O feminino nas cantigas de amigo do rei poeta D

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O feminino nas cantigas de amigo do rei poeta D. Dinis: a incisão no corpo
viril
                                    Ilza Matias de Sousa*
                                    UFRN/PPGEL



         A época medieval da literatura portuguesa estende-se de 1189 a 1525, ou seja,
 dos finais do século XII ao final do primeiro quartel do século XVI. Ao realizarmos
 uma espécie de arqueologia produtiva, veremos que as práticas trovadorescas, nas quais
 se incorporam as cantigas de amigo e as demais peças dos cancioneiros, mantêm
 estreitas relações com a música, o canto e a dança. No que se refere às cantigas de
 amigo, estas introduzem uma particularidade – são poetas homens que falam como
 mulheres. E semelhante às cantigas de amor voltam-se para os valores dos fins do amor.
          Numa época eminentemente masculina, o feminino é o oculto. Mas, nas
 cantigas de amigo do cognominado Rei Agricultor ou O Lavrador, o primeiro rei
 português da Idade Média que não é analfabeto, antes um homem culto, refinado e dono
 de uma linguagem de raro senso estético, a composição traz uma estranha fissura com o
 discurso do varão, marcado pelo heróico e pelo sentimento de virilidade. O segredo
 tumular da mulher rompe-se. Defrontamo-nos com a irrupção e a circulação da voz
 feminina. Ela assume a enunciação do discurso e o masculino passa a ocupar um lugar
 de testemunho narrativo, considerando-se que na cena medieval do rei o homem
 participa de uma história e perfaz uma cartografia ao mesmo tempo lírica e referencial.
           Conferindo, assim, o estatuto de enunciação à mulher, o poeta Dom Dinis faz
 o percurso desta em territórios periféricos à corte. São os campos, os vales, os rios, as
 fontes, eventualmente o mar, espaços onde se desenha o itinerário poético da “rapaza”,
 palavra do galego português para designar a moça, a donzela ainda sob a tutela materna.
 São mulheres, a despeito disso, ativas, decididas, mulheres do povo que querem gozar o
 amor, desfrutar a ‘jouissance”, tomar posse de seu prazer, reclamar o usufruto do seu
 corpo e o seu orgasmo, cerceadas pela lei da castidade que as castiga e aprisiona.
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         Tais mulheres do povo estão mais vinculadas à natureza, porém numa
significação transmaterna, nessas cantigas de amigo dinisianas. A figuração do feminino
parece projetar-se sobre um ambiente social e popular em que a presença das tradições
moçárabes, i. é., dos cristãos espanhóis arabizados são insinuantes. Neste aspecto, é
bom lembrar que Dom Dinis, em seu reinado, desenvolve uma postura heterogênea
concernente aos outros extratos étnicos da população peninsular. Ele ordenou o fim dos
abusos contra os judeus.
         Na tradição manuscrita que inaugura no trovadorismo português, utilizando-se
da oralização metrificada, o varão da lira reorganiza-a de maneira culta e elaborada,
num gênero de uma “koiné” letrada. Gênero discursivo feito de estratégias femininas,
mostrando a saída de cena do masculino para dar lugar ao discurso das dobras,
instaurado na novidade de uma sensibilidade feminina, intuitiva, expondo mulheres que
desvendam seus mistérios e seus males – de amor.
         A abertura do poeta para o feminino pode ter a ver com a sabedoria oculta
cabalística infiltrada em Portugal, naquele século. Daí, a quebra do paradigma
dominantemente masculino trazer uma compreensão de que o feminino e o masculino
não se excluem enquanto mundos, recusando o poeta o papel de provedor e retirando a
mulher de sua ocupação doméstica de reprodutora de rebentos varonis. A cantiga de
amigo seria a via de acesso dessa feminilidade criadora do poeta. Um escape da tradição
greco-latina. Considerações que fazemos fundamentadas na “linguagem dos ramos”
formulada em uma de suas cantigas de amigo:
                           DINÍS, Don [B 570 / V 173]

                               Amad'e meu amigo,
                                     valha Deus!
                               vede la frol do pinho
                                  e guisade d'andar.

                               Amigu'e meu amado,
                                    valha Deus!
                               vede la frol do ramo
                                 e guisade d'andar.

                              Vede la frol do pinho,
                                                                                            3


                                     valha Deus!
                                 selad'o baiozinho
                                  e guisade d'andar.

                               Vede la frol do ramo,
                                     valha Deus!
                                selad'o bel cavalo
                                 e guisade d'andar.

                                Selad'o baiozinho,
                                     valha Deus!
                               treide-vos, ai amigo,
                                  e guisade d'andar.

                                Selad'o bel cavalo,
                                      valha Deus!
                               treide-vos, ai amado,
                                   e guisade d'andar.


         É como se o rei- poeta redefinisse os lugares do corpo viril e tomasse para si o
ponto do coração e se propusesse a falar que a mulher conquista um corpo e dá o último
golpe na virilidade do herói medieval. A cantiga de amigo supera a fronteira antes
intransponível que separa o masculino do feminino. A incisão no corpo viril remete ao
corte fálico numa cultura, história e imaginário português em que o homem é o modelo
do ideal cívico e o que goza de uma morte heróica.
          Dom Diniz nasceu em 1261 e morreu em 1325. Em 1462 nascia Josse Bade,
humanista francês, erudito e intelectual representativo do mundo renascentista, que
legou à cultura ocidental uma deliciosa extravagância – a obra Nau das Loucas, que
conhecemos através da estudiosa da filosofia renscentista, a professora doutora
Monalisa Carrilho e de seu projeto, vinculado à base Metafísica e Tradição, do
Programa de Pós-Graduação em Filosofia, da UFRN.
          Essa obra propicia-nos um olhar de volta ao passado europeu medievo e
renascentista para escavar possíbilidades de figurações do feminino, não só dentro da
alegoria da loucura fundadora da Eva da queda original, mas também de novas Evas e
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do feminino em tradições não ocidentais. No que se articula à cantiga de amigo de Dom
Dinis, então, a um feminino associado a uma visão “mélange”, mediante conversas e
falas femininas cruzadas.
         Se vista à luz da tradição grega, teremos um feminino que, particularmente,
lemos sendo aquele que se dá como limiar do renascimento, numa re-qualificação da
potência cosmética da linguagem, na qual a mulher se identifica com o feminino da
deusa Diana, possuídora da Métis, inteligência meticulosa e prática, requisito das
atividades de caça e pesca, envolvendo o senso da camuflagem, o papel das iscas, das
pelagens macias, brilhosas ou coloridas, estratégias ardilosas, unindo o universo dos
sentidos com a diversidade de formas. Esse tipo feminino da Métis fará da cantiga de
amigo dinisiana um discurso de “poikilos”, correspondendo a uma insurreição poética, a
outro regime de pensamento no poeta, à natureza compósita e plural do feminino, sob a
aparente repetição e fixidez da virgem enamorada.
          A encenação da palavra retirará da cantiga de Dom Dinis qualquer teor
pedagógico alegorizante. As personagens femininas encontram-se sempre em estados de
ânimo diversos – alegria, tristeza, ciúmes, desejos que a podem lançar fora do lugar de
controle e se tornarem passageiras da Nau das loucas, sem governo, precipitadas em
vertigens amorosas.
         Sem dúvida, num discurso em que mulheres inscrevem-se nas “revoltas” da
linguagem, entre interrogações e exclamações reiteradas, há de se pensar se não seria
mal enlouquecedor, e não um bem bucólico, as mulheres contentarem-se em se reunir à
beira da fonte, ou à porta de casa, em torno do fogão, entretidas em atividades
linguageiras, em longos diálogos entre mães e filhas, e amigas, a discutirem a traição
masculina, ou o abandono. Isso de igual modo nos coloca em face a questionamentos
dirigidos à relação desses agrupamentos com o quadro familiar, o marido, o noivo.
         E, nós, leitores, daremos ouvidos a transmissão das vozes femininas e
tocaremos na pele do poeta a feminilidade que saiu do interior bem fechado das casas
portuguesas.
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* Doutora em Literatura Comparada e Professora Adjunta da UFRN.Ensaísta com
publicações em livros e outros.

				
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