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Reciclagem

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Reciclagem
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12/5/2011
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Reciclagem





Hoje, quando a sociedade se preocupa em difundir a prática da coleta seletiva do

lixo com vistas à reciclagem, essa técnica aparece para muitos como uma conquista

recente da ciência e da tecnologia. Porém, como sabemos, o conhecimento técnico e

científico não parte nunca do ponto zero. Ele é histórico, significa que o mesmo é

acumulativo.

Há muitas décadas já presenciávamos a prática seletiva do lixo. Indivíduos

coletores, de forma primária, munidos de pequenos veículos, muitos deles de tração

humana e animal, recolhiam junto ao lixo de residências e de fábricas objetos de lata,

papéis e vidros, sendo os mesmos posteriormente vendidos para empresas voltadas para

esse tipo de comércio. Assim, podemos dizer que a coleta seletiva e a reciclagem do

lixo é antiga e que a atual propaganda e divulgação de sua prática está ligada a

interesses públicos e privados e, também, à nova consciência sobre as questões

ambientais. De uma prática artesanal dos antigos ambulantes, hoje ela faz parte de

programas governamentais, como bandeira de luta da ecologia.

De todas as opções ditas terminais em relação ao tratamento do lixo, a

reciclagem é considerada a mais adequada, por razões ecológicas e também

econômicas: diminui os acúmulos de detritos na natureza e a reutilização dos materiais

poupa, em certa medida, os recursos naturais não renováveis. (...)

Atualmente, o volume de matéria-prima recuperado pela reciclagem do lixo está

muito abaixo das necessidades da indústria, embora haja uma tendência de crescimento.

No entanto, mais do que uma forma de responder ao aumento da demanda industrial por

matérias-primas e energia, a reciclagem é uma forma de reintroduzir o lixo no processo

industrial, retirando assim do “fluxo terminal” os resíduos cujos destinos seriam os

aterros, a incineração ou a compostagem. Ao consumir os produtos com eles

elaborados, estamos “consumindo o lixo” e, dessa forma, contribuindo para diminuir a

demanda de recursos naturais que pressionam os ecossistemas.

Adotar a reciclagem significa ainda assumir um novo comportamento diante do

ambiente, conservando-o o máximo possível. Como proposta de educação ambiental, a

reciclagem ensina a população a não desperdiçar, a ver o lixo como algo que pode ser

útil e não como uma ameaça.

Coleta seletiva

Uma das etapas mais onerosas dos tratamentos do lixo que visam sua

reutilização é a separação adequada dos descartes. Basicamente, deve-se separar os

materiais orgânicos dos inorgânicos. Uma primeira classificação pode perfeitamente ser

realizada pela população, por meio da chamada coleta seletiva. Colocar esse tipo de

ação em prática depende basicamente de vontade política para conscientizar e informar

a população sobre os objetivos a alcançar, despertando sua vontade de colaborar. (...)

O papel e os materiais plásticos coletados podem ser usados para fabricar

diversos outros produtos, desde livros até brinquedos e vasilhames. No caso dos vidros,

a eficácia da recuperação é maior, já que a porcentagem desses materiais que podem ser

diretamente reciclados é alta. A reciclagem de certos metais, como o alumínio, presente,

por exemplo, nas embalagens descartáveis de certas cervejas e refrigerantes, pode ser

total. (...)

Em:

SCARLATO, Francisco Capuano; PONTIN, Joel Arnaldo. Do nicho ao lixo –

ambiente, sociedade e educação. 13a. ed. São Paulo: Atual Editora, 1992.

Série Meio Ambiente. (p. 57 a 60).

ARTE BRASIL

De norte a sul do país, gênios anônimos mostram com cor e criatividade

a arte que surge longe dos grandes centros urbanos



A diversidade de raças e culturas do Brasil, estampada no trabalho de artistas

anônimos, gente que nunca colocou os pés em uma galeria de arte. Artesãos, arteiros,

artistas pelo país, longe das grandes cidades, transformando pedaços de madeira em

personagens de sua história. Às vezes, em um deus para adorar. Quando o artesão

escolhe o material, seja pedra ou papel, ele determina ali sua origem e reafirma seu

lugar no mundo. Arte ensinada de pai para filho, num rosário de antigas tradições, vai

mostrando, em cada peça, a vida de um povo, seus hábitos, devoções e delicadezas.

Boizinhos encantados e coloridos que saem das danças nordestinas e vão entrar na

ciranda das estátuas marajoaras. Mulheres de barro da chapada Diamantina conversam

com comadres esculpidas em madeira das Minas Gerais. Rendas cearenses viajam no

vento a encontrar outros trançados nas praias de Santa Catarina. Esses e outros

exemplos da autêntica cultura popular traduzem o espírito de uma arte que caminha,

tradicional e moderna, rumo ao futuro.



Alma feminina

A figura feminina é uma das mais constantes no artesanato brasileiro. Mãe, filha,

mulher ou santa, todas estão presentes no imaginário popular e são representadas das

mais diferentes formas. Da mais casta até a mais sedutora, a mulher é proteção e amor,

salvação e perdição. Pode ser feita de barro, como as da chapada Diamantina, ou então

de madeira, como manda a tradição barroca, em que figuras femininas são construídas

até a cintura e têm as pernas substituídas por uma armação que segura o vestido –

costurado sob medida, como manda a vaidade.



Pequenos deuses

A religiosidade é um dos motivos mais recorrentes no artesanato brasileiro e vai

muito além da arte sacra. O que mais importa ao artista popular são os pequenos deuses

que trabalham diariamente por uma vida melhor aos seus fiéis. Exemplos não faltam e

podem ir desde estátuas pagãs marajoaras do Pará, um dos estilos cerâmicos mais

sofisticados da pré-história das Américas e datado de 600 d.C., até os coloridos

perseguidores de Jesus Cristo, presentes na tradicional Procissão do Fogaréu, que

acontece todo ano em Paraty (RJ) e na Cidade de Goiás Velho (GO).



Emoções e paixões

Desde as coloridas cabeças de boi das Cavalhadas de Pirenópolis, em Goiás, até

uma singela escultura de um menino feita de galhos de árvore no Espírito Santo, tudo

começa a partir dos sentimentos do povo e dos materiais disponíveis na região do

artesão. E aí não importa se estamos tratando de uma festa milenar baseada no combate

entre cristãos e mouros nas Cruzadas ou de um simples menino de madeira feito nos

dias de hoje. Por que tudo é história, é arte popular, imensa como o Brasil.



Os encantados

A tradição do bumba-meu-boi começou no século XVIII e, como não poderia

deixar de ser, é uma história de amor repleta de reviravoltas, mortes, ressurreição, cores,

música e muita alegria. O nome da festa do boi varia conforme a região do país e seu

sotaque rítmico, mas é no Maranhão e em Pernambuco que se encontram as tradições

mais complexas, com festas que duram noites inteiras. Figura encantada por sua

importância cotidiana, o boi dança pela vida de todos – e todos festejam sua existência.

No Maranhão, o boi também está ligado a promessas feitas a São João.



As majestades

O artesanato brasileiro trata sempre de figuras emblemáticas da cultura popular

que, dependendo da região, podem ganhar leituras muito pessoais. As rendeiras, os

animais, o caipira, as baianas, o pescador e os orixás do candomblé, entre outros, são

característicos de algumas áreas, mas podem ser interpretados com outras técnicas, em

outras localidades. A cultura popular é dinâmica e uma baiana pode muito bem ter uma

saia feita de conchas no Paraná. A técnica não importa. O que importa é não perder a

majestade.



Revista Portoseguro Brasil – coisas 100% nossas. Dafne Sampaio. Ano II, número 10,

2006.

Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio

José Carlos Sebe Bom Meihy *



"Telle une étoile filante, la petite chiffonière noire retombe dans l'ombre et meurt,

oubliée"

(Simone Schwartz-Bart)



A história da leitura no Brasil ainda está para ser feita. Apesar dos trabalhos

pioneiros de Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1), faltam ser completadas informações

básicas que permitam levantamentos possibilitadores da análise do consumo e da

percepção dos leitores. O que fica salientado é o fascínio da elaboração do texto e o

descrédito em face da emissão da mensagem. Esta prática, infelizmente, tem dominado

o gosto dos estudiosos em particular da crítica especializada; porque se contentam com

a análise do discurso, os estudos literários grosso modo se esgotam em exercícios que

raramente chegam ao social.

Acredita-se que, sem a verificação do outro lado da obra - de sua sonoridade e

impacto social -, a literatura estará sempre sugerindo interpretações parceladas que são

limitadoras de seu alcance amplo, ficando, no máximo, restrita a uma pífia história das

idéias e/ou das manifestações estéticas de um pequeno grupo que escreve para si e

alguns de seus pares.

A constatação dessa lacuna tem causado danos que ferem a tranqüilidade das

perenes análises que promovem a literatura, hegemonicamente, como manifestação

estética e de um grupo, único, o emissor. Decorrência disso - o que é ainda pior -, a

literatura se mostra como expressão egocêntrica de encastelados que escondem o

público como alvo da função de seus escritos. Decorrência mecânica desse tipo de

procedimento é a constituição de grupos fechados, que detêm a manifestação literária

como expressão de um poder pessoal e do próprio grupo. Com isso exila-se o aspecto

social que caracterizaria a literatura como um fenômeno coletivo mais complexo e

completo (2). Nesta senda, aliás, é que se mostra mais fértil o ponto de fusão entre

história e literatura (3).

Entre o emaranhado de problemas que atrapalham os estudos sobre a função

social da leitura no Brasil um se levanta como o mais importante: por que a história da

leitura entre nós não se desenvolveu ainda? A resposta a essa questão remete ao ponto

de partida desta apresentação, ou seja, a história do silêncio. Antes, porém, de adentrar

mais profundamente nesse tema, convém estabelecer pressupostos que ajudem a aclarar

o tipo de silêncio que estamos analisando.

Falar sobre silêncio no Brasil, particularmente quando assumimos a sonoridade

da leitura, implica admitir a democratização do livro e sua análise como produto social

que vai além da formulação de idéias. Com isso, pretende-se abrir a porta mor de um

labirinto que, ao fim, poderia levar à compreensão dos motores implícitos e explícitos

na relação entre o sucesso e o fracasso editoriais no Brasil. Poderia também promover o

entendimento da mediação entre editores e a sociedade de consumo desse tipo de bem

mercadorizado (4). Poderia, por outro ângulo, iluminar o obscuro palco da crítica

literária nacional que, por falar só para si, extrai de sua responsabilidade a comunicação

com o público em geral. A dissociação entre a crítica literária e o público tem gerado

entre nós uma prática distorcida, na qual os jornais assumem o papel de juízes literários,

ficando à parte, restrita aos muros das universidades, a crítica que seria especializada.

De outra parte, poderia ainda propor a compreensão dos mecanismos que

interceptam a naturalidade da aceitação ou recusa, pelo leitor, de obras escritas que

chegam ao público carente de informações sobre sua constituição. Com isso, verifica-se

a existência de dois mecanismos de cerceamento de obras que, de certa forma,

atravancariam mudanças.

Vejamos: de um lado, fala-se de silêncios provocados por atos censores,

institucionais e regulados pelos poderes estabelecidos através de policiamentos.

Complemento disso, na outra ponta, o silêncio público se levanta como alternativa que é

ainda mais estranha que a institucional pois propõe a rejeição coletiva que é, afinal,

sutilíssima, não escrita e pouco expressa. Isso convida a supor que a vida pública de um

livro ou de uma obra obedece a critérios circunstanciais importantes que muitas vezes

são imperceptíveis, fato que implica mais um, outro, silêncio: o da crítica especializada

que também abusa do "esquecimento". Tudo somado fica mais evidente quando se tem

em conta que o livro pode ser objeto perigoso e que por mexer em projetos específicos

merece maiores "cuidados".

Há uma divisão interessante que se estabelece entre os livros que poderíamos

chamar de "comportados" - porque não arranham ordem nenhuma - e os ditos

"perigosos" - que sempre propõem mudanças que perturbam a ordem e os poderes

estabelecidos. Enquanto os primeiros não atrapalham, têm vida normal, os segundos,

por se constituírem em ameaças, passam a depender de critérios subversivos para

vingarem. Não deixa, contudo, de ser impressionante o fato de um livro chegar a ser

categorizado como "perigoso". Esse fenômeno perde-se nos mistérios da função social

do livro e no manejo de políticas editoriais e de direcionamento da cultura em nível

nacional.

É lógico que essas questões se abrem para desdobramentos interessantes que

afinal conduzem a recepção da leitura para o território do historiador. É exatamente aqui

que começa o trabalho que procurei assumir hoje: o exame da produção de um conjunto

de textos únicos em nossa história e que tem permanecido silenciado. Trata-se, diga-se

logo, de um silêncio que veio depois de um alarde de interessante ressonância. Carolina

Maria de Jesus como Emblema do Silêncio é resultado de pesquisas que começaram

com certa inocência investigativa e que, agora, abrem-se para um exame social

amplíssimo que leva, inclusive, a questionar aspectos da democracia literária e do papel

da cultura dita acadêmica - em particular da crítica literária -, em face da resistência ao

diálogo com outros códigos que não sejam os estabelecidos pelos pares que, aliás,

também fazem parte do mesmo coro.

A primeira constatação que cabe iluminar remete à "memória da leitura"

promovida pela colocação a público, nos idos de agosto de 1960, do livro Quarto de

despejo, de autoria de Carolina Maria de Jesus. Pessoas que viveram aquele período

guardam com certa nitidez o impacto do livro em suas vidas. Os jovens, ao contrário,

pouco ou nada sabem a propósito desse trabalho (5). Coerente com o "apagamento" da

memória da contracultura, o livro de Carolina escorreu pela vala do esquecimento como

se não tivesse tido importância singular em nossa história da cultura. Vale ressaltar que

não se fala apenas de um esquecimento corriqueiro visto que o livro em questão tem

cerca de um milhão de cópias vendidas em todo mundo, sendo, inclusive, o texto

brasileiro mais publicado em todos os tempos.

Estas colocações trazem outro ponto importante para a definição de nosso tema

de estudo: o tipo de emissor e o lugar da emissão. Porque aproximada exclusivamente

do código culto, a literatura se distingue por ser expressão maior da cultura de elite.

Advogando a existência e representatividade da cultura popular, procura-se abrir espaço

para a suposição de que pobre, semi-alfabetizado, marginalizado também merecem seu

lugar literário na cena nacional.

Mas, afinal, de que matéria é feita o caso de Carolina Maria de Jesus

apresentado como tão importante e questionador dos critérios sagrados por centenas de

décadas como os corretos?

Vejamos: negra, mulher, migrante saída de Sacramento, no Triângulo Mineiro,

em 1947, mãe solteira, moradora da primeira grande favela da cidade de São Paulo,

Carolina Maria de Jesus somente emergiu do anonimato absoluto por iniciativa de um

jornalista, então jovem e brilhante, Audálio Dantas, que, vivenciando uma fase da

cultura de comunicação de massas no Brasil, colocava a público o jornalismo de

denúncia (6). É interessante notar que por essa época a sociedade brasileira passava por

uma rica experiência democrática. Portanto, é no período que vai entre a superação do

Estado Novo (1937-45) e a instalação da Ditadura Militar (1964) que se inscreve a

experiência de Carolina Maria de Jesus depurada no quarto de despejo.

Carolina saiu de Minas por causa da miséria absoluta que assolava seu meio

social de camponeses despossuídos. Filha de negros "retintos" ela peregrinou pelos

interiores dos estados de seu estado até chegar aos limites de São Paulo. Perambulando

pelo interior do estado, foi assumindo profissões variadas que iam desde empregada

doméstica até artista de circo. Ao chegar na capital paulista, trabalhou em algumas casas

de famílias probas, tendo inclusive sido doméstica da família Zerbini, que aliás esteve

no lançamento do Quarto. Incompatibilizada com as regras de trabalho em casas de

família, Carolina quis alçar vôos próprios e passou a ser catadora de papel nas ruas

paulistas. Convém lembrar que por aqueles dias os sistemas de coleta de lixo eram

precários e o país estava ainda em uma fase em que o aproveitamento de papéis,

caixotes e latas era uma constância. Portanto, supõe-se que o "negócio" de catador era

algo mais rentável do que seria hoje. Além do mais, com esse tipo de trabalho, Carolina

conseguiria tempo para seus afazeres domésticos como mãe e sobretudo como leitora e

escritora que julgava ser.

Tendo sido, ainda em Sacramento, alfabetizada até o segundo ano primário,

graças às benesses de uma instituição espírita, Carolina desde cedo, segundo o que ela

própria diz, decidiu ser "artista". Ser "artista" para ela significava o avesso do mundo

rural. Sua vocação nitidamente urbana a levava a somar a tosca alfabetização como

atributo para viver na cidade grande. Mesmo na metrópole, em contexto de pobreza

urbana quase absoluta, Carolina conseguiu se distinguir tanto por ser mulher bonita

como por saber ler e escrever. Sua vivacidade e esperteza certamente a ajudaram e

muito.

Em certa medida aquele era um momento em que a sociedade brasileira

começava a se reconhecer como "moderna". Naquele instante, entre nós se dava o

encontro de dois processos complementares e importantes: a vivência de um ambiente

democrático e os movimentos da contracultura brasileira (7). Juntas, essas

manifestações - política e cultural - promoveram aberturas cabíveis tanto para

demonstração de certas patologias urbanas individuais, pequeno-burguesas, como para

as crises políticas de caráter social.

Nesse contexto, os jornalistas adquiriam papéis importantes como

documentadores das transformações nacionais. Audálio Dantas foi um dos primeiros

profissionais a se notabilizarem nessa área, e a "descoberta" de Carolina pode ser vista

como um de seus trunfos. Mas ele era um ramo desse novo perfil do jornalismo

brasileiro. Outro caso pode ser catalisado na atividade do jornalista e teatrólogo Nelson

Rodrigues, coetâneo de Carolina e de Audálio Dantas. Rodrigues foi elo importante na

comunicação entre o cotidiano psicologicamente doentio nacional e o público. Em

âmbito social, contudo, Dantas foi o inovador mais expressivo. Curiosamente, enquanto

Nelson Rodrigues se posicionava como reacionário assumido, Dantas era militante e

ativista de esquerda. Ambos jornalistas de peso. Ambos olhavam o social, porém dentro

de perspectivas diferentes. Vale notar que havia entre os dois notáveis jornalistas mais

uma variação: Nelson Rodrigues atuava no Rio de Janeiro e Audálio em São Paulo.

Essa diferença interessa para que se pense no caso de Carolina e no sentido da favela

paulistana (8).

Dois fatores foram importantes para o favelamento do antigo campo do

Canindé. Sua localização, naquela época fora da cidade, a grande migração do nordeste

motivada pela formidável seca de 1958 e a conseqüente criação de empregos gerados a

partir do projeto de multinacionalização do país. É importante contextualizar melhor

esse momento. As primeiras entradas do diário de Carolina começaram a ser escritas em

1955, adensando-se em 1958. Nesse ano também iniciava-se a construção de Brasília,

"capital da esperança", que representava o conjunto de medidas "desenvolvimentistas"

de um presidente democrático, controverso e dinâmico como fora JK (9). Como ápice

de um longo processo, continuado desde o segundo governo de Vargas (1950-54),

aquelas manifestações tinham sentido de vivência democrática conseqüente. Todo o

conjunto nacional estava envolvido nas transformações que por fim afetavam a todos.

As mudanças na cultura nacional em geral eram interessantes, pois juntamente

com a "jovem guarda", que caracterizava uma versão nacional do rock, a bossa nova

renovava o pessimismo instalado nos velhos sambascanções, provando a disposição da

classe média nacional, apta a enfocar a vida por outros prismas muito mais positivos.

No esporte, a conquista da Copa do Mundo pela primeira vez revelava valores como

Pelé, que simbolizava a jovialidade de um país que, por fim, vivia um projeto

democrático partilhado. Outros esportistas se projetavam no tênis, no boxe e na natação.

Eram esses nomes nacionais que metaforizavam um país remoçado pela promessa de

progresso econômico.

O ingresso de empresas estrangeiras que investiam maciçamente no país, o

afloramento de instituições como o Iseb e a atuação universitária demonstravam que a

crítica convivia com fatores eufóricos da sociedade como um todo. O nacionalismo se

expressava nas campanhas de defesa da Amazônia, que, juntamente com a efetividade

dos movimentos sociais causados pela migração intensa, contavam o drama de parcela

marginalizada do progresso prometido. Certamente a ação dos chamados "padres

vermelhos", tachados de comunistas pelo apoio dado às Ligas Camponesas, e a

obsessiva preocupação norte-americana em relação ao continente depois do sucesso da

Revolução Cubana de 1959 fizeram com que os ânimos políticos da coletividade

nacional ficassem mais expostos (10).

Juntamente com os movimentos estudantil, de camponeses, de funcionários

públicos e sindicalizados, os pobres começavam a ser personagens presentes na vida

nacional, manifestando-se como grupo de influência. Se no caso dos estudantes e dos

empregados os recursos de participação dimensionavam-se através de greves e de outras

táticas de atuação, no caso dos pobres urbanos a crescente influência no processo

eleitoral os transformava em grupo que tinha peso. Peso duplo, aliás, pois tanto atuavam

no setor eleitoreiro quanto como tema de campanhas destinadas a outras camadas

sociais.

Motivados pelo cenário político, os erros dos projetos de governo apareciam na

vida dos pobres urbanos. Carolina Maria de Jesus seria uma prova flagrante das

atrocidades que mereceriam vir a público naquele instante, pois a democracia implicava

críticas que, àquela altura, eram históricas. Sua experiência de favelada expunha ao

coletivo uma chaga feia, atestado das falhas de projetos vigentes, de desenvolvimento

econômico e programa social, encetados por governos federais em nome da

modernização do país.

Histórias como a de Carolina acarretavam críticas primeiro ao projeto nacional

varguista, que teria se arvorado em protetor dos pobres e que, afinal, perenizou a

condição dos desempregados contrastando suas alternativas de sobrevivência com as

dos empregados (11). O governo de JK, por sua vez, desfocando o projeto de

desenvolvimento das camadas socialmente desfavorecidas, evitou a atenção à base em

favor da criação de uma classe média e de uma burguesia capazes de nutrir a produção e

o consumo, promovidos pelas multinacionais que chegavam ao país. Depois da rápida

passagem de Jânio Quadros pelo governo restou, por fim, um momento que

representaria o ápice do esforço democrático nacional, o período comandado por João

Goulart. A intensa manifestação pública popular revelava que aquele foi o instante mais

conturbado do andamento histórico nacional dominado por uma burguesia que queria o

progresso para si, custasse o que custasse (12).

O diário de Carolina, na versão editada por Audálio Dantas, representou um

ponto de desvio no andamento da produção intelectual brasileira. A história revelada

desse texto mostra que houve, por parte do jornalista, sensibilidade para entender a

pertinência naquele momento da publicação do texto. Tendo sido destacado pelo jornal

em que trabalhava para noticiar a inauguração de um parque infantil na hoje extinta

favela do Canindé, em São Paulo, Dantas ao chegar ouviu uma mulher gritando contra a

ação de alguns bêbados que estragavam os brinquedos. Ao ouvir "Vou colocar vocês em

meu livro", o jornalista quis saber de que se tratava. Conduzido pela própria Carolina ao

seu barraco, ela mostrou uma pequena coleção de cadernos velhos, recolhidos do lixo,

em que registrava o cotidiano amargo dela, de seus filhos e de seus pares de infortúnio.

Até aquele momento - momento de euforia coletiva e de crença no desenvolvimento

econômico nacional -, pouco ou nada existia que revelasse a intimidade dos

marginalizados. Tudo o que existia era ficção, escrita sobre os desprovidos e nunca por

eles. Mesmo assumindo Lima Barreto como exceção, cabe lembrar que os escritos de

Carolina traziam a marca dos erros de português, da construção gramatical

comprometida, enfim, da feição inquestionavelmente popular.

As agruras de uma negra, sozinha, mãe de três filhos dependentes, catadora de

papel, miserável, que vivia sem instituições de apoio, seriam motivo de sobra para

reportagens. Mais que isso, Dantas preparou - a seu modo - os textos do diário e se

apressou em arranjar casa editorial para o lançamento do livro. Por otimista que fosse,

jamais poderia pensar que o sucesso viesse na medida em que veio. É preciso

reconhecer que não foi fácil a aventura de Dantas para convencer a livraria Francisco

Alves a editar aquela obra (13). Por controversa, havia mesmo dentro da empresa

pessoas de peso que eram contra a publicação do Quarto de Despejo. Foi depois de

muito esforço que Dantas convenceu da validade de se fazer uma tentativa. A campanha

feita por ele mostrou-se eficiente a ponto de superar o plano inicial - que visava lançar

três mil exemplares - para que saísse de imediato uma edição de trinta mil. É preciso

dizer que por essa época a intelectualidade brasileira não estava tão interessada em

denúncias e olhava com toda desconfiança aquele fenômeno. A mídia, contudo,

principalmente a televisão, que estava instalada no Brasil desde 1950, mostrou-se aberta

a dar vazão a denúncias sociais. Daí o sucesso de Carolina, que teve um caminho rápido

na medida em que a televisão encurtou as distâncias entre ela e o grande público.

Sucesso imediato e de contornos estranhos, diga-se, pois naquele agosto de

1960 Carolina se fez famosa do dia para a noite, sem, contudo, perder seu lastro de

miserabilidade. Com isso sugere-se que toda a transformação operada fora superficial e

externa à própria Carolina, que se viu transformada em uma espécie de bonequinha

negra de uma sociedade que aprendera a ser flexível. Isso, aliás, dava ares da

tropicalização do mito importado de uma certa self made woman brasileira. Essa versão

nacionalizada da ascensão social imediata era algo interessante para o sistema que

passava a "provar a mobilidade social dos novos tempos". É curioso notar que a própria

Carolina não tinha dimensão mínima do que se passava. O fato de ela, no dia do

lançamento do livro, ter saído para catar papel, pois não tinha dinheiro para a

alimentação dos filhos, mostra como eram estranhas as conexões entre ela e o mundo

que a reconheceria como fenômeno logo no outro dia. Vendidos na cidade de São Paulo,

em três dias, o sucesso editorial se mostrou surpreendente. Uma prova eloqüente disso é

o fato de a Francisco Alves não estar preparada para atender imediatamente os

incessantes pedidos vindos dos mais distantes lugares do país.

Não fora apenas nacionalmente que Carolina fez sucesso. Tendo sido logo

traduzida em pelo menos treze línguas, ela superou todos os escritores brasileiros em

termos de conhecimento internacional. Ultrapassando largamente Jorge Amado como

personalidade "literária" mais conhecida do Brasil, Carolina conseguiu ainda outro

mérito curioso: até hoje permanece como a autora brasileira mais publicada no exterior,

em particular nos Estados Unidos. Conhecido imediatamente em mais de quarenta

países, o Quarto de Despejo teve, entretanto, reflexos negativos na vida da autora. Foi

tanto sucesso por um livro que a autora teve o resto de sua obra ofuscada.

Sim, curiosamente a autora de tanto sucesso no livro de estréia, depois deste,

padeceu enormemente a dor do silêncio e, o que é pior, do esquecimento. Se é verdade

que Carolina publicou ainda depois do Quarto de Despejo mais três livros (Casa de

Alvenaria, Diário de Bitita - que em conjunto com o primeiro forma a trilogia vivencial

da autora - e Provérbios e Pedaços da Fome), não é mentira que teve que amargar a

fusão de seu nome a uma circunstância política externa a sua experiência como

escritora. Uma nítida decadência pode ser constatada no périplo de Carolina, pois seu

último livro, Provérbios, fora financiado por ela mesma, que não conseguiu mais

editores.

Faz-se necessário, contudo, apontar os patamares do "apagamento" de Carolina

Maria de Jesus. E são vários, diga-se logo. Vários e da maior sutileza pensável. Para

melhor responder a estas questões parece prudente enquadrar o Quarto de Despejo como

um texto que, no Brasil, apenas se explica no espaço e no tempo preciso em que foi

publicado. O Quarto, pois, só se explicaria no momento político e cultural do

florescimento da democracia e da contracultura. A democracia e a contracultura

implicavam, em conjunto, a definição das minorias e com elas a expressão política dos

grupos envolvidos. Por outro lado, o poder estabelecido estava sendo testado em termos

de sua resistência.

Representando um segmento social que começava a ser ameaça, Carolina

emblemava a luta de classes segundo o modelo cabível naquele instante. De qualquer

forma, seu papel não era isolado e tinha várias interfaces com outros elementos

característicos da contracultura. O fato de ser mulher, negra, pessoa do povo daria um

possível cenário para que as causas tangenciadas pelo aparecimento de Carolina

mantivessem sonoridade (14). No entanto se apagaram. Cabe analisar razões e

mecanismos.

Em trabalho anterior já foi afirmado que, "por razões diversas e algumas de

explicação indireta - como a inadequadação da mensagem do seu primeiro livro ao

padrão proposto pelo golpe militar de 1964, que evitava a crítica social" (15), o livro de

Carolina foi evitado pelos editores que o viam como perigoso e passível de uma censura

que seria, no mínimo, economicamente prejudicial (16). Isso equivaleria a uma "censura

branca". Mas interessa adentrar em outros processos de cerceamento da obra, em

sentido amplo, de Carolina. Antes, porém, cabe dizer que os diários que a fizeram

mercuricamente tão famosa não representam, nem de leve, a essência da obra dessa

autora.

No processo de elaboração do texto Cinderela Negra, juntamente com a família

de Carolina Maria de Jesus, acabamos por localizar uma caixa com trinta e sete

cadernos, contendo cinco mil cento e doze páginas (17). O acervo encontrado trazia

uma quantidade grande de poemas, contos, quatro romances e três peças de teatro. Isso,

entre lições escolares dos filhos, receitas de bolos, contabilidade doméstica. Escritos

todos com a letra firme, clara e corrente de Carolina, tudo em papéis velhos encontrados

no lixo, guardados sem o cuidado devido (18).

A surpresa dessa descoberta revelava legiões de temas insuspeitados na obra de

Carolina que, afinal, ficou identificada publicamente apenas com o fragmento de seu

diário posto a público (19). Isso é limitador pois tem-se a revelação, dita pela própria

Carolina, de que o seu intuito enquanto escritora era ser "poeta" (20). Em várias

ocasiões ela mostrava que tinha aptidão para o conto, tendo inclusive alguns publicados.

A existência preciosa de quatro romances enormes, por outro lado, demonstra que

estamos em face de um caso único na história da cultura popular nacional, onde, na

favela, uma autora semi-alfabetizada produziu uma obra que, segundo o impulso

inicialmente dado, seria uma promessa de renovação de nossos critérios de definição

cultural. É o "apagamento" dessa carreira que seria brilhante que interessa analisar.

Menos pelo seu significado pessoal, em relação à escritora, e mais pelo relacionamento

com várias outras esferas das manifestações públicas da época - como o feminismo, o

movimento negro e a cultura popular - que interessa retomar Carolina.

Derivadas dos movimentos sociais dos anos 60, estas esferas das causas sociais

urbanas poderiam ter assumido a escritora - mulher, negra, representante legítima da

cultura não-erudita - como símbolo. Nenhuma, contudo, o fez. E o que é pior,

desmereceu-a tanto pela crítica dita especializada como pelo seu peremptório

arquivamento e redução a um único texto. Analisemos cada um desses movimentos em

relação à figura de Carolina Maria de Jesus.

É preciso dizer que à época do aparecimento de Carolina, o mundo literário

nacional comportava, como demonstra Marisa Lajolo, o aparecimento de "mulheres

com idéias na cabeça e pena na mão" (21). Além de Cecilia Meirelles, Raquel de

Queiroz e Ligia Fagundes Telles, já consagradas, o tempo admitia o surgimento destas

que, hoje, se constituem as grandes damas de nosso cenário literário: Nelida Piñon,

Clarice Lispector, Henriqueta Lisboa, Anajá Cardoso, Maria Alice Barroso. Seria

cabível o mundo feminino não ter esquecido Carolina que, afinal, mulher e escritora

também, estaria apta a nutrir essa constelação com exemplo diferenciado do modo de

produção do tex- to. Ao contrário de suas "pares" que só cresceram, a carreira de

Carolina obedeceu o caminho do declínio. Não deixa de ser estranho o fato de Carolina

poder ter sido símbolo da causa literária feminista. O avesso dessa questão sugere a

crueldade da elite nacional que, através da redefinição constante do chamado código

culto, elide uma participante que, apesar de sua obra extensa e original, deixou de ser

considerada. Causa espanto, inclusive, o abandono dessa escritora que sequer teve sua

obra colocada à luz (22). Até economicamente questiona-se como os editores não se

interessaram pela divulgação desses outros acervos.

Desdobramento de perplexidades é o fato de Carolina ter tido chances de,

exclusivamente em cima do Quarto de Despejo, ter conseguido divulgação em teatro, na

medida em que "sua vida" foi encenada, virou "caso especial" na televisão, conseguiu

gravar dois discos. Com isso, infere-se que a sociedade estava disposta a aceitar a

desgraça da vida de Carolina relatada no diário como alternativa de se mostrar,

aparentemente, mais flexível. Só.

Os dramas da mulher, mãe solteira, chefe de família, não foram incorporados

ao acervo dos argumentos das feministas, escritoras ou não. Curiosamente, o

testemunho daquela mulher que revelou com tanta intimidade suas agruras fica

descartado do montante crítico das brasileiras que, de modo geral, insistem em garantir

crédito às experiências estrangeiras em vez de olhar para o (nosso) próprio lado. Por

certo, essa observação deve induzir a uma conclusão impertinente que sugere que o

feminismo brasileiro ainda está preso à classe social (das mulheres brancas e bem-

postas na vida que preferem se mirar em espelhos alheios desde que estes reflitam

status). Nesse sentido explicar-se-ia o "esquecimento" das negras.

Sendo estranho o procedimento das feministas, o que dizer do movimento

negro brasileiro que sequer assumiu Carolina dentro das premissas básicas que a

caracterizaram como a escritora "de cor" mais importante de nossa história? Convém

lembrar que Carolina mereceu inclusive destaque especialíssimo internacional no

Hommage a la Femme Noire (23). Tudo isso, porém, parece não ter afetado a

consciência do movimento negro.

É verdade que a postura de Carolina sempre foi muito ambígua em face do

posicionamento frente aos negros (24). Se houve momento em que o preconceito lhe

serviu de arma de defesa, dizendo inclusive que negros não gostavam de trabalhar e que

são comparados aos "baianos" que também seriam preguiçosos, não menos verdade é

que ela mudou. Prova mais evidente do segregacionismo racial de Carolina no início de

sua carreira seria a constatação da paternidade de seus três filhos vivos e da filha morta:

todos brancos e estrangeiros. Brancos e estrangeiros também foram seus pretendentes.

Houve brasileiros implicados em seus romances, mas todos eram, sempre, brancos.

É importante salientar esse traço marcante da personalidade de Carolina até

para iluminar seus desdobramentos. Na fase que vai de 1960 a 1966, Carolina

amadureceu e mudou. Mudou muito, aliás. Passando, sob a inspiração de grupos ligados

ao então candidato a presidente da República Jânio Quadros, a se integrar como líder do

movimento e atestando sua experiência como exemplo de vida para a própria

comunidade. Participando de reuniões, representando etnicamente seu grupo, Carolina

foi gradativamente se projetando como ícone da cultura negra. Muito dessas

transformações deve-se aos próprios negros que souberam envolver Carolina, porém

nada teria acontecido sem sua adesão.

É difícil admitir que os movimentos de consciência negra atualmente têm

deixado de lado esse caso. Seria interessante avaliar como a figura de Carolina não tem

composto as falas sobre temas de negros brasileiros. Esse "apagamento" é tão grande ou

maior que o das feministas, pois a identidade cultural de Carolina Maria de Jesus foi

mais marcada como negra do que como mulher. Num cenário em que as figuras "de

cor" apenas subiam socialmente ou como cantores ou jogadores de futebol ou

esportistas em geral, existia tudo para a valorização de um elemento que se distinguiria,

afinal, por outros atributos.

Os anos 60 se diferenciaram por ser época em que alternativas culturais se

levantaram. A chamada cultura popular foi uma dessas manifestações. Carolina Maria

de Jesus seria uma autora que teria tudo para se distinguir como personagem dessa

expressão cultural.

Mulher de perfil eminentemente popular, Carolina representava inclusive uma

nova orientação nas manifestações ditas do povo. Enquanto o popular, no velho estilo,

esgotava-se em tediosas nostalgias, quase sempre promovidas por leituras da elite,

depois de Carolina nota-se um remoçamento na expressão popular, que passa a ser

urbana e diretamente vinculada ao mundo capitalista. Estas feições marcam a

experiência de Carolina como produto de um tempo. Curiosamente, essa faceta de sua

obra também ficou escondida como, já se disse, todo o resto de sua profícua produção

(25).

Mas qual seria o teor da obra de Carolina como cultura popular urbana. Em

primeiro lugar seus escritos como manifestação formal. Seus erros gramaticais, em

contraste com a difícil explicação de seu vocabulário, representam facetas que fundem

na necessidade expressiva a afetação de quem vê a literatura como poder. Isso, aliás,

nunca esteve ausente da percepção de Carolina, que, mesmo sendo mulher fisicamente

indefesa na favela, sabia que, por saber ler e escrever, tinha domínio dos códigos dos

poderosos.

A variedade de gêneros e a não definição deles é outra característica de

Carolina como escritora preocupada com a mensagem temática e não com o apuro

formal. Abordando mais diretamente a questão temática, vale lembrar que a saudade do

campo e a construção de um sonho de pureza vinculado à vida rural lhe eram

constantes. A busca do retiro no campo era um idílico projeto em que ela mesma não

acreditava, apenas se valendo dele para usar como mote literário ou explicação dos

desencontros da vida moderna. Por outro lado, sem nunca deixar a cidade - que sempre

era mostrada como lugar de corrup-ção -, Carolina escolhe metáforas românticas nas

quais a presença do céu azul anil rima com Brasil. A cidade era seu tema premente. A

relação conflituosa e apaixonada ao mesmo tempo revela a leitura de um texto urbano

diferenciado dos que comumente se vê.

Passado o momento da contracultura, contudo, juntamente com o

"apagamento" de Carolina, a contemplação sobre os pressupostos da cultura popular

também desapareceu. Voltando a ser matéria definida e escrita pela elite, nota-se que a

cultura popular como fora concebida em nossos "anos dourados" foi fogo-fátuo. Durou

enquanto o sonho vigeu. A ditadura militar nos acordou. Acordou inclusive propondo

um outro tipo de censura: a institucional, que é, aliás, mais óbvia que a outra que

trabalha com o esquecimento.

É preciso terminar dizendo que a crítica literária no Brasil se ofereceu para ser

o algoz mais importante de Carolina. Foi ela quem decretou incertezas na lógica da

pobre escritora negra e que colocou todos os defeitos e cobranças que jamais poderiam

ser aplicados a uma personagem como foi Carolina Maria de Jesus.

Gostaria de terminar esta fala lendo uma página de Carolina. Sobretudo quero

mostrar o tipo de personagem que perdemos por não saber entendê-la: "O Brasil é um

jovem de um metro e noventa de altura com a pretensão de homem feito, só que está

muito doente, com o coração fraco e desanimado. Foi tratado com o cruzeiro e o

tratamento não foi producente. Continuou anêmico. Então, decidiram chamar um

médico dos Estados Unidos que lhe aplicou umas injeções de dólares. O Brasil teve

apenas uma melhora temporária. Mas, o Brasil queria é se curar, queria ficar forte.

Resolveu consultar um médico da Inglaterra que deu-lhe umas pílulas de libras

esterlinas e não surtiu o efeito desejado. O Brasil já está perdendo a esperança de

readquirir a sua potência orgânica. Mas ele não desanimou e procurou um médico

alemão que lhe deu umas gotas de marcos. Sua esperança se renovou: vou restabelecer-

me e entrar numa competição. Mas, as suas esperanças foram se derrapando quando

aconselharam a procurar um médico russo. Ele não aceitou, ficando com receio de

tomar o remédio rublo que é, porém, semelhante a uma atadura que lhe tolhe todos os

movimentos. Preferiu, então, continuar fraco a ser predominado e os seus compatriotas

não poderem brincar nem os três dias de carnaval. O rublo lhes obrigaria a trabalhar

durante os três dias dedicados ao Rei Momo. Mas o Brasil já está pensando em fazer um

transplante: retirar o coração militar e colocar um coração civil".

Notas



1 Ambas as autoras têm tomado a si a tarefa de desenvolver estudos sobre a história da

cultura no Brasil. Sobre o tema leia-se particularmente: Literatura Infantil Brasileira:

História & Histórias, São Paulo, Ática, 1984; A Leitura Rarefeita. Leitura e Livro no

Brasil, São Paulo, Brasiliense, 1991; e A Formação da Leitura no Brasil, São Paulo,

Ática 1997.



2 Roger Chartier, A Ordem dos Livros: Leitores, Autores e Bibliotecas da Europa entre

os Séculos XIV e XVIII, Brasília, UnB, 1994, p. 14.



3 Porque advoga-se que história e literatura sejam manifestações direrentes e que

implicam áreas de estudos diversas, percebe-se na recepção da obra o ponto

fundamental em que a literatura torna-se matéria do historiador que passa, inclusive, a

ter no consumo índices da documentacão que permita verificar o contexto social e o

impacto da obra sobre o conjunto social.



4 Considera-se, nesse sentido, o livro como mercadoria da sociedade de consumo com

feições indicadas pelo capitalismo moderno.



5 Em 1993, Robert M. Levine e eu iniciamos um trabalho comparativo sobre o impacto

do livro Quarto de Despejo tanto no círculo cultural norte-americano como no brasileiro

e, na ocasião, com a ajuda de um então estudante Juliano A. Spyer, saímos a campo para

ver qual a resistência do sucesso ocasionado pelo lançamento do primeiro livro de

Carolina Maria de Jesus. Em enquetes feitas em logradouros públicos, como a Praça da

República, em São Paulo, notou-se que as pessoas que tinham mais de 45 anos

recordavam-se com vivacidade da escritora e que os jovens jamais haviam ouvido falar

dela. Interessante que essa mesma constatação se repetiu na Universidade de São Paulo.



6 Há na história da publicação no Brasil poucos diários em geral. Os diários femininos

são ainda mais raros, e curiosamente os três que existem remetem sempre a pessoas

marginais do padrão oficial. O primeiro deles é o da favelada Carolina Maria de Jesus,

Quarto de despejo, de 1960; o segundo é da louca da Maura Lopes Cançado, O

Hospício é Deus, de 1965, e finalmente de, empregada doméstica, Ai de vós, de 1983.

Por lógico seria enganoso dizer que as mulheres brasileiras não escrevem diários, o que

não se verifica - e isto é interessante - é uma cultura pública de leitores deste gênero que

é tão prezado em outros quadrantes.



7 Sobre o andamento ideológico do período leia-se o trabalho de Miriam Limoeiro

Cardoso, Ideologia do Desenvolvimento (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977). Sobre a

fase da contracultura leia-se, de Heloisa Buarque de Holanda e Marcos A. Gonçalves,

Cultura e Participação nos Anos 60 (São Paulo, Brasiliense, 1982).



8 Em trabalho anterior foi explorada a diferença entre a favela carioca - que possui uma

tradição de convívio com a metrópole garantida por mais de um século de existência - e

a favela paulistana, que foi definida pelas operações de "limpeza" da cidade marcada

pelos festejos do Quarto Centenário. Sobre o assunto leia-se: de J. C. Meihy e R.

Levine, Cinderela Negra: a Saga de Carolina Maria de Jesus (Rio de Janeiro, UFRJ,

1994).

9 Sobre esse período leia-se: O Governo Kubitschek: Desenvolvimenlo Econômico e

Estabilidade Política, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976.



10 Sobre a vida política cotidiana do período leia-se: Juscelino & Jango, PSD & PTB,

Rio de Janeiro, Artenova, 1979.



11 Como se todos fossem abarcados pelas instituições de trabalho, a legislação de

Vargas e seus eventuais benefícios têm sido vistos como alternativa para o exame do

progresso trabalhista nacional.



12 Thomas Skidmore dá um amplo panorama do processo político nacional em Brasil:

de Getúlio a Castelo (Rio de Janeiro, Saga, 1969).



13 Explicações específicas sobre o momento da publicação da obra podem ser lidas em

trabalho realizado por Levine e Meihy, publicado em inglês sob o título Life and Death

of Carolina Maria de Jesus (Albuquerque, University of New Mexico Press, 1995, p.

44).



14 É importante lembrar que há um consumo diferente da obra de Carolina Maria de

Jesus. Enquanto no exterior, em particular nos Estados Unidos, o diário continua sendo

um sucesso de vendagem, no Brasil caiu em esquecimento. O mesmo se diz dos

recentes livros sobre ela que, apesar de terem sido razoavelmente bem acolhidos entre

nós, não se comparam com o sucesso dos Estados Unidos.



15 J. C. Meihy e R. Levine. Cinderela Negra: a Saga de Carolina Maria de Jesus, op.

cit., p. 17.



16 Em entrevista com Paulo Dantas ele garantiu essa versão.



17 No momento essa documentação está sendo microfilmada pela Fundação Biblioteca

Nacional do Rio de Janeiro e será oportunamente colocada a público.



18 Um dos aspectos mais interessantes dessa documentacão reside no fato de Carolina

escrever e copiar várias vezes - algumas com importantes acréscimos e modificações - o

mesmo texto. Assim, por exemplo, o romance Dr. Silvio tem partes quatro vezes

copiadas. A pergunta que se faz é por que Carolina procedia dessa forma? Quais seriam

os motores de sua atividade de autocopista?



19 Torna-se importante ainda salientar que o "primitivo" diário publicado por Audálio

Dantas sob o título Quarto de Despejo não corresponde exatamente aos textos que

Carolina escreveu. Algumas "correções" e muitos cortes acabaram, a nosso ver, por

comprometer o texto, sugerindo que Levine e eu publicássemos nova versão do texto

intitulada Meu Estranho Diário. A versão de Dantas foi publicada em várias edições

pela citada Francisco Alves e recentemente pela Editora Ática (1994) em edição

popular, destinada ao público estudantil.



20 Sobre o significado da poesia no conjunto dos escritos carolinianos, leia-se:

Antologia Pessoal, organizada por J. C. Meihy e publicada pela Editora da UFRJ (Rio

de Janeiro, 1995).

21 Marisa Lajolo, "A Leitora no Quarto dos Fundos", in Leitura: Teoria & Prática, ano

14, no 25, jun./1995, p. 10.

22 Não foram poucas as oportunidades que Carolina teve para falar de seus outros

trabalhos que eram, contudo, sempre refutados.



23 Hommage a la Femme Noire, Luidon, Blegium, Edicions Consulaires, 1989, pp. 6-

24.



24 Sobre a ambigüidade das posições de Carolina em face da questão negra, ler os

comentários de Levine e Meihy registrados no Meu Estranho Diário (São Paulo, Xamã,

1996).



25 Seria interessante aliar a exposição desse tema às reflexões propostas por Néstor

García Canclini em As Culturas Populares no Capitalismo (São Paulo, Brasiliense,

1983).





* José Carlos Sebe Bom Meihy é professor de História Ibérica do Departamento de

História da FFLCH-USP e autor, em colaboração com Robert Levine, de Cinderela

Negra - a Saga de Carolina Maria de Jesus (Editora da UFRJ).



Em: http://www.direitoshumanos.usp.br/counter/Biblio/txt/meihy.html (acessado em

03/03/07).

Reciclagem de alumínio e mercado



Mercado consolidado

Agência FAPESP (Thiago Romero)



Pelo quinto ano consecutivo, o Brasil permaneceu na liderança do ranking

mundial de reciclagem de latas de alumínio. Em 2005, foram reaproveitadas 96,2% das

latas usadas, com um aumento de 0,5 ponto percentual em relação ao ano anterior. O

país atingiu a marca de 127,6 mil toneladas de latas recicladas por ano.

Os dados estão no ranking mundial de reciclagem de latas de alumínio divulgado

pela Associação Brasileira de Alumínio (Abal) e pela Associação Brasileira dos

Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas).

O ranking reforça a crescente preocupação com a reciclagem em vários países. O

Japão, por exemplo, aumentou o índice de reciclagem de 86,1%, em 2004, para 91,7%,

em 2005. O país reaproveita cerca de 110 mil toneladas de latas por ano e está atrás

apenas do Brasil, onde o processo tem forte motivação econômica devido ao preço de

revenda do produto.

"Embora ainda não tenhamos leis que obriguem a reciclagem, o Brasil há 15

anos tem um mercado totalmente consolidado. São mais de 7 mil postos de compra de

sucata em todo o país, que movimentaram em 2005 mais de R$ 400 milhões apenas na

fase de coleta, a primeira etapa da cadeia produtiva", disse José Roberto Giosa,

coordenador da Comissão de Reciclagem da Associação Brasileira de Alumínio, à

Agência FAPESP. De acordo com ele, atualmente mais de 160 mil pessoas vivem

exclusivamente da coleta de latas de alumínio no Brasil.

Além do mercado consolidado, outros fatores também contribuem para que o

Brasil registre o maior índice mundial de reciclagem desde 2001, entre eles a maior

profissionalização das cooperativas de catadores, a continuidade dos programas de

educação ambiental mantidos pela indústria e, principalmente, a crescente adesão da

classe média em todo o país. Levantamento realizado pelo setor mostra que, entre 2000

e 2005, a participação de condomínios e clubes na coleta de latas usadas passou de 10%

para 24%.

"Finalmente, a reciclagem deixou de ser moda para virar um modo de vida

civilizado. Como a classe média aderiu a esse mercado, temos o que chamamos de

efeito demonstração, ou seja, outros segmentos sociais são atraídos para esse mercado,

garantindo um maior volume de latas para as cooperativas de catadores", explica Giosa.

Nos últimos anos, o índice de reciclagem no Japão cresceu, em média, apenas 1

ponto percentual. O que explica o aumento de 5,6 pontos no ano passado é o alto

investimento feito pelo governo japonês, sobretudo na região de Tóquio, com a

instalação de máquinas automáticas de reciclagem em estações de metrô e rodoviárias.

Basta o cidadão inserir as latas para retirar um vale-compra.

"Foram mais de US$ 50 milhões investidos nesse tipo de máquina em 2005.

Além disso, o poder público está preparando um pacote de leis para tornar a reciclagem

de latas obrigatória no Japão, a exemplo do que já ocorre em alguns países europeus e

em 11 estados norte-americanos", disse.

Os números divulgados pela Abal e pela Abralatas mostram ainda o crescimento

do desempenho nos Estados Unidos (de 51% para 52%) e Europa (de 48% para 52%).

A valorização do alumínio no mercado internacional foi o principal fator desse

crescimento: a elevação dos preços da matéria-prima aumentou a procura por sucata de

latas, principalmente pelas indústrias automotiva e siderúrgica.

"É preciso ressaltar que o mercado norte-americano, por exemplo, é dez vezes

maior do que o brasileiro. Os Estados Unidos produzem cerca de 100 bilhões de latas de

alumínio para consumo e reciclam 52% desse volume. O Brasil fabrica bem menos, 10

bilhões de latas, mas recicla 96,2%", aponta Giosa.



Em: http://www.aomestre.com.br/mab/mab.htm (06/02/2007)

Mais informações: www.abal.org.br.



Análise e comparação de dados dentro do texto (mercado brasileiro e mercado norte-

americano) e comparação com dados da tabela:

Reciclagem de latas de alumínio – dados de 2005









OU

Reciclagem do alumínio – dados de 2004.

Reciclagem de alumínio, cooperativas e questão social







Recorde de reciclagem está ligado à exclusão social



A coleta de latas usadas envolve aproximadamente 130 mil sucateiros no Brasil,

vivendo hoje exclusivamente desta atividade com renda média de dois salários mínimos

- dados do Cempre (Compromisso Empresarial para a Reciclagem). Esses catadores são

responsáveis por 50% do suprimento de sucata de alumínio à indústria. A outra parte é

recolhida por supermercados, escolas, empresas e entidades filantrópicas.

O alto valor do material no mercado de sucata contribui bastante para o aumento

do número de pessoas trabalhando na coleta de latinhas. O grande consumo de bebidas

enlatadas gera uma quantidade imensa de latas usadas. Pessoas, na maioria das vezes

desempregadas, catam latinhas, vendendo-as posteriormente como meio de renda.



Cooperativas



Impulsionada por homens, mulheres e crianças de baixa renda, a indústria da

reciclagem do alumínio no País deu um grande salto nos últimos quatro anos. Em 1991,

eram recicladas 37% das latinhas. Em 1996, subiu para 61,3%. Atualmente, o Brasil

lidera, pelo quinto ano consecutivo, o ranking mundial de reciclagem de latas de

alumínio. Em 2005, foram reaproveitadas 96,2% das latas usadas. Segundo dados

divulgados pela Associação Brasileira do Alumínio - ABAL e pela Associação

Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade - ABRALATAS, o Brasil

atingiu a marca de 127,6 mil toneladas de latas de alumínio recicladas por ano. Para

Marcelo do Ó, da Abal, não há uma grande incidência de crianças envolvidas na venda

de latinhas de alumínio no Brasil. “As cooperativas procuram não comprar sucata de

crianças, para não incentivar o trabalho infantil”, disse ele.

Entretanto, o trabalho informal urbano infantil – onde as crianças catadoras de latas

estão incluídas – ainda não está erradicado, nem perto disso. Ele está presente em

diversos estados, e a população não percebe, pois a maioria das crianças trabalha

ajudando os pais. Isso porque quanto mais gente da família catando nos lixões ou nas

ruas, maior será a renda da família no final do mês.



Liderança do ranking



Segundo as empresas Abal e Abralatas, outros fatores têm contribuído para o

aumento da reciclagem no Brasil. São eles a adesão da classe média à coleta seletiva, a

formação de cooperativas com boa gestão, a busca da sociedade por modelos de

preservação e a educação ambiental.

O engajamento da classe média pode ser comprovado por números. Levantamento

realizado pelo setor mostrou que, entre 2000 e 2005, a participação de condomínios e

clubes na coleta de latas usadas passou de 10% para 24%. A atuação crescente de

cooperativas e associações de catadores em todo o país também está refletida nos

resultados do levantamento. A participação dessas entidades na coleta de latas de

alumínio passou de 43% em 2000 para 52% em 2005.

O Brasil está à frente de países com legislação rígida sobre reciclagem de

materiais, como é o caso da Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suíça. Em 2004 esses

paises apresentaram índice médio de 88%. Os números brasileiros superam países

industrializados como Japão e EUA. Em 2004, os Estados Unidos recuperaram 51% de

suas latinhas. O Japão, 91,7%.



O mercado das latinhas



A reciclagem de latas de alumínio é importante para o meio ambiente e a para a

economia. Cerca de R$ 30 milhões são poupados por ano ao reciclar alumínio. O preço

pago por uma tonelada de latas de alumínio é, em média, de R$ 3.500 - o quilo equivale

a 75 latinhas. Assim, 1 Kg de latinhas custa R$ 3,50. O consumidor recebe nos postos

de troca (supermercados) um bônus para ser descontado nos estabelecimentos

credenciados com valor correspondente ao número de latas entregue para reciclagem.

Algumas campanhas promovem a troca de latas por equipamentos úteis a escolas e

entidades filantrópicas - 5.250 mil latas valem um ventilador de parede, 179,2 mil uma

foto-copiadora e 80,5 mil um microcomputador.



Adaptado de - http://www.codic.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=394,

acessado em 06/02/2006. / Fonte (dados, estatísticas): www.andi.org.br







FLUXOGRAMA

Tipos de Reciclagem

Cada vez mais, a sociedade tem se preocupado com a importância da reciclagem

e com a reutilização das matérias-primas da natureza.

A reciclagem é a revalorização de descartes a partir de operações, que convertem

certos materiais em matéria-prima para a produção de outros produtos. Além de

ecologicamente correta, a reciclagem, pode ser viável economicamente e lucrativa, tanto

para os recicladores como para as indústrias de transformação.

Existem atualmente três tipos de reciclagem: a Reciclagem Mecânica, a

Reciclagem Química e a Reciclagem Energética.



Reciclagem Mecânica

Entre os tipos de reciclagem citados acima, a Reciclagem mecânica de plásticos

é o processo mais conhecido. Neste processo, a qualidade do produto final depende

principalmente da qualidade do produto a ser reciclado, ou seja, depende da qualidade

dos descartes encaminhados para a reciclagem.

A Reciclagem Mecânica consiste na transformação de descartes plásticos de

origem industrial e do consumo da população em grânulos que podem ser reutilizados

para a produção de outros produtos.

A seguir é apresentado um fluxograma que descreve o ciclo de Reciclagem Mecânica:



Produto descartado



Pós-consumo Pós-industrial



Coleta de descartes



Separação e triagem por tipos de plásticos



Compactação e enfardamento



Venda de fardos para indústrias de reciclagem



Trituração / moagem



Lavagem --- tratamento da água ----- reutilização da água



Secagem



Extrusão / granulação



Produto granulado



Processos de transformação



Produto reciclado



Descrição das Etapas

Coleta de Descartes: consiste na coleta seletiva, gerada nos domicílios. Esta etapa pode

ser considerada a principal, pois desperta a consciência ecológica e necessita da

participação da população.

Separação e Triagem por tipo de plástico: esta etapa é realizada em um centro de

triagem, onde o descarte plástico é separado manualmente por famílias de produtos.

Devido a isto, nesta etapa é importante observar a identificação na embalagem do

produto, se não existir a identificação, a separação é realizada observando-se o aspecto

visual do mesmo.

A identificação de produtos plásticos é caracterizada por um sistema de codificação, que

identifica o material com que foram confeccionados os produtos. A vantagem da

separação de acordo com o código do material, está na diminuição de contaminação

entre materiais que possuem propriedades incompatíveis, o que dificultaria o seu

processamento.

A seguir são apresentados os símbolos que podem ser encontrados em produtos

plásticos:



Polietileno Tereftalato Polietileno de Alta Densidade





Policloreto de Vinila (PVC) Polietileno de Baixa Densidade



Polipropileno Poliestireno Outros materiais



Compactação e Enfardamento: uma vez separados e triados os descartes plásticos são

compactados e enfardados em prensas hidráulicas presentes nos centros de triagem,

estes fardos são vendidos posteriormente para Empresas de Reciclagem.



Trituração e Moagem: nesta etapa o material é moído e triturado em partes menores. O

equipamento que realiza a moagem do material é o moinho, este equipamento possui

um conjunto de facas que estão montadas sobre um rotor giratório e outras facas que

estão presas a carcaça do moinho, estas cortam o material em pequenos pedaços.

Lavagem: o material moído é lavado com água para a retirada de impurezas. É

importante que a água utilizada na lavagem, seja tratada para poder ser reutilizada.

Secagem: a etapa de secagem elimina o excesso de água que o material moído contém.

A secagem consiste no aquecimento de ar que é forçado a passar por entre o material

moído, removendo sua umidade.

A secagem para materiais higroscópicos - material que apresenta grande capacidade de

absorver água e umidade do ar - é extremamente importante, uma vez que o excesso de

água pode prejudicar o processamento com este material.

Extrusão-Granulação: a extrusora é alimentada com o material moído. Nesta etapa há a

plastificação e homogeneização do material. Em seguida são extrudados perfis que são

chamados de "espaguetes", estes são resfriados em um tanque com água circulante.

Logo após os perfis são cortados em grânulos.

O produto granulado, uma vez obtido, pode ser reutilizado nos processos de

transformação (injeção, extrusão, sopro, etc..) é recomendável que o material passe

novamente por um processo de secagem.



Dicas para contribuir com a Reciclagem Mecânica do Plástico:



Selecionar as embalagens de plásticos dos demais materiais

Enxaguá-las

Retirar seus rótulos;

Amassá-las para que ocupem menos espaço;

Armazená-las em local limpo e seco;

Entregar em postos de coleta seletiva.



Em: http://www.cefetrs.edu.br/~gedea/tipos.htm


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