Di�rios, mem�rias e aventuras

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                                   Diários, memórias e aventuras

                          A PROPÓSITO DE ANA MARIA MAGALHÃES

                                         E ISABEL ALÇADA



                                                                     Maria do Sameiro Pedro



                 “...

                 Estou a escrever-te na varanda da Cerejeira Brava e vi agora mesmo

        uma estrela cadente. Riscou o céu com um traço de luz tão forte e tão longo

        que a tomo por remate positivo de todos os nossos sonhos deste Verão.

                 Um abraço especial e um beijo especialíssimo
                                                                 do João”




Assim termina o Diário Cruzado de João e Joana, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
(Lisboa, Caminho, 2000, p.220). Trata-se da segunda obra destas Autoras naquilo que o Editor
classifica como diário de adolescentes (ver plano da colecção “Livros do Dia da Noite”), no
seguimento de uma primeira experiência na mesma colecção intitulada Diário Secreto de
Camila (1999).
        Nesta passagem final, dirigindo-se João à sua interlocutora Joana mediante um discurso
simultaneamente assertivo e avaliativo, é oferecida ao leitor a possibilidade de confirmar a
circunscrição deste „diário‟ às circunstâncias das duas personagens, i. e., ao espaço que as rodeia
e ao período de um tempo cíclico (o Verão) e psicológico (o da maturação de adolescentes em
direcção à idade adulta). Com efeito, o “remate positivo de todos os sonhos deste Verão”
acentua a ideia de um ciclo anual das estações correspondente a um ciclo de vida,
particularmente propiciador do amadurecimento, do conhecimento de si próprio e dos outros;
além disso, os “sonhos” apresentam uma visão projectiva extravasadora do horizonte temporal
que este „diário‟ encerra, num contexto em que a apreciação correspondente à expressão
“remate positivo” supõe uma ambivalência de perspectivas na análise dos problemas assim
como de sinais – a estrela cadente, por exemplo. Por último, a derradeira fórmula de despedida
renova a constante relação íntima e afectuosa entre os interlocutores deste „diário‟,



 in Malasartes 4, Porto, Campo das Letras, 2000, pp. 14-17.

   Professora-Adjunta da Escola Superior de Educação          do Instituto   Politécnico   de   Beja
<sameiro@eseb.ipbeja.pt >
                                                                                               2


congregadora de uma multiplicidade de vertentes que subjazem ao (auto)conhecimento de cada
um dos sujeitos: além de o outro e eu, também eu como outro e o outro como eu.
        Se ainda não conhece os diários em causa, é natural que o parágrafo anterior provoque
no espírito do leitor algumas perplexidades, causadas por estes breves apontamentos sobre
textos sui generis. A pressa em fazê-los advém da necessidade de partilhar o prazer
proporcionado pela leitura das duas obras, muito particularmente da mais recente: Diário
Secreto de Camila, em comparação com Diário Cruzado de João e de Joana, apenas anuncia
uma série de potencialidades que este último irá explorar e desenvolver. Em concreto, aquele
actualiza princípios mais convencionais de organização do texto diarístico, apontando aparentes
„notações de calendário‟ como balizas temporais dos diferentes momentos de escrita que dão
conta do quotidiano de Camila. Porém, esta ordem cronológica é desprovida de sentido em
termos históricos, pois apenas é feita uma especificação de dias e meses de um qualquer ano de
que apenas podemos presumir a contemporaneidade.
        Assim e embora ambos os diários procedam a uma (auto)reflexão sobre experiências de
vida (ou seja, processos de maturação) e representem também uma reflexão sobre o amor e a
sexualidade, a vida e a morte, por exemplo, por interpostos problemas relacionados com a
família e com o mundo (circunscrito aos “outros” que de algum modo fazem parte do círculo de
relações de algum dos membros da família), o mais recente Diário Cruzado de João e Joana fá-
lo de um modo mais inovadoramente complexo e mais conseguido em termos de qualidade
literária. Na verdade, o texto é estruturalmente fragmentário. Antes de tudo, porque resulta de
diferentes momentos de escrita de cartas de dois sujeitos distintos. Em seguida, porque vive da
comunicação estabelecida pela troca de cartas entre os dois interlocutores, no que isso significa
enquanto relato dos dias vividos e atitude concertada para lidar com as experiências que se
esperam dos dias que se venham a viver. Por último, porque ainda sobre o registo epistolar se
exploram possibilidades, em particular no que diz respeito aos textos do João, os quais
desenvolvem diferentes níveis de produção de sentido pelo frequente recurso simultâneo ao
texto da carta propriamente dito, ao post-scriptum e à atribuição de um título à carta.
        Aprofundando os aspectos antes enunciados, temos que o primeiro apresenta uma
inovação no género diarístico na medida em que só assim classificamos esta obra porque é ela
própria a assumir tal designação no título. Nesta óptica, as cartas propriamente ditas apresentam
notações temporais que, embora aparentemente cronológicas, têm sobretudo subjacente um
tempo psicológico. A título de brevíssimo exemplo, tomem-se os dois “post-scriptum” da carta
de Joana, presentes nas páginas 70 e 71: sucedem à carta já concluída dois momentos de escrita,
sem que o primeiro suponha o segundo, correspondendo ambos ao modo como vai progredindo
o estado de espírito da personagem num exercício de diálogo consigo própria e com o seu
interlocutor.
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         Por seu turno, o segundo aspecto tem subjacente um princípio de alteridade. Com
efeito, estamos perante o diário cruzado entre João e Joana, o qual, além de instituir questões de
género (masculino / feminino), também corresponde ao confronto de cada um destes sujeitos
consigo mesmo e com o outro. Assim e se considerarmos em sequência as páginas 24 a 26,
podemos verificar como alterna a consciência de si, nomeadamente na máxima “a vida girou,
passei a outra fase e sinto-me bem”(p. 24), com o profundo conhecimento do outro para quem
se fala, entendido como um prolongamento de si próprio ao mesmo tempo semelhante e distinto
(“Sei que não te fartaste de ler e até acho que vais guardar as folhas muito dobradinhas para as
releres de vez em quando, da mesma forma que eu vou guardar os acontecimentos e as
sensações na zona mais estável da memória [...]” - p. 25), conhecimento este partilhado pelo
interlocutor (“Adorei a tua carta [...], já a li e reli várias vezes [...]” – p. 26).
         Finalmente, o terceiro aspecto não diz respeito apenas a momentos recorrentes da
escrita em geral e também da escrita de uma mesma carta como também põe em evidência um
processo de escrita sujeito a reflexão e a revisão, já que os títulos atribuídos por João às suas
cartas frequentemente correspondem a uma citação de um excerto do seu texto. Tal implica que
a redacção das cartas-diário representa um momento de paragem e de reflexão sobre a vida.
Além disso, estas também se constituem enquanto objecto em si mesmas, ganhando portanto um
valor próprio, o qual enriquece a estratégia retórica adoptada, no aliar do relato de
acontecimentos a digressões de natureza subjectiva.
         Numa outra perspectiva, podemos verificar que, enquanto Diário Secreto de Camila
procura criar uma ilusão de realidade na medida em que dá corpo ao relato das experiências
comuns de uma adolescente, feito na primeira pessoa e sem recurso sistemático a apreciações de
natureza subjectiva acerca dos factos narrados, Diário Cruzado de João e Joana encena uma
mais elaborada relação, ainda e sempre no plano ficcional, entre um quotidiano comum e factos
que se afirmam como verídicos, sugerindo no entanto explicitamente as suas potencialidades em
termos literários. É o caso, por exemplo, do crime associado à personagem Jerónimo,
apresentado como uma espécie de narrativa paralela por mais de uma vez retomada ao longo do
„diário‟. No contexto do discurso narrativo, a decifração do mistério em que está envolto o
crime oferece-se como uma oportunidade de intensificação da experiência / conhecimento do
mundo - nomeadamente João refere-se às “minhas capacidades de observação e de bom
avaliador da natureza humana” (p. 111). Além do mais, em conjunto com a personagem Amélia,
constitui uma “«equipa de investigação criminal»” (p. 123); esta personagem, interlocutora
privilegiada de João em relação a este assunto, irá por exemplo ajudá-lo a construir hipóteses
explicativas sobre o mundo, i.e., a decifração do mistério – crime é imaginada tendo como
referência modelos literários (por ex., Amor de Perdição, pp. 92 e 93).
         Neste sentido e ao mesmo tempo que o universo literário aparece como um valor em si,
também o suspense ganha um peso bastante significativo enquanto modo de aceder a esse
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universo. Assim e como acabámos de ver, é protelada tanto quanto possível a revelação da
verdade acerca do crime que envolve Jerónimo, sendo esta antecipada por múltiplas hipóteses
baseadas em universos literários. A este propósito e retomando outro aspecto acima
referenciado, é ainda de sublinhar a circunstância de João atribuir um título às suas cartas
funciona como uma estratégia de suspense, tanto em relação à sua interlocutora Joana como aos
leitores do „diário‟.
        Finalmente ainda nestes breves apontamentos, não quero deixar de realçar um outro
processo pelo qual Diário Cruzado de João e Joana se distingue qualitativamente. Com efeito,
na partilha do quotidiano feita através de carta por João e Joana, momentos há em que aquele se
refere a esta na terceira pessoa em textos que lhe dirige (cf. pp. 102 e 114-115), o que por um
lado constitui uma das formas de afirmar o entendimento da sua interlocutora como um outro
indivíduo e, por outro lado, desenvolve uma variação sobre a organização textual, intercalando
experiências da vida de João com o relato de histórias autónomas acerca de outras personagens
que com ele passam o Verão – no primeiro caso Joana é tratada por tu, no segundo por vezes é
referida na 3ª pessoa.




        Não se pode dizer que estes dois diários sejam herdeiros de uma tradição, pela escassez
de obras deste género na nossa literatura destinada a público juvenil, mas enriqueceram-se
certamente com duas experiências anteriores. Ambas datam de 1994; trata-se de Diário de Sofia
& Cª (aos 15 anos), de Luísa Ducla Soares (Porto, Civilização), e de A Lua de Joana, de Maria
Teresa Maia Gonzalez (Lisboa / São Paulo, Verbo).
        Em ambos os casos as Autoras colocam em epígrafe dedicatórias, as quais reenviam
para referentes da génese destas obras, ou seja, para as fontes a partir das quais foi possível
construir estes textos literários. Assim, Luísa Ducla Soares circunscreve a dedicatória a um
âmbito familiar (“À Helena, minha filha, e aos seus amigos, meus amigos também, sem os quais
eu nunca teria escrito este livro” – pp.4-5), ao passo que Maria Teresa Maia Gonzalez alarga o
âmbito de influências para aquilo que se supõe ser uma esfera também profissional (“Para o
meu tio Augusto (que teve sempre tempo) e para todas as Joanas e Joões que se cruzaram
comigo nas escolas.” – p.5). O primeiro tem como balizas temporais 3 de Outubro e 1 de Junho,
sem que a esta informação cronológica seja associada qualquer elemento de natureza histórica;
são as diversas datas compreendidas entre este período que organizam e dão continuidade aos
fragmentos textuais. O segundo decorre explicitamente entre 28 de Agosto de 1992 e 5 de Julho
de 1994 e é composto por cartas dirigidas por Joana a Marta, após a morte daquela, vitimada
pelo consumo de droga.
        Contudo e além da aparente semelhança temática, no seu cerne estes diários seguem
roteiros diferentes. Embora ambos abordem questões ligadas à família e às relações
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interpessoais, à sexualidade, à droga, ao aborto e ao suicídio, por exemplo, apenas a obra de
Luísa Ducla Soares dá corpo a uma ironia corrosiva, onde estão ausentes moralismos ou
sentimentalismo.
        No caso de A Lua de Joana manifesta-se alguma dificuldade na fuga a estes escolhos,
devido sobretudo às opções realizadas na construção do sujeito da enunciação, demasiado
ensimesmado e com manifesta incapacidade para se descentrar do seu ponto de vista. Aliás,
também a sequência das acções, em torno de um conjunto muito restrito de personagens,
contribui para o efeito de alguma inverosimilhança na quantidade de problemas com que lidam.
No fim de contas, não se cumpre o pacto de leitura sugerido logo na primeira carta: “Não fazia
sentido escrever um diário, pois dava-me a sensação de estar a escrever para mim própria, o que
acho um bocado estranho. Talvez seja ainda mais estranho escrever-te, mas é a forma de manter
viva a tua memória, pelo menos até entender o que se passou contigo [...]” (p. 7). Por um lado, a
totalidade das cartas não procura apenas esclarecer as razões da morte de Marta, devido à droga;
por outro, Joana não deixa nunca de escrever para si própria, na medida em que tem dificuldade
em autoquestionar-se.
        Por sua vez, Diário de Sofia & Cª (aos 15 anos) é a obra que reúne características mais
estimulantes, sobretudo devido à fecundidade com que Sofia explora conscientemente as suas
características de sujeito exemplar, sempre num registo irónico: “Hoje estou muito filosófica.
[Cheguei à conclusão de que eu não sou só eu. [Sou uma mistura de mim com a minha família,
os amigos, o cão, a história da droga e tudo o mais. [Por isso este Diário não é o Diário de Sofia
mas o Diário de Sofia & Cª (aos 15 anos). [...]” (p. 109). Numa outra vertente é também
bastante profícuo o pacto assumido. Com efeito, este diário literário assume como pacto de
leitura representar o quotidiano num registo ficcional, quando seria de esperar que o seu
objectivo fosse dar uma ilusão de realidade; assim, o sujeito assume construir uma ficção sobre
um texto literário, o qual já é por definição ficcional. A este propósito e enquanto mero
exemplo, veja-se: “Esqueci-me de me apresentar na primeira página. Mas fiz bem. Chamo-me...
mas vou inventar um nome falso para mim e para todas as pessoas de que vou falar. Assim serei
uma personagem irreconhecível e não vou comprometer ninguém. [...]” (p. 6).




        Antes de terminar este texto não resisto a apontar marginalmente uma questão que se
me afigura deveras interessante. No caso dos diários, deparamo-nos com textos construídos com
o objectivo de, num registo ficcional, provocar uma ilusão de realidade – a este princípio não
escapam as obras referenciadas de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Curiosamente, na
também recente Uma Aventura na Noite das Bruxas (Lisboa, Caminho, 2000) deparamo-nos
com uma variante sobre o princípio subjacente aos textos diarísticos destas autoras. Enquanto
naqueles se constrói um universo verosímil sem qualquer referência paratextual ao processo e à
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matéria do trabalho literário efectuado, nesta é apensado um texto intitulado “O que é real nesta
aventura?” (pp. 213-223). No primeiro caso nada sabemos acerca da construção das
personagens João e Joana e do trabalho desenvolvido pelas Autoras de modo a tornar
verosímeis personagens da mesma idade dos leitores visados e cronologicamente mais jovens
do que elas. No volume 42 da colecção “Uma Aventura” é-nos apresentado o recurso (já
utilizado noutros volumes) de um texto à laia de posfácio, o qual contextualiza o leitor
relativamente a alguns princípios indispensáveis à leitura da narrativa ficcional. Assim sendo,
enquanto a maior parte das aventuras desta colecção está directamente circunscrita às
contingências de um espaço geográfico concreto, neste caso o leitor tem a oportunidade de
confirmar que está a lidar com o espaço da memória das Autoras como matéria inerente à
criação literária.
        Mediante a análise explícita das potencialidades deste processo de trabalho, o leitor é
convidado a assumir conscientemente um pacto de leitura de um texto ficcional que tem
subjacente a “realidade” da memória das vivências pessoais quer de Ana Maria Magalhães quer
de Isabel Alçada: “[...] Em vez de uma vulgar deslocação, fizemos uma viagem à nossa
memória em busca de lugares pessoas e objectos que pudessem saltar directamente das
recordações de infância e juventude para as páginas do livro. [...]” (p. 215). Desta forma, o leitor
lida com a oficina de trabalho do escritor, a qual permitiu construir um universo ficcional
coetâneo do leitor a partir do reinvestimento de sentido da rememoração de experiências vividas
e efabulação sobre elas. Assim, convive com a descrição de uma série de tarefas que se
revelaram produtivas na produção desta obra e, portanto, tem à sua disposição um itinerário que
ele mesmo pode experimentar.


        Aqui fica o convite a múltiplas (re)leituras, esperando que estes apontamentos tenham
ao menos provocado o prazer de sentir a água a crescer na boca...

				
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