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LITERATURA

Profª Rosimara

1º Ano

UFJF

GREGÓRIO DE MATOS1

Sua primeira biografia foi escrita pelo licenciado Manuel Pereira Rabelo, sob o título

Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos e Guerra, provavelmente em

meados do século XVIII, como abertura do manuscrito que procurava reunir as poesias

completas do trovador baiano. O autor dessa biografia enfatiza a riqueza da família de Gregório

de Matos, chamando a atenção para o número de escravos que possuíam, mais de 130, ficando

claro que os Matos exerciam relação direta com a principal fonte econômica da Colônia, o

açúcar, fazendo parte da classe dominante como colonizadores e não como colonizados.



Conhecido como “Boca do Inferno”, devido à sua produção satírica, Gregório de Matos

foi o maior poeta do Barroco brasileiro. Devido às suas sátiras, foi perseguido pelo governador

baiano Antônio Souza de Menezes, o “Braço de Prata”. O poeta foi extremamente irreverente.

Irreverente como pessoa, ao chocar os valores e a falsa moral da sociedade moral do seu tempo;

irreverente como poeta lírico, porque seguia e, ao mesmo tempo, quebrava os modelos barrocos

europeus; irreverente principalmente como poeta satírico, na medida em que, empregando um

vocabulário chulo, de baixo calão, denunciou as contradições e falsidades daquela sociedade,

ignorando o poder das autoridades políticas e religiosas.



Hoje, no entanto, a obra de Gregório de Matos é reconhecida como um projeto literário

que não só abriu uma tradição entre nós, mas também superou os limites do movimento a que

estava filiada – o Barroco – e o poeta chegou a ser, em pleno século XVII, de certa forma, um

dos precursores da poesia moderna do século XXI, quer pelo experimentalismo formal, quer

pela incorporação de variados registros de linguagem.



Como não havia imprensa no Brasil-Colônia, seus poemas tiveram circulação

manuscrita e oral, o que lhe aumentou a fama e de certa forma incentivou o lado agressivo e

desbocado de sua sátira, mas por outro lado, criou a interminável discussão sobre a

autenticidade autoral dos poemas a ele atribuídos.



Para o poeta contemporâneo Sebastião Nunes, se fosse vivo Matos Guerra arremeteria,

com sua língua saburrosa e seus verbos salgados, contra barões assinalados, capitães

engalanados, governadores tarados, ricações empertigados, doutores endiabrados e padres

destemperados. Mas para quê? Pois aí continuam eles, risonhos e francos, ricos e saúvas,

fagueiros e finórios, poderosos e larápios, tamanduás e corruptores, papudos e muriçocas,

desde o Primeiro Encontro Internacional de Escritores, patrocinado por Ramsés, o Grande.



1

Gregório de Matos e Guerra nasceu na Bahia (1636) e morreu em Recife (1695). Em 1652, segue para

cursar leis em Coimbra, depois de haver estudado no Colégio dos Jesuítas da Bahia. Aos 14 anos vai para

a Metrópole estudar leis e, aos 16, matricula-se na Universidade de Coimbra (1652) Saiu formado em

1661, ano em que casou com dona Michaella Andrade, que não lhe deu filhos. Em 1678, ficou viúvo e,

em 1681, voltou ao Brasil para exercer um cargo na arquidiocese baiana. Leitura de Gôngora, Quevedo,

Camões, etc., consubstanciaram sua formação intelectual. Na Bahia, leva uma vida boêmia e

indisciplinada, improvisando verso, tocando viola, caçoando de toda gente, inclusive de membros da

arquidiocese e de políticos. Apesar disso, casou novamente, agora com dona Maria dos Povos, teve

alguns filhos e proteção da arquidiocese e de alguns bispos e governadores. Caiu no desagrado, foi banido

para Angola, 1694, permanecendo na África por um ano. Consegue regressar ao Brasil, em 1695, mas sob

duas condições: estava proibido de pisar em terras baianas e de apresentar suas sátiras. Em Pernambuco,

passa os últimos anos de sua vida e, dessa época, surgem as admiráveis poesias descritivas do Recife e

outros recantos da capitania. Foi sepultado no Hospício de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos.

POESIA SATÍRICA



A sátira aos mais variados aspectos do sistema e do poder fez de Gregório de Matos um

poeta maldito. O apelido “Boca do Inferno” refere-se à sua capacidade de provocação, à

ridicularização de políticos e de religiosos e à zombaria dos que viviam para bajular e louvar os

poderosos. Seu olhar crítico revela aspectos negativos da vida na Bahia e em Pernambuco em

fins do século XVII. Ele denuncia, com irreverência, a corrupção econômica dos políticos e a

corrupção moral dos padres e freiras. Como ele mesmo afirmou em um de seus textos: “Eu falo,

seja o que for”.

O aspecto satírico do poema de Gregório de Matos é um dos traços que contribuiu para

“abrasileirar” o barroco importado da Europa. De fato, a leitura de seus poemas atesta a

importância e o vigor de sua obra no momento em que a produção literária brasileira começava

a dar os primeiros passos.



A)

À cidade da Bahia



Triste Bahia! Ó quão dessemelhante

Estás e estou do nosso antigo estado,

Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mim abundante.



A ti trocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando e tem trocado

Tanto negócio e tanto negociante.



Deste em dar tanto açúcar excelente

Pelas drogas inúteis, que abelhuda

Simples aceitas do sagaz Brichote.



Oh, se quisera Deus, que, de repente,

Um dia amanheceras tão sisuda

Que fora de algodão o teu capote!







B)

Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia2.



A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana e vinha,3

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.



Em cada porta um freqüente olheiro,

Que a vida do vizinho e da vizinha



2

Neste soneto satírico, GM vai falar aos “Senhores governadores do mundo em seco da cidade da Bahia,

e seus costumes”. O poeta vai criticar a promiscuidade, a incompetência, a desonestidade e a ascensão do

mulato, que subjuga os homens nobres, trazendo-os pelos pés. Alguns costumes são cometidos pelo

próprio poeta, pois, afinal, a sua sátira pesquisa, escuta e esquadrinha.

3

Terreno plantado de videiras, arbusto que dão uva.

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

Para levar à Praça e ao Terreiro.4



Muitos mulatos desavergonhados,

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta na palma toda picardia.5



Estupendas usuras6 nos mercados,

Todos, os que não furtam, muito pobres,

E eis aqui a cidade da Bahia.









C)

Contemplando nas coisas do mundo desde o seu retiro,lhe atira com o seu apage7, como

quem a nado escapou da tormenta.



Neste mundo é mais rico, o que mais rapa8;

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa9;

Com a sua língua ao nobre o vil decepa10;

O velhaco maior sempre tem capa.



Mostra o patife da nobreza o mapa11

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa12;

Quem menos falar pode, mais increpa13:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.



A flor baixa se inculca por Tulipa14;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa15

Mais isento se mostra, o que mais chupa16.



Para a tropa do trapo vazo a tripa17

4

O terreiro mencionado é a zona central da Bahia, ao lado da Praça de Sá. Mas os defeitos citados pelo

poeta não são restritos à cidade da Bahia.

5

O poeta critica a picardia, isto é, a esperteza dos mulatos arrivistas que subjugam os homens nobres.

6

Juros excessivos.

7

Interjeição que expressa: fora daqui! Some! Racha fora!

8

O poeta vai valer-se de aliterações, com intenção lúdica e cômica. Observar que as três primeiras

estrofes apresentam versos autônomos, como se fossem aforismas, ou seja, máximas ou provérbios

criticando os falsos fidalgos da Bahia.

9

Sujeira.

10

Entenda-se: o vil, o que não presta, fala mal do nobre.

11

Aquele que se pretende descender de uma linhagem nobre, fraudando a genealogia.

12

Crítica aos arrivistas, aos oportunistas.

13

Paráfrase do provérbio: sujo falando do mau lavado ou roto falando do maltrapilho.

14

Verso metafórico, em que a flor baixa representa o vulgar, que quer aparentar uma condição nobre,

como é nobre a tulipa.

15

Verso metonímico, em que a bengala é índice de nobreza, ao passo que a garlopa (plaina), instrumento

do carpinteiro, é índice do trabalho braçal.

16

Os que mais cometem delitos ou corrupções querem aparentar inocência.

17

Vazar a tripa é defecar. O rumos dos gazes intestinais foi sugerido pelas aliterações cortantes dos

tr...tr...tr...

E mais não digo, porque a Musa topa18

Em apa, epa, ipa, opa, upa19



D)

Queixa-se o poeta da plebe ignorante e perseguidora das virtudes



Carregado de mim ando no mundo,

E o grande peso embarga-me20 as passadas,

Que como ando por vias desusadas,

Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.



O remédio será seguir o imundo

Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,

Que as bestas andam juntas mais ousadas,

Do que anda só o engenho mais profundo.



Não é fácil viver entre os insanos,

Erra, quem presumir que sabe tudo,

Se o atalho não soube dos seus danos.



O prudente varão há de ser mudo,

Que é melhor neste mundo, mar de enganos,

Ser louco co’s demais, que ser sisudo

E)

Aos principais da Bahia chamados os Caramurus21



Há cousa como ver um Paiaiá22

Mui prezado de ser Caramuru,

Descendente de sangue de Tatu23,

Cujo torpe24 idioma é cobé pá.



A linha feminina é carimá25

Moqueca, pititinga26, caruru27



18

Observar o caráter metalingüístico do verso, salientado pela referência à Musa.

19

Aplicação cômica do processo da disseminação e recolha: o poeta reagrupa as rimas usadas ao longo

das estrofes. Pode-se pensar, também, no caráter onomatopaico desses sufixos, que sugerem o som dos

excrementos caindo.

20

Estorva, impede. No início do soneto, em que se fala de um mundo às avessas, em que o certo é o

errado e o errado é o certo, percebe-se um tom de lirismo melancólico, subjetividade profunda no

descompasso entre o eu e o mundo.

21

Os caramurus, pejorativamente, são os brancos importantes, fidalgos da Bahia, que serão ironizados.

Nesse soneto, haverá a desqualificação da cultura indígena, pois os supostos fidalgos não passam de

descendentes de uma raça inferior, no ponto de vista etnocêntrico de Gregório, que os vê com olhos de

europeu.

22

Pajé. Observar a sonoridade da língua tupi, na época conhecida como idioma cobepá, dialeto da tribo

Cobé.

23

Gregório de Matos faz a caricatura da genealogia dos fidalgos, que são animalizados. O tatu é um bicho

de casca grossa.

24

A língua indígena é desvalorizada pelo adjetivo torpe. O poeta ridiculariza vocábulos, mas os utiliza,

dando grande sonoridade ao texto.

25

Bolo de farinhas de mandioca. Observar que a linhagem feminina associa-se à culinária, evidenciando

que, naquele tempo, lugar de mulher era mesmo na cozinha, ou realçando o papel de mulher-objeto –

como algo a ser comido.

26

Tipo de peixe.

27

Guisado de quiabo com camarão seco, peixe, azeite de dendê.

Mingau de puba28 e vinho de caju

Pisado num pilão de Piraguá29.



A30 masculina é um Aricobé31

Cuja filha cobé um branco Paí32

Dormiu no promontório de Passé33.



O branco era um marau34, que veio aqui,

Ela era uma índia de Maré

Cobé pá, Aricobé, Cobe Pai.

F)

A certa personagem desvanecida

(Ao conde de Ericeyra D. Luiz de Menezes pedindo louvores ao poeta não lhe achando elle

préstimo algum)



Um soneto começo em vosso gabo:

Contemos esta regra por primeira,

Já lá vão duas, e esta é a terceira,

Já este quartetinho está no cabo.



Na quinta torce agora a porca o rabo;

A sexta vá também desta maneira:

Na sétima entro já com grã canseira,

E saio dos quartetos muito brabo.



Agora nos tercetos que direi?

Direi que vós, Senhor, a mim me honrais

Gabando-vos a vós, e eu fico um rei.



Nesta vida um soneto já ditei;

Se desta agora escapo, nunca mais

Louvado seja Deus, que o acabei.

POESIA LÍRICA





No conjunto da obra de Gregório de Matos, a poesia lírica é idealista, às vezes

emocional, às vezes conceitual, mas quase sempre guarda o espírito das tensões que

caracterizam o movimento barroco em geral.

O sentimento amoroso é fortemente marcado pela característica barroca do contraste, da

identificação entre opostos. A noção do pecado vem fortemente marcada neste poeta que

questiona a beleza entre os homens: para que a beleza, se a função dela é perdição?

A mulher é focalizada do ponto de vista da ambigüidade. Ela é, por um lado, um anjo,

mas como causa desventura, acaba por ser identificada com o Demônio.

Sua poesia lírica insiste na imagem que a ideologia católica contra-reformista

responsabilizou-se por difundir, confundindo o misticismo sedutor com a carne pecadora,



28

Mingau de mandioca.

29

Piraguá ou pirajpá, nome de lugar, na Bahia, onde havia muitos peixes.

30

Elipse da palavra linha, isto é, a dinastia.

31

Designação de uma tribo de índios, ascendentes do paiaiá, mencionado, que morava nas cercanias da

cidade.

32

Refere-se a um senhor, que pode ser, também, um frade.

33

Promontório é uma montanha; passe é relativo a uma tribo aruaque da região situada entre os rios

Negro e Içá, no Amazonas.

34

Deriva do francês maraud, significando indivíduo espertalhão, astucioso.

configurando à mulher uma imagem conflituosa. Note esses aspectos nos sonetos dedicados à

Dona Ângela.

Obs.: ver mais poemas dedicados à dona Ângela, na antologia anexa.



G)

Pondera agora com mais atenção a formosura de D. Ângela



Não vi em minha vida a formosura,

Ouvia falar nela cada dia,

E ouvida me incitava, e me movia

A querer ver tão bela arquitetura.



Ontem a vi por minha desventura

Na cara, no bom ar, na galhardia

De uma Mulher, que em Anjo se mentia,

De um Sol, que se trajava em criatura.



Me matem (disse então vendo abrasar-me)

Se esta a cousa não é, que encarecer-me.

Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.



Olhos meus (disse então por defender-me)

Se a beleza hei de ver para matar-me,

Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.



H)



Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e temendo perder por

ousado



Anjo no nome, Angélica na cara,

Isso é ser flor, e Anjo juntamente,

Ser Angélica flor, e Anjo florente,

Em quem, senão em vós se uniformara?



Quem veria uma flor, que a não cortara

De verde pé, de rama florescente?

E quem um Anjo vira tão luzente,

Que por seu Deus, o não idolatrara?



Se como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu custódio, e minha guarda

Livrara eu de diabólicos azares.



Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.



I)

Pergunta-se neste problema, qual é o maior, se o bem perdido na posse, ou o que se perde

antes de se lograr? Defende o bem já possuído.

Quem perde o bem, que teve possuído

A morte não dilate ao banimento,

Que esta dor, esta mágoa, este tormento

Não pode ter tormento parecido.



Quem perde o bem logrado, tem perdido

O discurso, a razão, o entendimento:

Porque caber não pode em pensamento

A esperança de ser restituído.



Quanto fosse a esperança alento à vida,

Te nas faltas do bem seria engano

O presumir melhoras desta Sorte.



Porque onde falta o bem, é harmonia

A memória, que atalha o próprio dano,

O Refúgio, que priva a mesma morte.

J)

Namorado, o poeta fala com um arroio

Como corres, arroio fugitivo?

Adverte, pára, pois precipitado

Corres soberbo, como o meu cuidado,

Que sempre a despenhar se corre altivo.



Torna atrás, considera discursivo,

Que esse curso, que levas apressado,

No caminho que empreendes despenhado

Te deixa morto, e me retrata vivo.



Porém corre, não pares, pois o intento,

Que teu desejo conseguir procura,

Logra o ditoso fim do pensamento.



Triste de um pensamento sem ventura,

Que tendo venturoso o nascimento,

Não acha assim ditosa a sepultura.

K)

A um penhasco vertendo água



Como exalas, Penhasco, o licor puro,

Lacrimante a floresta lisonjeando,

Se choras por ser duro, isso é ser brando,

Se choras por ser brando, isso é ser duro.



Eu, que o rigor lisonjear procuro,

No mal me rio, dura penha, amando;

Tu, penha, sentimentos ostentando,

Que enterneces a selva, te asseguro.



Se a desmentir objetos me desvio,

Prantos, que o peito banham, corroboro

De teu brotado humor, regato frio.



Chora festivo já, ó cristal sonoro,

Que quanto choras, se converte em rio,

E quanto eu rio, se converte em choro.

L)

Aos afetos, e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem35



Ardor em firme coração nascido!

Pranto por belos olhos derramado!

Incêndio em mares de água disfarçado!

Rio de neve em fogo convertido!36



Tu, que em um peito abrasas escondido;

Tu, que em um rosto corres desatado;

Quando fogo, em cristais aprisionado;

Quando cristal em chamas derretido.37



Se és fogo, como passas brandamente?

Se és neve, como queimas com porfia?38

Mas ai! Que andou Amor em ti prudente!



Pois para temperar a tirania,39

Como quis que aqui fosse a neve ardente

Permitiu parecesse a chama fria.





PONTOS DE DESTAQUE



 Gregório de Matos cultivou a poesia lírica, satírica e religiosa (esta última não consta na

nossa antologia de estudos, por não constar na lista do PISM, entretanto, em virtude da

sua beleza formal e temática, acrescentamos algumas no APÊNDICE), dando-lhes,

sobretudo, a forma do soneto e fazendo, como se viu, pequenas introduções, onde

contextualiza o assunto sobre o qual vai discorrer.

 Geralmente, empregou nos sonetos os versos decassílabos e o esquema rímico ABBA,

ABBA, CDC e DCD. A importância disso está na obediência a um padrão único que o

poeta conheceu e defendeu: o verso decassílabo é uma herança clássica, que persistiu

durante todo o Barroco e pela história da literatura afora.

 Há que ressaltar, ainda, que o vocabulário de Gregório de Matos foge ao rebuscamento.

O poeta recusa o preciosismo em prol de uma mensagem bem objetiva. Nesse ponto,

ele não á essencialmente cultista nem levou ao extremo a característica de prolixidade

que caracteriza o cultismo, reservando a este apenas alguns aspectos em alguns poemas.

 Seu barroquismo é conceptista, principalmente nos poemas líricos e religiosos, em que

ele está sempre fazendo um jogo de opostos: a mulher é anjo e demônio, ao mesmo





35

Trata-se de um soneto altamente metafórico, em que o lúdico se manifesta, a todo instante, no jogo de

oposições entre o amor (afeto), associado ao quente, enquanto a lágrima é relacionada ao frio. Ornato

dialético, retórica, cultismo e conceptismo, antíteses e paradoxos, metonímias e metáforas, influência

gongórica, eis o que o texto exibe, em cada concha, em cada espuma de linguagem.

36

A hiperbólica metáfora é acrescida de um pleonasmo (mares de água). Pode-se perceber também, ao

longo das estrofes, a oposição entre o que é estático, firme, e o que se espalha, derrete, move-se, derrama.

Os belos olhos são da dama e não do poeta. É o poeta quem chora por ela.

37

A técnica paralelística é marcante nessa estrofe, em que o poeta dirige-se ao afeto e às lágrimas

derramadas pela dama a quem queria bem. Os cristais relacionam-se ao peito e às lágrimas. Entre as

oposições, salienta-se a da contenção x esbanjamento.

38

Teimosia, constância.

39

A tirania do amor será temperada paradoxalmente. No trabalho de fusão de opostos desse texto, GM faz

uma alquimia dos contrários. Ele transforma toda diferença em oposição, toda oposição em simetria, e a

simetria em identidade. O diferente torna-se o mesmo. No último verso, há a fusão das antíteses entre

aparência e essência.

tempo. Assim também o ser humano é fraco e forte, ao mesmo tempo; é pecador e

arrependido, ao mesmo tempo. Só a poesia satírica escapa a esse esquema de opostos.





OBS.: Como já se afirmou no início de nossos estudos, a falta de registros de sua obra torna

difícil a compilação de seus poemas, havendo um poema com o mesmo título de outro, em

virtude das várias organizações que foram sendo feitas a partir do século XIX. O soneto a seguir

também foi encontrado sob o título de Queixa-se o poeta da plebe ignorante e perseguidora

das virtudes.







Que me quer o Brasil, que me persegue?

Que me querem pasguates, que me invejam?

Não vêem, que os entendidos me cortejam,

E que os nobres, é gente que me segue?



Com o seu ódio a canalha, que consegue?

Com sua inveja os néscios que motejam?

Se quando os néscios por meu mal rumorejam,

Fazem os sábios, que a meu mal me entregue.



Isto posto, ignorantes, e canalha

Se ficam por canalha, e ignorantes

No rol das bestas a roerem palha.



E se os senhores nobres, e elegantes

Não querem que o soneto vá de valha,

Não vá, que tem terríveis consoantes.



******************









APÊNDICE

Deve-se esclarecer que a lista do PISM selecionou apenas seis sonetos da vertente

satírica e seis sonetos da vertente lírica de Gregório de Matos. Entretanto, em virtude do fato de

sua figura ter sido uma verdadeira lenda, o que levou o estudioso de sua obra, James Amado, a

considerá-lo não um autor, mas uma época inteira de nossa literatura, consideramos

imprescindível acrescentar alguns poemas na nossa antologia de estudos, inclusive religiosos,

que não constam na lista da UFJF.

Hoje, a obra de Gregório de Matos é reconhecida como um projeto literário que não só

abriu uma tradição entre nós, mas também superou os limites do movimento a que estava filiada

– o Barroco. E o poeta chegou a ser, em pleno século XVII, de certa forma, um dos precursores

da poesia moderna dos séculos XX e XXI, quer pelo experimentalismo formal, quer pela

incorporação de variados registros de linguagem.

Barroco na concepção da idéia, no jogo eterno com a contradição, o poeta está quase

sempre preocupado com a explicação das contradições e a busca da unidade de si mesmo. Na

lírica amorosa e sacra, predomina fortemente o contraste. O questionamento do poeta é parte da

pergunta: “para que serve a Beleza se ela é causa da perdição e se ela acaba?”. Na poesia sacra,

igualmente, há um raciocínio em torno da duplicidade do ser humano, que oscila entre ter e não

ter fé. A poesia satírica revela um poderoso crítico social, cuja finalidade é a de denunciar, e,

através da denúncia, moralizar.

Como se vê, é um poeta cuja magnanimidade não se restringe a apenas doze poemas. Já

que nossa intenção é, além de prepará-los para o PISM, buscarmos sempre uma formação mais

ampla, seguem mais alguns poemas de suas vertentes satírica e lírica (não apenas sonetos) e

alguns de sua vertente religiosa.



SATÍRICOS



Sua poesia satírica, muito tempo relegada ao segundo plano, é hoje considerada

extremamente original, pelo fato de fugir dos padrões barrocos estabelecidos, construindo um

painel crítico, saboroso, pitoresco e pessoal da realidade baiana do século XVII. Sua linguagem

riquíssima, cheia de termos locais, índios, negros, “brasileiros” enfim, praticamente inicia a

poesia preocupada coma a realidade brasileira em “língua brasileira”. Com a leitura de seus

poemas satíricos, temos muitos “retratos” da realidade que ele observa e critica. Dessa forma, o

Boca do Inferno (também chamado de O Boca de Brasa) construiu um grande painel das

personagens que circulavam pela cidade da Bahia, desde os mais dignitários até os mais pobres

escravos, sem poupar ninguém.





LÍRICOS

Reforçando o que já dissemos, observe nessa nossa seqüência o estilo refinado e

vigoroso de Gregório de Matos. Destaque-se aqui o idealismo amoroso da poesia renascentista,

sob influência dos portugueses, sobretudo Camões, em temas que retomam o sentimento da

brevidade da vida, da passagem do tempo, da fugacidade das coisas e da beleza física, mas

conciliados com o pessimismo barroco: “penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa”.

Louva a mulher, conforme a tradição lírica anterior (clássica), só que se trata da mulher

desejada, não apenas platonicamente idealizada, de quem se solicita a companhia para

aproveitar os prazeres da vida.



RELIGIOSOS



A lírica religiosa de Gregório de Matos exprime com mestria as tensões e dualidades do

espírito barroco. O grande tema é o amor místico que se desdobra em subtemas, como a

oposição entre o pecado e a necessidade de perdão; os apelos da carne em contradição com as

obrigações da fé; a culpa e o arrependimento; a angústia de se sentir ao mesmo tempo atraído

pela razão humana e pela fé divina.


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