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A nova literatura

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A nova literatura
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ESCOLA DE BELAS ARTES

TÓPICOS EM ARTES PLÁSTICAS: LEITURAS E RELEITURAS DA OBRA DE ARTE

Profa. Lucia Gouvêa Pimentel

Estágio Docência: Marcelino Peixoto Melo

2003_2



.



Leitura e releitura de obras de arte

Marcelino Peixoto Melo

1

O universo da arte





Arte = unidade do eterno e do novo, aparentemente impossível, realizada pelos e para os

humanos.





P/ Merleau-Ponty, “o primeiro desenho nas cavernas fundava uma tradição porque

recolhia uma outra: a da percepção. A quase eternidade da arte confunde-se com a quase

eternidade da existência humana encarnada e por isso temos, no exercício de nosso corpo

e de nossos sentidos, com que compreender nossa gesticulação cultural, que nos insere no

tempo”.





A obra de Arte dá a ver, a ouvir, a sentir, a pensar, a dizer. Nela e por ela, a realidade se

revela como se jamais a tivéssemos visto, ouvido, dito, sentido ou pensado.





A arte pode ser o caminho do instituído ao instituinte. Um leve deslocamento do sentido

instituído e a explosão de um outro sentido. Transfiguração do existente numa outra

realidade, que o faz renascer sob a forma de uma obra.





As obras de arte realizam o desvendamento do mundo recriando o mundo noutra dimensão

e de tal maneira que a realidade não está aquém e nem na obra, mas é a própria obra de arte.









ARTE E TÉCNICA









1

Resumo: COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.





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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ESCOLA DE BELAS ARTES

TÓPICOS EM ARTES PLÁSTICAS: LEITURAS E RELEITURAS DA OBRA DE ARTE

Profa. Lucia Gouvêa Pimentel

Estágio Docência: Marcelino Peixoto Melo

2003_2



Arte vem do latim ars que corresponde ao termo grego techne (técnica), significando: o que

é ordenado ou toda espécie de atividade humana submetida a regras.

Seu campo semântico se define em oposição ao acaso, ao espontâneo e ao natural. Assim

sendo, arte é um conjunto de regras para dirigir uma atividade humana qualquer.





Nessa perspectiva falamos em arte médica, poética, política, bélica, retórica etc.

Platão não a distinguia das ciências nem da Filosofia, uma vez que, como a arte, estas são

atividade ordenadas.





Aristóteles estabelece uma distinção entre ação (práxis) e fabricação (poiesis). A política e

a ética são ciências da ação. As artes ou técnicas, são atividades de fabricação.





Plotino distingue técnicas ou artes cuja finalidade é auxiliar a Natureza (medicina,

agricultura) daquelas cuja finalidade é fabricar um objeto com os materiais oferecidos pela

Natureza (artesanato). Distingue também outro conjunto de técnicas que não se relacionam

com a Natureza, mas apenas com o homem, para torna-lo melhor ou pior (música e retórica,

por exemplo).





A classificação das técnicas ou artes seguirá um padrão calcado na estrutura social fundada

na escravidão, que despreza o trabalho manual. O historiador romano Varrão ofereceu uma

classificassão que perdurou do séc. II d.C. ao séc XV: artes liberais (gramática, retórica,

lógica, geometria, astronomia e música – própria dos homens livres) e artes mecânicas

(medicina, arquitetura, agricultura, pintura, escultura, olaria, tecelagem etc – própria do

trabalhador manual).





Essa classificação será justificada por Santo Tomás de Aquino (Idade Média) como

diferença entre as artes que dirigem o trabalho da razão e as artes que dirigem o trabalho

das mãos. Somente a alma é livre e o corpo é uma prisão. Assim as artes liberais são

superiores as artes mecânicas.







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Profa. Lucia Gouvêa Pimentel

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A partir da Renascença, com o humanismo que dignifica o corpo humano, passa-se a

valorizar as artes mecânicas. Além disso, a medida que o capitalismo se desenvolve, o

trabalho passa a ser considerado fonte e causa de riquezas.





No final do séc. XVII e a partir do XVIII, distinguiram-se as finalidades das artes

mecânicas: as que tem por finalidade serem úteis aos homens (medicina, agricultura,

culinária, artesanato) e aquelas cuja finalidade é o belo (pintura, escultura, arquitetura,

poesia, música, teatro, dança). Com a idéia do belo surge as sete artes ou belas artes.





Com a distinção entre o útil e o belo, leva a noção da arte como ação individual vinda da

sensibilidade do artista como gênio criador.





Com a criação do belo (finalidade da arte) torna-se inseparável a figura do público, que

julga e avalia o objeto artístico conforme tenha realizado ou não a beleza. Surge o conceito

de juízo de gosto, estudado amplamente por Kant.





Gênio criador (do lado do artista) beleza, (do lado da obra); juízo de gosto (do lado do

público) constituem os pilares sobre os quais se erguerá uma disciplina filosófica: a

estética.





Porém, desde o final do século XIX e durante o séc. XX, modificou-se a relação entre arte e

técnica. As artes passaram a ser concebidas menos como criação genial e mais como

expressão criadora, isto é, como transfiguração do visível, do sonoro, do movimento, da

linguagem, dos gestos em obras artística.





A arte não perde, necessariamente, seu vínculo com a idéia de beleza, mas a subordina a

outros valores. A s artes não pretendem imitar a realidade, nem pretendem ser ilusões sobre

a realidade, mas exprimir por meios artísticos, a realidade.







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ARTE E RELIGIÃO





Trabalho e religião foram as primeiras formas de sociabilidade. Instituíram os símbolos de

organização humana do espaço e do tempo, do corpo e do espírito. As artes

(técnicas/mecânicas) formaram um par inseparável.

Na relação com o sagrado, as atividades humanas assumiram a forma de rituais: a guerra, a

semeadura, a colheita, o nascimento e a morte, a doença e cura, as estações etc, tudo

assume a forma de culto religioso. A sacralização e a ritualização da vida faz com que as

artes mecânicas (medicina, agricultura, música, adornos etc) tornem-se elementos de cultos.

As belas artes (sete artes) nascem no interior dos cultos e para servi-los. Levarão milhares

de anos para que surjam como atividade cultural autônoma.

A dimensão religiosa das artes deu aos objetos artísticos ou às obras de arte uma qualidade

que foi estudada pelo filósofo alemão Walter Benjamim: a aura. A aura é a absoluta

singularidade do ser (irrepetível). A obra de arte aurática é aquela que torna distante o que

está perto, porque transfigura a realidade, dando-lhe a qualidade da transcendência.





“observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas

no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós,

significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho.”

Walter Benjamim



As artes tinham como finalidade sacralizar e divinizar o mundo – tornando-o distante e

transcendente – e, ao mesmo tempo, presentificar os deuses aos homens – tornando o

divino próximo e imanente – sua origem religiosa transmitiu às obras de arte a qualidade

aurática mesmo quando deixaram de ser parte da religião para se tornarem autônomas e

belas-artes.





“o valor único da obra de arte “autêntica” tem sempre um fundamento

teológico, por mais remoto que seja.”





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Walter Benjamim









ARTE E FILOSOFIA





Num primeiro momento, a Filosofia trata as artes sob a forma da poética; num segundo

momento, a partir do século XVII, sob a forma da estética.

A palavra poética é a tradução para poiesis, portanto para a fabricação. A arte poética

estuda as obras sob a égide da fabricação, ou seja das coisas produzidas pelos seres

humanos.

Estética é a tradução da palavra grega aesthesis, que significa conhecimento sensorial,

experiência, sensibilidade. Foi empregada pela primeira vez nas artes pelo alemão

Baumgarten (1750). Inicialmente referia-se ao estudo das obras de arte enquanto criações

da sensibilidade tendo como finalidade o belo. Aos poucos substitui a noção de arte poética

e passou a designar toda investigação filosófica que tenha por objeto as artes.

A estética quando formulada e desenvolvida nos séc. XVIII e XIX pressupunha:

1 – arte enquanto produto da sensibilidade e imaginação do artista, tendo como finalidade a

contemplação;

2 – a contemplação, do lado do artista, é a busca do belo (e não do útil, nem do agradável) e

do lado do público é o julgamento do valor de beleza atingido pela obra;

3 – que o belo é diferente do verdadeiro.





O verdadeiro é o conhecido pelo intelecto por meio de demonstração e provas. A obra de

arte, em sua singularidade (a beleza) não tem necessidade de demonstrações, provas,

conceitos. Quando observo um quadro posso dizer que são belos embora esteja diante de

algo único e incomparável. O juízo do gosto teria, assim, a peculiaridade de emitir um

julgamento universal, referindo-se, porém, a algo particular.

Desde o séc. XX abandona-se a idéia do juízo do gosto como critério de legitimação das

obras de arte. As artes deixam de ser pensadas sob a ótica exclusiva da beleza para serem







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vistas sob outras perspectivas, tais como expressão de emoções e desejos, intepretação e

crítica da realidade social, atividade criadora de procedimentos inéditos etc.





Com isso a estética aproxima-se cada vez mais da idéia de poética, a arte como trabalho e

não como contemplação e sensibilidade, fantasia e ilusão.





A estética ou filosofia da arte possui três núcleos principais de investigação:

Relação entre arte e Natureza:

A primeira relação entre arte e Natureza foi a da imitação: “ a arte imita a Natureza”,

escreve Aristóteles. O valor da obra decorre da habilidade do artista para encontrar a

melhor forma para obter o efeito imitativo. Imitar não significa reproduzir, mas representar

a realidade através da obediência a regras (harmonia, proporção etc) para que a obra figure

algum ser.

A partir do Romantismo (23 séculos após a definição da arte como imitação), a Filosofia

passa a definir a obra de arte como Criação (segunda relação entre arte e Natureza).

Enquanto anteriormente o valor era buscado na qualidade do objeto imitado, agora o valor é

localizado na figura do artista como gênio criador. A idéia de inspiração passa a explicar a

atividade artística. A obra deve exprimir sentimentos e emoções, muito mais do que figurar

ou representar a realidade. A arte, então, não imita a Natureza, mas liberta-se dela, criando

uma realidade puramente humana e espiritual: pela liberdade criadora, os homens se

igualam a Deus. Em suma, a estética da criação corresponde ao momento em que a

Filosofia separa homem e Natureza.

A concepção contemporânea (terceira relação entre arte e Natureza) concebe a arte como

expressão e construção. A obra de arte não é pura imitação ou reprodução, nem pura

criatividade, mas expressão de um sentido novo, um processo de construção do objeto

artístico em que o artista colabora com a Natureza, separa-se dela ou volta a ela. Essa

concepção corresponde ao momento da sociedade industrial, da técnica transformada em

tecnologia e da ciência como construção rigorosa da realidade. A arte é trabalha da

expressão que constrói um sentido novo e o institui como parte da cultura.







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O artista é um ser social que reflete sobre a sociedade, volta-se para ela, seja para criticá-la,

seja para afirma-la, seja para supera-la. Nessa concepção, o artista no embate constante com

a Natureza e com a sociedade, deixa de ser visto como gênio criador solitário e

excepcional.





Relação entre arte e humano

Duas concepções: A concepção platônica considera a arte uma forma de conhecimento. A

aristotélica toma a arte como atividade da prática.

Para Platão a arte está no plano mais baixo do conhecimento, pois é imitação das coisas

sensíveis, elas próprias imitações das idéias. Na Renascença a concepção platônica é

retomada com um novo sentido: a arte é uma das formas de acesso ao conhecimento

verdadeiro e ao divino, ficando abaixo somente da Filosofia e do êxtase místico. Tal fato se

deve a redescoberta dos escritos herméticos e de magia nos quais se afirma que Deus criou

o homem dando-lhe a capacidade de criar novos deuses e novos mundos, o que ele faz

através da arte e esta lhe dá o conhecimento das formas secretas das coisas.

A valorização da arte como expressão do conhecimento encontra seu auge no Romantismo,

quando a arte é concebida como “o órgão geral da Filosofia”, sob três aspectos: para

alguns, a arte é a única via de acesso ao universal; para outros, como Hegel, as artes são a

primeira etapa da vida consciente do Espírito, preparando a religião e a Filosofia; e outros a

concebem como o único caminho para reatar o singular e o universal, pois através da

singularidade da obra temos acesso ao significado universal de alguma realidade. Nessa

última perspectiva encontra-se Heidegger, para quem a obra de arte é desvelamento da

verdade.

A concepção aristotélica parte da diferença entre o teórico e o prático, tomando a arte como

atividade prática fabricadora. Essa concepção recebe duas contribuições no século XIX: a

dos que afirmam a utilidade social das artes (em particular a arquitetura) e a dos que

afirmam o caráter lúdico das artes, como Nietzsche, para quem a arte é jogo, liberdade

criadora, embriaguez e delírio, é “uma exaltação do sentimento da vida e um estimulante da

vida”.







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Finalidades-funções da arte

Duas concepções: a concepção pedagógica encontra primeira formulação em Platão e

Aristóteles. No livro República, expondo a pedagogia para a criação da cidade perfeita,

Platão exclui poetas, pintores e escultores porque imitam o mundo das idéias, porém coloca

a dança e a música como disciplinas fundamentais na formação do corpo e da alma. Para

Platão gramática, estratégia, aritmética, geometria e astronomia são artes e seu ensino é

indispensável na formação dos guerreiros e, acrescentadas da arte dialética, na formação

dos filósofos.

Aristóteles no livro Arte Poética, desenvolve o papel pedagógico das artes, particularmente

da tragédia que tem a função de produzir a catarse (purificação espiritual dos

espectadores).

A concepção pedagógica da arte reaparece em Kant, ao afirmar que a função mais alta da

arte é produzir o sentimento do sublime (elevação de nosso espírito diante da beleza como

algo terrível, aproximação do infinito). Também Hegel insiste no papel educativo da arte. A

pedagogia artística se efetua sob duas modalidades: na primeira, a arte é o meio para a

educação moral da sociedade; na segunda, pela maneira como destrói a brutalidade da

matéria, impondo-lhe a pureza da forma, educa a sociedade para passar do artístico à

espiritualidade, ou para passar da religião da exterioridade (os deuses estão visíveis na

Natureza) à religião da interioridade (o absoluto é a razão e a verdade).

O pensamento estético de esquerda também atribui finalidade pedagógica às artes, dando-

lhe a tarefa de crítica social e política, além da imaginação da sociedade futura. A arte deve

ser engajada ou comprometida, servindo como instrumento de libertação.

Numa outra perspectiva, a arte é expressão. Assim a arte faz ver a visão, faz falar a

linguagem, faz ouvir a audição, faz sentir as mãos e o corpo, faz emergir o natural da

Natureza, o cultural da Cultura. Como expressão, a arte desequilibra o instituído, descentra

formas e palavras, retirando-as do contexto costumeiro para fazer-nos conhece-las numa

dimensão criadora. Por ser expressiva, é alegórica e simbólica.









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Alegoria vem do grego, significa: falar de outra coisa ou falar de uma coisa por meio de

outra. Essa outra coisa é o símbolo. Assim, a balança e a estátua de olhos vendados são

símbolos da justiça. O símbolo, em grego, é o que une, junta os diferentes, dando-lhes um

sentido único. A obra de arte é essa unidade simbólica que nos abre o acesso ao verdadeiro

e ao sublime, ao terrível e ao belo, ao sublime e ao prazer.

A arte como expressão não é apenas alegoria e símbolo. É algo mais profundo que procura

exprimir o mundo através do artista. Um quadro não é senão tinta, traço, cor etc, e no

entanto, quando o vemos não olhamos essa materialidade e sim o mundo de significações

ali expresso e que não poderia exprimir-se sem aquela materialidade. Assim é em todas as

artes: o instante expressivo é instituinte do novo. Realizada a obra, ela passa, na interação

com o público, a fazer parte da cultura existente, tornando-se instituída. A arte nos traz uma

terceira revelação: mostra que a Cultura é um movimento contínuo. De fato, cada artista,

para exprimir-se, retoma as obras dos outros autores e as suas próprias para produzir uma

nova obra, que por sua vez, será retomada para novas expressões.

Assim, a obra de arte nos traz uma última revelação: a História é o movimento incessante

no qual o presente (o artista trabalhando) retoma o passado (o trabalho dos outros) e abre o

futuro (a nova obra).





ARTE E SOCIEDADE









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