CARTAS DE
MARCELINO
CHAMPAGNAT
Título original: Lettres de Marcellin J. B. Champagnat (1789-1840) Fondateur de
l’Institut des Frères Maristes, présentés par Frère Paul Sester. Rome, Casa Generalizia dei
Fratelli Maristi, 1985.
Tradução: Ir. Sulpício José e Ir. Ireneu Martim
Revisão: Ir. Ireneu Martim e Ir. Afonso Levis
Diagramação: Ir. Roque Brugnara
Secretariado Interprovincial Marista – SIMAR
Rua Cesário Ramalho, 288 – Cambuci
Telefone: (011) 270 5576; FAX: (011) 278 7071
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1999
RELAÇÃO DAS CARTAS
CAPÍTULO I – 1823 a 1833
1 - 1823, 1º de dezembro. Ao Irmão Jean-Marie Granjon, em Saint-Symphorien-le-Château,
para dar notícias dos estabelecimentos que visitara.
2 - 1826, fins de setembro. Ao Padre Jean-Claude Courveille para marcar um encontro.
3 - 1827, maio. Ao Padre Philibert Gardette, superior do Seminário Maior de Lião, para
colocá-lo a par de uma situação crítica.
4 - 1827, maio. Ao Padre Simon Cattet. Vigário Geral de Lião, para que apoie a nomeação de
um padre para ajudar em l’Hermitage.
5 - 1827, maio. Ao Padre Gilbert Durand, pároco de Neuville, para corrigir uma situação
irregular na comunidade dos Irmãos.
6 - 1827, maio. A Dom Gaston De Pins, sobre o mesmo assunto exposto na carta ao Vigário
Geral, Padre Simon Cattet.
7 - 1827, maio. Ao Padre Jean Joseph Barou, outro Vigário Geral de Lião, para sugerir a
nomeação do Padre Etienne Séon para l’Hermitage.
8 - 1827, final do ano. A Alexandre Devaux de Pleyne, prefeito de Bourg-Argental, para
convencê-lo de que o município da impossibilidade de reduzir o pagamento para o sustento
dos Irmãos, que já é o mínimo indispensável.
9 - 1828. Aos párocos de Annecy: promete Irmãos para a próxima festa de Todos os Santos e
dá a conhecer as exigências para assumir a direção de uma escola.
10 - 1828, janeiro. Circular aos Irmãos: pede orações para que Dom Gaston De Pins consiga,
em Paris, boa acolhida ao pedido da autorização legal do Instituto.
11 - 1828, 18 de dezembro. Ao Padre Simon Cattet, Vigário Geral, para solicitar-lhe que
destaque um padre a mais para Notre Dame de l’Hermitage.
12 - 1829, 11 de abril. Ao senhor Raoul Desrautours de Chaulieu, prefeito do Departamento
do Loire, para agradecer a subvenção que concede às escolas.
13 - 1829, setembro. Ao Padre Claude Terrel, pároco de Charlieu: participa seu pensamento a
respeito da escola de Charlieu e sugere os meios para melhorar a situação.
14 - 1830, 21 de janeiro. Ao Irmão Barthélemy, em Ampuis, para animar sua vocação de
professor primário dos meninos.
15 - 1830, 12 de fevereiro. Ao Padre Simon Cattet, Vigário Geral de Lião: solicita que sejam
outorgados aos Padres pertencentes à Sociedade de Maria poderes mais amplos relativos à
confissão.
16 - 15 de agosto. Ao Irmão Antoine e seus coirmãos, em Millery: notifica a data das férias e
exorta os Irmãos a não se apavorarem diante dos distúrbios causados pela revolução de junho
de 1830.
17 - 10 de setembro. Ao Irmão Antoine, em Millery para avisá-lo da supressão do retiro e
férias comunitárias em l’Hermitage devido às circunstâncias.
18 - A um vizinho, para esclarecer sua posição na questão de uma disputa de terra e água.
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19 - 1831, 3 de janeiro. Ao Irmão Barthélemy, em Ampuis: Retribui os votos de Feliz Ano
Novo e o anima na missão de educador.
20 - 4 de fevereiro. Aos Irmãos Antoine e Gonzague, que estão em Millery. É resposta à carta
deles. O Fundador os exorta a se dedicarem totalmente ao apostolado junto às crianças.
21 - abril. A Jean-Baptiste Mondon, prefeito de Feurs, avisa que retira os Irmãos.
22 - abril. A Jean-Baptiste Merlat, prefeito de Saint-Symphorien, propõe a troca de um Irmão
da escola.
23 - 29 de agosto. Ao jovem Alexis Labrosse, estudante de Ranchal, comunica as condições
de admissão no Instituto.
24 - 1º de novembro. Ao Irmão Barthélemy, em Saint-Symphorien d’Ozon para conceder-lhe
a autorização de comungar às terças-feiras e para animá-lo a enfrentar as dificuldades do cargo
valendo-se da proteção de Maria.
25 - 1832, final de agosto. À Madre Saint-Joseph, fundadora das Irmãs Maristas comunica
que está mandando três moças de Saint-Laurent d’Agny, para o noviciado de Bonrepos, em
Belley.
26 - 1832. Ao Padre Claude Duplay, pároco de Marlhes, fala de Jean-Louis Duplay, que
desempenhou papel relevante na fundação do Instituto.
27 - 1833, primavera. À senhora Marie Fournas, em Saint-Chamond, pede que continue sua
generosa contribuição, em favor do abrigo dos velhinhos.
28 - Final de julho. A Dom Alexandre Devie, bispo de Belley, suplica-lhe conceda um prazo
para mandar os Irmãos que prometera para Bresse.
29 - 10 de agosto. CIRCULAR aos Irmãos dos Estabelecimentos para lhes anunciar as férias.
30 - agosto/setembro. Ao Padre Jean Cholleton, Vigário Geral de Lião, manifesta sua
desconfiança com relação à fusão dos Irmãozinhos de Maria com a Congregação do padre
Querbes; lembra os contratempos que tivera.
31 - 3 de novembro. Ao Irmão Alphonse, em Mornant, para o estimular ao cumprimento de
sua missão de educador cristão.
32 - 10 de novembro. Ao Irmão Antoine, em Millery, para anunciar a substituição, por um
tempo, do Irmão Isidore pelo Irmão Théophile.
CAPÍTULO II - 1834 a 1835
33 - 1834, janeiro. Ao Irmão Antoine, em Millery, responde aos votos de Boas Festas e expõe
a situação de alguns Irmãos, perante a nova legislação de ensino, Lei de 28 de junho de 1833.
34 - 28 de janeiro. Ao Rei Louis-Philippe, solicita a aprovação legal do Instituto dos
Irmãozinhos de Maria.
35 - fevereiro. Ao Padre Jean-Baptiste Rossary, pároco de Saint-Paul-en-Jarret, para pedir que
pague aos Irmãos a quantia combinada com o antecessor quando da fundação da escola.
36 - 6 de março. Ao Irmão Dominique, em Charlieu, para exortá-lo a só buscar a vontade de
Deus.
37 - 1834, inícios. Ao Padre Barthélemy Caumette, cadjutor de Mèze, para informá-lo sobre
quem são os Irmãos.
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38 - 1834, inícios. Ao Padre Ferréol Douillet, em La Côte-Saint-André, para reiterar que
nossos costumes não admitem pessoas de fora para cozinhar.
39 - 1834, 14 de março. Ao Padre Jean-Pierre Cussier, pároco de Viriville, para advertir que a
escola de Viriville não poderá prosseguir, nas condições em que se encontra.
40 - 14 de abril. A Jacques Ardaillon, deputado do Departamento do Loire, agradece pelos
bons serviços que prestou à Congregação, no sentido de conseguir a autorização legal.
41 - abril. Ao Padre Joseph Gaucher, pároco de Chavanay, para que este use sua influência
junto do prefeito, que vem pondo entraves à ação educativa dos Irmãos.
42 - verão. Ao Irmão Cassien, em Sorbiers, para ajudá-lo a superar a crise por que está
passando.
43 - verão. Ao Padre Jean-Marie Frain, Vigário Geral de Nevers: informa sobre a missão dos
Irmãos, as condições exigidas pelo prospecto que rege as fundações; pede que espere até saber
com certeza da possibilidade de conseguir Irmãos.
44 - agosto. Ao Padre Jean Cholleton, Vigário Geral de Lião: põe à disposição da diocese o
sítio de Grange-Payre, para servir de residência aos Padres da Sociedade.
45 - 8 de setembro. Ao mesmo Vigário Geral, para mostrar-lhe as vantagens oferecidas por
La Grange-Payre e os inconvenientes de Valbenoîte.
46 - setembro. Ao Padre Charles Chirat, pároco de Neuville: solicita que deixe os Irmãos
partirem para a casa mãe, nas férias.
47 - princípios de outubro. Ao Jean François Preynat, prefeito de Sorbiers, para perguntar-
lhe em que pé está o novo local para a escola.
48 - 4 de novembro. Ao Irmão Antoine, em Millery: anuncia-lhe o envio de vários objetos.
49 - 23 de novembro. Ao Irmão Dominique, em Charlieu: exorta-o a suportar com paciência
certas dificuldades passageiras.
50 - outono. A Jacques-Marie Ardaillon, prefeito de Saint-Chamond, para agradecer sua
intervenção, mediante a qual foi conseguida a aprovação dos Estatutos, pelo Conselho Real da
Instrução Pública.
51 - final de 1834, ou inícios de 1835. A Jean-André Sers, prefeito departamental do Loire:
solicita que isente um Irmão do serviço militar.
52 - 1835, inícios. A Conde Adrien de Gasparin, prefeito do Departamento do Rhône:
comunica que o Irmão S. F., sujeito a ser convocado, saiu da Congregação.
53 - 1835, 9 de janeiro. Ao Irmão Antoine: agradece os votos de Boas Festas, comunica a
doença do Irmão Moïse e dá outras notícias de l’Hermitage.
54 - 22 de janeiro. A um pároco: impossível atendê-lo de imediato ea disposição de atendê-
lo, se puder esperar.
55 - 29 de março. Ao Padre Jean-Claude Colin, Superior em Belley: informa-o a respeito das
condições de admissão de candidatos e trata de alguns problemas particulares.
56 - quaresma. A Dom Gaston de Pins, Administrador Apostólico da diocese de Lião: pede
que destaque, para ajudar em l’Hermitage, o Padre Jean Décultieux, coadjutor em Pélussin.
57 - 30 de abril. A Jacques-Marie Ardaillon, prefeito de Saint-Chamond: lembra-lhe a carta
anterior (cf. Carta no 51) e roga que use sua influência junto aos altos escalões do governo a
fim de apressar a assinatura do Decreto de autorização.
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58 - 3 de maio. A Désiré Lacheze, deputado do Departamento do Loire: pede a ele que se
associe ao senhor Ardaillon para apressarem a assinatura do Decreto da autorização.
59 - primeiros dias de maio. À rainha Marie-Amélie: para que use de seu prestígio junto do
Rei, a fim que este assine logo o Decreto que vai dar existência legal ao Instituto Marista.
60 - final de maio. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: manda-lhe os
formulários do compromisso decenal, que os Irmãos devem preencher, e agradece os serviços
prestados.
61 - 12 de julho. Ao Irmão Théophile, em Marlhes: anima-o a suportar os contratempos com
que se defronta.
62 - 24 de agosto. CIRCULAR aos Irmãos: convoca-os a l’Hermitage, a fim de participarem
juntos do retiro e das férias.
CAPÍTULO III - 1836
63 - 19 de janeiro. CIRCULAR aos Irmãos: faz votos de que tenham fervor e zelo, caridade
fraterna e ânimo na fidelidade.
64 - 12-13 de abril. Ao senhor Charles Arquillière, diretor em Montbrison: informa que o
Irmão pedido só estará disponível a partir da próxima Festa de Todos os Santos.
65 - 8 de maio. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: confia-lhe quatro
Irmãos e pede uma colaboração mais efetiva entre as duas Congregações.
66 - inícios de julho. Ao Padre François Mazelier: nova proposta de fusão das duas
Congregações.
67 - 28 de agosto. Ao Irmão François comunica a chegada a Paris e lhe faz algumas
recomendações.
68 - agosto. Ao rei Louis-Philippe, solicitando a autorização legal do Instituto.
69 - 28 de setembro. Bilhete: convida para a inauguração da nova capela.
70 - outubro. Ao Padre Ferréol Douillet: notifica a volta do Irmão Louis-Marie a La Côte-
Saint-André e as medidas que este vai tomar com relação à escola.
71 - outubro. Ao Padre François-Régis Gilloz, pároco de Vienne (França): diz-lhe que não
pode abrir mão das condições em que os Irmãos aceitaram a escola.
72 - 4 de novembro. Ao Padre François Mazelier: convida-o a vir passar alguns dias em
l’Hermitage, para conversarem sobre a fusão das duas Congregações.
73 - 3 de dezembro. Ao senhor Jean François Preynat, prefeito de Sorbiers: protesta contra a
supressão da subvenção legal devida aos Irmãos.
74 - 21 de dezembro. Ao Irmão Antoine, em Millery: anuncia o envio de dois Irmãos e a
troca de um dos que estão lá.
75 - dezembro. A Dom Alexandre Devie, bispo de Belley: comunica a chegada dos Irmãos
em Saint-Didier-sur-Chalaronne e informa em que ponto se encontra o caso da autorização
legal do Instituto.
76 - final de dezembro. Ao pároco Étienne Coignet e ao prefeito Pierre Preynat, de Sorbiers.
Faz saber a eles em que termos o vice-prefeito departamental anuncia a Champagnat um
medida vexatória contra os Irmãos.
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77 - 1836. Ao Dr. Hyppolyte Fredet, médico em Saint-Chamond, ao qual se justifica de ter
chamado outro médico para um doente.
78 - 1836/1837. Circular aos fundadores de escolas: pede-lhes documentos referentes à
fundação para conservá-los nos arquivos.
CAPÍTULO IV - 1837
79 - 1º de janeiro. CIRCULAR: votos de Feliz Ano Novo; comunica também a carta do
Irmão Marie-Nizier em viagem para as missões da Oceânia.
80 - 2 de janeiro. Ao Irmão Louis-Marie, Diretor de La Côte-Saint-André: autoriza-o a
assinar o contrato de arrendamento proposto pelo Padre Douillet e dá notícias sobre o
Instituto.
81 - 4 de janeiro. Ao industrial Etienne Génissieux, de Terrenoire: pede que complete o
guarda-roupa dos Irmãos que passaram a ser três, na comunidade.
82 - 6 de janeiro. Ao Padre Jean-François Chossat, superior do Seminário Maior de Albi:
manda os prospectos que lhe pedira.
83 - 12 de janeiro. Ao Padre Jean-Antoine Dubois, superior do Seminário das Missões
Estrangeiras de Paris: pede que vá informar-se com o senhor Delebecque, em que pé estão as
negociações para a aprovação do Instituto.
84 - 18 de janeiro. Ao Padre Pierre Froget, pároco em Saint-Étienne: dá as informações
pedidas sobre um moço que fora admitido em l’Hermitage.
85 - 18 de janeiro. Ao industrial de Saint-Chamond, Antoine Thiollière: convida a fazer parte
de uma associação religiosa, na qual seriam copartícipes das boas obras que um e outro
fizessem.
86 - 21 de janeiro. Ao Irmão Louis-Marie, Diretor de La Côte-Saint-André: exorta-o a
prosseguir na sua tarefa, apesar das dificuldades.
87 - 23 de janeiro. Ao Padre Jean-Pierre Combe, pároco de Ganges: manda-lhe os prospectos
que solicitara.
88 - janeiro. Ao industrial Joseph Robichon, de Rive-de-Gier, a quem agradece a caixa de
copos que mandara para l’Hermitage.
89 - janeiro. CIRCULAR, que acompanha a Regra impressa.
90 - meados de fevereiro. A Dom Alexandre Devie, bispo de Belley: agradece pelo que fez
em favor da autorização do Instituto.
91 - 10 de fevereiro. Ao Padre Antoine Maunier, pároco de Callas: responde a uma
solicitação de mandar Irmãos; que tenha a paciência de esperar ou então que se dirija a outra
Congregação.
92 - 12 de fevereiro. A Claude Terrion, prefeito de Semur-en-Brionnais: informa-o sobre a
situação do Irmão De La Croix perante o serviço militar.
93 - 15 de fevereiro. A Dom Philibert De Bruillard, bispo de Grenoble: comunica-lhe que vai
retirar os Irmãos da La Côte-Saint-André.
94 - 15 de fevereiro. Ao Padre André Berthier, pároco de La Côte-Saint-André: comunica-lhe
que retira os Irmãos de sua paróquia.
95 - 23 de fevereiro. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: coloca-o a
par da situação em que se encontram os Irmãos que lhe seriam confiados.
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96 - 26 de fevereiro. Ao Padre Jean-Pierre Combe, pároco de Ganges: diz que não acha que
seja possível mandar-lhe Irmãos imediatamente.
97 - 1º de março. Ao Padre Claude Page, pároco de Digoin: especifica como deve ser a casa
para os Irmãos.
98 - 10 de março. Ao Padre François Vincheneux, pároco de Tréport: responde dissipando
um mal-entendido que surgira nas relações entre ambos.
99 - 11 de março. Ao Padre André Berthier, Vigário Geral de Grenoble: informa-o das
dificuldades causadas pelo Padre Douillet aos Irmãos e dá a conhecer sua decisão.
100 - 14 de março. Ao Padre Touzet, sacerdote de Aigueperse: explica por que não se
manifestou antes e pede mais informes sobre o projeto que o padre alimenta.
101 - 19 de março. Ao Padre Antoine Mollin, pároco de La Côte-Saint-André: o assunto é o
mesmo que o tratado com o Padre Berthier (cf. Carta no 99), a saber: a questão com o Padre
Douillet.
102 - 19 de março. Ao Irmão Euthyme, em Ampuis: carta de orientação espiritual.
103 - 21 de março. Ao Padre Rigaud, superior dos Jesuítas, em La Louvesc: fala-lhe do
interesse que acalenta de implantar uma escola em La Louvesc, mas por ora não é possível.
104 - março de 1837. Ao senhor Ginot, industrial de Saint-Chamond: pede-lhe que, ao chegar
em Paris, se informe do andamento do processo da autorização do Instituto.
105 - 11 de abril. Ao senhor François Xavier Quantin, prefeito de Genas: os Irmãos não serão
retirados de sua escola.
106 - 24 de abril. Ao Padre François Mazelier, Saint-Paul-Trois-Châteaux: recomenda a seus
cuidados os Irmãos que estão sujeitos à convocação para o serviço militar, agradece por sua
benevolência e dá-lhe notícias.
107 - 12 de maio. Ao senhor Louis Breuil, em Montarcher: cobra o pagamento do noviciado
que Breuil não quis pagar.
108 - 13 de maio. Ao Padre Georges Blanc, coadjutor de Saint-Galmier: justifica as medidas
tomadas em relação ao irmão do Padre.
109 - 16 de maio. Ao Padre Jacques Fontbonne, em Saint-Louis, USA: dá-lhe notícias sobre a
Sociedade de Maria.
110 - maio. Ao Padre Antoine Maunier, pároco de Callas: diz que foi anotado o seu pedido de
uma escola.
111 - maio. Ao Padre François Vincheneux, pároco de Tréport: informa que seu pedido está
anotado na lista de espera.
112 - final de maio. A Dom Bénigne Trousset D’Hericourt, bispo de Autun: tranqüiliza-o
dizendo que o Irmão De La Croix permanecerá à frente do estabelecimento de Semur.
113 - junho. Ao senhor Antoine Salvandy, Ministro da Instrução Pública: pede que seja
devolvida no final do ano a taxa de 1/20 descontada sobre o salário dos Irmãos, como
determinava o art. 15 da Lei de 1833.
114 - em junho. Ao senhor Joseph de la Tour Michoud, prefeito de Brangues: impossível
mandar-lhe Irmãos de imediato.
115 - final de junho. Ao Padre Paul Guines, pároco de Terrasson: informa da chegada do
moço que o pároco anunciara e desculpa-se de não poder fornecer Irmãos de imediato.
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116 - junho. Ao Padre François Mazelier, Saint Paul-Trois-Châteaux: agradece os serviços
prestados; anuncia que irá brevemente fazer-lhe uma visita e dá outras notícias.
117 - 4 de julho. A Jean-Marie de Pomey, prefeito de Amplepuis: pede que espere pelo novo
pároco, para saber se eke concordará em confiar a escola aos Irmãos.
118 - 5 de julho. Ao Irmão Denis, Saint-Didier-sur-Rochefort: promete mandar rezar os
Irmãos para conseguirem a cura do pároco de Saint-Didier.
119 - 6 de julho. Ao senhor Charles Rivet, prefeito departamental do Rhône: pede autorização
de retirar a quantia de um vigésimo do salário anual do Irmão, que estava depositada em
Caixa Econômica.
120 - 15 de julho. Ao Padre Jean-Pierre Badiou, pároco de St-Romain Lachalm: não perca a
esperança de receber Irmãos, embora não tão cedo.
121 - 15 de julho. Ao Padre Claude Dumas, pároco de Usson: promete-lhe enviar Irmãos,
desde que tudo esteja pronto para instalá-los.
122 - 26 de julho. Ao Padre François Mazelier, Saint-Paul-Trois-Châteaux: pede desculpas de
não ter ido visitá-lo, devido a uma indisposição.
123 - 30 de julho. Ao Padre Jean-Baptiste Crozier, pároco de Coutouvre: para dizer-lhe que
não pode mandar-lhe Irmãos neste ano.
124 - final de julho. Ao Padre Simon Cattet, Vigário Geral de Lião: pede um prazo de alguns
meses para fundar o estabelecimento de Perreux.
125 - julho. Ao Padre François Bois, pároco de Saint-Symphorien D’Ozon: nas atuais
condições a prosperidade da escola não continuará por muito tempo.
126 - 4 de agosto. Ao Irmão Apollinaire, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: convida-o a voltar
para l’Hermitage para refazer suas forças.
127 - 5 de agosto. Ao Padre Jean Cholleton, Vigário Geral de Lião: pede prorrogação das
faculdades concedidas aos Padres Maristas e solicita autorização para uma tomada de hábito.
128 - 6 de agosto. Ao Padre François Mazelier, Saint-Paul-Trois-Châteaux: manifesta sua
opinião a respeito de certos Irmãos confiados aos cuidados dele.
129 - 9 de agosto. Ao Padre François Moine, pároco de Perreux: pede que adie a fundação, a
fim de preparar melhor o local para receber os Irmãos.
130 - 9 de agosto. Ao senhor Jacques Gonon, Cenves: responde delicadamente que não pode
enviar-lhe Irmãos.
131 - 9 de agosto. Ao senhor Charles Tripier, em Curis-au-Mont-d’Or: dá sua opinião a
respeito de uma divergência surgida entre os Irmãos de Neuville e a vizinhança.
132 - 12 de agosto. CIRCULAR aos Irmãos, para a organização das próximas férias.
133 - 30 de agosto. Ao Jean-Marie De Romey, prefeito de Amplepuis: diz que quer ter a
opinião do novo pároco antes de decidir a fundação da escola.
134 - 2 de setembro. Ao Padre François Moine, pároco de Perreux: responde-lhe que não será
possível instalar os Irmãos na casa indicada.
135 - 4 de setembro. CIRCULAR aos Irmãos: anuncia a morte do Irmão Dorothée.
136 - 24 de setembro. Ao Padre Jean-François Peala, pároco de Tence: promete mandar
Irmãos, mas antes quer fazer uma visita ao local.
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137 - 24 de setembro. Ao Padre Jean-François Fustier, pároco de São Felicien: promete
mandar Irmãos e fazer uma visita, sem data fixada.
138 - 25 de setembro. Ao Padre Michel Dutour, pároco de Amplepuis: responde à primeira
carta do novo pároco, demonstrando-lhe, como a seu predecessor, Padre De Pomey, grande
interesse pelo pedido.
139 - 25 de setembro. Ao Padre Paul Rovonon, pároco de Caluire: promete satisfazer-lhe o
pedido de Irmãos, mas em data ainda por marcar.
140 - 26 de setembro. A Jean Jovin Deshayes, prefeito de Saint-Jean Bonnefonds: diz-lhe que
seu pedido de Irmãos será atendido, mas num tempo a ser determinado ainda.
141 - 28 de setembro. Ao Padre François Mazelier, Saint-Paul-Trois-Châteaux: é resposta a
uma das cartas dele; aproveita a ocasião para agradecer a Mazelier todos os bons serviços
prestados aos Irmãos.
142 - 12 de outubro. Ao Padre Joseph Dumas, pároco de Saint-Martin-la-Sauveté: diz que
recebe o postulante que está sendo apresentado, mas este deverá entrar com uma contribuição
para o noviciado.
143 - 18 de outubro. A Dom Alexandre Devie, bispo de Belley: responde uma carta do dia 11
do corrente, dizendo que pretende atender o pedido.
144 - 19 de outubro. Ao Padre Jean-Pierre Franget, pároco de Serrières: apesar de ser
interessante uma escola em Serrières, torna-se difícil nas atuais circunstâncias efetuar o
projeto.
145 - 29 de outubro. Ao senhor Hippolyte Jayr, prefeito departamental do Loire: agradece por
ter permitido aos Irmãos de Valbenoîte usufruir da quantia de 1/20 depositadas em banco.
146 - 30 de outubro. A Dom Alexandre Devie, bispo de Belley, a respeito do projetado
noviciado de Saint-Didier e das escolas de Thoissey e Verjon; retoma o pedido para obter a
autorização legal.
147 - outubro. Ao Padre Jany-Tache, pároco de Frette: agradece o apreço que manifesta pela
Congregação e pelo Irmão Apollinaire.
148 - 30 de outubro. Aos párocos de Boulieu e Peaugres, Padres Dumas e Artru: comunica a
saída dos Irmãos de suas paróquias, em obediência a uma decisão da autoridade diocesana.
149 - 30 de outubro. Ao Padre Jean Fustier, pároco de Saint-Felicien: desfaz a promessa de
mandar Irmãos.
150 - 1º de novembro. A Dom Pierre Bonnel, bispo de Viviers: dá a conhecer ao Prelado os
pontos de vista dos Maristas, após as dificuldades suscitadas pelo Padre Vernet.
151 - 1º de novembro. Ao pároco de Valsonne, Padre Joseph Duc: exprime o
constrangimento de não poder atender seu pedido.
152 - 1º de novembro. Ao Padre Jean Gaguin, pároco de Saint-Gengoux-le-Royal: não
podemos mandar-lhe Irmãos neste ano.
153 - 6 de novembro. A Jean-François Preynat, prefeito de Sorbiers: se o prefeito colocar à
disposição dos Irmãos uma casa decente, eles voltarão para Sorbiers.
154 - novembro. Ao senhor Hippolyte Jayr, prefeito do Departamento do Loire: recomenda
um Irmão que deve submeter-se ao exame de validade para o serviço militar.
155 - novembro. A um funcionário da Prefeitura de Montbrison: pede que intervenha para
conseguir a dispensa do serviço militar para um Irmão.
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156 - novembro. A um funcionário de Montbrison, para apresentar-lhe dois Irmãos jovens
que precisam de encaminhamento.
157 - 22 de novembro. A Dom Gaston de Pins, Administrador da diocese de Lião: pede que
interceda em favor do Irmão Théodore para isentá-lo do serviço militar.
158 - 25 de novembro. Ao Irmão Sylvestre, em La Côte-St-André: anima-o e dá notícias dos
missionários que vão à Oceânia.
159 - 27 de novembro. Ao senhor Antoine Salvandy, Ministro da Instrução Pública: solicita
que consiga por um Decreto Real a autorização legal do Instituto.
160 - 29 de novembro. Ao senhor Alexandre Delon, vice-prefeito departamental de Saint-
Etienne: pede que o Comitê encarregado de supervisionar o ensino primário faça ao Ministro
um pedido, no sentido de ser concedida autorização legal ao Instituto.
161 - novembro. Ao Padre Georges Metton, pároco de Sury-le-Comtal: pede-lhe que
disponha as salas de aula de acordo com a praxe do Instituto.
162 - 9 de dezembro. Ao senhor Hippolyte Jayr, prefeito do Departamento do Loire: envia-
lhe a estatística do Instituto e reitera seus sentimentos de estima e respeito.
163 - 12 de dezembro. Ao Padre François Moine, pároco de Perreux: recomenda-lhe que não
sobrecarregue os Irmãos de trabalho.
164 - 13 de dezembro. CIRCULAR aos Irmãos: transcreve a carta do Padre Servant, escrita
de Valparaíso, quando estava de viagem para Oceânia.
165 - 13 de dezembro. Ao Padre François Mazellier, Saint-Paul-Trois-Châteaux: solicita-lhe
uma cópia de seus estatutos e do Decreto de aprovação de sua Congregação.
166 - 15 de dezembro. Ao Padre Auguste Drevet, pároco de Luzinay: promete-lhe Irmãos,
como é do seu desejo, contanto que tenha a aprovação do bispo.
CAPÍTULO V - 1838
167 - 4 de janeiro. A Barthélemy Goiran, prefeito de Couzon: promete mandar Irmãos para a
paróquia dele, a partir de novembro.
168 - 5 de janeiro. Ao Irmão Denis, em Saint-Didier-sur-Rochefort: responde a várias
questões a solucionar, e manda saudações especiais a cada membro da comunidade.
169 - 10 de janeiro. Ao Irmão François, em N.-D. de l’Hermitage: recomenda-lhe valer-se
dos conselhos dos Padres e Irmãos experientes; pede também que lhe sejam mandados a Paris
alguns objetos que esquecera.
170 - 25 de janeiro. Ao Irmão François: dá notícias de Paris e das tentativas para conseguir o
Decreto de autorização do Instituto.
171 - 3 de fevereiro. A Dom Gaston de Pins, Administrador Apostólico de Lião: comunica o
teor de sua resposta às objeções do Ministro da Instrução Pública.
172 - 4 de fevereiro. Ao Irmão François: dá notícias de Paris e solicita que lhe mande notícias
da casa de l’Hermitage.
173 - 14 de fevereiro. Ao Ministro Antoine Salvandy, para pedir-lhe que ative o processo da
autorização legal do Instituto.
174 - 24 de fevereiro. Ao Irmão François: participa a ele quantas visitas e correrias já teve
que fazer em busca do seu objetivo, o que acha sobre várias questões.
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175 - 7 de março. Ao Irmão François: dá mais notícias sobre as tentativas feitas e orientações
para o bom governo das questões surgidas na casa mãe de L’Hermitage.
176 - 12 de março. Ao Irmão François: dá notícias e manifesta apreensões.
177 - 14 de março. Ao Irmão François: recomenda-lhe que faça uma visita ao senhor
Ardaillon, que irá passar alguns dias de folga na região.
178 - 14 de março. Ao Padre Sébastien Millerand, pároco de Semur: responde à carta do dia 9
e põe-no a par dos convênios feitos entre a Congregação e seu predecessor, a respeito da
escola.
179 - 15 de março. Ao Irmão François: recomenda que tente isentar o Irmão Cyprien do
serviço militar; comunica o que escreve ao pároco de Semur; dá mais notícias a respeito das
diligências que vem fazendo para conseguir a autorização.
180 - 16 de março. À cunhada, viúva pela morte de seu irmão Jean-Barthélemy, em Marlhes:
carta de pêsames.
181 - 18 de março. Ao Irmão Hilarion, em Boulieu: dá notícias dos trâmites legais e fala de
seu carinho para com os Irmãos.
182 - 22 de março. Ao Irmão François, para lhe dar notícias de como vão os trâmites para
conseguir a autorização; também dá diretrizes para o bom governo da casa de l’Hermitage.
183 - 23 de março. Ao Irmão Antoine, em Millery: dá notícias e suas impressões sobre os
parisienses, sua religiosidade e costumes.
184 - 11 de abril. Ao Ministro Salvandy, em Paris, para rogar-lhe que tenha consideração pela
causa dos Irmãos, a fim de levá-la a bom termo.
185 - 12 de abril. Ao Irmão François: anuncia sua volta e dá as últimas informações sobre a
autorização pleiteada.
186 - 21 de abril. Ao Ministro Antoine Salvandy: apresenta saudações respeitosas e pede que
continue o processo da autorização.
187 - 11 de maio. Ao Padre Michel Dutour, pároco de Amplepuis: responde a uma segunda
carta do padre e significa-lhe a impossibilidade de lhe mandar Irmãos, por ora.
188 - 11 de maio. Ao Padre Abel Mège, Arcipreste de Morestel: responde à carta deste e diz-
lhe ser impossível mandar-lhe Irmãos de imediato.
189 - 11 de maio. Ao Padre Jean-Marie Debelay, pároco de Nantua: pede que forneça todos
os detalhes das condições em que quer criar a escola.
190 - maio. Aos administradores de Saint-Etienne: promete fazer o possível para lhes mandar
os Irmãos que estão pedindo.
191 - maio. Ao senhor Alexandre Delon, vice-prefeito departamental de Saint-Etienne:
informa-lhe que os Irmãos, nas condições em que se acham, não poderão por mais tempo
manter a escola de Saint-Martin-la-Plaine.
192 - maio. A Dom Louis De Bonald, bispo de Puy: responde sua carta e pesarosamente se
escusa de não poder mandar Irmãos para a escola de Craponne no ano de 1838.
193 - 20 de maio. Ao Irmão François, para dar notícias de sua viagem e do começo de sua
permanência em Paris.
194 - 27 de maio. A Dom Jean-Baptiste Pompallier, vigário apostólico da Oceânia: responde
à carta deste e dá notícias de Paris.
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195 - 7 de junho. Ao Irmão François: faz recomendações a respeito dos objetos que está
mandando para l’Hermitage e dá notícias do andamento das negociações para conseguir a
autorização.
196 - 20 de junho. Ao Irmão François, para mantê-lo informado sobre as múltiplas tentativas
para conseguir a autorização tão almejada.
197 - 23 de julho. Ao Irmão François: anima-o em suas funções; dá notícias de Paris e de sua
saúde; traça diretivas para o Irmão prosseguir no governo da casa de l’Hermitage.
198 - 16 de julho. Carta ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: responde
a um pedido de informações sobre um Irmão.
199 - 16 de julho. Ao Padre Paul Benoit, diretor do Seminário Maior de Montpellier: promete
visitá-lo, mas diz que por ora não pode mandar Irmãos.
200 - 25 de julho. Ao Padre Jean Cholleton, Vigário Geral de Lião, a quem pede autorização
para mais uma tomada de hábito.
201 - 27 de julho. A Marcellin Gerontet, prefeito de Saint-Rambert: expressa-lhe quanto
gostaria de implantar uma escola em Saint-Rambert, mas por enquanto não é possível.
202 - 8 de agosto. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: anuncia que
manda dois Irmãos e agradece os serviços.
203 - 11 de agosto. Ao Padre Gaspard Grasset, superior do Seminário Maior de Montpellier:
responde que se dirija a outra Congregação de ensino pois os Maristas estão assoberbados de
pedidos.
204 - 12 de agosto. Ao Irmão Victor, em Viriville, ao qual concede autorização para passar
alguns dias com a família.
205 - 12 de agosto. Ao Irmão Théodoret, em Ampuis: concede a autorização pedida e dá
notícias de seus irmãos de família.
206 - 10-13 de agosto. Ao Padre Claude Merlin, pároco de Saint-Geoire: responde ao pedido
de Irmãos para a escola paroquial.
207 - 13 de agosto. - A Dom Philibert De Bruillard, bispo de Grenoble, que pediu Irmãos para
Saint-Lattier et Crolles.
208 - 20 de agosto. A Dom Bénigne Trousset D’Héricourt, bispo de Autun: desculpa-se de
não poder fornecer de imediato os Irmãos que está pedindo.
209 - 21 de agosto. Ao amigo Victor Dugas, de Saint-Chamond: solicita-lhe que escreva a seu
irmão em Paris para intervir em favor da autorização dos Irmãos.
210 - 21 de agosto. CIRCULAR aos Irmãos: anuncia a data das férias e traça diretivas para a
circunstância.
211 - 25 de agosto. Ao senhor Claude Menu, prefeito de Sury-le-Comtal: pede-lhe que mande
dispor as salas de aula de acordo com as normas do Instituto.
212 - 26 de agosto. Ao Padre Jean-François Peala, pároco de Tence: não conte com os Irmãos
para o presente ano.
213 - 19 de setembro. A Dom Philibert De Bruillard, bispo de Grenoble: dá a conhecer as
condições inaceitáveis que o Padre Douillet pretendia impor aos Irmãos em La Côte-Saint-
André.
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214 - 21 de setembro. Ao Padre Léonard Gazel, pároco de Chambon-Feugerolles: diz que não
acha tempo para ir vê-lo e que, devido ao prolongado silêncio em que deixou encubar seu
projeto, quase o tinha esquecido.
215 - outubro. Ao Padre Ferréol Douillet, La Côte-Saint-André: descarta peremptoriamente a
oferta de ficar com a propriedade.
216 - 31 de outubro. Ao Padre Georges Metton, pároco de Sury-le-Comtal: pede-lhe que
aceite o regulamento que os Irmãos devem seguir.
217 - 31 de outubro. Ao Padre Antoine Mollin, pároco de La Côte-Saint-André: anuncia a
saída dos Irmãos; fica surpreso de que o Padre Antoine não esteja a par das discordâncias com
o Padre Douillet.
218 - outubro. Ao Padre Jean Gagain, pároco De Saint-Gengoux-le-Royal: que tenha
paciência por enquanto, porque não há Irmãos preparados em número suficiente para atender a
todos os pedidos.
219 - outubro. Ao benfeitor Blaise Aurran, em Cuers: agradece pelo interesse que demonstra
para com os Irmãos; pede que espere ainda um tempo para tê-los e solicita ajuda financeira
para a escola dos PETITS GARÇONS, em Charlieu.
220 - outubro. Ao Padre Marie Lafay, pároco de Firminy, para que se ponha em dia com os
pagamentos atrasados se quiser ter os Irmãos de volta.
221 - outubro. Ao senhor Delebecque, deputado de Bethune: anuncia a partida dos Irmãos
para Saint-Pol (Pas de Calais); o Irmão diretor deverá fazer-lhe uma visita, quando de
passagem por Paris.
222 - outubro. Ao Padre François Robitaille, decano de Saint-Pol-sur-Ternoise: anuncia a
chegada próxima dos Irmãos; pede que acerte os gastos de viagem e de fundação; aproveita
também da ocasião para pedir que intervenha na questão da autorização legal dos Irmãos.
223 - outubro. Ao senhor Barjet, proprietário de Cornas, informa que pelo espaço de alguns
anos não será possível mandar Irmãos.
224 - 1º de novembro. Ao Padre César Charbonnier, pároco de Grignan: os efetivos são
escassos, mas com o correr do tempo teremos ocasião de receber e preparar outros e o local
também poderá ser providenciado com mais vagar.
225 - 5 de novembro. Ao Padre Joseph Venet, pároco de Mornant: fala da vigilância sobre os
alunos durante os Ofícios paroquiais; lembra ao pároco de colocar-se pôr em dia com os
pagamentos.
226 - 8 de novembro. Ao Padre Antoine Clavel, pároco de Jallieu: foi tomado nota do
pedido, mas terá que esperar bastante tempo.
227 - princípios de novembro. Ao senhor Jean Aimé Jovin Deshayes, em Saint-Etienne:
informa em que ponto estão as negociações; propõe argumento contra a cláusula que se queria
impor aos Maristas: a de não criar escolas em localidades de mais de mil habitantes.
228 - 24 novembro. Ao deputado Jean Jacques Baude: diz que conta somente com ele para
defendê-lo contra as acusações.
229 - 4 de dezembro. Ao pároco de Villeurbanne, Padre Pierre Faure: por ora, não pode
fornecer-lhe Irmãos, embora dois deles acabem de ser diplomados.
230 - 4 de dezembro. Ao prefeito de Mornant, Antoine Bertholey: para pedir que pague o que
ainda está devendo.
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231 - 5 de dezembro. Ao pároco de Sainte-Sigolène, Padre Jean Menut: o pedido está
anotado; não aceita receber o prédio como doação.
232 - 5 de dezembro. A um Irmão, para que venha de volta da família para l’Hermitage.
233 - 10 de dezembro. Ao Irmão Denis, em Boulieu: cumprimenta pelo diploma que
conseguiu e pede que mande para l’Hermitage uma promissória que o interessado quer pagar.
234 - 28 de dezembro. Ao Irmão Dominique, em Charlieu: responde à sua carta e o exorta à
constância e à confiança em Deus.
235 - Em dezembro. Ao Barão Ambroise Rendu, Paris: pede-lhe que apoie o pedido de
admissão de dois Irmãos que se preparariam para a educação de surdos-mudos, na instituição
que trata desses deficientes, em Paris.
CAPÍTULO VI - 1839
236 - 7 de janeiro. A Dom Bénigne Trousset D’Hericourt, bispo de Autun: pede o prazo de
um ano para erigir o noviciado de Vauban.
237 - 9 de janeiro. Ao pároco de Saint-Lattier, Padre Benoît Hector: pede que espere que
chegue sua vez, na lista de assentamentos dos pedidos.
238 - 13 de janeiro. CIRCULAR aos Irmãos: manifesta-lhes seus sentimentos paternais;
lembra aos Irmãos a gratidão pelos muitos benefícios recebidos e prescreve uma novena de
ação de graças; noticia o falecimento do Irmão Pacôme.
239 - 20 de janeiro. Ao bispo de Belley, Dom Alexandre Devie: dificuldades encontradas na
fundação de Nantua; agradecimento pelo empenho do bispo em ajudar na obtenção da
autorização legal.
240 - 21 de janeiro. A Dom Bénigne Trousset D’Héricourt, bispo de Autun: aceita a idéia de
confiar a um Irmão de Semur os postulantes que se destinam ao futuro noviciado a ser
fundado em Vauban.
241 - 23 de janeiro. Ao Arcebispo de Aix, Dom Joseph Bernet: pede um prazo de preparação,
antes de mandar Irmãos para Pélissanne.
242 - 14 de fevereiro. Ao Irmão Dominique, em Charlieu: anuncia que irá fazer-lhe uma
visita e que tenha paciência até lá.
243 - 17 de fevereiro. Ao pároco de Cosne, Padre Jacques Limpot: diz-lhe que, por ora, é
impossível mandar-lhe Irmãos.
244 - 23 de fevereiro. Ao Irmão Basin, em Saint-Paul-en-Jarret: concede-lhe a licença que
pediu e o aconselha a perseverar na vocação.
245 - 26 de fevereiro. Ao pároco do Chambon-Feugerolles, Padre Léonard Gazet: diz-lhe que
não se lembra de ter prometido enviar-lhe Irmãos antes da próxima Festa de Todos os Santos.
246 - 7 de março. Ao prefeito de Saint-Martin-la-Plaine, Joseph Bethenod: pergunta se, do
momento em diante o município poderá pagar os Irmãos.
247 - 10 de março. Ao Irmão Avit, em Pélussin: concede-lhe a autorização pedida e dá-lhe
alguns princípios de vida espiritual.
248 - 23 de março. Ao Irmão Anaclet, em Saint-Didier-sur-Rechefort: aconselha a confiança
em Deus. Permite-lhe comungar três vezes por semana e sugere muita fidelidade à oração.
249 - 8 de abril. Ao Irmão Marie-Laurent, em Saint-Pol-sur-Ternoise: aconselha coragem nas
provações morais e promete-lhe fazer que a comunidade de L’Hermitage reze por ele.
14
250 - 27 de abril. Ao pároco de Boen-sur-Lignon, Padre Jean Breuil: pede que tenha
paciência por alguns anos para esperar o envio dos Irmãos.
251 - 4 de maio. Ao pároco de Saint-Pierre-de-Boeuf, Padre André Darnond: diz-lhe que seu
pedido foi carinhosamente acolhido, mas é impossível atendê-lo no momento.
252 - 12 de maio. Ao Padre François Piccolet, Diretor de um Colégio, em Évian: sugere que
se dirija aos Irmãos da Santa Cruz, do Padre Bochard, para conseguir dotar seu colégio de
educadores religiosos.
253 - 12 de maio. Ao Padre Augustin Revol, pároco de Bougé-Chambalud: o pedido está
anotado, mas não poderá ser atendido neste ano.
254 - 4 de junho. Ao Padre Abel Mège, Arcipreste de Morestel: não é possível mandar
Irmãos para a próxima Festa de Todos os Santos.
255 - 8 de junho. Ao Padre François Piccolet, Diretor, em Évian: não consegue mandar-lhe
Irmãos, mas na Sabóia, pode encontrar outras Congregações dedicadas ao ensino.
256 - 16 de junho. Ao Padre Benoît Hector, Coadjutor em Saint-Lattier: pede-lhe que tenha
paciência por mais um tempo. Em 1840 irá mandar colaboradores para sua obra educacional.
257 - 27 de junho. Ao Vigário Geral de Lião, Padre Jean Barou: diz que não é possível
subtrair algo do estrito necessário.
258 - 17 de junho. A Dom Bénigne Trousset D’Héricourt, bispo de Autun: explica por que
não enviou um Irmão a mais para Semur.
259 - 20 de julho. A um Irmão Jovem, para ajudá-lo no combate às tentações contra a
castidade.
260 - 21 de julho. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: anuncia a
volta do Irmão Raphaël e, mais uma vez, agradece os serviços prestados.
261 - 24 de julho. Ao pároco de Vernaison, Padre Alexis Sanquin: diz-lhe que seu pedido está
anotado e será atendido em tempo oportuno.
262 - 27 de julho. Ao prefeito de Charlieu, Jean-Marie Guinault: agradece-lhe a benevolência
para com os Irmãos e também pelo novo local que oferece à escola.
263 - 9 de agosto. A Stéphanie de Virieu, em Grand Lemps: o Padre Colin deseja muito
entrevistá-la; os Irmãos lhe serão mandados logo que possível.
264 - 12 de agosto. Ao Padre Claude Page, pároco de Digoin: não tem Irmãos disponíveis de
imediato.
265 - 16 de agosto. Ao Padre Claude Thorin, em Lancié: seu pedido está anotado, queira
aguardar a sua vez.
266 - 9 de setembro. CIRCULAR aos Irmãos: convocação para o retiro anual.
267 - 9 de setembro. Ao Irmão Philippe, em Sury-le-Comtal: declara que aceita um meio-
termo na espera de uma organização completa das salas de aula.
268 - 13 de setembro. A Dom Bénigne Trousset D’Héricourt, bispo de Autun: desde que o
convênio esteja firmado, os Irmãos serão mandados para Vauban; pede ao Prelado uma
audiência, após 1º de novembro.
269 - 13 de novembro. Ao Padre Augustin Revol, pároco de Bougé-Chambalud: promete-lhe
Irmãos para o início do ano letivo, 1º de novembro.
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270 - 15 de setembro. Ao pároco de Virelade, Padre Julien Deschal: impossível prometer-lhe
Irmãos, apesar de toda a benevolência pelo projeto.
271 - 17 de setembro. Ao Padre Jean-Baptiste Sallanon, pároco de Craponne: determina
exatamente as condições para receber os Irmãos.
272 - 17 de setembro. Ao Padre François Robitaille, Decano, em Saint-Pol-sur-Ternoise:
manifesta-lhe suas apreensões quanto ao futuro do estabelecimento de Saint-Pol que está para
iniciar as atividades.
273 - 19 de setembro. Ao senhor Libersat, funcionário do Ministério, em Paris: solicita
informações sobre o andamento da autorização; manifesta pesar em ter aceito Saint-Pol contra
o desejo das autoridades locais.
274 - 30 de setembro. Ao Vigário Geral de Châlons, Padre Paulin Loisson de Guinaumont:
aceita com prazer o pedido, mas só poderá ser atendido dentro de dois ou três anos.
275 - 6 de outubro. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: fala dos
Irmãos Apollinaire e Gérasime; dá notícias da Congregação.
276 - 7 de outubro. Ao pároco de Érôme, Padre Jean-Pierre Avit: não podemos fornecer-lhe
Irmãos, embora desejemos muito.
277 - 7 de outubro. Ao pároco de Ville-sur-Jarnioux, Padre Francis Flandrin: agradece pelos
serviços que prestou aos Irmãos de Charlieu, mas por ora é impossível mandar-lhe Irmãos.
278 - 13 de outubro. A Dom Bénigne Trousset D’Héricourt, bispo de Autun: assinala alguns
pontos essenciais que devem constar do contrato que regula a posse do castelo de Vauban.
279 - 14 de outubro. Ao Padre Etienne Celle, coadjutor em Saint-Julien-Molhesabate: os
Irmãos estão prontos para assumir a escola, mas como não possuem ainda o diploma, não
poderão ter o título de professores municipais, “instituteurs communaux”.
280 - outubro. Ao prefeito departamental de Puy, senhor Julien Lagoux: pede seu
consentimento para a abertura das escolas de Craponne e de Saint-Julien-Molhesabate;
anuncia a próxima visita do Irmão Assistente.
281 - 19 de outubro. Ao senhor Victor Dugas, em Saint-Chamond: dá os motivos de não ter
trocado o pessoal do orfanato.
282 - 20 de outubro. Ao Padre François Mazelier, em Saint-Paul-Trois-Châteaux: confia-lhe
Irmão Gérasime e pede que lhe faça as observações que julgar oportunas.
283 - 21 de outubro. Ao pároco de Tence, Padre Jean-François Peala: promete Irmãos para 1º
de novembro do ano próximo.
284 - 21 de outubro. Ao pároco de Virilade, Padre Julien Deschal: reitera-lhe que não poderá
fornecer-lhe Irmãos, de imediato.
285 - 22 de outubro. Ao Padre Touzet, em Aigueperse: responde sua carta e lhe dá esperança
de os Irmãos sem muita demora.
286 - 22 de outubro. Ao pároco de Lamastre, Padre Victor Duroux: duas são as razões pelas
quais não pode atender imediatamente: falta de Irmãos preparados e falta do parecer favorável
das autoridades.
287 - 25 de outubro. Ao pároco de Perreux, Padre Joseph Beneton: anuncia-lhe o envio de
mais um Irmão, o quarto, que cuidará do ensino dos adultos; trata também de questões
financeiras.
16
288 - 31 de outubro. Ao pároco de Saint-Genest-Malifaux, Padre Jean-Antoine Gillibert:
propõe-lhe que aceite o Irmão Pierre-Marie na qualidade de professor municipal (instituteur
communal).
289 - outubro. Ao Padre Augustin Revol, Pároco de Rougé-Chambalud: anuncia a visita do
Irmão Visitador; quanto a fazer abatimento no salário dos Irmãos, impossível.
290 - outubro. Ao Padre Jean-Baptiste Sallanon, pároco de Craponne: Vai chegar primeiro o
Irmão Diretor, que preparará a chegada dos demais Irmãos.
291 - outubro. Ao prefeito de St-Martin-la-Plaine, Joseph Bethenod: quer saber do prefeito se
está garantido o pagamento aos Irmãos que vão lecionar no município.
292 - 31 de outubro. Ao Padre Claude Dumas, Pároco de Usson-en-Forez: comunica que os
Irmãos estão para chegar.
293 - 4 de novembro. Ao senhor Blaise Aurran, em Cuers: ainda não feita solicitação para
abrir um noviciado em Lorgues; pode ir prevendo uma escola para a qual estamos dispostos a
mandar Irmãos.
294 - 11 de novembro. Ao pároco de Sorbiers, Padre Etienne Coignet: faremos o impossível
para que se reinicie a escola, mas será preciso garantir-nos os gastos de fundação.
295 - 19 de novembro. Ao Padre Claude Thorin, em Lancié; lembra a carta anterior (cf. Carta
no 265); espera dar-lhe satisfação logo, contanto que tudo esteja pronto.
296 - 19 de novembro. Ao Vigário Geral de Châlons, Padre Paulin Loisson de Guinaumont:
dá as condições para implantar um noviciado na diocese de Châlons.
297 - 19 de novembro. Ao Vigário Geral de Grenoble, Padre André Berthier: reclama da
exigência do Superior do Seminário Menor, de cobrar dos alunos da escola a ocupação da
Capela.
298 - 20 de novembro. Ao Padre Jean-François Madinier, pároco de Saint-Didier-sur-
Chalaronne: é preciso controlar as ausências de alunos no tempo dos trabalhos do campo, mas
admitir que faltem para ajudar os pais.
299 - 20 de novembro. Ao senhor Blaise Aurran, em Cuers: promete mandar Irmãos em
1840.
300 - 20 de novembro. Ao Padre Joseph Chabert, coadjutor em Les Vans: só podemos
mandar Irmãos dentro de dois ou três anos, se tudo estiver pronto, dentro das condições
exigidas.
301 - 21 de novembro. Ao Padre Joseph Martin, pároco de Albigny: propõe que haja uma só
escola que receba os alunos de Albigny e Curis.
302 - 21 de novembro. Ao pároco de Curis, Padre Pierre Loire: apresenta a mesma proposta
feita ao pároco de Albigny.
303 - 28 de novembro. Ao senhor Joseph Bethenod, prefeito de Saint-Martin-la-Plaine: que
os Irmãos possam receber os atrasados, uma vez que conquistaram o diploma e a licença para
lecionar.
304 - 2 de dezembro. Ao Padre Marcellin Riocreaux, pároco da Saint-Ferréol d’Aurouze:
rascunho de resposta e envio do prospecto.
305 - 3 de dezembro. A Dom Alexandre Devie, bispo de Belley: expõe as dificuldades que
antevê para colocar um noviciado no internato de Saint-Didier-sur-Chalaronne.
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306 - 3 de dezembro. Ao pároco de Saint-Nizier, Padre Mathieu Menaide: promete Irmãos
para o ano seguinte; dá a conhecer os convênios celebrados com os demais orfanatos.
307 - 4 de dezembro. Ao pároco de Sury-le-Comtal, Padre Georges Metton: justificativas,
respondendo às censuras; litígios ainda não resolvidos.
308 - 18 de dezembro. Ao Padre Gire, pároco de Saint-Privat d’Allier: promete fundar a
escola quando o candidato de lá estiver formado.
309 - 27 de dezembro. Ao Padre François Dorzat, pároco de Roches-de-Condrieux: pede que
pague o que deve e não fique com as contribuições dos alunos de outras paróquias.
CAPÍTULO VII - 1840
310 - 2 de janeiro. Ao Padre Gire, pároco de Saint-Privat D’Allier: pede um prazo de três ou
quatro anos; sugere-lhe como solução mais rápida, os Irmãos de Viviers.
311 - 3 de janeiro. Ao Padre Jean-Claude André, pároco de Saint-Julien-de Cray: diz-lhe que
não há mais Irmãos disponíveis, e que precisa a aprovação do vice-prefeito departamental.
312 - 4 de janeiro. Ao prefeito departamental do Loire, senhor Hyacinthe Barthélémy: pede
que informe em que pé estão as negociações para a autorização dos Irmãos e que apóie o
processo, usando seu prestígio.
313 - 10 de janeiro. CIRCULAR aos Irmãos: organiza as conferências (Sessões de estudos)
nos diferentes setores do Instituto.
314 - 16 de janeiro. A Dom Louis De Bonald, Arcebispo de Lião: apresenta-lhe suas
homenagens, informa sobre o andamento do processo relativo à autorização do Instituto e
pede que intervenha.
315 - 21 de janeiro. Ao Padre Gire, pároco de Saint-Privat d’Allier: indica os requisitos da
escola que o padre vai construir para os Irmãos.
316 - 29 de janeiro - Ao Padre Claude-Marie Page, pároco de Digoin: de preferência mandar
construir casa própria para a escola.
317 - 1º de fevereiro - Ao Irmão Timothée, em Belley: carta de animação aos Irmãos que
estão em Belley, a serviço dos Padres Maristas.
318 - 4 de fevereiro. CIRCULAR aos Irmãos: anuncia a morte do Irmão Pascal e a partida de
novos missionários para a Oceânia; nova data para a realização das sessões de estudos.
319 - 11 de fevereiro. Ao Cardeal Hughes De La Tour D’Auvergne, bispo de Arras: apresenta
parabéns por sua ascensão ao cardinalato; pede que use sua grande influência em favor do
processo pendente da autorização legal do Instituto.
320 - 14 de fevereiro. Ao Barão Joseph De Gerando, em Paris: roga que intervenha para
conseguir a matrícula de dois Irmãos no Instituto dos surdos-mudos de Paris.
321 - 14 de fevereiro. Ao senhor Conde Bastard D’Estang: pede que solicite a admissão
gratuita de dois Irmãos no Instituto dos surdos-mudos de Paris e que intervenha junto às
autoridades para conseguir a autorização legal do Instituto Marista.
322 - 14 de fevereiro. Ao Padre Laurent Beurrier, de Vauban: pede o favor de providenciar o
recebimento das camas que vão ser remetidas para Vauban e agradece pelos bons serviços já
prestados.
323 - 22 de fevereiro. Ao Padre Pradier, em Puy: promete Irmãos para cuidar de surdos-
mudos e uma visita no mês de março.
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324 - 25 de fevereiro. Ao tabelião de Cabannes, senhor Marius Peres: é impossível por ora
fornecer-lhe Irmãos; quanto às condições para a fundação de uma escola, são semelhantes às
dos Irmãos das Escolas Cristãs.
325 - 2 de março. Ao pároco de Flavigny-sur-Moselle, Padre Nicolas Vincent: impossível
mandar-lhe Irmãos, antes de quatro ou cinco anos.
326 - 2 de março. Ao Padre Pradier, em Puy: dá as condições para a fundação de uma escola
de surdos-mudos; quer ter uma conversa pessoal.
327 - 3 de março. Ao pároco de Saint-Marcel d’Ardèche, Padre Xavier Vacher: só poderá
contar com os Irmão dentro de quatro ou cinco anos.
328 - 14 de março. CIRCULAR aos Irmãos: anúncio da morte do Irmão Jean-Pierre Deville.
329 - 22 de março. A Dom Philibert Bruillard, bispo de Grenoble: comunica-lhe as condições
exigidas para que os Irmãos se encarreguem de um orfanato.
330 - 22 de março. Ao Cardeal Hughes De Latour D’Auvergne, bispo de Arras: em
conseqüência da evolução do processo, não adianta mandar-lhe imediatamente o documento
que pediu.
331 - 14 de abril. Ao Padre Jean-Baptiste Chaumont, pároco de Tournus: é impossível
mandar Irmãos agora; enquanto espera sua vez, procurar uma casa e o auxílio da
municipalidade em favor dos Irmãos.
332 - 15 de abril. Ao Padre Jean-Baptiste Sallanon, pároco de Craponne: especifica certos
pontos que devem ser regularizados na escola dos Irmãos.
333 - 25 de abril. Ao prefeito de Vauban, senhor Jean Tachon: promete mandar-lhe um Irmão
para a escola de Vauban; aconselha que não o obrigue a começar as aulas durante o mês dos
trabalhos no campo.
334 - 25 de abril. Ao senhor Ambroise Rendu, em Paris: agradece por ter admitido os dois
Irmãos na Instituição dos surdos-mudos; garante que eles vão seguir rigorosamente as
exigências da Instituição.
335 - abril. Ao Padre Jean-François Peala, pároco de Tence: faz-lhe entrever as dificuldades
de implantar uma escola de Irmãos em sua paróquia.
336 - 2 de maio. Ao pároco de Nantua, Padre Jean-Marie Mathias Debelay: promete mandar
Irmãos na próxima Festa de Todos os Santos, contanto que tudo esteja pronto para instalá-los.
337 - 3 de maio. Ao arcipreste de Morestel, Padre Abel Mège: pede que especifique os
recursos que dispõe em favor da escola que pretende criar.
338 - 3 de maio. Ao Padre Jean-François Peala, pároco de Tence: solicita que explicite
melhor as vantagens e recursos que expôs anteriormente. (Cf. Carta nº 335)
339 - 3 de maio. Ao pároco de Prés-Saint-Gervais, em Paris, Padre Pierre Bernard Hugony:
não pode mandar-lhe Irmãos, pois não tem gente; observa que se trata de distância muito
grande da casa mãe; quem vai pagar os gastos dessa viagem?
19
INTRODUÇÃO À TRADUÇÃO EM PORTUGUÊS
"As cartas de um homem sendo o produto quente e vibrante de sua vida, contêm mais
ensino que sua filosofia", escreveu Eça de Queirós em A correspondência de Fradique
Mendes.
Cada leitor vai verificar por si mesmo a veracidade da afirmação. Quanto a nós, nosso
papel é apresentar as cartas do Padre Marcelino Champagnat em sua edição brasileira.
Inicialmente oferecemos alguns dados a respeito delas: datas, destinatários, conteúdo.
Para facilitar a compreensão dos conteúdos forneceremos umas poucas indicações para situá-las
no tempo. Por fim, explicitaremos algumas opções da edição brasileira.
1) As cartas, graças às pesquisas de alguns Irmãos, citadamente Irmão Paul Sester e
Irmão Aureliano Brambila, estão hoje à nossa disposição 339 cartas ou bilhetes escritos pelo
Padre Champagnat. Desse total, só 109 são do próprio punho do Fundador; as outras 230 são
cópias de textos atribuídos a ele ou porque são por ele assinados ou porque o conteúdo nos dá a
certeza de serem dele. Foram publicados todos pelo Ir. Paul Sester no original francês - Lettres
de Marcellin J. B. Champagnat. Rome, Casa Generalizia dei Fratelli Maristi, 1985.
Cobrem o período de 1823 a 1840, 17 anos da vida do Fundador. Muitas devem ter sido
perdidas, pois foi apenas em 1829 que começou a ser organizada a Secretaria da sede do
Instituto em Notre Dame de l'Hermitage, ao lado da cidade de Saint-Chamond.
Cinco anos depois, em 1834 começaram a ser guardadas cópias das cartas expedidas.
Para se ter uma idéia da quantidade de cartas perdidas, basta pensarmos que dispomos apenas de
uma carta de Champagnat a seu Superior, o Pe. Jean-Claude Colin, ao passo que as cartas
conservadas de Colin ao Pe. Champagnat elevam-se a 44. É sabido que os dois mantiveram
intenso intercâmbio epistolar. Muitas cartas de Champagnat devem ter sido queimadas por Colin
em 1841, 1860 e 1869. Cf. Origines Maristes, tomo I, p. 27.
A maioria absoluta das cartas foram escritas em l'Hermitage. Várias, em Paris, quando
o Padre Champagnat lá esteve por um período de uns três meses, trabalhando para a aprovação
legal do Instituto. Em La Valla, unicamente uma, a mais antiga em data, primeiro de dezembro
de 1823, enviada ao primeiro Irmão Marista, Jean-Marie Granjon. O Instituto fora fundado havia
quase sete anos.
De 1824 até o falecimento de Champagnat temos ainda 338 cartas. A maioria absoluta é
dos três últimos anos e meio de vida. Desse período são 261 cartas, ou seja, 77% do total, o que
daria uma média aproximada de 77 cartas por ano; no período anterior, de 1825 a 1836, quando
o centro da administração já era l'Hermitage, a média seria de um pouco mais de 6 cartas por
ano.
Eis como se distribuem as cartas por ano:
ANOS Nº DE CARTAS ANOS Nº DE CARTAS
1823 1 1832 2
1824 0 1833 6
1825 0 1834 20
1826 1 1835 10
1827 6 1836 16
1828 3 1837 88
1829 2 1838 69
20
1830 5 1839 74
1831 6 1840 30
Os destinatários das cartas são muito variados: a maioria absoluta (188 cartas) é gente do
clero - quase sempre párocos, mas também vários bispos; destinatários Irmãos são 69 (15
circulares e 54 cartas particulares); os outros destinatários vão desde o vizinho, o comerciante
até os prefeitos, governadores (préfets), ministros, a rainha e o rei.
As cartas, com raríssimas exceções, tratam de questões a resolver, muitas atinentes ao
funcionamento das escolas. As dirigidas às autoridades maiores se referem quase todas à
autorização legal do Instituto para conseguir a isenção do serviço militar para os Irmãos.
Temos certeza de que se Paul Verlaine houvesse tido a ocasião de ler as cartas de
Champagnat teria concluído de outro modo o poema sobre o assunto:
Et le temps que l'on perd à lire une missive n'aura jamais valu la peine
qu'on l'écrive.
Para os Maristas valeu a pena Champagnat escrever. Em suas cartas sentimos "o produto
quente e vibrante de sua vida".
2) O contexto. Para entender-nos melhor o conteúdo das cartas, na maioria centradas na
questão escolar, será útil termos uma idéia do contexto da França no período 1815-1840.
Após a derrota de Napoleão Bonaparte, volta ao trono da França a família dos Bourbon,
com o rei Luís XVIII, irmão de Luís XVI que a Revolução Francesa havia guilhotinado. Reinou
de 1815 a 1824. Pretendeu, ou melhor, viu-se obrigado, a governar à moda dos reis de antes da
Revolução. Seu irmão e sucessor, Carlos X, que reinou a partir de 1824, exagerou no mesmo
sentido e foi obrigado a renunciar em 1830. As cartas refletem algo da agitação social por volta
de 1830-1831. O novo rei, de outra família, Luís Felipe, governou com o apoio dos "burgueses",
mais afinados com as idéias da Revolução. Champagnat escreveu-lhe uma carta e outra à sua
esposa, a rainha Maria Amélia, da família Bourbon.
Administrativamente toda a França estava dividida em 86 departamentos, sendo cada um
governado por um préfet, prefeito departamental, equivalente no Brasil ao governador de estado.
O prefeito departamental era nomeado pelo Ministro do Interior. O Pe. Champagnat enviou
cartas a alguns desses prefeitos departamentais (19 cartas). O mais próximo de Champagnat era
o do Departamento do Loire, sediado em Montbrison.
Cada Departamento era subdividido em 2 a 5 arrondissements ou distritos, cada um
administrado por um sous-préfet, vice-prefeito, também nomeado pelo Ministro do Interior, lá
de Paris. Saint-Étienne, cidade fabricante de armas, era uma vice-prefeitura do Departamento do
Loire.
Cada distrito era dividido em vários cantões, que não tinham governo especial. Cada
cantão abrangia várias communes ou municípios. Cada município era governado por um maire,
o prefeito municipal. Para ajudá-lo no governo tinha um Conselho Municipal.
A casa de Notre Dame de l'Hermitage ficava no município de Saint Martin-en-Coilleux,
que fazia parte do cantão de Saint-Chamond; este dependia do distrito de Saint-Étienne, que
dependia do Departamento do Loire, cujo prefeito departamental tinha sede em Montbrison.
Há mais de 20 cartas escritas a prefeitos municipais; só duas ao vice-prefeito de Saint-
Étienne e 9 a prefeitos departamentais. Champagnat escreveu também a funcionários públicos,
deputados e ministros, que agiam de modo comparável aos políticos de hoje.
21
Mas a maioria das cartas era dirigida aos padres responsáveis pela paróquia e pela
escola. Em geral, quem pedia Irmãos para fundar uma escola era o pároco, mas depois de se
acertar com o prefeito municipal que, junto com o Conselho Municipal, providenciava o local e
o pagamento dos Irmãos.
Assim as escolas seriam públicas e os Irmãos, professores municipais. O professor
primário na França se chama de instituteur porque ele institui a nação.
Havia requisitos para ser professor? Havia, sim. O título de professor primário era
conferido pela Academia, que era parte da Universidade da França. Essa havia sido estruturada
pelo imperador Napoleão Bonaparte no Decreto de 17 de março de 1808. Declarava seu artigo
primeiro: O ensino público, em todo o Império, é exclusivamente confiado à Universidade. De
modo que, para ser professor primário o cidadão precisava ter autorização da Universidade, a
não ser que fizesse parte de uma Congregação Religiosa autorizada pelo governo.
A Universidade da França estendia-se por todo o território nacional. Dividia-se em 17
Academias regionais, cada uma dirigida por um Reitor de Academia, nomeado pelo Ministro da
Instrução Pública, lá de Paris. A maioria dos Irmãos, para obter o título, estavam sob a jurisdição
da Academia de Lião.
Além dessa lei havia outra mais recente uma ordonnance, isto é, um decreto-lei, de 29
de fevereiro de 1816. Vamos explicitar algumas de suas exigências em seus artigos 10 e 11.
Qualquer pessoa que quiser trabalhar como professor do ensino primário deverá:
1) apresentar ao Reitor de sua Academia um Atestado de Boa Conduta assinado pelo
pároco e pelo prefeito municipal;
2) prestar exame perante um inspetor da Academia ou um delegado do Reitor;
3) receber do Reitor um brevet de capacité (diploma), se for aprovado no exame.
Esse diploma podia ser de três níveis:
a) nível inferior ou 3.º grau, para quem soubesse ler, escrever e contar, até o ponto de
saber lecionar essas aptidões;
b) nível médio ou 2.º grau, para quem dominasse a ortografia, a caligrafia e o cálculo (as
quatro operações) e fosse capaz de as lecionar usando o "ensino simultâneo", igual ao dos
Irmãos das Escolas Cristãs;
c) nível superior ou 1º grau, para quem soubesse a gramática francesa e a aritmética por
princípios (isto é, com as regras teóricas) e fosse capaz de lecionar noções de geografia, de
agrimensura e outros conhecimentos úteis, a nível primário.
Esses dispositivos não foram modificados substancialmente nas leis seguintes.
Outra lei que trouxe muita preocupação ao Padre Champagnat foi a do alistamento
militar. (Lei de 10 de março de 1818). Quem fosse sorteado devia servir o governo durante sete
anos. Imagine um Irmão ficar fora da Congregação esse tempo todo! Estavam dispensados os
Irmãos professores que pertencessem a uma Congregação que tivesse a aprovação do governo
francês. Não era o caso dos Maristas
Havia três modos de os Irmãos Maristas safarem-se do serviço militar. Aos três
Champagnat refere-se nas cartas e a eles recorreu em ordem crescente:
1) pagar um substituto para servir o governo no lugar dele;
2) conseguir o diploma de professor, no mínimo de nível médio e depois assinar o
compromisso de lecionar durante dez anos (engagement décennal);
22
3) entrar para uma congregação autorizada pelo governo, durante o período em que
estava sujeito ao serviço militar. Isso não estava previsto em lei, mas foi o modo mais utilizado,
como se pode verificar nas cartas ao Padre Mazelier.
Após essas grandes questões, digamos ainda algo sobre o ano letivo e as estações do ano.
O "ano escolar" francês tinha datas diferentes do ano letivo brasileiro. Começava logo depois da
Festa de Todos os Santos (1o de novembro) e terminava no final de agosto ou meados de
setembro. Nas férias os Irmãos faziam o retiro espiritual e seguiam cursos de aperfeiçoamento
em Notre Dame de l’Hermitage.
As estações do ano influenciavam muito o ritmo de vida, sobretudo na região rural. As
aulas começavam em pleno outono, que iniciava a 23 de setembro, e continuava no inverno, que
iniciava a 21 de dezembro. Nas outras estações, em vários lugares, os meninos não vinham à
aula: ficavam ajudando os pais na lavoura.
Após esse contexto francês, exemplifiquemos algumas opções que precisamos fazer ao
traduzir o contexto francês para o ambiente brasileiro.
3) Edição brasileira. O Ir. Sulpício José, antes de falecer em Campinas, na Semana
Santa, a 14 de abril de 1995, tinha terminado uma primeira versão da tradução das cartas.
Escrevera até uma breve introdução com a data de 17 de novembro de 1994. Dizia entre outras
coisas:
A presente versão em português procura expressar, em linguajar simples,
vazado no sentido epistolar de hoje, o que diz o texto bilíngüe francês-
espanhol, excelente trabalho realizado pelo Irmão Aureliano Brambila, que
teve acesso aos documentos originais do arquivo marista de Roma. São
mínimas as alterações de sentido que, na passagem do francês para o espanhol
me parecem perder um tanto de sua força de expressão.
Cada carta vem precedida de um breve comentário que ajudará o leitor a
situar-se no tempo e nas circunstâncias que deram motivo ao escrito. Nesta
bela coleção, encontram-se várias cartas dirigidas ao mesmo correspondente,
em épocas diferentes, o mais das vezes dando seqüência ao mesmo assunto
anteriormente tratado. Com a numeração, foi fácil indicar as referências de
uma para outra, de modo a deixar o leitor prevenido do que se trata
Em setembro de 1995, a Equipe do Patrimônio Espiritual Marista encarregou-nos da
revisão de todo o trabalho. Para isso valemo-nos do texto original francês publicado pelo Irmão
Paul Sester. Umas poucas vezes tivemos que acrescentar partes omitidas do texto traduzido;
outras poucas, retificar um significado. Freqüentemente cortamos expressões inteiras para
restituir a simplicidade do original francês.
As cartas estão na ordem cronológica em que foram escritas. Irmão Paul Sester agrupou-
as por "capítulos", apenas para dividir os períodos de tempo.
Fazemos notar que as introduções do Irmão Sulpício a cada carta não correspondem
exatamente às do Irmão Paul Sester. Procuramos suprimir as informações que já estivessem na
carta apresentada. Assim evitamos repetições. Raramente acrescentamos alguma coisa.
As introduções aos "capítulos" ficaram como o Irmão Sulpício as deixou.
Agora, algumas particularidades que observamos na revisão:
1) Nomes próprios. Deixamos os antropônimos com a grafia original, mesmo os nomes
de batismo. Isso, por analogia com a norma técnica que manda escrever Jean-Paul Sartre e não
23
João Paulo Sartre; Karl Marx e não Carlos Marx. Os topônimos também foram mantidos no
original, exceto quando já consagrados em Português, por exemplo: Lião, Bordéus.
2) Pronomes de tratamento. O pronome pessoal vous foi traduzido conforme o tipo de
pessoa a quem se dirigia o locutor: você, quando o Padre Champagnat se dirigia aos Irmãos ou
amigos íntimos; o senhor, nos outros casos; V. Excia, quando se dirigia a autoridades maiores;
monseigneur era o tratamento dado aos bispos em francês.1
3) Término das cartas. Nele o francês é muito mais formal que o brasileiro. Por
exemplo, parece rebuscado despedir-se de um igual com os dizeres: "vosso humílimo e
obedientíssimo servo", quando é fórmula natural em francês: votre très humble et très obéissant
serviteur. Era como o barão do Rio Branco terminava as cartas que, em Paris, escrevia ao ex-
imperador D. Pedro II: "De Vossa Majestade muito humilde, agradecido e obediente súdito".2
A expressão francesa votre tout dévoué père seria bem traduzida por "o pai a seu inteiro
dispor", mas várias vezes ficou mesmo "seu devotado pai". Aliás, Machado de Assis recebeu
carta em que seu correspondente se declarava: "o amigo e discípulo devotadíssimo, Luiz
Mendonça".3 Ou: "creia-me sempre seu muito dedicado, Joaquim Nabuco".4
Serviteur é traduzido por “servidor” mas, às vezes poderia ser por "criado", como usado
pelos literatos: "seu amigo e criado, atento, obrigado e admirador", declara Euclides da Cunha a
Machado de Assis.5
4) Monsieur e enfant. Monsieur era o título dado aos padres. Por isso, no começo das
cartas traduzimo-lo por "senhor padre"; no caso de monsieur le curé, por "senhor pároco".
Enfants era o termo empregado por Champagnat para referir-se aos alunos dos Irmãos;
em francês traz a conotação de filhos. Traduzimos o termo por meninos ou por crianças, para
manter o espírito original. Élève, aluno, é palavra raríssima nas cartas de Champagnat.
Para terminar, fazemos votos de que as cartas do Fundador em sua versão brasileira se
torne uma fonte de consulta para entender e viver, cada vez mais, a paixão dele pela educação
integral das crianças e dos jovens.
Curitiba, 25 de janeiro de 1997
Ir. Ireneu Martim
1
Cf. Paulo RÓNAI. A tradução vivida. Rio de Janeiro, Educom, 1976, p. 50-51; Milred LARSON. La
reducción baseada en el signifacado. Buenos Aires, Eudeba, 1989, p. 160-163.
2
Correspondência entre D. Pedro II e o Barão do Rio Branco. São Paulo, C. E. Nacional, s.d., p. 71.
3
Machado de ASSIS. Correspondência. Rio de Janeiro, Jackson, 1937, p. 328.
4
Ibidem, p. 72.
5
Francisco VENÂNCIO FILHO. Euclides da Cunha a seus amigos. São Paulo, C. E. Nacional, 1938, p. 106.
24
INTRODUÇÃO
Ir. Paul Sester
25
CAPÍTULO I: 1823-1833
Como se vê é um longo período de dez anos, fase inicial em que as cartas
administrativas do Padre Champagnat ficaram sem cópia.
Antes da Lei Guizot, de que falaremos no segundo capítulo, vigorava desde 1816 o
Decreto do Rei Luís XVIII que estipulava a criação, em todos os cantões, de um comitê
gratuito, encarregado de incentivar a instrução primária e de zelar pela ordem e os bons
costumes. Fazia parte dele obrigatoriamente o pároco do lugar, assim como o vice-prefeito
departamental, o juiz de paz e um procurador do rei. Além desses membros de direito, quatro
ou mais cidadãos eram escolhidos pelo reitor da academia, sujeitos a serem aprovados e
nomeados pelo prefeito do Departamento.
Os programas das disciplinas, a carga horária e o método de alfabetização seriam
análogos aos dos Irmãos das Escolas Cristãs. Estes podiam apresentar título de professor
primário, contanto que tivessem a aprovação do Irmão Superior. Eram eles, os “Grands
Frères”, os paradigmas do ensino na França daqueles tempos, muito estimados pelo Padre
Champagnat.
Aos 18 de fevereiro de 1824, o bispo de Limoges, Dom Gaston De Pins, é nomeado
pela Santa Sé Administrador Apostólico de Lião, mas sem o título de Arcebispo, pois o
Cardeal Fesch não resignava o cargo, embora vivesse em Roma.
Aos 16 de setembro do mesmo ano, morre Luís XVIII e Carlos X sobe ao trono da
França. Foi destronado pela revolução denominada “Les Trois Glorieuses”, 27, 28 e 29 de
julho de 1830, dirigida contra a Igreja, contra os padres e contra tudo o que lembrava
“l’Ancien Régime”, isto é, o antigo poder monárquico, nitidamente favorável à religião.
Não tardou que o novo Rei Luís Felipe emitisse em 21 de abril de 1828 um Decreto
Real que mandava passar para a esfera civil a incumbência de velar pela instrução primária.
Mas, para não indispor completamente os católicos contra esta medida vexatória, permitiu a
visita das escolas primárias pelo bispo da diocese. Os anticlericais pareciam triunfar.
“Desde a revolução de 89, a religião católica estava doente, sentenciava enfaticamente Jules
Janin; e a revolução de julho deu-lhe o tiro de misericórdia”.
Foi em 25 de julho de 1830 que se deu a visita domiciliar de um procurador do Rei a
l’Hermitage.
Champagnat, sempre confiando em Deus e na proteção de Maria não perdeu a calma
nem suprimiu o uso do hábito religioso ou as práticas regulamentares do culto. Simplesmente
continuou o trabalho de formação dos Irmãos e cuidou de manter em funcionamento as
escolas. “Deus é que permite todos os acontecimentos, dizia aos Irmãos. É sua Providência
divina que faz com que tudo reverta em benefício de seus eleitos. Se confiarmos em Deus, não
nos acontecerá mal algum!”
26
1 – Ao Irmão JEAM-MARIE GRANJON, Saint-
Symphorien-le-Château
1º de dezembro de 1823.
O Irmão Jean-Marie Granjon, nomeado pelo Padre Champagnat em 2 de janeiro de 1822
como encarregado de dirigir a Escola de Bourg-Argental, abandonou o posto pouco tempo depois de
ser nomeado. “Deixou a escola com 200 alunos nas mãos de um Irmãozinho de 15 anos”. "Enfiou na
cabeça que devia entrar na trapa", diz o Irmão Avit (cf. Vida de M. Champagnat, Edição do
Bicentenário, p. 140).
Depois de um mês de retiro na trapa, resolveu voltar a l'Hermitage, para ir prostrar-se aos
pés do Padre e pedir-lhe perdão. Magnânimo e caridoso, o Padre Champagnat não só perdoou o
extravio momentâneo do discípulo, como também demonstrou confiar nos protestos que este lhe fazia
de não mais cometer outra. No outono de 1823, o piedoso Fundador confiou-lhe a direção da escola
de Saint-Symphorien-le-Château; foi para lá que Champagnat mandou a carta que abaixo vem
transcrita.
O Irmão Jean François (Étienne Roumesy) não gostou de ser tirado de Saint Sauveur, onde
lecionava. O Padre Champagnat o encarregava de se ocupar do andamento dos trabalhos da casa de
l’Hermitage.
O Padre Colomb, com quem o Irmão Jean François se relacionava freqüentemente, estava
empenhado na fundação de uma obra destinada a órfãos e abandonados. Convidou o Irmão Jean
François a se associar a ele. Contrariando os conselhos do Padre Champagnat, Roumesy abandonou
a casa sem aviso prévio. O Padre Colomb o acolheu de braços abertos, mas em questão de dois anos
se desentenderam e a obra foi água abaixo.
Caros filhos em Jesus e Maria!
Demorei até hoje para escrever a vocês, a fim de poder dar-lhes notícias dos outros
estabelecimentos que visitei na semana passada. Todos vão bem de saúde e ficaram muito
satisfeitos em saber notícias suas.
Em Bourg-Argental, o Irmão Michel se desincumbe a contento de suas funções; a
escola dos Irmãos até que não vai mal, entretanto, só conta com 90 alunos por enquanto, mas
todos os dias estão chegando outros. Continuam porém muito mal instalados; pior ainda,
proibiram-lhes o acesso ao quintal, que lhes seria muito útil! Não estou zangado com isso.
Falei com o senhor Deplainé e com o senhor Sablon; fiz ver a eles que a construção não estava
adaptada à escola e se não se podia esperar qualquer coisa melhor para o futuro. Prometeram;
mas, sei lá eu o que irão fazer. Não têm pressa de efetuar os pagamentos.
Em Boulieu, as coisas vão de vento em popa. Já são mais de cem alunos. Estão
pedindo com insistência um terceiro Irmão. Ainda não sei quem vou mandar para lá. O pároco
se diz muito satisfeito. Disse-me que sonhava conosco toda noite, tal o desejo que nutria de
nos atrair para o seu departamento e sua diocese, fazendo-nos entrever grandes vantagens,
através da benevolência do senhor Duque de Vogué, do qual se diz apenas o intérprete.
Peçamos a Deus que nos faça conhecer sua santa vontade e declaremo-nos sempre
servos inúteis.
O Irmão Lourenço parece estar contente em Vanosc, mas os meios que os Irmãos têm
à disposição continuam módicos.
27
A escola de Saint Sauveur continua a crescer, embora o Irmão Jean François não
lecione mais lá. Aos poucos, parece que já dá mostras de resignar-se. Não gostei muito que
você lhe tenha anunciado qual o novo trabalho para o qual estava sendo designado.
Ao ver chegar três Irmãos no município, o Padre Colomb desconfiou do que se tratava
e me escreveu a respeito da mudança. Tenho fé de que, apesar da oposição de parte e de outra,
terei ganho de causa, pois quando para lá viajei, apresentei as razões pelas quais agia daquela
maneira.
Em casa do Padre Colomb e sem a presença do prefeito, todos me pareceram estar de
acordo com isso.
Em Tarentaise, também vai tudo muito bem. Os meninos dizem que o Irmão Lourenço
era muito legal, mas que este é mais ainda.
Quanto a Lavalla, acho que teremos muitos alunos e também muitos pobres. Graças a
Deus! Faremos o possível para alimentá-los.
Apresentam-se igualmente muitos noviços, mas a maioria deles são pobres e muito
crianças. Contudo, há três que têm a idade da razão, pois já passam dos trinta. Um deles é
homem de negócios, outro é sapateiro e o terceiro, esse não é nada. Mas, é com nada que Deus
realiza grandes coisas.
Se você precisar de um terceiro membro para sua comunidade, eu poderei mandá-lo,
bastando para isso que o senhor pároco faça o pedido.
Como tenho intenção de lhe escrever em outra ocasião, termino aqui. Asseguro-lhe
que sempre serei com muita satisfação seu atencioso pai em Jesus e Maria.
Lavalla, 1º dezembro de 1823.
Minha respeitosa homenagem ao Senhor Pároco ao qual tenciono escrever.
28
2 – Ao Padre JEAN-CLAUDE COURVEILLE.
final de setembro de 1826.
O padre Champagnat se fizera sócio do Padre Jean-Claude Courveille para a compra das
propriedades de La Valla e de l'Hermitage.
Courveille retirou-se de l'Hermitage pouco depois do restabelecimento do Padre
Champagnat, em 1825. (cf. Vida do P. Champagnat, Edição do Bicent. Cap. XIV)
O Padre Champagnat viu-se na contingência de marcar um encontro com ele, para um
acerto de contas. Na resposta o próprio Courveille marcou o encontro para 4 ou 5 de outubro de
1825. Não convinha que a entrevista se desse em l'Hermitage, pois o Padre Terraillon não admitia
sob nenhum pretexto ver de novo Courveille na própria casa onde fora protagonista de fatos
lamentáveis.
Mais condescendente, o Padre Champagnat avisa que o Padre Terraillon já não está em
l'Hermitage; portanto, aceitará receber Courveille em l'Hermitage, se os Senhores Vigários Gerais
não se opuserem. É o que dá a entender o rascunho que ficou incompleto.
Depois, pensando melhor, Champagnat se lembra que tem uma viagem programada para
Grenoble e que ele mesmo poderá ir ao encontro do destinatário.
Meu caro Padre Courveille,
Desejaria muito que você viesse aqui ou marcasse um lugar onde pudéssemos
conversar. Não estando o Padre Terraillon em l'Hermitage, caso também os Senhores Vigários
gerais não tenham proibido (que você apareça em l’Hermitage), eu não.
Como devo fazer uma viagem a Grenoble, a fim de ter uma entrevista com o senhor
Bispo.
29
3 – Ao Padre PHILIBERT GARDETTE, Superior do
Seminário Maior de Lião.
maio de 1827.
Esta carta é um rascunho. Não sabemos se foi mandada, pois o Irmão Jean-Baptiste diz que
o Padre Champagnat foi conversar com o Padre Gardette para lhe expor a situação em que se
encontrava.
Após a saída de Courveille e Terraillon, o Padre Champagnat ficou sendo o único
sacerdote, na casa de l'Hermitage. Como precisava ausentar-se freqüentemente para visitar as
escolas, a fim de completar a formação dos Irmãos, a casa de L'Hermitage necessitava de um ou dois
Padres residentes, que assegurassem o atendimento espiritual dos Irmãos.
Pouco depois, ficou destacado para este fim o Padre Séon.
Senhor Superior,
A grande confiança que tenho em V. Revma
É sempre junto à V. Revma. que venho buscar
Com muita confiança venho buscar junto à V. Revma. conselho e consolo em meus
aborrecimentos. Estou completamente sozinho, como certamente já sabe. De qualquer modo
que eu procure me virar, é-me impossível atender a tudo. Necessito absolutamente visitar
nossos estabelecimentos, a fim de me certificar de que maneira anda cada casa; ter
informações dos párocos se nossos Irmãos procedem corretamente, se não travam relações
perigosas. Isto tudo me é impossível se não tenho alguém que colabore comigo.
Somos aproximadamente oitenta; temos em nossas escolas atualmente pelo menos
dois mil alunos, parece-me que isto mereceria alguma consideração.
Se é importante, no que todos estão de acordo, que os jovens sejam bem formados em
religião, importante também é que os seus formadores sejam não somente bem formados, mas
que além disto não fiquem abandonados a si próprios, uma vez enviados.
Ninguém melhor do que eu sabe de minhas preocupações. Para enumerá-las, não sei
nem por onde começar. Além do mais, o receio de o estar incomodando faz com que nem
mesmo vou dizer-lhe que só as minhas dívidas me tomariam todo o tempo.
Termino pedindo-lhe de não me esquecer em suas orações, porque mais do que nunca
verifico a verdade daquele dito do profeta: Nisi Dominus aedificaverit domum in vanum
laboraverunt qui. (Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalharão seus construtores!)
Receba, prezado Superior, a afirmação da perfeita confiança com a qual tenho
30
4 - A um Vigário Geral de Lião.
maio de 1827.
Como na carta precedente, o Padre Champagnat não formula expressamente pedido algum
de Padre para auxiliar no serviço religioso da casa de l’Hermitage, além de outras incumbências
igualmente importantes.
Os noviços e os Irmãos encarregados dos diversos trabalhos de manutenção da casa não
podiam fazer, por exemplo, a contabilidade.
Os dizeres da carta indicam claramente quais eram as intenções do Fundador.
Senhor Vigário Geral,
O triste problema do Padre Courveille e a saída do Padre Terraillon me colocam em
situação melindrosa perante a opinião pública, visto que as pessoas falam sempre sem
conhecimento de causa. Todos esses contratempos me causam desgosto, é verdade, mas não
me surpreendem. Bem que eu estava pensando e mesmo dizendo que não tínhamos chegado
ao fim das provações. Estou até persuadido que a Divina Providência nos reserva outras
provações mais. Contanto, porém que Deus não me abandone, ouso dizer: Bendito seja seu
santo Nome! Nada temo.
Estou sozinho; apesar do que, não desanimo, pois sei quanto Deus é poderoso e como
suas veredas permanecem ocultas mesmo aos mais clarividentes. Muitas vezes Ele atinge o
seu objetivo na hora que nos parece estar longe.
Mantenho sempre a firme convicção de que Deus quer esta obra, nesta época em que a
incredulidade avança espantosamente; porém, talvez queira Ele servir-se de outras pessoas
para estabelecê-la. Bendito seja o Seu santo Nome, quero mais do que nunca cumprir sua
Santa Vontade, logo que eu souber qual é.
Venho com simplicidade expor-lhe minha situação e, segundo o que julgar útil à glória
de Deus, queira V. Revma. tomar as devidas providências. Depois de pô-lo a par de tudo,
aconteça o que acontecer, descansarei em Deus e em sua Mãe Santíssima, e bendirei os seus
santos Nomes!
A minha estimativa é que, nas férias, seremos mais de oitenta, tendo em vista o grande
número que já somos e o grande número de postulantes. Precisaria visitar nossos
estabelecimentos pelo menos cada dois meses, para verificar se tudo anda bem, se algum de
nossos Irmãos não está mantendo relações perigosas, a fim de remediar desde o princípio;
inteirar-me também da limpeza, da observância do regulamento, do progresso dos alunos,
sobretudo na piedade; saber, em suma, se os Irmãos não estão perdendo o espírito do seu
estado.
Para não aborrecê-lo, não farei menção das contas a manter em dia, da
correspondência a expedir, das dívidas a pagar ou remanejar, enfim de tudo o que diz respeito
à parte espiritual e material da casa.
Temos atualmente dois mil alunos em nossas escolas. Só isto, parece-me, bastaria para
merecer alguma consideração. Formar bem os jovens
31
5 – Ao Padre GILBERT DURAND, Pároco de Neuville
-Sur-Saône, Rhône.
maio de 1827.
Finalidade da carta: para que o pároco ponha fim a uma irregularidade havida na casa dos
Irmãos.
A escola de Neuville foi fundada em novembro de 1826. Foi seu primeiro Diretor o Irmão
Jean-Baptiste. O senhor Tripier, benfeitor do estabelecimento cedeu a própria casa para servir da
escola. Ele continuou a ajudar os Irmãos. Apesar de contrariar este grande benfeitor, o Padre
Champagnat insiste na necessidade de preservar a privacidade dos Irmãos.
Senhor pároco de Neuville,
Se o senhor não tomar as devidas providências em favor dos seus Irmãos, não os terá
mais no ano próximo. A casa onde eles moram não lhes convém, por estar servindo também a
outras pessoas.
Parece-me que o senhor Tripier não está decidido a tirar de lá as moças que nela
habitam. Não posso aturar por mais tempo que nossos Irmãos sejam perturbados na própria
casa. O senhor Tripier não quer cumprir a promessa que me fez de reservar para os Irmãos a
parte da casa ocupada por elas. É preciso que ele condene as portas e janelas que se abrem
para o quintal de nossos Irmãos. Espero entrevistar-me com o Padre Cattet um dia desses.
Quero falar-lhe muito a respeito do caso.
32
6 - A Dom GASTON DE PINS, Administrador
Apostólico de Lião.
maio de 1827.
Foi Dom Gaston De Pins quem chegou em tempo (18 de fevereiro de 1824) na Arquidiocese
de Lião para resolver a questão do Fundador com o Padre Bochard. Este pretendia que o Padre
Champagnat unisse os seus “Petits Frères de Marie” aos Irmãos da Santa Cruz, de sua criação.
Também nesta carta o Padre Champagnat deixa de fazer o pedido explícito de mais um
Padre para auxiliá-lo na direção da casa de l'Hermitage. O Irmão Jean-Baptiste diz que
Champagnat foi pessoalmente ter com o Arcebispo para fazer o pedido, o que efetivamente pode
muito bem ter acontecido posteriormente.
Excelência Revma.,
O caso dos sacerdotes de l'Hermitage não deu até agora resultado satisfatório. Por isso,
já não tenho ânimo de me apresentar a V. Excia. para lhe externar o meu grande pesar, ao
mesmo tempo que minha grande confiança. Jesus e Maria, é neles que espero, apesar da
maldade deste século. Continuo mantendo a firme convicção de que Deus quer esta obra,
apesar dos esforços mais do que diabólicos que satanás desde o princípio fez para derrubá-la.
O proceder infeliz daquele que parecia o chefe é uma espantosa investida do inferno,
mas Jesus e Maria serão sempre o amparo seguro de minha confiança.
Deus quer esta obra nestes tempos de perversidade. Sempre tem sido esta minha
convicção inabalável. Mas, ai de mim! Talvez Deus queira outros homens para estabelecê-la.
Que seu santo nome seja bendito!
O triste incidente acontecido àquele que parecia ser o chefe, mostra claramente os
mais terríveis esforços que o inferno todo inventou para destruir uma obra que previa
destinada a causar-lhe grande dano. Jesus e Maria sempre serão o apoio sólido de minha
confiança.
A bondade extremamente paternal com que V. Excia. se dignou acolher-me, quando
de sua chegada a esta diocese, me anima a solicitar de V. Excia., em nome de Jesus e de
Maria, que proteja esta obra, que até agora julguei merecer todo o meu empenho e também a
atenção da parte de V. Excia.
De padre, estou sozinho. Isto me entristece, porém não me faz desanimar, pois Aquele
que me sustenta se chama Deus Forte.
Venho expor a V. Excia. minha posição: somos aproximadamente oitenta e até as
próximas férias ultrapassaremos este número, tendo em vista o contingente avultado de
postulantes.
Confio em que o Superior do Seminário terá a gentileza de explicar-lhe a situação em
que me encontro. Estando assim V. Excia. a par de tudo, eu me remeterei à santa vontade de
Deus, que saberei pela vontade de V. Excia.
Receba a certeza da consideração que lhe deve o menor de seus administrados e que
sempre se considerará honrado em prestar a V. Excia. total lealdade e perfeita submissão.
Champagnat.
33
7 - A JEAN JOSEPH BAROU, Vigário Geral de Lião.
maio de 1827.
Esta carta é para pedir mais um padre para l'Hermitage, e propõe que seja o Padre Étienne
Séon.
De acordo com os pareceres do Arcebispo, era o Padre Barou, um dos Vigários Gerais, o
encarregado de distribuir os cargos e funções dos eclesiásticos da Arquidiocese.
Dir-lhe-ei sem rodeios que tenho muito prazer em comunicar-me com o senhor. É com
muita confiança que escrevo, para dar-lhe a conhecer meus aborrecimentos e expor com
simplicidade minha situação.
Estou sozinho, o senhor bem sabe, e isto traz preocupação às pessoas que têm estima
pela obra e a ajudam. Os de fora que geralmente falam sem conhecimento de causa, me
acusam como primeiro culpado pelo afastamento do Padre Courveille e do Padre Terraillon.
Todos esses contratempos me causam pesar, mas não surpresa. Já esperava e ainda espero por
provações mais duras. Seja bendito o Santo Nome de Deus!
Continuo tendo a firme confiança de que Deus quer esta obra, mas, ai de mim! Talvez
Ele queira outros homens para estabelecê-la. O triste incidente acontecido àquele que parecia
ser o chefe constitui uma tramóia das mais terríveis que o inferno inventou para acabar com
uma obra que previa destinada a causar-lhe dano.
Vai aqui em poucas palavras a minha posição. O senhor poderá agir de acordo com o
que achar melhor para a maior glória de Deus. Estimo que até o fim de agosto seremos mais
de oitenta, tendo em vista o contingente numeroso dos que pedem ingresso e o número
elevado que já somos.
Lá pela Festa de Todos os Santos, teremos dezesseis estabelecimentos e eu teria
necessidade absoluta de visitá-los, pelo menos cada dois ou três meses, para saber em que pé
estão as coisas. Preciso saber também se algum Irmão não anda comprometido em relações
perigosas, a fim de remediar desde o princípio; se o regulamento está sendo observado, se os
alunos estão progredindo, sobretudo na piedade; também combinar com os párocos e os
prefeitos a respeito do que nos deve ser pago. Numa palavra, para me certificar que os Irmãos
não estão perdendo o espírito da vocação.
Nem lhe falo da contabilidade a manter, da correspondência a pôr em dia, das compras
a fazer, das dívidas a pagar ou cobrar, de tudo aquilo que diz respeito aos interesses espirituais
e materiais da casa.
Temos agora cerca de dois mil alunos em nossas escolas. Parece-me que isto merece
alguma consideração. Todos estão de acordo que é de suma importância a formação da
juventude. Portanto, importa que aqueles que estão trabalhando nesta excelente missão sejam
formados e não fiquem relegados à própria sorte, uma vez enviados.
Esperando por um auxiliar apropriado, que tenha amor pela causa, que só exija a roupa
e a comida, recomendo-me às suas orações, pois vejo mais do que nunca a verdade do oráculo
divino: Nisi Dominus.
O Padre Séon seria muito bom para nós, por diversas razões. Seria alguém que não
pediria nada, e até, segundo me disse, entregaria seu patrimônio estimado em vinte mil
francos.
34
8 – Ao senhor ALEXANDRE DENIS DEVAUX DE
PLEYNÉ, prefeito de Bourg-Argeantal, Loire.
final de 1827.
Finalidade da carta: Convencer o prefeito da impossibilidade de reduzir o pagamento que a
prefeitura deve aos Irmãos.
A data é deduzida do lugar que ocupa no caderno de notas de onde foi extraída. O texto vem
antes da carta endereçada aos padres de Annecy, datada dos primeiros meses de 1828.
Quanto à mobília, o prefeito e senhora se encarregaram de fornecê-la. Não foi
providenciada em tudo, mas a senhora se esmerou em colocar à disposição dos Irmãos camas boas
com os respectivos colchões.
Apesar de receberem alguns donativos por parte de pessoas generosas, o pagamento ficou
incompleto até 1832. Em vez de 1200 francos os três Irmãos juntos só receberam 960.
O montante de mil e duzentos francos já é quantia bastante módica para cobrir os
gastos necessários à manutenção de três Irmãos num município. Diminuí-la mais seria, a meu
ver, já não digo subtrair-lhes o magro salário atribuído ao trabalho mais ingrato e mais penoso
de um cidadão, mas seria até diminuir-lhes a comida, que já é pobre e nada rebuscada. Todos
os municípios em que temos três Irmãos estão pagando mil e duzentos francos. É o que fazem
Boulieu, Ampuis, Neuville l’Archevêque, Charlieu, Mornant e Saint-Paul-en-Jarret.
Podemos, isto sim, para favorecê-lo, colocar o estabelecimento do seu município em
pé de igualdade com o de Saint Sauveur, à razão de mil francos para três Irmãos no inverno e
dois no verão. Entretanto, bem que o senhor sabe que os Irmãos das escolas Cristãs são pagos
à razão de seiscentos francos cada um. Contudo, tanto no caso deles como no nosso, um, só
cuida da cozinha. Mas nós reduzimos a dois terços a quantia que é paga a eles e que ninguém
contesta. Além de exigirem um local adequado, os respeitáveis Irmãos das Escolas Cristãs
solicitam mil e seiscentos francos para a casa mãe, no primeiro ano; três mil pelo mobiliário
que, no espaço de três anos, fica sendo deles; mil e oitocentos por ano, quantia reconhecida
como absolutamente necessária.
Quanto a nós, além da morada, não pedimos senão mil e duzentos francos anuais e mil
e quinhentos por uma mobília simples. Essa quantia Bourg-Argental nunca nos deu.
Deixo que sua prudência e seu coração generoso julguem se não seria uma crueldade
reduzir ainda mais essa quantia. Comunicarei sua carta ao prefeito do Departamento. Ele me
prometeu que se interessaria pelos municípios pobres.
Receba meus sentimentos de elevada consideração com a qual tenho a honra de ser,
senhor Prefeito...
35
9 – Aos padres de ANNECY, Haute Savoie.
No decorrer do ano de 1828.
Promete quatro Irmãos a serem mandados por ocasião da Festa de Todos os Santos. A carta
estipula as condições exigidas para que os Irmãos se encarreguem da direção de um estabelecimento,
em Annecy, que na época já tinha uma população superior a 11.500 habitantes. Não era, como se vê,
"une petite école de campagne".
Notamos que, ao enviar Irmãos a Bourg-Argental, Champagnat tinha em mira proporcionar
ensino e educação cristã aos meninos de pequenas localidades do interior. (Cf. Vida de M. Ch.
Edição do Bicentenário, p. 86) Isto em 1822. Seis anos são decorridos e já se nota uma abertura
maior nos pontos de vista do Fundador.
1o) Respondi ao senhor cônego que teríamos prazer em fundar na sua região uma ou
duas casas, com o único objetivo de trabalharmos para a glória de Deus e aumentar o número
dos filhos de Maria.
2o) Respondi que por volta da festa de Todos os Santos, poderíamos destacar quatro
Irmãos para Annecy.
3o) Fiz saber que a Casa Mãe só pede que paguem os gastos de viagem e que ela
sempre reserva para si o direito de dispor de seus membros, de acordo com o bem geral que a
Sociedade exigir, seja qual for a região em que se encontrem.
4o) Pedimos para os Irmãos, em cada lugar onde forem, uma casa espaçosa, bem
arejada e saudável; salas de aula amplas, de acordo com o número de alunos, um quintal para
os Irmãos se distraírem trabalhando; mobília de dois mil francos e cem francos anuais para a
sua conservação.
5o) Solicitamos sejam pagos mil e seiscentos francos por ano, para quatro Irmãos. Em
alguns lugares, permitimos que cobrem pequenas contribuições dos pais remediados, para
cobrir uma parte dos gastos do estabelecimento.
Tomo também a liberdade de avisar a administração de Annecy que nós queremos
manter o direito de dispor dos candidatos que se apresentarem, segundo nossos critérios, não
só para a Sabóia mas também para toda a França.
36
10 – Circular aos Irmãos.
Janeiro de 1828.
Como não traz assinatura, podemos duvidar que seja do próprio punho do Fundador. O
estilo é um pouco diferente. Pode ser um Padre ou Irmão, que a tenha redigido, obedecendo às idéias
enunciadas por Champagnat. (Cf. Bulletin de l’ Inst. Vol. 22, p. 165)
Caríssimos Irmãos,
Deus nos amou desde toda eternidade; escolheu-nos e nos separou do mundo. A
Santíssima Virgem nos plantou em seu quintal, Ela tem o cuidado de que nada nos falte.
O Senhor bispo Administrador da diocese viaja para Paris. Ao mesmo tempo que vai
se ocupar dos assuntos da Igreja Galicana, defenderá também nossos interesses junto ao rei. A
atenção e o zelo que vem demonstrando para com nossa Instituição bem merecem nosso
reconhecimento e nossa gratidão para com este bom Pai.
Assim pois, vamos fazer súplicas, orações, votos e ações de graças por todas as
pessoas: pelos reis e por todos os constituídos em dignidade, para que tenhamos vida tranqüila
na piedade e em toda pureza de costumes. É isto que agrada a Deus; Ele quer que todos os
homens sejam salvos (Tm 2).
Quando receberem nossa carta, queiram recitar durante nove dias seguidos, junto com
os alunos, as Ladainhas da Santíssima Virgem no encerramento das aulas da manhã ou por
ocasião da visita do Santíssimo Sacramento. Intenção da novena: pedir uma boa viagem para
o senhor Bispo e sua comitiva.
Agradecemos as lembranças e lhes desejamos paralelamente um bom ano.
37
11 – Ao Padre SIMON CATTET, Vigário Geral de Lião.
18 de dezembro de 1828.
O Padre Champagnat escreveu ao Padre Cattet para pedir mais um Padre para L'Hermitage.
É que o Instituto começava a se organizar melhor. Sabemos que a partir de 1829 foi estabelecida
uma secretaria e deu-se a abertura de um Livro de Atas.
Outra razão ainda para este pedido: o Padre Champagnat tinha a intenção de reunir em
torno de si um pequeno núcleo da Sociedade de Maria, como dá a entender no começo da carta. A
este núcleo estaria agregado o Instituto dos Irmãos que, na opinião de Champagnat, devia continuar
como sendo um ramo da Sociedade de Maria.
O interesse que o Senhor demonstrou até hoje pela Obra de Maria me anima a tentar
novas solicitações para o seu crescimento. Enquanto os conluios, que só têm em vista o mal,
se fazem com tanta facilidade, por que será que as reuniões que só aspiram à glória de Deus
sempre esbarram com dificuldades insuperáveis?
Faz quinze anos que estou comprometido com a Sociedade de Maria, cujo crescimento
está nas mãos do senhor. Em momento algum duvidei que Deus queria esta obra, nestes
tempos de incredulidade. Rogo-lhe que me faça saber que esta obra não é de Deus, ou então
queira favorecer cada vez mais seu desenvolvimento.
A Sociedade dos Irmãos não pode de jeito nenhum ser considerada como a Obra de
Maria, mas apenas como um ramo acrescido da mesma Sociedade.
Teríamos necessidade de mais uma pessoa para o bom andamento da administração da
obra dos Irmãos, que já começa a deslanchar.
Permita-me que lhe lembre agora, cá entre nós, a promessa que me fez de me enviar
todos os candidatos que se encaixassem em nossa obra, e que, portanto, nada mais exigiriam
do que a roupa e a comida. Tenho em vista vários que apresentam esses requisitos: Os
senhores R. N. Esperando que cheguem, digo-lhe que este último seria muito bom para o
economato de nossa casa.
O Padre Séon, o senhor bem sabe, administra o lado espiritual da casa, também se
ocupa de nossa fabricação de fitas (de seda); ajuda de vez em quando nas paróquias vizinhas,
com as quais queremos ter boas relações, como o senhor sabe.
O Padre Bourdin coordena as aulas dos noviços, a escrita, as contas, o canto, o
catecismo, o fornecimento de livros às escolas e toma conta da capelinha.
Quanto a mim, estou encarregado da visita às escolas, do exame dos meninos que as
freqüentam, da correspondência, dos ajustes a estabelecer com os municípios, das
transferências dos Irmãos, da aceitação dos noviços que se apresentam; numa palavra, do bom
andamento em geral e em particular de todas as fundações.
Só posso reservar para a parte material da administração um tempo muito insuficiente,
sem poder fazer nada para as escolas que gastam sem critério.
Ciente de que o senhor agora está a par de minha situação, deixo a seu critério o
cuidado de nos ajudar, de acordo com o que Deus e a Boa Mãe o inspirarem.
Se o senhor nos mandar alguém, daremos graças a Deus; se julgar que isto não é
oportuno, diremos que seja feita a vontade de Deus. Farei sempre o possível para cumprir a
vontade de meus superiores, a quem muito amo e estimo e que jamais esquecerei.
Tenho a honra
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12 - Ao Exmo. Sr. RAOUL GABRIEL JULES, Barão
DESRAUTOURS DE CHARLIEU, prefeito
departamental do Loire.
11 de abril de 1929.
O caderno de Conta de l’Hermitage traz, no dia 17 de maio de 1827: Recebido do Sr.
Prefeito do Loire, 1500 francos. Esses recursos vieram sem ser solicitados e continuaram a ser
mandados depois. (cf. Vida M. Champagnat, Edição do Bicentenário, p. 164.)
No dia 25 de agosto de 1828, um despacho da Prefeitura do Departamento do Loire
solicitou os seguintes dados:
- número de escolas primárias no Departamento;
- municípios em que estão instaladas;
- número de alunos de cada escola supra citada.
O requerente explicita: "Como o Conselho geral deve reunir-se no dia 8 de setembro
próximo, necessitamos desses dados para que nos sirvam de base na concessão de recursos que
enviaremos para as escolas elementares."
Sem dúvida, após a obtenção desses recursos, Champagnat escreveu a seguinte carta.
O interesse que V. Excia. demonstra por nossa casa me leva a fazer-lhe uma exposição
simples e sincera de nossa atual situação. Nossos estabelecimentos, em número de dezesseis,
vão razoavelmente bem. A casa mãe, na qual somos por volta de cinqüenta, entre Irmãos e
noviços, vai regularmente; contudo, as carências aqui ainda são grandes.
Estamos pagando por ano mil francos de prestações. Apesar dos pesares, conseguimos
pagar a parcela de nossas dívidas já vencidas, no ano em que V. Excia. teve a gentileza de nos
estender a mão, mas no ano passado andamos à míngua de recursos. Estou com séria
apreensão quanto ao presente, pois, além do grande número de doentes, são muitos os que
vivem às nossas expensas.
Para ocupar os tempos de intervalo entre as aulas, começamos a fabricar fitas (de
seda). Já tive a honra de informar V. Excia. a esse respeito. Mas, já faz quase dois meses que
não temos serviço. Nesta época também, vários de nossos Irmãos voltam à casa mãe, porque
nos municípios onde estão lotados, o pessoal emprega os meninos na agricultura.
Sabemos que o Deus de bondade dispõe com sabedoria os canais de distribuição de
suas benesses; bem que tivemos experiência dos efeitos salutares daquela divina
benemerência!
Pedimos ao Senhor que conserve à frente desse Departamento tão digno chefe, e para
nós tão generoso benfeitor.
Digne-se V. Excia. receber os protestos de nosso mais profundo respeito, com que,
senhor Prefeito, tenho a honra de me subscrever, de V. Excia., respeitoso e obediente servidor.
Champagnat
Superior dos Irmãos Maristas.
L'Hermitage de Notre Dame de Saint-Chamond,
11 de abril de 1829.
39
13 – Ao Padre CLAUDE PHILIBERT TERREL, Pároco
de Charlieu, Loire.
setembro de 1829.
São dois rascunhos de carta. O texto B parece ser o mais recente. Não sabemos se a carta foi
mesmo expedida, o certo é que a escola de Charlieu teve um ótimo desempenho.
Para entender os dizeres da missiva, precisaremos recorrer aos Anais do Irmão Avit. Explica
ele:
"Os Irmãos habitavam uma parte do mosteiro pertencente ao Padre Hugand. Tiveram que
abandonar o local por razões que nos são totalmente desconhecidas. Ora, o Seminário Maior de Lião
possuía uma casa em Neuville. O Padre Place, ecônomo do Seminário, de acordo com Champagnat e
o Pároco Terrel, alugaram a casa, em 8 de julho de 1829. Foi tudo bem estipulado e escrito em papel
timbrado. Duração do aluguel: 9 anos, a partir de 25 de dezembro de 1829. Preço: 700 francos
anuais.
Terrel se encarregou de fazer os consertos, bem como de pagar o aluguel. No primeiro ano,
este seria reduzido para 600 francos, em vista dos consertos.
O contrato foi assinado por Champagnat e Place, mas Terrel não assinou. Será que viu que
não poderia arcar com as despesas do conserto?”
O Padre Champagnat nesta carta mostra-se muito jeitoso para lembrar ao pároco seus
compromissos e se mostra também disposto a fazer concessões.
O caso foi parar no Arcebispado que deve ter resolvido o impasse.
Versão A
Senhor Pároco de Charlieu,
Estou chegando de Lião. Entrevistei todas as pessoas com quem desejava me entender,
tendo em vista os interesses de Charlieu.
Estive com o Padre Cattet, Vigário Geral. Coloquei-o a par dos assuntos relativos a
Charlieu. Disse-me ele que não supunha que houvesse tantos obstáculos e que nós
estivéssemos com tantos encargos financeiros.
O Padre Place mandaria fazer todos os consertos, mas com isso ele cobraria mais, no
aluguel. Penso que, se o Seminário nos permitir pegar a madeira necessária para os reparos,
com mais os quatrocentos francos que o senhor daria, poder-se-iam fazer os consertos na parte
da casa ocupada pelos Irmãos.
O reverendo Vigário Geral me disse de sua promessa que, enquanto o senhor estivesse
em vida, nós não teríamos que gastar do nosso dinheiro.
Minha opinião é que o senhor deveria, além do mais, entrar com os quatrocentos
francos por conta dos consertos de que ficou sendo responsável, ao tratar o trabalho com o
senhor Hugand e que foi colocado na conta de nossos Irmãos.
O senhor já economizou duzentos francos nas melhorias da casa dos Irmãos, melhor
dizendo, às custas da saúde deles.
Versão B
Acabo de chegar de Lião onde entrevistei todas as pessoas com quem desejava tratar a
respeito dos assuntos concernentes a Charlieu. Dei notícia ao Padre Cattet, Vigário Geral, de
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todos os obstáculos que encontrei em Charlieu. Respondeu-me ele que não esperava que
houvesse tanta coisa, que nós ficaríamos com tantos encargos financeiros.
O Padre Place me disse que faria de bom grado todos os consertos projetados, mas que
por isso cobraria mais caro pelo aluguel.
Em Charlieu, achava-me em posição tão melindrosa que não podia ser pior. Se o
senhor quiser manter o que tratou com o senhor Hugand, entrar com os quatrocentos francos
que prometeu, duzentos dos quais foram economizados às custas de nossos Irmãos, poderá
contar com sua escola.
Em Lião estão pensando o mesmo que pensávamos em Charlieu: o senhor Hugand não
entrega na proporção do que recebe. O Padre Place desejaria que a gente mencionasse, se
possível, a quanto iriam os gastos com os consertos que o senhor Hugand pretende fazer.
Para lhe mostrar minha boa vontade, Senhor Pároco, acrescentarei por minha conta
duzentos francos, tendo em vista o quintal a que terão acesso os Irmãos. Quanto ao contrato de
aluguel da casa, quero ficar completamente por fora. Os Padres Séon ou então Bourdin
desejam ter em Charlieu o mesmo tratamento que era dado ao Padre Cantet.
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14 – Ao Irmão BARTHÉLEMY, Ampuis, Rhône.
21 de janeiro de 1830.
Esta carta deve ser resposta a uma do Irmão Barthélemy, escrita em primeiro de janeiro,
para desejar ao Fundador um Feliz Ano Novo.
O Padre Champagnat mostra a importância da vocação marista e anima o Irmão a
perseverar neste santo estado. O recado para os alunos é um retrato do amor que o Padre
Champagnat sempre demonstrou para com os meninos.
A carta é endereçada ao Irmão Diretor, mas a certa altura, o Fundador muda o tratamento
para o plural, para os Irmãos da comunidade.
Meu caro Irmão Barthélemy e seu caro colaborador.
Fiquei muito satisfeito de receber notícias suas. Fico satisfeito de saber que vocês
estão com boa saúde. Sei também que estão com muitos alunos e que, portanto terão também
muitas cópias de suas virtudes, pois é seguindo estes modelos que seus alunos se formam. De
acordo com os exemplos que vocês derem é que eles vão pautar o comportamento deles.
Como é grande o trabalho que vocês fazem, como é sublime! Vocês estão
continuamente em companhia daqueles com os quais Jesus se comprazia, já que proibia
expressamente a seus discípulos de impedir as crianças a se achegarem a Ele.
E você, meu caro amigo, não só não impede mas ainda faz de tudo para conduzi-las a
Jesus. Oh! que bela recepção vai ter da parte do divino Mestre, este Mestre generoso, que não
deixa sequer um copo de água fresca sem recompensa.
Digam a seus meninos que Jesus e Maria gostam muito deles todos: dos que são bem
comportados porque são parecidos com Jesus, que é o máximo de bem comportado; dos que
ainda não são, porque eles serão. Digam que Nossa Senhora também gosta deles porque Ela é
a Mãe de todos os meninos de nossas escolas. Também digam a eles que eu os amo, que não
subo ao altar sem pensar em vocês e em seus queridos alunos. Desejaria eu ter a felicidade de
ensinar, de consagrar minhas atenções de maneira mais direta para formar essas crianças
delicadas.
Todos os demais estabelecimentos vão mais ou menos bem. Rezem por mim e por
toda a casa.
Tenho a honra de ser seu pai muito dedicado, em Jesus e Maria,
Champagnat
sup. d. I. M.
Notre Dame de l'Hermitage, 2l de janeiro de 1830
42
15 - Ao Padre Simon Cattet, Vigário Geral de Lião,
Rhône.
12 de fevereiro de 1830.
Pede que sejam concedidos poderes mais amplos aos Padres da Sociedade de Maria, a fim
de melhor atenderem os penitentes.
A faculdade que tinham os Padres de absolverem os casos reservados ao bispo tinha sido
revogada por Dom Gastão de Pins. O Padre Champagnat pede que essa faculdade seja novamente
concedida a ele e aos Padres da Sociedade de Maria que já gozavam da aprovação para absolver os
casos comuns; que tenham também o poder de absolver os casos reservados ao bispo. Deste modo,
entendia Champagnat, poderiam eles exercer plenamente seu ministério sacerdotal, não só em
L'Hermitage, mas também em lugares de missão. É preciso lembrar que a Sociedade de Maria foi
desde o início destinada às missões. (Cf. Vida de M.J.B. Champagnat, Edição do Bicentenário, p. 27)
N. D. de l'Hermitage, 12 de fevereiro de 1830.
Senhor Vigário Geral,
O decreto do senhor Bispo, recentemente promulgado, deixa os poderes de absolver os
casos reservados somente aos párocos colados e a outros sacerdotes aos quais se julgue
oportuno concedê-los novamente. Visto isto, creio do meu dever expor-lhe as circunstâncias
em que me encontro. Embora não tenha chegado até nós esse dispositivo sabiamente
concebido, presumimos que tem efeito de suspensão dos poderes dos Padres de l'Hermitage.
Considere, senhor Vigário Geral, se não é conveniente que solicitemos mantenham esses
poderes aos quatro Padres de nossa Sociedade, residentes nesta diocese: os Padres Séon,
Bourdin, Pompallier e este seu servo.
Estamos sendo solicitados, com bastante freqüência até, para pregações e retiros.
Além do mais, quando ficamos residindo na casa, foram poucos os dias em que não vieram
pessoas de outras regiões para confessar-se. Acontece, nos casos de confissões
extraordinárias, que necessitamos de todos os poderes para absolver casos reservados.
Agora mesmo, dois Padres dos nossos estão de partida para Saint-Priest, a fim de
pregar, em duas etapas, quinze dias de retiro, que começam domingo próximo. Queira, pois,
por favor, responder-nos sem demora. O Padre Pompallier está conosco há seis meses. Julgo
ser conveniente pedir também para ele poderes que tenham o mesmo alcance que os nossos,
pela seguinte razão: depois de fazer, em algumas paróquias vizinhas, pregações isoladas,
acabado o sermão, é o Padre solicitado ao confessionário. Tem que escusar-se de não poder
atender, porque seus poderes só valem para l'Hermitage e para as pessoas que vêm aqui, para
fazer uma confissão extraordinária.
São estas as situações dos Padres de nossa Sociedade. Todos continuam se
congratulando com a administração benévola de V. Excia. e lhe tributam profundo respeito e
irrestrita submissão.
Com estes mesmos sentimentos, tenho a honra de ser, Senhor Vigário Geral, seu muito
humilde servo obediente,
Champagnat, sacerdote.
43
16 - AO IRMÃO ANTOINE, (circular) Millery, Rhône.
5 de agosto de 1830.
Comunica aos Irmãos a data da entrada em férias e aproveita a ocasião para lhes
recomendar de não se espantarem com os transtornos causados pela revolução de 1830. Foi naquele
ano que correram os boatos de que os Irmãos estavam escondendo armas em l'Hermitage, o que
ocasionou a visita domiciliar de que se fala no capítulo XVI da Vida do Padre Champagnat.
Viva Jesus, viva Maria, viva São José.
Meus bons amigos,
Receio não te-los avisado que as férias só começarão no dia 15 de setembro. Os
senhores párocos todos desejam que seja assim e é do interesse da glória de Deus.
Não tenham medo, temos Maria para nos defender. Todos os nossos cabelos estão
contados, não cairá nenhum sem que Deus permita. Estejamos bem persuadidos de que não
temos inimigo maior do que nós mesmos. Somente nós é que nos podemos causar dano e
ninguém mais. Deus disse ao malvado: "Poderás vir até ali; mais longe, não!"
Deixo-os nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Não nos esqueceremos de vocês
em nossas orações. Rezem também vocês por nós.
Tenho a honra de ser seu pai mui dedicado, em Jesus e Maria.
Champagnat, sup. d. I. M.
L'Hermitage de Maria, 5 de agosto de 1830
44
17 – Ao Irmão ANTOINE, Millery, Rhône.
10 de setembro de 1830.
Esta carta, como a precedente, seria uma Circular a ser policopiada (processo litográfico) e
mandada às demais escolas. Nela o Padre Champagnat previne os Irmãos que, em razão dos
tumultos que deixavam a sociedade em sobressaltos, não seria prudente fazer a reunião geral dos
Irmãos em l'Hermitage, para o retiro e o curso de férias que se lhe seguiria. Todos deveriam ficar
nas respectivas casas.
Pelo que dizem os Anais do Irmão Avit, o Padre Champagnat teria logo depois revogado esta
decisão, pois no mesmo dia 10 de setembro recebeu uma carta do Padre Colin que dizia estar
pensando em reunir todos os Padres para a eleição de um Superior. (cf. OM, I, doc. 220, pp. 497-
498.)
Viva Jesus, viva Maria, viva São José!
Caríssimo Irmão Antoine,
As atuais circunstâncias não nos permitem, neste ano, que gozemos férias juntos, em
nossa casa mãe, onde faríamos também o retiro. Esperamos que Deus dará um jeito. Em vista
disto, depois de combinar com o senhor pároco tire quinze dias, durante os quais fará o seu
retiro, sob a orientação esclarecida dele.
Não anuncie férias. Simplesmente diga aos alunos, depois de decidir sobre os seus
quinze dias: "Amanhã, vocês não precisam vir à aula. O Padre anunciará o dia em que vocês
deverão voltar."
Não tenhamos medo de nada, caros amigos, temos Deus por defensor; ninguém poderá
causar-nos dano, sem a permissão dele. Apesar do furor do inferno em luta contra a Igreja,
nada a poderá abalar, pois está construída sobre a rocha. Nunca será tão bela como quando for
perseguida. Portanto, entreguemo-nos à prudente e amável disposição da Providência.
Na casa mãe, nada de novo; igualmente nada nos demais estabelecimentos. Está tudo
correndo mais ou menos bem, graças a Deus.
Diga ao Irmão Dominique que o estimo muito e que rezo por vocês dois. Espero que
não me esqueçam em suas preces fervorosas.
Tenho a honra de ser seu pai mui dedicado em Jesus e Maria,
Champagnat, sup. d. I. M.
Notre Dame de l'Hermitage, 10 de setembro de 1830
45
18 - A UM VIZINHO
Entre maio de 1827 e janeiro de 1832.
O Padre Champagnat mostra, nesta carta, quanto era firme em se tratando de defender seus
direitos. Não só os seus, mas os de toda a comunidade.
Achamos naturalmente estranho isso de mandar uma carta ao vizinho. Não seria melhor ir
falar-lhe pessoalmente? A menos que esse vizinho tivesse seu domicílio longe da propriedade.
Quanto aos dizeres da carta, há, no original, uma palavra incorreta (pentation). Seria
"plantation" ou "prestation"? Parece que a retificação para "prestation" seria mais plausível. E a
razão é a seguinte: A partir de uma lei de 1824, se um município não tivesse arrecadação suficiente
para manter em uso os caminhos regularmente reconhecidos, ele poderia lançar mão de prestação in
natura, com que todo cidadão válido, a partir dos 20 anos, devia contribuir, até o valor equivalente a
dois dias de serviço. Qualquer pessoa, mediante pagamento efetuado pelo devedor impedido, podia
prestar dois dias de serviço à prefeitura. Os Irmãos de l’Hermitage devem ter prestado dias de
serviço a alguns vizinhos que eram industriais. É o que consta do primeiro livro de contas da casa,
onde se lê: “30 de março de 1832, ao senhor Gillet, 3 dias de serviço prestados no dia 27, mais 3
dias prestados no dia 28 e mais 2 no dia 29. Total a receber do Sr. Gillet: 8 dias de serviço.” (Anais
do Ir. Avit).
Já tive a honra de dizer ao senhor Motiron que desejo viver em paz com todos, com
maior razão com os vizinhos. Se me atacarem, defender-me-ei. Você não tem razão de me
acusar que estou querendo me apoderar de sua propriedade, usando artimanhas. Não me
interessa. Também não está a terra depositada na sua propriedade e não lhe pode causar dano.
Estou esperando que você me cite em juízo; se isto acontecer, aproveitarei a ocasião
para exigir a indenização dos (dois) dias de serviço. Obrigá-lo-ei a pagar-me também a tira de
chão que você me roubou. Mandarei arrancar as árvores que plantou muito em cima dos
limites, se é que não estão dentro do que é meu. Finalmente, mandaremos marcar os limites
definitivos. Quanto à água que está reclamando, você não tem nenhum direito.
46
19 – Ao Irmão BARTHÉLEMY, Ampuis, Rhône.
3 de janeiro de 1831.
A carta é resposta aos votos de Feliz Ano Novo que o Irmão deve ter mandado ao Padre
Champagnat (cf. Carta no 14). Mais uma vez, ele enaltece a missão de educador marista e faz outras
recomendações úteis para que o Irmão cumpra bem a sua missão.
O carinho do bom Padre por seus Irmãos se mostra em cada carta. Dá notícias sobre a
família do seu correspondente; por fim, termina com a fórmula que lhe é familiar: “Deixo vocês dois
nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria!"
Habitualmente a escola de Ampuis que, de 1827 a 183l, contava uma média de 120 a 140
alunos, tinha três Irmãos.
Viva Jesus, viva Maria e viva São José!
Meu caríssimo Irmão Barthélemy:
Não tenha dúvida que eu considero a todos vocês como meus queridos filhos em Jesus
e Maria e vocês me chamam com o carinhoso nome de pai; por isso trago a todos bem no
fundo de meu coração.
Fico muito sensibilizado pelos votos de felicidade que você formulou para mim, não
me esquecerei deles. Recomendarei a Deus, em minhas orações, aquele que formulou para
mim tão belos votos.
Tomo parte deveras em todos os aborrecimentos que lhe podem causar os
contratempos sofridos por seus colaboradores. Tome muito cuidado com sua saúde, a fim de
que esteja em boas condições para cumprir seus pesados encargos. Todos os Padres e Irmãos
vão bem de saúde. Transmitirei a eles seus votos de feliz Ano Novo.
Ânimo, meu caro amigo, veja como seu trabalho é precioso diante de Deus. Grandes
santos e homens notáveis se ufanavam por estarem desempenhando uma tarefa tão preciosa
aos olhos de Deus e de Maria. "Deixai vir a mim as criancinhas, pois a elas pertence o céu."
Você tem em mãos o sangue precioso de Jesus Cristo. Depois de Deus é a você que
seus numerosos alunos ficarão devendo a salvação. Toda a vida deles será o eco daquilo que
você lhes tiver ensinado. Esforce-se, não poupe nada para formar à virtude seus corações
juvenis. Faça ver a eles que nunca serão felizes sem a prática da virtude, sem a piedade, sem o
temor de Deus; que não há paz para o ímpio. Somente Deus pode dar-lhes a felicidade, que é
para ele que foram criados. Quanto bem você pode fazer, meu amigo!
Seus pais estão de boa saúde. Seu irmão que servia o exército, faleceu em Paris, de
uma terrível dor de cabeça. Reze por ele. Os pêsames não lhe servirão para nada; ele só
precisa de suas orações.
Teria ainda muito a lhe dizer, espero que breve lhe poderei contar tudo de viva voz.
Deixo vocês dois nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, que são bons lugares!
Tenho a honra de ser pai afetuoso em Jesus e Maria,
Champagnat
sup. d. I.
Notre Dame de l’Ermitage, 3 janeiro de 1831
47
20 – Aos Irmãos ANTOINE e GONZAGUE, Millery.
4 de fevereiro de 1831.
"Os livros pertencem à escola, por isso não me compete dar-lhes licença de emprestá-los,"
respondeu Champagnat ao Irmão.
O Irmão Avit, quando escreve os Anais de Millery, diz o seguinte: "Parece que o Irmão
Antoine, diretor da escola em 1830, foi por algum tempo substituído pelo Irmão Jean-Baptiste.
Depois, como este foi solicitado para um cargo importante em outra frente, o Irmão Antoine retomou
a direção, no começo de 1831.”
Não é de se estranhar tais mudanças freqüentes, por vezes bruscas. Naqueles começos do
Instituto, eram outros tempos e outras necessidades. Ao concordar em fornecer Irmãos para
determinada escola, o Padre Champagnat tinha o cuidado de prevenir as autoridades a respeito de
possíveis alterações nos quadros. Ele se reservava o direito de remover para outro lugar este ou
aquele Irmão, segundo lhe parecesse melhor para atender ao andamento do conjunto da obra que
dirigia.
Meu caro Irmão Antoine e meu caro Irmão Gonzague:
Não posso permitir-lhes que emprestem livros, isto é contra o espírito de sua Regra;
compete ao senhor pároco fazer o empréstimo, se o julgar oportuno.
Estou muito contrariado por ter mandado o Irmão Jean-Baptiste sair, sem avisar o
senhor pároco, mas não me foi possível agir de outro modo. Eu tinha motivos muito válidos
para proceder daquele jeito. Dei-lhe provas evidentes do interesse que votava à escola, de
modo que ele não pode duvidar de minha boa vontade. Os assuntos que nos foram
encomendados seguem seu curso normal. Nós lhes daremos notícias tão logo se apresente
qualquer coisa nova.
Meus bons amigos, redobrem de esforços para que sua escola ande a contento. Não
percam de vista o bem que puderem fazer; vejam com que empenho o Salvador do mundo
quer instruir os meninos: ordena a seus discípulos que deixem que as crianças se acheguem a
sua divina pessoa. Digam a seus meninos que eles estão de posse de uma felicidade imensa
por serem tão caros a Jesus Cristo, como estão sendo. Sim, este Deus de bondade os ama a
ponto de fazer consistir suas delícias em estar com eles. Basta que lhe abram o coração que
Jesus e Maria o cumularão de graças.
Procurem fazer com que Maria se interesse em seu favor. Digam a Ela que depois que
vocês tiverem feito todo o possível, pior para Ela se as coisas não andarem direito.
Recomendem a Ela insistentemente seus meninos, façam com eles uma pequena novena em
sua honra, servindo-se da breve oração do “Lembai-vos”.
A notícia mais gratificante que você podia ter-me dado, Irmão Antoine, é, sem dúvida
alguma, que está contente com o Irmão Gonzague, e que ele está levando uma vida exemplar.
Não vejo a hora de poder ir até aí para abraçar vocês dois. Enquanto fico na espera, deixo-os
nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Não os esqueço nas minhas orações e me
recomendo às suas.
Tenho a honra de ser mui dedicado pai em Jesus e Maria,
Champagnat, sup. d. I. M.
Notre Dame de l'Hermitage, 4 de fevereiro de 183l.
48
21 – Ao senhor JEAN-BAPTISTE MONDON, prefeito
de Feurs, Loire.
abril de 1831.
Jean-Baptiste Mondon foi nomeado prefeito de Feurs em primeiro de setembro de 1830. Só
exerceu o cargo até 2 de maio de 1832. Faleceu no ano seguinte.
Os Irmãos deixaram Feurs na Semana Santa de 1832. (cf. Vida de M.J.B. Ch. Edição do
Bicentenário, p. 170) Motivos do fechamento da escola: o prefeito Mondon, filósofo voltairiano,
partidário do ensino mútuo; procedimento inconveniente de um dos Irmãos em relação a algum aluno
da escola, mobilização da opinião pública contra a escola que estava sendo onerosa aos cofres
públicos. (Cf. Fr. Avit, Abrégé des Annales, p. 102) A escola de Feurs foi fechada após 18 meses de
funcionamento.
Agradeço-lhe a comunicação que me mandou, para me dar ciência da deliberação de
seu Conselho. Encaro com calma resignação o fechamento de seu estabelecimento de Irmãos.
Tomei todas as providências que devia tomar para conservar uma escola cuja prosperidade
aumentara continuamente. Como já tive a honra de lhe comunicar, o Reitor da Universidade
havia prometido ajudar-me para obter o reconhecimento oficial do ensino da doutrina cristã
para a juventude de Feurs. Pelo desconto que dei, demonstrei-lhe que o nosso empenho de
fazer o bem a esses alunos era o objetivo único de nossos sacrifícios. O senhor me fez ver que
a cidade não poderia arcar com a despesa de mil e duzentos francos por ano para três Irmãos.
Retruquei-lhe que me contentaria com quatrocentos e que, a mais deste favorecimento, todos
os alunos pobres receberiam ensino gratuito.
Depois de ficar sabendo da sua decisão de mandar embora nossos três Irmãos, apesar
de todas as ofertas feitas com prejuízo nosso, não querendo contrariar sua administração,
mandei que os Irmãos devolvessem toda a mobília do município, a quem de direito e que
saíssem logo de Feurs.
Rogo-lhe, senhor Prefeito, se digne receber os sentimentos de respeito de quem tem a
honra de ser seu dedicado servidor.
Champagnat
49
22 - Ao senhor JEAN BAPTISTE ANTOINE MERLAT,
prefeito de Saint-Symphorien-le-Château, Rhône.
abril de 1831.
O Irmão Jean-François, que respondia pela escola, porque o diretor Irmão Abel não possuía
a habilitação exigida, estava indeciso na vocação. O Padre Champagnat escreve ao prefeito
sugerindo-lhe, com muito jeito, que dispense o Irmão que não correspondia às expectativas do
Fundador. É que o senhor Boisset (nome civil do Irmão Jean-François) não devia ter as qualidades
de um autêntico religioso marista; com efeito, deixou o Instituto no ano seguinte, 1832.
O Padre Champagnat contava mais com o espírito religioso do que com os diplomas e os
talentos humanos.
V.J.M.S.J.
Sr. Prefeito,
Conhecendo sua lealdade, tenho plena confiança de que o Senhor agirá
prudentemente, segundo seu costume, naquilo que diz respeito a sua escola. O senhor está
com medo de ser enganado, como acontece comigo.
O senhor tem uma escola que, desde que foi confiada a nós, pôde sustentar-se e até
mesmo conquistar a confiança dos seus administrados. Se o Irmão que lhe dei não se acertar
nem continuar na vocação, o Senhor não vai autorizá-lo a ficar, com prejuízo de sua escola.
Tem lá o senhor quatro Irmãos pagos à razão de mil e duzentos francos por ano e eu me
comprometo até a pagar os gastos ocasionados pelos reparos que se começaram a fazer,
mesmo se o senhor mandar de volta o Irmão, do qual tenho razão de me queixar.
A respeito deste assunto, estou informando o senhor Bispo, pedindo a ele que escreva
ao senhor, na certeza de que é isto que o senhor está querendo; o senhor Bispo, sob cuja
proteção está nossa casa, lhe manifestará grande satisfação por esta medida.
Mandar-lhe-ei outro Irmão. Ele se desincumbirá tão bem quanto este que o senhor
tem, pois que conseguiu aprovação em todos os seus estudos.
Não queremos causar-lhe incômodo. Apenas lhe pediríamos de nos permitisse pegar a
mobília que nos pertence, de acordo com o que ficou estipulado com o pároco Padre Roc.
Senhor Prefeito, a gentileza com que o senhor acolheu o Irmão que mandei ali, a fim
de vistoriar a escola, me induz a mandá-lo hoje com o mesmo encargo e para colocar o senhor
a par das nossas reflexões.
O Irmão Jean-François, de sobrenome Boisset, recebeu mal minhas observações sobre
o modo de lidar com os meninos. Receio que dê motivo de queixas que poderiam ser
imputadas à conta de toda a nossa organização. Por outra, vejo que não se dá bem com o
Irmão Abel nem com os demais Irmãos. Se o senhor julgar esta medida acertada, chamarei de
volta este Irmão para a casa mãe. Mandarei então outro que se desincumbirá tão bem quanto
este, pois foi bem sucedido em todas as aulas.
O Irmão que lhe mando atuará de acordo com seu parecer e tomará juntamente com o
senhor as medidas que farão a escola ir para frente. Tal é nosso objetivo, tais os votos que
formulamos.
50
Queira receber meus protestos, senhor Prefeito, de respeito e dedicação com que tenho
a honra de ser seu humilde servidor.
Champagnat.
51
23 - Ao Senhor PIERRE ALEXIS LABROSSE,
Ranchal, Rhône.
29 de agosto de 1831.
A carta resposta do Fundador a Pierre Alexis, que será o segundo Superior Geral (Ir. Louis
Marie), foi mandada para Ranchal que era o domicílio da família Labrosse. Pedro estaria então no
Seminário.
Esta carta é bem conhecida de todos. Estipula as condições para a admissão ao noviciado de
l'Hermitage, que o jovem clérigo estava solicitando. Condições: Boa saúde e desejo sincero de
agradar a Deus.
Vêm depois os requisitos relativos ao enxoval e ao pagamento da pensão do noviciado Não
deixa o Padre Champagnat de aludir à proteção de Nossa Senhora, primeira Superiora do Instituto.
O original desta carta que vem reproduzido no I Volume das Circulares, não é autêntico,
adverte o Irmão Paul Sester; supõe ele, contudo, que não tenha sido alterado substancialmente.
Vivam Jesus, Maria, São José!
Notre Dame de l'Hermitage, 29 de agosto de 1831.
Senhor Labrosse,
A grande, e posso dizer, única condição que se requer para ser admitido em nossa casa
é, além da saúde, a boa vontade e o desejo sincero de agradar a Deus. Venha com esta
disposição e você será recebido de braços abertos. Você fará o bem em nossa casa; Maria,
nossa Boa Mãe o ajudará e, depois de tê-la como primeira superiora, você a terá por Rainha
no céu.
A roupa que você usava no Seminário, bem como a roupa de cama poderão lhe servir
em nossa casa e constituir o seu enxoval. Como pagamento do noviciado, quatrocentos
francos, se puder.
Deixo-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Tenho a honra de ser seu
dedicado servidor.
Champagnat, sup. d. I. M.
52
24 - Ao Irmão BARTHÉLEMY, Saint-Symphorien
d’Ozon, Isère.
1º de novembro de 1831.
A carta original não traz indicação do endereço para onde se destinava. Para conseguir este
dado importante, o Irmão Paul Sester recorre aos cadernos de contas de l'Hermitage. Num deles se
lê: "Em 16-09-1832, recebido do Irmão Barthélemy, por conta da escola de Saint-Symphorien: 43,80
francos"
Resolvido o enigma.
O Padre Champagnat escreve ao Irmão Barthélemy, para lhe conceder a autorização que
este lhe deve ter pedido anteriormente. Aproveita a ocasião para animá-lo a enfrentar as dificuldades
do cargo. Promete ir visitá-lo assim que tiver ocasião de ir a Lião; Saint-Symphorien D'Ozon fica
perto, 30km ao sul.
Interessante notar como o Padre Champagnat, sempre voltado para a catequese, com o
pensamento como que "enfeitiçado" pelo carinho com que falava perante um auditório infantil, lá
pelo fim da carta passa para o estilo direto, como se estivesse se dirigindo aos alunos do Irmão
Barthélemy!
A escola dirigida pelos Irmãos passava então por sérias dificuldades. Quem ousaria dizer
que um simples operário saído dos teares de seda de Lião, fosse capaz de causar tantas inquietações
e contratempos aos Irmãos? Apoiado pelo prefeito, o senhor Farge, atiçou uma concorrência feroz
contra os Maristas e as Irmãs Ursulinas.
V.J.M.
Caríssimo Irmão Barthélemy,
Que Jesus e Maria estejam sempre com você!
Permito-lhe, meu caro amigo, comungar aos domingos, na quinta-feira, como está
indicado em seu regulamento, e na terça, favor que está solicitando agora; mas, esta última
licença só por três meses. Concedo a mesma licença ao Irmão Isidore, mas somente na
primeira terça-feira do mês.
Prometo-lhe que, na próxima vez que for a Lião, irei visitá-lo. Coragem, meu caro
amigo, basta que você, juntamente com seu colaborador, tenham a vontade de ministrar o
ensino a um bom número de meninos. Porém, se os não tiver, sua recompensa será a mesma.
Não se perturbe por ter um reduzido número de alunos. Deus tem em sua mão os corações de
todos os homens; há de lhe mandar muita gente, quando julgar bom. Basta que você, por
infidelidade, não se oponha.
Você se encontra onde Deus queria colocá-lo, pois que está onde o mandaram seus
superiores. Não duvido que Deus o recompensará com abundantes graças.
Não se canse de dizer aos meninos que eles são os amigos dos santos que estão no céu,
da Santíssima Virgem e particularmente de Jesus Cristo.
Tanto é assim que esses corações juvenis causam inveja a Jesus. Se visse o demônio
apoderar-se deles, Jesus estaria disposto, se necessário fosse, a morrer de novo sobre a Cruz,
aí mesmo em Saint-Symphorien, para salvar esses pobres meninos!
53
Acrescente mais este pensamento: Deus ama a vocês todos, e eu também amo a todos,
pois que Jesus Cristo, a Santíssima Virgem, os Santos amam tanto a vocês.
Diga-lhes ainda: “Vocês sabem por que Deus os ama tanto? É porque vocês são o
preço de seu Sangue e porque vocês podem tornar-se grandes santos, mesmo sem muito
sacrifício. Basta querer."
O bom Jesus promete colocar vocês sobre os ombros, para poupar-lhes o esforço de
andar a pé. Que infelicidade, meus filhos, não conhecer Jesus como deveríamos!". Isto é
sobretudo para aqueles que manifestam pouca vontade de estudar o catecismo. Com o número
reduzido de alunos que você tem, faça uma pequena novena em honra da Santíssima Virgem:
Cinco Pai-Nossos e... Nós vamos começar hoje uma novena em l'Hermitage, na mesma
intenção, isto é, para o bom andamento de todos os estabelecimentos da Sociedade. Escreva
nos livros de todos os seus alunos: Maria foi concebida sem pecado!
Abraço-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, onde o deixo. Transmita ao
senhor pároco e a seu coadjutor meus sentimentos de amizade.
Champagnat, sup.
Notre Dame de l'Hermitage, 1º de novembro de 1831.
54
25 - A Madre SAINT-JOSEPH, Superiora das Irmãs
Maristas
Fins de agosto de 1831.
Não sabemos como o Padre Champagnat chegou a conhecer as três moças que apresenta à
Madre, mas é certo que ele se mostrava muito zeloso pelo desenvolvimento de toda a Sociedade de
Maria toda. Umas dez moças foram assim encaminhadas para as Irmãs, como essas três.
J.M.J.
Senhora Madre Superiora,
Envio-lhe as três moças de Saint Laurent d'Agny das quais lhe falei. Se não estão
levando tudo o que desejariam no tocante às riquezas, pelo menos estão levando a boa
vontade de fazer tudo o que a senhora exigir delas. Eu disse a elas que se não lhe levassem
uma renúncia total a si mesmas, uma submissão a toda prova, uma grande abertura de coração,
uma vocação perseverante e um desejo autêntico de amar a Deus a exemplo de Maria, que
nem fossem adiante.
Responderam-me que tais eram os sentimentos que as animavam e as aspirações que
tinham. Disse-lhes que a senhora guardaria esta minha carta para lembrar a elas, em tempo e
lugar, essas disposições. Disseram que concordavam plenamente e que estavam dispostas a
assinar, se necessário fosse, com o próprio sangue, o que tinham afirmado.
Cada uma delas está levando 4 lençóis, 12 toalhas, 6 panos de esfregar o chão, 24
camisas, 18 lenços de bolso e toda a roupa pessoal.
O pai da jovem Chol daria agora 1400 ou 1500 francos, e nada mais; ou então, 400
agora e a herança depois que falecesse. Marie Buis, 500; 200 de entrada e o resto dentro de
um ano. Após o falecimento do pai, ela terá 2.000.
A senhorita Pocachart vai com 100 de entrada. O resto da pensão seguirá à medida que
precisar; após o falecimento dos pais, receberá 4.000 francos.
Posso garantir-lhe que as três são de pais muito bons, autênticos cristãos.
Receba os protestos de minha dedicação.
Champagnat, P. M. superior dos Irmãos
55
26 - Ao Padre CLAUDE DUPLAY, pároco de Marlhes,
Loire.
1832
Os Irmãos abriram a escola de Marlhes em 1819, atendendo ao pedido do pároco, Padre
Jean-Antoine Alirot.
Por causa da insalubridade da casa que foi colocada à disposição dos Irmãos para lhes
servir de moradia, o Padre Champagnat retirou os Irmãos, em 1822. O Padre Alirot faleceu aos 12
de maio daquele mesmo ano. Sucedeu-lhe o Padre Claude Duplay, irmão do Padre Jean-Louis, muito
amigo do Padre Champagnat.
A pedido do novo pároco, os Irmãos retomam a escola de Marlhes em 1832. É desse ano este
pedaço de carta.
Pode-se dizer com toda veracidade que o Padre Jean-Louis Duplay, seu irmão, é causa
da existência dos Pequenos Irmãos de Maria. Eu não teria começado e sobretudo não teria
continuado se ele não a tivesse formalmente aprovado.
Fez mais: quando se tratou, felizmente, de sua instituição definitiva, fui consultá-lo,
como costumava fazer nos assuntos de certa importância. Ao mesmo tempo que se mostrava
interessado em aprovar meu projeto, sua primeira idéia era que eu não deveria deixar o cargo
de coadjutor de Lavalla para me dedicar inteiramente aos Irmãos.
Tendo ocasião de confabular demoradamente a respeito de minha fundação com o
Padre Dervieux, pároco de Saint-Pierre, em Saint-Chamond, modificou seu parecer.
Quando tornei a vê-lo, disse-me que seria uma pena, para ele, se meus projetos
fracassassem. Repetiu-me que era necessário prosseguir, que minha obra era obra de Deus, e
que por isso eu nada deveria temer.
Fique muito satisfeito e reconfortado por estas palavras e, desde então, eu lutava com
mais confiança para superar as contrariedades que se apresentaram.
56
27 - A Mademoiselle MARIE FOURNAS, Saint
Chamond-Loire.
Primavera de 1833.
Fournas era uma senhora solteira benfeitora da obra de caridade que Champagnat fundara
em l'Hermitage, em favor de anciãos sem recursos. (cf. Vida de M.J.B.Ch. Edição do Bicentenário, p.
481)
O Irmão Balko, nos seus estudos sobre a vida do Fundador, não afirma como certo que o
Padre Champagnat tenha construído uma pequena residência à parte, em vez de abrigar esses
anciãos na própria casa dos Irmãos. Quanto a este pormenor, ficamos sem uma informação positiva.
O teor da carta sugere que se trata de construção à parte.
Com a quantia de sete a oito mil francos, como diz Champagnat à benfeitora, era possível
construir uma casinha modesta. Mas, como termina esperando pela resposta da senhora Fournas,
resposta que não possuímos, persiste a dúvida quanto à existência da tal casa dos anciãos, alguns
dentre eles atacados de doenças incuráveis.
Mademoiselle,
Estamos na estação mais bonita do ano. Já é tempo de providenciar um local para
continuar a obra magnífica que começou. Estaremos de coração aberto para ajudar. Há porém
um entrave à nossa boa vontade: a carência de recursos e de local apropriado. Nossa casa
aumenta em pessoal, o que nos obriga a escolher, para tal obra, um lugar independente. Isso
demanda uma despesa de sete ou oito mil francos, sem os quais seríamos obrigados a desistir
desta boa obra, na qual vamos trabalhar, sem contudo negligenciar nosso fim principal.
Aguardo sua resposta.
Estamos contentes com o menino Lucas.
57
28 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, bispo de
Belley, Ain.
Julho de 1833.
Dom Alexandre pediu ao Padre Champagnat Irmãos que se encarregassem de uma das
escolas ou fazendas modelo da diocese de Belley. Na viagem que o Padre fez a Belley, por volta de
seis de julho de 1833, (Cf. Livro de contas 1, p.64), acertou com o bispo mandar Irmãos à escola de
Bresse, no final do verão. Mas, nesta carta que escreve depois do parecer do Padre Gardette, faz
observar que precisa esperar um pouco, a fim de conseguir a autorização do Padre Cholleton,
Vigário Geral de Lião. Expõe também outras dificuldades que precisará superar.
Durante este compasso de espera, a escola esteve por conta do Padre Granjard, que não
soube (ou não pôde) controlar as finanças e a escola sossobrou. Os Irmãos não foram para Bresse.
Atrasei-me um pouco em responder a V. Excia., porque julguei que o Padre Colin lhe
desse a conhecer, nesse meio tempo, a carta que escrevi a respeito do estabelecimento de
Maison Blanche.
Tenho uma simpatia cada vez maior para com esta obra que, se bem examinada, não
fica fora do meu objetivo, pois diz respeito à educação dos pobres. Portanto, senhor Bispo,
envidarei de bom coração todos os esforços para favorecer o zelo de V. Excia., uma vez que
se dignou pensar em minha pessoa.
Voltando de Belley, falei com o Padre Gardette a respeito de estabelecimento que
estava para abrir. Ele me fez ver que seria melhor esperar o regresso do Padre Cholleton,
tendo em vista também que os meses de agosto e setembro são, naquelas regiões, épocas
desfavoráveis à saúde.
Estou tendo bastante dificuldade para transferir o Irmão que pretendo enviar-lhe. Está
numa escola muito importante que teve várias trocas esse ano e algumas ainda recentes. Eu sei
que o senhor Pároco faz muita questão do Irmão.
Nossos Irmãos acabam de chegar na casa mãe; eles vêm gozar as férias juntos e fazer
o retiro espiritual.
Os gastos com essas viagens sobem demais; nossas férias começam no dia 15 de
setembro e vão até 15 de outubro.
Por isso, rogo-lhe, senhor Bispo, que espere mais um pouco, então poderei colocar à
sua disposição Irmãos competentes. Não acho que o Padre Cholleton tenha objeção ao que
estamos combinando.
A idéia da ordem terceira, do Padre Colin, me grada muito. Creio que, nos termos em
que V. Excia. a concebe, terá resultado positivo.
Poderei ir a Maximieux por volta de quinze ou dezesseis de outubro. Mais tarde,
poderei dizer-lhe o dia exato.
Receba V. Excia. meus sentimentos de respeito com que tenho a honra de ser seu
submisso servidor.
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29 - CIRCULAR AOS IRMÃOS.
10 de agosto de 1833.
Como fazia no final de cada ano letivo, o Padre Champagnat convoca, por meio desta
Circular, todos os Irmãos das escolas para que venham gozar das férias em l’Hermitage, onde
também farão o retiro espiritual.
Todos deviam trazer seus pertences, de modo que, no final deste período de descanso,
pudesse cada um encaminhar-se para outro estabelecimento, caso recebessem do superior uma
missão em outro local, distante de onde viera.
Meus caríssimos Irmãos:
Desejo que Jesus e Maria sejam sempre o único tesouro de vocês. Se estiverem
progredindo na perfeição tanto quanto eu desejo, estarão progredindo muito.
Chegou o tempo das férias, época sob todos os aspetos preciosa, tanto para a alma
como para o corpo.
1o) As férias começarão como no ano anterior, no dia 15 de setembro, e durarão até 15
de outubro.
2o) Desejamos que todos cheguem segunda-feira, no mais tardar.
3o) Estamos planejando viajar para Roma, dentro de poucos dias. É preciso que toda a
Sociedade contribua para o êxito de nossa missão, mediante a oração e redobrado fervor. Até
que voltem os que vão estar com Sua Santidade, vamos rezar a Ave Maris Stella e o Veni
Creator, seguido da respectiva oração.
4o) Ao virem para as férias, pedimos que todos os Irmãos tragam consigo os objetos
seguintes:
a) todas as gramáticas que estiverem a serviço e ao uso dos Irmãos;
b) um atestado de moralidade e boa conduta fornecido pelo senhor Prefeito;
c) de cada aluno, uma composição feita no começo do ano, outra na Páscoa e
outra datada do fim do ano.
5o) Todos os livros de aritmética, os modelos de caligrafia ou outros escritos que cada
Irmão deve apresentar;
6o) Seu “brévet” (diploma de professor) e certidão de Batismo etc;
7o) Todos os objetos de uso pessoal;
8o) Os livros de contabilidade, um demonstrativo das finanças do estabelecimento, a
nota de tudo quanto o município esteja devendo.
59
30 - Ao Padre CHOLLETON, Vigário Geral de Lião.
agosto/setembro de 1833.
O Padre Querbes tinha iniciado a Congregação dos Clérigos de Saint-Viateur, perto de Lião.
Devido às críticas movidas contra o Padre Champagnat pelos próprios colaboradores dele, o
Arcebispo de Lião deixou-se persuadir pela idéia de fusão da Congregação dos Pequenos Irmãos de
Maria com os Clérigos do Padre Querbes. Uma das razões para esta união era de que o Padre
Champagnat não conseguia a aprovação legal, mediante a qual os Irmãos seriam isentos do serviço
militar.
O Padre Champagnat via claramente que tal união significaria liquidar a obra pela qual
vinha batalhando, já fazia quinze anos e contava com o trabalho de mais de 50 Irmãos em 20 escolas.
Os Clérigos de Saint-Viateur tinham dois anos de existência, um único religioso e uns poucos
simpatizantes.
Depois de uma consulta franca aos seus confrades, o humilde Padre Champagnat se dirige
ao Vigário Geral, Padre Cholleton, conselheiro do Arcebispado. Na carta a seguir, modelo de
simplicidade e de inteira disponibilidade, Champagnat se coloca às ordens de seus superiores
eclesiásticos.
Notar que Champagnat emprega às vezes o indicativo presente como revivendo
acontecimentos de oito anos passados.
Senhor Vigário Geral,
Ainda não fiz a viagem a Vourles:
1º) porque estive muito assoberbado de serviço; 2º) porque não estimei que me tivesse
sido mandada; 3º) porque não entendi bem de que se tratava; parece-me ter ouvido falar que o
Padre Querbes queria fazer-se marista; nesse caso, seria dever do Pároco de Vourles tomar as
primeiras providências. 4º) nenhum dos meus confrades com os quais conversei aprova esta
viagem; num caso de tanta importância, penso que por iniciativa própria não compete a mim
dar o primeiro passo.
Não me atrevo a comentar isso com os Irmãos, tendo em vista o reboliço que se deu
com os de Millery quando alguém tocou no assunto. No tempo em que sozinho, após o
lamentável desfecho do caso do Padre Courveille e a deserção do Padre Terraillon, o senhor
me aconselhou que falasse com o Padre Querbes, para ver se chegaríamos a um acordo.
Efetivamente estive com ele, mas não cheguei a nenhum acordo como já tive a honra de dizer-
lhe.
Depois de ameaças, as mais terríveis que se possam fazer a um Padre que se desgasta
na saúde e em seus haveres, vi renascer a calma com a chegada de Dom De Pins. Dentro de
pouco tempo, porém, novos perigos, mais terríveis que os anteriores, se armam contra os
Pequenos Irmãs de Maria.
Nefasta foi a medida que, a conselho do Padre Superior, levei a cabo, indo a Epercieux
buscar o Padre Courveille! Ó dia realmente nefasto, capaz de deitar abaixo uma instituição,
caso não estivesse solidamente amparada pelo braço forte da divina Maria!
Durante uma doença grave e prolongada, estando eu afogado em dívidas, quero
constituir o Padre Terraillon meu herdeiro universal. O Padre Terraillon recusa minha
herança, dizendo que eu nada tenho, ao mesmo tempo que não para de bisbilhotar com o
60
Padre Courveille, junto aos Irmãos: "Não demora que os credores virão expulsar vocês daqui.
Quanto a nós, é só aceitar uma paróquia e largar de vocês”.
Por fim, Deus em sua infinita misericórdia, - ai! que digo? - talvez em sua justiça, me
devolve por fim a saúde. Tranqüilizo meus filhos; digo-lhes que nada temam, que eu
compartilharei de todos os seus dissabores, partilhando até o último pedaço de pão.
Foi nesta contingência que constatei que nem um nem outro tinham para com os
jovens sentimentos de pai.
Não tenho nenhuma queixa contra o Pároco de Notre Dame, cujo proceder em nossa
casa foi sempre exemplar.
Com o afastamento do Padre Courveille e a saída do Padre Terraillon, fiquei sozinho;
porém, Maria não nos abandona. Aos poucos vamos pagando as dívidas, outros coirmãos vêm
tomar o lugar dos primeiros. Estou sozinho para pagar os custas da manutenção deles. Maria
nos ajuda e isso nos basta.
Nota do Padre Coste:
A página 13 do caderno do Padre Champagnat, em que está o rascunho da carta, foi
rasgada em diagonal; sobram apenas umas poucas palavras que se lêem, à esquerda.
Aparecem aqui sublinhadas. Através delas, pode-se fazer conjecturas sobre os assuntos que
estariam subentendendo. Assim:
Estou aumentando a propriedade, mediante novas aquisições.
A revolução de 1830 destronou o rei. Recebemod em l'Hermitage um Comissário do rei que
veio vistoriar a casa, na qual os Irmãos estariam escondendo armas e preparando uma contra-
revolução. Apesar das convulsões em que ardeu a França, não fomos tão molestados assim;
apenas a escola de Feurs foi fechada. Tivemos que retirar os Irmãos porque não podiam mais
lecionar, por não gozarem da isenção do serviço militar, como prescreve a lei.
Se perdurar esta exigência, poderíamos pensar em fazer um convênio com os Clérigos de
Saint Viateur, fundados pelo Padre Querbes. Eles já conseguiram a isenção. (Cf. OM,)
61
31- Ao Irmão ALPHONSE, Mornant, Rhône.
3 de novembro de 1833.
Nesta carta, o Padre Champagnat anima o Irmão Alphonse a bem cumprir sua missão de
educador cristão. Mornant era o primeiro campo de ação apostólica do Irmão, que acabava de
professar no dia 15 de agosto, portanto vê-se que sua formação não era muito profunda.
Mas, como os alunos ainda não tinham entrado em aula, havia mais um tempinho para se
preparar. O Padre Champagnat fala apenas do apostolado e da oração em favor dos alunos.
Infelizmente, o Irmão Alphonse (nome de família Verchère) deixou a Congregação três anos
mais tarde.
V.J.M.J.
Notre Dame de l’Hermitage, 3 de novembro de 1833.
Caríssimo Irmão,
Para mim foi um prazer receber sua cartinha e saber que você está bem de saúde e se
esforça por manter a ordem que encontrou em sua nova escola.
Meu caro amigo, dê tudo de si para fazer com que ela prospere. Procure formar em
todas as virtudes cristãs os alunos que lhe forem confiados. Reze por eles, pois com o auxílio
de Deus, eles poderão superar todas as dificuldades que podem aparecer na vida. A obediência
é a virtude que, de preferência, devem praticar.
Adeus, meu caro Alphonse, adeus, eu sou todo seu,
Champagnat.
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32 - Ao Irmão ANTOINE, Millery, Rhône.
10 de novembro de 1833.
Anuncia-lhe a troca do Irmão Isidore que vai ser substituído pelo Irmão Théophile. Este
acabava de tomar o hábito marista, no dia 14 de julho. Não tinha muitos conhecimentos, nem grande
preparo profissional, mas era moço de seus 24 anos, com bastante experiência da vida. Deve ter ido
na qualidade de auxiliar do diretor.
V.J.M.S.J.
Notre Dame de l’Hermitage, l0 de novembro de 1833.
Caríssimo Irmão Antoine,
Esperando a volta do Irmão Isidore, enviamos-lhe o prezado Irmão Théophile. O
senhor Prefeito não pode exigir dele mais documentos do que os que está levando. Segundo o
"Moniteur" (diário oficial), disse-me o diretor do Colégio de Saint-Etienne, um professor que
tem seu certificado pode ter um auxiliar, pelo qual se responsabiliza. Disseram-me a mesma
coisa em Lião mas, informe-se você mesmo. Nenhum dos nossos estabelecimentos foi
incomodado, embora tenhamos em cada um deles apenas um Irmão com certificado.
Adeus, meu caro amigo, reze por mim, que tenho muitos aborrecimentos. Apesar de
tudo, vamos indo,
Champagnat
63
CAPÍTULO II: 1834-1835
Aos poucos a efervescência revolucionária de 1830 vai-se acalmando, mas por volta
de 1833 houve ainda alguns distúrbios que foram prontamente reprimidos. As aspirações de
calma e de paz se fortalecem dia a dia.
Importante mesmo nesta época, no campo de instrução, foi a chamada Lei Guizot, de
28 de junho de 1833, denominada pelo próprio autor de Carta Magna da Instrução Primária.
Principais avanços conquistados por essa Lei:
- a escola precisava ter o parecer dos pais, no tocante à instrução religiosa dos filhos;
- os professores precisavam ter atestado de boa conduta, assinado por três membros do
Conselho Municipal e pelo Prefeito;
- era obrigatório haver pelo menos uma escola primária em cada município;
- nos municípios de dez mil habitantes ou mais, deveria haver também uma escola
primária superior e nos Departamentos, uma escola normal;
- eram conferidos poderes mais amplos aos comitês encarregados de supervisionar a
educação;
- era criado um pecúlio para os professores, constituído pela vigésima parte do salário
de cada ano, a ser depositado na Caixa Econômica;
- em cada município, o pároco seria um dos membros do comitê da instrução primária;
- eram criadas bancas examinadoras para conferir diplomas de conclusão do curso
primário e primário superior.
Grande alegria para o Padre Champagnat foi o reconhecimento, aos 28 de fevereiro
deste ano, dos Estatutos da Congregação Marista, outorgado pelo Real Conselho da
Instrução Pública. Que pena que este reconhecimento não tenha sido equiparado à
autorização legal, que isentaria os Irmãos do serviço militar! A autorização só viria com uma
“Ordonnance” (Decreto) do Rei.
Para conseguir tal “Ordonnance”, o Padre Champagnat começou a valer-se dos
bons préstimos do Padre François Mazelier, a partir de maio de 1835. A congregação da
Instrução Cristã, fundada por Mazelier já gozava desta prerrogativa. Mediante
entendimentos entre Mazelier e Champagnat, os Irmãos que estivessem sujeitos à convocação
para o serviço militar passavam a residir em Saint-Paul-Trois-Châteaux, como se
pertencessem à congregação do Padre Mazelier. Os dois Fundadores pensavam mesmo em
constituir uma única Associação Religiosa. Assim escreveu o Padre Mazelier:
“Estou muito satisfeito de poder entrar em entendimentos com V. Rvma.,
escreveu Mazelier a Champagnat. O senhor dispõe de muitos candidatos e eu
tenho o Decreto da aprovação legal. Prestando-nos serviços um ao outro,
podemos continuar nosso comum apostolado, enquanto esperamos que Deus
manifeste mais claramente sua vontade.”
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33 – Ao Irmão ANTOINE, Millery, Rhône.
janeiro de 1834.
O Irmão Antoine tinha escrito ao Padre, por ocasião do Ano Bom. Esta carta é resposta à do
Irmão.
A lei de junho de 1833 exigia que o diretor de uma escola particular tivesse “Brevet"
(Diploma) de capacitação para exercer o cargo. Este diploma era conquistado pelo candidato ao
magistério que fosse aprovado por uma banca examinadora composta de três conselheiros
municipais, escolhidos pelo Ministério da Instrução Pública. Os exames seriam de nível mais ou
menos elevado, de acordo com o padrão da escola que o diplomando pretendesse dirigir.
Era também exigido um atestado de boa conduta, dado pela Prefeitura.
Meu caríssimo Irmão Antoine,
Nem sequer um instante duvido da sinceridade dos votos que você me apresenta.
Creia-me, eu também desejo ardentemente sua felicidade.
Para mim é um prazer que o senhor Prefeito deixe vocês em paz. No momento, todos
os demais estabelecimentos também estão em paz. A Deu somente toda a hora e glória por
isso.
Estou chegando de Montbrison; é a segunda viagem que faço até lá. Fui muito bem
recebido pelo senhor Prefeito Departamental. Prometeu que terei uma autorização pois que o
governo não pode deixar de aprovar uma obra de natureza tão relevante. Passei-lhe nossos
estatutos e o pedido que estamos encaminhando ao rei.
Os Irmãos Jean-Marie e Jean-Louis estiveram em Saint-Etienne para se submeterem a
exames. Foi no dia 27 próximo passado. Lá encontraram muitos professores, e também três
Irmãos das Escolas Cristãs. Cada um deles, inclusive os nossos, receberam certificado. Dos
professores leigos, somente um conseguiu certificado. Foi um exame levado bem a sério.
Estou com muita pressa, dispondo apenas de um tempinho para lhe dizer que o deixo
nos Sacratíssimos Corações de Jesus e Maria.
Champagnat, sup.
P.S. Estamos recebendo muitos noviços.
65
34 – Carta a LOUIS-PHILIPPE, Rei dos Franceses.
28 de janeiro de 1834.
Uma primeira cópia muito cuidadosamente escrita, talvez do punho do Irmão François, foi
ligeiramente modificada e deu origem à segunda versão. A suposição é de que, antes de assinar a
carta a ser mandada, o Padre Champagnat introduziu umas poucas variantes, do que resultou o
segundo texto. Fez também alguns acréscimos.
1.ª Versão
Nascido no cantão de Saint Genest Malifaux, Departamento do Loire, só consegui
aprender a ler com inúmeras dificuldades, por falta de professores competentes. Senti desde
então a urgente necessidade de uma instituição que pudesse, com muito menor custo, realizar
na região rural o que os Irmãos das Escolas Cristãs realizam nas cidades.
Elevado à dignidade sacerdotal em 1816, mesmo antes de deixar o Seminário de Lião,
pensei seriamente em criar uma Sociedade de professores que julguei dever consagrar à Mãe
de Deus, persuadido de que bastaria o nome de Maria para atrair muitos candidatos. O êxito
alcançado em poucos anos superou minhas expectativas.
Em 1824, sob a proteção do senhor Bispo, Administrador Apostólico da Diocese de
Lião, com os favores recebidos dele e com a ajuda vinda de Saint Chamond, construi, perto
daquela cidade, uma casa ampla na qual se acha a escola modelo da Sociedade.
Já somam vinte e três os municípios que estão providos de nosso pessoal; além do
que, mais uns quarenta candidatos estão em formação na casa principal. Recebemos
numerosos pedidos de fundação de novos estabelecimentos, sobretudo depois da lei de 28 de
junho de 1833, referente ao ensino primário.
Animado pelos resultados felizes e pelo zelo que Vossa Majestade e seu Governo
votam à causa da instrução, considerando outrossim que uma autorização que legalize esta
companhia lhe dará estabilidade, favorecerá seu desenvolvimento e estabelecerá uma perfeita
harmonia com as autoridades locais, depositamos nas mãos de Vossa Majestade os nossos
estatutos com o requerimento.
2.ª Versão
Majestade,
Nascido no cantão de Saint-Genest-Malifaux, Departamento do Loire, só vim a
aprender a ler e escrever com inúmeras dificuldades, por falta de professores competentes.
Compreendi desde então a urgente necessidade de uma instituição que pudesse, com menor
custo proporcionar aos meninos da região rural o grau satisfatório de ensino que os Irmãos das
Escolas Cristãs proporcionam aos meninos carentes das cidades.
Elevado à dignidade sacerdotal em 1816, fui destacado como coadjutor numa paróquia
rural. O que vi com meus próprios olhos me fez sentir mais vivamente a importância de pôr
em execução, sem mais detença, o projeto que há muito vinha acalentando.
66
Comecei, pois, a preparar alguns professores. Dei-lhes o nome de Irmãozinhos de
Maria, convencidíssimo de que este nome bastaria para atrair muitas pessoas. O êxito rápido
em poucos anos justificou minhas conjecturas e superou as expectativas.
Em 1824, sob a proteção do senhor bispo administrador da diocese de Lião, ajudado
por aquele Prelado e pelos homens de bem da região, construí, perto da cidade de Saint-
Chamond, uma casa ampla para nela estabelecer a escola normal da novel Sociedade. Setenta
e dois membros desta casa já estão empregados em um número razoável de municípios sem
contar uns quarenta noviços muito esforçados que se preparam para seguir os passos dos
primeiros.
Para crescer e prosperar, a recém-nascida instituição, cujos estatutos seguem em
anexo, só precisa da autorização legal. O zelo que Vossa Majestade consagra ao ensino, me
anima a requerê-la humildemente. Poderei eu desde já, Majestade, antegozar a alegria de
consegui-la? Atrevo-me a imaginar que sim.
Os numerosos pedidos que me são feitos de toda parte, por diversos prefeitos
(sobretudo após a lei de 28 de junho de 1833), a aprovação das autoridades locais, do prefeito
Departamental do Loire e de vários nobres deputados, que tiveram a gentileza de me prometer
proteção, constituem provas evidentes de que meu empreendimento se coaduna com o espírito
do governo e com as necessidades e recursos dos municípios rurais. Por isso é que nem sequer
um instante posso imaginar que minha solicitação não seja atendida.
Alimento, pois, a fagueira esperança de que este empreendimento criado unicamente
com o propósito de beneficiar meus concidadãos, seja acolhido por Vossa Majestade, sempre
pronto a favorecer o que é útil. Os Irmãos de Maria, uma vez que tiverem recebido existência
legal outorgada por vossa real benemerência, ficarão obrigados a dever-lhe, Majestade, eterna
gratidão, e se unirão a mim para confessarmo-nos para sempre de Vossa Real Majestade,
súditos muito humildes, obedientes e fidelíssimos.
Champagnat.
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35 – Ao Padre JEAN-BAPTISTE ROSSARY, Pároco de
Saint-Paul-en-Jarret, Loire.
Fevereiro de 1834.
Champagnat reclama para os Irmãos o pagamento que tinha sido estipulado com o
predecessor. Pedia pouco para os Irmãos, só o estrito necessário, mas mostrava-se inflexível nos
casos de ser negado ou diminuído o pagamento combinado.
Senhor Pároco,
Faz poucos dias, eu me congratulava com a esperança de que, finalmente, o senhor
viria visitar-nos, mas a chegada da quaresma me tirou essa esperança. Não que eu imagine que
o senhor vá perder o ânimo nesta santa quarentena, mas os múltiplos afazeres não o deixarão
livre. Vamos ao que nos interessa:
De acordo com nossas contas, - as minhas e as suas -, constato que para o ano letivo
1831 e 1832, só recebi 950 francos; nada pelo quintal, pois os Irmãos ainda não dispunham
dele. Foi uma concessão que tive que fazer para aquele ano, mas que não poderemos manter.
Não pense que estou apegado ao dinheiro; o senhor tem provas suficientes do contrário.
Durante o ano de 1831/ 1832, o senhor teve três Irmãos durante o ano todo: o senhor
tem muito senso das coisas para imaginar que já pagou tudo com 950 francos (digo 950,
porque o quintal deve ser pago a mais). Nada ajustamos que me obrigue a proceder
diferentemente. Se o senhor quiser, escreverei ao Padre Nouailly; ele lhe dirá que sempre
pagou 1200 francos e colocou à disposição dos Irmãos um quintal, apesar de a escola nunca
ter dado tanto como o ano passado.
Os Irmãos das Escolas Cristãs nunca se oferecerão para cantar a Missa, nunca se
encarregarão de cobrar mensalidades (dos pais de mais recursos). Exigirão, isto sim, os 1800
francos. Para pagar também o Irmão (hortelão), que não ministra aula nenhuma, nunca. Os
Irmãos das Escolas Cristãs...
68
36 – Ao Irmão DOMINIQUE, Charlieu, Loire.
6 de março de 1834.
O Padre escreve ao Irmão Dominique para exortá-lo a aceitar sempre com fé a vontade de
Deus.
Diziam as más línguas daquele tempo "que o Frère Dominique só se achava bem lá onde não
estivesse."
De Charlieu, onde se encontrava, dirigiu-se o Irmão Dominique a l'Hermitage, a fim de
pleitear junto do Fundador sua troca para outro estabelecimento. Depois de alguns dias, acabou
voltando para Charlieu, de onde viera.
V. J. M. S.
Notre Dame de l'Hermitage, 6 de março de 1834.
Meu caríssimo Irmão Dominique,
Foi um prazer muito grande para mim receber sua carta. Está muito bem escrita. Caro
amigo, estou vendo que você caprichou mesmo.
Sua vontade de vir passar o verão na casa mãe, me agradou bastante. Não posso lhe
prometer nada, pois não sei se será possível. Seja como for, prezado Dominique, mantenha-se
sempre na disposição necessária de não querer senão o que Deus dispuser por intermédio de
seus superiores. Você me tem amor; de minha parte, posso garantir que lhe pago com muito
amor.
Desejo ardentemente que você se forme bem, mas sem querer senão aquilo que Deus
quer. Em tudo o que nos puder magoar, digamos sempre: que se cumpra a santa vontade de
Deus!
Imagino que você esteja de novo com muitos alunos, com muito trabalho, que os
outros Irmãos estejam bem de saúde assim como você.
Nenhuma notícia especial sobre os outros estabelecimentos. Aqui, temos alguns
Irmãos doentes, mas nenhum em estado grave. Tudo vai indo mais ou menos. Que Deus e sua
santa Mãe sejam benditos mil e mil vezes. Continuamos a receber numerosos noviços.
Continuam chegando pedidos de novas fundações. Contamos com você para o ano. Confio
firmemente que Deus o ajudará. Transmita mil saudações ao querido Irmão Louis. Agora que
recuperou a saúde, se cuide e também da saúde dos outros. Também quero muito bem aos
Irmãos Apolinaire e Nizier.
Adeus! Deixo-os todos nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Tenho a honra de
ser, meu caro Irmão Dominique, seu dedicado pai em Jesus e Maria,
Champagnat, sup.
69
37 – Ao Padre BARTHÉLEMY CAUMETTE, Coadjutor
de Mèze, Héraut.
janeiro/fevereiro de 1834.
Dá todas as informações sobre a obra dos Irmãos, usos e costumes e informa das exigências
para assumir uma escola.
Senhor Padre,
Ficamos lisongeados pela honra que o senhor nos prestou dirigindo-se a nós. Com
presteza aproveitaríamos desta ocasião prazerosamente, para estender ao longe nossa atuação,
se tivéssemos condições de atender aos pedidos dos que estão perto. Uma coisa ajudaria muito
a nos resolver: seria a esperança bem fundamentada de encontrarmos vocações na sua região.
Seguem as respostas a seus questionamentos:
1o) Os Irmãos usam o método simultâneo e a nova pronúncia.
2o) Ensinam o catecismo, a leitura, a escrita, os rudimentos da gramática francesa,
contas e o sistema legal de pesos e medidas. Ensinam ainda os elementos de geometria
(entenda-se: agrimensura), desenho linear, canto e elementos de história e de geografia.
3o) Usam um hábito religioso parecido com o dos Irmãos das Escolas Cristãs.
4o) O pagamento anual devido a cada Irmão é de 400 francos.
5o) Além da escola gratuita, eles poderiam encarregar-se de outra que não fosse
gratuita. O que passasse dos 400 francos, seria partido meio a meio entre os Irmãos e as
necessidades da escola.
6o) Gastos do estabelecimento: correm por conta dos municípios.
7o) O enxoval (subentendido: dos meninos) e a mobília são fornecidos pelos
municípios e calculados à razão de 500 francos per capita, o que dá 1.000 francos para dois e
1500 para três.
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38 – Ao Padre FERRÉOL DOUILLET, La Côte Saint-
André, Isère.
Princípios de 1834.
O Padre Douillet era muito zeloso pela obra das vocações, mas queria fazer as coisas do
jeito dele.
Entrou em entendimento com um jovem vocacionado ao qual propôs como estágio, servir de
cozinheiro dos Irmãos. Champagnat não aceita introduzir na cozinha alguém estranho à comunidade.
Ser cozinheiro era tarefa reservada ao Irmão mais jovem.
Senhor Padre Douillet,
Não vejo porque estaríamos causando, outra vez, transtornos na cozinha de La Côte.
Em todos os nossos estabelecimentos, são os Irmãos que devem cozinhar. Por que abrir
exceção para os de La Côte-Saint-André? A ocasião que o senhor encontrou é sem
precedentes. Eu creio - e comigo estão de acordo os Irmãos que consultei - que não devemos
concordar com isso, pois não será possível continuar assim.
O senhor sabe que nossas escolas são numerosas. Sabe também que nossos Irmãos não
gostam muito de cozinhar. Se permitirmos que este encargo seja entregue a alguém estranho à
comunidade, nenhum Irmão vai querer cozinhar. É esta a razão principal, além de muitas
outras que deixo de mencionar. Se o moço tem todas as qualidades requeridas para ser Irmão,
que entre na casa como noviço e, enquanto se prepara, que dê uma mãozinha na cozinha. É
decisão dos Irmãos que consultei expressamente para o caso.
Estamos na impossibilidade de fundar novos estabelecimentos. Peço-lhe que diga a...
71
39 – Ao Padre JEAN-PIERRE CUSSIER, Pároco de
Viriville, Isère.
março de 1834.
Constatamos mais uma vez nesta carta a firmeza do Fundador em defender o direito de seus
Irmãozinhos.
Os Irmãos estavam em Viriville desde novembro de 1832.
Senhor Pároco de Viriville,
As muitas promessas que nos foram feitas em Viriville nos permitiam esperar que não
teríamos que nos arrepender de ter mandado nossos Irmãos, contra o nosso costume e a nossa
regra, mesmo antes que o local e a mobília estivessem em condições de uso.
A experiência nos ensina mais uma vez que cometemos um erro palmar. Na última
visita que fiz, constatei surpreso que o estabelecimento está com falta das coisas mais
necessárias, seja no tocante ao espaço ocupado pelos alunos, seja na parte reservada aos
Irmãos; seja quanto ao mobiliário, seja quanto ao pagamento, que não está em dia: embora
mínimo, não foi pago integralmente no primeiro ano.
Previno o senhor de que, em consonância com o parecer unânime dos prezados Irmãos
que compõem o meu conselho, na primeira visita que fizermos, pela festa de São João, nossos
Irmãos vão receber a ordem de sair de mudança, caso o local e a mobília não estejam em boas
condições.
Para três Irmãos, a mobília custa 1500 francos e o pagamento anual é de 1200 francos.
Tenho a honra de ser seu dedicado servidor.
Champagnat
72
40 – Ao senhor JACQUES ARDAILLON, prefeito de
Saint-Chamond, Loire.
14 de abril de 1834.
Em janeiro e março de 1834, o senhor Ardaillon teve que se apresentar em Paris, para tomar
posse do cargo de deputado na Assembléia.
Champagnat se dirige a ele para informá-lo que a documentação referente à autorização
legal deve estar no Ministério da Instrução Pública. Sugere ao amigo que use seu prestígio de
deputado para recomendar ao Ministro que se interesse pela questão em favor dos Irmãos Maristas.
Aproveita a ocasião para agradecer o empenho que o senhor Ardaillon vinha demonstrando
pela causa e dá notícias sobre a cidade de Sain-Chamond que se manteve calma, ao passo que muitos
operários de Lião se tinham amotinado e reclamavam a emancipação da classe operária, através de
distribuição mais eqüitativa do trabalho.
Petição ao Senhor Prefeito departamental, a ser feita pelo senhor Ardaillon:
1o) Rogo ao senhor Ardaillon que se digne pedir, de minha parte ao senhor prefeito
departamental que se interesse por nossa autorização.
2o) Rogo ao senhor Ardaillon somar esforços com o senhor Prefeito, para achar um
meio de nos proporcionar existência legal. Pediria ainda ao senhor Ardaillon, de acordo com o
que julgue necessário, que procure fazer com que o senhor Prefeito do Loire se empenhe a
favor de nossa autorização. O que sinceramente desejamos é trabalhar para o bem de nossos
concidadãos, sob os auspícios do rei dos franceses.
Senhor deputado Ardaillon, as peças do processo foram despachadas para o Ministério
da Instrução Pública, no dia 8 de fevereiro. Já tive a honra de lhe informar que vi em
Montbrison o relatório do senhor Prefeito departamental e a data da expedição.
Senhor Ardaillon, quanta gratidão lhe ficaremos devendo por tantos serviços seus em
favor de nossa causa!. Agora me convenço de que é verdade o que o povo diz aqui na região:
o senhor está sempre disposto a ajudar as boas iniciativas em qualquer lugar que apareçam e
sempre que seus bons serviços sejam solicitados.
Já me sinto feliz de ter recorrido ao senhor. Que Deus e a Santíssima Virgem Maria
estejam a seu favor!. Saint-Chamond goza da maior tranqüilidade e todo o Cantão de Saint-
Etienne, penso eu, não terá maiores danos. Penso que, dentro de pouco tempo, tudo estará
terminado e que os operários de Lião retornarão ao trabalho. Seriam certamente mais felizes
se nunca se tivessem apartado de seu dever. Como são culpados aqueles que os incitaram a
esta sublevação! Não vão conseguir ressarcir o dano que causaram à sociedade.
Disseram-me que o comandante de Saint-Chamond esteve em Saint Etienne. Teria
muito prazer em dar-lhe notícias sobre nossa região, mas acho que o senhor está mais a par
dos acontecimentos do que eu.
Queira aceitar...
73
41 – Ao Padre JOSEPH GAUCHER, Pároco de
Chavanay, Loire.
abril de 1834.
O conteúdo desta carta nos revela que o pároco e o prefeito de Chavanay entraram em
choque, por divergirem no ponto de vista político. Para fazer pirraça ao pároco, segundo pensa o
Padre Champagnat, o prefeito hostilizava os Irmãos.
Solução proposta: Privatizar a escola; se não, os Irmãos sairiam de Chavanay.
Ao senhor pároco de Chavanay,
Senhor pároco, é impossível deixar que sua escola continue funcionando como está. O
prefeito não se contenta de explorar nossos Irmãos, quer fixando a mensalidade dos alunos
muito baixa, quer obrigando-os a ter um número exagerado de pobres. Tenta ainda transviar
nossos Irmãos, incentivando-os a largaram a batina, que assim serão os homens mais felizes
do mundo.
Foi a razão que levou o Irmão Dominique a me pedir sua transferência de Chavanay.
Veja lá, senhor pároco, o que pode fazer. Esta perseguição contra os Irmãos só foi
desencadeada contra eles por sua causa, conseqüentemente contra mim também.
Estamos pensando que para livrar-nos da tirania desse homem, precisamos fazer de
nossa escola uma escola particular. Foi este o conselho que o Padre Dupuis me deu, pouco
depois da visita que fez ao estabelecimento.
Veja, senhor pároco, se pode fazer alguma coisa. Caso contrário, estamos resolvidos a
retirar nossos Irmãos. Já consultei o Padre Cholleton a respeito desse assunto...
74
42 – Ao Irmão CASSIEN, Sorbiers, Loire.
Verão de 1834.
O Irmão Cassien (Louis Chomat) e o Irmão Arsênio (Césaire Fayol), antes mesmo de se
fazerem Maristas dirigiam uma escola, em Sorbiers. Ao se fazerem religiosos, a escola continuou sob
a direção deles, com mais dois Irmãos que lhes deu Champagnat, como auxiliares.
O Irmão Cassien entrou em crise, vendo que os dois não eram tão fervorosos como ele
imaginava, sendo Maristas. Foi o que motivou a carta do Padre Champagnat, tão repassada de
equilíbrio e de compreensão pelas fraquezas humanas. (cf. Em Cada Vida uma Mensagem, p. 163)
Ao Irmão Cassien,
Que Jesus e Maria sejam seus guias e mestres em tudo!
Meu caro Irmão Cassien, não consigo esconder a dor que me causa seu modo de ver as
coisas e não sei por que você está assim.
Meu caro amigo, tenho consciência de não estar em falta com você, de nenhum modo.
Tomei na devida consideração as reclamações que você julgou conveniente fazer. De maneira
nenhuma pensei eu fazer pouco caso de você, ao mandar-lhe os dois Irmãos que destinamos
para sua comunidade. Você estava contente com a escolha.
Quem se intrometeu para alterar esta paz? Quando o Irmão Denis o molestou com suas
importunações, não estive lá de imediato para tratar da transferência dele? E quando você
ponderou que preferia deixá-lo ficar, não aceitei seu parecer, embora tivéssemos decidido o
contrário?
Então meu caro Irmão, quais são afinal as razões que continuam a indispô-lo? Se os
membros da Sociedade de Maria são para você por demais imperfeitos para lhe servirem de
modelo, dirija, meu caro Cassien, dirija seus olhares para Aquela que pode servir de modelo
para perfeitos e imperfeitos e que a todos tem amor: ama os perfeitos porque reproduzem as
virtudes de seu divino Filho e arrastam os demais para o bem, sobretudo numa comunidade.
Ama também os imperfeitos, porque foi sobretudo em benefício deles que Ela, Maria, foi
elevada à dignidade de Mãe de Deus!
Por que, meu caro Irmão, voltar a buscar conselhos no Egito? Será que Maria não
possui tudo para nos pôr a salvo? Para que mais tarde eu não fique com remorso de não falar
claro, digo-lhe já, meu caro amigo, e o faço apoiado nas palavras do profeta, que a ajuda do
Egito não passará de um caniço frágil, que ao se quebrar irá machucar suas mãos. Não tenho
medo de predizer-lhe tal infortúnio, em nome de Jesus e de Maria.
Se você não tiver em muita conta meu parecer, consulte pessoalmente o Superior da
Sociedade de Maria, que acaba de chegar de Roma, ou consulte o senhor Arcebispo ou o
Padre Cholleton.
Afinal, meu caro Cassien, não faça nada precipitadamente...
75
43 – Ao Padre JEAN-MARIE FRAIN, Vigário Geral de
Nevers, Nièvre.
Verão de 1834.
Ao pedido de abertura de um noviciado em Nevers, o Padre Champagnat responde
solicitando um prazo. Não dispunha no momento de pessoal suficiente. Com isso, o projeto ficou na
expectativa de melhores dias e não se efetuou. Só em 1853 é que os Irmãos, a pedido de Dom
Augustin Dufêtre, que fora condiscípulo do Padre Champagnat no Seminário de Lião, puderam abrir
uma escola em Decize, diocese de Nevers.
Senhor Vigário Geral,
O Padre Cholleton me havia falado de seu projeto, faz algum tempo. Estaríamos de
acordo em abrir uma sucursal na sua diocese, se tivéssemos pessoal em número suficiente;
porém, a falta de Irmãos para atender ao grande número de pedidos que nos chegam de toda
parte, nos coloca na impossibilidade de satisfazer de imediato seus desejos.
De muito boa mente estabeleceríamos um noviciado em Nevers, com a condição de
que o senhor tivesse um local apropriado para isso. Não nos limitamos à diocese de Lião nem
aos limites da França, tanto que já possuímos estabelecimentos nas dioceses de Lião, de
Grenoble e de Viviers. Não saberia, por ora, dizer-lhe quais os gastos com que teria que arcar
sua diocese.
Ensinamos: 1) o catecismo; 2) a leitura; 3) a escrita; 4) os rudimentos da gramática
francesa, o cálculo e o sistema legal de pesos e medidas; elementos de geometria,
(subentendido: agrimensura), desenho linear, canto e os elementos de história e de geografia
Na aprendizagem da leitura seguimos a nova pronúncia e o método simultâneo.
Enviamos Irmãos aos municípios que no-los solicitam. Os custos de cada Irmão sobem
a 400 francos anuais.
Embora nossos Irmãos só trabalhem no mínimo em dois, poderemos instalá-los numa
casa central, de onde sairiam, um a um para os municípios vizinhos.
As escolas serão gratuitas, mas as municipalidades poderão cobrar uma contribuição
mensal para cobrir os gastos do estabelecimento. Cada estabelecimento será dirigido por um
Irmão Diretor, que ficará em exercício enquanto seu superior houver por bem mantê-lo.
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44 – Ao Padre JEAN CHOLLETON, Vigário Geral de
Lião, Rhône.
agosto de 1834.
O Padre Champagnat, sempre preocupado com a implantação da Sociedade de Maria na
diocese de Lião, oferece a propriedade da Grange Payre, que a benfeitora Marie Fournas, lhe tinha
legado, ao falecer em 15 de junho de 1833. (cf. Carta no 27)
Ali os Padres Maristas estariam melhor instalados do que em Valbenoite, como se verá na
Carta de no 45 ao mesmo Vigário Geral Cholleton, que era o encarregado da movimentação de
religiosos dentro da diocese.
Senhor Vigário Geral,
Seja qual for o desfecho desta carta, só tenho em vista a glória de Deus e adorarei seus
desígnios. A situação de meus coirmãos em Valbenoite não é nada favorável. Ser pároco ou
coadjutor não convém à Sociedade, sobretudo no momento vivido pelos atuais ocupantes.
A administração da paróquia ocupa a todos e ocuparia a outros mais. Os melhores
candidatos ali perdem vocação; os que sentem alguma inclinação para a vida religiosa não
ousam apresentar-se, com medo de serem mandados como coadjutores. Os que lá estão
desejam sair, dando como razão que não podem cuidar da própria formação nem achar tempo
para preparar algum sermão. Em uma palavra, nada encontram que possa servir a um
missionário.
Nada acrescento a respeito do recolhimento de espírito; esse se perde com as
discussões que têm que travar com este ou aquele, até mesmo com os próprios colaboradores.
Em que embrulhada se metem ao conquistar o direito de ocupar o altar do pároco! Aí
está outra fonte de encrencas, quer da parte do Padre Rouchon, quer da parte de seus
paroquianos. Ele não pode deixar de censurar a maneira de cobrar os proventos ou aquilo que
ele tacha de rigorismo no modo de fazer. Assim, a paróquia logo se lhes afigura um peso
incômodo. Quanto se poderia acrescentar com respeito a isso!
O contrato não andou nada, está como no primeiro dia. Alguns até pensam que o Padre
Rouchon arquiteta todas as manobras para anulá-lo. Por outro lado, o clero de Saint-Etienne
sempre andou de prevenção contra essa obra. Enfim, meus confrades me confidenciaram não
terem recebido nenhum agrado desde que se encontram em Valbenoite.
Senhor Vigário Geral, afetado pelo triste estado a que vejo reduzido o caso dos
sacerdotes da diocese, venho, com a intenção de contribuir para a maior glória de Deus,
oferecer a S. Excia. o senhor Arcebispo o local da Grange Payre, uma situação encantadora,
quer pela amplitude das construções, quer pela área imensa do recinto contíguo. Não há
sacrifício que eu não esteja disposto a fazer para ver este lugar sob a direção de algum
sacerdote santo que V. Excia. aceite colocar à nossa disposição. Com ele eu me entenderei
perfeitamente. Enquanto isso, prometo empenhar-me mais, contando sempre com a
Providência que nunca nos decepcionou.
Tenho recursos, me atrevo a dizer melhor, é Maria que os possui, e muitos, para os
que nela confiam.
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Veja, senhor Vigário Geral, o que achei oportuno comunicar-lhe, a fim de não deixar
passar nenhuma ocasião de ajudar uma obra na qual me comprometi, já faz tanto tempo.
Depois de eu ter posto V. Excia. a par de todas essas ocorrências, adorarei os desígnios de
Deus, aconteça o que acontecer, já não tendo nada que censurar a mim mesmo (se me tivesse
calado). No caso de ser aceita minha proposta, o Padre Séon poderia ficar em Valbenoite,
ocupando-se juntamente com o Padre Rouchon do patronato dos jovens. Com isso, tudo me
pareceria solucionado. A obra dos Padres não seria mais sacrificada.
Omnia ad majorem Dei gloriam. Non nobis, Domine, non nobis gloriam.
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45 – Ao Vigário Geral, Padre CHOLLETON.
8 de setembro de 1834.
(Duas versões, uma depois da outra)
A data desta carta é relativa à segunda versão da mesma, na qual o Padre Champgnat
detalha as vantagens da Grange-Payre e os inconvenientes de Valbenoite, a que se referiu antes.
1.ª versão
Senhor Vigário Geral,
Gostaria muito de me ter encontrado com o senhor por ocasião de sua passagem por
Saint-Chamond, para ter uma resposta à minha carta. Reitero todas as ofertas que tive a honra
de fazer em favor de meus coirmãos. Se vierem à Grange-Payre, deixar-lhes-ei todos os
benefícios da propriedade, que somam 1500 francos, sem contar o usufruto da construção, na
qual farei os primeiros consertos.
Vejo claramente que a obra dos sacerdotes vai afundar completamente em Valbenoite.
Meu Deus, que quereis de mim? Não há sacrifício que não esteja disposto a fazer para salvar
do naufrágio a obra de Maria. Asseguro-lhe que, mais do que nunca, acredito nesta obra,
porém em outras condições do que aquelas em que se encontra. A ambição, a ganância de se
enriquecer vai deitar tudo água abaixo.
Aqueles a quem Cristo Jesus todos os dias dá seu Corpo e Sangue receiam que não
lhes dê aquilo que dá aos mais vis animais. Meu Deus, não permitais nunca que homens dessa
natureza entrem na Sociedade de Maria!
Senhor Vigário Geral, não pretendo acusar nenhum de meus coirmãos; todos me
edificaram muito quando fui feliz de os ter junto de mim. Quero tão somente censurar aqueles
que lhes falam desse modo.
Reuna a nós todos numa casa, sob a dependência exclusiva do nosso digno Arcebispo
e de um superior particular. Não nos obrigue a um ministério secular. Não nos separe como
ocorreu no passado. Para termos um candidato, devíamos conquistá-lo na ponta da espada e,
mesmo assim, não o podíamos manter senão com a condição que um de nós se fizesse
coadjutor.
Que fiquem reunidos, sob a mesma Regra, os Padres Pompallier, Séon, Forest e
Bourdin ou, no lugar dele, outro Padre de Belley; que não tenham outro ministério, por ora, a
não ser pregar retiros ou pregar pequenas missões nos lugares do interior; verá então o senhor
como as coisas tomarão outro rumo. Não nos faltará nada, nem pessoas nem coisas materiais.
Quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum. Nossos irmãos têm todos a mesma
linguagem que eu. Todos estariam dispostos a abandonar l'Hermitage aos Padres, se preciso
fosse. Estão dispostos a assinar tudo quanto estou oferecendo para dar melhores condições aos
Padres da Sociedade de Maria.
Em tudo isso seja feita a vontade de Deus!
2.ª versão
J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 8 de setembro de 1834.
Senhor Vigário Geral,
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Gostaria muito de me ter encontrado com o senhor por ocasião de sua passagem por
Saint-Chamond, para ter uma resposta à minha carta. Reitero todas as ofertas que tive a honra
de fazer em favor de meus coirmãos, se vierem à Grange Payre. Ceder-lhes-ei todos os
benefícios da propriedade, que somam mil e quinhentos francos e o usufruto da construção, na
qual farei os primeiros consertos.
Vejo, sem sombra de dúvida, que a obra dos Padres em Valbenoite vai afundar
completamente porque está começando errada. Não há sacrifícios que eu não esteja disposto a
fazer para que meus confrades tenham êxito. A ambição, a ganância de possuir vai deitar tudo
água abaixo. Deus me livre de acusar meus irmãos. Seu desapego, seu devotamento me
edificaram sobremaneira durante o tempo em que fui honrado de os ter junto de mim. Quero
tão somente censurar os que lhes falam desse modo.
Aqueles a quem Jesus Cristo, com tanta generosidade, cada dia, dá seu Corpo e
Sangue poderiam temer que lhes negaria aquilo que dá direitinho aos mais vis animais?!
Meu Deus, não permitais nunca que homens dessa natureza entrem na Sociedade de
Maria! Não pretendo com isso acusar a nenhum de meus coirmãos; todos me edificaram
muito quando fui honrado de os ter junto a mim; quero tão somente censurar os que lhes
falam desse modo.
Não peça nada ao Conselho do senhor Bispo (quero dizer, nenhum salário para nós),
peço somente que nossos sacerdotes se reunam todos numa casa de retiro independente de
qualquer ministério secular. Que fiquem ocupados com os exercícios adequados a seu estado
(de religiosos), sob a direção do Padre Colin, o mais velho, se o senhor Bispo houver por bem
no-lo conceder.
Em pouco tempo, senhor Vigário Geral, verá crescer o número de nossos Padres; a
desunião é que tudo perdeu, a união vai tudo restabelecer. Disto resultará glória a Deus.
Prometo-lhe novamente que não deixarei faltar nada a meus confrades, nem que seja
preciso entregar minha roupa do corpo. É com lágrimas nos olhos que o digo!
O senhor bem sabe, melhor do que eu: o peixe não pode viver muito tempo fora da
água; só o retiro e a meditação das grandes verdades podem sustentar o espírito religioso.
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46 - Ao Padre CHARLES CHIRAT, pároco de Neuville-
sur-Saône, Rhône.
setembro de 1834.
A carta pede ao Padre que permita aos Irmãos se dirigirem a l'Hermitage para o retiro e as
férias, como era de praxe todos os anos. Por que fez Champagnat esta recomendação? Talvez porque
o pároco tivesse pedido que os Irmãos ficassem na escola, durante o período das férias, mas a
suposição mais provável é que o Padre Champagnat queria prevenir o incidente de que fala ao
terminar a carta.
Senhor pároco,
É costume nosso - e tem força de Regra - que ao término do ano letivo, nossos Irmãos
regressem à casa mãe. Só fundamos estabelecimentos com esta condição. Até ao presente,
ninguém veio contrariar esta praxe.
Precisamos reunir em torno de nós, durante este curto mês, todos os nossos Irmãos, a
fim de nos colocar em sintonia para promover o bom andamento de cada estabelecimento.
Temos que fazer uma avaliação geral, acertar uma infinidade de medidas, o que só
podemos acertar se estiverem presentes todos os Irmãos. Peço-lhe, senhor pároco, não ponha
obstáculos à obediência de nossos Irmãos. Já no ano passado, o Irmão de Neuville faltou ao
retiro. Foi um escândalo para os demais Irmãos.
81
47 – Ao senhor JEAN FRANÇOIS PREYNAT, prefeito
de Sorbiers, Loire.
Começos de outubro de 1834.
As aulas em Sorbiers funcionavam na casa que pertencia aos Irmãos Cassien e Arsène, que a
tinham vendido ao Padre Champagnat em 1832.
A Prefeitura alugava a casa, mas o Conselho Municipal decidiu suspender o aluguel. Já em
maio de 1834, houve a decisão por parte da Câmara de construir uma nova escola para os Irmãos.
Ora, em outubro nada estava feito ainda e as aulas para o novo ano letivo começariam em 1º de
novembro.
Daí a carta do Padre Champagnat, com sua proverbial firmeza na decisão: "Se vocês não
resolverem o caso, partimos para outra!"
O prefeito deve ter tomado providências, pois os Irmãos continuaram em Sorbiers até 1837.
(Cf. Carta no 153)
Senhor Prefeito de Sorbier,
Fiquei sabendo que o senhor não tornou a alugar a casa em que os Irmãos davam
aulas, o ano passado; soube também que o senhor não começou a construir outro local.
Prevejo assim que a Festa de Todos os Santos vai chegar, sem nada estar pronto.
Gostaria muito de saber se o senhor está pensando numa outra solução. Se isto não
ocorrer, os Irmãos não poderão, de forma alguma, manter a escola municipal na casa onde
estão morando, devido ao pouco espaço e à insalubridade.
No caso de não poder o senhor oferecer solução alguma, eu poderia responder
afirmativamente a um município que está pedindo Irmãos para este ano por intermédio do
conselho dos senhores Prefeito e Vice-Prefeito departamentais.
Queira, Senhor Prefeito, dar-me a honra de uma resposta sua, para breve.
82
48 – Ao Irmão ANTOINE, em Millery, Rhône.
4 de novembro de 1834.
Anuncia a chegada em l'Hermitage de alguns objetos endereçados ao Irmão Antoine.
Concede ao mesmo a licença solicitada, referente à freqüência de suas comunhões.
Vemos por esta carta que a casa de l'Hermitage funcionava como uma central de
atendimentos, onde os Irmãos podiam conseguir os objetos de uso ou peças do vestuário de que
precisassem no exercício de suas funções. O piedoso e solícito Fundador se presta aos mínimos
detalhes, quando se trata das necessidades de seus Irmãozinhos. (Cf. Vida de M.J.B. Champagnat,
Edição do Bicentenário, p. 402).
J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 4 de novembro de 1834.
Caríssimo Irmão Antoine,
O Irmão Hyppolythe retirou do correio o embrulho que era destinado a você. Ele quer
introduzir nele mais algum objeto e nos últimos dias da semana mandará tudo para Sept-
Chemins.
Estou muito sentido, caro amigo, por todos os contratempos que vocês tiveram que
agüentar, tanto uns como outros. Concedo-lhes o que me pedem, com relação às comunhões.
Diga ao Irmão Moïse que estamos pensando nele: mandar-lhe-emos uma camisa novinha,
quanto antes. Diga-lhe também que eu lhe quero bem, de todo coração, que Deus lhe pagará
ao cêntuplo.
Em Jesus e Maria,
Champagnat
83
49 – Ao Irmão DOMINIQUE.
23 de novembro de 1834.
Já vimos na Carta de no 36 como o Irmão Dominique andava freqüentemente em crise. Não
havia transcorrido um mês de permanência em Charlieu que já pedia para ser transferido.
A resposta do Padre Champagnat procura reconduzi-lo a um julgamento menos apressado
da situação. Não deixa também de transmitir aos Irmãos da comunidade seus sentimentos paternais
para com todos.
Meu caro Irmão Dominique,
Acho que você não quer mais dar cabeçada. Você bem sabe quanto custa quando a
gente teve a má-sorte de dar uma delas. Com um pouco mais de humildade e de obediência, as
coisas não piorariam para o seu lado. Se o Irmão Liguori tivesse dito que todos o
parabenizavam por ter você como colaborador, você teria tido a ingenuidade de acreditar? É
impossível, meu caro Dominique, que nossas maneiras de proceder agradem a todo mundo!
Você me diz que se o seu substituto não chegar, você virá buscá-lo. É muito fácil
dizer, mas não temos ninguém disponível neste momento na casa mãe. Se você vier, terá que
voltar como veio. Será que não é sua vez de pagar neste ano pelo que você fez sofrer aos que
estiveram com você? Você é certo demais imaginando que não deve nada. Paciência, meu
caro amigo, paciência! Dentro de poucos dias irei visitá-lo e, com a graça de Deus, procurarei
remediar a tudo, do melhor modo possível.
Eu lhe teria respondido antes, não fosse a viagem que acabo de fazer. Enquanto espera
minha visita, ponha-se nos braços de Maria, Ela o ajudará poderosamente a carregar sua cruz.
Meu caro Dominique, tomo parte em seus sofrimentos. Deus tem com que pagá-los todos,
você nada perderá com Ele, nem sequer os juros, garanto-lhe!
Enquanto não chego, diga ao caro Irmão Liguori que eu trago a todos carinhosamente
no coração, que eu amo todos vocês, meu caro Dominique, porque sei as dificuldades que
você passa, as lutas que têm que suportar, o carinho que me têm demonstrado, cada vez que
nos encontramos.
Deixo-os todos nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, lugares bons aqueles! Lá a
gente se acha tão bem!
Adeus,
Champagnat sup.
84
50 - Ao Senhor JACQUES-MARIE ARDAILLON,
deputado, prefeito de Saint-Chamond, Loire.
outono de 1834.
A carta quer testemunhar ao senhor. Ardaillon profunda gratidão por tudo quanto tem feito
em favor da causa da autorização legal da Congregação.
O final da carta alude ao último e definitivo passo do processo: a sanção do rei mediante
um Decreto real (ordonnance). (cf. Carta no 57).
Indiretamente, portanto e com fina diplomacia, o Padre Champagnat sugere ao amigo que
continue a prestar seu apoio à causa.
V.J.M.S.J.
Senhor Ardaillon,
Confesso que chego bastante atrasado para manifestar-lhe, como é de justiça, meu
agradecimento pelo favor importante que V. Excia. pediu e obteve para mim e para toda a
minha casa; mas, afinal, chego logo que fiquei sabendo.
Nossos estatutos estão, pois, aprovados pelo Conselho Real, desde o dia 28 de
fevereiro de 1834 e inscritos no Manual Geral da Instrução Primária, sob o número 6, do mês
de abril.
Que serviço importante o senhor nos prestou! S. Excia. a o senhor Arcebispo e todos
os amigos de nossa casa estão no auge da alegria!
Tive a honra de estar na ocasião com a senhora Ardaillon, para dizer-lhe quanto somos
gratos a V. Excia. Visitei também várias pessoas importantes de Saint Chamond: o senhor
Victor Dugas, o senhor Richard etc. Todos contribuem muito.
O senhor certamente sabe que, para dar a última demão a este despacho importante, é
preciso que Sua Majestade Louis Philippe sancione esta autorização, através de um Decreto
real. Se faltar isso.
85
51 - Ao barão JEAN ANDRÉ DE SERS, prefeito do
Departamento do Loire e Par de França.
Final de 1834 ou começos de 1835.
Os PARES de França eram primitivamente 12. O número deles variou no tempo da
monarquia. No período pós-revolucionário constituíam parte do Senado ou Primeira Câmara. Eram
nomeados pelo Rei e possuíam cargos vitalícios. Podiam também exercer eventualmente a justiça, em
determinados casos.
O Padre Champagnat lança mão de todos os trunfos para conseguir a isenção do serviço
militar para seus Irmãozinhos. Assim, ele apresenta ao Barão um jovem que tinha sofrido uma
fratura na perna, o que o invalidava certamente para o serviço militar, mas não para o exercício do
magistério.
Pesquisando os arquivos da Congregação, o Irmão Paul Sester fixou-se no nome de Claude
Dumaitre, como sendo o jovem em questão. Ele tomou o hábito marista em 15 de agosto de 1829,
com o nome de Irmão Jean.
Senhor Prefeito,
O portador da presente mora em nossa casa faz cinco anos. Assinou o seu
compromisso decenal, porém não possui certificado que comprove que esse documento foi
aceito. Parece-me que pode ser excluído do serviço por causa de uma fratura na perna. Esta
fratura lhe torna as viagens a pé muito sofridas, quase insuportáveis.
Queira aceitar o testemunho de minha respeitosa submissão com que, senhor Prefeito,
tenho a honra de me de ser seus respeitoso servidor,
Champagnat
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52 – Ao senhor Conde ADRIEN DE GASPARIN,
prefeito do Departamento do Rhône.
Princípios de 1835.
Quando um jovem religioso que obteve isenção do serviço militar para exercer sua profissão
de professor (instituteur) deixa de pertencer à congregação, convém que as autoridades do seu
município sejam avisadas do caso. O compromisso tinha a duração de dez anos.
O jovem Sebastien Frécon (Irmão Alexis), natural de Ampuis, revestiu o hábito marista em
agosto de 1827. Em janeiro de 1835, outro jovem chamado José Chaboud recebeu na vestição o
mesmo nome de Alexis, o que quer dizer que Frécon tinha já desistido.
Por isso a carta que o Padre Champagnat escreve ao prefeito do Departamento do Rhône, da
qual os arquivos só têm o rascunho sem nenhuma data, pode ser datada dos começos do ano de 1835.
Senhor Prefeito:
Tenho a honra de informar a V. Sª que o jovem Sebastien Frécon, de Ampuis, depois
de ter trabalhado no serviço do ensino público pelo espaço de dez anos, na nossa Instituição,
já não está mais conosco, faz cinco meses.
O certo é que, após ter deixado o ensino, ele entre em entendimento com V. Sª, para
regular a situação dele perante a lei do alistamento militar.
Já faz tempo que estou com vontade de fazer uma visita ao senhor Prefeito do Rhône,
mas ainda não me decidi.
É com prazer que aproveito a ocasião para reiterar a V. Sª meus respeitos, senhor
Prefeito...
87
53 – Ao Irmão ANTOINE, Diretor em Millery, Rhône.
9 de janeiro de 1835.
A carta se dirige ao diretor, mas tem em mente todos os Irmãos da comunidade. O Padre lhes
dá notícias da Congregação, o que favorece o espírito de família.
Caríssimo Irmão Antoine:
Fiquei muito sensibilizado com os votos de Feliz Ano Novo que você me manda. Eu
os recebo como muito sinceros e posso assegurar-lhe que os votos que faço para toda a
comunidade e para você em particular são também muito sinceros.
Fiquei muito sentido ao tomar conhecimento da doença do Irmão Moyse. Cuide bem
dele para que se restabeleça logo. Não vou substitui-lo enquanto não me pedir. Que ponha em
Deus sua confiança; Ele o ajudará a cumprir seu dever. Maria, Mãe de todos nós vai lhe dar
uma mão. Diga-lhe que me uno a seus sofrimentos e que estou muito grato pelo trabalho que
faz. Deus lhe reserve uma boa recompensa.
Na casa mãe e nas demais casas, tudo vai indo como sempre. Graças a Deus, não
temos Irmãos doentes. Os dois novos estabelecimentos têm muitos alunos. Mandamos mais
um Irmão para Sury; é o quarto.
Continuamos a receber muitos noviços. No dia da Epifania demos o santo hábito a uns
vinte, mas há mais uns quinze que ainda não o receberam. Todos parecem muito esforçados.
Mais uma vez, chega-nos o pedido de fundação de uma espécie de patronato, na
cidade de Lião; estamos atrapalhados, pois não sabemos onde arrumar gente.
Reze por nós, a fim de que não façamos nada contra a vontade de Deus.
Deixo-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, de onde o retirei,
Champagnat
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54 - A um pároco (talvez PIERRE-MARIE LAFAY,
Pároco de Firminy, Loire)
22 de janeiro de 1835.
Padre Lafay foi condiscípulo do Padre Champagnat no Seminário de Lião. Foram ordenados
no mesmo dia.
Diz-lhe Champagnat que, de imediato é impossível fornecer-lhe Irmãos, mas que terá grande
prazer em mandá-los assim que os tiver suficientemente formados.
Senhor e digníssimo pároco,
Agradeço-lhe a honra que nos dá ao se dirigir a nós para conseguir Irmãos, na intenção
de confiar-lhes a educação de suas crianças.
Pedir-lhe-ia, também, se não for demais, que expresse meus agradecimentos ao senhor
Prefeito de seu município, que ainda não tenho a honra de conhecer.
É-nos impossível absolutamente arranjar alguém para este ano. Estamos com muita
falta de gente; apenas damos conta de satisfazer às necessidades dos estabelecimentos que
estão em funcionamento. É verdade que temos bastantes noviços, mas é necessário formá-los
primeiro. Bem que gostaria de mandar-lhe alguns.
O que superintende o Serviço da Instrução de Saint-Etienne falou várias vezes dos
projetos de vocês. Vocês não podem esperar, eu bem sei.
Alegro-me em poder aproveitar da ocasião para dizer-lhe que estou (........) na
disposição de lhe ser grato e ao senhor prefeito municipal, enquanto aguardo eu poder.
Queira aceitar, senhor pároco, os sinceros sentimentos de estima com que tenho a
honra de ser seu devetado servidor.
Champagnat, sup.
89
55 – Ao Padre JEAN-CLAUDE COLIN, Superior da
Sociedade de Maria, Belley, Ain.
29 de março de 1835.
Comunica ao Padre Colin quais as condições para a admissão de candidatos e acerta com
ele algumas questões particulares.
Qual seria a razão de tal comunicação? O Padre Colin certamente estava a par dessas
condições, mas pode ser que outra pessoa as tivesse solicitado, através dele. Em todo caso, vemos
que o Padre Colin se interessava também por este ramo da Sociedade de Maria.
Revmo. Padre Superior:
Os jovens que aspiram a ingressar na Congregação devem dar fundadas esperanças de
que hão de adquirir, durante o noviciado, as virtudes exigidas pelo estado religioso, assim
como as qualidades requeridas para o tipo de trabalho a que se destina cada um.
O noviciado dura dois anos, sendo que uma parte desse período transcorre num
estabelecimento da Sociedade para que se exercitem no magistério ou na cozinha, de modo
que o candidato dê provas de verdadeira vocação.
Exige-se de cada candidato que, ao ingressar, pague pelo menos a quarta parte da
pensão, mais vinte e cinco francos para despesas com livros, papel, etc., etc., fornecidos pela
Sociedade.
Só se dá o hábito religioso quando tiver sido pago o noviciado e completado o
enxoval. Para alguém que se retira, do que depositou só se guarda a parte correspondente ao
tempo de permanência no noviciado. Ao entrar, não é permitido ao candidato ficar com
dinheiro nem com o relógio. O enxoval é entregue ao Irmão alfaiate que dá a cada um, no
sábado, a roupa de que necessita; segunda feira, recebe de volta a roupa que usou no domingo.
Tudo é guardado debaixo de chave.
O enxoval e o hábito, este fornecido ao ingressar no noviciado, estão orçados em 400
francos. Assim, os que não trazem nada disto pagam 600 francos. Ao que não puder pagar
nada, porém der mostras de vocação segura, se faz com que prometa trabalhar para pagar a
Sociedade, no caso de desistir por própria conta ou de ser despedido por causa de
procedimento irregular. Cada um deve trazer também a sua Certidão de Batismo e Registro de
Nascimento.
Questionário a ser respondido pelo candidato, antes do ingresso no noviciado:
1o) De onde vem? Qual é seu nome de família e de batismo? Nome dos pais,
sua ocupação, idade, endereço dos mesmos.
2o) É filho legítimo?
3o) Qual é a profissão e a situação dos pais? Estão bem de vida ou precisam do
trabalho do filho para sobreviver?
4o) Em que idade fez o jovem a primeira comunhão? Foi admitido e depois
recusado?
5o) Viveu sempre com os pais? Se os deixou, foi em que idade? Por que os
deixou? Trabalhou a serviço de alguém? Quanto tempo permaneceu a serviço
do mesmo patrão? Em que serviço o ocupava o patrão?
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6o) Há na família algum fato que a desabone, quer devido ao que faz, quer por
causa de algum crime praticado?
7o) Quantos irmãos e irmãs tem? Estão bem estabelecidos?
8o) Ganhou pessoalmente o dinheiro com que paga a pensão do noviciado? Ou
algum parente ou pessoa estranha à família vai pagar por ele? Se tinha algum
emprego, por que não ganhou nada? Que fez com o dinheiro da poupança?
Deve-se ter consideração por alguém que está pagando com o dinheiro que
poupou, e por aquele que, não tendo nada, deu assistência ao pai ou à mãe sem
recursos.
9o) Que recursos tem os pais?
10o) Qual a situação do jovem na sociedade depois de ter saído de casa?
11o) É de boa compleição? E de bom temperamento? É forte?
12o) É de bom gênio?
13o) É de corpo sadio? Não padece de escrófula? Tem os pulmões sãos? Exala
maus odores?
14o) Em sua família, houve algum membro com tuberculose?
15o) A vista é boa? Goza de boa reputação?
16o) É instruído? Que estratagema usa para escapar do serviço militar?
17o) Depois da primeira comunhão, continuou a freqüentar os sacramentos?
18o) Quem o aconselhou a se fazer religioso? Faz tempo que tem essa
intenção? Consultou a Deus ou o seu confessor? Enfim, qual a razão que tem
para deixar a vida do mundo?
19o) Não se pôs na cabeça que na vida religiosa terá que trabalhar menos do
que lá fora; que estará mais folgado; só terá que rezar, assistir a missa etc. etc.?
20o) Não esteve antes em alguma congregação religiosa? Se este for o caso, não
deve ser admitido senão por razões muito graves.
21o) Se o postulante não for maior de idade, deverá ter o consentimento dos
pais.
22o) Andou mendigando? Ou são os pais que mendigam?
23o) Se o postulante pede conselhos acerca da congregação que pretende
abraçar, é preciso propor-lhe uma diferente da nossa e que mereça maior
confiança da parte dele. Mas, se mostra preferência pela Sociedade de Maria,
sobretudo, por causa de nossa padroeira, então sim, convém admiti-lo
prazerosamente e fazer-lhe ver que confia na pessoa certa quando confia na
Mãe de Deus.
24o) Se o noviço não paga nada, é preciso que assine um contrato de pagar a
Sociedade, no caso de desistir e que os pais também assinem, se possível.
Continuo pensando que isso de empregar os Irmãos como sacristães nos vai trazer
muitas dificuldades. Faça tudo o que puder para nos eximir desse compromisso.
Faremos o possível para ceder ao senhor, na época da festa de Todos os Santos,
alguém que possa trabalhar no noviciado, caso o senhor tenha muitos noviços.
O Irmão Antelme parece enveredar cada vez mais pelo bom caminho, bendito seja
Deus! Continuo esperando sua ordem para lhe mandar o Irmão Joseph Eugène.
91
56 - A Dom GASTON DE PINS, Administrador
Apostólico de Lião, Rhône.
Quaresma de 1835.
O padre Champagnat pede a Dom Gaston que nomeie o coadjutor de Pélussin, o Padre Jean
Herre Décultieux, para vir auxiliar os Padres que atuam em l'Hermitage, no que se refere à
assistência religiosa.
O Padre Servant já não dava conta de preparar sermões, atender no confessionário,
programar as pregações da Quaresma, etc. O número de candidatos vinha crescendo continuamente.
Há também outra razão: Padre Décultieux pode tornar-se membro da Sociedade de Maria.
Excia. Revma.,
Sua paternal bondade para conosco me traz aos pés de V. Excia., para expor-lhe minha
situação, a fim de que me ajude, se julgar conveniente. Em nome de Jesus e Maria, todos os
nossos Irmãos se unem a mim para lhe fazer esta breve exposição.
Nossa casa aumenta a olhos vistos, todos os dia se apresentam novos candidatos e
chegam novos pedidos. Não me atrevo a rechaçar os que se apresentam, considero-os
mandados por Maria em pessoa.
Atualmente somos perto de duzentos. Vinte e nove estabelecimentos. Quatro mil
alunos freqüentam nossas escolas. Sou obrigado a viajar continuamente para visitá-los.
Minha saúde está piorando dia a dia. O Padre Servant, meu auxiliar, merece elogios.
De manhã à tarde, trancado no quarto, prepara seus sermões, prédicas e missões; agora mesmo
está se preparando para pregar a Quaresma em Saint-Chamond. O pároco de St.-Pierre, que
lhe solicitou insistentemente sua ajuda, está muito contente com sua maneira de fazer
pregações.
Tenho, é certo, Irmãos que me ajudam nos diversos trabalhos: um bom Mestre de
noviços, um Irmão capacitado para dar aulas aos demais, outro para as aulas aos noviços e um
ecônomo.
Falta-nos alguém que supervisione, que anime e tome a direção geral da casa em
minha ausência, que atenda aos que vêm e vão; que goste e sinta a importância e as vantagens
de estar no cargo, um diretor piedoso, preparado, experimentado, prudente, firme e constante.
O Padre Décultieux, coadjutor de Pélussin, reúne todas essas qualidades. Por várias vezes,
manifestou-me muita estima por nossa casa, quer pelo encaminhamento de candidatos para a
Congregação, quer pelo empenho que teve na fundação do estabelecimento de Pélussin.
Também me deu a conhecer pessoalmente sua alegria em se dedicar a uma obra semelhante,
se os superiores permitirem. Foi ele que me encarregou de escrever a V. Excia. a respeito
deste assunto.
92
57 - Ao senhor JACQUES-MARIE ARDAILLON,
prefeito de Saint-Chamond e deputado do Loire.
30 de abril de 1835.
Depois de aguardar algum sinal desde o final de 1834, Champagnat começa nova investida
junto aos que podem trabalhar para a aprovação legal do Instituto. Aqui escreve para lembrar ao
amigo a carta anterior (cf. Carta no 50) e suplicar-lhe que interceda em favor da causa da
autorização legal. Ardaillon escreveu logo ao então Ministro da Instrução Pública, o senhor Guizot.
Senhor Deputado,
Já se passaram vários meses desde que tive a honra de dirigir-me a V. Excia. por meio
de uma carta que dizia respeito à nossa autorização. Não tendo ainda recebido resposta, receio
que tal carta não lhe tenha chegado às mãos. Por isso, tomo a liberdade de lhe expor
novamente o conteúdo da mesma.
“Confesso que chego bastante atrasado para manifestar-lhe, como é de
justiça, meu agradecimento, pelo serviço importante que V. Excia. pediu e
obteve para mim e para toda a minha casa. Mas afinal chego logo que fiquei
sabendo.
Nossos estatutos estão, pois, aprovados pelo Conselho Real desde o dia 28 de
fevereiro de 1834, e inscritos no Manual Geral de Instrução Primária, sob o
n.º 6, do mês de abril.
Que serviço importante o senhor nos prestou! Sua Excia. o senhor Arcebispo e
todos os amigos de nossa casa estão no auge da alegria. Tive a honra de estar
na ocasião com a senhora Ardaillon para dizer-lhe quanto somos gratos a V.
Excia. Também várias pessoas importantes de Saint Chamond: o senhor Victor
Dugas, o senhor Richard, e outros. Todos contribuem muito."
Bem sabe V. Excia. que para dar o último toque nesta questão importante, é necessário
que Sua Majestade Louis-Philippe sancione esta autorização por meio de um Decreto real.
Se faltam alguns trâmites, tenha a bondade de avisar-me; logo, tomarei providências,
de modo que V. Excia., durante sua permanência em Paris, possa acelerar esta última
formalidade que nos é tão necessária. Quatro dos membros de nossa Sociedade, pessoas já
antigas na casa, são atingidas pelo alistamento militar neste ano. O único recurso para que
fiquem a serviço da educação é a isenção.
Queira aceitar, digníssimo senhor Deputado de nosso distrito, meus protestos de eterna
gratidão, com que tenho a honra de ser seu dedicado servidor,
Champagnat
93
58 – Ao senhor PIERRE-DÉSIRÉ ANTOINE LACHEZE,
deputado do Loire.
3 de maio de 1835.
Como o original de onde transcrevemos esta carta não traz indicação a quem era destinada,
temos que recorrer a outras fontes. O Irmão Avit, nos Abrégé des Annales, p. 170, diz que
Champagnat escreveu a um deputado do Loire. Dentre os cinco deles, a saber: Ardaillon (de Saint-
Chamond), Baude (de Roanne), Du Rosiers (de Boen-sur-Lignon), Lanyer (de Saint-Etienne) e
Lachèze (de Montbrison), a qual deles se destinava a carta? Sem dúvida a um muito interessado pela
causa da autorização legal do Instituto. Depois de Ardaillon, aquele com quem o Padre Champagnat
se encontrara mais de uma vez em Montbrison era Lachèze. Os outros pouco aparecem nos círculos
de interesse do Padre Champagnat.
Agora vamos ao que diz o Irmão Jean-Baptiste (cf. Vida de M.J.B. Ch. Edição do
Bicentenário, p.199) sobre o deputado Lachèze. São dele as palavras seguintes: "Aposto dez contra
um que esta questão da autorização dos Irmãos chegará a bom termo."
Senhor Deputado,
Há poucos dias, escrevemos ao senhor Ardaillon, rogando-lhe que intercedesse para
que saísse o despacho que deve pôr um remate à autorização que nos foi concedida pelo
Conselho real. Foi transcrita no Manual de Instrução Primária, sob o no 6 do mês de abril de
1834.
Atrever-me-ia a pedir a V. Excia., senhor Deputado, o favor de redobrar esforços
juntamente com o senhor Ardaillon, para obter quanto antes que nossa autorização seja
sancionada pelo Rei.
Neste ano, temos quatro Irmãos que serão atingidos pela Lei do recrutamento do
exército e não temos outro meio de eximi-los. O Ministro acaba de mandar de volta a
conscrição deles, observando que a autorização ainda não atingiu o último requisito. Que
favor importante o senhor nos prestará, senhor Deputado! Haveremos de guardar na
lembrança tão assinalado favor. A delicadeza de V. Excia. nos deixa muito confiantes. Que
desfalque mais funesto se esses quatro Irmãos forem obrigados a nos deixar!
Aguardando os acontecimentos, vamos pedir a Maria, nossa Boa Mãe, o bom
andamento de seus negócios e o êxito em todos os empreendimentos de V. Excia.
Pode estar certo, senhor Deputado, dos sentimentos de estima e confiança com os
quais tenho a honra de ser seu respeitoso e atento servidor,
Ch.
94
59 - A sua Majestade a Rainha MARIE AMÉLIE.
Começo de maio de 1835.
Nos começos de maio de 1835, tendo já escrito ao Rei Louis-Philippe (Cf. Carta no 34),
Champagnat se dirige também à Rainha Marie Amélie. Com os deputados, com o Ministro, com o
próprio Rei. Nada! Quem sabe possa a Rainha interceder mais eficazmente junto aos poderes
públicos para, finalmente, conseguirmos isentar nossos Irmãos do serviço militar. Na resposta,
comunicando a decisão negativa, o ministro Guizot começa dizendo: “O placet (petição) que o
senhor dirigiu à Rainha foi-me encaminhado por S. M. como algo da competência do meu ministério:
4/9/1835.
V.J.M.S.J.
Grande Rainha,
Esta carta tem por finalidade rogar a Vossa Majestade se digne sugerir a Sua
Majestade Louis Philippe que sancione por um Decreto a autorização que o Conselho houve
por bem conceder a Sociedade dos Irmãos Maristas, aprovando seus Estatutos, transcritos no
Manual Geral de Instrução Primária, no 6, do mês de abril de 1834.
Quatro dos supraditos Irmãos estarão sendo atingidos pelo sorteio de 1835. Não temos
outros meios de eximi-los.
Sua grande devoção a Maria, o real afeto de seus antepassados à Mãe de Deus, o
começo deste mês consagrado a honrá-la, tudo isso me dá muita confiança. Todos os nossos
Irmãos estarão unidos a mim durante este mês para o feliz desfecho dessa questão e para a
prosperidade de sua casa.
Caso Vossa Majestade queira conhecer nossos estatutos, mando-os com uma pequena
explicação preliminar sobre as razões principais que me animaram a fundar esta Sociedade de
Irmãos para o ensino.
1o) Elevado à dignidade sacerdotal em 1816, fui enviado a um município do cantão de
Saint Chamond (Loire). O que constatei com meus próprios olhos nesta nova situação, com
relação à educação dos jovens, me lembrou as dificuldades que, por falta de professores, eu
mesmo experimentara na idade deles.
Apressei-me então em executar um projeto que havia formado de fundar uma
associação de Irmãos professores para os municípios rurais, cuja penúria não lhes permitia ter
os Irmãos das Escolas Cristãs. Dei aos membros da nova Sociedade o nome de Maria,
persuadido de que bastaria este nome para atrair um bom número de candidatos. Apesar da
falta de recursos materiais, tivemos logo um bom resultado, o que justificando minhas
conjecturas, superou minhas expectativas.
2o) Em 1824, auxiliado por Dom De Pins e por pessoas de bem da região, construí
uma casa para o noviciado. Atualmente a Sociedade conta com cento e quarenta membros, dos
quais oitenta trabalham como professores numa porção de municípios. Temos muitos pedidos
de novos estabelecimentos, para logo que tenhamos mais candidatos formados. Se o governo
nos autorizar, estará contribuindo de maneira especial para o nosso desenvolvimento. Isto será
de grande proveito para a religião e a sociedade.
95
Queira desculpar a confiança que me leva aos pés de Vossa Majestade e aceitar a
expressão dos sentimentos do meu profundo respeito, com os quais sempre estarei, grande
Rainha, a seu inteiro dispor na qualidade de súdito humilde, obediente e leal.
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60 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã e Pároco de Saint-Paul-
Trois-Châteaux, Drôme.
Começo de julho de 1835.
Em maio, o Padre Mazelier tinha feito uma visita a l'Hermitage para ter com Champagnat
uma primeira conversa, em vista de uma eventual fusão de suas congregações.
Foi por esta ocasião que o Padre Champagnat, preocupado com a situação de quatro Irmãos
prestes a serem convocados para o serviço militar, encontrou uma saída para o caso: Bastava que o
Padre Mazelier os declarasse membros de sua congregação, para a qual já tinha conseguido a
isenção.
O Padre Mazelier consultou seus colaboradores e o bispo de Valence e deu resposta positiva
a este expediente que deveria funcionar temporariamente e ser do conhecimento só dos interessados.
Foi a entrevista com Mazelier que motivou a carta de Champagnat transcrita abaixo.
Padre Superior,
Estou mandando os compromissos por dez anos, dos Irmãos que devem ir a Saint-
Paul; tenha a bondade de completá-los e fazê-los chegar ao Senhor Reitor. Razões imperiosas
obrigam três Irmãos, que assinaram os compromissos, a se atrasarem por alguns dias. Estou
planejando apresentá-los pessoalmente ao Senhor, no decorrer deste mês. Estou ansioso por
ver chegar a ocasião de expressar de viva voz o quanto lhe sou agradecido pelas atenções que
o senhor nos dispensa e pelos serviços importantes que nos presta.
Espero que o senhor terá a bondade de me indicar uma data em que eu tenha certeza
de encontrá-lo. Era meu intento encontrar-me com o Senhor um dia desses, mas vejo-me
obrigado a adiar a viagem por alguns dias. É que, com relação a uma de nossas casas, preciso
fazer uns arranjos que necessariamente exigem minha presença.
Pode acreditar senhor Padre, que toda a Sociedade tem pelo senhor o maior carinho e a
mais viva gratidão por tudo quanto tem a bondade de fazer em favor da mesma. Pelo que me
toca, sinto mais do que ninguém todo o valor e importância de suas benemerências. Por isso,
para mim é uma obrigação torná-lo participante de todas as nossas orações, como um dos
nossos mais caros benfeitores. Praza aos céus que um dia possamos estar unidos mais de perto
para a glória de Deus e a honra da divina Maria.
Queira aceitar os sentimentos de respeito, com os quais tenho a honra de me
subscrever, senhor Superior, seu humilde e obediente servidor,
Champagnat
97
61 – Ao Irmão THÉOPHILE
12 de julho de 1835.
Pode-se imaginar as dificuldades que o Irmão Théophile terá exposto ao Padre Champagnat.
O nível de estudos dele era muito baixo. Passar de alfaiate a professor aos 24 anos não devia ser
fácil. A saúde também não era lá das melhores.
O Padre Champagnat procura animá-lo, esperando que possa superar as dificuldades
encontradas nas novas condições de vida e de trabalho.
Escrevendo ao Irmão Théophile, o Padre Champagnat se refere ao jovem Perret. Poderia ser
Jacques Perret, natural de Marlhes, que depois recebeu a batina com o nome de Irmão Cyr, em 9 de
maio de 1839. Ficou poucos anos no Instituto.
Caríssimo Irmão Théophile,
Coragem, meu querido amigo, tudo virá com o tempo, e mais ainda, o próprio Deus
será nossa recompensa. Para que nos inquietar? Façamos de conta que estamos seguros de
conseguir um bom resultado, e atribuamos toda a honra a Jesus e Maria. Você tem suas
dificuldades, ou melhor: você não tem dificuldade alguma e, assim mesmo, se inquieta?
Ninguém fala com você? Bendito seja Deus!
Gosto do Perret. Ah!... se pudéssemos recebê-lo! Digo-lhe que eu o receberia de boa
mente; esperemos.
Diga ao Irmão Silvestre, diga-lhe, meu caro amigo, que gosto muito dele. Mil
obrigados por tudo quanto ele realiza em Marlhes, pelo amor de Deus. Reze por mim.
Adeus,
Champagnat
P.S. Diga à mãe dos meninos Vialeton que me mande a Valbenoite quatro carradas de tábuas
de Givors, de 7 a 8 pés e de uma polegada de espessura.
98
62 – Circular aos Irmãos
24 de agosto de 1835.
Convocação para o retiro e as férias. Na carta circular, o Padre Champagnat solicita aos
Irmãos que transmitam o seguinte recado aos candidatos que estiverem para pedir ingresso em
l'Hermitage: Que venham somente a partir do dia 15 de outubro. Portanto, dá a entender que os
Irmãos vindos das escolas estarão ocupando a casa até aquela data.
Caríssimos Irmãos,
Neste momento posso dirigir a vocês as palavras do nosso divino Salvador, quando
disse a seus discípulos: "Venham descansar um pouco em um lugar solitário". (Mc 6,31)
Venham repousar e refazer as forças num lugar de paz, de silêncio e de recolhimento,
venham com as mesmas disposições que tinham os apóstolos no Cenáculo e, como a multidão
dos primeiros cristãos eram um só coração e uma só alma, esforçar-nos-emos por reproduzir
em nossa conduta as virtudes de que nos deram tão belos exemplos. Mas, para que nada venha
a perturbar a ordem nesse encontro de todos, é bom observar o seguinte:
1o) Ao chegar, fazer uma visita ao Ssmo. Sacramento, ao superior ou ao seu substituto
ao qual se deve apresentar o livro de contas.
2o) Dirigir-se ao lugar para onde forem designados, sem se demorar a tagarelar
inutilmente (os números dos respectivos lugares serão indicados quando chegarem).
3o) Longe de se julgarem dispensados do regulamento quando vêm à casa mãe, os
Irmãos dos estabelecimentos devem ser os primeiros a cumpri-lo.
4o) Caso se cometa ou se tenha cometido alguma falta contra o regulamento, avisar
somente a quem pode remediar.
5o) Não abandonar o próprio serviço sem permissão de quem preside. Trazer todos os
catálogos que se encontram nos estabelecimentos, os livros ao uso dos Irmãos, o Manual, o
Livro de Ouro, o Catecismo, a História Sagrada, o livro de Missa, o Método de oração mental,
a Tabela cronológica, a Gramática de L'Homond, a Aritmética decimal, a Geometria e os
instrumentos ad hoc.
Pede-se o favor de saldar, enquanto possível, o débito com a biblioteca. O número
considerável de noviços que não puderam pagar nada da pensão, os gastos vultosos que foram
feitos são outros tantos motivos que me induzem a dar esta recomendação.
Desejamos que todos cheguem aqui terça feira, 16 de setembro. Queiram precaver-se
para não faltar à pontualidade, pois o retiro começará provavelmente logo a seguir.
Digam aos noviços que pretendiam vir com vocês que só poderão ser recebidos a
partir de 15 de outubro, porque seria impossível arranjar lugar para eles, devido ao grupo
numeroso que entrou neste ano.
Aguardando o prazer de abraçá-los, tenho a honra de ser seu dedicado pai em Jesus e
Maria.
P.S. Cada um deve trazer uma camisa, um lenço, um boné marcados assim: (.........) M. n.º 15
(toda a sua roupa deve estar marcada).
PS. O Ir. Lyguory está pensando em passar pela comunidade ainda esse ano pela última vez.
99
CAPÍTULO III: 1836
Grande foi a alegria do Padre Champagnat e dos seus confrades quando o Papa
Gregório XVI aprovou, a 11 de março, a sociedade de Maria. (cf. Vida de M.J.Champagnat,
Edição do Bicentenário, p. 191).
Logo no início do ano, caiu o Ministro da Instrução Pública, François Guizot, que foi
substituído por Pelet de la Lozère.
A sociedade francesa continuava agitada: o seu monarca, o rei Louis-Philippe,
escapou de um atentado em 25 de junho, mas a população mais pacífica ficou muito abalada
e triste, ao lamentar mais este golpe de violência.
Em agosto, o Padre Champagnat empreendeu mais uma viagem a Paris, para ver se
conseguia a autorização legal do Instituto. Ao chegar na capital, informaram-lhe que o
senhor Sauzet, deputado por Lião e Ministro dos Cultos, tinha sido substituído. Era a pessoa
com quem podia contar para se apresentar ao Ministro. Voltou logo a l’Hermitage, sem ter
sequer apresentado a petição que tinha preparado.
Em setembro, nova reviravolta no Ministério da Instrução Pública ao qual retorna o
senhor Guizot.
Acontecimento importante para a Sociedade de Maria, agora já reconhecida por
Roma: a eleição de um Superior Geral. O ato se deu em Belley e os sufrágios indicaram o
Padre Jean-Claude Colin para o cargo. O Padre Champagnat também estava na mira de
seus confrades, mas ele os convenceu que o deixassem continuar a formar os Irmãos. Foi
portanto nomeado oficialmente pelo Padre Colin como Superior dos Irmãos.
A aprovação de Roma animou mais uma turma de missionários maristas a partirem
para a longínqua Oceânia. Embarcaram no dia 24 de dezembro no Havre os Padres
Pompallier, Chanel, Bataillon, Bret e Servant e os Irmãos Marie Nizier Delorme, Michel
Colomban e Joseph-Xavier Luzy.
100
63 – Circular aos Irmãos
19 de janeiro de 1836.
Tem por finalidade transmitir a todos os votos de Feliz Ano Novo. O fervor, o zelo pela
instrução e educação dos meninos e a caridade fraterna, tais são as condições para que o novo ano
seja realmente feliz e produtivo.
O ano de 1836 foi certamente dos mais felizes para a Sociedade de Maria, pois foi
nesse ano que o Papa Gregório XVI, mediante o Breve "Omnium Gentium", autorizou a
Sociedade de Maria, 11 de março de 1836, confiando-lhe a missão da Polinésia. Impossível
exprimir o regozijo do Padre Champagnat ao receber do Padre Colin, em 11 de abril, a
auspiciosa notícia. (Cf. Vida de M.J.B. Champagnat, Edição do Bicentenário, p. 190) Esta
cópia era para os Irmãos de St-Didier-sur-Rochefort.
Caríssimos Irmãos nossos,
Sinto no coração a grata satisfação de me lembrar de vocês todos os dias e de no santo
altar apresentá-los todos ao Senhor; especialmente hoje, não consigo resistir à agradável
satisfação de expressar a vocês meus sentimentos de afeto e de manifestar minha ternura
paternal.
Meus queridos e bem-amados, vocês são continuamente o objeto especial de minha
terna solicitude. Todos os meus anseios e todos os meus votos têm em mira sua felicidade;
isso certamente vocês já sabem.
Queridos Irmãos, esta felicidade não é a que o mundo procura e que imagina encontrar
nos bens materiais. Desejo e peço para vocês bens mais consistentes e verdadeiros. Servir a
Deus com fervor, cumprir fielmente os deveres do próprio estado, trabalhar todos os dias para
desapegar nosso coração das criaturas, a fim de entregá-lo a Jesus e a Maria, deixá-lo ao sabor
dos movimentos da graça. É isto que verdadeiramente é desejável e que quero para vocês.
Sim, caríssimos Irmãos nossos, e filhos de Maria, a glória de vocês há de consistir em
imitar e seguir Jesus Cristo; que o Divino Salvador os cumule de seu espírito; que a sabedoria
dele os dirija em tudo quanto fizerem para sua glória.
Desejo e quero que a exemplo de Jesus Cristo, nosso divino modelo, vocês dediquem
terna afeição aos meninos. Com grande zelo repartam-lhes o pão espiritual da religião.
Ponham todo seu empenho em formá-los à piedade e em gravar em seus corações juvenis
sentimentos de religião, que não se apagarão nunca.
Que a união e a caridade de que fala o discípulo bem-amado reine sempre entre vocês.
Os que precisam obedecer, que obedeçam com humildade, e os que mandam, mandem com
mansidão. Deste modo, a paz e a alegria do Espírito Santo estarão sempre com vocês. Que o
verdadeiro zelo os anime a trabalhar em sua própria perfeição e que a constante fidelidade à
Regra os impulsione a realizar cada dia novos progressos. Não esqueçam que a exata
observância da Regra é o meio adequado para conseguir a perfeição religiosa.
Coragem, pois, caríssimos Irmãos, os sofrimentos e lutas desta vida duram apenas um
instante. Volvamos freqüentemente os olhos para o peso imenso de glória que será para
sempre a recompensa. Lembremo-nos que o justo Juiz somente há de coroar quem tiver
vencido e perseverado até o fim.
101
Que Jesus e Maria os guardem sempre!
Temos a honra de ser seu dedicado e afetuoso pai em Jesus e Maria.
Champagnat, Sup.
P.S. Imagino que todos estão de boa saúde, que o trabalho vai cada vez melhor. Faz
tempo que não recebo notícia.
P.S. (Ao Irmão Polycarpe, em Ampuis, Rhône)
Os votos que formulou em nosso favor acho que são sinceros e fico-lhe grato. Então,
prezado Irmão, que o próprio Deus queira abençoá-los e seremos felizes. Bem sei do seu
esforço para atender a tudo. Mais uma vez, que Deus espalhe suas bençãos e tudo vai dar
certo.
Diga, amigo caríssimo, diga a seus caros colaboradores quanto eles me são caros e
quanto os amo em Jesus e Maria: cuide muito da saúde deles. Diga ao caro Irmão Onésimo e
aos outros quanto os amo.
É nos Sagrados Corações de Jesus e Maria que abraço a todos vocês e tenho a honra
de ser o devotadíssimo pai.
Champagnat
102
64 – Ao senhor CHARLES FRANÇOIS PASCAL
ARQUILLIÈRE, Diretor da Escola Normal de
Montbrison, Loire.
12 e 13 de abril 1835.
Champagnat comunica ao Sr. Arquillière que o Irmão solicitado só estará disponível após a
festa de Todos os Santos.
São dois rascunhos de carta que se encontram nos cadernos de Champagnat, sendo que o
segundo vem com alguns retoques.
O plural majestático - Sentimo-NOS ENVAIDECIDO - se deve a que o pedido de mandar um
Irmão foi feito pelo Barão Jean André de Sers (cf. Carta no51) que designara o senhor Arquillière
para Diretor da Escola Normal.
É provável que não se tenha efetivado o envio de nenhum Irmão, pois nenhuma notícia se
teve depois a esse respeito.
1.ª versão
Notre Dame, 12 de abril de 1836.
Senhor Arquillière,
Sentimo-nos sumamente envaidecido pela honra que nos dá o senhor Prefeito
Departamental e os membros da supervisão de sua escola por terem pensado em nós para nos
chamar a contribuirmos para o bem da instrução.
Imagino que eles estarão esperando esse Irmão somente para a próxima festa de Todos
os Santos. Nesse caso podemos prometê-lo. No momento presente, ser-nos-ia extremamente
difícil, para não dizer impossível, porque teríamos que fazer várias trocas, o que transtornaria
por demais nossos estabelecimentos.
Segunda versão da mesma carta, em 13 de abril de 1836
Senhor Arquillière:
Sentimo-nos sumamente envaidecidos pela honra que nos dá o senhor Prefeito
Departamental e os membros da supervisão de sua escola normal, ao chamar-nos a contribuir
para o bem da instrução, no nosso próprio Departamento. É com o mais vivo interesse que nos
prestaremos a esse serviço, prazerosos de demonstrarmos ao senhor Prefeito nossa
disponibilidade para o bem de nossos concidadãos.
Desejaríamos apenas que se pudesse atrasar a execução até a festa de Todos os Santos,
visto que nos seria extremamente difícil, para não dizer impossível, remediar aos
inconvenientes de várias trocas de pessoal que seríamos obrigado a realizar.
Planejo estar com o senhor Prefeito dentro de poucos dias e conversar com ele sobre
as medidas a serem tomadas. Não fosse uma indisposição por que passei, teria respondido a
seu pedido de viva voz.
103
65 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã.
8 de maio de 1836.
Cada ano o Padre Champagnat tem que mandar ao Padre Mazelier os Irmãos de 20 anos,
para que se ponham a salvo do alistamento militar. É por esta razão que, já tendo em vista a
possibilidade da fusão das suas congregações, o Padre Champagnat fornece importantes dados ao
Padre Mazelier. Com que desprendimento se dispõe a unir seus Irmãos à congregação fundada por
Mazelier!
O serviço militar na França daqueles tempos durava 7 longos anos. Se o jovem convocado
tivesse bastante dinheiro, poderia pagar outro jovem que tivesse sido isentado, para substituí-lo no
serviço militar.
V.J.M.J.
Notre Dame de l’Hermitage, 8 de maio de 1836.
Padre Superior,
De novo vimos por mais este ano pedir socorro em favor dos quatro Irmãos que lhe
mando. Sem os bons ofícios que o senhor nos presta, estes Irmãos correriam sério perigo.
Vejo que temos de nos ater às condições que aceitamos. Na verdade, o senhor nos
presta um grande favor. Espero que um dia estejamos em condições de pagá-lo.
Se o senhor tem contas a pagar nos livreiros em Lião, eu pago. Na espera de sua
informação, mando-lhe já trezentos francos.
Não preciso fazer-lhe recomendações a respeito dos que lhe envio. Estão em suas
mãos e em sua casa melhor do que conosco, sob todos os pontos de vista.
Continuo pensando que nossos estabelecimentos bem poderiam caminhar juntos, pois
que nossas Regras são mais ou menos as mesmas. A sua diocese não perderia nada. Sob as
suas ordens, poderíamos abrir um noviciado para o qual poderíamos mandar depois certo
número de noviços.
Teremos que chegar a isto, pois nossa casa tem gente demais no momento. Os que se
formassem no tal noviciado seriam empregados nas vizinhanças, de acordo com a
necessidade, evitando assim gastos de viagens. Os pedidos que nos são feitos vindos de sua
região seriam mais depressa e mais facilmente atendidos; e, sob sua inspeção, só poderiam
prosperar. Por exemplo: La Voulte, Mondragon, Laries, Mèze etc., que chegam com
insistentes pedidos, teriam pronto atendimento.
Em tudo isto, que seja feita a santa vontade de Deus!
Com a projetada união, que me parece viável, só queremos dar glória a Deus e
difundir a sólida instrução.
No tocante à nossa autorização, não vai demorar; pelo menos é o que nos garantem;
uma vez mais digo: Tudo está nas mãos de Deus!
Acabamos de receber a autorização do Soberano Pontífice, e ficaremos encarregados
de uma missão na parte norte da Polinésia. Para lá estamos enviando cinco de nossos Padres e
dois de nossos Irmãos. Recomendamos muito esta missão a suas fervorosas preces.
104
Mandar-lhe-ei de volta o Irmão Justino que ainda não pôde infelizmente restabelecer-
se de todo. Já o mandamos descansar. Quanto ao Irmão Apolinaire, o senhor pode considerá-
lo como estando sob suas ordens. O senhor bem que sabe em que situação se encontra.
Asseguro-lhe meus sentimentos de gratidão; queira aceitá-los, é com esta disposição
que tenho a honra, digníssimo pastor, de me subscrever,
De V. Revma. atencioso servidor,
Champagnat
P.S. As propostas que lhe faço são da parte do Padre Colin, Superior Geral da Sociedade de
Maria. Mil saudações amigas ao seu Coadjutor e ao Padre André.
105
66 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, em SAINT-
PAUL-TROIS-CHÂTEAUX, DRÔME.
princípio de julho de 1836.
Firmando-se no post-escriptum da carta precedente, o Padre Mazelier deve ter escrito ao
Padre Colin. Este, antes de responder quis conversar com o Padre Champagnat. A carta de Colin tem
a data de 7 de julho. A carta de Champagnat não traz data, mas pelo carimbo do correio sabemos
que chegou a Pierrelatte, vizinha de Saint-Paul-Trois-Châteaux, no dia 10 de julho de 1836.
Padre Superior,
O Superior Geral da Sociedade me deu a conhecer o projeto de união do qual o senhor
lhe falou e que eu mesmo tinha em vista desde faz tempo. Depois de conferenciarmos a esse
respeito, acabamos acreditando que a projetada união seria para a glória de Deus e o bem da
religião.
Temos ambos um fim idêntico que é a educação cristã dos meninos; os meios que
empregamos são os mesmos, salvo pequenas alterações. O artigo 8 de seu prospecto, no qual o
senhor suspende a norma de um Irmão trabalhar sozinho num estabelecimento e daí por diante
só a permitirá para lugares muito perto de uma escola principal de sua congregação, nos
parece estar de acordo com o seguinte enunciado de nossos estatutos: "Embora os Irmãos
sejam enviados no mínimo em dois, poder-se-á criar uma casa central, de onde se dirigirão
cada qual para seu lado, para os municípios vizinhos."
Esse obstáculo principal quase não existindo mais, creio que entraremos de acordo
com bastante facilidade para os demais artigos de seu prospecto, que temos lido com muita
atenção. Não entro agora em detalhes, pois conto com uma entrevista que facilitará nossas
explicações.
Quanto à dificuldade que o senhor está vendo na manutenção de nosso
estabelecimento com a verba tão diminuta que exigimos, creio que já está resolvida pela
experiência de cerca de dez anos, que não foram os menos difíceis, o senhor bem que sabe!...
Por outro lado, além de farto recurso da Providência, que nunca nos falhou,
conseguimos recursos com o superávit das pensões pagas pelos internos, bastante numerosos
em nossos estabelecimentos; o superavit vai em auxílio das escolas menos aquinhoadas,
expediente que não têm os Irmãos das Escolas Cristãs. Por outro lado ainda, as pequenas
quantias provenientes da cessão da taxa de alguns Irmãos em favor da casa mãe, perfazem um
suplemento - podemos dizer suficiente - para cobrir o déficit ocasionado pelos candidatos que
não podem pagar o noviciado.
Por ora, atenho-me a este ligeiro apanhado. Espero viajar amanhã para Lião. Terei
muito prazer em fazer o que me encomendou.
Tenha certeza de meus sentimentos de respeito, com que tenho a honra de ser, senhor
Padre, seu humilde e atento sevidor.
Champagnat
106
67 – Ao Irmão FRANÇOIS, L'Hermitage.
28 agosto de 1836
O Padre Champagnat começa dando notícia da chegada em Paris, sem maiores transtornos.
Logo a seguir faz algumas recomendações.
A viagem foi feita de diligência. Com o Padre Champagnat iam Dom Pompallier e o Padre
Chanut, todos com a firme esperança de finalmente voltarem com o Decreto, devidamente assinado
pelo Rei, concedendo autorização legal à Congregação. Levavam até uma carta de recomendação de
Dom Gaston ao Ministro da Instrução Pública, Exmo. senhor Pelet de la Lozère. Na carta, Dom
Gaston enaltece os serviços que os Irmãos, como educadores, vêm prestando à sociedade e faz notar
que os estatutos que os regem foram aprovados pelo Conselho Real da Instrução Pública, em 28 de
fevereiro de 1834. Tudo certinho!...
Mas, ó decepção! O Ministério comandado por Thiers tinha caído e o novo ministério só
tomaria posse em 6 de setembro. Pior ainda, Pelet seria substituído por Guizot, na pasta da Instrução
Pública.
Mais uma vez, baldados esforços. Outros três dias de marcha no mesmo caminho de volta
para l'Hermitage.
V.J.M.J.
Paris, 28 de agosto de 1836, Seminário das Missões estrangeiras, Rue du Bac nº 120
Caríssimo Irmão,
Depois de viajar três dias e três noites, chegamos a Paris, com saúde e decididos a
tentar tudo para conseguir cada qual o seu objetivo.
Fizemos a viagem sem sentir, como receava, as dores que me atacam de ordinário.
Graças sejam dadas a Jesus e a Maria!
Estamos hospedados no Seminário das Missões Estrangeiras. O digno Superior da
casa nos recebeu com uma bondade admirável. Nós nos acomodamos, uns ao lado dos outros.
Quanta necessidade sentimos das orações de toda a casa! Estou com muito medo de
não conseguir nada. Trocaram o ministério. Será que o que entrou agora se mostrará favorável
a nós? Não sei.
Dom Pompallier aguarda uma entrevista com o Rei e a Rainha. Se ele puder, falará ao
Rei sobre o assunto que nos interessa.
Não se preocupe comigo, estou muito bem. Acho o povo de Paris muito educado.
Ninguém nos xingou. Assim que eu tiver feito alguma tentativa, escrever-lhe-ei para mantê-lo
a par de tudo. Recomendo-lhe que cuide para que tudo transcorra em ordem. Diga aos Padres
Servant, Matricon e Besson que conto especialmente com o Santo Sacrifício que celebram e
com o empenho deles para o bom andamento da casa. Peça o parecer deles e dos Irmãos Jean
Marie e Irmão Stanislas para as questões melindrosas.
É preciso acelerar o mais que puder a construção da Capela, não desperdice nada.
Entenda-se bem com os Padres Matricon e Besson e com os Irmãos Jean-Marie e Stanislas.
Peço-lhe encarecidamente que não deixe ninguém à toa. Prepare tudo para as férias. Não
posso ainda precisar quando voltarei. Tenho a impressão que me sentiria bem, deixando-me
ficar por aqui; tudo parece tão tranqüilo!
107
Segue meu endereço caso você precise escrever-me.
Reafirmo a todos a minha terna afeição, queridos Irmãos, com a qual tenho a honra de
ser vosso dedicado e afetuoso pai em Jesus e Maria,
Champagnat, sup. d. I. M.
Paris, Seminário das Missões Estrangeiras,
Rue du Bac, n.º 120
108
68 - A sua Majetade LOUIS-PHILIPPE, Rei dos
Franceses.
Agosto de 1836?
Os cadernos do Padre Champagnat contêm ainda três rascunhos de cartas ao Rei, para
solicitar o tão desejado Decreto. Como não encontramos nenhum vestígio destas tentativas,
pensamos que nem foram expedidas, diz o Irmão Paul Sester. Também não trazem data e estão
incompletas.
Carta ao Rei
Majestade,
De acordo com o parecer do conselho real, em data de 28 de fevereiro de 1834, sobre
os estatutos da associação dos Irmãozinhos de Maria que tínhamos apresentado.
Majestade,
O Superior dos Irmãozinhos de Maria vem mais uma vez lançar-se aos pés de Vossa
Majestade para suplicar.
Majestade,
Padre Champagnat, fundador da associação dos Pequenos Irmãos de Maria,
estabelecidos perto de Saint-Chamond, Loire, vem de novo lançar-se aos pés de Vossa
Majestade com vários membros da dita sociedade para vos suplicar humildemente queira
acolher a petição que ousamos vos dirigir quanto ao decreto que nos dará existência legal.
109
69 - CONVITE PARA A INAUGURAÇÃO DA NOVA
CAPELA DE L’HERMITAGE.
28 de setembro de 1836.
É um convite simples, curtinho, sem muita pontuação, nem formalismos.
N. D. de l’Hermitage, 28 de setembro de 1836.
Senhor,
Está convidado a assistir à cerimônia da benção de nossa capela a ser realizada por D.
Pompallier terça-feira próxima, dia 4 de outubro por volta das 9 horas da manhã.
Respeitosas saudações
Champagnat, sup. dos Irmãos
110
70 – Ao Padre FERREOL DOUILLET, La Côte-Saint-
André, Isère.
outubro de 1836.
A carta anuncia a volta do Irmão Louis Marie para La Côte, e as providências que deverá
tomar na escola.
Vai aqui também a transcrição do segundo rascunho de carta ao mesmo Padre Douillet.
Contém expressões bastante duras, endereçadas a Douillet que se mostrava renitente com relação ao
que o Padre Champagnat e os Irmãos de La Côte solicitavam dele. Dá para duvidar que o
palavreado desta carta seja do próprio punho de Champagnat, sempre tão comedido nas suas
palavras, ainda mais nos escritos.
Em todo caso, segundo o que diz o Irmão Avit, o Padre Champagnat foi quem assinou a
segunda versão, na qual algumas expressões foram amenizadas. Será que o texto é de Champagnat?
1.ª versão
Senhor Padre e digníssimo coirmão,
Mando-lhe o prezado Irmão Louis-Marie, como você desejava. Queira Deus não me
pedir contas do que estou fazendo: largo por assim dizer meus próprios filhos para ir em
socorro de estranhos. Só lho deixarei por um mês ou dois. Por favor, não recuse devolvê-lo
quando eu lho pedir de volta.
Guardo comigo o Irmão Jean-Louis e o Irmão Jean-Baptiste. O prezado Jean Louis
Marie ficará com a direção geral da casa. Ao chegar, entrará em acordo com o Senhor para
fazer o levantamento de toda a mobília e das provisões, tomará nota de todo o dinheiro que
receber, entrará em entendimento com os pais, e depois entregará tudo ao senhor.
Com esta sistemática nós queremos manter uniformidade na Sociedade e não juntar
dinheiro, persuadidos de que, se Deus está contente conosco, não nos deixará faltar nada.
Estamos certos de que o senhor vai aceitar nossos pontos de vista, pois pelo que
dizem, o senhor tem sincera estima pela Sociedade.
Somos de parecer - e achamos isto importante - que o Irmão não se encarregue de
nenhuma aula, mas que ponha a par de tudo o Irmão que o substituirá. Deste modo, seu
afastamento não causará transtorno. A irmã não controlará os Irmãos nem a alimentação deles.
Não deverá entrar na casa da comunidade. A lojinha ficará com os Irmãos, como já era.
Com relação aos noviços de que o senhor nos fala, vamos recebê-los, como já lhe
disse, me parece.
No momento, temos cinco pedidos de novos estabelecimentos, com as despesas já
acertadas definitivamente: um na diocese de Belley, outro na de Clermont; um na diocese de
Puy, outro no Departamento de Ardèche e dois na diocese de Lião. Todos esses
estabelecimentos, com exceção dos dois da diocese de Lião, nos mandarão muitos noviços.
O que faria o senhor no meu lugar? Miribel não nos respondeu nada. Posso assegurar-
lhe de novo que sou de todas as dioceses do mundo e que a Igreja universal é o objeto da
nossa Sociedade.
Os senhores bispos que desejarem empregar-nos nos encontrarão dispostos a
realizarmos os maiores sacrifícios, seja de pessoas, seja de meios pecuniários, pois dizemos e
111
continuaremos a dizer sempre, estribados na graça de Deus: "Seja anátema todo membro da
Sociedade que se apegar aos bens da terra!"
Estou chateado por lhe ter causado incômodos. Eu já tenho que chega. Deus seja
bendito!
Tenho a honra de estar a seu inteiro dispor nos sagrados Corações de Jesus e Maria.
P.S. Reze por mim.
Segunda versão da mesma carta
V.J.M.J.
Senhor Padre,
Nós lhe enviaremos por um ou dois meses o prezado Irmão Louis-Marie. O sacrifício
é grande, queira Deus não me pedir contas do que estou fazendo.
Ficamos aqui com o Irmão Jean-Louis e Irmão Jean-Baptiste. Estamos enviando o
Irmão Louis-Marie como Diretor. Urge colocar este estabelecimento no mesmo pé de
organização que os demais.
Estamos muito de acordo que o Irmão combine com o senhor, acolha seus conselhos,
pois estamos convencidos, pelo que ouvimos dizer, que o senhor tem estima pela Sociedade.
O Irmão Louis Marie fará com o Senhor o levantamento da mobília e das provisões. A
irmã não controlará os Irmãos nem a alimentação deles; também não deve encarregar-se da
venda de livros, papéis, numa palavra, da lojinha.
O Irmão Louis-Marie, de acordo com o senhor, tomará nota de todo o dinheiro que
receber e depois lho remeterá, porque em tudo isso não é o dinheiro que queremos, mas que
Deus esteja satisfeito conosco, e nada nos faltará.
Recebemos o jovem noviço que o senhor nos enviou. Receberei igualmente os demais
de que me faz menção na carta.
Os Irmãos partirão para La Côte segunda feira e lhe dirão se nos sobra algum Irmão
capacitado que nos permita pensar em novas fundações. Por ora não abriremos nenhuma casa
mais que não esteja com as contas acertadas, pois continuamente nos estão oferecendo casas
já com fontes de recursos permanentes.
Champagnat
112
71 – Ao Padre FRANÇOIS RÉGIS GILLOZ, Pároco de
Saint-André-le-Bas,Vienne, Isère.
outubro de 1836.
Fundada em 1833, a escola de Saint-André caminhou cedo para franco progresso. Dois anos
depois, o Padre Guttin, pároco de Saint-Maurice, outra paróquia da mesma cidade de Viena da
França, pediu Irmãos. Não foi atendido, por não se encontrar uma casa de moradia para os Irmãos.
Contrariado com a recusa, o Padre foi bater à porta dos Irmãos das Escolas Cristãs. Estes, apenas
instalados," battirent la grosse caisse”, fizeram grande propaganda para angariar alunos. Queriam
aumentar as matrículas, com isto a escola dos Irmãos quase se esvaziou. Acabou fechando em 1837.
O Padre Gilloz queria conservar os Irmãos que estimava sobremaneira; mas, por outra
valeu-se do aperto por que passavam para ver se conseguia que "deixassem por menos" o pagamento
que lhes era devido. Com isso, pensava ele enfrentar a concorrência. Champagnat compreendeu esta
espécie de chantagem e não deu o braço a torcer. Vejamos:
Senhor Pároco,
Que nossos Irmãos estejam seguros de ter moradia e um salário de 1.200 francos para
os três, que se cuide da mobília deles, que, na medida do possível, tenham um quintalzinho:
são essas as condições, senhor pároco, para que estejamos dispostos a fazer todo o possível
para continuarmos a manter este estabelecimento, e lhe dar satisfação sob todos os pontos de
vista. As vantagens que o seu estabelecimento proporciona à nossa Instituição são bem
concretas e conhecidas, para que ainda hesitemos.
Mas, dê o senhor aos Irmãos das Escolas Cristãs um local aprazível, um salário
garantido; e, por outro lado, ponha nossos Irmãos em uma casa em que tenham que pagar o
aluguel, manter a mobília; em um lugar em que tenham que enfrentar as contingências e as
incertezas de uma escola paga. Julgue o senhor mesmo se a luta de uns e de outros pode ter
comparação.
Queira, por favor, senhor pároco, examinar os recursos que nos oferece; depois, dê-
nos a conhecer a sua decisão. Só agirei em consonância com a resposta com que houver por
bem nos honrar.
Aceite a confirmação de grande consideração com qual tenho a honra de ser seu
dedicado...
113
72 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Pároco de Saint-Paul-
Trois-Châteaux, Drôme.
4 de novembro de 1836.
O Padre Champagnat ficou sabendo que o Padre Mazelier viria a Lião. Convida-o a
chegar até l'Hermitage, onde conversariam sobre vários assuntos, um dos quais seria sem
dúvida o mais importante: o projeto da fusão de ambas as congregações.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 4 de novembro de 1836.
Digníssimo senhor Pároco,
Peço-lhe, caso venha a Lião, que passe em nossa casa, pois além do que devo pagar-
lhe, temos muitas outras coisas a tratar.
Agradeço-lhe muito os serviços que nos presta. Peço ao Senhor que se digne pagá-los.
Acabo de chegar de Saint Didier de Chalaronne (Dombes, diocese de Belley), onde me
encontrei com o bispo de Belley, o qual me pediu notícias suas. Deu-me a impressão que está
vendo com bons olhos a projetada união e o trabalho que faríamos de comum acordo. Os
estatutos de sua organização são semelhantes aos nossos. Vemos que o senhor tem o que nós
não temos e que nós temos o que o senhor não tem. Assim como o senhor eu também nada
mais quero em tudo isso do que a bondosa e santa vontade de Deus.
Agradeço-lhe a garrafinha que me fez muito bem, apesar do pouco uso que fiz do
conteúdo.
Muitos candidatos continuam a nos chegar. Não estávamos dispostos a abrir nenhuma
escola nova este ano, mesmo assim nos obrigaram a fundar outras cinco e ainda deixamos
muita gente descontente. Mil e mil vezes bendito seja Deus.
Conto muito com suas fervorosas preces.
Aceite que lhe renove meus sentimentos de estima e de devotamento comq ue senhor
Pároco, tenho a honra de ser seu humilde e obediente servidor,
Champagnat,
sup. dos Irmãos.
P.S. Saudações amigas ao Padre Robin...
114
73 – Ao senhor JEAN FRANÇOIS PREYNAT, prefeito
de Sorbiers, Loire.
3 de dezembro de 1836.
A Lei de 28 de junho de 1833, referente à Instrução Pública nas escolas primárias estipulava
o pagamento de 200 francos para um professor de escola primária.
A escola de Sorbiers enfrentou, por parte do prefeito, diversos contratempos. Um deles: a
supressão do pagamento dos 1200 francos. O prefeito alegou que em 1834, o Senhor Chomat (Irmão
Cassien) não era "instituteur" primário ou não exercia o cargo.
A carta do Padre Champagnat, (cf. Carta no 47) deve ter produzido efeito, pois o Conselho
Municipal, por decisão de 25 de agosto de 1835, já tinha determinado a quantia a ser paga, a título
de vencimentos e mais uma taxa de 1/20 a ser depositada, a título de seguro previdenciário. Seria
somente por malquerença do prefeito contra os Irmãos e contra a decisão do próprio Conselho que
as contas não estavam em ordem? (cf. Carta no 76)
Quem não tolerava deslizes nesta questão era o solícito Padre Champagnat, incansável em
defender seus filhos.
N. B.- O final do rascunho é um desabafo do Padre diante da incompreensão das
autoridades e dos que não valorizavam o trabalho educacional dos Irmãos. Não deve ter
entrado no texto da carta.
1.ª versão
Senhor Prefeito,
Fiquei sabendo, com muita surpresa, através de uma resposta do senhor Vice-Prefeito
Departamental, que o seu Conselho Municipal recusa aprovação ao crédito que têm os Irmãos
que lhe demos, crédito esse de duzentos francos estipulado em lei. Será que é para indenizá-
los pela moradia que é propriedade deles há tanto tempo?
Que censura tem a fazer a Prefeitura de Sorbiers a nossos Irmãos? Causam algum
estorvo à sua administração? Ou será que para forçá-los a sair do município, demora tanto em
fazer os consertos na construçãozinha que mandou fazer? Será ainda pela mesma razão que...
Espero senhor Prefeito, dentro de dois ou três dias, receber sua resposta, caso se digne
honrar-me com uma palavra sua.
2.ª versão
Senhor Prefeito,
Fiquei sabendo com muita surpresa, através de uma resposta do senhor Vice-Prefeito
Departamental, que o Conselho de V. Sª recusa aprovação para que os Irmãos recebam os
duzentos francos que a Lei de 28 de junho de 1833 lhes destina. Qual a justificativa para a
recusa?
Será que os Irmãos não têm direito a uma indenização, após terem cedido aquele local,
já faz tanto tempo? Qual é a queixa que o município de Sorbiers apresenta contra seus
professores? Aguardo sua resposta, Senhor Prefeito, caso o senhor se julgue obrigado a me
responder.
Vós sabeis, Deus meu, quando eu vos... Vós sabeis...
Vós sabeis, Deus meu, vós sabeis, Maria, vós sabeis...
115
74 - Ao Irmão ANTOINE, Millery, Rhône.
21 de dezembro de 1836.
A carta anuncia a chegada de dois Irmãos e a troca de um da comunidade. O Irmão Antoine
recebeu mais alunos do que esperava, por isso pediu reforço ao Padre Champagnat.
A escola tinha três Irmãos: Antoine, Martin e Louis Stanislas. Este último era o cozinheiro.
Havia também uns poucos internos, uns 20 apenas. Com o aumento do número de matrículas, foi
preciso mais uma sala de aula, a ser regida por mais um Irmão.
J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 21 de dezembro de 1836.
Caríssimo Irmão Antoine,
De acordo com seus desejos, mando-lhe dois Irmãos: um para a cozinha e outro para
se encarregar da aula de um dos seus. Como você mesmo poderá ver, são duas ótimas pessoas.
Veja até que ponto fazemos questão de ver prosperar a escola de Millery!
O nosso caro Irmão Teodósio pode ser seu substituto no que diz respeito às aulas.
Aliás é um bom religioso. Quanto ao Irmão Didier, não tem vontade: o que você quiser será a
vontade dele.
Coloque na turma dos que vão aprender só a ler (petite classe) o Irmão Louis Stanislas
e me mande o Irmão Martin. Ele está sujeito ao chamado para o serviço militar neste ano;
precisamos tomar todas as medidas possíveis para poder isentá-lo. É preciso que parta para
Saint-Paul-Trois-Châteaux logo que puder; enquanto espera a solução para o caso dele, que vá
se preparando para apresentar-se ao exame.
Espero mandar-lhe como presente de Ano Novo a Santa Regra já impressa. Fiquei
contrariado, querido Irmão Antoine, por não ter podido estar em casa quando você veio. Fique
certo de que lhe tenho muito afeto.
Deixo-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, nossa Boa Mãe.
Champagnat
116
75 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, bispo de
Belley, Ain.
dezembro de 1836.
A carta é para anunciar-lhe a chegada dos Irmãos em Sain-Didier-sur-Chalaronne e dizer-
lhe em que pé se encontra o processo da autorização legal do Instituto.
Excelência,
Os Irmãos de Saint-Didier já partiram e se acham instalados faz uns oito dias. Foram
recebidos com muito entusiasmo. Já temos notícias de que estão com 260 alunos nas aulas e
que sem uma ajuda imediata, acham que será impossível manter um número tão elevado.
Para obter nossa autorização legal, redigimos os Estatutos anexos e os mandamos a
Paris, no dia 28 de fevereiro de 1834, com uma carta ao Rei. Nela relatamos a história da
fundação de nosso Instituto.
No mês de maio de 1835, escrevemos também à Rainha que nos respondeu que os
documentos por nós enviados estavam nas mãos do Ministro. A principal causa da demora,
penso eu, é que o Senhor Guizot, sendo protestante, não vê com bons olhos uma associação
inteiramente consagrada a Maria.
Eis a resposta que nos veio da parte dele:
"No tocante ao pedido da autorização de sua Casa, como Associação, não me pareceu
possível, no presente momento, aceitá-lo. Sei que o senhor me falou dos Estatutos dos Irmãos
de Saint-Paul-Trois-Châteaux, mas não me lembro de tê-los recebido. O que temos é a Regra
do Padre De Lamenais que nos foi mandada por um padre respeitável da diocese de Grenoble.
Os estatutos da associação estão no começo, apressamo-nos em lhos comunicar.”
Excia., continuo perseguindo o meu intento. Para me dar apoio veio uma petição do
comitê de distrito, acompanhada de várias cartas, dos Senhores Prefeitos dos municípios em
que trabalham nossos Irmãos.
No momento, nossos documentos se encontram nas mãos do senhor Delbèque,
secretário geral do Ministério. Quando de minha estada em Paris, tive ocasião de entrevistá-lo
em companhia de Dom Pompallier. Fez-nos mil mesuras. Prometeu-me fazer o possível para
conseguir bom êxito para nosso intento. Várias outras distintas pessoas também me
demonstraram benevolência. Assim espero que, já tendo sido aprovados nossos Estatutos pelo
Conselho Real a 7 de março de 1834, obtenhamos finalmente o tão almejado decreto.
Queira aceitar, Excia., o testemunho de meu profundo respeito, juntamente com os
sentimentos de total dedicação com que sempre serei, de V. Excia., o humilde e atento súdito,
117
76 – Aos senhores Padre ETIENNE COIGNET e
PIERRE PREYNAT, respectivamente Pároco e
prefeito de Sorbiers.
final de dezembro de 1836.
O Padre Champagnat responde ao Prefeito. Dá-lhe a conhecer o texto de outra carta, a do
Vice-Prefeito Departamental, e sublinha a injustiça que as autoridades do município estão
cometendo contra os Irmãos.
Os protestos do Fundador não tiveram ressonância no ânimo das autoridades, o que
ocasionou o fechamento da escola dos Irmãos, no final do ano letivo de 1837.
Senhor Pároco, Senhor Prefeito,
Em resposta à sua carta envio-lhe cópia fiel de outra que recebemos do senhor Vice-
Prefeito Departamental.
“Saint-Etienne, aos 17 de novembro de 1836. Senhor,
Tenho a honra de informá-lo que o Conselho Municipal de Sorbiers, ao qual foi
apresentada sua reclamação relativa à soma de 100 francos, do exercício de 1835, resolveu
indeferir o pedido, por deliberação do dia oito deste mês.
Queira aceitar meus protestos de distinta consideração.
O vice-prefeito
A. Delon".
Ao senhor Chomas, professor municipal de Sorbiers
O senhor Chomas, sendo professor antes da Lei de 1833, não perdeu esse título nem
seus direitos, visto que pela decisão de primeiro de outubro de 1833 e a Circular de 9 de
dezembro de 1833, os professores municipais em exercício concursados e autorizados antes da
promulgação da Lei de 28 de junho de 1833, não precisam de uma nova nomeação do comitê;
basta apenas que troquem a autorização que têm por outra emanada do comitê.
Queira aceitar...
118
77 – Ao doutor HYPPOLITE FREDET, médico de
Saint-Chamond.
1836
O doutor Fredet era um dos médicos dos Irmãos de l'Hermitage. Um belo dia, o Padre
Champagnat achou prudente ter o parecer de outro clínico, o doutor Louis Moquint, num caso
particularmente grave em que um Irmão tinha uma doença reputada incurável.
O doutor Fredet ficou sabendo da ocorrência e interpretou o gesto de Champagnat como
agravo feito à sua competência profissional. Aproveitou também para reclamar dos vencimentos que
vinha recebendo.
A resposta de Champagnat prima pela delicadeza e fino trato.
Senhor Doutor,
Pela carta de 25 de julho, o senhor me faz saber que as águas de Aix-les-Bains lhe
fizeram mais bem neste ano do que no ano passado. Bendigo e sempre bendirei o soberano
Senhor de todas as coisas por este benefício.
Acabo de receber uma carta que o senhor teve a gentileza de me trazer e fazer chegar
até mim. Permita-me que, mais uma vez, eu lhe escreva agradecendo por este favor.
Foi grande a surpresa que me causou ao anunciar-me que já não se considera nosso
médico, pois há outro médico, afirma o senhor, que está merecendo nossa confiança.
Digo-lhe com franqueza que não compreendo o que quer dizer. Será que o senhor me
censura por eu receber visitas de amizade do Doutor Moquint? Ou quer culpar-me pela falta
de confiança que demonstrou um de nossos doentes desenganados, numa operação que o
senhor sabia que era inútil? Doutor, estou até pensando que o senhor está feliz de ter achado
algum motivo para me fazer sentir que eu estava pagando muito pouco. Isso bem que sei e já
lhe disse; mas também acho que lhe tenho pago segundo o que combinamos.
Vou esperar sua nota. Aquele que me ajudou a pagar dívidas maiores, me ajudará a
pagar também a sua conta. Se, apesar de considerar deficiente minha retribuição pecuniária, o
senhor quiser continuar a nos atender, peço-lhe que nos deixe livres de escolher outro médico,
toda vez que o senhor não puder vir. Queira outrossim dizer-me quanto vai cobrar por visita,
uma vez que foi o senhor que quebrou nosso primeiro contrato, deixando de cumprir as
condições estipuladas. Creio ter-lhe pago as visitas posteriores à razão de cinco francos cada.
Decidi isto por minha conta, quando vi que não conseguia uma proposta sua.
Aconteça o que acontecer, digo e continuarei a dizer sempre que o senhor nos prestou
relevantes serviços, pelo que gostaria de demonstrar-lhe minha gratidão de uma maneira mais
bem soante do que por simples palavras.
Na espera de sua resposta, rogo-lhe aceite meus respeitos, assim como os sentimentos
de elevada estima com que tenho a honra de me subscrever,
Senhor Doutor, tenho a honra de ser seu dedicado servidor.
119
78 – Circular aos FUNDADORES DOS
ESTABELECIMENTOS.
1836 - 1837
É sinal de que se começa a organizar o arquivo do Instituto.
Prezado Senhor,
Desejaríamos ter um relato histórico da fundação do estabelecimento dos Irmãos em
sua paróquia, (município), do seu desenvolvimento e o nome dos benfeitores.
Ficaremos muito contentes em receber esses diversos informes que serão guardados
nos arquivos da casa principal e nos do respectivo estabelecimento. Tais informes servirão
para o exercício da gratidão das gerações futuras, herdeiras de seus frutos.
Seu...
120
CAPÍTULO IV: 1837
Foi um ano de grande expansão do Instituto. Proliferaram escolas dirigidas pelos
Irmãos nos Departamentos vizinhos de Lião, nos Departamentos do Sul, Var, Tarn e Héraut,
na Sabóia do Sudeste e Corrèze do Sudoeste.
Deste período temos 98 cartas de Champagnat, quase todas respostas a pedidos de
fundação de escolas. Foi em maio deste ano que o Padre Champagnat, como numa antevisão
profética do futuro, declarou ao bispo de Autun, Dom Bénigne Trousset D’Héricourt: “Todas
as dioceses do mundo entram em nossos planos!”.
Em princípios de janeiro de 1837, o Padre Champagnat teve a alegria de anunciar,
através de uma carta Circular, a expedição a todas as comunidades do exemplar da primeira
Regra impressa.
Em 15 de abril assumia o Ministério da Instrução Pública o senhor Antoine Nicolas
de Salvandy. Seguindo as sugestões de pessoas amigas, dentre as quais ocupava posição de
destaque o Padre François Mazelier, o Padre Champagnat retoma as negociações com o
novo Ministro, apresenta-lhe os Estatutos da Sociedade acompanhados da Estatística dos
estabelecimentos e de uma lista de pedidos de novas fundações. Juntando a esses dados um
breve histórico da fundação da Congregação, já com cento e trinta Irmãos ocupados em
educar milhares de filhos de camponeses, Champagnat solicita do Ministro a aprovação dos
Estatutos da Congregação. (Cf. Carta no 159, de 27 de novembro de 1837).
Um episódio que poderia ter acarretado grandes dissabores ao Padre Champagnat
foi o pedido que o Padre Vernet, da diocese de Vivers, dirigiu ao Vigário Geral de Lião,
Padre Cattet: Queria que Champagnat retirasse os Irmãos Maristas das escolas que dirigiam
na diocese de Vivers. Por que razão? “Nossos Irmãos estariam causando na diocese uma
impressão desagradável e vergonhosa para a religião. “, tal era a mensagem enigmática de
Vernet.
O Padre Champagnat, diz o Irmão Avit (Cf. Abrégé des Annales, p. 224-226) deu
provas nesta triste contingência, de muita humildade, firmeza e absoluta submissão à
autoridade diocesana. Escreveu ao bispo, dizendo simplesmente que retirava os Irmãos de
Peaugres e de Boulieu, mas que ficava de voltar quando o Prelado houvesse por bem
reclamá-los.
Resultado: Os Irmãos não precisaram sair da diocese; pelo contrário, fundaram lá
mais uma escola, a de La Voulte, depois que o mal-entendido foi desfeito.
121
79 – Circular aos Irmãos
1º de janeiro de 1837.
São os votos de Feliz Ano Novo que o Fundador dirige a seus Irmãozinhos. A cópia da
Circular que transcrevemos aqui é dirigida ao Irmão Barthélemy e à sua comunidade, em Saint-
Symphorien-D'Ozon. Daí a razão das notícias que vêm acrescentadas no rodapé.
Que alegria do bom Superior ao receber a primeira carta de um de seus Irmãos, destacado
para as Missões da Oceânia!
Primeiro de janeiro de 1837.
Caríssimos e bem-amados Irmãos, amemo-nos uns aos outros!
Não poderia, no começo deste ano, servir-me de linguagem mais conforme ao meu
gosto e a minhas afeições. Que eu interrogue meu coração, meus sentimentos, o sofrimento
que me causa o menor de seus infortúnios, seus aborrecimentos que são os meus, seus
contratempos, as causas de minhas preocupações, os vinte anos de desvelos, tudo isso me diz
que eu posso, com ousadia e sem temor, dirigir-lhes as palavras que o discípulo bem-amado
coloca no cabeçalho de todas as suas cartas: Meus bem-amados, amemo-nos uns aos outros,
pois a caridade vem de Deus.
Os desejos e votos que formulo no começo deste ano são muito diferentes dos que o
mundo procura expressar em palavras mentirosas: uns tantos bens, honras, prazeres que o
coração jamais vai desfrutar, é o que o mundo deseja.
Quanto a mim, caríssimos, bem-amados, cada vez que subo ao altar, peço ao divino
Mestre que se digne derramar sobre vocês suas graças, suas bênçãos abundantes, que os ajude
a fugir do pecado, único mal a temer, que aplaine o caminho das virtudes características dos
religiosos, sobretudo características dos filhos de Maria.
Finalmente, rogo à Mãe de todos nós que nos obtenha a graça de uma santa morte, a
fim de que, após nos termos amado na terra, nos amemos eternamente no céu!
Os nossos Padres e Irmãos que se destinavam à Polinésia embarcaram no dia 24
próximo passado. Que vasto campo de apostolado confiou ao nosso zelo o Soberano
Pontífice, Vigário de Cristo! Vamos acompanhar com nossos votos e com nossas preces
fervorosas esses missionários, aos quais foi de modo particular destinado aquele vasto campo
de ação.
Acho que vocês gostariam muito de tomar conhecimento de uma carta escrita do
Havre, na véspera da partida. Ei-la:
Como me sinto feliz, querido Pai, muito embora me julgue indigno, por ter sido
escolhido, dentre os Irmãos de Maria, para ser dos primeiros a partir para
levar a luz do Evangelho a povos selvagens! Oh! Bendito seja Deus! Foi Ele
que me deu a vocação e me ajuda a segui-la. Estou muito contente de viajar e
posso afirmar com toda sinceridade que não cederia meu lugar nem a troco de
um trono. Não tenho medo, pois Maria nossa Boa Mãe será o meu guia em
todas as minhas ações e meu refúgio nas dificuldades.
Gostaria, meu querido Pai, apresentar-lhe, de viva voz, meus votos de um feliz
Ano Novo, como também a todos os meus irmãos em Jesus e Maria, mas as
circunstâncias não me permitem satisfazer meus desejos. Desejo-lhe do fundo
122
do meu coração um bom e feliz ano novo, assim como aos meus queridos
Irmãos. Queira aceitar estes meus votos. É o que lhe pede
Irmão Marie Nizier”
(Ao Irmão Barthélemy)
Finalmente, demos o santo hábito a seu irmão, com os votos de que prossiga com mais
galhardia. Tivemos a intenção de animá-lo e não estamos descontentes com isso. Tudo vai
indo mais ou menos; de tempos em tempos, chega algum noviço. Peça a Deus que se formem
logo, pois a messe é extraordinariamente grande. Agora mesmo, estão pedindo que abramos
dois noviciados, um na diocese de Albi e o outro em Saint-Didier.
Adeus, caríssimos, bem-amados! Tenho a honra de ser seu dedicadíssimo pai em Jesus
e Maria.
Champagnat
Deixo-os nos Sagrados Corações de Jesus e Maria.
P.S. Não esqueçam nossa Missão.
Champagnat
123
80 – Ao Irmão LOUIS-MARIE, Diretor de La-Côte-
Saint-André, Isère.
2 de janeiro de 1837
Diz o Irmão Avit (Cf. Abrégé des Annales, p. 262) que o Padre Douillet não parava de se
intrometer na administração da escola de La Côte. Queria ele que a "irmã" Marthe Cuzin morasse na
mesma casa dos Irmãos, ficando a serviço dele e que um empregado se encarregasse da cozinha. O
Padre Champagnat não aprovava essas medidas, embora tivesse grande admiração pelo Padre
Douillet, que tinha na conta de sacerdote muito zeloso.
Como sabia que o Padre Champagnat era muito firme em exigir o cumprimento das
condições em que tinha sido fundada a escola e temendo, por outro lado, que toda sua bela obra
fosse a pique se os Irmãos se retirassem, quis amarrar com a congregação um contrato de
arrendamento, válido por 9 anos,. As condições que impunha nesse contrato eram por demais
onerosas para os Irmãos.
Só mais tarde e com a redução de várias cláusulas a condições aceitáveis é que o contrato
foi assinado, em 5 de novembro de 1838.
Conclui o Irmão Avit: "Depois disto, o Padre Douillet teve que se resignar às suas
atribuições de capelão, deixar aos Irmãos o benefício de seus suores e tentar acalmar do melhor
modo possível a inconsolável "soeur” Marthe.”
Caríssimo Irmão,
Continuamos esperando o noviço em questão (Cf. carta no 70). É importante que ele
nos prove, por sua obediência pronta, que está sendo chamado. Uma delonga maior faria com
que fosse recusado definitivamente.
Permito-lhe que assine o contrato de arrendamento que está sendo proposto pelo Padre
Douillet, com a condição de ele firmar uma contra-declaração. Diga ao Padre Douillet que eu
peço para nossos irmãos a liberdade de seguir nossas Regras e nossos modos de viver, como
fazemos em outros estabelecimentos. Não podemos permitir outra maneira de agir, sem
prejudicar demais nosso estabelecimento.
Nossos missionários embarcaram no dia 23 de dezembro. Recebi carta muito bonita
do Irmão Marie Nizier. Mais tarde vou dar-lhe a conhecer o conteúdo da mesma.
Transmita ao Padre Douillet meus votos muito sinceros de feliz Ano Novo. Terei
muito prazer em recebê-lo em nossa casa.
A você, meu caro Irmão e quantos estão com você, posso dizer-lhes, e meu coração
não desmente o que digo: carissimi, diligamus invicem. Caríssimos, amemo-nos uns aos
outros. É o que São João, o discípulo amado, repetia em todas as suas cartas. Eu também
posso dizer isso a vocês no começo deste ano. Trago-os todos bem aconchegados ao meu
coração.
Diga ao caro Irmão Raphaël que recebi a última carta que me escreveu, que Jesus e
Maria o ajudem a superar as dificuldades que encontra no trabalho.
Que Jesus e Maria estejam com vocês!
Tenho a honra de ser o dedicado e afeiçoado pai em Jesus e Maria,
Champagnat
S. I. M.
124
81 – Ao senhor ÉTIENNE-FRANÇOIS GÉNISSIEUX,
Terrenoire, Loire.
4 de janeiro de 1837.
A escola de Terrenoire foi fundada em 1832. Mantida pela "Compagnie des Fonderies et des
Forges de La Loire et de l'Isère".
Em vez de dar aos Irmãos o numerário de que necessitavam para a aquisição do mobiliário e
roupas, o Diretor da Companhia, Senhor Génissieux preferiu supri-los em espécie.
A Companhia tinha instalado mais uma Fábrica em La Voulte. As relações entre esses
empresários e a escola devem ter sido muito cordiais, pois os Irmãos abriram mais uma escola em La
Voulte, em fins de novembro daquele mesmo ano, embora na carta o Padre Champagnat tivesse dado
a entender que não seria para breve mais esta fundação.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 4 de janeiro de 1837.
Senhor Génissieux,
Os Irmãos de sua escola me pedem camisas, dizendo que são muito poucas. Parece
que as antigas camisas eram de algodão puro e que agüentaram pouco tempo em uso. O
senhor poderia mandar fazer outras para eles?
Nunca vi a conta daquilo que o Senhor forneceu para a mobília, embora lha tenha
pedido várias vezes. Agora que tem um Irmão a mais, é necessário que a mobília aumente em
proporção do número de Irmãos.
Pensamos em seu estabelecimento de La Voulte, mas não é tão logo que poderemos
realizar este projeto.
Queira aceitar meus votos de feliz ano novo. Creia-me seu humilde mui dedicado
servidor,
Champagnat
Sup. d. I.
125
82 – Ao Padre JEAN-FRANÇOIS CHOSSAT, Superior
do Seminário Maior de Albi, Tarn.
6 de janeiro de 1837.
Este Padre deve ter conhecido o Padre Champagnat e seu trabalho quando esteve em
Valfleury. Passando a pertencer à diocese de Albi, lá no sudoeste da França, deu-se conta de que a
instrução religiosa dos jovens estava muito deficiente.
De acordo com seu bispo, Dom François Gualy, teve a idéia de fundar um noviciado para a
formação de religiosos catequistas e, animado com este propósito, escreveu ao Padre Champagnat.
Infelizmente o Departamento do Tarn não foi contemplado nem com uma escola, menos
ainda com um noviciado para a formação de Irmãos. Só bem mais tarde é que dois candidatos
originários do Tarn se fizeram maristas. (Pode-se ver o Vol. I das Circulares p. 141 e 142, onde estão
estampados os prospectos que foram remetidos ao Padre Chossat)
Senhor Padre,
Seria um prazer para nós podermos abrir um estabelecimento na diocese de Albi,
quero dizer um noviciado, se as condições exaradas no prospecto convierem a S. Excia. o
Senhor Arcebispo. Creio que o prospecto responderá a todas as suas indagações. Faço votos
que tenha boa acolhida da parte do senhor Arcebispo.
Permita-me, senhor Padre Superior, que ao mesmo tempo que formulo em seu favor
os meus votos de Feliz Ano Novo, lhe diga quanto me surpreendeu uma proposta vinda de tão
longe!
Por se ter lembrado de nós, queira receber meus agradecimentos e creia-me seu
humilde e mui dedicado servidor,
Champagnat
126
83 – Ao Padre JEAN-ANTOINE DUBOIS, Superior do
Seminário das Missões Estrangeiras, Paris.
12 de janeiro de 1837.
Champagnat vai à procura de todos os amigos que podem ajudá-lo a conseguir informações
sobre o processo que tramita indefinidamente nas gavetas do Ministério da Instrução ou nas de seus
assessores.
Agora é lá com o senhor Delebecque que devem estar parados os papéis.
E Champagnat continua preocupado, pois o número de candidatos vai aumentando de dia
para dia. Como fazer para isentá-los do serviço militar sem a autorização legal da congregação?
Jesus, Maria, José!
Senhor Padre e mui respeitável Superior,
Venho hoje agradecer-lhe pela grande bondade com que me acolheu quando estive em
Paris, em companhia de Dom Pompallier.
Sua grande bondade me anima a fazer-lhe o pedido de mais um favor: Durante minha
permanência em Paris, na sua casa tão aprazível, acompanhado de Dom Pompallier, fiz uma
visita ao senhor Delbèque, chefe de seção do Ministério da Instrução Pública (4/9/1836).
Entreguei a ele alguns documentos referentes à autorização dos meus Irmãos. O senhor
Delbèque me prometeu ativar o processo da autorização que desejo, a fim de fazer sancionar
os Estatutos dos Irmãos. Ditos Estatutos já foram aprovados pelo Real Conselho da Instrução
Pública e transcritos no Manual Geral da Instrução Primária, sob o número 6, do mês de abril
de 1834. Podem ser encontrados com os senhores Hachette e Didot.
Ser-lhe-ia possível, senhor Padre Superior, fazer uma visita ao senhor Delbèque, para
perguntar-lhe em que pé está este assunto? Como está demorando para eu ter alguma notícia a
respeito! Como é importante para nós conseguir o Decreto, sem o quê o serviço militar nos vai
privar do trabalho de um bom número de Irmãos que não se acham suficientemente
preparados para conseguir o Certificado (Brevet) de estudos. Queira, por favor, senhor
Superior, tomar nota daquilo que lhe vai dizer o senhor Delbèque e me comunicar o que
apurar.
Se faltar algum documento no processo, poderei mandá-lo.
Se julgar oportuno fornecer-me as condições de admissão a seu Seminário para os
candidatos que se destinam às Missões Estrangeiras, gostaria de tê-las. Nas minhas andanças,
pode ser que encontre vocações para essa obra magnífica.
Contamos atualmente com 171 Irmãos em nossa Sociedade, mais uns vinte noviços.
Temos 34 estabelecimentos espalhados pelas dioceses de Lião, Belley, Grenoble, Viviers e
Autun. Neste ano, abrimos seis novas escolas. O senhor Arcebispo de Albi solicita a abertura
de um noviciado em sua diocese e o senhor bispo de Belley também quer um para a diocese
dele. Desejamos ansiosamente legalizar tudo perante o governo antes que nossa obra se
amplie mais.
127
84 – Ao Padre PIERRE-MAURICE FROGET, Pároco
de Saint-Etienne, Loire.
18 de janeiro de 1837.
Padre Froget deve ter pedido ao Padre Champagnat notícias de um jovem de Saint-Maurice
en Gourgeois. Champagnat dá bons informes sobre o menino que, segundo nos parece, diz o Irmão
Paul Sester, deve ser um dos órfãos que o Padre Champagnat tinha acolhido em l'Hermitage. Não se
encontra nos livros de matrícula dos noviços nenhuma moço com esse nome.
Reverendo e respeitável Pároco,
O jovem de Saint-Maurice en Gourgeois, que recebemos em nossa casa, e de quem o
Sr. me fala em sua honrada carta, chama-se Claude Le Sage. Em todo o tempo que passou
conosco, estivemos contentes com ele; só temos a dar bons informes, tanto sob o ponto de
vista da religião, como da moralidade. Surpreendeu-nos sua saída de nossa casa e nós a
atribuímos a algum mau conselho que o jovem tenha recebido.
A partir daquele tempo, não podemos dar-lhe nenhuma informação mais a respeito
dele, pois não sabemos onde anda nem o que estará fazendo. Se eu encontrar pessoas que lhe
possam ser úteis a esse respeito, terei muito prazer em lhas indicar, conforme seus desejos.
Champagnat
128
85 – Ao senhor ANTOINE THIOLLIÈRE, dono de uma
fundição em Saint-Chamond.
18 de janeiro de 1837.
Thiollière foi grande benfeitor da Congregação. Um dia, certo de que o amigo o atenderia,
escreveu a Champagnat para pedir-lhe que mandasse o Irmão Estanislau com quem desejava
conversar.
O Irmão foi munido da DECLARAÇÃO abaixo transcrita. É, podemos afirmar, a primeira
afiliação de um leigo ao Instituto Marista, uma união de todos os Irmãos através de orações e boas
obras deles e do senhor Thiollière. Por esta iniciativa do Padre Champagnat, vemos como ele tinha
em grande apreço o trabalho apostólico dos leigos. Aquele que ajuda o apóstolo terá a recompensa
de apóstolo.
Prezado Senhor,
De acordo com o seu amável e caridoso convite, mando-lhe um Irmão que se faz
portador da seguinte declaração:
Associamo-nos, de acordo com o seu desejo, ao senhor e à sua família, de um
modo especial e particular, para formarmos uma comunhão do bem e das boas
obras que se estão fazendo, e serão feitas daqui para frente!
Perdoe-me a liberdade que estou tomando e creia-me, com todo respeito, seu
humilde emui obediente...
Seu humilde e mui obediente servidor,
Champagnat
129
86 – Ao Irmão LOUIS-MARIE, diretor de La Côte-
Saint-André, Isère.
21 de janeiro de 1837.
O Irmão Louis-Marie desabafa com seu Superior: "La Marthe nous vexe toujours." A tal
"irmã" Marta continua a nos importunar, e acrescenta: Mas, isto não é o maior obstáculo, se aquilo
que sobra for imputado à conta do Padre Douillet." O coração do pobre diretor transbordou de
amargura. Depois reconheceu que tinha exagerado até, mas é que a situação não estava nada
tranqüila, apesar de todos os esforços de Champagnat para fazer com que os Irmãos vivessem mais
independentes e sossegados. A resposta de Champagnat vai repassada de prudência e discrição. Os
2.400 francos a que alude no final da carta referem-se às economias dos Irmãos que o Padre Douillet
guardava ciosamente, para eventuais consertos de que sua casa necessitasse.
Meu caríssimo Irmão Louis-Marie,
Compartilho de modo especial todos os contratempos que você suporta em La Côte.
Não se perturbe pelo que nos possa acontecer. Procure cumprir suas obrigações do melhor
modo que puder, para com o Padre Douillet, para com os alunos que lhe são confiados,
sobretudo para com os Irmãos que vivem com você. Quando o despedirem, você virá para cá;
encontraremos trabalho e comida para você, com a ajuda de Deus. Até lá, faça todo o bem que
estiver ao seu alcance. Proceda com muita prudência; à medida que descobrir alguma
novidade, trate de me informar.
Mande-nos os noviços que julga serem aptos para a nossa obra, nós os receberemos.
Temos recebido bom número deles de um tempo para cá. S. Excia. o senhor Arcebispo de
Albi pede que abramos um noviciado naquela diocese, e o bispo de Belley, outro.
Não vamos provocar nossa saída do Dauphiné, mas nos submeteremos resignadamente
ao que for determinado, adorando os desígnios da divina Providência a nosso respeito. Não
façamos nada por merecer a expulsão, e saibamos nos submeter, se isto acontecer.
Não viajarei para La Côte, a menos que você torne a escrever, reclamando a minha
presença. Não vejo saída para este caso. Talvez lhe mande o Irmão Jean-Baptiste na qualidade
de visitador.
Deixo à sua discrição aquilo que os acontecimentos o levarem a dizer ao Padre
Douillet. Se você sair de La Côte, ganharemos dois mil e quatrocentos francos. Se ganhar
dinheiro fosse nosso objetivo, mandaria que você saísse quanto antes.
Adeus, meu caro Irmão, deixo-o nos sagrados Corações de Jesus e de Maria.
P.S. Na primeira ocasião lhe mandaremos a Regra, que está muito bem impressa.
130
87 – Ao Padre JEAN-PIERRE COMBE, Pároco de
Ganges.
23 de janeiro de 1837.
O pároco de Ganges, a 40 km de Montpellier, pediu ao Padre Champagnat que lhe mandasse
os prospectos de sua obra educacional. Já o pároco que o antecedera, Padre Michel Rieusset,
falecido com fama de santo em 1831, queria possibilitar a instrução religiosa aos meninos e meninas
de sua paróquia.
O Padre Combe vinha portanto tentar cumprir uma das metas mais importantes da paróquia
de Ganges (Departamento de Héraut).
Reverendo e mui respeitável Pároco,
Em resposta à sua honrosa missiva, estamos mandando nosso prospecto. Se o senhor
achar que essas condições lhe convêm, estaremos por nossa parte bem dispostos a auxiliá-lo
no seu zelo pela glória de Deus e a educação da juventude de sua cidade.
Sensibilizados pela confiança que o senhor deposita em nós, rogo-lhe aceitar os
sentimentos de respeito com que tenho a honra de ser seu dedicado sevido,
p/ M. Champagnat, nosso superior
Ir. François
131
88 – Ao senhor JOSEPH-MICHEL ROBICHON, Rive-
de-Gier.
Janeiro de 1837.
O senhor Robichon, dono de uma fábrica de vidro, era grande benfeitor do Padre
Champagnat.
Senhor,
A caridade que o senhor pratica para conosco, mandando-nos de presente uma caixa
de copos, conforme a informação que nos deu o Padre Terraillon, seu digno pároco, bem
merece que lhe agradeçamos tanto por escrito, como de viva voz.
Rogamos ao Senhor que se digne derramar as maiores bênçãos sobre sua família e seu
comércio.
Ainda não chegou até nós a dita caixa; queira pois indicar-nos qual foi o modo de
expedição e a que endereço o senhor a mandou.
Tenho a honra ser, com respeito, seu dedicado servidor
Champagnat,
Sup. dos Irs. M.
132
89 – Circular aos Irmãos
janeiro de 1837.
A Circular acompanhava o envio da Regra, recentemente impressa. No primeiro volume das
Circulares dos Superiores Gerais, esta traz a data de 21 de janeiro que é a data em que foi redigida.
Terá sido policopiada e mandada só depois de alguns dias. O sistema de policópia, na época, era a
litografia, impressão sobre pedra, técnica que o Irmão Marie Jubin foi aprender em Paris. A citação
latina é do Lv 18,5: “Quem os cumprir, neles terá a vida.”
Meus caríssimos Irmãos,
Recebam, nos nomes dulcíssimos de Jesus e Maria, a Regra que estão desejando faz
tanto tempo. Não pretendo obrigá-los a cumpri-la, artigo por artigo, sob pena de pecado.
Contudo, vou dizer-lhes que só desfrutarão de paz e satisfação na sua condição de religiosos
na medida em que vocês observarem com exatidão toda a Regra. A fidelidade ao regulamento
grangear-lhes-á a perseverança e lhes garantirá a coroa eterna.
Quae faciens homo vivet in eis.
Deixo-os nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria
Champagnat
133
90 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, bispo de
Belley, Ain.
Meados de fevereiro de 1837.
Por esta carta, o Padre Champagnat agradece ao prelado seu empenho em promover a
causa da autorização legal dos Irmãos.
Os Padres De La Croix e Dépery são Vigários Gerais da diocese de Belley. Eles tiveram
grande dificuldade em localizar os papéis do processo. Um dos funcionários do Ministério teria dito
a eles que, em se tratando de uma Congregação nova, era preciso conseguir primeiro uma Lei das
duas Câmaras, notícia que o Padre Champagnat estranhou muito. Nunca ouvira falar disto.
Dom Alexandre Devie, muito amigo dos Maristas, anuncia que deseja fazer à obra de
Champagnat a doação da escola de Saint-Didier, avaliada em 40 mil francos aproximadamente.
Excia. Revma.,
Recebemos sua honrosa missiva com a letra de câmbio. Vimos agradecer-lhe pela
carta com que V. Excia. teve a gentileza de nos honrar. Sua benevolência e generosa
liberalidade para com a Sociedade de Maria, de que V. Excia. nos dá provas tão patentes,
jamais se apagarão de nossa lembrança.
Somos muito gratos a tudo quanto o Padre De La Croix e o Padre Dépery fizeram por
nós em Paris.
Continuamos imaginando que nossos documentos estão nas mãos do senhor Delbèque,
secretário geral do Ministério da Instrução Pública. Nunca nos disseram que fosse preciso
conseguir uma nova lei para a nossa autorização. Na época em que foi destronado Carlos X,
tudo estava pronto e os trâmites cumpridos, só faltando que o Rei assinasse o Decreto, mas os
acontecimentos foram empecilho.
Entre os papéis que mandamos, nenhum há que fale de doação feita a nossa casa, nem
nos foi falado disso. Não ficamos sabendo nada de realmente positivo a respeito do nosso
caso, desde que voltei de Paris. Após toda essa demora, nada sabemos do resultado.Lemos
com o maior interesse o que V. Excia. teve a bondade de nos escrever sobre esse processo.
Excia, queira aceitar o preito de nossa total dedicação e a firme disposição em que nos
encontramos de nada omitir, a fim de corresponder ao zelo realmente apostólico de V. Excia
pela glória de Deus e o bem da religião. Dar-nos-emos por muito felizes se V. Excia. se dignar
continuar nos assistindo.
Queira aceitar, Excia, o agradecimento dos humildes e obedientes servidores.
134
91 – Ao Padre ANTOINE CASIMIR MAUNIER, Pároco
de Callas, Var.
10 de fevereiro de 1837.
Na falta de candidatos para atender a tantos pedidos de fundação, Champagnat avisa que
não poderá conceder ao Padre Casimir os Irmãos que está pedindo. Só mais tarde, e se ele tiver
pressa que se dirija a outra Congregação.
Como se deduz dos dizeres da carta, não é a primeira vez que Champagnat lhe escreve.
É de se admirar como se espalhou rapidamente a fama desses Irmãozinhos preparados pelo
humilde coadjutor de La Valla. O pedido a que se refere a carta vem do extremo sul da França, do
Departamento do Var, onde se acha o porto de Toulon, no Mediterrâneo.
Senhor Pároco,
Satisfazem-nos plenamente as informações que o senhor nos mandou. Não nos
esquecemos de seu pedido. Por várias vezes estivemos tratando do quando e do como mandar-
lhe Irmãos. Sua última carta vem mais uma vez despertar nossa atenção sobre este assunto
importante. Apressamo-nos em lhe fazer chegar uma resposta que há muito tempo lhe estamos
devendo.
Depois de tudo ponderado, julgamos que não nos será possível dentro de três ou
quatro anos mandar Irmãos para sua paróquia: a falta de gente preparada e o distanciamento
desses lugares nos estão pedindo este prazo. Mas, se o senhor achar que mesmo assim é
vantagem esperar todo este tempo, faremos o possível para satisfazer suas expectativas.
Se o senhor julgar que será melhor procurar outras fontes, de modo a ficar servido
mais depressa, não deixaremos de nos alegrar, ao constatarmos que Deus é glorificado e que o
Reino de Jesus Cristo se implanta nos corações, seja qual for o meio empregado para tanto. O
campo de Deus é tão vasto e a messe tão abundante que experimentamos renovada satisfação,
ao sabermos que prosperam as instituições consagradas à formação de bons operários para a
messe do Pai de Família.
Receba nossos sentimentos de profundo respeito.
135
92 – Ao senhor CLAUDE TERRION, prefeito de
Semur-en-Brionnais, Saône-et-Loire.
12 de fevereiro de 1837.
Esta carta é para dar a conhecer ao prefeito a situação do Irmão De La Croix, no que diz
respeito ao serviço militar.
Muito solicitado por prefeitos e párocos, pedindo a abertura de novas escolas, o Padre
Champagnat se vê quase obrigado a mandar Irmãos insuficientemente preparados. É o caso do
Irmão De La Croix que foi mandado para Semur. Ele tinha revestido o hábito fazia apenas nove
meses. Estava com seus 25 anos, é verdade, mas o seu serviço militar não estava ainda regularizado:
a formação religiosa dele também deixava bastante a desejar. Não tardou a sair da congregação.
Senhor Prefeito,
Nosso caríssimo Irmão De La Croix, diretor da escola de Semur, me solicitou por
escrito um Atestado de Bons Antecedentes, a fim de completar as formalidades requeridas
para ele obter a autorização de funcionar como professor municipal.
Antes de lhe mandar o atestado, julgamos oportuno comunicar ao senhor nossas
ponderações e temores a respeito do requerente.
Nossa intenção, ao mandar esse Irmão para Semur não era que ele tirasse logo a
autorização. A este respeito tínhamos muito bem combinado com o senhor Padre Béraud,
coadjutor da paróquia. Estamos com receio que o trabalho que o senhor se dá e mais todos os
trâmites necessários para proporcionar-lhe essa autorização, resultem em nada ou antes em
prejuízo, pois o Irmão De La Croix, munido apenas de uma licença de curta duração, corre o
risco de ser chamado para o serviço militar. O receio está bem fundado, pois o comandante,
segundo nos informaram, já andou perguntando aos pais onde é que ele se achava. Limitou-se
a isso, sei de fonte segura, mas parece-me que seria bom esperar algum tempo antes de lhe dar
a autorização.
Aconteça o que acontecer, senhor Prefeito, esteja certo de que não pouparemos
esforços para que sua escola prospere, tendo nós que acudir com pessoal docente em
proporção ao desenvolvimento da mesma. Neste ano, fomos por demais pressionados; não
estava em nossos planos fazer funcionar o seu estabelecimento, mas o seu Padre Coadjutor
não nos deu sossego. Entrou em entendimentos com várias personalidades importantes de sua
cidade, insistiu tanto quando aí estive, estando o senhor ausente, que me vi obrigado a
prometer Irmãos, sem mais. No ano próximo, penso que estaremos mais folgados.
Queira aceitar os protestos de elevada consideração com que tenho a honra de ser...
136
93 - A Dom PHILIBERT DE BRUILLARD, bispo de
Grenoble, Isère.
15 de fevereiro de 1837.
O padre Champagnat anuncia ao bispo a retirada dos Irmãos da escola de La Côte. Motivo:
O Padre Douillet que morava no seminário passava a residir na casa da escola que ele mesmo
cedera para ser a residência dos Irmãos. Consigo levou para lá a ” irmã” Marthe Cuzin para ficar a
serviço dele.
No final da carta, o Padre Champagnat aproveita a ocasião para informar ao Prelado que os
Irmãos prosseguem animados nos demais estabelecimentos da diocese. São eles: O de Saint-
Symphorien-D'Ozon, de Viriville, de Vienne e de Genas. Pouco depois os Irmãos se retiraram de
Vienne (Viena da França), por causa da concorrência dos Irmãos das Escolas Cristãs.
Excia. Revma.,
Na visita rápida que tive a honra de fazer V. Excia., consegui falar muito pouco
daquilo que tinha a dizer sobre os estabelecimentos que temos em sua diocese. De La Côte,
então, nada pude relatar-lhe.
Não podemos deixar aquele estabelecimento na situação em que se encontra desde que
o Padre Douillet veio morar junto com nossos Irmãos. Ele não pode dispensar os serviços de
uma moça que, pelo fato de ele morar com os Irmãos, está em contato com estes também;
tornou-se até a ecônoma da casa.
Se não quisermos passar por cima de nossa Regra, estaremos obrigados a tirar nossos
Irmãos de La Côte. Acabo de prevenir o Padre Douillet a respeito desta medida.
Excia., eu não quis abrir este estabelecimento sem V. Excia. estar a par, pensei
também que para fechá-lo era bom prevenir V. Excia.
Quanto aos demais estabelecimentos que temos em sua diocese, se V. Excia. houver
por bem continuar a dispensar-nos sua benevolência, estamos dispostos, por nossa parte, a
continuar sustentando-os, como também a abrir outros assim que as circunstâncias no-lo
permitirem.
Todas as dioceses do mundo entram em nossos planos. Quando os respectivos
senhores bispos quiserem chamar-nos, acorreremos pressurosos em seu auxílio, sempre nos
consideraremos como seus súditos muito humildes e obedientes.
137
94 – Ao Padre ANTOINE BERTHIER, Pároco de La-
Côte-Saint-André, Isère.
15 de fevereiro de 1837.
O Padre Berthier tornou-se Vigário Geral da diocese, e talvez já não fosse mais o pároco
quando foi escrita esta carta. Em todo caso, como tinha tomado parte ativa na instalação dos Irmãos
em La Côte, o Padre Champagnat por deferência o faz sabedor da saída dos Irmãos. (cf. Carta no
99).
Senho Padre e digníssimo Pastor,
Lembrando-me de quanto o senhor participou na fundação de nosso estabelecimento
de la Côte-Saint-André, julgo conveniente pô-lo a par de uma decisão que o Padre Douillet
nos obrigou a tomar.
O senhor sabe, sem dúvida, que o Padre Douillet, desde que saiu do seminário ocupou
a casa junto com os nossos Irmãos. Precisando ele de uma empregada, constituiu-a
administradora da casa, o que é frontalmente contra nossa regra e costume.
Não quis o Padre Douillet atender às justas ponderações que o Irmão Diretor, e eu
pessoalmente lhe fizemos. E mais: tenho em mãos uma carta do Padre Douillet, na qual nos dá
a conhecer suas intenções a nosso respeito e ao mesmo tempo, me prova que ele está pegando
nossos candidatos.
Não podemos deixar por mais tempo nossos Irmãos naquela situação. Como não vejo
outro meio de remediar ao caso, tomei a resolução de retirá-los. Acabo de anunciar esta
medida ao Senhor bispo de Grenoble e ao próprio Padre Douillet.
Pretendo ir a La Côte no início da semana próxima.
Esteja certo da profunda estima e elevado apreço com que, Sr. Padre e digno Pastor,
tenho a honra de ser o humilde e respeitoso servidor...
138
95 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Châteaux, Drôme.
23 de fevereiro de 1837.
Há duas cartas parecidas a Mazelier. Antes que a primeira fosse posta no correio, o Padre
Champagnat recebeu do seu amigo a boa notícia que poderia encaminhar para Saint-Paul-Trois-
Châteaux os Irmãos que precisasse mandar, fossem quais fossem e quantos tivesse naquelas
condições críticas. Por isso, na última, o Padre Champagnat se mostra mais familiar e falador.
A
Padre Superior,
Recebemos sua carta e imediatamente demos ordem ao Irmão Cyprien que fosse
entregar-lhe o dinheiro necessário para saldar a conta que o senhor nos mandou.
Agradecemos-lhe a bondade e boa vontade que tem demonstrado para com nossa
Sociedade. Que Deus lhe retribua ao cêntuplo tudo o que faz a nosso favor, e que nossa Boa
Mãe, a Virgem Maria, veja quantos serviços o senhor nos prestou!
Temos de novo, neste ano, alguns membros que nos preocupam por causa da
convocação para o serviço militar. Nossas negociações em Paris ainda não terminaram.
Esperamos que cheguem a bom termo e que, enfim obtenhamos o Decreto.
O senhor bispo de Belley recomendou aos Padres De La Croix e Dépéry que não se
esquecessem de nós em Paris. Várias personalidades nos prometeram proteção e se deram
muito trabalho por causa de nós. Mas, enquanto persistir a situação atual, voltaremos nossos
olhares para a sua instituição caridosa, para nos safar do embaraço ocasionado por uma
exigência que, todo ano, soa a nossos ouvidos com novos alarmas.
Continue, Padre Superior, com esta bondade em nos prestar tão importante serviço.
Ficaremos a dever-lhe mil obrigados.
Dos Irmãos que gozam da vantagem de ficar na sua instituição, se algum puder, de
qualquer forma que seja, ser-lhe útil no exercício da sua profissão, é de nosso gosto que o
sejam. De bom coração igualmente acederemos a que fiquem na sua Instituição, se assim o
desejarem, para, em companhia de seus bons Irmãos, trabalharem para a glória de Deus.
Queira, Padre superior, dar-nos a honra de uma resposta, fruto de sua caridade
conosco, e aceitar a homenagem de profundo respeito e total didicação com os quais,senhor
Superior, tenho a honra de ser...
B
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 23 de fevereiro de 1837.
Padre Superior,
Eu estava com a idéia de lhe fazer uma visita e efetuar o pagamento, quando recebi
suas duas cartas. Ao Brun eu paguei. Quanto aos quatrocentos e quarenta e cinco francos não
os dei, tinha perdido o endereço do Padre Burdet. Mas, como esta quantia lhe está fazendo
139
falta em Saint-Paul-Trois-Châteaux, o Irmão Cyprien que está indo de volta para continuar
seus estudos de preparação ao certificado (brevet), levar-lhe-á esta quantia.
Com a saúde restabelecida, terminou os arranjos de família, assim não necessitará
deixar Saint-Paul antes de conseguir o documento que pretende.
O Irmão Justin continua abatido e o Irmão Apolinaire está à sua disposição; vou
mandá-lo no decorrer do verão. Ainda nos restam neste ano uns seis Irmãos ou noviços
sujeitos ao serviço militar. Pensamos recorrer uma vez mais ao senhor. Maria, nossa Boa Mãe,
não deixará sem recompensa o serviço que o senhor presta a seus filhos. Nossa questão em
Paris acaba de receber um impulso valioso, através da intervenção do senhor bispo de Belley;
é o que ele mesmo acaba de me notificar. O digno Prelado, muito achegado ao senhor,
defende com ardor nossos interesses.
Vamos recomendar outra vez insistentemente à Santíssima Virgem a causa que temos
em Paris. Tenha a bondade de se unir, o senhor junto com seus Irmãos, a nossas orações nesta
intenção.
Dos Irmãos que gozam da vantagem de ficar em sua Instituição se algum puder lhe ser
útil no desempenho de alguma função, não discordaríamos.
Estamos para mandar-lhe um sapateiro, é ótimo rapaz, poderá ser-lhe útil. O senhor
até nos envergonha, Padre Superior, dizendo que não quereria nos pedir nada. O benefício que
nos presta é por demais relevante, para que aceitemos outros em acréscimo. Cabe a nós
testemunhar-lhe nosso apreço e não apenas com palavras.
O Padre Colin, nosso Superior Geral, está com muita vontade de conhecer o Senhor
Foi o bispo de Belley que lhe falou do senhor. Na próxima entrevista que eu tiver com ele,
vou propor-lhe que façamos ao senhor uma visita os dois juntos.
Nossos Padres Missionários e nossos Irmãos que partiram para a Polinésia tiveram a
sorte de escapar de uma furiosa tempestade que afundou todos os navios mercantes que
tinham saído 12 horas após. Que bênção da Providência!
Com profundo agradecimento, tenho a honra de me ser, Padre Superior, seu mui
respeitoso servidor,
Champagnat
140
96 - Ao Padre JEAN-PIERRE COMBE, Pároco de
Ganges.
26 de fevereiro de 1837.
Apenas tinha mandado os prospectos que lhe pedira o Padre Combe, (Cf. Carta de no 87), já
o Padre se fazia presente com o pedido de dois Irmãos para Ganges. É longe. mandar só dois
Irmãos?...
Combe não desiste. Poucos meses depois manda um emissário, o paroquiano Bruguière, com
novo pedido.
Bruguière não pôde ir até l'Hermitage e colocou a carta no correio de Lião.
A resposta que vai abaixo foi assinada pelo Irmão Francisco. Os Irmãos não foram logo
para Ganges, só bem mais tarde em 1852.
Julgamos impossível dar-lhe Irmãos, de imediato. E também não seria prudente enviar
somente dois para um estabelecimento tão afastado. Não seria fácil, num caso desses,
proporcionar corretivo a certos abusos nem acudir às necessidades que podem sobrevir, tais
como doença, incompatibilidade etc. Nós procuramos evitar esses inconvenientes,
conquistando espaços pouco a pouco, gradualmente. O senhor precisaria ter aí pelo menos três
Irmãos, a fim de que um pudesse substituir o outro, em caso de necessidade e para que o
socorro não se fizesse esperar.
Quanto a providenciar orçamento para a mobília, bastará que seja fornecida assim que
pudermos mandar-lhe Irmãos. Ser-lhe-ão dadas então todas as informações necessárias, a
menos que o senhor já as tenha obtido de outra fonte.
Não há objeção quanto à exigência de que os alunos sejam admitidos em aula, só
mediante a apresentação de um cartão assinado. O edifício que se destina à escola, segundo o
que o senhor descreve, me parece convir; não será demorado fazer os reparos. Mais tarde lhe
diremos como pensamos que deve ser repartido.
Aceite a expressão de respeitosos sentimentos com os quais...
141
97 – Ao Padre CLAUDE MARIE PAGE, Pároco de
Digoin, Saône-et-Loire.
1º de março de 1837.
Em fevereiro o pároco de Digoin escreveu que o Conselho Municipal decidira chamar
os Irmãos para dirigir uma escola. O edifício da mesma seria da competência da
administração civil do Município. Por isso, ele solicitou ao Padre Champagnat que mandasse
instruções de como queria as instalações.
Só em 1841 é que os Irmãos puderam dirigir-se para Digoin.
Senhor Pároco de Digoin,
Juntamente com V. Revma. nós nos alegramos pela decisão do Conselho Municipal e
pelos sacrifícios que está disposto a fazer em prol da educação da juventude de sua cidade.
Que tudo sirva para a maior glória de Deus e o fortalecimento de nossa santa religião.
Quanto à construção, nossa idéia seria de situar no andar térreo as salas de aula, o
refeitório, a cozinha e a sala de visitas. Haveria seis janelas, com vidraças, de cada lado do
edifício, e o mesmo tanto no primeiro andar, o que daria um total de 24. Para cada sala de aula
seriam suficientes as dimensões: 20 pés por 24 ou 22 por 22. O refeitório deve ser bastante
amplo para que nele possam tomar as refeições os Irmãos e os meninos que, para a
tranqüilidade dos pais, lanchem e durmam na casa. Doze pés para a sala de visita e mais ou
menos outro tanto para a cozinha seriam suficientes. Uma parede de tijolo simples entre as
aulas será melhor do que um corredor. Deste modo, a comunicação será mais fácil e os Irmãos
poderão agir mais conjuntamente, o que contribui sobremodo para a harmonia e a boa ordem
nas salas de aula.
No andar de cima haveria um dormitório amplo para os meninos, outro para os
Irmãos, assim como uma sala de trabalho da comunidade, pois não devem ter quarto
individual.
Aguardando sua amável visita, peço-lhe que aceite meus sentimentos de respeito com
os quais tenho a honra de ser...
142
98 – Ao Padre FRANÇOIS LÉON VINCHENEUX,
Pároco de Tréport, Seine Maritime
10 de março de 1837.
A carta que o Padre Champagnat escreveu foi para deslindar um mal-entendido. Pelas
palavras da resposta, chegamos a adivinhar qual teria sido o engano: Na primeira carta o pároco de
Tréport pedia informações a respeito das condições exigidas para uma fundação; logo na segunda
pedia quando os Irmãos iriam. Ainda aqui, o padre Champagnat faz notar que, em se tratando de
regiões distantes, não é prudente que se mande só dois Irmãos. (Tréport fica perto de Dieppe, na
Mancha).
O teor da carta denuncia certa rispidez que parece sugerir que não foi Champagnat que a
escreveu. Pode ter sido um secretário dele.
Senhor Pároco,
Como resposta à sua primeira carta enviamos o prospecto e achávamos que tínhamos
respondido a todas as suas perguntas. O senhor está vendo que não é questão de diocese nem
de distâncias. O pagamento dos Irmãos e por quem são pagos os gastos de viagem dos
mesmos. é isto mesmo que o senhor quer saber? No final de sua carta, o senhor nos faz notar
que não é o envio de dois que está pedindo, mas que precisa de informações prévias para dar
ciência às autoridades. Elas é que julgam o caso e submetem a questão ao Conselho
Municipal. Este, sim, deverá fazer o pedido.
Na segunda carta o senhor nos pergunta em que época poderia contar com a ida dos
Irmãos, embora ainda não tivesse feito o pedido. Rogamos-lhe que não nos trate de
inconseqüentes em nosso proceder. Temos enviado vários prospectos; nunca, porém, foram
recebidos como promessa de enviarmos Irmãos. E como teria havido promessa, se nem sequer
houve pedido?
Quando o senhor manifestou o desejo de ter Irmãos e que não fossem mais do que
dois, respondemos que não podíamos mandá-los de imediato; também dissemos que não seria
prudente mandar somente dois, para um estabelecimento tão distante. Não nos pareceu
oportuno fazer-lhe antes essas observações; é que temos de atender uma lista de pedidos
anteriores ao seu.
Se o senhor estiver de acordo, podemos acrescentar o seu. Não perdemos a esperança
de os Irmãos chegarem aí, mas só dentro de alguns anos.
As pessoas importantes que vocês souberam interessar no projeto são por demais
influentes para que deixem Tréport sem os recursos necessários para pagar três Irmãos, e
mesmo para montar uma escola inteiramente gratuita.
Aceite a certeza do respeitoso devotamento com o qual...
143
99 – Ao Padre ANDRÉ BERTHIER, Vigário Geral de
Grenoble, Isère.
11 de março de 1837.
O Padre Champagnat informa sobre a decisão que tomou junto com o Padre Douillet, na
tentativa de solucionar as dificuldades causadas por este último aos Irmãos de La Côte-Saint-André.
Senhor Vigário Geral,
Fiz uma viagem a La Côte-Saint-André. Cheguei de lá ontem de tarde, sem ter feito
praticamente acordo nenhum com o Padre Douillet. Acertamos de esperar a visita do senhor
Bispo ao Seminário Menor de La Côte. Eu lá estarei e então conversaremos não somente a
respeito dos assuntos que nos interessam, como também chegaremos definitivamente a um
acordo que seja satisfatório para o digno Prelado que o senhor representa tão bem.
Anteontem já havia reservado dois lugares na carruagem que iria para Grenoble, mas
depois eu me lembrei que tínhamos adiado nosso entendimento, o que tornaria minha viagem
completamente inútil.
O Padre Douillet me pareceu estar com medo de que o frio lhe fizesse mal, devido à
fraqueza em que se achava; quanto a mim, eu estava com muita pressa de voltar para a casa
mãe, onde minha presença estava sendo necessária naquele momento. Por isso, não tive o
prazer e a honra de lhe apresentar meus respeitos e testemunho de sencero respeito com o qual
tenho a honra de ser seu mui humilde...
144
100 – Ao Padre TOUZET, Aigueperse, Puy de Dôme.
14 de março de 1837.
Já são duas vezes que o Padre Touzet pede Irmãos para a sua paróquia. Primeiro, foi-lhe
dito que esperasse. Agora, visto que volta a insistir, o Padre Champagnat solicita informações: A
escola será inteiramente gratuita ou só em parte? De quanto será o vencimento dos Irmãos? Mas, se
for uma fundação, qual é a condição em que são contratados os Irmãos?
Senhor Padre,
Na conversa que tive a honra de ter com o senhor quando da visita, que teve a
gentileza de me fazer, observei-lhe que estávamos em grandes apertos e que, por causa disto,
não tínhamos condições de lhe dar Irmãos tão cedo.
O senhor me respondeu que não podia esperar por mais tempo e que, devido à
urgência, iria bater em outra porta. A partir daí, não pensamos mais em seu estabelecimento.
Não tendo recebido depois nenhuma solicitação mais de sua parte, não ficamos sabendo se
conseguiu prover-se em outra fonte.
Agora, pois que o senhor persiste na vontade de ter Irmãos, queira, por favor, dizer-
nos em que condições pensa montar o seu estabelecimento: inteiramente gratuito? ou somente
em parte? Enfim, que garantias pode oferecer, porque os estabelecimentos com fonte de
pagamento garantida passam a prioritários. Se este for o caso, de acordo com sua resposta,
poderei dizer-lhe qual é seu lugar na lista de espera.
Tenho a honra de ser, Senhor Padre, seu dedicado servidor.
Notre Dame de l'Hermitage, 14 de março de 1837.
145
101 – Ao Padre ANTOINE MOLLIN, Pároco de La
Côte-Saint-André, Isère.
17 de março de 1837.
Esta carta contém a mesma explicação anteriormente dada ao Vigário Geral Padre Berthier.
Isto significa que a troca de pároco aconteceu durante o mês de fevereiro. É de se perguntar qual a
razão por que Champagnat não foi pessoalmente despedir-se do novo pároco, antes que os Irmãos
saíssem de La Côte. Em vez de mandar uma carta, depois de acontecido o caso, teria tratado o
assunto pessoalmente. Seriam os muitos afazeres ou uma viagem urgente a outro estabelecimento o
motivo deste modo de proceder? São conjecturas para tentar explicar um proceder estranho aos
hábitos de cordial acatamento que tinha o Padre Champagnat para com todos os Padres.
Senhor Pároco,
O grande interesse que o senhor demonstra por sua escola de La-Côte-Saint-André e a
acolhida que me ofereceu na breve visita que tive a honra de fazer a V. Revma. me impelem a
dar-lhe a conhecer o que resolvemos com o Padre Douillet.
Combinamos esperar a visita do senhor bispo a La Côte, deixar por ora as coisas como
estão, contanto que a “irmã” Marthe seja despedida. Espero que tudo acabe com satisfação
total para o seu digno Prelado e para a glória de Deus, o que nós desejamos acima de tudo.
Queira receber a certeza de respeito...
146
102 – Ao Irmão EUTHYME, Ampuis.
19 de março de 1837.
Absorvido por inúmeras questões de ordem administrativa, o Padre Champagnat ainda
encontrava tempo para dar orientação espiritual a seus Irmãozinhos. Suas cartas são de estilo
conciso, em linguagem simples e precisa, sem procurar torneios rebuscados.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 19 de março de 1837.
Caríssimo Irmão Euthyme,
Fiquei muito satisfeito com sua cartinha. Coragem, meu caro Irmão, Jesus e Maria
serão sua recompensa; nas tentações, chame-os em seu socorro. Nunca hão de permitir que
você desfaleça. Procure fazer bem sua meditação, é um ponto importante na vida de um
religioso. Posso afirmar-lhe que responderei por sua salvação se fizer bem sua meditação.
Veja também como é importante a sua aula com os pequeninos; depende de você
formar na religião todos os meninos aos quais está ensinando; depende de você que o céu se
abra ou se feche para eles. Tenha em mente, portanto, meu caro amigo, levá-los ao bem, rezar
por eles e procurar incutir bem forte o amor de Deus em seus coraçõezinhos. Reze todos os
dias, antes de começar a aula, três Ave Marias.
Adeus, deixo-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria,
Champagnat
147
103 – Ao Padre R. P. RIGAUD, S.J., Superior de La
Louvesc, Ardèche.
21 de março de 1837.
O superior de uma comunidade jesuíta em La Louvesc pediu ao Padre Champagnat que
mandasse Irmãos. Eles exerceriam um ministério muito proveitoso sobretudo durante o período de
peregrinações ao santuário de São João Francisco Régis.
Resposta: "Muito prazer teríamos em mandar Irmãos para atuarem perto do santuário do
grande missionário jesuíta", lugar que deixara tantas recordações na alma piedosa de Champagnat,
jovem seminarista a braços com estudos sérios e difíceis. Mas, não poderia mandar os Irmãos logo.
Nem logo nem depois. Os Irmãos nunca foram para La Louvesc.
Senhor Superior,
Termos nossos Irmãos em La Louvesc nos interessa muito. Com que prazer veríamos
os nossos junto ao túmulo de São Francisco Régis, trabalhando para a glória de Deus e a
salvação das almas, sob a direção dos ótimos Padres Jesuítas! É muito triste não podermos
atender o seu pedido. Desde já o seu estabelecimento entra na lista de pedidos e estamos
decididos a fazer de tudo para atendermos o senhor o quanto antes.
Permita que recomendemos de modo particular a Sociedade de Maria às orações da
Sociedade de Jesus.
Digne-se aceitar a homenagem de profundo respeito e total disponibilidade com os
quais tenho a honra de ser, Senhor Superior, seu mui humilde e obediente servidor.
Champagnat
sup. Irs. M.
Notre Dame de l'Hermitage, 21 de março de 1837.
148
104 – Ao senhor MICHEL GINOT, comerciante em
Paris, rua St. Denis, 115.
março de 1837.
Michel Ginot era originário de Soulage, lugarejo pertencente à paróquia de La Valla.
Comerciante de fitas.
Tendo notícias de que Ginot tinha ido a La Valla para renovar sua provisão de fitas para a
loja que possuía em Paris (115, rue Saint-Denis), escreve-lhe Champagnat solicitando que, se
possível, se informe de como está o processo da autorização. A informação que o senhor Ginot
deveria conseguir seria com o senhor Delbecque. (cf.Carta no 83).
Toma a liberdade de sugerir que o digno comerciante gaste, se julgar conveniente, algum
dinheiro com presentes; promete reembolsá-lo sem demora.
Senhor,
Fiquei sabendo um pouco tarde da sua partida de Soulage. Conhecendo bem a
gentileza do amigo, gostaria de pedir-lhe que se entrevistasse com o senhor De Jussieux,
primeiro secretário da Prefeitura de Paris, que é muito seu conhecido, para pedir a ele que
tenha a bondade de se informar junto ao senhor Delbèque, secretário geral do Ministério da
Instrução Pública, em que pé está a questão do Decreto que pedimos em favor de nossa
Instituição. Os documentos do processo foram confiados a ele por mim pessoalmente, no seu
hotel de Paris, no dia 4 de setembro de 1836.
Desejo ansiosamente saber o resultado das negociações, antes do recesso dos
deputados. Peça a ele que tenha a fineza de me dizer se por ventura há outras formalidades a
cumprir, alguma nova gestão a fazer, enfim se falta ainda algum documento.
O senhor Prefeito Departamental do Loire disse-me recentemente que faria tudo
quanto dependesse dele para me ajudar; que poria à minha disposição todos os documentos
que dependessem de sua administração. O Comitê de nosso distrito formulou um novo
pedido. Acha ele necessário enviá-lo?
Eu lhe ficaria muito grato se o senhor pudesse conseguir que todas essas pessoas se
empenhassem na minha questão. Que favor o senhor nos prestaria! Quanto eu lhe seria grato!
Se julgar bom entrar com algum brinde, eu lhe pediria de oferecê-lo em meu nome, por minha
conta.
149
105 – Ao senhor FRANÇOIS XAVIER QUANTIN,
prefeito de Genas, Isère.
11 de abril de 1837.
Em Genas foram os Irmãos alojados em casa cedida pela viúva Dona Ranvier. Enquanto lá
moravam, a Prefeitura devia construir um prédio apropriado para servir de escola e de moradia para
os Irmãos.
Como a Prefeitura demorava em executar a obra, Dona Ranvier ameaçou desalojar os
Irmãos; em conseqüência, o Padre e Champagnat deu ordem à comunidade de voltar para
l'Hermitage.
Em 4 de abril, o prefeito escreveu apelando por um mês a mais de permanência. Dá como
razões:
1o) os alunos freqüentavam assiduamente a escola;
2o) a população ficaria sentida com a saída dos Irmãos;
3o) a bondosa viúva teria ela também paciência para conceder um prazo de mais um mês.
A carta abaixo transcrita é resposta ao pedido do prefeito.
Senhor Prefeito,
Lemos com muito interesse sua honrosa missiva e foi com muita satisfação que
constatamos através da mesma seu interesse pelo bom andamento de seu estabelecimento,
onde trabalham nossos Irmãos, em Genas. Longe de entravar o progresso da escola, o que nós
queremos de todo coração é contribuir para que aumente.
Se acha que a saída de nossos Irmãos, nesta altura dos acontecimentos, vai causar
algum mal-estar, eu deixarei que fiquem lá, enquanto puderem ocupar a casa de Dona
Ranvier. Mas então, que ela tenha a paciência de esperar.
Eu lhes dei ordem de virem à casa mãe, a fim de evitar as repetidas mudanças da
mobília de um lugar para outro, o que pode danificá-la. Não havendo mais razão para isso,
estou perfeitamente de acordo que continuem suas funções até quando o senhor determinar.
Gostaria de solicitar ao senhor Prefeito, a bondade de transmitir aos nossos Irmãos as
nossas intenções e nossa vontade a respeito, para que eles estejam de acordo comigo e
também com o senhor e assim trabalhem cada vez mais eficazmente para a glória de Deus e
para a educação cristã da juventude de seu município.
Aceite a certeza de sentimentos de consideração com os quais tenho a honra de ser,
senhor Prefeito, a seu dedicado servidor,
Champagnat
sup. Irs. M.
150
106 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Châteaux.
24 de abril de 1837.
Como esta carta não traz nenhum carimbo do correio, ela deve de ter sido levada em mãos
pelos Irmãos que se dirigiram a Saint-Paul.
De fato, no caderno de gastos do Padre Champagnat, lemos:
Fornecido ao Irmão Andronic, que parte para Saint-Paul: 1 fr.
Ao Irmão Colomban, também de saída para Saint-Paul: 1 fr.
Ao Irmão Víctor: 400 francos.
Mais uma vez, o Padre Champagnat externa ao amigo sua profunda gratidão por tantos
favores e pede o auxílio de suas orações. A carta leva a assinatura de Champagnat mas a letra não é
dele.
N. D. de l’Hermitage, 24 de abril de 1837.
Jesus, Maria, José!
Senhor Padre e Respeitável Superior,
Vimos uma vez mais recomendar à sua boa vontade os Irmãos nossos que a
convocação para o serviço militar obriga a ficarem com o senhor para se livrarem dela.
É com sentido prazer e satisfação que os confiamos à sua bondade, com a esperança
de que sob a sua judiciosa orientação progredirão cada vez mais na prática das virtudes cristãs
e religiosas
O serviço que o senhor nos presta jamais se apagará de nossa lembrança. A Sociedade
de Maria, ao receber de sua caridosa Instituição assistência tão assinalada, ficará a lhe dever
uma gratidão para todo sempre. Maria, mãe de todos nós, não deixará sem recompensa a
ternura e solicitude que o senhor demonstra para com seus filhos.
O senhor bispo de Belley acaba de dar-nos mais uma prova de sua benevolência e
generosidade, encarregando-se de apresentar em Paris nossos documentos.
Temos muita esperança neste mês de Maria. Se não for atrevimento de nossa parte,
pedimos-lhe que una suas orações às nossas para que tudo transcorra segundo a vontade de
Deus.
Aceite os respeitosos sentimentos com que, senhor Padre e venerando Superior, tenho
a honra de ser o servo mui dedicado
Champagnat
P.S. O Irmão Cyprien poderia vir de volta, precisaríamos tanto dele aqui.
151
107 – Ao senhor LOUIS BREUIL, Montarcher, Loire.
12 de maio de 1837.
O filho do senhor Louis Brenil tomou o hábito marista aos 28 de maio de 1835. Da
contribuição que todo noviço devia pagar ao entrar no noviciado, ele só pagou 100 francos, ficando
a dever 300 francos, mais outros gastos que tinha feito.
Como se retirou após curta permanência, o pai ou o jovem deveria saldar o resto da dívida
prevista pelos estatutos. Mas o pai, baseado no parecer do pároco, acha que não precisa pagar o
resto.
Não é de se admirar, meu caro Breuil, que os padres aos quais você recorreu para falar
do pagamento do noviciado de seu filho, tenham decidido a seu favor. Claro, você só falou do
seu lado. Não se pode julgar corretamente uma causa sem ouvir os dois lados, daí a máxima:
não condenar ninguém sem antes ouvi-lo.
Portanto, seja o que for o que lhe tenham dito, nem por isso deixa de ser verdade que
você nos deve e que temos direito de sermos ressarcidos pelos gastos feitos por seu filho em
nossa casa. Ele veio para tornar-se religioso e nós o recebemos como noviço, não como
pensionista. Foi baseado nisto que entramos em acordo.
Quanto à convocação para o serviço militar, teríamos feito para ele o que fazemos para
os outros, ainda não deixamos ir embora nenhum de nossos Irmãos. A que é que se deve
atribuir então a aspereza dos termos em que você escreve? Temos conceito alto demais de sua
probidade para pensar que você não vai levar em conta nossas justas ponderações. Ficaríamos
aborrecidos se com isso o estivéssemos ofendendo, queremos estar sempre de bem com todo
mundo.
Aceite nossas afetuosas saudações.
p/ M. Champagnat, nosso superior
Irmão François
Notre Dame de l'Hermitage, 12 de maio de 1837.
P.S. Ficamos tristes ao saber que um hábito religioso foi usado para fins profanos. Todos os
que se retiram de nossa casa fazem questão de devolver intato o santo hábito.
152
108 – Ao Padre GEORGES BLANC, Coadjutor de
Saint-Galmier, Loire.
13 de maio de 1837.
O mano deste Padre tinha estado no seminário. Saiu e veio pedir para ser Irmão Marista.
Tomou o hábito, aos 3 de janeiro de 1837 e foi mandado fazer o noviciado em La Côte, pois o moço
já tinha 24 anos e possuía bons conhecimentos que o habilitavam a apresentar-se aos exames para a
obtenção do Diploma (brevet) de professor primário.
Infelizmente não permaneceu por muito tempo na Congregação. Chamava-se ele Annet Blanc
e tomou o nome de Irmão Andéol, quando vestiu o hábito marista. O irmão dele, Padre Georges,
escreveu ao Padre Champagnat pedindo um abatimento da quantia que o mano devia pagar ao
entrar no noviciado. É o que deduzimos da resposta do Padre Champagnat em que diz que não é
possível reduzir a dívida, pois a contribuição que os estatutos pedem é o mínimo indispensável.
Senhor Padre,
Enviamos-lhe em anexo as condições de admissão de postulantes em nossa Sociedade.
A contribuição módica que exigimos não permite que façamos abatimento, entretanto
confiamos em sua lealdade.
Sabemos reconhecer o mérito daqueles que se congregam em nossa casa, após terem
concluído seus estudos, mas a verdade é que na maioria são bastante bisonhos nos
conhecimentos científicos que ministramos aqui, por isso estão obrigados a recapitular as
noções elementares, principalmente da ortografia.
Se o seu irmão foi mandado a La Côte-Saint-André foi porque ele mesmo pedia,
receoso como estava de que as relações que se via obrigado a manter aqui com os jovens que
não pensavam como ele, pudessem pôr sua vocação em risco. Quanto ao mais, achava-se
perfeitamente contente e demonstrava muito ardor em adquirir as virtudes e conhecimentos
que são necessários para desempenhar dignamente as funções de um religioso educador.
Aguardando o prazer de revê-lo, senhor Padre, peço-lhe que aceite os afetuosos
sentimentos com que tenho a honra de ser, Senhor Padre, seu dedicado...
Notre Dame de l'Hermitage, 13 de maio de 1837.
153
109 – Ao Padre JACQUES FONTBONNE, missionário
em Saint-Louis, Estados Unidos da América.
16 de maio de 1837.
O Padre Champagnat dá muitas notícias da Sociedade de Maria e transcreve outra vez a
carta do Irmão Nizier, de 01/01/1837, quando estava para zarpar rumo às Missões da Oceânia. (cf.
Carta no 79)
O Padre Fontbonne era simpatizante dos Maristas e o Padre Champagnat, ardoroso
propagador da Sociedade de Maria, tenta ligá-lo definitivamente a ela, agora já reconhecida
canonicamente pelo Papa Gregório XVI.
J.M.J.
Mui estimado Padre Fontbonne,
Recebi, muito sensibilizado, a carta que teve a gentileza de me escrever. Desde que
você saiu, sempre fiquei com muito desejo de receber notícias suas e foi com o maior
interesse que soube todas as que me chegaram referentes a você.
Nossa Sociedade se amplia sempre mais. Contamos no momento com 176 Irmãos
bastantes noviços que nos parecem todos muito esforçados. Estamos sempre consertando e
construindo, e assim mesmo sempre apertados. Não deixamos em paz nem damos tréguas aos
rochedos de l'Hermitage, cultivamos, plantamos vinhas, procuramos fertilizar o terreno todo.
A nossa capela nova foi benta por Dom Pompallier, antes de sua partida para a
Polinésia. Conferiu a Crisma àqueles Irmãos nossos que ainda não tinham recebido este
sacramento.
Você não pode imaginar que emulação suscitou na turma a missão da Polinésia. A
gente invejava a sorte dos que tinham sido escolhidos como primícias da Associação para
aquelas ilhas. Nossos Irmãos lhes faziam despedidas na esperança de irem brevemente juntar-
se a eles.
Penso que você gostará de tomar conhecimento da carta que um de nossos Irmãos
escreveu do Havre, antes de embarcar.
"Como me sinto feliz, querido pai, muito embora me julque indigno, por ter sido
escolhido dentre os Irmãos de Maria para ser dos primeiros a partir para levar a luz do
Evangelho a povos selvagens. Oh! bendito seja Deus! Foi Ele que me deu a vocação e me
ajuda a segui-la. Estou muito contente de viajar e posso afirmar com toda sinceridade que não
cederia meu lugar nem a troco de um trono. Não tenho medo, pois Maria, nossa Boa Mãe, será
o meu guia em todas as minhas ações e meu refúgio nas dificuldades.
Desejaria, meu querido pai, apresentar-lhe de viva voz meus votos de Feliz Ano Novo,
como também a todos os meus caros Irmãos, mas as circunstâncias não me permitem
satisfazer meus desejos. Peço-lhe, por favor, aceitar meus votos de felicidade.”
Esta carta nos foi endereçada poucos dias antes do embarque no Havre. Eles foram
obrigados a esperar vários meses por um tempo favorável para fazer-se ao largo. No dia em
que içaram a vela, escaparam, como por milagre, a uma furiosa tempestade que pôs a pique
vários outros navios e de que nem se aperceberam. Soubemos, faz pouco, que tinham aportado
às Ilhas Canárias para fazer reparos no navio e que todos estavam de boa saúde.
154
A obra dos Padres está sempre tomando novos incrementos. Adquirimos uma casa
grande para o noviciado em Lião. Numa reunião que fizemos para a eleição de um superior
geral da Sociedade de Maria, após um retiro de alguns dias, os 22 Padres que tomaram parte
fizeram seus votos perpétuos e o Padre Colin foi confirmado no cargo de Superior Geral da
Sociedade de Maria. Eis-nos religiosos no pleno rigor da palavra. Queira Deus que
produzamos frutos dignos de nosso estado.
Temos a consolação de ver que nossos estabelecimentos vão melhorando. São
atualmente em número de 33. Vários estão para começar no ano que vem, e não podemos
fugir às pressões reiteradas que nos chegam de toda parte, pedindo Irmãos. Seria com prazer
que mandaríamos alguns à América para auxiliar o trabalho dos Padres Missionários, se isto
nos fosse possível. Esperamos que a divina Providências nos aplainará as dificuldades e nos
facilitará os meios de chegar até onde você está, quando se completarem os tempos e os
momentos que o Pai reservou para exercer seu poder.
Todos os membros de nossa Sociedade que tiveram a sorte de conhecer você lhe
apresentam seus respeitos e sua amizade. O Padre Superior e o Pároco de Izieux querem fazer-
lhe chegar através desta carta seus sentimentos de amizade, em se lembrando de você. O
Padre Rouchon me disse que não recebeu sua primeira carta. Dei-lhe a que você me mandou,
da qual ele gostou muito. Fez dela assunto de um sermão no qual recomendou a seus
paroquianos que não esqueçam você em suas orações. Sua pessoa está sendo muito lembrada
pelos Irmãos mais antigos de l'Hermitage; ao tomarem conhecimento de sua carta, acudiram
pressurosos e satisfeitos para saber notícias suas.
Continuamos a considerá-lo Padre Missionário da Sociedade de Maria. Lamentamos
não tê-lo contado em nosso meio nas circunstâncias felizes que se seguiram à nossa
autorização pela Cúria Romana.
Em união de um mesmo espírito nós nos recomendamos todos às suas orações,
desejando ardentemente participar em grande escala dos méritos de seus trabalhos, levados à
frente para a glória de Deus e a honra da Mãe de todos nós.
Possa a Sociedade de Maria cumprir perfeitamente os desígnios que Deus tem sobre
ela e merecer associar-se aos operários do Evangelho de que fala a Escritura: Euntes ibant et
flebant mittentes semina sua; venientes autem venient cum exultatione portantes manipulos
suos. (Choravam eles enquanto iam espalhando suas sementes; ao voltarem, porém,
regressarão cheios de alegria, carregados de seus fardos).
Receba a certeza de minha sincera amizade e aceite os sentimentos afetuosos com os
qiaos tenho a honra de ser, meu querido coirmão, seu dedicado,
Champagnat,
sup. I. M.
Notre Dame de l'Hermitage, 16 de maio de 1837.
155
110 – Ao Padre ANTOINE CASIMIR MAUNIER, Pároco
de Callas, Var.
maio de 1837.
É a segunda carta ao Padre Maunier. (Veja a primeira no no 91).Champagnat se decide por
Callas e põe na lista o pedido do Padre, a fim de mandar Irmãos quando as circunstâncias o
permitirem. Na verdade, o seu propósito não foi realizado. Por que razões? Por ter sido trocado o
pároco em março de 1841 e por ter o Irmão François, depois disto, mudado de opinião?.
Senhor Pároco, (Callas)
Já lhe escrevi que estamos obrigados a adiar para mais tarde a fundação de uma escola
de Irmãos em sua paróquia. Mesmo assim, o senhor vem insistindo para que os Irmãos sejam
mandados, resignando-se a esperar a época em que nos seja possível decidir este envio.
Por isso, estou inscrevendo a sua paróquia em nossos registros de pedidos, para que
seja contemplada quando chegar a vez dela.
Aguardando sua agradável e cordial visita, queira aceitar os respeitosos sentimentos
com que tenho a honra de ser...
156
111 – Ao Padre FRANÇOIS LÉON VINCHENEUX,
Pároco de Tréport, Seine Maritime.
maio de 1837.
Na Carta no 98 já se tratou da questão. Mas a fundação não se efetuou. Só bem mais tarde,
em 1892, sob o governo do Irmão Théophane é que os Irmãos fundaram uma escola em Tréport.
Tiveram que abandoná-la cinco anos após, em consequência das leis sectárias de Émile Combes.
Senhor Pároco (de Tréport)
Vejo pela sua última carta que o senhor continua insistindo no seu projeto de
conseguir Irmãos.
Sendo assim, inscrevo seu pedido na lista dos estabelecimentos a fundar, a fim de que,
por sua vez, o senhor possa ser contemplado. Terei o cuidado também, se assim o desejar, de
avisá-lo com dezoito meses de antecedência, para que tenha o tempo suficiente de preparar
tudo o que for necessário.
Receba agora a certeza dos sentimentos de respeito e dedicação com os quais que
tenho a honra de ser...
157
112 - A Dom BÉNIGNE TROUSSET D'HÉRICOURT,
bispo de Autun, Saône-et-Loire.
final de maio de 1837.
Esta carta é resposta a Dom Bénigne que escreveu a 21 de maio, pedindo que o Irmão
Diretor permanecesse à frente da escola de Semur.
Trata-se do Irmão de La Croix que estava ameaçado de ser chamado "sous les drapeaux",
isto é: para o serviço militar. (cf. Carta n.º 92).
O estabelecimento de Semur, que é o primeiro que tivemos a sorte de abrir na diocese
de V. Excia., é muito caro ao nosso coração. Por nada no mundo consentiríamos em tomar
alguma medida que pudesse prejudicá-lo. Outrossim o empenho que V. Excia. demonstra ter
para que prospere é sinal de tanta honra para nossa Sociedade, que faremos todo o possível
para corresponder-lhe.
As circunstâncias adversas em que se encontrou o Irmão Diretor, urgido a responder
ao chamado para o serviço militar, incerto do que lhe pode acontecer, pois que não tem um
prazo marcado para sua residência no Departamento de Isère, nos deixaram inquieto quanto ao
destino dele. Ficamos com receio de ter que substituí-lo e mesmo de deixá-lo sair.
Sugeri a ele que escrevesse ao General para informá-lo sobre a profissão que abraçou
em nossa Sociedade e pedir licença para ficar em nossa casa com a promessa de apresentar-se
ao primeiro chamado que lhe fosse feito, e comparecer se for intimado.
Contrariamente à minha expectativa, este favor lhe foi concedido. Temos em mãos o
documento que o autoriza a fixar residência no Departamento do Loire, onde está nossa casa
principal e cremos que pode continuar suas funções em Semur, sendo que é tido como
residente em nossa casa, enquanto permanecer membro de nossa Instituição. Quando for
chamado, teremos tempo de mandá-lo vir aqui.
Estou muito contente de que assim possa servir aos interesses de V. Excia. e fazer
prosperar a escola que dirige. Só peço uma coisa: que sejam cumpridas as condições
estipuladas em nosso prospecto.
É de bom coração que faremos tudo quanto estiver ao nosso alcance para corresponder
ao zelo de V. Excia. e à benevolência com que honra nossa Sociedade. Todas as dioceses do
mundo entram em nossos planos. Consideraremos dever nosso acorrer pressurosos em auxílio
de nossos bispos respectivos, sempre que nos honrarem com seu convite.
Queira aceitar os sentimentos de profundo respeito e elevada consideração, com os
quais tenho a honra de ser, de V. Excia., mui humilde o obedeiente servidor,
Champagnat
sup. I. M.
158
113 – Ao senhor Conde ANTOINE NICOLAS DE
SALVANDY, Ministro da Instrução Pública.
junho de 1837.
A Lei Guizot, de 28 de junho de 1833 criou um fundo de previdência para professores do
ensino primário. É formado por 1/20 do vencimento anual. Deve ser depositado na Caixa Econômica
e render juros que se vão capitalizando de 6 em 6 meses. Quando o professor se aposentar receberá a
quantia depositada no nome dele. Notar que mensalidade aqui era o que o município pagava a cada
professor além do mínimo de 200 francos. Como resposta o ministro deve ter dado ordens aos
prefeitos departamentais. (cf. Carta no 145)
Senhor Ministro,
O Superior da Associação dos Irmãozinhos de Maria, estabelecida em Notre Dame de
l'Hermitage, cantão de Saint Chamond, Loire, tem a honra de expor a V. Excia. o seguinte:
- sendo a finalidade da Associação proporcionar aos municípios rurais o meio de
ministrar, a baixo custo, os benefícios da instrução aos filhos de seus habitantes, reduziu ao
mínimo o custo de cada Irmão professor, na maioria dos seus estabelecimentos, as duas
subvenções autorizadas em lei, sob as denominações de salário e mensalidades ficando
reunidas num único total, o desconto de 1/20 que a lei prescreve sobre o salário dos
professores para a caixa econômica e o fundo de previdência, diminui demais o salário anual
dos Irmãos;
- assim ele se veria forçado a aumentar a importância exigida para o pagamento dos
Irmãos, caso não fosse devolvida todo ano a quota descontada, cuja destinação é proporcionar
recursos aos professores para os casos de doença ou para a velhice;
- isso não pode acontecer com relação aos Irmãos, pois naqueles casos eles têm a
certeza de obter os socorros necessários dentro da Congregação;
- por outro lado raramente há irmãos que saem do Instituto e não pretendem nele ter
rendimentos pessoais;
- esse desconto não resulta em benefício algum para eles; prejudica, isto sim, o
Instituto deles, que tem como fonte de renda unicamente as contribuições dos
estabelecimentos e a generosidade de pessoas caritativas.
O prefeito departamental do Loire e as autoridades locais têm demonstrado especial
benevolência a nossa pessoa, o que me leva a esperar o mesmo beneplácito da parte de V.
Excia.
(O Superior) afaga a esperança de que V. Excia. será propício a que no final de cada
ano retire o correspondente a um vinteavo para aplicá-lo em benefício da associação. A
gratidão dele só pode ser comparada à relevância do favor que está solicitando da bondade de
V. Excia.
Com o mais profundo respeito, subscreve-se.
De V. Excia. servo muito humilde...
Champagnat
159
114 – Ao senhor LOUIS JOSEPH MICHOUD DE LA
TOUR, prefeito de Brangues, Isère.
final de junho de 1837.
O prefeito daquela cidadezinha pediu ao Padre Champagnat que fizesse abatimento nos
vencimentos que pagaria aos Irmãos, para os quais já tinha construído um edifício que serviria de
escola.
Resposta: Mais barato do que fazemos, não dá. Irmãos? Só mais tarde, não temos ninguém
para mandar de imediato.
O prefeito deve ter procurado outra saída, pois o pedido que fez não foi atendido.
Senhor Prefeito,
Não podemos deixar de admirar o empenho que o senhor tem pela educação cristã da
juventude de seu município, e vibramos de alegria ao sabermos por sua estimada missiva que
o senhor já tinha construído um edifício destinado a essa boa obra.
Seja-nos, contudo, permitido fazer-lhe uma observação: Uma escola para meninos tão
próxima à das meninas traz alguns inconvenientes. Seria muito grato ao nosso coração, senhor
Prefeito, podermos responder à confiança que em nós deposita e lhe mandarmos Irmãos. Duas
coisas, porém, tornam impossível o atendimento a seu pedido:
1. o desconto que o senhor pede, nos apertos em que nos encontramos, é-nos
impossível aceitá-lo;
2. o grande número de pedidos anteriores ao seu e que temos que atender primeiro.
Por estas razões, não podemos mandar-lhe Irmãos, a não ser dentro de alguns anos.
Queira aceitar os votos que fazemos pela prosperidade de seu estabelecimento, tão útil
ao bem público, e os protestos mais sinceros de respeito e dedicação com que, Senhor
Prefeito, tenho a honra de ser...
Champagnat
160
115 – Ao Padre PAUL ARMAND JOSEPH GUINES,
Pároco de Terrasson.
fins de junho de 1837.
O pároco de Terrasson mandou um postulante para l'Hermitage e pediu ao Padre
Champagnat Irmãos para uma escola. O moço que mandou deve ter sido um tal Jean Donadieu,
único candidato originário daquela terra. Chegou em l'Hermitage aos 27 de junho de 1837 e se
retirou da congregação em 1842.
Só mais tarde é que os Irmãos foram mandados para Terrasson, quando o pároco já era
outro, o Padre Perget.
Senhor Pároco,
O jovem que o senhor nos anunciou por carta já chegou e, seguindo recomendação
sua, admitimo-lo ao noviciado, mas tivemos que deixar de lado as condições estipuladas em
nosso prospecto e que dizem respeito ao enxoval e à pensão. Isto nos causa muitos apertos,
devido à construção de nossa capela que ocasionou gastos extraordinários. Para podermos
equilibrar as despesas com a receita, estamos obrigados a nos mostrar um pouco rigorosos
quanto à pensão: fora isso, estamos contentes com o jovem que aparenta boas qualidades e
poderá tornar-se um bom Irmão.
O senhor pode ver no prospecto o que é preciso fornecer para o estabelecimento dos
Irmãos. Somos de opinião que não será prudente mandar só dois Irmãos, para o início de um
estabelecimento que se acha tão distante da casa central, pois que é importante começar bem.
Têm sido apresentados, aqui pertinho, estabelecimentos com fonte garantida de
pagamento e para os quais as condições de nosso prospecto serão cumpridas integralmente.
Mesmo assim, o seu pedido foi tomado em consideração. Estamos dispostos a voar em seu
socorro, logo que as circunstâncias no-lo permitam.
Queira aceitar os sentimentos respeitosos com que tenho a honra de ser, senhor
Pároco, seu servo dedicado.
161
116 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Chateaux.
junho de 1837.
Mazelier deve ter escrito ao Padre Champagnat e feito observações sobre alguns candidatos.
"O Padre Superior " que vem no segundo parágrafo da carta é o próprio Champagnat. Isto
se explica por ter sido a carta escrita pelo Irmão François, seu secretário.
O doente a que alude mais abaixo é provavelmente o Irmão Colomban (Jean Mourge), de
Saint-Bonnet-le-Froid, Haute Loire. A expressão "nosso doente", referente ao mesmo, se deve a que o
noviço poderá ficar com Mazelier, como escreveu o Irmão François no ano seguinte: "O noviço
Mourge deve considerar-se feliz de pertencer à sua congregação, a menos que V. Sª, Padre Mazelier,
ache mais conveniente que siga sua primeira vocação (a de Irmão Marista)." E a carta prossegue:
"Se ele quiser voltar para l'Hermitage, nós o receberemos com prazer!"
Padre Superior,
Muito sensibilizado por todos os cuidados que o senhor tem para com nossos Irmãos,
ficamos sabendo que há dentre eles alguns que não reconhecem as vantagens que sua
dedicação nos proporciona; por sua conduta pouco regular, aumentam ainda mais as suas
preocupações. Não deixaremos escapar ocasião alguma de renovar as recomendações que já
lhes fizemos antes que fossem para aí.
O Padre Superior espera ir encontrá-lo pelos meados de julho. Há tempos que suspira
pela ocasião de beneficiar-se de uma entrevista com V. Revma.; um de nossos vizinhos que
deseja abrir um estabelecimento dirigido por nossos Irmãos em La Voulte (Ardèche) lhe
facilitará o meio (condução).
O nosso doente está na casa dos pais, faz mais de um mês. Já estava um pouco melhor
quando, a pedido dele, o enviamos para casa. Desde então, não tivemos mais notícias.
Pensamos nós que a doença o isentará do serviço militar, entrementes ficamos muito gratos a
V. Revma. pelas medidas que tomou a favor dele, nas circunstâncias que nos descreve.
Fizemos nova tentativa para conseguir a nossa autorização; quem sabe surta bom
efeito. Seja tudo segundo a vontade de Deus e para a sua maior glória!
Seu mui dedicado servidor,
Champagnat
sup. Irs. M.
162
117 – Ao senhor JEAN-MARIE DE POMEY, prefeito de
Amplepuis, Rhône.
julho de 1837.
O prefeito De Pomey pede Irmãos para uma escola importante. Ela teria 300 para 400
alunos, contingente muito alto para nossos Irmãozinhos. É mais própria uma tal escola para os
Irmãos das Escolas Cristãs.
Reparar no plural majestático do final da carta. (cf. mais adiante nas Cartas de nos 133, 138
e 187, a seqüência das negociações com Amplepuis.)
Prezado Senhor,
Sua estimada carta me traz à lembrança as tratativas que o Padre Terraillon (Étienne),
pároco de Amplepuis, tinha empreendido para ter um estabelecimento, não de dois Irmãos
nem apenas de três, pois o município d'Amplepuis deve ter quatrocentos alunos, ou pelo
menos trezentos freqüentando de maneira contínua a escola.
Dois Irmãos seriam portanto muito insuficientes, só poderiam cair em estafa. Penso
que o novo pároco se dará conta, de imediato, da observação que lhe faço.
A nossa firme determinação é de não abrir nenhum estabelecimento que não tenha
bases sólidas, pois é disto que depende o bom resultado da fundação.
Aguardemos a chegada do senhor Pároco; quem sabe, preferirá ele os Irmãos das
Escolas Cristãs. Em todo caso, ficamos imensamente gratos ao senhor Prefeito De Pomey pelo
interesse que tem por nós. Queira ele considerar-me seu mui humilde e respeitorso servidor,
Champagnat
sup. I. M.
163
118 – Ao Irmão DENIS, Diretor de Saint-Didier-sur-
Rochefort.
5 de julho de 1837.
Confiando nas orações do venerando superior, o Irmão Denis pede ao Padre Champagnat
que reze pela cura do pároco Padre Pierre Roche. O Padre Champagnat passou o recado aos Irmãos
da comunidade, convidando-os a fazerem uma novena. Porém a vontade de Deus se manifestou
chamando à recompensa o bom pároco de Saint-Didier. Escrevendo ao Irmão Denis, Champagnat
pede informações sobre a casa que serve de escola e também manda recomendações aos demais
Irmãos da comunidade.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 5 de julho
Caríssimo Irmão Denis,
Você tem toda razão, meu caro amigo, de dizer que tudo quanto lhe diz respeito me
interessa particularmente. Gosto muito de ter notícias suas.
Vamos fazer uma novena para pedir a cura do Padre Roche, seu digno pároco. Faço
votos que Deus o deixe em vida ainda por algum tempo para que termine sua obra. Transmita
a ele que nós estamos muito interessados em que Deus o conserve.
Gostaria muito de saber as dimensões das salas de aula: se estão conformes às normas,
grandes, bem arejadas, etc.. Penso que o senhor pároco olhou por tudo isso.
Não o esquecemos nem tampouco esquecemos os demais Irmãos que labutam com
você. A um e outro mil lembranças. Tenho-lhes muito amor e agradeço-lhes tudo o que fazem
por amor ao Mestre de todos nós.
Adeus, meu caro Irmão Denis,
Champagnat
164
119 – Ao senhor CHARLES RIVET, prefeito
departamental do Rhône.
julho de 1837.
O Padre Champagnat, sempre em apuros financeiros, aproveitava de todas as fontes de onde
pudesse conseguir mais dinheiro para equilibrar as contas. Nesta carta, ele recorre àquele fundo de
previdência de que fala a Lei de 28 de junho de 1833.
No presente caso, 1/20 de 400 francos durante dois anos seriam somente 40 francos, quer
dizer: É mais uma quantiazinha de que se pode lançar mão, pequeno acréscimo aos minguados
recursos da casa.
Não sabemos que despacho deu o senhor Prefeito a este pedido.
Senhor Prefeito,
O senhor Etienne Dumas, que lecionou durante seis anos em Saint-Symphorien-le-
Château, como professor municipal e membro da Associação dos Irmãozinhos de Maria, já
não exerce suas funções, de uns anos para cá. Venho pois solicitar de sua benevolência que se
digne autorizar-me a retirar a quantia resultante do desconto de 1/20, cobrado sobre o
pagamento dele, de acordo com a Lei de 28 de junho de 1833.Espero confiadamente da
equidade de V. Excia. o despacho favorável de meu pedido.
Sou com profundo respeito...
Champagnat
165
120 – Ao Padre JEAN-PIERRE BADIOU, Pároco de
Saint-Romain-Lachalm, Haute Loire.
15 de julho de 1837.
Esta carta deve ter sido escrita pelo Irmão François que servia de secretário do Padre
Champagnat.
Abre a possibilidade de enviar Irmãos, mas não de imediato. São muitos os pedidos e os
operários do Senhor são poucos.
Senhor Pároco,
Recebemos a carta na qual o senhor nos pede um Irmão para sua paróquia.
Apreciamos as razões que o zelo pela educação cristã de seus meninos dita a seu coração, mas
por ora não podemos prometer-lhe Irmãos, visto o número por demais grande de pedidos a
satisfazer. Ademais, um Irmão só não poderia fazer grande coisa. Se for preciso enfrentar
concorrência, importa, antes de mais nada, implantar uma escola boa. Mais tarde, o que
também o senhor espera, as dificuldades poderão diminuir. Estamos bem dispostos a ir ao
encontro do seu projeto, desde que nos seja possível.
Aceite a expressão dos sentimentos de respeito e atenção com que tenho a honra de
ser, senhor Pároco, seu mui humilde servdior,
p/ M. Champagnat, superior.
Ir. François
166
121 - Ao Padre CLAUDE DUMAS, Pároco de Usson-
en-Forez, Loire.
15 de Julho de 1837.
Escrevendo ao Padre Champagnat, o Padre Dumas anuncia que recebeu doação de 14 mil
francos. Tinha intenção de colocar esta quantia a juros em favor de uma escola dirigida por Irmãos.
Por várias razões, diz que preferia os Maristas: Três Irmãos, pelo menos dois bem formados,
e decantou outras tantas vantagens. Uma particularmente deve ter encantado o Padre Champagnat,
a saber: Que de lá poderiam surgir vocações para educadores religiosos.
Na resposta, o Padre Champagnat elogia os bons propósitos do pároco, promete mandar
Irmãos quando tudo estiver pronto para o funcionamento da escola, mas foi preciso esperar dois
anos para que esses planos se concretizassem.
Senhor Pároco,
Estou bem persuadido de que um estabelecimento de nossos Irmãos, aí nas suas
montanhas, sobretudo um estabelecimento do porte daquele que o senhor nos faz a honra de
oferecer, só poderia ter muitas vantagens, sob vários pontos de vista. Nós o consideramos
como muito importante e com possibilidade de crescer muito. Seria preciso então comprar
uma casa condizente com estas perspectivas. Gostaria de ter, antes de qualquer adiantamento,
uma conversa com o senhor, se for possível. Importa implantar esta escola com uma boa
organização, para isto é preciso que o local seja amplo e bem apropriado. Eu poderia fornecer-
lhe uma planta e mandar-lhe nosso prospecto, se o desejar.
Tendo assim de antemão disposto e organizado tudo, quando as coisas estiverem
prontas, faremos o possível para mandar-lhe os Irmãos que está pedindo e ir ao encontro de
seus objetivos da melhor maneira que pudermos.
Receba por ora o testemunho sincero de minha mais que justa gratidão pela confiança
de que o senhor dá provas tão lisonjeiras, e aceite os sentimentos respeitosos, com as quais eu
sou, cordialmente, Senhor Pároco, seu humilde e mui dedicado servidor,
Champagnat
167
122 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Châteaux, Drôme.
26 de julho de 1837.
O Padre Champagnat escreveu para o amigo Padre Mazelier, despachando a carta de La
Voulte, onde uma indisposição o impediu de prosseguir até Saint-Paul, como tinha planejado.
Continua tratando da isenção do serviço militar, através dos bons ofícios de Mazelier.
V.J.M.J.
La Voulte, 26 de julho de 1837.
Padre Superior,
Saí de casa domingo (dia 23 de julho) com a intenção de ir até aí para agradecer-lhe de
viva voz, pelo imenso benefício que o senhor vem prestando à Sociedade de Maria. Que nossa
Boa Mãe abençoe todos os seus empreendimentos, abençoe sua pessoa e a conserve por
longos anos à frente da boa obra que dirige.
Uma indisposição que espero não seja muito grave, acaba de me impedir de prosseguir
e me obriga a regressar. Seja Deus bendito mil e mil vezes! O Soberano Mestre tem boas
razões para agir assim. Não lhe peço senão uma coisa: que eu possa cantar eternamente suas
misericórdias!
Eis o resultado do sorteio para vários de nossos candidatos que estão aí com o senhor:
Irmão Víctor, no 21; Irmão Andronic, no 98; Mourgue, no 35;
Irmão Martin, não foi chamado; Irmão Basile, desconheço seu número, só sei que saiu
com número muito alto.
Prezado senhor Padre Superior, tenha a bondade de tomar as providências necessárias
para que, ao ser feita a revisão, os documentos sejam apresentados em ordem. Não acho
absolutamente que consiga o brevet de professor. Se ele quiser e também se puder ser-lhe útil
de algum modo, ocupando-se em algum serviço manual, terei prazer que se fixe na sua
companhia. Os pais dele podem ainda contribuir com alguma quantia. (Cf. carta de no 116)
Mande-me a nota do que lhe podemos estar devendo. É mais do que justo que não o
obriguemos a esperar o pagamento.
Queira receber a certeza da minha dedicação e reconhecimento, com que tenho a
honra, Padre Superior, de ser seu humilde e mui obediente servidor,
Champagnat,
sup. dos Irs. de Maria
168
123 – Ao Padre JEAN-BAPTISTE CROZIER, Pároco
de Coutouvre, Rhône.
30 de julho de 1837.
Respondendo ao Padre Crozier que lhe pede Irmãos, Champagnat diz que não poderá
atender de imediato. Concorda com seu correspondente sobre a premente necessidade de mais
educadores cristãos para uma juventude ávida de Deus. Que Deus aumente o número dos bons
operários da vinha!
Senhor Pároco,
Recebemos sua carta na qual nos pede Irmãos para a paróquia de Coutouvre. Não
podemos satisfazer seu desejo no presente ano, porque o número de estabelecimentos a
inaugurar está praticamente fixado, de acordo com o número de gente disponível para estas
fundações.
Pela descrição que o senhor nos faz do local que será destinado aos Irmãos se nos
afigura bastante satisfatório, mas seria preciso que as salas de aula fossem separadas apenas
por uma parede de tijolo simples, com uma porta envidraçada, para que possam permitir
comunicação mais fácil entre as mesmas. Podem assim ser vigiadas, de uma a outra pelos
Irmãos respectivos.
É verdade que somos solicitados por toda parte. Cada um dos requerentes faz valer
razões de preferência ditadas pelo empenho em proporcionar educação cristã à juventude.
Quereríamos atender a todos, mas o campo é por demais vasto para o número de operários.
Digne-se o dono da messe mandar bons operários cheios de seu espírito, prontos a
desempenhar dignamente suas funções.
A confiança que o senhor deposita em nós nos estimula a pedir-lhe que una seus
anseios e suas Santas Missas aos nossos, para o bem de nossa sociedade, e para a maior glória
de Deus, a fim de que, por nossa parte, estejamos brevemente em condições de lhe
testemunhar eficazmente a benevolência e total disponibilidade, com que temos a honra de
ser...
169
124 – Ao Padre SIMON CATTET, Vigário Geral, Lião
fins de julho de 1837.
O Padre Cattet tinha escrito ao Padre Champagnat, aos 7 de maio, apresentando o pedido
do pároco de Perreux que, auxiliado por uma senhora generosa, projetara abrir uma escola. Seria
uma fundação. Fazia doze anos que o bondoso e venerando Padre Fleury queria fundar uma escola
católica para meninos. Acrescentara o Padre Cattet: “Cá entre nós,. o pároco de Perreux é a melhor
pessoa do mundo mas não tem jeito para lidar com as coisas.” Na carta de Champagnat adivinha-se
o motivo de sua demora em responder.
Revmo. Vigário Geral,
O estabelecimento de Perreux que o senhor nos recomenda com tanta insistência e
que, efetivamente sob mil aspectos, merece nossa atenção, só tem por enquanto projetos no ar.
Fala-se em duas casas que, justapostas uma à outra, não poderiam conter a metade dos alunos;
nem falo de moradia para os Irmãos. Visitei em companhia dos senhores de Perreux todas as
casas que se julgava pudessem servir provisoriamente; nenhuma serviria, sem antes passar por
reparos consideráveis.
Vamos ao assunto monetário. Falaram-me de sobra de recursos, de meios, mas nada
me foi mostrado de concreto.
Resolvemos, e até assentamos no papel, não abrir nenhum estabelecimento nestas
condições; isto, no interesse de nossa casa e também para o bem dos municípios que nos
solicitam.
Precipitar-se é fazer fracassar completamente um estabelecimento. Peço-lhe, senhor
Vigário Geral, que não leve a mal se diferirmos de alguns meses a abertura deste
estabelecimento, mesmo porque nada está pronto ainda, ao passo que temos uma porção de
pedidos para lugares já totalmente aparelhados.
Digne-se aceitar o testemunho do meu justo reconhecimento pelo interesse que V.
Rvma. manifesta para conosco, e creia-me sempre seu respeitoso e mui dedicado e obediente
servidor,
Champagnat
170
125 – Ao Padre FRANÇOIS BOIS, Pároco de Saint-
Symphorine-D'Ozon, Isère.
julho de 1837.
A escola fora fundada em 1827, dez anos antes da carta. A moradia dos Irmãos e as duas
salas de aula ficavam no andar térreo defronte à pracinha. Eram duas salas apertadas, com pouca
luz.
Eram vizinhos da escola: a igreja e o barulho da praça. Imagina-se que não era fácil a vida
dos Irmãos em tais condições. Nos sete primeiros anos houve sete diretores.
Os 130 alunos eram bastante levados. Por lá andou cantando a palmatória, informa-nos o Ir.
Avit nos Annales. Quando o Pe. Champagnat foi visitar a escola, ao entrar numa sala teve de ouvir
um aluno gaiato: “Que padre grandão!”
A escola só mudou de lugar em 1855, quase 20 anos depois da carta em que o Pe.
Champagnat reclamava de sua localização.
Senhor Pároco,
Julgamos que não poderemos fazer nada para sua escola, enquanto não mudar de
lugar. Ficar defronte à praça pública é por demais desconfortável para nossos Irmãos; vários já
perderam a vocação; ninguém mais quer ir para lá. Pois vivem por assim dizer no meio da
gente da praça e, naturalmente, presenciam muitos escândalos. Os meninos não podem ser
bem atendidos no meio de tantas ocasiões de dissipação. Para que a escola andasse direito
seria preciso escolher um local em que se pudesse receber alguns pensionistas, longe do
barulho, a fim de que a vigilância fosse facilitada, mesmo que funcionasse numa casa de
aluguel, enquanto não se tem um lugar apropriado. Faremos então tudo o que depender de nós
para que seu estabelecimento ande direito e se torne um dos melhores.
Sintonizamos perfeitamente com seus trabalhos e cuidados pela glória de Deus e a
salvação das almas e unimos nossas intenções às suas num mesmo espírito, pedindo queira
aceitar os sentimentos de respeito e total dedicação, com seremos sempre, Senhor Pároco,
seus mui humildes e obedientes servidores,
171
126 – Ao Irmão APOLINAIRE.
4 de agosto de 1837.
O Irmão Apollinaire está em Saint Paul faz dois anos e continua pelejando com a doença. O
Padre Champagnat, sempre atento às necessidades de todos, muito caridoso para com os Irmãos
doentes, convida-o a vir a l’Hermitage respirar os bons ares do vale do Gier..
(Cf. Cartas nos128, 141 e outras mais adiante).
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 4 de agosto de 1837.
Caríssimo Irmão Apollinaire,
Senti demais não ter podido esticar minha viagem até Saint-Paul-Trois-Châteaux (cf.
Carta no 122). Desejava encontrar-me com você, a fim de lhe proporcionar todo consolo de
que eu seria capaz.
O que mais me aborrece é que me disseram que você anda adoentado. Caro amigo,
você não pode ficar doente a ponto de não poder se levantar. Se você estivesse no quartel, os
chefes lhe dariam um tempo para você se restabelecer. Peça licença ao Padre Mazelier e venha
restabelecer-se conosco. Se não conseguir seu Certificado no mês de setembro, vai consegui-
lo mais tarde, não queremos enterrá-lo tão cedo, você não trabalhou ainda bastante para o céu!
Estou sentidíssimo por saber que você está doente. Atire-se nos braços da Mãe de
todos nós, ela ficará comovida com a situação de você e de seus coirmãos. Ela saberá
perfeitamente dar um jeito nisso.
Diga ao Padre Superior o quanto você lastima de não poder prosseguir até o fim seus
estudos para o Certificado. Caso ele julgue oportuno, peça ao médico um atestado para
apresentá-lo ao senhor Prefeito.
Agradeça cordialmente ao Irmão que lhe ministrou as lições e a todos os que lhe
prestaram algum serviço. Quando ficar curado, poderá voltar para Saint-Paul.
Adeus, meu caro irmão, deixo-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, nos quais
sou seu dedicado pai.
Champagnat
P.S. Se o Irmão Victor puder esticar até o mês de setembro, poderá apresentar-se aos exames
junto com os Irmãos Cyprien e Andronic.
172
127 – Ao Padre JEAN CHOLLETON, Vigário Geral de
Lião.
5 de agosto de 1837.
Cholleton responde ao pedido de renovação dos poderes do Padre Champagnat e autoriza a
tomada de hábito dos noviços.
Os Padres Maristas residentes em l'Hermitage tinham conseguido a faculdade de confessar,
em 22 de outubro de 1830. De ano para ano, esses poderes eram prorrogados pela autoridade
eclesiástica de Lião, de quem dependiam. O Padre Champagnat diz na carta que no dia anterior, 4 de
agosto, seus poderes tinham expirado. Mas, com a aprovação pontifícia em 1836, Roma concedeu
poderes especiais à Sociedade de Maria. Por isso é que Cholleton responde ao pedido do Padre
Champagnat: "Fiat ut petitur usque ad revocationem", como costumava fazer cada ano. “Seja feito
assim como pede até a revogação desses poderes.” Em vista das faculdades especiais recebidas de
Roma, à expressão "usque ad revocationem", Cholleton acrescenta: “até a revogação dos mesmos
poderes, que aliás não foram revogados no dia 4, se o senhor era Marista neste dia.”
Revmo. Vigário Geral,
Esta manhã, enquanto estava confessando, veio-me à lembrança que meus poderes
estavam por expirar. Logo saí do confessionário e fui ver minha folha. Meus poderes
terminaram ontem, dia 4 de agosto. Rogo-lhe o favor de prorrogá-los, se julgar bom, usque ad
revocationem (até a revogação dos mesmos), seria uma preocupação a menos. Já vai para
vinte e um anos que peço prorrogação de meus poderes; mas, faça como lhe parecer melhor.
Estou projetando mais uma Tomada de Hábito, no dia 15 de agosto, dia da Assunção,
se o senhor me der a licença.
Por aqui as coisas vão indo, como o senhor sabe. Sempre à míngua de operários.
Somos acossados de tantos pedidos que mal damos conta de responder.
Vamos fazer uma novena para pedir operários, para que o campo do Soberano Senhor
não fique sem ser cultivado. Por favor, tenha a bondade de unir suas fervorosas preces às
nossas, e creia na sinceridade do devotamento com o qual, Senhor Vigário Geral, tenho a
honra de ser, com profundo respeito, seu muito humilde e obediente servidor.
Champagnat
173
128 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Châteaux, Drôme.
6 de agosto de 1837.
O Padre Champagnat apresenta ao Padre Mazelier a situação dos Irmãos que estão sob seus
cuidados, no que diz respeito ao serviço militar. O Irmão Colomban (Jean Mourgue. Cf. Carta n o
116) era de família bastante pobre. As famílias abastadas que tivessem um filho sorteado para o
serviço militar podiam conseguir isentá-lo, mediante pagamento a outro jovem que fizesse o serviço
no lugar dele. Um jovem que fosse sorteado com um número muito alto podia escapar do serviço ou
prontificar-se em lugar de um companheiro que o pagasse. Como o tempo de serviço militar na
França daquela época era de sete anos, famílias abastadas podiam pagar uma boa soma para um
filho de família pobre que não tivesse sido chamado a servir.
A quantia de 400 francos a que Champagnat alude no final da carta se destina a pagar a
pensão dos Irmãos que estavam em Saint -Paul, mandados de l'Hermitage para lá.
Notre Dame de l’Hermitage, 6 de agosto de 1837.
Jesus, Maria, José
Padre Superior,
O Irmão Colomban está voltando a ficar com o senhor para continuar a se instruir e
para ficar às suas ordens, firmemente decidido a fazer o que o senhor desejar dele. É muita
sorte para ele encontrar no seu aconchego um meio de escapar ao serviço militar, porque não
teria recursos pecuniários para isso.
Achamos que o Irmão Martin não está preparado para se apresentar aos exames do
Certificado. Rogamos o favor de mandá-lo para cá logo, se julgar boa esta medida. Se o Irmão
Apollinaire continuar sujeito aos achaques, talvez fosse vantajoso para ele submeter-se ao
exame médico e conseguir um atestado que teria o visto do senhor Prefeito, e depois vir para
l'Hermitage espairecer. Assim acabaria de se restabelecer.
Os demais Irmãos, de acordo com o que o senhor achar melhor, aguardariam aí a
época de submeter-se aos exames. Entretanto, tendo em vista a saúde delicada do Irmão
Víctor, estamos com certo receio; deixamos à sua prudência decidir se deve esperar ou não.
Recebemos sua nota de aviso, relativa ao envio dos 400 francos que lhe devemos.
Procuraremos honrar nossos compromissos, para lhe testemunhar em toda ocasião os
sentimentos de respeito e gratidão com que temos a honra de ser, Senhor Superior, seus
dedicados servidores.
Champagnat
sup. d. Irs. M.
174
129 – Ao Padre FRANÇOIS FLEURY MOINE, Pároco
de Perreux, Loire.
9 de agosto de 1837.
Na carta que o Vigário Geral escreveu a Champagnat a 7 de maio (Cf. carta n o 124), se lê
que havia doze anos o Padre Fleury andava sonhando criar uma escola de educação religiosa para
os meninos de sua paróquia. Mas, o coadjutor do Padre Fleury, mais prático e realista, fez notar que
não bastava ter recebido um bom reforço de Mademoiselle De Bretaille. Seria preciso dar tempo ao
tempo: mandar vir logo Irmãos para começar as aulas dentro de três meses era arriscado. As obras
não teriam terminado.
A presente carta do Padre Champagnat leva ao pároco as ponderações do Padre Pinchon,
no sentido de adiar a fundação para mais tarde, lá pela Páscoa do ano seguinte.
Senhor Pároco,
Faz já alguns dias que recebemos uma carta do Padre Pinchon, seu Coadjutor, na qual
me põe a par das gestões que o senhor está fazendo para a criação de um estabelecimento de
nossos Irmãos em sua paróquia.
Não podemos permanecer insensíveis ao empenho seu e das pessoas de prestígio que
se interessam por esta obra benemerente. Apesar disto, não cremos que seja possível mandar-
lhe Irmãos por ocasião da Festa de Todos os Santos.
Um pouco mais tarde, por ocasião da Páscoa, se estiver tudo pronto, poderemos
mandá-los. Pode ser que esta pequena demora não seja inútil, mas sim aproveitada para
colocar a casa em plenas condições, o que é medida muito importante, sobretudo em se
tratando de um estabelecimento que vai começar, pois a primeira impressão que produzir
dificilmente se apagará no decorrer do tempo.
O senhor gastaria muito seja para a moradia seja para as reformas de uma casa que não
comportaria senão a metade dos meninos e seria um purgatório para os professores e para os
alunos.
Não sei de nenhuma casa em Perreux que já esteja atualmente em condições de
funcionar.
175
130 – Ao senhor JACQUES GONON, Haires, Cenves,
Rhône.
9 de agosto de 1837.
Em 1830, o senhor Gonon tinha destinado parte de sua herança para a construção de uma
igreja, no município de Cenves. Rhône. Essa igreja ou capela nunca serviu de igreja paroquial.
Gonon teria feito também apelo a uma congregação religiosa para animar a vida cristã dos
habitantes dos arredores. Não está claro se ele queria também com o andar dos tempos, criar lá uma
escola.
Pelo visto, o Padre Champagnat não entendeu bem do que tratava a carta. Como sempre
costumava fazer, elogiou as boas intenções do correspondente, mas descartou a possibilidade de
estabelecer uma escola naquele lugar, por não ter a quem mandar.
Prezado Senhor,
A intenção que acalenta V. Sª de trabalhar para a glória de Deus, criando uma pequena
comunidade no castelo herdado por seu filho mais velho, só pode ser muito louvável. Deus
não o deixará sem recompensa.
A finalidade deste estabelecimento fica um pouco distante do projeto de nossa
Sociedade que é a educação cristã da juventude. Além do mais, não podemos fornecer-lhe
Irmãos de imediato, pois temos pedidos demais a satisfazer e que vieram anteriormente ao
seu.
A confiança com que S. Sª nos honra alimenta nossos sentimentos de profunda
gratidão e o desejo sincero de corresponder à sua benevolência para com nossa Sociedade.
Assim nos declaramos sempre seus dedicados servidores.
176
131 – Ao senhor CHARLES JULIEN TRIPIER, Curis-
au-Mont-d'Or, Rhône.
9 de agosto de 1837.
O senhor Tripier escreveu ao Padre Champagnat pondo-o a par de uma intriga movida
contra o Irmão Bruno e os Irmãos de Neuville. Este cidadão era dono de uma construção que o povo
chamava de "magasin" (armazém), contíguo à casa das Irmãs de São Carlos. Estava a serviço da
escola dos Irmãos que lá faziam funcionar duas salas de aula, uma capela e um dormitório, bastante
vasto, para internos.
As Irmãs queriam ocupar este "magasin" para o serviço pastoral que exerciam. Pediram ao
Vigário Geral Padre Cattet que as ajudasse a conseguir aquela ocupação. Por trás delas e do
Vigário Geral manobrava o pároco Padre Chirat, a favor das Irmãs.
O Irmão Bruno, Diretor da escola de Neuville se opôs ao que pretendiam as Irmãs. O senhor
Tripier também não concordava com a transferência. Foi falar com o Pe. Cattet: “Então o senhor
quer entregar às freiras uma casa que é minha e que eu dei aos Irmãos!? Isso é idéia liberal” (da
Revolução Francesa). Escreveu ao Padre Champagnat para defender o Irmão Bruno, que tinha sido
apontado às autoridades eclesiásticas como sendo o articulador da oposição às Irmãs.
Depois de conferenciar com o Irmão Jean-Baptiste que fora o Diretor de Neuville de 1826 a
1830, o Padre Champagnat escreve ao senhor Tripier a carta que segue.
Mui honrado senhor Tripier,
Dentro de poucos dias, terei necessidade de viajar para Couzon. Não fosse isso, teria
correspondido imediatamente a seu convite e, como se costuma dizer, teria podido matar dois
coelhos de uma só cajadada. Assim como o senhor, também eu lastimo as guerrilhas que estão
fazendo em Neuville contra nossos Irmãos. Diga a eles, por favor, que essas pequenas
contradições em nada diminuem a recompensa que devem esperar do céu. Digo "pequenas
contradições", porque tudo aquilo que não é pecado é coisa pouca. Penso que, com um pouco
de paciência, tudo acabará.
No que diz respeito ao "magasin", meu parecer é que deve ficar somente com os
Irmãos, ou então trocá-los de moradia. O Irmão Jean-Baptiste a quem falei sobre o caso, pensa
como nós. Seria até desejável poder distanciar mais os dois estabelecimentos, em vez de falar
de aproximá-los. Em suma, aprovo perfeitamente seu parecer, como o do Irmão Bruno.
Acho também que o Vigário Geral Padre Cattet e o senhor pároco vão ter a mesma
opinião.
Bem que nossa escola de Neuville tinha necessidade de um homem como o senhor,
gente que não recua diante de nada, gente que sabe passar por cima das dificuldades e preveni-
las.
Digníssimo fundador da escola de Neuville, queira receber meus sinceros
agradecimentos, esperando que consiga uma justa recompensa da parte de Deus! Tenho a
honra de ser, com todo respeito, seu dedicado servidor,
Champagnat
P.S. Eu não me oporia a que os Irmãos, ao mesmo tempo que tomam seu descaso, prestassem
algum serviço à igreja.
Notre Dame de l'Hermitage, aos 9 de agosto de 1837.
177
132 – Circular aos Irmãos.
12 de agosto de 1837.
Champagnat convida os Irmãos para o retiro e as férias em l'Hermitage, como tinha o
costume de fazer todo ano. Fala com emoção da "jolie chapelle" que foi benta por Dom Pompallier
no ano anterior. É mais do que justo seu intenso regozijo, pois a linda capela lhe tinha custado
muitos suores. Foi a rudes golpes de picareta que Champagnat arrebentara o rochedo que estorvava
a construção do lado do poente. "Lá onde se ergue a capela atual, havia um bruto rochedo,
propriedade do senhor Montellier. O rochedo limitava o pátio interno, para o qual se entrava do lado
do Gier, no lugar onde se encontra a cozinha atualmente."
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, Saint Chamond, 12 de agosto de 1837.
Meus caríssimos Irmãos,
Nossas férias deste ano começarão no dia 28 de setembro, como no ano passado.
Façam tudo o que for necessário para chegar pontualmente no dia primeiro de outubro, que
procuraremos celebrar da maneira mais solene que pudermos, em nossa linda capela. Gosto
muito de comunicar-lhes esta determinação, sabedor que sou de sua submissão e docilidade.
Queridos filhos em Jesus e Maria, como é bom e agradável para mim, pensar que,
dentro de poucos dias terei o grato prazer de, com o salmista, dizer a todos vocês, num grande
abraço: "Quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum!" (Como é bom, como é
agradável habitarem os Irmãos numa mesma casa!) Muito grato é o consolo de vê-los reunidos
num só espírito e num só coração, formando uma só família, todos se empenhando em buscar
a glória de Deus e o progresso de sua santa religião, combatendo sob o mesmo estandarte da
augusta Maria!
O retiro, na medida do possível, começará logo a seguir. Tenho a honra de ser para
vocês devotado servidor.
Champagnat
Na cópia que foi mandada para Saint Didier-sous-Rochefort, a Circular traz o seguinte
pedido:
Um breve informe do acontecido no seu estabelecimento: número de alunos que
freqüentaram a escola... é o que nos daria prazer.
E mais o aviso: Temos uma casa em La Grange Peyre destinada aos postulantes que
ainda não atingiram a idade de 15 anos. A pensão é de 300 francos anuais.
178
133 – Ao senhor JEAN-MARIE DE POMEY, prefeito
de Amplepuis, Rhône.
30 de agosto de 1837.
A primeira carta (a de no 117) comete um exagero estimando em 300 para 400 o número de
alunos que a escola de Amplepuis poderia ter. Esta aqui reduz o cálculo para 200. Mas, o Padre
Champagnat responde ao pedido do prefeito, dizendo que deseja primeiro ter o aval do novo pároco,
Padre Dutour. Já estava nomeado, mas ainda não era conhecido o placet do governo.
Senhor Prefeito,
Não lhe posso adiantar nesta resposta senão o que já lhe escrevi precedentemente (cf.
Carta no 117). O Padre Dutour julgou que não podia agir oficialmente, porque ignorava se sua
nomeação seria aprovada pelo governo. Nem nós podemos agir, sem estarmos bem inteirados
das intenções do futuro Pároco. Pode ser que pense diferente.
A aprovação do senhor Prefeito e do Conselho Municipal constitui para nós motivo
bastante animador. Porém, para criar um estabelecimento sólido e que prossiga com passo
firme, faz-se mister conseguir a anuência e o pedido do senhor Pároco, que exerce a principal
influência sobre a escola.
Mesmo que as aulas não tivessem mais do que 200 alunos, não bastariam dois nem
três Irmãos.
Prezado senhor, queira aceitar nossos protestos de elevada estima e consideração, bem
merecidos por seu zelo e pelo trabalho que se dá para a glória de Deus e a salvação das almas.
Fique certo dos sentimentos de afeto e gratidão, com os quais tenho a honra de ser, com todo
o respeito, Senhor Prefeito, seu dedicado servidor,
Champagnat
179
134 – Ao Padre FRANÇOIS FLEURY MOINE, Pároco
de Perreux, Loire.
2 de setembro de 1837.
Champagnat responde a uma carta de 28 de agosto na qual o Padre Fleury insiste com ele,
importunando-o por assim dizer, pois promete rapidez e eficiência nos trabalhos de organização da
escola que tenciona confiar aos Irmãos.
A resposta também saiu um tanto áspera, como se poderá verificar tanto no começo, como no
fim: Sempre lhe disse. temos razões de sobra para insistir em dar um tempo, antes de ocupar o
prédio. Portanto, nada de atropelos.
É o que lemos por entre as linhas. Assim mesmo, três Irmãos foram mandados para
Amplepuis ainda naquele ano.
Senhor Pároco,
Sempre lhe disse que eu não conheço em Perreux casa alguma que possa servir como
escola, a escola para a qual o senhor quer nossos Irmãos. Disse também que o mais certo seria
pôr mãos à obra logo logo, para que a construção que o senhor resolveu fazer esteja pronta
para o ano que vem, de acordo com nosso prospecto. Os Irmãos não podem habitar no prédio
senão depois de um ano de terminado. Temos razões de sobra para não abrir mão deste
proceder.
O meio que o senhor pretende tomar para obviar à estreiteza de espaço não deixa de
ter seus inconvenientes. Não admitir os mais jovens ou despedi-los para dar lugar aos maiores,
é abrir as portas aos queixumes e murmurações, e os pais, ciosos da educação de seus filhos,
enxotados, vendo-se preteridos, terão maior razão para dirigir-se às escolas vizinhas.
Eis então o que convém fazer, senhor Pároco: Empregar na construção de um prédio
próprio o dinheiro que gastaria no aluguel, ou na confecção do mobiliário destinado aos
Irmãos, a fim de que só apareçam em Perreux quando tudo estiver pronto e em condições.
Nesse caso, faremos tudo o que depender de nós para que sua escola funcione a contento seu e
para alegria de todos os seus bons paroquianos. Proceder diferentemente seria expor-se a
todos os pesares, aborrecimentos e atrapalhadas que acompanham e seguem a precipitação
naquilo que a gente empreende
Acredite, senhor Pároco, no grande interesse que tenho por seu estabelecimento e
queira aceitar os sentimentos de respeito com que tenho a honra de ser, Senhor Pároco, seu
dedicado servidor.
Champagnat
180
135 – Circular por ocasião da morte do Irmão
DOROTHÉE.
4 de setembro de 1837.
O Padre Champagnat lembra aos irmãos o que a Regra remetida no começo do ano,
prescreve como sufrágios à memória dos falecidos. Dois Irmãos precederam o Irmão Dorothée neste
mesmo ano: O Irmão Hilaire, falecido aos 19 de março e o noviço Irmão Rupert.
Já a partir de então estabeleceu-se o costume de cantar a SALVE RAINHA, ao terminar a
encomendação do defunto. (Ver outras orações e missas prescritas na primeira Regra dos Irmãos, no
cap. XI, para um noviço e para um Irmão professo; também para os associados e benfeitores
falecidos.)
Meus caríssimos Irmãos,
O Senhor acaba de chamar a si o nosso querido Irmão Dorothée. Desde faz muito
tempo uma dor no peito exercitava sua paciência e aumentava seus méritos, quando uma
hemoptise das mais violentas o obrigou a ficar de cama.
Ele constatava, sem se inquietar, a dissolução de seu organismo e experimentava o
desejo ardente de ir celebrar no céu com os Anjos e Santos a Assunção da Santíssima Virgem.
Passada a Festa, cessaram completamente os vômitos de sangue. Nosso querido Irmão
aproveitou da trégua que lhe dava a doença, para se preparar para a hora derradeira. Que
placidez! Que tranqüilidade! Que alegria deixou ele transparecer durante este intervalo,
sobretudo no último dia de sua vida!
Foi num sábado, dia 2 de setembro. Já de manhã cedo recebeu os últimos sacramentos.
Nunca pareceu tão feliz, ocupado como estava inteiramente com o bom Deus. Sua alma só
esperava, por assim dizer, as últimas preces da Igreja, para levantar vôo. Pelas três horas da
tarde, foram-lhe aplicadas as indulgências e durante a recomendação de sua alma, adormeceu
tranqüilamente no Senhor.
Todos os que presenciaram esta morte lhe têm inveja. Todos querem à porfia ficar
junto dele.
O enterro foi hoje, dia 4 de setembro, com todas as cerimônias prescritas para um
Irmão professo. Estamos agora avisando a todos para rezarem por ele as preces marcadas no
Cap. XI, art. 3, no 2 e 3 da Regra.
Sem dúvida é a primeira vez que vocês cumprem, prazerosos, este dever para com um
Irmão que nos é tão caro e que podemos contar no número de nossos intercessores junto à
Mãe de todos nós.
É deste modo, meus caríssimos Irmãos, que nós recolheremos o que tivermos
semeado. Tal vida, tal morte! Tal morte, tal eternidade. Deus nos chamou a sermos santos.
Portanto, eu conjuro vocês a progredirem cada vez mais em seu amor, a porfiarem em viver na
sua paz, a se esmerar cada qual naquilo que for de seu dever, a fim de que tudo o que está em
vocês, espírito, alma e corpo, tudo se conserve sem mancha para a vinda de Nosso Senhor
Jesus Cristo (Cf. 1Ts 4 e 5).
Aguardando o prazer da chegada de vocês, eu vos abraço mui afetuosamente nos
Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Champagnat
181
136 – Ao Padre JEAN FRANÇOIS RÉGIS PEALA,
Pároco de Tence, Haute-Loire.
24 de setembro de 1837.
Situada nas montanhas do Velay, a escola de Tence interessava muito ao Padre Champagnat.
É uma região de cristãos fervorosos de cujas famílias poderiam surgir vocações religiosas. Mas,
vários obstáculos impediram a realização imediata dos seus sonhos.
Infelizmente os Maristas só apareceram em Tence em 1938, 100 (cem!) anos depois deste
pedido do Padre Peala. (Cf. Cartas de no 121, 283 e 335)
Senhor Pároco,
Quase tínhamos perdido de vista o estabelecimento de Tence, porque desde muito
tempo, ninguém nos falou mais nada, de sorte que já não podíamos pensar nele.
Sua carta acaba de despertar nossa atenção para este caso, e como o senhor nos oferece
um estabelecimento com fontes de pagamento garantidas, colocá-lo-emos entre os primeiros
que iremos abrir, contanto que a escassez de candidatos não nos obrigue a um prazo que faça
o senhor mudar de planos.
Nossos Irmãos entram agora em férias, vão começar o retiro. Com isso, julgue o
senhor mesmo, senhor Pároco, se me é permitido ausentar-me durante este tempo...
É só depois da Festa de Todos os Santos que eu poderei dar-me o luxo de ir visitá-lo.
E é isso mesmo que vou fazer, de acordo com a resposta com que o senhor se dignar honrar-
me, resolvido como estou a não descuidar nada, a fim de corresponder ao zelo e à
generosidade que o animam em favor da glória de Deus e da educação dos meninos.
Sou, com respeito, senhor Pároco, seu mui dedicado servidor,
Champagnat
182
137 – Ao Padre JEAN FRANÇOIS BERNARDIN
FUSTIER, Pároco de Saint-Felicien, Ardèche.
24 de setembro de 1837.
Sendo final de ano letivo na França, Champagnat responde ao Padre Fustier que a época
não é favorável a que se faça uma nova fundação. Promete fazer-lhe uma visita para se inteirar
pessoalmente das condições da futura escola. Roga que seja concedido um prazo, dizendo que se não
puder ir pessoalmente mandará um Irmão.
Senhor Pároco,
Por ora, é-me impossível atender o seu honroso pedido. Os Irmãos estão chegando
para as férias e logo entrarão em retiro, de sorte que não me sobrará nenhum momento antes
da Festa de Todos os Santos, época da entrada das aulas.
Por mais numerosas que sejam minhas ocupações e as viagens que ainda tenho que
fazer, talvez eu possa ir visitá-lo ou mandar algum Irmão para que acerte com V. Revma. o
que é preciso fazer para que se possa concretizar seu projeto.
Estou deveras empenhado em proceder de acordo com V. Revma. e de contribuir com
tudo o que puder para o bem de sua paróquia, tendo em vista a maior glória de Deus, mas não
vejo como mandar Irmãos ainda este ano.
Queira, senhor Pároco, continuar a honrar-nos com sua benevolência e com o auxílio
de suas preces, a fim de que nossa Sociedade possa cumprir os desígnios que Deus tem sobre
ela, e que em breve o seu santo projeto se torne realidade.
Com profundo respeito, venerando Pároco, seu dedicado servo,
Champagnat
sup. dos Irmãos
183
138 – Ao Padre MICHEL MARIE DUTOUR, Pároco de
Amplepuis, Drôme.
25 de setembro de 1837.
Conforme ficou dito atrás, nas Cartas de no 117 e 134, o Padre Champagnat sabendo das
intenções do novo pároco, se mostra interessado em fundar uma escola em Amplepuis. Seria para o
ano seguinte, pois o pedido chegou nos dias próximos ao retiro e às férias em l'Hermitage, período
em que obrigatoriamente o Padre Champagnat queria estar todo o tempo com os Irmãos. Não
poderia ir visitar o local, como costumava fazer antes de mandar os Irmãos.
Digníssimo senhor Pároco,
Agora que conhecemos oficialmente sua intenção e a da importante paróquia
sabiamente confiada a seus cuidados, procederemos de acordo com o que sabemos. Desejo
muito travar conhecimento com V. Revma. e com o simpático senhor De Pomey. Não posso
ausentar-me agora nem por um momento, enquanto os Irmãos estão chegando e no curto
espaço de tempo em que estiverem aqui na casa mãe. Mas, assim que voltarem para seus
estabelecimentos, terei pressa em chegar até aí, e colocar-me às suas ordens.
Nosso maior desejo é proporcionar uma instituição sólida e religiosa aos municípios
que nos honrarem com um pedido de Irmãos. Mas, neste ano é-nos absolutamente impossível
fornecer-lhe Irmãos. Aliás, a esta altura do ano, não haveria tempo de fazer os reparos
necessários à instalação de um estabelecimento mantido pelos Irmãos, num vasto município
como este que lhe foi confiado.
Queira receber o testemunho de respeitosa consideração com que tenho a honra de me
ser, digníssimo senhor Pároco, seu servo atento,
Champagnat
184
139 – Ao Padre PAUL MARIE ROVONON, Pároco de
Caluire, Rhône.
25 de setembro de 1837.
Não é a primeira vez que o pároco de Caluire pede Irmãos. E como da primeira, desta vez
ainda não pôde ser atendido. Por ora, só a promessa para quando seja possível. Por razões que
ignoramos, diz o Irmão Paul Sester, Caluire não teve uma escola dirigida pelos Irmãos, apesar de
distar de Lião apenas três quilômetros.
Senhor Pároco,
É mesmo certo que não mais contávamos com o pedido que o senhor tivera a gentileza
de fazer-nos. Estamos longe de poder atender a todos os pedidos que nos são dirigidos, vindos
de toda a França. Não me atrevo a fixar condição nenhuma para seu estabelecimento, digo-lhe
simplesmente que teria muito prazer em confiar nossos Irmãos a seus cuidados. Sei que
estariam em boas mãos; o senhor pároco de Neuville me segredou duas palavras a esse
respeito.
Agradeço-lhe muito a confiança que deposita em nós, não esquecerei seu pedido. Será
atendido tão logo seja possível.
Queira aceitar a certeza do devotamento, senhor Pároco; tenho a honra de ser seu mui
devotado servidor,
Champagnat
185
140 - Ao senhor JEAN AIMÉ JOVIN DESHAYES,
prefeito de Saint-Jean-de-Bonnefonfs, Loire.
26 de setembro de 1837.
Nomeado prefeito de Saint-Jean-de-Bonnefonds, pertinho de Saint-Chamond, o senhor
Deshayes concebe a idéia de dotar seu município de uma escola de Irmãos. Champagnat se mostra
favorável à idéia, embora não possa atender de imediato. Alimenta a esperança de conseguir o apoio
deste prefeito para a causa da autorização legal do Instituto.
A escola de Saint-Jean-de-Bonnefonds foi fundada em 1844, depois que Deshayes fora
nomeado prefeito de Saint-Etienne, em 1840. Infelizmente, o prefeito que apoiou o projeto da
autorização (cf. Cartas de no 174, 227 e 228), não pôde ver a realização de seus sonhos, pois a morte
o colheu poucos meses antes da abertura da escola.
Prezado Senhor,
Foi com particular interesse que recebi sua honrosa missiva. Achamo-nos em número
por demais reduzido para podermos fornecer-lhe Irmãos neste ano, mas tomamos nota de seu
pedido; procuraremos, no menor espaço de tempo possível, corresponder ao seu empenho pela
educação cristã da juventude. Espero para depois da Festa de Todos os Santos poder reservar
um tempo para lhe fazer uma visita proveitosa. O retiro dos Irmãos que vêm para as férias me
impede de fazer esta visita antes daquela data.
Tenho a honra de ser, com respeitosa consideração, seu mui dedicado servidor,
Champagnat
186
141 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, de Saint-Paul-Trois-
Châteaux.
28 de setembro de 1837.
O Padre Mazelier acabara de transmitir a Chamgnat o teor de uma carta do Ministro
Salvandy. Nela o Ministro pede um levantamento sobre as condições em que se acha a instrução
naquela região; mostra interesse em conhecer o trabalho das escolas religiosas no campo da
instrução. Quer apresentar esses dados ao Rei e às Câmaras.
Por esta razão, Mazelier sugere ao amigo que faça novo pedido para conseguir a aprovação
definitiva dos Maristas, apresentando ao Ministro um quadro atual mais completo dos serviços que
os Irmãos estão prestando à França.
Jesus, Maria, José.
Senhor e mui digno Superior,
As novas demonstrações de benevolência para com nossa Sociedade nos incitam aos
mais vivos sentimentos de gratidão. Aproveitaremos de seus conselhos e da boa vontade do
senhor Ministro para com as escolas cristãs. Sua Excia. o senhor bispo de Belley
graciosamente continua a manifestar benevolência para conosco. As autoridades civis dos
arredores consideram com bons olhos o trabalho de nosso Instituto e parecem bem dispostas a
favorecer-nos. Contudo, não esquecemos que trabalharíamos em vão se o Senhor em pessoa
não trabalhasse conosco.
Queira ter a bondade de unir suas orações às nossas na mesma intenção, a fim de que
tudo seja feito segundo a santa vontade de Deus e para a sua maior glória.
Tendo o mesmo objetivo e trabalhando para o mesmo patrão, desejamos andar sempre
unidos e agir no mesmo sentido. Já nos prestou e continua a nos prestar todos os dias grandes
serviços. Jamais se apagarão de nossa lembrança suas benemerências e seu paternal carinho
para com nossos Irmãos que tiveram a dita de passar algum tempo em sua companhia.
Para nós é triste não dispormos senão de palavreado estéril para retribuir a tantos
favores.
De modo particular, permita expressar-lhe a nossa mais do que justa gratidão pelos
cuidados que o senhor prodigalizou ao nosso querido Irmão Apollinaire. Que alegria
experimentamos ao tomar conhecimento da convalescença dele! O Irmão acaba de anunciar-
nos sua chegada em casa dos pais.
É com total confiança e a mais cordial afeição que lhe peço mais uma vez de nos
tornar participantes de suas preces e de suas Missas conjuntamente com seus bons Irmãos.
Creia-me para sempre, digníssimo Padre Superior, seu mui respeitoso e totalmente
dedicado servidor,
Champagnat, sup. d. M.
N D de l’Hermitage, 28 de setembro de 1837.
187
142 – Ao Padre JOSEPH MARIE DUMAS, Pároco de
Saint-Martin-la-Sauveté, Loire.
12 de outubro de 1837.
O Padre Dumas escreveu a l'Hermitage dizendo que apresentaria para o noviciado um
parente seu, Jean-Louis. Mais tarde este candidato foi apresentado ao Padre Champagnat por um tio
de 26 anos, Barthélemy Grangier. Os dois se fizeram Irmãos Maristas.
Senhor Pároco,
Receberemos com prazer o jovem de que me fala, se de fato possuir, de acordo com o
seu parecer, as qualidades de que o senhor faz menção. Ao mesmo tempo, agradeço-lhe o
interesse que o senhor tem pela obra de Maria. Que esta Boa Mãe lhe retribua ao cêntuplo, já a
partir desta vida.
Há uma quantiazinha que se exige rigorosamente do candidato, quando se apresenta
em nossa casa., Serve para pagar uma série de pequenas coisas que lhe serão de primeira
necessidade. São portanto, 50 francos que exigimos. Tenha a bondade de dar ciência disto ao
jovem postulante.
Esteja seguro, senhor Pároco, do devotamento com que tenho a honra de ser seu mui
humilde servo,
Champagnat
188
143 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, Bispo
de Belley, Ain.
18 de outubro de 1837.
O bispo de Belley pedia a abertura de um noviciado em Saint-Didier-sur-Chalaronne. (cf.
Carta de 11 de outubro de 1837) Pedia também um ou dois Irmãos para Thoissey e mais três para
Nantua.
Com a prática já adquirida para julgar das condições exigidas para fazer funcionar uma boa
escola, o Padre Champagnat faz ao bispo alguns reparos quanto à construção que serviria para um
noviciado preparatório.
Excia. Revma.,
Perpassa-me o sentimento da mais viva gratidão pelo apreço que V. Excia. tem por
nossa Sociedade. Este sentimento me impulsionará sempre a tentar tudo para estar de acordo
com os projetos de V. Excia., favorecendo deste modo seu zelo pastoral.
A construção de Saint Didier não deixa nada a desejar para que nela funcione a escola
para a qual foi projetada; com alguns reparos, até poderia servir para o funcionamento de um
noviciado preparatório. Mas o andar térreo e o primeiro andar já estão ocupados; o segundo é
tão baixo que o Irmão Diretor, cuja estatura não é alta, nos disse que precisava abaixar-se ao
passar debaixo dos tirantes. Acho que não é possível começar logo a obra do noviciado no
prédio.
Quanto aos Irmãos que V. Excia. nos pede para Thoissey, penso que não é possível
mandar menos de dois. É só o senhor Pároco me avisar que está tudo pronto e de acordo com
nosso prospecto, terei pressa em fazer que partam para lá. Estribado no depoimento favorável
que V. Excia. nos apresenta sobre o estabelecimento de Nantua, decidi-me a fazer tudo o que
de mim depender para fundá-lo no ano próximo. Sempre terei nos estabelecimentos que
fundar em sua diocese a dupla vantagem de colocá-los sob a vigilância imediata de meus
confrades e de demonstrar a V. Excia. o devotamento sincero e o profundo respeito com que
tenho a honra de ser, de V. Excia. o servo muito humilde,
Champagnat
189
144 – Ao Padre JEAN PIERRE CLAIR FANGET,
Pároco de Serrières, Ardèche.
19 de outubro de 1837.
Por falta de Irmãos formados, o Padre Champagnat não pôde atender ao pedido do pároco
de Serrières, no ano em curso. Também não prometeu para o ano seguinte. Se o Padre Fanget tivesse
pressa em fundar uma escola dirigida por religiosos que se dirigisse a outra congregação.
Tinham surgido naqueles tempos, muitas instituições dedicadas ao ensino. Sabendo que o
Padre Vernet não queria os Maristas na diocese de Viviers, dirigiu-se o Padre Fanget aos Irmãos da
Instrução Cristã. A escola por eles fundada ficou mais tarde com os Irmãos Maristas, quando se deu
a fusão das duas congregações, a de Viviers e a dos Maristas, a 15 de abril de 1844, após a morte do
Padre Vernet.
Senhor Pároco,
Um estabelecimento de nossos Irmãos em sua paróquia seria, sem dúvida, de interesse
para nossa Sociedade, porque serviria para centralizar os demais estabelecimentos que temos
nas proximidades, mas não vejo a possibilidade de lhe fornecer Irmãos neste ano, nem sequer
no próximo. Se o senhor não puder esperar por mais tempo, é melhor que providencie
professores de outras proveniências.
Será sempre um prazer para nós tomar conhecimento do êxito de gente que trabalha
para a educação cristã da juventude. A messe é tão grande que os operários não são
suficientes.
Se, porém, o senhor persistir na idéia de ter Irmãos nossos, procuraremos ir em auxílio
de seu zelo, do melhor jeito, e o mais cedo possível.
Eu sou com profundo respeito, senhor Pároco, seu muito humilde e dedicado servo,
Champagnat
190
145 – Ao senhor HIPPOLYTE JAYR, Prefeito do
Departamento do Loire.
29 de outubro de 1837.
Vimos na carta de no 113, o pedido que o Padre Champagnat dirigiu ao Ministro da
Instrução Pública, para conseguir reverter em benefício da casa de l'Hermitage a quantia de que fala
o Art. 15 da Lei de 28 de junho de 1833, ou seja, o pecúlio formado pelo depósito de 1/20 do
ordenado de cada professor diplomado.
O Ministro Salvandy deve ter transferido para os prefeitos do Loire e do Ródano a execução
da medida, pela qual se pronunciou favoravelmente.
Nesta carta, o Padre Champagnat agradece ao prefeito departamental por ter autorizado os
Irmãos de Valbenoite a receber a quantia que estava depositada na poupança, formada por 1/20 do
seu ordenado mais os juros. Agora os Irmãos poderiam dispor desta quantia em favor da casa de
l'Hermitage, que arcava com enormes despesas.
Senhor Prefeito,
V. Excia. teve a bondade de nos autorizar a retirada do depósito do um vinteavos.
Senhor Prefeito,
venho manifestar-lhe nossa mais do que justa gratidão pela gentileza que teve para
conosco, autorizando-nos a receber de volta a quantia resultante da taxa cobrada sobre o
pagamento de nossos Irmãos, no município de Valbenoite.
Recebemos esta quantia com o sentimento da mais sincera gratidão. A sua
benevolência para com nossa Sociedade nos anima a lhe pedir o mesmo benefício em favor
dos outros estabelecimentos que temos dentro de seu Departamento e cuja súmula anexamos.
Espero da equidade de V. Excia. o mesmo despacho favorável ao meu pedido e me
subscrevo, com profundo respeito e total devotamento, Senhor Prefeito, seu servo muito
humilde e obediente,
Champagnat
191
146 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, Bispo
de Belley, Ain.
30 de outubro de 1837.
O padre Champagnat dá seu parecer sobre o projeto de noviciado de Saint-Didier e sobre as
escolas de Thoissey e de Verjon. Aproveita a ocasião para pedir ao Prelado seu parecer sobre a
conveniência de retomar as tentativas para a obtenção da autorização legal do Instituto.
Excia. Revma.,
Parece-me que a estação (do outono) está por demais adiantada para que comecemos
as reformas necessárias para o noviciado de St-Didier. Talvez fosse melhor esperar a volta da
primavera; teríamos tempo de fazer nossos arranjos mais à vontade, a fim de que tudo seja
bem feito segundo as suas intenções, para a maior glória de Deus e o bem da religião.
O particular interesse com que V. Excia. se digna honrar nossa Sociedade faz com que
renovemos a cada ocasião nossos sentimentos de gratidão e o desejo de corresponder a seu
zelo verdadeiramente apostólico, na medida em que formos capazes.
O senhor Pároco de Thoissey acaba de nos pedir que lhe mandemos dois Irmãos na
Festa de Todos os Santos. Acudimos com presteza a seus desejos. Os Irmãos partirão logo,
logo.
Sabemos através do Pároco de Verjon que o município ainda não está podendo arcar
com os gastos do estabelecimento de nossos Irmãos, mas diz que o senhor Prefeito continua
desejando com todas as veras ter um estabelecimento desta natureza e que, se mais tarde o
município se achar bastante forte para suportar os gastos, não deixará de nos prevenir.
Algumas pessoas benévolas, gente de posição social, insistem para que intentemos
novamente conseguir a aprovação de nossos Irmãos pelo Governo. Como sempre
consideramos dever nosso fazer uma consulta à clarividência de V. Excia. em nossos
empreendimentos, - medida com que só temos que nos congratular - permita-nos vir à sua
presença para pedir um conselho a respeito dessa tentativa. Caso V. Excia. dê sua aprovação,
rogamos o favor de nos fornecer uma carta de recomendação.
Sou com profundo respeito, Exmo. senhor Bispo, de sua grandeza o humilde e
dedicado servidor,
Champagnat
192
147 – Ao Padre JANY-TACHE, Pároco de La Frette,
Isère.
outubro de 1837.
O nosso já conhecido doente crônico, Irmão Apollinaire, foi descansar na família, em La
Frette. Como vários outros Irmãos originários do lugar se filiaram à Congregação, o Padre
Champagnat escreveu ao pároco agradecendo pelos bons serviços prestados aos Irmãos,
particularmente ao Irmão Apollinaire.
Senhor Pároco,
Estou obrigando o senhor a esperar um pouco a resposta à carta que me fez a honra de
me escrever na data de 7 de outubro, mas, como desejo aquiescer a seu pedido relativo ao
Irmão Apollinaire, tive primeiro que fazer as colocações de nossos Irmãos, para satisfazer a
todas as necessidades. Estou satisfeito em poder servi-lo em se tratando deste bom Irmão por
quem o senhor se interessou particularmente. Como fazemos muita questão que cuide da
saúde, somos muito gratos ao senhor pelas atenções que tem para com ele e pelos cuidados de
que o cerca.
Teria sido para mim um imenso prazer se o tivéssemos em nossa casa por alguns
momentos, a fim de poder manifestar-lhe de viva voz quanto fico sensibilizado pelo apreço
que tem por nossa Sociedade. Assediado como venho sendo de pedidos incessantes de novos
estabelecimentos e sentindo toda necessidade da educação religiosa, nunca aplaudirei
suficientemente o zelo dos bons pastores que se prontificam a me ajudar para propagá-la.
Só temos que nos congratular pelos excelentes candidatos que nos chegam de sua
paróquia modelar; são piedosos e todos, em geral, se capacitaram a nos prestar serviços.
Por isso, senhor Pároco, pode contar conosco sempre que pudermos, de qualquer
maneira, dar a nossa contribuição ao seu zelo pela educação de seus queridos paroquianos,
sobretudo de sua cativante mocidade. Embora nossos planos não estejam orientados de modo
especial para esta ou aquela diocese, contudo, visto que pelo Breve de aprovação o Soberano
Pontífice nos consignou as dioceses de Grenoble, Lião e Belley, se for preciso dar preferência
a alguma, dirigir-nos-emos a essas, sobretudo para as paróquias que, a exemplo da sua, nos
tem mandado os melhores aspirantes. Participo do seu desencanto referente ao pobre do
Ferrendière. A saída dele muito nos surpreendeu e ainda me pergunto qual teria sido o motivo.
Não conheço suficientemente as disposições de seus pais no sentido de usar medidas mais
duras com ele; aliás, seria coisa completamente fora de nossos costumes e acho que não daria
em nada. Acredito mais na força dos bons conselhos e das salutares correções que receberá da
caridade do senhor. Se vier a corrigir-se, em consideração ao senhor e com o consentimento
dos pais, usarei com ele da maior indulgência possível.
Dentro de poucos dias, devo fazer uma viagem ao Dauphiné. Se eu puder conseguir
uma oportunidade de fazer uma visita a V. Revma., falaremos de tudo isso.
Esperando o prazer de nos encontrar, queira considerar-me animado de respeitoso
devotamento pelo qual sou, senhor Pároco, seu servo mui humilde e obediente,
Champagnat
193
148 – Aos Padres PIERRE ANTOINE DUMAS e
BARTHÉLEMY ARTRU, Párocos de Boulieu e
Peagres, respectivamente.
30 de outubro de 1837.
Para atender ao desejo que lhe estava sendo manifestado pela autoridade diocesana, o Padre
Champagnat dá imediatamente ordem aos Irmãos de Boulieu e de Peaugres de aprontarem as malas.
Pede que dêem ciência da partida aos respectivos prefeitos.
Na verdade os Irmãos não tiveram que sair nem de uma nem de outra destas localidades. A
ordem deve ter sido revogada após a intervenção do próprio bispo de Viviers.
A questão de Viviers.
As três cartas que seguem tratam do mesmo assunto: a questão de Viviers. O Padre Vernet,
superior dos Irmãos da Instrução Cristã, em 20 de novembro de 1837, mandou uma carta ao Padre
Cattet, Vigário Geral de Lião, pedindo-lhe que desse ordem aos Irmãos de l'Hermitage de não mais
porem o pé na diocese de Viviers.
Não temos esta carta, explica o Irmão Paul Sester. Assim, pois, nem o Padre Champagnat
ficou sabendo que razões imperiosas teriam movido o Padre Vernet a fazer tão estranho pedido. Só
por alusões feitas aos textos que seguem é que se poderia suspeitar de alguma acusação contra
nossos Irmãos: "Nossos Irmãos estariam causando na diocese de Viviers um impacto desagradável,
até mesmo vergonhoso à religião..."
De que escândalo estariam sendo acusados?!.
O que se sabe é que desde vários anos, antes portanto do fatídico 1837, o Padre Vernet vinha
lutando com dificuldade para manter sua obra. Afastou da diocese o Padre Rivière, que tinha
colocado à frente dos Irmãos da Instrução Cristã e determinou que nenhum eclesiástico se metesse
mais na irmandade, como superior nem mesmo como membro. Ela devia ficar inteiramente leiga. O
Superior Geral seria um dos Irmãos.
De repente, caiu como uma bomba nas mãos do Padre Champagnat o estranho pedido de
retirar os Irmãos da diocese de Viviers. Que raro exemplo de humildade e de submissão à autoridade
diocesana demonstrou o Padre Champagnat nesta tempestade!
Notre Dame de l'Hermitage, 30 de outubro de 1837.
Senhor Pároco,
De acordo com os dizeres de uma carta do Padre Vernet, superior dos Irmãos de
Viviers, escrita ao Arcebispo de Lião da parte do bispo de Viviers, nossos Irmãos seriam
causa, nessa diocese, de um desentendimento desagradável e vergonhoso para a religião. Em
vista do que, o Padre Vernet manda pelo Padre Cattet dizer ao senhor Arcebispo que nos
interdite o Vivarais.
Temos na diocese de Lião várias localidades que estão aguardando Irmãos, com
impaciência. Os senhores Vigários Maiores (Grands Vicaires), segundo esta carta, já
prometeram Irmãos de sua paróquia a um prefeito dos arredores de Lião que os solicita, faz
tempo.
Além da diocese de Lião, as de Belley, de Grenoble, do Puy, de Clermont, - em uma
palavra, de todos os recantos da França - estão pedindo Irmãos.
194
Nosso grande princípio é ficarmos firmemente unidos ao episcopado. Por isso, temos
pressa em satisfazer o pedido de seu digno Bispo, que sem nenhuma dúvida, tem excelentes
razões para proceder deste modo. Queira, pois, senhor Pároco, avisar o senhor Prefeito. O
senhor precisa arrumar um professor para a sua escola. Bem que eu gostaria de agir diferente.
Estou avisando meus Irmãos de não começarem as aulas e de não fazerem provisão de nada, a
menos que seu bispo dê uma autorização por escrito, a fim de que seja apresentada ao nosso
Arcebispo.
Tenho a honra...
Champagnat
195
149 – Ao Padre JEAN FRANÇOIS BERNARDIN
FUSTIER, Pároco de Saint-Felicien, Ardèche.
30 de outubro de 1837.
Com muita simplicidade, o Padre Champagnat dá a conhecer ao Padre Fustier, com quem se
relaciona cordialmente, o impasse surgido entre o Padre Vernet e os Irmãos Maristas da diocese de
Viviers.
"Tous nos rapports avec vous sont interrompus,” diz ele ao amigo. (“Estamos de relações
cortadas!") Parece que podemos ler, por entre as linhas, uma censura de Champagnat ao Padre
Fustier, mais ligado a ele do que ao bispo. De fato, a carta que o Padre Fustier escreveu ao Padre
Champagnat, em 15 de junho de 1840, sem saber que já tinha falecido, parece confirmar essa
interpretação.
As razões reais ou forjadas do mal-entendido não são conhecidas. Não importa. Importa,
sim, é acatar as decisões das autoridades eclesiásticas.
Senhor Pároco,
Estamos enviando ao senhor a cópia de uma carta do Padre Vernet, Vigário Geral da
diocese de Viviers, ao Padre Cattet, Vigário Mor da diocese de Lião que teve a gentileza de
no-la comunicar.
Conforme os dizeres da carta, parece que nossos estabelecimentos do Vivarais
estariam estorvando a administração episcopal, o que seria absolutamente contrário ao fim de
nossa Sociedade, que é auxiliar o zelo dos bispos pelo bem de suas respectivas dioceses.
Queremos estar em perfeito acordo com os mesmos, só empreendendo e levando a efeito
obras com o beneplácito e a aprovação deles, para a maior glória de Deus.
Senhor Pároco, o senhor está vendo que todas as nossas relações com o senhor estão
sendo cortadas, a menos que o senhor se acerte nesse ponto, junto a seus superiores.
Mas, sejam quais forem as conseqüências de tal situação, de nossa parte sempre lhe
seremos infinitamente gratos pela sua benevolência para com nossa casa, que temos a peito
recomendar às suas fervorosas orações, a fim de que a santa e amável vontade de Deus se
cumpra em nós plenamente.
Continuamos incessantemente acossados de novos pedidos. Além da diocese de Lião,
as de Belley, de Grenoble, de Puy, de Clermont, de Autun, etc., nos oferecem numerosos
estabelecimentos cuja fundação estamos obrigados a adiar, na maior parte das vezes por falta
de Irmãos.
Queira aceitar os protestos de meu profundo respeito e total devotamento pelos quais
tenho a honra de ser, senhor Pároco, seu servo muito humilde e obediente,
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150 - A Dom PIERRE FRANÇOIS BONNEL, bispo de
Viviers, Ardèche.
1º de novembro de 1837.
No impasse surgido por causa da intervenção do Padre Vernet, o Padre Champagnat
demonstra total submissão e informa o bispo a respeito da decisão de retirar os Irmãos de Boulieu e
de Peaugres.
"Mesmo considerando apenas o lado humano da questão,- comenta o Irmão Paul Sester,- a
fala de Champagnat prima pela diplomacia; fez com que o bispo caísse em sua própria armadilha."
Foi com certeza devido a essa carta ter ficado a interdição sem efeito.
Excia. Revma.,
Considero-me feliz que a Providência me dê a chance de apresentar a V. Excia. minha
homenagem de respeito e de poder assegurar-lhe meu total devotamento. Teria sido sem
dúvida mais gratificante para mim apresentar-me por um motivo mais agradável, porém como
aprouve a Deus ordenar as coisas de outro modo, V. Excia. me permitirá pelo menos expor-
lhe a retidão de nossas intenções, ao mesmo tempo que lhe manifestamos nossos sentimentos.
O Padre Cattet, Vigário Geral da diocese de Lião, acaba de nos comunicar uma carta
do Padre Vernet, com data de 20 de outubro de 1837. Naquela carta, o Padre Vernet pede ao
Padre Cattet que, em nome de V. Excia., interdite aos Irmãos de l'Hermitage criar
estabelecimentos no território da diocese de Viviers.
Não duvidamos de que o Padre Vernet se decidiu a tomar tal medida guiado
unicamente por razões dignas de louvor. É por isso que estamos dispostos a subscrever
prontamente tal decisão, animados da mais respeitosa submissão.
Com tal proceder, julgamo-nos felizes por contribuirmos para a boa ordem em sua
diocese. Se a presença dos Irmãos na diocese de Viviers pode causar choque desagradável e
vergonhoso para a religião, nós é que nos sentimos profundamente consternados por isso.
Seria realmente desolador que, na hora em que o protestantismo sacrifica os pontos de vista a
que mais tem apego, para se agrupar de todos os cantos com o fim de apoderar-se a todo custo
da educação da juventude, nós pudéssemos entravar a obra de Deus numa diocese cuja sábia
condução compartilhamos vantajosamente.
Conformando-nos com a carta do Padre Vernet, na hora em que estamos
impossibilitados de satisfazer a tantos pedidos que recebemos de todos os pontos da França,
V. Excia. não levará a mal que demos ordem aos nossos Irmãos de Boulieu e de Peaugres para
não reabrirem as aulas, sem a autorização formal de V. Excia.
V. Excia. terá ainda paciência para me permitir aproveitar desta ocasião para informá-
lo a respeito do espírito de nossa Sociedade: Um dos princípios de nossas Constituições é de
jamais nos lançarmos em qualquer projeto, onde quer que seja, senão amparados e
paternalmente protegidos pelos senhores bispos. Gloriamo-nos de sempre nos comportarmos
como servos muito submissos e devotados. Portanto, desde que V. Excia. houver por bem
honrar-nos com sua confiança, nós também nos mostraremos prontos em acudir às suas
ordens que prazerosamente nos faremos uma glória executar.
197
Digne-se aceitar o profundo acatamento de quem se considera feliz em declarar-se
inteiramente, Exmo. senhor Bispo, de sua grandeza o seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat sup. Irs. M.
198
151 – Ao Padre JOSEPH DUC, Pároco de Valsonne,
Rhône.
1º de novembro de 1837.
Delicadamente o Padre Champagnat dá a entender a seu correspondente que não poderá
atender a seu pedido. Ele entendeu tão bem que nunca mais se falou em fundação marista em
Valsonne.
Senhor Pároco,
É com gratidão que recebemos sua carta e nos declaramos realmente contrariados por
não podermos ainda corresponder a seus desejos. O grande acúmulo de pedidos que nos
chegam de toda parte nos anunciam que a messe é abundante, mas a escassez de candidatos
torna para nós impossível o atendimento a todos.
Queira, portanto, receber a manifestação de nosso pesar. Aceite os sentimentos de
elevada consideração com que tenho a honra de ser, Senhor Pároco, seu servo muito humilde
e obediente,
Champagnat
199
152 – Ao Padre JEAN GAGUIN, Pároco de Saint-
Gengoux-le-Royal, Saône-et-Loire.
1º de novembro de 1837.
Em 21 de maio, Dom Bénigne escreveu manifestando o desejo de ter outra escola de Irmãos,
além daquela de Semur. (cf. Carta de no 112). Certamente são referências àquela carta as palavras
do Padre Champagnat nesta resposta ao Padre Gaguin. Mas, por enquanto infelizmente não pode
atender ao pedido. Mais adiante, na Carta de no 218, veremos a seqüência deste caso.
Senhor Pároco,
Recebemos a carta na qual o senhor bispo de Autun pedia dois Irmãos. Pelo que o
senhor me escreve, o Bispo destinaria esses dois Irmãos para a sua paróquia. Exato? Porém, a
obrigação que temos de cumprir nossa agenda de atendimentos nos coloca na triste
contingência de responder a S. Excia. que nos é impossível, neste ano, corresponder a seus
desejos.
Queira também o senhor receber a expressão de nosso pesar e aceitar os sentimentos
de profundo respeito com que tenho a honra, Senhor Pároco, de ser seu servo humilde e
obediente,
Champagnat, sup.
200
153 – Ao senhor JEAN FRANÇOIS PREYNAT, prefeito
de Sorbiers, Loire.
6 de novembro de 1837.
Se o município oferecer aos Irmãos uma casa em boas condições, eles poderão voltar a
Sorbiers. E voltaram mesmo. O Irmão Denis com mais um companheiro vão retomar o trabalho dos
Irmãos, mas só no dia 9 de novembro de 1844. Por que só depois de 9 anos de espera?
Senhor Prefeito,
Os trabalhos e o carinho que tiveram nossos Irmãos em favor dos meninos de Sorbiers
são mais do que suficientes para demonstrar aos habitantes do município a contrariedade que
experimentaram quando se viram obrigados a deixar a escola. Mas, se o senhor deseja chamar
de volta os Irmãos, conforme leio em sua carta, estamos dispostos a ir ao encontro de suas
intenções a partir de quando o município tiver fornecido a mobília, uma casa para morar,
enfim, tudo o que for necessário ao funcionamento de uma escola.
Quanto à casa dos Irmãos, estando ela à venda, já não será possível cedê-la de volta,
aliás o senhor mesmo bem sabe que, se pudesse ter servido aos Irmãos, nunca teriam eles
saído de Sorbiers.
201
154 – Ao senhor HIPPOLYTE JAYR, prefeito
departamental do Loire.
novembro de 1837.
É para recomendar ao prefeito o caso de um Irmão que deve submeter-se ao conselho da
junta militar que pode mandá-lo para a reforma. Trata-se do Irmão Théodore (Brossier Benoit). Mas,
o caso dele ainda não foi resolvido desta vez, conforme se verá mais adiante, na Carta de n. 178.
Na impossibilidade em que me encontro neste momento de ir ter com V. Excia., para
novamente solicitar sua benevolência em favor de dois de nossos alunos.
Um que o senhor mesmo viu e mandou para a reforma, em Rive de Gier e que faltou
involuntariamente, no dia da chamada em Saint-Etienne. O nome dele, pelo que me consta,
não foi riscado da lista, pois que ainda foi convocado como soldado. Além de não possuir a
estatura requerida, ele está também com uma hérnia.
O segundo é um jovem pertencente à nossa comunidade. A favor dele não pudemos
tomar nenhuma precaução para mantê-lo no ensino. É porque sofre dos nervos e ficou
paralítico durante seis meses. Depois da revisão cresceu-lhe um quisto sebáceo nos olhos e
ficou quase sem visão. Desejaríamos muito conservá-lo no ensino. Embora não esteja ainda
completamente formado, poderá prestar grandes serviços.
Queira ter em grande consideração o caso deste jovem e recomendá-lo ao capitão.
Esteja certo, senhor Prefeito, de meu total devotamento, com que tenho a honra de me
subscrever, com todo respeito, seu mui humilde servo,
Champagnat
202
155 - A um funcionário da Prefeitura Departamental,
Montbrison, Loire.
novembro de 1837.
Temos aqui um rascunho de carta que não está assinado e que seria para um funcionário,
suponhamos que conhecido do Padre Champagnat. Trata-se de pedir isenção do serviço militar para
dois jovens: o primeiro, algum tanto desmemoriado, tendo falhado ao chamado para uma revisão em
Saint-Etienne; o outro, um moço meio entrevado.
Que belo exemplo de caridade do Fundador, proporcionando ganha-pão a dois jovens, numa
ocupação condizente com a deficiência de que eram portadores.
Senhor,
Desejaria fazer-lhe um pedido em favor de dois alunos jovens de nossa casa que se
dirigem a Montbrison para tornar a passar pela revisão. Desculpe não poder acompanhá-los.
Um, por ter faltado involuntariamente no dia da revisão em Saint-Etienne, mas que foi
reformado em Rive de Gier, dois ou três dias depois. O nome dele não foi riscado da lista: foi
isento do serviço por falta de estatura e por estar com uma hérnia.
O segundo não pudemos liberar por causa de uma doença de nervos que o manteve
acamado constantemente por mais de seis meses, sem que de modo algum tenha podido
servir-se de seus membros. Hoje quase não enxerga de uma vista, devido a um inchaço na
pupila. Sem prejudicar os direitos de pessoa alguma, eu desejaria muito que pudesse ser
declarado isento do serviço militar.
Ele pode tornar-se muito útil para o ensino, embora ainda não esteja suficientemente
formado; mas isto ele conseguirá se tiver junto dele para formá-lo uma pessoa competente.
203
156 – Ao senhor HENRY LEVET, Secretário da
Prefeitura Departamental do Loire.
novembro de 1837.
Para não importunar o prefeito, vale-se o Padre Champagnat dos préstimos de um
funcionário que, na opinião do Irmão Paul Sester, seria o senhor Henry Levet. Recomenda a esse
funcionário dois outros jovens acompanhados por um Irmão para que o funcionário amigo lhes
indique o proceder que devem seguir.
A delicadeza com que o senhor me recebeu e que aliás é bem conhecida, me animou a
encaminhar a seus cuidados meus dois jovens para que recebam suas orientações.
O bom Irmão que os acompanha e que vai apresentar minha carta, lhe dirá quantos
pedidos estamos recebendo de todos os recantos do Reino, quanto os candidatos são gente
preciosa para nós, sobretudo os que são de conduta irrepreensível.
Receio muito estar importunando o senhor prefeito; sei quanto são preciosos os
momentos daquele magistrado.
Digne-se receber a confirmação da elevada consideração, com que tenho a honra de
ser, Senhor Secretário, seu respeito servidor,
Champagnat
204
157 - A Dom JEAN PAUL GASTON DE PINS,
Administrador Apostólico de Lião.
22 de novembro de 1837.
Champagnat pede a intervenção de S. Excia. para conseguir a isenção do serviço
militar do Irmão Théodore. Adverte que já pediu que fosse dispensado, como fala a Carta de
no 154.
Dom Gastão leu a carta e no cabeçalho da mesma, como era de seu costume, anotou:
"Escrevi ao General de Divisão, aos 23 de novembro de 1837." Nem assim conseguiu o Padre
Champagnat a isenção do Irmão. Deverá recorrer diretamente ao Ministro, como será noticiado
mais adiante, na Carta de no 174.
Jesus, Maria, José.
Excia. Revma.,
Sinto-me por assim dizer coberto de confusão em vista da boa acolhida que V. Excia.
se dignou fazer-me em Saint-Chamond, como também da bondade mais que paternal que V.
Excia. demonstra para com o Irmão que a convocação ameaça de nos levar embora. Não
duvido de que a recomendação de V. Excia. tenha perante o General o mais auspicioso dos
resultados.
Este Irmão se chama Benoit Brossier, filho de Jean e de Marie Crépet, nascido em
Estivareilles, cantão de Saint-Bonnet-le-Château, Loire, no dia 5 de novembro de 1815. Foi
convocado em 1835, sob o no 67, no Regimento 49.
Enquanto estávamos tomando as medidas para fazer isentar os demais do serviço
militar, ele estava de cama havia uns seis meses, completamente tolhido dos membros, em
consequência de um reumatismo que apanhou em Chavanay, dando aula numa construção
feita recentemente. Nas mudanças de tempo, ele se vê obrigado a se fechar no quarto e até a
ficar acamado.
O Irmão acima citado tem um Atestado expedido pelo prefeito do Município onde
contraiu a doença e assinado pelo médico que cuidou dele.
Continuo com o mais profundo respeito e devotamento mais sincero, de V. Excia. o
servo muito humilde e obediente,
Champagnat,
sup. d. Irs. M.
N. D. de l’Hermitage, 22 de novembro de 1837.
205
158 – Ao Irmão SYLVESTRE, La Côte-Saint-André.
25 de novembro de 1837.
O Padre Champagnat se mostrou muito paciente para com o Irmão Sylvestre. Agora que este
já se encontra em serviço em La Côte, tendo por Diretor o Irmão Louis Marie, o bom Padre lhe
dirige a seguinte carta. Dá notícias sobre as Missões, anima o Irmãozinho e transmite saudações a
todos os Irmãos da comunidade.
Notre Dame de l'Hermitage, 25 de novembro de 1837.
Meu caríssimo Irmão Sylvestre,
Meu caro amigo, desejo ardentemente que Jesus e Maria abençoem suas boas
disposições. Sua franqueza não deixará de ser abençoada, e você arrebatará o prêmio da
vitória. Coragem! Mas lhe recomendo que se mostre sempre disposto a dar a conhecer suas
disposições a seus superiores e diretores.
Recebemos uma carta dos Missionários que estão de caminho para a Oceânia. Dentro
de breves dias, lhe mandarei uma cópia. O Padre Bret morreu em Valparaíso, em plena
travessia. Os demais estão de boa saúde, muito contentes na vocação. Estão ansiosos por
arribarem ao lugar do destino. O zelo pela salvação daqueles habitantes das Ilhas do Pacífico é
o que eles mais têm a peito.
Rezemos, meus caros Irmãos, rezemos pela salvação deles e pela salvação dos que nos
são confiados. A alma dos franceses vale o preço do Sangue de um Deus tanto quanto a dos
idólatras.
Diga ao caríssimo Irmão Louis Marie que a situação dele não ficará sem bênção.
Não nos esquecemos nem de uns nem de outros. Estamos fazendo os preparativos para
Paris. Recomendem muito nossa questão a Deus para acontecer só o que Deus quer e nada de
errado: a santa vontade dele, é tudo. Em vão imaginaríamos outra coisa, em vão nos
agitaríamos, é só a vontade de Deus.
Adeus, caro amigo, deixo-os todos nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Tenho a honra de ser, de vocês, pai dedicado em Jesus e Maria,
Champagnat
sup. d. I. M.
206
159 – Ao senhor ANTOINE NICOLAS NARCISE
ACHILLE DE SALVANDY, Ministro da Iinstrução
Pública.
27 de novembro de 1837.
Animado pela esperança de conseguir a autorização através do novo Ministro, o Padre
Champagnat retoma os termos do pedido feito ao Rei Louis Philippe (cf. Carta de n o 34) e faz passar
a carta pela via hierárquica, mandando-a ao prefeito do Departamento do Loire. Este por sua vez a
fez chegar às mãos do Ministro da Instrução Pública, juntamente com um anexo: os Estatutos da
Sociedade.
Senhor Ministro,
Nascido no cantão de Saint Genest Malifeaux (Loire), tive dificuldades enormes para
aprender a ler e a escrever. Por isso, senti a urgente necessidade de fundar uma Sociedade que
pudesse com poucos gastos proporcionar às zonas rurais o ensino que os Irmãos das Escolas
Cristãs ministram nas cidades.
Elevado à dignidade sacerdotal em 1816, fui enviado como coadjutor numa paróquia
rural. Constatei pessoalmente a importância de dar início, sem mais detença, ao projeto que
vinha acalentando desde havia muito tempo. Comecei então a preparar alguns professores, aos
quais dei o nome de Irmãozinhos de Maria, convencidíssimo de que, só por causa deste nome,
se congregaria muita gente. O êxito obtido em poucos anos ultrapassou minhas expectativas.
Em 1824, com a proteção do senhor Bispo Administrador Apostólico da diocese de
Lião, auxiliado por este Prelado e pelos homens de bem da região, construi, perto da cidade de
Saint Chamond, uma casa bastante espaçosa para nela instalar a escola modelo da nova
Sociedade.
Já são 130 membros que trabalham em número considerável de municípios, ao mesmo
tempo que oitenta outros estão em preparação para trilhar os passos dos primeiros.
Aos 28 de fevereiro de 1834, depois de redigir nossos estatutos, encaminhamo-los ao
Rei, juntamente com o pedido para serem aprovados. O Real Conselho da Instrução Pública,
após leitura e exame dos mesmos, os modificou para a seguinte redação.
ESTATUTOS DA SOCIEDADE
Art. 1. Os Irmãozinhos de Maria terão como finalidade ministrar a instrução primária:
além da instrução moral e religiosa, ensinarão a leitura, a escrita, os elementos da gramática
francesa, o cálculo e o sistema legal de pesos e medidas, os elementos da geometria, o
desenho linear, o canto e os elementos de História e Geografia. Seguirão para o ensino a nova
pronúncia e o método simultâneo mútuo.
Art. 2. Serão mandados Irmãos aos municípios que os solicitarem e que garantirem a
cada Irmão uma remuneração anual de 400 francos. Embora não devam geralmente ir menos
de dois, poder-se-á erigir uma casa central de onde se dirigirão, um a um, para os municípios
próximos.
Art. 3. As escolas serão gratuitas, mas as prefeituras poderão cobrar uma taxa mensal
dos pais remediados para cobrir uma parte dos gastos do estabelecimento.
207
Art. 4. Cada estabelecimento será dirigido por um diretor local que ficará no cargo o
tempo que o Superior julgar conveniente. Não poderá, entretanto, ser afastado antes da posse
de seu sucessor.
Art. 5. Todos os estabelecimentos dependentes da Associação estarão sujeitos à
inspeção de pessoas designadas para a fiscalização pela Instrução Pública.
Vimos, pois, Senhor Ministro, rogar a V. Excia. se digne mandar sancionar estes
estatutos por um Decreto Real que dará aos Irmãos Maristas o meio de exercerem a sua
importante e difícil função, de maneira legal e muito mais proveitosa.
As autoridades civis e religiosas que conhecem nossa obra e todas as pessoas de
influência e devotadas ao bem público nos animaram a fazer esta nova tentativa.
Persuadidos de que V. Excia. gostaria de ter um apanhado sobre nossa sociedade,
transcrevemos em anexo a seguinte estatística...
Nota. Ver no livro LETTRES I, p. 308 e seguintes a longa estatística, organizada
provavelmente pelo Irmão François. Fornece um apanhado do desenvolvimento da obra de
Champagnat, apenas vinte anos após a fundação.
208
160 – Ao senhor ALEXANDRE DELON, vice-prefeito
departamental do Loire.
29 de novembro de 1837.
O Padre Champagnat emprega todos os meios de que dispõe para ver se, finalmente,
consegue a suspirada autorização legal.
Por que se dirigiu agora ao vice-prefeito do Departamento? O Art. 18 da Lei de 28 de junho
de 1833 dizia: “Em cada distrito (arrondissement) de vice-prefeitura será constituído um comitê
encarregado de fiscalizar e promover a instrução primária." O vice-prefeito presidia comitês do
distrito.
Senhor vice-prefeito,
A bondade com que o senhor me acolheu nas duas vezes em que tive a honra de
solicitar-lhe audiência, me anima particularmente a rogar-lhe que consiga do Comitê do
Distrito a formulação de um pedido, que será encaminhado ao Ministro. Finalidade:
Conseguir dele que faça sancionar a aprovação que o Real Conselho da Instrução Pública
houve por bem conceder, modificando os estatutos que nós lhe apresentamos em data de 8 de
fevereiro de 1834. Muitas pessoas influentes nos animaram a fazer novas tentativas e nos
prometem apoiar com todo prestígio que têm.
Queremos trabalhar em perfeita harmonia com o Governo. Por favor, senhor vice-
prefeito, queira auxiliar-nos. Ser-lhe-emos eternamente gratos.
209
161 – Ao Padre GEORGES METTON, Pároco de Sury-
le-Comtal, Loire.
Novembro de 1837.
Já fazia três anos que a escola de Sury-le-Comtal funcionava. Há motivo para se perguntar
por que só agora o Padre Champagnat reclama que as salas de aula não estão de acordo com as
exigências de nossos prospectos. Talvez, porque os trabalhos de instalação tenham sido mal
conduzidos. Confiando no pároco, Champagnat não vistoriou pessoalmente a obra, como era de seu
costume, antes de mandar os Irmãos começar as aulas. É preciso dizer, a bem da verdade, que esta
não é a primeira vez que a reclamação está sendo feita, nem será a última. (cf. Cartas de n o 211 e
267)
Senhor Padre,
Por maior que seja nosso desejo de lhe agradar, não podemos continuar por mais
tempo a manter a escola de Sury, se as salas de aula não se adequarem ao nosso método. É
exigência do bem dos meninos que nos são confiados, e dela não abriremos mão.
Tal é o parecer de meus confrades e dos Irmãos antigos que também consultei. É
também esta a Regra dos modelares Irmãos das Escolas Cristãs: Eles nos deveriam servir de
modelo invariável em tudo. Eis o que está escrito no “Conduite”, p. 187, no capítulo sobre a
estrutura das salas de aula: “As salas de aula devem ser sempre contíguas: a porta de
comunicação deve ser envidraçada. Devem ser previstas aberturas nas paredes ou biombos de
separação, a fim de que os professores possam ver-se um ao outro com facilidade, do próprio
lugar onde ficam."
210
162 – Ao senhor HIPPOLYTE PAUL JAYR, prefeito
departamental do Loire.
9 de dezembro de 1837.
O Padre Champagnat manda o quadro estatístico da obra marista que está em franco
desenvolvimento no Departamento do Loire e vizinhos. Ano após ano as escolas foram sendo
fundadas a pedido dos párocos e prefeitos das cidades interessadas em ativar a instrução primária.
Na morte do Padre Champagnat, o Instituto contava 48 escolas, mais a casa de l'Hermitage e
vários lugares de Missão na Oceânia.
Senhor Prefeito,
O sabido empenho que o sr. demonstra por tudo o que diz respeito ao bem da
sociedade, o incentivo e o apoio que dá a todos os que desejam contribuir para isto, a bondade
que lhe granjeou a simpatia de todos e que o torna tão querido no Departamento de que é a
glória e felicidade, a benevolência com que nos honrou a nós que desejamos tanto lhe ser
agradáveis, só podem inspirar-nos a confiança de que o senhor se dignará acolher
favoravelmente o quadro estatístico de uma Sociedade que tem a ousadia de se ufanar de sua
proteção e lhe suplica queira aceitá-lo como penhor de lealdade e expressão de agradecimento.
Respeitosamente, de V. Excia. o servo muito humilde e obediente,
Champagnat
211
163 – Ao Padre FRANÇOIS FLEURY MOINE, Pároco
de Perreux, Loire.
12 de dezembro de 1837.
O Padre Champagnat recomenda ao pároco que não sobrecarregue os Irmãos de trabalhos.
Já fazia meses que se tratava da instalação dos Irmãos em Perreux. Finalmente, o Padre Fleury
escreveu com data de 5 de dezembro: "Padre Superior, seus três Irmãozinhos, Justin, Prosper e
Agappe aqui chegaram no dia 14 de novembro. A abertura das aulas foi no dia 21, com Missa, muito
entusiasmo e total aprovação dos meus paroquianos. São 150 alunos, só duas aulas."
Continuando, o pároco cheio de ardor apostólico pede ao Padre Champagnat que mande um
Irmão possuidor de Diploma (Brevet) para assim poder receber da prefeitura os subsídios que são da
alçada do poder público.
Por fim, coloca a escola sob a proteção de Nossa Senhora. O zeloso pároco morreu em
março do ano seguinte e três meses após, o nosso Irmão Justino também falecia santamente, com
apenas 18 anos! Cf. Biogr. p. 338)
Senhor Pároco,
Recebi com agrado o noticiariozinho que me mandou sobre a instalação de nossos
Irmãos na sua paróquia. De todo coração desejo que correspondam plenamente ao seu zelo e
ao de seus paroquianos pela educação da juventude que lhes é confiada.
Tenho pena de vê-los carregados de um tão grande número de alunos, em
compartimentos tão exíguos. A saúde deles está em jogo; não poderão agüentar por muito
tempo neste ambiente. Peço-lhe, por favor, não os acabrunhe deste modo.
Tínhamos combinado que neste ano não receberíamos senão um número reduzido de
alunos, porque o espaço não é suficientemente amplo. Portanto, impõe-se fazer uma
escolha.Espero que na primeira visita que eu tiver a oportunidade de lhe fazer, encontrarei as
modificações em boa ordem, conforme nossos ajustes e que eu não tenha que me arrepender
de ter passado por cima de nossos costumes e de lhe ter mandado Irmãos neste ano, apesar dos
motivos que tínhamos para diferir o envio dos mesmos.
Quanto à proposta que o senhor me faz de encarregar o terceiro Irmão de uma classe, é
coisa que nunca permitiremos. Para abrir uma terceira classe, faz-se mister dispor de mais um
Irmão. A exigência é a mesma para as aulas de adultos que funcionam à tarde. Fiquei muito
surpreendido, direi até zangado, por ter o Irmão Diretor resolvido abrir mais esta sala de aula,
sem nos consultar, sobretudo sabendo quanto lhe custou para se restabelecer da doença que
contraiu num estabelecimento onde matriculara um número excessivo de alunos.
Escrevo a ele duas palavras para mandá-lo suspender o funcionamento dessa classe
por este ano. Peço-lhe que não faça admoestações ao Irmão por esse motivo. No ano próximo,
talvez seja possível a gente se entender a respeito.
Fornecemos a planta da nova construção aos nossos Irmãos que estavam indo para
Semur recomendando-lhes que a deixassem na casa do Padre Dubeau, pároco de Roanne.
Provavelmente a deixaram extraviar-se mas poderemos mandar-lhe outra imediatamente, caso
a primeira esteja perdida.
212
Já o tinha prevenido que não poderia contar, de imediato, com um Irmão diplomado.
Não posso dar-lhe nenhuma informação precisa a respeito dos procedimentos a seguir para
que consiga a remuneração de professor, pois lhe falta o requisito principal: Ter um Irmão
diplomado.
Queira aceitar os sentimentos de respeito com que tenho a honra de ser, venerável
Pároco, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
N. D. de l'Hermitage, 12 de dezembro de 1837.
213
164 – Circular aos Irmãos
12 de dezembro de 1837.
Champagnat se comprazia em dar notícias das Missões. Nesta Circular, ele reproduz a carta
que o Padre Servant escreveu de Valparaíso, onde "La Delphine" (navio) ficou vários meses
ancorado, sofrendo reparos. Os Missionários, entre os quais Dom Pompallier, tiveram meses
intermináveis de espera; durante esse tempo ocuparam-se em escrever cartas aos amigos da França.
Caríssimos Irmãos,
Através de uma carta do Padre Servant, tivemos a alegria de receber notícias de nossos
queridos Missionários da Polinésia. Diz ele coisas que muito interessam nossa Sociedade. No
momento não podemos dar-lhes senão um apanhado, reservando-nos o momento de dá-la a
conhecer a vocês por extenso, assim que tivermos ocasião.
Valparaíso, 14 de junho de 1837.
Querido Pai e Superior: Aproveito da presente circunstância para proporcionar-lhe a
dita de bendizer a divina Providência que vela por nós com um carinho todo particular. Já
estamos singrando os mares pelo espaço de seis meses, quando apenas três ou quatro são
suficientes para efetuar a travessia do Havre até Valparaíso. O senhor ficou sabendo da escala
que fizemos em Santa Cruz de Tenerife. Os ventos contrários nos mantiveram parados durante
muito tempo no cabo Horn, mas finalmente estamos nos aproximando das Ilhas que
demandamos. É este o motivo de nossa alegria. Estamos ansiosos por chegar a essas Ilhas que
a vontade de Deus nos manda considerar como nossa verdadeira Pátria.
É certo que de vez em quando encontramos tribulações, alguns de nós contraem
doenças, os elementos se opõem à nossa trajetória, as borrascas, os acidentes causam medo,
mas esses contratempos vistos sob o prisma da vontade de Deus são benignos e leves.
Considerados como ordenados pela Providência, os elementos, por mais contrários que
pareçam, são belos.
Dentre as agruras de que falo, há uma que nos custou bastante caro. O Padre Bret que
tinha começado a ficar doente quando estávamos por terminar a estadia em Santa Cruz, foi
atacado de febre ao nos fazermos ao largo. Então, redobramos de esforços e fizemos de tudo
para restabelecê-lo, tanto que o mal pareceu retroceder por alguns dias. De repente, agravou-se
e se tornou mais sério do que nunca. Na segunda feira santa, o Padre se levantou de manhã,
por momentos, como de costume, e disse ao Padre Chanel: Ah, bem que vejo que estou
chegando ao fim!
Não se enganava: na tarde, entrou em agonia, serenamente, e às 7 horas adormeceu na
paz do Senhor! Como era admirável sua paciência nos sofrimentos; como sabia calar os
incômodos que tinha; como se mostrava agradecido por todos os serviços que lhe eram
prestados; com que exatidão tomava os remédios mesmo os mais desagradáveis ao paladar!
Apesar de tudo, quantas graças Deus nos concede em nossas provações; como Ele
sabe consolar-nos e compensar nossas tribulações!
De vez enquando temos a felicidade de celebrar os santos mistérios, de receber a santa
comunhão, o Pão dos fortes. Oh, como me sinto feliz em minha vocação! Como é consolador
dedicar-se à salvação das almas que valem mais do que todos os bens deste mundo! Parece-
me, querido Padre Superior, ver os Irmãos de l'Hermitage que, por suas orações e ações
214
praticadas por obediência, exercem como quê uma santa pressão sobre Maria e contribuem
por este meio para o benefício das Missões.
Enquanto aguardamos a partida de Valparaíso, que acontecerá quando Deus quiser,
estamos ficando na casa da administração pertencente aos Missionários do Coração de Jesus e
de Maria. A casa me lembra o lugar de repouso daqueles bons Irmãos que muito amo, a
inclusão de meu nome na lista colocada na urna representando o Coração da melhor das mães,
aquelas festas em honra da grande protetora da querida Sociedade de Maria.
Fomos os filhos privilegiados da divina Providência durante o percurso todo, do Havre
a Valparaíso, e continuamos a ser favorecidos ao entrar nesta cidade.
Dom Maronée precisa ter informações sobre nossas várias Ilhas? Chegou de Otaiti o
Vigário Geral do bispo de Nilópolis. Será que precisa de alguém para o ajudar logo nos
preparativos da partida? Chega da Califórnia o bom Irmão Colomban, da congregação do
Sagrado Coração de Jesus e de Maria que é perito neste emaranhado de negociações. Ele pode
ser de grande utilidade.
O que eu deveria dizer de nossa terna Mãe está abaixo de qualquer expressão. Há uma
coisa que lhe peço fazer observar: é que sábado era um dia privilegiado, o vento estava quase
sempre a nosso favor.
Os Irmãos que vão conosco tiveram, cada qual, suas provaçõezinhas: O Irmão Michel
sofreu muito de dor de dentes; o Irmão Nizier teve que agüentar dores de cabeça, mas com
referência a doenças, ele foi dos mais beneficiados. Agora, todos eles vão maravilhosamente
bem; encarregaram-me de lhe anunciar que estão contentes para além de tudo o que podem
manifestar. Apresentam ao senhor os sentimentos do mais humilde respeito e os sentimentos
de amizade a cada um dos Irmãos.
O servo dedicado no Cora;áo de Jesus e de Maria.
Servant, Missionário apostólico."
No dia 27 de novembro passado, foi celebrado um Ofício solene na Capela de Notre
Dame de l'Hermitage em sufrágio do Padre Bret, falecido no dia 20 de maio de 1837, durante
a travessia de Santa Cruz de Tenerife a Valparaíso. Queiram vocês, cada um por si, fazer o
que a Regra prescreve para um Irmão professo, e recomendar a Deus a missão e os
missionários da Polinésia. Abraço-os na caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua
Santíssima Mãe. Com muito afeto,
Champagnat
Notre Dame de l'Hermitage, 12 de dezembro de 1837.
215
165 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Châteaux.
13 de dezembro de 1837.
Uma das últimas tentativas do Padre Champagnat para ver se conseguia a aprovação seria
de reunir a congregação marista àquela do Padre Mazelier, constituindo-a como um ramo da
congregação da Instrução Cristã, de Saint-Paul-Trois-Châteaux. Ou então, anexá-la àquela de La
Mennais da qual se inspirou o Padre Mazelier.
Mas, este projeto não foi à frente. O contrário é que se deu, pouco após a morte do
Fundador: Os Irmãos de Mazelier e também os de Viviers se uniram aos Maristas, formando uma só
família.
Jesus, Maria, José.
Padre Superior,
É chegado o tempo em que, segundo o parecer do senhor Reitor da Academia, devem
ser mandados os compromissos de nossos Irmãos que estão para ser chamados ao serviço
militar. Temos realmente necessidade do auxílio de sua caridade neste ano ainda, como nos
precedentes.
Acabamos de enviar um pedido ao Ministro da Instrução Pública, a fim de conseguir a
sanção de nossos estatutos, através de um Decreto assinado pelo Rei. As autoridades locais
nos estimulam a ter muita esperança nesta nova tentativa.
Contudo, estamos apreensivos: As coisas podem arrastar-se indefinidamente, sob o
pretexto de que se trata de uma congregação nova. Pensamos em pedir-lhe o favor de nos
mandar, quanto mais cedo possível, seus estatutos acompanhados de uma cópia do Decreto
pelo qual lhe foi concedida a isenção, a fim de que, se ocorrer o impasse, nós possamos nos
fazer autorizar como sendo um ramo do seu Instituto, que de fato não difere em nada do
nosso, a bem dizer.
Queira, pois, senhor Padre superior, continuar sua boa vontade para conosco assim
como suas orações, e receba os sentimentos respeitosos com que tenho a honra de ser,
venerando Superior, seu servidor totalmente dedicado,
Champagnat
P.S. Foi a conselho do senhor bispo de Belley que tomamos a liberdade de lhe fazer este
pedido, pois alguém tinha objetado a seu delegado em Paris que, para a autorização de uma
nova congregação religiosa, seria preciso conseguir uma lei que passasse pelas duas Câmaras,
ao passo que fazendo-nos autorizar como um ramo do Instituto do Padre de La Mennais, para
a Academia de Lião, como é a sua para a Academia de Grenoble, esta dificuldade já não
existiria.
216
166 – Ao Padre AUGUSTE DREVET, Pároco de
Luzinay, Isère.
15 de dezembro de 1837.
Para aceitar mandar Irmãos para Luzinay, atendendo ao pedido do pároco, Champagnat
solicita que primeiro seja consultado o bispo de Grenoble. A razão disto é que se estava tratando da
retirada dos Irmãos de La Côte-Saint-André, como lemos nas Cartas de números 86, 94 e 95.
A mesma recomendação de falar primeiro ao bispo voltará a ser feita ao Padre Merlin, de
Saint Geoire; durante todo esse tempo, o caso de saída dos Irmãos de La Côte estava por resolver.
Senhor Padre e venerável Pastor,
Sou-lhe muito grato pela confiança que teve a bondade de depositar em nós,
solicitando Irmãos. A contribuição unânime de seus paroquianos em favor da educação
religiosa de seus filhos dá esperanças muito bem fundadas quanto ao resultado feliz de um
estabelecimento deste gênero no seu município. De nossa parte, faremos todo o possível para
mandar-lhe Irmãos o mais cedo possível.
Talvez S. Excia. o senhor Bispo queira tomar conhecimento de seu projeto e dos
trâmites para executá-lo. É com prazer que receberíamos a comunicação do seu
consentimento. Esta comunicação ser-nos-á útil num assunto que temos a tratar com S. Excia.,
cujo êxito poderia nos possibilitar fornecer Irmãos a seu estabelecimento ainda neste ano.
Senhor Padre e venerável Pastor, seu devotado,
Champagnat
Notre Dame de l’ Hermitage
217
CAPÍTULO V: 1838
O desenvolvimento do Instituto conseguido em 1837 animou o Padre Champagnat a
tentar novamente obter a autorização legal dos Irmãozinhos de Maria. Firmado na proteção
de Nossa Senhora, acalentou por muito tempo o sonho de que teria êxito em suas tentativas,
por isso não poupou esforços para fazer com que pessoas amigas e influentes no cenário
político da época se interessassem pelo projeto e o intermediassem junto aos poderes
públicos.
Razões políticas e de ordem pessoal do então Ministro da Instrução Pública, senhor
Antoine Nicolas de Salvandy, além de outras causas que a história não conseguiu apurar
totalmente, fizeram com que todos os seus ingentes esforços ficassem baldados. Tanto mais
enigmático se nos afigura o desfecho negativo das negociações quanto mais tranqüilo e
progressista parecia o ambiente social da França de então, favorecida por uma grande
abundância de recursos financeiros.
Paz religiosa, tranqüilidade política, prestígio do governo monárquico entre as
demais nações européias, tudo seria favorável à consecução do suspirado Decreto Real que
legitimasse de vez tão benéfica instituição. Não era a educação o ramo mais importante de
atividades destinadas a impulsionar a nação para um futuro glorioso?
“Hélas!”, repetia Champagnat, “NISI DOMINUS...”
O Ministro Salvandy, sem declarar abertamente sua intenção, simplesmente não quis
conceder aquilo que o Padre Champagnat pleiteava com tão boas e justas razões. Tivesse
tido, pelo menos a franqueza de seu antecessor Guizot, que já quatro anos antes, declarara
sem rodeios:
- “Autorização? É inútil o senhor empreender negociações para consegui-la.
Impossível por ora concedê-la”.
Ao contrário desse modo de proceder, como explicar a atitude de Salvandy, pedindo
ao Padre Champagnat a abertura de uma escola em St.-Pol-sur-Ternoise (Pas-de-Calais), lá
no extremo Norte da França, se não queria prestigiar o trabalho dos educadores maristas?
Se foi ele também que, embora não morresse de amores pela Igreja, recomendou aos bispos
que visitassem frequentemente as escolas particulares, pois acreditava que tais visitas
haveriam de contribuir para o bom andamento do processo educativo!. Ele também,
Salvandy, que concedeu aos Irmãos das Escolas Cristãs, e com sobejas razões, múltiplos e
variados favores! Não o incriminamos por isso, mas podemos, isto sim, duvidar de sua
sinceridade quando objetou que a autorização que concedesse aos Maristas poderia
prejudicar a obra dos beneméritos Irmãos de La Salle.
Como veremos pelas cartas que vêm a seguir, - nada menos de 69 - Champagnat
empreendeu duas viagens a Paris neste ano, sempre animado de confiança em Deus e na
Proteção de Maria. Disto dão prova as tantas mensagens que da Capital dirigiu ao Irmão
Francisco e a outros Irmãos, no decorrer das suas viagens. A primeira, de janeiro a abril, em
pleno inverno, lhe causou muitos sofrimentos; sentiu muito frio; a segunda, de meados de
maio a 2 de julho, quando sua saúde já demonstrava sério cansaço.
218
167 – Ao senhor BARTHÉLEMY PHILIPPE GOIRAN,
prefeito de Couzon-au-Mont D'Or, Rhône.
4 de janeiro de 1838.
Nesta carta, ao contrário de outras, o Padre Champagnat promete mandar Irmãos para o
próximo ano letivo, isto é: logo após a Festa de Todos os Santos.
Escrevendo no começo de janeiro, o desejo de Champagnat seria de mandar Irmãos por
ocasião da Páscoa. Mas, a fundação pedida pelo Padre Goiran não se concretizou. Na carta ao
Irmão François (cf. Carta de no 179), em 15 de março, o Fundador diz que pensa em Couzon só após
resolver certa dificuldade. Qual?
Prezado Senhor,
Segue um pouco atrasada a resposta à sua carta, porque, animados como estamos do
desejo muito sincero de corresponder à confiança de que o senhor nos dá provas constantes,
quisemos examinar novamente se não haveria meio de lhe mandar Irmãos pelo menos por
ocasião da Páscoa, mas de todos os novos arranjos nenhum deu satisfez. Ainda nesses dias
fomos obrigados a substituir vários de nossos Irmãos que ficaram doentes, de modo que pelo
que vemos, não é possível anuir a seu pedido ainda neste ano (letivo), mas pode contar com os
Irmãos para a próxima festa de todos os Santos.
219
168 - Ao Irmão DENIS, Diretor de Saint-Didier-sur-
Rochefort, Loire.
5 de janeiro de 1838.
O Irmão Denis deve ter escrito ao Padre Champagnat, por ocasião do Ano Novo. A resposta
vem repassada de sentimentos muito paternais do Padre, aos quais talvez não tenha sabido
corresponder, pois saiu da Congregação pouco tempo depois.
Teria sido por doença? Morreu cinco anos depois. Seria por um sentimento de frustração?
Diz que sonhava ser mandado para as Missões.
O Padre Champagnat, nesta correspondência, anima o Irmão a alimentar, sim, a esperança
de ir às Missões; mas, por outra, já aponta-lhe o Irmão Flavien como sucessor. Recomenda também
que trate bem o Irmão Pascal, que falece muito jovem, aos 20 anos, deixando o nome marista ao
jovem Gaudin que foi o Irmão Pascal, eleito Assistente no segundo Capítulo Geral, em 1854.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 5 de janeiro de 1838.
Caríssimo Irmão,
Meu bom amigo, se você quiser que eu continue a admoestá-lo de suas faltas, não
deve estranhar minhas observações. Nunca poderá manter por demais apertada sua vigilância
com relação aos alunos, não se permita nenhum descuido. Estou deveras surpreso de que nada
encontre na Regra que proíba de convidar gente estranha a vir comer com a comunidade, pois
encontra até mesmo a proibição de admiti-los. Onde está o espírito desta proibição?
Está claramente proibido de tomar refeições fora de casa, sem uma real necessidade,
não basta uma necessidade comum.
Também não deve ausentar-se, sem prevenir o Irmão que o substitui e sem indicar o
lugar para onde vai. Perguntei em que data lhe dei licença de ir a Lião, e você nada me disse a
respeito.
Você me fala do desejo que alimenta de partir para a Missão da Polinésia. Alimente
este desejo, meu querido amigo, creio que vem de Deus. Aliás acho que você tem as graças e
o jeito para isso. Deus sem dúvida tem projetos a seu respeito; prova fundamentada disto é a
cura que lhe concedeu. Não a esqueça. Fique com as contas em dia, para que se for chamado a
embarcar, você esteja preparado.
Quanto ao Irmão Flavien, não pense de forma alguma despedi-lo, pois seria
impossível encontrarmos por ora quem o substituísse. Trate este Irmão com muitas atenções.
Diga-lhe que deve ser ele seu substituto, e que nesta função, deverá entender-se com você para
trabalhar pelo bem de todos os meninos que lhes são confiados; diga-lhe ainda que nem
preciso desejar-lhes Feliz Ano. Todos vocês sabem que não almejo outra coisa do que o bem
de todos. Não existe nenhum bem que eu não lhes deseje, nenhum que eu não esteja
firmemente determinado a tudo fazer e a tudo empreender para que dele possam desfrutar.
Fico muito agradecido ao Irmão Jean pelo bom proceder. Quero muito bem a ele,
como sobrinho do Padre Courbon, que muito estimava como superior meu. Não perco de vista
o bom Irmão Pascal. Queira Deus conservar-lhe a saúde que, em sua infinita misericórdia
houve por bem restituir-lhe.
220
Vocês estão bem convencidos, pelo menos deveriam estar, de que os amo a todos com
ternura de pai. Quero, ardentemente desejo, que nos amemos uns aos outros como filhos do
mesmo Pai, que é Deus, da mesma Mãe que é a santa Igreja.
Enfim, para tudo dizer em uma só palavra, Maria é a Mãe de todos nós. Poderia Ela
ficar indiferente se conservássemos em nosso coração alguma coisa contra um daqueles que
Ela tanto ama, talvez mesmo até mais do que a nós?
Adeus, meu caro Irmão Denis, adeus a todos nos Sagrados Corações de Jesus e de
Maria.
Tenho a honra de ser o dedicado pai em Jesus e Maria.
Champagna
sup.
P.S. Não se esqueçam de rezar pelo êxito de nossos projetos referentes à Sociedade de
Maria. Quando vocês terminarem a novena que estão fazendo, comecem outra, rezando às
minhas intenções. Que todos os meninos a façam também.
Mandem para cá tudo: a forja e o torno, já que vocês compraram tudo. Escolham
alguém de confiança para fazer esse transporte.
221
169 - Ao Irmão FRANÇOIS, em l'Hermitage.
10 de janeiro de 1838.
O Padre Champagnat fez uma parada de vários dias em Lião, para completar os
documentos. Escreve ao Irmão François, para que lhe mande alguns objetos que havia esquecido em
L'Hermitage. O Irmão Marie Jubin que o acompanhará até Paris poderá trazer-lhe o que ficou para
trás. Vai também o Padre Jean-Baptiste Chanut, um dos Capelães de l'Hermitage.
Ao se referir ao Padre Terraillon, Champagnat diz ao Irmão François de consultá-lo,
quando puder. É que Terraillon exercia então o cargo de Assistente do Padre Colin e mais, respondia
pela paróquia de Sain-Chamond.
O Padre Matricon é o outro Capelão que ficou uns quarenta anos atendendo os Irmãos e
Noviços de l’'Hermitage, na parte espiritual.
Os Irmãos Adrien e Félix residem provavelmente no bairro Denuzière, de Lião, onde também
o Padre Champagnat deve estar hospedado.
V.J.M.J.
Lião, 10 de janeiro de 1838.
Meu caríssimo Irmão François,
Em suas dificuldades, após ter consultado a Deus e a Mãe de todos nós, consulte o
Padre Matricon. Diga-lhe que fui eu que o aconselhei a consultá-lo. Entenda-se com ele e com
o Padre Terraillon quando puder. Aos domingos, à hora de costume, reúna na secretaria o
Padre Matricon e os Irmãos que costumam reunir-se. Tenha o cuidado de tomar nota das
deliberações, a fim de mas apresentar quando eu chegar.
Mande meias ao Irmão Adrien, uma batina ao Irmão Félix, pelo Irmão Marie Jubin.
O Irmão Louis Marie esqueceu a folha de desenho na mesa de despachos da Estação
da Estrada de Ferro, em Saint-Chamond, e eu meu guarda-chuva em Notre Dame em Saint
Chamond, na casa do Pároco.
Deveremos partir para Paris segunda-feira, pelas 9 horas da manhã. Ao que parece,
tudo vai dar certo. Mas, sempre digo: Nisi Dominus. Receio até que todos esses recursos
prejudiquem um pouco os desígnios da Providência e, longe de acelerar nossos pedidos,
contribuam, pelo contrário, para prejudicá-los. Portanto, reze muito a Deus e mande rezar.
Esqueci o meu terço, queira enviá-lo sem falta. O caderno grande de notas que deixei
sobre a escrivaninha, queime-o ou guarde-o debaixo de chave para que ninguém o vasculhe.
O noviço que devia sair comigo não deve permanecer, a menos que tenha mudado de
parecer. Mande o Irmão Cassien a Millery e, de acordo com o relatório que fizer, mande mais
um Irmão; será o quinto da comunidade.
Que o Irmão não esqueça meu passaporte nem a carta do Pároco de São Pedro.
O Padre Chanut me diz de lhe mandar muitas lembranças.
Adeus, meu caríssimo Irmão, deixo a todos nos Sagrados Corações de Jesus e de
Maria.
Digamos juntos: Nisi Dominus...
Champagnat
222
sup.
223
170 – Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
25 de janeiro de 1838.
Do Seminário das Missões Estrangeiras de Paris, o Padre Champagnat escreve ao Irmão
François, para lhe dar notícias dos três dias de viagem - 15 a 18 de janeiro - e dos primeiros oito
dias de "peregrinação" de um ministério a outro.
Apesar do frio, apesar da morosidade do processo e da pouca vontade dos responsáveis pelo
andamento do mesmo, "estamos bem resolvidos a não desistir, escreve o Padre, até que tenhamos
conseguido o que desejamos”. Esse ATÉ QUE foi longe!...
V.J.M.J.
do Seminário das Missões Estrangeiras, Paris, 25 de janeiro de 1838.
Meu caríssimo Irmão,
Já faz oito dias que chegamos aqui, não sem ter sofrido de diversos modos, como bem
pode você imaginar. Já andamos muito em Paris e fizemos muitas visitas, e ainda não
chegamos ao fim. Mil vezes bendito seja Deus!
Todas as pessoas que entrevistamos parecem interessar-se muito por nossa causa. Não
acredito que o senhor Ardaillon tivesse feito muita coisa se não tivéssemos vindo. Continue a
recomendar insistentemente o problema a Deus e à sua Santa Mãe. Sem isto, que poderíamos
nós? Temos esperança que vai dar certo.
Mande-me logo duas dúzias de prospectos, só amarrados com fita como você sabe que
precisa fazer para que o porte não saia caro demais.
Eu vou bem, assim como o Padre Chanut. Só o que nos incomoda é o frio, por causa
da carestia de combustível. Nós nos aquecemos correndo de um para outro. Desde que
chegamos aqui não paramos de correr.
Não caiu neve, mas geada é que não falta. A água que nos servem nos quartos fica
gelada, tanto de dia como de noite. Faz alguns dias o frio está recomeçando.
Estamos bem resolvidos a não desistir até que tenhamos conseguido o que desejamos.
O Ministro nos disse que precisávamos levar nosso requerimento ao conselho de Estado, e que
a resposta iria demorar umas três semanas. Mesmo que precisássemos de três meses, estamos
resolvidos a prosseguir até o fim.
Estou escrevendo à medida que os assuntos me vêm à cabeça. É que ando com tanta
pressa! Dentro de poucos dias, dir-lhe-ei em que pé estamos.
Cuide de tudo, como lhe disse. Nos casos difíceis, entenda-se com os Padres Matricon
e Terraillon.
Deixamos o hotel de Bon Lafontaine para ficar no Seminário das Missões
Estrangeiras, na Rue Du Bac, 120. Não revisei.
As espórtulas de nossas Missas servem para pagar a nossa pensão.
Adeus, querido Irmão. Mil saudações aos bons Padres Besson, Matricon, aos demais
Padres que perguntarem por nós, aos queridos Irmãos Jean Baptiste, Stanislas, Jean Marie e a
todos da casa.
Champagnat
sup. d. Irs.
224
171 - A DOM JEAN-PAUL-GASTON DE PINS,
ADMINISTRADOR APOSTÓLICO DE LIÃO.
3 de fevereiro de 1838.
Escrevendo ao Administrador apostólico da Arquidiocese de Lião, o Padre
Champagnat dá a conhecer o que pensa a respeito das objeções do Ministro Salvandy.
No DIÁRIO, escrito em sua maior parte pelo Padre Chanut, estão os nomes dos
ilustres deputados SAUZET, FULCHIRON, do Barão de GÉRANDO, par de frança, do
deputado ARDAILLON e outros. (cf. Cartas no 40, 50, 57, 221 e 320)
Só nos cinco primeiros dias de permanência em Paris, mais de doze visitas foram
feitas a diversos personagens influentes e que poderiam interferir junto às autoridades
superiores para que o Decreto da autorização legal do Instituto fosse assinado pelo Rei.
As esperanças do Padre Champagnat eram tanto maiores que os sinais se mostravam
positivos. Foi com palavras elogiosas que o próprio Ministro Salvandy se dirigia aos bispos
que lhe mandaram pareceres sobre a obra dos Irmãos Maristas:
"Vossa recomendação não pode deixar de dispor-me a acolher com interesse o pedido
daquele eclesiástico (Champagnat), que deseja obter a autorização legal para o seu
Instituto".
Paris, 3 de fevereiro de 1838, Seminário das Missões Estrangeiras, Rue Du Bac, 120.
Excia. Revma.,
Em meio às dificuldades que tenho que vencer, eu me considero feliz, pois a divina
Providência me proporciona o prazer de manifestar a V. Excia. minha gratidão e de lhe
reiterar os meus sentimentos de respeitosa homenagem.
Logo que cheguei, apressei-me em tomar todos os meios apropriados para conseguir a
aprovação legal dos Irmãozinhos de Maria. As primeiras diligências que fiz tiveram resultado
imediato. Os Estatutos que eu tinha apresentado por duas vezes ao Conselho Real da Instrução
Pública e o parecer que foi dado aos mesmos para serem apresentados ao Ministro, tudo foi
favorável. Os documentos estão no momento nas mãos do Senhor Salvandy.
Parece que o senhor Salvandy tem receio de que a instituição dos Irmãozinhos de
Maria venha prejudicar a dos Irmãos das Escolas Cristãs, por apresentarem mais vantagens. O
Ministro tem uma objeção a fazer: a nossa instituição não ofereceria garantias suficientes para
a moralidade, ao permitir que os Irmãos sejam apenas dois nas escolas.
Fui informado pelos senhores Sauzet e Fulchiron que o Ministro acaba de escrever a
V. Excia. nesse sentido.
A paternal proteção com que V. Excia. honra nossa Sociedade, o apoio que seu zelo
oferece a todos os que se empenham em fazer o bem, não deixa nenhuma dúvida quanto ao
parecer favorável que V. Excia. apresentará ao Ministro, mas como é de grande vantagem
estarmos de acordo em todas as nossas diligências, pensei que V. Excia. receberia com agrado
que eu lhe comunicasse em que sentido eu achei que deveria responder diretamente ao
Ministro.
Em primeiro lugar, o senhor Ministro alega que a instituição dos Irmãozinhos de
Maria prejudica a dos Irmãos das Escolas Cristãs, por oferecer melhores vantagens. Confesso
225
a V. Excia. que não esperava esta dificuldade por parte do senhor Ministro, pois que
considerando a coisa em si mesma, para o governo não deve fazer a mínima diferença que a
instrução seja ministrada por esta ou aquela instituição, visto que tanto uma como outra só
podem ganhar a confiança da população e merecer consideração, na medida em que
corresponderem à expectativa do público.
V. Excia. bem sabe que a única finalidade que eu me propus na formação dos
Irmãozinhos de Maria foi de proporcionar o benefício da educação aos municípios rurais cuja
escassez de recursos impossibilitasse conseguir a mesma educação dos eméritos Irmãos das
Escolas Cristãs.
Ora, para obter este resultado, foi-me necessário, embora mantendo o mesmo ensino,
adotar um sistema de economia que contornasse os obstáculos que impediam os municípios
rurais de conseguir a boa formação que é dada pelos Irmãos das Escolas Cristãs.
Penso ter encontrado três obstáculos: o primeiro é que os Irmãos das Escolas Cristãs
só trabalham em grupos de três pelo menos; o segundo é que exigem um pagamento de
seiscentos francos por Irmão, o que faz com que os municípios têm que arcar com uma
despesa de mil e oitocentos francos anuais; o terceiro é que exigem um ensino absolutamente
gratuito.
Por isso, achei que em favor da tão necessitada população dos meios rurais devia
estabelecer que:
1) à instituição dos Irmãozinhos de Maria é facultada a criação de estabelecimentos de
dois Irmãos e também, sendo necessário, lhe será permitido erigir uma casa central de onde os
Irmãos, de um em um, poderão irradiar seu apostolado para os municípios vizinhos;
2) esta instituição dará Irmãos aos municípios que assegurarem mil e seiscentos
francos para quatro Irmãos, mil e duzentos para três, mil francos para dois;
3) os municípios de menos recursos poderão receber dos pais mais remediados uma
contribuição mensal, para poderem fazer frente aos gastos do estabelecimento.
Pelo exposto, é fácil ver que a instituição dos Irmãozinhos de Maria, longe de
prejudicar a obra dos eméritos Irmãos das Escolas Cristãs, só a torna mais perfeita, fazendo
mais completa e promete à sociedade e à religião os mesmos resultados de melhoria que os
Irmãos das Escolas Cristãs conseguem em nossas cidades.
Aliás, fica patente que a instituição dos Irmãos das Escolas Cristãs, da qual todos
sabem apreciar a excelência e as vantagens, não atende nem a trigésima parte dos pedidos que
lhe são feitos. Do nosso lado, podemos confessar humildemente que não podemos atender
nem a vigésima parte dos pedidos que nos são dirigidos. Temos então que concluir que, sendo
a necessidade da instrução tão bem compreendida em nossos dias e tão universalmente
solicitada, não se pode ter medo de prejudicar a causa comum, multiplicando os meios de
instruir os jovens.
Em segundo lugar, o senhor Ministro alega que os Irmãos de Maria, ao trabalharem
em dois nas escolas, não oferecem tantas garantias para os bons costumes como os Irmãos das
Escolas Cristãs que não trabalham em menos de três.
Confesso, Excia., que é este um ponto de disciplina sobre o qual mais nos devemos
concentrar. É justamente por esta razão que no conjunto de estabelecimentos que nos são
oferecidos, escolhemos sempre aqueles que apresentam maior garantia, no tocante a este
ponto.
226
Mas, em vista da impossibilidade em que se encontram tantos municípios rurais de dar
assistência financeira a mais de dois Irmãos, podemos hesitar entre estas duas alternativas: ou
deixá-los sem os benefícios da educação, ou proporcioná-la a eles por meio de dois Irmãos,
embora ofereçam menos garantias do que se fossem três? É vantajoso para a religião e para a
sociedade estacar perante uma consideração dessa ordem? Além do mais, nossos Irmãos,
formados numa vida regular e de princípios seguros, submetidos à prova de exercícios durante
dois anos de noviciado, constantemente fiscalizados nas funções que exercem nos municípios
pelas autoridades civis e eclesiásticas, rodeados como estão por nossa solicitude, de modo a
não perdê-los de vista nem um minuto, mantendo os superiores contínuas relações com eles,
me parece que oferecem uma garantia mais do que satisfatória.
Aliás, temos o cuidado de escolher, para atender a esses estabelecimentos, aqueles
dentre nossos Irmãos de cuja moralidade estamos plenamente seguros. Além disto, tais
estabelecimentos estão sempre bastante próximos uns dos outros para que possam exercer
entre eles uma vigilância mútua.
Por fim, a última razão que julguei oportuno dever expor ao senhor Ministro, é a
autorização legal concedida a várias instituições que mantêm estabelecimentos com dois e
mesmo com um só educador. Isto constitui norma especialmente das escolas normais cujos
professores, ao saírem das casas de formação, são jogados isoladamente nos municípios,
tornam-se donos de si próprios e por demais frequentemente mostram que estão longe de
oferecer ao governo a mesma garantia que os Irmãos.
São estas, Excia., as razões que julguei que devia fazer valer diante do senhor Ministro
e que me alegro de poder expor a V. Excia., submetendo-as a sua apreciação. É intenção
minha esperar aqui mesmo o resultado final. Ser-lhe-ia muitíssimo grato se V. Excia. se
dignasse pedir ao senhor Ministro de apressar a questão, tanto mais que temos vários Irmãos
na dependência do serviço militar.
Digne-se aceitar o profundo respeito com que tenho a honra ser, Excia., de sua
grandeza, mui humilde e dedicado discípulo.
Champagnat.
Rogo-lhe Excia. digne-se aceitar a expressão da minha respeitosa homenagem,
Chanut.
227
172 - Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
4 de fevereiro de 1838.
Das cartas do Irmão Francisco, mandadas ao Fundador em Paris, nenhuma foi conservada;
por esta razão, fica difícil entender todas as alusões nelas contidas às quais Champagnat às vezes faz
referências. Por exemplo:
- O Irmão Adjuteur foi um jovem que, apenas recebido em 1837, faleceu 14 meses depois, na
idade de apenas 18 anos.
- Quanto ao caseiro, Abrégé des Annales fala do "fermier" do sítio de Grange-Payre. (cf.
Abrégé des Annales, p. 233)
- O Padre pergunta se Jean Poncet, (é o picareteiro), cortou mesmo o rochedo.
- Outro deputado do Loire de que fala esta carta, é o senhor Antoine Lachaise (ou
LACHÈZE, segundo o Irmão Paul Sester) foi muito solicitado pelo Padre Champagnat, como se vê
pelas Cartas no 58, 172, 183, 209, 314 e 319. Na última, escrita ao Cardeal De La Tour D'Auvergne,
Champagnat nomeia ainda outros: Ardaillon, Durozier, Lanyer, Lachèze, Fulchiron, Girod, Baude e
Sauzet, todos interessados em ajudá-lo a conseguir a autorização suspirada. Lachèze chegou até a
apostar "dez contra um", a favor da aprovação do projeto.
V.J.M.J.
Paris, 4 de fevereiro de 1838. Missões Estrangeiras, Rue du Bac, 120
Meu caríssimo Irmão,
Recebi sua resposta e os prospectos que nos enviou. Pela sua carta fiquei sabendo que
todos estão bem. Quanto ao Irmão Adjuteur, parece que Deus quer recompensar sua virtude e
suas boas disposições. Adoremos nisto seus desígnios e nunca discutamos com Ele. Façam
tudo quanto puderem para ajudar o Irmão a ter uma boa morte. Diga-lhe que não o esqueço.
Muito me alegro com as boas notícias que me dá sobre a casa mãe e sobre os
estabelecimentos. Pois que o Irmão Cassien se saiu bem na viagem que fez a Millery, mande-o
passar oito dias em Valbenoite e em Neuville. Manifeste-lhe toda minha satisfação pela boa
vontade que teve. Diga a ele que cuide bem da saúde em suas pequenas andanças.
Você não me diz se o Irmão Pie foi trocado, qual o efeito da troca?
Vocês estão tendo muita neve aí? Faz muito frio em L'Hermitage? E o caseiro, está
decidido a ir-se embora sem mais reclamações? Poncet conseguiu mesmo cortar o rochedo?
Como vão os Padres Matricon e Besson, os Irmãos J.Marie, Stanislas, J. Baptiste,
Pierre, Jerôme, Pierre Joseph etc.
Mande-me o compromisso (engagement décénal) do Irmão Martin e dos demais a
respeito dos quais se pode ter algum receio de serem convocados.
Esperamos que depois de conseguir o Decreto, conseguiremos sem dificuldade que os
compromissos sejam aceitos.
Estamos sempre visitando ora estes, ora aqueles. Acabamos de chegar da casa do
senhor Lachèze. Ao meio dia, voltaremos lá, pois ele ainda não se tinha levantado.
Ainda não estamos certos de conseguir nosso intento, entretanto contamos com as
fervorosas orações que estão sendo feitas. Maria, nossa Boa Mãe, nos ajudará; roguemos a Ela
228
por intermédio das santas almas que estão no Purgatório. Todos os dias aqui em Paris,
recitamos o terço dos defuntos.
Faz alguns dias, estamos esperando as respostas dos senhores bispos de Belley e de
Lião. Parece que o senhor Salvandy escreveu a eles, nós também escrevemos.
Esta manhã o frio está apertando mais do que de costume; quase que nem vimos a
neve em Paris, os capotes nos têm sido bastante úteis, úteis nada, necessários.
Há quem nos solicite insistentemente para que fundemos um estabelecimento em Saint
Pauol, cidadezinha perto de Arrás. O pagamento está garantido, deram 40.000 francos por
conta disso. Estamos quase resolvidos a nos deslocar para lá, para ver o local, sobretudo se for
o senhor Delbecque que venha a nos pedir esta visita. Foi o que nos disseram: que vai pedir-
nos de ir ver aquilo. Fizeram-lhe a solicitação. Parece que ele é natural daquela região.
Não se preocupe conosco, estamos passando bem, embora hospedados numa frioleira!.
Os bons Padres das Missões Estrangeiras que nos oferecem a hospitalidade, nos
impressionam muito por sua vida virtuosa e pelo seu devotamento em favor da expansão da
Igreja nos países idólatras.
Na semana passada, visitei os bons Irmãos das Escolas Cristãs e pedi a eles que, por
favor, nos vendessem seus livros de aula a um preço igual àquele que cobram dos próprios
estabelecimentos. Aqui vai a resposta que me deram, depois de se terem reunido em conselho:
"Prezado senhor Superior, estimo que o senhor achará bem módicos os preços que lhe
damos, são quase os mesmos que cobramos de nossos alunos."
Gramáticas .... 68 Soluções..................... 50
Ditados .......... 88 Desenho Linear....... 1,05
Exercícios ..... 68 Deveres do Cristão..... 85
Aritméticas ... 78 História da França...... 98
Geografia ...... 83
Confira lá com os Irmãos se estes preços interessam, e me diga o parecer de vocês,
quando me responder. Não sabendo o preço desses livros, eu não pude dizer nada a eles.
Caso o senhor Prefeito de La Valla empreenda uma viagem a Paris, peça-lhe que nos
traga um ou dois exemplares da Regra e do Princípio de Leitura. Poderiam ser-nos
necessários.
Adeus, meus Irmãos, vocês são objeto de minha solicitude e estão sempre presentes
em todas as minhas orações.
Tenho a honra de ser seu mui dedicado e afeiçoado servidor e pai
Champagnat
sup. d. Irs.
P.S. O Irmão Marie Jubin que andava um tanto desorientado, começa a acertar e já parece
acostumado.
Mil saudações da parte do Padre Chanut.
229
173 – Ao senhor ANTOINE NICOLAS DE SALVANDY,
Ministro da Intrução Pública, Paris.
14 fevereiro de 1838.
O Padre Champagnat já está vendo que as tentativas para que o processo seja concluído não
estão contribuindo em nada para o andamento do mesmo. Apesar das muitas visitas e promessas de
políticos e simpatizantes, tudo parece voltar à estaca zero.
Ele então expõe ao Ministro da Instrução Pública as vantagens para a educação primária, os
sacrifícios que os Irmãos estão fazendo para acudir às necessidades dos mais humildes, tudo enfim
que possa contribuir para decidir o Ministro a agir prontamente.
A máquina administrativa continua, porém, emperrada; nem o louvor às eminentes
qualidades do ministro conseguem destravá-la.
Excelentíssimo Senhor Ministro,
Seu apreço tão sabido felizmente, por tudo quanto se refere ao bem público, a proteção
com que V. Excia. honra os que desejam contribuir para esse bem, me autorizam a crer que o
senhor aceitará de bom grado a liberdade que tomo de novamente trazer à sua lembrança o
pedido dos Irmãozinhos de Maria, no qual indicávamos os motivos principais que estão a
exigir um despacho sem demora.
Mais de um mês já se passou desde que saí de Saint-Chamond. Por carta estabeleci
contatos com a casa principal, mas um tal meio de acompanhamento de pouco me adianta
para me certificar das conseqüências de eu estar fora.
Os sacrifícios que houvemos por bem impor-nos para proporcionar de maneira menos
dispendiosa o benefício da instrução à classe numerosa e tão prestimosa das populações
rurais, nos têm permitido viver, mas com parcimônia.
As despesas ocasionadas pela minha estada em Paris correm às minhas custas, e
minhas economias estão para se esgotar dentro em breve. Neste ano, vários dos Irmãozinhos
de Maria se acham em idade de serem chamados para o serviço militar. A impossibilidade em
que estamos de poder isentá-los do serviço antes de estarmos legalmente autorizados, me faz
recear que estes sejam outros tantos membros subtraídos ao trabalho tão importante da
instrução pública.
O bispo Dom Pompallier, que a augusta Família Real se dignou favorecer com seus
benefícios e honrar com as demonstrações mais lisonjeiras de sua benevolência, partiu há
mais de um ano para as Ilhas numerosas da Oceânia Ocidental, para levar àquelas populações
a civilização dos Franceses e suas crenças. Acaba de chegar felizmente a seu destino. Apoiado
na promessa que lhe fiz, reclama ele com insistência uma leva de Irmãos para que vão,
juntamente com ele, partilhar os trabalhos arriscados dos quatro outros que lhe cedi quando de
sua partida.
Estou consciente do quanto esta missão, aberta em tão vastas regiões, pode oferecer de
esperança à religião e à nossa França, mas como haveremos de auxiliar tão generoso
empreendimento, se eu não conseguir sem detença o meio de me fazer chegar outros
candidatos e de conservar os que acabam de ser formados?
230
Eis aí, senhor Ministro, as principais razões que me impelem a solicitar de V. Excia. o
favor de apressar o despacho do meu pedido. Ao mesmo tempo que as exponho à sua
consideração, estou satisfeito de submetê-las à sabedoria de seu julgamento. Multiplicá-las
seria olvidar a importância e multiplicidade de suas ocupações; expô-las mais demoradamente
seria desconhecer as eminentes qualidades que tornam V. Excia. digno do lugar que está
honrando tanto quanto V. Excia. é honrado pelo lugar.
Digne-se, Senhor Ministro, acolher os sentimentos de profundo respeito com que
tenho a honra de ser, de Vossa Excelência, o mais humilde e obediente servidor,
Champagnat,
Sup. d. Irs. M.
231
174 – Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
24 de fevereiro de 1838.
O Padre Champagnat não se cansa de colocar os Irmãos de l’Hermitage a par do andamento
do processo da autorização.
Logo de início fala do compromisso decenal. O cidadão para ser isentado do serviço militar
precisava prometer exercer o cargo de educador das crianças durante dez anos e ter o brevet de
professor.
O Irmão Théodore é Benôit BROSSIER, de que falam as Cartas no 154 a 157. Tinha então 23
anos e procurava isentar-se, devido a problemas de saúde. Na família, para onde o Padre
Champagnat o mandara respirar os ares da terra, morreu um ano depois, em 1839.
Mais visitas:
a) Ao senhor DELBECQUE, Conselheiro de Estado;
b) Ao senhor JOVIN DESHAYES que fora nomeado prefeito de Saint-Jean-de-Bonnefonds,
localidade perto de Saint-Etienne;
c) Ao senhor ARDAILLON, figura difícil de se localizar.
O Padre Chanut que fora a Paris em companhia do Padre Champagnat aborreceu-se de
tanto perambular pelas ruas da Capital e já quer voltar para o sossego de l'Hermitage. Foi ele que
redigiu, até o dia 5 de março, o diário daquela estadia em Paris. (cf. este diário, à p. 335-354 do I
Vol. das Cartas, da autoria do Irmão Paul Sester.)
V.J.M.J.
Paris, 24 de fevereiro de 1838, Rue Du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Acabo de receber sua carta datada do dia 19.
Sem o compromisso, o Reitor da Universidade não quis passar o visto, alegando que já
era tarde demais; também não aceitou visar os que eu lhe apresentei. Mas, de minha parte,
espero apresentá-los logo que a questão principal tiver sido resolvida. Não sei que resultado
vão ter nossas diligências nem como remediar à situação de outro modo. Em todo caso,
mande-me o compromisso decenal do Irmão Martin e recomende tudo a Deus com muita
insistência.
No que diz respeito ao caso do Irmão Théodore, estando a par da resposta do senhor
Ministro, eu já tinha feito alguma tentativa, mas sem nenhum resultado. Disseram-me que
seria mais difícil conseguir a isenção dele do que termos a autorização, e que ele poderia
pessoalmente tentar conseguir passar à reforma na sua corporação. Que leve todos os
documentos e uma carta de recomendação, caso possa consegui-la do capitão de Montbrison
ou do General de Saint-Etienne.
Aprovo perfeitamente todas as viagens do bom Irmão Cassien. Que Deus lhe conceda
a coragem e a saúde de que necessita para levar a cabo tão boa obra.
O caseiro só tem que ir embora; eu poderei alugar parte do pasto e da terra, se o preço
que está pedindo for razoável, mas sua saída deve dar-se sem condições.
Na carta anterior, solicitei sua opinião sobre o preço dos livros dos Irmãos, (das
Escolas Cristãs) se é ou não aceitável; queria saber a sua opinião a esse respeito, mas você não
232
me respondeu. Acha necessário eu pedir um certo número de exemplares do “Conduite”
deles?Não deve mandar vir outros trabalhadores para talhar o rochedo.
Quanto ao grande problema (conseguir a autorização) quantas tentativas, quantas
correrias, quantas visitas, você nem imagina!. Há dois dias que estamos indo de carruagem de
cá para lá, a fim de conseguir uma audiência com o Ministro, sem conseguir. Uma vez, é
porque não encontramos o senhor Ardaillon, foi ao ministério das finanças. onde o Ministro
mandou-o chamar de urgência. Outra vez, é o Ministro que não está. Ó meu Deus, quanto
chove-não-molha! Como as coisas não rendem, melhor como levam dinheiro, pois, como
pode bem imaginar, é preciso pagar as conduções, até mesmo por minutos.
Em companhia do senhor Ardaillon, acabamos de conversar com o senhor Delbecque.
Disse-nos que todos os nossos documentos tinham chegado finalmente e que sexta-feira, (2 de
março), passariam a ser examinados pelo Conselho Universitário. Estamos procurando, neste
momento, quem compõe o tal Conselho, pois ainda não tínhamos ouvido falar dele. O senhor
Jovin Deshayes que se multiplica para nos ajudar, prometeu informar-se e nos trazer notícias a
respeito do mesmo. O senhor Delbecque nos disse também que nossa questão estaria resolvida
dentro de três semanas. Respondemos: dentro de um mês, já está bom. Quem sabe, ainda vai
ter um final feliz? Portanto, tenho um mês de permanência em Paris. O Padre Chanut se
prepara para voltar dentro em breve.
Recomende meu falecido irmão às orações da comunidade. Estou sozinho de dez que
éramos. Acho que minha vez não esta longe. Que Deus me conceda a graça de me preparar
bem, é só o que estou pedindo.
Após todo esse esforço, encontro-me disposto, como nunca estive. Quase não tomo as
eaux chaudes. Tenho muito bom apetite.
O Irmão Marie Jubin está fazendo maravilhas. Consegue o máximo. Talvez eu compre
uma litografia. Já comprei um belíssimo cibório, faz parte daquilo que tínhamos prometido à
Santíssima Virgem. Bem que estará obrigada a nos proteger, a conseguir-nos o que desejamos
com toda razão.
Faz algum tempo, chove quase todos os dias aqui. Paris está muito tranqüila. Quanto
às questões de política, estou por fora como se estivesse a cem léguas daqui. Estive uma vez
na Câmara dos Deputados, e não tenho vontade de voltar.
Padre Chanut me diz de transmitir a todos mil saudações.
Talvez você pense que temos muito dinheiro; está minguando de dia para dia, e não
ganhamos nada, como bem pode imaginar. Quando as reservas se tiverem esgotado, pedirei
aos senhores Ginot de me emprestarem alguma coisa, que haveremos de restituir.
Deixo todos nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Tenho a honra de ser seu
dedicado servidor
Champagnat
Minhas saudações amigas muito particulares ao Padre Matricon, ao Padre Besson a
cujos santos sacrifícios me recomendo, eu e meu pranteado irmão.
Não preciso lhe dizer quanto me são queridos, todos os Irmãos que citei na carta
precedente, apesar de você não me fizer menção de nenhum deles.
Nós dois aqui estamos pagando as missas de Notre Dame de l’Hermitage. Ponha a par
os Irmãos Stanislas e Jean Marie.
233
O Senhor Ardaillon deve chegar aí na terra dele, não deixe de fazer-lhe uma visita e
agradecer-lhe tudo o que está fazendo por nós.
Só podemos mesmo é anotar o pedido de St. Ranber. Você não me responde a quase
nenhuma das minha perguntas, imagino que não tinha nada de animador a me dizer sobre os
meus diversos artigos.
Se o senhor Ginot vier (a Paris) peça-lhe de minha parte que me traga um breviário
pars verna, aquele que acabei, com um exemplar de Règle.
Saudações respeitosas ao senhor Pároco de Notre Dame.
Estou esquecendo alguma coisa que eu ainda queria dizer.
234
175 – Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
7 de março de 1838.
O Padre Champagnat continua a dar notícias a respeito das providências tomadas para a
obtenção da autorização. Interessa-se pelos Irmãos e pelo andamento da casa de l'Hermitage.
O Padre Chanut, depois de ter feito todas as visitas aos políticos, em companhia de
Champagnat, está agora de malas prontas para o regresso, deixando a ele a incumbência de
continuar o diário, de 19 de março em diante.
O senhor Finaz, juiz de paz de Saint-Chamond, foi o tabelião e conselheiro de Champagnat.
Todos os terrenos comprados por este, de parceria com Courveille, bem como todos os contratos de
negócios foram assentados no cartório do tabelião Finaz.
V.J.M.J.
Paris, 7 de março de 1838. Missions Etrangères, Rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Recebi nestes dias os três exemplares da Règle junto com a carta. Dizer-lhe ainda hoje
em que pé estão as tentativas para conseguir a autorização acho muito difícil. Positivamente
não há nenhuma razão contra, a não ser uma estagnação acabrunhadora nas gavetas das
secretarias. Continuam a nos afirmar que o decreto não terá mais nenhum obstáculo. Acabo de
receber da parte do senhor Ardaillon duas palavrinhas; anuncia-me que amanhã o processo
será examinado no Conselho. Não adiantou mais nada.
Imagino que seja a resposta de um dos dois bispos, e que o conselho é o Conselho
Universitário cujo presidente conhecemos como excelente cristão. Mas, será preciso assim
mesmo que passemos pelo Conselho de Estado; conhecemos vários de seus membros.
Quando chegaremos lá?...
Meu Deus, que vagareza, que demora enorme!. Como custa andar correndo de uma
repartição para outra. Ainda não é tempo de eu me ocupar com isso.
Só a Deus seja dada toda a glória!
Faz uns dias entreguei os quatro compromissos que estavam em minhas mãos. Ainda
não sei o que vai acontecer com eles. Continue e continuemos a rezar juntos. Deus nada
recusa a quem persevera pedindo.
Com certeza você não pode trocar o Irmão Alipius, então que o Irmão Gonzague se
arme de paciência, caso você não possa mandar-lhe outro, por ora. Não me lembro quem foi
que o senhor lhe mandou. Faça como puder, mas sem tirar o Irmão Alípius de Charlieu.
Promessas de novos estabelecimentos? Já fizemos até demais. Primeiro tratemos de
conseguir nossa autorização, e depois veremos o que poderemos prometer. Estou com receio
de estarmos obrigados - caso consigamos a autorização - a mandar vários membros para a
África; é o que nos está pedindo um dos membros do Conselho de Estado. Não preciso nem
lhe dizer qual a resposta que dou a ele, cada vez.
Você conhece as regras do código. Eu não entendo muito de leis. Se o caseiro ficar por
mais um ano, acabará ficando dois, contra nossa vontade. Se o senhor Finaz não quiser agir,
será preciso lembrar-lhe aquilo que me disse quando o consultei a respeito do caso e lhe pedi
que desse o aviso (de despejo).
235
Quando sairei de Paris? Infelizmente, não sei. Será quando Deus quiser. Se for para a
glória de Deus que eu morra em Paris, que seja feita sua santa vontade, e não a minha.
Continuo firmemente decidido a ver o final. O Padre Chanut está de partida; vou ficar
sozinho, como a sonhar; mas, que digo? Não se está sozinho quando se está com Deus!.
Acabei comprando a litografia com a qual o Irmão Jubin trabalha. Custa 400 francos,
penso que irá para 500 incluindo todas as despesas. Vamos despachá-la para Saint-Chamond,
mas só quando faltarem poucos dias para nossa partida. Fiz também compras de santinhos, de
cartões de ponto, etc., etc.,. direi até que comprei um cibório muito bonito.
Você sabe que o senhor Vieno está com esperança que lhe compremos uns cem barris
do vinho de sua fabricação. É preciso que o Irmão Stanislas entre em entendimentos com a
Estrada de Ferro pela qual vão seguir, da Estação Perrache (de Lião) até Saint-Chamond. Faz-
se mister então que o Irmão Estanislau vá a Lião e faça com que o senhor Vieno leve a
encomenda até Lião, na Estação Perrache. Como você bem imagina, não podemos perder essa
compra. Mais ainda: é preciso que o Irmão Jerônimo providencie o lugar onde armazenar tudo
isto, ou na Grange Payre, ou em l'Hermitage. É o momento de você pensar no caso.Tome
conselho com o Padre Matricon e etc... etc...
Adeus, meus caríssimos Irmãos, que Jesus e Maria estejam com todos vocês.
Champagnat
236
176 - AO IRMÃO FRANÇOIS, em L'Hermitage
12 de março de 1838.
Carta mais resumida que marca uma tomada de fôlego do Padre Champagnat, após tantas
visitas. Entrevistou todos os personagens que podiam fazer com que o processo andasse. Agora, é só
ter paciência e esperar confiante em Deus.
Mesmo nesta estagnação, a preocupação de Champagnat é de não ficar à toa. Interessa-se
pelo problema dos surdos-mudos.
Paris, 12 de março de 1838, Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Nossas questões, sempre na mesma. Não sei que estímulo usar para que andem mais
depressa. Deus seja bendito! É logo agora que não vou deixar de repetir: "Super flumina
Babilonis."
Por outra, poderia considerar-me feliz nas minhas condições, tendo pouco que fazer e
estando de muito boa saúde. Esta Quaresma vai passar sem que me dê conta. O que me
incomoda, e é mais que suficiente para estragar tudo, é a estagnação acabrunhadora em que se
acham as coisas que acompanho. Mais uma vez: Que Deus seja bendito!
Que faremos com a convocação ao serviço militar? Não tenho a mínima idéia, como
você pode bem imaginar.
Da mesma maneira como me mandou os exemplares da Règle, mande-me um
breviário pars verna.
Vou mandar o Irmão Marie Jubin para a École Mutuelle dos surdos-mudos. Tenho a
intenção de ir lá pessoalmente quando puder. É essencial que não percamos tempo.
Mil recomendações a todos os queridos Irmãos. Você bem que está vendo quanto
necessito de orações.
Tenho a honra de ser seu dedicado pai em Jesus e Maria
Champagnat
237
177 - Ao Irmão FRANÇOIS, Em L'Hermitage.
13 de março de 1838.
O Padre Champagnat começa dizendo que dispõe ainda de alguns minutos, antes do
embarque do Padre Chanut. Será ele o portador destas linhas, bem como da carta escrita na véspera.
É o que adverte o Irmão Avit, em Abrégé des Annales, p. 238.
Paris, 13 de março de 1838, Missões Estrangeiras.
Meu caríssimo Irmão,
Disponho ainda de alguns minutos. Vou aproveitá-los enquanto o Padre Chanut
preparar a mala.
Parece que o senhor Ardaillon vai passar alguns dias na terra natal. Não deixe de lhe
fazer uma visita, agradecer-lhe pelo muito que tem feito e, ao mesmo tempo, fazer-lhe ver
quanto esta autorização nos é necessária, sem o que a convocação para o serviço militar nos
vai tirar muitos Irmãos.
Diga-lhe quanto nossa Sociedade lhe ficará devendo. Vamos conservar para sempre a
memória desse homem. Diga-lhe que você está ansioso por minha volta. Ele lhe dirá que não
adianta eu ficar (em Paris) e que os trâmites seguirão tão depressa como se eu estivesse
ausente. Não responda nada a não ser o seguinte: se houver necessidade de introduzir alguma
alteração num dos artigos, eu me apresentaria imediatamente.
Afinal, meu caro Irmão, você dirá a ele o que Deus lhe inspirar.
Vão ter com ele dois de vocês, ou mesmo três, o Irmão Stanislas, o Irmão Jean
Baptiste ou o Irmão Jean Marie e você.
Adeus, nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Champagnat
Nada de positivo chegou ao meu conhecimento no tocante aos compromissos. Eu os
entreguei ao senhor Baude. Não sei o que vai acontecer.
O Irmão Marie Jubin vai aprender a lidar com surdos-mudos e continua aprendendo
litografia.
Estou esquecendo muitas coisas
238
178 – Ao Padre ANDRÉ MILLERAND, Pároco de
Semur-en-Brionnais, Saône-et-Loire.
14 de março de 1838.
A fundação da escola de Semur foi feita em condições precárias, no tempo do predecessor do
Padre André. Era então pároco o Padre Bonnardel que faleceu quatro dias após a chegada dos
Irmãos.
O Coadjutor dele, Padre Beraud, foi trocado e quem tomou posse da paróquia foi o
destinatário desta carta de Champagnat. O Padre André se dirigiu a l'Hermitage para solicitar
esclarecimentos sobre as condições em que fora feita a fundação, no tempo do seu predecessor.
Quem respondeu foi o Irmão François que deu ciência do caso ao Padre Champagnat, em Paris.
É de lá diretamente que Champagnat responde ao Padre André. Como sempre costuma fazer
é em termos realistas e sem concessões mais vantajosas do que as marcadas nos prospectos, a saber:
O que os Irmãos pediam para se manterem e funcionarem normalmente. O mínimo, enfim.
Diz mais: "Já tinha prevenido a respeito do falecimento do pároco, a transferência do
coadjutor. " com isso, a escola ficaria sem alguém que a apadrinhasse. Conclusão: "Se V. Sª, Padre
André, não continuar a melhorar a situação, estarei obrigado a retirar os Irmãos”.
Digníssimo senhor Pároco,
O Irmão Diretor de l'Hermitage, não sabendo que minha estada em Paris seria tão
longa, não me havia dado a conhecer que o senhor me tinha dado a honra de me escrever para
l’ Hermitage.
Os convênios particulares feitos com o Padre Beraud, tanto quanto me lembro, rezam
o seguinte: No decorrer deste ano, o que se devia ter em vista era fornecer uma hospedagem
conveniente, ou construindo ou comprando uma casa já construída. (E mais). Não podendo
pagar atualmente mais do que quatrocentos francos, o que faltasse seria pago na Páscoa.
(Creio que ainda não foram pagos).
Não se falou de mandar um terceiro Irmão. As demais condições se acham no
prospecto da Sociedade que deve estar em suas mãos. Essas condições são comuns a todas as
paróquias que nos pedem Irmãos. O senhor compreende, digníssimo senhor Pastor, que nos
seria absolutamente impossível abater a menor quantia, tendo já feito uma redução que nos
permite ficar apenas com o estrito necessário.
Não acha o senhor que nossos Irmãos, com a ocupação que têm, merecem ganhar do
que se alimentar e vestir? Fizemos o abatimento de um terço daquilo que é concedido aos
excelentes Irmãos das Escolas Cristãs, imagino que com isso não fazem grandes economias.
Não entra em conta a passagem que os Irmãos têm que pagar, quando vêm a l'Hermitage para
o retiro, e que deveria ser reposta.
Se estas condições não lhe servem, tenha a bondade de nos avisar o mais cedo
possível.
Eu já havia predito ao Padre Beraud que o Padre Bonnardel morreria em breve; que
ele próprio, Padre Beraud, seria transferido, antes que o estabelecimento pudesse prescindir de
seu fundador e que nós, então, nos veríamos obrigados a retirar os Irmãos.
Bem, quanto a isto, sabemos muito bem onde colocá-los.
239
O senhor conta com seus paroquianos. eles não vão fazer é nada! A medida, como o
senhor mesmo diz, falhou. Faço votos que o senhor acerte. Vamos ter paciência por alguns
dias ainda.
P.S. Um Irmão que fosse preciso mandar a mais, só por causa dos alunos internos, não ficaria
a cargo do município.
240
179 - Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
O Padre Champagnat escreve de Paris ao Irmão Francisco, pedindo-lhe que tome as
providências necessárias para a autorização do Irmão Cyprien. Trata-se da autorização de lecionar
na qualidade de "instituteur" municipal. O Irmão já tem o seu Diploma (brevet) e assim o
compromisso decenal, Agora, precisa da autorização do prefeito. Sem esta autorização, outro
professor civil poderá assumir o cargo, se tiver os registros em ordem.
A autorização do prefeito é sempre mais difícil de se conseguir nas cidades mais populosas,
como Semur (12.000 habitantes naquela época), mais fácil em localidades menores, como Tarentaise
(400 habitantes) ou mesmo La Valla (2.000 habitantes)
Na Carta de no 198, vemos que o Irmão Cyprien conseguiu felizmente a pretendida
autorização.
V.J.M.J.
Paris, 15 de março de 1838, rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão François,
Recebi uma carta do Irmão Cyprien e do senhor Pároco (de Semur). Mando-lhe junto
com esta uma cópia da mesma, a fim de que saiba como vão as coisas. Se puder dispensar o
Irmão Jean Baptiste por uma semana, seria bom que ele fizesse uma viagem para lá e, de
passagem, visitasse os estabelecimentos de Perreux e de Charlieu.
Não podemos deixar o Irmão Cyprien sem fazê-lo autorizar. Acho que é preciso fazê-
lo autorizar em Tarentaise e, sem demora, ou então em La Valla, se não for possível em
Tarentaise.
Quanto a Semur, desde que estão fazendo dificuldades para cumprir as condições, não
podemos comprometer-nos com a permanência do Irmão Cyprien. Veja sem demora que
meios é preciso tomar.
Segue a carta de n.º 60 (n.º 178 neste livro)
"Digníssimo senhor Pároco:
O Irmão Diretor de l'Hermitage, não sabendo que minha estada em Paris seria tão
longa, não me havia dado a conhecer que o senhor me tinha dado a honra de me escrever para
l’ Hermitage.
Os convênios particulares feitos com o Padre Beraud, tanto quanto me lembro rezam o
seguinte: No decorrer deste ano, o que se deveria ter em vista era fornecer uma hospedagem
conveniente, ou construindo ou comprando uma casa já construída. (E mais:) Não podendo
pagar atualmente mais do que quatrocentos francos pela fundação, o que faltasse seria pago na
Páscoa. (Creio que ainda não foram pagos).
Não se falou de mandar um terceiro Irmão. As demais condições se acham no
prospecto da Sociedade que deve estar em suas mãos. Essas condições são comuns a todas as
paróquias que nos pedem Irmãos. O senhor há de compreender, digníssimo senhor Pastor, que
nos seria absolutamente impossível abater a menor quantia, tendo já feito uma redução que
permite ficar apenas com o estrito necessário.
241
Não acha o senhor que nossos Irmãos, com a ocupação que têm, merecem ganhar do
que se alimentar e vestir? Fizemos o abatimento de um terço daquilo que é concedido aos
excelentes Irmãos das Escolas Cristãs, imagino que com isso não fazem grandes economias.
Não entra em conta a passagem que têm que pagar, quando vêm a l'Hermitage para o retiro, e
que deveria ser reposta.
Se estas condições não lhe servem, tenha a bondade de nos avisar o mais cedo
possível.
Eu havia predito ao Padre Beraud que o Padre Bonnardel morreria dentro em breve,
que ele próprio, Padre Beraud, seria transferido, antes que o estabelecimento pudesse
prescindir de seu fundador, e que, nós então, nos veríamos obrigados a retirar os Irmãos.
Bem, quanto a isto, sabemos muito bem onde colocá-los.
O senhor conta com seus paroquianos. Eles não vão fazer é nada!.
A medida, como o senhor mesmo diz, falhou. Faço votos que o senhor acerte. Vamos
ter paciência por alguns dias.
P.S. Um Irmão que fosse preciso mandar a mais, só por causa dos alunos internos, não
ficaria a cargo do município.”
Penso que haverá menos dificuldade em conseguir a autorização do Irmão Cyprien em
Tarentaise. Também estaremos mais livres para dispor dele. Não perca tempo, você sabe o
que cumpre fazer. Talvez não seja preciso que ele se apresente, contanto que você tenha o
diploma (brevet) dele.
Eu estava pensando em Izieux e em Couzon; nestes diferentes lugares, há outras
formalidades a cumprir antes.
Ainda não sei em que ponto me acho no que diz respeito às tentativas feitas. Pela
tarde, irei fazer algumas visitas, pode ser que colha então alguma notícia.
Acabo de chegar da residência do senhor Pillet, encarregado das Escolas Primárias.
Anuncia-me que nosso processo foi analisado terça-feira no Conselho Universitário o qual
deu um parecer favorável. Pensa que o Ministro vai decidir-se a solicitar um decreto ao Rei. A
coisa está por demais bonita, por demais resolvida, para que não pinte algum empecilho.
Embora o tempo me custe a passar aqui em Paris, ficaria contentíssimo se pudesse ir celebrar
a Festa da Páscoa em l'Hermitage. Deus nada recusa à oração fervorosa e perseverante.
Por carta, o senhor Ardaillon me notifica que o Conselho Universitário acaba de
examinar o nosso pedido o qual, de imediato, deverá passar diante do Comitê do Interior.
Nunca até agora me falaram deste Comitê. O que eu estava esperando, isto sim, é que passaria
pelo Conselho de Estado. Creio que o senhor Pillet está bem a par, pois é da competência
dele. A mais disso, como você sabe, o parecer dele é antes favorável. Digamos mais uma vez:
Será como Deus quiser. Que seja feita sua santa vontade!
O que me entristece são os que a convocação atinge neste ano. Dizem-me o seguinte:
Não há esperança que possam beneficiar-se do decreto, que é posterior ao sorteio. Informe os
pais para que possam tomar suas precauções.
Quinta-feira próxima terei novos informes, logo os transmitirei.
O senhor Ardaillon me está dizendo sempre que eu posso ir embora, mas muitos
outros me aconselham a não abrir mão do meu intento, tudo depende muitas vezes de uma
simples visita, da presença do solicitante. Concordo com este parecer, embora isto me custe.
242
Adeus, meus queridos Irmãos, trago-os todos com muito carinho no meu coração. Não
peço suas orações, elas me são devidas.
Champagnat, sup.
dos I. de M.
243
180 - À Sra. MARIE CLERMONDON CHAMPAGNAT,
Rosey, Marlhes.
16 de março de 1838.
É carta de pesâmes, escrita de Paris, à viúva do mano.
Jean Barthélemy Champagnat era o segundo filho do casal Champagnat-Chirat, nascido em
1777, portanto 12 anos mais velho do que Marcelino. Casou-se em 11 de outubro de 1811 com Marie
Clermondon. O casal teve seis filhos, sendo que os dois últimos se tornaram irmãos Maristas.
Na carta, o Padre fala: De 13 ou 14 que éramos, sobro eu por último. Não eram somente dez
na família? E mesmo sendo dez, alguns morreram ainda pequeninos. Entende-se que a referência ao
número de treze ou quatorze quer englobar outros parentes próximos, muito chegados, que viviam na
casa.
Paris, 16 de março de 1838, Missões Estrangeiras, Rue du Bac, 120.
Querida cunhada,
Com muito pesar, não pude estar junto ao meu pranteado irmão, durante sua doença.
Não pensava que fosse mortal. Tinham-me dito que estava indo melhor. Faz apenas alguns
dias que em Paris me deram a notícia. Ofereci e também pedi a outros Padres que oferecessem
o Santo Sacrifício por ele.
Não duvidei sequer um instante de que Deus lhe tenha feito misericórdia e tenha
recebido sua alma na verdadeira paz.
Como é curta esta vida! Como é pouca coisa e de quantas tribulações anda cercada!
Faz apenas alguns dias que estávamos todos reunidos na mesma casa onde você mora e na
qual continuará ainda a morar por alguns dias, se Deus quiser. De treze ou quatorze que
éramos, somente eu é que sobro. Meu Deus, como é infeliz o homem que não vive segundo
vossa lei! Como é cego aquele que se apega a um bem que larga para nunca mais ver!
Sigamos o que nos diz São Paulo: "Usemos o que Deus nos deu, segundo a vontade do
mesmo Deus sem nos apegar.” Coitados dos ricos!... O que é que eles têm a mais que nós?
Mais tristeza ao deixar esta vida.
Minha querida cunhada, aquele que você chora e que choro também eu, se não lhe
deixou muitos bens, deixou a você e a seus filhos o exemplo de uma vida muito cristã. É por
isso que gosto de me lembrar que ele era meu irmão.
Não subo nenhuma vez ao altar sem me lembrar dele. Será que vamos ter que esperar
muito para segui-lo no túmulo? O momento já está marcado, você não sabe qual é, nem eu
tampouco, e pouco importa que saibamos. Preparemo-lo por uma vida toda para Deus e
conforme Deus quer. Que nossas enfermidades, nossos sofrimentos sejam para nós outras
tantas ocasiões de nos tornarmos mais agradáveis a Deus!
É com razão que podemos dizer que nossa felicidade está em nossas mãos, pois que,
considerando bem as coisas, não existe nada que não contribua para nos granjear esta
felicidade: os bens, a saúde, a pobreza, as doenças, os pesares.
Irei fazer-lhe uma visita, assim que voltar de Paris. Por ora, diga a toda a família que
continuo muito unido a vocês.
244
Diga a Margot que ficarei feliz de conhecê-lo e que folgo de saber que ele será seu
arrimo na velhice; aos dois sobrinhos, que os receberei em l'Hermitage quando quiserem.
A todos vocês, desejo que tenham, já não digo muitas riquezas, mas uma boa
consciência, um amor acendrado para com Deus. Que Jesus e Maria sejam o único bem de
vocês. Rezem por mim e para o bom resultado de minhas andanças.
Faz mais de dois meses que estou em Paris, quando pensava não demorar mais do que
um mês. Minhas andanças ainda não terminaram, é bem possível que ainda esteja aqui por
ocasião da Páscoa. Se Deus me ajudar, espero conseguir o que estou pleiteando. Gozo de
muito boa saúde, não acho demorado o tempo, e aqui ficaria para o resto de meus dias se fosse
vontade de Deus. O frio apertou bastante em Paris, embora não tenha caído neve. Chegou-se a
vender um balde de água por quinze tostões. Várias pessoas foram encontradas mortas,
enregeladas.
Adeus, meus queridos parentes. Tenho a honra de ser seu atento e afeiçoado
Champagnat
sup. dos I. M.
245
181 – Ao Irmão HILARION, Diretor de Boulieu,
Ardèche.
18 de março de 1838.
O Padre Champagnat dá notícias de Paris e da lentidão com que se arrastam as medidas
para conseguir a autorização. Paciência e confiança nas orações dos amigos é o que conforta e
sustenta na provação este incansável lutador.
Testemunha muita afeição para com todos os Irmãos e pessoas ligadas a eles; dirige
saudações a cada um. Como o Irmão Hilarion gostava de escrever, podemos pensar que esta carta
bem pode ser resposta à do Irmão. O mesmo terá acontecido com a carta-resposta ao Irmão Antoine,
de Millery (cf. Carta no 183)
V.J.M.J.
Paris, 18 de março de 1838. Missões Estrangeiras, Rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Como você está vendo, continuo em Paris, falando ora com uns ora com outros, e
mesmo assim minhas andanças fazem adiantar pouco nosso grande problema. Todos aqueles
que em Paris têm interesse em nosso êxito, me dizem que é preciso ter paciência.
Conto muito com as orações das pessoas de bem; elas nos serão mais úteis do que
todas as proteções possíveis. Apesar disto, não menosprezo as últimas, pois é da vontade de
Deus que empreguemos os meios humanos. Todos os pareceres elaborados sobre o nosso
relatório foram favoráveis. Bendito seja Deus!
Meu caro amigo, que espinho seria arrancado, caso pudéssemos livrar do alistamento
nossos Irmãos! Tenhamos firme esperança e rezemos sem esmorecer. Quanta coisa se pode
obter com a oração fervorosa e perseverante!
Digamos a Maria que se trata muito mais de coisa sua que da nossa. Parece que não
poderemos conseguir isentar os que forem chamados neste ano.
Como estou preocupado! Será que minha estada em Paris vai durar muito?
Infelizmente não tenho idéia. Não estou com muita esperança de chegar a l'Hermitage antes da
Páscoa.
A minha saúde vai bem, o tempo só me custa a passar porque não estou no meio de
vocês. Ando mais solitário no centro de Paris do que em l'Hermitage. Posso assegurar-lhe que,
se Deus quisesse, eu me sentiria muito bem na solidão.
Queira levar ao conhecimento do Padre Dumas, digníssimo Pároco de Boulieu, o
andamento de nossos interesses. Diga-lhe que continuo contando com suas fervorosas orações
e com as da comunidade dele, e as do Padre Aron, o Capelão.
Adeus, meu caro Irmão, não me esqueço de você nem dos demais Irmãos. Diga ao
bom Irmão Maurice que estou muito unido a ele, assim como a seus colaboradores, ao bom
Irmão Nilamon e aos que estão com ele, ao bom Irmão Adelphe.
Não preciso pedir-lhe que reze por mim, sei que está rezando. Não esqueça os bons
Irmãos de Saint-Sauveur. Trago todos vocês com muito carinho no meu coração.
246
Procure entrar em contato com os Irmãos de Bourg-Argental, logo que puder. Procure
também os demais.
O Irmão Marie Jubin está se saindo bastante bem.
Tenho a honra de ser, nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, o seu afetuoso
servdior,
Champagnat
247
182 - AO IRMÃO FRANÇOIS, em l'Hermitage
22 de março de 1838.
O Irmão François já deve estar desejando que o Padre Champagnat volte de Paris. Não pode
estar adiando indefinidamente pedidos que lhe chegam de diversas localidades, dizendo: Aguardem,
o Padre Superior está ausente; só quando ele voltar de Paris, onde foi tratar da autorização do
Instituto. Com ele decidiremos.
Há na carta alusões a vários casos ocorridos em l'Hermitage. Estando longe, o Padre não
pode ditar as diretivas precisas, exigidas para cada circunstância, mas interessa-se por tudo o que lá
acontece. Por exemplo:
- o caso do Sr. Genas, um dos velhinhos assistidos pelos Irmãos;
- e Finaz, o tabelião, que deve dar um parecer sobre a questão do caseiro da Grange-Payre
(cf. Carta no 172);
- são os serviços do pedreiro Marcelino LACHAL que é preciso pagar condignamente, mas.
quanto? terá perguntado o Irmão François;
- e alguma estripulia do Irmão Sisoés a quem o Padre proibiu por algum tempo de usar
batina; que fique de castigo mais algum tempo;
- O sobrinho Philippe ARNAUD é aquele moço que vinha tomar lições de latim com
Champagnat, em 1821 em La Valla. Depois largou o latim e os estudos e virou marceneiro. Veio
trabalhar em l'Hermitage em 1828. "Foi visto ainda forte e sadio, aos 80 anos, em Izieux, em 1885,”
anota o Irmão Paul Sester.
V.J.M.J.
Paris, 22 de março de 1838. Missões Estrangeiras, Rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Acabo de dar mais uma saída de manhã e de tarde. Neste momento, chego de uma
visita ao senhor Pillet, chefe de seção, com o qual ficam amontoados tantos processos.
Segundo o que me disse, ele estaria para redigir o Decreto que passará pelo Conselho de
Estado e de lá iria ao Rei. Imagino que talvez se precise esperar um mês antes que tudo seja
concluído, a julgar pelo tempo que se gastou até hoje. Estou suspirando, fazendo votos e não
pedindo outra coisa.
Acabam de me convidar para visitar esta e aquela curiosidade de Paris. Não posso
aceitar. Nada me dá prazer, nada me agrada, a não ser que me ajude a conseguir o que estou
querendo.
Bendito seja Deus, que seja feita sua santa vontade! Se este Decreto devesse tornar-se
funesto à salvação de nossas almas, que Deus o afaste de nós. Rezemos, rezemos e em tudo
não procuremos nem queiramos senão a santa vontade de Deus!
O senhor Lachaize diz ao senhor Ginot, prefeito de La Valla, que aposta dez contra um
que vamos ser atendidos.
Continuo de boa saúde; faço votos que você e também os Irmãos da casa passem bem
sob todos os aspetos. Não estou com muita esperança de voltar a l'Hermitage antes da Páscoa.
Na expectativa, procure arrumar tudo do melhor modo possível.
Não vou responder às várias perguntas que me fez em sua última carta, a respeito do
caseiro. Penso que você recebeu minha última carta. Se não é permitido que venda o feno,
248
menos ainda será permitido que venda o esterco. Quanto ao mais, veja o juiz de paz, caso o
senhor Finaz não queira tomar uma decisão; ou outra pessoa.
Com respeito às promessas de novos estabelecimentos, bem vê que já fizemos demais.
Fale com o Padre Terraillon, consulte-o um pouco. Quando não se está pessoalmente, por
carta a gente enxerga muito mal.
No caso do senhor Genas e do asilo, se você ficar esperando por uma visita minha, o
mal poderá ter ficado sem remédio.
Mil recomendações aos Padres e aos Irmãos, a toda a casa. Que Jesus e Maria o
ajudem, meu caro Irmão, compadeço-me de você.
Recebi tudo o que você confiou ao senhor Ginot para me ser entregue. Ele me
demonstra boa vontade para agir, mas não consegue ir mais alto do que eu. Há gente demais
em Paris.
Diga ao Irmão Stanislas que mande Philippe fazer umas cadeiras para o dormitório,
algumas mesinhas para os quartos.
Para o Lachal, eu entendo que lhe seja pago tanto quanto lhe paga seu patrão, no
mínimo. Quanto ao Irmão Sisoés, deixe comigo a incumbência de lhe restituir o hábito. Para o
caseiro, disse na carta precedente o que tinha que dizer. Estou muito sensibilizado pelos
sentimentos que ele manifesta para comigo.
Eu abraço a todos nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Champagnat
249
183 - Ao Irmão ANTOINE, Diretor de Millery, Rhône.
24 de março de 1838.
Nesta carta, o Padre Champagnat narra suas impressões sobre a religiosidade dos
parisienses. Também fala com grande admiração dos Seminaristas que se preparam para as Missões
no Estrangeiro. É com eles que se hospeda.
Trata com muito carinho o Irmão Antoine (Couturier), o moço que ele acolheu em La Valla,
em janeiro de 1818. Foi um dos primeiros Irmãos da Congregação. Os Anais do Irmão Avit o pintam
como um tipo perfeito dos excelentes Irmãos formados pelo Padre Champagnat. Simples, austero, de
uma dedicação sem limites, este bom Irmão não largou o mundo "pela metade", diz o analista, o que
significa: Não se afastou do mundo com segundas intenções, deu-se por inteiro ao serviço de Deus e
dos irmãos.
Como a maior parte dos primeiros Irmãos, não armazenou grandes conhecimentos, mas
exerceu intenso zelo pela educação religiosa. Foi também amante apaixonado da pobreza religiosa.
Depois de Millery, dirigiu a escola de Ampuis, onde foi substituído pelo Irmão Hilarion. (cf. Carta n o
181)
Foi ali o lugar de seu eterno descanso, aos 51 anos de intensa atividade apostólica.
Paris, 24 de março de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Caríssimo Irmão Antoine, o querido (Irmão) de l'Hermitage.
Você está vendo, meu caro amigo, que continuo em Paris, em visita ora a um ora a
outro, sem saber qual será o término de minhas correrias desgastantes. Espero, porém, que
com o socorro das orações que se fazem em toda parte, conseguirei o objetivo de todas essas
andanças.
Ontem falei com o chefe de repartição encarregado de todos os assuntos relativos às
Escolas Primárias. É o senhor Pillet, o qual me disse que meu processo conseguiu um parecer
favorável em todos os Conselhos Universitários, e que no dia seguinte ele pensava redigir a
minuta do Decreto que será apresentado ao Conselho de Estado e, a seguir, ao Rei para que o
sancione.
O senhor Lachaize, deputado do Loire, disse ao prefeito de La Valla, atualmente em
Paris, que apostaria dez contra um que eu obteria o decreto. Apesar de tudo isto, meu caro
Irmão, estou perfeitamente persuadido de que as coisas só acontecerão na medida em que
Deus quiser, nem mais nem menos. Mas não deixo de lado nada que possa favorecer nosso
objetivo. Sei que Deus quer que nos sirvamos dos homens em tais circunstâncias. Portanto,
você está vendo que eu preciso é de orações.
Cumpra juntamente com seus colaboradores, que me são todos muito caros, cumpra,
cumpra por amor de Jesus Cristo, todos os seus deveres. Reze e faça seus alunos rezar; você
bem sabe quanto Jesus gosta de ser importunado por estas almas inocentes. Minhas andanças
na Capital são particularmente no interesse delas.
Estou passando muito bem em Paris. Hospedado no Seminário das Missões
Estrangeiras, onde me encontro muito a gosto. Eu posso garantir-lhe: Se não soubesse que
estaria fazendo alguma falta em l'Hermitage, pediria para terminar aqui os meus dias. Sigo o
regulamento da casa, tanto quanto me permitem as saídas. Levanto-me ao toque do sino,
250
assisto à meditação e aos demais exercícios espirituais, estou presente nas refeições e nos
recreios.
Estou sumamente edificado com a generosa dedicação dos que se destinam às missões
longínquas. Que amável caridade reina entre eles! São alegres, mas sem leviandade nem
dissipação. Inquieta-os tudo aquilo que ocasiona atraso na partida, mas não os desanima.
Há em Paris um núcleo excelente de bons cristãos. Desejaria que nossos campônios
que se julgam bons cristãos, vissem com que respeito o pessoal se comporta na igreja, com
que assiduidade e atenção ouvem os sermões! Sobretudo gostaria que presenciassem a piedade
e o recolhimento com que se aproximam da sagrada mesa. Não receiam permanecer na igreja
por duas ou três horas, pois as cerimônias aqui são muito compridas. É o pessoal mais
granfino de Paris que assim procede.
O Irmão Marie Jubin está conseguindo bons resultados. Atualmente segue as aulas
para os surdos-mudos, e eu faço o mesmo quando posso.
Nem quero lhe contar, meu caro, o que passei de frio neste inverno. O combustível em
Paris é caríssimo: um cidadão comum pode carregar em seus ombros madeira no valor de
quinze francos. Várias pessoas morreram de frio.
Adeus, meu caro amigo; adeus, meu caro Théodose, Henry Marie e meu amigo
cozinheiro. Que Jesus e Maria sejam sua única herança. Eu sou por toda a vida seu devotado
pai em Jesus e Maria.
Champagnat
P.S. Saudações de muito carinho ao senhor Pároco e a seu Coadjutor. Passe minha carta aos
Irmãos de Mornant, dizendo-lhes que abraço a todos.
29 de março: Estou chegando do Ministério da Instrução Pública. Lá me anunciaram que o
Decreto da autorização estava pronto e que o Ministro o assinaria talvez amanhã,
apresentando-o a seguir ao Conselho de Estado, para depois fazê-lo assinar pelo Rei. Garantiu
que isso não iria demorar.
Queira anunciar isso aos Irmãos de Mornant e de St-Symphorien, recomendando-lhes
que continuem suas preces. Dê esta notícia também ao senhor Pároco, acrescentando que lhe
mando mil recomendações. Estou sempre a lhe pedir que não me esqueça em suas fervorosas
orações.
Adeus, caro amigo. Penso estar em Lião nos últimos dias da semana santa, mas não é
certeza.
251
184 – Ao senhor ANTOINE NICOLAS DE SALVANDY,
Ministro da Instrução Pública, Paris.
11 de abril de 1838.
Alguns lampejos de esperança tinham brilhado aos olhos de Champagnat, segundo o que
lemos na carta precedente, dirigida ao Irmão Antoine.
No dia 11, o Padre encaminha ao ministro Salvandy a carta que segue. Curtinha. Caligrafia
impecável, certamente de algum amanuense caprichoso que terá contratado ad hoc.
Desta vez, "ESTOU COM A FIRME ESPERANÇA DE SER ATENDIDO!"
Entretanto o Ministro inventa outra escapatória. Logo no dia seguinte, escreve aos prefeitos
dos Departamentos do Loire e do Ródano e lhes pergunta, com mal disfarçado zelo: "Será que a
aprovação dos Irmãos Maristas não vai causar estorvo à obra benemérita dos Irmãos das Escolas
Cristãs? Não irá prejudicar também nossas Escolas Normais?"
Paris, 11 de abril de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Senhor Ministro,
O Padre Champagnat, fundador da Congregação dos Irmãozinhos de Maria, que teve a
honra de ser apresentado a V. Excia. pelo senhor Ardaillon, deputado do Loire, no dia 22 de
janeiro, continua hospedado em Paris, aguardando o desfecho dos trâmites a que deu curso,
com o objetivo de conseguir o Decreto Real em favor do seu Instituto, cuja utilidade vem
sendo demonstrada pelos inúmeros pedidos de fundação que lhe chegam de toda parte.
O Padre Champagnat volta hoje à sua presença a suplicar que se digne tomar em
consideração o seu pedido, a fim de que, manifestada a V. Excia. sua gratidão, possa regressar
à sua casa, onde sua presença está sendo muito esperada, a fim de continuar a supervisão e o
crescimento de sua obra.
Senhor Ministro, não tenha dúvida que seu nome ficará gravado em todos os corações
dos filhos de Maria, por todo o tempo que durar esta Ordem.
Na esperança de ser atendido favoravelmente, queira receber os protestos de respeito e
consideração com que tenho a honra de ser, Senhor Ministro, seu mui humilde e obediente
servo,
Champagnat
252
185 – Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
12 de abril de 1838.
O Padre Champagnat anuncia que voltará em breve para l'Hermitage. Se as viagens,
naquela época, não fossem tão dispendiosas e demoradas, a questão de ir e voltar seria resolvida
mais depressa.
Mesmo assim, em maio o Padre fará outra viagem a Paris. Deixou bem encaminhada a
questão.
Lemos no resumo dos Anais do Irmão Avit, p. 249-251, que o Padre Champagnat chegou em
l'Hermitage no dia 28 de abril; terá saído de Paris pelo dia 24 ou 25, pois o percurso demorava três
ou quatro dias.
V.J.M.J.
Paris, 12 de abril de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Ontem à tarde recebi sua carta a que me apresso em responder. O senhor Ardaillon
acabava de chegar. Penso estar em l'Hermitage no dia 28 próximo futuro, a menos que algum
imprevisto venha ainda fazer retardar minha partida. Se tal acontecer, escrever-lhe-ei outra
vez.
Por estes dias, vou fazer o que você pediu e terminar o que já estou fazendo. Os
trâmites concernentes à autorização prosseguem regularmente, quero dizer: só encontram um
obstáculo que é uma vagareza acabrunhadora, apesar de tudo o que se pode fazer.
Continuemos nossas orações, é este o único meio que nos resta.
Meu querido Irmão, espero que, chegando eu em casa, você não se contentará de
apenas me relatar de memória as diferentes particularidades que podem ter acontecido durante
minha ausência. É muito importante que eu seja informado de tudo, a fim de que, auxiliado
pelos conselhos seus e dos demais membros da administração, eu possa continuar a governar a
casa. É importante que tenha um relato pormenorizado, dia por dia, do que aconteceu desde
que eu saí. Entenda-se com o Irmão Stanislas, o Irmão Jean Marie e os demais Irmãos
trabalhadores, o Irmão Bonaventure; um relatório para o que diz respeito a cada um. Digo isto,
não somente dos Irmãos que habitam l'Hermitage, mas também dos que estão nos
Estabelecimentos: os pedidos feitos, em suma, tudo o que interessa ou deve interessar um
superior de comunidade.
Continuo tendo boa saúde, quase não tive dor de estômago. Se não soubesse que
minha presença está sendo solicitada por causa de vários assuntos, não teria tanta pressa em
partir. Espero aliás que nossa questão importante não seja prejudicada, pois está muito bem
encaminhada. Espero que o Irmão Jean-Marie me apresente as contas direitinho.
Minha carta só vai ser despachada no dia 13 de abril. Adeus, meu caro Irmão,
compartilho de coração o sofrimento que lhe causou a morte de seu mano, (Jean-Marie
RIVAT, falecido no dia 27 de fevereiro).
Mil saudações aos Padres Matricon, Besson, a todos os bons Irmãos que emitiram
votos perpétuos e aos demais. A todos, meu abraço, nos Sagrados Corações de Jesus e de
253
Maria, esperando abraçá-los corporalmente. Você terá tempo de ainda me escrever para Paris,
se for preciso.
Hoje faz frio em Paris.
Seu mui dedicado,
Champagnat
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186 – Ao senhor ANTOINE NICOLAS DE SALVANDY,
Monistro da Instrução Pública, Paris.
21 de abril de 1838.
Antes do regresso a l'Hermitage, o Padre Champagnat escreve ao Ministro, agradecendo por
tudo quanto este fez pela autorização do Instituto. Renova seus sentimentos de profundo respeito e
pede, mais uma vez, que continue o processo logo que os prefeitos Departamentais do Loire e do
Ródano tiverem mandado seus pareceres.
Dá para entender que Champagnat sabia da consulta que o Ministro estava fazendo aos
senhores prefeitos desses Departamentos, em cujos territórios funcionavam umas vinte escolas
dirigidas pelos seus discípulos. Possivelmente soubesse também o teor de tão inesperada, para não
dizer ardilosa, consulta.
Paris, 21 de abril de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Senhor Ministro,
Padre Champagnat, fundador dos Irmãozinhos de Maria, não podendo, conforme foi
informado, esperar uma audiência por agora, vem, por estas poucas palavras, manifestar-lhe
seu profundo respeito e os agradecimentos por tudo o que fez V. Excia. em favor da obra que
fundou. Fica constrangido de ter só estéreis agradecimentos a apresentar, mas se alegra com a
posição a que V. Excia. foi guindado pela Providência e roga com muita sinceridade que a
mesma Providencia o conserve no cargo.
Poderia ainda o Padre Champagnat suplicar a V. Excia. de retomar o processo da
autorização, logo que os senhores Prefeitos Departamentais tiverem respondido?
Desejo firmemente dar a esta Instituição uma existência que esteja em perfeita
harmonia com o governo. O notável interesse que V. Excia. demonstra pela instrução constitui
para mim motivo de esperar que não ficarão frustradas minhas tentativas e os anseios de tantas
pessoas notáveis.
Queira aceitar a certeza do profundo respeito com que, Senhor Ministro, tenho a honra
de ser, de Vossa Excelência, o servo muito humilde e obediente.
Champagnat
255
187 – Ao Padre MICHEL MARIE DUTOUR, Pároco de
Amplepuis, Rhône.
11 de maio de 1838.
Esta carta é resposta a uma segunda que o Padre Dutour estava mandando ao Padre
Champagnat. (Cf. Carta de no 138).
"Só poderei atender a seu pedido dentro de anos, responde-lhe Champagnat, e mesmo assim
só se até lá o senhor não tiver conseguido Irmãos provindos de outra organização."
Dutour não esperou, queria fundar logo uma escola dirigida por religiosos. Recorreu aos
Clérigos de Saint-Viateur, fundados pelo Padre Louis QUERBES, pároco de Vourles, no Ródano.
No mesmo ano, começou a funcionar a escola projetada.
Senhor pároco,
Recebi sua carta alguns dias depois de meu regresso de Paris. Sempre tivemos muito
interesse pelo estabelecimento de Amplepuis; teríamos muito prazer em dar atendimento de
imediato a seus desejos, indo ao encontro de seu zelo verdadeiramente pastoral em favor da
educação de seus filhos, mas infelizmente nossa escassez de pessoas não deixa. O que eu
posso prometer-lhe é que dentro de dois anos poderemos fornecer-lhe Irmãos, nesta mesma
data, a menos que o senhor já não os tenha conseguido alhures.
Rogo aceitar minhas escusas e os protestos de meus sinceros sentimentos de
dedicação, com que tenho a honra de ser, digníssimo Pároco, seu servo muito humilde e
obediente.
256
188 – Ao Padre ABEL XAVIER MEGE, Arcipreste em
Morestel, Isère.
11 de maio de 1838.
O Padre Mège, Arcipreste de Morestel, recebeu desta vez a mesma resposta negativa que foi
dada ao Padre Dutour. Justifica o Padre Champagnat com dois motivos o fato de nem mencionar o
prazo que achasse conveniente impor para que finalmente pudesse atender:
- as Missões da Polinésia reclamam novos obreiros;
- as escolas que já estão em funcionamento precisam de reforços e de pessoal de
revezamento.
O Padre Abel não desanimou com esta recusa. Veremos que voltará com nova solicitação.
(cf. Cartas no 254 e 337)
Notar que o copista usou o início da carta precedente, deixando até Amplepuis quando
deveria escrever Morestel.
Senhor Pároco,
Recebi sua carta alguns dias depois de meu regresso de Paris. Sempre tivemos muito
interesse pelo estabelecimento de Amplepuis, teríamos muito prazer em dar atendimento de
imediato a seus desejos, indo ao encontro do seu zelo verdadeiramente pastoral em favor da
educação de seus filhos, mas encontramo-nos na impossibilidade de lhe fornecer Irmãos neste
ano. A nossa Missão da Polinésia está a exigir novos operários e nós vamos embarcá-los para
lá, de imediato.
Vários de nossos estabelecimentos se ressentem da necessidade de reforços e, mais
ainda, temos que abrir uma nova casa de Noviciado. Assim, pois, todos os nossos Irmãos
disponíveis vão estar ocupados.
Assim, não poderíamos aumentar o número de nossos estabelecimentos sem correr o
grave risco de deixá-los definhar.
Rogo aceitar minhas escusas e os protestos de total dedicação com que tenho a honra
de ser, digníssimo Pároco, seu muito humilde e obediente servidor.
257
189 – Ao Padre JEAN-MARIE MATHIAS DEBELAY,
Pároco de Nantua, Ain.
11 de maio de 1838.
No ano anterior, 1837, o bispo de Belley, Dom Alexandre Devie, pedira ao Padre
Champagnat três Irmãos, para uma futura escola a ser implantada em Nantua.
Agora é o pároco desta cidade que se dirige ao Padre Champagnat, lembra a promessa
anteriormente feita e conta uma série de vantagens - casa bonita, localização esplêndida, etc. - da
projetada obra; nada, porém, de bem concreto sobre as condições de manutenção dos Irmãos.
Champagnat quer as coisas bem definidas. O pároco vai novamente procurar a intervenção do bispo.
(Cf. Carta no 239)
Senhor Pároco,
O empenho que manifesta o senhor bispo de Beley em conseguir um estabelecimento
de nossos Irmãos é motivo sério para que nós não descartemos o seu pedido. Mas, para que o
projetado estabelecimento prospere e os Irmãos possam competir vantajosamente com os
professores particulares, faz-se mister que a escola seja gratuita e que o senhor tenha a
aprovação do senhor prefeito do seu Departamento e também das autoridades locais.
Grande número de municípios nos adiantaram estas vantagens em apoio dos pedidos
que nos dirigem, e o senhor está de acordo em que nossa Sociedade tenha todo interesse em
dar prioridade aos estabelecimentos desta natureza.
Mais duas palavrinhas que o senhor mandasse nos ajudariam a tomar um
conhecimento mais completo do estado de coisas e nos possibilitaria dar-lhe uma resposta
mais precisa com relação à época em que poderemos mandar os irmãos.
Queira aceitar minhas respeitosas homenagens e a certeza de total dedicação com o
qual tenho a honra de ser, senhor Pároco, seu servo muito humilde e obediente.
Champagnat, sup.
258
190 – Aos Administadores de Asilos de Saint-
Etienne, Loire.
maio de 1838.
A carta é de maio de 1838, não sabemos de que dia. Desde algum tempo o Padre
Champagnat tinha ficado a par do projeto dos Administradores de Asilos.
Quem eram eles? - Thiollière, Deshayes, Bertholet, Balley, esclarece o Irmão Avit, nos seus
Anais, à p. 249.
E qual o projeto que acalentavam? - Pensavam em confiar o Instituto de Surdos-Mudos aos
discípulos de Champagnat.
Magnífica idéia, pensou este, e prometeu ir visitar aquela benemérita instituição.
Mais tarde, ficamos sabendo que os Irmãos das Escolas Cristãs assumiram a obra em 1845.
Prezados Senhores,
Faz tempo que estamos imaginando os meios de prestarmos serviços aos meninos dos
Asilos de Caridade.
Com estas disposições, apressamo-nos em acolher a oferta que nos estão fazendo de
irmos em socorro desses meninos. Se não sofrerem transtornos os nossos regulamentos,
poderemos contribuir para melhorar a condição de vida dos meninos dos quais vocês nos
falam. Faremos isto com muito prazer.
Assim que tiver um momento disponível, irei a Saint-Etienne para acertar com os
senhores as medidas que precisam ser tomadas.
259
191 – Ao senhor ALEXANDRE DELON, vice-prefeito
do Departamento do Loire, em Saint-Étienne.
Os Irmãos se instalaram em Saint-Martin-la-Plaine, em 1836. Em condições precárias:
abrigo insalubre, tão ruim que dois Irmãos perderam a saúde, um deles morreu.
O Padre Champagnat se dirige nesta carta ao vice-prefeito que, segundo o Art. 17 da Lei de
28 de junho de 1833, era o encarregado de fiscalizar e animar a instrução primária do distrito.
Diz-lhe sem rodeios: "Vemo-nos obrigados a largar esta escola."
Perante o ultimato, a questão da moradia foi solucionada, mas dos gastos da construção não
sobrou verba para a manutenção dos Irmãos.
Senhor vice-prefeito,
Quando nos pediram Irmãos para Saint-Martin-la-Plaine, fizemos notar que o local
não se prestava muito.
Disseram-nos que os Irmãos ocupariam este local somente durante um ano e que
depois iriam morar em outra casa construída ad hoc.
Nós nos ativemos às ponderações que nos foram feitas a esse respeito. Mas, nossa
condescendência nos custou caro; foi aí que um de nossos Irmãos perdeu a vida e outro, a
saúde.
Por isso, vemo-nos obrigados a interromper nossa permanência nessa escola, até que
termine a nova construção. Mas, não quisemos chegar a este extremo, sem antes prevenir V.
Excia.
Com a satisfação de poder apresentar-lhe de novo a homenagem de respeitosa atenção
com a qual serei sempre seu humilde e obediente servidor.
Champagnat
260
192 - A Dom LOUIS JACQUES MAURICE DE
BONALD, bispo de Puy, Haute-Loire.
maio de 1838.
Os Irmãos do Sagrado Coração fundaram uma escola em Craponne, na diocese de Dom De
Bonald. Largaram-na três ou quatro anos depois, não sabemos por que razões. Então o pároco,
Padre Sallanon foi a l'Hermitage pedir que os Maristas continuassem a ministrar a instrução e
educação religiosa em Craponne. O Bispo apoiou o pedido. Não seria neste ano de 1838, só no
seguinte, explica Champagnat. E não seria em Craponne, mas em Tence, que entrou com o pedido
antes de Craponne.
Como Pastor que melhor conhece seu rebanho, o Bispo intervém: "O pároco de Tence não
tem autorização minha de passar na frente de Craponne que é um centro mais importante. Acresce
também que já está tudo pronto em Craponne para receber os Irmãos. Se o Padre Peala (cf. Carta n o
136) insistir, continua o Bispo, notifique a ele que o Bispo se opõe formalmente a que os Irmãos se
instalem em Tence antes de Craponne."
De fato, os Irmãos foram dirigir a escola de Craponne em 1839. Tence teve um século de
espera. Só viu os Irmãos em 1938! (cf. Carta no 338).
Excia. Revma.,
Sua estimada missiva chegou à nossa casa durante a minha ausência. Por isto, a
resposta vai com certo atraso. Há tempo que alimentamos o desejo de possuir um
estabelecimento em sua diocese. Estamos convencidos de que poderia ser muito útil à nossa
Congregação, sobretudo em vista do autêntico testemunho de benevolência que V. Excia. nos
vem dando.Achamos que é lastimável não estarmos em condições, neste ano, de atender ao
primeiro pedido que V. Excia. se digna fazer-nos. Seria ocasião de lhe demonstrarmos nossa
prontidão em favorecer o zelo verdadeiramente apostólico de V. Excia. para com esta diocese
que oferece tão rica messe.
A escassez de Irmãos e o número de estabelecimentos já prometidos nos
desaconselham, por ora, erigir outras casas. Antes que o senhor pároco de Craponne tivesse
chegado à nossa casa para solicitar o envio de Irmãos, o pároco de Tence já nos tinha
formulado igual pedido, várias vezes, para a própria paróquia. Achamos muito conveniente
que seja a vez dele de ser servido. Não esqueceremos a cidade de Craponne, assim que
pudermos implantar nela um estabelecimento. Temos esperança de realizar este projeto sem
muita detença, como já demos a entender ao senhor pároco.
Considero-me feliz em ter a oportunidade de apresentar a V. Excia. Revma. minha
respeitosa homenagem e de lhe protestar total devotamento com que, serei para sempre,
Senhor Bispo, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
261
193 – Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage
20 de maio de 1838.
No dia 14 de maio, o Padre Champagnat embarcou novamente, rumo à capital francesa. Fez
uma parada em Lião para falar com o amigo, Padre Jean Louis Duplay, ecônomo do Seminário e
fazer algumas compras que acabou deixando de fazer.
Todo esperançoso, enfrentou o cansaço e prosseguiu na busca daquilo que julgava do seu
dever conseguir para os Irmãos.
Na longa carta que escreveu de Paris, emendando trechos de um dia para outro, repetindo
idéias e descrevendo minuciosamente todas as suas andanças, projetos e peripécias, irá finalmente
concluir, em tom melancólico: " Ainda não cheguei ao final das tribulações que terei de curtir!"
Paris, 20 de maio de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
Cheguei em Paris quinta-feira, à meia-noite. Quase não parei tempo nenhum em Lião.
O Arcebispo não me deu tréguas e logo tive que sair. Não comprei nada, nem pedra para a
litografia nem farinha. Apesar do que, conversei com o Padre Duplay, ecônomo do Seminário
que fará nossas compras quando quisermos, ao mesmo tempo que fizer as do Seminário. Creio
que não há urgência para isto. Para dar serviço ao Irmão Marie Jubin, compre-lhe uma pedra
em Saint-Etienne ou em Lião, se tiver ocasião.
Cheguei aqui do mesmo modo como estava ao despedir-me, nem muito bem nem
muito mal. O tempo não me custa a passar porque ando ocupado com o nosso grande
problema. Já entrevistei algumas pessoas que dão uma mãozinha, que de ordinário continuam
prometendo muitas coisas. O senhor Ardaillon me deu rebate falso quando me anunciou que
meus documentos estavam no Conselho de Estado. Depois, logo em seguida quis certificar-
me e constatei que não estavam.
Ao Superior do Seminário de Montpellier responda que, por ocasião da visita que tiver
de fazer a um estabelecimento do Var, no decorrer do verão, aproveitaria para matar dois
coelhos com uma só cajadada: nossa intenção é erigir um noviciado no Sul da França.
Por esta vez ainda, encontrei Paris muito tranqüila. Cheguei aqui de batina. Durante a
viagem, de carruagem, fiz juntamente com as pessoas que viajavam comigo, o mês de Maria e
recitamos o terço, sem dificuldade alguma, digo melhor, para a satisfação de todos. Não ouvi
palavra alguma que pudesse ser interpretada como contrária às normas cristãs.
Se dentre os objetos que você recebeu encontrou alguma coisa avariada, queira me
avisar logo.
Parece-me que o senhor Prefeito Departamental do Loire ainda não escreveu. Acabo
de entrevistar o senhor Delbecque; disse-me que só estava esperando aquele documento.
Acabo de mandar escrever ao prefeito. Pode ser que a carta dele esteja parada em alguma
gaveta.
Seja feita a santíssima vontade de Deus! Só Ele sabe com que satisfação eu retomaria
o caminho de Lião, logo que meus problemas estivessem terminados. Mais uma vez seja feita
a santíssima vontade de Deus!
25 de maio
262
Embora eu me sinta disposto, o tempo está custando a passar. Você deve ter recebido
uma carta do senhor Delbecque. Gostaria de saber em que termos foi redigida, para isso
mande-me uma cópia, se é que a recebeu mesmo. Não passa um dia sem chover.
Eis-nos chegados ao dia 26. Espero ter bom resultado, é o que todo mundo não cansa
de me prometer. Receio estar querendo-o demais. Rogo e roguem por mim para que eu me
conforme com a vontade de Deus.
Recebi ontem a carta que você me enviou. Respondi e prometi mandar Irmãos a Saint-
Pol, Pas-de-Calais. Não tinha como recusar. Com o socorro de Maria, vamos mover céus e
terra, para podermos cumprir esta promessa.
Finalmente chegou o relatório do prefeito do Loire. Perfeitamente favorável em tudo,
da mesma maneira que o do prefeito do Rhone.
Hoje vou ao Ministério. Estou pensando que ainda pode surgir outro obstáculo. "Ad
Majorem Dei Gloriam!" (Seja tudo para a maior glória de Deus!)
Você está vendo que retomei a carta muitas vezes. Incomodei quase todas essas
pessoas, quero dizer os deputados, com minhas visitas sem conta. Dentro de um instante, irei
ao Ministério da Instrução Pública para saber se há alguma novidade.
Chego de volta do Ministério. Mandaram voltar amanhã. Acabo de travar
conhecimento com um senhor que trabalha no Ministério e que é de Lião. Chama-se
Pasqualini. Foi ele que me proporcionou esta ocasião. Mas, acho que também ele não me vai
valer mais do que os outros.
Virgem santa, vosso mês está acabando!
Não estou com vontade ainda dessa vez de comprar a capa magna, se isto não
aborrecer demais o Irmão Stanislas. Poderei mais tarde, de viva voz, dizer-lhe o porquê.
Ainda não cheguei ao fim de minhas tribulações. Rezem por mim, que estou
precisando muito. Bem pode pensar que de minha parte não esqueço nenhum membro de
nossa Sociedade. Todos são muito caros ao meu coração. Diga a todos quanto estou contando
com as suas preces.
A Deus e a Maria os recomendo, agora e pela eternidade!
Champagnat.
P.S. Meus sentimentos de amizade aos Padres Matricon e Besson. Estou vendo agora que
minha presença se faz necessária em Paris. Dentro em breve, saberei se há qualquer
providência a tomar.
263
194 - A Dom JEAN-BAPTISTE-FRANÇOIS
POMPALLIER, Vigário Apostólico da Oeânia.
27 de maio de 1838.
No segundo domingo desta segunda viagem a Paris, o Padre Champagnat escreve
demoradamente ao primeiro bispo missionário da Oceânia, Dom Pompallier.
São muitas as cartas que os dois amigos trocaram entre si. Tantas e tão variadas notícias da
mãe-pátria interessam sumamente quem vive em outra civilização distante.
A parte final desta carta foi escrita em l’Hermitage, após o regresso de Paris, pelos meados
de julho. Isto indica que era prolongada a espera de um navio que se destinasse às ilhas do Pacífico.
As viagens eram raras, em razão dos meios de transporte e dos perigos a que se expunham os
veleiros. É só lembrar-se de "La Delphine" que acabou como sucata em Valparaíso. Depois de
aguardar durante meses, os missionários conseguiram embarcar em outro navio que os levou ao
término da viagem, no Extremo Oriente.
Paris, 27 de maio de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120
Senhor Vigário Apostólico,
É com grande prazer que, sem detença, aproveito um momento de folga para
responder à sua amável missiva.
Estou em Paris, como o senhor vê, desde o dia 18 de janeiro, procurando conseguir
para os Irmãos a autorização que ainda não obtive, mas que estou cada dia mais esperançoso
de conseguir. Parece que tudo está em ordem, mas as formalidades nunca se encontram
completamente satisfeitas. Quantas andanças dentro de Paris, quantas visitas! Difícil é fazer
uma idéia de toda essa correria.
Foi de batina que realizei todas as minhas visitas, todas as viagens, sem nunca ter
sofrido um insulto nem sequer me chamarem de jesuíta!.
Paris está o máximo de tranqüilidade; o comércio funciona mais ou menos bem. Na
Capital há mais prática religiosa nas pessoas do que se imagina. O senhor bem pode imaginar
como o tempo me custa a passar, afastado como estou das minhas ocupações. Mesmo com
todo este transtorno que tenho em Paris, eu me sinto melhor de saúde do que em L'Hermitage.
O Padre Dubois fala muitas vezes do senhor. Poucos dias se passam sem que ele me
diga: Não esqueça aquela missão.
Santo homem aquele! Seria preciso multiplicá-lo e fazê-lo viver muito tempo.
Nesse tempo, a França está mandando missionários para todos os países que precisam.
Durante minha estada em Paris, vi partir seis do Seminário das Missões Estrangeiras; outros
se estão preparando. Quantos motivos de edificação encontro nesta casa! A religião não
morrerá tão cedo na França, ela possui ainda muita vitalidade. A obra da Propagação da Fé se
desenvolve mais e mais cada dia.
O Padre Mioland foi nomeado bispo de Amiens; tomou posse ontem. Os Cartuxos
nomearam novo superior, é pena que não me lembre do nome.
Continuamos a receber muitos noviços. Somos atualmente duzentos e vinte e cinco ou
seis (Irmãos). Temos trinta e oito ou trinta e nove estabelecimentos e setenta pedidos.
Sofremos um verdadeiro assédio por parte daqueles que querem conseguir Irmãos; empregam
264
toda sorte de estratagemas para arrancá-los. Os que não gozam de alguma influência, servem-
se de pessoas às quais não podemos recusar.
Estamos em vésperas de abrir uma nova casa mãe (noviciado). É possível que a
estabeleçamos no Departamento do Var.
O Padre Matricon continua comigo, estou muito contente com ele. Faz-se estimar
pelos Irmãos e sabe julgar com muito acerto. Tenho também o Padre Besson, que continua
muito bom rapaz. O Irmão François é meu braço direito; governa a casa durante minha
ausência como se eu estivesse presente. Todos o acatam sem resistências.
Maria mostra visivelmente sua proteção sobre l’Hermitage. Como tem força o santo
nome de Maria! Quão felizes somos de nos termos ornamentado com ele! Há muito que não
se falaria mais de nossa Sociedade sem este nome milagroso! Maria, está aí toda a riqueza
(ressource) de nossa Sociedade.
Terminamos a Capela. Está muito bonita; nós a consideramos infinitamente cara a
nosso coração, abençoada que foi por nosso primeiro missionário e primeiro bispo da
Sociedade. A todos esses títulos espero que se acrescentará um terceiro, como consequência
natural: o primeiro que.
O Padre Terraillon continua como pároco de Saint Chamond. Penso, contudo, que não
vai parar lá por muito tempo.
O senhor Arcebispo manifesta mais do que nunca sua benevolência para conosco e da
mesma maneira o bispo de Belley.
Neste ano, começamos o estabelecimento da Grange-Payre. Já começa a prosperar,
tendo já matriculado um bom número de alunos. Maria, sim só Maria é nossa prosperidade;
sem Maria não somos nada e com Maria temos tudo, porque Maria está sempre com seu
adorável Filho ou no colo ou no coração. Como pode o senhor imaginar, é também por Maria
que espero conseguir a autorização que estou pleiteando.
Seja feita a santa, a santíssima vontade de Deus! Ouço o senhor responder: Amém!
Que todos os que acompanham V. Excia., a saber, Irmãos e Confrades respondam o mesmo, e
que rezem por mim, que me recomendo às fervorosas orações deles, sobretudo às suas, Excia.
Por minha parte, nunca subo ao santo altar, sem lembrar-me de nossa querida missão e dos
que para ela são enviados. Continue mostrando-se o pai dos que lhe enviamos, do mesmo
modo como procedeu com os primeiros.
Digne-se V. Excia. acolher meus protestos do meu sincero devotamento e de
sentimentos verdadeiramente afetuosos com que, Ex.mo Vigário Apostólico, tenho a honra de
ser, com respeito, seu servo muito humilde.
Champagnat
Estou de volta a l’Hermitage, sem ter chegado ao fim em Paris. O senhor Fulchiron
que entrevistei logo ao chegar de Paris, me diz que meus papéis tinham finalmente saído dos
escritórios da Universidade, para serem encaminhados ao conselho de Estado, com uma
apostila favorável emanada do senhor Ministro.
Vamos fundar uma escola em Saint-Pol (Pas-de-Calais), foi-me pedido pelo Ministro.
Parece que quereriam que fosse uma casa mãe (noviciado). Outra está sendo pedida para
Montpellier e uma para o Departamento do Var, onde todos os gastos serão por conta dos
peticionários.
265
Estamos sendo assediados pelos numerosos pedidos que todos os dias batem à nossa
porta. Estou desejoso de encontrar quem me substitua.
Reze por mim, estou muito precisado de orações. Estou convencido de que suas
orações são agradáveis ao bom Deus.
266
195 - Ao IRMÃO FRANÇOIS, em l'Hermitage
7 de junho de 1838.
Aproveitando a estada em Paris, o Padre Champagnat adquiriu vários objetos religiosos.
Despachou-os para l'Hermitage, metidos em caixotes, onde deve ter colocado também esta carta de
recomendações e conselhos.
Vê-se pela redação que tudo foi feito às pressas, sem maiores formalidades de estilo
epistolar. Não há o vocativo no início e a terminação é brusca. Depois de assinar essas linhas é que
se lembrou de mandar saudações aos Padres de l'Hermitage.
Dirige-se principalmente ao Irmão François, como a seu "fac totum" e no final, subitamente
exorta a todos a confiarem em Deus.
Paris, 7 de junho de 1838.
Tome todo o cuidado possível com esses objetos que você recebeu, devidamente
encaixotados. Eu não gostaria que o Irmão Stanislas instalasse logo o lustre que lhe enviei.
Penso que é bonito demais para nós; mas, deixemos este caso para depois, quando
decidiremos em conjunto.
Quanto às imagens, custaram uma nota!. Calcule aí uma soma bastante grossa de
dinheiro para pagá-las. É importante deixá-las bem guardadas, na espera da decisão que juntos
tomaremos sobre o destino delas.
O Ministro está pedindo Irmãos para Saint Pol (Pas-de-Calais). Você bem pode
imaginar que não pensei duas vezes para lhe dar uma resposta definitiva, apesar de nossa
situação. Não podia proceder de outra maneira, em razão das circunstâncias críticas em que
nos encontramos.
Será preciso que liberemos alguns Irmãos a mais, pois Saint-Pol é uma vice-prefeitura
de Departamento.
Dentro em breve, acho que vou saber o resultado de todas as nossas gestões. Já
chegaram todos os documentos pedidos. O senhor Delbecque me confirmou que dentro de três
dias o processo será levado ao conselho de Estado, o que significa um grande passo, mas não
é tudo.
O senhor Sauzet segredou-me que no conselho há vários membros sectários de
Voltaire que se apavoram com qualquer coisa, enxergam em toda parte padres se infiltrando.
Não há dúvida que temos de acreditar que estamos nas mãos de Jesus e de Maria.
Peçam a Eles, queridos Irmãos, que seja feita a santa vontade de Deus e procuremos querer
somente aquilo que Deus quiser. Entreguemos em suas mãos o resultado de nosso trabalho,
Ele sabe melhor do que nós o que estamos precisando.
Champagnat
A seu inteiro dispor, saudações amigas aos Padres Matricon e Besson.
267
196 - AO IRMÃO FRANÇOIS, EM L'HERMITAGE
20 de junho de 1838.
Nesta carta, o Padre Champagnat detalha seus planos:
- Mais uma audiência com o Ministro Salvandy;
- Partir em visita de inspeção ao estabelecimento que o próprio Ministro pediu que o Padre
fundasse, em Saint-Pol.
- Como de costume, antes de começar uma escola, Champagnat costumava visitar as
autoridades locais, inspecionar o local, saber das condições de manutenção dos Irmãos, etc.
- Terminada a visita a Saint- Pol, regressar a l'Hermitage.
Os Padre Bati e Petit são dois Maristas que querem ir para as Missões da Oceânia.
O Padre Champagnat volta novamente seu pensamento para a escola de surdos-mudos e
quer mandar dois Irmãos a Paris para se capacitarem a exercer o apostolado junto a esses
deficientes.
No ano seguinte, o Instituto de surdos-mudos de Saint-Etienne pediu ao Padre Champagnat
que mandasse Irmãos. Como não se tinha ainda acertado a preparação dos mesmos, os responsáveis
por aquela obra tão cara ao coração de Champagnat confiaram a direção aos Irmãos das Escolas
Cristãs.
V.J.M.J.
Paris, 20 de junho de 1838. Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Meus caríssimos Irmãos,
Acabo de pedir uma audiência ao Ministro da Instrução Pública. Logo que a tiver
conseguido, partirei para Saint-Pol (Pas-de-Calais), a fim de visitar a casa e entrar em
entendimentos com as autoridades locais. O senhor Delbecque faz questão que fundemos este
estabelecimento. A escola oferece grandes vantagens e o êxito é certo, pois a manutenção está
garantida.
Quando voltar de Saint-Pol, partirei para l'Hermitage, onde pretendo chegar pelo dia
dois de julho. Ponhamos sempre nossa firme confiança em Maria. Ela já nos concedeu favores
demais, por isso não nos vai recusar agora o que lhe estamos pedindo.
Os Padres Bati e Petit chegaram em Paris sexta-feira de tarde, no dia 15 do corrente.
Vi-os enlameados, carregando uma mala e entrando pelo meu quarto a dentro. Imagine a
minha surpresa, eu nem podia imaginar. Conduzi-os ao Ministério dos Cultos, do qual
esperamos receber uns mil escudos e ao Ministério da Marinha, onde conseguiremos pelo
menos alguma recomendação. Os problemas deles não se parecem em nada com o meu. Vão
acabar logo.
Recebi do senhor Jean-Marie Ginot mil francos para terminar de pagar os objetos que
você recebeu. Queira pagá-los ao mano dele, Michel, se ainda estiver na região.
Assim que tiver recebido esta, mande logo a Lião o Irmão François Régis para
aprender a imprimir. Para o senhor Guyot será um prazer mostrar como se faz, creio eu. Não
passa um dia sem chover. Hoje vai chover o dia inteiro.
Falei com o Superior dos Irmãos das Escolas Cristãs; eles só fazem um desconto
pequeno, e mesmo assim às custas da encadernação, de qualidade inferior.
268
Acabo de solicitar, à administração da escola dos surdos-mudos, a admissão gratuita
de dois Irmãos; se conseguir, terão hospedagem, calefação, comida, roupa lavada, iluminação
etc. etc., o tempo que for necessário para se formarem.
O Irmão Stanislas não me escreveu nada a respeito da capa magna. Deve ter
esquecido. Vou então comprar outra alfaia, com a qual vai ficar muito satisfeito.
Diga a todos os Irmãos que sempre estou pensando neles, sempre pedindo pela
felicidade deles. Que rezem por mim. Na novena que estou fazendo diante da estátua onde
também implorou graças São Francisco de Sales,- e com que eficácia! - não esqueço nenhum
de vocês. Que sejam bem cuidados, bem alimentados os bons Irmãos doentes, aos quais tenho
tamanha afeição! Que freqüentemente voltem o olhar para Aquela que chamamos
"Consoladora dos Aflitos"!
Por fim, os Padres Matricon e Besson recebam de minha parte os agradecimentos por
todos os serviços que prestam à comunidade. Gostaria de saber o que comprar para agraciá-
los.
Abraços a todos Ir. Louis, Ir. Jean-Baptiste, Ir. Jean-Marie, Stanislas, Ir. Hyppolite,
Jérôme, Jean Joseph, Theophile, Ir. Pierre, Pierre Joseph, Ir. Étienne, Bonaventure e aos seus
noviços. Lembranças afetuosas ao Philippe e à mulher e ao simpático “vovô” Boiron, a todos.
Tenho a honra ser todo para vocês em Jesus e Maria.
Champagnat
P.S. O Padre Bati pede que você não esqueça os recados que deixou.
269
197 – Ao Irmão FRANÇOIS, em L'Hermitage.
23 de junho de 1838.
No dizer do Irmão Avit (cf. Abrégé des Annales, p. 251), o Irmão François teria pedido ao
Padre Champagnat que o livrasse das preocupações da administração. Pode ser verdade, tanto que o
primeiro assunto em que entra o Fundador, sem preâmbulos, é uma palavra de estímulo, que
certamente foi muito bem correspondida pelo Irmão Francisco.
E logo o Padre Champagnat volta às providências que pensa tomar para conseguir mais uma
audiência com o Ministro da Instrução Pública, Monsieur De Salvandy. Este, desta vez, acabou de
decepcioná-lo, podemos dizer, de maneira mais sombria do que precedentemente.
Sempre novos entraves, novas artimanhas para cozinhar a questão em banho-maria,
Salvandy decididamente não quer conceder a autorização. Assunto encerrado.
Champagnat não se deixa abater. "Continuo tendo muita confiança em Jesus e Maria.
Conseguiremos nosso intento, não tenho duvida, só não sei a hora”, escreveu ele.
V.J.M.J.
Paris, 23 de junho de 1838, Missões Estrangeiras, rue du Bac, 120.
Meu caríssimo Irmão,
A posição que você ocupa em l'Hermitage não é invejável, como poderiam pensar
alguns. Que é que você estaria fazendo aí? Você não está aí de oferecido. Procure
simplesmente cumprir exatamente os deveres e Deus há de fazer o que você não puder.
Amanhã viajo para Saint-Pol, para visitar a casa que destinam aos Irmãos, conforme
está pedindo o senhor pároco e o prefeito. Estamos condenados a pegar este estabelecimento.
Eu esperava me livrar desta, mas não é possível, na condição em que nos encontramos.
Você está querendo saber, penso eu, em que pé estão nossas gestões. Infelizmente,
quase nada sei, ou se prefere, sei de tudo. O que antes desconfiava que fosse se mudou em
certeza. Estou muito aborrecido, mas não desanimado, continuo tendo muita confiança em
Jesus e Maria. Conseguiremos nosso intento, não tenho duvida, só não sei a hora. O que mais
nos importa é fazer de nossa parte somente o que Deus quer que façamos, quero dizer: o que
nos for possível. Depois disto, deixar agir a Providência. Deus sabe melhor do que nós o que
nos convém, o que é bom para nós. Estou muito consciente de que um pouco de espera não
nos será prejudicial.
Estou penalizado pela morte do bom Irmão Fabien e também pelo fato de que o Irmão
Justin não se restabelece. Deus seja bendito! Que Jesus e Maria o ajudem sempre mais e mais.
Você está vendo tão bem quanto eu que, em vez de abrirmos novas escolas no ano que
vem, estaremos obrigados a suprimir alguma. Não prometa nada a ninguém.
Pode receber os noviços de Marlhes dos quais me falou. Você está vendo como são
importantes os que se livraram do serviço militar; temos que acolher o que eles rendem ou o
que podem render.
Quanto aos consertos na Grange-Payre, atenho-me ao que Philippe puder fazer, mas
gostaria de ver primeiro a parede que quer demolir. O que me dá o que pensar é que ela estará
ainda úmida e por isso, não é bom ocupar logo a casa. Se não precisasse demolir, seria bem
melhor.
270
Quanto a Marcellin Lachal, não sei o que dizer, pois não sei bem como foi. Fez ele
muito mal de largar o patrão que tinha.
Tenho razões plausíveis para escolher o Irmão François Régis como próximo enviado
às Missões. O Irmão Marie Augustin irá a próxima vez. Espere meu retorno a l'Hermitage
para a admissão de Jutier e de Blanchon. Quanto ao meu sobrinho, é necessário que venha
com toda a vontade de seus pais e com a própria.
Não solte a rédea quanto ao Irmão Marie Théodore, se não fizer o que deve, quero
dizer: confessar-se. Que cada oito dias pelo menos entregue um bilhete de confissão.
De saúde, vou antes mal que bem, faz alguns dias. As viagens me cansam. Nos dias de
voltar, mandar-lhe-ei uma carta pelo Padre Bati, caso eu não vá com ele. Ele está em Paris faz
uns oito dias. Em todo caso penso estar em l’Hermitage dentro de quinze dias.
Não esqueça de dizer a todos os Irmãos quanto eu os amo, quanto sofro por estar
separado.
Champagnat.
Aos Padres Matricon, Besson, etc.
271
198 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã.
16 de julho de 1838.
Luís Fouet, entrou com 33 anos e ficou algum tempo na Congregação Marista e exerceu
apostolado em Millery, nos anos de 1834 e 1835.
Pouco afeito à vida comunitária, pediu para se retirar. Foi depois pedir admissão na
Congregação dos Irmãos da Instrução Cristã. O Padre Mazelier pediu prudentemente informações
sobre o postulante. Champagnat mostra-se compreensivo em sua apreciação. Não se tem mais notícia
de Luís Fouet.
Na mesma carta, o Padre Champagnat aproveita o espaço para mais uma vez solicitar os
préstimos do amigo Padre Mazelier, para conseguir isentar os Irmãos que estivessem sendo
chamados para o serviço militar. Faz notar que este subterfúgio não oferece perigo para as duas
Congregações. Disto tivera a prudência de se informar em Paris.
Jesus, Maria, José.
Padre Superior,
Louis Fouet, marceneiro de Sougraigne, município do Departamento de l'Aude,
permaneceu dois anos conosco. Tem fé, piedade, zelo, pode dirigir uma escola. Eu o
considero gente correta pelo que diz respeito aos costumes e honestidade.
O senhor costuma mandar seus Irmãos de um em um. Com este modo de proceder,
pode ser que o homem tenha mais sossego, mas duvido que possa simpatizar com alguém.
Creio que o senhor não corre nenhum risco em guardá-lo, nem vai ser obrigado a mandá-lo
embora.
Não consegui chegar ao final do meu trabalho em Paris, apesar de ter ficado lá seis
meses. Estamos com muita dificuldade em salvaguardar nossos Irmãos que foram atingidos
pela Lei de Convocação. Necessitamos de que o senhor venha em nosso auxílio ainda por este
ano. Não tardaremos em mandar-lhe alguns deles, se nos mandar uma palavrinha. Acho que o
senhor não corre risco de nada; consultei pessoas entendidas em Paris.
O Irmão Apollinaire não está completamente curado, e o Irmão Justin faleceu. O
Irmão Joseph Marie continua meio transtornado da cabeça. Quanto ao Irmão Cyprien, ele está
definitivamente autorizado e é professor oficialmente em Semur, Departamento de Saône-et-
Loire.
Tenho que fazer uma viagem até Grasse, desejaria muito ter a honra de visitá-lo. Na
espera deste tempo, se o senhor tiver que vir a Lião, não perca a ocasião de vir passar alguns
dias em nossa soledade.
Prezado senhor Superior, queira considerar-me sempre seu servo muito grato,
respeitoso e totalmente dedicado,
Champagnat
sup. d. I.
Notre Dame de l'Hermitage, 16 de julho de 1838.
272
199 – Ao Padre PAUL BENOIT, Diretor do Seminário
Maior, Montpellier, Héraut.
16 de julho de 1838.
Irmão François já tinha escrito, no ano anterior, ao então Superior do Seminário, Padre
Gaspard Grasset. Queria ele estabelecer um noviciado no Sul da França. Como o Padre
Champagnat se encontrava em Paris, o Irmão François pediu que aguardasse a volta dele para
l'Hermitage. Sabia-se que Champagnat tencionava expandir a Congregação para o Sul.
Agora é o Diretor do mesmo Seminário que pede Irmãos, mas para sua cidade natal,
Brassac.
Senhor Diretor,
Sua primeira carta chegou durante minha ausência. A última eu a recebi poucos dias
depois que cheguei.
Acabam de anunciar-me que foram incluídas duas palavras em resposta à sua carta no
envelope destinado ao Superior do seu Seminário. O teor da carta se referia a um projeto de
noviciado que ele nos propusera. Talvez não tenha ainda recebido esta resposta.
Tenho intenção de fazer uma viagem rápida ao Sul (da França). Espero ir encontrá-lo
para, juntos, conferenciarmos a respeito do estabelecimento que o senhor está pedindo. Na
verdade não poderemos fornecer Irmãos neste ano, por falta de gente, mas o seu pedido é
tomado em consideração e nos esforçaremos para atendê-lo o mais breve possível.
Aceite meus sentimentos de gratidão pela benevolência com que honra a nossa
Sociedade e receba a homenagem de respeitoso com o qual sou seu mui humilde e obediente
servidor.
Champagnat,
s. d. m.
273
200 – Ao Padre JEAN CHOLLETON, Vogário Geral da
Diocese de Lião, Rhône.
25 de julho de 1838.
Como no ano anterior, o Padre Champagnat pede ao Vigário Geral a autorização de dar o
hábito religioso a uma turma de postulantes. Será a terceira vestição do ano.
- Foram 15 postulantes em primeiro de janeiro;
- Mais 12, em 13 de maio;
- Serão 16 na terceira vestição, em 15 de agosto.
- São previstos mais 15, em 8 de dezembro próximo.
Total de noviços em 1838: 58
Resposta do Vigário Geral, escrita na mesma folha da petição: FIAT JUXTA OMNIA
PETITA, FAÇA-SE TUDO DE ACORDO COM O PEDIDO.
Noviços não faltavam; o que fazia falta era tempo suficiente para dar-lhes uma boa
formação religiosa e pedagógica.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 25 de julho de 1838.
Senhor Vigário Geral,
Venho pedir a V. Revma. a licença para conferir o hábito religioso a uns vinte noviços
que o estão solicitando com muita insistência. A cerimônia será no dia da Assunção, se V.
Revma. julgar que esta é uma data boa.
Estamos recebendo noviços em grande número, como nunca, mas a maior parte deles
têm pouca instrução e não pagam quase nada. A divina Providência não nos abandonou até
agora. É com ela que sempre contamos.
Digne-se V. Revma. receber os protestos de profundo respeito, com que tenho a honra
de ser, Senhor Vigário Geral, seu mui humilde servidor.
Champagnat.
274
201 – Ao senhor MARCELLIN GERENTET, prefeito de
Saint-Rambert-Sur-Loire, Loire.
27 de julho de 1838.
O pedido deste prefeito é convidativo, pois Saint-Rambert seria o ponto central de um
conjunto de escolas. Algumas já funcionavam: Sury, Firminy. Outras, Usson e esta de Saint Rambert
viriam depois.
Saint-Ramber, ponto estratégico, a 32 km de l'Hermitage e a 73 de Saint-Genis-Laval,
passando por Oullins.
Mas, por ora, não é possível prometer mais fundações, estando já na mira La Grange-Payre
e Saint-Pol-en-Artois. Só em 1885 é que foi aberta a escola de Saint-Rambert. Também é preciso
dizer que no tempo de Champagnat, o pároco de lá torcia antes para os Irmãos da Cruz, do Padre
Bochard, que já estavam em St-Just-sur-Loire
Senhor Prefeito,
Estou bastante contrariado por não poder mandar-lhe Irmãos na Festa de Todos os
Santos que se aproxima, conforme seu desejo.
A falta de gente e as promessas anteriormente feitas nos impedem, no momento, de
abrir novas escolas.
Creia-me, senhor Prefeito, que me seria muito agradável poder ir em auxílio de seu
zelo pela instrução da juventude de seu município. Veria com muito bons olhos uma escola
dirigida por nossos Irmãos e funcionando em Saint-Rambert, pois além do bom resultado que
certamente alcançariam, bafejados pela sua benevolente proteção, uma tal escola estaria muito
bem colocada para nós, como a marcar o centro das que já possuímos naquela região. Por isso,
logo que pudermos, faremos o possível para atender a seus desejos e também para provar a V.
Sª quanto lhe somos gratos pela confiança que tem demonstrado para com nossa instituição.
Tenho a honra de ser, com todo respeito, Senhor Prefeito, seu servo muito humilde e
obediente.
275
202 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER. Saint-Paul-
Trois-Chateux, Drôme.
8 de agosto de 1838.
O Padre Mazelier deve ter respondido positivamente à carta de 16 de julho (cf. Carta n o
198). Champagnat tem pressa em mandar-lhe os Irmãos sujeitos ao alistamento e que se
apresentariam aos exames no mês seguinte, para conquistar o brevet (diploma) de professor
primário.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 8 de agosto de 1838.
Padre Superior,
Aproveito imediatamente da bondade que o senhor continua tendo para conosco.
Mando-lhe dois de nossos Irmãos com o hábito de sua Ordem, para que se apresentem junto
com os seus ao exame que vai realizar-se no mês de setembro.
O serviço que o senhor nos está prestando não ficará sem recompensa e sem especial
bênção para a sua obra.
Os trâmites a que dei andamento em Paris não ficarão sem efeito. O senhor Fulchiron
que chegou de Paris, ontem me anunciou que os meus papéis chegaram finalmente ao
Conselho de Estado, acompanhados de uma apostila favorável do senhor Ministro.
Espero que Maria usará de seu grande poder em favor desta autorização. É o que lhe
estamos pedindo.
O Padre Colin, Superior Geral de nossa Sociedade, me encarregou de lhe dizer que
ficou muito agradecido pela sua lembrança.
Receba os sentimentos de gratidão, com que tenho a honra de ser, com respeito, seu
humilde servidor,
Champagnat
276
203 – Ao Padre GASPARD GRASSET, superior do
Seminário Maior de Montpellier, Hérault.
Vimos na carta de número 199 que o Padre Grasset escrevera ao Padre Champagnat,
quando ele se achava em Paris. O Irmão François respondeu e pediu ao Padre Grasset que esperasse
a volta de Champagnat.
Certamente a presente resposta se refere a um segundo pedido de fundação de um noviciado.
onde? Em Montpellier mesmo? Mas, os Irmãos das Escolas Cristãs já se fixaram lá faz muito tempo.
Não sabemos por que razão se faria apelo aos Maristas. O que sabemos, diz o Irmão Paul Sester, é
que este projeto não foi adiante.
Senhor Padre,
Um noviciado de nossa Sociedade em Montpellier é obra que me agradaria, mas como
vejo que não temos, por agora, os meios de erigi-lo, creio que o senhor faria bem de se dirigir
à Congregação que se oferece em tão boa hora para ir em auxílio de suas santas aspirações. O
senhor será prontamente atendido e o bem se fará mais cedo.
Por nossa parte, vamos bendizer a Deus junto com V. Revma. Tudo o que nós
queremos é que o bem se faça seja por quem for. Mas, se nesta ocasião, nós não podemos
tornar efetivo o desejo sincero que temos de servi-lo, pode estar ciente que aproveitaremos
diligentemente da primeira oportunidade que V. Revma. nos proporcionar.
Tenho a honra de ser com respeito, senhor Padre, seu muito humilde e obediente
servidor.
277
204 – Ao Irmão VICTOR, em Viriville, Isère.
12 de agosto de 1838.
O Irmão Victor solicita ao Padre Champagnat licença para ir passar oito dias de férias na
família, antes do retiro.
Quanto à idéia de que fala Champagnat de estabelecer um noviciado ou um juvenato que
fosse, em Viriville, nenhuma outra menção se fez daí por diante.
Os Irmãos estiveram durante muito tempo mal alojados naquela escola; pior ainda, faltou
até o pagamento que tinham combinado (cf. Carta no 39) e o Padre Champagnat se viu obrigado a
fazer ameaças.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 12 de agosto de 1838.
Meu caríssimo Irmão Victor,
Dou-lhe permissão de ir a Saint Just, caso você não possa deixar esta viagem para
mais tarde. Você poderia partir uma semana antes das férias, a fim de poder vir para o retiro
juntamente com os demais Irmãos. Como você sabe, o retiro começa logo que chegarem.
Agradeço ao pároco por tudo quanto faz por você. Quanto a nós, não esqueceremos o
estabelecimento de Viriville. Estamos até pensando em estabelecer aí nosso noviciado
preparatório. Estamos muito satisfeitos com os noviços que recebemos de Viriville. Para esta
fundação nós nos entenderemos com o senhor bispo de Grenoble e com o senhor pároco.
Transmita-lhes mil saudações de minha parte.
Nossas negociações em Paris ainda não terminaram, mas nutro esperanças bem
fundadas.
Adeus, meu caro amigo, eu amo todos vocês, bem o sabem, nos Sagrados Corações...
Champagnat
278
205 – Ao Irmão THÉODORET, em Ampuis, Rhône.
12 de agosto de 1838.
O sobrinho do Padre Champagnat de que se faz menção logo na primeira linha desta carta é
o Irmão Théodoret (Jean-Baptiste Guilherme Champagnat), que está exercendo seu apostolado em
Ampuis.
É um dos filhos de Jean Barthélemy e de Marie Clermondon. Já noticiamos a respeito do
outro, François Régis, falecido em l'Hermitage, aos 58 anos (cf. Carta no 197), tendo prestado mais
de trinta anos de apostolado às escolas católicas de Dozieu, Ambierle, Terrenoire, Lay e Tarentaise.
Quanto ao Irmão Théodoret, não pôde prosseguir seu projeto de vida marista, talvez por
razões de saúde, e também para cuidar da mãe quando ficou viúva, como vimos na carta de n o 180.
Teve a graça de uma santa morte em 1849, com apenas 29 anos.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 12 de agosto de 1838.
Meu querido sobrinho,
Dou autorização ao Irmão Policarpe de comprar para você aquilo que for necessário.
Seu irmão menor está na Grange-Payre, muito satisfeito. Jean Pierre está melhor. Vão
igualmente bem seus demais parentes.
Você está contente em sua vocação, por isso bendigo a Deus. Cumpra exatamente seus
deveres para com Deus e para com o próximo e andará sempre contente. Por minha parte, só
terei que dar graças a Deus e manifestar a você minha satisfação.
Adeus, meu caro amigo, não duvide de minha afeição para com você. Saudações
afetuosas ao seu Diretor, pessoa que também amo muito.
Todo seu, nos Sagrados Corações,
Champagnat
279
206 – Ao Padre CLAUDE MERLIN, Pároco de Saint-
Geoire, Isère.
10-13 de agosto de 1838.
Em 1836 o Padre Merlin tinha pedido Irmãos para a sua paróquia, mas não marcara
nitidamente as condições em que se dispunha a equipar a escola. O Padre Champagnat queria que
tudo fosse muito bem especificado. O projeto foi adiado.
Depois de dois anos de intervalo, foi preciso ainda que o Padre Champagnat fizesse ao bom
padre uma série de ponderações relativas à fundação de uma boa escola.
Ainda desta vez, Saint-Geoire não foi atendida, apesar de estar em primeiro lugar entre as
quatro escolas inscritas, situadas na diocese de Grenoble. (cf. Carta no 207)
Em 1842, já no governo do Irmão François, volta o persistente pároco, dizendo: "Pela
terceira vez."
Graças à liberalidade do Barão de Franclieu, quatro Irmãos puderam habitar uma casa
construída para eles. Escola gratuita, que iniciou sob a orientação dos Irmãos em novembro de 1843.
Só bem mais tarde, em 1873, é que foi autorizada a receber alunos internos.
As lutas pela laicização do ensino na França fizeram com que os Irmãos abandonassem a
escola de Saint-Geoire em 1883.
Senhor Pároco,
Tínhamos quase perdido de vista o pedido que o senhor nos fizera, há mais de dois
anos, quando sua carta veio relembrá-lo. Antes de marcar a época em que poderemos mandar-
lhe Irmãos, gostaria de saber em que condições o senhor quer que funcione o estabelecimento.
O senhor disporia de reservas para pagar o vencimento dos Irmãos ou pensa consegui-
las através das mensalidades dos alunos?
Quando as escolas são gratuitas, sempre funcionam melhor e a formação é feita com
mais facilidade. Portanto, para nosso interesse preferimos as escolas que nos oferecem estas
vantagens. Por ora, temos ofertas dessas escolas em maior quantidade do que as que podemos
manter; contudo, como estamos muito empenhados em favorecer a diocese de Grenoble,
estamos dispostos a fazer todos os esforços para atender a seu pedido o mais cedo possível, se
os recursos de que dispõe nos derem bastante segurança para podermos ir fazer o bem na sua
região. É este o nosso único desejo.
Segundo um arranjo que temos que acertar com o seu digno Bispo, é possível que o
senhor seja servido sem demora, contanto que tudo esteja pronto. Em todo caso, senhor
Pároco, pode acreditar que faremos tudo o que nos for possível para ir ao encontro de seus
anseios e auxiliar o seu zelo pela instrução dos meninos em sua paróquia.
Aguardando as informações que lhe estamos pedindo, tenho a honra de ser, senhor
Pároco...
280
207 - A Dom PHILIBERT BRUILLARD, bispo de
Grenoble, Isère.
13 de agosto de 1838.
O bispo de Grenoble escreveu ao Padre Champagnat e lhe fez um pedido de Irmãos para
Saint-Lattier ou para outra localidade, Crolles. São duas paróquias bem mais populosas que Saint
Geoire.
Em resposta ao senhor bispo, o Padre Champagnat faz notar que a cidadezinha de Saint-
Geoire está esperando há mais tempo e que, sendo menor e mais carente, " a população oferece
campo para fazermos um bem maior, contudo.”
E assim, Saint-Lattier passou à frente, fundada que foi em outubro de 1840 (cf. Carta no
256).
Excia. Revma.,
Faz apenas alguns dias, o Ministério da Instrução Pública nos pediu três Irmãos para a
cidade de Saint-Pol (Pas-de-Calais). Fomos obrigados a atender. Além disso, em atenção ao
honroso pedido de V. Excia., examinamos detidamente se não seria possível prometer-lhe
Irmãos por ocasião da Festa de Todos os Santos deste ano.
Relendo a carta do senhor pároco de Saint-Jean-de-Lattier, vimos que ele só pede para
Todos os Santos de 1839. Ele nos diz o seguinte: "Para a próxima Festa de Todos os Santos,
creio que será impossível termos os Irmãos, porque o senhor tem muitos pedidos. Por outra, o
interior de nossa casa não estaria completamente pronto nesta época, mas gostaríamos de ter
garantia, desde já, para o dia primeiro de outubro de 1839."
Seguindo a recomendação de V. Excia., inscrevemos logo Crolles em nossa agenda.
O pároco de Saint-Geoire acaba de escrever-nos pedindo em favor da paróquia dele
cuja população nos oferece campo para fazermos um bem maior. Contudo, submetemos este
pedido à sua apreciação, senhor Bispo. Se for de seu agrado, tomaremos todas as providências
para colocá-lo em execução, logo que as condições forem cumpridas pelo senhor pároco.
Nosso estabelecimento de La Côte continua sofrendo dificuldades. Receio que
tenhamos que romper com o excelente Padre Douillet, a quem muito estimo e que me é muito
caro. Em todo caso, os Irmãos que temos em La Côte estarão sempre à disposição de V.
Excia.
Digne-se aceitar os sentimentos plenos de estima e de respeito, com que tenho a honra
de ser, de Vossa Excelência, servo muito humilde e obediente,
Champagnat
281
208 - A Dom BÉNIGNE TROUSSET D'HÉRICOURT,
bispo de Autum, Saône-et-Loire.
20 de agosto de 1838.
Dom Bénigne já tinha conseguido, em 1836, uma escola para Semur, dentro de sua diocese.
(cf. Carta no 112). Quando pediu mais uma escola para outra localidade, o Padre Champagnat
respondeu que estava à disposição da autoridade eclesiástica, sempre que pudesse atender com
Irmãos bem formados. Foi naquela ocasião que pronunciou a famosa frase: TODAS AS DIOCESES
DO MUNDO ENTRAM EM NOSSOS PLANOS.
Em setembro deste ano de 1838, Dom Bénigne volta outra vez suas vistas para l'Hermitage e
noticia ao Padre Champagnat: "Comprei das mãos do Marechal Vauban o castelo. O senhor pode
instalar aí um noviciado de Irmãos. Deixo-o inteiramente a seu dispor."
Parece que a carta abaixo transcrita é resposta a esta última. Dizemos "parece", porque as
datas não coincidem. Também não há referência ao famoso castelo de Vauban que está sendo
oferecido. Pode também ter havido engano de datas por parte dos secretários; sabemos também das
reticências do Padre Champagnat ao convite de instalar os Irmãozinhos de Maria num castelo.
Excia. Revma.,
Sinto muito realmente não poder corresponder ao zelo de V. Excia. pela instrução dos
diocesanos pelo atendimento do honroso pedido que nos faz.
Deixamos de atender, nos arredores de nossa casa, ao pedido de várias escolas com
fonte de pagamento garantida, o que para nós garante um bom desempenho. A mesma falta de
gente nos obriga ainda a adiar a ereção de um noviciado no Sul da França, para cujo
funcionamento só forneceríamos o pessoal. Esse noviciado não formaria senão um todo com o
que dirigimos na Diocese de Lião. Se pudéssemos gostaríamos muito de contribuir para a boa
obra que V. Excia. pensa implantar em sua diocese.
Digne-se V. Excia. aceitar de bom agrado os meus votos de feliz êxito na gestão dessa
obra, votos esses que formulo com toda a sinceridade de minha alma.
Digne-se receber meus protestos do profundo respeito, com que tenho a honra de ser,
de Vossa Excelência, servo muito humilde e obediente,
Champagnat
282
209 – Ao Senhor VICTOR DUGAS, Saint-Chamond,
Loire.
21 de agosto de 1838.
O Padre Champagnat acaba de receber do deputado Lachèze a notícia de que o processo
pode ainda sofrer outro atraso.
Para prevenir mais este contratempo, pede ao amigo Dugas que escreva ao mano. Qual
deles, não sabemos, pois são dois. Também ficamos a nos perguntar quais os termos da intervenção
que o mano deverá usar junto ao Ministro para que este faça correr normalmente o processo. Como
eram muito amigos Champagnat e Victor, só eles é que sabiam destes pormenores, dos quais não nos
deixaram informações.
Montbrison, 21 de agosto de 1838.
Prezado Senhor,
Cheguei ontem em Montbrison e me encontrei com o senhor Lachèze, que me disse
que nossos papéis foram mandados de volta ao Conselho Geral respectivo do Loire e do
Rhône e que esperava o parecer deles.
O senhor deputado Durosier, encarregado de lavrar este parecer, para o conselho geral,
me disse que só podia deixar o trabalho pronto para amanhã e que então eu teria que esperar
para saber do resultado.
Aguardando este documento, peço ao senhor de me fazer o favor de escrever a seu
irmão, do mesmo modo como teve a gentileza de escrever ao senhor Lachèze. Como poderei
um dia testemunhar-lhe meu agradecimento por sua gentileza?.
Que Jesus e Maria atendam aos meus desejos e nada faltará para que o senhor seja
feliz nesta vida e na outra.
Queira receber meus protestos de total dedicação com que, Senhor, tenho a honra de
ser, com respeito, seu humilde servidor,
Champagnat
P.S. Meu profundo respeito a toda sua singular família.
283
210 – Circular aos Irmãos
21 de agosto de 1838.
Como fazia todos os anos, ao se aproximar a época das férias e do retiro, o Padre
Champagnat manda uma Circular aos Irmãos, dando com bastante antecedência as indicações úteis
para que toda a movimentação do fim de ano letivo aconteça sem maiores atropelos.
É a primeira vez que o Fundador solicita aos Irmãos que tragam o histórico de cada escola.
Esta Circular foi litografada pelo Irmão Marie Jubin. Das três cópias que existem, esta era para os
Irmãos de Semur em Brionnais. O P.S. foi acrescentado por algum secretário.
Meus caríssimos Irmãos,
Como nos anos anteriores, nossas férias começam no dia 28 de setembro. Queiram
dirigir-se à Casa Mãe logo que puderem, a fim de que todos estejam presentes para o retiro
anual que começa nos primeiros dias de outubro, como vocês já sabem. Gosto muito de lhes
anunciar um final, digo melhor, uma folguinha em suas cansativas lides escolares.
Venham todos se reunir e reaquecer no santuário que presenciou vocês se tornarem os
filhos da mais carinhosa das Mães. Com a mais gratificante alegria iremos ver vocês
renovarem num só espírito e atestarem solenemente a Maria que querem todos viver e morrer
amparados por Ela, depois de terem fielmente cumprido a palavra que lhe deram
publicamente. Meus caríssimos Irmãos, é na união de Jesus e Maria que meu coração,
deliciosamente reclinado, vem dizer-lhes quanto lhes quero bem.
Ordenamos que os Irmãos Diretores:
1o) não dêem férias antes do dia 26 de setembro;
2o) não deixem conta nenhuma a pagar;
3o) leiam o capítulo X da Regra, a fim de cumprirem os artigos que ali constam;
4o) redijam o histórico do estabelecimento, relatando os acontecimentos mais
importantes do ano: número de alunos que freqüentaram a escola no inverno e no verão; as
visitas dos inspetores ou de outras autoridades etc.
Todo seu, nos Sagrados Corações,
Champagnat, Sup.
Esquecemos de colocar na mala o relógio de Thissyer, de Digoin. Quando vierem
reclamar, digam-lhes que os Irmãos o levarão de volta quando retornarem a Semur, depois das
férias. Quanto à mala, digam a eles que não a encontramos. Deve ter ido parar em Roanne.
284
211 – Ao senhor CLAUDE MENU, prefeito de Sury-le-
Comtal, Loire.
25 de agosto de 1838.
Nos “Annales” do Irmão Avit, quando fala de Sury, escreve o que segue: O Padre
Champagnat foi fazer uma inspeção na escola; as salas não satisfaziam aos requisitos anteriormente
combinados. Não tendo podido conferenciar sobre o assunto com o prefeito do lugar, por estar este
ausente nos dias da visita, o Padre escreveu-lhe no dia 25. Voltará a insistir, na Carta de no 216.
Senhor Prefeito,
Fiquei deveras contrariado por não ter podido apresentar-lhe meus respeitos quando
passei por Sury.
Era intenção minha ver com o senhor as melhorias a serem executadas nas salas de
aula de nossos irmãos, para que fiquem de acordo com o nosso regulamento e nossos
métodos. Como estão agora, torna-se impossível para nossos Irmãos seguirem nosso método
de ensinar e de controlar os alunos, como devem.
Tínhamos escrito no ano passado (cf. Carta no 161) para que essas melhorias fossem
feitas, mas foram adiadas para o presente ano.
Nós as julgamos indispensáveis. Como procuramos nisso tudo o maior bem dos alunos
e os interesses de seu município, esperamos, senhor Prefeito, que o senhor tenha a bondade de
fazer com que o que estamos pedindo seja feito antes da Festa de Todos os Santos, de tal
modo que o reinício das aulas não fique atrasado, o que infalivelmente acontecerá se, até
aquela data, as melhorias não tiverem sido feitas.
Queira aceitar os sentimentos de elevada estima e respeito com que tenho a honra de
ser, senhor Prefeito, o servo muito humilde e obediente,
Champagnat
285
212 – Ao Padre JEAN-FRANÇOIS RÉGIS PEALA,
Pároco de Tence, Haute-Loire.
26 de agosto de 1838.
Este mesmo pároco tinha pedido Irmãos para Tence, no ano anterior. Interveio depois o
bispo de Puy, pedindo ao Padre Champagnat de fundar uma escola primeiro em Craponne,
localidade muito mais importante do que Tence (cf. Carta n.º 192).
Foi muito firme o senhor Bispo, dizendo: "Se o pároco de Tence insistir, diga-lhe que eu me
oponho formalmente a que os Irmãos de Maria se estabeleçam primeiro em Tence."
De posse desta decisão, Champagnat procura ganhar tempo. Quer primeiro visitar o local,
preparar bem os Irmãos que Dom Maurice De Bonald quer para Craponne, que começou em 1839
(cf. Carta no 190), ao passo que Tence ficou na promessa (cf. Cartas no 283, 335 e 338). Muito tempo
depois foram para lá os Irmãos do Sagrado Coração, aos quais sucederam os Maristas em 1938.
Senhor Pároco,
Estou vendo que não nos será possível dar-lhe Irmãos na próxima Festa de Todos os
Santos. Além disto, o senhor está sabendo que o senhor bispo de Puy não quer que abramos
esta escola antes de estabelecer-nos em Craponne.
É absolutamente necessário que as repartições sejam acondicionadas e distribuídas em
uma ordem condizente com o nosso método de ensino. Sendo assim, penso que será bom que
o senhor, antes de fazer essas modificações, espere que tenhamos ido aí ver o local.
Esteja certo, senhor Pároco, que nós não esqueceremos seu estabelecimento. Estamos
dispostos a empenhar todos os nossos esforços para que o senhor fique servido no mais breve
tempo possível.
Digne-se aceitar os sentimentos de estima e de respeito com que tenho a honra de ser,
senhor Pároco, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
286
213 - A Dom PHILIBERT DE BRUILLARD, bispo de
Grenoble, Isère.
19 de setembro de 1838.
O Padre Champagnat comunica ao Bispo as condições inaceitáveis propostas por Douillet,
para o estabelecimento de La Côte-Saint-André. Ele queria que os Irmãos alugassem tudo em
condições muito duras. (Vão transcritas na carta ao bispo).
O digno Prelado ficou contrariado, pois já contava com mais escolas dirigidas pelos Irmãos:
Saint-Geoire, Crolles, Saint-Jean-de-Lattier e Bougé-Chambalud. Agora chega-lhe ao conhecimento
o impasse com o Padre Douillet. "É com muita pena, escreve ele, que assistiria ao rompimento dos
Maristas com o Padre Douillet.”
Demos a palavra agora ao Irmão Avit (cf. Abrégé des Annales, p. 264): "O piedoso
Fundador fez depois uma viagem para ir encontrar-se com o Padre Ferreol Douillet, mas não
conseguiu dele um abrandamento daquelas exigências inaceitáveis. Não só, Douillet continuou a
atrapalhar a administração do Irmão Louis Marie, Diretor da escola, metendo-se em tudo e exigindo
prestação de contas de tudo.
Concordo, era um Padre zeloso, possuído de ótimas intenções, mas com idéias, diria até
egoístas, das quais não abria mão."
A intervenção do bispo e do pároco fizeram com que o Padre Douillet se tornasse mais
tratável, mas tentou assim mesmo fazer passar sua propriedade para os Irmãos, em condições que ele
louvava como negócio correto. Champagnat respondeu:
"Não almejamos tornar-nos proprietários, porque isto seria estorvar nossa mobilidade e só
serviria para suscitar invejas, em torno de nossos haveres."
Finalmente, após várias concessões de parte a parte, foi assinado um contrato de aluguel,
válido por 9 anos.
Excia. Revma.,
Creio que seja do agrado de V. Excia. tomar conhecimento das condições que a ótima
pessoa do Padre Douillet nos quer impor. Vou transcrevê-las palavra por palavra
“Pode estar certo, senhor Padre Superior, que em minhas propostas não quero deixar-
me guiar pelos cálculos que fazem os homens do mundo; quero atribuir às coisas o justo valor
que têm. Omnia ad majorem D (ei) G (loriam), amen.
1o) Exceção feita de alguns pequenos artigos, cedo o pleno uso de tudo quanto possuo
em La Côte-Saint-André: o terreno, a construção, os móveis pelo pagamento de 600
(seiscentos) francos anuais, pagáveis exatamente e em cada caso nas seguintes datas: em
primeiro de dezembro próximo, 150 francos; em primeiro de abril, outros 150 francos; aos 30
de agosto, 300 francos, e assim até o final do contrato de arrendamento, que terá a duração de
nove anos.
2o) O tomador assume o encargo de pagar os impostos de qualquer tipo, presentes e
futuros.
287
3o) Todos os consertos e todos os estragos do tempo na casa e nos muros, no pátio e
no recinto da propriedade ficarão a cargo do tomador que se compromete a manter com
cuidado todas as coisas em bom estado, como encontrou, por ocasião da tomada de posse.
4o) A escola gratuita continuará a ser mantida como antes e dirigida por dois Irmãos,
com o pagamento feito pela cidade.
5o) Se os Irmãos vierem a desistir da direção da escola de La Côte, seja qual for o
motivo, os móveis cedidos a eles serão avaliados pela soma de 3.000 (três mil) francos, que
serão pagos na forma como determinar o arrendador, a menos que este último prefira ficar
com eles, in natura, tais como forem encontrados.
6o) O tomador promete implantar uma escola no lugar designado pelo arrendador.
7o) Em todos os casos, até o fim do prazo do arrendamento, Marthe Cuzin continuará a
usar a cozinha e o quarto da casa Bon. Além disso, se ela permanecer no serviço da casa, ser-
lhe-á concedida, a título de prêmio, a quantia de 100 francos. Se, pelo contrário, se retirar, ser-
lhe-á paga anualmente a quantia de 200 francos, distribuídos em partes iguais a cada três
meses."
Não podemos, senhor Bispo, continuar neste estabelecimento de la Côte-Saint-André,
a não ser nas mesmas condições que foram estipuladas quando foi fundado. Com a permissão
de V. Excia. cedemos ao Padre Douillet Irmãos, com a condição de que tivessem moradia e a
mobília por nós especificada. Não mantemos nenhum outro estabelecimento em condições
diferentes dessas. Seria contrário à nossa praxe assumir compromissos como esses.
Estamos mutíssimo sentidos por não podermos continuar a dirigir a escola de La Côte.
Conservaremos sempre para com a pessoa do padre Douillet a estima a que faz jus. Quanto ao
que diz respeito a sua pessoa, Excia. queira considerar nossa Sociedade como sendo
inteiramente devotada aos interesses de V. Excia. Havemos de considerar-nos honrados de
poder trabalhar às suas ordens para a glória de Deus, em sua importante diocese.
Digne-se V. Excia. aceitar os sentimentos da mais sincera veneração, com que temos a
honra de ser seus servos muito humildes e respeitosos.
288
214 – Ao Padre LEONARD GAZEL, Pároco do
Chambon-Feugerolles, Loire.
21 de setembro de 1838.
Pela resposta do Padre Champagnat ao pároco do Chambon-Feugerolles, vemos que o
pedido dele chegou em época inoportuna. Nenhum aviso, durante o ano, chegou a l'Hermitage
solicitando a fundação. De modo que, não foi feita visita ao local, não se tomou conhecimento das
condições que seriam oferecidas, embora fosse tão perto de l'Hermitage.
A dificuldade maior está em que o pedido chegou às mãos do Padre Champagnat nos dias
muito próximos das férias e do retiro espiritual dos Irmãos, tempo em que ele não podia
absolutamente ausentar-se.
As negociações tiveram curso mais tarde. (cf. Carta no 245), mas a fundação no Chambon-
Feugerolles só ocorreu em 1852.
Senhor Pároco,
Não poderei ir a Chambon na semana que vem, pois nossas férias começam no dia 26
do corrente, e a reunião dos Irmãos me traz uma multidão de questões que estarão a exigir
minha presença em l'Hermitage. Ademais, como o senhor nada nos escreveu durante o correr
do ano, não estávamos contando mais com sua escola, pensando que o senhor tivesse
conseguido Irmãos de outra fonte. Apesar de que teríamos prazer em servi-lo, não nos será
possível mandar-lhe Irmãos na próxima Festa de Todos os Santos.
Creia-me, senhor Pároco, é para mim realmente constrangedor não poder efetivamente
dar-lhe provas desta minha vontade sincera de ser-lhe agradável. Estou disposto a fazer todos
os esforços para corresponder a seus bons desejos logo que for possível.
Queira aceitar os sentimentos de respeito com que tenho a honra de ser, senhor
Pároco, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
289
215 - Ao Padre FERREOL DOUILLET, La Côte-Saint-
André, Isère
outubro de 1838.
Depois de propor ao Padre Champagnat um contrato de arrendamento inteiramente
favorável a seus próprios interesses, o Padre Douillet aventou outra proposta.
Tendo sido inteiramente rejeitada a primeira, porque feita em condições inaceitáveis, o
Padre Douillet a substituiu por outra: A de passar todo o seu patrimônio, para os Maristas, na
pessoa do Padre Champagnat.
Este, juntamente com os Padres de l'Hermitage e os Irmãos mais experientes, examinou
todas as condições do legado a lhe ser feito. Desfavorável. Então expôs, na carta abaixo transcrita,
os motivos pelos quais recusava.
Reverendo,
Não tomei sozinho a determinação que lhe dou a conhecer, referente ao nosso
estabelecimento de La Côte. Depois de ter recomendado o assunto às orações de todos os
Irmãos e celebrado a santa Missa na mesma intenção, consultei meus confrades e nossos
Irmãos. Todos são de parecer que só continuamos na direção da escola de La Côte, nas
condições em que foi fundada e que são aceitas todas as demais, em outros lugares.
Não fazemos nenhuma questão de nos tornar proprietários nos municípios onde
mandamos trabalhar nossos irmãos. Seria um encargo que emperraria por demais a
administração e nos atrairia muitos invejosos.
Os impostos, consertos e melhorias nos obrigariam a gastos consideráveis. Edifícios
não nos faltam, oferecem-nos por toda parte e para os quais não temos que dispender nenhum
vintém.
O senhor não pode nos fazer esta doação sem condições, pois que a recebeu de várias
pessoas com a condição de a deixar toda para a cidade de La Côte, a serviço da educação dos
meninos. Portanto, não faça testamento a meu favor; eu o rescindiria, a menos que o senhor se
comprometesse a pagar todos os gastos.
Esteja certo, senhor Padre Douillet, que eu não quero forçá-lo a fazer da escola uma
doação a nosso favor. Deixo a seu espírito de equidade nos dar aquilo que o senhor pensa que
nos deve. Custa-me muito ter que dizer-lhe que não posso fazer de outro modo. Talvez o
senhor possa combinar, alguma coisa, com o Pároco de La Côte, caso o senhor Bispo não
queira assumir a responsabilidade do imóvel.
Queira receber a confirmação dos sentimentos plenos de estima, com que, meu caro
confrade, tenho a honra de ser seu nui humilde servidor.
Champagnat
290
216 – Ao Padre GEORGES METTON, Pároco de Sury-
le-Comtal, Loire.
31 de outubro de 1838.
O Irmã Avit, nos seus Anais, diz que o pároco de Sury queria que os Irmãos Maristas fossem
subdiáconos, dirigentes de coro e até mesmo sacristães, o que era contrário às normas dos Irmãos.
O Padre Champagnat expõe as condições em que os Irmãos devem ser pagos, retoma as
observações anteriormente feitas (cf. Cartas no 161 e 211) a respeito das melhorias a executar no
prédio e as contribuições dos alunos. Não deixa nada para trás, se bem que no caso de Sury, já se
tivessem passado três anos, ocasião em que fora feita a visita e dadas as instruções para a correta
execução das obras das escola. Mas, como os trabalhos não foram devidamente acompanhados,
instalações há que ainda deixam a desejar.
O Padre Champagnat não quer retirar os Irmãos. Quer apenas que tenham melhores
condições para desempenhar suas funções.
Senhor Pároco,
Estou muito contrariado por lhe causarmos tantos aborrecimentos. É desejo sincero
nosso, sem prejudicar nossa Sociedade, conceder-lhe tudo aquilo que puder proporcionar-lhe
alguma vantagem.
As razões que nos levaram a inserir em nosso regulamento o artigo que proíbe a
nossos Irmãos desempenharem qualquer função eclesiástica se reavivaram na deserção de dois
de nossos Irmãos, que apesar dos compromissos assumidos, estar fazendo estudos para o
sacerdócio. Não leve a mal que não autorizemos esta infração à nossa regra.
Desejamos saber o mais cedo possível:
1o) Se há esperança de conseguir as melhorias que apontamos e que julgamos
necessárias para que nossos Irmãos possam continuar aplicando, em Sury, o método de ensino
e de vigilância que nos é próprio. Quando poderão ser executadas essas melhorias?
2o) Vão ser pagos os atrasados do primeiro ano e os deste ano? E quando?
3o) Os meninos que não pertencem ao município serão obrigados a contribuir em
benefício de sua escola ou em benefício dos Irmãos, como é de praxe em outros lugares?
4o) Estão precisando de mais um Irmão? Serão então quatro.
Concedemos a Sury o que concedemos a todos os nossos estabelecimentos, a saber:
quando um Irmão a mais for necessário por causa de um internato ou externato, independente
da administração municipal que conseguiu uma escola junto à nossa instituição, esse Irmão
será fornecido pela Sociedade sem que o município tenha que contribuir para a manutenção do
mesmo.
Se essas condições não convêm a V. Sª, nós lhe seríamos gratos se no-lo dissesse,
senão estaríamos obrigados a recomeçar todo ano.
Receba ...
Champagnat
291
217 - Ao Padre ANTOINE MOLLIN, Pároco de La-
Côte-Saint-André, Isère.
31 de outubro de 1838.
Na divergência entre Douillet e o Padre Champagnat, este parece entrever que nem o pároco
nem os Padres do Seminário militam a favor dos Irmãos.
As reticências pelo final da carta denunciam sua emoção.
Apesar de tudo o que está acontecendo, Champagnat não se desvia por nada da linha de
conduta que se traçou: "Estaremos sempre dispostos a lhe provar nossa boa vontade", diz ao Padre
Mollin. De fato, já fazia mais de um ano que vinha tentando conciliar tudo com paciência e
serenidade. (cf. Cartas de no 93 e 94).
Senhor Pároco,
Com pesar, deixamos o estabelecimento que mantínhamos em sua cidade onde
teríamos grande desejo de trabalhar, sob seu amparo, para a instrução dos meninos.
Quando de minha passagem por La Côte, devia tê-lo posto a par das dificuldades que
tínhamos com o Padre Douillet. O Padre Berthier me havia aconselhado esta medida, mas o
Padre Douillet foi contra.
Fizemos enormes sacrifícios para o estabelecimento de La Côte, reduzido a nada como
estava quando nos encarregamos dele. Foi através de nossos cuidados e de nossos trabalhos
que chegou ao ponto em que está.
O Padre Douillet se fez passar por membro de nossa Sociedade, para intrometer-se nas
dependências de nossos Irmãos, reduzi-los ao estrito necessário e apoderar-se do fruto dos
trabalhos deles. Não podemos continuar à frente das escolas do senhor, a não ser que se
mantenham nas condições em que as fundamos, isto é, nas condições em que fundamos todas.
Foi muita surpresa para mim saber que o senhor ignorava os motivos de nossas
desavenças com o Padre Douillet. Faz uns oito dias, ele me disse que o Padre Pion, Superior
do Seminário, e o senhor mesmo não tolerariam que estivéssemos em La Côte em condições
outras do que aquelas em que estivemos até agora. Eu teria muito mais a dizer mas agora não
posso.
Fique certo, digníssimo senhor Pároco, de que sempre andamos dispostos a lhe
demonstrar boa vontade. Já faz tempo que teríamos feito o que fazemos neste ano, não fosse o
temor de desagradar a seu digníssimo Bispo, a quem queremos e estimamos muito, além do
que podemos exprimir com palavras.
Aceite...
Champagnat
292
218 - Ao Padre JEAN GAGUIN, Pároco de Saint-
Gengoux-le-Royal, Saône-et-Loire.
outubro de 1838.
Foi Dom Bénigne D'Héricourt, bispo de Autun, que por primeiro pediu Irmãos para esta
paróquia, depois de ter conseguido fundar o estabelecimento de Semur. (Cf. Cartas no 112 e 152).
É por isso que a carta de Champagnat começa: "Dentro de poucos dias devo ter uma
entrevista com o senhor bispo”.
Mas, não houve fundação em St-Gengoux-le-Royal.
Senhor Pároco,
Dentro de poucos dias, devo ter uma entrevista com o senhor bispo de Autun.
Conversarei com ele a respeito de seu estabelecimento. Por ora, não me é possível dar-lhe
certeza absoluta, tendo em vista as doenças e indisposições de vários de nossos Irmãos, e
também tendo em conta que a morte nos arrebatou alguns outros no decorrer do ano.
Queira aceitar os protestos de respeitosos sentimentos com que sou ...
Champagnat
Nota: Irmãos falecidos a que se refere a carta:
Ir. Adjuteur, 17 anos; Ir. Thomas,25 anos.
Ir. Fabien, 19 anos; Ir. Justin, 23 anos.
Ir. Agathon, 18 anos; Ir. Félix, 21 anos.
Irmão Louis Gonzague, 24 anos.
Média de idade: 21 anos
293
219 - Ao senhor BLAISE AURRAN, Cuers, Var.
outubro de 1838.
Blaise Aurran foi grande benfeitor de várias instituições de caridade, entre outras a escola
dos PETITS GARÇONS, dirigida pelos Irmãos, em Charlieu.
O Padre Champagnat tinha-lhe fornecido a planta para uma construção que futuramente
serviria para abrigar um noviciado, no Sul da França, na cidade de Lorgues (Var).
Nesta carta, o Padre Champagnat informa o seu benfeitor que não poderá fornecer Irmãos
tão cedo quanto pensava. Aproveita a ocasião para agradecer a generosa contribuição que o senhor.
Blaise dera à escola de Charlieu. Como era cristão fervoroso, Champagnat promete mandar-lhe um
livro de Meditações sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, da autoria de Ana Catarina
Emmerich.
A fundação do projetado noviciado estava marcada para a Festa de Todos os Santos de
1840, mas as autoridades municipais de Lorgues não concordaram quanto à quantia que destinariam
ao pagamento dos Irmãos.
Depois, não sabemos como nem por quê, os Irmãos de São Gabriel abriram lá um internato.
Mais tarde, através de negociações com o Irmão François, os Irmãos de São Gabriel passaram para
os Irmãos Maristas todo o setor que possuíam na Provence. Foi só então, em 1846, que o Irmão
Palémon abriu uma escola primária em Lorgues. (Notícia inserida no Bulletin t. VIII, p. 20)
Prezado Senhor,
Somos-lhe muito gratos pelo empenho que o senhor continua mostrando pela
fundação de um noviciado de nossos Irmãos, em Lorgues. Estamos plenamente dispostos a ir
ao encontro de seus generosos esforços, no que depender de nós. Assim que nossos Irmãos
estiverem colocados em seus diversos estabelecimentos, ocupar-nos-emos do projeto que o
senhor nos solicita. Como isto exige muita reflexão e no momento estamos ocupados com a
dificuldade das colocações dos Irmãos, estamos obrigados a fazê-lo esperar alguns dias. Não
vemos por ora que nos seja possível prometer-lhe com firme e absoluta certeza todos os
Irmãos que o senhor está pedindo, mas faremos tudo o que de nós depender para dar
prosseguimento à sua piedosa benemerência. Mas, se o seu ardoroso empenho encontrar em
outras fontes meios mais rápidos e seguros para realizar o bem que pretende, não seremos nós
que lhe poremos obstáculos. Antes de tudo, a glória de Deus e o bem das almas!
Na entrevista que me foi dado manter com o senhor, falei-lhe de um estabelecimento
de nossos Irmãos para a instrução dos meninos carentes, na cidadezinha de Charlieu, no Loire.
Tomo a liberdade de lhe lembrar o caso, e o faço com a maior confiança porquanto o senhor é
duas vezes benemérito daquela instituição, por livre e espontânea vontade.
Quatorze anos já se passaram, durante os quais a juventude do lugar vem recebendo
instrução sólida e cristã. Eis que por intriga de gente malévola a casa se acha em tal estado de
miséria que não vejo como continuarmos a mantê-la com resultado. Cento e cinqüenta
meninos vão ficar sem instrução ou cair nas mãos de mercenários. Coitados dos meninos! Há
vários meses que estão pedindo a Deus que os socorra, suscitando em seu favor algum
protetor poderoso e cheio de generosidade. Atrevo-me a apresentar ao senhor os anseios e
súplicas deles. Com a certeza de que retribuirão com profunda gratidão, por favor queira
colocá-los na grande família dos órfãos dos quais o senhor se constitui benfeitor e pai.
294
P.S. Estou feliz de poder dar-lhe um sinalzinho de meu reconhecimento: Estou mandando-lhe
as Meditações sobre a Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, da autoria da Irmã Ana
Catarina Emmerich. Vou mandar o livrinho para a residência do Padre Boui, Superior do
Seminário Maior de Aix.
295
220 – Ao Padre PIERRE MARIE LAFAY, Pároco de
Firminy, Loire.
outubro de 1838.
Naquele tempo, as coisas não andavam muito melhor do que hoje não. O dinheiro era
escasso para vários setores da atividade humana, como por exemplo, para a educação. Vários
estabelecimentos atrasaram seu compromisso de pagar o salário aos Irmãos. Firminy foi um deles.
O Padre Champagnat ameaça de não mandar os Irmãos de volta para iniciar novo ano
letivo, em novembro próximo.
O Padre Lafay se vê em apuros e, por duas vezes, suplica o Padre Champagnat que tenha
paciência por mais um pouco de tempo. O prazo foi concedido e os quatro Irmãos continuaram seu
apostolado em Firminy.
Senhor Padre,
Vários de nossos estabelecimentos estão em atraso, seja quanto ao mobiliário, seja
quanto ao pagamento anual. Por isso, vemo-nos na necessidade de atrasar o regresso dos
Irmãos que se destinam a trabalhar nessas escolas, até o preenchimento das condições
constantes de nossos prospectos.
Estou contrariado por ver incluído nesta categoria o estabelecimento de Firminy, mas
o senhor mesmo está sabendo que o mobiliário foi fornecido só pela metade e que a
remuneração, deste ano letivo, não foi paga integralmente.
Nossas exigências são tão pequenas que eu não poderia reduzi-las, por mais que
quisesse cooperar com o senhor para a boa instrução dos meninos da paróquia. Em vista disto,
espero de sua parte notícias explicativas, ou pelo menos uma promessa firme de que os
atrasados serão pagos seguramente, se o senhor não puder realizá-lo já, antes da volta dos
Irmãos a sua escola.
Se eu puder desenvencilhar-me de minhas múltiplas ocupações, tratarei de ir
pessoalmente acertar tudo com o senhor, mas as dificuldades das colocações dos Irmãos me
impedem de ausentar-me nem que seja por momentos.
Queira aceitar os protestos de total devotamento, com que tenho a honra de ser...
296
221 - Ao senhor GERMAIN JOSEPH DELEBECQUE,
deputado de Béthune, Secretário Geral do Ministério
da Instrução Pública, Paris.
outubro de 1838.
Sob a influência do senhor Delebecque, o Ministério da Instrução Pública pediu ao Padre
Champagnat a abertura de uma escola em Saint-Pol (Pas-de-Calais). Foi sem dúvida um ato
inconseqüente, pelo menos por parte do senhor Ministro Salvandy e dos que não queriam conceder a
autorização dos Irmãos. Mas, o deputado Delebecque era favorável à concessão.
É a ele que o Padre Champagnat se dirige para agradecer por ter usado seu crédito junto às
autoridades superiores, no sentido de concluir definitivamente o processo da autorização legal que já
vinha se arrastando por tempo demasiado longo.
Prezado Senhor,
De acordo com a sua carta de 18 de maio de 1838, tenho o prazer de mandar para
Saint-Pol, os Irmãos que o senhor me fez a honra de solicitar. Partiram felizes por se
destinarem a ir trabalhar à sombra de sua influência poderosa e para lá se dirigiram
alegremente, apesar de se estabelecerem a uma distância considerável da casa principal. Pelo
zelo e dedicação com que trabalharem, poderão dar-lhe uma prova do desejo sincero que
anima toda a Sociedade de cooperar com todas as forças para agir em sintonia com o amor
que tem o senhor pela França como um todo.
Espero que o Irmão Diretor, ao passar por Paris, terá a ocasião de lhe prestar a
homenagem de seu acatamento, juntamente com a expressão dos votos e disponibilidade de
toda a nossa Sociedade.
Por intermédio do Irmão Diretor, a nossa Sociedade renova suas humildes súplicas
pela obtenção do Decreto Real que se destina a regularizar sua existência e a colocá-la em
condições de fazer um bem maior.
Sua bondade, unida a seu crédito todo-poderoso, nos garante que podemos esperar,
para muito breve, um resultado auspicioso.
Pode acreditar, prezado senhor, nada poderá igualar o agradecimento de todos os
filhos de Maria por um tão assinalado benefício. Considerar-se-ão todos para sempre
obrigados, perante Deus e perante os homens, a engrandecer o seu nome por toda a parte e
implorar sobre sua pessoa, através de orações e votos, toda sorte de prosperidade.
Na espera de um benefício tão insigne, tenho a honra de ser, com os sentimentos do
mais profundo respeito, Senhor Deputado, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
297
222 - Ao Padre FRANÇOIS ROBITAILLE, Pároco
Decano de Saint-Pol-sur-Ternoise, Pas-de-Calais.
outubro de 1838.
O Padre Champagnat manda ao Padre Francisco a conta dos gastos de fundação e também
a das viagens, por se tratar de longa distância. Para trajetos curtos, não costumava mandar cobrar,
tanto mais que eram vencidos muitas vezes a pé
Por ocasião de mais esta correspondência, Champagnat lembra ao pároco de interceder,
também ele, pela suspirada autorização, tendo em mente o pensamento seguinte: Agora que o próprio
pessoal do Ministério está pedindo a fundação dessa escola, em lugar tão importante (Saint-Pol
contava perto de quatro mil habitantes), não teria lógica protelar por mais tempo a concessão da
autorização legal.
Esta carta deve ter sido levada pessoalmente pelo Irmão João Batista, primeiro Diretor de
Saint-Pol.
Reverendo Decano,
Penso que minha carta do dia 28 ou 29 de setembro cruzou no caminho com a de V.
Revma., escrita no dia 4 de outubro, e que estou recebendo agora. Então, para remediar, no
caso em que se tenha extraviado, mando-lhe novamente o que nela escrevi.
Nossos Irmãos chegarão em Saint-Pol por volta da Festa de Todos os Santos. Eles vão
ficar bem distantes da casa mãe, mas cheios de confiança no Senhor que os chama para aí,
certos da proteção de V. Revma. e dos seus conselhos, irão alegres. O senhor será para eles
sustentáculo e pai.
Fiquei encantado com as disposições amigas dos habitantes. Assim como o senhor, eu
também espero que Deus abençoará este estabelecimento e que tudo irá de bem para melhor.
Na minha última carta, de acordo com suas intenções, eu lhe pedia em que época e
quem vai pagar a letra de câmbio para cobrir os gastos da viagem e da fundação, que
costumam ser pagos de antemão. Vai aqui outra vez a conta especificada:
1o) Viagem a Saint-Pol, final de julho 55
o
2 ) Gastos de fundação. 1.200
o
3 ) Viagem dos Irmãos. 293
Total l.548
Senhor Decano, o interesse que o senhor Delebecque demonstra pelo estabelecimento
dos Irmãos em Saint-Pol, me permite esperar que ele continue a nos favorecer na obtenção da
autorização que estou solicitando. Quando o senhor tiver ocasião de entrevistá-lo, tenha a
bondade de lembrar a ele mais uma vez a nossa expectativa. Será para mim um motivo a mais
para ser, com respeito e devotamento, senhor Decano, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
298
223 - Ao senhor BARJET, proprietário em Cornas,
Ardèche.
outubro de 1838.
Em termos diplomáticos responde perentoriamente que não pode atender à fundação senão
daqui a alguns anos.
Prezado Senhor,
É digno de muito elogio o zelo que o anima a fundar uma escola cristã. Tenho a
vontade sincera de colaborar com o senhor para a boa instrução dos meninos da paróquia.
Fico-lhe gratíssimo pela confiança com que honra a nossa Sociedade mas, em vista dos
numerosos pedidos anteriores ao seu, é-me impossível, por alguns anos, atender a seu grato
pedido.
Queira aceitar a certeza da consideração com que tenho a honra de ser, senhor,...
299
224 - Ao Padre CÉSAR CHARBONNIER, Pároco de
Grignan, Drôme.
1º de novembro de 1838.
Nesta carta, Champagnat, ao contrário da Carta no 223, toma nota do pedido, colocando na
lista dos anteriores e dá a entender que futuramente a Congregação poderá estar em condições de
atender ao pedido.
O correr do tempo não permitiu realizar o projeto de escola. O pedido do Padre César
Charbonnier, que faleceu cinco meses após, poderia ter tido continuidade se o sucessor se tivesse
interessado.
Senhor Pároco,
Sinto muito não poder enviar-lhe os Irmãos que o senhor me pede para a instrução dos
meninos de sua paróquia; além de sua escola não apresentar todas as garantias e todas as
condições requeridas, em nosso prospecto, estou impossibilitado de satisfazer a seu pedido,
por ora. Tenho que atender a um grande número de pedidos nos quais nos oferecem casas
completamente preparadas, escolas completamente gratuitas e que não apresentam
dificuldades.
Não obstante tudo isso, senhor Pároco, o seu pedido será levado em consideração e
inscrito na lista na ordem de chegada.
O senhor disporá de tempo para remover os obstáculos que se opõem ao êxito de sua
obra. Enquanto isto, nós também poderemos achar-nos em melhor situação, de modo a
podermos responder a seus anseios e darmos provas de respeitoso devotamento com que
temos a honra de ser...
C.
300
225 - Ao Padre JOSEPH MARIE VENET, Pároco de
Mornant, Rhône.
5 de novembro de 1838.
As cartas do Padre Champagnat, conforme estamos vendo, são geralmente respostas a
pedidos ou informações sobre o andamento dos acontecimentos. Mas, quando as circunstâncias
exigem sua intervenção e que, por motivo de força maior, não pode comparecer pessoalmente, resta-
lhe ditar normas por escrito. É o que faz no presente momento.
Depois de dirigir-se ao pároco, Champagnat faz ao prefeito a mesma reclamação, que diz
respeito à falta de pagamento integral dos Irmãos. (Cf. Carta no 230)
Senhor Pároco,
Aproveito dos primeiros momentos livres que tenho, depois do reinício das aulas, para
lhe escrever a respeito de uns poucos empecilhos que nossos Irmãos encontram na escola de
Mornant.
Espero que seu zelo pela boa instrução dos seus meninos, acrescido dos meios que sua
inteligência saberá encontrar, fará que logo desapareçam.
1o) Nossos Irmãos sofrem muito da parte de vários jovens que não freqüentam
nenhuma escola e por isso não têm medo de ser repreendidos e se misturam com os alunos dos
Irmãos nas cerimônias. Proibi expressamente aos Irmãos todos de, durante a semana, se
encarregarem da vigilância dos meninos que não freqüentam suas aulas. Acho tal vigilância
inútil para os meninos que não reconhecem a autoridade, e perigosa para os Irmãos que, com
isso, só levam injúrias, e até maus tratos.
Espero que o senhor partilhe do meu parecer e se disponha a tranqüilizá-los quanto a
este senão.
2o) No ano passado, o Irmão Laurent se encarregou de comprar, às próprias custas, as
recompensas dos meninos, na esperança de lhe ser reembolsada a quantia, mas isso ainda não
aconteceu. É pouca coisa, digamos, mas o pagamento pouco dos Irmãos não lhes dá margem a
abrir mão desse pouco.
3o) Os Irmãos que no ano passado todo trabalharam no estabelecimento de Mornant só
receberam 900 francos. Faltam portanto 300. Com 1.200 francos que nosso prospecto exige,
eles apenas conseguem sobreviver. Então, julgue por si próprio, senhor Pároco, a que estado
ficam reduzidos com esse atraso! Como ninguém está obrigado ao impossível, eu me verei
forçado a remover os Irmãos para outro lugar, se este atraso de pagamento do ano transcurso
não for coberto e se não se pagar o salário completo deste ano.
Acredite, senhor Pároco, no meu desejo sincero de continuar a obra da instrução cristã
dos meninos em sua exemplar paróquia. Mas, é preciso que ela nos seja possível. É o que
espero pelo esforço de seu zelo e pela cooperação de seus bons habitantes.
Digne-se ...
Champagnat
301
226 - Ao Padre ANTOINE CLAVEL, Pároco de Jallieu,
Isère.
8 de novembro de 1838.
A carta de resposta ao pedido do pároco de Jallieu diz que foi tomada nota do pedido, mas a
demora para o atendimento do mesmo promete ser longa.
O Padre Clavel não voltou a insistir.
Senhor Pároco,
Foi uma honra para mim receber seu pedido. O município de Jallieu vai para a lista
das escolas a fundar. O lugar na lista vai exigir que o senhor espere alguns anos. Estou muito
animado a cooperar, na medida do possível, com o seu zelo e com os desejos de seus bons
paroquianos para dar educação cristã a seus filhos.
Aguardando o prazer de sua visita, rogo-lhe aceitar meu preito de respeitosa
dedicação, com a qual tenho a honra de ser...
Champagnat
302
227 - Ao senhor JEAN AIMÉ JOVIN DESHAYES,
Saint-Etienne, Loire.
Início de novembro de 1838.
O Ministro Salvandy encontrou mais um pretexto para dificultar a autorização dos Irmãos.
Escreveu aos prefeitos dos Departamentos do Loire e do Rhône, solicitando-lhes que opinassem
sobre a seguinte questão:
Os Irmãos que o Pe. Champagnat vem formando não irão prejudicar o recrutamento de
professores que vem sendo feito pelas escolas normais do governo?
O Conselho Geral do Loire, onde as escolas dirigidas pelos Irmãos são mais numerosas, deu
unanimemente parecer favorável aos Irmãos, isto é: Não vão prejudicar. O Conselho do Rhône
informou o contrário: Vão prejudicar sim. A 5 de setembro, Dom Gastão De Pins protestou contra
esta decisão injusta que diz respeito à atuação dos Irmãos em sua diocese (só duas escolas, que
funcionavam bem).
Champagnat recorre ao prestígio do senhor Deshayes.
Prezado Senhor,
Ao encaminhar-lhe os diversos papéis que eu lhe havia prometido, relativos às nossas
questões em Paris, só posso testemunhar-lhe profundo reconhecimento pelo empenho que o
senhor demonstra pelo desfecho favorável. Considero-me, portanto, estritamente obrigado a
não deixar passar nenhuma ocasião de lhe provar quanto tenho de apreço por seu importante e
assinalado serviço.
O senhor Delbecque está de posse de toda a papelada de meu processo, os pareceres
dos bispos, dos prefeitos, etc. Quanto ao parecer do Conselho do Departamento do Loire, o
senhor Baude me disse no dia 24 de agosto, na sala do próprio senhor Prefeito, que ele mesmo
iria redigi-lo, e que aquilo agora era coisa pessoal dele.
Relativamente à clausula pela qual o Decreto só nos deixaria campo de ação nos
municípios de mil habitantes e menos, e nos tolheria o acesso aos de maior população, o
senhor percebe que não nos pode convir. Muitas de nossas escolas estariam liquidadas com a
vigência dessa condição: vários municípios em que atuam os Irmãos têm mais de quatro mil
habitantes. O próprio Ministério da Instrução Pública, através de uma carta do senhor
Delbecque, em data de 18 de maio de 1838, nos convoca a dirigir a escola de Saint-Pol (Pas-
de-Calais), e a cidade tem mais de quatro mil habitantes.
Prezado Senhor, conto muito com sua poderosa influência. Na sua bondade, o senhor
me assegura que empenhará todo seu préstimo a nosso favor; por isso, com os mais vivos
sentimentos de gratidão do maior devotamento, tenho a honra de ser...
303
228 - Ao senhor JEAN-JACQUES BAUDE, deputado,
Rue de L’Université, Paris.
24 de novembro de 1838.
De volta de Paris, o senhor Deshayes deve ter transmitido ao Padre Champagnat o que pôde
apurar a respeito do processo de autorização. Não foi pouco não: Dizem lá em Paris que os Irmãos
se estão opondo à Universidade, portanto ao governo. Champagnat foi acusado de tornar-se de
repente milionário, cobrando taxas dos alunos internos (!) - (cf. Carta do Juiz de Paz de Saint-
Chamond ao Reitor da Universidade). E mais grave ainda, devido às malévolas insinuações de
eclesiásticos que dirigiam o Colégio Estadual de St.-Chamond: Que o amigo de Champagnat, o
senhor ARDAILLON, queria transformar o colégio em Seminário Menor, que os Padres Maristas
dirigiriam. De Padres para Irmãos a distância é curta. Isto significa, para os delatores, que os
Maristas estão farejando a monopolização do ensino pela Igreja....
O Ministro Salvandy não se fez esperar para lançar mais esta pedra de tropeço no caminho
do processo da autorização.
Senhor Deputado,
A notícia que me deu o senhor Deshayes e também um Irmão que passou por Paris,
me contrista mas não me desanima. Mas, que medida deverei tomar para apagar a má
impressão que pode causar a asserção falsa lançada contra meu Instituto? Alguns se apressam
em me dar palpites. Dizem-me uns que vá ter com os vários prefeitos dos Departamentos em
que estão nossas casas; outros, que me sirva de certas pessoas influentes.
Quanto a mim, senhor Deputado, já me decidi: O crédito enorme de que V. Excia.
goza, a grande simpatia com que sempre me acolheu, assim como acolheu o Irmão (Jean
Baptiste) que lhe mandei, o interesse que nutre por meu Instituto, tudo isso me assegura
suficientemente o êxito da questão, se é que se pode esperar por um final feliz.
Quanto aos relatórios feitos com o intuito de me prejudicar, não podem outra coisa
senão cair no vazio, mediante o simples enunciado dos dados estatísticos sobre o meu
Instituto. Esses dados, tive eu mesmo a honra de apresentar pessoalmente ao Ministro, por
intermédio do senhor Prefeito do Loire, acompanhados com parecer dele.
Eis a seguir o teor dos mesmos:
“Nascido no cantão de Saint-Genest-Malifaux (Loire), etc..” Em nossa Sociedade não
há nenhum "Grand Frère". Não temos ao nosso encargo colégios nem pensionatos. Não
ensinamos Latim, o que é expressamente proibido por nossa Regra. A obrigação do serviço
militar é a única causa que nos faz almejar com intensidade nossa autorização legal. Pois é
muito doloroso ver sair, para outro estado de vida, um jovem formado com tanto sacrifício.
Ponho toda a minha confiança nos seus préstimos, senhor Deputado. Não tenciono
dirigir-me a ninguém mais.
Queira aceitar a homenagem da mais viva gratidão e sincero devotamento, com que
tenho a honra de ser, senhor Deputado...
304
229 - Ao Padre PIERRE FAURE, Pároco de
Villeurbanne, Isère.
4 de dezembro de 1838.
O pároco de Roches-de-Condrieu pediu ao Padre Champagnat que lhe mandasse Irmãos
para dirigir uma escola. A resposta foi que não havia Irmãos "brevetés" (diplomados). Ele tornou a
insistir e prometeu interferir junto à Banca Examinadora de Grenoble. O cura da Catedral daquela
diocese se dispôs a ajudar, hospedando os que se apresentassem para se submeter aos exames, em
vista da obtenção do brevet.
Como ficou sabendo da existência dos Irmãos?
Não sabemos. Villeurbanne cresceu tanto com a implantação de indústrias que passou a
fazer parte da Grande Lião. Mas, só bem mais tarde, em 1858, é que puderam os Irmãos abrir uma
escola naquela cidade.
Senhor Pároco,
É verdade que o senhor pároco de Roches conseguiu uma reunião extraordinária da
comissão examinadora, perante a qual dois de nossos Irmãos foram diplomados. Mas, pediu
para ficar com um deles; o outro já está lotado em uma escola.
Os pedidos que nos chegam de toda parte nos mostram que o campo é vasto e a messe
abundante, mas os operários, muito poucos.
Muito contrariados no momento presente, declaramo-nos na impossibilidade de
cooperar com seu zelo e de mostrar assim a seu digno senhor Bispo quão desejosos estamos
de trabalhar na sua excelente diocese.
Tenha a bondade, senhor Pároco, de nos julgar totalmente empenhados, desde que isto
nos seja possível, em ir ao encontro de suas insistentes solicitações.
Queira aceitar...
305
230 - Ao senhor ANTOINE BERTHOLEY, prefeito de
Mornant.
4 de dezembro de 1838.
Depois de se dirigir ao pároco, o Padre Champagnat escreve também ao prefeito da mesma
localidade para renovar a reclamação feita antes ao Padre Venet: pagamento dos salários dos
Irmãos.
O prefeito foi investigar as causas do desfalque na folha do pagamento - 300 francos a
menos - e prometeu acertar as contas.
Achou a causa. É que havia escolas clandestinas que admitiam alunos com mensalidades
menores. Evasão das escolas regularmente autorizadas, donde também resultava sensível diminuição
das receitas.
O prefeito tratou de sanar logo as irregularidades.
Senhor Prefeito,
Já faz vários anos que a escola primária de Mornant tem sua direção confiada aos
nossos Irmãos. Não ponho em dúvida o interesse que o senhor tem por ela. É o que me induz a
vir expor-lhe com toda confiança a situação constrangedora em que se encontram os Irmãos, a
saber:a falta de pagamento completo.
No ano passado, a receita total deles foi de apenas 900 francos; faltam portanto cem
escudos para inteirar os mil e duzentos francos que estamos exigindo para o pagamento dos
três Irmãos. É quantia módica que não basta para cobrir as despesas com alimentação,
vestuário, etc., e desta quantia não podemos subtrair absolutamente nada, sem comprometer o
equilíbrio entre receita e despesa. Queremos, no entanto, que nossos Irmãos, amparados pelo
senhor, continuem a trabalhar na educação cristã dos meninos do município.
Aí está, senhor Prefeito, a razão pela qual vimos rogar-lhe o favor de entrar em acordo
com o Conselho Municipal, com o fim de encontrar os meios de garantir o pagamento deles.
Chegam-nos de toda parte pedidos de abertura de escolas gratuitas, com fonte de
pagamento garantida, com ordenado fixo para os Irmãos. Querem por força que lhes
mandemos Irmãos.
Para tomar uma decisão final sobre o caso senhor Prefeito, vou esperar sua resposta.
Queira aceitar....
306
231 - Ao Padre JEAN-ANTOINE HENRI MENUT,
Pároco de Sainte-Sigolène, Haute-Loire.
5 de dezembro de 1838.
O Padre Champagnat dizendo ao Padre Menut que inscreve a paróquia de Sainte Sigolène
na lista de espera. Diz também que recusa a oferta de se tornar proprietário do edifício em que vai
funcionar a escola.
A Carta no 215, ao Padre Douillet, esclarece quais os motivos da recusa apresentada por
Champagnat de se tornar proprietário da escola. Mas, agora, talvez por se achar sobrecarregado de
ocupações simplesmente formaliza a recusa, sem explicá-la, aguardando a ocasião de um encontro
pessoal com o ofertante.
A Revista "Semaine Religieuse du Puy" conta que o Padre Menut começou a construção da
escola em 1834. Como o pedido que fez demorava demais para ser atendido, ele se dirigiu aos
Irmãos do Sagrado Coração que para lá foram, alguns anos depois.
Senhor Pároco,
Agradeço-lhe a confiança que deposita em mim. Vou fazer a inscrição de seu pedido,
como o senhor deseja. Quanto à doação que se dispõe a fazer em nosso favor, penso que o
senhor pode encontrar outra destinação mais conveniente.
Digo-lhe francamente: Não fazemos questão de nos tornar proprietários do local onde
colocamos nossos Irmãos, isto por razões que poderei expor-lhe pessoalmente.
Queira aceitar a confirmação de nossa inteira disponibilidade, com que tenho a honra
de ser, senhor Pároco, ...
307
232 – Carta a um Irmão
5 de dezembro de 1838.
O Padre Champagnat chama de volta um Irmão que tinha ido passar férias na família.
Queria confiar-lhe um cargo importante. Qual é esse Irmão e qual a função que desempenharia? Não
foi possível achar respostas aos dois quesitos.
Não era tão raro que um ou outro Irmão fosse encaminhado à família, para descansar e
refazer as forças.
Quanto à função, pode ter sido a de substituir o Irmão Jean Baptiste ou outro com quem este
trabalhava. De qualquer maneira, tem sua razão de estar este escrito no elenco das cartas da autoria
do Padre Champagnat, sempre tão solícito para com os doentes, animando-os a lutar com coragem
contra situações penosas.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 5 de dezembro de 1838.
Meu caríssimo Irmão,
Há muito tempo que estamos esperando sua chegada. Você me disse que o médico era
de parecer que as viagens de curta distância seriam benéficas à sua saúde. Temos muita
precisão de você para fazer exatamente isso. A partida do nosso caro Irmão Jean Baptiste para
um estabelecimento distante fez com que voltássemos nossos olhares para você.
Durante muito tempo, meu caro amigo, você contou com a ajuda dos homens; conte
agora com o socorro de Jesus e de Maria!
Espero abraçá-lo dentro de uns oito dias, conhecendo como de fato conheço a
prontidão de sua obediência.
Apresente meus agradecimentos ao médico que tratou de você, minhas felicitações a
seus pais e meus respeitos ao senhor pároco.
Adeus, sou todo seu nos Sagrados Corações,
Champagnat
308
233 - Carta ao Irmão DENIS, Direitor em Boulieu,
Ardèche.
10 de dezembro de 1838.
Nas Cartas no 118 e 168, vimos que o Irmão Denis era Diretor da escola de St. Didier-sur-
Rochefort. Ele está com a promissória de que trata esta carta. Por que, então, o devedor se dirige ao
Padre Champagnat e não ao Irmão Denis? Só podemos fazer conjecturas, se tentarmos responder.
Quanto à conquista do diploma pelo Irmão Denis, o Irmão Avit afirma, em seus Annales, que
ele se apresentou aos exames em março de 1839. Era nesta época que habitualmente se faziam tais
exames, mas a banca examinadora podia reunir-se também em outras datas.
Pessoas influentes, como foi o caso contado na carta de n.º 229, podiam conseguir exames
fora da época de costume. O Irmão Denis pode ter-se valido de uma dessas ocasiões especiais e ter
conseguido o brevet mais cedo, pelo que o Padre Champagnat o felicita.
Notre Dame de l'Hermitage, 10 de dezembro de 1838.
Meu caríssimo Irmão,
A pessoa que está em dívida com Saint-Didier pede que você lhe mande a
promissória. Quer saldar o débito. Queira entregá-la ao Irmão Stanislas.
Estou muito satisfeito por você ter conseguido seu diploma. Agradeça a Deus por esta
graça, a Ele é que você se tornou devedor.
Nada de novo na casa mãe. Estamos continuando a receber muitos noviços. No mais,
tudo vai indo normalmente. Acrescentemos: Que Jesus e Maria sejam eternamente benditos
Adeus, meu caro Irmão!
Tenho a honra de ser seu muito afeiçoado em Jesus e Maria.
Champagnat
309
234 - Carta ao Irmão DOMINIQUE, Diretor em
Charlieu, Loire.
28 de dezembro de 1838.
Já vimos (cf. Cartas no 36 e 49) que Frère Dominique, era um choramingas de marca maior.
Queixava-se frequentemente de seus auxiliares e pedia para ser trocado. É o que se depreende da
carta.
Faz menção também da escola dos PETITS GARÇONS que, como vimos na carta no 219, era
beneficiada pelo senhor Aurran. Talvez outros benfeitores também tivessem prometido ajudar.
V.J.M.J.
Notre Dame de l'Hermitage, 26 de dezembro de 1838.
Meu caríssimo Irmão,
O que você me informa sobre os estabelecimentos de Semur, de Perreu e de Charlieu
me consola. Queira Deus continuar a derramar sobre eles as mais abundantes bênçãos.
Por você, meu caro amigo, sempre estaremos dispostos a lhe dar prazer e até mesmo a
obedecer-lhe.
Indique-nos um trabalho em que você possa ficar muito tempo e satisfeito e logo
vamos nomear você para ele. É uma doença muito triste esta de a gente só se achar bem onde
a gente não está. É igualmente um engano grosseiro ficar almejando um ofício diferente
daquele que nos foi confiado.
Adeus, meu caro Dominique, ponha toda a confiança em Jesus e Maria e fique certo
de que tudo acontecerá para a glória de Deus e a salvação de sua alma.
Quanto ao auxílio que estamos esperando em favor dos pobres da escola de Charlieu,
continue a rezar e a mandar rezar. A oração bem feita é todo-poderosa.
Aqui na casa mãe, nada de novo, a não ser o número considerável de noviços. Todos
os estabelecimentos continuam funcionando.
Tenho a honra de ser, nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, seu dedicado
servidor,
Champagnat
310
235 - Ao Barão AMBROISE MARIE MODESTE
RENDU, Presidente do Conselho de Administração
da Escola dos Surdos-mudos, Paris.
dezembro de 1838.
Na carta ao Irmão François, escrita de Paris aos 20 de junho de 1838 (cf. Carta n o 196), o
Padre Champagnat escreve: "Estive há pouco na Instituição dos Surdos-Mudos. Pedi a inscrição de
dois Irmãos naquela escola. Se me for concedida, o curso será inteiramente gratuito."
Com vistas a esta formação especial dos Irmãos para trabalharem com surdos-mudos, o
Padre Champagnat se dirige ao Presidente da Administração da Escola e lhe pede que apóie o
pedido de admissão de dois Irmãos nos cursos para a educação de surdos-mudos. Dá como razão do
pedido a solicitação que lhe está fazendo a cidade de Saint-Etienne de mandar Irmãos para este
gênero de apostolado.
Senhor Barão,
No momento em que estava esperando uma carta anunciando-me que tinha sido aceito
meu pedido de admissão de dois Irmãos na escola dos surdos-mudos, recebi uma do senhor
Diretor da mesma escola. Ele me pedia, da parte do Ministro, que o informasse se continuo
com a intenção de mandar alguém se formar.
Solicitado pela cidade de Saint-Etienne que deseja ardentemente ver iniciada, dentro
dela uma instituição tão proveitosa, decidi-me, senhor Barão, a vir solicitar de V. Excia. o
favor muito especial de referendar meu pedido, tal como o senhor teve anteriormente a
gentileza de me prometer.
O senhor conhece, melhor do que eu, todo o valor desta instituição de que lhe cabe
grande mérito. A cidade de Saint-Etienne lhe ficará sumamente agradecida e, quanto a mim,
não mais esquecerei sua benemerência para comigo e minha obra, que continuo a lhe
recomendar.
Sou com todo o respeito...
311
CAPÍTULO VI: 1839
Crise no ministério, arrefecimento da produção industrial, greves e distúrbios, tais
são os aspectos marcantes da França neste ano de 1839. O povo reclama do governo uma
atitude mais firme e nos debates parlamentares, a oposição tenta por todos os meios
enfraquecer o poder do Rei.
Alheio às maquinações políticas, Champagnat continua a formar gente para o
Instituto, a fim de poder atender aos numerosos pedidos de fundação que lhe chegam de toda
parte. Setenta e um novos postulantes revestem o hábito marista durante este ano; 20 noviços
professam. As escolas, de 46 que eram, passam a ser 52.
L’Hermitage já não pode abrigar tanta gente. No final do ano, precisamente na Festa
da Imaculada Conceição, aos 8 de dezembro, inaugura-se o noviciado de Vauban, no castelo
que Dom Bénigne, bispo de Autun, cedeu ao Instituto.
Sentindo suas forças diminuirem dia a dia, o Padre Champagnat, confiando na
proteção de Nossa Senhora - aquela que tudo fez entre nós - presidiu à escolha do Irmão
François, como Diretor Geral dos Irmãos, continuando a Sociedade de Maria sob o governo
do Padre Jean-Claude Colin.
Muito satisfeito com a escolha, continuou seu trabalho de orientação, através das 32
cartas que, até o final deste ano, ele ainda pôde escrever do próprio punho.
Nos meios eclesiásticos, temos a salientar:
- falece, aos 13 de maio, o Cardeal Joseph Fesch, em Roma, para onde se retirara
após a queda de Napoleão, de quem era tio;
- Dom Gastão De Pins, Administrador Apostólico da Arquidiocese acéfala, não foi
aceito pelo governo como Arcebispo Primaz das Gálias. Também nada pleiteou, pois já
sentia aos 73 anos o peso dos anos. Depois de uns poucos meses de retiro na “Grande
Chartreuse”, recolheu-se definitivamente na Vila da Paz, na colina de Fourvière, onde findou
seus dias a 30 de novembro de 1850, aos 85 anos;
- foi indicado pelo Rei, aos 13 de junho, o Cardeal Isoard, para o sólio
arquiepiscopal de Lião, mas Deus o chamou a si, antes mesmo de tomar posse;
- finalmente em 5 de dezembro o bispo de Puy, Dom Louis De Bonald, foi nomeado
para substituir o Cardeal Fesch.
312
236 - A Dom BÉNIGNE TROUSSET D'HÉRICOUT,
bispo de Autun, Saône-et-Loire.
7 de janeiro de 1839.
Poucas fundações foram feitas no ano de 1838. Para o novo ano, a perspectiva é mais
animadora, tendo em vista o grande número de jovens que entraram no noviciado. (cf. Carta no 200)
Uma das fundações será o noviciado de Vauban, no castelo que o senhor bispo Dom Bénigne
pôs a serviço da Congregação. Mas, como o próprio Padre Champagnat diz, ao falar dos jovens que
se apresentam, " a maior parte deles têm pouca formação."
Para uma formação mais completa dos candidatos, o padre Champagnat solicita ao Bispo
um prazo de um ano. A fundação se deu a 8 de dezembro; foi a última que o Padre realizou e se
chamou "Noviciado de Nossa Senhora da Conceição!"
Excia. Revma.,
Fico muito grato pela confiança com que V. Excia. se digna honrar nossa Sociedade.
Desejo corresponder a ela do melhor modo possível, mandando-lhe membros capacitados para
cooperar no zelo apostólico de V. Excia. em favor do bem de sua interessante diocese.
Atendendo à importância do estabelecimento que V. Excia. me propõe fundar, rogo-
lhe conceder-me um prazozinho, que estarei obrigado a empatar na execução de seus piedosos
projetos, para lhe mandar gente de acordo.
Os estabelecimentos que poderemos abrir no ano próximo já estão prometidos e
decididos, de acordo com o número de nossos Irmãos em disponibilidade, mas o seu pedido,
que tanto nos honra, sempre estará colocado em primeiro lugar entre os que temos que
satisfazer na Festa de Todos os Santos de 1840.
Durante este intervalo de tempo, conversarei com o Superior dos Padres Maristas, para
que naquela época ele destaque um Padre para a direção espiritual do seu estabelecimento.
Vou aproveitar da primeira ocasião que tiver para ter uma entrevista com V. Excia. para
acertarmos os meios de garantir o êxito desta medida.
Digne-se aceitar...
313
237 - Ao Padre BENOÎT RÉGIS HECTOR, Coadjutor
de Saint-Lattier, Isère.
9 de janeiro de 1839.
Dom Philibert De Bruillard, bispo de Grenoble, apoiava com todo seu prestígio uma
fundação de escola marista em Saint-Lattier. (Cf. Carta no 207)
Com este apoio e com o parecer favorável das autoridades municipais, o pároco insiste para
que lhe sejam mandados os Irmãos para o próximo ano letivo, que começa em novembro.
A resposta que lhe foi dada - e que abaixo transcrevemos - não satisfez o zelo do pároco que,
como veremos adiante, voltará a insistir. (Cf. Carta de no 256). Mas, terá que esperar ainda até o
final de 1840.
Senhor Padre,
Em resposta a sua última carta, só podemos repetir o que já tivemos a honra de lhe
dizer na carta datada de julho de 1838.
O seu pedido foi tomado em consideração e assentado em nosso registro de pedidos,
sob o número 10. Quando chegar a sua vez, apressar-nos-emos em satisfazer seu desejo, mas
no presente momento, é-nos impossível precisar a data.
As condições atuais de nossa casa, apesar do número de candidatos que se apresentam,
não nos autorizam a multiplicar as promessas de novas fundações.
Receba a confirmação...
314
238 - Circular aos Irmãos
13 de janeiro de 1839.
A partir de 1836, o Fundador tomou o costume de mandar aos Irmãos uma Circular, no
princípio de cada ano civil.
Depois de litografada, a Circular era encaminhada às escolas e, como se vê no P.S. desta,
uma mensagem era acrescentada em caráter individual ou comunitário.
J.M.J.
Meus caríssimos Irmãos,
Experimento grande satisfação em derramar em seus corações a afeição de que está
repleto o meu. Desejo com toda sinceridade que as graças do Senhor se derramem sempre
com nova abundância sobre cada um de vocês. Agradeço o carinho de que dão mostras para
comigo. Como quisera neste momento fazer-lhes sentir toda a força de minha mais do que
justa gratidão!
O que vocês exprimem não é aquilo que a gente em geral procura em tais
circunstâncias expandir, num fluxo de palavras vazias de sentido. São antes benefícios de uma
categoria bem superior. Quanta coisa temos recebido na Sociedade de Maria! Sem perder de
vista o passado, vejamos se já não recebemos o cêntuplo que nos é prometido. Portanto, de
que sentimentos de gratidão deveremos nós andar repassados!
Quem poderia depois de Maria expressar melhor tudo o que estamos sentindo? Não é
o grande São José, aquele homem seráfico?!
Persuadidos desta verdade, aqui na casa mãe, no fim da santa Missa, rezamos durante
nove dias as Ladainhas de São José, depois do canto do Salmo "Laudate Dominum". Exorto-
os a fazer a mesma novena, assim que tiverem recebido a presente Circular. Podem fazê-la no
momento do dia que melhor lhes convier.
Para facilitar a vocês o meio de propagar bons livros, compramos uma grande
quantidade deles a preços reduzidos.
Uma violenta hemorragia acaba de nos arrebatar repentinamente o bom Irmão
Pacôme. Recomendo-lhes que rezem e mandem rezar pelo descanso de sua alma, como
prescreve nossa santa Regra.
Tenho a honra de ser o servo muito afeiçoado,
Champagnat
N. D. de l'Hermitage, 13 de janeiro de 1839.
(P.S. para PÉLUSSIN): Queríamos mandar um substituto do Irmão Zacharie, mas
possivelmente esteja este passando melhor. Se isto não tiver acontecido, procurem informar-
nos o mais cedo possível, para que enviemos um substituto. Comuniquem, por favor, esta
circular aos Irmãos de Chavanay e de Ampuis.
315
(P.S. para MILLERY): Caro Irmão Antoine, você não pode cantar na Missa nem fazer a
função de subdiácono, por causa do perigo de comprometer a saúde. Disponha as coisas de tal
modo que o senhor pároco não fique insistindo mais. A ele logo vamos informar a respeito.
(P.S. para PERREU): Queiram comunicar esta Circular aos Irmãos de Charlieu.
316
239 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, bispo
de Belley, Ain.
20 de janeiro de 1839.
Os párocos muitas vezes faziam intervir os respectivos bispos, para que estes apoiassem seus
pedidos de fundação. Fez assim o Padre Debelay, para conseguir a fundação da importante escola de
Nantua. (cf. Cartas no 143 e 189).
A carta do Padre Champagnat é resposta a outra do bispo Dom Alexandre. Expõe ao digno
Prelado as dificuldades para a fundação da escola de Nantua. O principal obstáculo está na
concorrência, pois uma cidade importante já tem bastante escola.
Excia. Revma.,
Desejo ardentemente corresponder com tudo o que puder ao zelo de V. Excia. pelo
bem de sua excelente diocese e testemunhar-lhe cada vez mais o quanto lhe sou grato pela
benevolência que tem para com nossa Sociedade. O estabelecimento de Nantua que V. Excia.
houve por bem recomendar-nos apresenta dificuldades que será para nós impossível superar, a
menos que o senhor Pároco o transforme em escola gratuita.
A cidade de Nantua possui professores que, indubitavelmente gozam da consideração
e estima de muita gente. A autoridade civil não se pronuncia a favor de uma escola de Irmãos.
Para enfrentar essa concorrência precisaríamos dispor de pessoal de que atualmente não
podemos abrir mão. Mesmo assim, já temos experiência, o resultado não é seguro. Contudo,
nada há que não estejamos prontos a empreender para mostrar a V. Excia. nossa gratidão e
nossa disponibilidade.
Se o senhor pároco de Nantua puder atender a nosso pedido, é com prazer que
mandaremos nossos Irmãos exercer o trabalho na cidade, sob os auspícios de V. Excia. e à
sombra de sua poderosa proteção.
Agradeço de coração, senhor Bispo, pela solicitude e empenho que demonstra em
favor da autorização de nossos Irmãos. Espero conseguir em breve uma entrevista em Lião
com o Padre Colin, nosso Superior, para tratar das novas providências a tomar nas atuais
circunstâncias, a fim de vencer os obstáculos que se opõem à pronta decisão favorável na
momentosa questão.
Digne-se aceitar etc.
317
240 - A Don BENIGNE TROUSSET D'HÉRICOURT,
bispo de Autum, Saône-et-Loire.
21 de janeiro de 1839.
Segundo informações colhidas nos anais de Vauban pelo Irmão Avit, o bispo de Autun
escreveu ao Padre Champagnat aos 12 de janeiro, para pedir que mandasse mais um Irmão para
Semur. Vários postulantes para o futuro noviciado de Vauban poderiam ser confiados a este Irmão,
pensava o Bispo, e assim já estariam preparados para quando Vauban começasse a funcionar.
Excia. Revma.,
Eu não saberia expressar a V. Excia. quanto me sensibilizam suas honrosas
solicitações e o zelo ardente que manifesta em favor da propagação de nossa Sociedade em
sua interessante diocese. Aceito prazeroso a feliz idéia que me facilita o meio de cooperar com
os pontos de vista de V. Excia. enviando mais um Irmão para o estabelecimento de Semur, se
V. Excia. achar que é aquele lugar apropriado para receber provisoriamente os postulantes que
se apresentarem.
O Irmão irá para lá logo que V. Excia. julgar oportuno.
Queira aceitar etc.
318
241 - A Dom JOSEPH BERNET, Arcebispo de Ais-en-
Provence, Bouches-du-Rhône.
23 de janeiro de 1839.
O Padre Champagnat, como tem feito com outros pedidos, pede um prazo, com toda
humildade e submissão à autoridade máxima da hierarquia eclesiástica. Mas, o fato é que o caso não
teve prosseguimento.
Excia. Revma.,
A solicitude verdadeiramente apostólica que V. Excia. tem para com seu rebanho, o
zelo ardente do digno pastor de Pélissanne, os sentimentos religiosos e benevolentes do
prefeito do município, e, sobretudo, as necessidades dos meninos despertam em meu coração
sentimentos de pesar tanto mais vivos e angustiantes quanto maior a impossibilidade em que
me encontro de responder neste momento às solicitações urgentes de V. Excia.
Sinto intensamente, Excia., quanto seria vantajoso para os Irmãozinhos de Maria
fundar escolas em sua excelente diocese, sob os auspícios de V. Excia. e à sombra de sua
proteção. Porém, já prometi para o ano próximo mandar Irmãos a vários municípios. Foram
solicitados faz tempo e fizeram enormes gastos para poder receber os Irmãos. Minha palavra
está dada e eu preciso ser fiel a ela, sobretudo porque os pedidos vêm apoiados pela
autoridade episcopal.
Assim sendo, permita-me prostrar-me aos pés de V. Excia. para suplicar-lhe
humildemente que haja por bem usar de um pouco de paciência, por mais um tempinho.
Apresso-me em assentar seu pedido nos registros, bem resolvido a dar-lhe seqüência no mais
breve espaço de tempo possível.
Dentro em breve, vamos lançar as bases de um noviciado na pequena cidade de
Lorgues (Var). Ser-nos-á mais fácil então fornecer-lhe Irmãos, visitá-los e socorrê-los
depressa nas diversas dificuldades que tiverem de enfrentar. Atualmente, dois Irmãos ficariam
por demais isolados e abandonados à própria sorte, num estabelecimento tão afastado da casa
principal.
Considero-me feliz pelo fato de esta circunstância me proporcionar a ocasião de
apresentar a V. Excia. a homenagem de profunda veneração e total disponibilidade, com que
tenho a honra de ser...
319
242 – Ao Irmão DOMINIQUE, Diretor de Charlieu,
Loire.
14 de fevereiro de 1939.
Frère Dominique se via a braços com muitas dificuldades em Charlieu e as autoridades
municipais não ajudavam a escola dos PETITS GARÇONS. Quem salvou mais uma situação crítica
foi a generosidade do senhor Blaise Aurran. (cf. Carta no 219).
Uma questão a resolver era a habitação dos Irmãos. (cf. Carta no 13). O aluguel da casa
onde moravam estava com prazo vencido; os Irmãos deveriam então voltar para o mosteiro do Padre
Hugand.
O Fundador promete ao Irmão Dominique fazer-lhe uma visita.
Depois disto, não sabemos como os Irmãos puderam se arranjar. Muitas outras dificuldades
foram vencidas pela paciência e o espírito de luta dos Irmãos, principalmente por causa da onda de
laicização que tomou conta da França toda, no final de século XIX. Os Irmãos só deixaram Charlieu
em 1978 por falta de Irmãos.
Meu caríssimo Irmão,
Tenho a intenção de ir visitá-lo dentro de poucos dias. Verei juntamente com você o
que de melhor se pode fazer. Enquanto isso, junto com seus colaboradores, faça o que for
possível. Maria, nossa Mãe comum, não lhe recusará seu socorro se você lhe pedir com
confiança e perseverança.
Fico muito contente, meu caro Irmão Dominique, de saber que vocês têm muitos
alunos. Levar-lhe-ei um relógio. Já não sei mais qual foi que você me deu nas férias.
Anime muito seus colaboradores. Transmita muitas saudações amigas de minha parte
ao bom Irmão Andeol.
Em l'Hermitage, tudo vai mais ou menos. Já temos alguns Irmãos doentes, vindos de
nossos estabelecimentos. Juntos rezemos por eles para que Deus os ajude a suportar
santamente a situação em que se acham.
Adeus, meu caro Dominique. Que Jesus e Maria estejam com você.
Tenho a honra de ser seu mui humilde servidor.
320
243 – Ao Padre JACQUES FRÉDÉRIC LIMPOT,
Pároco de Cosne-sur-L'Oeil, Allier.
17 de fevereiro de 1839.
A carta do Padre Champagnat ao Arcebispo de Aix (cf. Carta no 241) deixava margem a
esperar alguma fundação em Cosne. Esta, pelo contrário, dirigida ao pároco, fala simplesmente na
impossibilidade. e não mais apareceu algum pedido para que se pensasse em criar uma escola de
Irmãos em Cosne, no Departamento de Allier, logo para cima do Loire e Puy-de-Dôme.
Senhor Pároco,
Seria impossível para nós fornecer-lhe Irmãos atualmente ou fixar uma data precisa
em que poderia contar com eles. É com muito pesar que nos vemos obrigados a adiar os
pedidos por demais numerosos de pastores zelosos que nos honram com sua confiança.
Esteja certo dos sentimentos de respeitoso devotamente, com que tenho a honra de ser,
etc.
321
244 – Ao Irmão BASIN, Saint-Paul-en-Jarret, Loire.
23 de fevereiro de 1839.
Nós estranhamos que um Irmão da comunidade de Saint-Paul-en-Jarret escrevesse,
recorrendo ao Padre Fundador, para lhe pedir licença de comprar um canivete de aparar penas de
ganso, que era com que se escrevia naqueles tempos. Não podia o próprio Irmão Xavier, Diretor,
dar-lhe a autorização?
Não sabemos explicar, diz o Irmão Paul Sester. Em todo caso, o piedoso Fundador não deixa
de responder com todo carinho nem de assegurar ao Irmão que em todas as Missas que reza tem uma
intenção por ele. Esta caridade e os conselhos do Padre nos autorizam a pensar que o Irmão Basin
escreveu a ele coisas bem mais importantes do que simplesmente pedir uma licença.
Meu caríssimo Irmão,
Causou-me grande prazer sua cartinha, Irmão. Dou a licença de que o Irmão Diretor
compre para você um canivete e uma pasta.
Você não pode duvidar de meu carinho para com você. Nunca subo ao altar sem rezar
por você. Meu caro filho, Deus há de lhe conceder a perseverança da qual depende sua
santificação. Se você a pedir pela intercessão de Maria, tenho certeza de que a obterá. Ande
todos os dias de sua vida na santa presença de Deus. Que a sua santa vontade seja o móvel de
todos os seus atos!
Adeus, meu caro Irmão. Deixo-o nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Champagnat
322
245 – Ao Padre LÉONARD GAZEL, Pároco de
Chambom-Feugerolles, Loire.
26 de fevereiro de 1839.
O Padre Léonard recebeu em setembro de 1838 a notícia que lhe deu Champagnat que não
haveria possibilidade de criar uma escola tão de repente, logo um mês ou dois depois do pedido. (Cf.
Carta no 214)
Mas, então, pensava ele, quem sabe se em 1839.
Apesar de toda esta expectativa, a escola do Chambon só foi aberta em 1852, É o que
informa a carta do Irmão François ao Arcebispo de Lião. (Cf. Circ. II, p. 468)
Senhor Pároco,
Atrasei-me um pouco para responder à sua honrosa carta, porque julgava poder fazê-lo
pessoalmente, porém uma viagem que me vejo obrigado a empreender, para resolver assuntos
importantes, me impede de ir.
Não esquecemos o estabelecimento de nossos Irmãos em Chambon. O seu pedido está
assentado, sob o no 3, no nosso registro de estabelecimentos com fonte de pagamento
garantida. São justamente aqueles aos quais damos preferência.
A sua vez chegará, espero, ainda este ano, na Festa de Todos os Santos. Não me
lembro de lhe ter prometido fundá-lo mais cedo, ou se prometi foi sob condição. Desejo ater-
me à data que lhe indiquei na minha carta. Vou tornar a lê-la, se o senhor tiver a bondade de
me indicar o número. (É o no 18 do caderno, cf. Carta no 214).
Receba a confirmação do respeitoso devotamento, com que etc.
323
246 – Ao senhor JOSEPH ANTOINE BETHENOD,
prefeito de Saint-Martin-la-Plaine, Loire.
7 de março de 1839.
As más condições de salubridade em que se encontrava a moradia dos Irmãos em Saint
o
Martin lhes custou caro. (Cf. Carta n 191).
Agora é o dinheiro do pagamento que está fazendo falta. O Padre Champagnat escreve ao
prefeito para reclamar da situação. Pelo que vemos na Carta número 291, em que o assunto volta à
baila, o prefeito não respondeu.
Senhor Prefeito,
Creio que o senhor pároco já o terá informado da situação em que se encontram nossos
Irmãos em Saint-Martin-la-Plaine. O que lhes é pago mensalmente cobre apenas os dois terços
do salário deles. Em dois anos, houve um déficit de 600 francos; com mais 400 francos da
fundação que não foram pagos, tudo isso importa em mil francos a receberem.
O senhor pároco nos declarou que ele não tem condições de pagar este débito e de
garantir o salário dos Irmãos. Em vista disto, senhor Prefeito, é que lhe mandamos a presente
carta, para sabermos se podemos esperar alguma melhora. É impossível que continuemos o
trabalho escolar no seu município se, na sua perspectiva, o senhor não encontrar um meio de
garantir o salário dos Irmãos. Como estamos exigindo apenas o estrito necessário, a mínima
sonegação nos pesa demais.
Estamos recebendo de toda parte propostas de escolas gratuitas, mas não temos por
costume abandonar as antigas para começar outras novas, a menos que seja impossível a
subsistência para nossos Irmãos.
Queira dar-nos a honra de uma resposta sua o mais cedo possível, a fim de que
possamos tomar uma decisão definitiva.
Queira aceitar os sentimentos respeitosos e sinceros de devotamento, com que temos a
honra de ser...
324
247 – Ao Irmão AVIT, Pélussin, Loire.
10 de março de 1839.
Vai aqui um exemplo do empenho do Padre Fundador em acompanhar a vida espiritual dos
Irmãos.
Como o Irmão Basin (carta no 144), o Irmão Avit acabava de fazer profissão, havia apenas
cinco meses.
“Pélussin foi o meu primeiro estabelecimento, escreve o próprio Irmão Avit, nos seus
Annales. Meu primeiro Diretor foi o Irmão Pie."
A carta que vamos ler é resposta do Padre Champagnat. Primeiro concede as licenças que o
Irmão terá pedido e depois passa aos conselhos de ordem espiritual ou princípios de vida religiosa.
Em carta nenhuma deixava ele de dar orientações aos Irmãos, para animá-los na piedade e
no exato cumprimento das obrigações.
V.J.M.
Notre Dame de l'Hermitage, 10 de março de 1839.
Meu caríssimo Irmão Avit,
Recebi suas duas cartas, cada uma em sua respectiva data, e não as esqueci. Desejaria
dar-lhe a resposta seguinte: Concedo-lhe a licença de fazer a santa comunhão, como você está
pedindo.
O pensamento da morte e da Paixão de Jesus Cristo é um meio excelente para rechaçar
todo pensamento estranho e contrário à santa virtude. Outro bom meio para adquirir as
virtudes religiosas, como você bem sabe, caro amigo, é a prática da santa presença de Deus,
recomendada por todos os mestres da vida espiritual. Embora seja apenas um conselho para as
pessoas do mundo, para os religiosos é um preceito. Exercite-se, pois, nesta prática, durante o
resto da quaresma.
Deixo-o, meu caro Irmão, nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, e sou seu mui
devotado servidor,
Champagnat
325
248 – Ao Irmão ANACLET, Saint Ddidier-sur-
Rochefort, Loire.
23 de março de 1839.
Tanto nesta, como nas cartas de número 244 e 247, o Padre Champagnat responde aos
Irmãos que lhe escreviam. A Regra prescrevia que a cada quatro meses, os jovens Irmãos deviam
escrever ao Superior.
A pesquisa para saber quem seria o mano do Irmão Anaclet não deu em nada.
Meu caríssimo Irmão,
Que Jesus e Maria sejam sempre toda a sua riqueza. Eles conhecem bem o seu nome, e
suas necessidades são bem conhecidos por eles. Contudo, não deixe de lhes expor sem cessar
o de que você precisa, e conte com seu poderoso auxílio.
Concedo-lhe receber a santa comunhão aos domingos, às terças e quintas-feiras, como
antes. Concedo-lhe também a licença de servir-se de todos os objetos ao seu uso.
Seu mano ainda não chegou no noviciado, estamos esperando por ele qualquer dia
desses.
Não duvide de quanto desejo que Deus o abençoe, e abençoe também tudo o que você
faz. Que devido a suas preces, abençoe a escola em que você está e todos os Irmãos que estão
com você.
Reze pela prosperidade da missão da Polinésia e fique unido com os que rezam pela
mesma intenção.
Tenho a honra de ser todo seu nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Champagnat
326
249 – Ao Irmão MARIE-LAURENT, Saint-Pol-sur-
Ternoise, Pas-de-Calais.
8 de abril de 1839.
Resta-nos desta carta apenas uma cópia que faz parte dos escritos autenticados pela
autoridade eclesiástica, para servir de depoimento em favor da causa de Beatificação do Padre
Champagnat. Trata de assuntos de direção espiritual, como outras cartas, por exemplo, as de no
244,247 e 248.
É dirigida ao Irmão que lecionava na então recém-fundada escola de Saint-Pol. O Padre
Champagnat tenta salvar aquela vocação periclitante, sem consistência.
Com a maior discrição, guardando absoluto anonimato, o Padre recomenda o caso às
orações da comunidade de l'Hermitage. Ao Irmão em crise vocacional aconselha que siga as
orientações de um santo confessor. Inspira confiança a seu correspondente, dando-lhe notícias
alentadoras dos coirmãos, das Missões e por fim confia o Irmão à materna proteção da Boa Mãe.
J.M.J.
N. D. de l'Hermitage sur Saint Chamond, Loire, 8 de abril de 1839.
Meu caríssimo Irmão,
Sua carta, meu caríssimo amigo, desperta particularmente minha compaixão. Desde
que a recebi, não mais subo ao Santo Altar sem recomendá-lo Àquele no qual ninguém põe
em vão a esperança, Aquele que pode fazer com que superemos os maiores obstáculos.
Nunca desespere de sua salvação, ela está em boas mãos: Maria! Não é Maria seu
refúgio, sua Boa Mãe?! Quanto maiores forem suas carências, mais interessada estará Ela em
correr em seu auxílio.
Sem dizer o seu nome, nós estamos começando uma novena por você. Ainda hoje, 8
de abril, Festa da Anunciação, vou rezar a Santa Missa nesta intenção. Continue a abrir-se sem
receio a seu confessor que, não tenho dívidas, é um santo sacerdote.
Continuamos a receber muitos noviços, vindos de todas as regiões. Após a fundação
de Saint-Pol, fizemos mais duas, seria melhor dizer: arrancaram-nos Irmãos para dois
estabelecimentos, Izieux e Les Roches-de-Condrieu.
Estou de saída para ir visitar o local que o município do Chambon nos
oferece.Tivemos alguns doentes que, agora já estão curados ou em convalescença. O Irmão
Peimen faleceu, vítima de varíola. Comunique a notícia ao Irmão Jean-Baptiste, para que faça
cumprir o que prescreve a Regra.
Estamos também fazendo orações em favor da Missão da Oceânia, pelos membros da
Sociedade que lá trabalham e para aqueles que tencionamos mandar para lá. Estamos em
vésperas de mandar Irmãos para Bordéus. Nos estabelecimentos, como na casa mãe, tudo
continua a caminhar como de costume.
Os inspetores das escolas departamentais em que estão nossos Irmãos não são hostis.
Maria, nossa Boa Mãe, cuida muito bem de nós! Ela bem sabe que nós somos gente fraca,
bem fraca para suportar uma luta.
Em Grenoble conseguimos cinco Diplomas: Irmão Denis, Antoine Régis, Gabriel,
Prosper e Sylvestre. Não mandamos nenhum outro Irmão para prestar exames alhures.
327
O Irmão Jean-Chrisostôme continua doente, em perigo. Não esperamos que escape
com vida. Reze por ele. Eu tenho dó de ver morrer; e quem não tem? Um meio de suavizar o
último instante é pensar nele muitas vezes. Memorare novissima!...
Adeus, caríssimo Irmão Marie-Laurent, deixo-o entre os braços de Maria, nossa Boa
Mãe.
Mil saudações ao caríssimo Irmão Diretor e ao Irmão Africain. Tenho a honra de ser
todo seu nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria,
Champagnat
P.S. Diga também ao caro Irmão Jean Baptiste que não poderemos mandar Irmãos, senão em
1841. Antes não. Não nos é possível, pois já temos compromissos demais.
328
250 – Ao Padre JEAN BREUIL, Pároco de Boen-sur-
Lignon, Loire.
27 de abril de 1839.
Mais uma resposta em que o Padre Champagnat promete fazer tudo quanto depender dele,
para mandar Irmãos, assim que for possível. Fórmula, podemos dizer, consagrada, que dá a entender
quanto os filhos de Champagnat eram solicitados para a educação religiosa que se fazia necessária,
após tantos anos de ruínas morais e espirituais acumuladas pela Revolução Francesa.
Foi em novembro de 1844 que três Irmãos abriram por primeiro as portas de uma escola
marista em Boen-sur-Lignon, no Loire.
Prezado senhor Pároco,
Muito nos sensibiliza a confiança que o senhor e seus paroquianos manifestam para
com nossa Sociedade. Os estabelecimentos que já prometemos fundar não nos permitem
mandar Irmãos no ano próximo, mas faremos tudo o que depender de nós para fornecê-los no
mais breve tempo possível.
Considero-me feliz de poder aproveitar desta ocasião para apresentar-lhe a
homenagem de respeitoso devotamento, com que tenho a honra de ser...
329
251 – Ao Padre ANDRÉ DARNOND, Pároco de Saint-
Pierre-de-Boeuf, Loire.
4 de maio de 1839.
O Padre André escreveu a 30 de setembro de 1841, portanto mais de dois anos e meio após a
carta que vamos aqui ler, já quase desanimado de esperar sua vez de receber Irmãos para
lecionarem na paróquia pela qual zelava.
Na carta dizia: "São seis anos que estou pedindo; já quase me falta a coragem."
A persistência do bondoso padre viu afinal suas esperanças satisfeitas em 1842. A escola
dele sempre foi pobre, de muita luta e sacrifícios por parte dos Irmãos.
Senhor Pároco,
Reuni os Irmãos antigos de nossa casa e lhes expus a finalidade de sua viagem e as
insistentes solicitações que me fez para conseguir Irmãos neste ano, tendo em vista as
circunstâncias em que o senhor se encontra. Examinamos detidamente e calculamos se não
haveria um meio de atender a seu pedido.
Um estabelecimento em Saint-Pierre-de-Boeuf nos conviria perfeitamente, pois que
serviria como de centro para os que possuímos naquelas regiões e teríamos muito prazer em
mandar Irmãos para um município em que a autoridade eclesiástica e a civil agem de acordo
para favorecer esta boa obra.
Infelizmente, em vista dos estabelecimentos que já prometemos e o número de
candidatos disponíveis, ser-nos-ia impossível prometer Irmãos para a próxima Festa de Todos
os Santos.
Queira aceitar a expressão de meu pesar pela recusa e creia no total devotamento, pelo
que tenho a honra de ser...
330
252 – Ao Padre MARIE FRANÇOIS PICCOLET, Diretor
do Colégio de Évian, Haute-Savoie.
12 de maio de 1839.
Pelos dizeres desta carta, podemos supor que o padre Piccolet pediu Irmãos ao Padre
Champagnat, fazendo também alusão à possibilidade de conseguir outros religiosos, os Irmãos da
Santa Cruz.
Para não repetir mais uma recusa por falta de pessoal disponível, Champagnat aproveitou a
deixa para animar o Padre a recorrer logo à outra solução. Veremos, mais adiante, na Carta no 255,
que o correspondente parece não ter ficado muito convencido.
Senhor Pároco,
Bendizemos ao Senhor por Ele estar facilitando aos habitantes do município de Cluse
o meio de terem dentro em breve mestres zelosos, na pessoa dos bons Irmãos da Santa Cruz.
Deve ser indiferente para nós que Deus se sirva dessa Sociedade e não da nossa, pois devemos
buscar em tudo sua maior glória.
Aceite os sentimentos respeitosos e o sincero devotamento com que tenho a honra de
ser.
331
253 – Ao Padre AUGUSTIN REVOL, Pároco de
Gougé-Chambalud, Isère.
12 de maio de 1839.
Pelo que o Padre Champagnat escreve nesta carta, entendemos que o Padre Augustin já
tinha pedido Irmãos para a sua paróquia. A construção estava até pronta. Ele só espera a
determinação da data em que começariam as aulas.
Eis que lhe vai a informação: Não poderá ser na Festa de Todos os Santos deste ano de 1839
e, portanto, os Irmãos não darão aulas em 1840. Enquanto se espera o final de 1840, a casa estará
com as paredes praticamente secas, o que é uma medida higiênica importante.
Senhor Pároco,
Não esquecemos o seu pedido. Está assentado em nosso registro, sob o no 7. Vemos
com prazer o adiantamento de sua construção e desejamos sinceramente cooperar com seu
zelo.
Entretanto, seria impossível para nós atendê-lo para a próxima Festa de Todos os
Santos, por causa de promessas já feitas e do reduzido número de Irmãos atualmente
disponíveis.
Há grande vantagem em que as aulas sejam dadas desde o início na nova casa, mas
que se lhe dê todo o tempo necessário para que seque, antes de ser habitada.
Aceite os respeitosos sentimentos com que tenho a honra de ser...
332
254 – Ao Padre ABEL XAVIER MÈGE, Arcipreste de
Morestel, Isère.
4 de junho de 1839.
Por duas vezes, o Padre Abel pediu Irmãos para a sua paróquia de Morestel, como está nas
Cartas no 188 e 337.
O Padre Champagnat dá como razões da demora em atender:
1. alguns Irmãos caíram doentes;
2. outros bem válidos e animados partiram para as Missões da Oceânia. Portanto, não há
Irmãos disponíveis para começar em novembro próximo.
Infelizmente nem no ano próximo, 1840 nem mesmo em 1851, quando o bom do pároco fez
mais uma tentativa. Só o segundo sucessor dele é que teve a sorte de ver os Irmãos iniciarem o
trabalho em Morestel, em 1875.
Senhor Pároco,
É com muito pesar que nos encontramos na impossibilidade de responder
favoravelmente à sua interessante missiva. Irmãos há que ficaram doentes, vários outros dos
nossos partiram para a Missão da Oceânia. Esses desfalques não nos permitem abrir outros
estabelecimentos na próxima Festa de Todos os Santos, a não ser os que tínhamos já
prometido no ano passado.
Esperamos da bondade do Senhor, que tudo dispõe para a sua maior glória, que afaste
os obstáculos que V. Revma. teme ou que faça com que redundem em benefício de seu
estabelecimento.
Aceite a homenagem do sincero e respeitoso devotamento com o qual sou...
333
255 – Ao Padre MARIE FRANÇOIS PICCOLET, Diretor
do Colégio de Évian, Haute-Savoie.
8 de junho de 1839.
Em vez de recorrer ao bispo, como fizeram outros, este pároco dirigiu-se ao Padre Colin,
Superior da Sociedade de Maria. Nem assim; a demora em atender ao Padre Piccolet foi muito maior
do que ele podia imaginar...
Os Irmãos foram àquele Departamento da Haute-Savoie, lá nos limites com a Itália, no sopé
dos Alpes, na cidade de Cluse, sim, mas somente um século depois, em 1937.
Venerando senhor Cônego,
Dirigir-se ao Padre Superior Geral é o mesmo que dirigir-se diretamente a nós
mesmos, pois nós agimos perfeitamente de acordo com ele, e gostamos de cumprir suas
intenções.
Já temos dito ao senhor, na carta precedente, que não nos é possível prometer Irmãos
para o próximo ano. Os dias que se seguiram a esta declaração não suprimiram as dificuldades
que se opõem ao desejo que temos de cooperar com seu zelo.
Pode V. Revma. acreditar, senhor Cônego, que seria com o maior prazer que iríamos
trabalhar no campo pelo qual o senhor se interessa tanto, se nossos meios no-lo permitissem e
se as diversas ordens religiosas que já estão estabelecidas na Sabóia não fossem suficientes
para difundir a instrução religiosa e dar acolhida aos que desejassem consagrar-se ao ensino.
334
256 – Ao Padre BENOÎT RÉGIS HECTOR, Coadjutor
de Sain-Lattier, Isère.
16 de junho de 1839.
A carta-resposta de 9 de janeiro (cf. Carta no 237), dizendo ao Padre Benoît Régis que "era
impossível" fixar um prazo para atender ao seu pedido, foi um tanto ríspida. Entretanto, sabendo que
seu requerimento estava anotado na lista de espera, ele voltou para informar que os trabalhos de
construção da escola tinham tido um bom adiantamento. A municipalidade também aguardava a
chegada dos Irmãos.
Vai agora outra carta do Padre Champagnat, prometendo Irmãos para 1840. Foi o que
aconteceu em fins de outubro.
Senhor Padre,
Ficamos muito lisonjeados com a confiança que o senhor e o Conselho Municipal de
sua cidade gentilmente manifestam para com nossa casa. Faremos tudo o que de nós depender
para cooperar com o seu zelo, criando um estabelecimento pelo qual o senhor e seus piedosos
paroquianos fizeram os maiores sacrifícios. É o que nos atesta a leitura de sua honrosa carta.
Se pudéssemos fornecer-lhe Irmãos neste ano, seria com imenso prazer, mas não nos é
possível. Mas, como o senhor tem a paciência de aguardar até 1840, esperamos ter a felicidade
de encaminhar nossos obreiros apostólicos para trabalharem, sob sua direção, no campo que o
senhor cultiva com tanto esmero.
Queira aceitar os sentimentos respeitosos e o sincero devotamento com que sou...
335
257 – Ao Padre JEAN JOSEPH BAROU, Vigário Feral
de Lião, Rhône.
27 de junho de 1839.
Quem intercede agora para conseguir Irmãos em favor de Curis e Albigny é o Vigário Geral
de Lião.
A paróquia de Albigny pedia há seis anos, mas tinha poucos habitantes, só uns 400, o que
reduzia tanto o número de alunos que um Irmão sozinho daria conta.
Os cálculos que faziam dos gastos de fundação não tomavam em conta certas despesas, tão
avultadas quer se tratasse de dois Irmãos, quer de um só.
Mais adiante, nas cartas no 301 e 302 o Padre Champagnat se encarregará de propor uma
solução viável.
Não me lembro de ter feito nenhum convênio com Albigny. A obrigação que tenho em
mãos foi assumida na minha ausência pelo senhor Souvanan, a pedido do Padre Loire, pároco
de Curis, que, segundo o que contava ele mesmo, tencionava não fundar mais do que um
estabelecimento para as duas paróquias. O Padre Marin, pároco de Albigny com quem tive a
honra de conversar ultimamente, me disse que não poderia nunca arcar com as condições
exigidas pelo nosso prospecto.
Senhor Vigário Geral, mesmo pelo direito natural, é necessário absolutamente que um
funcionário, qualquer que seja o combinado, tenha comida e roupa.
Ainda que em nosso prospecto último, impresso em 1837, tenhamos elevado o
pagamento de dois Irmãos para mil francos, ficamos mesmo assim bem abaixo do que exigem
as outras instituições que têm o mesmo fim; mas, estamos vendo que em breve será necessário
que nos equiparemos a elas.
Inúmeras razões teria a aduzir em favor disto, mas uma simples carta não me permite
detalhá-las. Aliás, tenho esperança de ir vê-lo dentro em breve. O fato de ser Irmão de Maria
não reduz as necessidades ordinárias da vida. Cada ano vemos com muito pesar aumentar o
número de inválidos em nossas fileiras.
Digne-se aceitar a confirmação de sincero devotamento etc.
Champagnat
336
258 - A Dom BÉNIGNE TROUSSET D'HÉRICOURT,
bispo de Autum, Saône-et-Loire.
17 de julho de 1839.
Houve um mal-entendido entre o Bispo e o Padre Champagnat. Dom Bénigne, na
carta do dia 21 de janeiro, endereçada a ele pelo Padre Champagnat, não prestou atenção ou
esqueceu depois o seguinte detalhe: "O Irmão irá para lá (Semur) cuidar dos postulantes,
logo que V. Excia. julgar oportuno." E ficou aguardando ordens.
Vendo o Bispo que o Padre Champagnat não mandava ninguém, escreveu ao Padre Colin, o
qual deve ter interpelado Champagnat. Daí, a carta que vamos ler.
Enquanto Champagnat aguardava a ordem do Bispo, ruiu parte da casa em Semur. Será que
é preciso tirar os Irmãos de Semur?
Excia. Revma.,
O Padre Superior Geral de nossa Sociedade acaba de me fazer chegar às mãos uma
pergunta que V. Excia. fez a ele ultimamente, com respeito ao castelo de Vauban. Após ter
relido atentamente as minhas cartas, de 7 de janeiro deste ano e do dia 21, que foram respostas
às cartas que V. Excia. houvera por bem dirigir-me, tenho a honra de assegurar-lhe que
continuamos com idênticas disposições. Continuamos pensando em mandar um Irmão a mais
para Semur, ao primeiro sinal que V. Excia. nos der, aguardando a Festa de Todos os Santos
de 1840.
Nosso parecer é que a moradia dos Irmãos, em Semur, não foi achada em condições,
visto que tudo tinha ficado na mesma. O que comprova aquilo que estou pensando é que
chegou a seguinte notícia: Desmoronou uma parte do que servia de alojamento para os Irmãos.
Estarei obrigado a retirar os Irmãos deste município até que arrumem uma casa ad hoc. Se V.
Excia. quiser começar em Vauban, os Irmãos de Semur estarão à sua disposição
imediatamente.
É com alegria que aproveito de mais esta ocasião para apresentar a Vossa Excia.
minha respeitosa homenagem e reiterar o perfeito e sincero devotamento, com que tenho a
honra de ser...
337
259 – Carta a um Irmão jovem
20 de julho de 1839.
O Padre Champagnat escreve a um Irmão jovem e lhe dá orientações espirituais para que
possa vencer no combate contra as tentações contra a castidade.
Pela obediência, diz o Fundador a título de conclusão," você se preparará maravilhosamente
para fazer os votos."
Meu prezado Irmão,
A felicidade de ser filho de Maria bem que vale algum combate e algum sacrifício.
Além do que se pode dizer a Jesus, o que é que não se pode dizer a Maria? “Porque seria eu o
primeiro a invocar-vos?” Melhor ainda: "o primeiro a ser seu filho!" Portanto, diga a Maria
que a honra de sua Sociedade exige que Ela o ajude a ser puro como um anjo!
O meio que você toma para isso é pensar na morte e na Paixão de Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Fique sempre ocupado. Obedeça cordialmente, pois é a Jesus e a Maria que estará
obedecendo. Sem isto, você não seria por toda sua vida senão péssimo religioso, melhor
dizendo: Não ficaria religioso por muito tempo.
A obediência torna uma pessoa toda santa, impecável, inseparável de seu Deus. Só me
afastarei de Deus se me afastar da obediência. Por meio desta virtude, você se preparará
maravilhosamente para fazer os votos.
Adeus, prezado Irmão,
Champagnat
338
260 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Chateaux.
21 de julho de 1839.
Notificação ao Padre Mazelier da volta do Irmão Raphaël, um daqueles que foram confiados
a ele (cf. Carta no 202), mas que ficou doente e veio se tratar em l'Hermitage.
Uma vez restabelecido, o Irmão Raphaël retorna a Saint-Paul para se preparar à conquista
do “brevet" (diploma). Em maio de 1840 foi destacado para dirigir a escola de Firminy, portanto já
diplomado.
21 de julho de 1839.
Padre Superior,
O prezado Irmão Raphaël, tendo-se restabelecido, apressa-se em voltar para junto de
V. Revma., para aí continuar seus estudos, a fim de poder obter o certificado no próximo
exame.
Fiquei surpreendido de ver os progressos que fez, sob sua orientação. Maria, nossa
primeira Superiora, não deixará sem recompensa o imenso benefício que o senhor nos presta
com sua extrema caridade. Bem quisera eu ter uma ocasião de lhe demonstrar com fatos
concretos até onde vai a nossa gratidão.
Queira aceitar a confirmação do perfeito devotamento com que tenho a honra de ser,
senhor Superior, seu mui humilde servidor.
Champagnat
339
261 – Ao Padre ALEXIS SANQUIN, Pároco de
Vernaison, Rhône.
24 de julho de 1839.
Vernaison e Charly, localidades muito pequenas e desprovidas de recursos, só vão receber
Irmãos 35 anos mais tarde.
Senhor Pároco,
Não nos será possível fornecer-lhe Irmãos neste ano, porque os estabelecimentos que
podemos abrir já estão prometidos, mas o seu pedido é tomado em consideração, de maneira
particular.
Com muito prazer enviaremos nossos Irmãos para que exerçam o apostolado em sua
paróquia, conjuntamente com a de Charly, desde o momento que nos acharmos em condições
de mandá-los.
Receba nossos sentimentos de gratidão pela confiança com que o senhor tem a
gentileza de nos honrar, e a certeza do sincero devotamento, com que tenho a honra de ser,
com todo respeito, ...
Champagnat,
sup.
340
262 – Ao Senhor JEAN-MARIE GUINAULT, prefeito de
Charlieu, Loire.
27 de julho de 1839.
Os Irmãos de Charlieu ficaram morando primeiro num convento. De lá passaram para um
prédio pertencente ao Seminário, de onde voltaram novamente ao convento.
Agora, o prefeito Guinault promete construção própria. Enquanto esta não sai, os Irmãos,
com exceção do diretor, vão ter que se alojar nas dependências da prefeitura, lá mais longe no meio
da cidade.
O Padre Champagnat ficou muito satisfeito com os planos do prefeito e com o empenho da
população em proporcionar a educação religiosa àqueles meninos carentes, os PETITS GARÇONS.
Senhor Prefeito,
A proteção que o senhor tem a peito conceder aos nossos Irmãos estabelecidos na
cidade de Charlieu nos cumula da mais viva gratidão. Diversas circunstâncias adversas os
teriam evidentemente perturbado no serviço, se não tivessem encontrado amparo na sábia
administração do senhor.
Temos esperança que finalmente Deus há de abençoar os esforços que o senhor está
fazendo para proporcionar instrução religiosa aos meninos pobres que, sem o seu empenho
teriam ficado sem ela, devido à indiferença da maior parte dos pais.
Aceitamos a casa nova que o senhor destina para a escola e os quartos da prefeitura
que o senhor põe à disposição dos Irmãos, para onde poderão recolher-se após as aulas.
Nosso Irmão Visitador nos escreveu que o senhor planeja levantar, para o ano, uma
construção que servirá de escola, e então não haveria mais do que um só local para os Irmãos.
Se lhe for possível executar, no prazo previsto, o plano tão bem traçado, os Irmãos e também
toda a população lhe ficarão imensamente agradecidos.
Receba a homenagem do respeitoso e sincero devotamento com que tenho a honra de
ser, senhor Prefeito,...
341
263 – A senhora STÉPHANIE DE VIRIEU, Grand-
Lemps, Isère.
9 de agosto de 1839.
Mlle. Stéphanie era marquesa do castelo de Virieu, residente num castelo em Grand-Lemps,
a 24 km de La-Tour-de-Pin, Isère.
O Padre Ballet, arcipreste daquele lugar entrou em entendimento com a marquesa para criar
uma escola de educação religiosa. O pedido era de conseguir Irmãos para 1840, mas foi só no ano
seguinte que pode ser satisfeito.
Excelentíssima Senhora,
O Padre Cholleton, Vigário Geral de Lião, acaba de nos escrever a respeito do
estabelecimento que a senhora quer fundar no Grand-Lemps, para a instrução religiosa dos
meninos.
Convidado que foi pelo Padre Cholleton, nosso Superior manifestou muito desejo de ir
ter com a senhora, por volta do dia 12 do corrente, mas uma viagem urgente que está obrigado
a empreender nesta data, não lhe dá chance de usufruir desta vantagem. Mandaríamos com
imenso prazer vários Irmãos para começar a benéfica obra pela qual a senhora tanto se
interessa, mas os estabelecimentos que podemos abrir neste ano já foram prometidos, de modo
que não nos será possível, no momento atual, condescender às piedosas aspirações que a
animam.
Temos esperança de que o Pai de Família há de aumentar o número dos operários e
que então teremos a satisfação de destacar alguns para trabalharem sob a sua proteção.
Receba os sentimentos de gratidão pela confiança com que a senhora se digna honrar
nossa Sociedade e o sincero devotamento com que tenho a honra de ser, com todo respeito, ...
342
264 – Ao Padre CLAUDE-MARIE PAGE, Pároco de
Digoin, Saône-et-Loire.
12 de agosto de 1839.
Vimos na Carta no 97 que o pároco de Digoin comunicou ao Padre Champagnat a resolução
do Conselho Municipal de chamar os Irmãos para a direção de uma escola.
O Padre Champagnat deu as indicações precisas para que construíssem um prédio com as
instalações necessárias ao correto funcionamento de uma escola.
O pároco foi depois a l'Hermitage, mas, como o prédio não ficou pronto em 1840, o Padre
Page consentiu em ceder a preferência ao senhor bispo Dom Bénigne, que queria os Irmãos para o
castelo de Vauban. Digoin ficou para 1841.
Senhor Pároco,
Teria eu desejado muito sinceramente dar-lhe uma resposta de acordo com seus
anseios, mas como o senhor tinha adiado o seu pedido "sine die" em favor de outra paróquia,
não esperava ter de satisfazê-lo tão depressa. Não podemos multiplicar promessas para este
ano, porque já nos comprometemos de acordo com o número de Irmãos disponíveis.
Foram-nos oferecidos vários estabelecimentos com fonte de pagamento garantida e
pedem com insistência que os comecemos logo que pudermos. O senhor bem vê, senhor
Pároco, que tais estabelecimentos são os que sempre preferimos, custam menos para nós e lá
podemos realizar um bem maior, sendo escolas gratuitas.
Apesar da vontade que nos anima de satisfazer a seu pedido, vemo-nos forçados a
adiar a fundação de sua escola para uma data mais distante. Talvez este compasso de espera
lhe será útil para colocar tudo sobre bases sólidas. (Cf. carta no 316).
Queira aceitar...
343
265 – Ao Padre CLAUDE-MARIE THORIN, antigo
Pároco de Lancié, Rhône.
16 de agosto de 1839.
O Padre Champagnat comunica ao pároco de Lancié que seu pedido vai ser
assentado no livro de registro de estabelecimentos em vias de serem criados. Assim sendo,
terá que esperar sua vez. Informa que tipo de escola tem prioridade.
Senhor Padre,
Somos-lhe muito gratos pela confiança com que o senhor se digna honrar nossa
Sociedade, solicitando que lhe mandemos alguns de seus membros, para a instrução religiosa
dos meninos do município de Lancié.
Gostaríamos muito de marcar a hora de termos a satisfação de enviar-lhe Irmãos, mas
as múltiplas promessas que fizemos não nos permitem que lhe anunciemos uma data tão cedo.
Mas, o seu pedido foi levado em consideração e, se o senhor quiser, o inscreveremos no
registro dos estabelecimentos a serem criados. Entretanto não deixaremos de lhe informar que
nós aceitamos preferentemente estabelecimentos com fonte de pagamento garantida e de
ensino gratuito.
Considero-me feliz de poder aproveitar o ensejo para lhe apresentar os sentimentos de
respeitoso e sincero devotamento, com que tenho a honra de ser,...
344
266 – Circular aos Irmãos
9 de setembro de 1839.
Nesta Circular, notamos um desenvolvimento maior da parte administrativa, devido ao
crescimento do número de Irmãos e de escolas. Isto requer uma organização mais complexa.
Meus caríssimos Irmãos,
O próximo mês será para nós um tempo precioso e de muito proveito, pois que
teremos a felicidade de nos reunir para gozarmos de um pouco de descanso, sob os auspícios
de Maria, nossa terna Mãe. Junto dela, unidos de espírito e coração, apreciaremos os frutos
deliciosos que Deus prometeu pelo seu profeta (Sl 131) aos irmãos que viverem unidos.
Como a nossa reunião vai ser numerosa, vejo com pesar que, embora eu tenha o desejo
de atender a todas as suas necessidades, vocês terão que suportar uma quantidade de precisões
que, de todo lado, se abatem sobre nossa natureza carente. Mas, coragem! Essas
contrariedades que, segundo um santo padre do deserto, nós suportamos como que apenas em
sonho, serão compensadas por uma felicidade eterna.
Procurem deixar suas contas pagas, seja com o livreiro, seja com as outras pessoas
com as quais vocês podem ter-se relacionado, a fim de poderem desfrutar de perfeita
tranqüilidade durante as férias. Façam com que os devedores paguem satisfatoriamente o que
lhes devem e, se conhecerem os pais ou benfeitores de alguns noviços ou Irmãos, que não
morem muito longe de vocês, por favor, insistam para que terminem de pagar o que ainda
estejam devendo à casa. Isto porque - vocês bem que estão sabendo - os mantimentos estão
caros, por isso estamos obrigados a cobrar o que nos é devido. Pela mesma razão, não
assumam o compromisso de receber pensionistas nas condições dos anos anteriores. É até
aconselhável solicitar aos pais de boa vontade que contribuam com uma quantia suplementar
para o ano que acaba de findar.
Recomendamos-lhes que façam embrulhos da roupa em desuso e batinas velhas que
não têm mais serventia e despachem tudo para (cá) alguns dias antes de vocês saírem, para
poderem verificar ao chegar se não ficou algo pelo caminho, evidentemente se não vierem de
condução.
Ler o capítulo X da Regra.
Cuidem de preencher com exatidão a estatística e de entregá-la, na chegada,
juntamente com o livro da contabilidade, ao Irmão que for designado para recebê-los.
Para que possam acertar suas contas com o Irmão bibliotecário, envio-lhes o total de
suas faturas, que somam...; gastos pessoais...; Total:...
Já sabem que o retiro começa nos primeiros dias de outubro.
Recebam etc.
345
267 – Ao Irmão PHILIPPE, Sury-le-Comtal, Loire.
9 de setembro de 1839.
O Irmão Avit, nos Anais de Sury, atribui esta carta ao Irmão François, braço direito do
Padre Champagnat e seu secretário. É possível, mas as idéias são perfeitamente do fundador. Vê-se,
como na Carta no 216 que as mesmas duas idéias perpassam pelo texto:
1o) manter a escola;
2o) as autoridades façam o que a elas compete para que os Irmãos possam trabalhar de
acordo com nossos regulamentos.
Grand classe era a turma dos que estavam aprendendo a escrever.
Meu caro Irmão Philippe,
Você sabe que fazemos questão de que nossas salas de aula estejam separadas uma da
outra por um tabique envidraçado. Esperamos que as de Sury mais tarde sejam dispostas desse
modo, pois que o local se presta para tanto. Mas, como o senhor pároco não quer saber de
ouvir falar na regularização da grand classe, é inútil irmos a Sury. Não obstante, preferimos
ter pelo menos duas salas de aula regulares a termos que agüentar por mais tempo que as três
estejam separadas.
346
268 - A Dom BÉNIGNE DU TROUSSET
D'HÉRICOURT, bispo de Autun, Saône-et-Loire.
13 de setembro de 1839.
O Padre Champagnat tinha projetado fundar o noviciado de Vauban só em 1840. Agora, vê-
se compelido a estabelecer-se lá ainda neste ano de 1839. Já tem o parecer favorável do Padre Colin
que está sendo solicitado a destacar um dos Padres Maristas para ser o capelão.
O caso de Semur (cf. Carta no 258) deve ter contribuído também, e não pouco, para apressar
a fundação. Foi pedido uma data em que o Bispo e Champagnat firmariam um acordo.
O fato é que o noviciado de Vauban abriu oficialmente a 8 de dezembro de 1839, com a
presença do Padre Champagnat.
Excia. Revma.,
Estando a par de quanto V. Excia. anseia por uma solução relativa ao seu
estabelecimento de Vauban, apresso-me em comunicar-lhe que o Padre Superior Geral aprova
que aceitemos sua atenciosa oferta.
Lá nos instalaremos logo que nos tenhamos posto de acordo sobre todos os pontos. Só
receio que, com todas as nossas limitações e a boa vontade, talvez não correspondamos ao que
V. Excia. está no direito de esperar de nós. Eu sei: se Maria não abandona nem os maiores
pecadores quando imploram pelo auxílio dela, não iria deixar ao desamparo os que a Ela se
consagraram com a aprovação do Vigário de Jesus Cristo.
Não terei nenhum momento vago antes da Festa de Todos os Santos, devido à chegada
dos Irmãos, mas depois estarei mais livre.
Por favor, Excia., pode marcar o tempo e o lugar de nossa entrevista para acertarmos
tudo e para depois a Sociedade de Maria e V. Excia. formarem um só coração e uma só alma
nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
347
269 – Ao Padre AUGUSTIN REVOL, Pároco de
Bougé-Chambalud, Isère.
13 de setembro de 1839.
Contrariamente ao que escreveu na carta de no 253, o Padre Champagnat avisa o Padre
Revol que pensa dar-lhe Irmãos já neste ano, se tudo estiver de acordo com o prospecto.
A fundadora desta escola é Mademoiselle Esther de Revol, que comprou um terreno e mais
um lote, caro, da própria mãe, que mandou arrancar toda a grama. A construção foi feita de taipa.
Realizada a obra, Esther legou ao município a casa, a mobília e as dependências para que
tudo fosse destinado à instrução e educação moral e religiosa dos meninos, sob a direção dos Irmãos
Maristas ou outros que fossem aprovados pelo Bispo.
Senhor Pároco,
Sinto-me envergonhado de lhe estar devendo uma resposta, faz tanto tempo. Não
esqueci seu estabelecimento, porém diversas circunstâncias se opuseram a que pudesse fixar-
lhe mais cedo a época do começo das aulas.
Mando-lhe a lista do mobiliário requerido para três Irmãos.
Pelo fim do mês de outubro ou no começo de novembro, iremos ter com o senhor para
visitar a casa que servirá de escola e, se tudo estiver pronto, nossos Irmãos, sob os seus
auspícios, irão exercer as funções de mestres em sua interessante paróquia, a fim de contribuir
com o zelo que o anima a proporcionar educação à juventude.
Assim, à virtuosa fundadora deste estabelecimento será dado o prazer de ver o
resultado de suas generosas doações.
348
270 – Ao Padre JULIEN DESCHAL, Pároco de
Vierelade, Gironde.
15 de setembro de 1839.
Outro Arcebispo, Dom Ferdinand Donnet, originário de Bourg-Argental e condiscípulo do
Padre Champagnat (Cf. O. M. 3, p. 989) vem apoiar o pedido de fundação de uma escola marista.
Como o Padre Champagnat pede mais uma vez paciência e propõe um compasso de espera, o pároco
tornará a insistir mais tarde. (Cf. Carta no 284)
Senhor Pároco,
Recebi com muito prazer a importante carta que o senhor nos fez a honra de escrever,
na qual nos fala das benévolas intenções do senhor Arcebispo de Bordéus para com nossa
Sociedade. Faremos tudo o que de nós depender para tornar-nos úteis à sua importante
diocese, quando a Providência nos proporcionar a ocasião de estabelecer escolas na região.
No momento é impossível para nós fornecer-lhe Irmãos, porque os estabelecimentos
que podemos criar já estão todos prometidos e porque temos que atender a um grande número
de pedidos anteriores ao seu.
Rogo-lhe aceitar meus sentimentos de gratidão pela confiança com que o senhor se
digna honrar nossa casa e o sincero devotamento com que tenho a honra de ser...
349
271 – Ao Padre JEAN-BAPTISTE SALLANON, Pároco
de Craponne, Haute-Loire.
17 de setembro de 1839.
Apesar da insistência de Dom De Bonald, bispo de Puy, não foi possível mandar Irmãos em
1838, para a paróquia de Craponne.
A escola deixada pelos Irmãos do Sagrado Coração ficou durante um ano sob a direção do
professor Roche.
Cumpridas as condições abaixo indicadas, os Irmãos Maristas darão prosseguimento ao
trabalho da educação religiosa em Craponne.
Senhor Pároco,
Estamos de acordo em lhe mandar três Irmãos, contanto que o senhor satisfaça às
condições seguintes:
1o) que o senhor nos assegure o uso da casa onde vão morar os cinco Irmãos;
2o) que o senhor assegure o salário dos três que lhe estamos mandando;
3o) que os gastos de fundação sejam pagos adiantados conforme sempre se costumou
fazer;
4o) que a mobília que deve servir aos Irmãos seja fornecida completa;
5o) quanto aos pensionistas ou os que tiverem pousada, se não forem da cidade, que os
Irmãos cobrem deles contribuições que ficarão para proveito próprio.
Senhor Pároco, todos os seus recursos provirão do recebimento de mensalidades dos
meninos remediados da cidade: assim é bom ver se o senhor vai conseguir o suficiente com os
recursos que esse recebimento pode oferecer.
Receba etc.
350
272 – Ao Padre FRANÇOIS ROBITAILLE, Pároco de
Saint-Pol-sur-Calais.
17 de setembro de 1839.
Após um ano de trabalho em Saint- Pol, o Padre Champagnat fica inteirado de que nem tudo
anda conforme as promessas. Mesmo assim mais um Irmão é mandado para ajudar os três que lá
trabalham: Irmãos Jean-Baptiste, Africain e Marie-Laurent
Devido aos gastos de viagem, os Irmãos do Norte não foram fazer o retiro em l'Hermitage.
Esta exceção se prolongou até 1845, dizem os Anais do Irmão Avit.
Senhor Decano,
Estamos para mandar mais um Irmão para Saint-Pol, o que muito nos contraria, pois
estávamos um tanto quanto esperançosos que a região haveria de, pelo menos, fornecer gente
para um recrutamento local.
O pagamento dos Irmãos é tão pequeno que nem podemos pagar os custos de viagem.
Acho que tínhamos combinado que o senhor os pagaria, sem o que não poderemos sustentar
seu estabelecimento. Os gastos de moradia não estão sendo pagos, como nos tinham
prometido. A escola não tem fonte de pagamento garantida. Parece até que a autoridade civil
se opõe a isto. Vou escrever ao senhor Delbecque, pois foi a pedido dele que abrimos esta
escola.
Receba etc.
Champagnat
351
273 – Ao Senhor LIBERSAT, funcionário do
Ministério da Instrução Pública, Paris.
19 de setembro de 1839.
As autoridades de Saint-Pol não simpatizam com o trabalho dos Irmãos. O Padre
Champagnat, informado pelo Irmão Jean Baptiste, comunica esta falha ao Decano Padre François
Robitaille (CF. Carta precedente).
Em muitas ocasiões é ao senhor Delbecque que se tem dirigido, e agora vai fazer intervir
também o senhor Libersat, funcionário do Ministério da Instrução Pública.
Afinal, todo este pessoal sabe que a escola de Saint-Pol foi aberta a pedido do próprio
Ministério. Por que, então, esta implicância das autoridades locais contra a escola?
Prezado Senhor,
Permita que venha uma vez mais pedir-lhe que me diga o que poderá ter conseguido a
respeito da nossa autorização. O que é que lhe disse o senhor Delbecque? Que providências
me resta tomar?
O senhor Salvandy tinha dito ao senhor bispo de Belley que se nós tomássemos os
estatutos de uma Sociedade já autorizada, a nossa seria aprovada. Se assim for, não haverá de
nossa parte dificuldade nenhuma quanto a isto; o de que fazemos questão mesmo é de formar
bons cristãos e bons cidadãos entre os habitantes das zonas rurais.
Estamos tendo conhecimento de que em Saint-Pol o vice-prefeito departamental e o
prefeito Municipal são contra os nossos Irmãos. Estou aborrecido por causa disto e
sobremaneira surpreso, dado que abrimos este estabelecimento sob os auspícios do senhor
Delbecque e com a aprovação desses senhores.
Não quero absolutamente suscitar entraves a nenhuma administração. Preferiria retirar
nossos Irmãos, pois nem os temos em número suficiente para suprir as escolas de nossas
regiões.
Queira aceitar etc.
Champagnat
352
274 – Ao Padre PAULIN LOISSON DE GUINAUMONT,
Vigário Geral de CHâlons-sur-Marne, Marne.
30 de setembro de 1839.
Mais uma diocese pede Irmãos. O Padre Champagnat concorda com o pedido, pois que
todas as dioceses do mundo estavam em seus planos (cf. Carta no 93).
A resposta a um segundo pedido (cf. Carta no 296) do mesmo Vigário Geral vai nos mostrar
que se trata aqui também da ereção de um noviciado, lá no norte, a 160 km a leste de Paris.
Senhor Vigário Geral,
Recebi sua carta com sentimentos de gratidão pela confiança com que o senhor se
digna honrar nossa Sociedade.
Desejo muito sinceramente corresponder, na medida do possível, ao zelo ardente que
V. Revma. manifesta pela educação da juventude e pela expansão de nosso Instituto em sua
interessante diocese. Entretanto, só seria dentro de dois ou três anos que poderíamos fornecer-
lhe Irmãos, tendo em conta a importância de um tal estabelecimento e pedidos que prometi
atender durante este tempo de espera.
Considero uma felicidade para mim que a circunstância me dê a ocasião de lhe
apresentar minhas respeitosas saudações e assegurar-lhe total devotamento, com que tenho a
honra de ser, etc.
Champagnat
353
275 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Supeior dos
Irmãos da Instrução Cristã, Saint-Paul-Trois-
Chateaux.
6 de outubro de 1839.
O assunto é ainda o caso do Irmão Apollinaire (cf. Carta no 126, 128, 141, 198), sempre
doente e sem diploma de "instituteur", portanto sujeito a ser convocado. Deveria apresentar um
certificado médico ou a declaração de uma autoridade. De que Departamento? Do Loire, no qual se
encontra ou do Drôme, onde está inscrito? Ou do Departamento do Isère, seu lugar de origem?
Outro caso é o do Irmão Gérasime. Está sendo convocado. Como já tem seu "brevet", para se
livrar do serviço militar precisaria apresentar um compromisso de dez anos de magistério
(engagement décennal), juntamente com sua qualificação de "instituteur", conferida por um prefeito
municipal. Se estivesse na congregação do Padre Mazelier, nada disto lhe seria exigido. Por isso,
Champagnat propõe ao Padre Mazelier que mande o Irmão Gérasime lecionar numa de suas escolas,
como se fosse Irmão da Instrução Cristã.
Padre Superior,
Pois que a Santíssima Virgem quis que o senhor fosse o recurso de seus filhos,
permita-me que venha incomodá-lo. O Irmão Apollinaire está atualmente em Notre Dame de
l'Hermitage. Saiu de Marlhes faz seis semanas, ou dois meses, julgando-se completamente
curado, mas uma reação violenta da doença se manifestou de repente, com tanta força que em
dois ou três dias se tornou irreconhecível.
Começa agora a melhorar, mas está com palidez tão grande que me faz temer pela vida
dele.
Acabam de me informar que estão recolhendo informações sobre ele, tendo em vista a
convocação ao serviço militar. Não gostaria que a polícia viesse aqui para deitar-lhe a mão em
cima.
Que providências deverei tomar e com quem? O médico de Saint-Chamond está
disposto a dar todos os certificados necessários a respeito do estado de saúde do Irmão.
O Irmão Gérasime, de sobrenome Terme, se dispõe a voltar para Saint-Paul, pois foi
sorteado para o serviço. O senhor que bem conhece sua abnegação pode empregá-lo no
ensino, se julgar oportuno.
Estamos neste momento fazendo nosso retiro. É um retiro de muitos Irmãos.
Recomendo-o muito às suas orações e às de seus bons Irmãos.
Continuam a se apresentar muitos vocacionados. Se o senhor estivesse mais perto e
fosse possível estabelecer alguma filiação por meio da Ordem Terceira que o Soberano
Pontífice aprovou, poderíamos dar a entender que seria uma mesma Sociedade. Os candidatos
se decidiriam mais facilmente. Neste caso, o senhor poderia continuar a dirigir pessoalmente
uma obra toda dedicada à glória de Deus.
O senhor nos presta um grande serviço. Eu quisera ser-lhe de alguma utilidade, a
qualquer preço.
Digne-se aceitar que lhe testemunhe, senhor Padre Superior, o mais sincero
devotamento com que tenho a honra de ser, com respeito, seu mui obediente servidor.
Champagnat
354
276 – Ao Padre JEAN-PIERRE AVIT, Pároco de
Érome, Drôme.
7 de outubro de 1839.
Esta é mais uma resposta, aconselhando espera paciente, ou então sugerindo que apele para
outras Congregações dedicadas, como a dos Maristas, à educação dos jovens.
Pelo visto, no caso atual foi o que decidiu o Padre Avit, pois não voltou a insistir.
Senhor Pároco,
Somos-lhe muito gratos pela confiança com que o senhor nos honra, pedindo-nos
Irmãos para sua interessante paróquia. No momento atual, porém, é-nos impossível ir ao
encontro de seu zelo pela instrução religiosa de seus queridos meninos. Grande número de
pedidos anteriores ao seu estão para ser atendidos. Entretanto, faremos tudo o que de nós
depender para lhe fornecer Irmãos, logo que pudermos.
Temos esperança que a Providência há de proporcionar o número de Irmãos à medida
das necessidades. Não posso fixar a data em que o senhor poderá contar com nossos Irmãos.
Mas, seu pedido, se o senhor quiser, poderá ser inscrito na lista dos concorrentes, e levaremos
em conta os esforços de seus bons paroquianos, no sentido de preparar e consolidar esta boa
obra.
Receba a certeza do respeitoso devotamento pelo qual tenho a honra de ser...
355
277 – Ao Padre FRANÇOIS FLANDRIN, Pároco de
Ville-sur-Jarnioux, Rhône.
7 de outubro de 1839.
O Padre François era coadjutor em Charlieu, onde conheceu os Irmãos e lhes prestou bons
serviços. Em vista disto o Padre Champagnat, no final desta carta, lhe faz um agradecimento todo
especial. Quanto a lhe mandar Irmãos para a paróquia que agora lhe cabe pastorear, por enquanto
não há gente formada e disponível.
Senhor Pároco,
Ficamos deveras surpresos ao sabermos, através do pároco de Izieux, que nossa carta-
resposta não lhe chegara às mãos. Transcrevemo-la pressurosos tal qual foi copiada em nossos
registros.
Quanto ao piedoso projeto que o senhor concebeu de proporcionar instrução a seus
queridos jovens, só podemos felicitá-lo pelas boas disposições que ao senhor estão
manifestando, seus paroquianos, no sentido de ajudarem.
Nosso maior desejo seria de imediatamente ir ao encontro de projeto tão excelente,
mas os estabelecimentos que podemos erigir neste ano já estão todos prometidos; também, no
momento presente ser-me-ia difícil marcar com exatidão a época em que poderia mandar-lhe
Irmãos, visto o número de pedidos anteriores ao seu.
Aproveito a oportunidade para agradecer mais uma vez por todos os bons serviços que
prestou a nossos Irmãos, durante o tempo em que tiveram a dita de estar junto do senhor, em
Charlieu. Conservam desse tempo uma viva gratidão.
Queira aceitar...
356
278 – A Dom BÉNIGNE DU TROUSSET
D'HÉRICOURT, bispo de Autum, Saône-et-Loire.
13 de outubro de 1839.
Dom Bénigne tinha pressa em passar o castelo de Vauban para a Congregação Marista, a
fim de que o Padre Champagnat instalasse nele um noviciado.
O Padre Champagnat informa o Bispo a respeito de certos pontos que julga essenciais e que
vão figurar no contrato a ser assinado com a diocese de Autun. O primeiro e principal ponto do
contrato será a autonomia total do noviciado.
Pede que o bispo manifeste também sua opinião.
Excia. Revma.,
Pela bondade com que V. Excia. trata a Sociedade de Maria, só posso congratular-me
e tornar a apresentar-lhe a expressão de nossa profunda e respeitosa gratidão. Espero que a
santa união que V. Excia. quer oficializar no Coração de nossa Boa Mãe, junto com a
Sociedade de seus Irmãos e filhos, será unicamente para a sua glória e a salvação das almas.
V. Excia. deseja conhecer as bases do acordo que deve cimentar e garantir esta união.
Estou de pleno acordo: é bom nos entendermos de antemão sobre as condições essenciais para
que em nossa entrevista só tenhamos que acertar as questões de detalhes.
De nossa parte, Excia., encarregando-nos da direção do noviciado de Vauban, e
comprometendo-nos a erigir em sua diocese estabelecimentos particulares em proporção com
o número de Irmãos habilitados que pudermos formar no dito noviciado; parece-nos bom, de
acordo com as propostas que V. Excia. teve a bondade de nos apresentar, estabelecer como
primeira condição, que o noviciado esteja pura e simplesmente à disposição da Sociedade e se
torne propriedade inalienável da mesma. Entretanto, no caso em que, devido a acontecimentos
imprevisíveis, a Sociedade viesse a se dissolver, a casa de Vauban voltaria a ficar à disposição
de V. Excia. e uma indenização calculada pelos peritos seria concedida aos titulares de direito,
por melhorias feitas no intervalo do uso.
Espero que V. Excia. tenha a bondade de me dar a conhecer também suas intenções, e
assim que tiver recebido sua carta, irei a Autun para um ajuste definitivo.
Queira...
357
279 – Ao Padre ÉTIENNE ANDRÉ CELLE, Coadjutor
de Saint-Julien- Molhesabate, Haute-Loire.
14 de outubro de 1839.
Falando em nome do seu pároco já muito idoso, Padre Besson, o coadjutor escreveu ao
Padre Champagnat para lhe dizer que tinha em vista uma casa para abrigar os Irmãos; só estava a
exigir ainda alguns retoques. Assegurou também o pagamento aos professores.
Tudo combinado, no final de 1839, dois Irmãos foram destacados para começar a escola.
Não tardaram em conquistar o título "instituteurs" do município, podendo assim ser pagos pelo
prefeito, conforme estatuía a Lei de 1833.
Senhor Padre,
Apresso-me em garantir-lhe o envio de dois Irmãos para a paróquia de Saint Julien
Molhesabate. Só nos resta dar logo conhecimento às autoridades eclesiástica e civil, a fim de
que nada se faça sem ter a aprovação delas de maneira explícita.
Há contudo um pequeno empecilho de que o senhor terá que se encarregar. Nossos
Irmãos que possuem certificado estão todos colocados. Eu só poderei mandar-lhe dos que
estão se preparando para os exames do mês de março próximo. A situação legal dos mesmos
estará atrasada de alguns meses, mas creio que o senhor encontrará um meio de remediar a
esta falha. Quanto ao mais, eles estarão aptos para se apresentarem aos próximos exames.
Queira comunicar-me quanto antes se esta condição lhe serve.
358
280 – Ao senhor JULIEN CAMILLE LEGOUX, prefeito
do Departamento de Puy, Haute-Loire.
Outubro de 1839.
Sempre o mesmo cuidado e deferência do Padre Champagnat: Prevenir as autoridades do
lugar onde irão trabalhar nossos Irmãos.
Senhor Prefeito,
Tinha planejado ir ao Puy para submeter à sua apreciação o pedido que a cidade de
Craponne nos fez para conseguir Irmãos de nossa Sociedade, mas uma indisposição bastante
grave somada às múltiplas preocupações ocasionadas pelo trabalho de colocação dos Irmãos,
me tornaram impossível executar o planejado.
Como eu soube pelo senhor pároco de Craponne que o senhor deverá estar naquela
cidade no dia 22 do corrente, apresso-me em mandar para lá o nosso prezado Irmão Assistente
para obter a aprovação expressa do senhor e entrar em entendimentos com a autoridade
municipal do lugar, a respeito desse estabelecimento. Manifestei ao senhor pároco de
Craponne a nossa decisão de não agirmos, senão de acordo com a autoridade civil e com o
consentimento da mesma, dado com antecedência. É este o nosso costume. Desejamos que o
senhor pároco garanta ao município o edifício da escola e insistimos muito nisto.
Aproveito também da circunstância presente para submeter a seu parecer o pedido que
nos foi feito pelo município de Saint-Julien-Molhesabate. Se o senhor Prefeito houver por
bem dar aprovação, nossos Irmãos se darão por muito felizes de irem trabalhar em prol da
instrução primária no departamento do Haute-Loire, com o honroso apoio do senhor Prefeito
Departamental. Pelo que me toca, aproveitarei de todas as ocasiões para manifestar-lhe o
profundo respeito e a inteira dedicação com que tenho a honra de ser...
359
281 – Ao senhor VICTOR DUGAS, Saint-Chamond,
Loire.
19 de outubro de 1839.
O senhor Victor Dugas era o Presidente do conselho de administração das Casas de
Assistência social de Saint-Chamond. O Irmão Avit, nos seus Anais sobre o Orfanato de Saint-
Chamond faz notar que "os pobrezinhos dos órfãos eram, às vezes, tratados com excessiva
severidade."
Seria por causa disto que o Presidente do Conselho de Administração pediu ao Padre
Champagnat que trocasse o Diretor? Dentro de alguns meses o Fundador mandaria o Diretor para
as Missões.
Foi nas Missões da Nova Caledônia que o Irmão Claude Marie (Jean-Claude Bertrand)
experimentou a dureza do trabalho missionário e a grande cruz da obediência religiosa.
Desembarcado em Kororareka, aos 11 de julho de 1840, foi designado para o posto
missionário de Hokianga.
“Foi lá que tive que amargar a maior decepção de minha vida, escreve ele. Minha ocupação
não era a que eu projetava quando parti para as Missões, mas que a santa vontade de Deus seja
feita! Cozinha e trabalho, aí está o que tocou para mim. Com enorme pesar tive que largar meu
pobre hábito marista! Como me foi dura esta prova!"
Após muitos trabalhos e provações de vária natureza, o santo religioso entregou sua alma a
Deus em Nelson, na Nova Zelândia, aos 5 de novembro de 1893, com 80 anos.
Prezado senhor,
Eu pretendia dar uma chegada até Saint-Chamond para me entender com o senhor a
respeito do pessoal do seu estabelecimento. Não me foi possível, devido à partida de nossos
Irmãos. Resolvi então escrever para lhe dar a conhecer o motivo que me levou a nada mudar
por enquanto.
O Irmão Augustin está com muito receio de ser nomeado Diretor. Ele gosta do Irmão
Claude Marie e se dá bem com ele. Para que uma casa ande bem, é ponto importantíssimo
haver união entre o Irmão Diretor e os seus auxiliares. Penso que se animarmos o bom Irmão
Claude Marie, ele se doará totalmente e sem meias medidas para fazer o que lhe compete. O
Irmão é obediente, é piedoso, mostrar-se-á dócil às observações que eu lhe fizer e saberá tirar
proveito delas.
Quanto ao mais, senhor Dugas, é meu grande desejo entender-me com o senhor para
conseguirmos o bom andamento deste estabelecimento pelo qual me interesso sobremaneira.
Não há nada que eu não esteja disposto a fazer para manifestar-lhe minha gratidão e
meu empenho. Sempre considerarei como obrigação, e também como prazer, tomar todas as
medidas possíveis para fazer prosperar a boa obra cuja direção está confiada a seus generosos
cuidados.
Aproveito o ensejo para reiterar-lhe que a Sociedade dos Irmãos de Maria conservará
para sempre em relação à sua pessoa a mais viva e profunda gratidão pelas benemerências que
o senhor teve para com ela.
360
Na verdade, a simpática cidade de Saint-Chamond tem sido para conosco uma
providência viva e diária; mas, quanto devemos em particular à sua piedosa e benevolente
caridade!
Queira receber uma vez mais meus sinceros agradecimentos e fique certo que não
deixarei passar nenhuma ocasião para lhe provar que eu tenho que ser, senhor Dugas, com o
maior respeito e atenção, seu humilde e atento servidor,
Champagnat
Notre Dame de l’Hermitage, sur Saint-Chamond, 19 de outubro de 1839.
361
282 – Ao Padre FRANÇOIS MAZELIER, Superior dos
Irmãos da Instrução Cristã.
20 de outubro de 1839.
Das cartas que o Padre Champagnat escreveu ao Padre Mazelier esta é a última. Não foi
posta no correio. Deve ter sido entregue pessoalmente pelo Irmão Gérasime, que no dia 21 recebeu
15 francos para ir a Saint-Paul-Trois-Châteaux.
Padre Superior,
Envio-lhe o prezado Irmão Gérasime para preveni-lo a respeito do número dos que
planejamos mandar-lhe no começo do mês de novembro. A Sociedade de Maria lhe continua
infinitamente agradecida pela obsequiosidade de que nos dá prova. Sinto mais do que nunca
toda a importância dos bons serviços que o senhor presta a nossos Irmãos e a mim; por isso,
garanto-lhe estar perfeitamente disposto a ater-me exatamente às condições que o senhor teve
a gentileza de acertar conosco.
Se eu tivesse sabido que o caro Irmão Apollinaire não se explicara direito com o
senhor, eu teria considerado como obrigação minha não dispor dele senão depois de saber que
decisão o senhor tomaria. Aliás, sua doença foi uma constante; sempre ficou em l'Hermitage,
excetuando alguns dias em que o mandamos sair para apressar e garantir seu restabelecimento.
Senhor Padre Superior, rogo-lhe que tenha a bondade, cada vez que se apresente a
ocasião, de me fazer sem constrangimento as observações que julgar necessárias. Havemos de
recebê-las com gratidão e observá-las com exatidão.
O senhor só quer é a maior glória de Deus e a salvação das almas; a sua benevolência
para conosco é tão generosa quanto desinteressada. É muito justo que tomemos para com o
senhor as medidas convenientes para assegurar e facilitar a continuidade.
Recebemos a lã que o senhor teve a delicadeza de nos mandar. Queira aceitar de bom
grado para si e para o Irmão Jean-Baptiste os agradecimentos de nosso Irmão ecônomo e os
meus.
Deixamos a seu dispor o caro Irmão Gérasime. Prestar-se-á de boa vontade a tudo o
que o senhor quiser dele. O caro Irmão Apollinaire agradece muito a carta que o senhor teve a
bondade de lhe mandar. Espero que lhe seja útil e que o bom Irmão não seja incomodado.
Queira aceitar, senhor Padre Superior, os protestos de respeitoso afeto com que sou
seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
362
283 – Ao Padre JEAN FRANÇOIS RÉGIS PEALA,
Pároco de Tence, Haute-Loire.
21 de outubro de 1839.
Já vai para três anos que o bom do pároco Peala, mais ou menos na mesma época, reclama
que lhe mandem Irmãos. (Cf. Cartas no 136 e 212). Tanto pediu que, depois de Craponne, foi a vez de
Tence. Champagnat promete primeiro ir visitar o local. Mais adiante (cf. Cartas no 335 e 338), vão
continuar as negociações.
Senhor Pároco,
Sua carta chegou bem na hora para suscitar a lembrança de seu estabelecimento, com
o qual já não mais contávamos.
Com mais esta sua tentativa, acrescida às precedentes, decidimo-nos a lhe prometer
mandar finalmente Irmãos na Festa de Todos os Santos do ano próximo. Aproveitaremos dos
primeiro momentos livres para irmos visitar o seu estabelecimento.
Aguardando esta oportunidade, sou com muito respeito e atenção...
363
284 – Ao Padre JULIEN DESCHAL, Pároco de
Virelade, Gironde.
21 de outubro de 1839.
Depois que o Padre Champagnat se mostrou interessado em mandar Irmãos para Bordéus, o
Padre Deschal torna a insistir. Infelizmente como não houve mudança de situação também não
poderia haver mudança de resposta. Nem Virelade nem Verdelais (cf. Carta no 249) foram
beneficiadas com escola marista.
Senhor Pároco,
Apesar de toda a nossa boa vontade, vemo-nos obrigados a ficar nos termos da última
carta que lhe enviamos. Está sendo impossível para nós, no momento, determinar a época em
que poderemos dar-lhe Irmãos. O grande número de pedidos anteriores ao seu que nos cumpre
atender ocupará por vários anos o número de candidatos que recebemos. Esperemos, contudo,
que a Providência há de multiplicar os operários na medida do necessário. Para nós, não deixa
de ser causa de pesar esta impossibilidade de nos prontificar a colaborar com o seu zelo pela
instrução de seus queridos meninos.
Queira aceitar...
364
285 – Ao Padre TOUZET, Aigueperse, Puy- de- Dôme.
22 de outubro de 1839.
O pedido de fundação do Padre de Aigueperse foi registrado no livro dos estabelecimentos
em perspectiva. Infelizmente, apesar da promessa de visita e outras providências, a fundação não se
realizou.
Senhor Padre,
As dificuldades das colocações e a partida dos nosso Irmãos me impediram de
responder mais cedo à sua prazerosa carta de 6 de outubro. Espero que o senhor tenha a
gentileza de me desculpar pelo atraso, tendo em conta a multiplicidade de minhas ocupações.
Suas propostas e o pedido foram tomados em consideração. Será para nós um prazer
fazer-lhe uma visita nos primeiros dias de novembro. Talvez possa Deus proporcionar a uns e
outros o meio de trabalharmos juntos na boa obra que o senhor está levando adiante com tanto
zelo.
Receba a confirmação...
365
286 – Ao Padre ViCTOR PROSPER DUROUX, Pároco
de Lamastre, Ardèche.
22 de outubro de 1839.
Na presente carta, o Padre Champagnat se detém um pouco mais nas razões pelas quais não
pode atender de imediato ao pedido do Padre Victor Prosper. São duas:
1. faltam Irmãos formados disponíveis para assumir o posto;
2. não houve entendimento prévio com as autoridades.
Se estamos lembrados das suspeitas levantadas por Vernet (cf. Cartas no 148, 149 e 150),
esta segunda advertência tem aqui seu peso duplo.
Seja como for os Irmãos Maristas não se estabelecerão em Lamastre, os de Viviers
tampouco.
Senhor Pároco,
O pedido que o senhor me está fazendo me parece muito interessante e vantajoso, mas
não podemos aceitá-lo, por duas razões:
A primeira é que os Irmãos disponíveis já estão todos colocados, e ainda temos muitas
promessas a cumprir.
A segunda é que o nosso costume é de só fundar estabelecimentos com a autorização
prévia e formal da autoridade superior, seja eclesiástica, seja civil. Então, é preciso antes de
mais nada, que seu pedido venha sancionado por essas autoridades.
Aliás, espero que os bons Irmãos de Viviers possam finalmente atender a seus desejos.
Entretanto, fico-lhe grato pela confiança que o senhor manifesta para conosco. Rogo-lhe, pois,
aceitar nossos mais do que justos agradecimentos, como também a homenagem do profundo
respeito com que tenho a honra de ser...
366
287 – Ao Padre JOSEPH BENETON, Pároco de
Perreux, Loire.
5 de outubro de 1839.
Champagnat anuncia que manda mais um Irmão para a classe dos adultos. Poucos dias
depois da morte do pároco, o Padre Beneton assumiu a paróquia e se empenhou em continuar e
favorecer a escola de Perreux.
Como o novo pároco não estivesse bem familiarizado com nossos usos e costumes, o Padre
Champagnat bondosamente se detém a dar explicações.
Senhor Pároco,
Para que o pedido que o senhor me mandou, em 18 de setembro, se coadume com
nossos regulamentos e costumes, mando-lhe mais um Irmão, será o quarto Irmão da
comunidade, para a turma de adultos.
Não creio que um Irmão que tenha passado o dia inteiro a dar as aulas de costume
possa recomeçar a dar outras, à noite. O interesse que tenho pela saúde de todos, a proibição
que já em outras circunstâncias me veio por parte do senhor Administrador da Diocese, a
respeito desse tipo de sobrecarga, não me permitem impor este fardo a um Irmão.
Espero que o município entre em acordo com os jovens que vão freqüentar as aulas da
noite e que eles usem de generosidade suficiente para que este quarto Irmão não fique sendo
pago às nossas custas.
No que diz respeito às reclamações de nossos Irmãos, devo ainda observar, senhor
Pároco, que a modicidade do que estamos recebendo não nos permite receber alunos gratuitos
vindos de municípios vizinhos. Em todas as nossas escolas, as contribuições mensais pagas
por tais alunos entram como um reforço, suplementando os parcos recursos dos Irmãos.
Fiquei lisonjeado com os testemunhos que o senhor me deu dos Irmãos. Espero que
continuem a dar-lhe plena satisfação, bem como a seus generosos paroquianos. De minha
parte, desejo ardentemente a prosperidade de seu estabelecimento e nenhum esforço deixarei
de envidar para garantir que continue progredindo.
367
288 – Ao Padre JEAN-ANTOINE GILLIBERT, Pároco
de Saint-Genest-Malifaux, Loire.
31 de outubro de 1839.
O problema da escola de Saint-Genest-Malifaux é o seguinte: Se não houver nenhum Irmão
com Diploma, a escola deixa de receber o pagamento dos professores por parte do prefeito.
Senhor Pároco,
Receio que o Irmão Pierre-Marie não lhe tenha suficientemente explicado os meios
que julgamos adequados para tirar o senhor de apuros por causa da falta de Diploma (brevet).
Por isso, vou de novo, colocá-lo a par de nossas idéias, por escrito.
Faz-se necessário sugerir ao senhor Prefeito e aos Conselheiros Municipais que
dirijam uma petição ao senhor Prefeito do Departamento para expor-lhe os seguintes pontos:
1. a morte acaba de arrebatar ao município de Saint-Genest-Malifaux o professor que
possuía o Diploma e a autorização legal;
2. o substituto primeiro do professor falecido mereceu sob todos os aspectos o
beneplácito da autoridade, a confiança dos pais dos alunos e a afeição dos discípulos; por isso,
seria de desejar com muito empenho que o senhor Prefeito se dignasse autorizá-lo a ensinar
até o mês de março, época em que se apresentaria a exames. Tendo em conta sua reconhecida
capacidade, pode-se esperar que consiga o Diploma.
Penso que o senhor Prefeito Departamental não se negará a atender o pedido, tanto
mais que ele mesmo fala de tais autorizações em sua Circular. O Irmão Pierre-Marie ficando
assim de posse da autorização para lecionar, o coletor não fará dificuldade para atender a
ordem de pagamento.
Quanto ao mais, senhor pároco, estamos firmemente resolvidos a não deixar que seu
estabelecimento desapareça. Se o Irmão Pierre-Marie não for aprovado nos exames,
trataremos de encontrar um Irmão que tenha o Diploma. Enquanto isso, ponhamos em
execução o expediente que lhe estou sugerindo.
368
289 – Ao Padre AUGUSTIN REVOL, Pároco de
Bouge-Chambalud, Isère.
outubro de 1839.
A benfeitora Esther de Revol faleceu poucos dias após a assinatura do testamento que fizera
em favor da escola. (cf. Carta no 269). Nenhum dispositivo tinha ela deixado para o pagamento de
800 francos à escola. O Padre Augustin foi pedir esta quantia à velha condessa, que se negou
secamente. Mas, foi generosa assim mesmo, cumprindo um pedido da filha antes de morrer, a saber:
Entrar com 1.000 francos para a mobília dos Irmãos. O Conselho Municipal também cooperou e
votou "la prime", isto é: a garantia do cumprimento de suas disposições testamentárias, que seria
justamente os 800 francos.
Senhor Pároco,
É pena que a benfeitora do seu estabelecimento não tenha tido a felicidade de ver
realizado o piedoso projeto de uma escola religiosa na sua paróquia, mas Deus, que pediu a
esta pessoa generosa o novo sacrifício, saberá recompensá-la.
Dentro de alguns dias, mandaremos um Irmão para visitar o seu estabelecimento. Ao
mesmo tempo, ele comprará o que for mais necessário para a instalação dos Irmãos
Para falar com total sinceridade, desejaríamos fazer o abatimento que o senhor está
solicitando, pois não nos movem especulações de interesse pecuniário. Mas, senhor Pároco,
nossas atuais carências, a carestia dos víveres, a necessidade de manter um ritmo uniforme e
constante na fundação de nossos estabelecimentos e muitas outras razões de ordem superior
nos colocam na impossibilidade de conceder qualquer abatimento.
Queira, por favor, dar a entender a seus queridos e bons paroquianos esses nossos
motivos; generosos como são, não deixarão de encontrar meios de obviar a esta pequena
exigência.
Receba a homenagem de sincero...
369
290 – Ao Padre JEAN-BAPTISTE SALLANON, Pároco
de Craponne, Haute-Loire.
outubro de 1839.
O Padre Champagnat teve a satisfação de anunciar a chegada dos Irmãos em Craponne. Vai
na frente o Irmão Diretor para tratar com o pároco a respeito da mobília. Tudo deve estar em ordem
para começar no dia primeiro de novembro, início do novo ano letivo 1839-1840.
O Conselho Municipal declarou a escola "communale", municipa; portanto, os Irmãos serão
pagos pelo município. Serão domiciliados pelo pároco. Para terem melhores condições de vida,
poderão receber meninos dos municípios vizinhos, os quais deverão pagar uma contribuição aos
Irmãos.
Senhor Pároco,
O Irmão Diretor de seu estabelecimento parte hoje para Craponne, a fim de entender-
se com o senhor a respeito da confecção do mobiliário. Vai mandar-nos a lista de todos os
objetos que o senhor pretende mandar comprar em Saint-Etienne, sejam livros, sejam
utensílios para a cozinha. Nós nos encarregamos de fazer a compra desse material e os Irmãos
designados para essa escola levarão tudo.
Tenha a bondade de apresentar ao Conselho Municipal de sua cidade, o documento
que lhe mandamos, a fim de que possamos ter por escrito a aprovação do mesmo. O Irmão
Diretor lhe entregará também os documentos necessários para conseguir o reconhecimento por
parte do Ministério.
Logo que tivermos em mãos a aprovação do seu Conselho Municipal, os demais
Irmãos irão a Craponne para procederem à abertura das aulas. Se a reunião do Conselho
Municipal não pudesse se realizar logo, e que, por causa disso fosse preciso atrasar o começo
das aulas, deixamos a seu critério de se entender com esses senhores, a fim de que sua
aprovação nos seja remetida por escrito em tempo hábil.
Receba...
370
291 – Ao senhor JOSEPH ANTOINE BETHENOD,
prefeito de Saint-Martin-la-Plaine, Loire.
outubro de 1839.
Nesta localidade, os compromissos das autoridades não tinham sido honrados. (Cf. Carta no
246)
O Padre Champagnat não deixa passar nada. Torna a reclamar, colocando o prefeito contra
a parede.
Mas, é que também não tinham os Irmãos o título de "instituteur", que, como veremos logo a
seguir, lhes será brevemente outorgado. (Cf. Carta no 303)
Senhor Prefeito,
Sabendo das suas boas disposições para com o estabelecimento de nossos Irmãos em
Saint-Martin, tomo a liberdade de perguntar-lhe em que condições pensa mantê-los para o ano
próximo, a fim de que lhes seja garantida pelo menos a subsistência. O senhor sabe que os
gastos para a fundação referentes a um Irmão não foram pagos; tampouco foi quitado
totalmente o salário anual. Se estas falhas continuarem daqui por diante, julgue o senhor
mesmo se podemos ter alguma saída. Todos nós estamos dispostos a fazer tudo o que de nós
depender para sermos úteis a seu município, mas antes de mais nada, para fazer o bem é
preciso viver, e isto se tornará impossível se o pagamento dos Irmãos, que já é tão diminuto
ficar ainda incompleto.
Espero, portanto, senhor Prefeito, que sua sagacidade e sua benevolência encontrará,
para esses Irmãos, alguma maneira de lhes regularizar a existência em Saint Martin.
Queira transmitir ao portador desta carta quais as garantias que o senhor nos poderá
dar.
Receba...
371
292 – Ao Padre CLAUDE DUMAS, Pároco de Usson-
en-Forez, Loire.
31 de outubro de 1839.
Estava para ser satisfeito o pedido de 1837, do pároco Dumas. (Cf. Carta no 121). Logo após
o retiro de 1839 e a eleição do Irmão François e de seus dois Assistentes, os Irmãos Hilarion e
Maurice foram mandados a Usson e a Craponne para se certificarem se tudo estava pronto para as
aulas do novo ano letivo. Chegaram lá, depois deles, três outros Irmãos, mais cedo do que esperava o
Padre Dumas. Eles devem ter levado em mãos esta carta. Nela Champagnat pede ao pároco que
complete com os 700 francos que faltam (dos 1.200), a jóia de fundação que deve ser paga antes de
dar início a uma nova escola. Tudo vem assentado no livro de contas: Os primeiros 500 fr. foram
pagos em 24 de outubro; os 700 restantes, no dia 25.
Senhor Pároco,
Nossos queridos Irmãos partem hoje para Usson. Sei que o senhor terá para com eles
todas as atenções de um pai amoroso, de um pastor caridoso e cheio de ardor, eis porque eu os
confio ao senhor com muito prazer. Desejo ardentemente que correspondam a seus anseios e
aos dos benfeitores do seu estabelecimento, procurando formar o coração de sua interessante
juventude, mais ainda na virtude do que na ciência.
Espero que o senhor tenha a amabilidade de nos remeter quanto antes os 700 francos,
jóia de fundação, que estão para ser pagos. Além das nossas necessidades que são das mais
prementes, queremos também manter regularmente o costume de fazer pagar estes gastos
antes da abertura das aulas. Fazemos assim em qualquer lugar onde atuamos. Se for mais
cômodo para o senhor, pode depositar a quantia em Saint-Etienne ou em Valbenoite.
Digne-se aceitar...
372
293 – Ao senhor BLAISE AURRAN, em Cuers, Var.
4 de novembro de 1839.
Para se estabelecerem no Departamento do Var, os Irmãos deveriam possuir a autorização
legal. Não a tinham conseguido ainda. Ou, então poderiam abrir uma escola que recebesse internos;
os noviços seriam como alunos internos, no projetado noviciado de Lorgues.
Nesta carta, o Padre Champagnat escreve ao senhor Blaise para perguntar se ainda pensava
em abrir uma escola de Irmãos em Lorgues.
Faz saber a seu amigo que ficará contente em congratular-se com ele, se conseguir mais
facilmente o concurso de outros obreiros do bem que não os Maristas.
Prezado senhor,
Admiramos o seu zelo pela glória de Deus e a salvação das almas que faz com que o
senhor prossiga com toda a energia a execução do projeto que me comunicou faz tempo.
Muito me alegro por causa do bem que resultará em favor de seus caros provençais. Mas,
como ignorávamos completamente se o senhor estava continuando a se ocupar daquela obra,
não tomamos nenhuma providência junto ao governo no sentido de solicitar a autorização para
a fundação de um noviciado em Lorgues. Por outro lado, estamos também esperando a ajuda
de Maria e a proteção das pessoas de bem que militam a favor da autorização de nossa
Sociedade. Verdade é que nos propomos recomeçar as tentativas logo que tivermos uma
ocasião favorável. Verdade também que temos razões para contar com o bom resultado das
mesmas, mas nada de certo podemos lhe prometer. O senhor está sabendo, sem dúvida, que o
pedido, assim como a obtenção da autorização da Sociedade em geral, devem anteceder a
ereção de um noviciado particular.
Há um outro meio que nos propomos empregar para uma casa da natureza da sua: o de
pedir a autorização de um internato primário, em nome de um Irmão munido do Diploma e
que ministraria as aulas. Nessas condições os noviços, considerados internos, não serão
molestados. Com relação a usar ou não tal expediente, o senhor queira considerar-se
completamente livre. Não queremos ser empecilho à boa obra que o senhor está
encaminhando. Se a Providência não nos permitir dar-lhe garantias suficientes, vê-la-emos
com prazer em outras mãos que não as nossas, para a glória de Deus e a salvação das almas.
Se, pelo contrário, sob a única proteção daquela que olhou por nós até hoje, o senhor persistir
em querer nossos Irmãos no seu estabelecimento, faremos tudo quanto estiver ao nosso
alcance, para corresponder a seus projetos e cooperar com o senhor e a autoridade eclesiástica
da diocese, para o bem de sua querida juventude. A mais do Capelão que a Sociedade põe à
disposição dos noviços, talvez eu possa mais tarde conseguir alguns missionários que
conjuntamente com o Capelão trabalhariam, com a aprovação dos pastores, para a salvação
das almas.
Queira ...
373
294 – Ao Padre ETIENNE COIGNET, Pároco de
Sorbiers, Loire.
14 de novembro de 1839.
Os Irmãos foram retirados de Sorbiers por falta de condições de se manterem, como foi
noticiado na Carta de no 76. Deixaram a escola nas férias de 1837.
Agora, como o município não tem professor, o Conselho Municipal decidiu chamar de volta
os Irmãos. Foi o pároco que comunicou a decisão ao Padre Champagnat. Este logo responde, mas os
Irmãos não voltaram logo; só em 1844.
Senhor Pároco,
Apresso-me em responder ao pedido que o senhor me fez para a paróquia de Sorbiers.
Como tenho muito interesse em mostrar-me serviçal para com o senhor, mesmo que tenha
feito já todas as colocações, tratarei de encontrar dois Irmãos para satisfazer seu pedido. As
condições de manutenção dos Irmãos não serão diferentes para o município de Sorbiers. O
senhor pode confrontá-las através do prospecto que anexo à presente. Só exigimos o que nos
deve ser dado em qualquer outro lugar, a saber:
1o) um mobiliário de 500 francos para cada Irmão, 1.000 francos para dois;
2o) um pagamento anual de 1.000 francos, aprovado e garantido pelo Conselho
Municipal;
3o) o município deverá encarregar-se de cobrar as mensalidades.
Senhor Pároco, tenha a bondade de dar a conhecer estas disposições a estes senhores e
nos comunicar o resultado das deliberações que tomarem. Assim que tivermos tomado as
medidas suficientes para garantir a continuação do estabelecimento, que vemos com muito
bons olhos, trataremos de apressar a ida dos Irmãos.
O senhor percebe que não podemos recomeçar em Sorbiers senão munidos das plenas
garantias sólidas, que nos ponham a salvo de uma nova interrupção da obra, acontecimento
sempre muito desagradável, tanto para o município como para nossa casa.A pedido dos bons
Irmãos Cassien e Arsène, não exigiremos nem os encargos da fundação nem os atrasados dos
anos passados. Será grande prazer para nós fazer esta concessão ao município de Sorbiers, em
consideração a estes bons educadores, benefício este que em parte alguma outorgamos.
Queira aceitar...
374
295 – Ao Padre CLAUDE-MARIE THORIN, antigo
Pároco de Lancié, Rhône.
19 de novembro de 1839.
A Carta no 265 nos informou que o Padre Thorin queria Irmãos para Lancié. O Padre
Champagnat lhe respondeu dando as condições exigidas pelo prospecto. O Pároco volta no ano
seguinte, insistindo, mas a resposta o faz desanimar de conseguir a escola, o prazo de três anos lhe
parece muito dilatado. Não sabemos se foi bater em outras portas. Os Irmãos Maristas não irão mais
para Lancié.
Senhor Pároco,
Vemo-nos obrigados a manter inalterados os termos da nossa primeira carta, datada de
16 de agosto de 1839:
1o) não é possível lhe darmos Irmãos, antes do prazo de três anos;
2o) nossos Irmãos não se apresentam no estabelecimento antes que tudo esteja pronto;
3o) se o senhor persistir no propósito de conseguir Irmãos apesar do prazo que nos
vemos obrigados a lhe marcar, quando tiver disposto tudo o que for necessário,
consideraremos dever nosso enviar um Irmão para visitar o estabelecimento.
Lastimamos deveras não poder contar com o número de candidatos em proporção com
nossas necessidades; seria realmente um prazer para nós poder acudir de imediato a seus
piedosos desígnios.
Sou ...
375
296 – Ao Padre PAULIN LOISSON DE GUINAUMONT,
Vigário Geral do Bispado de Châlons-sur-Marne.
19 de novembro 1839.
O bispo de Châlons-sur-Marne queria um noviciado de Irmãos Maristas na diocese. É o que
vimos na carta no 274. Nesta segunda resposta ao mesmo Vigário Geral, o Padre Champagnat dá as
condições para implantar um noviciado, lá no norte da França.
Exmo. Vigário Geral,
Tomamos em especial consideração o pedido que V. Revma. tem a gentileza de nos
fazer em favor de uma paróquia da diocese de Châlons. Estamos inteiramente dispostos a
cooperar com o zelo de V. Revma. para a tão importante obra da instrução religiosa de seus
caros meninos. Antes, porém, de iniciarmos o estabelecimento que está solicitando, cumpre
entrarmos em entendimento sobre tudo o que puder garantir a estabilidade da obra.
1o) A situação da paróquia para a qual o senhor está solicitando Irmãos: quais os seus
recursos? Poderá cumprir as exigências do nosso estatuto que segue em anexo?
2o) O noviciado que o senhor pede poderá estar sob a orientação de um Padre da nossa
Sociedade? É uma das primeiras condições.
3o) Poderá ficar inteiramente dependente da casa mãe da Sociedade? É um requisito
essencial, apesar de nos impormos como obrigação mandar para a diocese que nos oferece tais
estabelecimentos um número de Irmãos proporcional ao de candidatos provenientes da dita
diocese.
4o) Conforma-se com esperar por dois anos? Prevemos que não será possível mandar-
lhe Irmãos antes de 1841.
Queira examinar, Revmo. Senhor Vigário Geral, estas diversas questões e nos dar a
conhecer o seu parecer a respeito.
Sou ...
Champagnat
376
297 – Ao Padre ANDRÉ BERTHIER, Vigário Geral de
Grenoble, Isère.
19 de novembro de 1839.
As divergências com o Padre Douillet pareciam estar sendo contornadas. Agora, surge novo
impasse. O Superior do Seminário Menor queria que os Irmãos pagassem 50 francos por ano pelos
lugares que os alunos de La Côte ocupavam na Capela do Seminário, no Ofício de Vésperas e em
outros Ofícios solenes. (Cf. Abrégé des Annales, do Imão Avit, p. 295).
Ora, uma das condições exaradas nos prospectos dos Irmãos é que os alunos ocupem
gratuitamente lugares na igreja. Isto estava estipulado desde o começo da escola, porque em muitas
igrejas e nas catedrais da França, terminada a cerimônia, avança pelo corredor central um
funcionário vestido pomposamente a caráter, brandindo golpes de cajado no soalho, sentenciando
com toda seriedade: "Payez vos chaises", paguem os assentos.
Na carta, o Padre Champagnat se dirige ao Vigário Geral, para que este com sua autoridade
faça com que seja retirada a exigência do superior do seminário.
Senhor Vigário Geral,
Desde que o senhor Bispo teve a bondade de aceitar nossos Irmãos para ministrarem o
ensino aos meninos de La Côte-Saint-André, tiveram eles a liberdade de assistir gratuitamente
junto com seus alunos internos, na Capela do Seminário Menor, às Vésperas e aos demais
Ofícios solenes.
Estão completamente isolados dos seminaristas por um tabique bem alto e só ocupam
a parte superior do espaço reservado aos fiéis da cidade.
O Superior do Seminário está agora pensando em pedir uma quantia anual de 50
francos pela ocupação destes lugares. Ora, como uma das condições estipuladas em nosso
prospecto é que os Irmãos e seus alunos tenham lugares gratuitos na igreja, ousamos suplicar a
V. Revma. o favor de nos conseguir do senhor Bispo, para La Côte-Saint-André, a mesma
coisa que temos em todas as localidades onde nossos Irmãos são chamados a trabalhar.
O pagamento deles é incompleto para escolas gratuitas e a pensão dos alunos internos
é mais do que módica, por isso temos a esperança de que, para os interesses da obra e o bem
da diocese, o senhor Bispo fará a gentileza de nos manter esse benefício.
Com a permissão do senhor Bispo, talvez seja possível com o correr do tempo, e para
obviar a todos os inconvenientes, tentar achar na casa dos Irmãos um lugar adequado para
celebrar os Ofícios solenes e cantar as Vésperas. O senhor sabe, Revmo. Vigário Geral, que a
distância até a igreja matriz, a exiguidade de espaço que lhes é reservado impossibilitam aos
internos dos Irmãos irem lá assistir aos Ofícios. Outro inconveniente: a disciplina estaria
muito comprometida. Quanto ao seminário, parece que não existe outro problema senão o
pagamento dos 50 francos anuais, pois que o superior não apresenta outra dificuldade.
Senhor Vigário Geral, espero, da benevolência paternal que V. Revma. sempre
manifestou aos Irmãos de Maria, o favor de conversar com o senhor Bispo, para depois dizer-
nos quais são as intenções dele.
Queira ...
Champagnat
377
298 – Ao Padre JEAN-FRANÇOIS MADINIER, Pároco
de Saint-Didier-sur-Chalaronne, Ain.
20 de novembro de 1839.
É pena que não possamos consultar a carta do Padre Madinier e os Anais de Saint-Didier
nada digam. Temos que nos contentar em deduzir, pelos dizeres desta carta, toda a complexidade
para a qual o Padre Champagnat traça umas diretivas. Temos que admitir que muitos alunos faltam
às aulas ou para ajudar os pais nos trabalhos do campo ou sem motivo. Importante é controlar essas
faltas. (O penúltimo parágrafo está riscado no texto).
Senhor Pároco,
Sua carta nos causou muita surpresa. Estamos de acordo com o senhor: se os alunos
seguissem assiduamente as aulas dos Irmãos, seus progressos seriam mais visíveis, a
disciplina das aulas muito mais estável. Mas, nós também pensamos que, falando de maneira
geral, esta assiduidade perfeita e seguida não pode ser conseguida nas escolas rurais. Portanto,
compartilhamos perfeitamente a maneira de ver que o senhor nos manifesta em sua carta,
relativamente aos alunos que são obrigados a se ausentar em certos dias ou a faltarem a
algumas aulas. Só recomendamos aos nossos Irmãos de estarem bem de acordo quanto às
ausências, de combinarem bem direito a respeito dos dias em que os meninos são obrigados a
se ausentar, ou da aula a que deverão faltar. Que os Irmãos estejam, na medida do possível,
avisados com antecedência, quando razões extraordinárias exigirem ausências acidentais.
O senhor compreende que sem essas precauções, os meninos poderiam abusar da
confiança dos pais e dos Irmãos e ficar andando pelas ruas. Aí poderia acontecer que os pais
pensassem estar eles na escola, e os Irmãos, estarem os meninos na casa dos pais.
(Sinto muito que as suas observações tenham sido mal compreendidas pelos
Irmãos e as tenham levado além da medida. Rogo-lhe comunicar-lhes meus
desejos, que julgo conformes aos seus. Estou certo que eles os acatarão
fielmente.)
Quanto ao mais, senhor Pároco, deixo a seu critério e à sua prudência. Aconselho aos
Irmãos que se entendam com o senhor em tudo o que diz respeito ao interesse e ao bom
andamento de nosso estabelecimento.
Queira ...
Champagnat
378
299 – Ao senhor BLAISE AURRAN, em Cuers, Var.
30 de novembro de 1839.
Vimos na carta de n.º 293, que o senhor Blaise persiste em conseguir Irmãos para Lorgues.
O Padre Champagnat promete para 1840; mas houve empecilhos a vencer e que fizeram recuar a
data da fundação para 1846 ou pouco mais tarde. Dizemos "um pouco mais tarde", porque uma carta
do Irmão François em 1846 ao Pároco de Beausset não faz nenhuma referência a Lorgues. Aurran
também, segundo diz o Irmão Avit (cf. Abrégé des Annales, p. 295) deixou de se manifestar. (Cf.
Carta no 293) Passou a entender-se com os Irmãos de São Gabriel (Cf. Circ. II, p. 481-482).
Prezado Senhor,
Bendizemos a Providência pela perseverança que dá ao senhor nos seus piedosos
intentos. Já que persiste em entregar sua obra aos Irmãos de Maria, será um prazer para nós
colaborarmos com o senhor na instrução religiosa dos seus caros provençais. Apesar do
grande número de pedidos que temos de atender, não desistiremos da promessa que lhe foi
feita. Teremos em mente preparar-lhe Irmãos para 1840, quer para as aulas, quer para o
noviciado.
Esperamos que o senhor continuará a preparar as condições necessárias; que, por seus
esforços com o apoio da proteção de nossa boa e terna Mãe, seu piedoso empreendimento dará
certo para a glória de Deus e a salvação das almas.
Eu sou ...
Champagnat
P.S. Tenho certeza que a cidade de Lorgues satisfará a todas as condições de nosso prospecto
no referente a custos de fundação, de viagem etc.
379
300 – Ao Padre JOSEPH BENJAMIN CHABERT,
Coadjutor de Les Vans, Ardèche.
20 de novembro de 1839.
O modo de se expressar mostra que esta carta não é da autoria do Padre Champagnat,
embora tenha sido ele o inspirador.
O prazo de espera é bastante longo, mas as autoridades da paróquia não desanimaram.
Voltarão a pedir. Em 1845, o pároco Saléon Terras foi até la Bégude e conseguiu do Irmão Jean-
Baptiste três Irmãos para a metade do ano letivo. Abriram a escola no dia 15 de junho.
Senhor Padre,
É com prazer que tomamos nota do seu pedido, para a cidade de Les Vans, de acordo
com os seus anseios, mas não é possível atendê-lo no ano que vem. Se o senhor puder fazer
aprovar seu projeto pela autoridade superior, tanto a eclesiástica como a civil e conseguir a
subvenção da municipalidade da cidade; se, de acordo com este ajuste, a remuneração para
três Irmãos estiver assegurada, podendo também ser cumpridas as exigências de nosso
prospecto, do nosso lado providenciaremos para fornecer-lhe Irmãos dentro de dois ou três
anos.
O avultado número de pedidos a atender não nos permite determinar com precisão um
prazo mais curto.
Tenho a honra...
Champagnat
380
301 – Ao Padre JOSEPH MARTIN, Pároco de Albigny,
Rhône.
21 de novembro de 1839.
Talvez tenha chegado a hora de concretizar o que já em 1836 o Padre Champagnat havia
anotado para ser um artigo da futura Regra: “Embora os Irmãos não trabalhem menos de dois,
pode-se estabelecer uma casa central de onde os Irmãos sairão um a um para os municípios vizinhos.
Voltarão todos os dias, se possível, ou pelo menos cada oito dias. O Irmão Diretor do
estabelecimento os visitará todos os meses ou mais frequentemente se puder”. (AFM 132.4, p.29).
Senhor Pároco,
De volta de Neuville, passei por Lião, onde tive a oportunidade de falar com o Padre
Cattet, Vigário Geral, a respeito de seu estabelecimento de Albigny. Ele está de acordo com
meu parecer, a saber: que a melhor situação para a escola é colocá-la em Villevert, ao alcance
dos dois municípios, o de Albigny e o de Curis.
Seguindo o conselho do Padre Cattet, eu o convido a procurar unir os recursos dos
dois municípios para que a escola possa ter dois Irmãos que, residindo em Neuville, irão cada
dia, de manhã e de tarde, dar aula em Villevert. Desta maneira, haverá um número suficiente
de alunos para ocupar os dois Irmãos e o estabelecimento poderá sustentar-se e progredir. Vou
escrever duas palavrinhas ao pároco de Curis, a conselho do senhor Vigário Geral, que deseja
muito, desse modo, conseguir para as duas paróquias o benefício da instrução cristã e
religiosa.
Queira aceitar...
Champagnat
381
302 – Ao Padre PIERRE LOIRE, Pároco de Curis,
Rhône.
21 de novembro de 1839.
É a carta anunciada na precedente.
Senhor Pároco,
Na minha última viagem a Lião, tive ocasião de entrevistar-me com o Padre Cattet,
Vigário Geral. Falei com ele a respeito do estabelecimento que o município de Albigny nos
pede desde há muito tempo.
Sugeriu-me de lhe escrever para convidá-lo a juntar seus recursos aos de Albigny, a
fim de poder pagar os honorários de dois Irmãos, que, residindo em Neuville, iriam cada dia a
Villevert para dar as aulas aos alunos dos dois municípios.
O Padre Cattet acha que esta colocação convém perfeitamente às duas cidades; a mim
também me parece que nada há de melhor para garantir o bom andamento deste
estabelecimento.
Veja lá o senhor se acha isto viável, e como entrará em entendimento com o Pároco de
Albigny. Quanto a mim, é com prazer que verei as suas duas paróquias usufruírem do
benefício de uma escola religiosa e cristã.
Eu sou ...
Champagnat
382
303 – Ao senhor JOSEPH-ANTOINE BETHENOD,
prefeito de Saint-Martin-la-Plaine, Loire.
28 de novembro de 1839.
A palavra “continuação”, no início da carta, a vincula à de no 291, escrita algumas semanas
antes. Neste ínterim os Irmãos devem ter sido aprovados como “professores municipais” e, nesse
caso, a Lei de 1833 facultava que o Conselho Geral do Departamento pudesse dispor de verbas para
pagar dívidas do município relativas à educação e suplementar o salário dos professores.
Champagnat não deixa de lembrar isso.
Senhor Prefeito,
(Continuação)
Espero que a autorização dos Irmãos em Saint-Martin lhe facultará pagar-nos os
atrasados dos anos precedentes. Ficar-lhe-ei imensamente grato por tudo quanto sua bondade
puder fazer com relação a isto, tanto mais que a casa mãe foi obrigada a fazer, a favor deles,
adiantamentos que a sobrecarregaram muito.
Todos os nossos recursos estão nas pequenas economias que nossos Irmãos
conseguem amealhar sobre o módico pagamento que recebem e nos auxílios que nos são
oferecidos por pessoas generosas.
Estribado nesta dupla contingência, ouso pedir-lhe, senhor Prefeito, o favor de nos
fazer chegar estas quantias, de que tanto necessitamos e que nos são devidas até pela lei. Use,
senhor Prefeito, seu crédito poderoso.
Se a ocasião me for propícia, terei o prazer de lhe falar a respeito em Montbrison e
também apresentar-lhe pessoalmente a homenagem do profundo respeito e da mais perfeita
gratidão com que ...
Champagnat
383
304 – Ao Padre MARCELLIN RIOCREUX, Pároco de
Saint-Ferréol D'Auroure, Haute-Loire.
2 de dezembro de 1839.
Um exemplo de como o Padre Champagnat passava ao secretário as idéias que este devia
formalizar na carta.
Responder ao senhor Pároco de Saint-Ferréol (Haute-Loire): Impossível dar-lhe
Irmãos, aliás não faz menção alguma dos recursos. Mandamos nosso prospecto para que
conheçam as nossas exigências...
Champagnat
384
305 - A Dom ALEXANDRE RAYMOND DEVIE, bispo
de Belley, Ain.
3 de dezembro de 1839.
Dom Devie pediu ao Padre Champagnat (cf. Carta no 143) que instalasse um noviciado em
Saint-Didier.
O Padre Champagnat expõe, nesta carta, as dificuldades em manter juntos, na mesma
instituição, alunos internos e noviços. Argumenta inclusive com exemplos.
O bispo não ficou muito convencido e se dirigiu aos Irmãos de Santa Cruz e aos da Sagrada
Família que começavam a se constituir na diocese.
Excia. Revma.,
Lamentei sinceramente não ter podido, na época do retiro, gozar da sorte de ir
apresentar a V. Excia. minha respeitosa homenagem e comunicar-lhe de viva voz minhas
observações sobre o noviciado de Saint-Didier.
De acordo com o desejo que V. Excia. me havia manifestado, quer pelo Padre
Superior, (Jean-Claude Colin), quer através das diferentes entrevistas que tive com o senhor,
aumentei o pessoal de Saint-Didier, a fim de que o Irmão Diretor pudesse dedicar-se
especialmente ao cuidado dos noviços. Ele acaba de me escrever, anunciando que tem aceito
alguns e foi com prazer que recebi a notícia, mas temo deveras que o andamento do noviciado
seja prejudicado pelo funcionamento das aulas e do internato.
Por experiências várias, descobrimos que não podem funcionar bem, na mesma casa,
essas obras diferentes.
A princípio também nós tínhamos resolvido receber em l'Hermitage alunos externos e
alguns internos. Fomos obrigados a abandonar a idéia, porque uma tal situação acarretava a
perda de um número significativo de noviços. Ficou evidente que o prejuízo era de todos.
Chegamos ao ponto de nos ver obrigados a separar os postulantes dos Irmãos. Só desta
maneira é que pudemos colocar ordem em nossa casa e conservar nossos candidatos.
Um excelente eclesiástico da diocese de Grenoble (Douillet), tendo começado em La
Côte-Saint-André um estabelecimento exatamente nas mesmas condições que o de Saint
Didier, quis também colocar lá um noviciado. Tivemos que ceder às suas instâncias, mas foi
ele o primeiro a reconhecer que aquele estado de coisas não podia continuar. Escreveu-me
então dizendo que se limitaria ao preparo de candidatos para a Sociedade, com a condição que
nós mandássemos para a diocese um certo número de Irmãos em proporção ao número de
candidatos que nos mandaria.
Senhor Bispo, a questão não está na recusa de começarmos o noviciado que V. Excia.
deseja, mas no fato de que depois de termos refletido e maduramente examinado, chegamos à
conclusão que não dará certo nas condições em que se acha o estabelecimento. Contudo, se V.
Excia. persistir nas mesmas disposições, vamos experimentar, mas seria depois lamentável ver
a obra esboroar-se ou, pelo menos, esmorecer.
Não seria preferível colocar provisoriamente o estabelecimento de Saint-Didier nas
mesmas condições de funcionamento que o de La Côte, até que nos seja possível encontrar um
local adequado, destinado unicamente ao noviciado? Seria uma situação mais ou menos igual
385
à que nos está sendo oferecida em Vauban, pelo senhor bispo de Autun. Eu recearia expor
demais a vocação de nossos postulantes, tirando-os de l'Hermitage para mandá-los a Saint-
Didier. Aliás, para isso, seríamos obrigados a comprar o mobiliário ou transportar o de
l'Hermitage para lá. Isto custaria muito, e nossos recursos não suportariam esse gasto
atualmente, visto que as despesas quase duplicaram neste ano.
Peço, por favor, senhor Bispo, examine bem minhas ponderações. Submeto-as
totalmente à discrição de V. Excia. A Sociedade de Maria lhe deve demais, tanto que estamos
dispostos a tudo fazer, a tudo arriscar para provar a V. Excia. com que respeito, com que
gratidão e atenção tenho a honra de ser, etc.
Champagnat
386
306 – Ao Padre MATHIEU MENAIDE, Pároco de Saint-
Nizier, Lião, Rhône.
3 de dezembro de 1839.
Não é fácil adivinhar de que espécie de instituição se trata aqui. O Irmão Avit fala
"Providence Saint-Nizier", como se fosse um orfanato, ou um patronato, fundado em 1837 ou,
segundo ulteriores informes, em 1840. Esta segunda data é mais verossímil e corresponde melhor ao
que diz a carta que abaixo vem transcrita.
Nela o Padre Champagnat promete ao Padre Mathieu mandar Irmãos no ano seguinte e
comunica-lhe a Ata dos convênios feitos com os administradores dos orfanatos.
Senhor Pároco,
Estamos em bastantes apuros para lhe mandar logo os Irmãos que o senhor nos está
solicitando. Se o senhor puder adiar para a Páscoa a execução de seu piedoso projeto,
sairíamos de um grande aperto. No entanto, não queremos atrapalhar demais as suas boas
intenções. Aguardamos sua resposta sobre o caso.
Transcrevemos textualmente o que combinamos com os administradores do orfanato;
poderá servir de base para o acordo que nos possibilitará trabalharmos juntos na boa obra que
o senhor está projetando.
Tenha a bondade, senhor Pároco, de examinar os diversos artigos deste convênio e
dar-nos seu parecer sobre eles. Se lhe puder servir semelhante convênio, nada mais nos restará
a combinar do que o artigo de nosso prospecto que estipula o seguinte: Por ocasião da
fundação de um estabelecimento, exigimos de uma só vez, para a casa mãe, a quantia de 400
francos para cada Irmão dos que vão ser mandados. Nunca estivemos tão impossibilitados de
abrir mão desta dotação. Espero pois que tanto por motivo de caridade como de justiça, o
senhor não porá obstáculo nenhum a esta exigência, tendo em vista as grandes despesas que
está obrigada a fazer a casa mãe.
Tenho a honra de ser, com o mais profundo respeito...
Champagnat
387
307 – Ao Padre GEORGES METTON, Pároco de Sury-
le-Comtal, Loire.
4 de dezembro de 1839.
Uma vez, o Padre Champagnat foi a Sury. O pároco estava ausente, portanto não recebeu a
visita do Padre Champagnat que, sempre que ia visitar a escola dos Irmãos em qualquer localidade
que fosse, fazia questão de entrevistar o pároco.
O padre, em carta, queixou-se de não ter sido visitado...
Aqui vai a resposta muito delicada, justificando também outro ponto do qual não abria mão
o Padre Champagnat: os Irmãos não assumem funções reservadas aos clérigos.
Penso que não mereci as censuras que o senhor crê dever aplicar-me. Cada vez que
estive em Sury, não deixei de ir apresentar-lhe meus respeitos.
Se os Irmãos não se prestam muito ao desempenho de funções eclesiásticas, é que o
senhor Bispo me proibiu expressamente de autorizá-los a tanto. Por outra, nós nos demos
conta tão bem do perigo e do abuso resultantes para nossos Irmãos, do desempenho de
funções tão estranhas à sua vocação, que não mais as permitimos em parte alguma.
Sou com...
Champagnat
388
308 – Ao Padre GIRE, Pároco de Saint-Privat D'Allier,
Haute-Loire.
18 de dezembro de 1839.
O Padre Champagnat ficou animado com a possibilidade de abertura de uma escola em
Saint-Privat, pois o pároco teria prometido mandar um jovem para se formar em l'Hermitage. Não se
encontrou nada em nossos registros que falasse de algum candidato proveniente de lá. Por isso, na
Carta de no 310, o Padre Champagnat já não se mostra tão entusiasmado.
Estamos tomando nota cuidadosamente do pedido que o senhor nos faz para Saint-
Privat. O senhor encontrou o meio de conseguir Irmãos: é o de nos mandar vocacionados.
Logo que o jovem que o senhor nos apresenta estiver apto a dirigir um
estabelecimento semelhante ao que o senhor pede, procurarei mandar-lhe Irmãos para
substituí-lo no seu município. Além disso, parece-me que com o legado que acaba de lhe ser
feito, mais o pagamento da municipalidade e as contribuições mensais, o senhor pode
implantar seu estabelecimento em bases sólidas e assegurar sua continuidade.
Terei prazer em ir vê-lo, portanto, na primavera. Não posso fazer-lhe uma promessa
com certeza absoluta, devido ao grande número de pedidos que temos que satisfazer, mas
tomo nota do seu pedido, colocando-o entre os que temos empenho em despachar o mais cedo
possível.
Tenho a honra de ser...
Champagnat
389
309 – Ao Padre FRANÇOIS CHARLES DORZAT,
Pároco de Roches-de-Condrieu, Isère.
27 de dezembro de 1839.
Vimos na Carta no 229 que o Padre Dorzat promete usar sua influência junto aos
examinadores para a concessão do "brevet" (Diploma) de professor. Mais uma vantagem: O cura da
catedral de Grenoble, Padre Guérin, hospedaria os Irmãos que fossem mandados fazer os exames.
Segundo o Irmão Avit, a escola de Roches-de-Condrieu foi aberta no final de 1838, mas sem
a possibilidade de receber internos, por falta de dormitórios apropriados. O Padre Dorzat pensa
neste problema; quer conseguir internos para enfrentar a concorrência com duas escolas que têm
pensionistas. Para montar as instalações necessárias, ele quereria reservar uma parcela do
pagamento dos alunos que viessem dos municípios vizinhos, mas o Padre Champagnat pensa, antes
de mais nada, em garantir a subsistência dos Irmãos, através dos recursos minguados que costumam
conseguir, além do pagamento feito pela municipalidade.
Senhor Pároco,
Fiquei deveras surpreso com a notícia das pequenas dificuldades de que os Irmãos me
falaram, relativas a seu estabelecimento. Parece-me que depois de tanto trabalho para fundá-
lo, o senhor tem tanto como nós interesse em sustentá-lo e fazer com que prospere. Mas, o
senhor deve dar-se conta que para atingir este objetivo, é necessário que nossos Irmãos
possam viver em Roches, prover às suas necessidades, e como quaisquer outros educadores,
poupar alguma coisa para os dias da velhice. Longe, porém, de haverem os Irmãos atingido
este resultado no ano passado, ficaram pelo contrário devendo 150 francos nas contas daquilo
que estritamente deveriam entregar à casa mãe. Não deixei de mandar que os Irmãos
verificassem se talvez não tinham feito demasiadas despesas. Responderam-me que se
ativeram ao que prescreve a Regra, que a horta não contribuía com nada, sendo eles portanto
obrigados a recorrer continuamente às mercearias, onde tudo é muito caro.
Senhor Pároco, o senhor é muito inteligente e generoso demais para, diante de uma
situação dessas, estar criando dificuldades a respeito de mensalidades que ninguém nos
contesta em lugar nenhum e que são coisinha pouca que não representa mais do que um
suplemento ao reduzidíssimo pagamento que exigimos.
Não tenho lembrança alguma, senhor Pároco, de lhe haver dito que os alunos dos
municípios vizinhos seriam matriculados nas mesmas condições que os de Roches, e que as
contribuições deles ficariam para o senhor. Tanto mais motivo tenho de dizer que não lhe fiz
esta concessão que em qualquer outro lugar seguimos o costume contrário. O Irmão Visitador
explicou ao senhor a maior parte de nossas razões, porém, a de mais peso, independente de
qualquer acerto ou convênio, é que de algum jeito os nosso Irmãos precisam ter do que viver,
o que não parece possível com o pagamento rigorosamente fixado em 1.200 francos para três
Irmãos.
Portanto, senhor Pároco, espero que aceite nossas justas ponderações e que, para o
bem e a prosperidade de sua obra, antes de estar sonegando aos Irmãos a pequena
compensação que podem obter das contribuições dos meninos dos municípios vizinhos, o
senhor pelo contrário aumente essas entradas favorecendo a matrícula de tais alunos.
390
Já não falarei do internato para o primário que o senhor poderia criar na casa dos
Irmãos. A meu ver, isto seria um meio excelente de garantir o êxito e proporcionar a seu
estabelecimento o bem-estar justo e razoável que contribuiria para o bom andamento de uma
instituição de educação. A maioria dos municípios conhecem muito bem as vantagens desse
sistema e são os primeiros a nos oferecer um local apropriado.
Cumpre também observar que nós temos o costume de lhes conceder uma
porcentagem sobre as mensalidades dos alunos do próprio município que se matriculam como
internos. Quanto aos demais, os encargos e benefícios são dos Irmãos.
Com sua clarividência, senhor Pároco, o senhor verá o que poderá fazer no caso em
questão.
Queira ...
Champagnat
391
CAPÍTULO VII - 1840
Retomada do crescimento ecônomico, após o acordo com os operários em greve. As
cidades industriais, principalmente as da região de Lião e Saint-Etienne, novamente na
marcha do progresso.
No cenário político do governo, Victor Cousin assume o Ministério da Instrução
Pública e Pelet de la Lozère, a pasta das Finanças. Novamente se faz sentir um reboliço
tendente a subverter a ordem e a paz recentemente conquistadas. Foi quando o republicano
Thiers, presidente do Conselho de Ministros, propôs o repatriamento dos despojos mortais de
Napoleão Bonaparte que jaziam em Santa Helena, ilha para onde tinha sido exilado, após a
derrota de Waterloo. Foi no dia 7 de julho que a fragata “La Belle Poule”, comandada pelo
príncipe de Joinville, zarpou para o Sul.
Sem ficar totalmente alheios aos acontecimentos sociais, os Irmãos muito mais se
preocupavam com a doença do querido Pai e Fundador que, esgotado de trabalhos e
preocupações, veio a falecer no dia seis de junho deste ano.
Em janeiro, cinco meses portanto antes de morrer, tivera a satisfação de saudar Dom
Maurice De Bonald, recentemente nomeado Arcebispo de Lião, residente ainda em Paris.
Além da homenagem à autoridade máxima a que estava sujeita a congregação, o relatório
completo dos estabelcimentos, assim como a cópia da carta (cf. Carta no 159) que enviara ao
Ministro De Salvandy. Como sempre quando se dirigia a uma autoridade eclesiástica, agora
mais do que em qualquer circunstância anterior, Champagnat se desvela em manifestar ao
Arcebispo seus filiais sentimentos de respeito, amor e religiosa submissão.
392
310 – Ao Padre GIRE, Pároco de Saint-Privat-D'Allier,
Haute-Loire.
2 de janeiro de 1840.
O pároco de Saint Privat ficou animado com as palavras do Padre Champagnat (cf. Carta n o
308). Voltou a escrever-lhe, dizendo que o Conselho Municipal concordava em apoiar a fundação da
escola. Mas, o jovem anunciado para o noviciado de l'Hermitage não apareceu.
O Padre Champagnat anuncia ao Padre Gire que um prazo de três ou quatro anos será
necessário para se pensar em fundar uma escola naquela região. Se achar longa a espera, o jeito é
ver se outra congregação pode atender mais cedo.
Veremos mais adiante (cf. Carta no 315) que o Padre Gire não desiste de conseguir os
Irmãos Maristas.
Senhor Pároco,
Alegramo-nos com a acolhida favorável do seu Conselho Municipal. Desejamos
ardentemente que continue de maneira eficaz o projeto de uma escola religiosa e cristã para os
queridos meninos da numerosa população local. É lamentável que nos encontremos neste
momento na impossibilidade de aceitar suas propostas, pois temos que atender a muitos
pedidos.
Não vejo a possibilidade de dar-lhe Irmãos antes de três ou quatro anos.
Faço ardentes votos que os Irmãos de Viviers venham em sua ajuda. Por outra parte,
para não colocar empecilhos ao andamento desta comunidade, não poderíamos aceitar seu
pedido senão depois que a autoridade eclesiástica superior o aprovasse. Em vista disto, só
tomaremos nota dele se recebermos de sua parte uma nova carta.
Aceite...
Champagnat
393
311 – Ao Padre JEAN-CLAUDE ANDRÉ, Pároco de
Saint-Julien-de-Cray, Saône-et-Loire.
3 de janeiro de 1840.
O Padre Champagnat aconselha pedir ao vice-prefeito departamental um prazo, pois no
momento não há Irmãos disponíveis que possam ser mandados para Saint-Julien. Como não temos a
carta do Padre Jean-Claude, será difícil atinar com as medidas a serem tomadas junto do senhor
vice-prefeito, no sentido de conseguir sua aprovação. Seja como for, o Padre Champagnat não dá
muita esperança a esta paróquia, que não é mais mencionada em nossos documentos.
Senhor Pároco,
Não está sobrando nenhum Irmão disponível para o seu município. Os novos
estabelecimentos que fomos obrigados a começar neste ano e o aumento de pessoal exigido
pelo desenvolvimento de vários outros nos fizeram colocar na ativa todo o nosso pessoal
disponível.
Talvez fosse bom conseguir do vice-prefeito departamental um prazo, dando a
entender a ele que o senhor está pondo em execução todas as medidas para ter, no mais curto
prazo, um estabelecimento regido pelos Irmãos.
O senhor percebe que se o vice-prefeito intervier na questão, não poderemos mandar
um Irmão sem antes ter conseguido o consentimento dele. (sic) Seria expor-se a melindrar a
autoridade superior, e pelo fato mesmo provocar grande dano à obra dos Irmãos na diocese de
Autun.
Sou ...
Champagnat
394
312 – Ao senhor HYACINTHE CLAUDE FÉLIX
BARTHELEMY, prefeito departamental do Loire.
4 de janeiro de 1839.
Trata-se aqui de uma carta a um prefeito de Departamento que tem força política junto ao
Ministério da Instrução Pública. O Padre Champagnat quer que o prefeito sirva de intermediário
para saber do senhor Ministro como está o pedido de autorização legal do Instituto.
Através de seu conselheiro Lachèze, o prefeito oficiou ao Ministro, dando um parecer muito
favorável à obra de "M. Champagnat, chef de la congrégation des Petits Frères de Marie."
Veremos mais adiante (cf. Carta no 330) que seqüência o Ministro deu ao caso.
Senhor Prefeito,
Na primeira visita que tive a honra de lhe fazer, o senhor bondosamente me ofereceu
seus préstimos, para mim muito gratificantes. Aproveitando a oferta, atrevo-me a solicitar de
V. Excia. o favor de se informar junto ao Ministro da Instrução Pública a quantas anda o
processo da autorização dos Irmãozinhos de Maria e quais os trâmites que ainda deveremos
seguir para garantir o bom resultado do pedido.
Desejosos de trabalhar sob a proteção e conforme as diretrizes do governo, em prol da
autêntica instrução dos meninos, estamos dispostos a tomar todas as medidas que nos indicar
para sintonizarmos com ele, até a adotar os estatutos de uma sociedade já reconhecida, como
nos mandou dizer o senhor Salvandy, ministro da Instrução Pública, por intermédio do senhor
bispo de Belley. Aceitaremos até isso, embora nossos estatutos tenham sido aprovados pelo
Conselho Real na sessão de 28 de fevereiro de 1834.
Confio, senhor Prefeito, que fazendo uso de sua gentileza, o senhor acrescente
algumas palavras de apreço em nosso favor. A boa acolhida com que o senhor me honrou, a
distinta proteção que em toda parte concede às obras de utilidade pública, inspiram-me a
reconfortante confiança de que terei para com sua pessoa novos motivos de unir minhas
felicitações às de todo o Departamento pela acertada escolha que o trouxe até nós.
Apoiando-me, pois, tanto em sua bondade como em seu crédito poderoso, rogo-lhe
aceitar a homenagem do profundo respeito e da respeitosa atenção com que ...
Champagnat
395
313 – Circular aos Irmãos
10 de janeiro de 1840.
A Circular é para organizar as conferências nos diferentes setores do Instituto, a fim de
capacitar os Irmãos em suas lides profissionais, mas sobretudo prepará-los cada vez melhor à
grande missão de educadores religiosos. O Padre Champagnat assinou cada uma das cópias
litografadas. Depois, de acordo com as necessidades, foram adicionadas notas para este ou aquele
estabelecimento.
V.J.M.J.
Meus caríssimos Irmãos,
Ao enviar-lhes os temas de nossas primeiras conferências, cumpre-nos recordar-lhes
que a história de nossa religião, o estudo da moral e dos dogmas divinos, em uma palavra, a
ciência sagrada do catecismo, deve ser o primeiro e principal objetivo. Autênticos Irmãos de
Maria, inteiramente entregues à salvação dos queridos meninos que nos são confiados, não
temos outra finalidade senão inspirar-lhes o amor e o temor de Deus, o gosto e a prática de
nossa santa religião. Portanto, necessitamos antes de mais nada desses conhecimentos santos
ou santificados pela caridade. Longe de nós aquela ciência puramente profana que o orgulho
ambiciona e que incha o coração.
Mas, caríssimos Irmãos, para ter êxito no ensino da religião e satisfazer às exigências
de um mundo quase sempre cego quanto à educação dos meninos, não devemos negligenciar
os outros ramos da instrução necessária a um Irmão de Maria. A escrita, a gramática, a
aritmética, a história, a geografia e mesmo, se necessário, o desenho, a geometria, a
manutenção dos livros de contabilidade, serão também objeto de nossos estudos e assunto de
nossas conferências. Servir-nos-emos daqueles conhecimentos como de chamariz inocente
para atrair os meninos e lhes ensinar depois a amarem a Deus, a se salvarem. Antes de mais
nada devemos ser bons catequistas, mas procuraremos também tornar-nos professores
competentes.
Portanto, caríssimos Irmãos, esperamos que vocês concordem com nossos pontos de
vista e que suas reuniões serão feitas com edificação e proveito. Com a única intenção de
agradar a Deus, redobrarão de amor pelo estudo adequado a um bom Irmão de Maria e se
colocarão em condições de poder responder satisfatoriamente nas disciplinas apresentadas.
I. CATECISMO, PROVAS DA RELIGIÃO
1. Necessidade da religião;
2. existência de Deus;
3. autenticidade e veracidade dos Livros Sagrados;
4. provas da religião pelos profetas;
5. pelos milagres e sobretudo pela Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo;
6. pelas circunstâncias de seu estabelecimento, pelos mártires, por sua perpetuidade.
(Irmão Pie)
II. GRAMÁTICA, SUBSTANTIVO
396
1. Definição em geral;
2. divisão;
3. gênero;
4. número;
5. ortografia e sintaxe (Irmão Victor).
III. ARITMÉTICA, SISTEMA MÉTRICO
1. Definição e exposição do sistema;
2. metro, are, litro, estéreo, grama, franco;
3. relação entre essas medidas (Irmão Marie Lin)
IV. REDAÇÃO FRANCESA
1. Utilidade das conferências para cada um dos Irmãos em particular;
2. em relação à Sociedade em geral;
3. em relação aos alunos.
V. ANÁLISE SINTÁTICA
1. “As pessoas que mais viveram não foram as que viveram mais tempo, e sim, as que
mais aproveitaram do tempo que o céu lhes concedeu”.
2. “Colegas, a pouca atenção que deram ao recado que lhes transmitimos, foi a causa
de se extraviarem os livros que tínhamos pedido que nos mandassem”.
PROBLEMA DE ARITMÉTICA
Cinco pessoas formaram uma sociedade e lucraram juntas 84.800 francos. A primeira
entrou na sociedade com a quantia expressa em francos, de 1.622 toesas e 5 pés, custando
cada metro 4”16s5d menos 72,48 francos que ela guardou consigo. A segunda entrou com os
juros resultantes de 78.940 francos emprestados durante 9 anos, 9 meses e 15 dias à taxa de 5
4/5% e mais 5.168,66 francos que ela acrescentou. A terceira entrou com uma quota igual ao
preço de 100 quintais 95 libras e 12 onças à razão de 10 francos o quilo. A quarta entrou com
o que falta à terceira para inteirar 100.000 francos. A quinta entrou com o preço de 298 ½ m
de fazenda mais 395 3/4m mais 1.049 5/6 mais 789 2/3m mais 845 3/8 mais 495 21/24m à
razão de 24 francos o metro, mas sobre o total apurado ela desconta 68.000 francos. Pede-se
quanto coube a cada sócio na distribuição do lucro.
OBSERVAÇÃO
1º) A conferência se realizará em (Pélussin, no sábado, 29 de fevereiro de 1840,) para
os estabelecimentos de Pélussin, Chavanay, Ampuis, Les Roches e será presidida pelo (Irmão
primeiro Assistente; se ele não puder, pelo Irmão Pie.
2º) A abertura da conferência se fará com a oração do “Veni Sancte” e da Ave Maria,
seguindo-se a leitura da presente circular e a exposição das disciplinas religiosas pelos Irmãos
encarregados.
3º) A convite do presidente, cada Irmão designado irá desenvolver o assunto que lhe
couber, de maneira seguida e sem lhe serem feitas perguntas.
397
4º) Não obstante, cada Irmão deverá preparar, de acordo com sua capacidade, os temas
da conferência, a fim de poder responder às perguntas que o presidente julgar bom fazer
depois da exposição oral.
5º) Proceder-se-á logo depois à revisão e correção dos deveres que cada um terá
passado a limpo em folha de papel dobrada em quatro, com o respectivo nome e data no
cabeçalho. Os melhores trabalhos serão recolhidos e conservados na casa mãe.
6º) A duração da conferência será aproximadamente de três horas. Antes da conclusão,
serão anunciadas as disciplinas da próxima conferência, depois se recitará o SUB TUUM.
7º) De todo o acontecido na conferência será lavrada uma ata pelo Presidente e mais
dois outros Irmãos de sua escolha.
Seu devotado pai,
Champagnat
Queridos Irmãos:
Estamos respondendo a uma necessidade de seus corações ao convidá-los a que nos
unamos todos, aos pés de Jesus e de Maria, para pedirmos que nos conserve nosso bom Pai
Superior, cuja saúde continua muito abalada. Recitaremos durante nove dias as Ladainhas da
Santíssima Virgem e o Lembrai-vos, assistiremos à Santa Missa e faremos a comunhão por
esta intenção. Vocês deverão associar seus alunos a esta obra de gratidão e piedade. Seu irmão
muito afeiçoado
François
Notas que devem ser acrescentadas à Circular de janeiro de 1840:
1o) A conferência se realizará em Lião, na casa dos órfãos, na quarta-feira, 19 de
fevereiro de 1840, para os estabelecimentos de Lião, Saint-Symphorien-d'Ozon, Genas e será
presidida pelo Irmão primeiro Assistente; se ele não puder, pelo Irmão Louis Bernardin
- Aos Irmãos de Saint-Genest: Por favor, tenham a bondade de fazer uma visita ao
mano do Irmão Ennemond, a fim de que lhes remeta logo os 200 francos que ele deve, a
menos que já no-los tenha dado. Insistam ainda com os pais do Irmão Basin e do Irmão
Anobert. Já escrevi a eles faz alguns dias.
- Aos Irmãos de Marlhes: Vocês me prestarão um grande favor se forem ter com
Matteau, tutor do Irmão Deodore, com a mãe Vialleton e com Padet, a fim de decidi-los a nos
mandar quanto antes alguma coisa.
- Aos Irmãos de Saint-Sauveur: Peço-lhes que tenham a bondade de fazer o que
puderem para decidir o senhor Carrot e mamãe Mourge a pagarem; vejam com Claudine
Bouchon que mora em Saint-Sauveur, subindo até a casa de Bouix de la Rue, se pode de
imediato mandar alguma coisa para pagar o noviciado de Barthélemy Granger, cunhado dela,
chamado Irmão Evode.
- Aos Irmãos de Boulieu: Pedir ao senhor Pároco se vamos receber alguma coisa como
pagamento do noviciado de Louis Vallette.
- Aos Irmãos de Pélussin: Escrevi há alguns dias aos pais de Michel Desormeaux,
Irmão Eudoxe, para reclamar o que ficou devendo do noviciado. Não recebi resposta. Tenham
a bondade de ir visitá-los e de receber os 300 francos que tinham prometido pagar na Festa de
Todos os Santos passada.
398
- Aos Irmãos de Saint-Didier-sur-Rochefort: Façam o favor de visitar os pais do Irmão
Bède, a fim de que lhes dêem alguma coisa em pagamento do noviciado, o mais cedo
possível.
- Aos Irmãos de Viriville: Por favor, visitem de tempos em tempos os pais do Irmão
Bajule, Aleaume, para ver se podem mandar alguma coisa em pagamento do noviciado deles.
(Cf. livro de Contas 3, p. 52)
399
314 - A Dom LOUIS JACQUES MAURICE DE
BONALD, Arcebispo designado de Lião.
16 de janeiro de 1839.
Logo que soube da nomeação de Dom De Bonald para o Arcebispado de Lião, o Padre
Champagnat se apressou em escrever-lhe para lhe apresentar suas humildes homenagens. Carta de
profundo respeito e acatamento para com a autoridade máxima de Lião, na esfera religiosa. Dom De
Bonald era bispo de Puy e veio a ser o sucessor do Cardeal Fesch, falecido aos 13 de maio de 1839.
Como o novo Arcebispo se encontrava em Paris quando esta carta lhe foi endereçada, a
ocasião era muito propícia para pedir-lhe que se interessasse ele também junto às autoridades
governamentais para a conclusão do processo de autorização legal do Instituto que se arrastava
desde bastante tempo.
Excia. Revma.,
O Superior dos Irmãozinhos de Maria se atreve a antecipar o feliz momento em que V.
Excia. virá cumular nossos votos e desejos, para oferecer-lhe a homenagem de seu profundo
respeito e de suas muito humildes felicitações. Todos nós experimentamos a mais viva alegria
ao saber da feliz escolha pela qual V. Excia. é convocado ao governo da célebre igreja de
Lião. Replenos de gratidão, unimo-nos a todos os fiéis da diocese para agradecer a Deus por
nos ter dado em sua augusta pessoa um Prelado tão digno e tão santo, um Pontífice tão zeloso
e caritativo.
Foi o Senhor, Exmo. senhor Bispo, que nos acolheu e protegeu na diocese de Puy.
Pudemos assim, sob vossos auspícios, erigir naquela região nossos primeiros
estabelecimentos. O que não deveremos então esperar agora de sua paternal bondade, agora
que seremos seus filhos, de uma maneira muito particular!?
Eis porque, Excia. Revma., animados da mais terna confiança, ousamos, desde esse
primeiro contato, apresentar-lhe através deste modesto ofício uma vista de conjunto sobre o
estado atual de nossa pequena Sociedade e solicitar em favor da mesma o auxílio de sua
poderosa proteção.
Já vai para oito anos que estamos pedindo, sem ter podido consegui-lo, o benefício do
Decreto Real que regularizando nossa existência, colocaria nossos Irmãos fora do alcance da
Lei de convocação para o serviço militar. Quão felizes nos consideraríamos, Excia., se
pudéssemos ficar devendo à sua benevolência e a seu potente crédito este favor tão precioso e
tão longamente esperado! Quanta gratidão terão para sempre com V. Excia. todos os filhos de
Maria, especialmente aquele que Deus chamou para os reunir e dirigir!
Alentados pela esperança de que V. Excia. se dignará acolher meu pedido, e pleiteará
nossa causa perante sua Majestade, tenho a honra de ser, com os sentimentos do mais
profundo respeito, ...
Champagnat
400
315 – Ao Padre GIRE, Pároco de Saint-Privat-d'Allier,
Haute-Loire.
21 de janeiro de 1840.
Pois que o Padre Gire insiste em conseguir Irmãos, o Padre Champagnat lhe dá as
indicações para construir o edifício da escola. O Irmão Francisco mais tarde também entrou em
relações com o mesmo padre, mas as esperanças de os Irmãos se estabelecerem naquela paróquia
não se concretizaram.
Senhor Pároco,
Pois que o senhor persiste na idéia de fundar um estabelecimento de nossos Irmãos no
município de Saint-Privat, a primeira coisa a fazer é construir um edifício suficientemente
vasto, que sirva para a habitação dos Irmãos, para as aulas dos alunos e também para
acomodações dos internos.
Para tanto, é preciso que haja no rez-do-chão uma cozinha, uma copa, um refeitório e
duas grandes salas contíguas separadas por um biombo envidraçado, que pegue toda a largura
das salas. Altura: um pé e meio ou dois e a uma altura conveniente, de maneira que os Irmãos
possam se ver um ao outro. Ao meio deste biombo deve haver uma porta envidraçada. É
preciso que a primeira destas duas salas possa conter 60 alunos, que estão aprendendo a
escrever; a segunda, uns 70 a 80, que estão aprendendo a ler.
Se o número habitual de internos for de 20 a 30, é preciso construir uma terceira sala
contígua às duas primeiras para dispô-los numa aula separada, porém comunicando com as
duas outras, conforme o que está dito acima. Neste caso, seria bom que o Irmão Diretor que
comumente rege a primeira classe, pudesse ficar no meio das duas outras.
O refeitório assim como a adega devem ser proporcionais ao maior número de alunos
internos. O primeiro andar deve ter dois ou três quartos e um salão-dormitório que comporte
umas quarenta camas com um metro de distância entre as fileiras. Convém abrir nos quartos
dos Irmãos uma comunicação em forma de janelinha, através da qual poderão observar e
vigiar os meninos no dormitório. As instalações sanitárias devem estar dispostas em tal lugar
que os Irmãos possam vê-las de lá da aula.
Não marquei todas as dimensões das diversas repartições, deixo isto a seu critério e ao
dos benfeitores. Na construção de uma casa de educação é essencial não ater-se ao estrito
necessário é bom ir além.
Eu sou ...
Champagnat
401
316 – Ao Padre CLAUDE-MARIE PAGE, Pároco de
Digoin, Saône-et-Loire.
29 de janeiro de 1840.
Se houve um padre que insistiu com o Padre Champagnat para que fundasse uma escola de
Irmãos na sua paróquia, foi o Padre Page, de Digoin. Nada menos de oito cartas escreveu, além de
ter feito visitas a l'Hermitage, sempre com a mesma intenção. (cf. Cartas no 97 e 264).
Nesta resposta do Padre Champagnat, que provavelmente foi escrita pelo Irmão Francisco
ou por outro secretário, vemos com que prudência eram tratados esses assuntos: Só mandar Irmãos
quando tudo estiver pronto, tanto do lado material (construção, instalações, dependências, etc.),
como do lado social e administrativo (garantia de subsistência dos Irmãos, anuência das
autoridades, apoio da população).
Senhor Pároco,
Foi com intenso regozijo que soubemos que seus administradores estavam planejando
construir, em breve espaço de tempo, um edifício para as escolas de sua cidade.
Uma condição muito importante para garantir esta iniciativa e fazer que vá adiante é
conseguir o concurso da autoridade municipal. De acordo com aquilo que a experiência já nos
ensinou, pensamos que o senhor adotará a melhor opção, que é de não alugar uma casa, mas
esperar que esteja terminada a que se destina para este fim.
Alugar uma casa implicaria, com toda certeza, empatar dinheiro em remendos. Este
gasto seria muito melhor empregado na instalação dos Irmãos. Evitaria assim um bom
pretexto para desestimular o ardor de seus administradores, que poderiam retardar ou mesmo
abandonar completamente a execução do projeto. Uma vez que tivessem visto as escolas
iniciadas, esses administradores não teriam tanta pressa em procurar quem trabalhasse na
construção projetada e o senhor Prefeito não teria tanto empenho na execução da mesma.
A mais disto, estamos com receio de não poder fornecer Irmãos na próxima Festa de
Todos os Santos, visto que todos os que se encontram em Vauban ainda não estarão
habilitados, para que os lancemos no ensino e os de nossa casa de l'Hermitage estarão
provavelmente comprometidos todos, pelas promessas anteriormente feitas; passariam à frente
daquela que o senhor pensa ter conseguido. Não é que não estejamos desejando ansiosamente
a escola de Digoin, mas é que queremos vê-la implantada desde o início em bases firmes.
Sabemos, e nem há por que duvidar, que começar uma obra sem que tudo esteja
pronto, é arrumar complicação e as coisas não podem andar direito.
Espero que os excelentes párocos da diocese de Autun se interessem com particular
carinho pelo Noviciado de Vauban. Nós vamos nos esforçar para que seja concluída quanto
antes a formação dos candidatos que houverem por bem nos enviar, e depois de formados os
mandaremos de volta prazerosamente.
Tenho a honra de ser...
Champagnat
402
317 – Ao Irmão TIMOTHÉE, Belley, Ain.
1º de fevereiro de 1840.
Esta é uma carta de animação para os Irmãos que se ocupam mais de trabalhos caseiros, a
serviço dos Padres Maristas de Belley, do que de aulas e de educação de meninos. Os Maristas
formados pelo Padre Champagnat, como o Irmão Timothée e outros, serviam os Padres juntamente
com Irmãos Coadjutores, denominados de Irmãos "José". E, naturalmente surgiram algumas
divergências entre eles, a começar pelo hábito ou batina. Não só isso: pior era uma certa
discriminação entre as duas categorias. Os Irmãos "José" não podem aspirar a ser Irmãos Maristas.
Os Irmãozinhos de Maria, estes sim, podem passar a ser Irmãos "José”. O serviço destinado a cada
um deles é que fará a distinção. (Cf. O. M. I Doc. 345, 2 p. 784)
O Padre Colin (ainda segundo O. M.), escreveu ao Padre Champagnat, aos 8 de abril de
1832: "Não convém que os Irmãos destinados aos serviços caseiros nos Colégios e em outras casas
da Sociedade de Maria vistam do mesmo jeito que os Irmãos que se dedicam ao ensino e educação. O
hábito deles tem que ser uma indumentária simples e mais conforme com o serviço que
desempenham." Mais outras normas do Padre Colin, datadas de 7 de janeiro de 1835: "Parece-me
também que seria melhor que os Irmãos ocupados em serviços caseiros não usassem rabá e que, em
vez de cruz no peito, levassem o terço pendurado no cordão."
Os Irmãos formados em l'Hermitage não gostavam nem um pouquinho dessas
discriminações. O Irmão Timothée era um deles; não queria ser chamado de Josefita. Quando estava
se debatendo contra esta mudança, ficou muito doente, atacado por um tumor resistente a todo e
qualquer tratamento.
Em desespero de causa, fez uma novena a São José e prometeu que se ficasse curado, ficaria
na Sociedade de Maria e consentiria em ser chamado de Irmão Josefita. Sentiu-se curado
instantaneamente.
É neste contexto que será lida a carta.
Meus caríssimos Irmãos,
Aproveito da ida do Padre Superior Geral a Belley, para escrever-lhes e testemunhar
que a dedicação de vocês em servir os Padres alegra toda a Sociedade. Vocês não devem
limitar-se a uma simples troca de indumentária, que nada altera a situação. Nem por isso
vocês deixarão de ser considerados Irmãozinhos de Maria de l'Hermitage.
Tudo o que pode contribuir para estreitar os laços entre os dois ramos está
perfeitamente de acordo com nosso modo de ver e com os planos da Providência.
Demonstrem ao Padre Superior que vocês se entregam em suas mãos, assim como fizeram os
Irmãos de Lião, e como sempre procederão os verdadeiros filhos de Maria.Continuo
recomendando-me às suas fervorosas preces e sou, em Jesus e Maria, seu devotado pai e
servidor,
Champagnat.
403
318 – Circular aos Irmãos
4 de fevereiro de 1840.
Esta carta circular é mais para fixar novas datas das conferências (cf. Carta no 313) para a
formação dos Irmãos durante as férias, do que propriamente para anunciar a morte do Irmão Pascal.
Mas, como esta ocorreu justamente enquanto se tratava de estruturar as conferências, não era
possível deixar de mencioná-la. Foi também ocasião de pedir orações pelos Irmãos que se
preparavam para ir às Missões longínquas e para os que já mourejavam na messe do Senhor na
Oceânia.
As conferências se realizarão em Lião e em Valbenoite. Na circular destinada a Lião, há um
P.S. que bem pode ter sido endereçado ao Irmão Louis-Bernardin, Diretor de uma instituição de
amparo a meninos órfãos. O Irmão era uma presença contínua, doze meses sobre os doze do ano, em
favor desses órfãos. Por aí se entende a razão pela qual o Padre lhe chama a atenção para o retiro
espiritual anual, do qual o Irmão não pôde participar com os demais Irmãos em l'Hermitage.
Quanto ao pedido de informações a respeito do Irmão Jean-Chrysostome, não sabemos de
que maneira incumbiria ao Irmão Diretor de Lião responder, pois o Irmão Chrysostome, a mando do
Padre Champagnat, tinha ido passar férias na família, em tratamento de saúde. Não estava, portanto
em Lião, mas em sua terra natal, em Desingy, na Haute-Savoie. (Cf. Em cada Vida uma Mensagem,
p. 85)
Caríssimos Irmãos,
O Senhor acaba de chamar a si o nosso querido Irmão Pascal, preso ao leito de dor,
fazia vários meses, atacado por grave enfermidade. Cheio de esperança na misericórdia divina
e na proteção da Santíssima Virgem, munido dos socorros da religião e ardendo no desejo de
se reunir a seu Deus, terminou a peregrinação terrestre quinta-feira, aos 30 de janeiro,
pronunciando os santos nomes de Jesus e de Maria, e depois de nos ter constantemente
edificado por sua paciência e resignação.
Temos fundados motivos para crer que sua morte foi preciosa diante de Deus; mas,
caríssimos Irmãos, vocês sabem que a gente precisa estar muito puro aos olhos do soberano
Juiz para ser admitido na assembléia dos santos. Portanto, logo que puderem, procurem
desempenhar para com nosso bom Irmão seus deveres de caridade prescritos para qualquer um
de nossos caros falecidos, em particular as orações indicadas em nossa santa Regra para os
Irmãos Professos.
Alguns de nossos caros Irmãos nos fizeram observar que suas muitas ocupações
durante o inverno não lhes havia permitido preparar suficientemente os temas da conferência;
acresce também a isso que eu estou praticamente na impossibilidade de assistir a essa
conferência, por isso achamos melhor adiar para a Páscoa a apresentação das tarefas.
Assim, conforme nossa última Circular, a conferência se efetuará em Lião, no dia 6 de
maio de 1840, para os Irmãos das escolas de Genas, de Saint-Symphorien-d'Ozon e será
presidida por nosso caro Irmão primeiro Assistente. No caso de ele não poder estar, o Irmão
Louis Bernardin o substituirá. Em Valbenoite, será na segunda-feira, dia 27 de abril, para os
Irmãos dos estabelecimentos de Valbenoite, Sury e Terrenoire. Irmão Liguory.
Parece que alguns julgaram que as disciplinas da conferência só diziam respeito aos
Irmãos designados. Pedimos-lhes que se desiludam. A redação francesa, a análise sintática e o
problema de aritmética devem ser feitos por todos os Irmãos de cada estabelecimento. Embora
404
os temas indicados, para as lições a serem tomadas oralmente, tenham sido indicados para
alguns Irmãos, os demais devem também estudá-los, de modo a estarem preparados para
responder as perguntas feitas pelo presidente.
Caríssimos Irmãos, continuemos a rezar de modo particular por nossa interessante
Missão da Polinésia, a fim de que Deus faça triunfar a verdadeira fé e confunda a heresia
nestas vastas regiões confiadas à Sociedade de Maria. Recomendamos particularmente os dois
Padres Pezant e Tripe e os caros Irmãos Claude-Marie e Amon, que estarão de partida do
porto de Brest, no início do mês, em demanda da Nova Zelândia. Esta última partida se deve à
generosidade do governo que ofereceu aos nossos missionários quatro lugares gratuitos a
bordo da corveta "L'Aube". Hoje soubemos que estão muito aceitos no navio, que os Padres
terão a facilidade de celebrar todos os dias a Santa Missa e que, estando em companhia de um
neozelandês, poderão começar a aprender a língua do País.
Que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunicação do
Espírito Santo estejam sempre com vocês.
Sou com todo afeto em Jesus e Maria, mui dedicado pai,
Champagnat
N.D. de L’Hermitage, 4 de fevereiro de 1840.
P.S. Aguardamos, mas em vão, notícias do Irmão Jean Chrysostome e uma cópia da
contabilidade de vocês, e nada nos chega.
Seu retiro, meu caro Irmão Diretor, ainda não foi feito, e creio que isso é do seu interesse
pessoal. Capriche para não deixar para depois esta obra de sua santificação. Aproveite da
primeira ocasião que se apresentar.
Todo seu...
405
319 - A Dom HUGHES ROBERT JEAN-CHARLES DE
LATOUR D'AUVERGNE, bispo de Arras, Pas-de-
Calais.
11 de fevereiro de 1840.
Após a nomeação de Dom De Bonald como Arcebispo de Lião, outro dignitário eclesiástico,
o bispo de Arras, recebe importante título. Dom Hugo de la Tour D'Auvergne foi distinguido com a
púrpura cardinalícia, no Consistório de 23 de dezembro de 1839.
É o bispo em cuja diocese se encontra o estabelecimento de Saint Pol-sur-Ternoise (Pas-de-
Calais). Goza de grande influência nos meios governamentais. Por isso, o Padre Champagnat
escreve-lhe felicitando-o por sua elevação ao cardinalato e também para sugerir-lhe que interceda
junto às autoridades em favor da causa da autorização legal do Instituto.
Veremos mais adiante (cf. Carta no 330) a boa vontade do novo cardeal para corresponder
ao pedido do Padre Champagnat.
Excia. Revma.,
O Superior dos Pequenos Irmãos de Maria, estabelecidos em N. D. de l'Hermitage, em
Saint-Chamond (Loire), ousa apresentar-se de joelhos diante de V. Excia. para lhe pedir aceite
a homenagem de profundo respeito e muito humildes felicitações pela nova dignidade que o
Soberano Pontífice acaba de conceder a seus méritos e virtudes. Nós nos regozijamos
vivamente e conosco toda a França e toda a cristandade, por vermos um Pontífice tão zeloso e
caritativo tornar-se um dos primeiros pastores da Igreja universal.Que Deus seja bendito mil
vezes por este acontecimento e conceda a V. Excia. dias tão longos e felizes quantos julgar
úteis à religião, cheios de obras de zelo e de santidade.
Animado pela bondade realmente paternal com que V. Excia. se dignou honrar nossos
caros Irmãos de Saint-Pol, compenetrado tanto quanto eles da mais viva gratidão pelo nobre
incentivo que os Irmãos devem à vossa bondade verdadeiramente pastoral, atrevo-me também
a suplicar-lhe o favor de estender a toda a Sociedade dos Irmãos de Maria a salutar influência
de sua elevada e poderosa proteção.
Como nos sentiríamos felizes, Excia. se neste momento em que tratamos de fazer
sancionar nossa autorização por meio de um Decreto Real, V. Excia. se dignasse apoiar nosso
pedido. Não duvidamos nada de que uma simples recomendação de V. Excia. nos seria de
grande auxílio junto a Sua Majestade.
Nossa instituição, Excia., é inteiramente em benefício dos meninos pobres das zonas
rurais e cidades pequenas. Ao menor custo possível queremos proporcionar a eles a instrução
cristã e religiosa que os Irmãos das Escolas Cristãs ministram com tão bons resultados aos
alunos das grandes cidades.
Deus e a Santíssima Virgem nos abençoaram de um modo todo particular até hoje. Em
poucos anos, apesar da escassez de recursos, a Sociedade reuniu mais ou menos 300 Irmãos.
Foram erigidos cinqüenta estabelecimentos que continuam a se desenvolver nos nove
Departamentos do Rhône, do Loire, de Isère, de Ardèche, de Saône-et-Loire, do Drôme e de
Pas-de-Calais, além das Missões da Oceânia Oriental, para a qual onze de nossos Irmãos
partiram nesses três últimos anos.
406
Duas novas casas de noviciado acabam de ser erigidas, uma em Vauban (Saône-et-
Loire), através das benfeitorias do senhor bispo de Autun, a outra em Lorgues (Var) pela
generosidade de um proprietário abastado e piedoso. Quando V. Excia. julgar oportuno,
faremos todo o possível para abrirmos um terceiro, na interessante diocese de Arras, a fim de
apoiar e expandir nesta região, de acordo com as piedosas e paternais intenções de V. Excia., a
obra tão importante da instrução cristã.
Só nos falta, Excia., que nossa Congregação seja definitivamente reconhecida pelo
governo. Nossos estatutos foram por três vezes aprovados pelo Conselho Real da Instrução
Pública. Apoiados no pedido oficial deste Ministério, redigido pelo senhor Delbecque, de
quem depende em grande parte nossa requisição, abrimos o estabelecimento de Saint-Pol.
Até mesmo uma minuta do Decreto foi redigida, mas como nos obrigava a restringir o
ensino aos municípios de 1.200 habitantes e menos, e assim nos impedia o exercício de nossas
funções em grande número de nossos estabelecimentos, fizemos com que a retirassem. Por
isso, somos obrigados hoje a fazer novo pedido. Para tanto, escrevemos a Monsenhor De
Bonald, Arcebispo de Lião, residindo atualmente em Paris. Interessamos em nosso favor
também vários deputados, particularmente os senhores Ardaillon, Duroziers, Lanyer, Lachèze,
Fulchiron, Girod de L'Ain, Baude, que é atualmente Conselheiro de Estado e o senhor Sauzet,
Presidente da Câmara.
Animados de confiança na sua bondade pastoral e no zelo apostólico que abarca a
Igreja inteira, ousamos dirigir a V. Excia. um pedido semelhante. Não duvidamos nada de
que, gozando do alto favor da Igreja e do Estado, V. Excia. conseguirá apressar, eficazmente,
a conclusão de uma questão que visa tão somente à glória de Deus e ao bem das almas.
Por isso, é com todos os sentimentos de gratidão que suplico a V. Excia. se digne
aceitar a homenagem de profundo respeito com que sou,...
Champagnat
407
320 – Ao barão JOSEPH MARIE DE GÉRANDO,
Institut des Sourds-Muets, Paris.
14 de fevereiro de 1840.
Esta carta, como a seguinte, foram, escritas no mesmo dia, tratam do mesmo assunto que é o
caso dos surdos de Saint-Etienne.
Em princípios de 1838, a cidade de Saint Etienne manifestou ao Padre Champagnat a
intenção de confiar aos Irmãos uma instituição destinada à educação de surdos-mudos. (Cf. Carta no
177) Champagnat respondeu que este gênero de apostolado correspondia ao carisma da
Congregação (cf. Carta no 323).
Quando esteve em Paris, foi solicitar a matrícula gratuita para dois Irmãos no Instituto de
Surdos-Mudos, a fim de que se formassem para este trabalho. (Cf. Carta no 196)
A resposta não lhe foi dada, mas o Padre também não se preocupou, visto que a cidade de
Saint-Etienne não tinha pedido formalmente, só fizera uma sondagem; também não havia no
momento Irmãos disponíveis que pudesse mandar fazer o curso.
Em 1838 (cf. Carta no 320), o Padre Champagnat recebe uma carta de Paris (cf. Carta no
235), perguntando: "O senhor persiste na intenção de matricular dois Irmãos no Instituto de Surdos-
Mudos de Paris?"- Sim, tanto que logo escreveu ao Barão Rendu, Presidente da Administração do
Instituto Real de Surdos-Mudos, solicitando sua intervenção, no sentido de conseguir a tal matrícula.
Não sabemos se teve resposta.
Um ano depois, a cidade de Saint-Etienne oficialmente pede Irmãos para a mesma
instituição. O Padre champagnat responde que precisa formar os Irmãos para esse apostolado. Daí o
motivo das duas cartas que seguem, (cf. Carta no 320 e 321, a Gérando e ao conde Bastard d'Estang.
Desta vez, foi concedida a matrícula (cf. Carta no 334) mas... e aqui, consultando o Irmão
Avit (cf. Abrégé des Annales, p. 249), encontramos o final desta história: Saint-Etienne,
apressadinha, chamou os Irmãos das Escolas Cristãs. Para nós não deu em nada!
A título de informação: “Na Província do Pará em 1840, uma lei autoriza o governo a
comprar a tradução do Curso Normal do barão De Gerando, tantos exemplares quantos carecerem
as escolas de ensino primário”. (Cf. Primitivo Moacyr. A instrução e as Províncias, I São Paulo: C.
E. Nacional, 1939, p. 75)
Senhor Barão,
O pedido oficial que a cidade de Saint-Etienne acaba de me dirigir para conseguir
alguns de nossos Irmãos, para que se ocupem da direção do estabelecimento de surdos-mudos,
me leva a também solicitar a matrícula de dois Irmãos nossos no estabelecimento modelo do
mesmo gênero, situado em Paris.
Há quase um ano que o senhor Diretor desta tão útil e interessante casa me honrou
com uma carta, na qual solicitava da parte do Ministro, se eu continuava interessado em
mandar formar alguém. A dificuldade de encontrar candidatos e a falta de um pedido explícito
e oficial da parte da cidade de Saint-Etienne me deixaram indeciso.
Hoje essas dificuldades desapareceram e por isso me decidi a pedir-lhe que solicite,
em meu nome, a admissão gratuita de dois de nossos Irmãos. O senhor conhece melhor do que
eu todo o valor desta obra de beneficência. A cidade de Saint Etienne lhe guardará sempre
uma gratidão imensa pelo favor que o senhor nos terá concedido, em nome dela. Eu lhe ficarei
408
muito grato por esta demonstração de interesse de sua parte, por uma associação que
insistentemente se recomenda à sua benevolência e a seu crédito poderoso.
Tenho a honra de ser...
Champagnat
409
321 – Ao senhor DOMINIQUE FRANÇOIS MARIE,
Conde de Bastard D'Estang, Vice-Presidente do
Instituto de Surdos-Mudos, Paris.
14 de fevereiro de 1840.
Champagnat solicita a admissão gratuita de dois Irmãos.
Senhor Conde,
A cidade de Saint-Etienne determinou de maneira definitiva a construção de um
estabelecimento de surdos-mudos, no interesse de sua numerosa população. Eis que nos pede
oficialmente alguns Irmãos de nossa Instituição habilitados a dirigir aquela obra. Desejoso de
colaborar com aqueles objetivos de benemerência, venho pedir-lhe, senhor Vice-Presidente, a
gentileza de solicitar a admissão de dois de nossos Irmãos no estabelecimento dos surdos-
mudos, em Paris.
Espero que através de sua intervenção e da do senhor De Gérando, a quem também
estamos escrevendo, eles sejam admitidos gratuitamente.
Teríamos aproveitado mais cedo das ofertas tão gratificantes que o senhor teve a
gentileza de me fazer com respeito a isto e das auspiciosas esperanças que eu tive, motivadas
por uma carta do senhor Diretor do estabelecimento, se a dificuldade de encontrar dois
candidatos disponíveis e a falta de um pedido explícito da parte da cidade de Saint-Etienne
não tivessem tolhido meus passos.
Tendo hoje desaparecido este obstáculo, eu lhe serei imensamente agradecido pelas
medidas que o senhor puser em andamento para nos colocar em condições de poder responder
às instâncias que nos são feitas.
Enquanto isso, continuo a recomendar à sua benevolência o processo relativo à nossa
autorização que continuamos solicitando. Espero que ao chegar a ocasião, o senhor apoiará de
bom grado meus pedidos e me ajudará com seu valioso crédito.
Na esperança de conseguir de sua bondade e por seu intermédio o duplo favor que
almejo, tenho a honra de ser ...
Champagnat
410
322 – Ao Padre LAURENT BEURRIER, Sacerdote de
Vauban, Saône-et-Loire.
14 de fevereiro de 1840.
Grande amigo do Padre Champagnat, o Padre Beurrier foi aquele que recebeu os Irmãos
quando foram tomar conta do castelo de Vauban. Foi ele que, a mando do bispo Dom Bénigne, de
Autun, vistoriou todas as dependências e dispôs tudo em ordem, antes da ocupação do castelo pelos
Irmãos. Depois, tornou-se, por algum tempo, o capelão do noviciado, (cf. Carta no 278), cargo que a
seguir foi preenchido com muito zelo e dedicação pelo Padre Ducharne.
Senhor Padre,
As camas que tínhamos combinado encomendar estão prontas. Mandei que as
transportassem até Lião, no dia 17 de fevereiro, depositando-as na loja do senhor Bailly,
sucessor do senhor Comte, Cour des Archers. Deixo a seu critério a maneira de mandá-las
pegar naquele endereço, quando julgar oportuno, ou de entender-se com o bom pároco de
Chaufailles que teve a gentileza de se oferecer para mandá-las chegar até a casa dele.
Senhor Padre, continuo a lhe recomendar de maneira particular o estabelecimento de
Vauban. Sabendo do zelo, da prudência e todo o interesse que dedica a esta obra, conto com o
senhor para a direção, seja do espiritual seja do material e lhe peço o favor de comunicar
minhas diretivas aos Irmãos.
Estou plenamente convencido que o senhor fará tudo o que estiver a seu alcance para
garantir o bom andamento da escola e favorecer o seu desenvolvimento. Por isso, mal posso
testemunhar-lhe o quanto a Sociedade de Maria lhe é grata pelas muitas benemerências que o
senhor tem para com ela. Quanto a mim, o que particularmente observo com a maior alegria é
que quando o senhor Bispo louvou perante mim o seu zelo, a abnegação e habilidade em
dirigir uma casa, nada mais fazia do que antecipar os sentimentos de estima e de gratidão de
que tive confirmação pela minha própria experiência.
Senhor Padre, espero que o senhor encontre os meios de interessar nesta obra também
os excelentes párocos da diocese de Autun e, por meio deles, aumentar o número de
candidatos que estudam em Vauban. Esteja certo, senhor Padre, que de nossa parte faremos
tudo o que estiver ao nosso alcance para corresponder a seus esforços generosos, de modo a
dar-lhe provas efetivas da sincera e respeitosa dedicação com que tenho a honra de ser...
Champagnat
411
323 – Ao Padre PRADIER, Le Puy, Haute-Loire.
22 de fevereiro de 1840.
Quando estava pensando em preparar Irmãos para a escola de surdos-mudos de Saint-
Etienne, Champagnat recebeu do Padre Pradier, sacerdote do Puy, um pedido no mesmo sentido
daquele da cidade de Sain-Etienne.
Respondeu que efetivamente tal sorte de apostolado em favor de jovens carentes entrava
perfeitamente nos planos da Congregação Marista. O decorrer dos acontecimentos nos mostra que
nem uma nem outra das propostas se concretizou. Não houve Irmãos formados para cuidar de
surdos-mudos.
Senhor e caro confrade,
Foi com prazer que acolhemos a proposta que o senhor nos está fazendo de
mandarmos dois Irmãos para dirigir a escola de surdos-mudos de sua cidade. Entra
perfeitamente nos planos de nossa instituição que se dedica inteiramente à Educação dos
meninos seja qual for a condição em que se encontram.
Já faz algum tempo que estamos sendo solicitados, pressionados até, para aceitarmos
instituições desse tipo. Alimentamos a esperança de em breve estarmos em condições de
cooperar com as pessoas benevolentes que aspiram ajudar uma obra tão excelente, pois já
tomamos as devidas medidas para que dois de nossos Irmãos possam formar-se na arte de um
tal ensino, cursando a Escola Real de Surdos-Mudos, em Paris. Felizes se, chamados a instruir
esta porção do rebanho de Jesus Cristo que pede com tanto direito a solicitude de pessoas
caridosas, nossos Irmãos se tornarem cada vez mais dignos de tão santo trabalho.
Planejamos fazer uma viagem ao Puy no decorrer do mês de março, a fim de termos
uma entrevista com o senhor e combinar os meios de garantir o bom resultado deste
empreendimento.
Aguardando este momento, gostaríamos de ficar sabendo em que pé está o
estabelecimento, se está nas mãos de uma administração pública ou se está sendo dirigido por
particulares, etc.
Queira aceitar a homenagem da inteira dedicação com que tenho a honra de ser,
senhor e caro confrade, seu servo muito humilde e obediente,
Champagnat
412
324 – Ao senhor MARIUS FERDINAND PERES,
Tabelião, Cabannes, Bouches-du-RhÔne.
25 de fevereiro de 1840.
A resposta do Padre Champagnat ao tabelião de Cabannes, no Sul da França, na
desembocadura do Ródano, perto do Departamento do Var, onde pensava implantar um noviciado
em Lorgues, é do mesmo teor de tantas solicitações de Irmãos para escolas: Não é possível.
O tempo de espera de Cabannes se prolongou até 1892, ano em que finalmente a obra
marista atuou naquelas paragens sulinas, ao passo que o noviciado marista em Lorgues nunca
funcionou.
Prezado Senhor,
Foi com muito interesse que lemos a honrosa carta que o senhor nos dirigiu, com o
intuito de conseguir Irmãos nossos para dirigir a escola de Cabannes. Os estabelecimentos que
prometemos fundar em 1841 não nos permitem atender a seu pedido, para esse ano.
Brevemente vamos fundar uma casa principal na pequena cidade de Lorgues (Var) e
esperamos que dentro de alguns anos se tornará uma sementeira de bons Irmãos educadores
que atuarão nas regiões circunvizinhas.
O preparo dado por nossos Irmãos compreende tudo o que a Lei prescreve, sob o título
de instrução primária.
As condições exigidas para que fundemos um estabelecimento são mais ou menos as
mesmas que as dos Irmãos das Escolas Cristãs. A única exceção está em que nós permitimos
aos municípios receber uma contribuição mensal por parte dos pais remediados, destinada a
cobrir uma parte dos custos do estabelecimento.
Queira, por favor, aceitar a expressão do pesar que sinto em não poder satisfazer, de
acordo com seu desejo, os anseios de uma administração que demonstra zelo tão nobre e tão
louvável pela educação da juventude.
Receba o testemunho de total devotamento com que tenho a honra de ser...
Champagnat
413
325 – Ao Padre NICOLAS VINCENT, Pároco de
Flavigny-sur-Moselle, Meurthe-et-Moselle.
2 de março de 1840.
Em fevereiro, a voz do extremo Sul da França; neste início de março é um pároco do
Nordeste, lá na Lorraine, que dirige ao Padre Champagnat honroso pedido de uma fundação de
escola religiosa. Como será que o Padre Vincent ouviu, tão longe de l'Hermitage, falar dos Maristas
e de suas escolas?
A resposta do Padre Champagnat, pouco animadora, estimando em quatro ou cinco anos o
tempo de espera, para conseguir uma promessa de mandar Irmãos para Flavigny, deve ter desiludido
o bom pároco que não mais voltou a insistir.
Senhor Pároco,
O honroso pedido que nos dirigiu me parece muito interessante e bem vantajoso,
porém não nos é possível, por ora, aceitá-lo, porque nossos Irmãos que estavam disponíveis
foram todos colocados. Além disso, temos promessas a cumprir no decorrer de vários anos,
eis porque só lhe poderíamos mandar Irmãos dentro de quatro ou cinco anos, o que, para o
senhor, é sem dúvida um prazo muito longo e que não lhe convém.
Fico muito agradecido pela confiança com que o senhor se digna honrar nossa
Sociedade. Rogo-lhe aceitar nossos agradecimentos bem como a homenagem de respeitoso
devotamento com que tenho a honra de ser...
Champagnat
414
326 - AO PADRE PRADIER, LE PUY, Haute-Loire.
2 de março de 1840.
Depois de uma primeira solicitação (cf. Carta no 323),o Padre Pradier, constatando que
tinha batido em porta certa, voltou a escrever ao Padre Champagnat. Este lhe dita as condições de
fundação para uma escola de surdos-mudos e aconselha que espere uma entrevista dos dois sobre o
assunto.
Senhor Padre,
Sem detença vimos apresentar-lhe as condições para que forneçamos Irmãos para a
direção de estabelecimentos do tipo que o senhor nos propõe. São alimentados, têm roupa
lavada e calçado (só os sapatos), usam a roupa da casa e recebem, além disso, um pagamento
anual de 300 francos para o Diretor da casa e 200 para cada um dos outros Irmãos. Os
administradores pagam à casa mãe, 400 francos de custos de fundação, quantia
correspondente a cada Irmão e que é paga uma só vez.
Antes de fechar qualquer coisa a respeito de seu estabelecimento, faz-se necessário
que tenhamos uma entrevista com o senhor, a fim de nos pôr de acordo sobre os diferentes
pontos do regulamento que convirá estabelecer para que a obra prospere.
Queira aceitar o sincero e respeitoso devotamento com que tenho a honra de ser, o
servo muito humilde e obediente,
Champagnat
415
327 – Ao Padre XAVIER VACHER, Pároco de Saint-
Marcel-D'Ardèche, Ardèche.
3 de março de 1840.
O tom da carta é muito familiar, o que deixa entrever que havia algum laço de amizade entre
o pároco de Saint-Marcel, perto de Voulte, e o Padre Champagnat. A referência que este faz aos
Irmãos das Escolas Cristãs, no penúltimo parágrafo da carta, parece indicar que o peticionário se
teria dirigido anteriormente àquela Congregação. Embora o projeto seja de bastante agrado para
Champagnat, a falta de pessoal categorizado o obriga a pedir um prazo de quatro ou cinco anos.
Senhor Pároco,
Recebemos a honrosa carta que nos dirigiu e na qual me comunica a boa vontade de
seu Conselho Municipal e a intenção de confiar a nossos Irmãos a educação cristã e religiosa
dos meninos de seu interessante município.
Desejamos ardentemente que prossiga de modo eficaz um projeto tão louvável e digno
de sua dedicação ao bem público.
Gostaríamos muito de ver nossos Irmãos exercerem suas funções tão importantes
quanto penosas, sob a direção de sua paternal bondade, e assim colaborar com os objetivos
benfazejos de sua judiciosa administração, mas não podemos, de imediato, atender a seu
pedido, porque os Irmãos que estavam disponíveis foram todos colocados e também porque
temos promessas de fundação a cumprir no prazo de vários anos.
Só poderíamos fornecer-lhe Irmãos no mínimo daqui a quatro ou cinco anos.
As condições em que constituímos as escolas são mais ou menos as mesmas do que as
dos Irmãos das Escolas Cristãs. A única exceção é que permitimos aos municípios receberem
uma contribuição mensal dos pais remediados, para cobrir uma parte dos custos do
estabelecimento.
Fico muito grato pela confiança com que o senhor honra nossa Sociedade. Rogo-lhe
aceitar nossos agradecimentos mais do que justos, como também a homenagem do respeitoso
devotamento com que tenho a honra de ser...
Champagnat
416
328 – Circular aos Irmãos
14 de março de 1840.
É a terceira Circular no espaço de três meses. Não sabemos as razões que determinaram o
Padre Champagnat a mandar esta Circular para anunciar a morte de um Irmão. Tem feito isto
raramente.
Uma das cópias se destina à escola de Bougé-Chambalud que o Irmão Siméon acaba de
iniciar, a 2 de janeiro passado, sem estar o Diretor de posse do "brevet".
O diploma? - Podemos pensar que o conseguiu na época em que estava sendo expedida a
Circular. Por isso é que o Irmão François foi indicado para pedir o Diploma, assim que o Diretor o
conquistasse. Mediante a apresentação do Diploma poderia o Irmão conseguir a autorização de
lecionar, na qualidade de "Instituteur communal", o que lhe daria direito a receber da Prefeitura.
E por que o Irmão François-Xavier?- Porque ele, como Diretor de La Côte-Saint-André,
tinha o Irmão Siméon como auxiliar. É a ele que o Irmão Siméon devia quanto antes fornecer os
dados de que fala o P.S. desta Circular. De posse dos documentos exigidos em lei, o Irmão Xavier
daria entrada ao processo junto às autoridades municipais. Outra razão deste modo de proceder
pode ainda ter sido a seguinte: La Côte está relativamente próxima de Vienne, onde o Irmão Siméon
se terá apresentado à Banca Examinadora.
Caríssimos Irmãos,
Nosso querido Irmão Jean-Pierre, acometido mais seriamente, desde algumas
semanas, de uma doença que o obrigou a se exercitar na paciência durante tantos anos, pagou
finalmente à natureza o tributo do qual nenhum mortal está isento. Faleceu aos oito dias deste
mês, em Firminy, onde foi Diretor durante dois anos. Os funerais foram celebrados com muita
solenidade lá mesmo. Na casa mãe cumprimos do melhor modo possível o que a santa Regra
prescreve em tais ocasiões Queiram, por favor, fazer o mesmo para o descanso eterno deste
bom Irmão, muito caro à nossa lembrança em razão de sua piedade e dedicação.
Caríssimos Irmãos, estejamos sempre preparados e vivamos de tal sorte que jamais a
morte nos pegue de surpresa. Como é feliz, como é ajuizado, aquele que procura manter-se
agora em tais disposições, como quereria que Deus o encontrasse, na hora derradeira!
Abraço-os afetuosamente nos sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Seu dedicado pai,
Champagnat
N.D. de l’Hermitage, 14 de março de 1840.
No exemplar da Circular que vai a Bougé-Chambalud, ao Diretor Ir. Siméon:
P.S. Mande ao Irmão François-Xavier esta nota com as seguintes observações:
1o) Seu nome e sobrenome.
2o) Lugar do nascimento, distrito e departamento.
3o) Dia do nascimento, a fim de que possa preencher o Diploma que logo lhe deve
remeter para conseguir sua autorização.
Tínhamos encarregado o Irmão François-Xavier de pedir seu Diploma. Sendo que
você receberá logo sua certidão de nascimento, você mesmo dará o recado e dirá ao Irmão de
não mais se incomodar.
417
329 - A Dom PHILIBERT DE BRUILLARD, bispo de
Grenoble.
22 de março de 1840.
Os Irmãos mantinham um orfanato em Saint-Nizier, Lião. O bispo de Grenoble queria
também que os Irmãos se encarregassem de uma instituição semelhante na cidade dele. Não temos a
carta de Dom Philibert nem o convênio com o orfanato de Saint-Nizier, que o Padre Champagnat
mandaria ao Bispo. Pouco importa, pois que não se falou mais desta projetada fundação para
Grenoble.
Exmo. Senhor bispo de Grenoble,
Talvez esteja eu atrasado em comunicar a V. Excia. as informações que pediu ao
Irmão Assistente de lhe passar, relativas ao nosso orfanato de Lião. Tê-lo-ia feito antes, mas
pensei, de acordo com a referência que chegou a meu conhecimento, que V. Excia. queria
manifestar-me suas intenções por escrito. Com o receio de que o senhor, pelo contrário, é que
ficasse esperando por uma resposta nossa, considero do meu dever submeter a V. Excia. o
exame das condições que acertamos com a administração encarregada do orfanato. Eu as
mandei transcrever textualmente, assim como foram redigidas e adotadas por uma e outra
parte.
Peço, Excia., o favor de examinar cuidadosamente os diversos artigos deste convênio.
Quero que sejam a base do ajuste que nos colocará na disposição de trabalhar, sob seus
auspícios, na caridosa obra que sua liberalidade fundou na cidade de Grenoble, em favor dos
indigentes e dos órfãos.
Desejo também receber agradecido as observações que V. Excia. houver por bem
comunicar-me e farei tudo o que depender de mim para condescender com seus desejos e
provar-lhe quanta gratidão a Sociedade de Maria lhe deve por todas as benemerências com
que V. Excia. se dignou honrá-la.
Sou, etc.
Champagnat
418
330 - Ao eminentíssimo senhor Cardeal HUGHES
ROBERT DE LATOUR D'AUVERGNE LAURAGUAIS,
bispo de Arras, Pas-de-Calais.
22 de março de 1840.
O Cardeal de La Tour D'Auvergne, ao receber do Padre Champagnat a carta de felicitações
e o pedido de intervir no processo de autorização legal do Instituto, (cf. Carta no 319), pediu que lhe
fornecesse o relatório sobre a situação das escolas maristas.
Champagnat responde que o relatório não adiantaria pois há uma “questão anterior”
alegada pelo Ministro, e para conseguir tirar a limpo qual seria a exigência do Ministro, o Padre
Champagnat se dispõe a mais uma - a última - tentativa, entrevistando o Arcebispo de Lião, Dom
Maurice De Bonald, que está para chegar à sua Arquidiocese e que, por meio do senhor Ardaillon,
ficou sabendo que a implicância do Ministro se relacionava com as associações religiosas que
atuavam na área do ensino.
Excia. Revma.,
Sua excelência o senhor Ministro da Instrução Pública, respondendo a uma carta que o
prefeito do Loire havia escrito no mês de janeiro, a respeito de nossa aprovação, observa que
ela está vinculada a uma questão " de ordem geral" ainda não julgada, cuja solução prévia é
indispensável.
Quando Dom De Bonald estava em Paris, ele conversou com o Ministro sobre o nosso
processo. Recebeu uma resposta semelhante. A mais disso, exigiram que S. Excia. visse
pessoalmente nossas casas e depois lavrasse um informe oficial sobre as mesmas.
Estando as coisas neste pé e ignorando qual seria esta "questão de ordem geral", ainda
não podemos encaminhar a V. Excia. o memorial que teve a bondade de solicitar por meio da
honrosa carta de 21 de fevereiro.
Pensamos redigi-lo de acordo com o parecer de nosso digníssimo Arcebispo, Dom De
Bonald, que provavelmente só virá à diocese depois da Páscoa. Talvez nos vejamos forçados a
admitir, só pro forma, os estatutos de uma Congregação já reconhecida, conservando porém
nosso nome e nossa independência.
Excia., agradeço de todo coração a honrosa proteção que o senhor tem a gentileza de
nos prometer. Considero-a um penhor seguro de êxito para o futuro. De Bonald, que nós
consultamos, pensa a mesma coisa que nós e promete trabalhar de acordo com V. Excia. para
conseguir a conclusão deste processo tão importante para nossa obra. Logo que nos for
possível, teremos pressa em fazer chegar até V. Excia. os documentos que espera de nossa
parte.
Digne-se V. Excia. receber os sentimentos de profundo respeito e da mais perfeita
gratidão com que eu sou ...
Champagnat
419
331 – Ao Padre JEAN-BAPTISTE CHAUMONT, Pároco
de Saint-Philibert, Tournus, Saône-et-Loire.
14 de abril de 1840.
Não são apenas as localidades mais retiradas que pedem Irmãos, mas também
algumas cidades. Alguns párocos fazem o pedido quando já foram tomadas quase todas as
medidas para o funcionamento da escola. Outros, mesmo antes de ter algum local em vista,
para sondar a possibilidade de efetuar o projeto, mais para a frente. É mais fácil então pedir
um prazo, enquanto a paróquia e a municipalidade providenciam o local e estipulam as
condições de manutenção da escola em perspectiva. Foi este o caso de Tournus, na diocese
de Dom Bénigne, bispo de Autun.
Senhor Pároco,
Associo-me de boa mente a seu digníssimo Bispo para aplaudir o piedoso projeto que
o senhor concebeu, de fundar um estabelecimento de Irmãos em sua paróquia.
Eu bem quisera atender imediatamente o pedido que o senhor fez por carta do dia três
deste mês, mas os compromissos que assumimos há muito tempo com vários municípios, não
nos permitem, no momento, acudir a seus desejos. Esta demora poderá, quem sabe,
oportunizar-lhe o meio de encontrar um local adequado para a sua escola, pois não é nosso
costume hospedar os Irmãos no presbitério.
O pagamento para dois Irmãos está marcado em mil francos anuais. Se o senhor
conseguir que o seu Conselho Municipal participe desta obra, será muito melhor. Com os
recursos que o senhor nos promete e o pagamento ordinário dos municípios, a cidade poderia
ter três Irmãos.
Tenho a honra de ser, senhor Pároco, etc.
Champagnat
420
332 – Ao Padre JEAN-BAPTISTE SALLANON, Pároco
de Craponne, Haute-Loire.
15 de abril de 1840.
Esta é uma resposta bem precisa a pequenos problemas surgidos no início da escola de
Craponne. O Padre Champagnat deixa às autoridades locais a incumbência de resolvê-los.
Senhor Pároco,
Aprovamos de boa mente que o município seja o proprietário da mobília dos Irmãos,
contanto que se responsabilize por sua conservação, segundo os termos de nosso prospecto.
Para prevenir as discussões por demais freqüentes neste assunto, será preciso que o município,
no caso de aceitar a doação da mobília, estipule ao mesmo tempo o pagamento de cem francos
anuais para a conservação.
Senhor Pároco, peço-lhe que tenha em conta as observações que lhe fez o Irmão
Visitador, a propósito da aula do Irmão Régis. Pois que o município não contribui em nada
para o quinto Irmão, parece-me que não é justo que reserve para si uma parte da contribuição
dos alunos que freqüentam esta aula particular. Além do mais, é no interesse da instituição
que o digo, dado que os pais se indispõem geralmente quando têm que pagar em dois lugares,
estarão menos dispostos a confiar seus filhos aos Irmãos. (sic)
Mas, esta aula superior pode dar prestígio ao estabelecimento e contribuir para mantê-
lo nas boas graças das autoridades. (sic) Espero que entrando em entendimento com o
município, o senhor acertará este caso.
Agradeço com a maior sinceridade por todas as benemerências que o senhor tem para
com nossos Irmãos. Rogo-lhe aceitar o respeitoso devotamento com que sou, Senhor
Pároco,...
421
333 – Ao senhor JEAN TACHON, prefeito de Vauban,
Saône-et-Loire.
25 de abril de 1840.
O prefeito ficou sabendo que o Irmão Cassien fora nomeado Diretor da escola de Vauban.
Como as ocupações dele não lhe permitiam que se ocupasse do ensino, o prefeito dirigiu-se ao Padre
Champagnat, pedindo-lhe que destacasse para Vauban um bom professor. Tais são os informes do
Irmão Avit, quando escreve os Anais de Vauban. A carta que segue é resposta ao prefeito.
Não sabemos se este acatou a observação do Padre Champagnat.
Senhor Prefeito,
Esperava levar-lhe pessoalmente a resposta à carta oficial que o senhor teve a
amabilidade de me escrever, na data de 3 de abril. Pelo que vejo, tenho que renunciar a esse
projeto; minhas indisposições me colocam na impossibilidade de empreender esta viagem.
Fico-lhe muito grato por sua boa vontade, assim como pela honrosa benevolência de
seu digno Conselho para com o estabelecimento de nossos Irmãos. É motivo para eu fazer
tudo o que estiver a meu alcance para corresponder a seus anseios e proporcionar-lhe uma boa
escola. Vou tratar de encontrar uma pessoa competente e em condições de fazer esta boa obra
dar certo.
Não sou de parecer que se dê início à aula neste momento. É a época em que os
trabalhos do campo requerem a cooperação da maior parte dos meninos; em conseqüência
haveria um número reduzido em aula e seria muito mais difícil iniciar o curso de maneira
proveitosa. O senhor pode fazer suas observações a respeito disto ao Irmão Visitador que deve
chegar em Vauban na primeira quinzena do mês que vem. Penso que, depois de ter refletido
sobre o caso, o senhor julgará como eu.
Queira aceitar a homenagem etc.
422
334 – Ao senhor Barão AMBROISE RENDU,
Presidente do Conselho Administrativo do Instituto
Real dos Surdos-Mudos, Paris, Seine.
25 de abril de 1840.
O Padre Champagnat agradece ao Barão Rendu por ele ter concedido a matrícula de dois
Irmãos no Instituto Real dos Surdos-Mudos. Diz mais: que está pensando em escolher quais serão os
dois Irmãos. Infelizmente o projeto não vingou. (cf. Cartas no 320 e 321).
Senhor Barão,
Fico-lhe muito grato pela boa vontade do Conselho Administrativo em admitir
gratuitamente dois de nossos Irmãos no Instituto Real dos Surdos-Mudos. Agradeço em
particular pela carta que o senhor teve a gentileza de enviar-me a respeito.
Estamos ocupados na escolha de dois candidatos que satisfaçam o objetivo do
Conselho e o nosso. Nós os submeteremos ao exame de que o senhor nos falou e não se
apresentarão ao Curso senão munidos dos Certificados exigidos. Quanto ao tempo de
permanência no Instituto, o nosso desejo como também o do Conselho, é que eles se
capacitem a cumprir suas funções convenientemente, e portanto que fiquem o tempo
necessário para apresentar-se aos Exames requeridos.
Deverão assumir os compromissos que forem determinados pelos Conselho
Administrativo. Quanto ao regulamento da casa, espero que terão a peito dar, em toda ocasião,
o exemplo de uma constante e exata fidelidade e que se sujeitarão a tudo o que se pratica no
Instituto.
Nada mais esperamos do que a confirmação de nosso pedido por S. Excia. o senhor
Ministro da Instrução Pública e então mandaremos os candidatos.
Queira aceitar a homenagem do profundo respeito, com que etc.
423
335 – Ao Padre JEAN-FRANÇOIS RÉGIS PEALA,
Pároco de Tence, Haute-Loire.
abril de 1840.
Na Carta de no 283, o Padre Champagnat tinha prometido mandar, sem falta, Irmãos para a
escola de Tence, em novembro do ano de 1840. Numa entrevista com o Superior do Seminário Maior
da diocese do Puy, mano do pároco Jean-François, ficou sabendo que a subvenção da
municipalidade era insuficiente para garantir a subsistência dos Irmãos.
Com a experiência mais do que comprovada que tinha, o Padre Champagnat dá ao pároco o
seu parecer sobre a situação e os expedientes que poderiam ser adotados para contorná-la.
Senhor Pároco,
Tivemos ocasião de nos encontrar com o Superior do Seminário Maior do Puy e de lhe
falar de seu estabelecimento. Ele nos disse que o município dava a entender que entraria com
uma subvenção de 600 francos, mas que à parte esta quantia, o senhor não teria outros
recursos senão através das contribuições mensais. Estou com muito receio que sua obra não
terá muita base, se contar só com esses "fundamentos". O município pode tornar-se menos
favorável e não contribuir mais do que com os 200 francos exigidos por lei. O número de
alunos pagantes pode cair sensivelmente e provocar deste modo um grande déficit na receita.
Há outro aspecto: a experiência nos demonstrou que os estabelecimentos que se vêem
reduzidos a esses únicos recursos desaparecem ou, no mínimo, se sustentam com muita
dificuldade.
Além disso, como a população é numerosa, são necessários de saída quatro Irmãos; e
como conseguir 1.000 francos com as contribuições dos alunos? Para que seu
empreendimento iniciasse com solidez, seria preciso que, além dos 600 francos do município,
o senhor conseguisse criar uma renda anual de mais 600, mediante a cooperação de pessoas
remediadas e caridosas. Deste modo, o pagamento de três Irmãos estaria garantido e o senhor
poderia ter duas classes de alunos gratuitos, coisa muito importante em qualquer localidade
onde a população é numerosa. Seria fácil conseguir fundos para o sustento de um quarto
Irmão, se houvesse uma terceira aula de alunos pagantes, filhos de pais remediados, e
escolares de um nível mais elevado.
Não vejo como o estabelecimento poderia iniciar-se de outra maneira, com chances de
dar certo.
Embora pequeno, o município de Saint-Julien de Molhesabate conseguiu criar uma
renda de 1000 francos em favor de seus meninos pobres. Será que o de Tence vai recuar
diante de 600 francos?
Há outra solução, talvez menos boa: O senhor poderia também criar uma situação
semelhante à que existe em Craponne. Lá o município se comprometeu a assegurar a
subsistência de quatro Irmãos e a cobrar dos alunos uma contribuição fixada em 75 cêntimos
para os principiantes e em 1,25 francos para os outros. O Conselho Municipal assinou
conosco um convênio que poderia servir para o seu município, com as modificações exigidas
pelo costume e as necessidades da região.
424
Ficaria sentido se tivesse que voltar atrás da promessa que lhe fiz, mas o que mais
desejo é que o senhor tome os meios de assegurar o êxito de sua obra. Seria triste começar
para vê-la periclitar logo a seguir. É para prevenir um tal desgosto que lhe faço essas
observações.
Tenho a honra...
Champagnat
425
336 - Ao Padre JEAN-MARIE MATHIAS DEBELAY,
Pároco de Nantua, Ain.
2 de maio de 1840.
Data de 18 de outubro de 1837 o pedido de Dom Raymond Devie, bispo de Belley, para que
l'Hermitage mandasse Irmãos para Nantua. (cf. Carta no 143). Em abril do ano seguinte, (cf. Carta no
189), o pedido partiu também do próprio pároco. O bispo voltou a insistir, a 4 de janeiro de 1839 (cf.
Carta no 239). O caso está mais do que maduro, para este ano de 1840.
Senhor Pároco,
O senhor encontrou o modo certo de conseguir Irmãos, com garantia e prontidão:
Garantir a fonte de pagamento da escola e torná-la gratuita. Como é muito mais fácil fazer o
bem em estabelecimentos desta natureza, damos sempre a preferência a estes e mantemos o
princípio de favorecê-los de uma maneira toda especial.
Desejo ardentemente que o senhor possa entender-se com o vice-prefeito
departamental, e também com o prefeito municipal. Sabemos por experiência que as coisas
andam sempre melhor quando os estabelecimentos são apreciados pelas autoridades civis, e
temos o costume de só iniciá-los depois de conseguir o parecer favorável das mesmas. Não
duvido que o senhor faça tudo o que depender do senhor para agir em conformidade com o
vice-prefeito departamental e o prefeito Municipal e fazer que se interessem por sua obra.
Então, estamos entendidos: Estando pronto o local, garantidos os recursos para o
mobiliário e confirmada a gratuidade da escola, nós lhe mandaremos os Irmãos na próxima
Festa de Todos os Santos. Mandarei visitar a sua casa no decorrer do verão e entraremos em
acordo para a confecção do mobiliário.
Receba meus protestos de respeitosa dedicação com que etc.
426
337 – Ao Padre ABEL XAVIER MÈGE, Arcipreste de
Morestel, Isère.
3 de maio de 1840.
O Padre Champagnat já está muito doente, de modo que esta carta, inspirada em seu modo
de pensar, não é de sua autoria. Terá sido escrita por um de seus secretários. Nela são muito
detalhadamente explicadas as condições em que são fundadas as escolas. No caso desta, os
fundadores podem contar com os Irmãos no começo de novembro de 1840, se as condições de
subsistência dos Irmãos estiverem garantidas. A carta faz muito claramente apelo à experiência de
outras escolas já em andamento: quando garantidas as fontes de pagamento e totalmente gratuitos os
alunos, os problemas são menores. Porém, em se tratando de subvenções das autoridades e de
pagamento de alunos, quer dos internos, quer dos provenientes de outros municípios, é preciso que
tudo seja de antemão previsto e ordenado.
O Padre Xavier Mège não desanimou com a complexidade dos problemas que lhe eram
apontados. Em 22 de julho de 1851 voltou a pedir três Irmãos para o final do ano. Mas, somente o
segundo sucessor dele conseguiu Irmãos, 35 anos mais tarde, em 1875.
Senhor Pároco,
Eu estaria realmente disposto a aceitar o seu pedido, se sua escola tivesse um lastro e
fosse gratuita. Não hesitamos nunca quando se trata de tais escolas, porque aí é mais fácil e
garantido fazer o bem. Foi assim que, por haver fundação, aceitamos o pedido que nos fez o
município de Bougé-Chambalud, embora fosse bem posterior a outros. Pode então contar com
o envio de nossos Irmãos na próxima Festa de Todos os Santos, no caso de sua escola ser
gratuita, ser paga por uma fundação ou por um contrato municipal. Se o senhor se achar na
contingência de contar só com as contribuições mensais e a subvenção municipal de 200
francos, nós vamos ficar muito contrariados, visto que as localidades que nos oferecem uma
escola gratuita esgotarão, e de muito, nossas reservas em pessoal capacitado. Haveremos
certamente de fazer o que depender de nós, mas não podemos garantir, pelo menos para a
próxima Festa de Todos os Santos.
Por favor, comunique-nos quais os recursos disponíveis se não for possível sua escola
ser completamente gratuita. Saberemos assim, pelo menos, qual a base de manutenção do
estabelecimento e poderemos dar uma resposta de acordo.
A experiência nos ensinou que não podemos começar um estabelecimento senão
quando tudo estiver pronto e a subsistência dos Irmãos garantida, seja qual for a modalidade.
Um edifício já é alguma coisa, mas não é tudo. Se fosse só esta a condição, teríamos de
imediato cem municípios a contentar, já, e que pediram até antes de Morestel. Desejo que
prossiga na luta em prol desta boa obra, apesar das dificuldades que possa encontrar. Será até
mais sólida por se ter constituído devagar e penosamente.
Com profundo respeito etc.
Champagnat
427
338 – Ao Padre JEAN-FRANÇOIS RÉGIS PEALA,
Pároco de Tence, Haute-Loire.
3 de maio de 1840.
As condições das quais se fala na Carta no 335, na realidade não se adaptaram bem à cidade
de Tence. Como foi anotado atrás, os Irmãos demoraram um século para aparecer e atuar naquela
cidade.
Antes de nós, foram os Irmãos do Sagrado Coração, que lá permaneceram até 1903, quando
as leis sectárias de Combes expulsaram da França os religiosos dedicados ao ensino. Retomaram as
atividades em 1917, permanecendo até 1938. Foi então que os Maristas continuaram a ministrar a
educação cristã aos meninos da quarta e quinta gerações.
Senhor Pároco,
Quando insinuamos que as condições estabelecidas com Craponne poderiam servir de
base ao convênio que podemos fazer com o município de Tence, não tivemos em mente
afirmar que seriam exatamente iguais. A cidade de Craponne ofereceu um local adequado para
receber um grande número de internos com uma mobília suficiente para isto. E tem mais: O
estabelecimento se encontra na posição de receber um grande número de internos. Como a
cidade de Tence não pode oferecer-nos as mesmas vantagens, é indispensável modificar o
convênio feito com a cidade de Craponne, para adaptá-lo às condições de Tence.
1. Não podemos mandar para Tence menos de quatro Irmãos.
2. Em vista disto, é condição essencial que o município se comprometa a garantir um
pagamento de 1.600 francos anuais.
3. Que não reserve nenhuma porcentagem do que pagarem os internos, se houver; nem
dos alunos das paróquias vizinhas, caso se apresentem alguns.
4. Não vemos que o estabelecimento seja viável; as escolas não são gratuitas, como
deveriam ser pelo menos em parte, conforme lhe explicamos na última carta.
É importante que nos entendamos sobre esses diversos pontos e que cheguemos a um
acordo, tanto quanto possível. Quanto mais vivência vamos adquirindo, mais sentimos a
necessidade de ter de antemão uma garantia do pagamento dos Irmãos, por modesto que seja.
Sabemos por experiência que somente as escolas gratuitas na sua totalidade ou pelo menos em
boa parte são as que se sustentam e conseguem sobreviver.
Tenho a honra de ser, com o mais profundo respeito etc.
Champagnat
428
339 – Ao Padre PIERRE BERNARD HUGONY, Pároco
de Prés-Saint-Gervais, Paris, Seine.
3 de maio de 1840.
A carta do pároco de Saint-Gervais, de Paris, deu ao Padre Champagnat a ocasião de
reconhecer outra grande carência, desta vez não tanto no sentido material. O bem-estar e o conforto
das grandes cidades podem, infelizmente, ajudar a espalhar mais depressa os maus costumes, ao
passo que os trabalhos do campo favorecem a saúde física e moral. É pena não termos a carta do Pe.
Hugony.
Senhor Pároco,
Muito grandes são as necessidades de sua paróquia, o quadro que delas o senhor nos
traça atinge nosso íntimo e nos entristece sobremaneira, mas apesar de toda a boa vontade que
tivéssemos para acudir a seu zelo, encontramo-nos na impossibilidade de o fazer, por ora.
Os compromissos que contraímos com vários municípios, faz muito tempo, esgotaram
nossas reservas de pessoal, muito além do que se podia prever. Embora o mal talvez não seja
tão medonho em nossas regiões, há muitas paróquias em que o zelo dos pastores tem muita
necessidade de ser amparado pela influência de uma escola cristã e religiosa, para impedir que
o contágio do mal se generalize. Quanto lastimamos não podermos acudir a todas as
necessidades e não podermos atender a tantos pedidos que nos chegam!
Por outro lado, senhor Pároco, para ser viável um estabelecimento tão afastado e, por
isso mesmo, sujeito a outras grandes despesas precisaria ter reservas que sua carta não parece
mencionar.
Digne-se o bom Deus proporcionar a seu zelo os recursos para realizar obra tão
importante e necessária e, a nós, o meio de corrermos em auxílio de seus caridosos projetos.
Tenho a honra etc.
Champagnat
429