La�os de Fam�lia

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La�os de Fam�lia Powered By Docstoc
					                                                                 Ali me ouvem os troncos namorados,
1. Cláudio Manuel da Costa                                       Em que se transformou a antiga gente;
                                                                 Qualquer deles o seu estrago sente;
                                                                 Como eu sinto também os meus cuidados.
Introdutor do Arcadismo no Brasil com Obras Poéticas
(1768), Cláudio estudou em Coimbra, onde testemunhou a           Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia
fundação da Arcádia Lusitana. Rico advogado, trabalhou na        Firmes vos contemplastes, e seguros
sua Mariana natal e estabeleceu-se em Vila Rica, onde            Nos braços de uma bela companhia;
reuniu em torno de si os intelectuais da região. Chegou a
fundar, em 1768, uma Arcádia Ultramarina. Ainda muito            Consolai-vos comigo, ó troncos duros;
preso às imagens, segundo ele mesmo, exageradas do               Que eu alegre algum tempo assim me via;
Barroco, e sem conseguir se desligar das "pedras", do            E hoje os tratos de Amor choro perjuros.
cenário inóspito de sua região natal, Cláudio foi um poeta de
transição. Adota o pseudônimo de Glauceste Satúrnio e
revela-se frustrado com sua própria obra: "vejo e aprovo o       V
melhor, mas sigo contrário na execução". Foi, no entanto,        Se sou pobre pastor, se não governo
fundamental para a propagação das idéias neoclássicas no         Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Brasil. Foi preso em 1789, acusado de reunir os conjurados       Se em frio, calma, e chuvas inclementes
da Inconfidência Mineira. Após delatar seus companheiros é       Passo o verão, outono, estio, inverno;
encontrado morto em sua cela na Casa dos Contos, em Vila
Rica. Seu suicídio é até hoje nebuloso.                          Nem por isso trocara o abrigo terno
                                                                 Desta choça, em que vivo, coas enchentes
O autor retrata sua melancolia, tristeza e sofrimento, pela      Dessa grande fortuna: assaz presentes
rejeição da mulher amada e pelos constantes conflitos            Tenho as paixões desse tormento eterno.
internos vivenciados.
Entre os temas apresentados, o poeta fala da paisagem,           Adorar as traições, amar o engano,
relacionando pedras e suas variantes. Há em seus versos          Ouvir dos lastimosos o gemido,
penhas, penedos, penhascos, rochedos, paisagem sombria e         Passar aflito o dia, o mês, e o ano;
crepuscular. Isto nos faz lembrar de sua difícil luta pelos
ideais de liberdade e da perda da mulher amada. Vivia em         Seja embora prazer; que a meu ouvido
uma eterna e constante decepção amorosa. A paisagem no           Soa melhor a voz do desengano,
livro é o retrato do seu estado de espírito.                     Que da torpe lisonja o infame ruído.
A linguagem dos sonetos é rebuscada, cheia de recursos
estilísticos e figuras de linguagem definindo o que vivencia.    Onde estou? Este sítio desconheço:
Sonetos com imensa riqueza vocabular que retratam uma            Quem fez tão diferente aquele prado?
vida de tristezas, lutas, decepções.                             Tudo outra natureza tem tomado;
O poeta admite a contradição que existe entre o ideal poético    E em contemplá-lo tímido esmoreço.
e a realidade de sua obra. Com efeito, se os poemas estão
cheios de pastores - comprovando o projeto de literatura         Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
árcade - o seu gosto pela antítese e a preferência pelo soneto   De estar a ela um dia reclinado:
indicam a herança de uma tradição que remonta ao Camões          Ali em vale um monte está mudado:
lírico e à poesia portuguesa do século XVII.                     Quanto pode dos anos o progresso!
Pastores, que levais ao monte o gado,                            Árvores aqui vi tão florescentes,
Vêde lá como andais por essa serra;                              Que faziam perpétua a primavera:
Que para dar contágio a toda a terra,                            Nem troncos vejo agora decadentes.
Basta ver se o meu rosto magoado:
                                                                 Eu me engano: a região esta não era:
Eu ando (vós me vedes) tão pesado;                               Mas que venho a estranhar, se estão presentes
E a pastora infiel, que me faz guerra,                           Meus males, com que tudo degenera!
É a mesma, que em seu semblante encerra
A causa de um martírio tão cansado.                              Este é o rio, a montanha é esta,
                                                                 Estes os troncos, estes os rochedos;
Se a quereis conhecer, vinde comigo,                             São estes inda os mesmos arvoredos;
Vereis a formosura, que eu adoro;                                Esta é a mesma rústica floresta.
Mas não; tanto não sou vosso inimigo:
                                                                 Tudo cheio de horror se manifesta,
Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;                          Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,                          Que de amor nos suavíssimos enredos
Chorareis, ó pastores, o que eu choro.                           Foi cena alegre, e urna é já funesta.

                                                                 Oh quão lembrado estou de haver subido
IV                                                               Aquele monte, e as vezes, que baixando
Sou pastor; não te nego; os meus montados                        Deixei do pranto o vale umedecido!
São esses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a relva florescente                              Tudo me está a memória retratando;
A doce companhia dos meus gados;                                 Que da mesma saudade o infame ruído
                                                                 Vem as mortas espécies despertando.
Nise ? Nise ? onde estás ? Aonde espera
Achar te uma alma, que por ti suspira,             2. Gonçalves Dias
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar te desespera!              Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática
                                                   "americana", isto é, de incorporação dos assuntos e
Ah se ao menos teu nome ouvir pudera               paisagens brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-
Entre esta aura suave, que respira!                se para a terra natal, marcando assim a nossa independência
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.               em relação a Portugal. Ao lado da natureza local, recorreu
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.             aos temas em torno do indígena, o homem americano
                                                   primitivo, tomado como o protótipo de brasileiro,
Grutas, troncos, penhascos da espessura,           desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,   movimento do "Indianismo". Os indígenas, com suas lendas
Mostrai, mostrai me a sua formosura.               e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua
                                                   fusão com o branco, ofereceram-lhe um mundo rico de
Nem ao menos o eco me responde!                    significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a
Ah como é certa a minha desventura!                buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento
Nise ? Nise ? onde estás ? aonde ? aonde ?         da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o
                                                   Indianismo. A obra indianista está contida nas "Poesias
Quem deixa o trato pastoril amado                  americanas" dos Primeiros cantos, nos Segundos cantos e
Pela ingrata, civil correspondência,               Últimos cantos, sobretudo nos poemas "Marabá", "Leito de
Ou desconhece o rosto da violência,                folhas verdes", "Canto do piaga", "Canto do tamoio", "Canto
Ou do retiro a paz não tem provado.                do guerreiro" e "I-Juca-Pirama", este talvez o ponto mais
                                                   alto da poesia indianista. É uma das obras-primas da poesia
Que bem é ver nos campos transladado               brasileira, graças ao conteúdo emocional e lírico, à força
No gênio do pastor, o da inocência!                dramática, ao argumento, à linguagem, ao ritmo rico e
E que mal é no trato, e na aparência               variado, aos múltiplos sentimentos, à fusão do poético, do
Ver sempre o cortesão dissimulado!                 sublime, do narrativo, do diálogo, culminando na grandeza
                                                   da maldição do pai ao filho que chorou na presença da
Ali respira amor sinceridade;                      morte.
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna, que soçobre;                   Não me deixes!
Aqui quanto se observa, é variedade:
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!               Debruçada nas águas dum regato
                                                   A flor dizia em vão
                                                   À corrente, onde bela se mirava:
                                                   "Ai, não me deixes, não!

                                                   "Comigo fica ou leva-me contigo
                                                   "Dos mares à amplidão;
                                                   "Límpido ou turvo, te amarei constante;
                                                   "Mas não me deixes, não!"

                                                   E a corrente passava; novas águas
                                                   Após as outras vão;
                                                   E a flor sempre a dizer curva na fonte:
                                                   "Ai, não me deixes, não!"

                                                   E das águas que fogem incessantes
                                                   À eterna sucessão
                                                   Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
                                                   "Ai, não me deixes, não!"

                                                   Por fim desfalecida e a cor murchada,
                                                   Quase a lamber o chão,
                                                   Buscava inda a corrente por dizer-lhe
                                                   Que a não deixasse, não.

                                                   A corrente impiedosa a flor enleia,
                                                   Leva-a do seu torrão;
                                                   A afundar-se dizia a pobrezinha:
                                                   "Não me deixaste, não!"

                                                   Seus olhos

                                                   Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
                                                   De vivo luzir,
                                                   Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;                                Meu anjo, escuta: quando junto à noite
                                                 Perpassa a brisa pelo rosto teu,
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,     Como suspiro que um menino exala;
Têm meiga expressão,                             Na voz da brisa quem murmura e fala
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta   Brando queixume, que tão triste cala
De noite cantando, — mais doce que a frauta      No peito teu?
Quebrando a solidão,                             Sou eu, sou eu, sou eu!

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,     Quando tu sentes lutuosa imagem
De vivo luzir,                                   D'aflito pranto com sombrio véu,
São meigos infantes, gentis, engraçados          Rasgado o peito por aeerbas dores;
Brincando a sorrir.                              Quem murcha as flores
                                                 Do brando sonho? — Quem te pinta amores
São meigos infantes, brincando, saltando         Dum puro céu?
Em jogo infantil,                                Sou eu, sou eu, sou eu!    ...
Inquietos, travessos; — causando tormento,       Se se morre de amor
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.                                 Se se morre de amor! — Não, não se morre,
                                                 Quando é fascinação que nos surpreende
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,     De ruidoso sarau entre os festejos;
Assim é que são;                                 Quando luzes, calor, orquestra e flores
Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos,           Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Às vezes vulcão!                                 Que embelezada e solta em tal ambiente
                                                 No que ouve, e no que vê prazer alcança!
...
                                                 Simpáticas feições, cintura breve,
Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,         Graciosa postura, porte airoso,
De vivo fulgor;                                  Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,       Um quê mal definido, acaso podem
Que falam de amores com tanta poesia,            Num engano d'amor arrebatar-nos.
Com tanto pudor.                                 Mas isso amor não é; isso é delírio,
                                                 Devaneio, ilusão, que se esvaece
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,     Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Assim é que são;                                 Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Eu amo esses olhos que falam de amores           Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
Com tanta paixão.                                D'amor igual ninguém sucumbe à perda.

Olhos verdes                                     Amor é vida; é ter constantemente
                                                 Alma, sentidos, coração — abertos
São uns olhos verdes, verdes,                    Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
Uns olhos de verde-mar,                          D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Quando o tempo vai bonança;                      Compr'ender o infinito, a imensidade,
Uns olhos cor de esperança,                      E a natureza e Deus; gostar dos campos,
Uns olhos por que morri;                         D'aves, flores, murmúrios solitários;
Que ai de mim!                                   Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
Nem já sei qual fiquei sendo                     E ter o coração em riso e festa;
Depois que os vi!                                E à branda festa, ao riso da nossa alma
                                                 Fontes de pranto intercalar sem custo;
Como duas esmeraldas,                            Conhecer o prazer e a desventura
Iguais na forma e na cor,                        No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
Têm luz mais branda e mais forte,                O ditoso, o misérrimo dos entes;
Diz uma — vida, outra — morte;                   Isso é amor, e desse amor se morre!
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mim!                                   Ainda uma vez — Adeus
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!                                I
...                                              Enfim te vejo! — enfim posso,
Dizei vós, ó meus amigos,                        Curvado a teus pés, dizer-te,
Se vos perguntam por mim,                        Que não cessei de querer-te,
Que eu vivo só da lembrança                      Pesar de quanto sofri.
De uns olhos cor de esperança,                   Muito penei! Cruas ânsias,
De uns olhos verdes que vi!                      Dos teus olhos afastado,
Que ai de mim!                                   Houveram-me acabrunhado
Nem já sei qual fiquei sendo                     A não lembrar-me de ti!
Depois que os vi!
                                                 II
Meu anjo, escuta                                 Dum mundo a outro impelido,
                                                 Derramei os meus lamentos
                                                 Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!          Tanta ilusão me afagava
Baldão, ludíbrio da sorte         De noite, quando acordava,
Em terra estranha, entre gente,   De dia em sonhos talvez!
Que alheios males não sente,      Tudo isso agora onde pára?
Nem se condói do infeliz!         Onde a ilusão dos meus sonhos?
                                  Tantos projetos risonhos,
III                               Tudo esse engano desfez!
Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,           XII
Tomou-me tédio da vida,           Enganei-me!... — Horrendo caos
Passos da morte senti;            Nessas palavras se encerra,
Mas quase no passo extremo,       Quando do engano, quem erra.
No último arcar da esp'rança,     Não pode voltar atrás!
Tu me vieste à lembrança:         Amarga irrisão! reflete:
Quis viver mais e vivi!           Quando eu gozar-te pudera,
                                  Mártir quis ser, cuidei qu'era...
IV                                E um louco fui, nada mais!
Vivi; pois Deus me guardava       ...
Para este lugar e hora!           XV
Depois de tanto, senhora,         És doutro agora, e pr'a sempre!
Ver-te e falar-te outra vez;      Eu a mísero desterro
Rever-me em teu rosto amigo,      Volto, chorando o meu erro,
Pensar em quanto hei perdido,     Quase descrendo dos céus!
E este pranto dolorido            Dói-te de mim, pois me encontras
Deixar correr a teus pés.         Em tanta miséria posto,
                                  Que a expressão deste desgosto
V                                 Será um crime ante Deus!
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?         XVI
Pois tanto pôde o desgosto        Dói-te de mim, que t'imploro
Transformar o rosto meu?          Perdão, a teus pés curvado;
Sei a aflição quanto pode,        Perdão!... de não ter ousado
Sei quanto ela desfigura,         Viver contente e feliz!
E eu não vivi na ventura...       Perdão da minha miséria,
Olha-me bem, que sou eu!          Da dor que me rala o peito,
                                  E se do mal que te hei feito,
VI                                Também do mal que me fiz!
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?         XVII
Deste-me amor, e a vida           Adeus qu'eu parto, senhora;
Que me darias — bem sei;          Negou-me o fado inimigo
Mas lembrem-te aqueles feros      Passar a vida contigo,
Corações, que se meteram          Ter sepultura entre os meus;
Entre nós; e se venceram,         Negou-me nesta hora extrema,
Mal sabes quanto lutei!           Por extrema despedida,
                                  Ouvir-te a voz comovida
VII                               Soluçar um breve Adeus!
Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,        XVIII
Como um alvo à populaça,          Lerás porém algum dia
Um alvo aos dictérios seus!       Meus versos d'alma arrancados,
Devera, podia acaso               D'amargo pranto banhados,
Tal sacrifício aceitar-te         Com sangue escritos; — e então
Para no cabo pagar-te,            Confio que te comovas,
Meus dias unindo aos teus?        Que a minha dor te apiade
                                  Que chores, não de saudade,
IX                                Nem de amor, — de compaixão,
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,      Leito de folhas verdes
Arfa-te o peito, e no entanto     Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
Nem me podes encarar;             À voz do meu amor moves teus passos?
Erro foi, mas não foi crime,      Da noite a viração, movendo as folhas,
Não te esqueci, eu to juro:       Já nos cimos do bosque rumoreja.
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!        Eu sob a copa da mangueira altiva
                                  Nosso leito gentil cobri zelosa
...                               Com mimoso tapiz de folhas brandas,
XI                                Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Tantos encantos me tinham,
...                                                Jamais um guerreiro da minha arazóia
A flor que desabrocha ao romper d'alva             Me desprenderá:
Um só giro do sol, não mais, vegeta:               Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Eu sou aquela flor que espero ainda                Que sou Marabá!
Doce raio do sol que me dê vida.
                                                   O canto do guerreiro
Sejam vales ou montes, lago ou terra,              I
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,             Aqui na floresta
Vai seguindo após ti meu pensamento;               Dos ventos batida,
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!            Façanhas de bravos
                                                   Não geram escravos,
Meus olhos outros olhos nunca viram,               Que estimem a vida
Não sentiram meus lábios outros lábios,            Sem guerra e lidar.
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas            — Ouvi-me, Guerreiros,
A arazóia na cinta me apertaram.                   — Ouvi meu cantar.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,               II
Já solta o bogari mais doce aroma                  Valente na guerra,
Também meu coração, como estas flores,             Quem há, como eu sou?
Melhor perfume ao pé da noite exala!               Quem vibra o tacape
                                                   Com mais valentia?
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes            Quem golpes daria
À voz do meu amor, que em vão te chama!            Fatais, como eu dou?
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil              — Guerreiros, ouvi-me;
A brisa da manhã sacuda as folhas!                 — Quem há, como eu sou?
                                                   ...
Marabá                                             IV
                                                   Quem tantos imigos
Eu vivo sozinha, ninguém me procura!               Em guerras preou?
Acaso feitura                                      Quem canta seus feitos
Não sou de Tupá!                                   Com mais energia?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:   Quem golpes daria
— "Tu és", me responde,                            Fatais, como eu dou?
"Tu és Marabá!"                                    — Guerreiros, ouvi-me:
                                                   — Quem há, como eu sou?
— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;         V
— Imitam as nuvens de um céu anilado,              Na caça ou na lide,
— As cores imitam das vagas do mar!                Quem há que me afronte?!
                                                   A onça raivosa
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:    Meus passos conhece,
"Teus olhos são garços", (azul-verde)              O imigo estremece,
Responde anojado, "mas és Marabá:                  E a ave medrosa
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,       Se esconde no céu.
"Uns olhos fulgentes,                              — Quem há mais valente,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"           — Mais destro que eu?
                                                   ...
— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;                 Canção do Tamoio (Natalícia)
— As aves mais brancas, as conchas mais puras      I
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.       Não chores, meu filho;
                                                   Não chores, que a vida
— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,          É luta renhida:
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;             Viver é lutar.
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram      A vida é combate,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!       Que os fracos abate,
                                                   Que os fortes, os bravos
Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,          Só pode exaltar.
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:                   II
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,         Um dia vivemos!
"Cabelos compridos,                                O homem que é forte
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá,"            Não teme da morte;
                                                   Só teme fugir;
E as doces palavras que eu tinha cá dentro         No arco que entesa
A quem nas direi?                                  Tem certa uma presa,
O ramo d'acácia na fronte de um homem              Quer seja tapuia,
Jamais cingirei:                                   Condor ou tapir.
                                             Mudos os lábios não descerram queixas
III                                          do coração.
O forte, o cobarde                           Mas um martírio, que encobrir não pode,
Seus feitos inveja                           em rugas faz
De o ver na peleja                           A mentirosa placidez do rosto
Garboso e feroz;                             na fronte audaz!
E os tímidos velhos                          ...
Nos graves concelhos,                        Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
Curvadas as frontes,                         no passo horrendo?
Escutam-lhe a voz!                           Honra das tabas que nascer te viram,
                                             folga morrendo.
VI                                           ...
Teu grito de guerra                          Folga morrendo; porque além dos Andes
Retumbe aos ouvidos                          revive o forte,
D'imigos transidos                           Que soube ufano contrastar os medos
Por vil comoção;                             da fria morte.
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo                            III
Das setas ligeiras,                          Em larga roda de novéis guerreiros
Pior que o trovão.                           Ledo caminha o festival Timbira,
...                                          A quem do sacrifício cabe as honras.
VIII                                         Vem a terreiro o mísero contrário;
Porém se a fortuna,                          Do colo à cinta a muçurana desce:
Traindo teus passos,                         ―Dize-nos quem és, teus feitos canta,
Te arroja nos laços                          ―Ou se mais te apraz, defende-te.‖ Começa
Do inimigo falaz!                            O índio, que ao redor derrama os olhos,
Na última hora                               Com triste voz que os ânimos comove.
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,                        IV
Impávido, audaz.                             Meu canto de morte,
                                             Guerreiros, ouvi:
I-Juca-Pirama                                Sou filho das selvas,
I                                            Nas selvas cresci;
No meio das tabas de amenos verdores,        Guerreiros, descendo
Cercadas de troncos — cobertos de flores,    Da tribo Tupi.
Alteiam-se os tetos d'altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,   Da tribo pujante,
...                                          Que agora anda errante
                                             Por fado inconstante,
São rudos, severos, sedentos de glória,      Guerreiros, nasci;
Já prélios incitam, já cantam vitória,       Sou bravo, sou forte,
...                                          Sou filho do Norte;
                                             Meu canto de morte,
E os moços inquietos, que a festa enamora,   Guerreiros, ouvi.
Derramam-se em torno dum índio infeliz.      ...
...                                          Meu pai a meu lado
Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto,   Já cego e quebrado,
Sua tribo não diz: — de um povo remoto       De penas ralado,
Descende por certo — dum povo gentil;        Firmava-se em mi:
...                                          Nós ambos, mesquinhos,
Acerva-se a lenha da vasta fogueira,         Por ínvios caminhos,
...                                          Cobertos d'espinhos
O índio já querem cativo acabar:             Chegamos aqui!
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,    ...
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar.        Eu era o seu guia
                                             Na noite sombria,
II                                           A só alegria
Em fundos vasos d'alvacenta argila           Que Deus lhe deixou:
ferve o cauim;                               Em mim se apoiava,
Enchem-se as copas, o prazer começa,         Em mim se firmava,
reina o festim.                              Em mim descansava,
O prisioneiro, cuja morte anseiam,           Que filho lhe sou.
sentado está,                                ...
O prisioneiro, que outro sol no ocaso        Deixa-me viver!
jamais verá!                                 ...
...                                          Não vil, não ignavo,
Contudo os olhos d'ignóbil pranto            Mas forte, mas bravo,
secos estão;                                 Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.                               Ao velho Tupi guerreiro
...                                           Responde com torvo acento:
V                                             — Nada farei do que dizes:
Soltai-o! — diz o chefe. Pasma a turba;       É teu filho imbele e fraco!
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,          Aviltaria o triunfo
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!        Da mais guerreira das tribos
Brada segunda vez com voz mais alta,          Derramar seu ignóbil sangue:
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,        Ele chorou de cobarde;
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo,
                                              VIII
— Mentiste, que um Tupi não chora nunca,      ―Tu choraste em presença da morte?
E tu choraste!... parte; não queremos         Na presença de estranhos choraste?
Com carne vil enfraquecer os fortes.          Não descende o cobarde do forte;
                                              Pois choraste, meu filho não és!
VI                                            Possas tu, descendente maldito
— Filho meu, onde estás?                      De uma tribo de nobres guerreiros,
— Ao vosso lado;                              Implorando cruéis forasteiros,
Aqui vos trago provisões: tomai-as,           Seres presa de vis Aimorés.
As vossas forças restaurar perdidas,
E a caminho, e já!                            ...―Não encontres amor nas mulheres,
— Tardaste muito!                             Teus amigos, se amigos tiveres,
...                                           Tenham alma inconstante e falaz!
Conhece estremecendo: — foge, volta,
encontra sob as mãos o duro crânio,           ...―Não encontres um tronco, uma pedra,
Despido então do natural ornato!...           Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
...                                           Padecendo os maiores tormentos,
— Tu prisioneiro, tu?                         Onde possas a fronte pousar.
— Vós o dissesses.
— Dos índios?                                 ―Que a teus passos a relva se torre;
— Sim.                                        Murchem prados, a flor desfaleça,
— De que nação?                               E o regato que límpido corre,
— Timbiras                                    Mais te acenda o vesano furor;
...                                           Suas águas depressa se tornem,
— Nada fiz... aqui estou.                     Ao contacto dos lábios sedentos,
— Nada! —                                     Lago impuro de vermes nojentos,
                                              Donde festas como asco e terror!
Emudecem;
Curto instante depois prossegue o velho:      ...―Um amigo não tenhas piedoso
— Tu és valente, bem o sei; confesso,         Que o teu corpo na terra embalsame,
Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo!       Pondo em vaso d'argila cuidoso
— Nada fiz; mas souberam da existência        Arco e frecha e tacape a teus pés!
De um pobre velho, que em mim só vivia...     Sé maldito, e sozinho na terra;
— E depois?...                                Pois que a tanta vileza chegaste,
—Eis-me aqui.                                 Que em presença da morte choraste,
—Fica essa taba?                              Tu, cobarde, meu filho não és."
— Na direção do sol, quando transmonta.
— Longe?                                      IX
— Não muito.                                  ...
— Tens razão: partamos.                       - Alarma! alarma! - O velho para.
— E quereis ir?...                            O grito que escutou é voz do filho,
— Na direção do ocaso.                        Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
                                              ...
VII                                           Desfaz-se agora em pranto copioso,
―Por amor de um triste velho,                 Que o exaurido coração remoça.
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedesses                  A taba se alborota, os golpes descem,
A vida a um prisioneiro.                      Gritos, imprecações profundas soam,
Ação tão nobre vos honra,                     ...
...                                           Vozes, gemidos, estertor de morte
―Eu porém nunca vencido,                      Vão longe pelas ermas serranias
Nem os combates por armas                     ...
Nem por nobreza nos atos;                     — Basta! clama o chefe dos Timbiras,
Aqui venho, e o filho trago.                  — Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste,
Vós o dizeis prisioneiro,                     E para o sacrifício é mister forças. -
Seja assim como dizeis;                       O guerreiro parou, caiu nos braços
Manda! vir a lenha, o fogo,                   Do velho pai, que o cinge contra o peito,
...                                           Com lágrimas de júbilo bradando:
Mas o chefe dos Timbiras,                     ―Este, sim, que é meu filho muito amado!
Os sobrolhos encrespando,
―E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
―Corram livres as lágrimas que choro,
                                                III – JOSÉ DE ALENCAR
―Estas lágrimas, sim, que não desonram.‖        SENHORA
X                                               Senhora é um romance passado na primeira metade do
                                                século XIX e que expõe ao leitor, como pano de fundo,
Um velho Timbira, coberto de glória,
guardou a memória                               valores e costumes da aristocracia escravista do
Do moço guerreiro, do velho Tupi!               Segundo Reinado. O romance conta-nos a vida de uma
                                                bela moça desiludida e rancorosa , chamada Aurélia
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava        Camargo. Aurélia passou uma infância pobre junto à
do que ele contava,                             mãe doente e um irmão que veio a falecer na
Dizia prudente: - ―Meninos, eu vi!              adolescência. Narrado em terceira pessoa; o romance é
                                                escrito em quatro partes e não obedece uma ordem
                                                cronológica, isto é, a primeira parte ( O Preço), narra
                                                os episódios atuais, enquanto que a Segunda parte
Minha terra tem palmeiras,
                                                (Quitação), fala-nos do passado de Aurélia, seguem os
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,                     capítulos: Posse e Resgate. Aurélia foi o fruto da união
Não gorjeiam como lá.                           entre o filho de um rico fazendeiro e uma órfã pobre.
                                                Seu pai, Pedro de Sousa Camargo, era o filho natural
                                                de Lourenço de Sousa Camargo, um homem
Nosso céu tem mais estrelas,                    prepotente e severo que vivia isolado em suas terras.
Nossas várzeas têm mais flores,                 Lourenço, apesar de não reconhecer o filho como
Nossos bosques têm mais vida,                   herdeiro, mantinha-o no Rio de Janeiro com uma boa
Nossa vida mais amores.                         vida enquanto estudava Medicina. Foi na corte que
                                                Pedro conheceu a mãe de Aurélia, Emília Lemos,
                                                pobre e órfã e por quem apaixonou-se . Emília morava
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;                     com um irmão mais velho, Manuel José Correia Lemos
Minha terra tem palmeiras,                      que, tão logo soube do romance entre a irmã e o
Onde canta o Sabiá.                             estudante, oportunistamente tratou de exigir do moço
                                                um documento que legitimasse sua condição de
                                                herdeiro se quisesse casar com Emília. Diante desta
Minha terra tem primores,                       impossibilidade devido à conflituosa relação que
Que tais não encontro eu cá;                    mantinha com o pai, Pedro decidiu fugir e casar às
Em cismar — sozinho, à noite —                  escondidas com Emília . O velho Lourenço, sabendo
Mais prazer encontro eu lá;                     que o filho vivia com uma moça de família raptada,
Minha terra tem palmeiras,
                                                ordenou-lhe que largasse a Corte e regressasse à
Onde canta o Sabiá.
                                                fazenda. Pedro manteve em segredo sua paixão assim
                                                como seu casamento, e teve de viver separado da
Não permita Deus que eu morra,                  esposa. Não teve escolha. O pai o abandonaria sem
Sem que eu volte para lá;                       herança caso soubesse a verdade. Após ter passado um
Sem que desfrute os primores                    ano da separação , Pedro consegue ir ao Rio em visita.
Que não encontro por cá;                        Lá retorna sua forte relação com Emília e conhece seu
Sem qu'inda aviste as palmeiras,                primeiro filho, Emílio, de dois meses. Mantêm em
Onde canta o Sabiá.                             sigilo seus encontros com a esposa e o faz
                                                intercarlando meses passados na fazenda com o pai e
                                                semanas no Rio, com sua família. Nessas
                                                circunstâncias nasce Aurélia. Certo dia, Lourenço
                                                comunica ao filho da sua intenção em que se case com
                                                uma moça rica da região. Pedro resolve então partir
                                                para unir-se á sua esposa e filhos. Ao fugir acaba
                                                morrendo em um rancho. O dono do rancho, de posse
                                                de uma maleta que Pedro levava consigo, guarda-a
                                                com a intenção de entregá-la a Lourenço. O que de fato
                                                ocorre, porém muitos anos mais tarde. Aurélia vai
                                                crescendo ao desamparo, quase à míngua. A condição
                                                humilde em que vive, e a mãe doente precisando de
                                                cuidados não lhe traz alternativas a não ser expor-se à
                                                janela na tentativa de arranjar um casamento.
                                                Imposição da própria mãe. Aurélia, que por sua
                                                estonteante beleza atraía os mais finos moços da Corte,
                                                sente-se humilhada ao submeter-se a galanteios
                                                vulgares. Seu próprio tio lhe faz uma proposta
                                                indecorosa para que se torne prostituta oferecendo-se
como seu mediante. Apesar da descida de sua                  aristocrática por sua beleza e suas maneiras elegantes.
reputação, é estimada por dois rapazes da sociedade:         Escrevia crônicas e era funcionário público. No
Eduardo Abreu e Fernando Seixas. Aurélia e Fernando          Segundo Reinado eram comuns casamentos por
apaixonam-se; ele pedindo-a em casamento. Mas a              conveniências. Acontecia que, muitas vezes, o amor
felicidade para Aurélia dura pouco. Apesar da intensa        germinava mesmo em tais circunstâncias. Fernando
relação amorosa, Fernando, possuidor de personalidade        segue confiante até a primeira noite do seu casamento,
interesseira, se vê tentado a casar-se com outra moça,       quandoAurélia o leva a seus aposentos finalmente
Adelaide, em que receberia um dote de trinta contos. O       decorados e comunica-lhe com frieza que dormirão em
pai de Adelaide queria impedir que a filha se casasse        quarto separados, além do que não haverá nenhuma
com dr. Torquato Ribeiro, por quem nutria profunda           intimidade entre eles. Aurélia prossegue em seu
antipatia. Fernando desmancha o namoro com Aurélia           dircurso deixando-lhe bem claro o papel de marido
para casar-se com Adelaide. Manuel Lemos, tio de             comprado apenas para manter as aparências na
Aurélia, fora o agente catalisador desta trama de            sociedade. E que a relação entre ambos será de senhora
interesses; queria a sobrinha disponível pois intentava      e objeto possuído. Fernando, nesta noite, não dorme.
tirar proveito econômico de sua beleza. A essa altura,       Não toca em nada do que lhe é oferecido. Decide
Lourenço Camargo recebe do dono do rancho em que             continuar trabalhando na repartição mesmo contra a
o filho faleceu, a tal maleta que por tantos anos estava     vontade de Aurélia. Guarda os oitenta contos. Na
guardada. Abrindo-a, Lourenço encontra uma extensa           terceira parte do livro: Posse, a narrativa transcorre em
carta que Pedro lhe escrevera contando toda a verdade        torno do conflito entre Fernando Seixas e Aurélia
sobre seu amor por Emília e pedindo-lhe perdão. O pai,       Camargo. Desenvolve-se entre o casal um ódio
após ler a carta e com o coração enternecido, decide         mórbido recíproco, enquanto tentam manter uma falsa
reparar seu erro por ter sido tão rígido com o filho. Vai    felicidade. Certa ocasião Aurélia contrata um artista
ao Rio de Janeiro procurar Aurélia e os netos e a faz        para pintar o retrato do marido. Desejava colocá-lo ao
herdeira de sua fortuna. Algum tempo depois morre            lado do seu na parede da sala. A obra não a agradou
Emília Lemos. Aurélia, enquanto aguarda os trâmites          pois as feições de Fernando denotavam abatimento.
da herança que a fará milionária, recebe o apoio de sua      Ordenou ao artista que suspendesse o trabalho. A
parenta distante, d. Firmina Mascarenhas e do Dr.            contragosto do artista, que alega ter pintado a alma do
Torquato. De posse da fortuna que lhe fora destinada e       modelo, o quadro é interrompido. A partir daí Aurélia
tendo como tutor seu tio Lemos, Aurélia incube-o da          empenha-se em amenizar a relação com Fernando
administração dos negócios. Sente-se então, a partir         porque o quer com o semblante tranquilo. Fernando,
daí, livre para seguir seus caprichos. A primeira parte      mais uma vez iludido com as seduções da mulher,
do livro: O Preço, narra o período atual em que vive         perde a dureza da expressão. Aurélia pede ao pintor
Aurélia, cercada de riquezas. A vida opulenta que            que retorne a obra. Este, por sua vez, capta as novas
passa a ter leva-a a frequentar os salões aristocráticos     feições suavizadas de Fernando e ainda, sob a
da época. Nesta parte do livro, há um brilho de              orientação de Aurélia, pinta-o com as roupas que usava
linguagem que se assemelha ao brilho deste novo              quando conheceram-se em Santa Tereza. O trabalho
ambiente, mantido através de gestos calculados,              concluído é colocado na parede do seu quarto enquanto
diálogos estudados e corteses e todo um jogo de              o outro retrato em que o marido aparece com a
interesses, oculto atrás de aparências. Aurélia, após ter-   expressão dura, é exposto na sala de visitas. Certo dia,
se estabelecido confortavelmente em suntuosa mansão,         Aurélia leva Fernando ao seu quarto e mostra-lhe o
ordena ao tio Lemos que dê trinta contos ao Dr.              quadro, dizendo-lhe que ali estava o homem que ela
Torquato Ribeiro, possibilitando-o de efetuar seu            ainda amava. O artista conseguira captar a alma deste
casamento com Adelaide Amaral. Para Fernando                 homem. Continua a lhe falar que quando ele voltasse a
Seixas, pede ao tio, que ofereça a quantia de cem            ter essa pureza, tornaria a amá-lo. Tem um orgasmo
contos para casar-se com uma moça desconhecida, rica         involuntário diante da obra deixando Fernando
e jovem. Fernando não aceita a proposta, sentindo-se         perplexo. "Seixas estava atônito. Sentindo-se ludíbrio
ultrajado. Mas no dia seguinte a conversa com Lemos,         dessa mulher, que o subjugava a seu pesar, escutava-
a mãe pedira-lhe vinte contos para o enxoval de              lhe as palavras, observava-lhe os movimentos e não a
Nicota, a filha caçula. Fernando se vê então preso a         compreendia. Chamava a si a razão, e esta fugia-lhe,
uma dívida doméstica, pois já havia usado quase toda a       deixando-o estático." Nos tempos de Santa Tereza,
poupança da família com os próprios gastos. Resolve          Eduardo apaixonara-se perdidamente por Aurélia.
então aceitar a proposta de Lemos desde que lhe sejam        Rumou para a Europa na tentativa de esquecê-la.
adiantados vinte contos. Lemos concorda e Fernando           Depois de casada, Aurélia, sabendo que o rapaz havia
entrega o dinheiro à mãe. Quando Lemos apresenta a           caído em miséria e estava prestes a cometer suicídio,
noiva a Fernando, este entra em êxtase por se tratar de      intercedeu e passou a ajudá-lo desde então com
Aurélia. Outrora a abandonara, porém nunca deixou de         dinheiro e atenção. Um dia, ao chegar em casa,
amá-la. Sente-se um felizardo. Mal sabendo ele que           Fernando surpreendeu-os conversando. Enciumou-se.
tudo não passa de um engodo, um plano de Aurélia             Aurélia, por sua vez, cismava que ainda existia algo
para vingar-se do ex-namorado que no passado a               entre o marido e Adelaide, pois encontrara um antigo
abandonou. O iludido rapaz, sem desconfiar, vai              presente da moça junto às coisas de Fernando. As
abrindo seu coração à noiva até o dia em que se casam        brigas em torno dessas desconfianças chegam a um
e então sofre a grande decepção de sua vida. Fernando        alto grau de ofensas mútuas quando Fernando
apesar de não ser rico, era aceito pela sociedade            comunica que quer formalizar a separação. Aurélia
tenta justificar-se mas Fernando é inflexível, quer         atividade. Viaja para a Europa em 1876 e falece no fim
restituir-lhe o dinheiro do contrato imediatamente.         do ano seguinte, no Rio de Janeiro, ao regressar para o
Fernando fizera economias com o salário da repartição       Brasil. Obra: (1856) - Cinco Minutos (romance) (1857)
e ainda conseguira ganhar mais quinze contos de um          O Guarani (romance) (1858) Demônio Familiar (peça
antigo negócio que só agora lhe rendera lucro. Devolve      teatral - comédia) (1874) Ao Correr da Pena (livro
à Aurélia o que lhe pertence, os cem contos, e              póstumo contendo seus folhetins) Considerações
reconquista sua liberdade de ser. Pronto para deixá-lo,     Gerais: Senhora é um romance de costumes que retrata
Aurélia detém-se para dizer-lhe que após terem se           a sociedade fluminense do Segundo Reinado. A
tornado, ambos, estranhos um ao outro, ter-lhe              ascensão da burguesia transparece na obra através da
submetido às suas ofensas e humilhando-o durante            prosperidade das classes liberais; sobretudo através do
onze anos, ainda assim seu amor continua intacto.           evento da urbanização, da evasão dos campos para as
Ajoelha-se a seus pés e suplica-lhe que aceite seu          metrópoles, da burocratização gerada pela política, que
amor. "-Aquela mulher que se humilhou, aqui a tens          faz do emprego um apêndice partidário, subvertendo a
abatida, no mesmo lugar ode ultrajou-te, nas iras de        antiga estrutura brasileira hierárquica, pacata. Mas
sua paixão. Aqui a tens implorando teu perdão e feliz       trata também de revelar-nos o "modus vivendi" da
porque te adora, como o senhor de sua alma."                aristocracia, que se perpetuou enquanto esta se
Fernando ergue-a em seus braços e beija-a com paixão.       manteve. Alencar fez uma crítica a essa sociedade e ao
Mas, possuído por um pensamento desesperançoso,             casamento como forma de ascensão social. Resumo:
afasta seu rosto do dela, olha-a com profundo pesar e       Senhora é um romance passado na primeira metade do
diz: "- Não Aurélia! Tua riqueza separou-nos para           século XIX e que expõe ao leitor, como pano de fundo,
sempre. "Aurélia, então solta-se do marido, vai até o       valores e costumes da aristocracia escravista do
toucador e volta com um envelope contendo seu               Segundo Reinado. O romance conta-nos a vida de uma
testamento. "Ela despedaçou o lacre e deu a ler a           bela moça desiludida e rancorosa , chamada Aurélia
Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em           Camargo. Aurélia passou uma infância pobre junto à
que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido        mãe doente e um irmão que veio a falecer na
e o instituía seu universal herdeiro. - Eu o escrevi logo   adolescência. Narrado em terceira pessoa; o romance é
depois do nosso casamento; pensei que morresse              escrito em quatro partes e não obedece uma ordem
naquela noite, disse Aurélia com gesto sublime. Seixas      cronológica, isto é, a primeira parte ( O Preço), narra
contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas. - Esta        os episódios atuais, enquanto que a Segunda parte
riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu             (Quitação), fala-nos do passado de Aurélia, seguem os
Fernando. É o meio de a repelires. Se não for o             capítulos: Posse e Resgate. Aurélia foi o fruto da união
bastante eu a dissiparei." Personagens: 1 - Aurélia         entre o filho de um rico fazendeiro e uma órfã pobre.
Camargo - moça bela, pobre e ressentida; protagonista,      Seu pai, Pedro de Sousa Camargo, era o filho natural
após herdeira se transforma na estrela dos salões           de Lourenço de Sousa Camargo, um homem
fluminenses. 2 - Fernando Seixas - antigo namorado e        prepotente e severo que vivia isolado em suas terras.
atual marido de Aurélia; elegante, bonito e frívolo. 3 -    Lourenço, apesar de não reconhecer o filho como
Lourenço de Sousa Camargo - avô de Aurélia.                 herdeiro, mantinha-o no Rio de Janeiro com uma boa
Fazendeiro prepotente e austero. 4 - Pedro Camargo -        vida enquanto estudava Medicina. Foi na corte que
pai de Aurélia, apaixonado por Emília. 5 - Emília           Pedro conheceu a mãe de Aurélia, Emília Lemos,
Lemos - mãe de Aurélia, órfã e pobre. 6 - Manuel            pobre e órfã e por quem apaixonou-se . Emília morava
Lemos - irmão de Emília; oportunista. 7 - Eduardo           com um irmão mais velho, Manuel José Correia Lemos
Abreu - rapaz da sociedade apaixonado por Aurélia. 8 -      que, tão logo soube do romance entre a irmã e o
Adelaide Amaral - moça da sociedade, apaixonada por         estudante, oportunistamente tratou de exigir do moço
Dr. Torquato Ribeiro. 9 - Dr. Torquato Ribeiro -            um documento que legitimasse sua condição de
homem idôneo; ama Adelaide.                                 herdeiro se quisesse casar com Emília. Diante desta
                                                            impossibilidade devido à conflituosa relação que
voltar Senhora - José de Alencar Vida: José Martiniano      mantinha com o pai, Pedro decidiu fugir e casar às
de Alencar (1829-1877) nasceu em Macejana, no               escondidas com Emília . O velho Lourenço, sabendo
Ceará. Foi para o Rio de Janeiro em 1830. Cursou            que o filho vivia com uma moça de família raptada,
Direito em São Paulo e Olinda. Formado em 1851,             ordenou-lhe que largasse a Corte e regressasse à
dedicou-se à advocacia no Rio. Nesta época colaborou        fazenda. Pedro manteve em segredo sua paixão assim
no Correio Mercantil. Em 1856, já no Diário do Rio de       como seu casamento, e teve de viver separado da
Janeiro, critica o poema de D. J. Gonçalves de              esposa. Não teve escolha. O pai o abandonaria sem
Magalhães, Confederação dos Tamoios. Nesse jornal           herança caso soubesse a verdade. Após ter passado um
publica, em folhetins, seu romance Cinco Minutos. Em        ano da separação , Pedro consegue ir ao Rio em visita.
1857 publica O Guarani (em livro) com grande                Lá retorna sua forte relação com Emília e conhece seu
sucesso. Estréia no teatro com a peça Demônio               primeiro filho, Emílio, de dois meses. Mantêm em
Familiar - comédia. Depois vem outra comédia: Verso         sigilo seus encontros com a esposa e o faz
e Reverso. Com Asas de Um Anjo (peça) é censurado.          intercarlando meses passados na fazenda com o pai e
Em 1860 parte para o Ceará e regressa deputado              semanas no Rio, com sua família. Nessas
conservador. Em 1868 é Ministro da Justiça,                 circunstâncias nasce Aurélia. Certo dia, Lourenço
demitindo-se em 1870. Mantém-se em intensa                  comunica ao filho da sua intenção em que se case com
atividade política até 1873 quando é retirado da            uma moça rica da região. Pedro resolve então partir
para unir-se á sua esposa e filhos. Ao fugir acaba           uma dívida doméstica, pois já havia usado quase toda a
morrendo em um rancho. O dono do rancho, de posse            poupança da família com os próprios gastos. Resolve
de uma maleta que Pedro levava consigo, guarda-a             então aceitar a proposta de Lemos desde que lhe sejam
com a intenção de entregá-la a Lourenço. O que de fato       adiantados vinte contos. Lemos concorda e Fernando
ocorre, porém muitos anos mais tarde. Aurélia vai            entrega o dinheiro à mãe. Quando Lemos apresenta a
crescendo ao desamparo, quase à míngua. A condição           noiva a Fernando, este entra em êxtase por se tratar de
humilde em que vive, e a mãe doente precisando de            Aurélia. Outrora a abandonara, porém nunca deixou de
cuidados não lhe traz alternativas a não ser expor-se à      amá-la. Sente-se um felizardo. Mal sabendo ele que
janela na tentativa de arranjar um casamento.                tudo não passa de um engodo, um plano de Aurélia
Imposição da própria mãe. Aurélia, que por sua               para vingar-se do ex-namorado que no passado a
estonteante beleza atraía os mais finos moços da Corte,      abandonou. O iludido rapaz, sem desconfiar, vai
sente-se humilhada ao submeter-se a galanteios               abrindo seu coração à noiva até o dia em que se casam
vulgares. Seu próprio tio lhe faz uma proposta               e então sofre a grande decepção de sua vida. Fernando
indecorosa para que se torne prostituta oferecendo-se        apesar de não ser rico, era aceito pela sociedade
como seu mediante. Apesar da descida de sua                  aristocrática por sua beleza e suas maneiras elegantes.
reputação, é estimada por dois rapazes da sociedade:         Escrevia crônicas e era funcionário público. No
Eduardo Abreu e Fernando Seixas. Aurélia e Fernando          Segundo Reinado eram comuns casamentos por
apaixonam-se; ele pedindo-a em casamento. Mas a              conveniências. Acontecia que, muitas vezes, o amor
felicidade para Aurélia dura pouco. Apesar da intensa        germinava mesmo em tais circunstâncias. Fernando
relação amorosa, Fernando, possuidor de personalidade        segue confiante até a primeira noite do seu casamento,
interesseira, se vê tentado a casar-se com outra moça,       quandoAurélia o leva a seus aposentos finalmente
Adelaide, em que receberia um dote de trinta contos. O       decorados e comunica-lhe com frieza que dormirão em
pai de Adelaide queria impedir que a filha se casasse        quarto separados, além do que não haverá nenhuma
com dr. Torquato Ribeiro, por quem nutria profunda           intimidade entre eles. Aurélia prossegue em seu
antipatia. Fernando desmancha o namoro com Aurélia           dircurso deixando-lhe bem claro o papel de marido
para casar-se com Adelaide. Manuel Lemos, tio de             comprado apenas para manter as aparências na
Aurélia, fora o agente catalisador desta trama de            sociedade. E que a relação entre ambos será de senhora
interesses; queria a sobrinha disponível pois intentava      e objeto possuído. Fernando, nesta noite, não dorme.
tirar proveito econômico de sua beleza. A essa altura,       Não toca em nada do que lhe é oferecido. Decide
Lourenço Camargo recebe do dono do rancho em que             continuar trabalhando na repartição mesmo contra a
o filho faleceu, a tal maleta que por tantos anos estava     vontade de Aurélia. Guarda os oitenta contos. Na
guardada. Abrindo-a, Lourenço encontra uma extensa           terceira parte do livro: Posse, a narrativa transcorre em
carta que Pedro lhe escrevera contando toda a verdade        torno do conflito entre Fernando Seixas e Aurélia
sobre seu amor por Emília e pedindo-lhe perdão. O pai,       Camargo. Desenvolve-se entre o casal um ódio
após ler a carta e com o coração enternecido, decide         mórbido recíproco, enquanto tentam manter uma falsa
reparar seu erro por ter sido tão rígido com o filho. Vai    felicidade. Certa ocasião Aurélia contrata um artista
ao Rio de Janeiro procurar Aurélia e os netos e a faz        para pintar o retrato do marido. Desejava colocá-lo ao
herdeira de sua fortuna. Algum tempo depois morre            lado do seu na parede da sala. A obra não a agradou
Emília Lemos. Aurélia, enquanto aguarda os trâmites          pois as feições de Fernando denotavam abatimento.
da herança que a fará milionária, recebe o apoio de sua      Ordenou ao artista que suspendesse o trabalho. A
parenta distante, d. Firmina Mascarenhas e do Dr.            contragosto do artista, que alega ter pintado a alma do
Torquato. De posse da fortuna que lhe fora destinada e       modelo, o quadro é interrompido. A partir daí Aurélia
tendo como tutor seu tio Lemos, Aurélia incube-o da          empenha-se em amenizar a relação com Fernando
administração dos negócios. Sente-se então, a partir         porque o quer com o semblante tranquilo. Fernando,
daí, livre para seguir seus caprichos. A primeira parte      mais uma vez iludido com as seduções da mulher,
do livro: O Preço, narra o período atual em que vive         perde a dureza da expressão. Aurélia pede ao pintor
Aurélia, cercada de riquezas. A vida opulenta que            que retorne a obra. Este, por sua vez, capta as novas
passa a ter leva-a a frequentar os salões aristocráticos     feições suavizadas de Fernando e ainda, sob a
da época. Nesta parte do livro, há um brilho de              orientação de Aurélia, pinta-o com as roupas que usava
linguagem que se assemelha ao brilho deste novo              quando conheceram-se em Santa Tereza. O trabalho
ambiente, mantido através de gestos calculados,              concluído é colocado na parede do seu quarto enquanto
diálogos estudados e corteses e todo um jogo de              o outro retrato em que o marido aparece com a
interesses, oculto atrás de aparências. Aurélia, após ter-   expressão dura, é exposto na sala de visitas. Certo dia,
se estabelecido confortavelmente em suntuosa mansão,         Aurélia leva Fernando ao seu quarto e mostra-lhe o
ordena ao tio Lemos que dê trinta contos ao Dr.              quadro, dizendo-lhe que ali estava o homem que ela
Torquato Ribeiro, possibilitando-o de efetuar seu            ainda amava. O artista conseguira captar a alma deste
casamento com Adelaide Amaral. Para Fernando                 homem. Continua a lhe falar que quando ele voltasse a
Seixas, pede ao tio, que ofereça a quantia de cem            ter essa pureza, tornaria a amá-lo. Tem um orgasmo
contos para casar-se com uma moça desconhecida, rica         involuntário diante da obra deixando Fernando
e jovem. Fernando não aceita a proposta, sentindo-se         perplexo. "Seixas estava atônito. Sentindo-se ludíbrio
ultrajado. Mas no dia seguinte a conversa com Lemos,         dessa mulher, que o subjugava a seu pesar, escutava-
a mãe pedira-lhe vinte contos para o enxoval de              lhe as palavras, observava-lhe os movimentos e não a
Nicota, a filha caçula. Fernando se vê então preso a         compreendia. Chamava a si a razão, e esta fugia-lhe,
deixando-o estático." Nos tempos de Santa Tereza,
Eduardo apaixonara-se perdidamente por Aurélia.
Rumou para a Europa na tentativa de esquecê-la.
Depois de casada, Aurélia, sabendo que o rapaz havia
caído em miséria e estava prestes a cometer suicídio,
intercedeu e passou a ajudá-lo desde então com
dinheiro e atenção. Um dia, ao chegar em casa,
Fernando surpreendeu-os conversando. Enciumou-se.
Aurélia, por sua vez, cismava que ainda existia algo
entre o marido e Adelaide, pois encontrara um antigo
presente da moça junto às coisas de Fernando. As
brigas em torno dessas desconfianças chegam a um
alto grau de ofensas mútuas quando Fernando
comunica que quer formalizar a separação. Aurélia
tenta justificar-se mas Fernando é inflexível, quer
restituir-lhe o dinheiro do contrato imediatamente.
Fernando fizera economias com o salário da repartição
e ainda conseguira ganhar mais quinze contos de um
antigo negócio que só agora lhe rendera lucro. Devolve
à Aurélia o que lhe pertence, os cem contos, e
reconquista sua liberdade de ser. Pronto para deixá-lo,
Aurélia detém-se para dizer-lhe que após terem se
tornado, ambos, estranhos um ao outro, ter-lhe
submetido às suas ofensas e humilhando-o durante
onze anos, ainda assim seu amor continua intacto.
Ajoelha-se a seus pés e suplica-lhe que aceite seu
amor. "-Aquela mulher que se humilhou, aqui a tens
abatida, no mesmo lugar ode ultrajou-te, nas iras de
sua paixão. Aqui a tens implorando teu perdão e feliz
porque te adora, como o senhor de sua alma."
Fernando ergue-a em seus braços e beija-a com paixão.
Mas, possuído por um pensamento desesperançoso,
afasta seu rosto do dela, olha-a com profundo pesar e
diz: "- Não Aurélia! Tua riqueza separou-nos para
sempre. "Aurélia, então solta-se do marido, vai até o
toucador e volta com um envelope contendo seu
testamento. "Ela despedaçou o lacre e deu a ler a
Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em
que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido
e o instituía seu universal herdeiro. - Eu o escrevi logo
depois do nosso casamento; pensei que morresse
naquela noite, disse Aurélia com gesto sublime. Seixas
contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas. - Esta
riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu
Fernando. É o meio de a repelires. Se não for o
bastante eu a dissiparei." Personagens:
1 - Aurélia Camargo - moça bela, pobre e ressentida;
protagonista, após herdeira se transforma na estrela dos
salões fluminenses.
2 - Fernando Seixas - antigo namorado e atual marido
de Aurélia; elegante, bonito e frívolo.
3 - Lourenço de Sousa Camargo - avô de Aurélia.
Fazendeiro prepotente e austero.
4 - Pedro Camargo - pai de Aurélia, apaixonado por
Emília.
5 - Emília Lemos - mãe de Aurélia, órfã e pobre.
6 - Manuel Lemos - irmão de Emília; oportunista.
7 - Eduardo Abreu - rapaz da sociedade apaixonado
por Aurélia.
8 - Adelaide Amaral - moça da sociedade, apaixonada
por Dr. Torquato Ribeiro.
9 - Dr. Torquato Ribeiro - homem idôneo; ama
Adelaide.
IV - DOM CASMURRO                                          autores da época (Eça de Queirós, Aluísio Azevedo
                                                           etc). Em Dom Casmurro é exatamente a suspeita de
                                                           adultério que sustenta o enredo do romance. Tudo se
Ao estudar a obra de Machado de Assis, a crítica
                                                           constrói em torno desse possível adultério de Capitu.
divide-a em duas fases bem distintas cujo marco
delimitado é o romance Memórias Póstumas de Brás
                                                           2) Entretanto, não há uma preocupação excessiva em
Cubas, publicado em 1881. Até essa data, a obra
                                                           contar a estória, preocupação maior é com a análise,
machadiana é marcadamente romântica, onde
                                                           uma análise dissecante e profunda, em que o escritor
sobressaem poesia, contos e os romances Ressurreição
                                                           procura desnudar a personagem e revelar as suas
(1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e laiá
                                                           entranhas. Sem dúvida por isso, Machado de Assis
Garcia (1878).
                                                           retroage à infância , tentando buscar a origem do
                                                           problema focalizado.
    A partir de 1881, com a publicação das Memórias,
―Machado liberou o demônio interior e começa uma
                                                           3) Por essa razão, a narrativa é lenta, pausada - anda
nova aventura‖: a análise de caracteres, numa
                                                           bem devagar. Aliás, o próprio Machado de Assis
verdadeira dissecação da alma humana. É a segunda
                                                           reconhece isso, ao declarar em passagem famosa de
fase - fase marcadamente realista, sem a qual ―não
                                                           Memórias póstumas de Brás Cubas que vale também
teríamos Machado de Assis‖.
                                                           para Dom Casmurro: ―...o livro anda devagar; tu
                                                           (conversa com o leitor) amas a narração direta e
O estilo de Machado de Assis, marcado pela
                                                           nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu
sobriedade, correção e concisão
                                                           estilo são como os ébrios, guinam à direita e à
1) A linguagem é marcadamente clássica, bem
                                                           esquerda, andam e param, resmungam, urram,
cuidada, regida pela correção gramatical.
                                                           gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...‖
2) Tendência para a frase sentenciosa e proverbial,
                                                           4) Embora adote a primeira pessoa como técnica
como aquela em que compara a vida com uma ópera,
                                                           narrativa, o narrador de Dom Casmurro se coloca à
atribuída ao tenor Marcolini: ―A vida é uma ópera‖.
                                                           distância: no extremo da vida (velhice), o protagonista
                                                           masculino reconstitui o seu passado, assumindo assim
3) (INTERTEXTUALIDADE): uso freqüente de
                                                           um ângulo de visão marcado pela objetividade.
alusões, referências e citações que vão como que
                                                           Embora seja personagem da
confirmando as suas idéias e pensamentos, o que, por
                                                           estória e participe dela, o narrador coloca-se fora e
outro lado, revela bem a espantosa cultura e erudição
                                                           ausente enquanto narra e reconstitui os fatos ―flash-
de Machado de Assis.
                                                           back‖).
4) Ao longo das suas narrativas, Machado de Assis (ou
                                                           DOM CASMURRO - PERSONAGENS
o narrador que conduz a estória), sempre gostou de
estabelecer uni diálogo com o(a)    leitor(a): conversa
                                                           Bento: personagem principal da história, ciumento,
com ele(a), dá-lhe conselhos, pondera e explica: ―Mas
                                                           religioso, recluso, calado e metia muitas idéias infantis
eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te
                                                           na cabeça. Gostava de ser ouvido e tinha muitos
lembras bem da Capitu menina...‖ (Cap. CXLVIII).
                                                           medos. Quando velho, tinha bigodes e era garboso,
                                                           porém não muito forte, acabou se tornando ranzinza,
5) Outra coisa que chama e atenção são as suas
                                                           melancólico (casmurro)
personagens, quase sempre bem situadas na vida, sem
                                                           Capitu: cabelos grossos com duas tranças descidas
necessidade de trabalhar; aliás, o único trabalho que
                                                           pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, como
fazem é serem personagens de Machado de Assis,
                                                           olhos de cigana, oblíqua e dissimulada, . Era uma
como observou alguém. Por outro lado, movem-se
                                                           linda garota e tornou-se uma linda mulher.
lenta e pausadamente, sendo quase sempre objeto de
                                                           Responsável, inteligente, pegava-se a pensar consigo
observação e análise do autor: são gente muito mais de
                                                           mesma com facilidade, tinha um caráter forte e
reflexão do que de ação.
                                                           chamava bastante atenção. Companheira, romântica,
                                                           cuidadosa, zelosa e econômica.
6) Apresentando, via de regra, uma visão amarga,
                                                           Escobar: rapaz esbelto, olhos claros, um pouco
pessimista e niilista da vida humana, Machado de
                                                           fugitivos. Não falava claramente nem seguido. O
Assis sempre se revela sarcástico e irônico na sua obra:
                                                           sorriso era instantâneo, o olhar curioso e rápido.
desmascara o ser humano na sua hipocrisia e torpezas,
                                                           Inteligente e ―amigo‖, conseguia penetrar no âmago
desnudando-o nas suas entranhas; desmistifica crenças
                                                           das pessoas e saber o que se passava com elas. Era 3
e instituições sacralizadas pelos tempos; questiona o
                                                           anos mais velho que Bento.
sentido da vida. Tudo se desfaz e se desmorona ante o
                                                           Ezequiel: Quando pequeno era um imitador, levado e
seu olhar aquilino e arrasador.
                                                           inteligente. Quando moço tornou-se esbelto e com a
                                                           aparência de Escobar, olhar e tudo o que o outro tinha.
ESTILO DE ÉPOCA
                                                           Era inteligente e interessado por arqueologia, porém
                                                           morreu cedo e sem o amor de ―pai‖?
1) Os romances realistas sempre se fundamentam num
                                                           Personagens Secundários
caso de adultério, como se pode ver nos diversos
D. Maria da Glória: mãe de Bentinho. Mulher forte,       Escobar. Segundo este, D. Glória prometera a Deus
madura, religiosa e amorosa.                             dar-lhe um sacerdote, mas isto não queria dizer que o
José Dias: Homem prestativo que tratava Bentinho         mesmo deveria ser necessariamente seu filho. Sugeriu
com ―extremos de mãe e atenções de servo.‖ Era um        então que ela adotasse algum órfão e lhe custeasse os
tipo de empregado da casa, porém muito mais              estudos. D. Glória consultou o padre Cabral, este foi
chegado, era quase da família, tinha mania de            consultar o bispo e a solução foi considerada
expressar-se em superlativos.                            satisfatória. Livre do problema, Bentinho deixa o
Pádua: Era o pai de Capitu. Dava-se bem com a            seminário com cerca de 17 anos e vai a São Paulo
família de Bentinho, exceto José Dias. Fora ajudado      estudar, tornando-se, cinco anos depois, o advogado
varias vezes por D. Maria da Gloria, e a queria          Bento de Albuquerque Santiago. Por sua parte,
―muitíssimo‖ bem.                                        Escobar, que também saíra do seminário, tornara-se
                                                         um comerciante bem-sucedido, vindo a casar com
Vivendo no Engenho Novo, um subúrbio da cidade do        Sancha, amiga e colega de escola de Capitu. Em 1865,
Rio de Janeiro, quase recluso em sua casa, construída    Bento e Capitu finalmente casam. A felicidade do
segundo o molde da que fora a de sua infância, na Rua    casal seria completa não fosse a demora em nascer um
de Matacavalos, Bento de Albuquerque Santiago, com       filho. Isto faz com que ambos sintam inveja de
cerca de 54 anos e conhecido pela alcunha de Dom         Escobar e Sancha, que tinham tido uma filha, batizada
Casmurro por seu gosto pelo isolamento, decide           com o nome de Capitolina. Depois de alguns anos,
escrever sua vida.                                       nasce Ezequiel, assim chamado para retribuir a
A vida do protagonista/narrador transcorre sem           gentileza do casal de amigos, que dera à filha o nome
maiores incidentes até a "célebre tarde de novembro"     da amiga de Sancha.
de 1857, quando, ao entrar em casa, ouve                 Ezequiel revela-se muito cedo um criança inquieta e
pronunciarem seu nome e esconde-se rapidamente           curiosa, tornando-se a alegria dos pais e servindo para
atrás da porta. Na conversa entre sua mãe e o agregado   estreitar ainda mais as relações de amizade entre os
José Dias, que morava com a família desde os tempos      dois casais. A partir do momento em que Escobar e
de ltaguaí, Bentinho, como era então chamado, fica       Sancha, que moravam em Andaraí, resolvem fixar
sabendo que sua mãe se mantém firme na intenção de       residência no Flamengo, a convivência entre as duas
colocá-lo no seminário a fim de seguir a carreira        famílias torna-se completa e os pais chegam a falar na
eclesiástica, segundo promessa que fizera a Deus caso    possibilidade de Ezequiel e Capituzinha, como era
tivesse um segundo filho varão, já que o primeiro        chamada a pequena Capitolina, virem a se casar.
morrera ao nascer.                                       Em 1871 Escobar, que gostava de nadar, morre
Bentinho, que há muito tinha conhecimento das            afogado. No enterro, Capitu, que amparava Sancha,
intenções de sua mãe, sofre violento abalo, pois fica    olha tão fixamente e com tal expressão para Escobar
sabendo que a reativação da promessa, que parecia        morto que Bento fica abalado e quase não consegue
esquecida, devia-se ao fato de José Dias ter informado   pronunciar o discurso fúnebre. Advertido pela própria
D. Glória a respeito de seu incipiente namoro com        Capitu, Bento começa a perceber as semelhanças de
Capitolina Pádua, que morava na casa ao lado. Capitu,    Ezequiel com Escobar. À medida que o menino cresce,
como era chamada, tinha então catorze anos e era filha   estas semelhanças aumentam a tal ponto que em
de um tal de Pádua, burocrata de uma repartição do       Ezequiel parece ressurgir fisicamente o velho
Ministério da Guerra. A proximidade, a convivência e     companheiro de seminário. As relações entre Bento e
a idade haviam feito com que os dois adolescentes        Capitu deterioram-se rapidamente. A solução de
criassem afeição um pelo outro. D. Glória, ao saber      colocar Ezequiel num internato não se revela eficaz, já
disto, fica alarmada e decide apressar o cumprimento     que Bento não suporta mais ver o filho, o qual, por sua
da promessa. Os planos de Capitu, informada do           vez, se apega a ele cada vez mais, tomando a situação
assunto, e Bentinho para, com a ajuda de José Dias,      ainda mais crítica.
impedir que D. Glória cumprisse a decisão ou que,        Num gesto extremo, Bento decide suicidar-se com
pelo menos, a adiasse, fracassam. D. Glória, que, com    veneno, colocado numa xícara de café. Interrompido
o apoio do padre Cabral, um amigo de Tio Cosme,          pela chegada de Ezequiel, altera intempestivamente
decide finalmente cumprir a promessa e o envia ao        seu plano e decide dar o café envenenado ao filho mas,
seminário, prometendo, contudo, que se dentro de dois    no último instante, recua e em seguida desabafa,
anos não revelasse vocação para o sacerdócio estaria     dizendo a Ezequiel que não é seu pai. Neste momento
livre para seguir outra carreira. Antes da partida de    Capitu entra na sala e quer saber o que está
Bentinho, este e Capitu juram casar-se.                  acontecendo. Bento repete que não é pai de Ezequiel e
No seminário, Bentinho conhece Ezequiel de Sousa         Capitu exige que diga por que pensa assim. Apesar de
Escobar, filho de um advogado de Curitiba. Os dois       Bento não conseguir expor claramente suas idéias,
tornam-se amigos e confidentes. Em um fim de semana      Capitu diz saber que a origem de tudo é a casualidade
em que Bentinho visita D. Glória, Escobar o              da semelhança, argumentando em seguida que tudo de
acompanha e é apresentado a todos, inclusive a Capitu.   deve à vontade de Deus. Capitu retira-se e vai à missa
Enquanto isto, Bentinho continuava seus esforços junto   com o filho. Bento desiste do suicídio.
a José Dias, que, tendo fracassado em seu plano de       Durante a discussão fica decidido que a separação seria
fazê-lo estudar medicina na Europa, sugeria agora que    o melhor caminho. Para manter as aparências, o casal
ambos fossem a Roma pedir ao Papa a revogação da         parte pouco depois rumo à Europa, acompanhado do
promessa. A solução definitiva, contudo, partiu de       filho. Bento retorna a seguir, sozinho. Trocam algumas
cartas e Bento viaja outras vezes à Europa, sempre
com o objetivo de manter as aparências, mas nunca        V - LIMA BARRETO
mais chega a encontrar-se com Capitu. Tempos depois
morrem D. Glória e José Dias.                            Triste Fim de Policarpo Quaresma
Bento retira-se para o Engenho Novo. Ali, certo dia,
recebe a visita de Ezequiel de Albuquerque Santiago,
                                                         Análise da obra
que era então a imagem perfeita de seu velho colega de
seminário. Capitu morrera e fora enterrada na Europa.
                                                         Publicado inicialmente em folhetins do Jornal do
Ezequiel permanece alguns meses no Rio e depois
                                                         Comércio entre agosto e outubro de 1911 e depois em
parte para uma viagem de estudos científicos no
                                                         livro em 1916, Triste Fim de Policarpo Quaresma, obra
Oriente Médio, já que era apaixonado pela
                                                         mais famosa de Lima Barreto, condensa em si muitas
arqueologia. Onze meses depois morre de febre tifóide
                                                         das características que consagraram seu autor como o
em Jerusalém e é ali enterrado.
                                                         melhor de seu tempo.
O adultério de Capitu não está bem esclarecido para o
leitor, já que o próprio narrador-personagem, no
                                                         A obra focaliza fatos históricos e políticos ocorridos
decorrer da história, apresenta uma série de indícios,
                                                         durante a fase de instalação da república, mais
provas e contraprovas, como o fato de Capitu ser
                                                         precisamente no governo de Floriano Peixoto (1891 -
parecidíssima com a mãe de Sancha, sem haver, com
                                                         1894). Seus ataques, sempre escachados, derramam-se
toda certeza, qualquer parentesco entre elas.
                                                         para todos os lados significativos da sociedade que
                                                         contempla, a Primeira República, ou seja, as primeiras
Através das descrições que se faz das personagens,
                                                         décadas desse regime aqui no Brasil.
percebe-se um fato comum: os olhos, tão bem
explorados por Machado de Assis, como nos exemplos
                                                         Assim, Lima Barreto encaixa-se no Pré-Modernismo
"Olhos de cigana oblíqua e dissimulada", "olhos de
                                                         (1902-22), pois, respeita códigos literários antigos
ressaca", "olhos dorminhocos", "olhos redondos, que
                                                         (principalmente o Naturalismo, conforme
me acompanham para todos os lados". Na verdade,
                                                         anteriormente apontado), mas já apresenta uma
esses elementos físicos, muitas vezes, destacam o
                                                         linguagem nova, mais arejada em relação ao momento
estado interior; tem-se um retrato íntimo das
                                                         anterior.
personagens. Em "olhos redondos" percebe-se uma
característica física, mas, logo após, verifica-se um
                                                         O romance narrado em terceira pessoa, descreve a vida
importante traço psicológico: "...que me acompanham
                                                         política do Brasil após a Proclamação da República,
para todos os lados"; que me observam, me estudam.
                                                         caricaturizando o nacionalismo ingênuo, fanatizante e
                                                         xenófobo do Major Policarpo Quaresma, apavorado
                                                         com a descaracterização da cultura e da sociedade
                                                         brasileira, modelada em valores europeus.

                                                         Divertido e colorido no início, o livro se desdobra no
                                                         sofrimento patético do major Quaresma,
                                                         incompreendido e martirizado, convertido numa
                                                         espécie de Dom Quixote nacional, otimista incurável,
                                                         visionário, paladino da justiça, expressando na sua
                                                         ingenuidade a doçura e o calor humano do homem do
                                                         povo.

                                                         O romance anuncia no título o seu desfecho pouco
                                                         alegre, apesar do enredo em que os efeitos cômicos
                                                         estão aliados ao entusiasmo ingênuo do personagem
                                                         central e ao seu inconformismo e obsessões. Quaresma
                                                         é um tipo rico em manifestações inusitadas: seus
                                                         requerimentos pedindo o tupi-guarani como língua
                                                         oficial, seu jeito de receber chorando as visitas, suas
                                                         pesquisas folclóricas; tudo procurando despertar o riso
                                                         no leitor que, no final, presencia sua morte solitária e
                                                         triste: ―Com tal gente era melhor tê-lo deixado morrer
                                                         só e heroicamente num ilhéu qualquer, mas levando
                                                         para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua
                                                         doçura, a sua personalidade moral, sem a mácula de
                                                         um empenho, que diminuísse a injustiça de sua morte,
                                                         que de algum modo fizesse crer aos algozes que eles
                                                         tinham direito de matá-lo‖.
Outro personagem que merece especial atenção é              brasileira e no combate às saúvas. Nesta parte,
Ricardo Coração dos Outros, o seresteiro do subúrbio,       dedicada à Agricultura Brasileira, vemos Quaresma
que enriquece a narrativa em que se mostra a paixão         refugiar-se num sítio que compra, em Curuzu, e tem
pela cidade, os bairros distantes, as serenatas e os        por intenção provar que o solo brasileiro é o mais fértil
violões compondo um cenário pitoresco do Rio de             do mundo. Dedica-se, portanto, a estudar tudo o que se
Janeiro da época.                                           refere a agricultura. Mais uma vez, distancia-se, em
                                                            sua perfeição, da realidade. Torna-se defeituoso.
Estrutura da obra
                                                            Terceira parte - Acentua-se a sátira política. Motivado
A obra divide-se em três partes.                            pela Revolta da Armada, Quaresma apóia Floriano
                                                            Peixoto e, aos poucos, vai identificando os interesses
Primeira parte - Retrata o burocrata exemplar, patriota     pessoais que movem as pessoas, desnudando o tiranete
e nacionalista extremado, interessado pelas coisas do       grotesco em que se convertera o "Marechal de Ferro".
Brasil: a música, o folclore e o tupi-guarani. Esta parte   Quaresma larga seus projetos agrícolas ao saber que
está ligada à Cultura Brasileira, onde conhecemos a         estava ocorrendo a Revolta da Armada, quando
personagem e suas manias. Sabe tudo sobre a geografia       marinheiros se rebelaram contra o presidente Floriano
do nosso país. Sua casa é repleta de livros que se          Peixoto. Na filosofia do protagonista, sua pátria só
refiram à nossa nação. O que come e bebe é                  seria grande quando a autoridade fosse respeitada. Em
tipicamente brasileiro. Até o seu jardim só possui          defesa desse ideal, volta para a Capital, para alistar-se
plantas nativas. Chega a estudar violão – instrumento       nas tropas de defesa do regime.
de má fama na época, pois era associado a malandros –
com Ricardo Coração dos Outros, já que descobre que         O interessante é notar a alienação em que a população
a modinha, estilo tipicamente brasileiro, era tocada        mergulha diante de um tema tão preocupante como
com esse instrumento.                                       uma revolta. Recuperada do susto dos constantes
                                                            tiroteios, parte da população chega a ver tudo como um
Duas são suas grandes ações. A primeira está em             festival, havendo até quem colecionasse as balas
estudar o folclore do Brasil para incrementar uma festa     perdidas.
de seu vizinho, General Albernaz com algum folguedo
popular. Descobre então o Tangolomango, brincadeira         Enfim, a revolta é sufocada. Quaresma é transferido
que consistia na dança com dez crianças, até que um         para a Ilha das Cobras, onde trabalhará como
sujeito, com uma máscara, deveria pegar uma a uma           carcereiro. É então que presencia uma cena que lhe é
sucessivamente. O problema é que Quaresma                   chocante. Um juiz aparece por lá e distribui (esse
empolgou-se tanto com a brincadeira que terminou            termo é o mais adequado mesmo) as condenações
passando mal, por falta de ar, ou, como se dizia na         aleatoriamente, sem julgamento ou qualquer outro tipo
época, acabou tendo um ―tangolomango‖. Por aí já se         de análise. Indignado, pois acreditava que sua pátria,
tem uma idéia da ironia do autor.                           para ser perfeita, tem de estar sustentada em fortes
                                                            ideais de justiça, escreve uma carta para o presidente,
O clímax da falta de senso de ridículo do protagonista      pedindo a reparação de tal erro.
foi ter mandado à Câmara um requerimento, pedindo
para que a língua oficial do Brasil deixasse de ser o       Infelizmente, o herói não foi interpretado
Português, idioma emprestado e por isso incentivador        adequadamente, o que revela uma certa miopia dos
de inúmeras polêmicas entre nossos gramáticos (seu          governantes. Por causa de tal pedido, é preso e
argumento, nesse aspecto, é o de que não podemos            condenado à morte, pois foi visto como uma traição.
dominar um idioma que não é nosso e que, portanto,          Há nesse ponto uma ironia, pois justo o único
não respeita a nossa realidade. Idéias bastante             personagem que se preocupou com o seu país foi
interessantes, mas apenas isso, pois é ridículo imaginar    considerado traidor, enquanto outros, que se
que uma língua seja mudada por decreto). No seu lugar       aproveitaram no conflito para conseguir vantagens
propõe o tupi.                                              políticas, como Armando Borges, Genelício e
                                                            Bustamante, saíram-se vitoriosos.
Resultado: vira motivo de chacota até na Imprensa.
Seus colegas de trabalham aumentam as constantes            No final, tal qual Dom Quixote, Quaresma acorda,
ironias que jogam sobre a ele. Um chega a dizer que         recobra a razão. Percebe que a pátria, por que sempre
Quaresma estava errado ao querer impor aos outros           lutara, era uma ilusão, nunca existira. Num momento
uma língua que nem ele próprio, autor do                    pungente, tocante, descobre que passara toda a sua
requerimento, dominava. Idéia inverídica, tanto que o       vida numa inutilidade.
protagonista, irado, não percebe que escreve um ofício
em tupi. Quando o documento chega aos superiores, a         Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, na
conseqüência é nefasta: o protagonista é internado no       configuração dos elementos da narrativa, notamos a
hospício.                                                   presença predominante da ironia e as impertinências
                                                            contidas na figura central do romance, Quaresma,
Segunda parte - Mostra o Major Quaresma desiludido          alegando que o tupi, por ser a língua nativa brasileira
com as incompreensões o que o faz se retirar para o         proporcionaria melhor adaptação ao nosso aparelho
campo onde se empenha na reforma da agricultura             fonador. Além disso, segundo ele, os portugueses são
os donos da língua e, para alterá-la teríamos de pedir         Após recuperar-se da insanidade, Quaresma deixa a
licença a eles.                                                casa de saúde e compra o Sossego, um sítio no interior
                                                               do Rio de Janeiro; está decidido a trabalhar na terra.
O narrador é solidário com sua personagem pois não             Com Adelaide e o preto Anastácio, muda-se para o
deixa de criticar os que zombam de Quaresma. No                campo. A idéia de tirar da fértil terra brasileira seu
livro, encontramos ora um Quaresma, entusiasmado,              sustento e felicidade anima-o. Adquire vários
apaixonado pelo Brasil, ora um Quaresma desiludido,            instrumentos e livros sobre agricultura e logo aprende
amargo, diante da ingratidão do país para com seus             a manejar a enxada. Orgulhoso da terra brasileira que,
bons objetivos. Nesse ponto, o que vemos é um                  de tão boa, dispensa adubos, recebe a visita de Ricardo
personagem condenado à solidão, já que seus ideais             Coração dos Outros e da afilhada Olga, que não vê
batem de frente com os interesses políticos e com o            todo o progresso no campo, alardeado pelo padrinho.
capital estrangeiro.                                           Nota, sim, muita pobreza e desânimo naquela gente
                                                               simples.
Desse modo, temos o personagem central vivendo três
momentos na obra: valorizando as coisas da terra – a           Depois de algum tempo, o projeto agrícola de
história, a geografia, a literatura, o folclore; no sítio do   Quaresma cai por terra, derrotado por três inimigos
sossego a frustrada busca de uma solução para o                terríveis. Primeiro, o clientelismo hipócrita dos
problema agrário, o que faz o romance se vestir de uma         políticos. Como Policarpo não quis compactuar com
profunda atualidade; finalmente, o envolvimento na             uma fraude da política local, passa a ser multado
Revolta da Armada, o que acaba lhe custando a vida.            indevidamente.O segundo, foi a deficiente estrutura
                                                               agrária brasileira que lhe impede de vender uma boa
Enredo                                                         safra, sem tomar prejuízo. O terceiro, foi a voracidade
                                                               dos imbatíveis exércitos de saúvas, que, ferozmente,
O funcionário público Policarpo Quaresma,                      devoravam sua lavoura e reservas de milho e feijão.
nacionalista e patriota extremado, é conhecido por             Desanimado, estende sua dor à pobre população rural,
todos como major Quaresma, no Arsenal de Guerra,               lamentando o abandono de terras improdutivas e a falta
onde exerce a função de subsecretário. Sem muitos              de solidariedade do governo, protetor dos grandes
amigos, vive isolado com sua irmã Dona Adelaide,               latifundiários do café. Para ele, era necessária uma
mantendo os mesmos hábitos há trinta anos. Seu                 nova administração.
fanatismo patriótico se reflete nos autores nacionais de
sua vasta biblioteca e no modo de ver o Brasil. Para           A Revolta da Armada - insurreição dos marinheiros da
ele, tudo do país é superior, chegando até mesmo a             esquadra contra o continuísmo florianista - faz com
"amputar alguns quilômetros ao Nilo" apenas para               que Quaresma abandone a batalha campestre e, como
destacar a grandiosidade do Amazonas. Por isso, em             bom patriota, siga para o Rio de Janeiro. Alistando-se
casa ou na repartição, é sempre incompreendido.                na frente de combate em defesa do Marechal Floriano,
                                                               torna-se comandante de um destacamento, onde estuda
Esse patriotismo leva-o a valorizar o violão,                  artilharia, balística, mecânica.
instrumento marginalizado na época, visto como
sinônimo de malandragem. Atribuindo-lhe valores                Durante a visita de Floriano Peixoto ao quartel, que já
nacionais, decide aprender a tocá-lo com o professor           o conhecia do arsenal, Policarpo fica sabendo que o
Ricardo Coração dos Outros. Em busca de modinhas               marechal havia lido seu "projeto agrícola" para a
do folclore brasileiro, para a festa do general Albernaz,      nação. Diante do entusiasmo e observações oníricas do
seu vizinho, lê tudo sobre o assunto, descobrindo, com         comandante, o Presidente simplesmente responde:
grande decepção, que um bom número de nossas                   "Você Quaresma é um visionário".
tradições e canções vinha do estrangeiro. Sem
desanimar, decide estudar algo tipicamente nacional:           Após quatro meses de revolta, a Armada ainda resiste
os costumes tupinambás. Alguns dias depois, o                  bravamente. Diante da indiferença de Floriano para
compadre, Vicente Coleoni, e a afilhada, Dona Olga,            com seu "projeto", Quaresma questiona-se se vale a
são recebidos no melhor estilo Tupinambá: com                  pena deixar o sossego de casa e se arriscar, ou até
choros, berros e descabelamentos. Abandonando o                morrer nas trincheiras por esse homem. Mas continua
violão, o major volta-se para o maracá e a inúbia,             lutando e acaba ferido. Enquanto isso, sozinha, a irmã
instrumentos indígenas tipicamente nacionais.                  Adelaide pouco pode fazer pelo sítio do Sossego, que
                                                               já demonstra sinais de completo abandono. Em uma
Ainda nessa esteira nacionalista, propõe, em                   carta à Adelaide, descreve-lhe as batalhas e fala de seu
documento enviado ao Congresso Nacional, a                     ferimento. Contudo, Quaresma se restabelece e, ao fim
substituição do português pelo tupi-guarani, a                 da revolta, que dura sete meses, é designado carcereiro
verdadeira língua do Brasil. Por isso, torna-se objeto         da Ilha das Enxadas, prisão dos marinheiros
de ridicularizarão, escárnio e ironia. Um ofício em            insurgentes.
tupi, enviado ao Ministro da Guerra, por engano, levá-
o à suspensão e como suas manias sugerem um claro              Uma madrugada é visitado por um emissário do
desvio comportamental, é aposentado por invalidez,             governo que, aleatoriamente, escolhe doze prisioneiros
depois de passar alguns meses no hospício.                     que são levados pela escolta para fuzilamento.
                                                               Indignado, escreve a Floriano, denunciando esse tipo
de atrocidade cometida pelo governo. Acaba sendo
preso como traidor e conduzido à Ilha das Cobras.        VI - MARIO DE ANDRADE -
Apesar de tanto empenho e fidelidade, Quaresma é
condenado à morte. Preocupado com sua situação,               CONTOS NOVOS
Ricardo busca auxílio nas repartições e com amigos do    Análise da obra
próprio Quaresma, que nada fazem, pois temem por
seus empregos. Mesmo contrariando a vontade e            Contos Novos, publicados postumamente, em 1947,
ambição do marido, sua afilhada, Olga, tenta ajudá-lo,   escritos por Mário de Andrade num período de crise
buscando o apoio de Floriano, mas nada consegue. A       pessoal, teve publicação póstuma. Reúne narrativas da
morte será o triste fim de Policarpo Quaresma.           maturidade artística do autor, marcadas pela maior
                                                         depuração compositiva e estilística. "Eu também me
                                                         gabo de levar de 1927 a 42 pra achar o conto, e
                                                         completá-lo em seus elementos" (Carta a Alphonsus de
                                                         Guimaraens Filho).

                                                         Contos Novos é a obra de maturidade de Mário de
                                                         Andrade, por estar arejado dos cacoetes modernosos,
                                                         sem perder o frescor modernista. É provavelmente o
                                                         livro que chega mais perto, pois, da imbatível
                                                         produção contística de Machado de Assis.

                                                         A criação de seus nove textos foi esmerada, a ponto de
                                                         haver um artesanato perfeccionista, um burilamento
                                                         que lembra o Parnasianismo (guardadas as devidas
                                                         diferenças). Basta observar o ―Frederico Paciência‖,
                                                         por exemplo, em que o autor levou 18 anos em sua
                                                         confecção.

                                                         Contos de estrutura moderna, que acolhem as
                                                         principais correntes ficcionistas que marcaram a
                                                         Literatura Brasileira das décadas de 30 e 40. Mais do
                                                         que os fatos exteriores, os relatos procuram registrar o
                                                         fluxo de pensamento das personagens. Os contos
                                                         destacam São Paulo, capital e interior, nas décadas de
                                                         20 a 40; o processo de urbanização e industrialização
                                                         (cidade); e o duelo patriarcalismo X progressismo
                                                         (ambiente rural).

                                                         Foco narrativo

                                                         Quatro contos são narrados em 1ª pessoa (Peru de
                                                         Natal, Vestida de Preto, Frederico Paciência e No
                                                         Tempo da Camisolinha), que centram-se no eixo de
                                                         individualidade de Juca, protagonista-narrador. Por
                                                         meio de evocação memorialista, em profunda
                                                         introspecção, ele relembra a infância, a adolescência e
                                                         o início de vida adulta.

                                                         Os contos em 1ª pessoa, apresentam caráter
                                                         autobiográfico. No período, influenciado pelas
                                                         doutrinas psicanalíticas de Freud, deixa-se levar por
                                                         certo complexo edipiano, de maneira a exaltar a figura
                                                         da mãe-mártir perfeita e abominar a formação
                                                         patriarcal da família. Ainda é lembrada (Frederico
                                                         Paciência) certa tendência ao homossexualismo. Por
                                                         trás da análise psicológica, o escritor mostra a vivência
                                                         urbana, retirando seus personagens das camadas
                                                         médias da sociedade paulistana.

                                                         São cinco os contos narrados em 3ª pessoa (O Ladrão,
                                                         Primeiro de Maio, Atrás da Catedral de Ruão, O Poço
                                                         e Nélson), que centra-se num eixo de referência social,
                                                         de inspiração neo-realista. A denúncia de problemas
sociais se alia à análise da problemática existencial das   lábios do menino em sua nuca.
personagens.
                                                            São interrompidos com a chegada de Tia Velha (outro
Predomina nestes contos a análise psicológica,              elemento autobiográfico. Mário de Andrade possuiu
chegando a estruturas refinadas e perfeitas dentro da       uma tia com as mesmas características de Tia Velha),
modernidade a que se propõe, como é o caso de Peru          que os flagra, dá-lhes uma bronca e ameaça delatá-los.
de Natal.                                                   O que acontece aqui é como a Queda do Paraíso
                                                            (Mário de Andrade era muito católico). Os dois
Os contos em 1ª pessoa, apresentam caráter                  separam-se, assustados e envergonhados, e nunca mais
autobiográfico. No período, influenciado pelas              aquela sensação de êxtase e felicidade vai ser
doutrinas psicanalíticas de Freud, Mário de Andrade         recuperada, apesar de as duas personagens buscarem, à
deixou-se levar por certo complexo edipiano, de             sua maneira, recuperar esse bem perdido.
maneira a exaltar a figura da mãe-mártir perfeita e
abominar a formação patriarcal da família. Ainda é          Interessante é notar o papel que a Tia exerce. Antes de
lembrada (Frederico Paciência) certa tendência ao           sua chegada, a brincadeira não tinha nenhuma
homossexualismo. Por trás da análise psicológica, o         conotação indecente. Foi seu olhar, sua reprimenda e
escritor mostra a vivência urbana, retirando seus           julgamento que ensinou a noção de pecado. Dessa
personagens das camadas médias da sociedade                 forma, podemos entender que o ato em si não era
paulistana.                                                 errado; a visão do adulto, representado por Tia Velha,
                                                            é que aplicava toda essa qualificação repressora. Tudo
Espaço                                                      isso são considerações freudianas.

Integra-se de forma dinâmica nos conflitos das              Seguindo rigidamente os pressupostos do pai da
personagens. Por exemplo, em O poço, o frio cortante        psicanálise, vemos as duas personagens afastarem-se,
do vento de julho, no interior paulista, amplifica o        reprimirem o que antes enxergavam como positivo e
tratamento desumano que o fazendeiro Joaquim                prazeroso. Distanciam-se por toda a adolescência,
Prestes dá a seus empregados.                               apesar de ficar um conflito surdo de desprezo com
                                                            fundo de sedução. É o que pode ser entendido como
Personagens                                                 ―denegação‖, a negação que esconde uma afirmação.
                                                            Juca assume uma imagem negativa na família, como o
Nas nove narrativas, evidencia-se um profundo               maluco, o que não se apega muito às regras (essa
mergulho na realidade social e psíquica do homem            imagem será retomada em O Peru de Natal), enquanto
brasileiro. Os quatro contos de cunho biográfico e          Maria, riquinha, certinha, começa a evitá-lo, mesmo
memorialista, centrados em Juca, promovem uma               que apenas com um olhar reprovativo.
"interiorização" de temas sociais e familiares. Já os
com enunciação em terceira pessoa apresentam                Tempos depois, há uma inversão. O menino, agora
personagens cuja densidade psicológica procura              adolescente, dedica-se aos estudos (talvez
expressar a relação conflituosa do homem com o              impulsionado por Frederico Paciência, personagem do
mundo. Em contos como Primeiro de Maio, Atrás da            conto homônimo), sublimando-se, tornando-se bem
catedral de Ruão e Nélson, os protagonistas não têm         visto, enquanto Maria, que chega a ir para a Europa,
nome: isso é índice da reificação e da alienação que        torna-se falada, protagonista de vários escândalos
fragmentam a existência humana na sociedade                 morais.
contemporânea.
                                                            Já na fase adulta, chega a notícia da volta de Maria ao
Enredos                                                     Brasil. Juca vai revê-la. Fica nas entrelinhas a idéia de
                                                            que seria positiva a união dos dois, pois sossegaria o
Vestida de preto - Nele, o narrador aborda um amplo         espírito afoito da mulher. Mas o reencontro é marcado
período de sua vida. Tudo começa na infância.               de dolorosas simbologias. Em primeiro lugar, o local,
Flagramos Juca (o narrador) e sua prima, de família         uma ―saletinha da esquerda‖. A família, ricaça, estava
abastada (alguns estudiosos apontam as dificuldades         num banquete. Fica marcante – e humilhante – a
do relacionamento Juca / Maria, provocadas pela             diferenciação social. Maria recebe-o em seu vestidinho
diferença social, como um aspecto autobiográfico)           preto, perfeito atiçador de sensualidade e fetichismo.
brincando de família com outras crianças numa casa de       Parecia estar-se oferecendo para ele. O jovem tem sua
vários cômodos. No entanto, ao contrário dos outros         imaginação explodindo de excitação.
meninos, o casal protagonista tranca-se num cômodo.
Houve um momento em que Maria estende uma toalha            No entanto, educado, reprime seus impulsos e diz
no chão. Era hora em que ―marido e mulher‖ deveriam         apenas um ―Boa noite, Maria‖ formal, frio. É o
dormir.                                                     primeiro de entre outros contos em que o protagonista
                                                            chega muito próximo de um momento de felicidade
Deitados, o menino, posicionado atrás da companheira,       plena e o deixa escapar, ficando apenas, muito tempo
acaba encantando-se com a vasta cabeleira que tem à         depois, a revivê-lo de forma meio doída.
sua frente, mergulhando a cabeça nela, enquanto Maria
entrega-se, estorcendo-se de prazer, com o contato dos      Juca perde contato com Maria, sabendo apenas que ela
ia continuar sua vida ―alternativa‖ com um excêntrico    Sua protagonista, mademoiselle, é uma velha
austríaco.                                               solteirona virgem que se dedica a pajear jovenzinhas
                                                         da burguesia paulistana. Sua sexualidade reprimida é
O ladrão - Sua narrativa é simples: toda uma             descarregada em diversas formas de recalque, a
vizinhança é acordada com a gritaria de perseguição a    começar pela coriza constante. Mas o que chama mais
um ladrão. Num primeiro momento, marcado pela            atenção é a sua linguagem, sempre na proximidade do
agitação, os moradores reagem com atitudes que vão       perigo, dizendo e não dizendo nada erótico, o que
do medo ao pânico e à histeria, anulados pela            delicia as adolescentezinhas, fazendo-as entrarem no
solidariedade com que se unem na perseguição ao          mesmo jogo. O problema é que as meninas vão
ladrão. Num segundo momento, caracterizado pela          crescendo e vão trilhando caminhos sexuais que a
serenidade e enleio poético, um pequeno grupo de         dama de companhia não conhece. Vi ficando cada vez
moradores experimenta momentos de êxtase                 mais para trás.
existencial. Os comportamentos se sucedem, numa
linha que vai do instinto gregário ao esvaziamento       Seu último recalque manifesta-se no final do conto.
trazido pela rotina. O engraçado é que ninguém chega     Durante a narrativa a protagonista fazia referência a
a ver esse bandido, o que leva à dúvida sobre sua        uma mulher que havia sido violentada na escuridão
existência. No entanto, serviu para unir as pessoas em   atrás da Catedral de Ruão, na França. Esse
plena madrugada para viverem um pouco da alegria         acontecimento ficou tão marcado em sua mente que,
coletiva, o que já estava começando a desaparecer na     certa vez, voltando para casa, acaba por descer no
São Paulo da época de Mário de Andrade.                  ponto errado. Seu inconsciente já estava dominando.

Chama a atenção nesse conto como o elemento              Para chegar até a sua casa, tem de passar pelo Largo
coletivo é bastante vivo, chegando perto da técnica      Santa Cecília, onde fica a igreja de mesmo nome.
apresentada por Aluísio Azevedo em O Cortiço.            Poderia muito bem ir pela frente, mas alguma força a
                                                         faz ir para a parte de trás da igreja.
Primeiro de Maio - Conflito de um jovem operário,
identificado como "chapinha 35", com o momento           Nesse ponto, mademoiselle ouviu passos atrás dela.
histórico do Estado Novo. 35 vê passar o Dia do          Apressou sua carreira, mas sentiu que os seus
Trabalho, experimentando reflexões e emoções que         perseguidores também se apressavam. Até que se viu
vão da felicidade matinal à amargura e desencanto        derrubada no chão e atacada sexualmente.
vespertinos. Mesmo assim, acalenta a esperança de
que, no futuro, haja liberdade democrática para que      No parágrafo seguinte, vemo-la chegando à entrada de
"sua" data seja comemorada sem repressão.                sua pensão, esbaforida. Os sujeitos que andavam atrás
                                                         dela conversam despreocupadamente, alheios à
O conto possui uma excelente idéia que pecou pelo        presença dela. Tudo não havia passado de delírios da
aspecto panfletário. Sua personagem principal, 35 (a     solteirona. Esquizofrenia, eis a sua perversão.
maneira como as personagens são nomeadas, por meio
de números, não só indica a desumanização por que        Surpreendentemente, quando os homens passam perto,
passam dentro do sistema capitalista, como também        ela dá uma nota para eles, dizendo “merci pour votre
faz referência a datas importantes, como 35 (ano em      bonne compagnie” (―Obrigado por vossa boa
que foi decretado o feriado de Primeiro de Maio) e 22,   companhia‖, em francês. Este conto está recheando de
ano de fundação do Partido Comunista Brasileiro), um     expressões nessa língua, que devem ser ignoradas, pois
carregador de malas da Estação da Luz, sofre uma         sabê-las ou não não traz enormes prejuízos à
transformação psicológica: vai da visão ingênua sobre    compreensão do texto).
o feriado até a noção desencantada e decepcionada,
mais próxima da realidade (talvez a aquisição de         O poço - Mais eficiente em sua crítica social pois o faz
conhecimento, consciência, esteja simbolizada na maçã    de maneira mais literária e menos panfletária, é uma
que 35 come no decorrer do final do conto). Acha         história que se passa em um pesqueiro, lugar predileto
estranho que o feriado seja comemorado por um grupo      de lazer da burguesia da época. O seu dono está
de políticos encasacados, enquanto os trabalhadores      preocupado com a construção de um poço, uma
são impedidos pela polícia de se agruparem.              benfeitoria para si e para os visitantes, o que o faz ficar
                                                         chateado com o atraso da obra, graças ao frio e à
Atrás da catedral de Ruão - Relato dos obsessivos        umidade do inverno. Era impossível trabalhar com as
anseios sexuais de uma professora de francês,            paredes enlameadas e com risco de desabamento.
quarentona invicta, que procura hipocritamente
dissimular seus impulsos carnais. Aplicação ficcional    Contrariado, aceita a interrupção da obra. O problema
da psicanálise: decifração freudiana.                    é que, ao mostrar a construção para seus visitantes,
                                                         deixa cair sua caneta. De maneira tirana, força seu
O conto foge um pouco ao tom dos demais em terceira      empregados a tentar resgatá-la. Quem se dedica a
pessoa, pois apresenta uma forte abordagem freudiana,    realizar a tarefa é um empregado raquítico e doente,
aproximando-se, portanto, dos contos em primeira         mas adequado para descer no poço. Ainda assim, o
pessoa.                                                  clima cada vez mais árduo e o mergulho no lamaçal do
                                                         poço só pioram sua situação.
                                                           Existem elementos nesse conto que fazem referência
De uma forma bem expressionista, conforme se               aos estudos de Freud, Totem e Tabu principalmente.
aproxima do clímax do conto, em que a opressão aos         Nota-se isso, primeiro, pela figura do pai como
operários se torna mais cruel, o frio vai-se tornando      castrador (a idéia do pai como figura castradora vai ser
mais agudo e o barulho do maquinário do poço vai           também a base da defesa do matriarcado de um mítico
piorando, como se não mais gemesse, mas gritasse.          Brasil pré-cabralino, percebida na Antropofagia de
                                                           Oswald de Andrade e até em Macunaíma, de Mário de
No final, o irmão do sacrificado impõe-se de maneira       Andrade. Lembre-se de que a principal divindade desta
arriscada, dizendo que seu parente não iria mais           obra é Vei, a Sol. Assim, essa civilização, sob a figura
mergulhar. Houve um impasse, logo desfeito, com a          da mãe, não reprimiria os prazeres carnais, ao contrário
paternal advertência de que o subordinado deveria          da nossa civilização, patriarcal e judaico-cristã, que
tomar cuidado com o tom com que se dirigia ao seu          tem como principal deus uma figura masculina e,
patrão.                                                    portanto, repressora) e da necessidade de devorá-lo
                                                           para que haja libertação. Note que a lembrança do pai
Dias depois, já afastadas as dificuldades climáticas, os   era um tabu (assunto a ser evitado; foi lembrado,
empregados puderam resgatar a caneta do lamaçal,           tocado, estragou a ceia). Note a devoração
entregando-a ao patrão como se fosse um objeto             antropofágica representada no momento em que o peru
sagrado. Mas (era de se esperar) já não funcionava         vai sendo comigo: paralelamente, a imagem do pai vai
mais. Para revolta do leitor, o poderoso joga-a fora;      diminuindo, transformando-se num totem, ou seja,
abrindo a gaveta, vêem-se outras iguais.                   elemento a ser nobremente (e talvez friamente)
                                                           reverenciado.
Peru de Natal - A história passa-se poucos meses
depois da morte do pai de Juca. Ainda sob a sombra do      Frederico Paciência - o único texto em que Mário de
luto, o narrador tem a idéia de possibilitar um pouco de   Andrade tematizou, ainda que de forma tão tangencial,
alegria às suas ―três mães‖: mãe, irmã e tia (note que     o homossexualismo.
pode ser visto aqui um indício de complexo de Édipo).
Expressa o desejo de comemorar o Natal com a               Pegamos Juca na fase escolar, no que hoje se chamaria
degustação de um peru. Socialmente – não se deve           a passagem da 8a série para todo o Ensino Médio. Fase
esquecer o luto – era uma idéia que poderia ser            conturbada, dizem os psicanalistas, pois é nela que se
reprovada, mas quem não curtiria um pouco de prazer        afirma a identidade sexual, o que implica lembrar que
na vida? Dessa forma, quando Juca expressa tal desejo,     é nela em que tal caráter está oscilante.
serve de válvula de escape para a família. Nenhuma
delas poderia ter feito aquele pedido, mas o desejavam.    A maneira como Juca descreve o seu novo
Assim, com a desculpa de que estavam preocupadas           companheiro de escola, Frederico Paciência,
em atender o desejo de um ―doidinho‖, embarcam na          destacando seu aspecto solar (alguns mitos
comemoração que também as satisfaz (será essa a            (provavelmente Mário de Andrade, profundo estudioso
função do artista: expressar o que os outros têm           desse assunto, deveria conhecê-los) narram a
reprimido, represado?).                                    impossibilidade de relação amorosa entre o sol e a lua,
                                                           pois nunca se encontram. Esse elemento pode ser
Interessante é lembrar que a família nunca fora desses     relacionado a Juca (de caráter melancólico e, portanto,
tipos de festejos, por causa do espírito econômico, seco   lunar) e Frederico Paciência (dono de uma explosão de
do pai. O narrador faz lembrar que este não era um         vida e, portanto, de caráter solar), sua cabeleira e sua
chefe de lar cretino, que desprezava suas                  peitaria, põe a nu a carga sexual do relacionamento. O
responsabilidades. Pelo contrário, nunca deixou de         problema é que, assim como no final de Vestida de
sustentá-la. Mas era incapaz daqueles pequenos             Preto, o conto vai estar pontuado de momentos em que
prazeres, o que acabava por castrar seus parentes.         se chega próximo do clímax de felicidade, sem saciá-
                                                           la. Uma vez, um garoto apanhou dos dois meninos
Esse caráter censor mostra-se forte até mesmo após sua     porque insinuou algo. Foi a glória para Juca. Outra
morte. Durante a ceia de Natal, enquanto comiam            vez, os dois partilharam a posse momentânea de um
prazerosamente o peru, a mãe lembra-se que estava          livro sobre a história da prostituição. Era uma
tudo perfeito, só faltava o pai. Foi o suficiente para     intimidade num campo perigoso, sexualidade, ao
mergulhar a mesa em prantos, para desespero de Juca.       mesmo tempo que gerara remorso em Juca, pois, com
                                                           tal livro, havia contribuído para macular a imagem
É quando o rapaz tem uma excelente jogada. De uma          solar e pura do amigo.
forma que pode ser entendida como hipócrita, o
narrador lembra que a mãe tinha razão. Para tudo ficar     E por aí os dois vão, deliciando-se em passear
perfeito, só faltava mesmo a presença do falecido, mas     abraçados da casa de um para a casa de outro, a ficar
que onde quer que este estivesse, estaria contente         no sofá, cabeças unidas. Vivem na proximidade do
vendo a família reunida. Com tal expediente, em pouco      perigo, como faz mademoiselle, de Atrás da Catedral
tempo a alegria retornava à mesa e todos voltaram a        de Ruão. Era um recalque, assim como o era a maneira
devorar o peru, enquanto o fantasma do pai começava        como se deliciavam em discutir e se agredirem. Mas
a diminuir.                                                queriam apenas intuir a sensualidade, sem jogar para o
                                                           consciente. Qualquer tentativa em contrário era
reprimida.                                                   gênero humano.

Um dia, velório do pai de Frederico, os dois tiveram         Tempo de camisolinha - Provavelmente seu narrador
um momento mágico de sedução. Depois de expulsar             é o mesmo dos outros três, apesar da mudança de
um homem preocupado, como abutre, com negócios               nome: Carlos.
ligados ao falecimento, Juca e seu amigo vão para o
quarto. Frederico fica conversando na semi-escuridão.        O título é uma referência à roupa que o protagonista,
Juca perde-se admirando os lábios carnudos de seu            ainda no início da infância, usava, típica de criança e
amigo, deitado. Percebendo o lance, Frederico pára de        que o irritava – claro sinal de que já estava crescendo,
conversar e levanta-se da cama. Falta pouco, percebe-        apesar de sua mãe não perceber. Nota-se que a criança
se, para os dois entregarem-se.                              estava no limiar de sua idade pelo fato de sempre estar
                                                             brincando com seu pênis, o que, dizem os
No entanto, a lembrança do pai, ainda sendo velado,          psicanalistas, equivale ao terceiro e último momento
parece impor-se entre os dois (semelhante à imagem           da primeira infância, a fase genital. É interessante
castradora do pai de O Peru de Natal), esfriando             lembrar que esse é justamente o momento de
completamente o clima. A partir de então, a amizade          socialização da criança: ou vai haver um
muda de rumo, perdendo a intensidade.                        direcionamento em sua personalidade para o altruísmo,
                                                             ou haverá para o egoísmo. Coincidência ou não, é este
Por fim, o tanto vira nada. Terminado o colégio,             justamente o tema do conto.
separaram-se, Frederico indo para o Rio. Anos depois,
Juca fica sabendo da morte da mãe de seu antigo              A história passa-se numa rara viagem de férias em
amigo. Era a grande chance de reatar tudo, sob o             Santos, possibilitada apenas por causa de um período
pretexto de consolar o necessitado. Mas termina por          de convalescença da mãe do narrador (o pai do
mandar um telegrama formal, o que arrefece de vez            narrador Carlos não era afeito a esses luxos, o que faz
todo o relacionamento.                                       lembrar o pai de Juca, de O Peru de Natal, reforçando
                                                             a tese de se tratarem das mesmas personagens).
Nélson - Registro do comportamento insólito de um
homem sem nome. Num bar, um grupo de rapazes                 Em seus passeios, a criança, após desafiar a santa (já se
exercita seu "voyeurismo" pela curiosidade despertada        disse que Carlos gostava de manipular seu pênis. Mas
pelo estranho sujeito: quatro relatos se acumulam, na        era sempre repreendido por sua mãe, sob a alegação de
tentativa de decifrar a identidade e a história de vida de   que a santa (um quadro na parede) não iria gostar.
uma pessoa que vive ilhada da sociedade, ruminando           Nesse dia, Carlos, aproveitando que ninguém estava
sua misantropia.                                             em casa, exibe com toda empáfia seu diminuto
                                                             membro para a divindade, espantando-se por nada
Conto muito estranho, talvez por ser o único que ainda       acontecer. Rompia limites. Estava crescendo), acaba
não passou pela revisão final do autor. Marcante é a         ganhando de um pescador três estrelinhas do mar. O
utilização de vários focos narrativos, em que há uma         pobre homem havia dito, ao presenteá-las, que serviam
técnica cubista de colagem de várias histórias, todas        para dar boa-sorte. O menino volta para casa feliz,
sobre o misterioso personagem que freqüenta o bar em         mesmo sem saber direito o que era sorte, guardando as
que todos estão.                                             preciosidades no quintal de sua casa. Mas seu estado é
                                                             tal que fica toda hora indo visitar seus troféus.
Parece que cada pessoa tem alguma história sobre o
misantropo protagonista. Uns dizem que fora                  Até que, em outro de seus passeios, conhece um
apaixonado por uma paraguaia, que o abandonou                português infeliz. Fica sabendo que o sujeito tinha ―má
quando, educada, ficou sabendo do massacre que o             sorte‖: muitos filhos pequenos, dificuldade para criá-
Brasil causou ao país dela durante a Guerra do               los e uma esposa paralítica. O menino ficou
Paraguai. Outros mencionam ter participado da Coluna         penalizado. Num esforço enorme, volta para sua casa,
Prestes. Outros dizem que ele, ao contrário, teria lutado    pega suas estrelinhas e dá a mais bonita para o infeliz.
contra a Coluna. Parece ter sido durante esse combate
que teria ficando com o braço deformado, a mão em            É o momento de dois grandes aprendizados. O
formato de gancho: ficara embaixo d’água, no                 primeiro está na idéia de que a nossa felicidade é
Pantanal, para escapar do inimigo, quando começou a          sempre diminuída pela infelicidade que existe no
ser atacado por piranhas, agüentando até que pudesse         mundo. O segundo é a noção de altruísmo, mesmo que
escapar.                                                     para tanto deva diminuir seu bem-estar.

Nelson percebe que está sendo observado, o que o faz
sair do bar. Agora o foco narrativo o acompanha. A
misantropia da personagem é tamanha que se vê
impossibilitada de seguir o seu caminho porque há
bêbados à sua frente. No momento em que um policial
afasta os arruaceiros, Nelson rapidamente se esgueira,
como um bicho, para a sua casa, tranca-se, não se
esquecendo de dar três voltas na chave. Isola-se do
VII – MANUEL BANDEIRA –                                     profunda tristeza, aliada ao desencanto e à melancolia.
                                                            A confissão de seu estado de espírito, da presença do
MELHORES POEMAS                                             ―eu‖ em poemas e da morte como motivo poético mais
                                                            freqüente conferiu-lhe uma aura romântica.
(Recife PE, 1884 - Rio de Janeiro RJ, 1968)                 A morte estava muito presente na vida de Bandeira,
                                                            pois muito jovem descobriu a tuberculose. Como não
Conforme esclarece o melhor crítico da obra de              pôde seguir a vida como arquiteto, Bandeira começou
Bandeira, Davi Arrigucci Jr.: "A poesia de Bandeira         a se dedicar à poesia para preencher o espaço. Esta
(..) tem início no momento em que sua vida, mal saída       temática está presente desde o primeiro livro. A morte
da adolescência, se quebra pela manifestação da             também determinou um estilo, mas sem o entusiasmo
tuberculose, doença então fatal. O rapaz que só fazia       dos modernistas da época. Os paulistas eram
versos por divertimento ou brincadeira, de repente,         extremamente exaltados, como Oswald e Mário de
diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e        Andrade. Bandeira era um poeta da humildade, do tom
tédio, começa a fazê-los por necessidade, por               mais baixo.
fatalidade, em resposta à circunstância terrível e          Outra temática dos poemas de Bandeira é a
inevitável".                                                sensualidade, tratada de maneira diferente, não
      Não participou diretamente da Semana de 22, mas       tradicional. O objeto do desejo era principalmente as
seu poema "Os Sapos", lido por Ronald de Carvalho,          prostitutas. Em função da própria experiência de vida
provocou reações radicais na segunda noite do               sexual dele, não convencional por causa da doença.
acontecimento. Mário de Andrade chamava-o de "O
São João Batista do Modernismo". Bandeira exerceu           A poesia tem também um tom pessoal, intimista,
diversas atividades profissionais relacionadas ao           coloquial, sempre resvalando ou abordando
ensino. Dois anos antes de morrer, em entrevista            diretamente o cotidiano.
concedida a um jornal, afirmou:
      "Tive de parar os estudos por causa da doença.        Testamento
Não estudei cálculo infinitesimal ou integral e isso me
impediu de ler muitas coisas, inclusive a teoria de         ..."Criou-me desde menino
Einstein. Nas horas de ócio da doença, não me apliquei      Para arquiteto meu pai,
ao estudo de grego e latim, iniciados no Colégio Pedro      Foi-se-me um dia a saúde...
II. Isso é quase tudo o que não fiz. E, naturalmente,       Fiz-se arquiteto? Não pude!
sinto pelos amores frustrados por causa da doença".         Sou poeta menor, perdoai!"
       O poeta morreu com mais de 80 anos, em 13 de
outubro de 1968. A perspectiva da morte foi uma             Também a infância, como retorno ao passado, opõe-se
constante em sua poesia.                                    a este presente de angústia e dor vivenciado pelo poeta.
                                                            O folclore, suas quadras e canções populares, a família
Em toda a sua trajetória poética Manuel Bandeira nos        sempre apareceram ligados à infância. Foi o tempo
mostra a preocupação com a constante busca por novas        feliz antes da doença. Depois o pai, a mãe e o irmão
formas de expressão.                                        morreram, então foi o tempo de comunhão com os
                                                            parentes.
Um dos mais importantes poetas brasileiros do século
XX, busca o significado das coisas com um lirismo           Profundamente
maduro e simples. Cheios de angústia e busca pelo
significado das coisas, os poemas tratam basicamente        Quando eu tinha seis anos
sobre morte, humildade, infância e sensualidade.            Não pude ver o fim da festa de São João
                                                            Porque adormeci
A poesia de Manuel Bandeira caracterizou-se pela
variedade criadora, desde o soneto parnasiano, pela         Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
prática do verso livre, até por experiências com a          Minha avó
poesia concretista. Por outro lado, conservou e adaptou     Meu avô
ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares,      Totônio Rodrigues
como os versos em redondilhas maiores. Em sua               Tomásia
poesia, observa-se uma constante nota de ternura e          Rosa
paixão pela vida. Seu lirismo intimista registra o          Onde estão todos eles?
cotidiano com simplicidade, atribuindo-lhe um sentido
de evento e espetáculo. Nela, também, estão presentes       - Estão todos dormindo
a infância, a terra natal, a cultura popular, a doença, a   Estão todos deitados
preocupação com a morte, a defesa da linguagem              Dormindo
modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o        Profundamente.
antilirismo, a reflexão existencial, a infância e o
humor.
                                                            Assim ele se autodefine:
Verificamos, em Manuel Bandeira, traços indicadores         Auto-Retrato
de uma sensibilidade romântica, sobretudo de uma
Provinciano que nunca soube                               metrificado, protocolar e acadêmico, erudito e
Escolher bem uma gravata;                                 conservador.
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;                                   Ironiza o lirismo namorador que lembra a tradição
Poeta ruim que na arte da prosa                           romântica (Político, Raquítico, Sifilítico), tanto quanto
Envelheceu na infância da arte,                           o lirismo normativo, acadêmico, que lembra o
E até mesmo escrevendo crônicas                           parnasiano (contabilidade tabela de co-senos
Ficou cronista de província;                              secretário...).
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado                                   Muitas propostas da ―fase heróica‖ do Modernismo
Ficou de fora); sem família,                              (1922-1930) estariam incorporadas à sua poesia, entre
Religião ou filosofia;                                    elas: a fusão prosa/poesia, versos brancos (sem rimas),
Mal tendo a inquietação de espírito                       versos livres (sem métrica), nova utilização de sinais
Que vem do sobrenatural,                                  gráficos (linha pontilhada para indicar a respiração, por
E em matéria de profissão                                 exemplo), o diálogo, o humor negro e a linguagem
Um tísico profissional.                                   coloquial.
Em muitos poemas, Bandeira aproxima-se da estética
parnasiana através da rigidez formal, da seleção de       Pneumatórax
temas, da busca do universal e da apreensão objetiva
da realidade. Em outros textos aparecem o                 Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
irracionalismo, as paisagens indefiníveis, nebulosas e    A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
as atmosferas crepusculares. O Simbolismo, que além       Tosse, tosse, tosse.
dessas características privilegiou a musicalidade,        Mandou chamar o médico:
despertou no poeta o gosto pelo subjetivismo, pela        - Diga trinta e três.
introspecção.                                             - Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
                                                          - Respire.
Paisagem Noturna
                                                          - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e
(...)                                                     o pulmão direito infiltrado.
O plenilúnio vai romper... Já da penumbra                 - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
Lentamente reslumbra                                      - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango
A paisagem de grandes árvores dormentes.                  argentino.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas delinqüescentes                                    Experiências concretistas
Mancham para o levante as nuvens langorosas.              O Concretismo, poesia de vanguarda que se firmou na
                                                          década de 60, também mereceu a atenção de Bandeira.
                                                          Palavras soltas, sonoridade, visualização.
Assimilando as conquistas dos poetas do Modernismo,
Manuel Bandeira, em muitos textos nos quais discute a     A onda
prática poética, define esta nova postura estética.
Primeiramente, houve uma ruptura com o                    a onda anda
Parnasianismo, ou com a tradição lírica da época;         aonde anda
depois, estes textos negariam as confecções e             a onda?
manifestariam o desejo de libertação:                     a onda ainda
                                                          ainda onda
Poética                                                   ainda anda
                                                          aonde?
Estou farto do lirismo comedido                           aonde?
Do lirismo bem-comportado                                 a onda a onda
(...)
Quero antes o lirismo dos loucos                          A opressão da realidade, a solidão e a doença
O lirismo dos bêbados                                     conduziram-no à busca da evasão, à procura do lugar
O lirismo difícil e pungente dos bêbados                  ideal, onde praticamente tudo seria possível:
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.   Vou-me embora pra Pasárgada
                                                          Vou-me embora pra Pasárgada
*O poema Poética é um manifesto modernista -              Lá sou amigo do rei
metapoema = poesia que fala de poesia.                    Lá tenho a mulher que eu quero
                                                          Na cama que escolherei
Versos livres, tom de manifesto que se recusa ao          Vou-me embora pra Pasárgada
lirismo comedido, bem comportado - o lirismo
                                                          E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito                              Sino da paixão, bate bão-bão-bão.
Quando de noite me der
Vontade de me matar                                      Sino do Bonfim, por que chora assim?...
- Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei                                   Arte de Amar
Vou-me embora pra Pasárgada
                                                         Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua
A Estrela                                                alma.
                                                         A alma é que estraga o amor.
Vi uma estrela tão alta,                                 Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Vi uma estrela tão fria!                                 Não noutra alma.
Vi uma estrela luzindo                                   Só em Deus — ou fora do mundo.
Na minha vida vazia.                                     As almas são incomunicáveis.
                                                         Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Era uma estrela tão alta!                                Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Era uma estrela tão fria !
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.                                   O último poema

Põe que da sua distância                                 Assim eu quereria o meu último poema.
Para a minha companhia                                   Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e
Não baixava aquela estrela?                              menos intencionais
Por que tão alta luzia?                                  Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
                                                         Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
E ouvi-a na sombra funda                                 A pureza da chama em que se consomem os diamantes
Responder que assim fazia                                mais límpidos
Para dar uma esperança                                   A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Mais triste ao fim do meu dia.
(Lira dos cinquent'anos)
                                                         Irene no céu
A estrela é uma imagem obsessiva na poesia de
Bandeira, metaforizando o absoluto, o inatingível, a     Irene preta
luz que orienta, na mesma linha da poesia romântica e    Irene boa
simbolista.                                              Irene sempre de bom humor.

Algumas vezes, significa a mulher, sensual e distante,   Imagino Irene entrando no céu:
ansiosamente aguardada ("estrela da manhã").             — Licença, meu branco!
                                                         E São Pedro bonachão:
Em A estrela, notam-se as posições entre a vida vazia    — Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
do poeta e o brilho do astro inacessível, utópico. Os
contrastes aparecem no plano espacial e cromático
("Era uma estrela sozinha Luzindo no fim do dia", "E     A morte absoluta
ouvi-a na sombra funda").
                                                         Morrer.
Nos últimos versos há ironia, pois a estrela reitera a   Morrer de corpo e de alma.
sua distancia insuperável, dando ao "eu" lírico uma      Completamente.
esperança triste, uma vez que ele a contempla sem a
menor possibilidade de aproximação.                      Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
                                                         A exangue máscara de cera,
                                                         Cercada de flores,
Os Sinos                                                 Que apodrecerão – felizes! – num dia,
                                                         Banhada de lágrimas
Sino de Belém,                                           Nascidas menos da saudade do que do espanto da
Sino da paixão...                                        morte.
Sino de Belém,
Sino da paixão...                                        Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
Sino do Bonfim!...                                       A caminho do céu?
Sino do Bonfim!...                                       Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Sino de Belém, pelos que ainda vêm!                      Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
Sino de Belém, bate bem-bem-bem.                         A lembrança de uma sombra
Sino da paixão, pelos que ainda vão!                     Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
                                            VIII – JOÃO CABRAL DE MELO
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel    NETO
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,                     MELHORES POEMAS
– Sem deixar sequer esse nome.              João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife -
                                            PE, no dia 09 de janeiro de 1920,. Morreu em 21 de
                                            dezembro de 1999, no Rio de Janeiro.
                                             Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira e, pelo lado
Consoada                                    materno, de Gilberto Freyre. Passa a infância em engenhos
                                            de açúcar. Ingressou na carreira diplomática aos 25 anos,
Quando a Indesejada das gentes chegar       exercendo sua profissão em diversos países, por mais de
(Não sei se dura ou caroável),              quarenta anos.
talvez eu tenha medo.                       A cultura espanhola, que o poeta conheceu a fundo quando
Talvez sorria, ou diga:                     viveu em Barcelona e Sevilha, deixou muitas marcas na
- Alô, iniludível!                          poesia de João Cabral.
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
                                             João Cabral de Melo Neto inaugurou um novo modo de
(A noite com os seus sortilégios.)
                                            fazer poesia em nossa literatura. A essência de sua atividade
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,   poética mostra a tentativa de desvendar os elementos
A mesa posta,                               concretos da realidade, que se apresentam como um desafio
Com cada coisa em seu lugar.                para a inteligência do poeta. Sempre guiado pela lógica, pelo
                                            raciocínio, seus poemas evitam análise e exposição do eu e
                                            voltam-se para o universo dos objetos, das paisagens, dos
                                            fatos sociais, jamais apelando para o sentimentalismo. Por
                                            isso, o prazer estético que sua poesia pode provocar deriva
                                            sobretudo de uma leitura racional, analítica, não do
                                            envolvimento emocional com o texto.

                                            Essas características levaram a crítica a ver na obra de João
                                            Cabral uma "ruptura com o lirismo" ou a considerar sua
                                            expressão poética como "antilírica". Não devemos,
                                            entretanto, supor que essa relação do poeta com o mundo
                                            concreto, objetivo, produza apenas textos descritivos. Na
                                            verdade, suas descrições ora acabam adquirindo valor
                                            simbólico, ora acabam denunciando a crítica social que o
                                            poeta pretende levar a efeito.

                                            PEDRA DO SONO, seu primeiro livro, apresenta
                                            elementos do surrealismo, a começar pelo título (sono).
                                            Segundo o próprio poeta, o que se pretendeu nesse livro foi
                                            "compor um buquê de imagens em cada poema,- as imagens
                                            revelam matéria surrealista no sentido de oníricas,
                                            subconscientes... " . O sono e o sonho são temas freqüentes e
                                            importantes nessa obra. O próprio autor considera sua
                                            primeira obra como "um livro falso", cujo rendimento
                                            artístico não o satisfez.

                                            Poema da Desintoxicação
                                            Em densas noites
                                            com medo de tudo:
                                            de um anjo que é cego
                                            de um anjo que é mudo.
                                            Raízes de árvores
                                            enlaçam-me os sonhos
                                            no ar sem aves
                                            vagando tristonhos.
                                            Eu penso o poema
                                            da face sonhada,
                                            metade de flor
                                            metade apagada.
                                            O poema inquieta
                                            o papel e a sala.
                                            Ante a face sonhada
                                            o vazio se cala.
                                            Ó face sonhada
de um silêncio de lua,                                           Eu me refugio
na noite da lâmpada                                              nesta praia pura
pressinto a tua.                                                 onde nada existe
Ó nascidas manhãs                                                em que a noite pouse.
que uma fada vai rindo,                                          Como não há noite
sou o vulto longínquo                                            cessa toda fonte;
de um homem dormindo.                                            como não há fonte
                                                                 cessa toda fuga;
                                                                 como não há fuga
O ENGENHEIRO, embora inclua ainda poemas de caráter              nada lembra o fluir
surrealista, traz já as bases de sua nova concepção de poesia,   de meu tempo, ao vento
segundo a qual o poema deve resultar de uma atitude              que nele sopra o tempo.
racionalista, objetiva, diante da realidade concreta. Uma
atitude de quem controla racionalmente as emoções.               III
                                                                 Neste papel
As nuvens                                                        pode teu sal
As nuvens são cabelos                                            virar cinza;
crescendo como rios                                              pode o limão
são gestos brancos                                               virar pedra;
da cantera muda,                                                 o sol da pele,
(...)                                                            o trigo do corpo
São a morte (a espera da)                                        virar cinza.
atrás dos olhos fechados                                         (Teme, por isso,
a medicina, branca!                                              a jovem manhã
Nos dias brancos.                                                sobre as flores
                                                                 da véspera.)
O Engenheiro                                                     Neste papel
A luz, o sol, o ar livre                                         logo fenecem
envolvem o sonho do engenheiro.                                  as roxas, mornas
O engenheiro sonha coisas claras:                                flores morais;
superfícies, tênis, um copo de água.                             todas as fluidas
                                                                 flores da pressa;
O lápis, o esquadro, o papel;                                    todas as úmidas
o desenho, o projeto, o número:                                  flores do sonho.
o engenheiro pensa o mundo justo,                                (Espera, por isso,
mundo que nenhum véu encobre.                                    que a jovem manhã
...                                                              te venha revelar
                                                                 as flores da véspera.)
PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO mostra o
amadurecimento daquele conceito de poesia rascunhado no
livro anterior. O poeta rejeita - em poemas de caráter           IV
metalingüístico - a inspiração e assume, não sem hesitar, a      O poema, com seus cavalos,
objetividade diante do ato de escrever. Por isso, o livro        quer explodir
apresenta poemas com uma linguagem racional, lógica,             teu tempo claro: romper
marcados pelo extremo cuidado formal. Muitas vezes sente-        seu branco frio, seu cimento
se o poeta questionando a validade do próprio ato de             mudo e fresco.
escrever.                                                        (O descuido ficara aberto
                                                                 de par em par;
Psicologia da composição                                         um sonho passou, deixando
                                                                 fiapos, logo árvores instantâneas
I                                                                coagulando a preguiça.)
Saio do meu poema
como quem lava as mãos.                                          V
Algumas conchas tornaram-se,                                     Vivo com certas palavras,
que o sol da atenção                                             abelhas domésticas.
cristalizou; alguma palavra                                      Do dia aberto
que desabrochei, como a um pássaro.                              (branco guarda-sol)
Talvez alguma concha                                             esses lúcidos fusos retiram
dessas (ou pássaro) lembre,                                      o fio do mel
côncava, o corpo do gesto                                        (do dia que abriu
extinto que o ar já preencheu;                                   também como flor)
talvez como a camisa                                             que na noite
vazia, que despi.                                                (poço onde vai tombar
                                                                 a aérea flor)
II                                                               persistirá: louro
Esta folha branca                                                sabor, e ácido,
me proscreve o sonho,                                            contra o açúcar do podre.
me incita ao verso
nítido e preciso.                                                VI
Não a forma encontrada                                       como uma rua
como uma concha, perdida                                     é passada por um cachorro;
nos frouxos areais                                           uma fruta
como cabelos;                                                por uma espada.
não a forma obtida
em lance santo ou raro,                                      O rio ora lembrava
tiro nas lebres de vidro                                     a língua mansa de um cão,
do invisível;                                                ora o ventre triste de um cão,
mas a forma atingida                                         ora o outro rio
como a ponta do novelo                                       de aquoso pano sujo
que a atenção, lenta,                                        dos olhos de um cão.
desenrola.,
aranha; como o mais extremo                                  Aquele rio
desse fio frágil, que se rompe                               era como um cão sem plumas.
ao peso, sempre, das mãos                                    Nada sabia da chuva azul,
enormes.                                                     da fonte cor-de-rosa,
                                                             da água do copo de água,
VII                                                          da água de cântaro,
É mineral o papel                                            dos peixes de água,
onde escrever                                                da brisa na água.
o verso; o verso                                             ...
que é possível não fazer.
São minerais                                                 Aquele rio
as flores e as plantas,                                      jamais se abre aos peixes,
as frutas, os bichos                                         ao brilho,
quando em estado de palavra.                                 à inquietação de faca
É mineral                                                    que há nos peixes.
A linha do horizonte,                                        Jamais se abre em peixes.
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.                                          Abre-se em flores
É mineral, por fim,                                          pobres e negras
qualquer livro:                                              como negros.
que é mineral a palavra                                      Abre-se numa flora
escrita, a fria natureza                                     suja e mais mendiga
da palavra escrita.                                          como são os mendigos negros.
                                                             Abre-se em mangues
VIII                                                         de folhas duras e crespos
Cultivar o deserto                                           como um negro.
como um pomar às avessas:
(A árvore destila                                            Liso como o ventre
a terra, gota a gota;                                        de uma cadela fecunda,
a terra completa                                             o rio cresce
cai, fruto!                                                  sem nunca explodir.
Enquanto na ordem                                            Tem, o rio,
de outro pomar                                               um parto fluente e invertebrado
a atenção destila                                            como o de uma cadela.
palavras maduras.)
Cultivar o deserto                                           E jamais o vi ferver
como um pomar às avessas:                                    (como ferve
então, nada mais                                             o pão que fermenta).
destila; evapora;                                            Em silêncio,
onde foi maçã                                                o rio carrega sua fecundidade pobre,
resta uma fome;                                              grávido de terra negra.
onde foi palavra
(povos ou touros                                             Em silêncio se dá:
contidos) resta a severa                                     em capas de terra negra,
forma do vazio.                                              em botinas ou luvas de terra negra
                                                             para o pé ou a mão
                                                             que mergulha.
Os livros seguintes - O cão sem plumas, O rio e Morte e
vida severina - mostram um poeta mais diretamente voltado    Como às vezes
para a temática social, analisando a realidade geográfica,   passa com os cães,
humana e social do Nordeste.                                 parecia o rio estagnar-se.
                                                             Suas águas fluíam então
O CÃO SEM PLUMAS                                             mais densas e mornas;
                                                             fluíam com as ondas
Paisagem do Capibaribe                                       densas e mornas
                                                             de uma cobra.
A cidade é passada pelo rio
Ele tinha algo, então,                                   condições para sobreviver à seca. A semelhança com um
da estagnação de um louco.                               auto natalino ocorre no final, quando, ao presenciar o
Algo da estagnação                                       nascimento de uma criança, o retirante renuncia à intenção
do hospital, da penitenciária, dos asilos,               de matar-se.
da vida suja e abafada                                   — O meu nome é Severino,
(de roupa suja e abafada)                                como não tenho outro de pia.
por onde se veio arrastando.                             Como há muitos Severinos,
                                                         que é santo de romaria,
Algo da estagnação                                       deram então de me chamar
dos palácios cariados,                                   Severino de Maria;
comidos                                                  como há muitos Severinos
de mofo e erva-de-passarinho.                            com mães chamadas Maria,
Algo da estagnação                                       fiquei sendo o da Maria
das árvores obesas                                       do finado Zacarias.
pingando os mil açúcares                                 Mas isso ainda diz pouco:
das salas de jantar pernambucanas,                       há muitos na freguesia,
por onde se veio arrastando.                             por causa de um coronel
                                                         que se chamou Zacarias
(É nelas,                                                e que foi o mais antigo
mas de costas para o rio,                                senhor desta sesmaria.
que "as grandes famílias espirituais" da cidade          Como então dizer quem fala
chocam os ovos gordos                                    ora a Vossas Senhorias?
de sua prosa.                                            Vejamos: é o Severino
Na paz redonda das cozinhas,                             da Maria do Zacarias,
ei-las a revolver viciosamente                           lá da serra da Costela,
seus caldeirões                                          limites da Paraíba.
de preguiça viscosa).                                    Mas isso ainda diz pouco:
                                                         se ao menos mais cinco havia
Seria a água daquele rio                                 com nome de Severino
fruta de alguma árvore?                                  filhos de tantas Marias
Por que parecia aquela                                   mulheres de outros tantos,
uma água madura?                                         já finados, Zacarias,
Por que sobre ela, sempre,                               vivendo na mesma serra
como que iam pousar moscas?                              magra e ossuda em que eu vivia.
                                                         Somos muitos Severinos
Aquele rio                                               iguais em tudo na vida:
saltou alegre em alguma parte?                           na mesma cabeça grande
Foi canção ou fonte                                      que a custo é que se equilibra,
Em alguma parte?                                         no mesmo ventre crescido
Por que então seus olhos                                 sobre as mesmas pernas finas,
vinham pintados de azul                                  e iguais também porque o sangue
nos mapas?                                               que usamos tem pouca tinta.
                                                         E se somos Severinos
O Rio                                                    iguais em tudo na vida,
                                                         morremos de morte igual,
Da lagoa da Estaca a Apolinário                          mesma morte severina:
                                                         que é a morte de que se morre
Sempre pensara em ir                                     de velhice antes dos trinta,
caminho do mar.                                          de emboscada antes dos vinte,
Para os bichos e rios                                    de fome um pouco por dia
nascer já é caminhar.                                    (de fraqueza e de doença
Eu não sei o que os rios                                 é que a morte severina
têm de homem do mar;                                     ataca em qualquer idade,
sei que se sente o mesmo                                 e até gente não nascida).
e exigente chamar.                                       Somos muitos Severinos
Eu já nasci descendo                                     iguais em tudo e na sina:
a serra que se diz do Jacarará,                          a de abrandar estas pedras
entre caraibeiras                                        suando-se muito em cima,
de que só sei por ouvir contar                           a de tentar despertar
(pois, também como gente,                                terra sempre mais extinta,
não consigo me lembrar                                   a de querer arrancar
dessas primeiras léguas                                  algum roçado da cinza.
de meu caminhar).                                        Mas, para que me conheçam
                                                         melhor Vossas Senhorias
                                                         e melhor possam seguir
MORTE E VIDA SEVERINA, sua obra mais conhecida, é        a história de minha vida,
um poema narrativo subintitulado auto de Natal           passo a ser o Severino
pernambucano, que trata da caminhada de um retirante -   que em vossa presença emigra.
Severino - do sertão até a zona litorânea, em busca de
                                                             várias leituras e interpretações da obra e não aceitar o leitor
PAISAGEM COM FIGURAS é considerado seu momento               passivo.
espanhol. Entre outros poemas sobre a Espanha encontra-se
o importante Alguns Toureiros onde mais uma vez Cabral       Assim como uma bala
define suas idéias sobre poesia e metapoesia, isto é, uma    enterrada no corpo,
poesia sobre como deve ser a poesia. Traça paralelos entre   fazendo mais espesso
duas terras que o poeta conhece bem: a Espanha e             um dos lados do morto;
Pernambuco.
                                                             assim como uma bala
Alguns Toureiros                                             do chumbo pesado,
Eu vi Manolo González                                        no músculo de um homem
e Pepe Luís, de Sevilha:                                     pesando-o mais de um lado
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.                                     qual bala que tivesse
                                                             um vivo mecanismo,
Vi também Julio Aparício,                                    bala que possuísse
de Madrid, como Parrita:                                     um coração ativo
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.                                   igual ao de um relógio
                                                             submerso em algum corpo,
Mas eu vi Manuel Rodríguez,                                  ao de um relógio vivo
Manolete, o mais deserto,                                    e também revoltoso,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,                                     relógio que tivesse
                                                             o gume de uma faca
...o de nervos de madeira,                                   e toda a impiedade
de punhos secos de fibra,                                    de lâmina azulada;
o de figura de lenha,
lenha seca da caatinga.                                      assim como uma faca
                                                             que sem bolso ou bainha
...o que melhor calculava                                    se transformasse em parte
o fluido aceiro da vida,                                     de vossa anatomia;
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,                               qual uma faca íntima
                                                             ou faca de uso interno,
...o que à tragédia deu número,                              habitando num corpo
à vertigem, geometria,                                       como o próprio esqueleto
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,                                   de um homem que o tivesse,
                                                             e sempre, doloroso,
...sim, eu vi Manuel Rodríguez,                              de homem que se ferisse
Manolete, o mais asceta,                                     contra seus próprios ossos.
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:                                   A EDUCAÇÃO PELA PEDRA [1966] indica a depuração
                                                             atingida pela poética de João Cabral de Melo Neto. A
...como domar a explosão                                     abordagem da realidade exige um contínuo processo de
com mão serena e contida                                     educação: os poemas devem ser trabalhados de forma
sem deixar que se derrame                                    rigorosa e sistemática para obterem a consistência e a
a flor que traz escondida,                                   resistência de uma pedra. Nesse processo, não cabem
                                                             metáforas: o poeta deve buscar a simetria entre a estrutura
...e como, então, trabalhá-la                                da linguagem e da realidade representada.
com mão certa, pouca e extrema:                              Linguagem seca, precisa, concisa, desprezo pelo
sem perfumar sua flor,                                       sentimentalismo. A arte não é intuitiva - é calculada, nua e
sem poetizar seu poema.                                      crua.

O vento do canavial                                          A Educação pela Pedra

Não se vê no canavial                                        Uma educação pela pedra: por lições;
nenhuma planta com nome,                                     Para aprender da pedra, freqüentá-la;
nenhuma planta maria,                                        Captar sua voz inenfática, impessoal
planta com nome de homem.                                    [pela de dicção ela começa as aulas].
É anônimo o canavial,                                        A lição de moral, sua resistência fria
sem feições, como a campina;                                 Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
é como um mar sem navios,                                    A de poética, sua carnadura concreta;
papel em branco de escrita.                                  A de economia, seu adensar-se compacta:
...                                                          Lições da pedra [de fora para dentro,
                                                             Cartilha muda], para quem soletrá-la.
Em UMA FACA SÓ LÂMINAS Cabral concretiza a
trajetória da melhor poesia moderna que é a de permitir      Outra educação pela pedra: no Sertão
[de dentro para fora, e pré-didática].
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
                                                           IX) RUBEM FONSECA -
E se lecionasse, não ensinaria nada;                       O COBRADOR
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.                    Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 11 de maio de
                                                           1925, viveu a maior parte de sua vida no Rio. José Rubem
Tecendo a Manhã                                            Fonseca é formado em Direito, iniciou sua carreira na
                                                           polícia, como comissário, em São Cristóvão, no Rio de
1                                                          Janeiro. Muitos dos fatos vividos naquela época estão
                                                           imortalizados em seus livros. Policial de gabinete, estudou
Um galo sozinho não tece uma manhã:                        na Escola de Polícia destacou-se em Psicologia, via, debaixo
ele precisará sempre de outros galos.                      das definições legais, as tragédias humanas e conseguia
De um que apanhe esse grito que ele                        resolvê-las.
e o lance a outro; de um outro galo                        O fato é que não há quase informações sobre quem é Rubem
que apanhe o grito de um galo antes                        Fonseca – pelo menos para os seus leitores.
e o lance a outro; e de outros galos                       O cobrador (contos, 1979),           foi seu sétimo livro. Ao
que com muitos outros galos se cruzem                      todo publicou mais de vinte obras, entre elas: Lúcia
os fios de sol de seus gritos de galo,                     McCartney (contos)
para que a manhã, desde uma teia tênue,                    Bufo & Spallanzani (romance)
se vá tecendo, entre todos os galos.                       A grande arte (romance)
                                                           Agosto (romance)
2
                                                           Muitas de suas obras foram traduzidas e adaptadas ao teatro,
E se encorpando em tela, entre todos,                      cinema e televisão.
se erguendo tenda, onde entrem todos,                      Relegado ao segundo escalão de escritores e intelectuais do
se entretendendo para todos, no toldo                      país, Fonseca é o tipo de personagem que prefere escrever a
(a manhã) que plana livre de armação.                      falar. Sua reclusão é mais um ingrediente a envolver sua
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo                      grande trajetória como escritor.
que, tecido, se eleva por si: luz balão.                   Rubem Fonseca desperta um sentimento interessante na
                                                           crítica. Não é considerado um dos grandes da literatura
                                                           nacional, mas também não pode ser ignorado totalmente
O O AUTO DO FRADE, de 1984, é uma poesia de fundo          pelos críticos. Fonseca vende muito além da média nacional
histórico falando sobre a vida e destino de Frei Caneca,   e tem talento de sobra. Seus livros não viram pauta de jornal
condenado à morte em 1825 por estar envolvido na           apenas porque têm ótima saída, e sim porque Rubem é um
Confederação do Equador.                                   dos mais importantes escritores da atualidade, mesmo não
                                                           tendo o devido reconhecimento.
                                                           A narrativa curta permeou a trajetória do escritor nos
ACORDO FORA DE MIM                                         primeiros anos de ofício. Indispensável em qualquer
                                                           antologia da literatura nacional pós anos 60, Rubem
-Acordo fora de mim                                        conseguiu, desde a estréia, cunhar um estilo vigoroso e
como há tempos não fazia.                                  visceral para sua arte. Os primeiros títulos, ainda sob o
Acordo claro, de todo,                                     impacto da ditadura militar, têm um alto nível de violência e
acordo com toda a vida,                                    crueldade.
com todos cinco sentidos                                   O estilo de Rubem Fonseca vem reafirmar a tendência
e sobretudo com a vista                                    urbana que a literatura brasileira adquire após os ―anos de
que dentro dessa prisão                                    chumbo‖. Saem a narrativas regionais e entram os romances
para mim não existia.                                      policiais, a violência das favelas, os seqüestros, o trânsito e o
- Acordo fora de mim:                                      caos que acomete as cidades após a década de 1950.
como fora nada eu via,                                     Essencialmente urbanos, os contos de Rubem Fonseca dão
ficava dentro de mim                                       destaque ao medo, ao sentimento de culpa e impotência,
como vida apodrecida.                                      indecisão diante da vida que paira na cabeça dos cidadãos
Acordar não é ter saída.                                   que vivem no ambiente, muitas vezes, claustrofóbico e
Acordar é reacordar-se                                     mórbido das cidades.
ao que em nosso em redor gira.                              ―Os personagens de Fonseca não têm escrúpulos. A única
                                                           moral que os rege é a de saciar a si mesmos‖,
                                                           Cheios de manias e excentricidades, os protagonistas dos
                                                           livros de Rubem Fonseca tentam sobreviver a si mesmos. As
                                                           tramas armadas pelo escritor tomam proporções enormes
                                                           quando contadas sob o ponto de vista de pessoas que já
                                                           perderam o rumo há muito tempo. As situações de violência
                                                           tomam corpo na obra de Fonseca. Mas o escritor consegue
                                                           contar histórias de forma a não constranger o leitor. O apego
                                                           com os personagens criados pelo escritor é fatal. O estilo
                                                           rápido e direto é outra característica essencial na sua
                                                           literatura.
                                                           Em contraste com sua reclusão, estão os seus livros, que
                                                           expõem toda a sua fragilidade e medo. Mesmo sendo um
                                                           senhor beirando os 80 anos, o autor coloca toda sua
                                                           genialidade à mostra ao escrever sobre o sexo e o amor com
o vigor de um jovem que acaba de bater sua primeira             ninguém lhe pagava a dignidade que ele merecia? E naquele
punheta. Aliás, o sexo é um dos temas recorrentes na sua        momento ele declara que não faz mais parte daqueles que
obra. Conseqüência direta do submundo que Fonseca tanto         são cobrados, mas dos cobradores. Mesmo que se precise de
gosta de comentar, o sexo é uma espécie de elemento             uma arma para isso porque esse preço custa muita violência
fundamental na filosofia "fonsequiana". Há sempre uma           e radicalismo.
ninfomaníaca em seus contos ou romances que é o pivô de
um adultério que não deu certo.                                 PIERRÔ DA CAVERNA

O COBRADOR                                                      No conto "Pierrô na caverna", um escritor monologa com a
O Cobrador - de Rubem Fonseca                                   ―maquineta‖, isto é, um gravador. Ele busca assim uma
                                                                liberdade de expressão que a palavra escrita não lhe
O O Cobrador é um livro de contos publicado em 1979, que        permitia. Quando escrevia, precisava buscar o estilo
reúne contos de Rubem Fonseca. Constituída por dez contos,      requintado que os críticos tanto elogiavam e que era apenas
a coletânea está centrada no tema da violência: a pedofilia e   um trabalho paciente de ourivesaria. Por exemplo, ele jamais
o aborto em ―Pierrô da Caverna‖; assassinato por                escreveria inconciliabilidade. Sua vida corriqueira era o
encomenda em ―Encontro no Amazonas‖; as lutas armadas           oposto da alegoria sobre a ambição, a soberba e a impiedade
em ―Caminho de Assunção‖; tráfico de drogas, extorsão e         que seu prestígio de escritor impelia a incluir numa novela.
assassinato em ―Mandrake‖; violência familiar e no trânsito,    Apesar da correspondência entre o registro oral e o verbal
além de suicídio em ―Livro de Ocorrências‖; estupro em          que percebe, o uso do gravador era para ele uma libertação.
―Almoço na Serra no Domingo de Carnaval‖; doenças               Mas uma libertação com uso imoderado do literário que
infecto-contagiosas e escravismo em ―H. M. S. Cormorant         acumulara na memória. Surgiu então uma sarabanda de
em Paranaguá‖; grupos de extermínio em ―O Jogo do               alusões a textos, a tal ponto que ele chega a usar uma frase
Morto‖. Além da discriminação social em ―Onze de Maio‖ e        em grego. Tem-se aí uma inversão curiosa: a oralidade é que
a violência generalizada em ―O Cobrador‖.                       permite uma explosão mais livre do literário verdadeiro,
                                                                freado no cotidiano pelas convenções mesquinhas da ―vida
O escritor usa uma narrativa agressiva, com forte realismo,     literária‖.
para retratar o submundo do crime e da violência urbana no
Rio de Janeiro da década de 70.                                 "Pierrô na caverna" ironiza a metáfora platônica a fim de
                                                                enredar o tema da paixão numa corrente de sarcasmos.
Nos contos o autor passa pela Guerra do Paraguai, pelo
Amazonas, passando pelo Rio de Janeiro, sempre focando          Tudo isso está mesclado com uma história do dia-a-dia, mas,
figuras banais mas, que olhadas com um pouco mais de            também aí, o literário penetra soberano. A menininha de
atenção, de banais não tem nada.                                doze anos que ele, um cinqüentão, acaba possuindo, chama-
                                                                se Sofia como a heroína de Quincas Borba. Em meio do
O Cobrador é um livro de contos bem distintos entre si, mas     monólogo aloucado do cinqüentão repontam ecos
que têm em comum o fato de manterem sempre o seu foco           machadianos. ―Após contemplarmos certas coisas, ou uma
no homem sofrido. Sofrido não pela guerra ou pelas              determinada coisa, há que mudar de vida‖. Parece que ele
doenças, mas pelo dia a dia, que às vezes exige muito dele      insiste em usar, ao lado de formas bem coloquiais, outras
próprio, se alimenta de seu sangue e de sua energia psíquica    que só o acervo de elementos literários de sua memória
sem que se dê conta, a não ser quando entra em colapso. E       poderia sugerir.
para representar isso, escolher as palavras certas dentro do
mundo coloquial é uma arte, uma grande arte, que Rubem          Toda a história lembra algo da Grécia, freqüentemente da
Fonseca exerce com maestria.                                    Grécia contaminada pela luxúria oriental, a Grécia da
                                                                decadência. O próprio nome do pai da menina reboa a
No livro Rubem Fonseca continua a dar preferência ao            princípio com a grandiosidade clássica: Milcíades. Mas,
espaço conflitante da cidade grande, retratando aí o universo   ameaçador inicialmente em relação ao ―sedutor‖ de sua filha
da clandestinidade social. A linguagem do escritor, como        (parece mais certo: seduzido por ela), amolece e acaba
nas obras anteriores, articula-se equilibradamente entre uma    tomando um uísque no apartamento deste (―com voz mais
arte de texto e de contexto, valendo tanto pelo seu conteúdo    suave e conciliadora: com gelo‖). Evidentemente, Grécia e
semântico quanto pela sua elaboração estético-formal.           mundo moderno se misturam, os planos do literário e do real
                                                                acabam embaralhados.
Passagens de obras de Machado de Assis, Haroldo de
Campos, Maiakovski, Velimir Khlébnikov e Isaak Babel            Mas, apesar de toda essa liberdade que o escritor assume
percorrem o tecido narrativo dos contos, fazendo parte da       diante do gravador, acaba aparecendo a dificuldade de
urdidura do texto que as engloba para com e sobre elas          comunicar: ―Não sei, estou muito confuso, sinto que estou
dialogar, valorizando-as, parodiando-as ou distorcendo-as.      escondendo coisas de mim, eu sempre faço isso quando
                                                                escrevo mas nunca pensei que o fizesse falando em segredo
O trabalho com citações eruditas provenientes de obras da       com esta fria maquineta‖. E, ao mesmo tempo, toda esta
literatura nacional e ocidental se constitui como uma as        dificuldade de comunicação, tão angustiosa, não o impede
principais marcas da ficção de Rubem Fonseca. Vejamos           de contar de modo excelente uma história construída, com
alguns contos da obra.                                          início, meio e fim, entre os episódios soltos e a literatura de
                                                                seu monólogo oral.
O COBRADOR
                                                                Em outros contos, igualmente, percebe-se a repercussão de
O primeiro conto, que dá nome ao livro, é sobre um homem        textos dos escritores mais diversos.
que sai pelas ruas cobrando o que lhe devem. O que lhe
devem? Dignidade. Quem lhe deve? A sociedade. Na                ENCONTRO NO AMAZONAS
primeira cena, ele está em um consultório de dentista e se
recusa a pagar a conta. Por que ele pagaria alguma coisa se     Em "Encontro no Amazonas" há uma descrição minuciosa
de uma exótica viagem de balsa pelos rios amazônicos.
                                                               No caso, esta impressão se reforça pelo fato de a ação se
Neste conto o narrador e seu sócio, Carlos Alberto,            passar na Baixada Fluminense, numa das zonas de domínio
perseguem uma pessoa durante anos. "Soubemos que ele           do Esquadrão da Morte. Eventualmente, alguém pode
havia se deslocado de Corumbá a Belém, via Brasília, de        especular sobre a figura misteriosa de Falso Perpétua
ônibus", começa o conto. O perseguido vinha do Sul, da         atribuir a tudo um tom metafísico. Tem-se, pelo menos, esta
fronteira com a Argentina, e de repente desaparece não se      possibilidade em suspenso.
sabe em que direção: talvez rumo a Macapá ou Manaus, ou        "O jogo do morto", é narrado em terceira pessoa e os
quem sabe mais a oeste, para Porto Velho e depois Rio          protagonistas quase sempre são homens perturbados que se
Branco. Nem sequer as feições do homem (deduz-se que é         relacionam sexualmente com pelo menos uma mulher, mas
um homem) são claras para os perseguidores. "Sonhei com        dentro dessas aparentes restricões, Fonseca experimenta
ele", diz o narrador. "Não era a primeira vez. Eu nunca o      vários estilos e temáticas.
tinha visto mas sonhava com ele. Com a descrição que me
haviam feito dele." É sempre assim. Nunca se sabe quando       H. M. S. CORMORANT EM PARANAGUÁ
se pisa em terreno seguro, nunca se sabe por que acontece o    Neste conto, através de um episódio da vida de Álvares de
que está acontecendo, nem para quê.                            Azevedo, o autor trata de questões como dependência
                                                               econômica e cultural, escravidão, posição incômoda do
A arte dos contos de Fonseca é retesar a corda das palavras    intelectual etc.
para que expressem o vazio do mundo, a antipatia dos
indivíduos pela espécie: neles se mata e se destrói por        "H.M.S. Cormorant em Paranaguá" trata do período, no
inércia, se trepa por inércia. O amor pode destruir tudo.      nosso Segundo Império, em que a hostilidade aos ingleses
                                                               explodiu violentamente, culminando na Questão Christie.
CAMINHO DE ASSUNÇÃO                                            Aparecem aí, em profusão, clichês do romantismo, episódios
                                                               que repetem a biografia de Byron, o próprio Byron também
O conto "Caminho de Assunção" parece retomar, como             surge no texto, alusões shakespeareanas transmudam-se no
parte de um sistema literário pessoal, certos procedimentos    kitsch romântico tão comum nos nossos poetas da época, e o
caros a Isaac Bábel (a frase curta e fustigante; os            personagem, em meio do seu delírio, chega a falar em versos
pormenores de cor e de cheiro que se destacam; a guerra em     tão pífios que se tornam tocantes.
seu horror, dada incisivamente em primeiros planos
eisensteinianos, pode-se dizer - uma sucessão de metonímias    ONZE DE MAIO
que se gravam na memória; tudo isso numa verdadeira
―montagem‖ de episódio, em quatro páginas escassas, mas        "Onze de Maio" é o título de um dos contos de O cobrador.
altamente significativas) teríamos assim histórias da Guerra   Passa-se numa espécie de casa de repouso para velhos e
Russo-Polonesa de 1920 repercutindo numa narrativa sobre       todos vivem em cubículos. O autor põe em ação um
a Guerra do Paraguai!                                          personagem-narrador que, internado num asilo, relata os
                                                               sofrimentos e humilhações dentro daquele estabelecimento.
Neste conto um soldado experimenta o sangue durante a          Asilo este, que mais parece uma das prisões descritas por
Guerra do Paraguai.                                            Foucault.

LIVRO DE OCORRÊNCIAS                                           Narrado em primeira pessoa, este conto está fortemente
                                                               ligados com a realidade social da época.
Fazendo jus a seu título, "Livro de ocorrências" conta, em
detalhes, três ocorrências policiais.                          Em ―Onze de Maio‖, o jogo de apoderação é, em princípio,
                                                               apenas intelectual. O narrador, José, um professor de história
Narrado em primeira pessoa por um delegado, "Livro de          aposentado, está internado em um asilo e passa a relatar o
ocorrências" consegue posicionar-se num interessante           seu dia-a-dia.
ínterim entre o frio e seco registro criminal e a narrativa
literária.                                                     Ele sente imperar naquele lugar o abandono, a degradação, o
                                                               desrespeito , a humilhação e a privação. José, num primeiro
ALMOÇO NA SERRA NO DOMINGO DE CARNAVAL                         momento, parece conformado com a situação em que se
                                                               encontra: "um velho inerte, preguiçoso e entediado só pode
Neste conto de Rubem Fonseca, o narrador brinca com o          abrir a boca para bocejar" (FONSECA, 1997, p. 118);
diálogo e se angustia com um estupro amoroso.                  entretanto, ele percebe as coisas à sua volta, vê que estão
                                                               completamente isolados da sociedade, presos em um
Zeca odeia sua ex-namorada e a família dela. Quando ele os     ambiente que mais parece presídio do que lar de idosos.
vê numa festa em sua antiga casa, adquirida pela família da
moça depois da pressuposta ruína econômica da família do       Acrescentando-se que nem mesmo entre os idosos é
rapaz, ele executa um plano de vingança contra a moça. (ele    permitido o diálogo, devem ficar o tempo todo em seus
a estupra)                                                     cubículos esperando pela morte. Os idosos são
                                                               condicionados a aceitar o tratamento humilhante que lhes é
O JOGO MORTO                                                   dado, ficam cada vez mais débeis e assim, não oferecem
                                                               resistência.
Neste conto temos a impressão de que o escritor está
apresentando um tipo de história com que já nos acostumou      José, vítima do sistema: "Aquele ser velho me foi imposto
e na qual adquiriu um domínio invejável: o conto de            por uma sociedade corrupta e feroz, por um sistema iníquo
violência e banditismo, descritos freqüentemente com           que força milhões de seres humanos a uma vida parasitária,
simplicidade, num tom cotidiano e isento de patético, como     marginal e miserável" (FONSECA, 1997, p. 134), percebe
se a morte nestas circunstâncias fosse algo normal e           que seus pensamentos não podem ser vigiados e que
aceitável.                                                     continua sendo o mesmo homem inteligente e astuto que
sempre fora. Une-se, então, aos seus companheiros, Pharoux       instituições em geral e, mesmo não apresentando soluções
e Cortines, para realizar um motim em busca da liberdade. A      para os problemas, são valores positivos pelo simples fato de
luta passa a ser não só intelectual mas também física, pois      exporem o conhecimento de tal exclusão. Por estarem
invadem a casa do diretor do asilo e tomam o poder pela          calcados na diferença, onde o narrador sente-se vítima do
força: "A idéia me agrada. A história ensina que todos os        sistema social elitista e preconceituoso, o conto apresenta as
direitos foram conquistados pela força. A fraqueza gera          ―alteridades da violência‖, que estão em torno de um ―eu‖
opressão" (FONSECA, 1997, p. 135); ou seja, a afirmação é        que se sente totalmente atacado, vitimado.
de que os oprimidos devem fortalecer-se e usar a força
contra os opressores. Para o narrador, a única forma de          Esse "eu" de estrutura violenta está em José, narrador de
ganhar o complexo jogo da sobrevivência.                         ―Onze de Maio‖, que o possui com força permanente no ser.
                                                                 Ele se sente humilhado e excluído da vida social por ser
Neste conto, a perda da liberdade individual está em cada        velho, mas consegue transpor obstáculos aparentemente
idoso internado, pois são vigiados diuturnamente pelos           intransponíveis para um homem de sua idade. O narrador
funcionários. Não parecendo um cerceamento da liberdade,         justifica sua violência, pela sofrida diante da sociedade que
mas sim um excesso de cuidados. O narrador, todavia,             o excluiu e pelo tratamento recebido do diretor e
revela que não está sendo bem cuidado, ao contrário, a           funcionários do asilo, que supostamente, estariam tentando
alimentação é péssima, não tem atendimento médico, não           matá-lo.
tem boas condições de higiene, os internos não podem
conversar entre si e devem apenas assistir televisão e dormir.   Em ―Onze de Maio‖, a instituição é representante do poder
Esses acontecimentos levam o homem a um sentimento de            constituído enquanto os internos são a força que enfrenta
desencanto da vida e a uma sensação de vazio existencial         este poder, ambos com um fim superior. A primeira,
que José busca suprir com a tentativa de incitar uma             justifica a violência contra os velhos pela crise financeira do
revolução, uma luta para que o ser humano venha a ter um         país e por eles não estarem mais produzindo; os internos
pouco mais de dignidade ou, pelo menos, seja respeitado em       justificam a sua reação violenta pela busca da liberdade e da
sua diferença.                                                   dignidade humana. Neste conto o veículo de comunicação
                                                                 de massa que aparece com mais evidência é a televisão. Ela
Em ―Onze de Maio‖, a narrativa passa-se em ambiente              está presente em toda a narrativa, é utilizada como meio de
restrito e fechado, um asilo de idosos. Porém, a distinção       alienação dos internos do asilo: "Vamos, vamos, veja a
social se dá em três níveis. A classe média-alta, com seus       televisão, divirta-se, não fique aí imaginando coisas tristes,
privilégios, está na figura do diretor do Lar Onze de Maio,      preocupando-se à toa" (FONSECA, 1997, p. 125); mas esta
que tem o escritório e a casa em uma torre, símbolo da           alienação se dá, preponderantemente, pelo fato de ser um
altivez e superioridade, vista também em sua postura. O          circuito interno de televisão, que passa a mesma
Proletariado são os funcionários do asilo, chamados de           programação o tempo todo: "A TV fica ligada o dia inteiro.
―Irmãos‖, lembram uma instituição religiosa; são                 Deve haver, também, alguma razão para isso. Os
apresentados como pessoas que se deixam manipular pelo           programas são transmitidos em circuito fechado de algum
sistema e obedecem às ordens como máquinas programadas.          lugar do Lar. Velhas novelas, transmitidas sem
O marginalizado é representado pelos internos, que, ao se        interrupção." (FONSECA, 1997, p. 117); o narrador abre a
rebelarem, desencadeiam a luta entre os estratos sociais.        possibilidade da televisão ser algo bom, porém, ela deve ser
Nesse conto, a pressão exercida de cima para baixo, eclode       assistida sempre com um olhar crítico:
com a reação violenta do narrador e seus amigos, que
invadem a casa do diretor na tentativa de se sobrepor àquele     Os Irmãos [...] também têm televisão no quarto e assistem a
que os dominava.                                                 outros programas que não são transmitidos para nós. Sei,
                                                                 por perguntas que faço inocentemente, que eles também
O que ocorre com maior freqüência na narrativa de ―Onze          dormem em frente ao vídeo. Televisão é muito interessante,
de Maio‖, é o "descentramento". Segundo ele, Foucault fala       descontando o sono e o esquecimento.
em ―poder disciplinar‖, Em ―Onze de Maio‖ o asilo é uma
instituição de controle criada pelo governo da espécie           Este conto, bem como o conto "O Cobrador", levanta várias
humana. A vigilância e o controle são exercidos no sentido       questões sobre a sociedade pós-moderna, mas neste trabalho
de transformar os internos em seres apáticos e de fácil          o objetivo foi buscar um entendimento da crise existencial
manipulação. Os funcionários são controlados pela                vivida pelas personagens e o porquê de suas ações violentas.
disciplina que aprenderam a ter para manutenção de seus
empregos. O diretor é o representante, junto com os              "Onze de Maio" começa com a questão da crise de
funcionários, desse controle das massas no sentido de evitar     identidade coletiva e termina com a crise de identidade
uma reação ao poder constituído. O narrador e seus amigos,       individual; as três personagens descobrem que estão sendo
ao reagirem, formam um grupo com o mesmo interesse,              dopados e têm em comum o objetivo de libertar-se da
buscar a liberdade ou melhores condições, para assim, viver      situação humilhante, mas quando vencida a primeira etapa,
com mais dignidade o resto de suas vidas. Contudo, ao            perdem completamente o sentido da revolução e cada um
conquistarem a primeira etapa: fazer de reféns o diretor e       passa a resolver o seu desejo imediato.
sua mulher, os interesses se diversificam quando o narrador
pensa na seqüência da ação, os outros dois vão satisfazer a
fome com alimentos que há muito não comiam. Enquanto no
narrador afloram instintos sexuais, quando deseja passar a
mão no corpo nu da mulher, em Pharoux são os instintos
destrutivos que afloram, quando faz pequenas perfurações
no pescoço do diretor.

Este conto, na realidade, também é baseado na diferença e
na exclusão de pessoas da convivência social. Os excluídos
então desafiam e questionam a autoridade constituída e as
                                                                 circunstâncias, pela narração. Quando ocorre, a auto-
                                                                 organização do protagonista implica a desvalorização de seu
X – O CALOR DAS COISAS –                                         contexto, que só lhe interessa como cenário, palco de
                                                                 experiências próprias e não partilháveis.
NÉLIDA PINON
                                                                 De fato, tem-se nesses contos, em vários níveis e em vários
O CALOR DAS COISAS: Treze contos nos quais é fácil               matizes, a mesma narrativa de solidão, em que toda relação
perceber as mesmas preocupações da autora: a importância         interpessoal é vista como radicalmente
da palavra e a manipulação política da linguagem. Desta          impossível e na qual é lesiva toda tentativa nesse sentido.
vez, porém, há uma grande carga de humor. De fina ironia e
construção complexa para desvendar os mais recônditos            É por isso que não se pode, a rigor, falar da existência de
cantões da alma de seus personagens. Nélida utiliza imagens      diálogos nesses textos. Entre os personagens só há
belas e delicadas para tratar das paixões humanas. Seus          monólogos e o preenchimento do silêncio pelo
enredos, sempre originais, muitas vezes confundem-se com         pastiche do lugar-comum, falas que apontam o vazio de que
o discurso. Nélida alterna poesia e crítica, racionalidade e     são feitas.
erotismo em páginas de leitura voraz e provocadora.
                                                                 Os contos ―O calor das coisas‖e ―A sombra da caça‖
"O Calor das Coisas começa com um relato, O Jardim das           destacam-se na composição do livro de que participa. O
Oliveiras. (...) Este conto narra na primeira pessoa a           primeiro por dar nome à coletânea de que faz parte, o outro
história de um preso que não suporta ser torturado, que          por ocupar o significativo lugar de último conto do livro,
examina os horrores da ditadura e a covardia moral dos           como a indicar que nele se poderia buscar (como nos
seres humanos. Assim como Pedro nega Cristo, o                   romances policiais) a chave para o(s) mistério(s) de sentido
protagonista desta história pretende negar-se a si mesmo. É      que se teriam enovelado até então.
a expressão do grande medo da humanidade, pois todos os
seres estamos prostrados pelo medo de viver."                    Se, quando apreciados tematicamente, vê-se atravessar tais
                                                                 textos o sentimento de erosão, este também se exprime na
A obra O calor das coisas, de Nélida Piñon, é um livro de        linguagem. Assim, já à primeira abordagem, a dicção destes
contos que tratam de circunstâncias presentes no cotidiano       contos se mostra provocadora, elaborando uma narrativa
das pessoas. São treze histórias nas quais é fácil perceber as   densa, que exige toda a atenção do leitor para a percepção
mesmas preocupações da autora: a importância da palavra e        do seu sentido.
a manipulação política da linguagem. Desta vez, porém, há        Pode-se mesmo dizer que o discurso nelidiano revela-se uma
uma grande carga de humor. De fina ironia e construção           experiência sobre as possibilidades de expressão da tensão
complexa para desvendar os mais recônditos cantões da            pensamento/linguagem fora da norma lingüística e que daí
alma de seus personagens.                                        advém a dificuldade que oferece a seu leitor.

Nélida utiliza imagens belas e delicadas para tratar das         Nesse discurso pode-se também identificar a presença de
paixões humanas. Seus enredos, sempre originais, muitas          alguns aspectos da retórica do ―carnaval‖, tais como o estilo
vezes confundem-se com o discurso. Nélida alterna poesia e       grotesco como em ―O calor das coisas‖ e ―O sorvete é um
crítica, racionalidade e erotismo em páginas de leitura voraz    palácio‖.
e provocadora.
                                                                 É a presença do mecanismo da paródia que melhor
A obra de Piñon é instigante e envolvente. Ela traz em sua       caracteriza a estruturação dos mais significativos textos do
estrutura temática o desdobrar e o atualizar em cada             livro em questão. Através de tal procedimento perpassam os
publicação, seja de romances, de contos ou de ensaios.           mais bem sucedidos nesses contos, narrativas advindas de
Reflete em sua obra a preocupação constante com questões         lugares tão variados quanto a Bíblia em ―O jardim das
referentes à criação do texto, à linguagem, à religião           oliveiras‖; o repertório artístico popular brasileiro em ―Disse
(panteísta ou cristã), ao mito, ao amor associado aos            um campônio a sua amada‖; um determinado corpus de
questionamentos do cristianismo, à paixão, à solidão             valores e padrões de comportamento em ―I love my
humana e, entre outras, à realização feminina                    husband‖ (leia abaixo na íntegra) ou ―Tarzan e Beijinho‖.
                                                                 Esses textos básicos (e considera-se como texto também o
Nesta obra têm-se personagens do mundo contemporâneo             conjunto de valores e padrões de comportamento vigentes a
vivendo momentos significativos – mas não necessariamente        partir dos anos 60 do século XX) constituem o indispensável
excepcionais – e historicamente                                  pano de fundo do conto nelidiano, que os relativiza sem
marcados.                                                        jamais os anular.

A multiplicidade das histórias deixa ver um certo número de      Estão, assim, sempre presentes, indicando o quanto o
temas recorrentes, que se espelham entre si e se                 discurso da autora deles se serviu e o quanto deles se afastou
desenvolvem uns aos outros. Tem-se assim, por exemplo, o         e assinalando, dessa maneira, a tonalidade
tema fantástico da união (im)possível de espécies diferentes     irônica desse discurso. Assim, por exemplo, a agonia de
e o da mutação humana, o do incesto e o da                       Cristo é convocada na expressão da angústia daquele que
homossexualidade. Em todos os casos tem-se o homem               renega seus antigos valores, em ―O jardim
infrator, ora por sua ação, ora pela inação que, nesses          das oliveiras‖, primeiro conto da obra. Este conto narra, em
contos, não significa jamais fraqueza mas escolha e              primeira pessoa, a história de um preso que não suporta ser
assunção de força. Esse homem infrator exige, limpa,             torturado, que examina os horrores da ditadura e a covardia
ordena, organiza, que tais são os verbos recorrentes na          moral dos seres humanos. Assim como Pedro nega Cristo, o
gramática nelidiana.                                             protagonista desta história pretende negar a si mesmo.

Nas histórias que nesse livro se conta, não há reorganização
(construção) do mundo destruído pelos personagens, pelas
RESUMO DOS CONTOS
O JARDIM DAS OLIVEIRAS
Zé é o narrador, ele vai ser levado de seu apartamento à          O REVÓLVER DA PAIXÃO
força, vai ser interrogado sobre o paradeiro de um tal            A narradora faz uma declaração de amor a seu homem e
Antônio. Zé e seus algozes conhecem Antônio como                  exige seu retorno imediato. Seu discurso é sensual e
membro de um grupo perseguido pelo regime militar. Zé             apaixonado.
não suporta a idéia de ser torturado novamente, pois já tivera    CORAÇÃO DE OURO
esta experiência anteriormente. Sente fraco e incapaz de          Um narrador em 3º p. relata que Agenor Couto (AC),
resistir à força dos poderosos que se abate sobre ele. Ele        enriquecera, tornara-se vaidoso e fora fisgado por sua
acredita que não vai resistir e acabará entregando o amigo a      secretária loura e sensualíssima. Ela assume o controle de
seus perseguidores.                                               sua agenda, definindo o que ele vai fazer ou não fazer.
                                                                  OBS: AC acha que as avenidas principais deveriam ser de
AS QUATRO PENAS BRANCAS                                           uso exclusivo dos ricos, mais ocupados, e não para pobres,
Os amigos Pedro e Rubem estão conversando, eles precisam          pois eles poderiam usar vias secundárias.
ir a Niterói para buscar dinheiro emprestado com o pai de
Rubem, pois ele deve a pensão dos quatro filhos, que moram        O SORVETE É UM PALÁCIO
com a mãe Alice. Conseguem o dinheiro e, no caminho de            A narradora revela uma visita que recebeu de um sorveteiro
volta, a bordo da barca, conhecem Colombo, o vendedor de          da praia, por quem ela se apaixonou. Ele é casado e tem 3
amendoim. Colombo conta-lhes sua estranha e obsessiva             filhos; é pobre mas sonhador, diz que vai deixar a esposa e a
amizade por Bulhões. O tempo que moraram juntos e sua             narradora entende isso como uma declaração de amor. Ele
vida na fazenda comprada por Colombo no tempo em que              vai embora e ela espera que ele volte algum dia.
era rico. Após a separação dos amigos, Colombo vai à
falência e passa a viver da venda de amendoins na barca           DISSE UM CAMPÔNIO À SUA ESPOSA
rio-niterói. Enfim, após muita conversa, os quatro decidem ir     Um narrador em 1º p. , um camponês, declara-se para sua
beber umas cervejas. Num bar escuro, os três conversam            esposa de forma apaixonada.
quando, de repente chega Bulhões. Os quatro, então gastam         Numa atmosfera bucólica e harmônica ele revela todo seu
todo o dinheiro da pensão dos filhos de Rubem.                    amor pela mulher com quem caou-se.

I LOVE MY HUSBAND                                                 A SEREIA ULISSES
Num texto belíssimo, com brilhantes metáforas e uma               Uma narradora fala de um companheiro, Antônio, de quem
refinada ironia, a narradora declara seu amor a seu marido.       livrou-se ao pôr fogo no apartamento. Ela é uma mulher
Mas ocorre que esse marido é um homem egoísta, machista           dona de si e senhora de seu próprio destino.
e não considera nada do que essa esposa diz ou pensa. Ela
acredita que, afinal, ele está certo em querer ser o chefe do
lar, decidir por tudo do jeito dele. Ela faz crer que é feliz e   A SOMBRA DA CAÇA
assim é que as coisas devem ser.                                  A narradora dirige-se a seu filho em uma carta. Ela lhe fala
                                                                  da tumultuada relação que tivera com o marido. O quanto
O ILUSTRE MENEZES                                                 ela lutou para livrar-se dele e do amor incondicional que ele
O narrador, Menezes, é casado com Conceição, uma mulher           lhe oferecia. Ao expulsá-lo de casa, ela perdeu a chance de
educada num rigoroso sistema moralista. Proíbe-se ter             ser feliz. O pai foi embora para nunca mais voltar. No fim
prazer ou conversar sobre sua intimidade. Menezes conta           do conto, o filho envia à mãe um bilhete dizendo-lhe que o
que tem o hábito de dormir fora de casa nas Quintas-feiras ,      pai nunca deixara de amá-la.
pois vai ver sua amante Pastora.
Apesar da impertinência da sogra, D. Inácia, ele dobra a
mulher com as desculpas mais esfarrapadas, como por
exemplo ir ao teatro sozinho com medo que a esposa se
aborreça com as peças. Ele arruma uma segunda amante,
Delfina, que acaba por abandona-lo.
No conto, predomina a atmosfera de século XIX, com uma
linguagem no estilo Machado de Assis. Aliás, o final da
história faz referência ao célebre conto Missa do Galo, do
referido autor.

FINISTERRE
A narradora em 1º pessoa, visita o padrinho de 60 anos, que
mora em uma ilha. Ambos são galegos, raça forte e emotiva.
O almoço e o passeio são cheios de imagens de carinho e
ternura do padrinho. Enfim a narradora se despede como
quem nunca mais vai voltar a ver as pessoas queridas que
deixa na ilha.

TARZAN E BEIJINHO
O narrador fala de seus amigos, Tarzan(americano) e
Beijinho(brasileira). Eles se adoram mas o narrador acha
melhor afastar-se deles, deixá-los a sós para curtirem-se
mais à vontade.
Depois de um tempo, o narrador recebe bilhetes dos amigos,
decide procurá-los e é recebido friamente. Assim percebe
que a amizade tem muito valor.

				
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