SEPARA��O DOMICILIAR DE LIXO by HC11120815051

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									SEPARAÇÃO DOMICILIAR DE LIXO
Por um destino final desde o início

As saídas tecnológicas aparentemente resolvem o problema do lixo,
afastando-o das pessoas. Mas a questão chave é a sua produção.

São Sebastião é um município do Litoral Norte paulista com uma geografia peculiar:
uma longa faixa de mais de cem quilômetros entre a Serra do Mar e o oceano
Atlântico, área declarada “patrimônio nacional” pela Constituição Brasileira. Essa
conformação, que torna a administração bastante complicada, define duas regiões.
A central, ao norte limitada por Caraguatatuba, sedia o maior terminal petrolífero
do Brasil e abriga cerca de 70% da população residente. A costa sul, cordão de
belíssimas praias com pequenos núcleos urbanos, estende-se por 60 quilômetros
até seu limite sul com Bertioga.

A atual população de 45 mil habitantes multiplica-se por dez nas temporadas de
verão. E se suas praias, cachoeiras, rios, matas, e demais riquezas naturais atraem
milhares de veranistas, atraem também especuladores mobiliários e exploradores
do turismo, tornando a ocupação de seu território desordenada, e os impactos
ambientais dela decorrentes muito preocupantes. Em 1985, o asfaltamento da
rodovia Rio-Santos, que percorre toda a faixa litorânea, trouxe um inevitável
aumento populacional, agravando outro problema: a destinação do lixo.

Por muito tempo, todo o lixo do município foi depositado em lixões a céu aberto.
Transferia-se o lixo de um local para o outro, basicamente devido às pressões da
comunidade. Mas a chegada do “progresso” à região também fez crescer a
preocupação ambiental. Na época, entidades de bairro exigiram a interdição do
lixão do Camburi. Em 1988, a população novamente protestou contra o lixão da
Barra do Una, à beira da rodovia e habitado por catadores. A prefeitura e a
Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico - Cetesb começaram,
então, a árdua tarefa de encontrar um local adequado a um verdadeiro aterro
sanitário. Entre restingas, mananciais, praias, matas, manguezais e várias áreas a
serem protegidas, o único lugar indicado pela Cetesb, embora não ideal, foi o
sertão da praia da Baleia, a 60 quilômetros do Centro.

O lixo gerado de Maresias a Boracéia (cerca de cinco toneladas/dia, fora da
temporada) passou a ser levado a essa área, e o de Paúba a Enseada (cerca de 20
t/dia) a Caraguatatuba, localizada a 20 quilômetros do centro de São Sebastião.
Mesmo com a longa distância até os lixões, a serra íngreme, inúmeros trechos de
curvas e obras de contenção de encostas, e o trânsito intenso no verão, parecia
que o destino do lixo estava resolvido. Mas até quando?1

Em janeiro de 1989, a Cetesb apontou várias irregularidades no aterro da praia da
Baleia. Sociedades de bairro e o Movimento de Preservação de São Sebastião –
Mopress, em reunião com o recém-eleito prefeito e vereadores, pediram
providências para a resolução definitiva do problema. Alarmado com os graves
riscos de contaminação do aterro e com o enorme volume de lixo da temporada, o
prefeito decidiu contratar assessoria especializada para estudar a questão.

“Porque não mandamos nosso lixo para lua?”

Foi a pergunta de uma criança, numa reunião de escola. Quais são, afinal, as
alternativas para o tratamento do lixo?

1
 Um agravante: em janeiro de 1990, a Câmara Municipal de Caraguatatuba proíbe a descarga do lixo de
São Sebastião em seu território, obrigando a prefeitura a levar todo o lixo para o aterro da praia da
Baleia. Se não bastassem essas dificuldades, a comunidade ainda entra com uma representação junto ao
Ministério Público contra a situação do aterro.
O lixo ocupa cada vez mais espaço no planeta. Nos lixões, ainda mais com a
presença de resíduos tóxicos ou não-degradáveis, a taxa de descarga de lixo
suplanta em muito a de decomposição natural. Áreas para aterros, mesmo que
realmente sanitários ou energéticos, estão cada vez mais escassas, criando mais
problemas do que soluções. Em vários países, a incineração, enquanto diminui
significativamente o volume do lixo, traz como inconveniente a poluição
atmosférica. E ainda sobram as cinzas. E uma usina de reciclagem/compostagem
apresenta altos custos de manutenção, baixa taxa de aproveitamento e outros
problemas técnicos. Essas dificuldades levam muitos países a exportar seus
resíduos e outros, infelizmente, a importá-los.

Nenhuma dessas propostas ataca o problema pela raiz. Ao encaminhar o lixo para
um aterro, incinerador, ou usina, continuamos justificando o insustentável
comportamento consumista da “moderna” civilização industrial do desperdício.
Essas saídas tecnológicas simplesmente afastam o lixo do ser humano, não
revelando sua responsabilidade na questão chave: a produção do lixo.

Devemos tocar no ponto fundamental: de onde vem o material que jogamos fora?
O vidro, o plástico, o papel, as latinhas, os alimentos? “Da fábrica!” é a resposta
típica. Quanto custa à natureza fabricarmos um copo plástico, usá-lo uma única
vez, e devolvê-lo à natureza, lá no lixão?

A reciclagem começa a ser vista como uma das destinações mais (eco)lógicas para
o lixo. Calculamos que até 70% dele seja reciclável. Entretanto, se a reciclagem por
ora se apresenta como a melhor forma de aproveitar resíduos, convém lembrar que
ela também serve para encobrir a produção de embalagens supérfluas e
descartáveis, muitas vezes com substitutos mais duráveis. E, assim, o consumidor
é levado a comprar embalagens sofisticadas, inúteis e caras, acreditando que esse
lixo resultante é “ecológico” por ser reciclável.

Os avanços na reciclagem dependem dos processos industriais desenvolvidos em
cada país, dos esquemas de coleta e recuperação de objetos recicláveis, e de uma
política ambiental que valorize a questão. A literatura nesse campo é rica em
dados, nos quais não nos aprofundaremos. De um modo geral, a reciclagem de
certos materiais, cada vez mais presentes no lixo nosso de cada dia, tem vantagens
ambientais conforme as listadas na Tabela 1.

                                 Tabela 1
 Vantagens ambientais da reciclagem em relação ao         uso de matéria-prima
                                 virgem.
     Redução em %            Papel        Vidro           Ferro    Alumínio
     Uso de energia          23-74        4-32            47-74    90-97
     Uso de água             58           50              40       -
     Poluição da água        35           -               76       97
     Poluição do ar          74           20              85       95
     Uso de matéria-prima Cada tonelada 100               90       75
                             de reciclado
                             poupa 60 pés
                             de eucalipto

A política econômica mundial deve ser repensada urgentemente se quisermos não
só conservar recursos como também gerar menos subprodutos indesejáveis. O que
é mais ecológico: fabricar um vidro one-way e reciclá-lo, ou atribuir um valor a
cada recipiente, como um pote de maionese por exemplo, estimulando sua
devolução pelo consumidor? Muitas populações têm pressionado seus governos por
atitudes ecologicamente sensatas. Na Inglaterra, o leite é vendido até hoje em
garrafas retornáveis, que duram em média 30 viagens, ida e volta, ao consumidor.

Só entendemos a reciclagem com o indivíduo envolvido no processo. Quando uma
pessoa se dá conta do que joga fora, da origem desses objetos, do peso e do
volume diários do lixo e dos seus destinos alternativos, ela começa a perceber o
impacto ambiental de seu estilo de vida e, portanto, o seu papel na melhoria
ambiental. Apenas quando conhecemos muito bem nossos resíduos é que mudamos
nossos hábitos, evitando o supérfluo, condenando o descartável, e reciclando... Pois
não há, e seria absurdo se houvesse, uma máquina para mandar todo nosso lixo
para lua.

Coleta Seletiva
Esse sistema envolve a separação, na fonte, dos resíduos gerados numa residência,
num estabelecimento comercial, etc., seguido de um recolhimento ordenado por
uma entidade, em nosso caso, a prefeitura municipal. O sistema evita a mistura de
materiais valiosos quando separados, dando a cada tipo de resíduo um destino
mais nobre. Nosso trabalho de coleta seletiva ora em andamento visa a:
   - sensibilizar as pessoas para a preservação ambiental, estimulando a
       separação domiciliar dos resíduos;
   - reduzir o volume de lixo destinado ao lixão da praia da Baleia,
       economizando espaço no aterro, e aliviando a pressão sobre a paisagem e
       os riscos de poluição;
   - poupar recursos públicos com o tratamento do lixo, e
   - tornar o ambiente, urbano e natural, mais bonito e saudável.

Educando
Do ponto de vista didático, realizamos atividades com toda a população, baseadas
em intenso contato humano e na confiança de que o indivíduo desenvolve seu
potencial frente a situações motivadoras. Temos observado que campanhas com
muitos incentivos materiais – vales-desconto, saquinhos, etc. – mudam atitudes
apenas durante o período de “estimulação”. Passado esse tempo, chega-se a um
novo e duradouro comportamento apenas se a pessoa, além de se conscientizar,
criar motivos internos, ou seja, desenvolver a vontade de mudar. Caso contrário,
cessando o estímulo, o comportamento volta a ser como antes. Também não
usamos esquemas agressivos de marketing, concursos, distribuição de sacos de
lixo, e não valorizamos o ensino formal como o principal instrumento para a
aprendizagem. Por isso, não incluímos, forçosamente, o assunto da coleta seletiva
e da reciclagem, no currículo escolar. As escolas participam voluntariamente do
programa como “produtoras” de lixo, divulgando a proposta e repensando a cultura
do consumo dentro da própria escola.

Experiência-piloto
Em março de 1989, com poucos recursos, foi iniciado o trabalho no bairro da Vila
Amélia. De fácil acesso, com cerca de 650 residências, população fixa
predominantemente de classe média (cerca de 90%) e com uma das maiores
escolas estaduais, o bairro era adequado para o projeto-piloto. Na escola, foi feita a
primeira reunião com os moradores. Alunos, professores, rádios e jornais locais,
faixas e um carro-som da prefeitura divulgaram o encontro. Para nossa surpresa –
competimos com o horário nobre da televisão – compareceram mais de 200
pessoas. O material didático usado foi apenas o que passou a ser chamado de
“sucata” em nosso projeto: vasilhames, embalagens de papel, papelão, latas,
potes, tampas, jornais e revistas, sacos plásticos, etc. Discutimos a reciclagem e os
aspectos estético, ecológico e sanitário do lixo, alertando para os riscos do mau
condicionamento e da queima, e apresentamos modelos de composteiras caseiras
para o tratamento de resíduos orgânicos. Aos que ainda duvidavam da reciclagem
do papel – “nossa, como é possível transformar um saco de cimento molhado e
             empoeirado em papel novo?” – demonstraram uma receita simples de papel
             artesanal. Cientes das vantagens da separação caseira, e surpresos com o destino
             do lixo em suas próprias casas, os moradores passaram a separar toda a sucata de
             seu lixo durante uma semana. O espanto com o desperdício foi geral quando os
             moradores viram a quantidade de material reaproveitável, que normalmente
             jogavam fora, depositada na frente da escola. O material foi vendido a um
             sucateiro, na presença de todos e, conforme o combinado na reunião, a verba foi
             doada à Casa do Menor, localizada no bairro. Estava lançada a idéia da Coleta
             Seletiva.

             Desse dia em diante, os mesmos meios de comunicação divulgaram os novos dias
             de coleta na Vila Amélia. Com a redefinição do termo “lixo” – agora incluindo
             apenas restos de alimentos, resíduos sanitários, poeira da varrição e materiais não-
             recicláveis – a coleta, que era diária, passou a ser conforme mostra a Tabela 2.
             Para atingir as pessoas que não participaram das reuniões, o contato foi feito
             pessoalmente com moradores, de porta a porta, ocasião em que conversamos
             sobre a importância da separação, deixando um folheto explicativo como reforço.
             Um bate-papo de 30 minutos motivava as pessoas a participarem. Um vizinho
             também educa o outro.

                                                 Tabela 2
                  Esquema de coleta seletiva em seis bairros de São Sebastião, indicando o
                   peso (em %) coletado e o destino dos fundos arrecadados, por bairro.
                                                                                                 Peso
                                                                                                             Destino dos
             Dias                                                                               Total
                     2ª feira   3ª feira   4ª feira   5ª feira   6ª feira   Sábado   Domingo                    fundos
Bairros                                                                                        Coletado
                                                                                                             arrecadados
                                                                                                 (%)
                                                                                                             Apae/Conselho
                                                                                                          Paroquial, Clube de
                                                                                                          Mães, Associação de
                                                                                                           Pais e Mestres de
 Pontal da Cruz        Lixo       Lixo     Sucata       Lixo        -        Lixo       -        24
                                                                                                           EEPG Prof Maria F.
                                                                                                             Tavolaro, duas
                                                                                                             Sociedades de
                                                                                                                 Amigos
  Praia Deserta        Lixo        -         Lixo     Sucata       Lixo       -         -                     Sociedade de
                                                                                                             Amigos reparte
                                                                                                            entre melhorias
                                                                                                 16
  Porto Grande         Lixo        -         Lixo     Sucata       Lixo       -         -                    para bairro e a
                                                                                                           EEPG Maisa T. da
                                                                                                                  Silva
   Vila Amélia         Lixo        -        Lixo      Sucata      Lixo         -         -       20          Casa do Menor
          Manhã        Lixo      Lixo       Lixo       Lixo       Lixo       Lixo      Lixo                  Sociedade São
 Centro
          Tarde       Sucata    Sucata     Sucata     Sucata     Sucata     Sucata    Sucata                Vicente de Paulo
          Manhã        Lixo      Lixo       Lixo       Lixo       Lixo       Lixo      Lixo                       (que,
                                                                                                 30
  Vila                                                                                                      alternadamente,
 Galvão   Tarde       Sucata    Sucata     Sucata     Sucata     Sucata     Sucata    Sucata                 doa à EEPG do
                                                                                                            bairro da Divisa)



             A reação popular
             Para acompanhar a adoção do hábito de separar o lixo, costumamos sair no
             caminhão, nos dias de coleta da sucata, contando o número de residências com lixo
             “misturado” na calçada. Gradativamente sua quantidade decresce, enquanto mais
             pessoas separam a sucata e observam os dias de coleta.

             É difícil precisar o índice atual de adesão popular, pois o levantamento das casas de
             veraneio – muitas das quais permanecem fechadas 11 meses por ano – está em
             elaboração. O trabalho educativo é prejudicado devido à rotatividade de inquilinos
             que ocupam as casas de aluguel de fim de semana. Ainda assim, calculamos que
             60% da população de seis bairros já participa do programa.
Várias observações indicam que a população simpatizou com a coleta seletiva.
Espontaneamente, há pessoas que retiram sua sucata da calçada, se chove no dia
da coleta, preocupadas com sua qualidade para a reciclagem. Mas a prefeitura
coleta lixo e sucata mesmo sob péssimas condições climáticas, e jamais pedimos
aos moradores essa dedicação “excessiva”. Outros aderiram ao programa mesmo
antes de ele ter chegado ao seu bairro: levam sua sucata até onde a coleta seletiva
foi implantada. Muitos acham a separação de lixo “um barato”, elaborando seus
próprios motivos para o novo hábito. Numa ocasião, um senhor nos explicou que
separa seu lixo “porque desse jeito a prensa do caminhão de lixo dura mais, pois as
coisas duras vão no caminhão basculante da sucata”. Não tínhamos pensado nessa
vantagem.

Com a valorização dos resíduos, moradores reclamaram várias vezes por terem sua
sucata “roubada” pelos catadores, antes da coleta pela prefeitura. Informamos que
os catadores acabam dando o mesmo destino ao pouco que conseguem pegar
(papelão, garrafas, etc.), não interferindo no programa de coleta seletiva. Aliás,
catadores convidados a trabalhar na triagem da sucata em galpão próprio da
prefeitura não aceitaram a oferta, preferindo seu estilo de vida independente.

Estrutura da prefeitura e evolução

A sucata recolhida a cada quinta-feira na Vila Amélia – um a dois caminhões
basculantes – foi oito vezes levada a um sucateiro em Caraguatatuba. Mas, em
pouco tempo, com o crescente envolvimento da população, e conseqüente aumento
no volume da sucata, o sucateiro, sem mão-de-obra suficiente para a triagem,
deixou de aceitar o material.

Foi preciso, então, criar um Depósito Municipal de Sucata de São Sebastião, uma
área coberta de 20 metros quadrados, dentro da garagem municipal, onde a sucata
passou a ser descarregada e triada em alumínio, papel, metais ferrosos, plásticos,
vidros, vasilhames e caixas de ovos. Inicialmente, dois funcionários remanejados de
outros setores da prefeitura triavam e embalavam a sucata, que, agora organizada
em tipos, podia ser comercializada por melhores preços.

Após três meses, a coleta seletiva foi estendida a dois bairros – mais 540 casas,
sem contar comércio e outros estabelecimentos. A mesma abordagem educativa foi
usada, já com o apoio de uma sociedade de bairro, e a projeção de um audiovisual.
A população, basicamente influenciada por moradores do bairro vizinho, já conhecia
o problema do lixo e estava motivada para participar. Quatro meses depois mais
três bairros (com duas mil residências) foram abrangidos. Nas escolas desses
bairros fizemos reuniões com todos os alunos e professores.

Para aproveitar a grande quantidade de papel sigiloso queimado ao ar livre (aliás,
ilegalmente) por bancos e repartições públicas, foi adquirida uma fragmentadora de
papel.

Atendendo cerca de 40% das residências do município, a coleta seletiva hoje
envolve cinco funcionários encarregados da coleta e triagem, e um motorista. A
área do depósito foi ampliada para 40 metros quadrados. Essa infra-estrutura
recupera, por mês, cerca de 25 mil quilos de sucata. Qualquer ampliação do
programa – nossa meta é atender a todo o município – exigirá, porém, uma
reavaliação dos recursos humanos e materiais.

Vendas

Vender a sucata exige constante pesquisa de mercado. A maioria das fábricas
contatadas não se interessa em buscar a sucata, a menos que seja em grande
quantidade. Não há, ainda, espaço e condições para fazer estoques. Portanto, os
papéis, plásticos, metais ferrosos, alumínio e borracha são vendidos a um
sucateiro, que esvazia o depósito duas vezes por semana. Caixas de ovos e
vasilhames são vendidos, por unidade, a quitandas e bares.

No final de 1989, foi acertada a venda de vidro às indústrias filiadas à Associação
Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro – ATBIAV que cedeu à
prefeitura uma trituradora, que reduz o volume de vidro a cerca de 20%. Garantiu
também a retirada dos cacos do depósito, em cargas mínimas de dez toneladas.
Com a venda direta à indústria, o vidro subiu de NCz$ 0,30/Kg (preço do sucateiro)
para NCz$ 5,00/Kg (valor de março/90).

O que fazer com esse dinheiro arrecadado com a comercialização dos recicláveis?
Nossa proposta, desde o primeiro contato com a comunidade, foi que ela decidisse
a aplicação dos fundos. Decisão nem sempre fácil, face ao número de escolas e
entidades assistenciais interessadas. Resolvida a questão (Tabela 2), ainda que
temporariamente, pois esse destino varia conforme as indicações dos moradores,
coube-nos a intermediação entre os compradores e a comunidade.

A distribuição dos fundos, feita mensalmente, obedece às proporções entre as
médias das pesagens dos caminhões de sucata de cada bairro – para a pesagem
contamos com a balança do Porto de São Sebastião. O Centro, por exemplo, que
produz cerca de 30% do peso da sucata coletada, recebe 30% da verba resultante
das vendas. Periodicamente, pesamos os caminhões para atualizar essas
porcentagens.

Conforme proposto por moradores em diversas ocasiões, 10% dos fundos revertem
para os coletores/triadores. Essa medida desestimula o extravio de sucata antes da
descarga no depósito – sabemos que os lixeiros costumam separar para si, no
próprio caminhão, a sucata mais valiosa, como alumínio, etc. – e incentiva uma
limpeza da cidade. Sucata jogada nas ruas, valas e terrenos baldios, fora das
normas de acondicionamento, acaba sendo recolhida.

Apesar de apresentarmos a vantagem financeira da coleta seletiva não como um
objetivo do trabalho, mas como mera conseqüência, entendemos que o interesse
pelo destino comunitário dos fundos é válido, e que essa discussão é um exercício
de análise de prioridades, de união em torno de causas, de diálogo, de democracia.

Perspectivas
Nossa experiência lida com mudanças individuais, motivadas por um intenso
trabalho educativo. Um plano geral para a destinação do lixo de São Sebastião,
incluindo os resíduos de serviços de saúde, portuários, orgânicos, etc., requer, além
de um projeto elaborado por uma equipe de técnicos especializados, com base em
parâmetros ambientais bem definidos, vontade política. Ao que tudo indica,
estamos caminhando nesse sentido.

Agradecimentos
Agradecemos a Nyelse E.T. Martins, colega assessora de educação ambiental, pela
dedicação que tem tornado nosso trabalho mais efetivo e a Álvaro E. Migotto, pelas
dicas valiosas e revisão do texto.

Patricia R. Blauth e Georgeta de O. Gonçalves - 1990. Separação Domiciliar de
Lixo: por um destino final desde o início. Revista do CEPAM, 4:43-47.

								
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