UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE BELAS ARTES
TÓPICOS EM ARTES PLÁSTICAS: LEITURAS E RELEITURAS DA OBRA DE ARTE
Profa. Lucia Gouvêa Pimentel
Estágio Docência: Marcelino Peixoto Melo
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Leitura e releitura de obras de arte
Marcelino Peixoto Melo
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O universo da arte
Arte = unidade do eterno e do novo, aparentemente impossível, realizada pelos e para os
humanos.
P/ Merleau-Ponty, “o primeiro desenho nas cavernas fundava uma tradição porque
recolhia uma outra: a da percepção. A quase eternidade da arte confunde-se com a quase
eternidade da existência humana encarnada e por isso temos, no exercício de nosso corpo
e de nossos sentidos, com que compreender nossa gesticulação cultural, que nos insere no
tempo”.
A obra de Arte dá a ver, a ouvir, a sentir, a pensar, a dizer. Nela e por ela, a realidade se
revela como se jamais a tivéssemos visto, ouvido, dito, sentido ou pensado.
A arte pode ser o caminho do instituído ao instituinte. Um leve deslocamento do sentido
instituído e a explosão de um outro sentido. Transfiguração do existente numa outra
realidade, que o faz renascer sob a forma de uma obra.
As obras de arte realizam o desvendamento do mundo recriando o mundo noutra dimensão
e de tal maneira que a realidade não está aquém e nem na obra, mas é a própria obra de arte.
ARTE E TÉCNICA
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Resumo: COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.
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Profa. Lucia Gouvêa Pimentel
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Arte vem do latim ars que corresponde ao termo grego techne (técnica), significando: o que
é ordenado ou toda espécie de atividade humana submetida a regras.
Seu campo semântico se define em oposição ao acaso, ao espontâneo e ao natural. Assim
sendo, arte é um conjunto de regras para dirigir uma atividade humana qualquer.
Nessa perspectiva falamos em arte médica, poética, política, bélica, retórica etc.
Platão não a distinguia das ciências nem da Filosofia, uma vez que, como a arte, estas são
atividade ordenadas.
Aristóteles estabelece uma distinção entre ação (práxis) e fabricação (poiesis). A política e
a ética são ciências da ação. As artes ou técnicas, são atividades de fabricação.
Plotino distingue técnicas ou artes cuja finalidade é auxiliar a Natureza (medicina,
agricultura) daquelas cuja finalidade é fabricar um objeto com os materiais oferecidos pela
Natureza (artesanato). Distingue também outro conjunto de técnicas que não se relacionam
com a Natureza, mas apenas com o homem, para torna-lo melhor ou pior (música e retórica,
por exemplo).
A classificação das técnicas ou artes seguirá um padrão calcado na estrutura social fundada
na escravidão, que despreza o trabalho manual. O historiador romano Varrão ofereceu uma
classificassão que perdurou do séc. II d.C. ao séc XV: artes liberais (gramática, retórica,
lógica, geometria, astronomia e música – própria dos homens livres) e artes mecânicas
(medicina, arquitetura, agricultura, pintura, escultura, olaria, tecelagem etc – própria do
trabalhador manual).
Essa classificação será justificada por Santo Tomás de Aquino (Idade Média) como
diferença entre as artes que dirigem o trabalho da razão e as artes que dirigem o trabalho
das mãos. Somente a alma é livre e o corpo é uma prisão. Assim as artes liberais são
superiores as artes mecânicas.
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A partir da Renascença, com o humanismo que dignifica o corpo humano, passa-se a
valorizar as artes mecânicas. Além disso, a medida que o capitalismo se desenvolve, o
trabalho passa a ser considerado fonte e causa de riquezas.
No final do séc. XVII e a partir do XVIII, distinguiram-se as finalidades das artes
mecânicas: as que tem por finalidade serem úteis aos homens (medicina, agricultura,
culinária, artesanato) e aquelas cuja finalidade é o belo (pintura, escultura, arquitetura,
poesia, música, teatro, dança). Com a idéia do belo surge as sete artes ou belas artes.
Com a distinção entre o útil e o belo, leva a noção da arte como ação individual vinda da
sensibilidade do artista como gênio criador.
Com a criação do belo (finalidade da arte) torna-se inseparável a figura do público, que
julga e avalia o objeto artístico conforme tenha realizado ou não a beleza. Surge o conceito
de juízo de gosto, estudado amplamente por Kant.
Gênio criador (do lado do artista) beleza, (do lado da obra); juízo de gosto (do lado do
público) constituem os pilares sobre os quais se erguerá uma disciplina filosófica: a
estética.
Porém, desde o final do século XIX e durante o séc. XX, modificou-se a relação entre arte e
técnica. As artes passaram a ser concebidas menos como criação genial e mais como
expressão criadora, isto é, como transfiguração do visível, do sonoro, do movimento, da
linguagem, dos gestos em obras artística.
A arte não perde, necessariamente, seu vínculo com a idéia de beleza, mas a subordina a
outros valores. A s artes não pretendem imitar a realidade, nem pretendem ser ilusões sobre
a realidade, mas exprimir por meios artísticos, a realidade.
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ARTE E RELIGIÃO
Trabalho e religião foram as primeiras formas de sociabilidade. Instituíram os símbolos de
organização humana do espaço e do tempo, do corpo e do espírito. As artes
(técnicas/mecânicas) formaram um par inseparável.
Na relação com o sagrado, as atividades humanas assumiram a forma de rituais: a guerra, a
semeadura, a colheita, o nascimento e a morte, a doença e cura, as estações etc, tudo
assume a forma de culto religioso. A sacralização e a ritualização da vida faz com que as
artes mecânicas (medicina, agricultura, música, adornos etc) tornem-se elementos de cultos.
As belas artes (sete artes) nascem no interior dos cultos e para servi-los. Levarão milhares
de anos para que surjam como atividade cultural autônoma.
A dimensão religiosa das artes deu aos objetos artísticos ou às obras de arte uma qualidade
que foi estudada pelo filósofo alemão Walter Benjamim: a aura. A aura é a absoluta
singularidade do ser (irrepetível). A obra de arte aurática é aquela que torna distante o que
está perto, porque transfigura a realidade, dando-lhe a qualidade da transcendência.
“observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas
no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós,
significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho.”
Walter Benjamim
As artes tinham como finalidade sacralizar e divinizar o mundo – tornando-o distante e
transcendente – e, ao mesmo tempo, presentificar os deuses aos homens – tornando o
divino próximo e imanente – sua origem religiosa transmitiu às obras de arte a qualidade
aurática mesmo quando deixaram de ser parte da religião para se tornarem autônomas e
belas-artes.
“o valor único da obra de arte “autêntica” tem sempre um fundamento
teológico, por mais remoto que seja.”
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Walter Benjamim
ARTE E FILOSOFIA
Num primeiro momento, a Filosofia trata as artes sob a forma da poética; num segundo
momento, a partir do século XVII, sob a forma da estética.
A palavra poética é a tradução para poiesis, portanto para a fabricação. A arte poética
estuda as obras sob a égide da fabricação, ou seja das coisas produzidas pelos seres
humanos.
Estética é a tradução da palavra grega aesthesis, que significa conhecimento sensorial,
experiência, sensibilidade. Foi empregada pela primeira vez nas artes pelo alemão
Baumgarten (1750). Inicialmente referia-se ao estudo das obras de arte enquanto criações
da sensibilidade tendo como finalidade o belo. Aos poucos substitui a noção de arte poética
e passou a designar toda investigação filosófica que tenha por objeto as artes.
A estética quando formulada e desenvolvida nos séc. XVIII e XIX pressupunha:
1 – arte enquanto produto da sensibilidade e imaginação do artista, tendo como finalidade a
contemplação;
2 – a contemplação, do lado do artista, é a busca do belo (e não do útil, nem do agradável) e
do lado do público é o julgamento do valor de beleza atingido pela obra;
3 – que o belo é diferente do verdadeiro.
O verdadeiro é o conhecido pelo intelecto por meio de demonstração e provas. A obra de
arte, em sua singularidade (a beleza) não tem necessidade de demonstrações, provas,
conceitos. Quando observo um quadro posso dizer que são belos embora esteja diante de
algo único e incomparável. O juízo do gosto teria, assim, a peculiaridade de emitir um
julgamento universal, referindo-se, porém, a algo particular.
Desde o séc. XX abandona-se a idéia do juízo do gosto como critério de legitimação das
obras de arte. As artes deixam de ser pensadas sob a ótica exclusiva da beleza para serem
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vistas sob outras perspectivas, tais como expressão de emoções e desejos, intepretação e
crítica da realidade social, atividade criadora de procedimentos inéditos etc.
Com isso a estética aproxima-se cada vez mais da idéia de poética, a arte como trabalho e
não como contemplação e sensibilidade, fantasia e ilusão.
A estética ou filosofia da arte possui três núcleos principais de investigação:
Relação entre arte e Natureza:
A primeira relação entre arte e Natureza foi a da imitação: “ a arte imita a Natureza”,
escreve Aristóteles. O valor da obra decorre da habilidade do artista para encontrar a
melhor forma para obter o efeito imitativo. Imitar não significa reproduzir, mas representar
a realidade através da obediência a regras (harmonia, proporção etc) para que a obra figure
algum ser.
A partir do Romantismo (23 séculos após a definição da arte como imitação), a Filosofia
passa a definir a obra de arte como Criação (segunda relação entre arte e Natureza).
Enquanto anteriormente o valor era buscado na qualidade do objeto imitado, agora o valor é
localizado na figura do artista como gênio criador. A idéia de inspiração passa a explicar a
atividade artística. A obra deve exprimir sentimentos e emoções, muito mais do que figurar
ou representar a realidade. A arte, então, não imita a Natureza, mas liberta-se dela, criando
uma realidade puramente humana e espiritual: pela liberdade criadora, os homens se
igualam a Deus. Em suma, a estética da criação corresponde ao momento em que a
Filosofia separa homem e Natureza.
A concepção contemporânea (terceira relação entre arte e Natureza) concebe a arte como
expressão e construção. A obra de arte não é pura imitação ou reprodução, nem pura
criatividade, mas expressão de um sentido novo, um processo de construção do objeto
artístico em que o artista colabora com a Natureza, separa-se dela ou volta a ela. Essa
concepção corresponde ao momento da sociedade industrial, da técnica transformada em
tecnologia e da ciência como construção rigorosa da realidade. A arte é trabalha da
expressão que constrói um sentido novo e o institui como parte da cultura.
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O artista é um ser social que reflete sobre a sociedade, volta-se para ela, seja para criticá-la,
seja para afirma-la, seja para supera-la. Nessa concepção, o artista no embate constante com
a Natureza e com a sociedade, deixa de ser visto como gênio criador solitário e
excepcional.
Relação entre arte e humano
Duas concepções: A concepção platônica considera a arte uma forma de conhecimento. A
aristotélica toma a arte como atividade da prática.
Para Platão a arte está no plano mais baixo do conhecimento, pois é imitação das coisas
sensíveis, elas próprias imitações das idéias. Na Renascença a concepção platônica é
retomada com um novo sentido: a arte é uma das formas de acesso ao conhecimento
verdadeiro e ao divino, ficando abaixo somente da Filosofia e do êxtase místico. Tal fato se
deve a redescoberta dos escritos herméticos e de magia nos quais se afirma que Deus criou
o homem dando-lhe a capacidade de criar novos deuses e novos mundos, o que ele faz
através da arte e esta lhe dá o conhecimento das formas secretas das coisas.
A valorização da arte como expressão do conhecimento encontra seu auge no Romantismo,
quando a arte é concebida como “o órgão geral da Filosofia”, sob três aspectos: para
alguns, a arte é a única via de acesso ao universal; para outros, como Hegel, as artes são a
primeira etapa da vida consciente do Espírito, preparando a religião e a Filosofia; e outros a
concebem como o único caminho para reatar o singular e o universal, pois através da
singularidade da obra temos acesso ao significado universal de alguma realidade. Nessa
última perspectiva encontra-se Heidegger, para quem a obra de arte é desvelamento da
verdade.
A concepção aristotélica parte da diferença entre o teórico e o prático, tomando a arte como
atividade prática fabricadora. Essa concepção recebe duas contribuições no século XIX: a
dos que afirmam a utilidade social das artes (em particular a arquitetura) e a dos que
afirmam o caráter lúdico das artes, como Nietzsche, para quem a arte é jogo, liberdade
criadora, embriaguez e delírio, é “uma exaltação do sentimento da vida e um estimulante da
vida”.
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Finalidades-funções da arte
Duas concepções: a concepção pedagógica encontra primeira formulação em Platão e
Aristóteles. No livro República, expondo a pedagogia para a criação da cidade perfeita,
Platão exclui poetas, pintores e escultores porque imitam o mundo das idéias, porém coloca
a dança e a música como disciplinas fundamentais na formação do corpo e da alma. Para
Platão gramática, estratégia, aritmética, geometria e astronomia são artes e seu ensino é
indispensável na formação dos guerreiros e, acrescentadas da arte dialética, na formação
dos filósofos.
Aristóteles no livro Arte Poética, desenvolve o papel pedagógico das artes, particularmente
da tragédia que tem a função de produzir a catarse (purificação espiritual dos
espectadores).
A concepção pedagógica da arte reaparece em Kant, ao afirmar que a função mais alta da
arte é produzir o sentimento do sublime (elevação de nosso espírito diante da beleza como
algo terrível, aproximação do infinito). Também Hegel insiste no papel educativo da arte. A
pedagogia artística se efetua sob duas modalidades: na primeira, a arte é o meio para a
educação moral da sociedade; na segunda, pela maneira como destrói a brutalidade da
matéria, impondo-lhe a pureza da forma, educa a sociedade para passar do artístico à
espiritualidade, ou para passar da religião da exterioridade (os deuses estão visíveis na
Natureza) à religião da interioridade (o absoluto é a razão e a verdade).
O pensamento estético de esquerda também atribui finalidade pedagógica às artes, dando-
lhe a tarefa de crítica social e política, além da imaginação da sociedade futura. A arte deve
ser engajada ou comprometida, servindo como instrumento de libertação.
Numa outra perspectiva, a arte é expressão. Assim a arte faz ver a visão, faz falar a
linguagem, faz ouvir a audição, faz sentir as mãos e o corpo, faz emergir o natural da
Natureza, o cultural da Cultura. Como expressão, a arte desequilibra o instituído, descentra
formas e palavras, retirando-as do contexto costumeiro para fazer-nos conhece-las numa
dimensão criadora. Por ser expressiva, é alegórica e simbólica.
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Alegoria vem do grego, significa: falar de outra coisa ou falar de uma coisa por meio de
outra. Essa outra coisa é o símbolo. Assim, a balança e a estátua de olhos vendados são
símbolos da justiça. O símbolo, em grego, é o que une, junta os diferentes, dando-lhes um
sentido único. A obra de arte é essa unidade simbólica que nos abre o acesso ao verdadeiro
e ao sublime, ao terrível e ao belo, ao sublime e ao prazer.
A arte como expressão não é apenas alegoria e símbolo. É algo mais profundo que procura
exprimir o mundo através do artista. Um quadro não é senão tinta, traço, cor etc, e no
entanto, quando o vemos não olhamos essa materialidade e sim o mundo de significações
ali expresso e que não poderia exprimir-se sem aquela materialidade. Assim é em todas as
artes: o instante expressivo é instituinte do novo. Realizada a obra, ela passa, na interação
com o público, a fazer parte da cultura existente, tornando-se instituída. A arte nos traz uma
terceira revelação: mostra que a Cultura é um movimento contínuo. De fato, cada artista,
para exprimir-se, retoma as obras dos outros autores e as suas próprias para produzir uma
nova obra, que por sua vez, será retomada para novas expressões.
Assim, a obra de arte nos traz uma última revelação: a História é o movimento incessante
no qual o presente (o artista trabalhando) retoma o passado (o trabalho dos outros) e abre o
futuro (a nova obra).
ARTE E SOCIEDADE
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