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FREUD, Sigmund

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FREUD, Sigmund
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12/8/2011
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FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Vol. 1 e 2. São Paulo: Círculo do Livro. Tradução

de Walderedo Ismael de Oliveira e revisão de Vera Ribeiro.





Volume 1 (p. 141-43)



III – O sonho é a realização de um desejo



Quando, após passarmos por um estreito desfiladeiro, de repente emergimos num trecho de terreno

elevado, onde o caminho se divide e as mais belas paisagens se desdobram por todos os lados, podemos

parar por um momento e considerar em que direção deveremos começar a orientar nossos passos. É esse o

nosso caso, agora que ultrapassamos a primeira interpretação de um sonho. Encontramo-nos em plena luz

de uma súbita descoberta. Não se devem assemelhar os sonhos aos sons desregulados que saem de um

instrumento musical atingido pelo golpe de alguma força externa, e não tocado pela mão de um

instrumentista (cf. págs. 98-9); eles não são destituídos de sentido, não são absurdos; não implicam que

uma parcela da nossa reserva de representações esteja adormecida enquanto outra começa a despertar.

Pelo contrário, são fenômenos psíquicos de inteira validade, realizações de desejos; podem ser inseridos

na cadeia dos atos mentais inteligíveis de vigília; são produzidos por uma atividade mental altamente

complexa. Contudo, mal começamos a nos alegrar com essa descoberta, e já somos assaltados por uma

torrente de questões. Se, como nos diz a interpretação dos sonhos, um sonho representa um desejo

realizado, qual a origem da notável e enigmática forma em que se expressa a realização de um desejo?

Por que alteração passaram os pensamentos oníricos antes de se transformar no sonho manifesto que

recordamos ao despertar? Como se dá essa alteração? Qual a fonte do material que se modificou,

transformando-se em sonho? Qual a fonte das numerosas peculiaridades que se devem observar nos

pensamentos oníricos, tais como, por exemplo, o fato de poderem ser mutuamente contraditórios? (Cf. a

analogia da chaleira emprestada, na pág. 139.) Pode um sonho dizer-nos algo de novo sobre nossos

processos psíquicos internos? Pode seu conteúdo corrigir opiniões que sustentamos durante o dia?

Proponho que, por ora, deixemos de lado todas essas questões e sigamos mais adiante, ao longo de uma

trilha específica. Averiguamos que um sonho pode representar a realização de um desejo. Nossa primeira

preocupação deve ser indagar se essa é uma característica universal dos sonhos ou se, por acaso, terá sido

meramente o conteúdo do sonho específico (da injeção de Irma) que foi o primeiro a ser por nós

analisado. Pois, mesmo que estejamos dispostos a constatar que todo sonho tem um sentido e um valor

psíquico, deve permanecer em aberto a possibilidade de que esse sentido não seja o mesmo em todos os

sonhos. Nosso primeiro sonho foi a realização de um desejo; um segundo poderia revelar-se como um

temor realizado; o conteúdo de um terceiro talvez fosse uma reflexão, ao passo que um quarto poderia

apenas reproduzir uma lembrança. Encontraremos além desse outros sonhos impregnados de desejo? Ou

talvez não haja outros sonhos senão os relativos ao desejo?

É fácil provar que os sonhos muitas vezes se revelam, sem qualquer disfarce, como realizações de

desejos, de modo que talvez pareça surpreendente que a linguagem dos sonhos não tenha sido

compreendida há muito tempo. Por exemplo, há um sonho que posso produzir em mim mesmo quantas

vezes quiser – experimentalmente, por assim dizer. Se à noite eu comer anchovas ou azeitonas, ou

qualquer outro alimento muito salgado, ficarei com sede de madrugada, e a sede me acordará. Mas meu

despertar será precedido por um sonho, sempre com o mesmo conteúdo, ou seja, o de que estou bebendo.

Sonho estar engolindo água em grandes goles, e ela tem um delicioso sabor a que nada senão uma bebida

fresca pode igualar-se quando se está queimando de sede. Então acordo e tenho de tomar uma bebida de

verdade. Esse sonho simples é ocasionado pela sede da qual me conscientizo ao acordar. A sede dá

origem a um desejo de beber, e o sonho me mostra esse desejo realizado. Ao fazê-lo, ele executa uma

função, que seria fácil adivinhar. Durmo bem e não costumo ser acordado por nenhuma necessidade

física. Quando consigo aplacar minha sede, sonhando que estou bebendo, não preciso despertar-me para

saciá-la. Esse é, portanto, um sonho de conveniência. O sonhar toma o lugar da ação, como o faz muitas

vezes em outras situações da vida. Infelizmente, minha necessidade de água para aplacar a sede não pode

satisfazer-se num sonho da mesma forma que se satisfaz minha sede de vingança contra meu amigo Otto

e o dr. M.; mas a boa intenção está presente em ambos os casos. Não faz muito tempo, esse mesmo sonho

apresentou algumas modificações. Eu já sentira sede antes mesmo de adormecer e esvaziara um copo de

água que estava na mesa ao lado da cama. Algumas horas depois, durante a madrugada, tive um novo

ataque de sede, e isso teve resultados inconvenientes. Para me servir de água, eu teria de me levantar e

apanhar o copo que estava na mesa ao lado da cama de minha esposa. Assim, tive um sonho apropriado,

em que minha mulher me dava de beber de um vaso; esse vaso era uma urna cinerária etrusca que eu

trouxera de uma viagem à Itália e de que mais tarde me desfizera. Mas sua água tinha um sabor tão

salgado (evidentemente por causa das cinzas da urna) que acordei. E de se notar a forma conveniente

como tudo se organizava nesse sonho. Visto que sua única finalidade era realizar um desejo, o sonho

poderia ser completamente egoísta. O amor ao comodismo e à conveniência não é realmente compatível

com a consideração pelas outras pessoas. A introdução da urna cinerária foi, provavelmente, outra

realização de desejo. Eu lamentava que o vaso já não estivesse em meu poder – tal como o copo de água

na mesa-de-cabeceira de minha mulher estava fora de meu alcance. Também a urna com as cinzas

ajustava-se ao sabor salgado em minha boca, que já então se tornara mais forte e que eu sabia estar fadado

a me acordar.

[...]





Volume 2 (p. 609)



VII – A Psicologia dos processo oníricos

F. O inconsciente e a consciência - Realidade



[...]

Assim sendo, eu buscaria o valor teórico do estudo dos sonhos nas contribuições que ele dá ao

conhecimento psicológico e no esclarecimento preliminar que traz aos problemas das psiconeuroses.

Quem poderá imaginar a importância dos resultados passíveis de se obter através de uma compreensão

completa da estrutura e das funções do aparelho anímico, se até o estado atual de nossos conhecimentos

nos permite exercer uma influência terapêutica favorável sobre as formas curáveis de psiconeurose? Mas,

e quanto ao valor prático desse estudo - já posso ouvir a pergunta - como meio de se chegar a uma

compreensão da alma, a uma revelação das características ocultas de cada um? Acaso os impulsos

inconscientes expressos pelos sonhos não têm o peso de forças reais na vida anímica? Será que se deve

fazer pouco da significação ética dos desejos suprimidos - desejos que, assim como levam aos sonhos,

podem um dia levar a outras coisas?

Não me sinto autorizado a responder a essas perguntas. Não dediquei maior consideração a esse

aspecto do problema dos sonhos. Penso, contudo, que o imperador romano estava errado ao mandar

executar um de seus súditos por ter sonhado que estava assassinando o imperador. Ele deveria ter

começado por tentar descobrir o que significava o sonho; é muito provável que seu sentido não fosse o

que parecia ser. E, mesmo que um sonho com outro conteúdo tivesse por sentido esse ato de

lesa-majestade, acaso não seria acertado ter em mente o dito de Platão, de que o homem virtuoso se

contenta em sonhar com o que o homem perverso realmente faz? Penso, portanto, que o melhor é

absolver os sonhos. Se devemos atribuir realidade aos desejos inconscientes, não sei dizer. Ela deve ser

negada, naturalmente, a todos os pensamentos transicionais ou intermediários. Se olharmos para os

desejos inconscientes, reduzidos a sua expressão mais fundamental e verdadeira, teremos de concluir, sem

dúvida, que a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a

realidade material. Portanto, não parece haver justificativa para a relutância das pessoas em aceitarem a

responsabilidade pela falta de ética de seus sonhos. Quando o modo de funcionamento do aparelho

anímico é corretamente avaliado e se compreende a relação que há entre consciente e inconsciente,

descobre-se que desaparece a maior parte daquilo que é eticamente objetável em nossa vida onírica e

imaginária. Nas palavras de Hanns Sachs: "Se olharmos em nossa consciência para algo que nos foi dito

por um sonho sobre uma situação contemporânea (real), não deveremos ficar surpresos ao descobrir que o

monstro que vimos sob a lente de aumento da análise revela-se um minúsculo ciliado".

As ações e opiniões conscientemente expressas são, em geral, suficientes para a finalidade prática de

julgar o caráter dos homens. As ações merecem ser consideradas antes e acima de tudo, pois muitos

impulsos que irrompem na consciência são ainda reduzidos a nada pelas forças reais da vida anímica,

antes de amadurecer sob a forma de atos. Com efeito, tais impulsos muitas vezes não encontram nenhum

obstáculo psíquico a seu progresso, exatamente porque o inconsciente tem certeza de que serão detidos

em alguma outra etapa. De qualquer modo, é instrutivo tomar conhecimento do terreno tão revolvido de

onde brotam orgulhosamente nossas virtudes. É muito raro a complexidade de um caráter humano,

impelida de um lado para outro por forças dinâmicas, submeter-se a uma escolha entre alternativas

simples, como levaria a crer nossa antiquada doutrina ética.

E quanto ao valor dos sonhos para nos elucidar o futuro? Naturalmente, isso está fora de cogitação.

Mais certo seria dizer, em vez disso, que eles nos elucidam o passado, pois os sonhos se originam do

passado em todos os sentidos. Não obstante, a antiga crença de que os sonhos prevêem o futuro não é

inteiramente desprovida de verdade. Afinal, ao retratar a realização de nossos desejos, os sonhos decerto

nos transportam para o futuro. Mas esse futuro, que o sonhador representa como presente foi moldado por

seu desejo indestrutível à imagem e semelhança do passado.


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