RITUALIDADE E SIMBOLOGIA
“Com razão, dessa maneira, considera-se a liturgia como exercício do sacerdócio de
Jesus Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um a seu modo, realizam a
santificação do ser humano; e, da mesma forma, o Corpo Místico de Jesus Cristo –
isto é, a Cabeça e seus membros – exerce o culto público integral”(SC 7)
A sacramentalidade da Liturgia –
Símbolo – Do ponto de vista antropológico. Na pessoa humana existe um ponto
aberto à comunicação do Transcendente. Este ponto originário e central da pessoa
humana foi chamado “coração”, “consciência” e “centro da pessoa”.
“Coração” significa, na linguagem da Bíblia, o centro da existência humana, a
confluência da razão, da vontade, do temperamento e sensibilidade, centro no qual a
pessoa encontra sua unidade e sua orientação interior.
É nesse ponto central onde, através do símbolo e, portanto, na mediação do
símbolo, é comunicado aquilo que vem do Transcendente aos corações humanos. Esse
ponto é adequado para que Deus encha a pessoa humana com sua Luz, seu Amor e sua
Vida divinos. Assim, no símbolo do “murmúrio silencioso” – o “vento suave” de 1Rs
19,12 – Deus enche o coração de Elias.
Do ponto de vista teológico. Toda a imensidade de Deus se torna presente na
pequenez do símbolo, que assim se apresenta uma contraditio in terminis (contradição
nos termos): um som que não se ouve, uma “música calada”(São João da Cruz). São
metáforas ou simbolismos portadores de contradição neles mesmos, como é o caso do
“silêncio eloqüente”, ou da “imensa pequenez”. No Natal, contemplamos a imensidade
infinita de Deus na fragilidade de uma criança. A realidade última – divina -, que se
esconde e se comunica no símbolo, é sempre maior do que a capacidade receptiva
humana e do que a mediação propriamente simbólica, já que ambas realizam o papel de
uma espécie de filtro daquilo que é divino. Os Sacramentos são “preciosos e humildes”.
A fragilidade dos símbolos contrasta com a elevação que Deus lhes imprime até
convertê-los em puras transparências do som divino (escatológico), o que ocorre
sobretudo com o pão e o vinho da eucaristia. Nos sacramentos temos, de fato, a
simplicidade da água, do óleo que unge à semelhança de Cristo, do pão e do vinho, das
palavras de perdão sobre os atos do penitente, do óleo consolador que alivia o enfermo,
da imposição das mãos e da mútua aceitação e compromisso, próprios do matrimônio.
São signos humildes e preciosos, submetidos a um processo de transparência por parte
de Deus: um processo de intensa significação, de verdadeira escatologização, pois esses
símbolos humildes pertencem certamente à nossa terra e ao nosso tempo, porém, mais
propriamente ainda, pertencem a Cristo glorificado, à sua ação e à sua vida. E por isso
são preciosos.
O símbolo, em síntese, é signo de que a dispensação divina enraíza-se na
confluência da inteligência, do afeto e do inconsciente humanos, o que permite à
realidade significada antecipar-se na receptividade humana.
O símbolo nos lembra um acontecimento original, seja mediante palavras, seja
mediante gestos ou ações. A morada do símbolo é a memória, lugar fronteiriço entre a
inteligência e a afetividade humana. A recitação do “credo” torna presente na
recordação a origem divina dos fiéis reunidos. Ao professarem sua fé, os que estão
reunidos recordam precisamente sua origem comum, que nada mais é do que Deus, raiz
da fé.
Símbolo religa o passado, que é rememorado, com o futuro, que é antecipado,
em perseguição e garantia. Evidentemente, porém, o símbolo une passado e futuro no
presente, onde se atualiza o acontecimento rememorado e se realiza o final pressentido.
O símbolo põe em comunicação todos os níveis do tempo: estabelece a continuidade
entre a linha do passado, do presente e do futuro. O símbolo religioso pode realizar essa
função unitiva graças ao fato de a realidade última simbolizada ser eterna, divina,
escatológica; está acima do passado, do presente e do futuro, dominado-os e, de certo
modo, unificando-os em ponto presente e eterno: Jesus Cristo, o crucificado glorificado.
Se o símbolo faz com que lancemos raízes no passado, também pode invocar e
tornar presente o futuro. O símbolo cristão não apenas indica o futuro, mas de certa
forma antecipa e contém os bens futuros que esperamos.
A rejeição, que se nota em relação aos sacramentos, em grande parte deve-se ao
fato de que nós os vemos como coisas situadas no nível da eficácia (magia), como obras
da Igreja, em vez de contemplá-las como uma linguagem divina: como signos, no nível
da significação, signos de que o próprio Jesus, Senhor, continua operando com seus
discípulos. Com efeito, considerar os sacramentos como signos ou símbolos implica um
mundo aberto onde o signo nos remete a um horizonte divino, para o qual indica. Os
símbolos são, desse modo, signos prenhes do amor de Deus.
Do símbolo ao rito – O símbolo cristão é sempre uma mediação entre a transcendência
de Deus e nossa condição histórica e mundana. A conseqüência é que o símbolo cristão
não está do lado da magia, mas do lado da comunicação. A parti da perspectiva que
contempla o símbolo como mediação, o símbolo é uma forma de linguagem. Uma
linguagem comunicativa, “de fronteira”, com todas as linguagens que se situam na
franja finíssima do presente, rememorando o passado e antecipando o futuro.
O símbolo é uma linguagem mais comunicativa que conceitual. É palavra
visibilizada, gestual: palavra em ação, arraigada no substrato humano, antes que este se
divida em idéia e afeto. Por isso mesmo, o símbolo afeta a idéia, o sentimento e a ação.
Os símbolos são dotados de conotações afetivas e efetivas.
O rito é a perpetuação eclesial do símbolo. Os símbolos utilizados por Jesus
Cristo foram recebidos e “codificados” – quer dizer, ritualizados – pela Igreja. Os ritos
sacramentais são a perpetuação eclesial daqueles símbolos da comunhão eclesial que
Jesus instituiu com os discípulos.
A Igreja, portanto, não se apega ao rito por imobilismo. A Igreja simplesmente
recorda e assume com devoção os gestos e as ações de Jesus. Por essa razão, os
conserva e os realiza, não para repeti-los inconsciente e mecanicamente como um
autômato, mas segue o exemplo da Virgem Maria, que guardava as palavras do Senhor
em seu coração lembrando-as de novo em sua riqueza original e através de múltiplas
variações cheias da vida do Espírito.
Os símbolos utilizados por Jesus e pela comunidade dos que crêem são e devem
ser elementares, universais, humanos. Estas três qualidades estão unidas. O mais
elementar é aquilo que tem maior capacidade de ser universal e humano: é aquilo que
mais pode afetar a todos e pode atingir a maior profundidade das pessoas. Parti o pão e
levantar a taça de vinho são gestos eloqüentes em si mesmos, não necessitando de
maiores explicações. Qualquer cultura entende que a água é alegre e viva e – por isso –
sugere a comunicação da vida, também da vida divina.
Daqui decorre o princípio segundo o qual a liturgia e o simbolismo cristão são e
devem ser, em princípio, simples e transparentes. Quanto mais simples e transparente
for, e menos “explicação” o símbolo precisar, melhor. O fato de que todos entendam
não quer dizer que se entenda tudo, já que o mistério permanece intacto, e é bom que
não se tente manipula-lo ou “explicá-lo” com conceitos refinados.
Os símbolos são percebidos através dos sentidos, mas afetam o centro da
pessoa. Todos os símbolos são percebidos pelos sentidos e possuem uma conotação
afetiva; todavia, transcendem os sentidos, até chegar à esfera afetivo-espiritual. É
próprio do símbolo superar as fronteiras que vão dos sentidos à afetividade, e desta à
paz espiritual.
Os símbolos cristãos se destacam pela simplicidade. Por que se encontram na
natureza do homem e em sua maneira de ser. Derivados de Cristo, graças à luz do
Espírito que inspira a comunidade apostólica, estão profundamente enraizados na
natureza e na condição humana: a imersão na água da vida divina; a unção com o óleo,
que sempre aponta para o fortalecimento espiritual, seja do cristão que luta na vida a
caminho do Reino de Deus, seja do cristão que é consolado; o pão e o vinho do
banquete com Deus e com os irmãos; o gesto e as palavras de reconciliação e de perdão;
a imposição das mãos, símbolo da missão ministerial; o amor e a sexualidade no
matrimônio...
O rito – O rito faz parte da vida do ser humano. Não há vida sem ritualidade. A
ritualidade apresenta-se a nós na vida cotidiana: saudações, modos de comportamento,
formas de educação, ritos nas refeições.
Rito é um termo muito genérico com o qual são designadas ações humanas e
religiosamente significativas, conforme módulos fixos tradicionais. O rito é aquilo que
está em conformidade com a ordem, uma ação que tem uma estrutura institucionalizada.
A ritualidade atende à nossa necessidade de relacionar-nos e de transcender-nos
a nós mesmos.
A característica mais singular do rito é a sua repetitividade. O rito é uma ação
programada e repetitiva pelos quais o sujeito se integra com os outros. Trata-se,
também, de uma forma de socialização com o sagrado ou o transcendente. Para a
psicologia profunda, o rito é um redutor de tensão, um gesto que, repetido, ajuda a
descarregar um estado de angústia. (A função do furúnculo num corpo doente)
A repetição no rito cristão como no hebraico é memorial ou comemorativa. As
ações rituais são representações coletivas, momentos nos quais uma comunidade
representa a si mesma, revive as próprias convicções, crenças e valores, se contempla
como que num espelho, proclama, celebra e confirma o seu próprio programa. No
contexto cristão, no centro do rito memorial está o acontecimento Cristo. A ritualidade
não é um drama, recordação ou teatralidade, mas atualidade: contém sempre novas
significações.
Enfim, o rito é a expressão, o gesto simbólico, destinado a identificar e a tornar
coeso o grupo que o celebra, seja atestando-o, afirmando-o, diferenciando-o ou
separando-o. A ritualidade é a linguagem própria da liturgia. Ela consiste em palavras,
gestos e ações simbólicas, por meio das quais se estabelece uma relação entre a
comunidade de fé e Deus.
Constata-se hoje um certo desprezo às formas rituais exteriores esteriotipadas.
No entanto, buscam-se experiências religiosas interiorizadas, mesmo em ritos de seitas,
bruxaria e satanismo; surge uma multiplicidade de símbolos humanos sociais, sobretudo
entre adolescentes e jovens, assim como nos setores pobres emergentes que reivindicam
seus direitos.
O rito em termos negativos: como cerimônia externa, hábito mecânico,
convencionalismo, repetição rotineira, controle social. Conjunto de determinações
formais prescritivas, etc. Qualquer religião está ameaçada de desaparecer ou de
degenerar em gnose ou moralismo, se perder o sentido e o ritmo do rito. O rito religioso
perde o seu sentido quando já não funciona como linguagem na qual o crente exprime a
sua comunhão com Deus. A fé em Deus, o sentido de Deus, a escuta de Deus e o voltar-
se para Eles são a matriz radical do autêntico rito religioso.
Viver a ritualidade litúrgica como
momento histórico da salvação
“Há alguma coisa que escapa ao olho e à percepção sensível, e que ressoa no
sacrário do coração, capaz de admirar-se diante do mistério de Deus”.
Rito: arte sutil e eficaz para o mergulho nas profundezas do sagrado e do
coração humano, onde Deus se deixa encontrar.
Há uma relação estreita entre rito e mística, pois a mística tem um significado
importante no contexto celebrativo, por causa da centralidade do mistério pascal de
Jesus Cristo na oração da Igreja. Teologicamente, mística é aquela “experiência que se
faz no plano sobre natural e nas profundezas misteriosas do encontro homem-Deus...
O religioso e o místico – são como uma nascente que vai crescendo e
percorrendo meandros até se lançar no mar. Apesar da base comum, há um longo
percurso. E este percurso que a celebração eucarística faz. O homem religioso se abre a
Deus, o homem místico transmite Deus ao mundo. A diferença fundamental entre
ambos é que o primeiro busca, para além do cotidiano, a experiência de Deus, e o
segundo, com sua experiência de Deus, forma o ambiente ou o metabolismo espiritual
da base da vida cotidiana.
Karl Rahner profetizou que o cristão do futuro ou será místico ou não será nada.
Diríamos que o cristão do futuro será místico por excelência e litúrgico por
conseqüência. O ser humano, vivendo em uma comunidade de natureza mística, saberá
integrar as realidades históricas com as verdades da fé, e o mistério pascal terá seu
reflexo no mundo, e sua vida será pascal.
A mística, além se seu aspecto teológico, e um fenômeno que altera
positivamente as potencialidades da pessoa, produzindo efeitos de comunhão e
integração no mundo, pois representa um estado refinado da lama e da inteligência
humanas.
Depois da encarnação, não necessitamos mais buscar a Deus, pois ele já nos
encontrou através do mistério pascal de Jesus Cristo. Deus é o protagonista do encontro
conosco – a Igreja deve ser “sacramento de acolhimento”. Felizmente, a Igreja está
despertando para a sacramentalidade da acolhida litúrgica.
Binômio: Liturgia e Vida – Para a Igreja primitiva, a celebração do mistério
pascal de Jesus Cristo não estava dissociada da vivência do dia-a-dia. Não havia uma
separação abrupta entre o rito celebrado e o testemunho cotidiano. A relação liturgia e
vida acontece em três momentos: como mistério, celebração e vida cotidiana, ou seja,
as ações rituais, nossas ações cotidianas devem louvar a Deus e santificar o mundo.
O rito – fundamental para expressar a fé. Como ainda estamos na história, a
nossa relação com o mistério exige celebração, realizada na sacramentalidade da
liturgia. A relação entre mistério e liturgia não é difícil de vislumbrar. O difícil é
continuar a liturgia quando o rito termina. Ao encerrar a liturgia ritual, começa a liturgia
vivencial. São Gregório Nazianzeno (séc. IV), convida os cristãos e participarem não só
da Páscoa ritual, mas também da Páscoa vivencial.
Liturgo é o agente na liturgia, quem faz a liturgia, ou seja, cada cristão, que por
meio do batismo se torna membro do Corpo de Cristo e deve, por isso, celebrar e
testemunhar sua fé. Liturgo é quem vivencia a fé na celebração e nas ações cotidianas.
Ao receber o batismo, o cristão transforma a sua vida em liturgia, ou seja, em adoração
a Deus e serviço ao próximo.
Oração como resposta: seu aspecto exterior e interior.
Transcendência, indica a realidade para além do que os nossos sentidos captam e
a ciência humana pode controlar. Quando rezamos individual ou liturgicamente,
atravessamos a barreira do visível para nos colocar na dimensão do transcendente, do
invisível.
Deus é o protagonista da oração - é Ele quem toma a iniciativa. Nosso
engajamento no diálogo com Deus é de resposta, em palavras e ações. Uma outra
maneira de se dizer que Deus falou primeiro é reconhece-lo como “protagonista do
amor”. Deus nos amou primeiro, desde a criação.
O coração é a condensação dos sentimentos humanos mais profundos. “órgão
central do sistema de irrigação sanguínea , desde muito cedo considerado sede do
princípio vital e das faculdades afetiva, também na linguagem bíblica significa
condescendência, desejo, amor.” Por isso, de nada adianta sermos tocados pelos
sentidos do corpo, se isso não nos conduzisse, na leveza da participação interior, ao
toque do coração, como metáfora da interioridade humana.
A beleza como via de passagem da oração exterior para a interior. Todo o
aspecto exterior da liturgia deve ser um instrumento a serviço do mistério. Como pode
um signo material causar na alma a graça que é espiritual? Isso só é possível através da
beleza como elo e via de comunicação entre Deus e o homem, e vice-versa. O princípio
geral que rege a sacramentalidade litúrgica é a beleza dos sinais, como expressão de
Deus, a fonte da beleza, a qual, por isso mesmo, se torna via de comunicação com o
transcendente. A beleza tem a ver com a harmonia no todo de uma determinada
realidade. “Beleza é a totalidade ordenada... a realização da plenitude”(Alceu Amoroso
Lima). O termo Todo é a expressão da totalidade que somente Deus pode abarcar,
enquanto o fragmento é cada coisa onde a beleza sinaliza de alguma forma a presença
de Deus.
A celebração litúrgica é o lugar por excelência da manifestação da beleza e do
amor de Deus, que passam pelo corpo e tocam o coração. A beleza litúrgica não é uma
qualidade acessória, mas pertence à identidade da celebração. O cosmo está repleto da
beleza de Deus.
Em que sentido a ausência de beleza pode nos falar de Deus? O rosto
desfigurado do Cristo sofredor que, segundo Isaías, não tinha beleza que atraísse os
olhares (Is 53,2). Ele tinha uma outra beleza, que transparece na “vítima massacrada” e
resplandece no coração tomado de compaixão. É a beleza que não passa pelos sentidos,
mas vai direto ao coração.
Qualificações da participação litúrgica na Sacrosanctum Concilium.
Adjetivo é uma qualidade que acrescentamos a um nome para fazE-lo mais
coerente, compatível e harmônico com as nossas sensações ou sentimentos profundos.
Quanto maior o nível de complexidade, tanto mais múltipla a adjetivação. Deus é uma
realidade tão complexa, que todos os adjetivos não esgotariam sua essência. No caso da
participação litúrgica, a SC 11, acresce cinco adjetivos para defini-la melhor: “ativa,
consciente, plena, frutuosa e piedosa”. Esses cinco adjetivos querem mostrar a beleza da
participação litúrgica, levando em consideração que bondade e beleza se fundem como
resumo de todas as virtudes, por causa de sua origem. A beleza está intimamente
relacionada com a bondade, porque todo bom é belo e todo belo é bom. Uma liturgia
bem participada só pode ser profundamente bela, em razão de sua harmonia, proporção
e ordem, causando bem-estar e alegria. Teologicamente, o lugar mais próprio da
epifania da beleza é a liturgia.
Rubricismo: rubrica é um termo atribuído às leis canônicas porque se
costumava escreve-las em cor vermelha. Se dividiam em duas categorias: preceptivas –
obrigavam sob pena de pecado; diretivas – funcionavam como um conselho ou
explicação. Rubricismo passou a representar uma preocupação exagerada com a
aplicação correta das rubricas e da validade canônico-juridica dos sacramentos. O Vat.
II, não desprezando as rubricas, nos aponta mais que o rubricismo, o caminho da
ritualidade litúrgica. Mas do que uma participação válida e lícita, precisamos de uma
participação: consciente, ativa, plena, frutuosa e piedosa.
Necessidade das disposições pessoais: A participação consciente, ativa e
frutuosa é resultado do encontro de duas forças ou desejos: a graça de Deus, que por
meio da liturgia flui como um dom, e a disposição do fiel em acolhe-la com todo o seu
coração. A eficácia da celebração litúrgica, como encontro divino e humano, depende
também do engajamento de quem celebra. A plena eficácia da celebração litúrgica, dita
de forma mais teológica, é a glorificação de Deus e a santificação humana.
Quando utilizamos o termo santificação em referência à eficácia da liturgia,
estamos caracterizando a capacidade da liturgia de dar frutos, não somente como
oração, mas também como vida cotidiana. Os fiéis, por meio da liturgia, são impelidos à
imperiosa caridade de Cristo.
Nossas celebrações litúrgicas deveriam ser o principal chamariz da Igreja e o
momento cume e fonte da nossa vida de fé. Se elas são frias, vazias, ideológicas ou
abusivas, temáticas, tumultuadas, confusas, é porque na formação litúrgica há muito
ainda que fazer.
I - PARTICIPAÇÃO LITÚRGICA ATIVA
A principal manifestação da Igreja se faz numa participação perfeita e ativa de
todo o povo santo de Deus na mesma celebração litúrgica. O adjetivo ativo tem a ver
com o verbo agir.
A liturgia, por natureza, requer um tipo de participação ativa muito especial, pois
é uma ação conjunta do Cristo Total: cabeça e membros. A celebração litúrgica
expressa, alimenta e fortalece a fé, alem de ser profundamente mental, coloca todo o
corpo em postura ativa de cunho ritual. Uma procissão litúrgica é um exemplo de
como todo o nosso ser se envolve em uma ação sagrada ordenada e bem coordenada (Sl
67/68,25-27).
Fé e ação também estão intimamente ligadas, pois a fé é uma resposta integral e
obediente à auto-comunicação de Deus, levando a pessoa a uma decisão fundamental
que engloba todas as dimensões da vida. Tanto no cotidiano como na celebração
litúrgica, a fé se revela mediante posturas ativas. Como opção de vida que representa
obediência à vontade de Deus, a fé exige ao mesmo tempo fadiga do testemunho como
repouso que a beleza da ritualidade litúrgica proporciona. É da índole da ação ritual
religiosa, como comunicação simbólica, ser ativamente participada.
Como sacramento de Deus, o corpo se torna um desafio litúrgico, pois toda a
nossa subjetividade se coloca em função da vivência de significados transcendentes.
A celebração litúrgica é necessariamente uma ação ritual – Liturgia é
essencialmente ação celebrativa (serviço à fé), ou ação de testemunho (serviço ao
mundo). A comunicação litúrgica se difere de um show, ou de uma aula, , pois envolve
a racionalidade da fé com a densidade das emoções. Na liturgia celebrada, razão e
emoção se entrelaçam e se completam. São elas que ordenam a pessoa, porque
suprimindo uma delas, o ser humano entra em processo de desordem. O mundo dos
humanos não pode ser nem frias máquinas pensantes nem fanatismos exorbitantes.
A liturgia celebrada é essencialmente “ação” e necessariamente “rito”.
O rito é essencialmente ativo, e não narrativo – os ritos são ativos, justamente
por serem performance. Por isso, “um rito é inapreensível; é vivido, experimentado e
participado, não é narrado; é um „hipertexto‟, e não somente um texto linear capaz de
ser transcrito e relatado”. Rito é um “evento”, e não um relato. “Se os mitos são a
explicação teórica da experiência, os ritos são a explicação prática. O rito é de forma
geral o gesto que recorda e revive, através de sinais expressivos, o poder criador do
divino. Se o mito provoca a lembrança, o rito evoca presença.
O rito na sua essência simbólica e as conseqüências para a vida – O rito é o
conjunto de ações ou gestos simbólicos que tem por objetivo assumir, expressar,
celebrar, comunicar ou transmitir o acontecimento que motiva uma celebração, e
também as atitudes pessoais e comunitárias com as quais se representa, se vive e se
atualiza o que está sendo celebrado. É claro que tudo que se faz no curso do rito tem um
significado simbólico e o desenrolar do conjunto dá lugar ao processo ritual. Em todo
rito costumam entrar estes componentes: a palavra; o gesto, que é uma forma de
palavra; e os elementos naturais e os objetos de todo o tipo que são utilizados na ação
ritual. O tempo e o espaço também entram.
A comunicação ritual nos dá os significados simbólicos das relações humanas
mais profundas. Os símbolos litúrgicos nos falam de Deus. A simbolização foi o ponto
forte de todas as religiões.
O símbolo só existe enquanto tal no momento da simbolização, ou seja, quando
o objeto simbólico entra no “movimento das palavras”. Quem garante o processo
simbólico litúrgico é justamente o rito. Nesse sentido, não se levam símbolos para a
celebração, mas objetos potencialmente simbólicos. O símbolo fala mediante o processo
ritual, ou não funciona como símbolo.
Os ritos não são elaborações do raciocínio, mas reflexos de natureza emotivo-
inconsciente, revestidos de uma simplicidade eloqüente.A energia proporcionada pela
experiência da arte, do belo, da fruição ritual amenizam os conflitos e reordenam a vida.
Gera, então, uma sensação de “bem-estar” e “descanso”. É por isso que a celebração
litúrgica é descontraída e fala por si mesma, sem cansar. Se for diferente, ela perde a sua
essência e provoca participação positiva.
O rito é o melhor canal para atravessarmos os momentos cuja intensidade de
alegria ou de dor que pede vazão. Exemplos são as celebrações fúnebres, que para nós,
cristãos, se transformam num confiante anúncio pascal da ressurreição. Também há
momentos tão fortemente marcados pela alegria, que é preciso “comemorar”. Então,
necessitamos do rito para celebrar um fato de grande monta. São aqueles momentos que
jamais poderiam cair no esquecimento.
A rigor, o cristão vive da alegria pascal, que a missa tem a função de celebrar.
Por isso, o domingo é alegre por natureza, dia em que os amigos do noivo não jejuam
por que festejam a presença do noivo entre eles (Lc 5,34).
De onde vem a eficácia do rito? É que o rito, por cauda de sua essência
simbólica, tem uma relação com a transcendência, que é um dado fundamental da
existência humana. Há certos momentos que necessitamos da transcendência para salvar
a nossa existência. Como diz U. Galimberti, “onde perde as pecadas da transcendência,
a existência nega a si mesma, cai sobre si mesma, coisa entre as coisas, sem reenvio,
sem ulterioridade”.
A SC 34, recomenda que as cerimônias resplandeçam de nobre simplicidade.
Em latim, nobre significa, “conhecido”.Os ritos reformados precisam “resplandecer”
como fachos de luz, revelando uma beleza em que todos se reconheçam. Foi com nobre
simplicidade que o Filho de Deus apareceu entre nós.
A quebra do rito e seu efeito na assembléia litúrgica – O rito, como arte,
enleva a pessoa e a coloca na profunda e delicada comunicação com as realidades que
estão para além dos símbolos. Existem muitas formas de interrupção da fluência ritual,
que estão destruindo as nossas celebrações litúrgicas. O choque entre comunicação
ritual e explicativa. É comum interromper-se o rito para explicar uma parte dele. Aí se
incluem a maioria dos comentários litúrgicos. O choque da comunicação ritual, com a
operacional, a moralista, a narrativa, a falta de espiritualidade...
Na ceia de Jesus, o comer e o beber com ele foram o nível mais alto da
participação ritual naquela noite. Era comunhão de vida e de ideais, com toda a
densidade do mistério de Cristo que possibilitou a participação naquela noite pascal.
A liturgia e a virtude da religião. O maior empecilho dos cristãos para fazerem
da liturgia uma autêntica experiência de fé não está em relação ao rito em si, mas à falta
de sensibilidade para com a linguagem ritual. O secularismo, o espiritualismo e o
individualismo são comportamentos que tornam difícil a experiência ritual.
Na religião, o homem vislumbra a unidade última para os anseios de beleza e de
amor que acompanham toda a sua existência. O êxito neste anseio depende da virtude,
que é uma disposição constante da mente que se transforma em um hábito operativo. É,
ainda, uma disposição, uma habilidade, adquirida mediante a repetição dos atos, que
aperfeiçoa a faculdade; uma qualificação que supõe a atividade da razão, a
determinação do bem. A virtude da religião não ligo somente o homem a Deus, mas a
todo o cosmo. Para o homem religioso, o Cosmo vive e fala.
A dificuldade com o rito é o reflexo de uma relação imatura com o sagrado, que
se manifesta tanto no atrofiamento quanto na hipersensibilização religiosa explosiva e
desordenada.
O homem de fé vive do mistério. No entanto, sua base religiosa hoje precisa ser
reestruturada em vista de um relacionamento maduro com o sagrado, Nesta perspectiva,
o rito se desenvolve na beleza da arte, para atingir a mística do coração, a fim de fazer
de cada componente de uma assembléia litúrgica um participante ativo na celebração
dos mistérios de Cristo.
II – PARTICIPAÇÃO LITÚRGICA CONSCIENTE
Quanto maior for a consciência e a disposição da pessoa, tanto maior será o culto
prestado a Deus na ação sacramental e tanto mais profunda a conformação do sujeito a
Cristo. A aliança que Deus fará conosco será gravada em nossos corações e mentes (cf.
Hb 10,16). O termo “mente” refere-se a certo conjunto de disposições de um organismo.
Na celebração cristã, é preciso que o conjunto das nossas disposições, como percepção,
intelecção, vontade, memória, criatividade e outras, estejam sintonizado e nos
transforme em sujeitos conscientes da ação que executamos. É preciso unir razão e
emoção, sentimentos e pensamento, intenção e sentido, a fim de que a participação
interior no mistério celebrado seja eficaz. Tal integração evita, de um lado, que a
celebração se transforme em uma ação cerebral, racionalista e fria, e, de outro, que caia
no sentimentalismo, perdendo sua objetividade sacramental.
Conscientia significa ”conhecimento em comum”, onde conhecimento e
sentimento se fundem na consciência que leva à convicção. Não se trata apenas de
saber, mas de identificar. É um conhecimento que brota e se desenvolve no nível do
coração. “O coração é também algo como consciência”. Por isso, coração limpo
significa consciência reta. Liturgia consciente é “a liturgia do coração”.
O coração humano não é apenas luz, mas também trevas. O altar do coração é
também sepulcro que acolheu o corpo do Senhor sem vida, para devolvê-lo
ressuscitado. Quanto mais adentramos o nosso coração, tanto mais nos deparamos com
a condição humana sujeita ao pecado. No entanto, a última palavra não provém das
nossas fragilidades, mas da redenção. Cristo arrancou do império da morte e nos elevou
à dignidade de filhos de Deus. Então, no altar do coração se celebra a liturgia de
coração, pascal por excelência, porque não só celebra a Páscoa de Cristo, mas a ela
associa a nossa Páscoa também.
A participação litúrgica é essencialmente ativa, porque, por meio da ritualidade
sacramental, envolve o coração e a mente, conhecimento e afeição. O conhecimento não
anula o mistério, mas o valoriza, e a busca de seus significados não o esgota, porém o
engrandece. O lugar do mistério é o coração. Este tipo de conhecimento é mais fácil de
captar, sentir e avaliar, do que explicar. No entanto, não se subtrai à palavra, porém
comporta tal intensidade, que requer, às vezes, a linguagem da poesia, da música, da
arte. A atitude própria da ação litúrgica é permeada de reverência e admiração que
brotam da consciência de quem está na presença de Deus.
A racionalidade da fé exige que cada liturgo cristão tenha consciência suficiente
para celebrar frutuosamente o que o rito expressa... Instrutiva é a oração da entrega do
cálice com vinho na liturgia de ordenação presbiteral: “Recebe a oferenda do povo
santo para apresenta-la a Deus. Toma consciência do que vais fazer e põe em prática o
que vais celebrar, conformando tua vida ao mistério da cruz do Senhor” (Pontifical
Romano, Paulus, p. 131).
Exercendo o nosso sacerdócio ritualmente, o nível de consciência com que o
fazemos nos conduz a uma transformação e renovação da mente, de tal forma que
possamos interpretar e discernir a vontade de Deus na busca da perfeição evangélica (cf.
Rm 12,2). A prática da celebração litúrgica sem a devida consciência pode levar a
comportamentos rituais que nada tem a ver com o mistério de Cristo.
A palavra-chave para a participação litúrgica consciente é iniciação. É preciso
conhecer o mistério de Cristo (com a mente) para poder se identificar com ele (com o
coração). Para amar é preciso conhecer e para conhecer de verdade é preciso amar.
A eucaristia, na densidade de significados, exige uma compreensão
aprofundada. Cada gesto e cada palavra já nasciam imbuídos de densidade. Foi a noite
mais densa de toda a história da salvação. Mais do nunca, os olhos deveriam estar fixos
no Senhor, na expressão do seu rosto, no alcance do seu olhar, em cada movimento de
suas mãos. Cada palavra era, “corporificada”, no sentido de que estava intimamente
relacionada a toda gestualidade corporal. As palavras daquela noite eram como setas
que feriam o coração dos apóstolos com a “seiva” do amor. Quem deveria se afastar do
mistério, teve que sair durante a Ceia. Quem ficou, ficou para sempre.
O que viram no dia seguinte foi dramático e cruel, mas não mais denso do eu
celebraram na noite anterior, porque a vivência ritual nos faz celebrar situações terrenas
as quais ultrapassam a si mesmas, chegando a acariciar as realidades eternas. O pão e o
vinho como presença real de Jesus para a salvação do mundo desafiam toda a lógica
humana. Pura fé! Tentar racionalizar esse mistério com explicações que não brotem do
altar do coração só causa sofrimento e confusão.
III - PARTICIPAÇÃO LITÚRGICA PLENA
A participação consciente é, de modo específico, a participação ativa da mente e
do coração no mistério celebrado. A participação ativa, quando atinge também um nível
de ativação da mente e dos afetos, a ponto de densamente captar com o coração os
significados simbólicos das ações litúrgicas (participação consciente), se transforma em
uma participação plena.
A participação plena nos possibilita o mergulho no mistério. Um rito litúrgico
vivido em plenitude transforma-se num rio da vida que sai do trono de Deus e do
Cordeiro, imagem trinitária da liturgia celeste (cf. Ap 22,1).
Nesse processo, é fundamental a dimensão sacramental-simbólica da liturgia.
Embora tudo parta dos sinais sensíveis, pois a viagem ao transcendente começa
necessariamente nos sentidos do corpo, transformando-se em liturgia do coração. A
partir daí se realiza o “salto místico”.
A participação plena na liturgia, é aquela que conduz ao transcendente, levando
o orante à experiência do mistério, envolvendo todas as dimensões da corporeidade e
gerando a sintonia das ações litúrgicas.
Uma participação plena percorre o itinerário que Santo Agostinho intuiu como
duplo movimento: do exterior (sinal) para o interior (coração), do interior para Deus. É
um processo que parte do sinal sensível, passa pelo coração e atinge o mistério de Deus.
A celebração se torna uma experiência de plenitude, que passa pela qualidade do
sinal, pela sensibilidade dos sentidos humanos, pelos acolhimento afetivo e pela
experiência mística da fé, a fim de que possamos gozar da presença de Deus.
PARTICIPAÇÃO LITÚRGICA FRUTUOSA
A SC. 59, diz que “os sacramentos conferem a graça, mas a celebração dos
mesmos dispõe otimamente os fiéis à frutuosa recepção da mesma graça, a honrar a
Deus de modo devido e a praticar a caridade”. Nesse sentido, os sacramentos são ao
mesmo tempo sinais sensíveis e instrumentos da graça de Deus (cf. LG 1). “Não só
supõe a fé, mas também a alimentam, fortificam e expressam por meio de palavras e
ritos”. Sendo sinais sensíveis, os sacramentos também se destinam à instrução (SC 59).
A celebração também pode influir diretamente na fé. Pessoas com a fé abalada
podem sair fortalecidas de um rito litúrgico, dependendo de como se coloquem diante
da graça sacramental e da forma como se conduz a celebração.
Na criação, tudo reflete a bondade e a beleza do Criador: “Tudo me fala de
Deus” (São Francisco de Assis). A trajetória da visibilidade de Deus na história da
salvação tem três momentos significativamente especiais, pelas características de
aliança Pascal. Ao modo de maravilha, Deus promove essas passagens: 1) O êxodo dos
Hebreus; 2) a Páscoa de Jesus; 3) A Igreja e a celebração dos sacramentos.
São Leão Magno (440-461), afirma que, depois da ascensão, tudo o que era
visível do nosso Redentor passou para os sacramentos da Igreja. Então, a via normal e
principal para o encontro com o Senhor mediante os sinais sensíveis está nos
sacramentos da fé, que a Igreja tem a missão de celebrar até a consumação da história.
Podemos, então, entender sob a ótica do Evangelho porque a liturgia é cume e fonte das
ações da Igreja.
A salvação em sua dimensão escatológica – O primeiro elemento a considerar
é a sede de Deus, que leva o homem religioso ao mistério de Cristo. “Fizeste-nos para ti
e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti” (Santo Agostinho). Cristão
é um ser de busca e sinônimo de vida pascal é vida peregrina. O cristão é quem se
deixou encontrar por Deus, mas, ao celebrar a liturgia, sente que a plenitude do encontro
está um pouco além. Da liturgia terrestre caminhamos para a liturgia celeste. O cristão é
um verdadeiro peregrino, pascal e litúrgico por excelência.
Corações inquietos, almas sedentas, são as pessoas que se acercam da liturgia
celebrada, na esperança de encontrar a água da vida e o repouso do coração: “Vinde a
mim vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos aliviarei”(Mt
11,28). O descanso (repouso) sabático, traduz-se sacramentalmente pela liturgia
dominical. Não é o lazer do domingo que nos traz o repouso sabático, mas a celebração
da fé, que por natureza é a eucaristia. Somos peregrinos não em busca de Deus, mas
com Deus buscamos a nova ordem, cuja plenitude se dá para além do presente histórico.
O repouso do coração e a saciedade da alma são quesitos para que o homem
possa buscar a perfeita união, na caridade com Cristo. Quando Deus é glorificado e o
homem santificado, ocorre, então, a salvação, que é o objetivo final da celebração do
mistério de Cristo.
A salvação nas libertações históricas – A ordem que rege a vida de fé é
transcendente e escatológica, mas profundamente inserida no mundo. A comunhão com
Cristo, celebrada de modo sacramental e testemunhada na vida cotidiana dos cristãos, é
causa de salvação para o mundo. Nutrindo-se de tal presença, a liturgia celebrada se
torna fecundamente frutuosa. É por isso que a SC. 10, diz que a liturgia é o cimo para o
qual tende a ação da Igreja e a fonte de onde emana toda a sua força. Toda a ação da
Igreja, entendida como trabalho apostólico, converge para a liturgia (como mistério,
celebração e vivência). É da liturgia bem celebrada e indissociavelmente vivenciada
pelo testemunho dos cristãos que a Igreja adquire força ou, do contrário, se enfraquece.
Com o termo “salvação” pode-se indicar o estado de realização plena e
definitiva de todas as aspirações do coração humano nas diversas ramificações da sua
existência.
Ser salvo é ser tirado de um perigo onde se corria o risco de perecer. A
sociedade atual esconde uma espécie de “doença mortal” que aos poucos se alastra em
camadas sempre mais amplas. Trata-se de um sentimento vago, mas resistente, que cria
confusão, desnorteamento, depressão, ansiedade. Constitui um atentado contra a
possibilidade de ser feliz.
Na dinâmica da satisfação das necessidades, existem cinco passos, segundo a
lógica da natureza humana: A) Necessidades fisiológicas; B) Necessidades de
segurança, de estabilidade, de proteção, de estrutura, de ordem, de lei, de limites
adequados...; C) De sentimento de posse e de afeto, amigos, família...; D) Necessidade
de auto-estima e o desejo de valorização pelos outros; E) A auto-realização, como
desejo maduro no final de um processo ascendente de valores. É aí que se alojam a
verdade, a beleza, a perfeição, a justiça, a honestidade.
A celebração litúrgica deve apresentar Jesus, que não descuidou de nenhum
detalhe da pessoa humana, entre os quais a necessidade de alimentação, a
autoconfiança, a saúde, o amor-caridade e a solidariedade com os excluídos.
Foi exatamente num contexto de refeição em evocação ao alimento como
necessidade primária de sobrevivência individual (comida) e social (ceia), que Jesus
instituiu o principal sacramento da salvação, doando-se a si mesmo como comida e
bebida para a vida eterna.
Como para Deus palavra e ação não tem separação, para os cristãos orar e buscar
soluções concretas constituem um único ato de fé, um culto litúrgico pleno. A relação
entre liturgia e caridade sempre foi muito explícita. A eucaristia é o sacramento da
caridade. Entre os frutos da celebração estão a comunhão e solidariedade para com os
excluídos. A comunhão sacramental com o Senhor só tem sentido se nos levar à
comunhão solidária com aqueles que estão à margem da vida.
A relação entre celebração litúrgica e autoconfiança sempre foi muito evidente.
O homem pós-moderno está vivendo a pior crise de insegurança de todos os tempos.
Sair de um culto litúrgico sentindo-se protegido por Deus não é pouca coisa diante do
medo que esmaga e deforma a pessoa, preconizando também as ações violentas.
Uma visível reaproximação, com base na eficácia litúrgica, é entre celebração
litúrgica e saúde. “Tudo nos leva a admitir que a relação entre religião e saúde é uma
relação essencial, inegável e antiqüíssima que com certeza não poderá ser destruída pelo
mundo técnico-científico” (Aldo Terrin).
Pelo batismo, assumimos a missão de Jesus, cf. Is 61,1-4 e Lc 4,18ss.
Desconsiderando isto, podemos ter muita prática litúrgica e pouca libertação, sem nunca
trabalharmos as feridas da alma,as repressões, tristezas e solidão, ou também sem nos
dispormos à caridade.
PARTICIPAÇÃO LITÚRGICA PIEDOSA
O conjunto de nossas disposições, representado pela percepção, intelecção,
vontade, memória, criatividade, etc., aliado aos afetos, proporciona uma vivência ritual,
em que a leitura simbólica conduz à experiência mística. Para chegarmos a colher com
abundância os frutos da celebração é preciso que toda a celebração nos leve à
participação consciente, ativa e plena de todo o corpo e espírito, animada pelo fervor da
fé, da esperança e da caridade. É esse fervor que pode ser identificado com a piedade.
O adjetivo “pio” é uma qualidade que expressa os sentimentos de devoção.
Devoção significa prometer em voto, consagrar a Deus. A piedade supõe uma relação
madura com o sagrado. A piedade é como a argamassa que junta os blocos, dando
consistência à construção, como a solidez do alicerce. É a piedade que sempre dá o tom
da participação interior e harmonia da participação exterior.
A piedade se manifesta no coração, no âmbito da virtude de religião, e ilumina o
caminho da mística, tornando-se, assim, um elemento fundamental da participação
litúrgica ativa.
Piedade é uma virtude religiosa, um sentimento forte de amor, gratidão e afeto,
até se transformar em ternura, compaixão e clemência. A piedade só funciona porque a
gente vê o outro como sagrado. Segundo a liturgia, a piedade é aquela disposição
amorosa de acolher o mistério celebrado.
Se a técnica está ensaiando o “homem plugado no computador”, a liturgia
celebrada forja o “homem piedoso”. Na era da máquina, precisamos continuar
celebrando nossa fé, de tal forma que Deus seja louvado e o homem, santificado.
SACRAMENTOS
“Maravilhas de Deus”
O tema das “maravilhas de Deus” é parte constitutiva da economia bíblico-
cristã. Em Jesus, Deus intervém na história e se revela através das grandes obras
que realiza, visando ao cumprimento do seu desígnio eterno de salvação. Jesus veio
cumprir a obra do Pai. Toda a sua existência, da encarnação à ressurreição e à
ascensão ao céu, encontra-se sob o signo das “maravilhas de Deus” e constitui a
“maravilha decisiva da salvação” para toda a humanidade. O que se realiza em
Cristo – e em Cristo para cada homem – é o acontecimento central da história
humana. Nada terá jamais tanta importância paras a humanidade quanto a
ressurreição de Jesus. A partir deste acontecimento, o mundo está objetivamente
salvo.
Os sacramentos, de modo especial, são as “maravilhas da salvação” no
tempo atual, dando continuidade às grandes “maravilhas da salvação” do AT e do
NT e prenunciando as “maravilhas” da escatologia definitiva.
História e salvação. O tema salvação é sempre central em qualquer
religião. Na revelação judaico-cristã, a salvação centra-se antes de mais nada nas
intervenções salvíficas de Deus na história. A história humana é o “lugar” e o
“meio” da salvação, visto que é nela que Deus se revela e atua, assumindo-a para
a realização de seu plano eterna de graça. Por outro, lado é na história que o
homem se encontra com Deus de Jesus Cristo, tornando-se partícipe de sua “gesta”
salvífica. Nesse sentido, o homem acolhe a salvação não fora da história, e sim na
história, graças aos eventos operados por Deus no âmbito da própria história.
Não por acaso a Bíblia se abre com a criação do universo e do homem e se
encerra com a descrição da nova criação realizada por Deus em Cristo e no dom de
seu Espírito, estendida a todas as nações da Igreja.
Religião e salvação. Na maioria das religiões e filosofias antigas, o tempo
era ligado ao ritmo natural dos astros e das estações, um ritmo que se repete. Para
estes, suas próprias origens são objeto de mitologia, não de história. O evento
mítico é o evento constante, que retorna em ritmo cíclico: é o retorno anual das
estações, a revolução dos corpos celestes, o ciclo do dia e da noite, o perpétuo
conflito entre ordem e caos. Em oposição ao evento mítico encontra-se o
acontecimento histórico, singular e único, que caracteriza a história da salvação
testemunhada pela Bíblia.
As religiões naturais se referem à regularidade dos ciclos das estações. Já o
judeu-cristianismo tem por referência acontecimentos únicos, decisivos e
irrepetíveis, que constituem a expressão das intervenções de Deus há história e são
constituídos de valor “uma vez para sempre”.
Israel e a salvação. Israel experienciou que a salvação se realiza dentro da
história graças às intervenções miraculosas (mirabilia Dei) realizadas por Deus em
favor do povo. E começou a intuir de modo sempre mais claro que a salvação está
ligada a uma sucessão de acontecimentos que se desenvolvem segundo o plano
estabelecido por Deus, indo da espera ao atendimento das espera, do anúncio
profético ao cumprimento do anúncio. Promessa e cumprimento constituem o
dinamismo desse tempo de tríplice dimensão: o presente inicia o futuro, anunciado
e prometido no passado.
Cristianismo e salvação. Cristo constitui a ação decisiva de Deus na
história, ação que muda “uma vez para sempre” o sentido da condição humana e
traz novidade que, a partir daí, torna-se absolutamente adquirida: ninguém poderá
mais separar a união da natureza humana com a natureza divina realizada em
Cristo. Ao homem só resta participar daquilo que foi realizado uma vez por todas
em Cristo: agora, cada homem decide o sentido de sua própria existência e de sua
própria eternidade em função da acolhida ou da rejeição desse mistério de salvação
operado na história.
Categorias Bíblico teológicas da salvação
Salvação significa essencialmente ser tirado do perigo. A salvação está
ligada à vitória, ao resgate, à liberdade, à saúde, à vida, à paz ou ao bem moral.
No AT, pelo anúncio profético, a salvação coincidirá com as “maravilhas” que
Deus realizará na plenitude dos tempos, que assim será: nova libertação, nova
criação, nova eleição, nova e definitiva aliança, nova habitação de Javé em meio ao
seu povo, nova e perfeita santificação, a realização da justiça de Deus. No NT, tudo
isto se cumpre em Jesus Cristo.
Das “maravilhas da salvação” aos sacramentos da fé
Os sacramentos são obras divinas que não se explicam racionalmente. A
razão ajuda na obstrução dos obstáculos e na qualidade da fé sacramental. A fé nos
sacramentos apóia-se na fé nas grandes ações realizadas por Deus no AT e NT, que
constituem, em seu conjunto, a história da salvação.
O AT só é memorial por ser profecia: é recordação das grandes obras
realizadas por Deus no passado, mas para fundamentar a promessa das obras
infinitamente maiores que ele realizará no futuro. Os profetas só recordam as
“maravilhas” realizadas por Deus no passado para suscitar a fé nas novas obras,
imensamente mais esplêndidas.
Com Cristo, realizou-se tudo o que os profetas haviam anunciado: ele é a
nova criação, o novo templo, a aliança perfeita, a verdadeira santificação, o juízo
de Deus sobre o mundo. As obras de Jesus são as “maravilhas” dos tempos
messiânicos – o cumprimento da “plenitude dos tempos”: são obras da redenção,
as obras dos tempos escatológicos que já começaram.
Os sacramentos pertencem a essa economia, objetivamente prevista,
desejada e realizada por Deus: são obras divinas que desdobram no espaço e no
tempo tudo o que se cumpriu em Cristo.
- Em relação ao mistério de Cristo, os sacramentos não constituem “outros”
eventos salvíficos. Eles são continuação do único mistério.
- Em relação ao AT, os sacramentos, em continuidade com o mistério de
Cristo, são o cumprimento daquilo que os profetas haviam prenunciado para os
últimos tempos: sinais da nova criação já iniciada, sinais reais e eficazes; sinais da
nova e definitiva aliança...
A exemplo das obras de Cristo, os sacramentos são eventos dos tempos
escatológicos, os sinais do cumprimento dos tempos messiânicos e as obras da
redenção em curso.
Os sacramentos proclamam que o desígnio da salvação já se realizou: eles o
prolongam e atualizam no tempo da Igreja, transmitindo a cada homem a eficácia
única do mistério pascal de Cristo.
Os Sacramentos são da mesma natureza das grandes obras realizadas por
Deus no AT e NT: o seu conteúdo é idêntico ao manifestado nas constantes da ação
de Deus ao longo da Bíblia. Em todos os níveis da historia salutis, Deus cria,
chama, liberta, faz aliança, habita, santifica,, envia e julga. É à luz de Cristo que os
acontecimentos que o precedem e o seguem tornam-se inteligíveis e se manifesta
plenamente a continuidade da ação de Deus. Uma catequese sacramental que não
se remeta constantemente à história salutis e às suas “maravilhas” não pode ser
eficaz: com efeito, tal catequese não respeita a própria pedagogia de Deus ao
revelar os seus mistérios, pressupondo de fato uma fé pouco inteligível.
Os sacramentos não são simplesmente sinais que recordam o que Deus fez
no passado em favor do homem. São as intervenções pessoais e atuais de Deus
em nossa existência: são intervenções de criação, de eleição, de presença e de
libertação da mesma natureza das grandes intervenções de Deus no AT e NT. Na
fase neotestamentária, as grandes intervenções de Deus, da encarnação ao
Pentecostes, realizam, manifestam e já contém a salvação da humanidade, que
agora se cumpriu, mas que deve ser transmitida individualmente a cada homem.
No tempo da Igreja, as grandes intervenções sacramentais de Deus não se
substituem nem se sobrepõe ao mistério pascal de Cristo, mas o prolongam, o
difundem e o tornam presente em todo tempo e lugar. Como as intervenções
divinas do passado, os sacramentos são expressão da iniciativa transcendente, livre
e gratuita de Deus, que vai ao encontro do homem para salvá-lo.
Crer, em sentido cristão, significa crer que Deus continua a intervir na
história e que, de forma eminente, os sacramentos são essas intervenções divinas
no mundo. “Ser cristão significa afirmar que essas irrupções de Deus na existência
do homem constituem a notícia alegre, magnífica e esplêndida que propomos a
cada homem”.
Os sacramentos são “imitações” e “representações” da morte e da
ressurreição de Cristo. Eles estendem a cada homem o mistério pascal de Cristo,
fazendo-o dele participar, mas nada acrescentam ao evento central da história. São
apenas o seu desdobramento e atualização em todos os tempos e lugares. São
acontecimentos realmente salvíficos, porque tornam presente para cada homem o
mistério da redenção já realizado.
Os sacramentos “maravilhas” antecipadoras da escatologia definitiva. Os
sacramentos prefiguram as realidades dos tempos escatológicos: o batismo não é
só imersão e emersão na morte e ressurreição de Cristo, mas também antecipação
da glorificação escatológica; a eucaristia é memorial e presença do banquete
sacrifical de Cristo, mas também proclamação do banquete dos tempos
escatológicos; a penitência sacramental é preparação e figura da purificação
definitiva, que nos permitirá entrar na glória do Pai.
Os sacramentos, atos de Cristo glorioso na Igreja
O conteúdo do mysterion, portanto, é o próprio Cristo, cumprimento e
vértice do plano divino. O mysterion tou Christou, por sua vez, perpetua-se no
mundo e se estende a cada homem através do mysterium tes ekklesias. Cristo é o
sacramento primordial da salvação; a Igreja é o seu sacramento; os sacramentos
são atos do Senhor ressuscitado, sentado à direita do Pai, realizados na Igreja e
por meio da Igreja e que, como vimos, continuam os grandes gestos de salvação
realizados por Deus no AT e NT.
O homem só pode encontrar-se plena e efetivamente com Deus se o próprio
Deus revela-se de modo positivo ao homem o sustenta com poder de sua graça. A
comunhão pessoal com o mistério do absoluto de Deus só é possível em virtude da
iniciativa gratuita e amorosa do próprio Deus, que vai ao encontro do homem para
entrar em contato com ele. O projeto de Deus é introduzir o homem e todos os
homens na própria comunhão de sua vida trinitária. A fé é a adesão do homem a
esse projeto. A procura de Deus pelo homem encontra sua plena resposta na vinda
de Deus ao homem, encontro que tem em Cristo e sua plenitude e o seu supremo
cumprimento.
Cristo é o sacramento fundamental do encontro com o Deus invisível na
humanidade visível.Esta afirmação implica três tipos de verdade:
a) A humanidade assumida pelo Verbo eterno de Deus é o sacramento
próprio do encontro com Deus. “O amor do homem Jesus, com efeito, é
a encarnação humana do amor redentor de Deus, a vinda do amor de
Deus em forma visível. Os atos humanos de Jesus são atos de Deus,
possuem, portanto, a força divina de salvação: são salutares, causa de
graça”.
b) A humanidade assumida pelo Verbo de Deus é “sinal” e “causa” de
salvação para toda a humanidade. Com a encarnação, o Verbo eterno de
Deus veio recuperar a humanidade decaída e libertá-la de sua condição
de morte e de pecado para introduzi-la na comunhão sobrenatural com
Deus. Há em Jesus um dinamismo descendente;Deus vai ao encontro do
homem para transmitir-lhe a sua própria vida e, desse modo, “divinizá-
lo”. Também há um dinamismo escendente, porque o mistério da
encarnação direciona-se essencialmente para a glorificação do Pai pelo
cumprimento de sua vontade no mundo. Assim, a humanidade de Cristo
é “sinal” e “causa” da nossa salvação.
c) A humanidade foi glorificada de Cristo é o sacramento-fonte da
transmissão da salvação ao homem no tempo da Igreja. O que foi
adquirido na humanidade de Jesus ressuscitado foi adquirido para todos
e para sempre. A humanidade do Verbo não apenas foi o sacramentum
salutis, o sinal e a causa de nossa salvação, mas o é atualmente.
Transfigurada pela vida do Espírito na na alma e no corpo, essa
humanidade glorificada constitui o sacramento-fonte da difusão do
Espírito e da transmissão da graça na Igreja e no mundo.
A Igreja, sacramento de Cristo
A corporeidade do Verbo encarnado e glorificado continua na Igreja, corpo
de Cristo e nos momentos visíveis fundamentais que são os gestos sacramentais. A
Igreja é o sacramento do Cristo celeste, o “sinal” e o “instrumento” visível do
Senhor glorioso sobre a terra. A essência da Igreja, em sua totalidade, consiste em
ser prolongamento sacramental, no espaço e no tempo, da ação de Cristo no
mundo.
É pelo contato com a Igreja que é dada a graça de Cristo, havendo ação
sacramental que não seja ação eclesial. A Igreja é o sacramento visível de que o
Cristo invisível se serve para distribuir os seus dons invisíveis a homens visíveis.
Os sacramentos são “maravilhas da salvação” nos quais a ação de Cristo e
da Igreja coincide e se une inseparavelmente para a salvação do homem.
O Espírito Santo e os sacramentos
Os sacramentos são acontecimentos do Espírito que nos fazem participar da
própria vida do Senhor Ressuscitado. Há estreita correspondência entre o Espírito
Santo que habita plenamente em Jesus e operou a sua glorificação, ressuscitando-o
da morte e fazendo-o sentar à direita do Pai, e o Espírito Santo que irrompeu na
Igreja e nela habita plenamente.
Os sacramentos pertencem a esse dinamismo cristológico-pneumatológico-
eclesial e são “maravilhas de salvação” operadas pelo Espírito de Jesus que habita
na Igreja.
Os sacramentos são atos de Cristo e da Igreja de modo inseparável. “Onde
está a Igreja está o Espírito de Deus” (Santo Irineu). “Somente na Igreja os
sacramentos são frutuosamente celebrados: com efeito, quem opera secretamente
o seu efeito é o Espírito Santo que nela habita” (Isidoro de Sevilha).
O Espírito não somente age no ministro e por meio do ministro, mas
também é invocado sobre os elementos sacramentais para santificá-los e torná-los
sinais eficazes da presença do evento da salvação: é a intervenção do Espírito
Santo que consagra os gestos sacramentais e realiza a identidade entre o evento
pascal e o evento sacramental da Igreja.
Os sacramentos são os “espaços” privilegiados em que se dá o
desdobramento do dom do Espírito em cada crente para a construção da Igreja no
mundo.
A “palavra” leva aos sacramentos, revelando-os e cumprindo-os. É
nos sacramentos que a palavra se torna, em sentido pleno, evento de salvação.
Dois aspectos caracterizam a união indissolúvel entre a palavra e sacramento na
economia salvífica do tempo da Igreja. A palavra revela e cumpre o mistério
sacramental. A palavra sacramental prolonga a eficácia da palavra de Deus e, como
esta, é inseparavelmente também fato, evento salvífico.A palavra expressa e
cumpre esse evento. Os sacramentos são inseparavelmente palavra e evento:
indicam e realizam e realizam o que indicam.