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					        O USO DAS TIC’s                    EM BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA E A INCLUSÃO DE
DEFICIENTES VISUAIS: TUDO A VER, NADA A TEMER!


Deise Tallarico Pupo1 - dtpupo@unicamp.br
Sílvia Helena Rodrigues de Carvalho2 - scarvalho@fcm.unicamp.br
Fabiana Fator Gouvêa Bonilha3 - fbonilha@iar.unicamp.br


Considerações iniciais


        O avanço das novas tecnologias da informação e comunicação – TIC’s é uma realidade
que vem transformando as rotinas domésticas, sociais e institucionais, e, mesmo em um país com
tantas desigualdades como o nosso, os computadores impõem-se aos poucos como ferramentas
imprescindíveis, principalmente no âmbito da Educação.


        Nas universidades, embora os cérebros constituam matéria prima fundamental ao
desenvolvimento das pesquisas, as possibilidades e a agilidade oferecidas pela informática
conferem aos computadores o status de instrumentos indispensáveis na produção e transmissão
do conhecimento. Porém, esses avanços tecnológicos ainda são disponíveis apenas a uma
parcela de nossa população.


        Se a exclusão econômica e social pode acarretar a exclusão digital, e se o mundo
globalizado deveria pressupor a inclusão de todos na sociedade, é imperioso reconhecer que o
acesso ao mundo digital não pode ser prerrogativa de alguns em detrimento de muitos.


        Gil (2004, p.160) aborda a questão dos preconceitos que reforçam a exclusão, enfatizando
que “[...] a Informação, e sua outra face, a Comunicação, são armas eficazes para combater
essas atitudes e para ajudar a promover a eqüidade e o respeito à diversidade” – acreditando,
portanto, que a inclusão social deve ocorrer simultaneamente à inclusão digital, pois os processos
podem fortalecer-se reciprocamente.

1
  Bibliotecária do Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central da Unicamp. Rua Sérgio Buarque de Holanda, 424, 1º
andar, CEP: 13083-859. Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, Campinas-SP, Brasil.
2
  Pedagoga especialista do Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Prof. Gabriel Porto, da Faculdade de Ciências Médicas
da Unicamp, coordenadora do Laboratório de Apoio Didático do LAB.
3
  Mestranda com bolsa FAPESP no Programa de Pós-graduação em Música, Instituto de Artes, Unicamp.
          O Mapa da Exclusão Digital da Fundação Getúlio Vargas (2002) 4 revela que os estados
brasileiros mais incluídos digitalmente são: o DF (23,87%), SP (17,98%) e RJ (15,51%) e que os
menos incluídos são: MA (2,05%), TO (2,76%) e PI (2,78%). No mesmo documento, o tópico
Análise Preliminar da Inclusão Digital na Escola (IDE) conclui que “A melhor forma de combater o
apartheid digital a longo prazo é investir diretamente nas escolas, de modo que os alunos possam
ter acesso desde cedo às novas tecnologias."




Deficiências: conceitos, considerações e dados estatísticos


          Bieler (2003) considera que todos deveriam ter acesso à educação básica e aos serviços
primários de saúde, e nos revela que [...] “aproximadamente quatro quintos das pessoas com
deficiência existentes no mundo vivem em países em desenvolvimento. A pobreza cria condições
para a deficiência e a deficiência reforça a pobreza”. Essa realidade, aliada à maior expectativa
de vida no terceiro milênio, sugere que as deficiências devem aumentar proporcionalmente ao
envelhecimento da sociedade, tornando o processo de empoderamento (empowerment) e
participação plena das pessoas com deficiência, uma luta constante, cotidiana e incansável.


          Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS),                          citada por REGO (2004), a
Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (CIDID), de 1989, as
definições de deficiência, incapacidade e desvantagens ficaram estabelecidas como:

    Deficiência: toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica ou anatômica;

Incapacidade: toda restrição ou falta – devida a uma deficiência – da capacidade de realizar uma
atividade na forma ou na medida que se considera normal a um ser humano;

Desvantagem: uma situação prejudicial para determinado indivíduo, em conseqüência de uma
deficiência ou uma incapacidade, que limita ou impede o desempenho de um papel que é normal
em seu caso (em função da idade, sexo e fatores sociais e culturais).




4
    http://www2.fgv.br/ibre/cps/mapa_exclusao/SUMARIO/sumario%20interativo.htm
       O Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2000), revelou que há
24,5 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, ou seja, 14,5% da nossa população.
Segundo os dados Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo abriga 500 milhões de
pessoas com deficiência, dos quais 80% vivem em países em desenvolvimento, conforme
registros em Retratos da Deficiência (Neri, 2003). O referido documento demonstra a diferença
dos instrumentos de coleta, utilizados em 2000, que atribui o título de pessoa com deficiência não
somente às pessoas incapazes, mas também àquelas com dificuldade permanente de ouvir,
enxergar e caminhar, capturando as informações pela auto-avaliação dos indivíduos que usam
aparelhos auditivos, óculos, lentes de contato, próteses e bengalas. (quadro 1)
       QUADRO 1: Distribuição do universo das pessoas com deficiência
 DEFICIÊNCIA / TIPO                                                        %
 Tetraplegia, paraplegia, hemiplegia                                      0,44
 Deficiência Mental                                                       11,5
 Falta de um membro ou parte dele                                         5,32

 Alguma dificuldade para enxergar                                         57,16
 Alguma dificuldade para ouvir                                            19,0
 Alguma dificuldade para caminhar                                         22,7
 Grande dificuldade para: enxergar, ouvir, caminhar e incapaz de ouvir.   0,68
 Incapaz de caminhar                                                      2,3
 Incapaz de enxergar                                                      0,6

FONTE: Censo Demográfico 2000, IBGE, apud NERI, (2003, p. 14)




HECK (2004) compara os dados do            censo do IBGE com os dados da OMS, detectando a
discrepância existente entre ambos, uma vez que no Brasil, constatou-se que dentre os
deficientes visuais, 159.824 responderam que são incapazes de enxergar . [...] Portanto,
enquanto a OMS atribui à população mundial um total de 14,5%, o Brasil registra 24,5%.


Da segregação à inclusão: breve retrospectiva histórica


       A exclusão social das pessoas com deficiência, ao longo da história humana, está contida
em registros desde a Grécia Antiga e Idade Média até o início do século 19, que revelam a
segregação.
       Pessoti (1984, p. 3), relata que: “em Esparta, crianças portadoras de deficiências físicas
ou mentais eram consideradas sub-humanas , o que legitimava a eliminação e o abandono”.
Essas pessoas eram tratadas de maneira ambígua, ora como enviados dos deuses, ora como
criaturas malignas. Teriam as sementes do mito e preconceito encontrado terreno fértil nesse
período da nossa História?


       Batista (2004, p. 53),     identifica três momentos significativos, que podem ocorrer
simultaneamente: o primeiro, marcado pela exclusão e encarceramento; o segundo, de
integração, ou de “convivência regulada” (KAUCHAKJE, 2000, p.203) e o terceiro, caracterizado
pelo atual movimento de inclusão.


       Kauchakje (2000) lembra-nos também que a inclusão social está ligada à idéia do direito à
igualdade, que a partir do século XVIII baliza as lutas sociais, e que, em meados do século XX
protagonizamos as lutas pelo direito à diferença: essa afirmação das diferenças pode, por um
lado, revigorar e fortalecer processos de “guetização” das minorias e, por outro, contribuir para a
formação de sociedades inclusivas.


       Sassaki (2004) destaca os seguintes momentos das pessoas com deficiência ao longo da
História:


Período da segregação social: final do século XIX até a década de 40, caracterizado pela
assistência médico-social e institucionalização com objetivos meramente caritativos.


Período da reabilitação e integração social: décadas de 50 a 80: surgem os centros de
reabilitação, com abordagem tecnicista e autoritária, onde o cliente deveria ajustar-se à
instituição. Caracteriza-se pela conscientização, organização de associações, legislação e maior
participação da comunidade na solução dos problemas ligados à deficiência.


Período de inclusão social: década de 90 e início do século XXI: inicia-se o atendimento voltado
à vida independente e à autonomia, nos contextos social e familiar. Desenvolvem-se recursos
alternativos em reabilitação e as pessoas com deficiência têm maior participação social e maior
poder decisório (ou, empoderamento, da língua inglesa: empowerment). Sassaki (2004) registra
também as principais tendências dos anos 90:
   Implementação de projetos de equiparação de oportunidades e inclusão, dando cumprimento
    à legislação internacional. (Programa de Ação Mundial para Pessoas com Deficiência e
    Normas de Equiparação de Oportunidades, ONU, 03/12/1982)


   Implantação de redes locais de informação conectadas a redes regionais e internacionais.


   Implantação de programas de emprego apoiado.


   Avanços importantes no campo da ciência e tecnologia, favorecendo habilitação e reabilitação
    das pessoas com deficiência.


   Desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação – TIC´s, que permitem o
    acesso à informação via WEB.


Sociedades inclusivas, aprendizado e qualidade de vida.


    Werneck (2003) define:


                    Uma sociedade inclusiva é aquela capaz de contemplar, sempre, todas as condições
                    humanas, encontrando meios para que cada cidadão, do mais privilegiado ao mais
                    comprometido, exerça o direito de contribuir com seu melhor talento para o bem
                    comum.


       Discutem-se muito, na atualidade, as propostas e implementação da inclusão, no meio
social, no cotidiano das cidades e das escolas, desde as creches até as academias. Essas ações,
conquistas dos direitos humanos nos planos nacional e internacional, objetivam dignificar toda a
diversidade humana, garantir que todos participem da vida pública, independentemente da
crença, religião, posição política, etnia, opção sexual ou grau de deficiência. (MÍDIA e deficiência,
2003, p.37).


       A riqueza que a experiência da inclusão pode trazer, no respeito à diversidade e no
convívio com as diferenças é assim expressa em Mantoan (2003):
                    A ética, em sua dimensão crítica e transformadora, é que referenda nossa luta pela
                    inclusão escolar. A posição é oposta à conservadora, porque entende que as
                    diferenças estão sendo constantemente feitas e refeitas, já que vão diferindo,
                    infinitamente. Elas são produzidas e não podem ser naturalizadas, como pensamos,
                    habitualmente. Essa produção merece ser compreendida, e não apenas construída e
                    tolerada.


      A proposta de Educação Inclusiva e TIC’s, da UNESCO (2003), para o biênio 2004-2005,
é de um projeto denominado "New Opportunities for Children and Young People with Disabilities".
Objetivando proporcionar as novas oportunidades para crianças e jovens com deficiência nos
países em desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida e criar novas oportunidades de
trabalho e emprego, o documento da UNESCO contém ainda objetivos específicos : desenvolver
e adequar ferramentas e aplicativos para língua de sinais; desenvolver e adequar ferramentas
para materiais em braile e em pictogramas , para alunos com dificuldades de expressão e
comunicação, além do desenvolvimento de treinamentos para os professores quanto ao uso
dessas ferramentas para trabalharem com seus alunos.


       Constam dos resultados esperados uma melhor comunicação pela linguagem falada e
escrita, além da integração e inclusão na sociedade, tendo em vista criar novas oportunidades às
pessoas com deficiências nesses quesitos – comunicação e linguagem. Ambas remetem à
questão da acessibilidade.


Cidadania e deficiência visual: respostas de pessoas cegas e com baixa visão.


      Embora as estatísticas revelem números inquietantes, pessoas com deficiência visual
manifestam-se, com sucesso, nos estudos, no trabalho e nas artes.


   Investigando a inserção das pessoas com deficiência visual, a psicóloga e educadora Elizabet
Dias de Sá (2000) questionou 83 pessoas cegas ou com baixa visão - usuários do sistema braile,
ledores de tela e sintetizadores de voz. Os resultados de sua pesquisa apontaram às principais
metas de acessibilidade e cidadania correspondentes às expectativas das pessoas com
deficiência visual. Nossos grifos, em negrito, relacionam-se aos temas: bibliotecas (em espaços
físicos ou virtuais) - seus serviços e acervos, TIC’s, produção editorial e regras de acessibilidade
na Web, conforme abaixo:


   1- Ampliação e otimização das bibliotecas e serviços especializados existentes;
   2- Incentivos e subsídios financeiros que possibilitem o acesso às tecnologias disponíveis
       no mercado;
   3- Provisão de equipamentos e de programas com interfaces específicas como
       ampliadores de tela, sintetizadores de voz, impressoras e conversores braile [...] em
       escolas, bibliotecas e demais espaços comunicativos;
   4- Atualização do acervo bibliográfico das universidades, produção de livros em
       disquetes ou cd-rom, maior circulação de livros digitalizados em formato alternativo;
   5- Estabelecimento de normas e regras de acessibilidade para a criação e manutenção de
       ceais que possibilitem a navegação, utilização de serviços, acesso às informações e às
       interfaces gráficas na Internet;
   6- Produção simultânea, por parte das editoras, de formatos alternativos às edições em
       papel;
   7- Criação de bibliotecas virtuais com acervo diversificado e acessível;
   8- Conversão de jornais, revistas e livros em vários idiomas para edição sonora ou
       eletrônica.


      Tais dados apontam a algumas reflexões:
      a) que o quesito biblioteca apresenta-se diretamente em 62,5% dos itens e indiretamente
   em 37,5%. Portanto, as pessoas com deficiência visual são usuárias potenciais a serem
   atendidas através das TIC’s
       b): que as pessoas com deficiência devem ser consultadas sobre suas necessidades,
   anseios e prioridades. Antes de se implantar projetos de apoio, consultemos as bases:
   ouçamos suas vozes, evitando-se ensaios e erros, gastos inúteis, frustrações futuras.

O Laboratório de Acessibilidade – LAB: criação e inclusão de usuários com deficiência
visual .


      Conforme relato em PUPO, BONILHA e CARVALHO (2004), a preocupação com a
acessibilidade de usuários com deficiência em bibliotecas universitárias culminou com a
aprovação de projetos de adequação e modernização dos espaços destinados ao estudo e
pesquisa na Unicamp. (FAPESP, INFRA IV, processo Nº 1998/09212-9 e INFRA V, processo N. º
00/13033-4).
       A Coordenação da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Campinas, acolhendo
a idéia de abrigar tais projetos, obteve apoio da Pró-Reitoria de Graduação, e, em parceria com o
Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Prof. Dr. Gabriel Porto - CEPRE, implantou o
Laboratório de Acessibilidade – LAB, que foi inaugurado oficialmente em dezembro de 2002 e
adaptado conforme normas brasileiras de acessibilidade (NBR 9050-ABNT), tornando-se um
espaço onde convergem trabalhos de diversos grupos de pesquisadores da Unicamp.


      O LAB é composto de dois ambientes: Laboratório de Apoio Didático, coordenado por
uma pedagoga especialista, responsável pela produção de material em braile e pela adaptação
às necessidades específicas das pessoas com deficiência visual. A experiência de 31 anos na
área, aliada a cursos de especialização, além de ter baixa visão, confere a essa profissional da
Pedagogia habilidades e criatividade inerentes e uma relação muito natural com as questões da
deficiência. A Sala de Acesso à Informação é coordenada por uma bibliotecária com
especialização em Deficiência Visual e Surdez pelo CEPRE.


      Agregou-se ao LAB um importante projeto de pesquisa, coordenado pelas professoras
doutoras Maria Teresa Eglér Mantoan, da Faculdade de Educação e Maria Cecília Calani
Baranauskas, do Instituto de Computação, intitulado: “Acesso, permanência e prosseguimento da
escolaridade de nível superior de pessoas com deficiência: ambientes inclusivos”. Esse projeto foi
apresentado em 03/12/2003 (Dia Internacional de Luta da Pessoa com Deficiência) à Secretaria
de Educação Especial (SEESP), subordinada ao MEC, integrante do Programa de Educação
Especial (PROESP) e financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES) e aprovado para o qüinqüênio 2003-2008. O cumprimento das metas deste
projeto efetivou-se na realização da I OFICINA PARTICIPATIVA PROESP 2004, que mobilizou a
comunidade universitária, a partir da administração superior, envolvendo docentes, alunos e
coordenadores de graduação e pós da Unicamp. Algumas ações decorrentes das oficinas já
foram implantadas: confecção de um pequeno manual ilustrado, informal e alegre, sobre
deficiências e formas de tratamento às pessoas com deficiência no cotidiano. Esse material foi
distribuído aos calouros ingressantes em 2005. A eles, também houve proposta de documentação
através de fotos, de seus institutos ou faculdades que apresentam problemas com acessibilidade.
O material já foi recolhido e será analisado para apresentação dos resultados à comunidade
acadêmica em outubro próximo. (PUPO, 2004)


      Nossos usuários: diversidade de perfis
           No dia da inauguração do LAB, em 09 de dezembro de 2002, coube à aluna de graduação
pelo Instituto de Artes (I.A.) - Fabiana Bonilha – o discurso inaugural. Cega congênita, Fabiana
teve apoio da família em sua formação integral: desde a escolaridade no ensino regular, como em
outras atividades complementares, tais como o estudo de Música, formando-se em Piano pelo
Conservatório Musical Carlos Gomes de Campinas, além das graduações em Música pelo
Instituto de Artes da Unicamp, e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de
Campinas. Na oportunidade, ressaltou a importância da implantação do LAB, que possibilitaria a
continuidade de seus estudos, em pós-graduação strictu sensu, uma vez que pretendia pesquisar
a Musicografia Braille. Assim aconteceu, tornando-se a usuária e a mestranda número a utilizar-
se do LAB, portanto, pioneira e muitas vezes a “cobaia” a quem se recorria em busca de
soluções, recursos, equipamentos e software adequados às suas necessidades acadêmicas.
Paralelamente, o CEPRE “Gabriel Porto” – cuja missão é habilitar e reabilitar pessoas com
deficiência visual e surdez – encaminhou um paciente cego ao CEES – (Educação Supletiva
Estadual), fisicamente instalado no campus da Unicamp. O CEES não estava preparado para
receber um aluno cego, mas a pedagoga Sílvia Carvalho, do CEPRE, comprometeu-se a apoiar
seus professores com seus conhecimentos do sistema braile de leitura,                                       além de outras
adaptações criativas de reconhecimento tátil nas outras disciplinas relativas ao ensino médio.
Vale lembrar que esse aluno fora habilitado, no CEPRE, em: orientação e mobilidade e atividades
de vida diária, que são fundamentais para a independência da pessoa com deficiência visual;
desenvolvera o raciocínio matemático via soroban – semelhante ao ábaco; socializado e
confiante, estava preparado para cursar o segundo grau no curso supletivo em módulos
preparados pelo Telecurso 2000. O LAB dispõe da coleção preparada pela Escola SENAI “Ítalo
Bologna”, da cidade de Itu-SP.5


            A criação do LAB possibilitou importante troca de experiências entre a Biblioteca Central e
o CEES que tem favorecido aos dois segmentos, principalmente no desenvolvimento de novos
materiais de ensino, específicos às pessoas cegas.


           Em 2004, o projeto PROESP possibilitou a compra de novos equipamentos, expandindo o
LAB em recursos orçamentários e humanos, favorecendo novas pesquisas e agregando quatro
bolsistas pelo projeto do Serviço de Apoio ao Estudante – SAE, que passaram a trabalhar em


5
    Escola Senai “Ítalo Bologna” – Itu, SP – telefone: (11) 4023 3311; e-mail: Braille@sp.senai.br - 0800551000
  2005, sob orientação da pedagoga e da bibliotecária. Conseqüentemente, neste ano o número
  de usuários regulares, inscritos na Unicamp, duplicou em relação a 2003, saltando de três para
  seis; quanto aos alunos atendidos indiretamente, o acréscimo foi ainda maior, levando-se em
  conta os 17 alunos deficientes visuais (DVs), matriculados no CEES e as instituições localizadas
  no município de Campinas - Instituto Pró-Visão e Centro Cultural Louis Braille – cujos usuários
  eventual ou assiduamente freqüentam o LAB em busca de apoio aos estudos ou simplesmente
  lazer e curiosidade, através dos chats e listas de discussão de interesse. Resumidamente, as
  atividades, equipamentos, programas e categorias de nossos usuários regulares encontram-se
  em quadro 2.


        Quadro 2. Usuários regulares, TIC’s e apoio humano no LAB – BC-Unicamp
Sexo       Categoria         Deficiência    Apoio de TIC’s                     Apoio Humano
Quant                        Visual / Tipo  Discriminação / atividades
Fem.       Pós-graduação     Cegueira       Leitor de tela JAWS;Braille        Bolsista SAE –
01         Aluna regular     plena          Music Editor; Computador;          efetivo
                                            scanner      p/      digitalizar   Bibliotecária
                                            partituras      e       textos;    Pedagoga
                                            impressora Braille, fone de        Técn. Informática
                                            ouvido, gravador de fita           Amigos            e
                                            cassete, gravador de CDs,          funcionários da BC
                                            caixas de som
Masc.      Pós-graduação Baixa visão        Leitor de tela ZOOMTEXT –          Apoio eventual
01         Aluno regular                    ampliador de tela; DELTA           Bolsista SAE
                                            TALK – leitor de tela;             Bibliotecária
                                            Scanner p/ digitalização de        Pedagoga
                                            textos; caixas de som; lupa        Técn. Informática
                                            eletrônica.
Masc.      Pós-graduação Cegueira com Leitor                            tela   Apoio eventual
01         Aluno ouvinte    resíduo         Jaws;Computador; fones de          Bolsista SAE
           Jornalista    do mínimo        – ouvido; eventual:impressora        Bibliotecária
           PROESP           identificação   braile                             Pedagoga,
                            de luz                                             Bibliotecária
                                                                               Técn. Informática
Fem        Pós-graduação     Cegueira         Computador,        impressora    Bolsistas SAE
01         Aluna regular     plena            braile,      scanner       p/    Bibliotecária
                                              digitalização de textos          Pedagoga
                                                                               Técn. Informática
Fem        Graduação         Cegueira         Computador,        impressora    Bolsista SAE –
01         Aluno regular     plena            braile,       scanner       p/   efetivo
                                              digitalização    de    textos;   Seção            de
                                              softs:braile fácil; DosVox;      preservação        e
                                              TGD p/ gráficos e tabelas        conservação da BC
                                                                               p/    encadernação
                                                                               de textos em braile
Masc.      Graduação         Baixa visão      Lentes de aumento, lupas         Bibliotecária
01         Aluno regular                                                       Pedagoga

Fem.       Ex-aluna          Cegueira         Ensino – aprendizagem            Pós-graduanda em
01         graduação        plena           Língua Inglesa X Música       Musicografia braile
Masc.      Centro Cultural Cegueira         Pesquisas Internet- pessoal   Bibliotecária
02         Louis    Braille plena           Listas de discussão DVs       Pedagoga
           Cps.                             Dosvox, Jaws                  Técn. Informática
                                                                          Amigos
                                                                           Funcionários    da
                                                                          BC
Masc.      Centro Cultural Cegueira        Pesquisas Internet- escolar    Bibliotecária
01         Louis     Braille plena         Listas de discussão DVs        Pedagoga
           Cps.                            Dosvox, Jaws                   Técn. Informática
                                                                          Amigos
                                                                          funcionários da BC
Masc/Fem   CEES            - Cegueira      Dosvox,        braile   fácil, Pedagoga do LAB
17         Supletivo         plena e Baixa impressoras            braile; e
                             visão         preparação      de    material Colegas de outras
                                           didático: professoras CEES. escolas



        Além dos usuários regulares, o LAB recebe visitas externas, de escolas e grupos de
  interesse,   responde a pesquisas bibliográficas, consultas externas, realizando os serviços
  clássicos da biblioteconomia, bem como as atividades específicas da produção de materiais,
  conforme critérios da pedagogia.




        Considerações finais


        A vivência pessoal com o cotidiano da deficiência, no âmbito familiar, talvez facilite a
  quebra das barreiras de atitude no dia-a-dia das tarefas de atendimento ao usuário com
  necessidades educativas especiais. Porém, cumpre ressaltar que esses atributos citados, tanto
  da pedagoga quanto da bibliotecária, que coordenam respectivamente o Laboratório de Apoio
  Didático e a Sala de Acesso à Informação, que constituem o LAB, não são imprescindíveis para o
  bom andamento de tão gratificante tarefa: o que vale mesmo é o otimismo, o entusiasmo em cada
  conquista: trabalhar com ânimo, estudar e aprender, interessar-se pelo outro, conhecer suas
  necessidades e principalmente desenvolver o lado humano e solidário nas relações profissionais.
  Essas ações valem às outras relações interpessoais, respeitando-se sempre a diversidade
  humana. Nada há a temer: ao contrário, os resultados dessa troca de experiências, de vivenciar a
  gama de potencialidades que os humanos podem revelar, só têm a acrescentar a ambas as
  partes: os profissionais que se dispõem a contribuir, apoiando as pessoas com deficiência,
  agregam valores e saberes significativos em seus curriculum vitae; em contrapartida, beneficiam-
  se as pessoas com deficiência – em nosso caso, a visual – que requerem não apenas as novas
tecnologias como suporte eficaz à aquisição do conhecimento, mas principalmente do apoio
incondicional dos profissionais humanos. Essa certeza é fruto de 28 meses de atividades do
Laboratório de Acessibilidade, situado na BC da Unicamp. Os resultados, felizmente, têm sido
animadores e nos impulsionam a outras atividades relacionadas, tais como: aperfeiçoamento
profissional,   participação   em   eventos   das    áreas   de    Educação     e   Ciência   da
Informação/Biblioteconomia, divulgação, realização de oficinas, participação em comitê de
acessibilidade para propor normas à ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. A
visibilidade proporcionada pelo nosso trabalho, na Unicamp, favoreceu a adesão de novos
projetos e outros pesquisadores, de outras áreas do conhecimento que eventualmente utilizam o
espaço do LAB para testar equipamentos ou software, sempre com a permissão e consentimento
dos usuários, quando sujeitos das pesquisas e testes: com todo respeito à diversidade! Tudo a
ver, nada a temer!



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