Prova simulada de filosofia para o vestibular UFPR/2007 by 7iduUqQ

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									  Parâmetros para a prova de FILOSOFIA
                 no VESTIBULAR/UFPR
                                                                        (2ª. Versão)
                                                                 Universidade Federal do Paraná
                                                                      Departamento de Filosofia
                                                                  Curitiba, 04 de março de 2006




Eduardo Salles O. Barra
Emmanuel Appel
Geraldo Balduino Horn
Luiz Antonio Eva
Paulo Vieira Neto
Rodrigo Brandão




                                                                           Apresentação:


Em novembro de 2005, a comissão designada pelo Departamento de Filosofia e Núcleo de
Concursos para propor um programa para a prova de Filosofia do vestibular da UFPR trouxe a
público os primeiros resultados dos seus trabalhos, com a finalidade de receber contribuições
de professores de Filosofia, colegiados de cursos e gestores das políticas públicas para o
ensino da Filosofia. Estamos agora prestando conta dos primeiros aperfeiçoamentos da
proposta original resultantes desse diálogo com nossos interlocutores prioritários.
        Como na primeira versão desses parâmetros, é aqui inicialmente apresentada uma
proposta de programa da prova (com acréscimos e modificações significativas em relação à
primeira versão). Em seguida, na seção “Simulado”, o programa da prova é detalhado a partir
de exemplos de questões recolhidas de provas de Filosofia em vestibulares realizados
recentemente em universidades brasileiras. Esse detalhamento – é bom que isso fique bem
claro – não diz respeito necessariamente ao conteúdo bibliográfico do programa, mas às suas
orientações gerais quanto a habilidades e competências requeridas dos candidatos. As
questões escolhidas estão classificadas em quatro grupos, cada qual com outras subdivisões
internas. A classificação dessas questões corresponde à orientação proposta para a
estruturação das futuras provas da UFPR, que em sua maior parte deverão contemplar as
mesmas espécies de questões aqui transcritas e discutidas.
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As questões versarão sobre temas e problemas de diferentes áreas da filosofia (lógica, ética,
estética, epistemologia, metafísica e filosofia política, entre outras) e serão formuladas a partir
de textos clássicos da história da filosofia, de diferentes épocas e orientações teóricas. Na
avaliação, levar-se-á em conta a habilidade do candidato para identificar e compreender teses,
argumentos, conceitos, polêmicas e problemáticas filosóficas presentes nos textos ou deles
decorrentes. Será também requerido do candidato que revele conhecimento das circunstâncias
históricas mais imediatas da produção e da recepção dos textos em análise, mediante a
consideração das suas interlocuções com a tradição filosófica e cultural.
          A prova de filosofia pretende, portanto, aferir a competência dos candidatos numa
prática que é, sob qualquer perspectiva que se encare a formação filosófica no ensino médio,
rigorosamente indispensável: a leitura de textos filosóficos. Os pressupostos pedagógicos e
filosóficos dessa orientação para a prova são (i) que as habilidades acima descritas constituem
instrumentos universais para exercício da leitura reflexiva e crítica de textos filosóficos e (ii) que
aquelas habilidades poderão ser despertadas, aprendidas e aperfeiçoadas independentemente
dos textos ou dos autores analisados.
          Portanto, as indicações bibliográficas para a prova de filosofia que aqui se farão não
devem ser encaradas como o resultado da identificação de um minimum de leituras que o
estudante do ensino médio deve realizar durante as aulas de Filosofia. Visto que o objetivo não
é averiguar conhecimentos cumulativos e textuais da história da filosofia, mas a capacidade de
compreender e discutir textos filosóficos no contexto das questões e dos debates clássicos da
filosofia, muitos outros tipos de formação e de preparação prévia são compatíveis com os
objetivos da prova, mesmo aqueles que não contemplem o estudo das obras abaixo indicadas.
          Todavia, as questões da prova serão circunstanciadas em determinados textos
filosóficos e, para uma boa preparação que contemple uma maior familiaridade com os objetos
de análise nas questões e com a terminologia consagrada pelos textos empregados na sua
formulação, recomenda-se a leitura prévia desses textos. Os textos indicados são os seguintes:

          DESCARTES, René. O Discurso do Método [trad. Bento Prado Jr.] São Paulo: Nova
              Cultural, 1987, 4.ed. (Col. Os Pensadores)
          MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe [trad. Lívio Xavier] São Paulo: Nova Cultural, 1987,
              4. ed.(Col. Os Pensadores)
          PLATÃO. A República: Livro VII. [trad. Elza Moreira Marcelina] Brasília: Editora UnB,
              1996, 2.ed.
          SARTRE, Jean Paul. O Existencialismo é um Humanismo [trad. Rita Correia Guedes]
              São Paulo: Nova Cultural, 1987, 3. ed. (Col. Os Pensadores)


(Obs.: As referências feitas aqui a determinadas edições das obras indicadas têm como
       objetivo apenas estabelecer um padrão; elas podem ser substituídas, sem qualquer
       prejuízo, por outras no mesmo nível ou ainda melhores, quando for o caso. São
       públicos e notórios os equívocos grosseiros cometidos em determinadas traduções de
       textos filosóficos fartamente disponíveis no mercado editorial brasileiro. O objetivo da
       indicação dessas edições é apenas possibilitar um patamar mínimo de rigor e
       qualidade acadêmica para a avaliação das edições a serem utilizadas na preparação
       para a prova.)
                                                                                                    3
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Grupo de questões 1: Análises de textos


1.1. Análise do conteúdo intrínseco ao texto proposto

1.1.1. Questão discursiva:                             caminho escolhido por Sócrates para a
                                                       elaboração de sua defesa.
                                                                                (Vestibular UFMG/2003)
Leia estes trechos:

À parte a questão da honra, senhores, não              1.1.2. Questão objetiva:
me parece justo pedir e obter dos juízes
minha absolvição, em vez de informá-los e              Leia com atenção esta passagem
convencê-los.                                          introdutória de A Lógica da Investigação
...............................................        Científica (1934), de Karl Popper
Pode alguém perguntar: "Mas não serás
capaz, ó Sócrates, de nos deixar e viver                       1. O problema da indução
calado e quieto?" De nada eu convenceria
alguns dentre vós mais dificilmente do que             “Costuma-se chamar de „indutiva‟ a uma
disso. Se vos disser que assim                         inferência se ela passa de enunciados
desobedeceria ao deus e, por isso,                     singulares (também chamados, algumas
impossível é a vida quieta, não me dareis              vezes, enunciados “particulares”), tais
fé, pensando que é ironia; doutro lado, se             como as descrições dos resultados de
vos disser que para o homem nenhum bem                 observações      ou    experimentos,     aos
supera o discorrer cada dia sobre a virtude            enunciados universais, tais como hipóteses
e outros temas de que me ouvistes praticar             ou teorias. Ora, de um ponto de vista
quando examinava a mim mesmo e a                       lógico, está longe de ser óbvio que
outros, e que vida sem exame não é digna               estejamos justificados ao inferir enunciados
de um ser humano, acreditareis ainda                   universais a partir dos singulares, por mais
menos em minhas palavras. Digo a pura                  elevado que seja o número destes últimos;
verdade, senhores, mas convencer-vos                   pois qualquer conclusão que obtemos
dela não me é fácil. Acresce que não estou             dessa maneira pode acabar sendo falsa:
habituado a julgar-me merecedor de mal                 não importa quantas ocorrências de cisnes
nenhum.                                                brancos possamos ter observados, isto não
..............................................         justifica a conclusão de que todos os
Perdi-me por falta, não de discursos, mas              cisnes são brancos.”
de atrevimento e descaro, por me recusar a
proferir o que mais gostais de ouvir,                  Segundo Popper, “indução” é:
lamentos e gemidos, fazendo e dizendo
uma multidão de coisas que declaro                     (a) Uma inferência que passa de
indignas de mim, tais como costumais ouvir                 particulares a universais.
dos outros. [...] Quer no tribunal, quer na            (b) Um método físico para o exame, tanto
guerra, não devo eu, não deve ninguém                      das partículas, quanto do universo.
lançar mão de todo e qualquer recurso                  (c) Um raciocínio cuja justificação lógica é
para escapar à morte.                                      derivada de hipóteses e teorias.
                                                       (d) Um método impróprio no caso da
       PLATÃO. Defesa de Sócrates. (35c-38e). São          zoologia, mas não nas demais
              Paulo: Abril Cultural, 1972. p. 26-31.
                                                           ciências.
                                                       (e) Um método lógico que nos permite
Com base na leitura desses trechos e em                    concluir com segurança que certas
outras informações presentes nesta obra                    teorias são válidas a partir da
de Platão, REDIJA um texto sobre o                         observação
                                                                      (Vestibular UFPR/2001 – adaptado)
                                                                                                     4
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Comentário:

Para além de uma questão interpretativa                           Isso se mostra na questão 1.1.1, na
genérica, esta espécie de questão tem sua               qual, embora seja solicitado o uso de
especificidade filosófica garantida, não                informações adicionais, admite uma
apenas pelo conteúdo do próprio texto,                  resposta com base apenas nos textos
mas também pela natureza daquilo que se                 propostos (embora não se exclua a
pretende que o candidato seja capaz de                  possibilidade do uso de outros elementos
identificar, através da consideração de                 que possam enriquecer a resposta).
teses, conceitos e argumentações ali                              Já a questão 1.1.2 pode ser
presentes. Embora sejam privilegiados os                respondida       apenas    com    base     na
próprios textos da bibliografia (podendo ser            interpretação do texto oferecido, ainda que
citados trechos diretamente a partir deles),            a atividade de estudo de temas da filosofia
não se exclui a possibilidade de serem                  da ciência (eventualmente conexos com
usados textos diversos, na medida em que                obras da bibliografia sugerida) possa
possam ser relacionados a temas e                       facilitar sua resolução.
problemas       centrais    propostos     na
bibliografia
1. 2. Análise do texto proposto considerando o seu contexto

1.2.1. Questão discursiva:                                                         (Vestibular UFU/2001)

De acordo com Descartes:                                1.2.2. Questão objetiva:

a razão (...) “é naturalmente igual em todos            Escolha a única alternativa correta
os homens; e, destarte, que a diversidade               Segundo Sartre, "A existência precede a
de nossas opiniões não provém do fato de                essência"; pode ser interpretado como:
serem uns mais racionais do que outros,                 (a) O homem se define pelo caminho que
mas somente de conduzirmos nossos                           vai trilhando em sua existência e não
pensamentos por vias diversas e não                         pelo significado do conceito de homem.
considerarmos as mesmas coisas. Pois                    (b) A existência humana depende do plano
não é suficiente ter o espírito bom, o                      que Deus determina a cada criatura.
principal é aplicá-lo bem.”                             (c) O materialismo define a vida e o
                                                            espírito não existe.
       DESCARTES. Discurso do Método, para bem          (d) O entendimento que se tem de
       conduzir a própria razão e procurar a verdade
       nas ciências. São Paulo: Nova Cultural, 1987,
                                                            "natureza humana" é o que vai
                                                p.29.       direcionar a existência humana.
                                                        (e) A liberdade não participa do contexto
Com relação ao fragmento acima,                             da existência do homem.
                                                                                   (Vestibular UFU/1997)
responda:
Quais são as vias diversas, que prejudicam
a boa aplicação da razão?

Comentário:
Uma boa resposta para a questão 2.1.1                            Já a resposta da questão 2.1.2
(que    pode    naturalmente   apresentar               exigiria que o aluno esteja familiarizado
diversos    graus   de   aprofundamento)                com uma obra do autor eventualmente
requereria que o aluno recorra às                       proposta na bibliografia (neste caso, “O
discussões cartesianas sobre os prejuízos               Existencialismo é um Humanismo”) A
da infância, sobre o poder da educação e                resposta correta é resposta A.
principalmente do costume, e sobre a
necessidade do método como condição
para o conhecimento da verdade.

Grupo de questões 2: Interlocuções


2.1. Interlocuções com a tradição filosófica
                                                                                                     5
                                                                                                     1
                                                                                                     3

2.1.1. Questão discursiva:                            experiência como a uma escrava para
                                                      conformá-la às suas opiniões”.
O comentário abaixo foi feito por Kant                       BACON, Francis. Novum Organum. Trad. de
(1724-1804) para justificar o início do novo                   José Aluysio Reis de Andrade. 4. ed. São
estágio da filosofia moderna, almejado com                            Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 33.
a sua obra Crítica da Razão Pura.
                                                      Com base no texto, assinale a alternativa
"Até agora se supôs que todo nosso                    que        apresenta  corretamente       a
conhecimento tinha que se regular pelos               interpretação que Bacon fazia da filosofia
objetos; porém, todas as tentativas de                aristotélica.
mediante conceitos estabelecer algo a
priori sobre os mesmos, através do que o              (a) A filosofia aristotélica estabeleceu a
nosso conhecimento seria ampliado,                        experiência como o fundamento da
fracassaram sob esta pressuposição."                      ciência.
                                                      (b) Aristóteles consultava a experiência
      Kant. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Nova        para estabelecer os resultados e
      Cultural, 1987. p.14. Coleção "Os Pensadores"       axiomas da ciência.
                                                      (c) Aristóteles     afirmava     que      o
A partir desta citação, explique em que
                                                          conhecimento         teórico    deveria
consiste    a   Revolução        Copernicana
                                                          submeter-se, como um escravo, ao
realizada por Kant na filosofia.
                             (Vestibular UFU/2001)        conhecimento da experiência.
                                                      (d) Aristóteles      desenvolveu       uma
2.1.2. Questão objetiva:                                  concepção de filosofia que tem como
                                                          conseqüência a desvalorização da
                                                          experiência.
“[...] Aristóteles estabelecia antes as
                                                      (e) Aristóteles valorizava a experiência,
conclusões, não consultava devidamente a
                                                          por considerá-la um caminho seguro
experiência para estabelecimento de suas
                                                          para superar a opinião e atingir o
resoluções e axiomas. E tendo, ao seu
                                                          conhecimento verdadeiro.
arbítrio, assim decidido, submetia a                                              (Vestibular UEL/2005)

Comentário:
Nesse tipo de questão, o candidato será               oposição seja em apoio a alguma outra
solicitado a trata das interlocuções entre as         idéia correlata anteriormente disponível e,
filosofias presentes (ainda que o "presente"          eventualmente, aceita. O filósofo articula
aqui represente algo tão distante quanto              seu pensamento sempre em diálogo com
foram os séculos de Bacon e Kant) e                   alguma tradição, e talvez nisto resida a
aquelas outras tradições filosóficas do               receita para a sua eventual originalidade:
passado      com     as    quais    real   ou         uma atitude de profunda atenção,
potenciamente rivalizavam. Um resultado               dedicação e reverência aos autores e
adicional desse tipo de questão é suscitar            filosofias do passado, concomitante a um
uma reflexão sobre o fato das idéias                  sentimento contestador e iconoclasta que
freqüentemente emergirem           seja em            prenuncia o novo e o inesperado.
2.2. Interlocuções com a tradição cultural

2.2.1. Questão discursiva:                            si das doçuras de um comércio
Leia este trecho:                                     independente; mas, desde o instante em
                                                      que um homem sentiu necessidade da
"Enquanto os homens se contentaram com                ajuda de outro, desde que se percebeu ser
suas cabanas rústicas, enquanto se                    útil a um só contar com provisões para
limitaram a costurar com espinhos ou com              dois, desapareceu a igualdade, introduziu-
cerdas suas roupas de peles [...] – em uma            se a propriedade, o trabalho tornou-se
palavra: enquanto só se dedicaram a obras             necessário    e    as   vastas   florestas
que um único homem podia realizar, e a                transformaram-se em campos aprazíveis
artes que não solicitavam o concurso de               que se impôs regar com o suor dos
várias mãos, viveram tão livres, sadios,              homens e nos quais logo se viu a
bons e felizes quanto o poderiam ser por              escravidão e a miséria germinarem e
sua natureza, e continuaram a gozar entre             crescerem com as colheitas."
                                                                                                          6
                                                                                                          1
                                                                                                          3

        ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e          A responsabilidade para Sartre diz respeito:
          os fundamentos da desigualdade entre os
         homens. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p.
                                           264-265.        (a) ao indivíduo para consigo mesmo, já que o
.                                                              existencialismo é dominado pelo conceito
A partir das idéias contidas nesse trecho e                    de subjetividade que restringe o sujeito da
em outros conhecimentos presentes nessa                        ação à sua esfera interior, circunscrita pelas
obra de ROSSEAU, COMENTE a relação                             suas representações arbitrárias, que exclui o
estabelecida pelo autor entre progresso e                      outro; toda escolha humana é a escolha por
desigualdade.                                                  si próprio.
                              (Vestibular UFMG/2002)       (b) ao vínculo entre o indivíduo e a
                                                               humanidade, já que para o existencialista,
2.2.2. Questão objetiva:                                       cada um é responsável por todos os
O nada, impensado para Parmênides, encontrou                   homens, pois, criando o homem que cada
em Sartre valor ontológico, pois o nada é o                    um quer ser, estaremos sempre escolhendo
ponto de partida da existência humana, uma vez                 o bem e nada pode ser bom para um, que
que não há nenhuma anterioridade à existência,                 não possa ser para todos.
nem mesmo uma essência. Esta tese apareceu                 (c) à imagem de homem que pré-existe e é
no livro O Ser e o Nada. Tal afirmação                         anterior ao sujeito da ação. É uma imagem
encontra-se também em outro texto, O                           tal qual se julga que todos devam ser, de
existencialismo é um humanismo, no qual está                   modo que o existencialismo, em virtude da
escrito:                                                       sua origem protestante com Kierkegaard,
                                                               renova a moral asceta do cristianismo, que
"Porém, se realmente a existência precede a                    exige a anulação do eu.
essência, o homem é responsável pelo que é.                (d) ao partido político que tem a primazia na
Desse modo, o primeiro passo do                                condução do processo de edificação da
existencialismo é o de pôr todo homem na posse                 nova imagem de homem comprometido
do que ele é, de submetê-lo à responsabilidade                 com a revolução e que faz de cada um
total de sua existência."                                      aquilo que dever·ser, tal como ficou célebre
                                                               no mote existencialista: o que importa é o
       SARTRE, J.P. O existencialismo é um humanismo.          resultado daquilo que nos fizeram.
         Trad. de Rita Correia Guedes. São Paulo: Nova                                  (Vestibular UFU/2003)
          Cultural, 1987, p. 6. Coleção "Os Pensadores".


Comentário:

As questões exploram as possibilidades de                  pode ser fruto de um conhecimento mínimo
estabelecer diálogos entre os textos                       das conseqüências das ações fundadas
filosóficos e os demais produtos culturais.                nas deliberações individuais desprovidas
Para melhor realizar o solicitado, por                     de vínculos sociais e culturais, nos códigos
exemplo, na questão 2.2.1, isto é, o                       das religiões ou nos programas dos
comentário do texto sob a ótica de uma                     partidos políticos. Ambas as questões
inevitável relação causal entre progresso e                dizem respeito a teses filosóficas cuja
desigualdade, um razoável conhecimento                     inteligibilidade e eventual crítica dependem,
do pensamento social e econômico na                        em grande medida, da possibilidade de
época de Rousseau poderia ser de grande                    situá-las e confrontá-las às circunstancias
valia. O mesmo se pode dizer da questão                    históricas, sociais e culturais nas quais
2.2.2, na qual um melhor desempenho                        surgiram e vicejaram.
2.3. interlocuções intertextuais

2.3.1. Questão discursiva:                                 bens que possuímos são maiores e mais
                                                           estimáveis do que eles são e ignorando os
Leia estes trechos:                                        que nos faltam, ou não parando para
                                                           considerá-los, ou se é melhor ter mais
Trecho 1                                                   consideração e saber, para conhecer o
                                                           justo valor de uns e de outros, e com isto
      Senhora,                                             tornar-se mais triste. Se eu pensasse que o
      Algumas vezes eu coloquei a mim                      soberano bem fosse a alegria, eu nunca
mesmo uma dúvida: saber se é melhor                        duvidaria de que deveríamos dedicar-nos a
estar alegre e contente, imaginando que os                 tornarmo-nos alegres a qualquer preço, e
                                                                                             7
                                                                                             1
                                                                                             3
eu aprovaria a brutalidade daqueles que              nacional-socialista em torno do corpo e da
afogam suas mágoas no vinho ou as                    beleza, Riefenstahl ganhou fama em todo o
atordoam com o fumo. Mas eu distingo                 mundo. Mas também a estampa de
entre o soberano bem, que consiste no                ideóloga nazista.”
exercício da virtude[...] e a satisfação do
espírito que acompanha esta posse. É por                             O ressurgimento de Leni Riefenstahl.
                                                                                          Disponível em:
isto que é uma maior perfeição conhecer a                  <http://www.uol.com.br/fsp/mais/fs1911200006
verdade, mesmo que desvantajosa a nós,                                    .htm> Acesso em 20 nov. 2002.
que ignorá-la, e eu confesso que é melhor
estar    menos    alegre     e   ter   mais          “Sem dúvida Benjamin, como Marcuse, vê
conhecimento.                                        na arte de massa do fascismo, que surge
                                                     com a pretensão de ser política, perigo de
        DESCARTES, R. Carta a Elizabeth, de 6 de
                               outubro de 1645.
                                                     uma falsa dissolução da arte autônoma.
Trecho 2:                                            Essa arte propagandística dos nazistas
                                                     liquida efetivamente a arte como uma
Uma senhora vitoriana, mulher de um                  esfera autônoma, mas atrás do véu da
bispo, ficou famosa devido a um                      politização ela está a serviço, na verdade,
comentário que fez sobre a evolução. Não             da estetização do poder político bruto.”
era tanto a respeito da circunspecta A
                                                             FREITAG, Bárbara; ROUANET, Sérgio Paulo
origem das espécies (1859), de Darwin,                      (Orgs.). Habermas. São Paulo: Ática, 1990. p.
mas sobre o beligerante livro de T. H.                                                              175.
Huxley, O lugar do homem na natureza
(1863). O jovem defensor de Darwin                   Com base nos textos acima e em seu
afirmara que o homem “não está separado              conhecimento sobre a relação entre
dos animais por barreiras estruturais                cinema e política, é correto afirmar:
maiores do que aquelas que separam os
animais uns dos outros”. Ao ouvir isso, a            (a) O     caráter    autônomo     da    arte
referida senhora mostrou-se perfeitamente                cinematográfica impede que suas
integrada na cultura: “Descender de                      produções sejam apropriadas por
macacos! Meu caro, esperamos que não                     regimes políticos, tais como o nazismo
seja verdade, mas se for, rezemos para                   e o fascismo.
que não se fique sabendo! ”                          (b) A propaganda ideológica contida nos
                                                         filmes encomendados pelo nazismo
        SHATTUCK, Roger. Conhecimento proibido.          valorizou a arte enquanto uma esfera
      São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.16-
                                                         autônoma.
                                               17.
                                                     (c) A arte cinematográfica ao ser
IDENTIFIQUE e ANALISE a posição                          transformada        em      propaganda
expressa, em cada um desses trechos,                     ideológica de regimes autoritários
com relação à busca da verdade.                          como o nazismo perde seu caráter de
                           (Vestibular UFMG/2004)        esfera autônoma.
                                                     (d) Os filmes de Leni Riefenstahl
2.3.2. Questão objetiva:                                 constituem-se      em     documentários
                                                         destituídos de qualquer natureza
“Leni Riefenstahl destacou-se nos anos 20
                                                         ideológica ou de propaganda do regime
e 30 como cineasta, dirigindo, entre outros,
                                                         nazista.
documentários encomendados pelo líder
                                                     (e) A propaganda nazista, veiculada pelo
da propaganda nazista, Joseph Goebbels.
                                                         cinema, tornou a arte um instrumento
Com os filmes “Triunfo da Vontade” (1935),
                                                         de crítica das desigualdades sociais.
sobre o culto ao “Führer” Adolf Hitler, e                                          (Vestibular UEL/2003)
“Olímpia” (1938), um exemplo da devoção

Comentário:

As questões acima permitem explorar um               necessário     preencher     um     vazio
tipo muito particular de interlocução,               argumentativo e conceitual presente entre
aquelas que os autores dos textos postos             um texto e outro. Obviamente, as pistas
frente a frente nunca pretenderam ou                 para esse preenchimento já se encontram
mesmo suspeitaram de seus possíveis                  de maneira mais ou menos explícita nos
pontos de conflito ou de consenso. Isso              próprios textos, mas isso naturalmente
significa que, para respondê-las, será
                                                                                                          8
                                                                                                          1
                                                                                                          3
apenas na medida em que                     sejam
satisfatoriamente compreendidos.



Grupo de questões 3: Outras linguagens


3.1.1. Questão discursiva:                             “Muitos argumentaram que a guerra contra o
Leia esta afirmação:                                   terrorismo é a desculpa esfarrapada do governo
                                                       Bush [George W. Bush] para construir um
“Os homens normais não sabem que tudo                  império clássico, no modelo do romano ou
é possível.”                                           britânico. Dois anos depois de iniciada a
                                                       cruzada, fica claro que isso é um erro. A gangue
          David Rousset, citado por Arendt, Hannah.    de Bush não dispõe da persistência compulsiva
                Origens do totalitarismo. São Paulo:   necessária para ocupar sequer um país, quanto
               Companhia das Letras, 1998. p. 337.
                                                       mais uma dúzia deles.”
Observe esta fotografia:                                      KLEIN, Naomi. Império cria „franquias‟. Folha de
                                                                         São Paulo, 07 de setembro de 2003.

                                                       “Creio que isto [a usurpação de um principado]
                                                       seja conseqüência de serem as crueldades mal
                                                       ou bem praticadas. Bem usadas se podem
                                                       chamar aquelas (se é que se pode dizer bem do
                                                       mal) que são feitas, de uma só vez, pela
                                                       necessidade de prover alguém à própria
                                                       segurança, e depois são postas à margem,
                                                       transformando-se o mais possível em vantagem
                                                       para os súditos. Mal usadas são as que, ainda
                                                       que a princípio sejam poucas, em vez de
                                                       extinguirem-se [as crueldades], crescem com o
                                                       tempo.”
                                                                MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Trad. Lívio
                                                                 Xavier. São Paulo:Nova Cultural, 1987. p. 38.
                                                                                    Coleção “Os Pensadores”

                                                       O primeiro texto afirma a falácia do argumento
                                                       da política bélica norte-americana após 11 de
                                                       setembro de 2001. O texto de Maquiavel faz
                                                       menção aos resultados do emprego da violência
                                                       para a conquista de novos principados e,
                                                       conseqüentemente, a expansão do poder
REDIJA um texto estabelecendo uma                      despótico. Por que os recursos à agressão e à
correlação entre a fotografia e a citação.             fraude são ineficazes, tal como assevera a autora
                            (Vestibular UFMG/2002)     do primeiro texto, só fazendo aumentar a
                                                       violência e a instabilidade política, como
3.1.2. Questão discursiva:                             concluiu Maquiavel, no segundo texto citado?
                                                                                      (Vestibular UFU/2003)
Analise os dois textos abaixo:


Comentário:
Esta terceira espécie de questões é feita a            mostrando sua capacidade de identificar
partir de outras linguagens (poesia, texto             questões filosóficas em outra linguagem
jornalístico, artes plásticas, fotografia etc.)        que não aquela própria da filosofia. Este
com o intuito de suscitar discussões                   tipo de questão além de aferir a
filosóficas, de acordo com a bibliografia              capacidade do candidato de redigir um
sugerida. São questões que têm por                     texto argumentativo, também visa a cumprir
objetivo exigir do candidato a redação de              uma outra exigência, o diálogo da filosofia
um texto argumentado e coerente,                       com distintas manifestações culturais.
                                                                                              9
                                                                                              1
                                                                                              3
        A questão 3.1.1. pode ser                 propaganda e massificação, (v) o problema
respondida de maneiras muito diversas.            do mal e o nazismo, (vi) responsabilidade e
Não deixando de ser uma questão aberta,           liberdade e (vii) história e política.
ela,   no     entanto,    demanda     certas               Já a questão 3.1.2 permite que o
considerações sobre problemas filosóficos         candidato parta de uma linguagem mais
como a condição humana, o problema do             conhecida, o texto jornalístico, para daí
mal e o da liberdade, relacionando a eles         discutir tanto questões mais próximas,
uma linguagem distinta (fotografia). Na           como a política externa norte-americana,
verdade, fotografia e texto interagem para        quanto temas tradicionais da filosofia
suscitar elementos para uma discussão de          política, como a guerra e a violência. Na
caráter filosófico, remetendo o candidato a       verdade, esta questão, pela citação de um
questões de seu tempo bem como a                  texto filosófico, dirige a resposta a
problemas da tradição. As diversas                considerações calcadas na análise de
respostas       podem      ser     avaliadas      elementos importantes da obra sugerida. O
considerando-se, além de sua coerência e          candidato pode ser avaliado a partir de sua
argumentação, alguns elementos que                capacidade de relacionar, de modo
devem estar presentes na redação, tais            argumentado e coerente, questões de seu
como (i) o sentido de “homens normais” e          tempo expostas em linguagem que lhe
sua relação com um evento como a                  sejam próximas a problemas de cunho
Segunda         Guerra      Mundial,      (ii)    filosófico, a saber: (i) poder e violência, (ii)
considerações       sobre   ética,   guerra,      guerra e política, (iii) a manutenção e
violência e política, (iii) a questão dos         expansão do poder.
regimes totalitários, (iv) política, mídia,




Grupo de questões 4: Críticas


4.1.1. Questão discursiva                         4.1.2. Questão discursiva
"Não devemos recorrer à verdade na                "Tudo compreender é tudo desculpar?"
formulação de nossos argumentos."                 REDIJA um texto, posicionando-se em
ARGUMENTE a favor de ou contra essa               relação a essa pergunta.
afirmação.                                                                  (Vestibular UFMG/2003)
                         (Vestibular UFMG/2003)



Comentário:

Pretende-se, por meio deste gênero de             os lados. Pensar criticamente, portanto, é
questões, aferir a capacidade crítica do          algo bastante diverso do que se confunde
candidato. De fato, é comum entre nós             com isso pelos seus sinais externos; é ser
tomar o termo “crítica” como sinônimo de          capaz de pensar em sentido próprio,
detração ou desqualificação (e não                segundo uma independência reflexiva
raramente como ataque pessoal), mas isso          criteriosa, que pode conduzir, acerca de
é resultado, antes de mais, de uma                um mesmo problema, a posições
compreensão pouco crítica desse próprio           favoráveis ou contrárias, segundo o sentido
termo. Pensar criticamente, porém, é ser          e a circunstância precisa com que tal
capaz de empregar critérios próprios e            problema possa ser considerado.
adequados para refletir sobre determinado                  Naturalmente, tal capacidade está
tema ou problema, segundo as exigências           diretamente relacionada com a capacidade
conceituais que objetivamente ali se              do candidato em compreender as posições
impõem; ser capaz de detectar aspectos            sustentadas pelos autores, tanto no que
diversos que podem se fazer pertinentes,          concerne ao seu sentido, quando às razões
por vezes originando ambigüidades;                que se possam oferecer a seu favor, em
balancear adequadamente os argumentos             contraponto com as razões contrárias que
que possam ser apresentados de ambos              servem como pano de fundo destas. É
                                                                                          1
                                                                                          0
                                                                                          1
neste     sentido    que     questões    de            A outra questão (4.1.2), do mesmo  3
interpretação poderão ser propostas com       modo, solicita que o candidato redija um
base na bibliografia sugerida.                texto posicionando-se diante da pergunta
         Um exemplo disso é a primeira        “Tudo compreender é tudo desculpar?”.
questão acima (4.1.1), na qual a própria      Além de permitir ao candidato desenvolver
formulação do problema dirige o candidato     linhas argumentativas diversas, permite-lhe
ao texto filosófico (ver questão 1.1.1        igualmente enriquecer sua resposta com
acima): ainda que não seja absolutamente      base na compreensão de um texto da
indispensável para que o candidato possa      bibliografia    proposta   em      que      se
respondê-la, o texto aparecerá ao aluno       apresentem         problemas       filosóficos
devidamente preparado como um recurso         clássicos, tais como o problema da relação
enriquecedor da discussão que poderá ser      entre liberdade e da determinação das
encetada a partir da frase proposta. De       ações, e o problema da relação entre razão
modo alternativo, essa questão poderia ser    e sentimento. Avaliar-se-á a capacidade do
desdobrada, por exemplo, numa solicitação     candidato em compreender a questão e em
de que o candidato considere tanto os         se posicionar coerentemente a partir dela,
argumentos      favoráveis     quanto    os   distinguindo com clareza possibilidades
argumentos contrários a essa formulação       diversas e opostas de posicionamento.
(podendo, certamente, posicionar-se ao fim
da discussão a partir desse contraponto)

								
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