O ESCRITOR CORPORAL:
CEM ENTREVISTAS PARA A CONSTRUÇÃO
DE UMA METODOLOGIA
Giovanni Ricciardi
Professor de Literatura Brasileira da Universidade de Nápoles
1. O Escritor Corporal
Confesso-o publicamente: devo a Gabriel Nascente a bela expressão “escritor
corporal”, que muito explica e manifesta o tipo de pesquisa que venho fazendo há
alguns anos com os escritores brasileiros1. Convidado, em 1991, a ministrar um curso
na UFG, aproveitei a ocasião para conversar também com os escritores da cidade. No
Jockei Club encontro o autor de A torre de Babel, o qual, à minha pergunta: “Por que
escreve?”, respondeu:
Eu jamais daria conta de viver sem o convívio corporal, existencial, sentimental com a
palavra.
Gostei da expressão convívio corporal, dessa osmose entre o corpo e a fantasia, o
sentimento, a palavra e passei a definir “escritor corporal” o meu trabalho, a minha
metodologia.
O maestro e compositor Júlio Medaglia conta que Tom Jobim pediu-lhe um dia e
urgentemente algumas aulas de regência sinfônica. O encontro ficou marcatono mesmo
dia às 5 da tarde no bar Veloso, hoje Garota de Ipanema. Com a partitura de primeira
sinfonia de Beethoven, os dois começaram a cantarolar e gesticular. Tom não devia ser
um bom aluno se o maestro teve que interromper as aulas, também urgentemente,
concluindo: “Tom, você não precisa elevar os braços aos céus para fazer sua música.
* Há quase 20 anos que trabalho sobre o que agora chamo de sociologia para a literatura e sobre
sociologia da literatura (vide notas 1 e 2); neste ensaio apresento o meu método e sua estrutura teórica,
exemplificando com citações tiradas dos livros de entrevistas já publicados (vide notas 1 e 2 ) ou
presentes neste livro e revisitando um texto base – A sociologia do autor na literatura brasileira
contemporânea. Teoria e pesquisa de campo- que já discuti no Congresso internacional de História da
Literatura de Porto Alegre e que foi publicado nos “Cadernos do centro de pesquisas literárias da
PUCRS”, Porto Alegre, v. 3, nº 1, abril de 1977, p.49-60.
1
Vide: Escrever, Bari, Libreria Universitaria, 1988. pp. 410 ; Auto-retratos, São Paulo, Martins
Fontes, 1991, pp. 436 e Escrever-2, Bari, Ecumerica Editrice, 1994, pp. 160.
1
Continue baixando suas mãos sobre o piano e, com um dedo só, como até aqui, aponte
algumas poucas notas no teclado que o mundo vai silenciar para ouvi-las”.2
Eu também, e apenas sob esse aspecto, há quase vinte anos aponto sempre uma
mesma nota, quer em minhas pesquisas, quer em minhas palestras ou seminários e
trabalhos acadêmicos, a da construção de uma postura metodológica, de uma
metodologia, que tem no autor o momento substancial, que tem no autor o seu samba
de uma nota só. Disso é que vou falar também hoje.
Acabei meu curso em Clássicas em 1968. Desde cedo assumi metodologicamente a
pespectiva sociológica e meus primeiros livros foram de Sociologia da literatura3. Eu
era um crente ardoroso e férvido dessa disciplina, ainda que com algumas
perplexidades.
Depois de uma década de docência em colégios, tornei-me professor de Literatura
Brasileira, em 1983. Revi, então, minha postura crítica anterior. Daquela tripartição
canônica em que era comunemente dividida a Sociologia da literatura –autor, obra,
público- eu fiquei com o autor. Até a expressão “sociologia da literatura” parecia-me e
parece-me imprópria e contraditória, ainda que oficial. Com efeito, sendo a literatura
intimidade e fantasia, loucura e alucinação, difícil e impossível é atingi-la
sociologicamente, isto é usando de instrumentos e métodos da pesquisa sociológica.
Não posso eu “perguntar” aos poemas de Carlos Drummond de Andrade como e se
influenciam a vida sentimental dos habitantes de Minas ou ao poema Festa do corpo de
Adélia Prado se provoca irriverência ou leva para a pornografia. Posso, ao contrário,
fazer essas perguntas aos autores ou ao críticos ou aos leitores.
2. O autor
Eu interesso-me do autor. Mas que autor é esse?
Estimado e, às vezes temido por possuir o poder da palavra, o autor tem passado por
etapas e peripécias e aventuras inúmeras. Libertado do mecenato pelo Iluminismo e
pelo mercado, com o Romantismo o autor torna-se guia e sacerdote do povo; torna-se
barricadeiro com Baudelaire em Paris, revolucionário como Byron, como Ugo Foscolo,
como Almeida Garrett.
2
MEDAGLIA, Júlio, Pelo dedo se conhece o gigante, in “Vogue Brasil”, 1995, n.212.
3
Vide Sociologia da literatura, Lisboa, Publicações Europa-América, 1971, p.121 e Lineamenti di
una sociologia della produzione artistica e letteraria, Napoli, Liguori, 1974, p. 157.
2
Nos anos posteriores ao 1948, fugindo da “agorá”, da praça e do clamor das armas e
das revoltas, repudiando a burguesia e seu poder, o autor envereda por caminhos cheios
de símbolos e decadentes; viaja, fisica e mentalmente para terras longínguas e
misteriosas:
Fuir! Lá bas fuir…
Gritava Mallarmé em Brise marine e Baudelaire em L’invitation uo voyage:
Là tout n’est qu’ordre et beauté
Luxe, calme e volupté
Depois do Simbolismo, o autor ressurge provocador e soberbo nos anos dos -ismos
(Marinetti, Almada Negreiros, Oswald de Andrade). Com Zdanov e com o Neorealismo
e com o engajamento obrigatório do pós-guerra – Qu’est-ce que la littérature? de Sartre
é de 1948- o autor volta à luta, ma, logo em seguida perde-se no labirinto do texto, na
escrita minimalista, no refluxo intelectual do fim das utopias.
O meu autor não se parece com esses. Eu interesso-me pelo autor, enquanto feitor de
textos, enquanto escritor de romances, de contos, de poemas e não enquanto cidadão.
Em outras palavras e para exemplificar, nessa perspectiva interessa-me Bernardo Èlis
criador do conto O menino que morreu afogado e não o Bernardo Élis “político” e com
fazenda ocupada; interessa-me o Antônio Torres autor de Meu querido canibal e não o
Antônio Torres cidadão que vota Lula ou Serra; interessa-me o Machado de Assis, autor
do conto A missa do galo e menos o Machado de Assis jornalista, funcionário público,
presidente da Academia Brasileira de Letras.
O objetivo é penetrar as engrenagens do ato de escrever, é descobrir e revelar, o
quanto possível, as motivações dum texto, os porquês. O desafio é compreender,
através da análise dos elementos materiais da escrita – todo o material sociológico
recolhido através das entrevistas – como a fantasia se concilia com a história e a
temporalidade, como o corpo se concilia com a “loucura” da criação.
Com esse propósito e com essa hipótese comecei minha aventura com os escritores
brasileiros, servindo-me de um instrumento operativo próprio da análise sociológica: a
entrevista. Era o ano de 1986, Naquele ano, naqueles anos, o texto e a análise textual
estavam em plena vigência e dominavam a crítica e a academia. O meu interesse pelo
autor devia parecer uma ousadia se Lêdo Ivo assim respondia a uma minha carta: “Será
que Sainte-Beuve está saindo sepulcro e voltando vitoriosamente às cátedras
universitárias após a clamorosa proscrição?” .
3. A Entrevista
Na história da literatura brasileira a entrevista tem uma história. É João do Rio
quem abre o caminho com O momento literário, o primeiro inquérito sobre o estado da
literatura no Brasil e sobre o aparecimento de um novo ídolo, o escritor mimado,
famoso, rico, “dandy”, em oposição ao velho tipo de “escritor boêmio, com camisa por
3
lavar e estômago vazio”4. É o mesmo autor que aponta a nova tendência com relação
aos escritores, quando escreve:
O público quer uma nova curiosidade. [...] Não se quer conhecer as obras, prefere-se
indaga
a vida dos autores. [...] saber em que deuses crêem os seus profetas e o que realmente
pensam
e são os seus pensadores e os seus artistas. [...]O homem que escreve é sempre um
ídolo.
Mesmo quando escreve mal. Não se pode imaginar a admiração e o culto que se devota
aos homens de letras nossos 5.
Continuando, conta o caso de um estudante “que acompanhava o Coelho Netto de
longe e estragou com um “pince-nez” grau 7 os seus olhos sãos só porque o Netto usava
grau 7”6.
A “curiosidade” de que fala João do Rio continua, de certa maneira, nos trabalhos de
Silveira Peixoto, Homero Senna, Renard Perez, José Afrânio Moreira Duarte, Edla van
Steen, Cremilde de Araujo Medina, Denira Rosário7; continua, também, nas entrevistas
que, mensal e semanalmente, propõem jornais e revistas. Idêntico o interesse e a
“curiosidade”: quem é o escritor? por que escreve? qual o processo de criação? quais as
influências literárias? quais os estímulos e os pretextos para a literatura?
O material recolhido é farto e todos esses inquéritos são importantes. Prefaciando o
primeiro volume de Falam os escritores de Silveira Peixoto, R. Magalhães Júnior fala
em serviço prestato “não só aos leitores de hoje , como aos biógrafos de amanhã”;
Antônio Soares Amora, apresentando A posse da terra, evidencia a “incontestável
importância que assume para a historiografia literária brasileira e portuguesa o trabalho
ao mesmo tempo jornalístico e crítico de Cremilde”.
Meu trabalho insere-se nessa tradição, mas com pelo menos duas diferenças. 1ª Meu
questionário por ser sociológico é igual para todos, ou pelo menos, nos limites de uma
4
João do Rio,O momento literário, Rio de Janeiro, Garnier,s.d., p.327.
5
Idem, p.XI
6
Idem, p.XIV.
7
Silveira Peixoto, Falam os escitores, São Paulo,Edições Cultura Brasileira, 1ª série, s.d. e Falam os
escritores, São
Paulo, Editora Guaíra Limitada, 2ª série, 1941; Homero Senna, República das Letras, Rio de
Janeiro, Livraria São
José, 1957; Renard Perez, Escritores Brasileiros Contemporâneos, Rio de Janeiro, Editora
Civilização Brasileira, vol.
I e vol. II, 1960; José Afrânio Moreira Duarte, De conversa em conversa, São Paulo, Editora dos
Escritores, 1976 e
Palavra puxa palavra, São Paulo, Editora dos Escritores, 1982. Edla van Steen, Viver e escrever,
Porto Alegre,
L&PM, vol.. I e vol. II, 1981 1 1982; Cremilde de Araújo Medina, A posse da terra, Lisboa,
Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 1985; Denira Rosário, Palavra de poeta, Rio de Janeiro, José Olypmpio, 1989.
4
conversa livre, ainda que orientada pelas perguntas, tenta ser idêntico para tornar-
possível a comparação dos entrevistados entre si e entre generações também8.
Se contejo, por exemplo, alguns itens do trabalho de A.L.Machado Neto Estrutura
social da República da letras. Sociologia da vida intelectual brasileira -1870-1930 -
trata-se de uma entrevista imaginária e a posteriori, construída através de memórias,
biografias e autobiografias- com os da minha pesquisa, vejo que continua o exodo dos
escritores da periferia para o centro, então apenas para a Corte e hoje para o eixo Rio-S.
Paulo; e continuam persistindo núcleos, ilhas culturais em Porto Alegre, Belo
Horizonte, Bahia.
A profissão paterna começa a ter algum operário, lavrador, barbeiro, quitandeiro a
mais; a materna, que antes era apenas de dona do lar, agora vê comerciante, professora,
advogado, dentista, operária, cabelereia, costureira…
As faculdades cursadas não são apenas Direito e Medicina, mas aparecem Letras,
Comunicação, Línguas…
A profissão ganha-pão continua sendo necessária e costrangedora. Hoje porém já há
autores que podem viver de literatura e não apenas para a literatura. Etc.
Antes de continuar, quero deixar aqui, ainda uma vez, o meu agradecimento aos
escritores pelo carinho e pela atenção com que me receberam. A experiência foi
recompensadora e gratificante. Com efeito foi bom ouvir aquele “duplo”, conhecido
antes através dos textos, observá-lo de perto enquanto prepara um cafezinho ou uma
gostosa galinha na cerveja, bater um papo sob as palmeiras duma pracinha antiga ou em
frente ao oceano aberto, ouvi-lo enquando lembrava orgulhosa ou resignadamente as
peripécias biográficas ou as opções difíceis; enquanto abertamente assumia a própria
homosexualidade ou tantava mascará-la como monstro absurdo da própria vida.
Entrevistado e entrevistador, olhos nos olhos como supõe o termo, repropõem, de
certa maneira, uma situação de análise, nas palavras dos próprios escritores. Caio
Porfírio Carneiro é convencido de que “o questionário arranca tudo da gente, até um
pedaço da alma”. Marcos Santarrita confidenciava-me que a entrevista o tinha esvaziado
como se tivesse concebido. Autran Dourado e outros compararam a entrevista a uma
sessão de análise.
Uma garantia, estas afirmações, de autenticidade e de objetividade?
Para as minhas entrevistas sirvo-me de um questionário não estruturado e bastante
longo, que focaliza sobretudo dois pontos: o momento biográfico e o processo criativo.
Finaliza a entrevista um perfil, um auto-retrato, traçado pelo próprio autor
4. O Momento Biográfico
8
Resenhando meu Auto-retratos, a crítica Dulce Mindlin escreveu em “Colóquio/Letras”, nn.127-
128, 1993: “…de um lado o foco num determindado escritor, seus interesses, seu jeito de ser/escrever, as
implicações diretas e indiretas de seu lugar na família, na sociedade, na “república das letras”. E ainda
suas idiossincrasias, sua autocrítica, seus medos, seus projetos. De outro todas as possibilidades de leitura
“horizontal”. Vale dizer, no recorte oferecido por cada pergunta a vários escritores diferentes. Aí, talvez,
esteja a chave de recuperação de uma história que supera oa do indivíduo em si para dar-se como história
social, como história de uma nação: o fato de “cada um “ responder à mesma pergunta permite a
sistematização de um imaginário coletivo numa determinada época”.
5
“Escrever, nota José Saramago, é uma biografia dissimulada” e
“excercícios de autobiografia” intitula os 5 capítulos em que H., o protagonista de
Manual de pintura e caligrafia, revê a sua viagem pela Itália.
A escrita como biografia dissimulada.
O “momento biográfico” de que falo tem como objetivo avaliar a importância do
elemento biográfico na origem, na manutenção, na feitura dum texto. As perguntas são
sobre família, educação, relacionamento com os pais, leituras dos “anos verdes”,
influências recebidas, carreira paralela ou carreira ganha-pão, opções e encruzilhadas.
Por que insistir tanto na biografia? Não há o perigo de amesquinhar a criação
literária, ligando-a demasiadamente à história, tornando demasiadamente mecanicista o
relacionamento criação literária/história pessoal? O perigo naturalmente existe, mas, às
vezes, é o conhecimento de algum desses que eu chamo de “acidentes biográficos” 9,
que permite compreender as mudanças significativas da obra de um autor; é lançando
um S.O.S. à biografia que se entende, às vezes, a novidade e a especificidade de uma
obra.
Vejam esse lance da biografia intelectual de Manoel de Barros, poeta grande e
rivolucionário semântico. Todos sabemos que, à maneira de João Guimarães Rosa, o
imperativo do poeta é desfazer, desinventar, desestruturar a linguagem. Começa esse
caminho, lindamente, com o primeiro livro Poemas concebidos sem pecados , de 1937.
Em todos os livros posteriores o processo continua e acentua-se, não porém no Face
imóvel, de 1942, que abandona totalmente a preocupação com a linguagem. Eu
conheçia Manoel, por tê-lo entrevistado, em 1989, na cidade de Campo Grande. Tendo
que preparar uma comunicação para um congresso e não conseguindo explicação
alguma para aquela mudança improvisa e única numa longa carreira, decidi lançar um
S.O.S. à biografia e escrevi ao poeta, pedindo luzes. Manoel assim respondeu:
Por que abandonei a preocupação com a linguagem no livro Face imóvel ? O poeta
foi tomado pelo idealismo político do começo do século. Me empolguei pelo comunismo. E entrei
na fila dos jovens que precisavam de salvar o mundo. Acabei esquecendo que poesia não se faz
com idéias mas sim com palavras (Mallarmé).
Na verdade, o relacionamento da biografia com o testo, com a obra ou o conjunto da
obra dum autor é muito maior e mais subtil do que eu pensasse. À vezes, as peripécias
biográficas dão o “imprinting”, o cunho, a marca a toda uma obra. As falas dos
escritores revelam muito sobre esse aspecto, sobre a persistência da biografia nas suas
obras. Penso no tom predicatório, bíblico de Affonso Romano de Sant’Anna:
(…) sobretudo foi importante o fato de ter convivido muito com a pobreza lá na igreja
protestante e ter desenvolvido esse trabalho meio assistencialista, messiânico, salvador do
mundo…Isso evidentemente vem afetar minha literatura, uma literatura que tem também
uma certa batida bíblica, queira ou não queira, porque desde zero anos de vida você ouve
falar em Bíblia na sua presença. Isso fica muito marcado10.
9
Uso “acidente” em oposição a “substância”, conforme a doutrina de Aristóteles. “Acidente” é
ideologia, é classe de origem, formação, condição econômica, relacionamento com coisas e pessoas; é
família, é carreira, é profissão, é linguagem. Acidente é história.
10
Vide RICCIARDI, Giovanni, Auto-retratos, São Paulo, Martins Fontes, 1991, p. 414 .
6
Penso nestas palavras de Caio Fernando Abreu:
Eu tive uma educação muito severa…A minha mãe queria muito que eu e meu
irmão fóssemos exemplos de educação para os outros. Era uma moral muito rígida
muito forte; nós praticamente não tivemos educação sexual, era proibido falar em
sexo, aprendemos na rua como os outros, como a grande parte da minha geração.
Esse tipo de educação marcou-me muito negativamente. Acho que a minha literatura
e a minha pessoa pudessem talvez ser bem menos amargaras se a minha educação
tivesse sido mais realista.
Penso em João Guimarães Rosa que afirmava: “É impossível separar a minha biografia da
minha obra”11
As perguntas relativas ao “momento biográfico” são as canônicas: apresentação da
família, ambiente, educação recebida, curriculum de estudos, leituras, primeiro livro
publicado, carreira paralela.
Se toda biografia é momento interessante da análise, adquire particular relevância a
eventual existência de uma experiência traumática, duma encruzilhada, duma opção
forte, dum acontecimento capaz de marcar para sempre. Penso neste momento ao
quanto o cárcere tem mudado a visão do mundo e portanto a literatura de Graciliano
Ramos! Mas, quais acontecimentos têm “mudado” os meus entrevistados? Quando
preparava o questionário, eu pensava que todos ou quase responderiam : “O golpe de
1964!”. Pois não fois assim.”Encruzilhada” é casar ou descasar, é morte de um familiar,
é conversão religiosa, é doencça dos pais, é falência de empresa, é continuar morando
em Londres, é encontrar Marina ou Stella. Responde Manoel de Barros:
Houve uma coisa sadia que foi meu casamento. Stella era o outro amor. Não precisava
zanzar mais. Era Stella e a Poesia. Passei a morar com ambas, na mesma casa. E até hoje
moramos juntos, e nos amamos.
Porém Mário Mário Quintana protesta :
A minha vida só acontece nos poemas. Para mim, os acontecimentos não têm
importância nenhuma.
É como disse: sou isento.
Mas “encruzilhada” é também, e para muitos, o golpe, uma experiência dolorosa e
inesquecível, que muito tocou a literatura, mas originando também romances e criando
escritores, como Benedicto Monteiro e Oswaldo França Júnior. Lembra Marcos Rey:
De repente, de dia para a noite, em 24 horas, armaram a “revolução”, e todas as
pessoas que eu conhecia, com quem dialogava, que frequentavam a minha casa, de
repente passaram a ser “subversivas”, passaram a viver escondidas, foram perseguidas.
Então, vi que a festa, as ilusões tinham acabado. O escritor passou a ser visto como um
inimigo, um cara perigoso.
Veio a censura no rádio, na televisão, no teatro. Talvez tenha sido por isso que eu
escrevi dois livros de sucesso- e eram livros de nostalgia: O enterro da cafetina e
11
Diálogo com Guimarães Rosa de Gunter Lorenz, em Guimarães Rosa aos cuidados de E. F.
Coutinho, Rio; Brasília, Civilização Brasileira / INL, 1983, p. 66.
7
Memórias de um gigolô. Eram livros de uma outra época, porque sobre o presen te não se
podia escrever.
5. Ideologia do “ escritor fantasma”
Quem é o escritor, o “escritor fantasma”, no dizer de Roland Barthes12, pois aqui
não tocamos nos textos? Por que escreve? Qual o projeto humano que substancia a sua
escrita? Algumas respostas confirman o nexo estrito entre “acidentes” e ideologia
explicitada. È o caso de dois autores que tiveram problemas com a ditadura: o autor de
Exposição de motivos Deonísio da Silva que afirma: “Escrevo para exercitar minha
liberdade” e Benedicto Monteiro, o autor de Vago-vagomundo que confirma “Escrever
para mim è o exercício da minha mais intensa liberdade”.
Em outros casos, os percalços da infância e a classe de origem, tão marcantes na
formação e na memória, estão bem relacionados, e talvez dependentes, com o projeto
humano da própria escrita. É o caso de Antônio Torres:
Escrevo, ele diz, por causa das manifestações daquele povo que chorava quando me
ouvia recitar poesia. Esse povo que ia me chamar para ler livro de rezas quando
alguém estava morrendo; esse povo que me chamava para escrever suas cartas.
Tudo isso me dava estímulo, de uma maneira ou de outra. Acho que já cresci
sentindo dentro de mim a necessidade de escrever como uma coisa socialmente
útil, como um serviço…
Mas, em geral, é possível organizar os escritores em três agrupamentos: ético,
egotistas e possuídos, advertindo que as respostas relativas ao ato criador e à origem da
escrita desestruturam essa tripartição, misturam as águas, criam pororocas formidáveis e
incríveis, anulando qualquer tentativa classificatória e apelando para a especificidade de
cada um, para a “ilha” que é todo escritor.
5.1. Escritor ético
É aquele que, ainda que abdicando teoricamente ao ideal romântico do artista, guia
moral do povo, ao engajamento sartreano (“Sujar as mãos!”) ou à “organicidade” de
Gramsci, assume a escrita como um officium, como um dever moral para com a
sociedade e para consigo mesmo. É o projecto, por exemplo de Ignácio de Loyola
Brandão:
Eu escrevo também porque acho que eu vi, como jornalista, tanta mentira, tanta
mentira; eu era obrigado a mentir, melhor, a omitir os fatos que estava presenciando. Eu
vi, andando por esse país, lendo livros, lendo livros de história, que meus filhos estudam,
que aquilo que tem lá é mentiroso. Porque a história desses vinte anos aí é totalmente
deturpada; está mostrando como herói gente que foi grande filho da puta. Então, de
repente, senti que eu tinha uma espécie de responsabilidade, de necessidade de restaurar
um pouco de verdade.
Eu tenho que desmentir esses livros todos.
Para João Antônio,
12
BARTHES, Roland, Barthes di Roland Barthes, Torino, Einaudi, p. 90.
8
(...) escrever é um problema antes de tudo ético…Há qualquer coisa aí de missão, de
sacerdócio sem religiões.
Josué Montello considera a escrita uma missão:
Eu tenho uma missão: è escrever, ser testemunha do meu tempo, dizer o que eu vi,
aquilo que senti, que observei e que preciso transferir a outras generação.
Restauração da verdade, atitude crítica perante a sociedade, compaixão pelo outros,
sentido de missão é também o projeto de Nélida Pinon, Domingos Pellegrini, Silviano
Santiago, Roberto Drummond, que confessa ter sido levado ao Partido comunista pelos
livros de Jorge Amado e afirma:
A escrita è um negócio que tem que mudar o mundo, melhorar as pessoas.
5.2. Escritor egotista:
É aquele que põe em primeiro plano, e quase que unicamente, o próprio ego, ainda
que se possa contradizer no decorrer da entrevista –mas isso, pela complexidade do
assunto, acontece com quase todos.
Antônio Callado, depois de ter discutido largamente o assunto, assim conclui:
A escrita está muito ligada à ideia de glória. Talvez seja por isso que eu escrevo...
Acho que que é o duro desejo de durar.
Osvaldo França Júnior, que “escreve para fugir duma situação de angústia opressiva
maior”, explica:
À medida que fui me observando e me analizando, descobri que a atividade que me deixa
menos angustiado é a literatura.
Gerardo Mello Morão, categoricamente:
É o terror de chegar ao fim da vida de mãos vazias. Escrevo para comparecer diante de
Deus com os livros não mãos. Escrever è uma maneira de perpetuar-se.
5.3. Escritor inspirado:
É aquele que declara não saber por que escreve, que não pode não escrever, que,
racional e conscientemente, não atribui à própria literatura projeto algum, que fala –
após a canônica resposta, “não sei”, “não tenho idéia” – em obsessão, destino, vocação,
necessidade interior, maldição, compulsão: palavras todas que conotam coerção
irresistível.
Afirma J.J.Veiga:
(...) sempre me indago por que escrevo em vez de estar fazendo outra coisa que pode ser
até mais rendosa. Li uma série de reportagens: vários escritores franceses e de outros
9
países dizendo por que escrevem. Achei aquilo uma grande pose: o sujeito inventa
alguma coisa para dizer, mas escrever não é nada daquilo, não. Eles não sabem, ninguém
está sabendo, eu não sei.
Também José Mendonça Teles responde assim:
Não sei porque escrevo. Não seria capaz de dizer. Seria necessidade, talvez uma coisa
orgânica ou inorgânica que vem, que me obriga a isso. Eu gostaria de não escrever, eu
gostaria de ser burro, de ser analfabeto, talvez assim seria feliz...
Murilo Rubião diz que escreve:
... por maldições, porque não há outra maneira. Não está em mim...Se nascesse
novamente não escaparia da maldição.
Na mesma linha as respostas de muitos outros: Edilberto Coutinho, Lya Luft, Márcia
Denser, Salim Miguel, Fernando Sabino, Cyro dos Anjos, Marcos Rey, Caio Fernando
Abreu, João Ubaldo Ribeiro, Cesar Monteiro Martins.
Falando em geral da própria escrita ou respondendo à pergunta: “O que é escrever?”,
a quase totalidade dos escritores não passa do reino de Dionísio e do “mágico”:
- A escrita é invariavelmente mágica (Antonio Callado).
- O maravilhoso do ato criador...A loucura da criação (Miguel Jorge)
- Escrevo por ispiração; às vezes baixa o santo (Marcos Santarrita)
- Aquela sensação agônica de desafio, quase de délivrance (Maria Alice Barroso).
- Como poeta eu realmente escrevo, quando a inspiração, se é que ainda se pode usar
esse palavrão, aparece (José Paulo Paes).
- Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais é uma
decisão minha (Adélia Prado).
- Meu processo criativo é totalmente caótico, ele é muito impulsivo (Gabriel Nascente).
6. O processo criativo
Esta é a parte mais delicada da entrevista, pois as respostas nos conduzem
diretamente a um processo de criação e talvez fosse necessário apelar mais para a
psicanálise, para aquela região misteriosa que é o inconsciente, do para a sociologia. Eu,
porém que não tenho preparação psicanalítica alguma, fico no campo da sociologia. Na
realidade todo esse material sociológico que são as entrevistas, toda essa documentação
é para mim um momento gnoseológico para entender e melhor compreender a obra, o
texto. O conhecimento dos “acidentes” é o primeiro momento, a primeira etapa. É por
isso que falo em “Sociologia para a literatura”. Com efeito, a minha pesquisa quer subir
um pouco mais, quer entrar o quanto possível nos bastidores da criação literária, como
definiu meu trabalho o poeta José Paulo Paes; quero, gostaria de, conhecer o como o
quando e o porquê, os ais e os vivas da escrita. Gostaria de conhecer, através das feições
normais do homem e do seu cotidiano, os motivos da ira, do sarcasmo, da paixão, da
ternura do texto, de um texto e possivelmente saber porque um homem tão doce e bom
como Miguel Jorge possa escrever um romance tão forte e dramático como Veias e
vinhos.
Este é o projeto e estas algumas das perguntas:
10
Como nasce um texto?
Onde encontra estímulos para escrever?
Existe o prazer de escrever?
Há momentos ideais para escrever?
Qual é o papel do imprevisto?
E ainda: qual é a relação do autor com palavra ? Uma relação de amor, com certeza,
mas de um amor brigão e difícil de satisfazer como testemunha o poeta Afonso Félix de
Sousa:
A minha relação com a escrita é de puro amor. É um amor brigão, difícil de satisfazer.
As palavras, por sua vez, são uma fonte de perplexidades. Elas me atiçam e
enfeitiçam, seja quando símbolos de algo concreto, seja quando ambíguas ou
polivalentes...
Lygia Fagundes Teles compara o ato de escrever ao ato de amor, antes “escrever é
um ato de amor” e Elias José afirma que o escritor “tem que ter uma ligação assim
amorosa, sensual com as palavras”.
Como nasce um texto?
Eu tenho um certo cansaço em discutir isso; me irrita, responde João Ubaldo Ribeiro. Todo
o ressecamento do processo criador, e essas besteiras, è a tentativa de explicitar o
inexplicitável. Seria como tentar de explicar para um marciano que desconhecesse a sexualidade
o que é um orgasmo.
E Cyro dos Anjos:
Jamais perguntem ao romancista por que ele escreve romances; melhor é pedir, como
um certo personagem de Shakespeare, que sejam os mesmos bem encadernados e nos
falem de amor.
Contudo, alguns escritores tentam definir essa centelha que acende a chama, que
origina o texto. Pode ser a frase que perturba de Marina Colasanti ou a frase rítmica de
Domingos Pellegrini; a linguagem de Benedicto Monteiro, o olhar de Deonísio da
Silva, ou a personagem de Lya Luft e de Helena Parente Cunha que diz:
Quando comecei a escrever Mulher no espelho me sentei e escrevi: “…e vou começar
agora a minha história”. Eu não sabia que ia falar sobre o problema de uma mulher
reprimida, não sabia nada….Fiquei completamente dominada pela personagem.
Outros escritores partem de motivações epistemológicas e éticas:
A República dos sonhos nasceu de um desejo primordial, que, há muitos anos, me
acompanhava, de fazer uma grande reflexão sobre meu país. Isso meu veio como
consequência desses 20 anos de ditadura militar (Nélida Pinon).
A missão de Quarup era fazer um romance brasileiro, um romance que contasse o
Brasil…eu quis explicar o Brasil a mim mesmo e, se possível, aos outros (Antônio Callado).
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E o tempo da escrita como é? como se sente o autor quando escreve? quando começa
a escrever ou deve começar a escrever?
Diz Murilo Rubião que a inspiração só serve para o primeiro momento, para se
lançar dentro do tema. Depois a coisa deve ser trabalhada friamente. E Gerardo Mello
Mourão confirma:
É um trabalho técnico, de suor, de dificuldade; não é apenas aquele trabalho da luz do
Espírito Santo, que vem na cabeça.
É o tempo do êxtase e da Via Crucis, o tempo da aleluia e da dúvida.
Enquanto estou escrevendo, afirma Roberto Drummond, estou alegre com a coisa; não
há felicidade maior, nem quando estou amando uma mulher.
Vivem a escrita como prazer e prazer sensual e sexual também Deonísio da Silva
(Escrever è como uma boa bolinação. Sempre acaba em alguma coisa muito gostosa),
Domingos Pellegrini, (Quando a coisa é boa e vai se desenvolvendo, eu sinto um prazer
físico), Fernando Sabino (Escrever leva, às vezes, ao orgasmo, ao prazer físico), Lêdo
Ivo (O prazer de escrever é só comparável ao prazer sexual).
Há outros que vêm na escrita apenas o sacrifício, a dúvida, a dureza. Para Ivan
Ângelo escrever “é sempre uma atrapalhação”; Otto Lara Resende associa a “literatura
muito mais ao sofrimento”; Marcos Santarrita nega qualquer prazer: “O prazer da
criação de que os poetas falam e de os críticos falam isso eu nunca tive”. Categórico
também Autran Dourado:
O prazer de escrever eu não tenho… A página em branco me dá uma grande
angústia. Não sei se a frase vem, se vou conseguir fazer o segundo capítulo. Tenho um
sentimento de impotência.
Outros ainda há que conciliam Irisópolis e Tocaia grande, para lembrar um romance
do Jorge Amado, que conciliam ou tentam conciliar a dor com o êxtase, como Marina
Colasanti (Eu gosto de escrever e tenho o prazer da escrita. Mas a escrita tem muito
sofrimento, é muito dolorosa) e Sérgio Sant’Anna que confessa:
Escrever é neurose e prazer. Eu, às vezes, tenho o prazer neurótico de ficar
obsessivamente procurando uma expressão. Isso não deixa de ser um prazer. Acredito que
uma pessoa absolutamente saudável dificilmente escreveria um livro. Os percalços e as
peripécias que o autor encontra o caminho da escrita são às vezes desanimadores.
E, antes de tudo e na maioria dos casos, a necessidade da carreira paralela, da
carreira ganha-pão. Refiro-me apenas à opinião de Márcia Denser – cadê a
Márcia de Diana caçadora, de Animal dos motéis, de Exercícios para o pecado? –
a qual me dizia:
A sobrevivência me revolta. A necessidade de trabalhar para sobreviver, os serviços
estéreis e inúteis, estúpidos me revoltam profundamente… Acho que deveria haver um
projeto governamental que financiasse os escritores como financia os atletas; que
financiasse cérebros e não pernas.
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Nessas condições, a procura do sucesso, não mais e não só do sucesso para si e do
sucesso literário, mas – é o preço que também o escritor paga à nossa sociedade-
espetáculo – do sucesso visível, público, quantificável torna-se necessária; a vocação de
“camelô da literatura”, na expressão de Ignácio Loyola Brandão, desejada, a
necessidade da contínua presença em rádio, televisão, jornal, inevitável. Um perigo há
nessa situação: que o texto desapareça atrás do homem público e mediático, atrás da
personagem, e que o mesmo Ignácio seja mais conhecido pela publicidade de jeans que
fazia anos atrás e não por ser autor de Zero.
Cada escritor é, afinal, uma ilha, um unicum, pois cada um cria seu espaço mental de
trabalho, vive seu texto na tranquilidade ou no caos, de manhã ou à noite, no silêncio ou
no barulho, planejando-o ou sendo por ele possuído; cada autor passa por crises
assustadoras ou permanece isento às peripécias do mundo, sente a própria escrita como
felicidade ou calvário, vive o “hosanna!” ou o “crucifige!” da crítica e do mercado,
espera para enfrentar a folha em branco que baixe o santo ou é capaz de organizar seu
tempo e seu espírito voluntaristicamente, vive com rancor a carreira-ganha pão ou aceita
a própria condição com filosofia...todos porém não podem não escrever, todos tem o
propósito de continuar firme nesse ofício, tão duro e tão especial. Dizia o saudoso
Edilberto Coutinho:
Há momentos em que você pensa que isso não vela a pena, que está perdendo tempo,
que é muito melhor você largar isso, porque o tempo em que você está dedicado a
escrever, a reescrever , é o tempo tomado da praia, do chope e de outras atividades mais
agradáveis...
Aí, de repente, as coisas voltam, se colocam em seus lugares devidos.
O importante é você insistir. Escrever é um hábito, como respirar.
Prazer e dor, sofrimento e alegria, neuroses e obsessões, que acompanham a
construção do texto, reconciliam-se na entrega do mesmo à editora. Estamos no final
do caminho. A obra, nascida do encontro de amor do escritor com a palavra, começa sua
vida autônoma, borboleta recém-nascida voa ao encontro do leitor e do mercado para
uma nova, imprevisível aventura.
E o escritor, vai recomeçar e continuar a escrever? Autran Dourado à esta minha
pergunta, respondeu contando esta bela estoriazinha:
Eu tinha uma vizinha que ao parir gritava muito e dizia: “Nunca mais, nunca
mais!
Um desespero. Quando acabava o parto, sobravam umas ampolas grandes que
pareciam um ponto de interrogação – devia ser soro – e a parteira perguntava: “O
que é que eu faço?
E ela respondia…: “Guarda para a outra vez”.
A entrevista termina com o auto-retrato, traçado pelo mesmo autor. Falar de si,
estilizar-se, escolher entre as facetas possíveis da própria personalidade, resolver em
poucas linhas o próprio perfil, definir-se hic et nunc, na hora, pode ser “mareado”,
custoso, difícil também para um/o escritor, notoriamente sustentado por um “ego” e por
uma vontade forte de auto-afirmação.
O poeta e romancista Lêdo Ivo afirma categoricamente:
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É muito difícil dizer...Todo auto-retrato seria falso. “Eu é um outro” dizia Rimbaud. É
a resposta que tenho. Eu nunca me interroguei a respeito, porque eu vivo na minha
duplicidde, da minha diferença entre eu e mim.
Duplicidade, ambivalências fixadas e para assim dizer objetivadas,
momentaneamente, no auto-retrato: instantâneo, não “reprodutível”, in-definido. “Eu
personagem de mim”, nas palavras do autor de Lobos, Rubem Mauro Machado.
Revisitando a galeria dos auto-retratos, percebo imediatamente a falta duma linha
comum, de um “plafond” que reúna e unifique, que dê sentido à exposição.
Constrangido pela minha função de crítico por exigências classificatórias, sinto-me
deslocado, em “impedimento”. O escritor é uma individualidade exasperada e
irredutível. Os estereótipos romântico, decadente, boêmio, futurista, modernista
cederam à variedade e à fragmentação próprias da sociedade dos media. O específico
brasileiro – a dispersão geográfica, o fascínio agregante-desagregante das metrópolis, a
multiplicidade das ascendências e das experiências socio-culturais- tem exasperado
ainda mais essa variedade e fragmentação. Melhor, então, aceitar o convite de Miguel
Jorge, o qual no final do longo auto-retrato em versos, escreve:
Não me explico:
Os meus escritos
São minhas melhores definições
E meus segredos estão neles contidos
Como metafóricos jogos existenciais.
7. A moralidade da fábula
Ainda que tudo o que eu disse até agora tem as características da provisoriedade e da
dúvida, contudo, finalizando esta conversa, gostaria de apresentar pelos menos duas
“conquistas” dessa minha postura:
1º - antes de mais nada e principalmente - e já o vimos - a possibilidade, como toda
metodologia, de conhecer melhor o autor e a sua obra. Refiro-me ao momento
biográfico.
2º - Apesar das afirmações de alguns autores que a parecem negar, a inspiração – ou
gênio, ou estro, ou Comandante Supremo nas palavras de Schoenberg, ou como
queiramos chamar a essa capacidade criativa que os escritores tem e eu não tenho – a
inspiração, dizia, constitui o fundamento da escrita, o específico do autor. A inspiração
é o divisor entre o escritor e o escrevente. O poeta não escreve quando quer, mas
quando a poesia chama ou, como diz Marcos Santarrita, “quando baixa o santo”, ainda
que, acrescenta Mário Quintana, à vezes, “seja preciso puxar o santo pelos pés”.
Vejam o depoimento de Adélia Prado:
Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais, é
uma decisão minha…Sempre afirmo e com toda convicção que, rigorosamente, o texto
não é meu…porque se fosse meu, eu já teria acabado O homem da mão seca, que é um
romance que comecei com muita fúria. Então, a coisa pede para ser escrita.
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E Paulo Paes:
Como poeta eu realmente escrevo quando a inspiração, se é que ainda se pode usar esse
palavrão, aparece.
Esse é o tom geral dos depoimentos, não apenas os de Adélia Prado e de José Paulo
Paes. Se tudo isso é verdade – e são os protagonistas que o afirmam –, então há
conseqüências que é bom discutir e controlar:
a. Nada pode haver de automático ou de mecanicista na relação acontecimentos
biográficos/criação literária. Noutras palavras e para radicalizar: se o autor é coxo, seus
personagens não têm a obrigação de serem coxos; se o autor é tucano, os protagonistas
e a obra bem que podem cheirar a revolucionários ou anarquistas13. O “estigma”, para
usar uma palavra prezada por Sérgio Miceli nas suas interessantes pesquisas sobre
intelectuais e classe dirigente no Brasil, pode ser importante para a carreira e até,
acrescento eu, para a criação literária, mas não de forma determinista e absoluta14.
b. É difícil existir, também, alguma relação entre o projeto do autor e a sua
literatura, pois a poesia, como o Espírito de Deus, “sopra onde quer” e não onde deve;
porque o autor, como afirma Jorge Amado e muitos outros, não é dono de seus
personagens, que pensam com a própria cabeça e fazem o que bem entendem15.
Uma contraprova a temos no elevado fracasso das literaturas e das obras
forçadamente engajadas, política ou esteticamente – lembro-me de Zdanov e o realismo
socialista, o neorealismo português e, por exemplo, ortodoxia parnasiana. Se alguma ou
tantas obras têm resistido no tempo e ao tempo é porque os personagens desobedeceram
ao projeto e/ou o autor desobedeceu, ainda que involuntariamente, à própria ideologia.
Penso, por ex. no romance Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, em Cacau de Jorge
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Vide a carta de Engels a Miss Harkness a propósito do romance realista e da Comédie humaine, de
Balzac: “Sono molto lontano dal vedere un errore nel fatto che Lei non abbia scritto un romanzo
schiettamente socialista, un romanzo di tendenza, come noi tedeschi lo chiamiamo per rendere onore alle
idee sociali e politiche dell’autore. Non è assolutamente questo il mio parere. Quanto più nascoste
rimangono le opinioni dell’autore e tanto mneglio è per l’opera d’arte. Il realismo di cui parlo può
manifestarsi anche a dispetto delle idee dell’autore. Mi permetta un esempio. Balzac che io ritengo un
maestro del realismo di gran lunga maggiore di tutti gli Zola …ci dà nella Comédie humaine
un’eccellente storia realistica della società francese…Che Balzac sia stato costretto ad agire contro le
simpatie di classe e i pregiudizi politicia lui propri [ essendo un aristocratico ed un monarchico], che
abbia visto la necessità del tramonto dei suoi diletti nobili e li descriva come uomini che non meritavano
aluna sorte migliore, che abbia visto i veri uomini dell’avvenire [ la borghesia ]…tutto questo io
considero come uno dei maggiori trionfi del realismo e come uno dei tratti più grandiosi del vecchio
Balzac”, in MARX-ENGELS, Scritti sull’arte, a cura di C. Salinari, Bari, Laterza, 1967, p.160-162,
passim.
14
Vide MICELI, Sérgio, Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945), Rio de Janeiro/
S.Paulo, Difel, 1979 e Intelectuais à brasileira, S.Paulo, Fundação Biblioteca Nacional/Companhia dal
letras, 2001.
15
In Giovanni Ricciardi, Auto-retratos, op. cit. p. 59.
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Amado que tinha aquela epígrafe fortemente ideológica16; penso em alguns belos
sonetos de Olavo Bilac ( Nel mezzo del cammin ).
Concluo
Essa metodologia que tentei ilustrar carece, com certeza, de mais pesquisas de
campo, de mais reflexão teórica. Por isso é importante continuar a recolher
depoimentos, autobiografias, reflexões memoriais dos escritores e enriquecer essa
“sociologia do autor”, essa “sociologia para a literatura”, para melhor entender o texto
e aquele que chamei de escritor corporal, ou seja a história miscigenada com a fantasia
criadora, o corpo misturado com a loucura da criação.
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“Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos
trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletario”.
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