FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Vol. 1 e 2. São Paulo: Círculo do Livro. Tradução
de Walderedo Ismael de Oliveira e revisão de Vera Ribeiro.
Volume 1 (p. 141-43)
III – O sonho é a realização de um desejo
Quando, após passarmos por um estreito desfiladeiro, de repente emergimos num trecho de terreno
elevado, onde o caminho se divide e as mais belas paisagens se desdobram por todos os lados, podemos
parar por um momento e considerar em que direção deveremos começar a orientar nossos passos. É esse o
nosso caso, agora que ultrapassamos a primeira interpretação de um sonho. Encontramo-nos em plena luz
de uma súbita descoberta. Não se devem assemelhar os sonhos aos sons desregulados que saem de um
instrumento musical atingido pelo golpe de alguma força externa, e não tocado pela mão de um
instrumentista (cf. págs. 98-9); eles não são destituídos de sentido, não são absurdos; não implicam que
uma parcela da nossa reserva de representações esteja adormecida enquanto outra começa a despertar.
Pelo contrário, são fenômenos psíquicos de inteira validade, realizações de desejos; podem ser inseridos
na cadeia dos atos mentais inteligíveis de vigília; são produzidos por uma atividade mental altamente
complexa. Contudo, mal começamos a nos alegrar com essa descoberta, e já somos assaltados por uma
torrente de questões. Se, como nos diz a interpretação dos sonhos, um sonho representa um desejo
realizado, qual a origem da notável e enigmática forma em que se expressa a realização de um desejo?
Por que alteração passaram os pensamentos oníricos antes de se transformar no sonho manifesto que
recordamos ao despertar? Como se dá essa alteração? Qual a fonte do material que se modificou,
transformando-se em sonho? Qual a fonte das numerosas peculiaridades que se devem observar nos
pensamentos oníricos, tais como, por exemplo, o fato de poderem ser mutuamente contraditórios? (Cf. a
analogia da chaleira emprestada, na pág. 139.) Pode um sonho dizer-nos algo de novo sobre nossos
processos psíquicos internos? Pode seu conteúdo corrigir opiniões que sustentamos durante o dia?
Proponho que, por ora, deixemos de lado todas essas questões e sigamos mais adiante, ao longo de uma
trilha específica. Averiguamos que um sonho pode representar a realização de um desejo. Nossa primeira
preocupação deve ser indagar se essa é uma característica universal dos sonhos ou se, por acaso, terá sido
meramente o conteúdo do sonho específico (da injeção de Irma) que foi o primeiro a ser por nós
analisado. Pois, mesmo que estejamos dispostos a constatar que todo sonho tem um sentido e um valor
psíquico, deve permanecer em aberto a possibilidade de que esse sentido não seja o mesmo em todos os
sonhos. Nosso primeiro sonho foi a realização de um desejo; um segundo poderia revelar-se como um
temor realizado; o conteúdo de um terceiro talvez fosse uma reflexão, ao passo que um quarto poderia
apenas reproduzir uma lembrança. Encontraremos além desse outros sonhos impregnados de desejo? Ou
talvez não haja outros sonhos senão os relativos ao desejo?
É fácil provar que os sonhos muitas vezes se revelam, sem qualquer disfarce, como realizações de
desejos, de modo que talvez pareça surpreendente que a linguagem dos sonhos não tenha sido
compreendida há muito tempo. Por exemplo, há um sonho que posso produzir em mim mesmo quantas
vezes quiser – experimentalmente, por assim dizer. Se à noite eu comer anchovas ou azeitonas, ou
qualquer outro alimento muito salgado, ficarei com sede de madrugada, e a sede me acordará. Mas meu
despertar será precedido por um sonho, sempre com o mesmo conteúdo, ou seja, o de que estou bebendo.
Sonho estar engolindo água em grandes goles, e ela tem um delicioso sabor a que nada senão uma bebida
fresca pode igualar-se quando se está queimando de sede. Então acordo e tenho de tomar uma bebida de
verdade. Esse sonho simples é ocasionado pela sede da qual me conscientizo ao acordar. A sede dá
origem a um desejo de beber, e o sonho me mostra esse desejo realizado. Ao fazê-lo, ele executa uma
função, que seria fácil adivinhar. Durmo bem e não costumo ser acordado por nenhuma necessidade
física. Quando consigo aplacar minha sede, sonhando que estou bebendo, não preciso despertar-me para
saciá-la. Esse é, portanto, um sonho de conveniência. O sonhar toma o lugar da ação, como o faz muitas
vezes em outras situações da vida. Infelizmente, minha necessidade de água para aplacar a sede não pode
satisfazer-se num sonho da mesma forma que se satisfaz minha sede de vingança contra meu amigo Otto
e o dr. M.; mas a boa intenção está presente em ambos os casos. Não faz muito tempo, esse mesmo sonho
apresentou algumas modificações. Eu já sentira sede antes mesmo de adormecer e esvaziara um copo de
água que estava na mesa ao lado da cama. Algumas horas depois, durante a madrugada, tive um novo
ataque de sede, e isso teve resultados inconvenientes. Para me servir de água, eu teria de me levantar e
apanhar o copo que estava na mesa ao lado da cama de minha esposa. Assim, tive um sonho apropriado,
em que minha mulher me dava de beber de um vaso; esse vaso era uma urna cinerária etrusca que eu
trouxera de uma viagem à Itália e de que mais tarde me desfizera. Mas sua água tinha um sabor tão
salgado (evidentemente por causa das cinzas da urna) que acordei. E de se notar a forma conveniente
como tudo se organizava nesse sonho. Visto que sua única finalidade era realizar um desejo, o sonho
poderia ser completamente egoísta. O amor ao comodismo e à conveniência não é realmente compatível
com a consideração pelas outras pessoas. A introdução da urna cinerária foi, provavelmente, outra
realização de desejo. Eu lamentava que o vaso já não estivesse em meu poder – tal como o copo de água
na mesa-de-cabeceira de minha mulher estava fora de meu alcance. Também a urna com as cinzas
ajustava-se ao sabor salgado em minha boca, que já então se tornara mais forte e que eu sabia estar fadado
a me acordar.
[...]
Volume 2 (p. 609)
VII – A Psicologia dos processo oníricos
F. O inconsciente e a consciência - Realidade
[...]
Assim sendo, eu buscaria o valor teórico do estudo dos sonhos nas contribuições que ele dá ao
conhecimento psicológico e no esclarecimento preliminar que traz aos problemas das psiconeuroses.
Quem poderá imaginar a importância dos resultados passíveis de se obter através de uma compreensão
completa da estrutura e das funções do aparelho anímico, se até o estado atual de nossos conhecimentos
nos permite exercer uma influência terapêutica favorável sobre as formas curáveis de psiconeurose? Mas,
e quanto ao valor prático desse estudo - já posso ouvir a pergunta - como meio de se chegar a uma
compreensão da alma, a uma revelação das características ocultas de cada um? Acaso os impulsos
inconscientes expressos pelos sonhos não têm o peso de forças reais na vida anímica? Será que se deve
fazer pouco da significação ética dos desejos suprimidos - desejos que, assim como levam aos sonhos,
podem um dia levar a outras coisas?
Não me sinto autorizado a responder a essas perguntas. Não dediquei maior consideração a esse
aspecto do problema dos sonhos. Penso, contudo, que o imperador romano estava errado ao mandar
executar um de seus súditos por ter sonhado que estava assassinando o imperador. Ele deveria ter
começado por tentar descobrir o que significava o sonho; é muito provável que seu sentido não fosse o
que parecia ser. E, mesmo que um sonho com outro conteúdo tivesse por sentido esse ato de
lesa-majestade, acaso não seria acertado ter em mente o dito de Platão, de que o homem virtuoso se
contenta em sonhar com o que o homem perverso realmente faz? Penso, portanto, que o melhor é
absolver os sonhos. Se devemos atribuir realidade aos desejos inconscientes, não sei dizer. Ela deve ser
negada, naturalmente, a todos os pensamentos transicionais ou intermediários. Se olharmos para os
desejos inconscientes, reduzidos a sua expressão mais fundamental e verdadeira, teremos de concluir, sem
dúvida, que a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a
realidade material. Portanto, não parece haver justificativa para a relutância das pessoas em aceitarem a
responsabilidade pela falta de ética de seus sonhos. Quando o modo de funcionamento do aparelho
anímico é corretamente avaliado e se compreende a relação que há entre consciente e inconsciente,
descobre-se que desaparece a maior parte daquilo que é eticamente objetável em nossa vida onírica e
imaginária. Nas palavras de Hanns Sachs: "Se olharmos em nossa consciência para algo que nos foi dito
por um sonho sobre uma situação contemporânea (real), não deveremos ficar surpresos ao descobrir que o
monstro que vimos sob a lente de aumento da análise revela-se um minúsculo ciliado".
As ações e opiniões conscientemente expressas são, em geral, suficientes para a finalidade prática de
julgar o caráter dos homens. As ações merecem ser consideradas antes e acima de tudo, pois muitos
impulsos que irrompem na consciência são ainda reduzidos a nada pelas forças reais da vida anímica,
antes de amadurecer sob a forma de atos. Com efeito, tais impulsos muitas vezes não encontram nenhum
obstáculo psíquico a seu progresso, exatamente porque o inconsciente tem certeza de que serão detidos
em alguma outra etapa. De qualquer modo, é instrutivo tomar conhecimento do terreno tão revolvido de
onde brotam orgulhosamente nossas virtudes. É muito raro a complexidade de um caráter humano,
impelida de um lado para outro por forças dinâmicas, submeter-se a uma escolha entre alternativas
simples, como levaria a crer nossa antiquada doutrina ética.
E quanto ao valor dos sonhos para nos elucidar o futuro? Naturalmente, isso está fora de cogitação.
Mais certo seria dizer, em vez disso, que eles nos elucidam o passado, pois os sonhos se originam do
passado em todos os sentidos. Não obstante, a antiga crença de que os sonhos prevêem o futuro não é
inteiramente desprovida de verdade. Afinal, ao retratar a realização de nossos desejos, os sonhos decerto
nos transportam para o futuro. Mas esse futuro, que o sonhador representa como presente foi moldado por
seu desejo indestrutível à imagem e semelhança do passado.