O REALISMO/NATURALISMO by Ive20di

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									Colégio Militar de Juiz de Fora – Literatura Brasileira e Portuguesa – 2ª série do Ensino Médio – 2º bimestre2007
Aluno: _________________________ Turma: _____


                                             O REALISMO/NATURALISMO
       TEXTO I - A ERA DAS REVOLUÇÕES
         O século XIX foi pródigo em transformações de toda ordem: políticas, econômicas, sociais, filosóficas e, sobretudo,
científicas. Essas mudanças determinaram os rumos do século XX e obrigaram à reformulação de várias perspectivas tidas
como fundamentais até então.
         O capitalismo industrial já estava em curso, criando uma nova elite e uma nova burguesia. No momento pós-abolição
da escravatura, eram impingidos salários miseráveis à numerosa classe proletária, gerando conturbações sociais.
         As ciências fervilhavam de descobertas, especialmente as ligadas à Biologia, levando a novas concepções filosóficas
e à revisão de conceitos religiosos consagrados.
         Dentre as correntes de pensamento, destacamos o Positivismo, o Determinismo, o Evolucionismo, o Marxismo; e a
Psicanálise, desenvolvida por Sigmund Freud.


                        O RACIONALISMO POSITIVISTA DE COMTE
                          O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por meta.
                          Augusto Comte (1798-1857) só admite as verdades positivas, ou seja, as científicas, aquelas que
                   emanam do experimentalismo, da observação e da constatação, e repudia a metafísica. Para ele só cinco
                   ciências são relevantes: a Astronomia, a Física, a Química, a Fisiologia e a Sociologia, em ordem de
                   importância. Esta última, pela sua complexidade, permitiria reformas sociais. Crê também que a finalidade
do saber científico é a previsão, "saber para poder". Sua primeira obra chamou-se Plano dos Trabalhos Científicos para
Reorganizar a Sociedade (1822), rebatizada, mais apropriadamente, em sua segunda edição, de Sistema de Política
Positivista (1824).
        Sua teoria objetiva a retomada de uma "ordem" que visa suprimir a indisciplina dos costumes. Para isso é preciso
renunciar à busca do absoluto, o que turva o caminho das ciências positivas. No âmbito socioeconômico, Comte propõe uma
organização eminentemente racional, que se direcione para os interesses coletivos, neutralizando os motivos de guerra e
discórdia entre as nações.
        Comte acreditava que é possível alcançar qualquer objetivo, desde que se saiba também imprimir às situações as
causas necessárias à obtenção dos objetivos desejados.

                         O SOCIALISMO DE MARX
                          Um espectro ronda a Europa.
                          Em 1848, os economistas e filósofos alemães KarI Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895)
                  publicaram o Manifesto Comunista, destinado sobretudo à classe operária, pretendendo despertar a
                  consciência de classes. Pregava-se uma revolução internacional que derrubasse a burguesia e o sistema
                  capitalista, e implantasse o comunismo. A pedra fundamental do marxismo está na idéia de socialização
                  dos meios de produção. Em O Capital, obra de Marx, estão os principais conceitos do marxismo.

                       O EVOLUCIONISMO DE DARWIN
                          Ora, enquanto o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita,
                          uma quantidade infinito de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não
                          cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda! (Origem das Espécies)
                        A obra Origem das Espécies (1859) foi elaborada pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882),
                 que retomou a teoria da evolução das espécies de Lamark, apoiando-se ainda em experimentos de seleção
artificial da cultura de plantas e de criação de animais. Darwin elaborou a teoria da seleção natural, defendendo que a
concorrência entre as espécies eliminaria os organismos mais fracos, permitindo à espécie inteira evoluir, graças às heranças
genéticas favoráveis dos indivíduos mais fortes e mais aptos. A teoria da evolução abrange também a espécie humana e é
apoiada pela Paleontologia, ciência que estuda os fósseis, e que demonstra existirem espécies intermediárias entre as
fósseis e as vivas. Darwin demonstrou cientificamente que os seres humanos e os macacos têm um antepassado em comum
— questionando assim a criação do mundo baseada no Gênesis bíblico, e colocando em discussão a existência de Deus, o
que criou um escândalo na sociedade da época.

                      O DETERMINISMO DE TAINE
                      Todo acontecimento é uma conseqüência necessário de um acontecimento ou de uma série de
                      acontecimentos anteriores.
                      Essa corrente foi desenvolvida por Hipólito Adolfo Taine (1828-1893), que aplicou o método
               experimental das Ciências Naturais às diversas produções do espírito humano. Taine afirmava que o
               comportamento humano era condicionado pelas influências de raça, de contexto histórico e de meio-
ambiente.

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                          A PSICANÁLISE DE FREUD
                      Desta forma, voltando o olhar para o trabalho de minha vida, posso dizer que iniciei
                      muitas coisas e sugeri outras, das quais disporá o futuro. Não posso, porém, predizer o
                      que chegarão a fazer. Freud
                      Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista, lançou-se no caminho para a fundação da
               Psicanálise estudando os efeitos da cocaína com o psiquiatra Meynert, em 1883. Dois anos depois, estagiou
               em Paris com Charcot, o grande neurologista francês, que fazia experimentos com a hipnose, espécie de
sono induzido, durante o qual o paciente se torna muito sugestionável, e revela o que vai nas camadas não conscientes de
seu psiquismo. Em 1886, abre seu consultório em Viena, onde usou o método hipnótico, substituindo-o depois por outros
recursos como perguntas e livres-associações que permitem que sejam descobertos traumas que deram origem às neuroses.
Aos poucos, elaborou sua Teoria do inconsciente, que tem como principais noções:

        a) Inconsciente: parte do psiquismo humano constituída daquilo que não pode chegar à consciência; são desejos e fantasmas
inaceitáveis do ponto de vista moral ou social, que ficam recalcados, mas são dotados de uma força que altera as funções conscientes. Ele
representa, segundo Freud, nove décimos das funções psíquicas do indivíduo.
        b) Censura: aquilo que impede o acesso à consciência dos desejos recalcados.
        c) Recalcamento: mecanismo que rejeita e mantém fora da consciência o que é inconciliável com as exigências sociais ou morais.
        d) Libido: energia que move os instintos de vida, determinando as funções criadoras ativas do indivíduo, particularmente do impulso
sexual. Freud escandalizou o mundo afirmando que a libido é inata e que, portanto, as crianças também a apresentam. Para ele, o impulso
sexual é o centro das tendências afetivas.
        e) Sonho: ocupa 20 a 30 por cento do tempo de sono do indivíduo. O sono, segundo a Psicanálise, teria a função de burlar a
censura, de modo que os desejos prisioneiros do recalcamento na vida diurna pudessem se manifestar. Eles viriam disfarçados para
atravessarem a censura e serem aceitos pela consciência.
        Em sua segunda teoria do aparelho psíquico, Freud dividiu o psiquismo humano em três partes:
        a) Id: conjunto dos impulsos inconscientes, de origem biológica, ou recalcados, dominado pelo princípio do prazer e pelo desejo
impulsivo; é a parte mais profunda da psique, receptáculo dos impulsos instintivos.
        b)Ego: do latim, ego, "eu". É a parte mais superficial do id, que é modificada, através dos sentidos, pela influência do mundo exterior.
Ao ser tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, através de seleção e controle, de parte dos desejos e
exigências procedentes dos impulsos que emanam do id.
        c) Superego: é o "eu ideal". Desempenha a função de juiz, trabalha para a formação da consciência moral provocando recalcamento
exercido pela censura. Integra o indivíduo à sociedade e parte da interiorização da autoridade e das proibições dos pais nas crianças.

        Freud afirma que as neuroses são motivadas pelo choque entre o id e o ego. Grande parte delas seria causada por
traumas de infância: frustrações ou experiências negativas não superadas. A neurose é a intervenção de um fato negativo
passado que continua intervindo de forma nefasta no presente.
        O Complexo de Édipo é uma das partes mais fundamentais da teoria da Psicanálise. Ele encontra sua substância no
mito de Édipo Rei, do dramaturgo grego Sófocles. Trata basicamente da rivalidade que o menino vê no pai, que disputa com
ele o amor da mãe, objeto do desejo daquele. A mãe é o primeiro modelo feminino para os garotos, e esse "triângulo
amoroso" será a matriz dos relacionamentos vindouros. No caso das meninas, o que ocorre, segundo Freud, é a atração pelo
pai e a rivalidade com a mãe, o que foi chamado de Complexo de Electra.


        TEXTO II - O REALISMO/NATURALISMO
        Num momento de efervescências científicas e filosóficas, acompanhadas de convulsões sociais e de profundas
mudanças econômicas, era natural que a arte não permanecesse atada à subjetividade romântica. Era necessário um
compromisso maior com a realidade objetiva, para combater o idealismo da escola antecessora.
        Desde os idos de 1830, quando o Romantismo ainda era a estética predominante, já se podiam perceber indícios
dessas transformações em obras de autores como Sthendal e Balzac, precursores do movimento realista. Em 1855, surge o
manifesto Le Réalisme, escrito pelo pintor Courbet. No ano seguinte, dois importantes marcos na consolidação da nova
estética acontecem:
        Gustave Flaubert publica na Revue, de Paris, os folhetins de Madame Bovary, considerado o primeiro romance
realista, que sairia em livro em 1857; e, sob a direção de Duranty, é lançado o periódico Le Réalisme, que circulou durante
dois anos. Em 1867, Émile Zola edita Thérèse Raquin, dando início ao Naturalismo, propondo um método científico para
escrever: coleta de dados, formulação de hipóteses, criação de personagens para comprovar a validade dessas hipóteses.
Esses princípios estão expostos em O Romance Experimental. Outra obra de destaque de Zola é O Germinal.

       CARACTERÍSTICAS DO REALISMO/NATURALISMO
       O Realismo e o Naturalismo têm princípios comuns, como a objetividade, o universalismo, a correção e clareza de
linguagem, o materialismo, a contenção emocional, o antropocentrismo, o descritivismo, a lentidão da narrativa, a
impessoalidade do narrador. Cabe lembrar que o Naturalismo é uma ramificação cientificista do Realismo. Distinguem-se em
vários pontos, uma vez que tinham objetivos diferentes. Vamos destacar algumas dessas peculiaridades entre as duas
estéticas.

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        DIFERENÇAS ENTRE REALISMO E NATURALISMO
        Os escritores realistas propõem-se a fazer o "romance de revolução", pretendendo reformar a sociedade por meio da
literatura crítica. Preferem trabalhar com um pequeno elenco de personagens e analisá-los psicologicamente. Esperavam que
os leitores se identificassem com as personagens e as situações retratadas e, a partir de uma auto-análise, pudessem
transformar-se. Tratava-se, portanto, de um trabalho de educação intelectual e moral, que pretendia converter-se em
transformação social.
        Já os naturalistas, comprometidos com a ótica cientificista da época, objetivavam desenvolver o "romance de tese", no
qual seria possível a demonstração das diversas teorias científicas. Tinham uma perspectiva biológica do mundo, reduzindo,
muitas vezes, o homem à condição animal, colocando o instinto sobre a razão. Os aspectos desagradáveis e repulsivos da
condição humana são valorizados, como uma forma de reação ao idealismo romântico. Os naturalistas retraíam
preferencialmente o coletivo, envolvendo as personagens em espaços corrompidos social e/ou moralmente, pois acreditavam
que a concentração de muitas pessoas num espaço desfavorável fazia aflorar os desvios psicopatológicos — um alvo de
interesse desses escritores, o que denota uma visão determinista, em que o meio e o contexto histórico têm influência.

     TEXTO III - O REALISMO-NATURALISMO

     O termo realismo designa a tendência que caracteriza os autores fortemente apegados à chamada descrição "fiel" das
coisas e da sociedade. Toma-se, portanto, como o contrário de romantismo. O movimento realista surgiu como desgaste e
superação da literatura romântica. Aliás, grandes realistas, como Balzac ou Standhal, Gogol ou Charles Dickens, tinham sido
românticos e quase naturalmente foram chegando a formas menos idealizadas da vida, até retratarem a sociedade moderna
em sua nudez crua e opressiva. Esse é o caso de Machado de Assis, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881),
que inaugura nosso realismo.
      Não há uma forma única de realismo. O que acabamos de ver no parágrafo anterior poderia chamar-se "grande
realismo" moderno. E o realismo que produziu obras-primas da literatura contemporânea. Entretanto, os livros didáticos
costumam falar mais em realismo-naturalismo ou realismo naturalista. Este dificilmente produziu alguma grande obra. A
diferença básica entre os dois realismos é a seguinte: enquanto os primeiros são grandes narradores, pois sabem captar a
essência dramática da vida, com sua incrível variação de caracteres, os realistas-naturalistas tomam uma posição de
analistas da sociedade, munem-se de métodos "científicos" e transformam-se em observadores. Isto acabaria empobrecendo
seu campo de ação, por várias razões. Em primeiro lugar, na condição de retratistas, perdem o senso do elemento criativo,
perdem em capacidade de ficção e invenção, pois antes de mais nada são observadores. Em segundo lugar, têm uma
concepção muito limitada do ser humano, que é aquela que vem da pesquisa científica (medicina, biologia, sociologia, etc.).
Finalmente, sua preocupação de denúncia e descrição acaba empobrecendo o horizonte dos personagens, cujo destino se
limita apenas a comprovar as teses cientificistas do autor. Este quer demonstrar que o homem é um escravo da sociedade ou
de seu próprio corpo. Tenta demonstrar que o corpo humano é controlado por Leis que transcendem a vontade e a moral do
homem. Que resulta disso? Resulta que o personagem é apenas um exemplo, um caso clínico, que serve para ilustrar as
regras gerais. Analisemos as regras de Taine, pensador bastante respeitado nos círculos naturalistas. Taine dizia que o
homem vem a ser produto do meio ambiente; produto da raça a que pertence; produto do momento histórico. Isso deve ter
algum fundo de verdade, pois todo mundo sabe que essas coisas pesam numa pessoa. Entretanto, isso não significa que o
homem seja apenas produto passivo. Pelo contrário, ele pode agir, modificar ou contestar o universo que o cerca. Em geral, é
isso que acontece com os lideres sociais, com os heróis, com os santos e grandes administradores que conhecemos ao longo
da história universal. Acontece que, no naturalismo, não há lideres, nem heróis, nem santos, nem grandes administradores.
No naturalismo existe o protagonista principal, que é pessoa igual a qualquer outra, e deve ser vitima como qualquer outra.
Vitima da fatalidade das leis naturais. Por exemplo, um padre (prato predileto do naturalismo). É bom, religioso, dedicado.
Isso de nada adianta diante das leis naturais, por exemplo, a lei da necessidade sexual. Então, o padre sucumbe ante a
provocação de uma mulher. Isso é batata. É só pegar um romance naturalista em que haja padre, pra ver como o autor faz
questão de provar que a carne é fraca até para as pessoas que deveriam ser muito fortes. O naturalismo é preconceituoso,
pois não imagina que uma pessoa possa ser diferente. Iguala todo mundo, porque todo mundo é dominado pelas mesmas
leis naturais. Por isso, o romance naturalista não surpreende. Você já imagina o que vai acontecer. É como um teorema.
Dados tais elementos, derivam-se tais e tais. Pronto. Está feito o romance. Claro que estamos falando por alto. Mas no fundo
é isso mesmo.
     Finalmente, há um terceiro tipo de realismo, que chamaremos esteticista, preocupado com a beleza da expressão
lingüística. E o momento em que o romancista descobre que seu veículo, o romance, é, antes de tudo, linguagem. Então, ele
analisa os objetos com minúcia, mas em função do aprimoramento da linguagem, da sua capacidade em traduzir os
refinamentos mais sutis que se possa conceber. E o caso de Gustave Flaubert e seu célebre Madame Bovary (1857). No
Brasil, foi o caso de Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Raul Pompéia, com O Ateneu.
     (RODRIGUES, Medina A. et al. Antologia da literatura brasileira. Textos comentados. Vol. I, do Classicismo ao pré-modernismo. São
Paulo: Marco, 1979).
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     EXERCÍCIOS

     1. Identifique o conflito social na sociedade ocidental após a abolição da escravatura e incremento da revolução industrial (final do
         século XIX).
     2. Nesse mesmo período, como se encontrava o progresso científico e tecnológico?
     3. Relacione o pensador, a idéia por ele defendida e sua influência sobre a concepção de mundo da época.
        Autor                                  Concepção                                       Influências
        Augusto Comte                          Racionalismo positivista (Positivismo)
        Karl Marx/ Friedrich Engels            (Socialismo)
        Darwin                                 Evolucionismo das espécies
        Hipolite Taine                         Determinismo

        Sigmund Freud                          Psicanálise
     4. Analise o momento histórico em que surgem as idéias defendidas pelos pensadores da questão anterior. Por que suas propostas
         ousadas de reinterpretar o mundo vingaram naquele momento (2ª metade do século XIX) e não num período anterior ou
         posterior?
     5. Identifique as obras iniciais do Realismo e do Naturalismo europeu, respectivamente.
     6. Diferencie o Realismo do Naturalismo.
     Questões sobre o Texto III.
     7. Como foi, via de regra, a transição dos autores românticos para o realismo?
     8. Compare a postura de românticos e realistas ante a realidade.
     9. Identifique as características comuns à prosa realista e naturalista.
     10. Leia os dois fragmentos abaixo e enquadre-os como realista ou naturalista. Justifique.
     Fragmento I -- O CORTIÇO, de Aluísio de Azevedo
        Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jerônimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora, por
sua vez, uma simpatia toda especial, idêntica à que noutro tempo inspirara ela própria à Léonie. A cadeia continuava e continuaria
interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de
uma infeliz mãe ébria.
         E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguém
confiava roupa à desgraçada, e nem ela podia dar conta de qualquer trabalho.
         Pobre mulher! chegara ao extremo dos extremos. Coitada! já não causava dó, causava repugnância e nojo. Apagaram-se-lhe os
últimos vestígios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, dessa embriaguez sombria e mórbida que se não dissipa
nunca. O seu quarto era o mais imundo e o pior de toda a estalagem; homens malvados abusavam dela, muitos de uma vez,
aproveitando-se da quase completa inconsciência da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha logo pronta; acordava todas as
manhãs apatetada, muito triste, sem animo para viver esse dia, mas era só correr à garrafa e voltavam-lhe as risadas frouxas, de boca que
já se não governa. Um empregado de João Romão que ultimamente fazia as vezes dele na estalagem, por três vezes a enxotou, e ela, de
todas, pediu que lhe dessem alguns dias de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao último em que Pombinha apareceu por
lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, despejaram-lhe os tarecos na rua.
         E a mísera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no "Cabeça-de-Gato" que, à proporção que o São Romão se
engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do
lixo e da salsugem que o outro rejeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalterável, para sempre, o verdadeiro tipo da
estalagem fluminense, a legitima, a legendária; aquela em que há um samba e um rolo por noite; aquela em que se matam homens sem a
polícia descobrir os assassinos; viveiro de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma lama; paraíso de
vermes, brejo de lodo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão.
         Fragmento II -- DOM CASMURRO, de Machado de Assis
         Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós
que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não
estabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas
conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor - outras pegava-me nas mãos para contar-me os
dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo
que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu
abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente
admiráveis - mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-
lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então
que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos
andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da
simples repetição do dia. alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram
mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga.

     11. Para o autor do Texto III, qual das duas tendências produziu melhores obras literárias? Qual é sua justificativa para essa opinião?
     12. Que pensador influenciou decisivamente a forma de os naturalistas encararem a postura do homem ante a realidade? O que ele
         defendia e como esse pensamento influiu na produção literária naturalista?
     13. O que diferencia o realismo esteticista? Cite obras e autores brasileiros que possam ser enquadrados como tais.
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