríamos de a tornar inconsciente durante alguns instantes.
Permanecerias junto dela e, quando Marina voltasse a si, já nós
estaríamos longe...
 - Marina perseguir-vos-á, como um lobo atrás de um coelho... É
verdade, ela ama-te, mas mais do que se ama habitualmente!
Porquê? É isso que me parece estranho...
 - Apesar de tudo, trata-me como um c¦o tinhoso. - Mouchkov
encostou-se a uma muralha de pedra, de olhar perdido no céu
escuro. - Velhote, que pensas de mim?
 - Preciso de responder? - replicou Loupin, prudente.
 - Salvei a vida de Marina.
 - Deveria apreciar-te por essa raz¦o, mas quantas mulheres
mataste e violaste?
 - Nenhuma, na verdade!
 - Estás a mentir, Ivan Matveiévitch!
- Nunca matei uma mulher! A n¦o ser que o amor possa matar uma
mulher...?
- Aquilo a que os cossacos chamam amor, é um assassínio -
declarou Loupin tranquilamente.
 - Juro-te, velhote que quando encontrava uma mulher, a tratava
sempre como a uma pomba! Quando tenho uma mulher nos braços,
chego a ter vergonha da meiguice, da ternura que lhe testemunho!
Mas nada se pode comparar ao que sinto por Marinouchka, só de
olhar para ela... Temos de a afastar de combates mortíferos! É
uma loucura levá-la para a Sibéria!
A conversa prosseguiu e nenhum deles se apercebeu que, por detrás
deles, na encosta coberta de cascalho, Marina, deitada no ch¦o,
os escutava. N¦o se mexeu quando os dois homens se levantaram e
pegaram nos fardos, dirigindo-se à muralha circular em
construç¦o. Só quando se encontraram fora da sua vista, como que
engolidos pela escurid¦o, Marina se ergueu também, fazendo um
grande desvio antes de alcançar o acampamento.
Juntando-se aos outros, Marina sentou-se ao lado de Jermak, que
saboreava um pedaço de carne assada. Sobre as brasas, via-se um
bom naco de porco salgado.
- Parece-me que Mouchkov tem inveja! - declarou Marina
bruscamente.
 Jermak sobressaltou-se. Ninguém gosta de ouvir falar assim do
seu melhor amigo.
 - O que dizes? - perguntou ele, enquanto o suco da carne assada
lhe escorria pelas comissuras dos lábios.
- Desde que sou adjunto, vejo-o a olhar para mim como se me
quisesse apunhalar!
- Nunca conseguiu suportar a tua presença! - afirmou Jermak,
soltando uma gargalhada.
- É verdade?
 Marina fitava Jermak. Subitamente, o seu coraç¦o começara a
bater e o sangue subira-lhe às têmporas, enquanto a invadia uma
infinita melancolia.
 - Ent¦o ele n¦o disse: devia ter lançado este diabo às chamas em
Novo Orpotchkov?. E eu respondi: "O tipo tem tanta cabeça, como
tu, o que te irrita!" E o meu amigo Mouchkov acrescentou: "Ah! Se
fosse uma rapariga, matava-a!" - Jermak observava Marina, rindo
novamente com os lábios sujos de gordura. - N¦o, ele n¦o tem
inveja, Boris Stepanovitch, mas toma cuidado, pois és t¦o bonito
que ele pode esquecer-se de que és um homem! Na verdade, Mouchkov
está cada vez mais estranho. Aguardemos até atingirmos o Toura ou
o Tobol; aí, haveremos de encontrar uma jovem tártara e
obrigá-lo-emos a violá-la à nossa frente! E, assim, curar-se-á...
 - Com certeza, Jermak Timofeiévitch!
 Marina, sonhadora, esforçava-se por comer. A sua astúcia
feminina, que consistia em depreciar Mouchkov aos olhos de
Jermak, a fim de impedir que, juntamente com o pai Loupin,
descobrisse uma maneira de a deixar para trás, parecia voltar-se
contra ela. Se Jermak tentasse procurar uma jovem tártara para
Mouchkov, encontraria com certeza! Doía muito... e teria de
assistir a tudo! Como escapar a esse espectáculo? Teria de o
suportar!
 Pela primeira vez, confessou a si mesma que n¦o permitiria que
nenhuma outra mulher pertencesse a Mouchkov. Por que é que o amo?
Porquê? Um brutamontes assim! Um femeeiro, um grosseir¦o, porquê?
 Perguntar porquê em questSes de amor, é n¦o querer obter
resposta.

 Três dias depois de terem abandonado o rio Tchousovaia,
embrenhando-se no caminho ancestral que conduzia à Sibéria,
caminho este que, segundo a lenda, só devia ser pisado por
religiosos, visto que estes se encontraram protegidos contra os
ataques do Diabo, avistaram o pequeno curso de água Charavlia. à
sua volta estendia-se um deserto pedregoso e os raros indígenas
com que se cruzaram, inofensivos vogulos, foram saudados pelos
cossacos segundo os processos habituais: pilhagem e destruiç¦o de
habitaçSes, disputa e partilha das poucas mulheres presentes. Em
seguida, prosseguiam a terrível marcha forçada.
 Cada tripulaç¦o devia transportar a sua embarcaç¦o às costas, ao
longo dos precipícios... gemendo, mas avançando de passo
acertado, pois qualquer oscilaç¦o poderia ser perigosa. Assim,
transportaram as grandes barcaças através dos Urales durante
horas, dias, formando grupos suados e emudecidos. Jermak também
participava no transporte, pois o seu exemplo encorajava os
homens.
 N¦o gozava de nenhum privilégio. Até mesmo os religiosos se
esfalfavam sob o peso dos barcos. Quem quisesse chegar à Sibéria,
teria de se submeter ao transporte dos barcos. As oraçSes
realizavam-se ao cair da noite ou durante as raras pausas para
descansar.
 Apesar de tantas dificuldades, corria tudo bem. N¦o havia
mortos, pois os indígenas encontrados pelo caminho n¦o opunham
nenhuma resistência. Assinalavam-se apenas alguns ferimentos, na
maior parte das vezes pés esmagados ou ensanguentados, que os
cirurgiSes tratavam, à noite, com o auxilio de diversos
unguentos. Nestes casos, o velho Loupin fazia notar a sua
presença.
 Conhecia bons remédios para os cavalos e todos os cossacos
estavam convencidos de que o que era benéfico para um cavalo n¦o
poderia deixar de curar um homem.

 Loupin confeccionava, pois, mistelas complicadas, pomadas que
cheiravam horrivelmente mal, mas que actuavam! Para este
trabalho, utilizava toda a espécie de verduras, desde musgo até
às bagas mais desconhecidas. O facto de n¦o ter morrido
envenenado nenhum dos pacientes testemunha bem a resistente
natureza dos cossacos, esses brutamontes selvagens.

  Avançavam lentamente, escavando cavernas, erguendo novas
fortificaçSes e quando, por fim, atingiram o rio Tagil, todos
pensaram que o prodígio concedido a Moisés se repetia através de
Jermak e dos seus homens: à sua frente estendia-se o país
ardentemente desejado, objecto dos seus sonhos, terra
desconhecida, ilimitada, recheada de riquezas!
 Mil homens transpuseram a barreira rochosa dos Urales. Nas
margens do Tagil, caíram de joelhos e os popes passaram entre
filas de guerreiros benzendo-os e aspergindo-os com água benta.
Em seguida, reunidos em volta dos estandartes da Virgem e dos
santos que flutuavam ao vento, cantaram, de olhar perdido na
gigantesca paisagem que se lhes oferecia: desertos de rochedos,
estepes, pântanos, florestas, por cima das quais pairava um céu
incomensurável, como só se vê na Sibéria: um céu em que o olhar
penetra nos olhos de Deus. Mouchkov ajoelhou-se ao lado de
Marina, quando o ofício divino teve início, nas margens do Tagil.
Ela empunhava firmemente a haste de uma bandeira e o vento
dançava no seu cabelo louro, que crescera durante a peregrinaç¦o
e formava pequenos caracóis. à noite, teria de os cortar, a fim
de manter a aparência de um adolescente chamado Boris
Stepanovitch.
 - Ent¦o, meu urso velho? - perguntou ela a meia voz.
Encontravam-se lado a lado, de cabeça baixa. - N¦o querias
reservar-me este dia?
 - Marinouchka - balbuciou Mouchkov, tacteando à procura da sua
m¦o esquerda.
 - Baixa as patas, bruto! Se Jermak te visse...
 - O exército de Koutchoum vai atacar-nos algures, lá em baixo...
 - Tens medo, meu velho?
 - Pensa bem no que se conta: Mangaseja é habitada por criaturas
que têm a boca no meio do crânio. Devoram-se uns aos outros e,
por essa raz¦o, s¦o chamados Samoiedos, o que significa que se
"comem a si mesmos"! Marinouchka, n¦o quero ver-te devorada por
tais monstros!
 - Louvado seja Jesus Cristo! - exclamava o pope dos cossacos,
Oleg Vassiliévitch Koulakov. - Em seu nome, conduziremos os
pag¦os deste país ao caminho da fé, ou aniquilá-los-emos!
Oremos...
 - Os Samoiedos devoram os seres humanos crus - murmurava
Mouchkov. - Marinouchka, volta para trás! Segue o teu pai!
 - Se se trata de ser devorado, estou descansada quanto à tua
sorte - respondeu ela com meiguice. - N¦o te tocar¦o, cheiras
demasiado mal!

 Permaneceram três dias à beira do Tagil, consertando os barcos
que se estragaram durante a viagem. Entre tanto, construíram um
campo entrincheirado e uma casa de pedra; com duzentos homens a
trabalhar, n¦o sobrou tempo. Armazenaram uma parte da carga e das
provisSes e deixaram por lá um pope e seis caçadores, além de
três cossacos doentes, cujo estado era t¦o deplorável que teria
sido criminoso obrigá-los a prosseguir a expediç¦o.
 Assim, com um pope e alguns soldados, nasceu a primeira colónia.

 - A partir de agora, manter-nos-emos sempre junto aos rios -
declarou Jermak às centúrias e respectivos comandantes. No seu
barco, reuniu um verdadeiro conselho de guerra; sobre os bancos,
desdobrara os mapas geográficos dos Stroganov. Os cossacos
desconfiavam de que n¦o teriam muitas mais oportunidades de
discutir o assunto. Pela frente encontrariam n¦o só riqueza e
glória mas também as tropas do czar siberiano Koutchoum, que
ousara escarnecer do czar Ivan, o Terrível.
 Koutchoum julgava-se t¦o poderoso, t¦o fora do alcance dos
outros, defendido como se encontrava por exércitos compreendendo
milhares de cavaleiros! Perante isto, que importância poderia ter
um milhar de soldados cossacos.
 - Quem quiser pode voltar para trás! - desafiou-os Jermak, com
dureza. - N¦o obrigo ninguém!
 Os homens de Jermak calavam-se. Voltar, pensavam eles... Alguns
ousaram fazê-lo ao escalarem os Urales.
 Afastaram-se à sorrelfa, em grupos de dois ou três, vinte
homens, no total. Jermak ordenou que os trouxessem de volta a fim
de os lançar vivos ao primeiro rio que aparecesse - foi o
Charavlia. - Um cossaco luta contra a morte enfrentando o perigo,
mas n¦o pode ter medo de um país desconhecido!
 Os barcos regressaram à água mas, desta vez, o momento n¦o foi
de festa como quando partiram do Kama. Os víveres começavam a
escassear. O que os Stroganov lhes destinara teria sido
suficiente se tivessem podido transportar tudo, mas muitos
pacotes tinham sido abandonados pelo caminho e, agora, pouco
havia a esperar das pobres aldeias indígenas por que passavam:
encontravam-se abandonadas, os celeiros vazios, o gado disperso e
escondido nos campos.
 - Precisamos de descer o rio t¦o rapidamente quanto possível até
ao Tobol! - declarou o pope cossaco. - Lá em baixo, encontraremos
aldeias abastadas pertencentes a Koutchoum... O Senhor castiga os
pag¦os! Precisamos simplesmente de uma boa pilhagem, de um
espólio carregado de riquezas!
 A descida do rio Tagil processou-se tranquilamente. De vez em
quando, os cossacos avistavam nas margens alguns tártaros a
cavalo que seguiam os barcos durante algum tempo, olhando
boquiabertos para o seu elevado número, desaparecendo em seguida
na estepe. Ao vê-los, os cossacos suspiravam profundamente,
remando com firmeza e invejando com o olhar os velozes cavaleiros
de raça amarela.
 - Cavalos! Santo Estefánio, eles possuem cavalos! Têm o direito
de galopar até ao infinito! Acostemos, Jermak, para os podermos
desarmar! Um Cossaco a remar é como o Sol sem luz!
 Um belo dia - tinham acostado nas margens do Tagil, mesmo junto
à foz do Toura -, Jermak proferiu um discurso.
 - N¦o chorem, irm¦os! - exclamou ele, com gravidade. - Também
nós voltaremos a montar a cavalo! Quando atingirmos o rio Tobol,
quando conquistarmos Sibir, a capital de Koutchoum, teremos os
cavalos mais rápidos e mais belos do mundo! De que nos serviriam
cem cavalos para mil homens? A bordo dos nossos belos barcos,
penetraremos no coraç¦o do reino Koutchoum e ninguém nos poderá
deter! É uma artimanha de guerra à qual devemos a vida! Vamos,
cossacos, deixem-se de lamentaçSes...
 - Amem! - rugiu Oleg Vassiliévitch Koulakov, o pope.
 Em seguida, ainda entoaram um piedoso cântico, sonhando com a
pilhagem da Sibéria e da cidade de ouro do czar Koutchoum.


 No início de Outubro, penetraram nas águas do Toura, grande rio
que desagua no Tobol. Entretanto, em todo o reino do czar
siberiano, cavaleiros velozes aliciavam os homens para os
combates. As cidades e aldeias foram fortificadas com triplas
muralhas de pedra solta, interiormente reforçadas por estacas
aguçadas e mortíferas.
 Dez mil cavaleiros às ordens do príncipe herdeiro Mametkoul
estavam preparados para deter os cossacos de Jermak no Tobol. O
exército principal era comandado pelo próprio Koutchoum, que o
concentrava no Irtych, a fim de proteger Sibir, a capital. O
comandante da regi¦o do Toura, Iepoutcha, recebeu ordens de
impedir o avanço das embarcaçSes.
 E, subitamente, encontraram-se frente a frente...
 A margem do Toura regurgitava de guerreiros, assemelhando-se a
um formigueiro. Sobre os cossacos caiu uma chuva de flechas,
enquanto gritos estridentes acompanhavam os silvos que
atravessavam os ares.
 - O comandante é um idiota - declarou Jermak, gracejando.
 Os navios vogavam ao centro do largo rio e as flechas só
raramente atingiam o alvo; mesmo neste caso o seu impacto era t¦o
fraco que os cossacos as agarravam com as m¦os, rindo.
 - Quero os atiradores de elite a postos! - gritou Jermak.
 A ordem foi transmitida de barco em barco e, onde quer que se
encontrassem mercenários alem¦es ou livónios, de arma de fogo em
punho, tudo se animava; os atiradores chegavam-se ao rebordo do
casco, agitavam a pólvora nas caçoletas e puxavam o c¦o da
espingarda.
 - Fogo! - comandou Jermak.
 Três salvas rasgaram o silêncio desse belo e claro dia de
Outono. àquela distância, poucas balas atingiram o alvo, mas o
efeito foi surpreendente. Os homens que se amontoavam numa das
margens do Toura caíram para trás como que soprados por um
furac¦o. Em seguida, rebolaram sobre si mesmos, enterraram o
rosto na erva da estepe e n¦o voltaram a mexer-se.
 N¦o compreendiam o que se passava. O céu estava límpido, o sol
brilhava e, mesmo assim, eram atingidos por raios e trovSes.
TrovSes como nunca se ouviram e pedras de granizo caídas do céu
sereno atingiram com tanta força alguns homens que estes
sangravam, gritavam, torciam-se na erva e morriam.
 Até mesmo Jermak se surpreendeu com o efeito produzido. Até
ent¦o, ignorava que os homens de Koutchoum desconheciam a pólvora
e o chumbo. Tal como no passado, lutavam com flechas, lanças,
sabres de lâminas curvas.
 - Já conquistámos a Sibéria, irm¦os - declarou Jermak perante os
comandantes e as tropas. Entretanto, tinham desembarcado para
tomar posiç¦o numa das margens do Toura. Ao longe, avistava-se um
aglomerado importante. Era Tchinga Toura, actualmente Tjoumen. Os
guerreiros tártaros aguardavam, refugiados nesta cidade, à frente
os arqueiros, atrás a cavalaria.
 Os artilheiros alem¦es empurravam os três pequenos canhSes,
colocando-os em posiç¦o. "Antes que se habituem às explosSes de
pólvora, penetraremos em Sibir! O país é nosso!"
 Mouchkov, por seu lado, partira em busca de Loupin, que se
encontrava no último barco, junto dos feridos e doentes. Quanto a
Marina, transmitia as ordens de combate tal como Jermak as
concebia.

 - Cá estamos, velhote! - declarou Mouchkov. - Chegou o momento
de impedires Marina de correr pelos campos! Os tártaros s¦o
mestres no tiro com arco, conheço-os porque já assisti a mais do
que uma invas¦o. Unimo-nos para imobilizar Marina?
 - Jermak ordenaria a sua captura
 - Ent¦o, teremos de lhe torcer um pé para que n¦o possa
caminhar!
 - Bárbaro! - exclamou Loupin. - Pretendes, ent¦o, estropiar a
minha filha?
 - E queres que fique viúvo antes de ser seu marido? Além disso,
estou farto. Alexandre Grigoriévitch - prosseguiu Mouchkov. -
Preciso de disponibilidade para me entregar à pilhagem, à
obtenç¦o de um espólio! Pensa bem no que havemos de fazer a
Marina, a fim de que n¦o possa opor-se aos meus projectos, ou, de
contrário, trago-te a tua filha atada como um embrulho!
 Perto de Jermak, sentado no casco de um barco voltado para
baixo, à espera de que os seus homens formassem em filas,
encontravam-se três tártaros deitados na erva. Tinham o vestuário
rasgado, e marcas de sangue na pele. Tinham sido descobertos por
acaso, numa pequena cavidade da riba, da qual foram retirados
como texugos. Interrogados por um intérprete respondiam em voz
hesitante:
 - O chefe dos tártaros, o idiota que se encontra à nossa frente,
chama-se Iepoutcha - anunciou Jermak quando Mouchkov se sentou
junto dele.
 Marina regressava do cumprimento da sua miss¦o; vinha corada e
suada por ter corrido. Os artilheiros alem¦es tinham armazenado
cuidadosamente as balas, enchendo as bocas de fogo, preparando as
escorvas. Perto dos canhSes ardiam pequenas fogueiras nas quais
se acenderiam as mechas.
 - Devemos ter cerca de três mil homens à nossa frente.
 - Desfazemo-los num ápice, Jermak! - vangloriou-se Mouchkov. -
Ainda n¦o conhecem a nossa artilharia!
 - Vai ser um combate decisivo! - Jermak protegeu os olhos com a
m¦o e olhou na direcç¦o dos tártaros.
 - Decidi libertar todos os prisioneiros que fizermos, a fim de
que propaguem por todo o país que somos invencíveis!
- Bruscamente, estendeu o braço, como se estivesse a enviar uma
lança. - De resto, hibernaremos nesta cidade! Dentro de quinze
dias nevará e o Toura gelará. Boris Stepanovitch!
 - Jermak!
 Marina perfilou-se à sua frente.
 - Agita a bandeira, vamos pôr-nos a caminho!
 Mouchkov sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe o corpo.
 - Deixa-me levar a bandeira! - implorou. - Jermak Timofeiévitch,
sou o teu ajudante!
 Empurrou Marina para o lado, que estremeceu e caiu, batendo com
a testa no casco do barco voltado para baixo. A jovem ficou um
tanto atordoada, deitada na erva, de olhos postos em Mouchkov.
Subitamente, surgiu Loupin, ajoelhou-se junto da filha, fingiu
erguê-la mas, em vez disso, manteve-a firmemente apoiada no ch¦o.
Era a única maneira de a deter sem que Jermak suspeitasse.
 - Ao combate! - gritou Mouchkov, erguendo a bandeira contendo a
imagem da Virgem. Em seguida, correu para a frente.

Numa ampla frente, desdobravam-se agora as bandeiras das
centúrias, enquanto os popes cantavam a plenos pulmSes. Depois
soaram os canhSes e os atiradores fizeram ouvir as primeiras
salvas. Através da bruma de fumo provocada pela pólvora, os
cossacos puseram-se a caminho. Vis¦o impressionante que gelou o
coraç¦o dos tártaros. Antes de poderem atirar, centenas de
arqueiros jaziam na erva.
 Ajoelhado no meio das tropas, Iepoutcha orava:
 - Alá! Estende a tua m¦o sobre as nossas cabeças. Maomé,
vencedor de todas as batalhas, vem em nosso auxílio...
 Contudo, mulheres e crianças fugiam de Tchinga Toura. Em
carroças ou trenós em forma de cuba, fáceis de arrastar pela erva
da estepe, transportavam os seus bens para locais mais seguros.
Desceram o Tobol, no qual Mametkoul aguardava, rodeado por dez
mil cavaleiros. Mesmo que os estrangeiros tomassem Tchinga Toura,
nunca atingiriam Sibir! Koutchoum era invencível!
 N¦o sabiam que Jermak falava nestes termos da sua própria
invencibilidade.

 Durante o ataque, ninguém se preocupou com Marina nem com o
velho Loupin. Passados alguns minutos, encontravam-se sozinhos,
junto do barco voltado para baixo. As tropas de reserva
aguardavam ao longo do rio, os padres, reunidos, observavam os
combatentes surpreendendo-se por o seu irm¦o, o pope cossaco, que
trocara o chapéu negro de religioso por um boné de cavaleiro,
empunhar uma espada curva em vez da cruz, carregando sobre o
inimigo nas primeiras filas das tropas em movimento. Koulakov
gritava bem alto ao lado de Mouchkov, de olhar fixo na cúpula da
pequena mesquita e no modesto minarete que apontava para o céu
azul.
 Mouchkov conhecia demasiado bem o pope para n¦o compreender o
significado deste olhar.
 - O que é que há lá adiante? - perguntou ele, ofegando em plena
corrida. - Ser¦o candelabros de ouro e prata?
- E tapetes, e peças de seda bordadas a pedras preciosas e vasos
com incrustaçSes de esmalte... - murmurou o pope. N¦o muito
longe, a segunda salva de tiros ressoou pela atmosfera,
acompanhada do estrondo provocado pelos canhSes.
 - Pensa igualmente em mim, padre! gritou Mouchkov, entusiasmado.
 - Fica a meu lado, meu querido filho! - Oleg Koulakov
esforçava-se por avançar. - Os crentes n¦o têm fome nem sede!
 Em seguida, abateu-se sobre ele uma chuva de flechas.
 Os feridos caíram de joelhos e os primeiros mortos ficaram para
trás, enrolados na erva da estepe.
 O combate durou apenas duas horas; no fim, houve escaramuças
corpo a corpo e, mais uma vez, os cossacos revelaram-se
superiores aos tártaros. As tropas de Jermak invadiam como uma
torrente a velha cidade, assaltando casas e começando por se
entregar à ocupaç¦o que o cossaco considera a sua raz¦o de viver:
a pilhagem.
 Entretanto, Loupin e Marina continuavam sentados no casco do
barco. Os prisioneiros estavam a ser concentrados na margem do
rio e as tropas de reserva abatiam os últimos tártaros que
corriam, perdidos, em todos os sentidos. Como habitualmente, os
prisioneiros eram amarrados aos pares, costas contra costas, e
depois lançados ao ch¦o.
 - Se Ivan Matveiévitch for morto, nunca mais me verás, papá -
declarou Marina num tom duro.

 Loupin atara-lhe os pés por meio de um trapo e, quem olhasse de
relance, acreditaria que o adjunto Boris Stepanovitch se ferira
no pé. De resto, o velho Loupin mantinha-se junto dele, prova de
que necessitava de cuidados médicos.
 - Ivan voltará, Marinouchka, tem calma! - respondia Loupin, que
observava, de testa franzida, as primeiras colunas de fumo que se
erguiam sobre a cidade.
 - O Inverno está a chegar e, em vez de procurarem abrigos
seguros, aquelas cabeças vazias incendeiam as casas em que
poderiam defender-se tranquilamente do gelo. Se assim
continuarem, ter¦o de se proteger debaixo dos cascos dos barcos,
a fim de terem, pelo menos, um tecto por cima da cabeça. Mas, os
cossacos s¦o incorrigíveis. A destruiç¦o entusiasma-os e depois
surpreendem-se porque, apesar da vitória, se reconhecem num
estado lastimável!
 - Deus do céu, como pude eu merecer tal genro?
 - Prendeste-me - retomou Marina, irritada. - Que pai és tu,
capaz de manter uma filha prostrada no ch¦o à força?
 - Foi uma emergência, minha filha, mas assim estás viva! Quem
sabe o que te teria acontecido debaixo do ataque das flechas
inimigas!
 Loupin passou a m¦o pela cabeça loura de cabelo curto, que
Mouchkov aparara com a ajuda de uma navalha. Conservara, em
segredo, um caracol louro que trazia numa bolsa de couro
pendurada ao pescoço. N¦o se tratava de um gesto supersticioso
mas, no fundo, esperara que esse pedacinho de cabelo o protegesse
de todos os perigos.
 - Um pai tem o direito de salvar a vida da filha! -
justificou-se Loupin, de lágrimas nos olhos.
 - Sabes perfeitamente que é inútil protegeres-me e que eu só
farei o que me apetecer! - replicou Marina, erguendo-se para ver
melhor os destacamentos em retirada, arrastando atrás de si
mortos e feridos. Um grupo compacto de trezentos tártaros foi
empurrado para o rio; esgotados pelo combate, renunciavam à vida.
Esperavam ser decapitados antes do pôr-do-sol, segundo costumes
mongóis.
 - Ajuda-me a levantar-me - pediu Marina.
 - Minha filhinha - suplicou Loupin -, estás ferida...
 - Ajuda-me! - gritou ela, determinada. - Ou ent¦o anunciarei bem
alto: este c¦o do Loupin aprisionou-me!
 Loupin libertou finalmente a filha, que se ergueu. Lutava ainda
contra o seu coraç¦o de pai, hesitando entre o castigo e o
perd¦o.
 - Onde está Ivan Matveiévitch? - perguntou Marina aos homens que
se aproximavam. - Viste-o? Está vivo? Sabem onde está?
 Os feridos encolhiam os ombros; apenas um deles, um cossaco,
cujo ombro fora atravessado por uma flecha que n¦o conseguira
retirar porque a extremidade lhe causaria certamente um grande
ferimento e só um cirurgi¦o se poderia encarregar de o fazer,
parou e apontou para a cidade como resposta à pergunta do jovem
soldado adjunto:
 - Mouchkov e o pope forçaram as portas da mesquita. Vi-os lançar
pelos ares, como uma pedra, um moullah que se dirigia para eles!
 Olhou tristemente para Loupin, mostrou-lhe a flecha cravada no
ombro e aproximou-se dele, titubeando:
 - Serias capaz de ma retirar, velhote? Privando-te da tua
consciência ou n¦o?

 - Julgas-me uma mulher?
 - Senta-te.
 Loupin pegou no punhal que trazia à cinta, afiou-o numa pedra e
experimentou a lâmina, passando-a pela ponta dos dedos. Em
seguida, introduziu um pedaço de madeira na boca do cossaco e
disse-lhe:
 - Morde, e aguenta-te!
 Despiu a camisa ao cossaco, tacteou a flecha e verificou que n¦o
penetrara muito profundamente e que n¦o seria necessário praticar
uma incis¦o muito grande.
 Loupin esquecera-se da filha por instantes e, ao voltar-se, viu
que ela se afastava, correndo, em direcç¦o à cidade em chamas!
 - Boris Stepanovitch! - gritou ele, desesperado. - O teu pé!
Estás ferido!
 - Jermak procura-o! - observou o cossaco que tinha a flecha
enterrada no ombro. - É a segunda vez que o seu adjunto n¦o se
encontra a seu lado no decorrer de um combate!
 Loupin n¦o respondeu. Tinha consciência do perigo que Marina
corria... Quantos dias e semanas passariam ainda a combater! N¦o
podia reter constantemente o adjunto de Jermak!
 Em seguida, Loupin retalhou a carne do soldado e conseguiu
extrair a ponta da flecha, enquanto o cossaco mordia o pedaço de
madeira, rangendo os dentes.

Capítulo 6

 Ivan Matveiévitch encontrava-se satisfeito. Na mesquita, os
tesouros acumulavam-se à discriç¦o. Lustres dourados, óleos
perfumados contidos em ânforas incrustadas de pedras preciosas,
cofres de prata trabalhada, tapetes de seda; bastava unir os
quatro cantos de um tapete, maneira muito prática de transportar
tesouros.
 Mouchkov optou por um lustre de ouro, um cofre de prata lavrada,
um punhal cujo cabo reluzia de pedras preciosas. Infelizmente,
tal objecto originou um diferendo com o pope cossaco Koulakov,
obrigando-o a aplicar um par de pontapés no ventre do piedoso
sacerdote.
 - Muito bem! - concordou Oleg Vassiliévitch, depois de ter
retomado o fôlego. - Guarda o punhal!
 Mas prevejo que em breve o oferecerás como homenagem à Santa
Igreja!
 - Utilizá-lo-ei para te esquartejar o traseiro! - declarou
Mouchkov alegremente, antes de sair, correndo, da mesquita.
 - Nunca se deve dar pontapés a um pope! N¦o está certo. Um homem
consagrado tem direito a melhor tratamento e, além disso, esses
métodos profanos desagradam a Deus.
 Mouchkov concordou, pois considerou que o Céu o punira, ao
enviar-lhe Marina antes de poder ocultar o seu roubo. Com efeito,
esbarraram um contra o outro na esquina de uma casa. Precisaram
de gritar para se explicarem, tal era o ruído provocado pela
pilhagem de todas as casas que se fazia ouvir o estrondo da
destruiç¦o.
 - Que levas aí? - perguntou Marina, apontando para o grande
fardo enrolado num tapete, que Mouchkov carregava aos ombros.
 O coraç¦o de Marina transbordava de secreta alegria por o ver
vivo, embora os seus olhos azuis lançassem chispas.
 - Tenho de levar isto! - respondeu Mouchkov.

 - Desenrola o tapete, Ivan Matveiévitch!
 - Marinouchka, a minha única intenç¦o é subtraí-lo à destruiç¦o!
 - É a guerra! - rugiu Mouchkov, desesperado, agarrando-se bem às
pontas do tapete.
 - Volta para a mesquita! - ordenou friamente Marina.
 - Que dizes?
 - Volta para a mesquita!
 - N¦o estive na mesquita, minha pomba, minha rosa, ouve o que te
digo...
 - Está tudo acabado entre nós, Ivan Matveiévitch! -
interrompeu-o Marina. - Vou imediatamente à procura de Jermak e
desaperto a blusa à sua frente para lhe mostrar que sou uma
rapariga! - Afastou-se quando ele pretendeu retê-la e passou por
ele, afastando-se. - Fica onde estás! - ordenou-lhe. - N¦o quero
nada contigo!
 - Vou à mesquita - gritou Mouchkov, extenuado. - Olha... vou a
caminho! Marinouchka, vem cá! Meu anjo...
 Na mesquita, encontraram o pope cossaco que, entretanto,
libertara os colegas muçulmanos e os esbofeteava, alinhados à sua
frente, roído de prazer, a fim de lhes arrancar a revelaç¦o de
outros esconderijos dos tesouros religiosos. Ao mesmo tempo,
vociferava com a sua voz potente de baixo, talvez ainda mais
eficaz do que a sua m¦o pesada.
 - Meu querido filho... - disse ele a Mouchkov, numa voz muito
suave, enquanto este desdobrava o tapete à sua frente,
descobrindo os tesouros escondidos.
 - Um verdadeiro crist¦o oferece à igreja o que tem de melhor!
 Abraçou Mouchkov para lhe agradecer e, simultaneamente,
mordeu-lhe o lóbulo da orelha. Ivan Matveiévitch rangeu os dentes
de raiva e empurrou Koulakov.
 Em seguida, o pope apercebeu-se da presença de Marina e
abençoou-a com o sinal da cruz:
 - Boris Stepanovitch - declarou num tom inspirado -, tens um
grande futuro à tua frente se continuares a pensar em mim como
até agora!
 à noite, todos os cossacos se mostravam satisfeitos. O espólio
era rico, a cidade de Tchinga Toura representava um bom refúgio
para a invernia. Nos arredores segundo informaçSes extorquidas
aos prisioneiros havia uma série de entrepostos de víveres e
peles. Mametkoul e os seus dez mil cavaleiros n¦o atacariam, com
certeza, antes da Primavera. Poderiam, portanto, repousar do
cansaço sofrido ao atravessar os Urales e, quando a neve
derretesse, atacariam o czar siberiano Koutchoum com força
renovadas, a fim de o aniquilar para se apoderarem da cidade do
ouro, Sibir.
 Em todo o caso, o caminho de Sibir, de Mangaseja, continuava
livre...
 - Tenho feito tudo o que queres - anunciou, nessa noite,
Mouchkov a Marina.
 Juntamente com Jermak, ocupavam a casa do príncipe Iepoutcha,
que fugira, e encontravam-se sentados lado a lado num div¦
coberto de sedas chinesas. Do quarto ao lado chegavam risos
abafados, sussurros, grandes suspiros e guinchos de ratos. Jermak
distraía-se com uma jovem prisioneira tártara. Mouchkov
invejava-o profundamente.
 - Quando me concederás, enfim, o que desejo? - perguntou ele
numa voz embargada.

 - E o que desejas tu, urso velho?
 - Ouve bem o que se passa ali ao lado - suspirou Mouchkov.
 - Ouço piar um passarinho - observou Marina, alegremente. - E
ent¦o?
 - Porque n¦o há-de ser também um passarinho? - balbuciou ele. -
Um passarinho que fizesse o ninho nos meus braços...
 Marina inclinou-se para a frente, pegou subitamente no rosto do
companheiro com as duas m¦os, e deu-lhe um beijo na boca.
Mouchkov, deleitado, fechou os olhos, n¦o se mexeu e, quando
Marina o abraçou e esmagou os seios contra o seu peito, Ivan, no
auge da felicidade, quase se esqueceu de respirar.
 Um minuto de indescritível prazer pode contrabalançar um ano de
rudes provaçSes. Para Mouchkov, o primeiro verdadeiro beijo de
Marina valia bem cem bênç¦os do pope. Mas, quando julgou que se
quebrara o gelo que envolvia o coraç¦o da jovem e arriscou meter
a m¦o por dentro da blusa... ela repeliu-o, meneando a cabeça,
precisamente no momento em que lhe pegava nos seios.
 - Isso n¦o, Ivanouchka - advertiu ela, em voz baixa, com ternura
e firmeza.
 Do quarto ao lado, continuavam a chegar os risinhos da jovem
tártara, acompanhada da voz ofegante de Jermak e de outros sons
confusos, que despertavam nos auditores as mais engenhosas e
fantasistas visSes.
 - Martirizas-me até à morte! - gemia Mouchkov.
- Todos eles celebram a vitória sentados em montanhas de objectos
saqueados. E eu, que tenho eu? O pope, aquele malandro,
apoderou-se de tudo!
 - Também queres ser um malandro, Ivan Matveiévitch?
 Mouchkov calava-se. Marina enfiou a camisa para dentro das
calças cossacas e enterrou o boné vermelho na cabeça. Ao lado, a
jovem tártara continuava a pipilar, enquanto Jermak rugia sem
parar, como se cavalgasse na estepe atrás de uma raposa. Mouchkov
revirava os olhos de forma impressionante, torcia as m¦os e
olhava fixamente para o tecto de argila seca. "Quem conseguiria
suportar semelhante destino?", pensava ele. "Se n¦o a amasse,
arrancava-lhe o uniforme e seria fácil vencê-la, mas seria também
o fim de todos os meus sonhos para o futuro."
 Pelas ruas de Tchinga Toura, passeavam os cossacos, hilariantes,
cantarolando. A retaguarda acabara de chegar, esse bando composto
de aventureiros, monges, empregados dos Stroganov que, durante os
combates, se mantinha afastado mas que, passado o perigo,
retomava a actividade. A passagem dos Urales atrasara muito a
retaguarda, obrigada a transportar as embarcaçSes através de
carreiros perigosos, ao longo de precipícios, descendo ao fundo
dos vales, passando por cima de impetuosas correntes. Construíra
igualmente pequenas fortalezas, utilizando pedaços de rochedo, a
fim de assegurarem a retirada, se esta viesse a ter lugar. Em
particular para os sacerdotes, que n¦o estavam habituados sen¦o a
elevar o turíbulo ou a cruz, por ocasi¦o das bênç¦os, esta
obrigaç¦o de viver em estreita colaboraç¦o com a montanha
representava uma provaç¦o quase insuperável.

 Sendo assim, quem os criticará por terem sido os primeiros, uma
vez conquistada a cidade, a convocar toda a gente para uma
cerimónia de acç¦o de graças? Mais uma vez, desfraldaram-se os
piedosos estandartes, reuniram-se os cossacos com as melhores
vozes para entoarem cânticos. Na mesquita ocupada por Oleg
Vassiliévitch Koulakov, os monges declararam que n¦o acalentavam
pretensSes quanto aos preciosos bens contidos na casa de Alá. E
foi melhor assim, pois o fogoso padre Oleg n¦o teria hesitado em
fazer justiça por suas m¦os.
 - É daqui que Cristo partirá à descoberta da Sibéria... -
proclamou o enviado do bispo de Ouspensk.- Deus tenha piedade dos
pag¦os e os conduza para o seio da verdadeira fé!
 Os cossacos de Jermak compreendiam de maneira diferente esta
sagrada miss¦o. Encarregavam-se do destino dos móveis e objectos
que tinham pertencido aos tártaros e aos vogulos. Percorriam os
arredores, arrastavam para fora dos esconderijos pacotes de peles
e de víveres e, quando deparavam com mulheres, tomavam à letra a
seguinte express¦o do bispo: "trazer nos braços as almas
perdidas" e ofereciam, a estas delicadas fêmeas de olhos em forma
de amêndoa, uma nova concepç¦o da mais fogosa virilidade. Esta
revelaç¦o era transmitida de boca em boca até à capital, Sibir, e
mesmo entre os próximos de Koutchoum.
 - Aniquilá-los-emos! - afirmava o czar siberiano.
- Deixemos passar o Inverno e ser¦o expulsos como lebres das
margens do Tobol!
 O Inverno, na cidade conquistada, custava a passar. Os nevSes
sucediam-se e, depois, o gelo petrificava tudo. O Toura gelou,
tornando-se necessário abrir brechas, com a ajuda de um machado,
na crosta de gelo para alcançar os bancos de peixes. Mas estes
eram de tal modo densos que bastava mergulhar uma rede para
retirar peixes às centenas, como se estivessem dentro de um
caldeir¦o. Os caçadores desceram o rio até à confluência com o
Tobol; neste ponto, esbarraram com as tropas de Mametkoul,
encarregados de impedir o avanço em direcç¦o ao país de
Mangaseja. Verificaram-se pequenas escaramuças e nem do lado dos
Urales reinou a calma. Nesta regi¦o, grupos de ostíacos e de
vogulos assaltavam todos aqueles que se aventuravam
despreocupadamente pelos contrafortes montanhosos.
 Jermak ordenou que as caçadas se processassem sob a protecç¦o de
um destacamento de cossacos. Os prisioneiros n¦o seriam
decapitados, circulariam livremente, a fim de propagarem certas
notícias.
 - N¦o os odiamos! - declarara Jermak depois de os interrogar. Os
prisioneiros, resignados perante a perspectiva de morrerem,
esperavam apenas pelo carrasco.
- Consideramo-los irm¦os infelizes! Mas queremos derrotar
Koutchoum, esse tirano pag¦o que vive em quartos dourados,
enquanto o povo vive como os ratos!
 Como súbitos do nosso czar Ivan, ser¦o camponeses livres!
Adoptem a fé crist¦ e partir¦o em paz...
 Raramente se terá ouvido mentira mais descarada. Os súbitos de
Koutchoum estavam vivos, é certo, e aceitaram o baptismo, de pé,
em longas filas, de boca aberta perante o pope, e de olhos postos
nas deslumbrantes vestes sacerdotais, enquanto se ouvia o coro
dos monges.
 Desamparados, observavam os crucifixos ostentando um homem nu
que parecia pregado em duas vigas cruzadas.

 Os intérpretes falavam-lhes de Jesus, que se deixara matar por
amor aos homens, o que eles consideravam perfeitamente estúpido
porque, antes de nos deixarmos matar, devemos despedaçar tudo à
nossa volta... Contudo, esforçavam-se por admirar e acreditar
neste acontecimento, como convinha, e recebiam o baptismo e a
bênç¦o do pope.
 Mas por este preço tinham a vida salva e, portanto, mostraram
aos cossacos onde caçar sem restriçSes e construíram-lhes trenós
muito leves, de fibra entrançada, que deslocavam pela neve e pelo
gelo t¦o rapidamente como uma raposa preta.
 A cidade de Tchinga Toura, semidestruída, foi refeita.
 Os cossacos preferiam esperar pela Primavera bem agasalhados e,
quando as tempestades de neve sopraram de leste, uivando, quando
veio da taiga e da tundra um frio cruel que penetrava até aos
ossos, quando a regi¦o se tornou impraticável e até mesmo os
ostíacos deixaram de caçar, refugiando-se nas cabanas como
marmotas... começou uma dura estaç¦o para os homens de Jermak.
 Alexandre Grigoriévitch Loupin conseguiu colocar-se ao serviço
do pope cossaco. Era o único meio de permanecer perto de Marina,
pois a grande residência do príncipe Iepoutcha encontrava-se
junto da mesquita e Jermak, Mouchkov e o pope formavam um grupo,
uma trilogia de camaradas ou, para sermos sérios, o
quartel-general dos cossacos! Discutiam a três a melhor maneira
de resistir ao cruel Inverno e, como o adjunto Boris se
encontrava sempre presente, em todas as discussSes, Loupin tinha
muitas ocasiSes de contemplar a filha e, por vezes de lhe falar.
 Loupin assobiava a canç¦o do melro que, pousado no ramo de uma
cerejeira, consola com o seu canto uma jovem apaixonada, quando
se aproximou do pope. Este, ao ouvi-lo, comoveu-se e as lágrimas
vieram-lhe aos olhos, pois a desgraça do país habitava o seu
coraç¦o. O Don! A igreja de Baglodornié pintada de cores vivas,
as alegres mulheres que vinham confessar-se na salinha do
fundo... como tudo isto ia longe! Voltaria a viver semelhante
felicidade?
 O melro pousado na cerejeira...
 - Que queres, Alexandre Grigoriévitch? - perguntou o pope, num
tom dorido. - Desejas uma bênç¦o especial?
 - Gostaria de ser sacrist¦o, respeitável padre - respondeu
Loupin, baixando humildemente a cabeça -, sim, gostava de
organizar o coro e ser vosso servidor. Sei tanto sobre a arte de
cantar como sobre a de curar cavalos: o Inverno anuncia-se longo.
 - És crente, n¦o é verdade, Loupin? - perguntou prudentemente
Oleg Vassiliévitch.
 Loupin apercebeu-se da inquietaç¦o que a voz do pope traía e
sorriu quase amigavelmente:
 - Importa distinguir a oraç¦o da fraqueza humana, respeitável
padre...
 - Falas muito sensatamente, Alexandre Grigoriévitch... - E o
pope gratificou Loupin com uma palmada no ombro t¦o vigorosa que
ele caiu de joelhos e dificilmente retomou o fôlego. - Na
verdade, um homem avisado é sempre útil à igreja.

 Assim, Loupin tornou-se acólito do pope cossaco, o que n¦o era
uma sinecura, como se pode imaginar, visto que, se um cossaco já
n¦o tem por hábito gastar as solas nos locais sagrados, ainda é
menos frequente vê-lo arear cibórios e cruzes douradas e zelar
pelo bom estado das vestes sacerdotais. No entanto, a sua
principal ocupaç¦o consistia em recrutar para os momentos de
lazer do pope uma espécie particular de mulheres: esbeltas, bem
torneadas, de pele branca, de cintura fina e seios fartos,
cheirando a essência de rosas e sem vestígios de odor a ranço,
como acontecia a tantas camponesas vogulos, enfim, as requintadas
bonecas tártaras.
 Quanto aos cossacos, os odores n¦o os preocupavam porque,
diziam, n¦o se ama com o nariz. Mas o pope Oleg era um
aristocrata e a sua necessidade de beleza feminina revelava-se
imenso. Talvez esta gula resultasse do facto de as suas ovelhas o
terem sempre acarinhado e provido dos melhores alimentos.
 O pope organizara sem demoras a cobrança da décima sobre os bens
de cada um, em proveito da Igreja. E, com este intuito, todas as
semanas partiam trenós em todas as direcçSes. Mas circulava ainda
outro trenó, abundantemente provido de peles. Era conduzido por
Loupin, caçador de belas tártaras. Quando avistava uma que lhe
parecia ao gosto do pope Oleg, enrolava-a nas peles e assim, bem
quentinha, transportava-a em condiçSes de ser entregue à Igreja.
 - És um bom companheiro! - observou o padre Oleg, dirigindo-se a
Loupin, ao qual ofereceu, como testemunho do seu reconhecimento,
uma rica pulseira mongol, de prata cinzelada e incrustada de
pedras coloridas, cujo nome todos ignoravam. - Se continuares
assim, nomeio-te diácono, pois tenho bom coraç¦o, irm¦o.
 Loupin podia, pois, ver a filha Marina e falar-lhe... na igreja,
no jardim e em casa do príncipe Iepoutcha.
 O amor que Marina experimentava por Mouchkov era, para ela, um
paraíso secreto, mas sentia uma alegria indescritível durante os
momentos passados com o pai junto ao aquecedor escaldante,
sabendo que n¦o era a única a confiar num homem selvagem que ela
pretendia aperfeiçoar...
 O Inverno revelava-se, na verdade, feroz, coberto de neve e gelo
inquebrável. A superfície dos rios formava uma carapaça gelada e
as florestas mantinham-se impenetráveis, com as árvores
petrificadas. Estas, por vezes, estalavam ruidosamente, fendidas
pelo gelo acumulado no seu interior... Para os cossacos um
Inverno assim era aterrorizador, mesmo bem aquecidos, sempre
junto aos fogSes. O tédio originava rixas. Insultavam-se,
batiam-se pelas poucas mulheres que se lhes ofereciam... Mil
malandrins numa cidade morta, condenados a conservarem-se
fechados num espaço restrito... Jermak n¦o encontrava soluç¦o
para este problema.
 Em Oriol, passara-se tudo de maneira diferente, havia a "cidade
cossaca", a casa grande habitada por cerca de duzentas mulheres
e, além disso, havia festas, caçadas no país de Perm...
 E outrora, no Don? Oh! Irm¦os, tentemos esquecer o Don, o Volga,
o Donetz ou o mar Cáspio! Esqueçamos as estepes do Sul e as
radiosas raparigas dos nogais! É de chorar de dor, t¦o cruéis s¦o
as saudades da terra. Jermak, Mouchkov e Marina faziam muitas
viagens de reconhecimento pelos arredores de Tchinga Toura.
 Num grande trenó puxado por renas machos e conduzido por um
prisioneiro ostíaco, partiam nos dias sem vento, deslizando pela
imensid¦o branca desta regi¦o coberta de neve e desciam ao longo
do Toura até ao Tobol, objectivo da expediç¦o que prosseguiria no
ano seguinte. Pensavam embarcar no Tobol para atingir Irtych e
destruir Sibir, a cidade de ouro, a cidade de Koutchoum.

 Loupin sentia uma enorme angústia sempre que tinha conhecimento
da partida de Marina. Essas expediçSes eram perigosas porque
cavaleiros de Mametkoul, batedores, percorriam a cavalo toda a
zona e abatiam como lebres, com as suas flechas silenciosas, os
cossacos que se aventurassem pelo seu território. Já se tinham
verificado incidentes deste tipo por três vezes. Jermak acabara
mesmo por proibir as saídas a grupos de menos de 50 homens e
cinco atiradores. E, como o exército de Jermak n¦o dispunha dos
cinquenta cavalos necessários, os cossacos estavam condenados a
permanecer na cidade, bebendo e lutando, o que lhes valia uma
estada na pris¦o ou a prova do gelo: depois de regados com alguns
baldes de água, eram expostos ao ar... A maior parte dos cossacos
dificilmente resistia a esta prova refrescante... E Loupin,
obrigado a amputar-lhes os dedos e as orelhas gelados, n¦o tinha
m¦os a medir.
 O próprio Jermak enfrentou problemas com os autóctones por
ocasi¦o das suas excursSes de reconhecimento.
 Foi num dia claro, soalheiro, em que o gelo resplandecia. Sob o
céu muito azul, a neve brilhava de tal maneira que Jermak e
Mouchkov tiveram de proteger os olhos com uma faixa de pano
destinada a filtrar a luz. Marina enrolara-se nas mantas e
enterrara o gorro de pele na cabeça. Viajavam em dois trenós, o
deles e um outro, transportando uma escolta de atiradores
livónios. As renas trotavam na neve endurecida, fazendo ouvir
cada um dos seus passos e os trenós chiavam de tal modo ao
deslizar sobre o gelo que o solo parecia gritar como uma criatura
ferida. Embalados pelos solavancos da viatura, nem Jermak nem
Mouchkov se aperceberam de que o condutor ostíaco saltara
subitamente do assento, rolando várias vezes sobre si mesmo e
imobilizando-se na neve inerte. As renas, n¦o se sentindo
pressionadas pelas rédeas de couro entrançado, ergueram
surpreendidas os focinhos monumentais e, após alguns momentos de
hesitaç¦o, largaram a galope pela extensa planície gelada que se
estendia até ao infinito. O trenó em que se encontravam os
atiradores de elite ficou para trás, ouviram-se gritos, mas
Jermak, Mouchkov e Marina, enrolados nas mantas, nem os ouviram.
Apenas se admiraram ao verem as renas embaladas, enquanto o trenó
parecia voar através da paisagem.
 - Que belo dia! - gritou Jermak ao ouvido de Mouchkov. - Um sol
maravilhoso!
 - As renas v¦o a grande velocidade, o nosso condutor deve
sentir-se feliz com a viatura!
 Enganavam-se totalmente. O ostíaco erguera-se depois da passagem
precipitada do segundo trenó. De pé, na neve, com a m¦o em pala
sobre os olhos, fixava o horizonte, onde acabava de surgir uma
mancha negra que se destacava do fundo imaculado da paisagem.
 Agora, a mancha dividia-se numa quantidade de pequenos pontos
que começavam a adquirir forma: eram cavaleiros, vestidos de
peles bem grossas e usando gorros terminados em bico, também de
pele. à frente, assentes no pescoço dos cavalos, traziam arcos e
flechas, e lanças, galopando cobertos de pedaços de gelo
tilitantes, mas ardendo interiormente de ódio e desejo de
exterminar o inimigo. E o trenó de Jermak, sem condutor,
deslizava precisamente naquela direcç¦o. Era este o tipo de
aventuras que Loupin sempre receara enormemente ao pensar nas
excursSes da filha!...

 Perseguindo o trenó de Jermak, os atiradores livónios e alem¦es
abriam fogo sobre os assaltantes. Mas era inútil, pois o trenó
vacilava e saltava e os homens tinham de se agarrar aos assentos
com toda a força enquanto a viatura, que até ent¦o seguira
sensatamente o trenó à sua frente, ganhava, por sua vez,
velocidade.
 - Aqueles idiotas começaram a disparar! - gritou Mouchkov ao
ouvido de Jermak. - Nesta regi¦o, porém, n¦o me parece que haja
raposas!
 Conseguiram desfazer-se das mantas, arrancaram as faixas que
lhes protegiam os olhos e sentiram-se ofuscados pelo brilho da
neve. à sua frente, as renas estendiam o pescoço sob as pesadas
armaduras e as suas pernas esguias e nervosas arranhavam com os
cascos o solo gelado.
 - O condutor! - gritou subitamente Mouchkov, abanando Jermak
pelos ombros. - O nosso tártaro desapareceu! Deve ter caído do
assento e as renas assustaram-se!
 - Os tártaros! - gritou Marina, por detrás deles, com sua voz
aguda. Ainda se encontrava deitada entre montes de peles e olhava
intensamente para a fila de cavaleiros que galopavam ao seu
encontro.- Tártaros por todos os lados! Trata-se de uma
armadilha, Jermak!
 Na retaguarda, os atiradores abriram novamente fogo, mais para
reanimar a coragem, ou para assustar os tártaros com o estrondo
produzido, do que na esperança de atingir o que quer que fosse a
tamanha distância. Presentemente, Jermak e Mouchkov distinguiam
com clareza a linha dos cavaleiros, que formava um semicírculo,
armadilha na qual os trenós se precipitariam inevitavelmente.
- Detém as renas! - vociferou Jermak. Libertou-se das mantas que
ainda o envolviam, tentou pegar nas rédeas, mas estas
escaparam-se-lhe, escorregando para fora do trenó e começando a
arrastar-se pelo ch¦o, atrás do veículo.
- É preciso parar os trenós - gritou Jermak. - Ivan Matveiévitch,
temos de montar as renas!
- N¦o consigo detê-las! - resmungou Mouchkov, olhando para todos
os lados. Atrás dele, Marina continuava sentada sobre um monte de
peles, agarrada às paredes laterais do trenó.- Temos de saltar!
Jermak, saltemos!
- Vamos ser esmagados pelos tártaros! - rugiu Jermak como
resposta.
Rastejou para a frente, debruçou-se sobre os enormes patins do
trenó, mas n¦o conseguiu apoderar-se das rédeas que continuavam a
arrastar-se pela neve. Já se ouviam os gritos de contentamento
dos tártaros.
- Vou saltar para uma das renas! - avisou ent¦o Mouchkov.
O medo de que acontecesse alguma coisa a Marina levava-o a
encarar as soluçSes mais loucas. Rastejou, por sua vez, para a
frente, até ao assento anteriormente ocupado pelo ostíaco e,
depois, preparou o salto, avaliando a distância que o separava da
rena colocada a meio do veículo. Porém, n¦o chegou a saltar.
Subitamente, Marina colocou-se à sua frente. Sem capote nem
gorros, protegida do frio apenas pelas calças e pela camisa,
Jermak gritou:
 - Mouchkov! Agarra-me esse idiota! N¦o tem força suficiente!
 Mas era demasiado tarde! Mouchkov fechou a m¦o no vazio... Viu
Marina saltar, de braços estendidos para a frente, de pernas
abertas sob um sol resplandecente.

 - Meu Deus! - exclamou Mouchkov. Pelo seu rosto escorriam
lágrimas que gelavam imediatamente.
 Marina aterrou exactamente no dorso da rena colocada ao centro.
Enterrou as unhas na crina do animal, ajustou as pernas aos seus
flancos e sentiu-se t¦o confortavelmente entre os arreios de
couro como na sua sela cossaca.
 A rena virou o focinho para trás, soltou um bramido surdo e
arqueou o dorso, partindo a galope. Mas esta tentativa de revolta
foi inútil, pois Marina enterrou nos flancos do animal os tacSes
das botas, debruçando-se para a frente para se lhe agarrar à
armadura e, esforçando-se desesperadamente, tentou puxar o
focinho do animal para trás.
 Era uma luta sem esperança: o animal esticava os músculos da
nuca, bramiu de novo e a sua boca exalou um vapor denso e quente
que, contra o ar glacial, se transformou imediatamente numa
pesada nuvem.
 - Ivan! - gritou Marina numa voz estridente. - Ivan, ajuda-me!
 Continuava agarrada à armadura da rena, esperando quebrar a sua
resistência. Mas os animais continuavam a avançar pela neve ao
encontro dos tártaros que, de pé nas selas, já apontavam os arcos
e baixavam as lanças.
 - Ivan! Estou esgotada! - gritou novamente Marina.
 O perigo que ameaçava Marina deu asas a Mouchkov, foi, pelo
menos, o que este depois afirmou. Saltou quase ao mesmo tempo que
Jermak, que também envidou os mesmos esforços. Os dois corpos
partiram pelos ares mas, enquanto Mouchkov caiu ao lado de
Marina, no dorso da rena da esquerda, Jermak falhou o salto e
abateu-se violentamente no ch¦o duro e gelado. Meio inconsciente,
ficou estendido, imóvel, coberto de flocos de neve e de
estilhaços de gelo provocados pelo trenó dos atiradores que
prosseguia a sua corrida infernal e quase lhe esmagou o crânio.
 Mouchkov batia com os punhos no pescoço da rena, gritando: Ho+!
Ho+! A rena defendia-se. Nuvens de vapor envolviam Mouchkov, o
animal empinava-se, mas Mouchkov acabou por o obrigar a
vergar-se, torcendo-lhe o pescoço com m¦os de ferro.
 - Pára, carcaça! - rugia ele.
 Após um bramido surdo, a rena abrandou a corrida, imitada pelas
companheiras, antes de se deter completamente, o que as outras
também fizeram. Marina pôde, por fim, dominar a montada. O trenó
dos atiradores de armas de fogo parou ao lado do primeiro. Em
toda a volta, formou-se uma auréola de bruma constituída pelo
hálito das renas atreladas e dos homens ofegantes.
 Jermak continuava estendido na neve. Tentou por diversas vezes
erguer-se, mas em v¦o.
 Os cavaleiros soltaram um grito frenético, o semicírculo
fechou-se e depois, em formaç¦o compacta, de lança em riste,
avançaram para os dois trenós, precedidos de uma chuva de
flechas.
 - Marinouchka... - balbuciou Mouchkov. Continuava a cavalgar a
rena, suado, de músculos ainda trémulos devido ao esforço a que
tinham sido submetidos.
 - Deixa de choramingar! - lançou-lhe Marina.
 - Marinouchka, esconde-te! - implorava ele.
 - Desaparece! - respondeu-lhe ela severamente.
 A seu lado, os atiradores alem¦es e livónios tinham finalmente
recomeçado a disparar. Agora, sentados mais confortáveis e
protegidos por grossas mantas que impediam a penetraç¦o das
flechas, podiam visar com precis¦o. Os primeiros tártaros caíram
e, sob eles, a neve tingiu-se de vermelho.
 As renas pareciam novamente irritadas. Marina saltou da sua
montada improvisada, colocou-se entre os animais e obrigou-os a
baixar o focinho para o ch¦o, puxando pelo freio que lhes
envolvia as ventas. Mouchkov deixou-se escorregar para o ch¦o e
tentou agarrar Marina por uma das botas, a fim de a derrubar. Mas
Marina esperneou e atingiu-o com um pontapé na testa.
Mouchkov resmungou e largou-a.
 - Deixa-me em paz! - gritou-lhe ela, na sua voz aguda. -
Preocupa-te com Jermak.
 - Vais ser empalada pelos tártaros! - vociferou ele.
- Ah! Bandido, que te arranco a cabeça! Stoj! Stoj!
 Correu para o trenó, puxou por uma montanha de mantas, voltou
para junto de Marina e cobriu-lhe o corpo, trémulo de frio.
 Em seguida, sempre a correr, pegou na pistola, no punhal curvo e
aproximou-se de Jermak, que se ajoelhara na neve e olhava em
frente, esgazeado. Mouchkov protegeu o amigo com o seu próprio
corpo, ergueu a pistola e abriu fogo sobre um tártaro que
galopava ao encontro deles, soltando gritos ferozes.
 Tranquilamente, tal como tinham aprendido, os atiradores alem¦es
e livónios visavam os tártaros e, indiferentes às flechas, nenhum
lanceiro de Mametkoul se aproximou suficientemente deles para os
atingir.
 Marina continuava de pé entre as renas, protegida pelos seus
corpos imponentes e pelas mantas retiradas do trenó;
conservava-se energicamente agarrada às enormes cabeças dos
corcéis da neve. Estes, agora, pareciam de uma sensatez exemplar.
Os seus enormes olhos fixavam cavalos e cavaleiros, abanavam as
orelhas espantados com todo o ruído produzido, enquanto nuvens de
vapor esbranquiçado se lhes escapava das ventas.
 O ataque falhara, os tártaros foram obrigados a reconhecê-lo
quando viram metade dos seus guerreiros estendidos na neve e
ensanguentados. Lançaram um último grito de guerra que rasgou a
atmosfera, deram meia volta e os seus cavalos desapareceram na
neve, no sol, na reverberaç¦o do céu que os engoliu. Levavam com
eles os cavalos dos irm¦os abatidos, mas abandonaram mortos e
feridos.
 Os dois livónios desceram do trenó, aproximaram-se de alguns
inimigos ainda vivos e apontaram as armas.
 Soluç¦o mais humana do que deixá-los morrer na neve ou
transportá-los para Tchinga Toura, onde, depois de curados,
seriam enforcados... Conheciam Jermak, esta emboscada n¦o mais
seria esquecida!
 Enquanto os atiradores revistavam os mortos, despojando-os de
anéis e de tudo o que lhes pudesse servir, Jermak coxeava em
direcç¦o ao trenó, apoiado em Mouchkov.
 Titubeava. O seu sentido de equilíbrio parecia alterado, algo no
seu cérebro devia ter-se quebrado. Sofrera certamente um choque
ao cair no solo gelado. Talvez fosse essa a explicaç¦o para
certos actos de que Jermak foi acusado, mais tarde, pois embora
sempre tivesse sido malvado, nunca fora um monstro.

 - Têm anéis de ouro! - gritou um dos livónios, que se encontrava
precisamente a despir um tártaro. - Grandes anéis de ouro!
 Mouchkov suspirava, pensando em Marina, de pé entre as renas, e
invejava os outros, que n¦o tinham ninguém que os impedisse de
pilhar.
. Foi uma hora quase histórica quando Jermak, emocionado, abraçou
Marina, beijando-a três vezes:
 - A partir de agora, és meu irm¦o, Boris Stepanovitch! - disse
ele.
 Mouchkov tossiu, como se tivesse alguma coisa atravessada na
garganta, pois estava a pensar nos seios redondos e firmes de
Marina, apertados contra o peito de Jermak. Mas este possuía um
humor demasiado solene para se aperceber do facto, e prosseguiu:
 - Devemos a vida à tua coragem. Ivan Matveiévitch, foi a melhor
inspiraç¦o que jamais tiveste: trazeres Boris daquela aldeia em
chamas...
 - É o que estou sempre a pensar! - exclamou Mouchkov, fazendo
menç¦o de também beijar Marina mas, desta vez, com a permiss¦o de
Jermak. Mas ela empurrou-o com brutalidade, enquanto um brilho de
fúria lhe passava pelos olhos azuis. "Que dia de festa! Quando
penso nisso, tenho a impress¦o de que o meu apetite aumenta!" Fez
nova tentativa no sentido de se apoderar da cabeça de Marina, mas
esta repeliu-o, aplicando-lhe uma palmada na m¦o.
- Ele n¦o me suporta, Jermak... - declarou. - Talvez n¦o o tenha
surrado como merecia, um tipo como este só se torna razoável à
custa de coleccionar equimoses!
 - Regressemos a casa! - Jermak inspeccionava com o olhar os
campos cintilantes. - E aquele que me trouxer a cabeça do
condutor do meu trenó receberá dez rublos! - Subiu para o trenó e
empunhou as rédeas de couro. - Qual dos dois é capaz de conduzir
renas?
 - Eu monto a rena da frente - sugeriu Marina. - Julgo que serei
capaz de me desembaraçar!
 - Eu encarrego-me disso! - replicou Mouchkov. - Jermak
Timofeiévitch, o rapaz está meio gelado, n¦o suportará o esforço!
Enrola-te nas mantas e aquece-te!
 - Sou eu que monto a rena! - insistiu Marina, saltando para o
animal. - Ivan é demasiado estúpido! Ele que se cale, ou
gelam-lhe as tripas!
 Jermak soltou uma gargalhada, dirigiu-se para o trenó, pegou nas
mantas mais grossas e tapou Marina. Mouchkov andava em volta das
renas, resmungando e endereçando a Marina olhares suplicantes de
c¦o abandonado.
Ao mesmo tempo, perguntava a si mesmo que tolice teria feito para
que ela se mostrasse t¦o furiosa. Sentou-se, porém, resignado, ao
lado de Jermak, de olhos postos em Marina que, numa voz
cristalina, deu o sinal de partida. As renas avançavam a trote e
os trenós deslizavam, rangendo na neve endurecida.
 O segundo trenó, com os atiradores alem¦es e livónios, seguia-os
de perto. Os homens riam-se, mostravam uns aos outros os seus
espólios e gritavam a Marina:
 - Receberás a tua parte! Tens o direito de escolher o que mais
te agradar!

 - Está bem! - replicou Mouchkov, sentindo um vivo prazer ao
pensar que Marina seria forçada a aceitar uma parte do espólio
recolhido, e esfregando as m¦os. "Se ela recusar", pensou ele,
"n¦o só passará por idiota como magoará os camaradas! Pois bem,
meu lindo cisne, como te safarás desta?"
 - E n¦o se esqueçam de Ivan Matveiévitch! - advertiu alegremente
Mouchkov, começando a cantar a canç¦o do rouxinol dourado
subtraído por um cossaco da corte do imperador da China.
 Marina voltou-se para trás e olhou de relance para Mouchkov, que
se sentiu atingido por um raio. Calou-se e preparou-se para
passar mal a noite, encostado ao grande fog¦o de barro.
 Mas n¦o se diga que Mouchkov era um cobarde pois, quando
avistaram ao longe Tchinga Toura, emergindo do pôr-do-sol e as
primeiras patrulhas vieram ao seu encontro, estava decidido a
evitar qualquer contacto com Marina.
 Logo que chegaram à residência do príncipe Iepoutcha, retirou-se
para a mesquita, presentemente transformada em igreja, onde
Loupin se lançou sobre ele, insultando-o e arrepelando os cabelos
ao pensar nos perigos a que estivera exposta Marina, a sua
pequenina, a sua pomba! Como habitualmente, o pope fora o
primeiro a ser informado sobre a escaramuça e Oleg já se
encaminhara para os bairros dos alem¦es e dos livónios, para se
apoderar, em nome de Cristo, de parte dos despojos de guerra.
 - Porque abandonaste Marinouchka? - vociferava Loupin. - Onde se
encontra? Porque n¦o vem?
 - Está a escolher a sua parte do espólio - respondeu Mouchkov,
torcendo o nariz.
 - O quê - perguntou Loupin, intrigado.
 - Marina tem direito à sua parte, despojámos os mortos, velhote,
que queres tu que um morto faça de uma quantidade enorme de anéis
e pulseiras? - Apurou o ouvido, de cabeça voltada para a porta,
para se assegurar de que ninguém se aproximava; em seguida,
apoiando-se firmemente nas pernas, concluiu:
 - Fico aqui porque necessito da protecç¦o da Igreja!
 Oleg Vassiliévitch, o pope cossaco, surgiu uma hora mais tarde,
de barba hirsuta, pois vira-se obrigado a lutar para convencer os
atiradores alem¦es de que a verdadeira fé se manifesta
essencialmente através do sacrifício.
 - Olha! - exclamou o pope ao avistar Mouchkov. - Que tens tu
para oferecer?
 - Nada! Cortaram-me a erva debaixo dos pés.
 - N¦o mintas! - vociferou o pope. - Um Mouchkov surripia sempre
alguma coisa!
 - Um Mouchkov! Oh! padre, que Mouchkov? - Ivan olhou para todos
os lados e sobressaltou-se quando ouviu a voz de Marina em frente
da iconostase.
 - Venerável padre! - gritava ela.
 - Aquele malandro! - exclamou o pope alegremente. - É um belo
rapaz, oferece à Igreja o que sabe ser do seu agrado!
 Enquanto Oleg e Loupin contornavam a iconostase, Mouchkov
espreitou por uma brecha aberta na parede coberta de ícones. Na
verdade, Marina recebera a sua parte dos despojos e acabava de a
depor nos degraus do altar: duas pulseiras com incrustaçSes de
pérolas, um punhal com cabo de ouro puro sumptuosamente
lavrado...
 - Meu filho - declarou o pope emocionado, eu te abençoo!

 - É a minha parte - disse Marina, apontando para o maravilhoso
punhal - e mais isto... - e mostrava as pulseiras cobertas de
pérolas -, é a dádiva de Mouchkov, pela sua salvaç¦o!
 - Aleluia! - rejubilou o pope Oleg.
 Ivan recuou e fechou os olhos, abatido: "Se casar com ela",
disse mais uma vez para si mesmo, "terei de viver como um
campónio, coisa que um cossaco n¦o suportará!"
 - Onde está Mouchkov? - perguntava Marina, na sua voz
cristalina. - Atrás da iconostase? Vamos, padre, mostra-mo,
preciso dele para lhe transmitir uma ordem!
 Sorrindo, Mouchkov contornou a iconostase e viu o pope, que
examinava as pulseiras, dando estalos com a língua.
 - Vem comigo! - gritou-lhe Marina, pegando-lhe numa m¦o e
arrastando-o até à porta. Lá fora, na noite glacial, uma vez
fechado o batente, Marina plantou-se à frente de Mouchkov, bem
encostada a ele, de olhos brilhantes:
 - Amo-te, grande urso! - murmurou ela, muito baixinho. - Amo-te
e, presentemente, sei que serei tua mulher.
 Depois desapareceu na escurid¦o, deixando atrás de si um infeliz
Mouchkov, interiormente consumido...
 Durante toda a noite, Mouchkov aguardou o regresso de Marina,
mas esta permaneceu inacessível. T¦o martirizado pelo amor quanto
pelo medo, Mouchkov errava pela vasta mans¦o do príncipe
Iepoutcha e saltava para a porta ao mínimo som vindo do exterior.
Mas tratava-se apenas de alguns cossacos que passeavam pela
cidade, perturbando a paz nocturna.
 Era impossível falar com Jermak. A doce tártara encontrava-se de
novo com ele, e justamente, conversavam deliciados, embora Jermak
ainda desse mostras de ter o cérebro um tanto toldado, depois da
queda do trenó. Também sentia dores nos membros e o mais leve
esforço, mesmo amoroso, prostrava-o como se lhe tivessem batido
com um peso de chumbo. Perguntar-lhe, nesse momento, onde se
poderia encontrar Boris Stepanovitch, teria sido perigoso, mesmo
para Mouchkov.
 "Ela tem de estar escondida em algum lugar", pensava ele,
"talvez entre os cavaleiros, ou enrolada numa manta de peles,
recolhida numa cabana abandonada, como um c¦o escorraçado. Mas
porque teria fugido? Por que me deixou, precisamente agora?"
 Já a noite ia avançada quando Mouchkov se dirigiu para a
mesquita, transformada em igreja, a fim de confiar o seu desgosto
ao padre Oleg. O pope encontrava-se deitado no div¦ em que
outrora repousara o moullah maometano e ressonava a ponto de
meter medo.
 Muito encostada a ele, uma jovem de peito farto acordou, olhou
de relance para Mouchkov, virou-se para o outro lado, e adormeceu
novamente.
 - Como estou só! - observou Mouchkov, abatido. - Ninguém vem em
meu auxílio! - Vagueou pela antiga mesquita, penetrou nos
compartimentos desocupados e acabou por encontrar Grigoriévitch
Loupin, que se acomodara no "quarto dos tesouros" e que, facto
estranho, ainda estava acordado. Mouchkov percorreu com o olhar
todo o tesouro acumulado no quarto; objectos de ouro e de prata,
peles e tecidos cujo valor avaliou em algumas centenas de rublos.
Depois, sentou-se, suspirando, junto de Loupin, na colcha de pele
de lobo que cobria a cama e descia até ao ch¦o.

 - Marina fugiu! - declarou ele. - Agora, que tinha prometido ser
minha mulher! Diz-me, onde está ela?
 - Nunca a encontrarás.
 - Foi a primeira vez que disse que me amava e, logo a seguir,
fugiu! Com certeza, estava muito emocionada... Que filha tens,
velhote! Se Jermak descobre que Boris Stepanovitch é uma
rapariga... terei de escolher, sem dúvida: ou mato Jermak ou
abandono Marinouchka...
 - E tu preferes...
 - Creio que matarei Jermak! - respondeu Mouchkov em voz surda. -
Agora, tenho a certeza!
 - Repito-te aquilo que já te aconselhei: fujam! Regressem à
vossa terra! - insistiu Loupin, após um momento de silêncio,
durante o qual lamentou a sua própria sorte de pai abandonado. -
O caminho que atravessa os Urales tornou-se mais fácil, poderiam
ir de guarniç¦o em guarniç¦o, uma vez que deixámos algumas à
nossa passagem...
 - Um cossaco n¦o deserta!
 - Esquece que és um cossaco!
 - Que queres ent¦o que seja?
 - O homem de Marina... acabarás por a encontrar!
 - Na próxima Primavera, haverá uma grande batalha...
 - E, ent¦o, será bom que há muito tenhamos atravessado os
Urales, Ivan Matveiévitch! - E acrescentou, em tom confidencial:
- Consta que Koutchoum tem dez mil cavaleiros estacionados nas
margens do Tobol! Estás a ver Marina, obrigada a cavalgar ao lado
de Jermak, à frente das tropas? Nem consigo respirar, só de
pensar nisso! Seja como for, ela n¦o regressará à Rússia sem ti.
Se acompanhares Jermak, tê-la-ás a teu lado!
 A conversa era sempre a mesma.
 - N¦o posso esperar nenhum conselho! - concluiu tristemente
Mouchkov. - Vou voltar para casa, para ver se Marina já
regressou...
 Mal saiu do quarto, Marina soergueu a pele de lobo, abandonando
o esconderijo, debaixo da cama. Descalçara as botas e vestia
apenas uma camisa leve, pois o quarto encontrava-se aquecido por
um fog¦o que libertava um calor penetrante. As pedras de que era
feito estalavam lentamente, tal era o calor produzido pela lenha
em combust¦o.
 - Quando derreter o gelo do Toura, Ivan Matveiévitch será um
homem diferente! Ouviste-o, pai? Por mim até seria capaz de matar
Jermak! - Sentou-se na cama, com as m¦os em redor dos joelhos e
lançou um olhar cintilante de felicidade aos candeeiros de
petróleo que iluminavam o quarto. - Eu sabia: é um homem de bom
coraç¦o! Tudo se arranjará e tu também acabarás por te habituar a
Ivan, papá!
 - Nunca, filha, nunca! - Loupin encostou-se à porta, pois
Mouchkov podia voltar, depois de verificar que Marina n¦o
regressara. Sendo assim, Marina teria de ter tempo de se enfiar
debaixo da cama! - Nunca esquecerei que ele incendiou a nossa
aldeia! - acrescentou.
- N¦o lançou um único archote! - exclamou Marina. - Nesse
momento, estava ocupado a proteger-me!
 - Queria desonrar-te, à boa maneira dos cossacos!
 - E fê-lo?
 Loupin n¦o respondeu: nada ganharia a discutir as virtudes de
Mouchkov com Marina, que era teimosa como uma burra!

 - Porque te escondes dele? - perguntou o pai, passado um
momento.
 Marina olhou vagamente em redor e depois, lentamente, respondeu:
 - É de mim mesma que fujo...
 - N¦o compreendo.
 - Amo-o e, se n¦o tivesse fugido, a tua filha já n¦o seria
virgem... - Marina estirou-se sobre a pele de lobo e dobrou as
pernas bem torneadas. - Tu n¦o o viste lançar-se sobre a rena,
torcendo-lhe o pescoço para trás!
 - Mas, Marinouchka, pensei que tu própria tinhas saltado para a
rena?
 - Sim, saltei, mas n¦o tive força suficiente para lutar contra
um animal t¦o possante. Quando Ivan lhe pegou na armadura,
senti-a quebrar-se. Puxou pela cabeça da rena e, ent¦o, vi que
Ivan chorava a cavalo no animal. Chorava por amor e medo de que
me acontecesse alguma coisa e as lágrimas gelavam-lhe no rosto
como pérolas de gelo. Um Mouchkov a chorar por amor! Papá, quase
morri ao vê-lo assim... t¦o feliz me senti!
 - E, no entanto, trataste-o mal e insultaste-o, segundo me
disse! Tens uma estranha maneira de reconhecer o amor que
recebes!
 - N¦o podia proceder de outra maneira. - Marina estendeu-se ao
comprido e cruzou as m¦os no peito. Loupin, sentado a seu lado,
passou-lhe a m¦o pelo cabelo, desajeitadamente cortado por
Mouchkov. - Se lhe bati, foi por querer bater em mim mesma!
Poderia beijá-lo sob o olhar de Jermak? Nesse momento, teria sido
capaz de tudo! Compreendes, papá?
 - N¦o! - reconheceu honestamente Loupin. - E pergunto a mim
mesmo onde nos levará ainda esse teu comportamento.

 De madrugada, Marina penetrou furtivamente na residência do
príncipe Iepoutcha. Jermak dormia, exausto, ao lado da tártara.
Numa outra sala, Mouchkov cochilava junto ao fog¦o, deitado no
ch¦o e enrolado numa pele, da qual estreitava uma ponta, como se
se tratasse de um objecto dos seus sonhos... Sorria e, de vez em
quando, resmungava. O sonho devia ser extravagante!
 Marina debruçou-se sobre ele, beijou-o na testa e, depois, foi
deitar-se no div¦ coberto de seda oriental.
 Antes de fechar os olhos, teve o cuidado de pendurar o punhal
curvo à cintura. Permanente defesa contra Mouchkov, que tinha
tudo a ganhar se continuasse a ser sensato.

Capítulo 7

 Alguns dias mais tarde, Mouchkov entrou na igreja, esgazeado,
cabelo empapado em suor, e implorou, numa voz quase inumana:
 - Santo padre Oleg Vassiliévitch, vem em nosso auxílio! Boris
tem muita febre, está a delirar e n¦o me reconhece! Está t¦o
quente como uma fogueira incandescente! Tem piedade!
 O pope cossaco apareceu ent¦o, de tronco nu, envergando apenas
as calças. Sentindo-se apanhado em falta, aplicou imediatamente
um par de bofetadas t¦o enérgicas na mulher que ousara segui-lo,
que ela bateu em retirada para trás da iconostase. Do outro lado,
surgiu Loupin, que procurou conter o pope. Trazia ainda o cabelo
emaranhado, por se ter levantado da cama.

 - Boris vai morrer nos meus braços! - lamentava-se Mouchkov. - O
seu espírito já vagueia pelos campos!
 - Reza! - ordenou-lhe o pope, peremptório. - Permaneceu exposto
ao frio durante muito tempo! Nem sequer trazia uma pele sobre os
ombros. Cavalgava uma rena, gelaram-lhe os pulmSes! Entoemos
juntos o cântico fúnebre, meus irm¦os!
 - Ele n¦o pode morrer! - gemeu Mouchkov. - Jermak já mandou vir
os nossos melhores cirurgiSes, mas n¦o sabem que conselho dar:
s¦o capazes de suturar ferimentos, mas n¦o conhecem nada que cure
a febre! Alexander Grigoriévitch, o que é que se dá aos cavalos
em casos como este?
 - Vou procurar um remédio! - respondeu Loupin, retirando-se a
correr. "Febre", pensava ele, sentindo as pernas trémulas. "Por
muito infecto que seja, o pope tem raz¦o, se o gelo lhe roeu os
pulmSes e estes se inflamaram, assistiremos impotentes à morte de
Marina, nos nossos braços... Marinouchka, seremos enterrados
juntos... que farei eu sem ti neste mundo?"
 Na residência do príncipe Iepoutcha, Jermak encontrava-se
sentado, de ar taciturno, olhar distante.
 Encostados à parede, dois cirurgiSes ostentavam duas nódoas
negras na testa, prova da sua incapacidade para. "combaterem a
febre". Jermak aplicara-lhes uma valente surra quando ousaram
declarar: "N¦o podemos fazer nada."
 - Alguém lhe tocou? - gritou Mouchkov correndo para Jermak. Era
a sua segunda grande preocupaç¦o quando pediu ajuda a Loupin: se
os cirurgiSes desapertassem a camisa do doente, ficariam a saber
que se tratava de uma rapariga. Mas, ao ver Jermak sentado à
cabeceira da cama e dois cirurgiSes cobertos de nódoas negras e
encostados à parede, verificou que o segredo continuava por
desvendar.
 Mouchkov debruçou-se ternamente sobre Marina, que, de olhos
arregalados, debatendo-se contra a febre, murmurava palavras
incoerentes. Ao respirar, assobiava como se tivesse engolido uma
tempestade de neve.
 - S¦o os pulmSes... - sussurrou Loupin, numa voz monocórdica. -
Deus tenha piedade de nós!
 Pousou no ch¦o a sacola de couro contendo os remédios destinados
aos cavalos, debruçou-se sobre a filha e contemplou-a. Ela n¦o o
reconheceu... Os seus olhos vidrados fixavam outro mundo.
 - Saiam! Saiam todos! - ordenou Loupin,
 - Porquê - gaguejou Mouchkov.
 - Saiam! - gritou Loupin. - Quero estar só!
 Jermak levantou-se, em silêncio, puxou Mouchkov pela manga e
arrastou-o para a porta. Os dois cirurgiSes seguiram-no,
aproveitando para se escaparem. Os hematomas inchavam a olhos
vistos. "PulmSes..." pensavam eles. "Boris Stepanovitch n¦o verá
o dia de amanh¦...A febre rebenta com o coraç¦o e os pulmSes...
Jermak, escolhe outro adjunto!"
 Bateram com a porta, ao fechá-la. Loupin encostou um baú ao
batente e começou a despir a filha, verificando, emocionado, qu¦o
dotado de graça era este ser, nascido do seu sangue. Pousou o
ouvido sobre o coraç¦o de Marina e ouviu um martelar patológico.
A sua pele branca estava quente como cozida no forno e a
respiraç¦o assobiava como vento outonal.
 - Que lhe estás a fazer? - perguntou Mouchkov, gritando atrás da
porta. - Se ele morrer, mato-te!

 - Eu próprio me encarregarei de o fazer! - replicou Loupin,
desesperado.
 Esta sinistra troca de palavras deve ter arrancado Marina ao
estado de inconsciência, pois virou a cabeça de lado e a fixidez
do seu olhar deu lugar a uma express¦o sonhadora:
 - Mais uma vez a discutir - murmurou ela, muito fraca.
 Loupin sobressaltou-se, caiu de joelhos ao lado da filha e
abraçou-a, desejando absorver a febre do seu corpo.
 - Papá, tenho tanto frio... - disse Marina de súbito. O seu
corpo escaldava mas tremia ao mesmo tempo. Loupin tapou-a com um
cobertor e pôs-se a pensar nos cavalos...
 - Preciso de água fria e de água quente! - exclamou ele
apressadamente, voltando-se para a porta. - E de grandes peças de
pano! Despachem-se!
 Loupin ouviu Mouchkov agitar-se como um diabo, dar pontapés nos
cirurgiSes, o que imaginou pelo ruído produzido, seguindo-se
passos precipitados...
 - Vou entrar! - advertiu Mouchkov, do outro lado da porta.
 - Se ousares fazê-lo, apunhalo-te! - replicou Loupin, no seu
papel de pai angustiado e enérgico. - Ent¦o despacha-te!
 Nunca ninguém respondeu com tanta prontid¦o a um pedido.
 - Aqui está a água! - gritou Mouchkov, batendo com os punhos na
porta fechada. - Deixa-nos ver o rapaz!
 - N¦o se aproximem! - respondeu Loupin que, tendo empurrado o
baú, entreabriu a porta e se apoderou dos dois baldes de couro,
um cheio de água quente e fumegante, outro repleto de água fria.
Jermak dera-lhe ainda uma pilha de peças de pano grosso com o
qual os tártaros confeccionam roupa interior.
 Para o comandante cossaco Jermak Timofeiévitch, o destino
escapava totalmente ao ser humano. Pode levar-se uma existência
t¦o livre como as águias... Mas, um dia, ela deixa de obedecer à
nossa vontade... ninguém consegue evitar o inelutável fim.
 Durante todo o dia e toda a noite, Loupin permaneceu à cabeceira
de Marina, envolvendo-a sucessivamente em panos quentes no peito
e na cintura e em panos mergulhados em água gelada nas coxas e
nos pés, a fim de baixar a febre.
- Ent¦o, como v¦o as coisas? - perguntou Jermak, muito calmo. Ao
contrário de Mouchkov, que se comportava como um louco, ele
mostrava-se reflectido e imbuído de uma forte determinaç¦o.
- É impossível saber - respondeu Loupin, voltando a fechar a
porta.- Trata-se de um combate em que ninguém me pode ajudar!
Mouchkov e Jermak renovavam a água regularmente.
 à noite, certamente para acalmar a angústia, Jermak decidiu
condenar à morte o condutor do trenó, responsável por todos os
males, que os conduzira à emboscada armada pelos tártaros e que
uma patrulha acabava de descobrir, escondido numa caverna à beira
do Toura.
 Infatigáveis, portanto, transportavam baldes de couro num vaivém
incessante, enquanto em grandes fogueiras, os caldeirSes que
habitualmente continham sopa, se encontravam cheios de água a
ferver. A meio da noite apareceu o pope Oleg.
 - Já terá morrido? - perguntou ele a Mouchkov, sentado num
escabelo, diante da porta fechada, aguardando ordens de Loupin. -
Já se pode benzer o corpo? - acrescentou o pope.
 - Arrasto-te pela barba até te arrancar a cabeça! - vociferou
Mouchkov. - Vai para a cama... e sozinho, por uma vez!

 O pope ergueu a m¦o em sinal de lamento por ouvir tais
propósitos, esboçou o sinal da cruz sobre a cabeça de Mouchkov e,
em seguida, aplicou-lhe um murro no nariz.
 - Aprende o que é o respeito, meu filho! - declarou-lhe, logo
que o atingido se conseguiu levantar. - Preciso de ver Alexandre
Grigoriévitch! - acrescentou.
 - É ele que está a tratar de Boris Stepanovitch.
 - Mesmo assim, preciso de o ver! - Oleg Vassiliévitch cerrou os
punhos. - Ele é, ou n¦o, o sacrist¦o? É a ti que deve obedecer?
Se Boris tem os pulmSes atacados, seria preferível liquidá-lo
imediatamente, em vez de o fazer sofrer!
 O que Mouchkov ousou ent¦o fazer - se considerarmos a quest¦o do
ponto de vista eclesiástico - nunca poderá ser perdoado, nem por
mil padre-nossos e dez mil anos de geena: esmurrou o nariz ao
pope e expulsou-o da sala sob uma chuva de insultos. Chegou mesmo
a persegui-lo através da noite glacial até à porta da igreja...
para terminar, quando o pope penetrava pela porta que conduzia à
iconostase, ainda lhe aplicou um formidável pontapé.
 Na madrugada do dia seguinte, Loupin saiu titubeante do quarto
em que se encontrava Marina. Parecia um velho espectro e teve de
se apoiar em Mouchkov. Tinha os olhos vermelhos e pisados, t¦o
grande era o seu cansaço.
 - A febre baixou... - balbuciou ele, encostando a cabeça ao
peito forte do companheiro. - E já n¦o assobia ao respirar...
Agora, oremos.
 - Vai lá tu, velhote! - respondeu Mouchkov, embargado pela
angústia. - Pois o pope n¦o consentirá em me ouvir.
 - N¦o! Tu é que lá vais! Eu fico junto de Marinouchka - Loupin
afastou-se de Mouchkov. - E traz-nos a sua bênç¦o...
 Mouchkov penetrou na igreja humildemente. Oleg, o pope, acabava
de contornar a iconostase quando ouviu passos e se imobilizou,
olhando fixamente para Mouchkov.
 Este caiu de joelhos e baixou a cabeça:
 - Poderemos vencer a doença, venerável padre! - balbuciou ele,
embaraçado. - Loupin conseguiu que a febre baixasse. Agora,
precisamos do auxílio do Senhor: fui encarregado de pedir a tua
bênç¦o...
 - O senhor também está contigo, Ivan Matveiévitch! - declarou o
pope cossaco na sua voz profunda.
 Aproximou-se e colocou-se, de pernas abertas, diante de
Mouchkov, que se ajoelhara e lançava ao pope um olhar inquieto.
 Em seguida, Mouchkov foi atingido por uma saraivada de murros,
n¦o se tendo defendido, pois necessitava da bênç¦o do pope Oleg.
Desfaleceu, desceu três degraus da igreja rolando sobre si mesmo
e, de cada vez, a cada pontapé recebido, pensava com fervor:
"Marinouchka, sofro por ti! Vamos! Agora nas costelas! Marina,
cura-te! Ai! agora na nuca! Marina, amo-te..."
 Quando Oleg se cansou até mais n¦o poder de sovar o paroquiano,
deu-lhe a bênç¦o e chegou mesmo a erguer Mouchkov, a fim de que
este pudesse sair da igreja bem direito. Com um olho negro, os
lábios inchados e nódoas negras por todo o corpo, Mouchkov
reapareceu na residência do príncipe Iepoutcha.
 - Trago a bênç¦o, velhote - declarou ele a Loupin, com alguma
dificuldade.

 Titubeante, penetrou no quarto em que Marina dormia, envolvida
em panos até ao pescoço. Já n¦o parecia condenada a morrer. Pelo
menos, foi essa a sua impress¦o.
 Loupin olhava-o, admirado, prometendo castigar o pope Oleg...
 - Posso... posso... beijá-la? - balbuciou Mouchkov, caindo de
joelhos ao lado de Marina.
 - Podes.
 - Obrigado, velhote. - Mouchkov debruçou-se e deu um beijo nas
pálpebras descidas de Marina. Ao erguer-se, pareceu-lhe que
Marina sorria, adormecida.

 Ainda há milagres neste mundo, como prova o facto de Marina ter
sobrevivido a uma congest¦o pulmonar e ter podido abandonar o
leito ao cabo de seis semanas.
 Mais transportada que apoiada em Mouchkov, Marina deu os
primeiros passos e Jermak mandou preparar uma refeiç¦o festiva.
Loupin mantivera-se permanentemente à cabeceira da filha e só
graças à sua presença se n¦o descobriu quem era, na realidade, o
jovem adjunto Boris Stepanovitch.
 Antes de Marina se sentir suficientemente forte para se
levantar, Mouchkov cortou-lhe outra vez o cabelo e, assim, nada
mudou no aspecto exterior de Marina, exceptuando o
facto de ter perdido dez libras de peso, o que a tornava de
aspecto ainda mais frágil.
 Mas, surgira um acontecimento novo: Oleg Vassiliévitch Koulakov,
o pope cossaco, também se encontrava de cama, e há três semanas.
Sobre a sua doença, relatava os mais terríveis sintomas. De
facto, fora atacado impiedosamente por alguém quando se
encontrava deitado. Fora marcado nas nádegas por um ferro em
brasa, como as vacas. O pope n¦o vira ninguém, porque estava
bêbedo e, quando sentiu a dor provocada pela queimadura já era
demasiado tarde e o brincalh¦o, autor da malvadez, desaparecera.

 O pope estava certo da inocência de Mouchkov, pois ele nessa
noite encontrava-se em companhia de Jermak, a discutir a
necessidade de constituir novas patrulhas e de reforçar as já
existentes. Cada vez mais numerosos e ousados, os velozes
cavaleiros de Mametkoul assaltavam, com efeito, os transportes de
abastecimento que os Stroganov enviavam através dos Urales em
direcç¦o aos postos dos cossacos.
 Loupin tratou a marca feita a ferro no corpo do pope como se
este fosse um cavalo. Mas, como o pope n¦o era um cavalo, a
ferida infectou e Oleg teve de se deitar de ventre para baixo sem
desconfiar de que o bom samaritano Loupin, que agora o besuntava
com unguentos, era justamente o responsável pela sua desgraça...
abrasadora!
 - Se n¦o estivesses aqui... - chegava ele a dizer a Alexandre
Grigoriévitch -, mesmo assim, faria de ti um diácono...

 Chegou a Primavera. O gelo estilhaçava-se à superfície do Toura
e dissolvia-se em massas glaucas; a neve derretia, as terras
impregnavam-se de água, transformavam-se em vastos pântanos. Os
caçadores, novamente activos, anunciaram que um exército acampara
perto do rio Tobol. E os Stroganov fizeram constar que, nesse
mesmo ano, contavam com a conquista definitiva de Mangaseja.
Corria o ano de 1582.

 Os cossacos aperfeiçoaram os seus barcos e construíram novas
jangadas. Também salgaram alimentos e armazenaram os sacos de
aveia torrada enviada pelos Stroganov. Simultaneamente,
conservaram milhares de peixes, que secaram ao sol, o que
provocava um indescritível fedor.
 Depois, no mês de Maio, apareceu um enviado do bispo de
Ouspensk, que celebrou ao ar livre uma missa solene, nomeou
Loupin diácono e aspergiu com água benta todos os barcos e
jangadas.
 Iniciava-se, assim, uma nova expediç¦o. Em primeiro lugar,
teriam de descer o Toura até ao Tobol, depois até ao Irtych e,
por fim, até ao rio Ob, onde se situava o coraç¦o de Mangaseja, o
paraíso desconhecido em que se podia capturar à m¦o uma raposa
prateada e estrangulá-la. Nessa regi¦o, abundavam os animais.
 Mas, nas margens do Tobol, esperava-os Mametkoul, com os seus
dez mil cavaleiros.
Na elevaç¦o do Irtych encontrava-se estacionado o exército de
Koutchoum, composto pelos melhores guerreiros tártaros. à volta
de Sibir, a capital do czar siberiano, tinham-se cavado grandes
fossos e erguido enormes muralhas. Dos confins do país chegavam
constantemente novos reforços de combatentes, alertados pelos
emissários de Koutchoum. Nenhum chefe regional deixou de
responder ao apelo de Koutchoum; os tártaros da estepe de Baraba,
o c¦ Goulei Moursa, os príncipes Janbych, Bardok, Nemtch, Binei e
Obak. Por fim, apareceu na margem do Irtych o príncipe Oumak e os
seus cavaleiros lanceiros.
 Goulei Moursa viera do Sul, de muito longe, a fim de ajustar
contas antigas com Jermak. O príncipe Janbych comandava os seus
famosos archeiros e as tropas de Oumak lançavam dardos
incendiados. Um exército inteiro reunia-se para aniquilar alguns
cossacos a pé. Nas margens do Toura surgiam de vez em quando
batedores que acompanhavam, durante parte do itinerário, o
estranho séquito de barcaças e jangadas cossacas, desaparecendo
em seguida. Por diversas vezes, Jermak enviou o barco de
atiradores alem¦es para junto da margem, ordenando-lhes que
disparassem algumas salvas... os cavaleiros de raça amarela, em
pânico, regressavam velozmente para o Tobol.
 O czar Koutchoum, rodeado pelo seu exército e príncipes fiéis,
escutava os relatos dos cavaleiros enviados como observadores,
considerando que estes relatos continham uma estranha
ressonância.
 - Um incomensurável exército russo vem a descer o rio de barco!
- anunciavam os cavaleiros. - Os barcos e as jangadas s¦o tantos
que nem se vê a superfície da água! à frente, vem um barco cujas
velas s¦o de um vermelho sangrento... Um grande arauto, instalado
na proa toca uma corneta dourada!... Guerreiros de arcos de prata
lançam flechas de fogo e sempre que uma flecha é disparada
eleva-se uma nuvem de fumo, enquanto pelo céu ressoa um trov¦o
que abala homens e árvores... Que devemos fazer, Sublime Czar?
 Koutchoum reflectia. Acreditava nestas informaçSes, pois os
homens que tinham escapado às escaramuças do Inverno contavam as
mesmas coisas. Os Russos possuíam a faculdade de desencadear
trovSes, era uma característica a que teriam de se habituar! Que
sabia Koutchoum sobre canhSes? Quem suscitava os trovSes e
parecia comandar os céus eram os artilheiros alem¦es, instruídos
nas províncias da Livónia do czar Ivan IV.

 Em meados de Maio, quando os dias já estavam mais quentes e as
matas nas margens davam lugar às estepes verdejantes, os cossacos
avançaram pelo rio Tobol. Contemplavam com nostalgia as grandes
extensSes de erva que lhes recordavam as estepes de Don e do
Volga.
 Atingiram o Tobol de estandartes desfraldados, batidos pelo
vento. O navio da frente ostentava a bandeira de Cristo, imagem
piedosa resultante dos milhares de pontos das bordadeiras da
família Stroganov.
 Na margem, formando uma longa fila, as tropas de cavaleiros
tártaros seguiam-nos. Vis¦o que se tornara familiar e já n¦o
preocupava ninguém, para além de Mouchkov e Loupin, sempre
inquietos com qualquer suspeita que pudesse recair sobre Marina.
 De vez em quando, alguns barcos, acostavam em geral de noite.
Bandos de cossacos saltavam tumultuosamente para terra e faziam
alguns prisioneiros. Estes eram interrogados por intérpretes e
foi assim que Jermak soube sempre as últimas novidades. Em
seguida, os prisioneiros eram libertados.
 - Depois de nós, virá um exército quarenta vezes superior -
disse ele aos prisioneiros. - Informem Koutchoum de que nós, os
Russos, somos invencíveis!
 Contudo, uma vez chegados ao Tobol, tiveram de interromper a
digress¦o. Vinda da margem do rio, uma chuva de lanças e flechas
obrigou-os a parar e, além disso, os rápidos impediam a
navegaç¦o. Foi necessário puxar os barcos e as jangadas para
terra e transportá-los para lá das cataratas, para ent¦o os
voltar a mergulhar em águas mais clementes. Mas, assim,
renunciaram ao combate com o exército tártaro que, na arriba,
espreitava os cossacos...
 Tratava-se apenas de uma parte do exército de Mametkoul, sob as
ordens do príncipe Tausan.
 - Acostemos! - ordenou Jermak, depois da frota russa ter estado
um dia inteiro ancorada no Tobol. No grande barco de Jermak
encontrava-se uma centena de combatentes, ouvindo as suas
instruçSes. O desembarque deveria realizar-se por vagas
sucessivas. O primeiro grupo incumbir-se-ia da mais rude tarefa e
sofreria mais perdas.
 - É obra de um homem digno desse nome! - declarou Jermak quando
discutiram o plano do desembarque.
- Ivan Matveiévitch, encarrega-te do primeiro grupo!
 - Quando pisarmos terra firme, os outros poder¦o ir passear! -
completou orgulhosamente Mouchkov, olhando de soslaio para
Marina, que continuava atrás de Jermak e o fixava com os grandes
olhos azuis, mordendo os lábios. No barco ao lado - o
navio-capela que compreendia um altar - Oleg Vassiliévitch, o
pope, repetia com o novo diácono um salmo particularmente
exaltante. Era evidente que o pope se juntaria ao primeiro grupo
no desembarque. Poder-se-ia pensar dele o que se quisesse, mas
cobarde n¦o era!
 - Esta noite, quatro barcos atravessar¦o o rio e ser¦o
arrastados, em silêncio, para a margem oposta - ordenou Jermak -
Com esses barcos, formem um basti¦o e, enquanto os tártaros
atacarem, deslizaremos para jusante.
 Tratava-se, pois, de um comando-suicida, de uma testa de ponte
que deveria atrair o inimigo a fim de desviar a sua atenç¦o.
 - Aguentaremos! - disse Oleg a Mouchkov quando, no início da
noite, remavam t¦o silenciosamente quanto possível em direcç¦o à
margem. - Deus marcou-me... até agora, só tu o sabes...

 - Onde? - perguntou Mouchkov, incrédulo.
 - Na nádega esquerda! - Oleg Vassiliévitch meneou a cabeça, num
gesto solene. - Loupin ajudou-me a ver, por meio de um pedaço de
espelho: a cicatriz reproduz a palavra paz! Venceremos, irm¦o!
- Sempre em silêncio, avançaram para terra firme: quatro barcos
carregados de oitenta cossacos e um pope.
 Mouchkov pensou em Marina, que ficara com Jermak e benzeu-se.
Puxaram os barcos para terra e n¦o depararam com nenhuma
resistência, n¦o viram nenhum tártaro. Com os barcos, construíram
uma muralha circular. Depois, puseram sentinelas de guarda,
enviaram sinais de luzes a Jermak por meio de um archote e, por
fim, estenderam-se no ch¦o, dispostos a dormir. Mouchkov
enrolou-se numa manta e sentiu-se muito feliz por Marina n¦o ter
vindo.
 Encontrava-se no estado que precede o sono quando se apercebeu
de que alguém lhe puxava pelo cobertor e deslizava para junto da
tepidez do seu corpo. Mouchkov sentiu-se t¦o surpreendido que se
esqueceu de gritar.
Limitou-se a avançar a m¦o para apertar o pescoço do demente que
assim se introduzia a seu lado: apalpou uma pele suave,
aveludada, dois seios, uma perna nua que pousou sobre o seu
corpo.
 - Marinouchka... - balbuciou ele.
 - Sou tua mulher... - murmurou ela; e Ivan teve a impress¦o de
que Marina chorava. - Amanh¦, talvez já n¦o me seja possível
sê-lo. Haverá um amanh¦ para nós? Importa lançar um véu de pudor
sobre um acto de amor que, a partir daí, ligou Mouchkov e Marina
por toda a vida.
 A sua felicidade era total, embora pesasse sobre o seu
deslumbramento uma profunda tristeza. à sua volta aguardavam os
cavaleiros velozes, cruéis, do czar siberiano Koutchoum, exército
de dez mil homens, perante o qual mil cossacos de Jermak faziam
uma triste figura.
A manh¦ do dia seguinte seria decisiva: saber-se-ia se aqui, no
Tobol, terminaria a conquista da Sibéria, assim como o amor de
Marina e Ivan.
 Amavam-se com uma ternura da qual nunca ninguém julgaria capaz o
selvagem Mouchkov. Sonhara com aquele momento quase durante dois
anos e o sonho tornara-se realidade! Abraçavam-se um ao outro com
o desejo de serem trespassados pela mesma lança durante este acto
apaixonado, já que teriam de morrer...
 A ideia constantemente acalentada por Loupin, essa evas¦o que os
faria voltar para trás através dos Urales, desaparecendo em
seguida na imensa Rússia, tornara-se impraticável. Os quatro
barcos sobre os quais se abrigavam n¦o passariam de uma fraca
protecç¦o quando a vaga furiosa dos cavaleiros de raça amarela
desabasse sobre eles! Oitenta cossacos e um pope contra quatro
mil tártaros, talvez... O melhor seria nem pensar.
 Continuavam, pois, abraçados, marido e mulher, para a
eternidade.
 Exceptuando as sentinelas cossacas que se encontravam de guarda,
prestes a dar o alarme quando os tártaros atacassem, todos
dormiam de momento, mesmo Marina e Mouchkov. Oleg, o pope,
deitara a cabeça sobre a bandeira da igreja, com o grande rosto
de barba hirsuta sobre o rosto de Cristo e, nessa noite, Deus
aceitou a promiscuidade por se tratar do famoso Koulakov.

 Quanto a Jermak, velava pelo barco ancorado no Tobol,
perscrutava cuidadosamente a estepe, assim como as longínquas
fogueiras dos tártaros e, quanto mais reflectia sobre o seu plano
de combate, mais lhe doía o coraç¦o, em particular quando pensava
no seu amigo Mouchkov.
 - Que se deve fazer? - perguntava constantemente a si mesmo. -
Sacrificar oitenta homens para poupar a vida de centenas de
outros? Ou formar em linha e atacar as margens do rio correndo o
risco de enormes perdas?
 Loupin, que se encontrava no barco-capela ancorado ao lado do
grande barco de Jermak, trepou até ao rebordo e veio sentar-se
junto do chefe. à sua volta, estendidos nas tábuas das jangadas e
dos barcos, os cossacos dormiam ou, ansiosos como Jermak,
vigiavam o inimigo à distância. Um cossaco n¦o é um cobarde, mas
também ninguém o pode impedir de pensar e, quem soubesse contar,
n¦o podia deixar de sentir um aperto no peito: dez mil cavaleiros
contra mil cossacos a pé! A bênç¦o dos popes n¦o resolveria nada:
possuirá Deus uma espada destinada a decepar crânios tártaros?
 Em geral, os pais pensam agir sempre no interesse dos filhos.
Loupin também, ao perguntar sem segundas intençSes:
 - Onde está Boris Stepanovitch?
 - N¦o sei - respondeu Jermak, taciturno. - Quando falei com a
tripulaç¦o vi-o ao pé da vela, mas já lá n¦o está!
 - Deve ter partido para terra, na companhia de Mouchkov... -
balbuciou Loupin, desalentado. - Jermak Timofeiévitch, podes
estar certo de que está com eles...
 - Impossível, vi-os partir, pois encontrava-me no cimo de um dos
barcos! Boris n¦o estava lá!
 - Ent¦o, seguiu-os depois...
 - N¦o falta nenhuma barcaça...
 Loupin pousou as m¦os sobre o coraç¦o, que parecia saltar-lhe do
peito:
 - Atravessou o Tobol a nado, Jermak Timofeiévitch, Boris é um
bom nadador... disse-me uma vez... Muitas vezes, em Novo
Orpotchkov, nadava até aos bancos de areia, para apanhar salmSes
à m¦o!
 - Mandá-lo-ei chicotear! - respondeu Jermak, ofegante. - Recebeu
ordens de ficar junto de mim! N¦o tolero desobediências!
 - Bem podes mandar chicotear o seu corpo mutilado - replicou
Loupin, soluçando. - Amanh¦, que restará deles? Saberás dizer-me?
 Jermak n¦o respondeu. Os seus lábios crisparam-se: "Mouchkov e
Boris... vou perder os dois..." pensava ele, e cerrou os punhos
com tanta força que as falanges estalaram. "Loupin tem raz¦o: o
malandro atravessou o Tobol a nado para se juntar ao amigo
Mouchkov. Trata-se simultaneamente de insubordinaç¦o e coragem.
Que dizer?"
 - Vai para a tua barcaça, velhote - aconselhou Jermak,
pensativo. - Amanh¦, terás muitas oraçSes a rezar... Talvez
altere os meus planos. Diz aos artilheiros alem¦es que estejam
prontos: talvez ainda esta noite tenham de ir a terra. Se
ganharmos, só poderá ser com o trov¦o dos céus, como os tártaros
chamam aos canhSes!

 Aliviado, Loupin sentiu subitamente vontade de beijar Jermak,
t¦o grato se sentia o seu coraç¦o de pai. Mas conteve-se, trepou
até ao rebordo do barco e desceu para a barcaça que funcionava
como local sagrado, apressando-se a transmitir a mensagem aos
artilheiros alem¦es e livónios.
 Quanto a Jermak, num barquinho muito pequeno, remou sozinho até
à margem e acostou no local em que se encontravam reunidos e
aguardando os oitenta candidatos ao suicídio. Queria conferenciar
mais uma vez, antes do amanhecer, com Mouchkov.
 Para começar, foi assaltado por duas sentinelas cossacas, que o
derrubaram. Quando se aperceberam do erro cometido, arrepelaram
os cabelos, mas Jermak felicitou-os e partiu sozinho para o
pequeno forte constituído pelos barcos justapostos.
 N¦o lhe foi difícil encontrar Mouchkov, bastou-lhe dirigir-se
para o ponto donde vinha o poderoso ressonar do pope Oleg
Vassiliévitch. Tendo avistado, com um esgar trocista, o rosto do
pope contra a santa imagem do Salvador, descobriu Mouchkov alguns
passos adiante, enrolado no seu cobertor.
 Jermak deteve-se, ent¦o, considerando e encarou o amigo, na mais
penosa confus¦o. Junto de Ivan, debaixo da mesma manta,
encontrava-se Boris Stepanovitch, ambos nus. E estreitamente
enlaçados. Jermak n¦o distinguia pormenores, apenas o tronco nu
de Mouchkov e, abraçado a ele, como um cachorro adormecido, o
louro Boris, cuja cabeça repousava no seu ombro. De resto, deste
último, Jermak apenas via as costas nuas, brancas, através da
penumbra.
 Mudo, literalmente possuído por tal vis¦o, Jermak devorava com
os olhos os dois rapazes. N¦o se pronunciou, n¦o os destapou, n¦o
pegou no chicote que trazia sempre à cintura, e cujas tiras de
couro terminavam em garras de aço, sentiu-se simplesmente
acossado, como perante um sentimento de luto indescritível em
relaç¦o ao amigo, capaz de tais desvios: um cossaco fazendo amor
com um rapaz... parecia-lhe de tal modo absurdo que Jermak se
esqueceu de reagir com toda a sua crueldade pessoal.
 "Deixá-los-ei morrer em combate", limitou-se a pensar, "morrer
honradamente. Custar-me-ia enforcar Mouchkov e Boris, mas também
n¦o irei em seu auxílio quando os tártaros os atacarem. Ivan
Matveiévitch, como podes proceder assim?"
 Voltou atrás, passou perto de Oleg e apertou-lhe o nariz. O
pope, incapaz de respirar, sobressaltou-se e, recordando-se do
incidente nocturno que lhe valera uma marca de ferro em brasa,
tentou debater-se, mas Jermak pegou-lhe a tempo nos pulsos e
estendeu-o no ch¦o.
 - Sou eu, Oleg Vassiliévitch - murmurou ele, muito baixinho.
 - Jermak! - O pope acalmara-se. - Que se passa? Mudaste de
ideias?
 - Aconselho-te a regressares ao rio - sussurrou Jermak -, porque
aqui morrerás.
 - E os outros?
 Jermak calou-se, o que constituía resposta suficiente.
 O pope meneou a cabeça.
 - Sou sacerdote - disse -, como poderia abandoná-los? Combatem
sob a bandeira do Senhor. Jermak Timofeiévitch, por quem me
tomas?
 - Perderei, ent¦o, três amigos - respondeu Jermak, angustiado. -
N¦o sei que fazer.
 - Três amigos? - repetiu pope, erguendo-se.
 Ao longe, a oriente, surgiram os primeiros alvores. Era de
madrugada.

 - Serei um lobo solitário, Oleg Vassiliévitch, mortífero e
cruel. Deus te guarde! - Jermak aprumou-se, lançou mais um olhar
a Mouchkov e Boris e mordeu o lábio inferior. A pele nua dos dois
rapazes brilhava na escurid¦o. "Que desfaçatez!" pensava ele,
amargurado. "Têm de morrer..."
 Dirigiu-se para a margem do rio, sentou-se no bote e remou em
direcç¦o ao grande barco do chefe. Loupin aguardava-o.
 - Viste Boris?
 - Está com Mouchkov! - respondeu Jermak, num tom duro. - E com
Mouchkov ficará! - acrescentou.
 - Sempre é verdade que atravessou o rio a nado?
 - É, tal era a pressa de se juntar ao amigo Ivan!
 Agora, o coraç¦o de Jermak batia descompassado: apoderara-se
dele uma raiva surda. Lamentava n¦o ter abatido de imediato os
dois cúmplices.
 - E... vais deixá-los morrer? - balbuciou Loupin.
 - Vai-te embora para a tua barcaça de imagens sagradas! - gritou
Jermak, atingindo o paroxismo do sofrimento. - És diácono e
médico de cavalos, mas n¦o és cossaco! Deixa-me em paz, velho!
 Pouco depois, os artilheiros alem¦es desembarcavam com as três
peças de artilharia, que montaram em terra, reunindo balas e
barris de pólvora e carregando os canhSes pela boca. Em seguida,
acenderam fogueiras para os bota-fogo, sentaram-se junto dos
barris e comeram peixe grelhado mas frio, para ganhar forças.
 No horizonte, a noite desvanecia-se aos poucos, surgiram zonas
claras no céu, o dia deslizou pela estepe verdejante e os
primeiros alvores permitiram avistar o acampamento dos tártaros.
Tendas contra tendas, feitas de peles curtidas e esticadas ao
alto, um mar tumultuoso de cavalos, nuvens de fumo elevando-se de
centenas de fogueiras, uma floresta de lanças... O príncipe
Tausan, o comandante-chefe deste exército, reunia os cavaleiros,
enquanto Mametkoul aguar dava mais ao longe, à beira do Tobol.
Foi ent¦o que os cossacos descobriram outra coisa: os tártaros
n¦o só se encontravam estacionados à sua frente, como também
lateralmente se avistavam aglomerados de tendas, que começavam a
desenhar-se nas brumas matinais.
 O plano de Jermak, que consistia em desviar os tártaros e, em
seguida, desembarcar mais adiante, tornara-se impraticável. T¦o
longe quanto se podia ver, os cavaleiros de Koutchoum aguardavam,
ao longo do rio Tobol.
- Devemos retirar? - perguntou um dos adjuntos de Jermak.
 Nos barcos, encontravam-se os outros popes, entoavam-se coros de
igreja. Loupin, o novo diácono, mantinha-se em frente do altar e
rezava uma oraç¦o com tanto fervor que as lágrimas lhe deslizavam
pelas faces enrugadas. - Retirar? - repetiu Jermak perante os
homens da sua centúria.- Essa palavra existe, irm¦os? Vamos, em
frente! Cantando - e mil vozes se elevaram ao mesmo tempo,
criando uma espécie de furac¦o - os cossacos desembarcaram na
margem do Tobol. Em longas filas de várias linhas, os cavaleiros
do príncipe Tausan lançaram-se ao seu encontro.

Capítulo 8


 Mouchkov foi o primeiro a acordar porque, perto dele, o pope
Oleg cravava no ch¦o, tossindo muito alto, o estandarte de
Cristo. Mouchkov puxou energicamente pelo cobertor e tapou as
costas nuas de Marina.
 - Bom dia, respeitável padre - cumprimentou ele -, logo de manh¦
t¦o ruidoso?
 - A aveia torrada mata-me! - vociferou o pope. - Trago os
intestinos inchados como odres! Vamos, cossacos, de pé, chegou o
dia da vitória! Aleluia!
 Na desordem do despertar geral, ninguém viu Marina, que se
vestiu rapidamente debaixo do cobertor de Mouchkov. Quando se
levantou, voltara a ser o esbelto adjunto Boris Stepanovitch.
Mouchkov ainda vagueava à sua volta, de tronco nu, rosto
brilhante da felicidade que vivera durante a noite, da realizaç¦o
dos seus sonhos, e esta alegria era mais forte do que a iminência
da morte.
 - Lá est¦o eles, os tártaros! - gritou ele. - Mantenham o
sangue-frio, irm¦os, deixem-nos aproximar o suficiente e
desencadearemos um ataque t¦o cerrado que julgar¦o que a terra
está a explodir! Calma, meus amigos, calma!
 Mas, subitamente, deixaram de estar sozinhos. Os camaradas
surgiam de todos os lados, arrastando armas pelas margens do rio,
trazendo as barcaças para terra firme e barricando-se atrás
dessas grandes embarcaçSes de tábuas que, erguidas umas contra as
outras, formavam uma barreira que nenhum cavaleiro conseguiria
transpor. A táctica dos Stroganov, que consistia em conquistar a
Sibéria, n¦o a cavalo, mas de barco, revelava-se extremamente
astuciosa.
 Assim, um milhar de homens arrastaram através da Sibéria as suas
fortalezas de madeira - supremo esforço, único no género!
 De todos os lados surgiam ordens. Os atiradores experimentavam
as armas de fogo, os popes, um por cem homens, erguiam as cruzes
espetadas no cimo dos piques, os porta-estandartes desfraldavam
auriflamas e imagens sagradas. Entre duas barcaças erguidas ao
alto, mantinham-se perfeitamente calmos os artilheiros alem¦es e
livónios, prontos para utilizarem as suas peças de artilharia.
 Arvorando uma express¦o sinistra, Jermak penetrou no pequeno
basti¦o formado por barcos em que Mouchkov e Marina tinham
passado a noite. Oleg Vassiliévitch, o pope, trocara a cruz
contra uma pistola de cavaleiro e um punhal de lâmina curva.
Mouchkov e Marina, ajoelhados atrás de um barco, vigiavam os
tártaros.
 - Agradeço-te por teres vindo em meu auxílio, Jermak
Timofeiévitch! - disse Mouchkov, quando Jermak lhe acenou para
conversarem longe dos outros.
 - Como é que Boris Stepanovitch veio aqui parar? - perguntou
Jermak, sem dar mostras de ter ouvido os agradecimentos.
 - Apareceu de repente.
 - Quando?
 - De manh¦, quando o pope nos acordou, já se encontrava de pé no
acampamento... - mentiu Mouchkov, aparentando um ar inocente. -
Perguntei a mim mesmo o que estarias tu a preparar, enviando-me
assim o teu adjunto? Mas agora já sei: mudaste de ideias, n¦o
queres condenar à morte um velho amigo.

 Jermak conservava-se em silêncio. "Que se passa com Ivan
Matveiévitch?..." pensava ele, contristado. "Mente-me, trai o
melhor amigo, partilha o mesmo cobertor com um rapazola! Se n¦o
se tratasse de Mouchkov, cortava-lhe o pescoço com um golpe de
sabre! Esfalfámo-nos durante doze anos através da Rússia, do
Volga ao mar Negro, das estepes do povo Negai às pastagens dos
moscovitas. O czar condenou-nos à morte, fomos perseguidos como
feras e conseguimos sempre escapar."
 "Ivan Matveiévitch, dá graças ao Senhor se morreres nesta
batalha, poupa-me o dever de matar o meu melhor amigo..."
 Era um dia claro de Maio, sem nuvens, uma cintilante manh¦ de
Primavera. A erva da estepe brilhava, muito verde mas, para lá
dessa extens¦o que estreitava cada vez mais, só havia cavalos e
cabeças gritando impropérios.
 Os tártaros avançavam.
 Os artilheiros abandonaram a sua impassibilidade e prepararam-se
para lançar fogo às peças. Os atiradores apontaram para o inimigo
e, a seu lado, os soldados de infantaria espetaram as lanças de
través no solo, formando assim uma barreira acerada na qual se
viriam empalar os cavaleiros asiáticos.
 O príncipe Tausan cavalgava na fila da frente.
 - Por Alá e pelo seu profeta! - gritara ele, dando o sinal do
ataque. Como Koutchoum, era muçulmano, mas os seus cavaleiros - a
quem pedia que morressem pelo profeta - pensavam de modo
diferente. Vindos dos confins da ¦sia, sucessores do grande
Gengisc¦, filhos dos longos rios de vagas prateadas e do deserto,
das estepes infindas e das florestas silenciosas, em que lhes
poderia interessar Alá? Aniquilar os Russos, cortar-lhes o
pescoço, apoderarem-se das suas armas... só isso contava. O que
é, ent¦o, um profeta?
 Jermak permitiu que os cavaleiros asiáticos avançassem até se
encontrarem ao alcance das armas. Ergueu ent¦o o seu sabre bem
alto e os artilheiros lançaram fogo às peças. Imaginem o
espectáculo de um céu puro, de um sol radioso, de um azul
infinito no qual, subitamente, explodem raios e trovSes... Foi o
que aconteceu. Estrondos fantásticos, enormes explosSes encheram
a atmosfera, ergueram-se fumos e nevoeiros e, depois, a m¦o
celeste abateu-se sobre as filas de cavaleiros inimigos e abriu
três brechas terríveis... seguidas de uma saraivada crepitante
que matava redondamente homens e cavalos.
 Os atiradores de armas de fogo encontravam-se distribuídos por
quatro grupos e, depois do último homem ter disparado, os
bacamartes do primeiro grupo já estavam novamente prontos para
atirar, semeando a morte nas fileiras tártaras.
 Hoje em dia, falar-se-ia de uma linha de tiro... mas, em 1582,
os tártaros pensaram apenas na intervenç¦o de uma força
supraterrestre!
 A trovoada, a chuva de aço, era de mais para os peque nos
cavaleiros asiáticos. Deram meia volta nas suas montadas e
fugiram a galope pela estepe adiante. Só um pequeno grupo de
cerca de duzentos cavaleiros se manteve ao lado do príncipe
Tausan. Era a guarda montada pessoal de Koutchoum, que viera
reforçar o confronto.
 Quanto aos artilheiros alem¦es, continuavam a carregar as peças
com os seus gestos rápidos e o seu domínio absoluto, apontando de
novo os canhSes.
 Jermak, que continuava perto de Mouchkov e Marina, aplicou uma
palmada nas costas de Marina:
 - Metade de cada formaç¦o ao assalto! - gritou ele.
 - à frente, os besteiros Vá, corre, filho da m¦e.

 Marina preparava-se para transmitir as ordens de Jermak, quando
Mouchkov a reteve:
 - Eu encarrego-me disso! - declarou ele.
 - Foi a Boris Stepanovitch que dei ordens! - vociferou Jermak. -
Ele sabe correr!
 - Eu sou mais veloz, Jermak!
 - Deixa-o! - Jermak deu uma palmada no braço de Mouchkov com
tanta violência que este sentiu os dedos paralisados. Largou
Marina, que se afastou, correndo, acompanhada por uma chuva de
flechas lançadas pelos cavaleiros de Tausan.
 - Tens medo de que lhe aconteça alguma coisa, n¦o é? - rugiu
Jermak, apertando o pescoço de Mouchkov com as duas m¦os. - Podia
ser atingido por uma flecha, o querido! Quanto a ti, corre em
direcç¦o oposta! Corre para os tártaros e trata de ser atingido
mortalmente!
 Com os olhos a sair das órbitas, sufocado e horrorizado com o
aspecto do rosto de Jermak, desfeito pelo ódio, Mouchkov encarou
o amigo, mas depois afastou-se no sentido da muralha constituída
pelos barcos. Instintivamente, pegou no punhal curvo, enquanto
Jermak também retirava o seu da cintura - e mais depressa do que
Mouchkov.
 - Qual de nós dois sobreviverá, Ivan Matveiévitch?
 Os olhos de Jermak lançavam chispas e Mouchkov pensou,
horrorizado: "A queda no solo gelado desarranjou-lhe o juízo, já
n¦o é Jermak, o meu amigo, é um animal que se assemelha a Jermak!
Deus nos ajude! Como poderemos conquistar Mangaseja com ele neste
estado?"
 - Estás louco, Jermak! - balbuciou Mouchkov.
Uma nova salva de artilharia interrompeu-o. Jermak apenas viu que
Mouchkov mexera os lábios. Nesse momento, Ivan Matveiévitch,
empunhando o sabre, avançou para ele, prestes a atacar.
 - Depois n¦o digam que um pope só serve para rezar e distribuir
bênç¦os!
 Oleg, habituado à violência dos seus cossacos, n¦o procurou
saber o que se passava entre os dois contendores. Usando de toda
a sua força, assentou o pau da bandeira na cabeça de Jermak e
aplicou um formidável pontapé no ventre de Mouchkov. Quando os
dois homens caíram por terra, desfalecidos, soltou um grunhido de
satisfaç¦o e regressou para junto dos artilheiros, gritando na
sua voz de baixo:
 - Pela vitória do Salvador... em frente!
 Era o que Jermak teria ordenado...
 Foi assim que o príncipe Tausan e sessenta e nove dos seus
cavaleiros se constituíram prisioneiros dos cossacos. Extenuados,
deixaram-se escorregar das selas e aguardaram o golpe mortal. Mas
ninguém lhes tocou, o que era uma novidade para os tártaros.
 - Os prisioneiros s¦o nossos aliados - decretava Jermak antes do
combate. - Propagar¦o a nossa glória por todo o país!
 Guerra psicológica - chamar-se-ia nos nossos dias.
 Nessa manh¦, os cossacos apoderaram-se, pois, de todo o séquito
do príncipe, apenas dezanove cavalos, embora secretamente
esperassem mais; mas, por outro lado, entraram na posse de muitas
armas, tendas, todo um rebanho de carneiros, pipas de mel, chá e
até um harém de campanha contendo dezassete encantadoras jovens
da Mongólia, de olhos fogosos.

 - Confiscado! - declarou o pope Oleg, o primeiro a chegar ao
local, farejando a presença deste sedutor tesouro como o camelo
fareja água no deserto. - Que o fogo do céu aniquile quem lhes
tocar! Alexandre Grigoriévitch, abre os olhos!
 Loupin, pai feliz que vira regressar do combate a sua Marina bem
viva, encarregou-se de colocar duas sentinelas diante da tenda
das mulheres e colocou-se a si mesmo no centro desta assembleia
de jovens criaturas, intimidadas mas ruidosas, que lançavam
olhares intrigados. E Loupin perguntava a si mesmo se o pope
resistiria a tanto trabalho...
 Jermak e Mouchkov, estendidos no fundo de um barco, recobraram
os sentidos depois de ganha a batalha. As tropas cossacas já se
tinham lançado ao assalto dos acampamentos tártaros e
entregavam-se à pilhagem.
 Os dois adversários olharam-se em silêncio. Tiveram ambos o
mesmo pensamento: obteve-se uma grande vitória sem a nossa
presença! Nós, os condutores dos cossacos! Quando os outros
souberem, matam-se a rir!
 - Jermak Timofeiévitch... - articulou Mouchkov, hesitante. - Vou
matar o pope!
 - Vamos ficar calados, Ivan Matveiévitch - respondeu Jermak, com
a voz embargada. - Já soubemos calar-nos por outras razSes...
 Uma hora mais tarde, Jermak concedia uma audiência ao príncipe
Tausan, seu prisioneiro. Espetados em lanças, assavam-se os
primeiros cabritos; os religiosos celebravam missas de acç¦o de
graças; só o pope dos cossacos n¦o comparecera à festa.
Encontrava-se deitado num div¦, na tenda das mulheres, rodeado
por dezassete exóticas, .esbeltas e ruidosas mongóis.
 Por que se dirá que só se alcança o paraíso depois da morte?

 à noite - Mouchkov fora enviado com um destacamento para
escolher o novo local de embarque - Jermak levantou-se para ir à
procura do seu adjunto Boris Stepanovitch. Tomara uma decis¦o...
sentia-se mais preso ao seu velho amigo, que conhecia desde
sempre, do que a este rapazelho louro e atraente das margens do
Volga.
 Encontrou Marina no campo de batalha, onde ainda havia feridos.
Ninguém se preocupava com eles. Começaram por gritar, depois
passaram a gemer e, agora, silenciosos, resignados, aguardavam o
destino. Marina sentara-se no meio deles, na sela de um cavalo, e
aplicava um penso num tártaro, cuja perna se encontrava
dilacerada. Reconhecido e ao mesmo tempo surpreendido, o asiático
observava o caritativo cossaco.
 - Andas à procura de outros homens? - inquiriu Jermak,
grosseiro, dirigindo-se a Boris. - Já n¦o te basta um cossaco?
Agora precisas de um tártaro?
 Deu um pontapé no ferido, que rebolou pelo ch¦o, detendo-se
junto de um cavalo morto que se encontrava mais atrás. Ali ficou,
todo dobrado. Marina n¦o disse uma palavra; calmamente, pôs no
ch¦o o pano de algod¦o com que tencionava envolver a perna do
ferido, retirou da cintura o punhal curvo e, também com muita
calma, pousou-o nos joelhos, atravessado. Os olhos de Jermak
pestanejavam.
 - Pretendes lutar comigo? - perguntou ele, numa voz
perigosamente suave. - Tu, filho da m¦e, ousas provocar-me?
 - Uma vez, chamaste-me irm¦o. - Marina encarou Jermak de frente.
- Ignoro como fala Jermak aos seus irm¦os, mas espero o pior!

 - Ainda bem que assim é, grande safado! - gritou Jermak. - O
tribunal dos cossacos está reunido e o tribunal
sou eu! Estás condenado à morte!
 - Compreendo. E posso saber por que raz¦o? - perguntou Marina,
perfeitamente tranquila.
 "N¦o tem medo", pensou Jermak, aflito. "Sabe que vai morrer já
de seguida e continua sentado como se estivesse à espera de um
pedaço de cabrito assado! Que sangue-frio! Oh, sacripanta, porque
manténs relaçSes imorais com Mouchkov?"
 - Amas Mouchkov? - articulou Jermak, com extrema dificuldade. Só
o facto de falar do assunto sem rodeios equivalia a uma
condenaç¦o à morte...
 E Marina respondeu numa voz límpida:
 - Sim, amo Ivan Matveiévitch...
 - Ousas dizer-mo? - vociferou Jermak. Remexeu no punhal, mas
Marina também ergueu uma lâmina afiada.
 - Vi-os aos dois! Esta noite! Estavam deitados, nus, debaixo do
mesmo cobertor!
 - É verdade - respondeu Marina, sem hesitaçSes. - Foi a primeira
vez mas, de futuro, será sempre assim...
 - Pois eu diria que foi a última vez! - gritou Jermak, que já
n¦o se dominava. - N¦o permitirei que desvies o meu amigo
Mouchkov!
 Ergueu o punhal, ou antes, tentou fazê-lo, pois, nesse mesmo
momento, uma flecha veio penetrar subitamente no músculo do
antebraço. Jermak largou o punhal e deu uma volta sobre si mesmo
com a rapidez de um raio, mas n¦o avistou nenhum arqueiro...
 Em toda a volta, só havia feridos que apenas pensavam em
sobreviver e n¦o tinham veleidades de atirador.
 - Nem isto te salvará! - ameaçou Jermak, tentando retirar a
flecha do braço. A dor tornava-se intolerável, só um cirurgi¦o
seria capaz de o salvar. E se a ponta estivesse envenenada? -
Mandar-te-ei afogar no Tobol, sob o olhar de Mouchkov!
 - Pela simples raz¦o de o amar?
 - Filho da puta! - Jermak tremia de raiva. - N¦o há homossexuais
entre os meus cossacos!
 Marina ergueu-se lentamente do assento improvisado.
Olhava para a flecha espetada no braço de Jermak; sabia que
algures, ali perto, se encontrava escondido o pai e que,
portanto, nada lhe poderia acontecer. Nem agora, nem nunca, se
Jermak tivesse coraç¦o...
 "Chegou a hora, pai", pensava ela, olhando para trás.
"Já esperava, mas n¦o hoje, é certo... pois tencionava confessar
tudo a Jermak depois de conquistarmos Sibir e Mangaseja se abrir
à nossa frente..."
 - Que queres tu dizer ao falar de amor entre homens, Jermak
Timofeiévitch? - perguntou ela, em voz alta.
- De que acusas Mouchkov?
 - Estavas deitado com ele, todo nu! Debaixo do mesmo cobertor! -
gritou Jermak.
 Tentou debruçar-se para pegar no punhal com a m¦o esquerda mas,
com um pontapé, Marina afastou a arma para longe.
 - N¦o! N¦o como homem! - proferiu ela, tranquilamente. - Olha
para mim, Jermak. Sou um homem?
 E Marina desapertou bruscamente a camisa cossaca.

 Loupin encontrava-se deitado atrás de um cavalo morto. Abafou um
grito e gemeu interiormente: "Que estás a fazer, minha filha?
Isto vai acabar mal..." Inspirou profundamente e apontou o arco
ao coraç¦o de Jermak.
 Este, de olhos esgazeados, fixava o adjunto Boris Stepanovitch.
à luz do entardecer, entre o reflexo vermelho do sol que
transformava a estepe num tapete de púrpura, como nas margens do
Don antes do crepúsculo, e t¦o admiravelmente que o coraç¦o se
lhe apertava, dois seios perfeitos brilhavam à sua frente,
cintilando na sua pele acetinada.
 - Quem és tu? - perguntou Jermak, numa voz abafada. A flecha
queimava-lhe a carne, mas a vis¦o da rapariga acalmava todos os
sofrimentos.
 - Marina Alexandrovna - respondeu ela, tapando o peito. - Depois
de conquistarmos Sibir, passarei a chamar-me Mouchkov. - Em
seguida, voltou-se, pegou no punhal curvo e estendeu-o a Jermak.
- E agora, se quiseres, mata-me!
 Como matar tanta beleza? Quem levantaria a m¦o para enterrar um
punhal entre seios t¦o inocentes? Mesmo para Jermak, célebre pela
crueldade, tornava-se impossível punir Marina por ser uma
rapariga.
 - Regressa ao acampamento - ordenou ele, com a voz embargada,
tentando acalmar com a m¦o válida os tremores do braço ferido; os
nervos começavam a reagir à presença da flecha.
 - E que acontecerá a Mouchkov? - perguntou Marina.
 Embainhou novamente o punhal na cintura, recuperou o famoso boné
vermelho que se encontrava em cima do cavalo morto e enterrou-o
nos cabelos louros.
 N¦o muito longe, agachado entre cadáveres de cavalos, Loupin
confundia-se com a erva da estepe. Os gemidos dos feridos
tornavam-se cada vez mais fracos. Morriam e ninguém se ocupava
deles.
 Jermak n¦o respondeu à pergunta de Marina, mas encostou-se a
ela, pois as dores já se faziam sentir nos músculos das pernas.
 - Vamos à procura de Loupin! - disse ele, dando
alguns passos, hesitantes. - Só ele será capaz de me
libertar desta flecha!
 - Que acontecerá a Mouchkov? - insistiu Marina.
 - Pensarei no caso...
 - N¦o é resposta, Jermak.
 - Que queres que te diga?
 - Que é teu amigo e continuará a sê-lo.
 - Traiu uma velha lei cossaca, trazendo uma mulher para uma
expediç¦o guerreira!
 - Tornei-me "seu espólio" quando incendiaram Novo Orpotchkov!
 - Nunca mo disse, mentiu-me durante dois anos! - Jermak
respirava com dificuldade. Caminhava cada vez mais lentamente,
arrastando os pés pela erva da estepe. "Se a ponta da flecha
estiver envenenada", pensava ele, "n¦o atingirei o acampamento! E
Loupin nada poderá fazer contra o veneno. Que far¦o os meus
cossacos? Mouchkov será capaz de os conduzir a Mangaseja? É duro
e corajoso, mas saberá mostrar-se um chefe, um verdadeiro
guerreiro? N¦o se conquista a Sibéria só pela força, o cérebro
também é preciso..."
 - Mentiu para me proteger! - insistiu Marina. Afastou o braço de
Jermak apoiado no seu ombro e recuou dois passos. Sem apoio,
Jermak vacilou e mal conseguiu evitar dobrar os joelhos. - Será
um crime?
 - Um cossaco...

 - Um cossaco! Um cossaco! N¦o haverá nada de válido neste mundo
para além de Deus e dos Cossacos, enquanto o resto só existe para
ser destruído? N¦o serás um ser humano, Jermak Timofeiévitch?
 - Vem ajudar-me! - ordenou-lhe Jermak, rangendo os dentes.
 - N¦o!
 Ele olhou-a fixamente, como se n¦o conseguisse compreender que
alguém pudesse dizer-lhe "n¦o". Marina continuava à sua frente,
de pernas afastadas, m¦os nas ancas, como um verdadeiro cossaco,
tal como sempre fora Boris Stepanovitch.
 - Passarei sem ti, que diabo! - gritou de súbito Jermak. E,
cerrando os dentes, afastou-se, titubeando. Mas sabia
perfeitamente que, alguns passos adiante, as suas forças
chegariam ao fim. As fogueiras do acampamento pareciam-lhe
inacessíveis. As vozes sonoras dos cossacos chegavam até ele como
ecos de uma tempestade longínqua, e a brisa muito leve do
entardecer, que espalhava o fumo dos cabritos assados, causava o
efeito de um furac¦o ameaçador. "Se estas sensaçSes se devem ao
veneno, estou perdido", pensava Jermak. "E os meus mil cossacos
perdi dos est¦o... perdidos para sempre: popes, caçadores,
intérpretes, representantes dos Stroganov. E, sobretudo, o czar
terá perdido para sempre a Sibéria... pois, quem mais será capaz
de a conquistar?"
 Imobilizou-se.
 - Deixa-me sozinho, Boris - pediu ele, com a voz embargada. -
Vai! Deixa morrer o teu chefe...
 - Já uma vez te salvei a vida - respondeu Marina, impávida. -
Mas desta vez faço um preço!
 - Desaparece! - vociferou Jermak.
 Vindo do rio, um pequeno grupo de cossacos avançava em direcç¦o
a eles. Montavam os cavalos apreendidos aos tártaros e pareciam
muito satisfeitos por se encontrarem finalmente, instalados nos
seus companheiros de sempre! Assim, cantavam em altos gritos e as
suas vozes estridentes ressoavam através da estepe. à frente do
grupo galopava Mouchkov que, como era evidente, preferia uma
cavalgada fraterna às delícias do Céu e à felicidade eterna, t¦o
louvadas pelos popes.
 - Ali vem Mouchkov! - declarou Marina tranquilamente.
 Loupin encolheu-se ainda mais no seu esconderijo; dir-se-ia um
morto entre mortos.
 Jermak reuniu todas as suas forças para se manter de pé e fazer
boa figura. Voltou-se lentamente para observar os cossacos.
Mouchkov n¦o podia ser confundido com nenhum outro... A sua voz
sonora repercutia e o seu corpo vigoroso dominava os
companheiros.
 - Continuo a ser Boris Stepanovitch... - disse Marina,
peremptória. - Quanto a Ivan Matveiévitch, continua a ser teu
amigo e teu representante. Nada mudará enquanto n¦o tivermos
conquistado a Sibéria e n¦o formos casados pelo pope
 - N¦o aceito ordens de mulheres! - gritou Jermak, com rudeza.
 - É uma súplica, Jermak Timofeiévitch, suplico-te que me
ouças... e ajoelharia à tua frente se n¦o fosse o meu uniforme de
cossaco! Pensa na Sibéria... Recebeste a mais elevada miss¦o
jamais confiada a um ser humano!
 Ter¦o estas palavras atingido o coraç¦o de Jermak? A verdade é
que se voltou para Marina, estendendo para ela o seu braço válido
e murmurando:
 - Ajuda-me!

 - E continuo a ser Boris Stepanovitch?
 - Continuas.
 - E Mouchkov?
 - Tentarei esquecer.
 Ela avançou para ele, agarrou-o pelo tronco e, suavemente,
empreendeu uma longa marcha através da estepe, arrastando-o, por
vezes mesmo, transportando-o. Acreditava na lealdade de Jermak e
n¦o notara o tom introduzido na última frase tentarei esquecer.
Tentar... uma porta aberta a todas as traiçSes.
 Mouchkov e os seus cavaleiros cavalgavam na escurid¦o e passaram
a pouca distância sem os ver. Cantavam a plenos pulmSes,
permitindo que os cavalos galopassem, e pareciam t¦o felizes que
n¦o prestavam atenç¦o ao que se passava à sua volta.
 Loupin perseguia a pouca distância, com mil precauçSes, a filha
e Jermak. Quando se aproximaram do acampamento e os cossacos,
gesticulando entusiasticamente, rodearam o chefe e Marina,
acabando por levar Jermak aos ombros, Loupin começou a correr por
sua vez mas, por prudência, fez um grande desvio e penetrou no
acampamento pelo lado oposto. Surgiu, ent¦o, na sumptuosa tenda
do harém e expulsou o pope do div¦ de seda.
 - Parece-me que Jermak está ferido! - gritava Loupin,
arrepelando os cabelos com o talento de um actor consumado. -
Está a ser transportado para o acampamento! Acabo de os ver.
Padre, levanta-te, paramenta-te abençoa-o!
 O pope, esgotado, e que, deitado de costas, rosnava como um
javali, insultando as ruidosas dançarinas mongóis, proferiu um
brutal impropério, saltou do div¦ e começou a paramentar-se.
Acabava de vestir o pluvial, capa bordada que lhe envolvia os
ombros, quando entraram seis cossacos, transportando o chefe. As
belas mongóis fugiram para um canto da tenda, sempre a palrar.
 - Eu n¦o disse? - gritava Loupin, desesperado, mas na realidade,
cada vez mais velhaco. - Jermak está ferido!
 A fechar o cortejo, Mouchkov e Marina entraram por sua vez na
tenda.
 - Foi certamente uma flecha perdida - explicou Ivan
Matveiévitch. - Loupin, procura retirá-la!
 Os cossacos estenderam Jermak no div¦, espreitando com
concupiscência as belas mongóis seminuas.
 O braço de Jermak tremia sem parar. A flecha devia ter
atravessado um nervo. Loupin debruçou-se sobre ele, examinou o
músculo do antebraço e remexeu ligeiramente a flecha de trás para
a frente. Jermak rangeu os dentes.
 - Consegues retirá-la? - perguntou ele, articulando as palavras
com dificuldade.
 - A ponta tem barbela, é preciso praticar uma incis¦o!
 - E o veneno?
 - Se a ponta estivesse envenenada n¦o estarias agora aqui
deitado! O veneno dos tártaros começa por paralisar os pulmSes e,
depois, passa-se tudo muito rapidamente.
 Jermak sossegou. Viveria. Um ferimento cura-se depressa, como
bem testemunhavam todas as cicatrizes visíveis no seu corpo; a
expediç¦o através da Sibéria prosseguiria até Sibir, capital de
Koutchoum.

 Jermak inclinou a cabeça para o lado e viu Marina, de pé junto
de Mouchkov, envergando o uniforme cossaco, muito sujo, e n¦o
pôde deixar de pensar na pele branca que o tecido grosseiro
cobria, nos seios firmes que t¦o fugazmente entrevira...
imaginava-a liberta das calças de cavaleiro, demasiado largas, e
das botas... Nua, totalmente nua!
 - Queres que te adormeça? - perguntou Mouchkov, preparando o
punho.
 - Sou alguma menina? - resmungou Jermak.
 - Loupin terá de penetrar profundamente no músculo do teu braço,
Jermak!
 - Já suportei muitas dores - replicou Jermak, taciturno, mas só
Marina compreendeu o sentido exacto das suas palavras. - Que
significa um golpe em comparaç¦o com o resto?
 Loupin manejou cuidadosamente uma pequena faca bem afiada,
conseguiu extrair a ponta da flecha e deixou que a ferida
sangrasse.
 - Assim, todo o veneno escorrerá, pois o corpo purifica-se
sozinho.
 O pope Oleg que, para reconfortar Jermak, lhe apontara uma cruz,
sentiu-se gratificado com um fortíssimo pontapé. Do exterior,
chegava um rumor confuso de vozes. Correra a notícia de que
Jermak fora ferido por um tártaro moribundo e os cossacos
preparavam-se para percorrer o campo de batalha, já deserto, para
acabar com qualquer ferido que encontrassem.
 Mudo de horror, Loupin continuava sentado junto de Jermak no
div¦ de seda oriental. "A culpa foi toda minha", pensava ele.
"Foi por minha causa que Jermak veio para terra, em busca de
Marina... e que encontrou nos braços do amigo Mouchkov... Ao
pretender afastá-la do perigo, aticei o fogo do Inferno..."
 Depois de deixar sangrar abundantemente a ferida, Loupin aplicou
um garrote no antebraço. Meia hora mais tarde, retirou-o e
preparou um penso para a chaga.
 - És um cirurgi¦o competente, Loupin. - disse-lhe Jermak,
enfraquecido pela perda de sangue. - Já és diácono mas com
certeza serás um dia bispo da Sibéria!
 - Aleluia! - resmungou o pope Oleg. - Cá por mim, fundarei um
mosteiro!
 - Para senhoras da Mongólia?
 - Está escrito: Ama o próximo! Jermak Timofeiévitch, cumpro
estritamente estas palavras.
 - Tragam aguardente! - gritou Jermak, erguendo-se e fazendo
sinal a Marina para que se aproximasse. Deliberadamente, roçou os
seios da jovem... Mouchkov, que surpreendeu o gesto, sentiu-se
coberto de suores.
 Jermak olhou para ele e sorriu... Foi o mais cruel dos sorrisos
que Mouchkov jamais vira nos lábios do amigo.

 A vida prosseguiu assim durante mais alguns dias, uma vida de
patuscadas, de alegria e de trabalho fácil.
 Aperfeiçoaram as instalaçSes do acampamento; patrulhas de
cavaleiros, montados em animais apreendidos aos tártaros, desciam
o Tobol, indo ao encontro dos postos avançados do poderoso
exército de Mametkoul. Mas, estes n¦o desarmavam. Esperavam os
assaltantes nos seus acampamentos entrincheirados.

 Enterraram-se solenemente os mortos do lado cossaco, entre os
quais um intérprete, perda que n¦o foi comentada. Depois, as
tripulaçSes transportaram os barcos e as jangadas para as margens
do Tobol, lançando-as à água para lá das quedas semeadas de
recifes contra os quais a frota se despedaçaria. Mouchkov
descobrira o local ideal, uma encosta arenosa pela qual as
embarcaçSes deslizavam facilmente até atingirem a água.
 Logo no dia seguinte ao da batalha, Jermak recebeu o seu
prisioneiro, o príncipe Tausan e os seus cavaleiros. Juntos,
saborearam os borregos e beberam aguardente russa, com excepç¦o
do príncipe que, sendo muçulmano, n¦o bebia álcool. Em
substituiç¦o serviram-lhe um koumisst bem forte e Jermak
convidou-o a escolher uma das dezassete beldades do seu harém.
Tausan escolheu a alegre Monja, agradecendo efusivamente a Jermak
o facto deste ter acrescentado a este gesto a dádiva de uma
grande tenda de couro.
- Somos homens, eu e tu, Tausan - declarou Jermak com um sorriso
trocista -, e a vida sem mulheres é um castigo! De resto, n¦o és
meu inimigo, portanto, n¦o te posso tratar como se o fosses! Luto
contra Koutchoum, só contra ele! E ele maltratava-os a todos para
continuar a viver a sua maldita existência! paga o reinado com o
vosso sangue!
 Era uma velha táctica, que já dera provas junto de Iepoutcha e
dos seus homens:
 - Venham ao coraç¦o dos vossos amigos russos! Nós
libertar-vos-emos! Mas, se n¦o querem a liberdade,
cortar-vos-emos as cabeças! - Será assim t¦o difícil decidir?
 Jermak também se entregou a uma demonstraç¦o convincente. Mandou
alinhar trinta dos seus atiradores de elite livónios que, depois
de carregarem as armas, fuzilaram trinta borregos a uma distância
nunca atingida por uma flecha.
 - É este nosso poder que nunca ninguém poderá vencer! - explicou
Jermak a Tausan, assustado. - Temos a pólvora nas m¦os!
 O príncipe Tausan escondeu o rosto entre as m¦os. "Perderemos as
nossas terras", pensou ele, com um aperto no coraç¦o. "Os Russos
apropriar-se-¦o da Sibéria. Tornar-nos-emos escravos nas nossas
cidades e aldeias. Est¦o a começar novos tempos, tempos de raios
e trovSes e de fogo escaldante, mortal."
 - Se quiseres, podes voltar a cavalo para junto de Koutchoum, ou
de Mametkoul - retomou Jermak, depois de feita a exposiç¦o. -
Somos apenas uma vanguarda! Depois de nós vir¦o tantos russos do
lado dos Urales, que os vossos rios n¦o poder¦o conter todos os
nossos barcos! E trar¦o com eles o poder dos trovSes! Procura
Koutchoum e diz-lhe que se renda! N¦o quero derramar sangue se
n¦o for obrigado...
 O príncipe Tausan sentia-se acabrunhado com o que via e ouvia.
 Passados três dias, partiu a cavalo com os sobreviventes do seu
exército, desceu o Tobol, fixou o ponto exacto
da margem em que os barcos e as jangadas esperavam para largar e,
depois, cavalgou para junto de Mametkoul.
- És um sábio! - disse, nesse dia, Mouchkov a Jermak. - V¦o
borrar-se de medo!
- Também outros ter¦o medo, Ivan Matveiévitch - replicou Jermak,
fixando Mouchkov com um olhar penetrante. - N¦o te aconselhei que
morresses naquela batalha?
- N¦o me foi possível, apesar da boa vontade... - Mouchkov
sorriu, incomodado.- De qualquer modo, deixemos de falar no
assunto, Jermak Timofeiévitch!
- N¦o se trata de Boris Stepanovitch... falemos, agora, de Marina
Alexandrovna!

Dissera-o sem pensar! Mas, se Jermak esperava que Mouchkov
empalidecesse de medo, enganou-se. Mouchkov encarou o amigo
tranquilamente.
- Marina contou-me tudo - disse por fim Mouchkov, quando o
silêncio entre os dois se tornou insuportável. - Mas soube-o a
partir do momento em que, depois de Loupin te ter extraído a
flecha do braço, roçaste os seios de Marina... Lembras-te?
 Respirava ruidosamente e procurava surpreender um leve sinal de
sentimento no rosto de Jermak. Porém o seu olhar permanecia frio
e toldado por um brilho mortífero.
 O olhar de uma serpente, pensou Mouchkov.
- Temos de falar sobre este assunto.
- E o que há para dizer? - perguntou Jermak num tom ameaçador.
 - Ela n¦o pode continuar a ser o teu adjunto!
- Porque n¦o? O que é que mudou? O meu valente adjunto chama-se
Boris Stepanovitch!
- Agora trata-se de uma mulher, também para ti, Jermak. N¦o
podemos mentir.
 - És tu que o dizes? Quem foi que mentiu durante dois anos?
- Tentei mais de cem vezes que Marina regressasse à sua aldeia,
mas ela n¦o foi ...
- Talvez já estivesse muito habituada à minha companhia, hem? -
perguntou Jermak, trocista.- Sabe-se lá o que uma mulher tem
dentro da cabeça! Acariciam um, enquanto pensam noutro!
 - N¦o é o caso de Marinouchka!
 - Tens a certeza?
 Jermak deu uma gargalhada brutal. Mouchkov enfurecera-se.
 - Também te contou como se me apresentou? Levantou a cabeça e
disse-me: "Olha!, apalpa-me e vê que eu n¦o sou um homem!" E,
quando a agarrei, suspirou e revirou os olhos, sorrindo. N¦o
estava com certeza a pensar em ti!
 - Agarraste-a? - perguntou Mouchkov, furioso.
 - Com as duas m¦os! - Jermak ergueu as m¦os, formando uma
convexidade com as palmas. - Eram feitos por medida para estas
m¦os... e, ainda para mais, rijos e aveludados...
 - Devia espancar-te, Jermak - declarou Mouchkov, ofegante. - E é
o que vou fazer!
 - N¦o estou a mentir! - gritou Jermak. - Tinha Marinouchka nos
braços quando a maldita flecha me atingiu! Pensa bem, imbecil, se
tivesse o peito livre, a flecha atingir-me-ia no braço? Era
impossível, pois eu e Marinouchka encontrávamo-nos peito contra
peito!
 - N¦o lhe chames Marinouchka! - resmungou Mouchkov.
 Sentia a cabeça a escaldar e o corpo percorrido por ondas de
calor.
 - É minha mulher!
 - Debaixo de um cobertor fedorento! Sobre a erva da estepe! à
maneira dos ratos silvestres! Ela merecia um palácio... e no
palácio de Koutchoum, em Sibir, hei-de levá-la nos braços e
deito-a num div¦ dourado! E Oleg Vassiliévitch casar-nos-á...
 - Ela preferirá morrer! - replicou Mouchkov, espantado por ainda
se encontrar em estado de poder falar.

 - Ela era o "teu espólio", como tu próprio disseste, já que a
retiraste do incêndio de Novo Orpotchkov! - Jermak voltou-se.
Encontravam-se na margem do Tobol e, lá mais abaixo, viam os
barcos e as jangadas presos com amarras e guardados por cossacos.
A pouca distância, encontrava-se uma pequena canoa, ainda em
terra, de quilha para o ar. - Há quanto tempo nos conhecemos,
Ivan Matveiévitch? - perguntou Jermak.
 - Há doze ou quinze anos, n¦o sei bem - respondeu Mouchkov.
 Seguiu Jermak, que se dirigia para a canoa. Este, pelo caminho,
meteu a m¦o no bolso e retirou três dados de osso cinzelado,
Mouchkov encolheu os ombros, escandalizado.
 - Sempre nos comportámos como amigos e, quando o espólio era
suficientemente abundante e satisfatório para os dois, que
fazíamos? Diz-me, Ivan Matveiévitch? - Jermak lançou os dados
sobre o fundo do barco. - Alguma vez discutimos por causa de um
espólio?
 - Marina n¦o é um vaso de ouro nem uma peça de seda!
 Mouchkov arrebatou os dados com a m¦o, entusiasmado.
 - Jogámos por três vezes a posse daquela princesa dos Negai,
lembras-te, Ivan Matveiévitch? Foi junto ao mar Cáspio... e tu,
c¦o, ganhaste sempre! Insurgi-me contra a sorte? Espólio
honestamente apreendido - lucro honestamente obtido! Mouchkov,
que é feito da tua honra de cossaco?
 - Marina n¦o é um objecto, nem uma mulher que se joga aos dados!
- gritou Ivan. - Amo-a, é a minha vida!
 - Foi por isso que te aconselhei que morresses naquela batalha!
 Calaram-se e encostaram-se à canoa, de olhar fixo para além do
Tobol, sobre o qual cintilava o sol de Maio.
Alguns barcos carregados de cossacos rompiam, aqui e além, o
esplendor das vagas; os soldados de Jermak pescavam à rede. Havia
tantos peixes que se poderiam pescar à m¦o.
 - Mouchkov, parece-te que devemos renunciar à conquista da
Sibéria, só porque nos queremos matar um ao outro? - perguntou,
por fim, Jermak. - Parece-te que, por causa de uma mulher, a
Rússia deva perder a Sibéria para sempre?
 - Porque me fazes essas perguntas? Quem é que quer apropriar-se
de Marina?
 - Quem é que pretende possuí-la sem partilha, quando, segundo a
nossa lei, é ao comandante que deve caber a melhor fatia do
espólio?
 - Há muito tempo que Marina deixou de ser um espólio! -
vociferou Mouchkov.
 - Mas foi-o e, nessa altura, enganaste-me!
 Era evidente que a discuss¦o estava a aquecer. A melhor soluç¦o
consistia em desembainhar os sabres e em se lançarem um ao outro.
O mais forte tem sempre raz¦o... é um princípio fatal, mas
indestrutível.
 Contudo, Jermak e Mouchkov recuaram perante essa saída. Ambos
conheciam perfeitamente a maneira de combater do outro...
 - Dez mil rublos! - sugeriu Jermak, passado um momento.
 Mouchkov sobressaltou-se:
 - Estás louco, Jermak Timofeiévitch!
 - Dez mil rublos! - repetiu Jermak alguns instantes depois.
- Ser-te-¦o contados, segundo promessas escritas por mim, perante
os Stroganov, em Perm!
 - N¦o há riqueza no mundo que possa comprar Marina! - respondeu
Mouchkov, com firmeza.
 - Acrescentaremos ainda mil peles de zibelina e duas mil peles
de raposa preta!
 - Podes oferecer-me Mangaseja, o céu e as estrelas, Marina n¦o
está à venda!
 - E mais mil raposas brancas e mais mil castores!

 - Se Deus me prometesse a felicidade do paraíso, n¦o a trocaria
por um instante passado na companhia de Marina, mesmo no mais
desconfortável dos tugúrios.
 - Um instante e um tugúrio! - Jermak observava Mouchkov, de
cabeça inclinada. "Tem os olhos frios de uma víbora ", pensou de
novo Mouchkov. - Podes ter ambas as coisas, Ivan Matveiévitch:
pensa bem...
 Jermak agachou-se, apanhou os dados e introduziu-os no bolso. Em
seguida, fazendo-os tilintar dentro da algibeira, desceu em
direcç¦o ao rio.
 Foi o pope Oleg que indicou a Mouchkov o caminho que este devia
tomar. O pope podia ter os seus defeitos, ser um porco entre os
porcos e um constante insulto ao Senhor, mas respeitava deveras a
amizade. Ora, Mouchkov era seu amigo, embora se tivessem sovado
conscienciosamente muitas vezes. Uma coisa n¦o impede a outra!
 As confissSes que os cossacos lhe faziam eram, sem excepç¦o,
ignóbeis relatos, mas acontece que, na véspera da grande partida
dos cossacos para enfrentarem as tropas de Mametkoul, dois
cossacos lhe perguntaram se poderiam ser antecipadamente
absolvidos, pois iam ser obrigados a matar um homem.
 Oleg apurou o ouvido e disse, solene:
 - Falem, meus filhos, libertem-se do fardo que oprime o vosso
coraç¦o e o Senhor purificar-vos-á!
 - Pois bem - declarou um dos homens. - Jermak ordenou-nos que
matássemos um homem.
 - De que maneira? - perguntou o pope.
 - Podemos escolher. O que importa é que o matemos!
 - Simplesmente, é um cossaco como nós - gaguejou o segundo
penitente.
 - Vejam só! - Oleg Vassiliévitch debruçou-se sobre o homem que
se encontrava ajoelhado. - Jermak ordenou que matassem um
camarada?
 - Sim.
 - E quem é ele?
 Ao ouvirem estas palavras, os dois acólitos permaneceram mudos.
O pope ameaçou-os com todas as penas do Inferno, esmurrou-lhes o
nariz até sangrar, mas eles limitavam-se a repetir:
 - Padre, dá-nos a absolviç¦o prévia?
 - Nunca! - vociferou Oleg. - Saiam daqui!
 - Jermak prometeu-nos dois mil rublos...
 O pope reflectiu, renunciou ao correctivo que se preparava para
lhes administrar e apontou para o ch¦o com o indicador. Os dois
penitentes caíram logo de joelhos.
 - É verdade? - perguntou ele suavemente.
 - Como poderíamos mentir-te, padre? Estamos dispostos a pagar
quinhentos rublos pela absolviç¦o...
 - Estamos no mercado? Pensam que est¦o a comprar banha de
borrego? - Oleg cruzou as enormes m¦os. - Seiscentos rublos...
 - És um padre generoso...
 - E quando terá lugar o acto?
 - Esta noite.
 - E Jermak está mesmo disposto a pagar?
 A pergunta justificava-se. Oleg conhecia Jermak há muito tempo.
Meditou mais um pouco. N¦o era muito frequente Jermak servir-se
de cúmplices - um assassino ainda passa... mas que faça o
trabalho sozinho! Um cúmplice é sempre um inimigo para o futuro.

 - Voltem quando estiverem na posse dos seiscentos rublos - disse
calmamente o pope. - Até lá, tenho mais que fazer do que pensar
em vós, filhos da m¦e!
 Mais tarde, falou no caso a Loupin, pois a história intrigava-o:
 - Jermak quer matar um homem - disse ele -, e paga dois mil
rublos pelo trabalho. Compreendes isto, Alexandre Grigoriévitch?
Dois mil rublos por um cossaco! Com esta quantia, manda-se
assassinar um príncipe!
 - Jermak deve ter as suas razSes - respondeu Loupin. Subitamente
doeu-lhe o coraç¦o, uma dor que era medo, uma angústia atroz.
 A pretexto de que o aguardava uma tarefa urgente, pois no dia
seguinte iniciar-se-ia a grande expediç¦o pelo rio, apoderou-se
de um cavalo e galopou a toda a brida em direcç¦o ao Tobol.
Loupin encontrou Mouchkov perto do rio; Marina estava junto dele
e descalçara as botas, chapinhando na água da corrente.
 - Tinha de ser! - gritou Loupin, saltando do cavalo ainda antes
de o imobilizar. - N¦o olhem para mim com esses olhos de r¦
espantada. Escolham os melhores cavalos
que encontrarem e fujam para os Urales!
 - É assim que grita sempre que pensa nos tártaros - disse
Mouchkov, com bonomia. - Velhote, derrotaremos Mametkoul para lá
do horizonte...
 - Mametkoul! És estúpido a esse ponto, Ivan Matveiévitch? N¦o se
trata disso! - Loupin apertou violentamente Marina contra o
peito. - Ele quer matar-te, Mouchkov!
 Mouchkov n¦o respondeu, mas olhou fixamente para Loupin e,
quando compreendeu o que ele queria dizer, ouviu Marina exclamar:
 - Jermak!
 - Ofereceu dois mil rublos pela tua morte, Ivan, e vai ser esta
noite!
 - O meu amigo Jermak Timofeiévitch? - balbuciou Mouchkov. -
Cavalgámos doze anos lado a lado...
 - Os assassinos confessaram-se a Oleg Vassiliévitch! - gritou
Loupin, desesperado. - despachem-se! Precisam de bons cavalos!
 - Acreditei nele - murmurou Mouchkov -, era todo o meu universo,
pai e irm¦o ao mesmo tempo... - e, subitamente, Mouchkov começou
a chorar como uma criança. - Só o tinha a ele; os meus pais
abandonaram-me ainda menino e fui criado por um camponês que me
acolheu... depois conheci Jermak, que me recrutou para o exército
cossaco... ele n¦o pode, agora...
 Os soluços sufocavam-no.
 - Ter¦o de cavalgar durante toda a noite! - insistiu Loupin,
impassível, beijando os olhos fechados de Marina. - Quanto a mim,
seguí-los-ei para cobrir a vossa fuga! N¦o se preocupem comigo!
E, acima de tudo, n¦o regressem ao acampamento.
 Com o auxílio das primeiras sombras do crepúsculo, a jusante do
ancoradouro dos barcos, atravessaram o Tobol com os cavalos a
nado. Atingiram uma enseada isolada, onde a água baixara e onde
Mouchkov lançou um último olhar aos barcos e jangadas, às
fogueiras e às tendas, aos cavalos e auriflamas...

 Ouviam-se tocar os sinos de uma capela, os da capela flutuante,
apelando para a oraç¦o da noite. Mouchkov fechou os olhos e
benzeu-se, depois deu meia volta no cavalo e, juntamente com
Marina, penetrou a galope na escurid¦o da estepe.
 Até ao fim do Angelus, Jermak n¦o se preocupou com a ausência do
seu adjunto. O facto de Mouchkov n¦o se encontrar presente
durante as oraçSes nada tinha de surpreendente, visto que devia
ocupar-se da frota que aguardava no ancoradouro a hora da
partida. Os navios continham já grandes quantidades de víveres.
Os rebanhos do príncipe Tausan foram sacrificados até ao último
borrego e esquartejados para poderem ser distribuídos pelos
cossacos, como provisSes.
 A fim de n¦o levantar suspeitas, Alexandre Grigoriévitch, Loupin
permaneceu no acampamento, ajudou os cossacos a reunir o
equipamento e, em seguida, juntou-se ao pope Oleg, na capela
ancorada no Tobol. O pope passeava de um lado para o outro, de
express¦o carregada, pensando no melhor meio de ocultar ao
príncipe Tausan algumas das beldades Mongóis. Talvez nos caixotes
que continham os objectos necessários à celebraç¦o da missa? Mas
elas sufocariam irremediavelmente, e n¦o era esse o objectivo da
operaç¦o.
 - O crente deve saber renunciar! - proclamou, por fim, o
contristado pope. - N¦o há outra soluç¦o...
 - Em Sibir, Koutchoum possui um harém cem vezes mais numeroso,
padre! - observou Loupin. - Deve ter escolhido as mais belas
raparigas das diversas regiSes do seu reino, esperemos!
 Para já, todos presumiam que os prisioneiros libertados e
Tausan, o seu chefe, teriam espalhado por toda a parte que só a
fuga resultaria perante atiradores de armas de fogo e
artilheiros.
 Na primeira fila dos homens ajoelhados encontrava-se, orando,
Jermak Timofeiévitch. Parecia absorvido pela palavra divina e
mantinha a cabeça baixa, mas as suas oraçSes n¦o apelavam para a
intercess¦o dos santos. Já ter¦o assassinado Mouchkov? N¦o será
fácil surpreendê-lo! Desde que os meus dois homens sejam bem
sucedidos... e sem testemunhas! Sabia que os assassinos se
calariam, n¦o por causa dos dois mil rublos, pois Jermak jamais
tivera a intenç¦o de os recompensar, mas porque n¦o sobreviveriam
ao acto mais do que o tempo necessário para lhe darem conta do
seu cumprimento. Enquanto o coro dos cossacos se elevava aos
céus, Jermak pensava em Marina. Durante algum tempo,
lamentar-se-á, mas dar-lhe-ei mais presentes do que a czarina
recebe de Ivan. Por conta dos Stroganov, naturalmente. E, se
resistir aos presentes, será violada. Aquela que for amada por
Jermak, n¦o o esquecerá! É um tipo que sabe acariciar e, ao mesmo
tempo, apoderar-se com m¦o de ferro daquilo que deseja. As
mulheres s¦o animais que gostam de ser dominados! Como Jermak
conhecia mal Marina!
 Por diversas vezes, o pope Oleg, fixando a nuca inclinada de
Jermak, sentiu vontade de lhe gritar: "Corre, maldito, vai salvar
o teu amigo!" Mas, na sua alma, trava-se um obscuro combate:
também desejava obter seiscentos rublos. Calou-se e consolou-se
ao pensar que Jermak, quando se descobrisse o seu segredo, n¦o
poderia recuar e mandá-lo matar a ele, Oleg Vassiliévitch...
Claro que, neste caso, a sua opa preta n¦o seria uma armadura de
ferro.

- Levaram-me o meu diácono! - declarou Oleg na sua potente voz de
baixo.- Como Cossaco que sou, já vi muitas coisas neste mundo,
mas nada que se pareça com isto! Quem pode querer mal a um velho
como Loupin? Tal infâmia é inadmissível! Merece todos os
tormentos do Inferno!
- Ando à procura de Boris Stepanovitch - disse Jermak, com a voz
embargada pela emoç¦o.- A esse, também ninguém o viu!
 O pope olhou de soslaio para Jermak e acariciou a longa barba.
 - Estás preocupado, Jermak? - perguntou ele, subitamente atento.
 - Preciso desse rapaz! - vociferou Jermak.
 - Aqueles que esperam s¦o muitas vezes atormentados pelo Diabo -
suspirou o pope, sentencioso. - Onde está Loupin? Talvez com
Mouchkov, que também desapareceu...
 - O quê? também n¦o sabem onde se encontra Ivan Matveiévitch? -
perguntou Jermak fingindo-se descontraído, embora o coraç¦o lhe
saltasse no peito. "Deve querer dizer que já está", pensou. "E
Marina estaria com ele?"
 - De qualquer modo, trata-se de uma noite infernal, Jermak
Timofeiévitch! - Observou o pope. - Criaturas de Deus que se
evaporam como gotas de orvalho - acrescentou, insidioso. -
Aguardemos... talvez que...?
 De madrugada, tornou-se evidente que Mouchkov, Marina e Loupin
tinham desaparecido. N¦o se descobriram rastos de nenhum deles
nas margens do rio, nem no acampamento, nem na estepe
circundante. Os dois cossacos encarregados por Jermak do
assassínio de Mouchkov vieram, muito contristados, informar o
chefe de que n¦o o encontraram. Tudo indicava que teria fugido.
 - Qual dos dois n¦o teve tento na língua? - gritou Jermak. As
veias das têmporas incharam-lhe, assumiu um aspecto terrível, os
seus olhos lançavam chispas demenciais. - Quem o terá advertido,
hem?
 Os dois cossacos lembraram-se da confiss¦o, mas o pope n¦o podia
saber de nada, pois n¦o tinham dito o nome. Encolheram os ombros
e responderam:
 - Ninguém sabe de nada, Jermak!
 - E Boris Stepanovitch? - rugiu Jermak, fora de si.
 Esta pergunta também ficou sem resposta. Como poderiam eles
saber onde se teria metido o rapazelho?
 Jermak expulsou os dois homens da tenda e partiu em busca de
Oleg. Encontrou o pope em galante companhia, instalado no div¦ de
seda do harém, acariciando duas palradoras aves mongóis.
 - Alexandre Grigoriévitch Loupin encontra-se aqui? - perguntou
Jermak, com dureza.
 O pope abanou a cabeça:
 - Deve ter sido morto e imediatamente enterrado! Ou talvez tenha
tido um mau encontro? Com tártaros nómadas, nunca se sabe!...
estava t¦o habituado a ele, Jermak! Uma alma t¦o boa... - Afastou
as duas mongóis demasiado despidas e limpou os olhos. Parecia
verdadeiramente acabrunhado. - E onde está Mouchkov?
 - Desapareceu!
 - E Boris Stepanovitch?
 - Também!
 - Devem ter sido surpreendidos por uma horda de cavaleiros de
Mametkoul, por Santo Estefánio! O pope cossaco ergueu-se de um
pulo e a sua voz tonitruante proclamou:
 - Esmurrarei todo o tártaro que surja no meu caminho!
Atravessarei a Sibéria para vingar os meus amigos, nem que, para
isso, tenha de renunciar às minhas vestes sacerdotais!

 - Mais devagar, padre! - Jermak olhava em frente, mas suas m¦os,
crispadas, abriam-se e fechavam-se ao ritmo dos espasmos. - N¦o
ter¦o muito simplesmente fugido juntos?
 - Fugido? - Oleg arregalou os olhos. - E por que fugiria o meu
diácono? Para escapar a quem? E Mouchkov...
 - Condenei-o à morte... - articulou Jermak, lentamente.
 - O quê? Para sempre... ámen! - O pope deixou-se cair no div¦ de
seda. - O mundo andará de pernas para o ar, Jermak?
 - Mouchkov traiu-me!
 - Quem poderá acreditar?
 - Toda a gente, pois sou eu que o digo! - gritou Jermak. - N¦o
te basta, a ti? Serás tu mais clarividente do que eu, filho da
puta?
 Oleg Vassiliévitch considerou prudente engolir o insulto, em vez
de lhe recordar que n¦o se trata um pope de forma t¦o
irreverente. Limitou-se a olhar atentamente para o comandante dos
cossacos, que entrava e saía da grande tenda, mais parecendo uma
fera.
 - Admitamos que Mouchkov é um traidor - retomou o pope,
instantes depois. - Mas o que é que Boris Stepanovitch tem a ver
com o caso?
 - És cego, hem? - Jermak deteve-se bruscamente. - Esse garoto é
o namorado de Mouchkov!
 Oleg riu, trocista:
 - N¦o me venhas com histórias dessas sobre Mouchkov!
 - Vi-os com os meus olhos! - Jermak encolheu os ombros. "N¦o
posso dizer a verdade", pensou. "Resta-me acusar Ivan
Matveiévitch de práticas anormais!" - Tens dúvidas? -
acrescentou.
 - Se tu o dizes, com certeza que n¦o! - O pope ergueu os olhos
para o tecto da tenda. - Resigno-me a aceitar que o meu querido
amigo Alexandre Grigoriévitch serviu de intermediário!
 - É isso mesmo! - gritou Jermak.
 Os destinos humanos encontram-se inexplicavelmente enredados...
O pope cruzou as enormes m¦os:
 - E ent¦o, partiram! Para onde?
 - Voltaram para a Rússia, evidentemente! N¦o estás a pensar que
nos levam a dianteira em direcç¦o a Koutchoum?
 - Que posso eu pensar depois de tantas desilusSes? - respondeu
Oleg, prudente. - Apanhá-los-ás, Jermak Timofeiévitch.
 - Organizarei uma caçada apertada como se fossem raposas
maléficas! A Rússia n¦o será demasiado vasta para os ocultar!
 - Queres voltar para trás? - gaguejou o pope. - Queres renunciar
à Sibéria por causa de Mouchkov?
 à nossa frente, estende-se Sibir e, mais para lá, Mangaseja... e
depois... sabes quantas maravilhas contém ainda este mundo por
descobrir?
 - N¦o! Prosseguiremos o nosso caminho, mas enviarei os melhores
cavaleiros à sua procura!
 - E se os fugitivos forem mais rápidos do que eles?
 - Um dia, virei de novo à Sibéria! - Jermak ofegava. - E
encontrá-los-ei! A vida de um homem pode ser longa se perseguir
um sonho ou uma vingança! O sonho... Sibir, realizá-lo-ei para
mim! O resto da minha vida bastará para cumprir a vingança!
 O pope, contristado, encolheu os ombros:

 - Para matares três indivíduos, queres renunciar a seres Senhor
da Sibéria?
 "Trata-se de um juramento", pensou o pope, "um juramento mortal
e, quem conhecer Jermak, sabe que ele o cumprirá."
 Jermak fixava agora o pope:
 - Sim, matar! - O seu olhar atravessava Oleg como se fosse gelo:
- Ser¦o enterrados até ao pescoço num formigueiro e ficarei
sentado ao pé deles, para os ver devorados migalha após migalha.
E quando chorarem, gritarem, implorarem, pegarei na minha flauta
para tocar as árias pastoris do Don, e sentir-me-ei feliz!
 Olhava intensamente o pope, aguardando uma resposta, mas Oleg
parecia paralisado pela vis¦o que Jermak lhe fornecera da sua
vingança.
 - De madrugada, prosseguiremos! - retomou Jermak, beijando a
orla da opa do pope, antes de sair da tenda.
 Quanto a Oleg Vassiliévitch, pensava que acabara de ter uma
conversa com o Diabo, a qual poderia pôr a sua alma em perigo.
 Pouco tempo depois, seis cossacos e dez cavalos de carga subiam
o Tobol, em busca de um vau para se poderem lançar em perseguiç¦o
de Mouchkov, Loupin e Marina.

 De ouvido atento, os dois fugitivos cavalgaram durante toda a
noite e mudaram de cavalos de madrugada - o que consistiu em
selar os cavalos de carga, confiando aos seus animais cansados
bagagens leves. Parecia-lhes constantemente ouvir ao longe o
galope do cavalo de Loupin...
 - Já está velho - recordou Marina quando Mouchkov propôs que
retomassem a caminhada -, cavalgar durante toda a noite é de mais
para ele!
 - Talvez nem sequer tenha partido - respondeu Mouchkov,
saltitando de impaciência. - Ele disse-me que cavalgássemos o
mais que pudéssemos, através do mundo... e que, um dia, nos
encontraria! Um dia... n¦o é necessariamente hoje, Marinouchka...
 - Ele n¦o nos abandonará...
 - Oleg Vassiliévitch deve tê-lo impedido de partir... - Mouchkov
debruçou-se sobre Marina e pegou-lhe no rosto, para o beijar. -
Começaste por fugir do teu pai e, agora, n¦o podes passar sem
ele!
 - Porque te tenho a ti, Ivanouchka - respondeu ela, ternamente,
pegando-lhe na m¦o e beijando-a na palma antes de a passar pelo
seu próprio rosto. - Agora, tu és, verdadeiramente aquele que eu
queria que fosses! Mas a presença do meu pai continua a
parecer-me necessária. - Marina sorriu com tristeza. - Sabes
quantas vezes veio em meu auxílio nestes dois últimos anos? Que
teria acontecido se ele n¦o me tivesse acompanhado nas nossas
peregrinaçSes? Precisaremos de cavalgar t¦o depressa que ele n¦o
nos possa encontrar?
 - Há muito que Jermak lançou os seus homens em nossa
perseguiç¦o.
 - Tens medo deles?
 - Só tenho medo de ti. Por favor, monta! - insistiu Mouchkov
quando Marina lhe largou a m¦o, afastando-se. Em redor, estava
tudo calmo, nem sequer se ouviam chiar os ratos da estepe. -
Temos pela frente a travessia do inferno. Teremos de chegar ao
país de Perm antes do Inverno.

 A aurora começava a despontar. Retomaram a cavalgada e atingiram
um troço do rio que lhes permitia seguir ao longo da margem.
Atravessaram uma pequena colónia ostíaca.
Ao vê-los mulheres e crianças fugiam em todas as direcçSes,
procurando abrigo em tendas miseráveis, enquanto os homens os
observavam, pensativos, interrogando-se sobre a presença destes
dois cossacos no seu território. Que viriam fazer? Exigir um
tributo? Parecia-lhes pouco provável. Nestes casos, os cossacos
surgiam em t¦o elevado número que se tornava impossível opor-lhes
qualquer resistência.
 - Desembainhemos os sabres e atravessemos o acampamento com
segurança. Devemos fazer barulho - disse Mouchkov, pegando no
sabre cossaco que trazia pendurado na sela. - Só se manter¦o
tranquilos se virem que somos nós os mais ousados!
 Nenhuma lança os atingiu pelas costas, nem a mais pequena
flecha; os homens de raça amarela n¦o se mexeram, felizes por
verificar que os dois cavaleiros se limitavam a gritar.
Aguardaram mesmo o seu eventual regresso mas, como tal n¦o
aconteceu, retomaram as suas ocupaçSes.
 Quatro horas mais tarde, um terceiro cavaleiro estrangeiro,
seguido de dois cavalos de carga, atravessou o mesmo acampamento.
O homem, um velhote de cabelos brancos, parou e debruçou-se sobre
a sela, num gesto que traduzia o seu cansaço. Parecia manter-se
de pé com dificuldade.
 - Dois homens? - perguntou ele no idioma iacuto, do qual
aprendera algumas palavras pelo caminho que conduzia ao Tobol.
 - Sim! - Os ostíacos apontavam para oeste. Dois... e mais dois
cavalos sem sela!
 O velho esboçou um gesto de agradecimento e prosseguiu a
cavalgada.
 "Vou no seu rasto", dizia ele para consigo, feliz.
 "O velho lobo ainda está em forma..."
 Cinco horas mais tarde, as coisas passaram-se com menos
moderaç¦o.
 Seis cossacos, seguidos de dez cavalos de carga, apareceram na
mesma colónia de ostíacos, espancaram os habitantes, pilharam as
miseráveis tendas, incendiaram-nas e só ent¦o perguntaram:
 - Passaram três homens pelo vosso acampamento?
 Os ostíacos responderam afirmativamente, apontando com zelo a
direcç¦o tomada pelos viajantes:
 - Por ali! - repetiam, de braço estendido para a estepe,
exactamente no sentido inverso ao que os três homens tomaram.
 Os seis cossacos agradeceram, zurzindo mais uma vez os ostíacos,
e depois, reuniram-se, concluindo que era muito estranho Mouchkov
n¦o se dirigir em linha recta para os Urales. Mas fora certamente
assim: um homem zurzido por um cossaco diz sempre a verdade.
 Quando compreenderam que tinham sido enganados, tinham-se
passado quatro horas. Praguejando, regressaram ao rio e juraram
espancar os ostíacos até ficarem com os olhos redondos.
 Mouchkov e Marina levavam uma jornada de avanço aos seis
cossacos. Doze horas... mas o que s¦o doze horas na imensa Rússia
e entre os perigos dos Urales?


 Entretanto, no Tobol, a grande frota de Jermak navegava ao
encontro dos exércitos de Mametkoul. Nas proximidades de Sibir
aguardava Koutchoum, o czar Siberiano, com a sua guarda. Catorze
príncipes e seus guerreiros tinham vindo em seu auxílio. Por
detrás deles, o vazio, o inexplorado, a terra desconhecida,
gigantesca, feita de florestas e pântanos, tundras, cursos de
água t¦o amplos que n¦o se via a margem oposta. Por este mundo
ignorado estendiam-se lagos nos quais se podia remar durante dias
e dias sem nunca encontrar terra, e o solo era t¦o vasto que aí
se poderia instalar metade da humanidade.
 Será possível conquistar um país assim apenas com algumas
espingardas e três canhSes? E ainda, é verdade, com estandartes e
popes que, em cada local conquistado, enterravam uma cruz? Ou
ainda com mercadores que começavam imediatamente a negociar?
Alguma vez se vira um mundo novo onde se tenham dado os primeiros
passos com tanta determinaç¦o?
 Jermak Timofeiévitch n¦o tinha por onde escolher.
 Com o abastecimento fornecido pelos Stroganov, que percorrera o
Touro e o Tobol, chegaram até eles as últimas decisSes do czar:
"Ordeno que Jermak e os seus homens regressem imediatamente ao
país de Perm, a fim de serem punidos pelos crimes cometidos nas
margens do Don e do Volga. Ser¦o enforcados sem apelo."
 Oleg lera o veredicto em voz alta logo que a notícia da
condenaç¦o geral atingira a frota, no Tobol.
 - Fomos, portanto, condenados! - concluiu ele, passando a
mensagem a Jermak. - Nem poderia ser de outro modo, o czar nunca
perdoa!
 - Perdoará! - respondeu Jermak rudemente. - Coloco-lhe a Sibéria
aos pés. Nunca um bandido ofereceu t¦o belo presente ao seu amo.
Em frente, Oleg Vassiliévitch! Penetremos no novo mundo!
 Abrigado pela grande vela inchada, de olhos semicerrados, Jermak
observou as margens. Dos dois lados do rio, os velozes cavaleiros
de Mametkoul acompanhavam os navios e enviavam-lhes uma chuva de
flechas sempre que uma jangada ou uma embarcaç¦o se aproximava:
 - Terei de regressar à Rússia antes de envelhecer... Ainda me
falta matar Mouchkov!

Capítulo 9

 No terceiro dia de fuga, Loupin juntou-se à sua querida filha.
Chegara a pensar nunca mais a ver. Durante as últimas cem vertas,
limitara-se a agarrar-se à sela, de m¦os crispadas nas rédeas ou
na crina do cavalo. Doíam-lhe todos os ossos do corpo. O corpo
ardia-lhe por dentro, a paisagem vacilava ou diminuía à sua
volta, mas ele mantinha-se na sela, sabendo que n¦o conseguiria
voltar a montar se se apeasse.
 Porém, a distância que o separava dos seis cossacos enviados em
sua perseguiç¦o também ia diminuindo, pois estes ousaram o que
nem Mouchkov nem Loupin se permitiram: apropriavam-se, em cada
aldeia que atravessavam, de cavalos descansados, espancavam os
seus proprietários e alimentavam-se de tudo o que podiam, o que
lhes valeu avançar mais rapidamente do que os três infelizes
fugitivos, montados em cavalos exaustos, magros e cambaleantes.

 Entretanto, Mouchkov e Marina tinham atingido um dos pequenos
acampamentos fortificados, erigidos no Inverno anterior numa das
margens do Toura. Os cavalos hesitavam como cegos antes de
avançarem. Eram três cabanas construídas com toros de madeira,
rodeadas por grandes paliçadas de madeira: apeadeiro, recinto de
compra e venda, estalagem para caçadores e - como n¦o podia
deixar de ser - paróquia rural, dirigida por um jovem pope que
muito se esforçava por pregar aos ostíacos e tártaros e por
ensinar a história de Jesus Cristo, cujas imagens de cores vivas
mostrava, enquanto prometia a vida eterna - problema ao qual os
indígenas conferiam um sentido muito diferente do da Igreja. Mas
o santo homem baptizava com zelo, muito surpreendido com a boa
vontade das novas ovelhas.
 O pope nunca desconfiou de que os ostíacos viam na aspers¦o com
água benta um meio de se imortalizarem, comprimindo-se em massa
compacta à sua volta, tendo em mira esse objectivo inconfessado.
E quando, por acaso, entre os que n¦o tinham sido baptizados,
nove homens e mulheres morreram por ocasi¦o do degelo, enquanto
os baptizados sobreviveram, a nova crença foi unanimemente
considerada como um poder mágico.
 Mouchkov foi o primeiro a transpor, sozinho, a porta aberta na
paliçada, a fim de saber quem se encontraria agora no pequeno
forte. Os caçadores tinham saído, os homens dos Stroganov n¦o os
conheciam e encararam-no distraidamente: n¦o se fazem negócios
com um cossaco, a n¦o ser que se queira perder.
 O pope, pelo contrário, recebeu cordialmente o prudente
Mouchkov.
 - N¦o serás, por acaso, Ivan Matveiévitch? - perguntou o pope,
abrindo os braços. - Tu, o melhor amigo de Jermak, que fazes
aqui, irm¦o? N¦o me digas que foste o único sobrevivente?
 - Há ainda mais alguém à porta do acampamento: Boris
Stepanovitch - respondeu Mouchkov.
 - O adjunto? Aquele jovem alegre e prazenteiro? Como é possível?
 - Fomos encarregados de uma miss¦o secreta junto dos Stroganov -
respondeu Mouchkov que, por vezes, tinha boas ideias. - Jermak
está bem. Obtivemos uma grande vitória e o exército navega agora
pelo Tobol em direcç¦o ao rio Irtych e, daí, partirá para Sibir!
N¦o é uma boa notícia, venerável padre?
 - Vem aos meus braços! - O pope estava comovido.
- Aqui as coisas também progridem, o cristianismo é um bálsamo
para os pag¦os.
 Mouchkov saiu do recinto e acenou a Marina, que se apeara e
conduzia pelas rédeas os cavalos cansados.
 - É um bom apeadeiro! - declarou Mouchkov. - Vi por aqui belos
cavalos, pertencentes à Igreja e, como a Igreja deve ajudar os
homens, os cavalos pertencem-nos, evidentemente! Mudemos, pois,
de montada, e prossigamos o nosso caminho!
 - Preciso absolutamente de dormir, Ivanouchka - disse Marina,
encostando-se a um dos cavalos, cujas patas tremiam. Os olhos de
Marina teimavam em fechar-se, tinha o rosto sujo da poeira da
estepe, encovado e como que sumido: um rosto de criança doente. -
Duas a três horas de sono... é possível?
 - Temos andado bem! - respondeu Mouchkov.

Depois, abraçando Marina pela cintura, arrastou-a para o
acampamento entrincheirado. O pope correu ao seu encontro, beijou
três vezes as faces poeirentas de Marina, declarou mais uma vez
que se sentia feliz por ter como hóspedes os melhores amigos de
Jermak, e nem sequer se lembrou de que lhe poderiam roubar os
cavalos...
 Na choupana que servia de local de reuni¦o, de quarto de cama e
de capela, encontrava-se uma mulher ostíaca em frente da lareira
de pedra solta, apurando um guisado de couves. Era a primeira
baptizada da regi¦o. Uma viúva, cujo marido fora atacado pelos
cossacos quando estes construíram o acampamento.
 - Contem ent¦o... - sugeriu o pope depois de Mouchkov e Marina
terem comido papas de cereais e bebido cerveja obtida a partir da
fermentaç¦o de gr¦o de trigo. - Como tem passado Oleg
Vassiliévitch?
 - Dentro de vinte anos, haverá na Sibéria um exército
inteiramente constituído por rebentos do Koulakov! - exclamou
Mouchkov com alegria, ao qual a cerveja bebida em jejum
restituíra a inconsciência do seu passado cossaco. Por instantes
ignorou Marina, e permitiu uma reflex¦o que se referia às
incríveis dimensSes do membro viril de Oleg, que fazia chorar as
mulheres só de o verem! Foi preciso um pontapé de Marina, por
debaixo da mesa, para que ele prosseguisse, envergonhado,
olhando-a de soslaio:
 - Respeitável padre, temos connosco um adolescente que ainda
ignora estas coisas... Que boa que está a sopa!
 Depois da oraç¦o da noite, na qual tomaram parte alguns ostíacos
famélicos, que traziam víveres ao pope e vinham pedir a bênç¦o -
por causa da vida eterna -, fecharam a porta da paliçada e toda a
gente foi dormir.
 Marina adormeceu imediatamente. Mouchkov deitou-se ao lado dela
e procurou pegar-lhe na m¦o por debaixo do cobertor. Marina
espreguiçou-se mas n¦o abriu os olhos, nem mesmo quando o pope
começou a ressonar. Mouchkov apalpou-lhe ent¦o os seios,
experimentou um sentimento de felicidade sem par e adormeceu, por
sua vez.
 Durante a noite, foram acordados pelo ruído de pancadas na porta
de entrada, enquanto uma voz rouca repetia incansavelmente:
 - Abram! Dormem com os ouvidos tapados? Abram!
 O jovem pope foi o primeiro a despertar; saiu, espreitou por uma
fenda da paliçada e reconheceu o homem velho e exausto que se
encontrava no exterior: Alexandre Grigoriévitch Loupin.
 - Sucedem-se os prodígios! - exclamou o pope, abrindo o pesado
batente. Abraçou Loupin e arrastou-o para dentro do acampamento
entrincheirado. - Ah! A sombra de Oleg Vassiliévitch! Também
foste encarregado de uma miss¦o secreta na Rússia? Talvez junto
do bispo Ouspensk?
 - Ent¦o os outros encontram-se em tua casa, padre?
 Loupin cambaleava ao dirigir-se para a tenda do pope. "Mais dez
passos...", pensava, "e desmaio! Já n¦o sinto os ossos..."
 - Est¦o a dormir. - O pope apontava para os dois corpos
adormecidos no ch¦o. - Queres que os acorde?
 - N¦o, n¦o, deixa-os descansar. - Loupin cambaleou mais um pouco
ao aproximar-se dos dois adormecidos e deixou-se cair junto
deles. Depois, aceitou o copo de cerveja que o pope lhe oferecia
e bebeu-o, olhando para a filha adormecida. Marina parecia uma
criança em busca de refúgio junto do enorme Mouchkov. Contudo,
quanta energia encerrava este frágil ser!
 "Encontrei-a", pensava Loupin, no auge da alegria, limpando a
boca com as costas da m¦o. "É minha de novo..."
 Nenhuma vida se vive em v¦o, mas s¦o muitos os que ignoram este
facto.

 Em seguida, estirou-se ao comprido, suspirou e adormeceu
imediatamente.
 Dos seis cossacos enviados em sua perseguiç¦o separavam-nos
ainda quatro horas de cavalgada.

 O carrilh¦o do pequeno campanário acordou-os, pela manh¦. O pope
puxava pela correia de couro presa ao sino. Este balançava no
cimo da tenda feita de madeira, uma espécie de cubículo
construído de um dos lados.
 Loupin foi o primeiro a levantar-se, suspirando baixinho, pois o
sono n¦o eliminara o cansaço armazenado nos seus ossos. Coxeou em
direcç¦o à lareira de pedras cimentadas e serviu-se de chá
quente, numa tigela de barro. A mulher ostíaca, novamente
presente, confeccionava uma papa de aveia e, tal como na véspera,
observava os cossacos com um ar hostil.
 Ent¦o Mouchkov acordou, sentou-se e gritou:
 - N¦o será possível dar uma sova naquele tocador de sinos? -
Esta pergunta acordou Marina, cujo primeiro olhar se dirigiu a
Loupin, sentado à lareira, sorvendo o chá em pequenos goles.
 - Papá... - gaguejou ela. Mas, logo de seguida, numa voz mais
segura e abrindo os braços, exclamou:
- Velhote, encontraste-nos! Ivan, ele juntou-se-nos!
 - Quem? - perguntou Mouchkov, ainda mal acordado. - Quem é que
se nos juntou? - Esta palavra reanimou imediatamente toda a sua
agressividade. - Marinouchka, esconde-te! Eu defender-te-ei!
 Acabava de desembainhar a arma quando reconheceu Loupin, que
continuava a beber chá serenamente.
 A mulher ostíaca distribuía a papa fumegante pelas gamelas.
 - Alexandre Grigoriévitch! - exclamou Mouchkov, boquiaberto.
Marina sentiu, ent¦o, vontade de abraçar o pai, mas conteve-se e
baixou os braços. "Sou Boris Stepanovitch", disse para consigo
mesma, bruscamente.
 "Sou um rapaz! N¦o posso lançar-me nos braços de outro homem!"
 - Como te sentes, velhote? - murmurou ela, apoiando a m¦o no seu
coraç¦o palpitante.
 - Já n¦o sinto os ossos - respondeu ele, enquanto a mulher
ostíaca pousava uma gamela à sua frente, fixando-o com um olhar
feroz, que significava claramente: "Gostaria de cuspir nesta
papa, de cuspir um veneno mortal!"
 O pequeno sino continuava a tocar, os religiosos s¦o dotados de
muita paciência, mas quem teria respondido ao apelo? Os caçadores
percorriam as florestas. As lojas dos Stroganov ainda se
encontravam desertas. Quem viria, ent¦o, comerciar t¦o cedo?
 Mouchkov e Marina sentaram-se à mesa, mas n¦o comeram. O
encontro com Loupin fizera-os esquecer a fome. O pope, no canto
mais afastado da sala, largara a corda do sino, de couro
entrançado, e, depois de cuspir no ch¦o, olhava através de uma
seteira para a grande porta da cerca, na esperança de que alguém
viesse iniciar solenemente o dia de trabalho com uma oraç¦o. Mas
ninguém apareceu.

 - Quando parti a cavalo, ainda reinava o silêncio - esclareceu
Loupin, numa voz contida. - Se n¦o me engano, devemos levar sete
horas de avanço. Galopei como poucos cavaleiros ousam fazer, mas
agora precisamos de cavalos descansados, pois os cavalos de que
dispomos n¦o chegar¦o aos Urales!
 - Mas já temos cavalos à nossa disposiç¦o! - murmurou Mouchkov.
O pope, de pé diante do pequeno altar que consistia em quatro
ícones de estilo ingénuo e comovente, rezava com fervor. -
Cavalos que pertencem à Igreja...
 - Ivan Matveiévitch! - exclamou Loupin, num tom de censura.
 - Que prefere, velhote, roubar ou morrer?
 - Mais uma dessas perguntas diabólicas à maneira dos cossacos!
 - Pensa na nossa situaç¦o, Loupin!
 - Poderíamos tentar chegar a um acordo com o pope.
 - A Igreja alguma vez deu o que quer que seja de boa vontade?
Alguma vez troca bom contra mau?
 Loupin suspirou e olhou para Marina com ternura:
 - Encarreguem-se de tudo - aconselhou, em voz baixa -, eu n¦o
verei nada. Vendo bem, agora sou um diácono. Quando partiremos?
 - Mas n¦o um verdadeiro diácono, velhote! - corrigiu Mouchkov,
com um sorriso aberto.
 - Sou, sim! Ordenado e ungido pelo bispo em pessoa! - replicou
Loupin em voz alta. Sentia-se ferido quando alguém aludia às
circunstâncias particulares da sua ordenaç¦o. - Quando partimos?
 - Imediatamente - respondeu Marina. - será possível?
 Loupin fez um gesto de assentimento. Por todo o corpo, sentia
dores, caimbras musculares, ardor nos ossos inflamados. "Ter¦o de
me transportar para o meu cavalo", pensava ele, "mas, uma vez a
cavalo, suportarei a viagem! Que significam algumas dores quando
se trata de ver chegar a minha filha, s¦ e salva, ao outro lado
dos Urales? No país de Perm, poderei enfim deixar-me cair do
cavalo e, quando estiver estendido no ch¦o, beijá-lo-ei! Santa
Rússia!" "Em que é que os cossacos ainda nos poder¦o interessar?"
O governador clarista de Perm enforcará todos os que lhe caiam
nas m¦os! É um ucasse de Moscovo: "Perseguir todos os Cossacos
como se fossem lobos!" E raras vezes o czar terá sido t¦o
prontamente obedecido.
 - É preciso mudar de roupa! - declarou Loupin de repente.
 - O quê? - Mouchkov compôs a camisa e entalou os polegares no
cintur¦o. - N¦o mudei de identidade, continuo a ser Mouchkov, o
cossaco!
 - Como cossaco, serás imediatamente atacado no país de Perm! -
retorquiu Loupin em voz alta. - Já te esqueceste?
 - Maldito mundo! - Mouchkov suspirou e pousou a colher. -
Conquistamos a Sibéria em nome do czar, fazemos dele o príncipe
mais rico do mundo... graças a nós a Rússia será invencível...
mas ele condena-nos à morte!
 O pope terminara a oraç¦o matinal. Aproximou-se da mesa,
sentou-se, fixou os três hóspedes com um ar um tanto vexado e
mergulhou a colher na papa.
 - Comer sem ter rezado! - observou ele, num tom reprovador. -
Irm¦o Loupin, esperava que me ajudasses a evitar tal pecado!
 - Tive uma conversa muito séria com estes dois cossacos... -
Loupin tossiu, enquanto Mouchkov esboçava um sorriso. - Eles ir¦o
a Ouspensk, mas eu n¦o... e encarreguei-os de transmitir uma
mensagem ao bispo.
 - In dulci jubilo! - declarou o pope, comovido.
 N¦o desconfiava que, alguns minutos mais tarde, n¦o lhe
restariam motivos de satisfaç¦o.

 - Assim seja - respondeu Loupin, lançando um olhar à filha e a
Mouchkov, para se certificar de que estavam prontos. Ent¦o,
ergueu-se e encaminhou-se, a coxear, para a porta:
 - Como está o tempo?
 - Vai estar um dia de sol e quente, irm¦o...
 - Deus é misericordioso...
 Loupin fez menç¦o de abandonar a choupana rapidamente. Fechou a
porta atrás de si e dirigiu-se, coxeando, para a loja que acabava
de abrir. Pelo caminho, retirou do bolso um anel de ouro que o
pope Koulakov lhe oferecera.
 - Em troca deste anel, dê-me umas calças e uma camisa de
camponês! - pediu ele, pousando o anel em cima do balc¦o. - É
para um homem esbelto... um pouco mais alto do que eu, mas muito
mais estreito de ombros.
 - Em troca deste anel, velho? - perguntou o representante dos
Stroganov. Examinou o anel, ergueu-o contra a luz do dia e piscou
os olhos. - N¦o vale muito...
 - Vale o suficiente para vos abrir o crânio, se me enganarem -
respondeu Loupin tranquilamente. - Para que precisam os Stroganov
de enganar um velho? Vamos, umas calças, uma camisa e, para
completar, umas botas resistentes e fortes, ou v¦o para o Diabo!
 Nunca se deve falar durante muito tempo com gente grosseira,
sobretudo num deserto onde ninguém vem em nosso auxílio, no caso
de sermos atacados. O anel era valioso... o velho sabia-o... o
homem de serviço dos Stroganov pôs-se a pensar mais honestamente
e procurou nos armários e no material de reserva o que Loupin lhe
pedira.
 Entretanto, as coisas passavam-se menos pacificamente na tenda
do pope. Mouchkov despira o fato cossaco e conservava apenas uma
camisa de linho muito curta, que lhe cobria o ventre; assim, a
mulher ostíaca observava-o intensamente e o pope esquecera-se de
comer a papa de aveia, que arrefecia na gamela de barro.
 - Estás louco, Mouchkov? - gaguejou ele. - Queres violar uma
serva, na igreja? à minha vista?
 - Que queres tu que eu faça da tua ovelha e dos seus olhares de
través? - inquiriu grosseiramente Mouchkov.
- Tu é que me podes ajudar, padre!
 - Ivan Matveiévitch! - balbuciou o pope, horrorizado.
 Ergueu-se de um pulo, recuou até à parede e apontou a cruz que
trazia ao peito, como para esconjurar o Diabo.
 Mouchkov olhava-o, pensativo, enquanto media mentalmente a opa
do padre, pensando que talvez lhe ficasse apertada no peito e nas
ancas, mas lhe assentaria bem em comprimento. Só os ombros, os
ombros largos de Ivan constituiriam um problema...
 - Despe-te! - ordenou Mouchkov.
 O jovem pope ergueu a cruz, na m¦o trémula:
 - Arreda, Satanás! - gritou ele, furioso. - N¦o me toques,
porco! Boris Stepanovitch, tu estás armado, chama-o à raz¦o!
 - Padre, acontece que Mouchkov precisa da sua opa - respondeu
tranquilamente Marina. - Só que ele n¦o se exprime com clareza.
 - Mas ele n¦o pode usar a indumentária de um sacerdote! Só um
homem ordenado...

 - Despe-te, e depressa! - vociferou Mouchkov, arrancando a cruz
das m¦os do pope. Este tremia como varas verdes mas, quando
Mouchkov lhe aplicou uma bofetada, desapertou a batina, despiu-a,
de lágrimas nos olhos e disse, dirigindo-se a Mouchkov:
 - Que se passa contigo, Ivan Matveiévitch? Ah! Como a Sibéria
vos modificou. Ent¦o n¦o partiram à conquista de Mangaseja
empunhando os estandartes sagrados?
 - E regressaremos à Rússia envergando uma batina sagrada! -
gracejou Mouchkov. - N¦o é um presságio?
 Entretanto, sempre a vociferar, tentava em v¦o abotoar a batina
no pescoço, mas esta ficava-lhe terrivelmente apertada, n¦o dando
sinais de esperança.
 - Ora! - exclamou Marina. - Teremos de explicar que n¦o é a
primeira vez que um religioso engorda num país conquistado!
 A porta abriu-se bruscamente... Loupin precipitou-se para a
filha, trazendo debaixo do braço o fato de camponês. Estancou ao
ver Mouchkov vestido de pope. Na verdade, acabava de perguntar a
si mesmo: "Que fazer dele, como encontrar uma fatiota que sirva a
Mouchkov?" E ele ali estava, disfarçado dentro da inesperada
indumentária, sorrindo para Loupin. Quanto ao pope, reduzidamente
vestido, encolhera-se ao canto da lareira.
 A mulher ostíaca, de pé junto ao forno de pedras, ofegava. Dois
russos, de sexo à mostra e nenhuma violaç¦o, constituía uma
experiência extraordinária!
 - Impossível! - declarou Loupin, uma vez passado o primeiro
choque. - Mouchkov, despe-te imediatamente, feres o meu coraç¦o
de homem piedoso consagrado ao serviço do Senhor!
 - Se n¦o fosses pai de quem nós sabemos... apanhavas uma sova! -
gritou Mouchkov, ofegante. - Cavalgarei até ao país de Perm com
esta batina e quem se rir de mim verá o seu próprio crânio aberto
ao meio! Aleluia!
 Mouchkov olhou de soslaio para Marina e viu que esta se ria, o
que o tranquilizou.
 "Talvez tenha feito de mim um cossaco diferente dos outros",
pensou, "a verdade, no entanto, é que se tornou uma mulher
cossaca! Ah! Que vida iremos viver, Marinouchka! N¦o precisaremos
de mendigar, como artífices famélicos, quando chegarmos ao país
de Perm!"
 - Eu ocupo-me dos cavalos! - disse ele. - Alexandre
Grigoriévitch, consola o teu irm¦o em Cristo...
 Como a choupana se compunha de uma única divis¦o, o pope e a
mulher ostíaca tiveram direito a uma surpresa ainda maior.
Marina despiu-se para envergar o traje de camponês e, quando
deixou cair as vestes cossacas, mostrando que era uma rapariga
dotada de todas as belezas que uma natureza benevolente pode
dispensar, o jovem pope desviou o olhar e desfaleceu:
 - Boris Stepanovitch - balbuciou - estou inconsolável - A mulher
ostíaca soltou um guincho e saiu a correr.
 - A Sibéria está cheia de prodígios! - declarou Loupin num tom
convincente. - Irm¦o, n¦o ouviste dizer que em Mangaseja se vêem
homens com a boca no cimo da cabeça? repara agora no que
aconteceu a Boris Stepanovitch! Teremos de partir o mais depressa
possível ao encontro do bispo de Ouspensk!

 Ajudou Marina a vestir-se, pegou-lhe na m¦o e saiu com ela da
cabana. Lá fora encontraram Mouchkov, que selara os bem
alimentados cavalos pertencentes ao clero, e dois empregados dos
Stroganov, que ele se apressara a sovar e se afadigavam agora a
carregar os cavalos de mercadorias. Agiam em silêncio, de olhos
esbugalhados, pois nunca tinham visto um sacerdote t¦o grosseiro:
até mesmo Oleg Vassiliévitch recitava alguns versículos das
Sagradas Escrituras antes de atacar. às nove horas da manh¦
estava tudo pronto. Loupin, Marina e Mouchkov, montados em
vigorosos cavalos, abandonaram o acampamento fortificado e
construído por ordem dos Stroganov. O jovem pope, de pé à entrada
da cabana, amaldiçoava-os ruidosamente, enquanto os homens dos
Stroganov se comprometiam a enviar uma mensagem para Oriol.
 Mas n¦o conseguiram fazê-lo t¦o depressa quanto supunham.
 Quatro horas mais tarde, os seis cossacos que perseguiam os
fugitivos entravam pela porta, aberta de par em par. N¦o
hesitaram em esmagar quem se lhes apresentava pela frente e,
depois de apeados, invadiram aos pares o interior das cabanas.
 - Louvado seja o Senhor! - rugiram os dois intrusos no interior
da tenda do pope. Este, ajoelhado em frente do altar, vira-se
obrigado, n¦o possuindo nada de melhor, a vestir as calças de
Mouchkov.
 - Viram passar por aqui Mouchkov, Loupin e Boris Stepanovitch?
 - Com certeza - respondeu o pope num tom sinistro -, e que o
Diabo lhes siga os passos.
 - Ah! As calças de Ivan Matveiévitch! - exclamou um dos cossacos
estendendo a m¦o. - Estou a reconhecê-las!
 - E em cima da mesa, o boné vermelho de Boris!
 Arrancaram o pope às suas oraçSes e arrastaram-no para fora da
cabana. O pope gritava, suplicava e acabou por chorar.
 Entretanto, os restantes cossacos interrogavam os empregados dos
Stroganov, aproveitando para surripiar da cabana dos caçadores
algumas preciosas peles de zibelina e para saborear uma pipa de
aguardente de reserva.
 - Patifes! Gritava o chefe da expediç¦o punitiva. - Que lhes
fizeste? Porque est¦o aqui as suas roupas?
 - Roubaram-me - gemeu o padre. - Sim, roubaram-me a batina, os
cavalos, uma cruz... que Deus os castigue!
 - Afinal, Mouchkov continua a ser um verdadeiro cossaco! -
concluiu o cossaco encarregado da miss¦o por Jermak, cheio de um
secreto orgulho. - Há quanto tempo partiram?
 - Há quatro horas.
 - Nesse caso, alcançá-los-emos! - correram para os cavalos ainda
fumegantes e saltaram para as selas de um pulo, habilidade em que
os Cossacos s¦o exímios. - Precisamos de os capturar antes dos
Urales. Ho+! Ho+!
 Manejavam os chicotes soltando gritos estridentes e partiram a
galope através do grande port¦o, como um pelot¦o infernal que
tivesse vindo perturbar esta pequena e pacífica colónia...
 "Antes dos Urales!" Sabiam que n¦o deviam aventurar-se pelo país
de Perm - eram ordens de Jermak - mas cada um deles receberia mil
rublos se levassem a Jermak Timofeiévitch as cabeças de Mouchkov,
Loupin e Boris.
 E, desta vez, Jermak estava decidido a pagar.


 Os fugitivos faziam em sentido inverso o caminho percorrido no
Inverno precedente ao longo do Toura. Encontravam por toda a
parte marcas deixadas por Jermak e pelos seus homens: barcos
danificados, jangadas apodrecidas, acampamentos provisórios
construídos quando passavam a noite nas margens do rio e dos
quais apenas restavam as muralhas de pedra solta. Chegaram mesmo
a encontrar vestígios de fogueiras, das quais restavam troncos de
árvores meio consumidos. Nostálgico, Mouchkov detinha-se, por
vezes, olhando fixamente os testemunhos da marcha em direcç¦o à
Sibéria, aventura insigne de um milhar de cossacos, de
sacerdotes, de mercadores, de caçadores, que ficariam conhecidos
na história mundial como exemplo único.
 Quando se afastaram do Toura, para seguirem ao longo do rochoso
Tagil, quando atingiram o Charavlia, para cujas margens haviam
rebocado as pesadas embarcaçSes durante dias e dias, Loupin e os
seus filhos refugiaram-se novamente nas grutas para passar a
noite, grutas que tinham descoberto por essa época nos maciços
rochosos e cujas entradas alongaram. Também aí, encontraram
utensílios esquecidos, resto de cordame.
 Por três vezes, dormiram em acampamentos fortificados;
cruzaram-se com colunas de reabastecimento, presentemente
enviados pelos Stroganov através dos Urales, enquanto Mouchkov se
familiarizava cada vez mais com o seu papel de pope, embora a
batina n¦o lhe assentasse muito bem.
 Perante o descontentamento de Loupin, que falava de conduta
blasfema em relaç¦o ao Senhor, Mouchkov abençoava os
palafreneiros dos Stroganov que, com sentimentos mitigados e,
muitas vezes amedrontados, se viam obrigados a penetrar na
Sibéria desconhecida.
O comércio com as regiSes já conquistadas implantara-se
rapidamente: as actividades de um Stroganov nunca paravam. Antes
dos habitantes das zonas ocupadas retomarem fôlego e se
aperceberem de que tinham sido derrotados, já os empregados dos
Stroganov se estabeleciam em feitorias, nas quais se dedicavam à
troca e compra de mercadorias. N¦o havia tempo para criticar os
novos patrSes... Estes traziam dinheiro e novas mercadorias e,
feitas as contas, quando se pode viver, comer, ter um tecto sob o
qual se acolher e conceber filhos tranquilamente, pouco importa
que o senhor de todas as coisas se chame Koutchoum ou Ivan.
 Um dia, ao cair da noite, Mouchkov, Marina e Loupin detiveram-se
no fundo de uma fenda, cujas elevadas paredes rochosas deixavam
passar um carreiro.
Alguns tempos atrás, Jermak e o seu bando tinham acampado ali e
Mouchkov recordava o esconderijo onde abandonara um barril de
carne salgada.
 O barril ainda lá estava, mas alguém o arrombara para consumir o
conteúdo.
 - E agora, que faremos? - perguntou Loupin um pouco mais tarde.
A noite estava clara, quente e calma, uma noite para amantes e
Mouchkov perguntava a si mesmo como fazer compreender a um pai
que poderia dormir mais adiante, em outra cavidade da rocha,
pois, com tal tempo, os apaixonados... Mas Loupin tinha o sono
leve e acordava sempre que Mouchkov, debaixo do cobertor, se
atrevia a acariciar Marina. Ent¦o, Loupin soerguia-se e clamava:
"Ivan Matveiévitch, n¦o te esqueças de que agora usas uma batina
sacerdotal!"
 - Que queres dizer com esse "que faremos", velhote? - perguntou
por sua vez Mouchkov. - Tens calor? Há uma gruta mais adiante que
me parece mais fresca.
 Loupin olhou-o de alto a baixo e Mouchkov baixou a cabeça.

 - Quis dizer o seguinte: que faremos quando tivermos atingido o
Tchousovaia? Construiremos uma jangada para descer a corrente?
Iríamos mais depressa e pouparíamos esforços.
 Mouchkov pensou em todas as misérias sofridas quando subiram o
rio a remos e meneou a cabeça:
 - Agora tenho um cavalo! Nunca mais na vida quero ouvir falar de
jangadas ou de barcos! Iremos a cavalo.
 - N¦o! - Mouchkov teve a coragem de contrariar Marina e
surpreendeu-se por ela aceitar sem refilar. - Deixa-me, pelo
menos, uma recordaç¦o da minha vida de cossaco, o meu cavalo!
 Em breve puderam verificar qu¦o alegre pode ser a vida de um
cossaco. Subitamente, junto ao seu refúgio, ouviu-se um grande
tropel de cavalos. Mouchkov e Loupin pegaram imediatamente nas
armas. Um dos condutores da coluna de abastecimento com que se
tinham cruzado na véspera, e que Mouchkov deixara partir rumo à
Sibéria com a sua bênç¦o, penetrou na gruta; trazia um profundo
ferimento na testa.
 - Os cossacos! - gritou ele. - e aproximam-se! Fugi, depois de
ter sido atacado por eles. Perguntaram, se vos tinha encontrado.
Falaram de um pope chamado Mouchkov. Sois vós, padre?
 - Sou! - exclamou Mouchkov. - Abençoado sejas por teres vindo
até nós! Prossegue o teu caminho e diz aos Stroganov que enviem
três grandes sírios a Ouspensk!
 O piedoso mensageiro benzeu-se e apressou-se a desaparecer antes
de ser visto pelos cossacos.
 - Eu sabia que Jermak nos perseguiria - confessou Loupin. - É
t¦o capaz de odiar como uma mulher enganada!
 - Nunca pensei que nos alcançassem.
 Mouchkov preparou pólvora e chumbo que retirou dos alforges e
deu uma parte a Loupin, o que obrigou Marina a perguntar-lhe:
 - E eu?
 - Tu ficas aqui na gruta! - respondeu Mouchkov.
 - Porque dizes tolices! - gritou ela.
 - É uma ordem! - reforçou Loupin.
 Marina voltou-se para o pai e este sentiu fugir a autoridade ao
enfrentar os seus olhos azuis. Subitamente, compreendeu Mouchkov,
que se queixava de se enternecer perante o olhar de Marina.
 Marina desembainhou o punhal que usava à cinta e estendeu a m¦o
a Loupin:
 - Será o nosso último combate - disse ela, convicta.
- Mais adiante encontra-se o país de Perm, onde nos espera uma
nova existência! Ent¦o, n¦o hei-de fazer nada para que possamos
viver? Mouchkov! - prosseguiu, solene. - Trouxeste-me para a
Sibéria como espólio, hoje sou eu que te levo como espólio para a
Rússia! Que tens a dizer?
 - Nada, Marinouchka - respondeu Mouchkov, entregando-lhe pólvora
E CHUMBO E AVANÇANDO PARA A ENTRADA DA GRUTA, ENQUANTO MARINA
APAGAVA AS BRASAS DA FOGUEIRA.
 - ÉS UM VERDADEIRO FANTOCHE NAS SUAS M¦OS! - RESMUNGOU LOUPIN NA
ESCURID¦O DA NOITE.
 MOUCHKOV CALOU-SE. "QUE RESPONDER?", PENSOU. TODOS OS HOMENS
APAIXONADOS SE COMPORTAM COMO BURROS, É O QUE TORNA ESTE ESTADO
T¦O DELICIOSO.

 O COMBATE FOI BREVE E A VITÓRIA RAPIDAMENTE OBTIDA. QUANDO SE
TRATA DE SALVAR A PELE, NINGUÉM PENSA EM RESPEITAR AS REGRAS DE
UM COMBATE LEAL.

 EM TODO O CASO, OS SEIS COSSACOS, PENETRARAM A CAVALO NA
EMBOSCADA ARMADA POR MOUCHKOV E LOUPIN. FORAM ABATIDOS NO FUNDO
DO CAMINHO, ENTRE AS MURALHAS DOS ROCHEDOS, SEM SEQUER TEREM
VISTO OS ADVERSÁRIOS, SEM PODEREM DEFENDER-SE, SEM TEREM TIDO
TEMPO DE COMPREENDER O QUE SE PASSAVA.
 OUVIRAM-SE TIROS. OS TRÊS CAVALEIROS QUE VINHAM À FRENTE CAÍRAM
DAS SELAS. O CÉU ESTAVA LIMPO, A VISIBILIDADE ERA BOA. COMO
MOUCHKOV E LOUPIN POSSUÍAM CADA UM DELES DUAS PISTOLAS, OS DOIS
COSSACOS QUE SE SEGUIAM ABATERAM-SE IGUALMENTE NO SOLO ROCHOSO,
SEM UM GRITO, DE TAL MODO AS BALAS PARTIRAM CERTEIRAS.
 O ÚLTIMO COSSACO TEVE MENOS SORTE: O CAVALO, ASSUSTADO COM OS
TIROS, EMPINOU-SE E O CAVALEIRO PERDEU AS ESTRIBEIRAS. AINDA
TENTOU DESEMBAINHAR O SABRE, AO ERGUER-SE DE UM PULO, MAS
MOUCHKOV JÁ SE ENCONTRAVA À SUA FRENTE E A SUA APARIǦO, VESTIDO
DE POPE, PARALISOU O COSSACO POR ALGUNS SEGUNDOS. IVAN
MATVEIÉVITCH DISFARÇADO DE POPE! MUITO SE RIRIA JERMAK!
 ESTES SEGUNDOS FORAM DECISIVOS:
 - ÉS TU, PAVEL IVANOVITCH KHROMOV. OUSAS, ENT¦O, PERSEGUIR UM
VELHO AMIGO DO DON?
 EM SEGUIDA, MOUCHKOV ESFACELOU O CRÂNIO DO COSSACO. POR DETRÁS
DOS ROCHEDOS, SURGIU LOUPIN; VINDO DO OUTRO LADO, APROXIMOU-SE
MARINA, DE PUNHAL CURVO NA M¦O.
 - ACABOU-SE! - DECLAROU MOUCHKOV, ENCOSTANDO-SE À ESCARPA
ROCHOSA. - ERA KHROMOV! BRINQUEI COM ELE NA AREIA DAS MARGENS DO
DON. DEUS ME PERDOE, MAS QUE PODERIA EU FAZER?
 DEIXOU CAIR O SABRE, OCULTOU O ROSTO ENTRE AS M¦OS E CHOROU.
 MAIS TARDE, ENTERRARAM OS SEIS COSSACOS DENTRO DE UMA DAS
GRUTAS, CUJA ENTRADA TAPARAM COM PEDRAS, TAREFA QUE LHES CUSTOU
UMA NOITE DE TRABALHO. COMO FICAVAM COM OS CAVALOS, LOUPIN ACABOU
POR DIZER PARA OS SEUS BOTSES: "SERIA UMA TOLICE SERVIRMO-NOS DE
UMA JANGADA. AFINAL, JÁ N¦O TEMOS DE QUEM FUGIR. ACABOU-SE, MEUS
FILHOS, SOMOS LIVRES!"

CAPÍTULO 10

 A LIBERDADE É UMA COISA ESTRANHA. TODOS NOS ESFORÇAMOS POR A
ALCANÇAR, POR A CONSERVAR, POR A DEFENDER... MAS, QUANDO A
POSSUÍMOS, ELA MOSTRA-SE T¦O RETICENTE COMO UMA FREIRA. LOUPIN,
MARINA E MOUCHKOV VIVERAM DE IMEDIATO ESTA EXPERIÊNCIA.
 ENQUANTO ATRAVESSAVAM OS URALES, A CAVALO, TRANSPONDO COM
DIFICULDADE OS VALES E LADEANDO PRECIPÍCIOS, IMAGINAVAM A VIDA EM
LIBERDADE DE UMA MANEIRA MUITO DIFERENTE DA QUE SE LHES AFIGUROU
LOGO QUE ENTRARAM NO PAÍS DE PERM.
 DEIXANDO ATRÁS DE SI O TCHOUSOVAIA, ESSE RIO DE NOME SINISTRO
QUE FORA PARA ELES A PORTA DA SIBÉRIA, APRESENTARA-SE-LHES, A
OESTE, A NOVA COLÓNIA FUNDADA PELOS STROGANOV, FLORESCENTE
FEITORIA COMERCIAL QUE JERMAK MANDARA RODEAR, UM ANO ANTES, POR
UMA MURALHA CIRCULAR DE PEDRA. RECEBERAM ENT¦O DESAGRADÁVEIS
NOTÍCIAS TRANSMITIDAS POR UM MENSAGEIRO QUE JÁ TINHAM ENCONTRADO
NOS URALES E QUE RETOMAVA O CAMINHO DA SIBÉRIA.
 - EM PLENO VER¦O, TEM SOPRADO UM VENTO MUITO FRIO! - INFORMOU O
VIAJANTE, AO CONTEMPLAR A SOTAINA DE POPE, SINGULARMENTE ROTA E
GASTA, QUE MOUCHKOV ENVERGAVA.
- N¦O SEI DONDE VENS, PADRE, POIS SÓ NOS VIMOS NOS URALES, MAS O
QUE JÁ ENT¦O ME SURPREENDEU FOI O FACTO DE N¦O USARES BARBA COMO
OS OUTROS POPES.

 - ESTAVA CHEIA DE PIOLHOS. - RESPONDEU MOUCHKOV, ANTES QUE
LOUPIN TIVESSE TEMPO DE FALAR. - PIOLHOS MONGÓIS! PARECE-TE QUE
OS DEVIA TRANSPORTAR PARA A RÚSSIA?
 - VAI CONTAR ESSA HISTÓRIA AOS OFICIAIS DO CZAR! - O
PALAFRENEIRO BEIJOU A CRUZ QUE MOUCHKOV TRAZIA AO PEITO E
OBSERVOU-O DE ALTO A BAIXO, UM TANTO INCRÉDULO. - DIZEM QUE O
PAÍS ESTÁ CHEIO DE FALSOS SACERDOTES, QUE ANDAM DE TERRA EM TERRA
A PREGAR E A ROUBAR! OS SOLDADOS PRENDEM-NOS E OS QUE N¦O FOREM
VERDADEIRAMENTE CONHECEDORES DA RELIGI¦O - UM POPE VERDADEIRO
ASSISTE AOS INTERROGATÓRIOS - S¦O ENVIADOS PARA AS MASMORRAS! OS
MAIS VIS S¦O TORTURADOS E ARRANCAM-LHES OS OLHOS! PADRE, TOMA BEM
CONTA DE TI!
 "ESTAMOS EM MAUS LENÇÓIS!", PENSOU MOUCHKOV QUANDO O MERCADOR SE
AFASTOU.
 - QUE APRENDESTE COM OLEG VASSILIÉVITCH? - PERGUNTOU EM SEGUIDA,
DIRIGINDO-SE A LOUPIN.
 - APRENDI A PROFERIR IMPROPÉRIOS, A BEBER E A CONVIVER COM
PROSTITUTAS! - RESPONDEU LOUPIN. - É QUANTO BASTA PARA QUEM N¦O
QUISER SABER MUITO!
 MOUCHKOV OLHOU PARA A SUA INDUMENTÁRIA. A SOTAINA ESTAVA SUJA,
ROTA E PUÍDA PELO CONTACTO COM A SELA. QUANDO O SOL INCIDIA NO
SEU TRASEIRO, VIA-SE-LHE A PELE ATRAVÉS DOS FIOS DO TECIDO.
 - PRECISO DE ROUPA NOVA - CONCLUIU.
 - MAS COMO OBTÊ-LA? A MAIS PEQUENA COMPRA, A MAIS SIMPLES
TENTATIVA DE TROCA E ALERTAREMOS OS SOLDADOS! - EXCLAMOU MARINA.
- OUVIRAM BEM? A POPULAǦO COLABORA NA DESCOBERTA DOS FALSOS
POPES!
 - QUE SOLUǦO NOS RESTA, ENT¦O? - PERGUNTOU MOUCHKOV, ABRINDO OS
BRAÇOS. - TEREMOS DE ROUBAR A ROUPA DE QUE NECESSITAMOS! N¦O
TENHO SEMPRE DITO QUE "MAIS VALE TIRAR DO QUE PEDIR?"
 - IVAN MATVEIÉVITCH! - CRITICOU MARINA, NUM TOM SEVERO. - ESTÁS
A FALAR COMO UM HOMEM DECIDIDO A GANHAR A VIDA TRABALHANDO, COMO
ME PROMETESTE?
 - LOUPIN! ELA ESTÁ NOVAMENTE A TENTAR ENTERNECER-ME! - DECLAROU
MOUCHKOV, DESOLADO. - CONHECE ALGUMA MANEIRA DE NOS
DESEMBARAÇARMOS?
 - PARTIREI À FRENTE PARA ESTUDAR AS POSSIBILIDADES - RESPONDEU
LOUPIN. - ASSIM, SOZINHO, N¦O ME FAREI NOTAR. TENTAREI OBTER
ALGUMAS PEÇAS DE ROUPA NA PRÓXIMA ALDEIA. - FITOU PREOCUPADO
MOUCHKOV E, EM SEGUIDA, DESVIOU O OLHAR PARA MARINA. - GRANDE
LIBERDADE! - EXCLAMOU. - NA SIBÉRIA, JERMAK QUER MATAR-TE, NA
RÚSSIA, O CZAR QUER MATAR-TE POR SERES COSSACO E, NO PAÍS DE PERM
PRENDER-TE-¦O POR SERES UM FALSO POPE! FAÇAS O QUE FIZERES, IVAN
MATVEIÉVITCH, SERÁS SEMPRE ACUSADO! DIFICILMENTE ENCONTRAREMOS UM
LOCAL TRANQUILO!
 - EM MOSCOVO... - COMEÇOU MARINA, HESITANTE, POIS SABIA QUE
MOUCHKOV ERA UM HOMEM MAIS LIVRE DO QUE UM PÁSSARO... - QUALQUER
UM PODIA ABATÊ-LO E SER RECOMPENSADO PELO ASSASSÍNIO! EM MOSCOVO
- REPETIU -, NINGUÉM NOS PERGUNTARÁ QUEM SOMOS...
 DISSERA-O OLHANDO DE FRENTE PARA MOUCHKOV.
 MOSCOVO! LOUPIN FIXAVA UM PONTO LONGÍNQUO. FLORESTAS, PLANÍCIES
PEDREGOSAS, A TRAVESSIA DO KAMA ONDE, PARA QUALQUER HOMEM,
COMEÇAVA A LIBERDADE... EXCEPTO PARA MOUCHKOV.
 - SABES ONDE FICA MOSCOVO, MINHA FILHA, E QUANTAS VERSTÁS NOS
SEPARA DESSA CIDADE? MILHARES DE VERSTÁS!

 - TENS MEDO, PAPÁ? - MARINA ABRAÇOU MOUCHKOV PELA CINTURA E
ENCOSTOU-SE A ELE, ENQUANTO LHE ACARICIAVA O CABELO. TAMBÉM ELE,
DE AR AUSENTE, FIXAVA O HORIZONTE, ENQUANTO LHE TREMIAM OS
LÁBIOS:
 - FOMOS À SIBÉRIA - DISSE ELE -, E VOLTÁMOS DA SIBÉRIA PARA A
RÚSSIA... ALCANÇAREMOS MOSCOVO... E TUDO O QUE QUISERMOS NESTE
MUNDO PORQUE NOS AMAMOS.

 ALEXANDRE GRIGORIÉVITCH PARTIU, POIS, A CAVALO, SOZINHO COMO
COMBINADO, DO TCHOUSOVAIA PARA O PAÍS DE PERM E INFORMOU-SE SOBRE
O ESTADO DE ESPÍRITO DA POPULAǦO. ESTA VIVIA TRANQUILA,
GOVERNADA PELOS STROGANOV; N¦O ERA LIVRE, POIS O PAÍS FORA
CONQUISTADO E OCUPADO PELOS RUSSOS, MAS TINHAM QUE COMER E A
AGRICULTURA PROSPERAVA. OS STROGANOV TRAÇAVAM ESTRADAS QUE N¦O
FICAVAM SUBMERSAS PELA LAMA, DUAS VEZES POR ANO, NO OUTONO E NA
PRIMAVERA. NAS FEITORIAS, PAGAVAM RAZOAVELMENTE AS PELES, OS
SALINEIROS DAVAM TRABALHO MESMO ÀQUELES QUE, DEVIDO À SUA
ESTUPIDEZ, N¦O PODERIAM SEN¦O ERRAR PELOS CAMINHOS. ALDEIAS
FORTIFICADAS PROTEGIAM OS HABITANTES DAS INCURSSES DOS VOGULOS E
DOS ANTIGOS SENHORES NACIONALISTAS. EM SUMA, NO PAÍS DE PERM A
VIDA ERA SUPORTÁVEL.
 ATÉ AO DIA EM QUE SURGIRAM OS SOLDADOS DO CZAR...
 OS STROGANOV ADIARAM TANTO QUANTO POSSÍVEL ESTA INVAS¦O MILITAR.
O AVÔ ANIKA, RAPOSA ASTUTA, PROMETERA A IVAN IV ASSEGURAR A
MANUTENǦO DA ORDEM PÚBLICA. DO MESMO MODO, OS IRM¦OS JACOB,
GREGOR E SIME¦O CONSEGUIRAM PERSUADIR O CZAR DE QUE A PRESENÇA
DOS MILITARES SÓ AUMENTARIA O CLIMA DE INQUIETAǦO. MAS
PRESENTEMENTE ERAM OS JOVENS STROGANOV, NIKITA E MÁXIMO, QUE
GOVERNAVAM O PAÍS, SOBRE O KAMA. ORA, IVAN, NA LONGÍNQUA CIDADE
DE MOSCOVO, MOSTRAVA-SE HESITANTE QUANTO A ESTES SENHORES, QUE
REINAVAM NAS SUAS PRÓPRIAS TERRAS. A NOTÍCIA DA CHEGADA DE JERMAK
À SIBÉRIA E O FACTO DESTE TER DERROTADO POR DUAS VEZES AS TROPAS
DE KOUTCHOUM, FOI PARA O CZAR UMA ESPÉCIE DE SINAL.
 - EST¦O A TORNAR-SE DEMASIADO PODEROSOS, ESSES STROGANOV -
CONFESSOU ELE, TACITURNO, AO SEU CONFIDENTE BORIS GODOUNOV.
 IVAN, QUANTO MAIS ENVELHECIA, MAIS CRUEL SE TORNAVA. JÁ N¦O
TINHA AMIGOS NEM, DE RESTO, NINGUÉM AMBICIONAVA O TÍTULO. SER
AMIGO DE IVAN IV SIGNIFICAVA VIVER SOB A AMEAÇA DA FORCA... TENDO
COMO PERSPECTIVAS A CEGUEIRA, A LÍNGUA ARRANCADA, A CASTRAǦO...
ACÇSES ESTAS QUE SE PODIAM CONSIDERAR, CONTUDO, TESTEMUNHOS DE
APREÇO POR PARTE DO SOBERANO.
 APENAS DOIS BOIARDOS VIVIAM AINDA NA ESFERA DO CZAR: O GORDO
BORIS GODOUNOV, QUE AGUARDAVA A HORA DA MORTE DO CZAR, E O
PRÍNCIPE CHOUISKY, O ESPÍRITO ABERTO, O ELEGANTE INTRIGUISTA, EM
QUEM GODOUNOV ALIMENTAVA A IDEIA DE QUE PODERIA SER O FUTURO
CZAR, ENQUANTO PREPARAVA EM SEGREDO AS BASES DO SEU PODER
PESSOAL.
 EM MOSCOVO, REINAVA O MEDO. TODOS OS DIAS HAVIA UMA EXECUǦO.
NAS IGREJAS, OS CRENTES REZAVAM E ENTOAVAM CÂNTICOS PELA
PRESERVAǦO DAS SUAS VIDAS, NA VERDADEIRA ACEPǦO DO TERMO, E
QUANDO O CZAR ENVIOU PARA O EXÍLIO, E DEPOIS MANDOU ASSASSINAR O
METROPOLITA DE MOSCOVO, A IGREJA COMPREENDEU POR SUA VEZ QUE, SE
DEUS PARECIA ESTAR LONGE, IVAN ERA OMNIPRESENTE E PARECIA
PREFERÍVEL HONRAR O CZAR EM VEZ DE CRISTO QUE, SEM DÚVIDA, AMAVA
OS MÁRTIRES, MAS N¦O OS PROTEGIA.
 - ENVIAREMOS TROPAS PARA O PAÍS DE PERM - DECLAROU IVAN QUE HÁ
MUITO ERA CONHECIDO POR O TERRÍVEL. - BORIS GODOUNOV, QUE RAZ¦O
APRESENTAREMOS PARA ESTA OCUPAǦO?

 - OUVI DIZER - RESPONDEU GODOUNOV, PENSATIVO - QUE PRECISAMENTE
NO PAÍS DE PERM VAGUEIAM MUITOS FALSOS POPES POR CIDADES E
ALDEIAS, PEDINDO ESMOLAS PARA IGREJAS E CONVENTOS QUE N¦O
EXISTEM. E, DESTE MODO, ENRIQUECEM. OS STROGANOV S¦O COMERCIANTES
ASTUTOS, BONS CRIST¦OS, PATRSES SEVEROS, MAS N¦O PODEM OCUPAR-SE
DE TUDO. PRESENTEMENTE, A SUA ATENǦO ESTÁ VOLTADA PARA A
SIBÉRIA... N¦O NOS DEVE SURPREENDER QUE O PAÍS SE RESSINTA. O
GOSSOUDAR ENVIARÁ TROPAS PARA PROTEGER OS STROGANOV NAS MARGENS
DO KAMA. ACEITAR¦O COM CERTEZA ESTE PRESENTE DO CZAR.
 IVAN APROVOU, MENEANDO A CABEÇA. ENCONTRAVA-SE SENTADO NUMA
POLTRONA FORRADA A PELE DE ZIBELINA. UMA CAPA ENVOLVIA-LHE A
SILHUETA DESCARNADA, O BARRETE BORDADO A PÉROLAS E OURO
ENCOBRIA-LHE O CABELO BRANCO E RALO.
A BARBA GRISALHA MAL CHEGAVA PARA COBRIR O PEITO MAGRO. TINHA
SEMPRE FRIO, MESMO EM PLENO VER¦O, E AS JOVENS QUE O PRÍNCIPE
CHOUISKY METIA NA SUA CAMA ERAM INCAPAZES DE O AQUECER. IVAN
EXPULSAVA-AS E, NO DIA SEGUINTE, MOSTRAVA-SE AINDA MAIS
RABUGENTO.
 HOMEM ENVELHECIDO E AZEDO, CRUEL, QUE SE SENTIA PERTO DO FIM MAS
QUE N¦O SE RESIGNAVA A MORRER, POIS TEMIA O JULGAMENTO DE DEUS.
CONTUDO, NOS ÚLTIMOS ANOS, REZAVA MAIS DO QUE REINAVA E MANDAVA
CONSTRUIR IGREJAS UMAS APÓS OUTRAS. "RAPOSA MATREIRA, ESTE
GODOUNOV", PENSAVA, NESSE MOMENTO, O CZAR. "QUE FARÁ ELE QUANDO
EU MORRER?
ASSASSINARÁ O PRETENDENTE AO TRONO, ESSE INDOLENTE, PARA OCUPAR O
SEU LUGAR? OU CHOUISKY, ESSA PERSONAGEM GELATINOSA, MANDARÁ MATAR
TODOS OS OUTROS? TANTOS RATOS À MINHA VOLTA! DEUS, DEIXA-ME VIVER
PARA ENGRANDECER A RÚSSIA, TORNANDO-A INVENCÍVEL! EXIGE SANGUE E
VIDAS HUMANAS, MAS O QUE É GRANDE, NA RÚSSIA, N¦O FOI CONSTRUÍDO
COM SANGUE?"
 E, ENT¦O, AS TROPAS DO CZAR CAVALGARAM PARA LESTE DURANTE
SEMANAS A FIO, A FIM DE PRESTAR AUXÍLIO, CHAMEMO-LHE ASSIM, AOS
STROGANOV. NIKITA E MÁXIMO SERIAM INCAPAZES DE SE DEFENDER E O
VELHO SIME¦O, NO SEU MOSTEIRO, REGRESSARA À INFÂNCIA, PRONTO A
ENVEREDAR PELO CAMINHO DO CÉU.
 ENQUANTO JERMAK E O SEU MILHAR DE HOMENS SE BATIAM NO TOBOL
CONTRA OS CAVALEIROS DE MAMETKOUL, OS SOLDADOS RUSSOS OCUPARAM O
PAÍS DE PERM, CONSTRUÍRAM PEQUENAS FORTALEZAS E INICIARAM A
PERSEGUIǦO AOS FALSOS POPES, AOS BANDIDOS, LADRSES E VAGABUNDOS.
EXECUTARAM TAMBÉM ALGUNS CHEFES VOGULOS E UDMURTES E A NOTÍCIA,
AO PROPAGAR-SE, TROUXE DE NOVO A PAZ.
 NAS IGREJAS, COMEÇOU-SE A REZAR SECRETAMENTE PELOS STROGANOV, E
N¦O PELO CZAR. OS SENHORES REGIONAIS VINHAM DISFARÇADOS ATÉ KAMA
PARA IMPLORAR AOS STROGANOV E OBTER AJUDA CONTRA OS DEMÓNIOS DO
CZAR.
 - A SIBÉRIA! - SUSPIRAVA MÁXIMO STROGANOV, O COMERCIANTE QUE
DEIXAVA NIKITA, O ESTRATEGO, EXPLICAR A SITUAǦO AOS VISITANTES,
APOIADO EM MUITAS CARTAS GEOGRÁFICAS:
 - O NOSSO FUTURO ESTÁ PARA LÁ DOS URALES E O VOSSO TAMBÉM,
IRM¦OS! O PODER DO CZAR SÓ PARARÁ NAS MONTANHAS: MAS A SIBÉRIA
SERÁ NOSSA, CONFIEM EM NÓS!


 MOUCHKOV E MARINA, QUE ENCONTRARAM ABRIGO NUMA CAVERNA À BEIRA
DO TCHOUSOVAIA, N¦O BENEFICIAVAM DESTAS PALAVRAS ENCORAJADOURAS.
O PAI LOUPIN METERA-SE A CAMINHO HÁ DOIS DIAS E ELES N¦O SABIAM
SE AINDA SE ENCONTRARIA VIVO, OU SE TERIA SIDO RAPTADO, ATACADO
OU AINDA QUEM SABE, ASSASSINADO. AO TERCEIRO DIA, APODEROU-SE
DELES A INQUIETAǦO. PERMANECERAM DURANTE HORAS E HORAS OCULTOS
POR UM ROCHEDO, AGUARDANDO O VELHO, DE OLHAR ATENTO AO VALE E
PERSCRUTANDO O CAMINHO PELO QUAL ELE DEVERIA REGRESSAR. A
ANGÚSTIA TORNARA-SE MAIS FORTE DO QUE O AMOR. NOS DOIS PRIMEIROS
DIAS E NAS DUAS PRIMEIRAS NOITES QUE PASSARAM SOZINHOS, O DESEJO
APODERARA-SE DELES. ABANDONARAM-SE TOTALMENTE À FELICIDADE, E
MOUCHKOV, QUE ATÉ ENT¦O AMALDIÇOAVA NOVO ORPOTCHKOV, POR TER
COMEÇADO NESSA ALDEIA EM CHAMAS TODA A SUA DESGRAÇA,
CONSIDERAVA-A AGORA UM LOCAL ABENÇOADO.
 TODAVIA, URGIA TER EM CONTA AS CONTINGÊNCIAS MATERIAIS. ASSIM,
DE VEZ EM QUANDO, MOUCHKOV ARRASTAVA-SE PARA FORA DA CAVERNA E
TRATAVA DE ALIMENTAR OS CAVALOS, O QUE N¦O ERA FÁCIL, POIS A ERVA
ERA RIJA E A ÁGUA DO TCHOUSOVAIA N¦O BASTAVA PARA LHES MATAR A
SEDE. AO QUARTO DIA, MOUCHKOV TEVE DE SE ENTREGAR A UMA
VERDADEIRA EXPEDIǦO PARA CONSEGUIR OBTER FORRAGEM. LEVOU CONSIGO
QUATRO CAVALOS, ASSALTOU À MANEIRA DOS COSSACOS UM CAMPONÊS DO
VALE E CARREGOU OS CAVALOS DE FORRAGEM, DEPOIS DE TER AMARRADO O
CAMPONÊS, A MULHER E UM CRIADO A UMA VIGA DA SUA CHOUPANA. EM
SEGUIDA, REGRESSOU AO SEU REFÚGIO NO PEDREGOSO TCHOUSOVAIA,
ASSOBIANDO ALEGREMENTE.
 DEPOIS DESTE INCIDENTE, DEVE TER REINADO UMA GRANDE AGITAǦO POR
TODO O VALE. UM POPE ATACARA UM CAMPONÊS E ROUBARA FORRAGEM,
CARNE E AVEIA, GRITANDO: "MALDITOS SEJAM SE OUSAREM PROFERIR UMA
PALAVRA!" UM FACTO NOVO QUE RECORDAVA ESTRANHAMENTE A PASSAGEM DE
JERMAK POR ESTA REGI¦O...
 AO ENTARDECER DO QUINTO DIA, APARECEU LOUPIN, CANSADO,
CAMBALEANDO EM CIMA DO CAVALO, COBERTO DE PÓ. MOUCHKOV PEGOU-LHE
AO COLO COMO SE FOSSE UMA CRIANÇA E TRANSPORTOU O VELHO PARA
DENTRO DA CAVERNA. MARINA OFERECEU-LHE UMA INFUS¦O SIMPLES, QUE
ELE BEBEU, ESFREGOU-LHE A TESTA E MASSAJOU-LHE O PEITO. SÓ ALGUNS
MOMENTOS DEPOIS LOUPIN CONSEGUIU ARTICULAR ALGUMAS PALAVRAS.
 - TROUXE-TE UM FATO DE CAMPONÊS, IVAN MATVEIÉVITCH - MURMUROU
ELE, OFEGANTE, DE OLHAR EXAUSTO. - GRAÇAS A DEUS, CONSEGUI
OBTÊ-LO! AS TROPAS DO CZAR EST¦O A PASSAR A REGI¦O A PENTE FINO
PARA ENCONTRAREM UM FALSO POPE QUE ATACOU UM CAMPONÊS E O
ESPANCOU, DEPOIS DE TER VIOLADO A MULHER E A FILHA!
 - ESTRANGULÁ-LOS-EI A TODOS! - RUGIU MOUCHKOV, ERGUENDO-SE DE UM
SALTO. - AH! COMO S¦O MENTIROSOS! ABENÇOEI O CAMPONÊS E NEM OLHEI
PARA A MULHER E, QUANTO À FILHA, N¦O HAVIA NENHUMA! MARINOUCHKA,
SOU ALGUM BRUTO?
 - AGORA, JÁ N¦O - RESPONDEU ELA, MUITO CALMA. - ACREDITO EM TI,
IVANOUCHKA...
 - ELA ACREDITA EM MIM! - EXCLAMOU MOUCHKOV RADIANTE. - OUVISTE,
VELHOTE? E TU?
 - ENT¦O SEMPRE FOSTE TU! - CONCLUIU LOUPIN, FECHANDO OS OLHOS DE
EXAUST¦O. - MARINA, PORQUE DEIXASTE ESTE IDIOTA SAIR SOZINHO?
 - OS CAVALOS TINHAM FOME, PAI, PRECISÁVAMOS DE OS ALIMENTAR.
 - POR ESSES MEIOS?.
 - DEVIA TER MENDIGADO ATÉ ENCHER A CAMISA DE FENO? - GRITOU
MOUCHKOV. - O MUNDO É MALVADO, VELHOTE, N¦O SERÁ PIOR POR MINHA
CAUSA.
 - É VERDADE QUE PODEMOS PENSAR ASSIM - RECONHECEU LOUPIN, QUE
EXTENUADO, ADORMECEU QUASE IMEDIATAMENTE. - VESTE O FATO DE
CAMPONÊS, MEU FILHO - AINDA TEVE TEMPO DE SUSSURRAR.

 DURANTE A NOITE, QUEIMARAM A BATINA DE POPE E TUDO O QUE PUDESSE
RECORDAR OS COSSACOS. AS BOTAS FORAM AS ÚLTIMAS SACRIFICADAS,
FEDIAM HORRIVELMENTE AO CONSUMIREM-SE EM CHAMAS.
 - QUANTOS ANOS CAVALGUEI COM ELAS... QUANTO SUOR DE CAVALO AINDA
ESCORRE POR AQUELAS BOTAS... - COMENTOU MOUCHKOV, MUITO TRISTE,
OBSERVANDO O LUME. - AS BOTAS CONTORCIAM-SE POR EFEITO DO CALOR,
COMO SE QUISESSEM FUGIR. - VIRAM O MAR NEGRO, AS ESTEPES DOS
NOGAIS, AS FLORESTAS DA SIBÉRIA... E AGORA ARDEM... MOUCHKOV JÁ
N¦O EXISTE.
 - EXISTE UM NOVO MOUCHKOV IVANOVITCH - RETOMOU MARINA COM
TERNURA, DANDO-LHE UM BEIJO NA NUCA. - UM MOUCHKOV MUITO MELHOR.
 - SIM, UM MOUCHKOV QUE SERÁ ARTÍFICE, QUE TERÁ DE SE CURVAR PARA
CONSEGUIR EMPREGO! MARINOUCHKA, SEREI CAPAZ DE SUPORTAR?
 - ESTOU CONTIGO, IVAN MATVEIÉVITCH!
 - E QUE CONTAREI EU, UM DIA, AOS NOSSOS FILHOS? NUNCA VER¦O AS
ESTEPES DO DON? NEM AS MANADAS DE CAVALOS DO VOLGA? NEM OS
CEREJAIS DAS NOSSAS ALDEIAS? NUNCA OUVIR¦O CHIAR OS RATOS DA
ESTEPE NA PRIMAVERA? MEUS FILHOS!
 MOUCHKOV APOIOU A CABEÇA NAS M¦OS, DE OLHAR FIXO NAS CHAMAS.
MARINA COMPREENDIA-O MAS MANTINHA-SE EM SILÊNCIO, DEIXANDO-O
ENTREGUE AO SEU DESGOSTO, ÀS DESPEDIDAS DO PASSADO. "TEREI DE O
AMAR COMO NUNCA UMA MULHER AMOU UM HOMEM", PENSOU ELA SENTANDO-SE
JUNTO DE MOUCHKOV. "SEREI, PARA ELE, UM PAÍS NOVO, FAREI COM QUE
ESQUEÇA A ÚLTIMA DAS RECORDAÇSES."
 NO DIA SEGUINTE DE MANH¦, TRANSPORTARA, O PAI LOUPIN, ESGOTADO,
PARA CIMA DO CAVALO, PRENDERAM OS CAVALOS UNS AOS OUTROS POR MEIO
DE GRANDES CORREIAS E DESCERAM LENTAMENTE ATÉ AO FUNDO DO VALE.
NO SEU TRAJE DE CAMPONÊS, MOUCHKOV PARECIA SINGULARMENTE
ESTRANHO.
 ESTE BRILHANTE CAVALEIRO COSSACO, ENVERGANDO UMA AMPLA CAMISA,
APERTADA NA CINTURA POR UMA SIMPLES CORDA, APRESENTAVA-SE AGORA
COMO UM KULAK IGUAL A QUALQUER OUTRO.
 - APETECE-ME CUSPIR NO MEU PRÓPRIO ROSTO! - EXCLAMOU ELE AO
MIRAR-SE NAS ÁGUAS LÍMPIDAS DO TCHOUSOVAIA.
 - AMO-TE - RESPONDEU-LHE MARINA, SORRINDO. OS GRANDES OLHOS
AZUIS TRANSBORDAVAM DE TERNURA, ENQUANTO O ACARICIAVA COM O
OLHAR. ELE SENTIA-O NA PELE... - O RESTO POUCO IMPORTA...

 NA ALDEIA DE LASSINEVKA ENCONTRARAM-SE COM OS PRIMEIROS SOLDADOS
DO CZAR.
 OS SOLDADOS OBSERVAVAM MOUCHKOV, O VELHO E O BONITO ADOLESCENTE
LOURO, CONTARAM OS CAVALOS QUE TRAZIAM EM FILA E CONFISCARAM TUDO
EM NOME DO CZAR.
 NO DIA SEGUINTE LIBERTARAM-Nos, mas atribuíram-lhes cavalos
cambaios e cansados e, quando Mouchkov se queixou ao oficial,
obteve como resposta uma bofetada. Pela primeira vez na vida, n¦o
retribuiu a afronta, pela primeira vez na vida, deixou-se
arrastar sob uma chuva de chicotadas, sem lançar imediatamente
uma operaç¦o de represálias.
 Montou o cavalo manco, suspirou, olhou para Marina e Loupin, que
baixaram a cabeça, e perguntou-lhes, em voz baixa:
 - O que é uma vida livre? É isto, velhote? Ah! Quando sonho com
a liberdade das margens do Don...
 - Estarmos vivos, foi o que ganhámos, meu filho - respondeu
Loupin. - Agora podem tentar viver a vida o melhor possível.
 - Eu e Marina, sozinhos?
 - Nunca estar¦o sozinhos, há milhares de pessoas como vós.
Mouchkov, ainda tens muito que fazer antes de seres velho como
eu.

 Lentamente, saíram da aldeia. Que vergonha para um cossaco,
montar um cavalo como aquele! Mouchkov mordia o lábio inferior:
 - Teremos de encontrar novamente uma igreja, provida de cavalos
bem alimentados... - murmurou em voz surda.
 - Acabou-se, Ivan Matveiévitch! - respondeu Marina. - Isso foi
no passado!
 - Nunca mais chegaremos a Moscovo com estes animais!
 - Nesse caso, trabalharemos pelo caminho para podermos comprar
bons cavalos! - propôs Loupin. - O Outono já paira na atmosfera
e, dentro de quinze dias, sentiremos o odor do Inverno. Todas as
novas aldeias construídas pelos Stroganov necessitar¦o de
lareiras: pensem nisso! Agora, temos tempo.
 Penetraram a cavalo no país de Perm, apearam-se em aldeias,
trabalharam para assegurar o p¦o de cada dia. Caçaram raposas e
esquilos, cujas peles vendiam nas feitorias dos Stroganov, onde
as mais variadas peles se acumulavam.
 Chegou o Outono, acompanhado, como sempre, por fortes chuvadas,
que deixam os campos saturados de humidade. Mouchkov partia à
caça de castores, em pequenos cursos de água distantes. Quando
uivou o vento dos primeiros gelos e a terra endureceu, quando
caíram os primeiros nevSes e por toda a parte constou que, na
longínqua Sibéria, Jermak Timofeiévitch conquistara a capital,
Sibir, quando Mouchkov chorou de alegria e nostalgia ao pensar
nos seus cossacos e Marina o consolou com toda a seduç¦o do seu
corpo tépido, macio e branco, o pai Loupin negociou com os
empregados dos Stroganov, após muitas discussSes encarniçadas,
injúrias e imprecaçSes de ambas as partes, um pacote de peles de
castores e raposas contra três cavalos e um trenó. Rodeado por
sinos e campainhas, o velho aproximou-se dos filhos, muito ufano
na sua tróica. Abraçou Marina e, batendo com os punhos no peito
do genro, sempre tristonho, disse:
 - Aqui tens, Ivan Matveiévitch, esta preciosa tróica! Com
cavalo. S¦o gordos como um bispo e um sólido trenó de patins
ferrados! Ganhaste tudo isto!
 - Eu? - perguntou Mouchkov, surpreendido.
 - Quem foi, ent¦o, que caçou belos castores, que caçou raposas?
Quem percorreu as florestas, de dia e de noite e espiou os
animais à beira do rio? Quem trabalhou como uma besta de carga?
 - A minha primeira tróica! - Mouchkov dava voltas ao trenó,
beijava os focinhos dos cavalos, abraçava-os pelo pescoço. - E
tudo isto por ter trabalhado! - gritava ele, sentando-se na
tróica. - Nada disto foi roubado, é inacreditável!
 Pegou nas rédeas, deu um estalido com a língua e partiu na sua
tróica para dar uma volta pela aldeia. As campainhas tocavam, em
arco de círculo sobre a sua cabeça, os cavalos ostentavam
pequenos tufos de plumas vermelhas e levantavam os cascos do ch¦o
como numa parada. O coraç¦o de Mouchkov estoirava de felicidade.
Começou a cantar em voz alta, de rosto ruborescido pela emoç¦o e,
por fim, parou diante de Marina e Loupin.
 O pai e a filha estavam de m¦os dadas à beira do caminho e, ao
saltar do trenó, Mouchkov pensou: "Fiz bem em me submeter a esta
femeazinha!"


 A 18 de Março de 1584, num dia morno precursor da Primavera,
demasiado quente para Moscovo, o czar Ivan IV sentou-se diante do
tabuleiro de xadrez, em companhia de um dos seus familiares, o
boiardo Bogdan Bielski.
 A pouca distância, Boris Godounov recebia embaixadores. Quanto
ao príncipe Chouisky, vivia dias tranquilos nos seus domínios
para lá de Moscovo, estabelecendo contactos com duvidosos
boiardos que aliciava e reunia à sua volta, contra Godounov.
 Após um Inverno clemente, a vida em Moscovo desabrochava como
uma flor sob o efeito do orvalho matinal. Esse dia de Primavera
encaminhava os citadinos para as margens do rio Moscova, para as
florestas e jardins dos mosteiros, onde se podia passear e, ao
mesmo tempo, ser abençoado.
 O czar olhava fixamente o tabuleiro de xadrez, no qual Bielski
acabava naquele momento de arriscar uma jogada audaciosa.
Contudo, a partida ainda n¦o estava perdida, nem o poderia estar,
pois Bielski sabia exactamente quando podia derrotar o czar ao
jogo, ou quando se revelava mais sensato deixá-lo ganhar. Hoje,
por exemplo...
 Ivan IV estava pálido, o rosto encovado, os olhos incandescentes
brilhando nas órbitas profundas; os seus lábios pareciam ainda
mais finos do que habitualmente.

 Pousou as m¦os agitadas por um leve tremor no rebordo do
tabuleiro e meditou um pouco:
 - N¦o me provoques, Bogdan - advertiu numa voz surda. - Este
vento quente fatiga-me...
 - Nada está perdido, gossoudar - respondeu Bielski,
inclinando-se. - Foi apenas um pi¦o. O que é um pi¦o?
 Ivan ergueu os olhos; o seu olhar agudo penetrou no boiardo como
uma lança.
 - Perdi muitos piSes, n¦o é verdade? - perguntou ele,
acabrunhado. - E também muitos boiardos, soldados, oficiais,
amigos. Limpei a Rússia! Purifiquei-a! Mas os ratos
multiplicam-se de novo e as almas s¦o imortais, tanto as boas
como as más! Já viste almas, Bogdan?
 - N¦o, Gossoudar - respondeu Bielski numa voz rouca, olhando
atentamente para o czar. Ivan mudara.
 O seu rosto desagregava-se como se a carne se desprendesse dos
ossos.
 - Pois eu vi! - declarou ele, sinistro. - Todas as noites me
procuram, aproximam-se do meu leito e gritam:
"Ivan! Ivan! Porque nos mataste? Olha para nós, n¦o éramos teus
amigos? Rejeitaste os melhores e conservaste os lobos que
espreitam a tua morte!" Em seguida, vêm sentar-se à minha
cabeceira e choram. E eu acordo sobressaltado, levanto-me, e
rezo, rezo, suplico a Deus que me perdoe. Por que n¦o conheces
nada disto tu, c¦o?
 Com um safan¦o, varreu as peças do tabuleiro de xadrez. Pelo
rosto pálido espalhou-se um suor frio; o seu peito arquejava a um
ritmo acelerado.
 - Bogdan! Tu também me traíste! à minha volta, só há hienas,
abutres que querem alimentar-se da minha carne! Godounov,
Chouisky, Romanov... Porque será que Deus n¦o vem em meu auxílio?
N¦o serei eu um humilde servidor?

 O czar quis levantar-se, mas as pernas n¦o lhe obedeceram. Caiu
para a frente, apoiando o peito na mesa. Um horrível estertor
escapava-se-lhe da boca aberta, tinha os olhos esgazeados...
 - Um médico! - ofegava o czar. - Bogdan, vai buscar o médico!
Sufoco! Deus está a estrangular-me!
 Caiu ao ch¦o, arrancou a roupa que lhe cobria o peito e pousou
em Bielski um olhar fixo repleto de ódio. Mesmo agora, nos
últimos instantes, prevalecia a crueldade:
 - Malditos sejam todos! - murmurou, ofegante. - Deus, meu Deus,
afasta de mim estas almas, que est¦o de novo à minha volta...
Reza por mim...
 O príncipe Bielski n¦o se mexeu. Permanecia de pé diante de Ivan
IV, moribundo, e aguardava o seu fim, de m¦os crispadas.
 Só quando o corpo do czar se relaxou e os olhos de águia se
extinguiram, Bielski correu para a porta e chamou pelo médico em
altos gritos.
 Um sentimento de horror e de libertaç¦o propagou-se como um
incêndio por todo o Kremlin. Boris Godounov, ajoelhado ao lado do
defunto czar, orava com fervor. A caminho das terras do príncipe
Chouisky, partiram emissários a cavalo, a toda a brida, a fim de
lhe transmitirem a notícia.
 A última czarina, Maria, filha de Teodoro Nagoi, detestada por
Ivan, por n¦o ser efectivamente capaz de a amar, cobriu-se com um
véu preto há muito preparado e dirigiu-se para a ala oposta do
palácio, a Igreja da Ressurreiç¦o. Os sinos do Kremlin começaram
a repicar, alertando os campanários de todo o país.
 - Morreu o czar! Que Deus seja clemente! De joelhos, povo, reza
pela sua alma!
 Sobre Moscovo, pairava o ressoar de centenas de sinos. Os
habitantes saíram para a rua, encheram as praças e dirigiram-se
depois para a grande praça do Kremlin, onde caíram de joelhos.
 - Morreu o czar! Era cruel entre os mais cruéis, mas que sabemos
nós da crueldade do seu sucessor? Foi um pai terrível. Mas era o
pai da Rússia... Rezem, rezem, rezem...
 Entre os milhares de indivíduos ajoelhados no ch¦o diante do
Kremlin, rodeados pelo repicar dos sinos e por cânticos
religiosos, encontravam-se também Alexandre Grigoriévitch Loupin,
Mouchkov e Marina. Estavam lado a lado, no ch¦o de terra batida,
precisamente no local onde Ivan IV mandara, um dia, torturar três
mil membros do exército permanente. Persignaram-se, de olhar
erguido para as cúpulas de ouro das igrejas, que brilhavam sob a
muralha do Kremlin, iluminadas pelo sol primaveril.
 - Morreu o czar - murmurou Mouchkov, em voz baixa. - Os cossacos
ser¦o finalmente agraciados?
 - Que tens tu com isso, Ivan Matveiévitch? - perguntou Loupin. -
N¦o és, há vários anos, o melhor artífice construtor de fogSes em
toda a cidade de Moscovo?
 - Apesar de tudo, seria um prazer para mim, velhote. - Mouchkov
voltou a cabeça para Marina, ajoelhada a seu lado, posiç¦o
difícil, pois encontrava-se grávida. Porém, mantinha o seu rosto
infantil, enquadrado por longos cabelos louros que, neste
momento, trazia enrolados na nuca. O seu olhar cruzou-se com o de
Ivan e sorriu, com aquela ternura a que Mouchkov n¦o sabia
resistir.
 - Agora, somos realmente livres! - disse Loupin.

 - Gostaria de ver o Don mais uma vez! - Mouchkov baixou os
olhos. - Sim, sou um artes¦o hábil, mas também fui um cossaco; e
agora, sou o mais pobre de todos eles...
 - E lamenta-lo? - perguntou Marina, pousando as m¦os no ventre
dilatado.
 - Podes regressar ao Don, Ivan Matveiévitch! - Loupin empurrou-o
com um dedo. - A criança crescerá bem sem ti!
 - Regressar ao Don sem Marinouchka? Velhote, sinto-me bem entre
os meus fogSes.
 Mouchkov olhou mais uma vez para as cúpulas da igreja. Os sinos
continuavam a tocar, ouviam-se coros por todos os lados; pelas
portas do Kremlin, abertas de par em par, saía uma prociss¦o de
sacerdotes, empunhando estandartes e balançando incensórios.

Fim
??

				
DOCUMENT INFO
Shared By:
Categories:
Tags:
Stats:
views:11
posted:12/14/2011
language:
pages:131