Congresso Internacional Co-Educa��o de Gera��es - DOC by baGB0G4

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									                                        Congresso Internacional Co -Educação de Gerações
                                                           SESC São Paulo | outubro 2003




                CULTURA E CO-EDUCAÇÃO DE GERAÇÕES
                     NAS CLASSES POPULARES
                                                                     Paulo de Salles Oliveira


Estas reflexões baseiam-se em pesquisa realizada com crianças cuidadas por seus avós,
nas classes populares. 1 Testemunham a produção de uma cultura construída no
cotidiano com a mediação do afeto, assumindo contornos inusitados e feições
especialíssimas na vida dos sujeitos. Falamos de pessoas pobres, alguns com pouca
instrução, outros em fase de escolarização, que atravessam os percalços da vida
amparados na necessidade de se ajudarem mutuamente. Praticam a busca da igualdade,
nos direitos e deveres de cada qual, mas sem apagar as diferenças, que dão os traços
peculiares definidores dos indivíduos. Isso supõe o exercício concreto da democracia por
meio de práticas e idéias e, portanto, interações sociais em que a constituição de uma
pessoa como sujeito social está longe de se dar às custas do outro; longe disso, ocorre ao
mesmo tempo em que o outro se constitui. Uma compreensão alargada das interações
sociais ilumina a vida destas pessoas, terreno fértil para que o afeto possa florescer.

A literatura registra momentos em que a figura dos mais novos comove os mais velhos, a
partir de gestos singelos como um profundo brilho no olhar. Reciprocamente, assinala o
movimento inverso, em que a presença solidária e reconfortante dos idosos ameniza
momentos de incerteza, rejeição e dor, entre as crianças:

“Por sorte, vovô Rubem ia chegando justamente naquela hora. Quando vi a barba dele
apontar na porta, compreendi que estava salvo pelo menos por aquela vez; era uma regra
assentada lá em casa que ninguém deveria contrariar vovô Rubem. Em todo caso chorei
um pouco mais para consolidar minha vitória e só sosseguei quando ele intimou meu pai
a sair do quarto.
Vovô sentou-se na beira da cama e pôs o chapéu e a bengala ao meu lado e perguntou
por que é que meu pai estava judiando comigo. Para impressioná-lo melhor eu disse era
porque não queria deixar Seu Osmúsio cortar o meu pé.
- Cortar fora?
Não era exatamente isso que eu tinha querido dizer, mas achei eficaz confirmar; e por
prudência não falei, apenas bati a cabeça.
- Mas que malvados! Então isso se faz? Deixe eu ver. ” 2



(Re)Encontro de avós e netos: problemas e promessas. É grande a afeição que
entrelaça os avós aos netos. Simone de Beauvoir chega a registrar que “muitas crianças
amam seus avós e são ensinadas a respeitar os velhos”, havendo da parte destes
1
  OLIVEIRA, Paulo de Salles. Vidas compartilhadas. Cultura e co-educação de gerações na vida cotidiana.
São Paulo, HUCITEC / FAPESP, 1999. Alguns depoimentos são aqui reproduzidos: as pessoas são reais; os
nomes, fictícios.
2
  VEIGA, José J. Os cavalinhos de Platiplanto. 16ª ed. São Paulo, Difel, 1986, p.28-29.
enorme reciprocidade. “Os sentimentos mais calorosos e mais felizes das pessoas são
aqueles que elas nutrem por seus netos”. Mas os avós de que fala a autora pouco se
assemelham aos avós aqui focalizados, uma vez que àqueles “não cabe a tarefa ingrata
de educar, de dizer não, de sacrificar o futuro no momento presente”. 3 Para os sujeitos
desta pesquisa, mais apropriado seria inverter a formulação. Que sentido teria sacrificar o
futuro para pessoas que sempre se sacrificaram numa vida permeada de várias formas de
opressão? Pessoas que, mesmo envelhecidas, ainda são obrigadas a se defrontar com a
dificuldade de fazer render os reduzidos proventos da aposentadoria ou pensão, em
eterna defasagem. Velhos que não conheceram outra coisa senão a dura realidade de
sempre trabalhar, mesmo na situação atual, em que tecnicamente já foram classificados
no rol dos inativos.

“Tenho agora que trabalhar de noite para comer de dia” - assinala Sr. Benedito, atuando
como vigia em um condomínio em construção.

Trata-se de gente que convive com a ambigüidade moral do respeito e da exclusão dos
idosos, tanto no âmbito da sociedade quanto no universo familiar. A condenação ao
silêncio que ambas decretam aos mais velhos é politicamente similar. Quem dá ouvidos
aos velhos?

“- Mas você é bobo. Eu pensei que você fosse mais sabido!” – diz Dona Betânia a seu
filho.
- “ Por que?” – indaga ele.
- “Porque aquela coisa tomou conta de você e mais meninos.”
- “Ah! Você não sabe de nada!”.

Ecléa Bosi ajuda-nos a discernir a crueza desta discriminação. “Que ele (o velho) nos
poupe de seus conselhos e se resigne a um papel passivo. Veja-se no interior das
famílias a cumplicidade dos adultos em manejar os velhos, em imobilizá-los com cuidados
‘para seu próprio bem’. Em privá-los da liberdade de escolha, em torná-los cada vez mais
dependentes ‘administrando’ sua aposentadoria, obrigando-os a sair de seu canto, a
mudar de casa (experiência terrível para o velho) e, por fim, submetê-los à internação
hospitalar. Se o idoso não cede à persuasão, à mentira, não hesitará em usar a força.
Quantos anciãos não pensam estar provisoriamente no asilo em que foram abandonados
pelos seus? ” 4 Diante deste quadro, é importante redefinir o enunciado da questão. Não
basta relativizar a audiência à pessoa idosa. É necessário esmiuçar mais e indagar como
e em que condições ela se realiza, enxergando, assim, outras feições do
desenraizamento, movimentos invisíveis e reais da opressão.

É interessante ter em conta que quando a tolerância parte do adulto, ela se traduz muitas
vezes – prossegue a autora – “sem o calor da sinceridade. Não se discute com o velho,
não se confrontam opiniões com as dele, negando-lhes a oportunidade de desenvolver o
que só se permite aos amigos: a alteridade, a contradição, o afrontamento e mesmo o
conflito (...) Se a tolerância com os mais velhos é entendida assim, como uma abdicação

3
 BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Trad. de M. H. E. Martins. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990,
p.270, 580-1.



4
    BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. 2ª ed. São Paulo, T. A. Queiroz, 1983, p.36.
ao diálogo” – arremata ela – “melhor seria dar-lhe o nome de banimento ou
discriminação”. 5

O debate em torno das condições sociais do envelhecimento, uma vez situado no interior
de uma sociedade tão injusta quanto a que existe no Brasil, remete ao reconhecimento de
que os idosos, como os que encontrei neste estudo, são objetos de múltiplas formas de
opressão. Sempre se sacrificaram, essa a marca de suas biografias, e não seria agora,
diante do quadro aflitivo vivido especialmente pelos netos, que iriam renunciar a uma luta
que a vida parece lhes repor a cada instante, com novos desafios. Até mesmo porque,
neste universo conflituoso, olhar os netos é tarefa que comporta um horizonte promissor:
o reencontro de um sentido para a própria existência. Equivale dizer que existe aí – ao
menos latente – a oportunidade de transformar a opacidade do presente a incerteza do
futuro numa espécie de arco-íris vibrante e colorido, pontuado por um entusiasmo
profundo que vem das coisas singelas.

“Adoro fazer isso” – diz Dona Alda. “Saio com eles para ir tomar um sorvete. Se eles
querem ir a um jardim, eu levo. É um prazer sair com eles. Chego lá e vejo todos
brincando, correndo. Eu me sinto feliz, saem aquelas angústias, aquelas amarguras que a
gente tem... Sai tudo isso porque a gente vê eles brincarem e sente feliz também. Para
viver sem eles é meio duro. Difícil, mesmo, viver sem eles.”

Assim, aquilo que ficou esmaecido, perdido até, pelas injunções que a vida tomou, agora
reaparece com firmeza e nitidez. Os velhos passam a se sentir menos pesados dentro de
casa; a vida parece, mais do que nunca, valer a pena e até o semblante, arranhado pelas
estrias do tempo, ganha ares radiosos. A presença das crianças por perto traz, com
certeza, esperanças multiplicadas. Como será possível que seres tão pequeninos e
frágeis tenham tanta força para espantar o desalento? E não há como desdenhar deste
poder, que parece atravessar barreiras de classe e de convicção existencial. Atesta-o o
escritor argentino Ernesto Sábato, a quem a crítica considera tomado pelo pessimismo.
“Eu creio” – diz ele – “que a felicidade se encontra nos recônditos mais humildes da alma
humana. Pode ser uma grande felicidade brincar com uma criança, de joelhos. Essa
felicidade eu pude experimentar porque tive filhos e netos”. 6

Se o convívio com as crianças é para os mais velhos como uma doce aragem matinal,
também o relacionamento com os idosos cria para as crianças perspectivas inusitadas. A
cultura não chega a elas como um saber exterior, auto-suficiente, divorciado das coisas
miúdas, sem nexos com o que é vivido. É que os avós – explica uma vez mais Ecléa Bosi
– “não têm, em geral, a preocupação com o que é ‘próprio’ para as crianças, mas
conversam com elas de igual para igual, refletindo sobre os acontecimentos políticos,
históricos, tal como chegaram a eles através das deformações do imaginário popular”. 7
Essa igualdade merece destaque pois representa o reconhecimento do interlocutor como
pessoa, como gente, não reproduzindo uma discriminação de que os idosos são vítimas
com impressionante regularidade. As crianças não são insensíveis a este gesto
humanizador.

“Vovô tirou os óculos” – prossegue José J. Veiga – “assentou-os no nariz e começou a
fazer um exame demorado de meu pé.

5
  Idem.
6
  Cf. entrevista ao jornal Leia. São Paulo, n. 138, p.29-32, abril de 1990.
7
  BOSI, Ecléa. Ob. cit., p. 31.
Olhou-o por cima, por baixo, de lado, apalpou-o e perguntou se doía. Naturalmente, eu
não ia dizer que não, e ainda dei uns gemidinhos calculados. Ele tirou os óculos, fez uma
cara séria e disse:
- É exagero deles. Não é preciso cortar nada. Basta lancetar.
Ele deve ter notado meu desapontamento porque explicou depressa, fazendo cócega na
sola de meu pé.
- Mas, nessas coisas, mesmo sendo preciso, quem resolve é o dono da doença. Se
    você disser que não pode, eu não deixo ninguém mexer, nem o rei. Você não é mais
    desses menininhos de cueiro, que não tem querer. Na Festa do Divino você vai vestir
    um parelhinho de calça comprida que eu vou comprar, e vou lhe dar também um
    cavalinho pra você acompanhar a folia.
- Com arreio mexicano?
- Com arreio mexicano. Já encomendei ao Felipe. Mas, tem uma coisa, se você não
    ficar bom desse pé, não vai poder montar. Eu acho que o jeito é você mandar lancetar
    logo.
- E se doer?” 8


Não deixa de ser significativo perceber que esse tratar de igual para igual envolve uma
dimensão social. Os avós exercem uma prática educativa ao avaliar os acontecimentos
diários e distinguir em que medida realmente modificam (ou não) o cotidiano. Não é algo
simples: refere-se às relações entre o que se crê e o que se faz, entre teoria e prática,
portanto. O pensar e o fazer devem andar próximos quando buscamos uma conseqüência
profunda em nossos gestos. Assim, é possível aquilatar a importância da indagação
formulada por Ecléa Bosi: “O que poderá mudar enquanto a criança escuta na sala
discursos igualitários e observa na cozinha o sacrifício constante dos empregados? A
verdadeira mudança dá a perceber no interior, no concreto, no quotidiano, no miúdo; os
abalos exteriores não modificam o essencial”. 9

Tais ensinamentos não se aprendem na escola, muito menos no dia-a-dia fragmentado da
vida familiar, cadenciado por cronômetros, por cansaço e por muita velocidade. Com os
avós, o ritmo é outro. As lembranças, banhadas pela experiência de vida e pelo afeto,
recompõem a arte de contar, uma prosa em que o relógio não conta. Sem pressa, a
cultura oral, fundada no ato de conversar, produz e preserva muita sabedoria, revelando a
quem sabe ouvir o “lado épico da verdade”, como mostra Walter Benjamin. Afirma ele que
“o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se ‘dar conselhos’ parece hoje
algo antiquado é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis. Em
conseqüência, não podemos dar conselhos nem a nós mesmos nem aos outros.
Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a
continuação de uma história que está sendo narrada. Para obter essa sugestão, é
necessário primeiro saber narrar a história (sem contar que um homem só é receptivo a
um conselho na medida em que verbaliza uma situação). O conselho tecido na substância
viva da existência tem um nome: sabedoria. A arte de narrar está definhando porque a
sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção.” 10



8
  VEIGA, José J. Ob. cit., p.28-29.
9
  BOSI, Ecléa. Ob. cit., p.31.
10
   BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Obras escolhidas I. Trad. de S. P. Rouanet. 3ªed. São Paulo,
Brasiliense, 1987, p.200-201.
Foi auspicioso notar que esta sabedoria, de que trata Walter Benjamin, está presente no
dia-a-dia de crianças e velhos, transformando o cotidiano em uma imensa aventura cheia
de enigmas. Engana-se quem supõe a criança presa a uma relação subordinada. Ela é
ouvinte atento que nunca se cansa de pedir bis. Está sempre disposta a saborear de novo
o prazer de ouvir narrativas. Aprende tão bem a ouvir que ao menor desvio do narrador
logo lhe corrige a trajetória, conforme mostra Sérgio Caparelli:

“ - Vovô, por que não saem mais bichinhos de fumaça de seu cachimbo, nem navios?
- Precisa? Ora, Piccolino, seu vovô está muito contente. Ele não precisa mais disso. E
     também isso nunca ocorreu. Deve ter sido imaginação sua.” 11

Na percepção infantil, não cansa ouvir tudo de novo. Mas nem sempre isso é
compreensível para algumas pessoas que, por esquecimento, desinformação ou descaso,
não são fiéis à narrativa original. Como supor a redundância não-enfadonha? Para as
crianças não se trata bem de redundância, mas quem irá convencer os adultos? Ninguém
valorizando a predisposição infantil de prestar atenção e zelar pela autenticidade do
relato, a criança mesma se desinteressará com o tempo. Pode até voltar-se contra os
próprios familiares, ironizando sua fala repetitiva ou fazendo apostas do número de vezes
em que sai de sua boca a mesma coisa. Anos mais tarde, só quem ainda der ouvidos a
crianças como Piccolino poderá, quem sabe, temer pela inexistência de narradores. É
conveniente frisar, no entanto, que este não é um problema advindo estritamente do
exercício da ficção:

“Eu conto historinhas” – explica Dona Jacira. “Eu leio o livro e conto historinhas. Eles
ficam escutando e o menino fala: - ‘Eu não entendi nada’ (sorrindo). Aí não dá, não é?
Toda a hora! Eu repito duas vezes e ele ainda não entende! Ele faz que não entende.
Eles querem ouvir eu falar de quando eu era criança, o que eu fazia, com que brinquedos
brincava...”

Se ninguém duvida que a arte de narrar está definhando, em perigo de vida, conforme
previu Walter Benjamin, não deixa de ser alentador reconhecer a importância da
convivência de avós e netos como contraponto a este desdobramento de barbárie. Nem é
tanto porque contam histórias e sim porque trocam experiências e se nutrem mutuamente
da cultura oral. No desenrolar desta pesquisa foi uma felicidade perceber que as histórias
narradas não são histórias-feitas e, muito menos, narrativas postiças. São histórias
vividas, atravessadas visceralmente pelos dramas do cotidiano.

“As histórias que eu conto para eles” – explica Dona Rosalina – “são as histórias do
tempo de lá (refere-se à juventude no sertão nordestino)...Eles ficam todos admirados. E
às vezes passa (na TV) não é? E eles ficam procurando e eu ensinando: - “Olhe lá! Na
terra da vó é daquele jeito lá’. ”

Saber ouvir é, por isso, premissa para saber também depois contar. Essa simultaneidade
surpreende e comove os mais velhos, selando uma união tão profunda que dificilmente
poderá um dia se dissolver. Criança é vida, repetem os idosos, corroborados pela tradição
dos ditos populares, a afiançar esta energia que, entre as crianças, parece não ter fim.
“Deve estar na lembrança de todos” – explica Oswaldo Elias Xidieh – “do tempo em que
os morféticos perambulavam de cidade em cidade a esmolar, as recomendações que se
faziam, quanto aos cuidados e resguardos devidos à criança. Não fosse ela uma das sete

11
     CAPARELLI. Sérgio. Vovô fugiu de casa. 7ª ed. Porto Alegre, L&PM, 1986, p.82.
crianças que o doente, de acordo com a preceituação mágica, tivesse que morder para
recuperar a saúde. E não deixa-las dormir ao lado de pessoas muito doentes para que
não lhes roubassem saúde. E a mãozinha seca do anjinho, usada para remexer
garrafadas e preparar filtros amorosos? E a urina do recém-nascido, tão boa para tirar as
manchas do rosto materno.” 12

No convívio entre avós e netos, as transformações que se operam são múltiplas e
recíprocas. A princípio, a presença próxima das crianças pode emergir como problema,
especialmente se resultante da separação dos pais ou do abandono, pura e
simplesmente. Por certo, não era esse o destino almejado por seus avós, para quem a
união dos filhos desmanchada tornou-se fonte de muitas inquietações. Nada, contudo, se
compara à gravidade com quem vêem o futuro de seus netos, este sim, o obstáculo
maior. Aos poucos, entretanto, o que se afigurava provação insuperável, mensagem de
dor e tristeza, vai ganhando outros contornos, menos sombrios. A começar pela própria
presença física das crianças ali, cara-a-cara com os avós. Isso os impulsiona a fazer
alguma coisa, que os retire daquele cenário para um outro, mais promissor. De posse de
todos as forças terrenas imagináveis e conclamando auxílio às forças do céu, os velhos
acabam – de um jeito ou de outro – enfrentando com tal vigor a adversidade que eles
próprios se interrogam, espantados, como isso tudo se escondia em sua interioridade.

“Antes” – explica Dona Jacira – “quando eu só trabalhava, antes de pegar essas crianças,
era serviço, serviço, serviço. Eu vivia sempre doente, tinha problemas cardíacos...Sarei!
Sabe que eu sarei? Não deu mais nada! Não deu mais nada...A coluna, que o médico
falava tanto, não amolou mais.”

Desta forma, as crianças pouco a pouco vão, mesmo que sequer o saibam, forçando os
velhos a se transformarem. Ora são levados a revirar o funda da alma, avivando práticas
esquecidas, memórias apagadas, conhecimentos relegados para trás...ora são levados
por mãos infantís a conhecer novos brinquedos, outros hábitos, maneiras diferentes,
programas nunca experimentados...

Ilusão supor que uma pessoa, por ser velha, não muda mais. Qual adulto ainda não se
assustou, ao menos uma vez, ao reparar nos pais, já idosos, uma benevolência no trato
com os netos que eles mesmos, quando crianças, juram nunca ter vivenciado?

“Doer? É capaz de doer um pouco,” – prossegue o vovô criado por José J. Veiga – “mas
não chega aos pés da dor de cortar (...)
Meu avô era um homem que sabia explicar tudo com clareza, sem ralhar e sem tirar a
razão da gente. Foi ele mesmo que chamou Seu Osmúsio, mas deixou que eu desse a
ordem. Naturalmente eu chorei um pouco, não de dor, mas de conveniência, porque se eu
não mostrasse que não estava sentindo nada eles podiam rir de mim depois.
Enquanto mamãe fazia os curativos, eu só pensava no cavalinho que ia ganhar.” 13

Os avós educam, portanto, os netos e, ao mesmo tempo, embora de modo diferente são
reeducados por essas crianças. Quer dizer, se há uma socialização, ela precisaria ser
vista não de modo unívoco – dos avós para os netos – e sim mediante relações
recíprocas, num movimento que a todo instante constrói ou redefine a feição dos sujeitos,

12
   XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas pias populares. São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros / USP,
1967, p.107.
13
   VEIGA, José J. Ob. cit., p.29.
física e simbolicamente. Repercutem aqui as palavras de Paulo Freire: “ninguém educa
ninguém – ninguém se educa a si mesmo – os homens se educam entre si, mediatizados
pelo mundo.” 14

Outros autores, como Alfredo Moffatt, mesmo seguindo orientação diversa, também
pontua esta mútua interferência, embora o faça de modo referido à complementariedade.
“Também é comum” – afirma ele – “que devido ao fato de a mãe ser solteira, os filhos
sejam criados pela geração anterior (as avós), no lugar de origem. As condições mínimas
de sobrevivência obrigam a estas soluções para a criação dos filhos, pois os membros da
família em idade ativa têm de concentrar seus esforços no trabalho. Os velhos e as
crianças se integram assumindo papéis complementares dentro do grupo familiar (avós e
netos), através dos quais cada um pode vivenciar seus afetos, solucionando de forma
complementar os dois possíveis períodos de abandono afetivo, durante o ciclo vital.” 15

A complementariedade, a que alude o autor, pode sugerir, muito embora por outros
caminhos, um entendimento das relações entre avós e netos que vivem juntos em função
de uma co-educação de gerações. Não se trata mais, portanto, de supor a ação de uma
geração sobre outra, como indica a conceituação durkheimiana de educação 16, mas de
considerar que avós e netos se reconstituem e se renovam como sujeitos no desdobrar
deste novo convívio. A criança oferece a força e também a fragilidade da inocência ou,
senão isso, ao menos a espontaneidade não-domesticada; talvez, o “dom de conviver
com os anjos”, na fala de Oswaldo Elias Xidieh. 17E o velho, a experiência transformada
em sabedoria e burilada na memória, a capacidade “de unir o começo ao fim,
tranqüilizando as águas revoltas do presente, alargando as margens”, conforme escreve
Ecléa Bosi.18


Co-educação, afeto e partilha. As possibilidades de entendimento social das gerações
são inúmeras. Neste trabalho, o foco se particulariza nas interações travadas por avós e
netos no cotidiano prático e simbólico que abraçam e compartilham.

Uma co-educação é algo que se constrói na história como fazer-se, isto é, supõe
gerações em movimento. Desse modo, abandona-se a idéia de uma geração como algo
dedutível de um momento já vivido, raciocínio que implicaria refletir sempre depois, ou
seja, no momento em que a festa do viver já tivesse, para esses, se encerrado. Entender
o movimento das gerações enquanto um fazer-se requer, ao contrário, percebê-las sim
enquanto depositárias de uma época, historicamente datada e, além disso, também como
modeladora das marcas de sua passagem, no tempo e no espaço. Tais marcas estariam

14
   FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 2ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975, p.63.
15
   MOFFATT, Alfredo. Psicoterapia do oprimido. Trad. de E. Esmanhoto. 5ª ed. Sào Paulo, Cortez, 1984,
p.75.
16
   Segundo Durkheim, educação “é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se
encontram ainda preparadas para a vida social; tem o objetivo de suscitar e desenvolver na criança certo
número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo
meio especial a que a criança particularmente se destine”. DURKHEIM, Émile. A educação como processo
socializador: função homogenizadora e função diferenciadora. In: FORACCHI, Marialice M. & PEREIRA,
Luiz. (Orgs.) Educação e sociedade. 6ª ed. São Paulo, Ed. Nacional, 1971, p.39-48 (trad. de Lourenço
Filho).
17
   XIDIEH, Oswaldo Elias. Ob. cit., p.107.
18
     BOSI, Ecléa. Ob.cit., p.40.
impressas nas manifestações materiais e simbólicas, que comporiam o conjunto de
oferendas das gerações, umas às outras. Trata-se de um movimento, de algo que está se
desdobrando, daí a importância de perceber que são legados que se renovam. Ademais,
não é apenas uma geração que dá algo de si enquanto a outra, passivamente, fica sendo
receptora inerte das dádivas. Essa linearidade tolda o movimento e impede a visualização
das influências recíprocas. Em outras palavras, não se trata apenas da passagem de
sabedorias dos mais velhos para as crianças. Estas – mesmo que inadvertida ou
inconscientemente – também transmitem muito aos mais velhos. Por exemplo, ao
convidarem os avós para brincar.

“Às vezes, eu estou sentada aí na sala”, conta Dona Rosalina, “e eles vêm: - ‘Vamos
brincar de lenço e corra-já!’. Aí pegam o lenço e saem correndo. Eu faço de conta que
não estou vendo. Eles chegam perto de mim: - ‘Ih! Ficou com a vó! Agora a vó tem que
correr.’ Aí eu vou ter que pegar aquele lenço...Saio rodiando atrás deles!”.

Essa influência recíproca se traduz entre as gerações pelo “jogo fluido de influências”, no
dizer de Claudine Attias-Donfut 19 , ou pela “elasticidade mental”, de que fala Karl
Mannheim 20 . Além disso, a transmissão dificilmente é assimilada sem modificações.
Marie-José Chombart de Lauwe nomeia este intercâmbio de “universos de socialização”
21
  , uma referência ampliada, que leva em conta dados geográficos, sócio-econômicos e
institucionais na formação das habilidades de convivência social. Neste trabalho, a
criança é vista também como agente ativo e não como alguém que só recebe. Esta ação
construtora pode ocorrer de diferentes modos, a partir mesmo da prática de refazer, ou
seja, cada nova contribuição pode redefinir-se antes de ser abraçada:

“(Gosto dela) porque ela me dá educação” – aponta Leila – “que minha mãe fica
trabalhando (...). Educação? Ah! É que quando...é que quando a gente fica, assim, brava,
a gente vai logo falando um palavrão, não é? ”

Os novos horizontes que se abrem com o reencontro de avós e netos, agora para uma
vida compartilhada, trazem possibilidades de renovação de uns e outros, mas os
ingredientes deste saber não são simplesmente transferidos como quem passa um anel
entre as mãos. São trabalhados na mente de quem acolhe e ingressam na vida desta
pessoa como conquista. Mannheim destaca que as experiências são incorporadas
dialeticamente e a assimilação não se faz por soma ou aglutinação, mesmo que muitas
vezes seja esta a aparência. 22 Se assim o fosse, sempre haveria passividade do
receptor como se a cultura fosse erodida do emissor e se depositasse naquele como em
camadas de aluvião.

Avós e netos interagem na vida comum e se modificam reciprocamente. É uma
possibilidade que se inaugura a partir da coexistência de gerações diferentes numa dada
situação social. Só a coexistência, todavia, nada garante. A não-contemporaneidade entre
contemporâneos foi estudada por Pinder ao correlacionar tempo, percepção e idade. Diz
ele: “Todos vivem com pessoas da mesma idade e com outras de idades diferentes,

19
   ATTIAS-DONFUT, Claudine. Sociologie des générations. L’ empreint du temps. Paris, P.U.F., 1988.
20
   MANNHEIM, Karl. The problem of generations. In: _______. Essays on the Sociology of Knowledege.
Trad. de P. Kecskemeti. Londres, Routldege& Kegan Paul, 1972, p.276-322.
21
   CHOMBART DE LAUWE, Marie José. Um outro mundo: a infância. Vários trads. São Paulo,
Perspectiva / EDUSP, 1991, p.XVII.
22
   MANNHEIM, Karl. Ob. cit., p.289.
deparando-se com várias possibilidades de experiência entre si. Para cada um, contudo,
o ‘mesmo tempo’ é um tempo diferente, ou seja, representa um diferente período do seu
eu, o qual só poderia ser compartilhado com pessoas da mesma idade”.23 Só coexistir,
portanto, não explicaria um convívio estreito, respeitador das diferenças entre as
gerações e a abertura para a afetividade. Mesmo porque a coexistência poderia contribuir
para uma possível consciência não de união e sim de oposição entre as gerações. 24
Significaria não reconhecer no outro qualidades que merecessem atenção ou, mais que
isso, recusá-lo como possível interlocutor.

Os avós e netos aqui focalizados colocam-se distantes deste cenário. Não que estejam
imunes aos conflitos, pois eles existem sim, múltiplos e de diversa natureza. Dentre eles,
o desafio maior que a sociedade lhes reserva parece vir tanto do interior de sua própria
classe social como de outras, através daqueles que procuram excluí-los da condição de
gente. Vejamos como isso se processa.

Entre os avós e netos estudados, prevalece a discussão das diferenças pela
argumentação e só em casos extremos, quando a boca não vence, é que se recorre a
medidas mais bruscas e severas. Caberia dizer que, neste caso, avós e netos convergem
na busca de relações igualitárias, quer dizer, na não sobreposição de uma geração sobre
a outra. Há predisposição de parte a parte em acolher, abrigar e em sustentar, mesmo
que modificadamente, as sugestões oferecidas na convivência diária. Claro que persistem
as diferenças, mas elas são bem-vindas em relações que se pautam pela
democratização, pela aceitação do outro e pelo respeito que este faz por merecer como
pessoa. Perceber-se diferente e simultaneamente partícipe de uma vida comum é um dos
pontos altos desta co-educação.

“Você já pensou?” – indaga Dona Jacira. “Um molequinho de sete anos vem correndo
trazer duas bolachinhas (para mim)! ...Do grupo (escolar) até aqui!”

Mannheim, amparando-se em Heidegger, talvez se valesse do destino comum para
explicar os laços estreitos que se formam entre essas duas gerações. Se existe tal
destino comum, capaz de tecer vínculos duradouros, ele poderia estar enraizado na
cultura. Crianças e velhos – estes mais que aquelas, mas também elas – são pessoas
não reconhecidas como tais nas representações dominantes da sociedade. Vivem uma
opressão social que envolve a imagem da destituição, como se o presente a eles também
não pertencesse. Neste imaginário prevalecente, o velho foi banido (porque visto como
aquele que já foi) e a criança ainda não foi incorporada (porque tida como alguém que
ainda não é). Forma-se um contexto de tensão social, em que avós e netos procuram
realizar, com gestos, palavras e trabalhos, a contestação, ainda que em alguns momentos
só potencialmente consciente, das determinações que sobre eles recaem. Percebe-se
agora que não só a co-educação está longe de ser um desdobramento natural da
convivência como há necessidade de estudá-la referida a um quadro social
particularizado e concreto. Claro está que, do ponto de vista que aqui se defende sua
generalização entre as diferentes sociedades seria uma vitória da democratização das
relações sociais, mas, para florescer, a co-educação necessita da convergência sincera e
empenhada da busca de relações igualitárias e da preservação das diferenças.


23
 Citado por Karl Mannheim, Ob. cit., p.283 (tradução feita por mim, PSO).
24
 FORRACHI, Maralice Mencarini. O conflito de gerações. In:_______. A juventude na sociedade
moderna. São Paulo, Pioneira, 1972, p.19-32.
A mediação da cultura e o perigo da barbárie. O processo pelo qual avós e netos vão
se constituindo como sujeitos é, por assim dizer, mediatizado pela cultura, particularmente
por um trabalho de criação, recriação, produção e reprodução da cultura. Por isso, as
vigas mestras destas reflexões estão no trabalho e na cultura. Não deixa de ser curioso
notar que crianças e velhos dificilmente fazem parte do conglomerado que os
economistas chamam de população economicamente ativa. E também que se trata de
pessoas que ou estão se iniciando na escolarização – caso das crianças – ou estiveram
dela excluídos durante a vida – caso de muitos idosos. Como, então, falar de trabalho?
Como se explicaria o conceito de cultura? E como seria possível a crianças e velhos das
classes populares produzirem algo de significativo para a cultura?

Lida-se aqui com pessoas a quem a sociedade, majoritariamente, não atribui importância.
Gente que sofre diferentes formas de opressão, mas que não se acomoda inteiramente a
elas. Se, para o pesquisador social, há também o consolo de não se alinhar em sua
pesquisa aos valores e práticas opressores dominantes, este talvez seja um dos poucos
confortos. Pois, quem se dedica a estudar os bens culturais nesta sociedade está
necessariamente comprometido a se defrontar com a barbárie, a exemplo do que
assinalou Walter Benjamin: “Não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo
um documento de barbárie. E assim como os próprios bens culturais não estão livres da
barbárie, também não o está o processo de transmissão com que eles passam de uns
aos outros.” 25

Para os velhos e as crianças, a primeira das barbáries pode bem ser o não-
reconhecimento como pessoas, seres humanos com existência real. Simone de Beauvoir
se interroga: “Não é por acaso tão comum se falar nas famílias da criança ‘extraordinária
para sua idade’ e também do velho ‘extraordinário para usa idade’? O extraordinário é
que, não sendo ainda homens, ou não sendo mais homens, eles tenham condutas
humanas”. 26

Dois exemplos vividos na pesquisa atestam esta violência simbólica. Antes de visitar
Dona Betânia, por duas vezes estive com sua filha, que é cozinheira num supermercado;
queria combinar o dia e a hora mais adequados para que pudesse ser recebido. Tudo
confirmado, quando fui conhecer aquela senhora, descobri que ela nada sabia a meu
respeito ou da pesquisa. Por que teria a filha se esquecido? Talvez por achar exagerado o
cuidado de tantas preliminares quando a velha estava lá o dia todo, a hora que
fosse...sempre à disposição. Um outro, refere-se a Dona Jacira e à prática desenvolvida
por algumas mães de se dirigir a ela, a fim de deixar sobre seus ombros a
responsabilidade de cuidar dos filhos que tiveram.

“Sabe, meu filho” – explica ela, dirigindo-se a mim – “eu penso, olho, dá dó falar que não.
Eu fico aborrecida de recusar. Não é tanto pela mãe...é pela criança. É por aquela
criancinha...”

Hoje em dia pergunta-se à criança o que ela vai ser quando crescer, um tempo verbal
futuro. Indaga-se do idoso o que fez na vida ativa, o que foi quando em atividade,

25
   BENJAMIN, Walter. Teses sobre a filosofia da história. In: KOTHE, Flávio (Org.) Walter Benjamin.
Trad de F. Kothe. São Paulo, Ática, 1985, p.161.
26
   BEAUVOIR, Simone de. Ob. cit., p.226.
deslocando o verbo para o passado. Portanto, até mesmo gramaticalmente vivemos a
suprimir o tempo e a vida das pessoas. Para elas – e somente elas – inexiste presente: a
criança vai ser, o velho já foi. Que o diga Drummond!

“Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo,
um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro
nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É
bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser.
Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para
entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.” 27

Os idosos são sensíveis a esta exclusão e, ao rememorarem as lembranças mais vivas,
sempre iniciam a narrativa com a expressão no meu tempo... Simone de Beauvoir detém-
se a interpretar esta fala reiterando a acepção discriminatória que contém assim como a
interiorização do preconceito. O tempo que um homem considera como seu é aquele
onde ele concebe e executa seus projetos.(...) A época pertence aos homens mais jovens
que nela realizam suas atividades, que animam seus projetos. Improdutivo, ineficaz, o
homem idoso apresenta-se a si mesmo como sobrevivente. É por esta razão que ele se
inclina tanto a voltar-se ao passado: é o tempo que lhe pertenceu, no qual se considerava
um indivíduo que goza de todos os seus direitos, um ser vivo.” 28

Dificilmente alguém minimizaria a grave incidência da opressão sobre os velhos nesta
sociedade. Marcelo Antônio Salgado foi o primeiro a me alertar para o fato de que quando
atribuímos qualidades a um velhinho genial, quase que invariavelmente o fazemos
amparados num referencial que é exterior ao indivíduo. Significa reconhecer que apenas
nestes casos – e unicamente nestas pessoas – há condutas e pensares consagrados
como humanos. Amarga ironia é perceber, continua ele, que “estamos criando na
juventude um mundo que fatalmente nos rejeitará no tempo da velhice e, desta forma,
parece absurdo se trabalhar tanto por um futuro no qual não existirá um espaço social
para aqueles que construíram.” 29

Distinguir na sociedade a existência de relações opressivas não quer dizer, porém, que os
sujeitos oprimidos a aceitem sem esboçar movimentos contrários. Esse momento de
resistência é captado por Ecléa Bosi: “Qual é o meu tempo se ainda estou vivo e não
tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros,
meus coetâneos? (...) Um tempo que fosse abstrato e a-social nunca poderia abarcar
lembranças e não constituiria a natureza humana. É esse que ouvimos represado e cheio
de conteúdo, que forma a substância da memória.” 30

A consciência deste movimento é emancipadora, pois se desdobra simultaneamente
enquanto trabalho de negação e de criação. Noutras palavras, a recusa da opressão faz-
se acompanhar de uma proposta de reconstrução do real, com base em outros
fundamentos, reabilitadores da humanização. Eis aqui uma riqueza que cifra alguma é
capaz de traduzir, pois o que conta é o enraizamento, a “necessidade mais importante e
mais desconhecida da alma humana”, na visão de Simone Weil. Diz respeito às múltiplas

27
   ANDRADE, Carlos Drummond de. Verbo ser. In:_______. Menino antigo. 2ªed. Rio de Janeiro, José
Olympio, 1974, p.112.
28
   BEAUVOIR, Simone de. Ob. cit., p.534.
29
   SALGADO, Marcelo Antônio. Velhice, uma nova questão social. São Paulo, SESC / CETI, 1980, p.18.
30
   BOSI, Ecléa. Ob. cit., p.342 e344.
raízes que o ser humano tem “por sua participação ativa, real e natural na existência de
uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos
pressentimentos do futuro. Partipação natural, isto é, que vem automaticamente do lugar,
do nascimento, da profissão, do ambiente.” 31 Enraizamento supõe, então, memória,
cultura e trabalho, contrapondo-se ao consumismo, à alienação e à autodestruição dos
humano pelos homens. “Em nossos livros de leitura”, conta Walter Benjamin, “havia a
parábola de um velho que, no momento da morte, revela a seus filhos a existência de um
tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer
vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer
outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa
experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho.” 32

As palavras de Walter Benjamin rememoram antiga sabedoria e assinalam uma
aproximação entre cultura e trabalho. Mostram, também, um armadilha para o
imediatismo: cavar representa uma atitude de barbárie. Como seria possível livrar-se
deste procedimento de pilhagem e destruição? Alfredo Bosi ajuda a encaminhar uma
resposta: não imaginar a cultura como um conjunto de coisas, “relativizar fortemente a
idéia de que a cultura é uma soma de objetos. Porque os objetos, considerados ‘em si’, os
quadros, os livros, as estátuas ocupam um determinado lugar no espaço, eles são sempre
o outro. 33 Uma explicação parece se impor. Não se trata de rejeitar como cultura o legado
de gerações precedentes e sim de refutar um cultura que seja postiça, distante,
inacessível, sem nexos com a vida, tal qual ela é vivida por todos nós. Cultura não pede
de nós alguma reverência mitificadora; ela se produz no interior das relações sociais e
existe para promover a Humanidade em nós. Devorar ou manipular bens que não
conseguimos entender, esse o terreno do barbarismo. Cultura, complementa o autor, é
vida pensada e, portanto, resultante de um trabalho. Este movimento é significativo pois
liberta a cultura da dimensão cumulativa (e classista) de coisas a adquirir. Assim,
continua ele, “o ser humano será culto se trabalhar; é a partir do trabalho que se formará
a cultura. É o processo não a aquisição do objeto final que interessa.” 34 Trata-se de trilha
palmilhada na pesquisa por Sr. Benedito, que estimula os netos a uma formação no
serviço e nas letras.

“Eu tive educação no serviço, mas não nas letras(...) Os nossos de hoje sabem estudar,
mas, fazer, eles pagam para os outros; não fazem.”

Reafirma-se o compromisso desta concepção de cultura com o real, vivido no dia-a-dia.
“A cultura fundamental” – diz Alfredo Bosi – “deve ser um prolongamento e uma reflexão
do cotidiano. É na experiência com a terra, com o instrumento mecânico, com a máquina,
com o seu grupo de trabalho, com a própria família, que o homem se inicia no
conhecimento do real e no drama da vida em sociedade, que as ciências e as artes
formalizam às vezes precocemente”. 35


31
   WEIL, Simone. O enraizamento. In:________. A condição operária e outros estudos sobre a opressão.
Trad. de T. G. G. Langlada. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, p.347.
32
   BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In:_______. Obras escolhidas. Trad. de S. P. Rouanet. 3ª ed.
São Paulo, Brasiliense, 1987, p.114.
33
   BOSI, Alfredo. Cultura como tradição. In: BORNHEIM, Gerd. (et alii) Cultura brasileira: tradição /
contradição.. Rio de Janeiro, J. Zahar, 1987, p.36.
34
   Idem, p.40 (grifo meu, PSO).
35
   BOSI, Alfredo. Cultura brasileira. In: MENDES, Dumerval Trigueiro (Org.) Filosofia da educação
brasileira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1983, p.36.
Uma cultura que é afeiçoada pelo trabalho humano e que emerge e mergulha no interior
da vida cotidiana marca muitas rupturas. Uma é certamente com a cultura oficializada
dentro de edificações monumentais, reino das coisas feitas, que torce o nariz a cada vez
que se menciona o cotidiano como fonte de cultura. Outra é com o tempo, o ritmo e o
espaço de produções subordinadas à indústria cultural. Penso aqui na oralidade, por
exemplo, que se faz viva na cultura cotidiana de avós e netos, com sua lentidão, com sua
inteireza, com sua proximidade, com seu feitio caloroso...prática para ser vivida e
pensada, não apenas consumida. Olhando a posição desigual que ocupa diante das
formas industrializadas de cultura, percebe-se o quanto é resistente. “Resistência”, ensina
Alfredo Bosi, “pressupõe aqui diferença: história interna específica, ritmo próprio; modo
peculiar de existir no tempo histórico e no tempo subjetivo”. 36


Criações culturais, reversibilidade e mudança. Velhos e crianças, embora sejam
muitas vezes desqualificados nesta sociedade, também reagem a seu modo contra as
forças que os oprimem. Não se limitam a preencher um tempo em que a vida os reuniu,
mas constróem uma cultura que, em seu desdobrar-se, permite que se reconstituam
mutuamente. É uma produção multifacetada, plural e que, por isso mesmo, é capaz de
abarcar contrários como resignação e esperança 37, negação e reprodução, resistência e
conformismo. Daí a ambigüidade, que nos obriga a olhá-la cuidadosamente. Afirmar esta
dimensão ambígua não significa atribuir conotação negativa ou mesmo alguma falha,
falta, defeito ou equívoco. E sim, de acordo com Marilena Chauí, a convivência “de
dimensões simultâneas que, como dizia ainda Merleau Ponty, somente serão alcançadas
por uma mentalidade alargada, para além do intelectualismo e do empirismo.” 38

Este, portanto, o universo da cultura cotidiana de avós e netos, que tanto realiza criações
como ora reitera ora redefine completamente mensagens e práticas. O fazer e o pensar
destas pessoas desconcerta, assim, esquemas e determinismos, revelando-os como
sujeitos de sua própria história. “O povo” – ensina Alfredo Bosi – “assimila a seu modo
algumas mensagens da televisão, alguns cantos e palavras do rádio, traduzindo os
significantes no seu sistema de significados. Há um filtro, com rejeições maciças da
matéria impertinente, e adaptações sensíveis da matéria assimilável.”39

“Eu assisto a uma parte, depois vou brincar.” – explica Danila. “Porque toda a hora eu
mudo de canal por causa dos comerciais. Como eu não gosto muito de comerciais, eu
mudo. Mas dá na mesma porque, na hora em que começa o comercial de um, dali a
pouco começa o comercial de outro. Aí eu não sei onde deixar, então escolho qual mais
gosto e deixo. Fica ligado em alguns filmes, dali a pouco eu venho, vou brincar, depois
entro e assisto; venho, vou brincar, depois entro e assisto...”

Avós e netos, reunidos no dia-a-dia, têm diante de si muitas barreiras a atravessar. Na
pesquisa percebe-se, porém, como o afeto e a conversa prevalecem, reduzindo espaço
para rancores e desmandos. Sinal de que as diferenças se resolvem sem que uma
dominação se exerça, de modo a subjugar um ao outro. Há terreno para que ambos se

36
   BOSI, Alfredo. Plural, mas não caótico. In:_______. (Org.) Cultura brasileira. Temas e situações. São
Paulo, Ática, 1987, p.10.
37
   BOSI, Alfredo. Cultura brasileira. Ob. cit., p.159.
38
   CHAUÍ, Marilena de Souza. Conformismo e resistência. Aspectos da cultura popular no Brasil. São
Paulo, Brasiliense, 1986, p.123.
39
   BOSI, Alfredo. Ob. cit., p.162.
mostrem por inteiro, revelando-se mutuamente na partilha generosa das riquezas que
guardam dentro de si. Esta é, todavia, uma felicidade que nem todos podem conhecer.
Porque só aparece em relações nas quais sujeitos diferentes convergem na busca da
igualdade e se reconhecem como tais. “Quando duas culturas se defrontam não como
predador e presa, mas como diferentes formas de existir” – aponta Ecléa Bosi – “uma é
para a outra como uma revelação”. 40 Ajudados pelos velhos, as crianças ainda terão,
provavelmente, uma outra tarefa, garantidora de que a proposta cultural que construíram
em conjunto tenha continuidade no porvir. Aqui, mais do que nunca vale a memória da
criança.

A autora destaca a importância da reversibilidade de práticas e idéias, supostamente
sepultadas, como promessa e desafio para os que estão vivos. Aqueles que já passaram
deixaram realizações e projetos em curso, à espera de que alguém se interesse em
completar o “desenho de suas vidas”. Tudo que, até então, só em esboço existia pode
“reviver numa rua, numa sala, em certas pessoas, como ilhas efêmeras de um estilo, de
uma maneira de pensar, sentir, falar, que são resquício de outras épocas.” 41

São, portanto, imensas as possibilidades de resistência formadas pela coligação entre
velhos e crianças. Oswaldo Elias Xidieh já havia reparado nisso desde 1947, em seus
estudos pioneiros da cultura popular nos arrabaldes de São Paulo. Algumas famílias de
então, tendo obtido certo sucesso financeiro, quiseram logo deixar de ser povo e assumir
ares aburguesados. Bem que tentaram vestir a nova máscara social, mas este esforço de
distinção não resistiu aos hábitos dos mais velhos e à espontaneidade das reações
infantís. “Aqueles que melhoraram em ganho e meio social” – mostra Xidieh – “ procuram
sabotar, anular, disfarçar os membros da família que permanecessem a agir, comportar-
se e pensar de maneira antiga. Assim, por exemplo, pede-se desculpa às visitas se o
velho pai arrota após a comida ou se as crianças avançaram nos doces servidos na
saleta; o velho e a criança retrucam em altos brados, os recém-educados rebatem aos
berros e, em poucos minutos, reeditam um vida de cortiço, superficialmente superada.” 42

Nessa coabitação de tempos realiza-se a co-educação de gerações. Múltiplas
possibilidades se formam, pois há o encontro de medidas e andamentos de tempo, que
são diversos e conflitantes entre si, com diferentes gerações que, coetâneas, podem até
estar próximas – como aqui é o caso – mas cujos contornos de vida guardam história e
experiências bem distintas. Velhos e crianças, avós e netos, ocupam assim posições
diferentes no cenário vivido, o que não os impede de tentar construir um relacionamento
pautado em notas igualitárias. “É preciso” – diz Simone Weil a seu irmão – “que as
diferenças não diminuam a amizade e que a amizade não diminua as diferenças.” 43

Um ponto relevante destacado por Oswaldo Elias Xidieh refere-se à luta contra o
adestramento físico e simbólico, um enfrentamento que pode muitas vezes ser travado
na surdina. Por isso, uma análise mais apressada poderia enxergá-lo num sentido oposto,
associando-o à conformidade ou, mais longe ainda, ao conservadorismo. Neste momento,
40
   BOSI, Ecléa. Cultura e desenraizamento, In: BOSI, Alfredo. (Org.) Cultura brasileira, Temas e situações.
São Paulo, Ática, 1987, p.16.
41
   BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. 2ª ed. São Paulo, T. ª Queiroz, 19883, p.32 e
33.
42
   XIDIEH, Oswaldo Elias. Semana santa cabocla. São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros / USP, 1972,
p.102.
43
   Citação feita por Ecléa Bosi em Simone Weil, a razão dos vencidos. 2ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1983,
p.14.
convém não se apressar. É que a volta ao passado nem sempre expressa saudosismo,
reacionarismo ou desistência solene às conquistas do mundo atual. Marx, em conhecida
passagem, mostra que os homens fazem sua história, mas sempre dentro de
circunstâncias determinadas, que são dadas e legadas pelo passado. A seguir
acrescenta: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo ao
cérebro dos vivos”. 44 Outro exemplo está em Thompson, em seu famoso estudo sobre a
sociedade inglesa do século XVIII, no qual se percebe como algumas das lutas populares
se valeram – e muito – da cultura tradicional para resistir à opressão burguesa. 45

Nos limites deste estudo, mais do que a luta social ampla interessa reter como em
determinados contextos tradicionalismo e rebeldia se combinam, pois entre os sujeitos da
pesquisa nota-se que tanto assumem práticas paternalistas quanto de recusa. Sr.
Benedito, por exemplo, com ares protetores, esconde da filha as traquinagens da neta:

“É bom encobrir para não judiar, para não bater, para eles não serem castigados. Às
vezes, por uma coisinha à toa os pais já querem fazer aquela ladainha e já bater.”

Este mesmo senhor, no entanto, referindo-se a outros netos, os pinta-bravas diz:

“(...) O pai é obrigado a dar doutrina no serviço para que, quando eles estiverem ruins de
vida, eles possam saber que, mesmo não querendo estudar, aprenderam a fazer aquilo.”

Por outras palavras, uma mesma pessoa intervém protegendo a criança da ação corretiva
que os pais supõem exercer e, simultaneamente, alimenta convicção de que uma boa
formação não deve divorciar o fazer do saber, contrariando assim uma das premissas
básicas da divisão social do trabalho na sociedade em que vivemos. Vê-se como é
problemático tratar as coisas que vêm do passado. Taxar esta herança simplesmente de
conservadora, imobilista ou repositora do residual e do consagrado significa, inúmeras
vezes, passar por cima de situações delicadas, ambíguas, incertas, sem as quais não é
possível penetrar mais fundo na trama das relações intersubjetivas. Virar as costas ao
passado é uma atitude que não passa pela cabeça de quem acalenta práticas e projetos
revolucionários. O inverso é o que ocorre, pois, conforme relembra Simone Weil, “a
revolução extrai toda sua seiva da tradição”, advertindo adiante que “o passado destruído
não volta nunca mais... (por isso) a destruição do passado talvez seja o maior crime.” 46

Outro traço do passado é que ele não obstante possa ressurgir aqui e ali em práticas e
crenças, nunca será na forma de restauração integral daquilo que um dia existiu. A
história nunca se repete, a não ser na mera superfície da aparência dos fatos. Assim, o
movimento cultural de reposição de uma anterioridade perdida não se faz na história com
a originalidade dos mesmos percalços e encantos. Quando ela se dá, aparece em outro
feitio, de maneira recriada, comportando novos significados, indicando que à
reversibilidade dos tempos corresponde igualmente sua redefinição.

No caso dos avós e netos, que aqui estão em pauta, imagina-se predominantemente que
são figuras de fundo no cenário social, gente não inteiramente ajustada ao momento

44
   MARX, Karl. O 18 Brumário.In:_______. O 18 Brumário e cartas a Kugelman. Trad. de L. Konder. Rio
de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969, p.17.
45
   THOMPSON, Edward Palmer. La sociedad ingles del siglo XVIII: lucha de clases sin clases? In:_______.
Tradición, revuelta y conciencia de clase. Trad. de E. Rodriguez. Barcelona, Critica, 1979, p.13-61.
46
   WEIL, Simone. O desenraizamento operário. In:_______. Ob. cit., p.354
presente ou à chamada realidade. Não obstante, juntos, congregam tempos e vivências
distintos capazes de fazê-los olhar o hoje e o amanhã – e neles interferir – contando com
a memória desalienadora do pretérito. Em meio às diferentes formas de discriminação
que lhes são impingidas, estas mesmas figuras relegadas se reencontram para uma vida
em comum, se reconhecem mutuamente como gente, como seres humanos, e passam a
partilhar afetivamente uma humanização que não se vende e não se compra. A não-
mercantilização numa sociedade em que as relações, inclusive as sociais, são regidas
pela cotação de bens e cifras, gera um contraponto que reúne condições potenciais de
ensejar alternativas criadoras de uma sociabilidade renovada. É um universo pontuado
por muitas tensões, que se situam em terreno movediço, mas cuja baliza não deixa de ser
alentadora: humanizar o humano, trabalho que tem um norte e, no entanto, não tem fim.


Movimento dos sujeitos, encontro com o inacabamento. Tentar entender o cerne
deste esforço humanizador é aceitar o desafio de elucidar o movimento pelo qual sujeitos
sociais vão se constituindo e sendo constituídos na dança contraditória do real. O
movimento dos homens no mundo, com todos os conflitos aí implicados, tem início no
nascimento. Georges Lapassade ajuda a deslindar este quadro através do estudo crítico
dos significados deste entrar na vida. Admite-se geralmente que entrar na vida represente
o momento de ingresso de um jovem na vida adulta. Esta passagem daria uma espécie
de acabamento ao que, desde seu nascer, teria permanecido incompleto. Ocorre,
argumenta Lapassade, que além do nascimento biológico já representar também um
nascimento social ele certamente não será único, isto é, ao longo da existência de cada
um, ocorrerão outros nascimentos sociais, outras experiências densamente redefinidoras
de novos modos de ser e agir. “O homem atual” – continua ele – “surge cada vez mais
como um ser incabado. O inacabamento da formação tornou-se necessidade num mundo
marcado pela subversão permanente das técnicas, o que implica uma educação do
mesmo modo permanente.” 47

“Às vezes, naquele tempo” – conta Dona Alda – “a gente não podia comprar uma coisa.
Eles (os filhos) queriam e eu não podia comprar. Passava sem aquilo, sabe? Hoje não!
Com os netos, é diferente. Se eles querem alguma coisa, eu me desdobro a fazer aquilo
que eles querem...”

Lapassade sustenta que afirmar o homem como acabado significa ignorar a essência
daquilo que o homem representa. “A vontade de acabar com a história” – prossegue –
“conduz a novas alienações políticas. A norma do homem acabado, do adulto, se funda
no esquecimento do que o homem verdadeiramente é.” 48 Arremata ainda que, caso se
queira pensar dialeticamente a sociedade, não há como fugir ao inacabamento dos
homens.

Estas proposições auxiliam o trabalho de refefinição da imagem e do lugar ocupado pelos
velhos e pelas crianças neste sociedade. A exclusão destes do tempo e do mundo, no
presente, se assenta na lógica do acabamento. A idéia de maturidade adulta simboliza e
expressa essa lógica, estabelecendo-se como divisor de águas. Não se limita esta
maturidade a um entendimento psicológico; ela remete também ao universo social. Quem
são os imaturos e qual a implicação social desta classificação?

47
   LAPASSADE, Georges. L’entrée dans la vie. Essai sur l’inachèvement de l’homme. Paris, Minuit, 1963.
(Tradução minha, PSO).
48
   Idem, p.11-12.
“Aparentemente” - explica Marilena Chauí – “ esta idéia encontra fundamento real e
objetivo graças às pesquisas das ciências biológicas e psicológicas. Todavia, se
focalizarmos nossa atenção numa outra noção, deixada no silêncio, poderemos
desconfiar um pouco da cientificidade e da neutralidade da noção de maturidade. Refiro-
me à noção de imaturo. Quem, nas sociedades ocidentais modernas, tem sido
sistematicamente definido como imaturo? A criança, a mulher, as ‘raças inferiores’
(negros, índios e amarelos) e o povo. Qual a conseqüência fundamental da imputação de
imaturidade a essas figuras? A legitimidade de dirigí-las e governá-las, isto é, de
submetê-las.” 49

Diante disto, politiza-se a noção de maturidade. Associada aos velhos e às crianças,
depara-se com a ausência, a falta de uma condição supostamente madura. As crianças
porque ainda não a têm; os velhos porque já a perderam. Tal mecanismo de exclusão,
que também é de dominação, incide diretamente sobre os sujeitos deste estudo. Ou seja:
aceitar o homem acabado é ratificar uma maturidade, que bem pode ocultar dentro de si
outra manifestação de violência contra pessoas que já vivem na pele a crueza da
opressão de classe.

Acedendo, ao contrário, ao convite do inacabamento, os sujeitos se libertam de amarras
incômodas e podem pensar a vida com base na ética e na arte que lhe empresta Erich
Fromm. Viver envolve uma busca luminosa, “o processo da gente se tornar aquilo que é
potencialmente. Na arte de viver, o homem é simultaneamente o artista e o objeto de sua
arte”.50

Na vida em construção, os homens são artífices, existe lentidão, há discontinuidade, os
ritmos são diversos, o inesperado acontece e sempre existe uma luta digna à espera de
nossa adesão voluntária e verdadeira. Tanto individual como socialmente, a vida dos
homens dentro da dialética é sempre totalização em curso, sem jamais ser totalidade
acabada; por isso, a entrada na vida não se faz como passagem de um estágio a outro,
mas como um enfrentamento que não conhece ponto final. Às vezes, nem mesmo com a
morte. Refiro-me à já mencionada reversibilidade dos tempos. “O apoio social não é
único, funciona como um processo recíproco”, mostra Newcomb. 51 Ao que aduziria
Lapassade: nenhum homem se humaniza sozinho. Sempre precisa de outro, que
testemunhe seu inacabamento. 52




49
   CHAUÍ, Marilena de Souza. Ideologia e educação. Educação e sociedade. São Paulo, Cortez, n.5, p.24-41,
1980.
50
   FROMM, Erich. Análise do homem. Trad. de O A Velho. 6ªed. Rio de Janeiro, Zahar, 1968, p.26.
51
   Citado por Raquel Cardoso Brito e Sílvia Koller. Desenvolvimento humano e redes de apoio social e
afetivo. In:CARVALHO, Alysson Massote. (Org.) O mundo social da criança: natureza, cultura e ação.
São Paulo, Casa do Psicólogo, 1999, p.115.
52
   LAPASSADE, Georges. Ob. cit., p.40.

								
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