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A DESCONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO HOMEM MODERNO PELO
PROGRESSO NA OBRA A CAVERNA DE JOSÉ SARAMAGO
Gisabele Nascimento Fontoura Lass1
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem por objetivo, demonstrar a desconstrução da identidade do homem
moderno pelo progresso tratada no livro A Caverna de José Saramago, relacionando–a com o
Mito da Caverna de Platão e a atualidade.
Saramago possui um estilo próprio e diferente de discorrer sobre temas universais, com
assuntos e proposições que se estendem a tudo ou por toda a parte. A leitura do romance A
Caverna, remetida ao mito da Caverna de Platão, quando se percebe que o mundo atual leva a
humanidade a viver as mesmas dificuldades, é focada na pressão do desenvolvimento
tecnológico da desconstrução da identidade do homem moderno.
A temática do autor está sempre ligada a uma indagação da busca de identidade, onde o
individual e o coletivo se confundem em um processo de desvelamento de uma realidade. O
pós-modernismo lança um olhar sobre o passado ultrapassando as barreiras formais da história.
Porém, longe de apontar soluções, o pós-modernismo faz refletir criticamente sobre o passado
e o presente.
Lançado a 16 de novembro do ano 2000, no mesmo dia em que o autor completou 78
anos, A Caverna, de José Saramago, é mais uma obra que faz pensar e passa a compor obras
que possuem como temática central a época presente. Este romance fecha uma trilogia
involuntária com Ensaio sobre a Cegueira (1995) e Todos os Nomes (1998); sendo o primeiro,
publicado após o escritor ganhar o Nobel de Literatura de 1998. Apesar de terem temas
completamente diferentes uns dos outros, as obras mostram a visão do autor sobre o mundo
atual. A Caverna disseca através da história de pessoas comuns, o impacto destruidor da nova
economia sobre as economias tradicionais e locais.
A personagem principal do relato é Cipriano Algor, um oleiro que luta para sobreviver
como indivíduo, através do seu empenho em manter a sua tradicional profissão em um universo
dominado pela produção em massa. É um viúvo recente que vive com a sua filha e seu genro,
em um lugar próximo a uma grande cidade, em um ambiente que Saramago descreve como
1
Versão adaptada do trabalho de conclusão de curso (TCC) orientado pela professora Dicléia Schaffel e
apresentado em novembro de 2007.
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transição entre o mundo marcado pela produção em escala e o não-urbano. Assim como o foco
simbólico do espaço da família Algor é o forno no qual o oleiro produz seus objetos, o foco
simbólico da ordem da cidade é um enorme complexo comercial-residencial. Pode o próprio
shopping center ser comparado a uma caverna, mas a história vai além desta comparação,
traçando paralelos inclusive com o mito da Caverna de Platão. Trata-se da exemplificação de
como é possível se libertar da condição de escuridão que aprisiona os indivíduos através da luz
da verdade.
Portanto, este estudo será desenvolvido tomando por objeto de análise o livro A
Caverna de José Saramago que mostra a marginalização do homem moderno pelo progresso
que anula a sua individualidade. Pretende-se no primeiro capítulo fazer um panorama sobre
alguns aspectos da individualidade no pós-modernismo, tomando-se por base, teóricos como
Hall (2004) e Augé (1994), que trazem contribuições importantes para o estudo da perda da
identidade do homem moderno. A seguir, se apresentará uma pequena idéia sobre o pós-
modernismo.
No segundo capítulo será feito um apanhado geral sobre o autor José Saramago, no
sentido de conhecer o seu estilo de escrever. No terceiro, será realizado um estudo da obra A
Caverna. No quarto capítulo se seguirá outra, que constará de dados sobre o Mito da Caverna
de Platão para que se possa extrair os elementos que se assemelham ou diferenciam do livro
estudado. E para finalizar, apresentar-se-á idéias que definam e estabeleçam argumentos que
dêem conta de justificar os motivos que levam o homem a perder a sua identidade no mundo
atual.
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1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Por ser uma das formas de expressão cultural de um povo, a literatura na maioria das
vezes, busca a sua referência no que Marc Augé denomina “lugar antropológico”. Em A
Caverna, José Saramago destrói as referências desse lugar, que confere ao homem uma
identidade, define sua relação com o meio, bem como o situa em um contexto histórico.
A supressão da identidade sob o olhar que o pós-modernismo lança ao passado,
ultrapassa as barreiras formais da história. Especificamente, a atitude pós-moderna consiste em
tecer leituras do passado, tomando por parâmetro a consciência de que o conhecimento que se
tem dele nada mais é do que a textualização das impressões humanas acerca dos eventos.
No livro Não-Lugares (1994), Marc Augé analisa a relação do homem com o espaço, a
questão da identidade e da coletividade. Ele designa “não-lugar” todos os dispositivos e
métodos que visam à circulação de pessoas, em oposição à noção sociológica de “lugar”, isto é,
à idéia de uma cultura localizada no tempo e no espaço. Segundo Augé os espaços em que os
indivíduos vivem, necessitam de uma reavaliação, pois estes vivem em um mundo em que
ainda não aprenderam a olhar.
Ao analisar as relações entre o homem e o seu grupo social, Augé nos alerta para o fato
de que a organização e a constituição de lugares são um dos desafios e uma das modalidades
das práticas coletivas e individuais para a busca de identidade. As coletividades têm
necessidade de pensar, simultaneamente, a identidade e a relação e de simbolizar os
constituintes das diferentes formas de identidade: da identidade partilhada – pelo conjunto de
um grupo; da identidade particular – de um grupo ou de um indivíduo ante outros e da
identidade singular – naquilo em que o indivíduo ou grupo difere de todos os outros. Todas as
antigas raízes, que marcam o lugar antropológico, que pretende ser identitário, relacional e
histórico são desfeitas.
Assim, o lugar antropológico-cultural é substituído pelo não-lugar, pela provisoriedade
da subsistência, pela redução dos códigos de convivência social a um estado de barbárie, em
que será preciso aprender a viver de novo, a construir novos parâmetros para a identidade.
É relevante, observar, no entanto, que no não-lugar, recompõem-se alguns lugares, até
porque os lugares evocados pelos ritos da memória, onde se encontram inventariados, nunca se
apagam completamente, assim como o não-lugar se realiza totalmente. Graças à reconstituição
das relações humanas, ainda que sob novos códigos e regras, o não-lugar é impedido de existir
em uma forma pura. O espaço do não-lugar liberta aquele que lá penetra das amarras de sua
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vida habitual, a tal ponto que, enquanto passageiro desse não-lugar, pode até mesmo ser capaz
de gozar, momentaneamente, as alegrias passivas dessa desidentificação com o eu.
A presença do passado no presente se expressa em uma polifonia em que o velho e o
novo se cruzam, na evocação de uma temporalidade contínua. Ao mesmo tempo em que as
personagens evocam os lugares da memória, os substituem para o lugar antropológico do qual
já não fazem parte, gerando assim comportamentos que se coadunem com esse novo padrão de
existência. Segundo Augé o que o indivíduo procura é a sua diferença, a nítida revelação de
uma identidade perdida.
Saramago faz uso de um recurso tipicamente pós-moderno ao confrontar os princípios
de civilização com aqueles que são levados a construir. Instaurando e subvertendo situações, o
autor deixa entrever no texto interrogações que encenam o paradoxo pós-moderno de ser ao
mesmo tempo cúmplice e crítico das normas predominantes. O fio condutor do romance A
Caverna leva não só as personagens como também o leitor a refletirem sobre as relações entre
o individual e o coletivo. Sendo assim, não só as personagens, mas o leitor também é
passageiro no não-lugar que a escritura encena. Se não há modelos a serem seguidos e se o
referencial do nome e do lugar já não são suficientes, cabe ao leitor, assim como às
personagens, traçarem individualmente a sua trajetória. A nova identidade é construída a partir
de um novo pensar coletivo.
Em um mundo, no qual já não se crê nas narrativas mestras, no discurso
homogeneizante da modernidade, há que pensar a diferença. Se por um lado o pós-
modernismo reconhece que os discursos são instrumentos de poder, que enunciam verdades,
graças a sua capacidade de moldar práticas, por outro lado, o discurso pós-moderno é
problematizante e inquiridor. Não há um modelo pós-moderno a ser seguido e sim um conjunto
de estratégias mais ou menos freqüentes que sugerem o que se convencionou chamar pós-
modernismo.
No plano da diegese é no não-lugar que as contradições da natureza humana se revelam
e são experimentadas. No plano da narração, por ser espaço transitório do pensamento e da
reflexão sobre o romance enquanto obra de arte, é onde as estratégias novas e antigas se
encontram, onde passado e presente se cruzam no ato constante de recriar; a escritura revela-
se o lugar onde, por meio da exposição do caos, o leitor é convidado a repensar o mundo em
que vive.
O texto de Marc Augé esclarece quanto ao modo pelo qual o indivíduo resolve os
resquícios do passado como uma maneira de manter vivo o lugar antropológico do qual faz
parte. Mais do que isso, seu texto chama atenção para o fato de que o habitante do lugar
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antropológico vive na história e, não faz história. É no lugar da memória, contrapondo passado
e presente, que o homem constrói a sua diferença.
O descentramento do sujeito, a multiplicidade de vozes e o discurso intertextual
sugerem um deslocamento ainda maior, na direção da pluralidade e da heterogeneidade que são
as marcas do pós-moderno. O tema que norteia o romance A Caverna, a questão da alteridade,
está em consonância com a retórica pluralizante do pós-modernismo.
Neste início de século fala-se muito em crise de identidade do sujeito. O homem da
sociedade moderna tinha uma identidade bem definida e localizada no mundo social e cultural.
Mas uma mudança estrutural está fragmentando e deslocando as identidades culturais de classe,
sexualidade, etnia, raça e nacionalidade. Se antes, estas identidades eram sólidas localizações,
nas quais os indivíduos se encaixavam socialmente, hoje elas se encontram com fronteiras
menos definidas, provocando no indivíduo uma crise de identidade.
A chamada crise de identidade é vista como parte de um processo mais amplo de
mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e
abalando os quadros de referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no
mundo social.
O próprio conceito de identidade é muito complexo, pouco desenvolvido e pouco
compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova, sendo
impossível fazer afirmações conclusivas sobre proposições teóricas.
Alguns teóricos acreditam que as identidades modernas estão entrando em
colapso, o argumento se desenvolve da seguinte forma. Um tipo diferente de
mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do
século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe. Gênero,
sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham
fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações
estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que
temos de nós mesmos como seres integrados. Esta perda de um “sentido de si”
estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do
sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu
lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma “crise
de identidade” para o indivíduo. Como observa o crítico cultural Kobena
Mercer, „a identidade somente se torna uma questão quando está em crise,
quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela
experiência da dúvida e da incerteza‟ (MERCER, 1990, p. 43)
Distinguem-se três concepções muito diferentes de identidade. Primeiro, o sujeito do
Iluminismo, visto como um indivíduo centrado, unificado, dotado de capacidades de razão, de
consciência e de ação, cujo centro consistia num núcleo interior, que emergia quando o sujeito
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nascia e com ele se desenvolvia, e esse centro essencial era a identidade da pessoa. Ou seja, a
identidade era algo nato do indivíduo.
Em segundo, o sujeito sociológico era o reflexo da crescente complexidade do mundo
moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-
suficiente, mas era formado na relação com outras pessoas, que mediavam para este sujeito os
valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele habitava. Ou seja, o indivíduo era
produto do meio. A identidade, então, une o sujeito à sociedade. Estabiliza os sujeitos e os
mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e
predizíveis.
Argumenta-se, entretanto, que é exatamente isso que está mudando hoje. O sujeito com
uma identidade unificada e estável está se tornando fragmentado, compondo-se não mais de
uma única identidade, mas de várias, resultando na terceira concepção, o sujeito pós-moderno.
Este não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se móvel,
formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados
ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. O sujeito assume identidades diferentes
em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente.
A globalização é o caráter de mudança na modernidade que mais tem impacto sobre a
identidade cultural atual. As sociedades modernas mudam constante, rápidas e
permanentemente.
As sociedades da modernidade tardia são caracterizadas pela diferença; elas
são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem
uma variedade de diferentes „posições de sujeito‟ – isto é, identidades – para
os indivíduos. Se tais sociedades não se desintegram totalmente não é porque
elas não são unificadas, mas porque seus diferentes elementos e identidades
podem, sob certas circunstâncias, ser conjuntamente articulados. Mas essa
articulação é sempre parcial: a estrutura da identidade permanece aberta. Sem
isso, não haveria nenhuma história.(HALL, 2004, p. 17).
A globalização é entendida como um complexo de processos e forças de mudança que
está deslocando as identidades culturais nacionais na atualidade. A globalização se refere
àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando
e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o
mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado. A globalização implica um
movimento de distanciamento da idéia sociológica clássica da sociedade como um sistema bem
delimitado e sua substituição por uma perspectiva que se concentra na forma como a vida social
está ordenada ao longo do tempo e do espaço. Essas novas características temporais e espaciais
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estão entre os aspectos mais importantes da globalização a ter efeito sobre as identidades
culturais.
O impacto que a globalização tem sobre as identidades culturais é a aceleração dos
processos globais, de forma que se sente que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, que
os eventos em um determinado lugar têm impacto imediato sobre pessoas e lugares situados a
uma grande distância. O mundo tornou-se uma aldeia.
Nas sociedades pré-modernas, o espaço e o lugar eram amplamente
coincidentes, uma vez que as dimensões espaciais da vida social eram, para a
maioria da população, dominadas pela presença – por uma atividade
localizada... A modernidade separa, cada vez mais, o espaço do lugar, ao
reforçar relações entre outros que estão „ausentes‟, distantes (em termo de
local), de qualquer interação face-a-face. Nas condições da modernidade..., os
locais são inteiramente penetrados e moldados por influências sociais bastante
distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente aquilo que está
presente na cena; a „forma invisível‟ do local oculta as relações distanciadas
que determinam sua natureza. (GIDDDENS, 1990, p. 18 - p.72).
Alguns teóricos culturais argumentam que a tendência em direção a uma maior
interdependência global está levando ao colapso de todas as identidades culturais fortes e está
produzindo a fragmentação de códigos culturais, a multiplicidade de estilos, a ênfase no
efêmero, no impermanente e na diferença e no pluralismo cultural. Os fluxos culturais, entre
nações, e o consumismo global criam possibilidades de identidades partilhadas. À medida que
as culturas nacionais tornam-se mais expostas a influências externas, é difícil conservar as
identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do
bombardeamento e da infiltração cultural.
A difusão do consumismo em escala global faz com que as diferenças e as distinções
culturais, que até então definiam a identidade, fiquem reduzidas a uma espécie de língua franca
internacional ou de moeda global, em termos das quais todas as tradições específicas e todas as
diferenças podem ser traduzidas. Esse fenômeno é conhecido como “homogeneização cultural”.
A homogeneização cultural é o grito angustiado daqueles que estão convencidos de que
a globalização ameaça solapar as identidades e a unidade das culturas nacionais. Entretanto,
como visão do futuro das identidades num mundo pós-moderno, este quadro, da forma como é
colocado, é muito simplista, exagerado e unilateral.
Outro efeito desse processo de globalização foi o de ter provocado um alargamento do
campo das identidades e uma proliferação de novas posições-de-identidade, juntamente com
um aumento de polarização entre elas. Esses processos constituem possíveis conseqüências da
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globalização, como a possibilidade de um fortalecimento de identidades locais ou a produção
de novas identidades.
A globalização tem o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e
„fechadas‟ de uma cultura nacional. Ela tem um efeito pluralizante sobre as
identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de
identificação, e tornando as identidades mais posicionais, mais políticas, mais
plurais e diversas; menos fixas, unificadas ou trans-históricas. Entretanto, seu
efeito geral permanece contraditório. Algumas identidades gravitam ao redor
daquilo que Robins chama de „Tradição‟, tentando recuperar sua pureza
anterior e recobrir as unidades e certezas que são sentidas como tendo sido
perdidas. Outras aceitam que as identidades estão sujeitas ao plano da história,
da política, da representação e da diferença e, assim, é improvável que elas
sejam outra vez unitárias ou „puras‟; e essas, conseqüentemente, gravitam ao
redor daquilo que Robins (seguindo Homi Bhabha) chama de „Tradução‟. (p.
87)
Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que estão
suspensas, em transição, entre diferentes posições; que retiram seus recursos, ao mesmo tempo,
de diferentes tradições; e que soa produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais
que são cada vez mais comuns num mundo globalizado.
Pode-se pensar na identidade, na era da globalização, como estando destinada a acabar
num lugar ou noutro: ou retornando às suas raízes ou desaparecendo através da assimilação e da
homogeneização. Mas isso pode estar errado, pois há outra possibilidade: a da Tradução, a qual
descreve aquelas formações de identidade que atravessam e intersectam as fronteiras naturais,
compostas por pessoas que foram dispersadas para sempre de sua terra natal. Essas pessoas
retêm fortes vínculos com seus lugares de origem, mas negociam com as novas culturas em que
vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e sem perder completamente suas
identidades.
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2. PÓS-MODERNISMO
Na literatura, o conceito de pós-modernismo afirma-se, em Portugal, desde finais da
década de 70, e, tal como nas artes plásticas, prende-se a um olhar revivalista e irônico (no
sentido lúdico e de distanciação) que retoma marcas estilísticas de diferentes momentos da
tradição artística, questionando-se, sobretudo, a concepção do modernismo como movimento
inovador permanente e incessante, característico das vanguardas. Não chegando a constituir um
movimento coeso e bem delimitado, o termo indica, com maior propriedade, um conjunto de
tendências ou reações que, em parte, prolongam as aquisições formais, éticas e estéticas da
modernidade; e em parte, pretendem fazer a crítica desta última, negando ou recusando
algumas das suas características fundamentais.
Criando-se uma teia de referências de diferentes épocas e gêneros, o grau de
conhecimento destas referências, por parte do leitor, condicionará a interpretação que este faz
do texto. A citação (em sentido amplo) de outros autores e a contaminação por outros textos,
servem freqüentemente efeitos de paródia, de denúncia, ou de simples pista de reflexão. O pós-
modernismo recusa, assim, uma concepção de modernidade como vanguarda, socorrendo-se de
material de certa forma já existente que reorganiza na tentativa de criar novos sentidos.
A partir dos anos oitenta, é de assinalar o conceito de pós-modernismo para designar
uma tendência que, de certa forma, prolonga esta consciência da atualização do texto pelo
leitor. O autor não é só emissor; o leitor não é só receptor; a obra não é só obra, ou seja, todos
são sujeitos da criação. O que se cria é o que está, assim como o autor, por mais que negue,
sedento para não ser fechado, mas, ao invés disso, incorporar aquela interpretação e aquele
conjunto de subjetividades que unicamente ali, naqueles únicos indivíduos desconhecidos que
compartilham o discurso, são reconhecidas. E cada um destes é totalmente diferente de
qualquer outro.
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3. O AUTOR: JOSÉ SARAMAGO
José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, ao norte de Lisboa, Concelho
de Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, embora o registro oficial mencione o dia 18. Seus
pais eram camponeses que emigraram para a capital quando ele ainda não perfizera três anos de
idade. Fez estudos secundários (liceu e técnico) que não pôde continuar por dificuldades
econômicas. Voltou a estudar mais tarde, em curso técnico. O seu primeiro emprego foi
serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões: desenhista, funcionário
da saúde e da previdência social, editor e tradutor antes de consagrar-se como um dos mais
destacados escritores contemporâneos.
José Saramago começou a ter contato com livros ao freqüentar o curso técnico de
mecânica, estimulado pela disciplina de Literatura. Em 1947, aos 25 anos, publicou o seu
primeiro romance Terra do Pecado. Permaneceu sem publicar até 1966, quando lançou sua
segunda obra intitulada Os Poemas possíveis, a qual apresenta uma coletânea de poemas e
ensaios escritos em suas horas vagas.
Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direção literária e
de produção. Colaborou como crítico literário na Revista Seara Nova. Até meados da década de
70, Saramago se dedicou ao jornalismo, sem nunca ter freqüentado uma Universidade.
Escreveu crônicas políticas e cotidianas, além de poemas e algumas peças teatrais. Tornou-se
membro do Partido Comunista e lutou contra a ditadura salazarista e pela volta à democracia no
país.
Em 1972 e 1973 fez parte da redação do Jornal Diário de Lisboa onde foi comentador
político, tendo também coordenado durante alguns meses, o suplemento cultural daquele
vespertino. Pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre abril e
novembro de 1975 foi diretor-adjunto do Diário de Notícias.
Em abril de 1975, a Revolução dos Cravos restabeleceu a democracia em Portugal. Em
novembro deste mesmo ano, uma ação contra-revolucionária destitui o governo revolucionário
e José Saramago foi demitido do jornal português por razões políticas, e sem nenhum auxílio,
o autor decide se dedicar exclusivamente à literatura. A partir de 1976, conquistou então, o
privilégio de viver da literatura. Somente após os 60 anos de idade, sua obra ganhou o
merecimento internacional que merecia. Assim, em 1977, já publica Manual de Pintura e
Caligrafia e, em 1980, firma-se como talentoso escritor no cenário mundial com Levantado do
Chão.
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Seguem-se a estes livros grandes obras como Memorial do Convento (1982) e O Ano da
Morte de Ricardo Reis (1988). Em 1992, irritado com a reação de seus compatriotas ao livro O
Evangelho Segundo Jesus Cristo, considerado ofensivo às crenças religiosas dos portugueses, o
escritor decidiu abandonar o país. Aos 78 anos, deixou Lisboa e se refugiou na ilha de
Lanzarote, no arquipélago espanhol das canárias, onde vive ao lado de sua segunda mulher, a
jornalista sevilhana María del Pilar del Rio Sanches.
Em 1995, José Saramago parece iniciar uma nova fase em seu processo de composição,
abandonando os romances que tratavam de épocas passadas, fazendo referências críticas a
importantes momentos históricos, e passa a compor obras que possuem como temática central a
época presente. Compõe, assim, o que chamaria de sua trilogia inconsciente: Ensaio Sobre a
Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997) e A Caverna (2000). Em 1998, recebeu o prêmio
Nobel de Literatura, como reconhecimento mundial por sua excelente produção artística.
Trata-se de um escritor muito comprometido com os rumos da humanidade, o que
facilmente percebemos em várias das suas obras, nas quais demonstra que o fazer literário não
pode prescindir do momento histórico e dos problemas da vida. Sendo consciente disso, quer
em suas obras ou em seus discursos, despertar a consciência de seus leitores de que a literatura
pode ser um importante instrumento de alienação ou conscientização dos homens.
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4. A OBRA: A CAVERNA
A temática do livro resume-se de maneira simples: trata-se de um oleiro, Cipriano
Algor, morador de uma aldeia e fornecedor de louça de barro para o Centro. Em uma de suas
viagens ao Centro para levar o genro Marçal Gacho que lá ficava trabalhando por dez dias,
Algor descarrega as suas louças, ao desviar da estrada principal, passam entre as barracas e os
primeiros prédios da cidade.
Entre as barracas e os primeiros prédios da cidade, como uma terra-de-
ninguém separando duas facções enfrentadas, há um largo espaço despejado
de construções, porém, olhando com um pouco mais de atenção, percebe-se no
solo uma rede entrecruzada de rastos de tractores, certos alisamentos que só
podem ter sido causados por grandes pás mecânicas, essas implacáveis
lâminas curvas que, sem dó nem piedade, levam tudo por diante, a casa antiga,
a raiz nova, o muro que amparava, o lugar de uma sombra que nunca mais
voltará a estar. No entanto, tal como sucede nas vidas, quando julgávamos que
também nos tinham levado tudo por diante e depois reparamos que afinal nos
ficara alguma coisa, igualmente aqui uns fragmentos dispersos, uns farrapos
emporcalhados, uns restos de materiais de refugo, umas latas enferrujadas,
umas tábuas apodrecidas, um plástico que o vento traz e leva, mostram-nos
que este território havia estado ocupado antes pelos bairros de excluídos. (p.
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Quando chegam ao Centro, o oleiro deixa o genro e direciona-se à fila para descarregar
a sua mercadoria, depara-se com os prédios que estão a ser arrasados. Quando voltar dali a dez
dias para recolher Marçal, não haverá mais vestígios destes prédios, poderá até suceder que já
está a ser cavado o grande fosso onde serão abertos os cavouros e implantados os fundamentos
da nova construção.
Neste momento, ele se vê diante de uma crise não só financeira, mas, sobretudo,
existencial. O Centro só aceita a metade das louças e quer devolver o que não foi vendido. O
Centro passa a não mais acolher suas mercadorias devido a uma mudança de gosto do público
consumista, que prefere as mesmas peças só que agora fabricadas de plástico: imitam o barro,
são mais leves e têm um custo bem menor. Ele devia exclusividade ao Centro e este não se
responsabilizaria se Algor fabricasse mais peças. Há uma padronização dos produtos deste
material despersonalizando o indivíduo e criando assim um mercado impessoal.
Cipriano se vê, portanto, diante de um dilema que é a desvalorização do trabalho
artesanal pela supervalorização do trabalho tecno-industrial. De um lado, o mundo do barro que
provém da terra, da natureza; do outro, o plástico que a tecnologia oferece sem nenhum pudor e
com a intenção de “facilitar” a vida das pessoas em um mundo capitalista.
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Vai ao cemitério ver a sepultura da mulher, havia morrido há três anos, quando cruza
com uma mulher vestida de luto. Esta anuncia que iria à olaria no dia seguinte comprar um
cântaro novo, pois a asa do seu havia ficado em sua mão quando ela o levantou. Algor promete
que levaria o objeto para ela no dia seguinte e que não precisaria pagá-lo. Quando volta ao sítio
encontra um cão abrigado sobre a amoreira-preta na escuridão da noite. Conta à Marta, sua
filha, e assim começam a dar restos de comida e passam a chamá-lo de Achado. Pela manhã,
Algor leva o cântaro à vizinha Isaura.
Venho cumprir o prometido, trazer-lhe o seu cântaro, Muito obrigada, mas
realmente não devia estar a incomodar-se, depois do que conversamos lá no
cemitério pensei que não há grande diferença entre as coisas e as pessoas, têm
a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo,
Ainda assim, se um cântaro pode substituir outro cântaro, sem termos de
pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de
água o novo, o mesmo não acontece com as pessoas, é como se no nascimento
de cada uma se partisse o molde de que saiu, por isso é que as pessoas não se
repetem.(p. 62)
Marta tem a idéia de fabricar bonecos, não poderiam ficar parados. Pai e filha procuram
na enciclopédia comprada pelo pai de Algor os modelos que fariam, levando sempre em conta
a facilidade do trabalho e o gosto conhecido ou presumível das pessoas.
A enciclopédia que pai e filha acabam de abrir sobre a mesa da cozinha foi
considerada a melhor na época da sua publicação, enquanto hoje só poderá
servir indagar em saberes fora de uso ou que, nessa altura, estavam ainda a
articular as suas primeiras e duvidosas sílabas. Colocadas em fila, uma após
outra, as enciclopédias de hoje, de ontem e de transantontem representam
imagens sucessivas de mundo paralisados, gestos interrompidos e no seu
movimento, palavras à procura do seu último ou penúltimo sentido. As
enciclopédias são como cicloramas imutáveis, máquinas de mostrar
prodigiosas cujos carretes se bloquearam e exibem com uma espécie de
maníaca fixidez uma paisagem que, assim condenada a ser só, para todo o
sempre, aquilo que tenha sido, se irá tornando ao mesmo tempo mais velha,
mais caduca e mais desnecessária. A enciclopédia comprada pelo pai de Algor
é tão magnífica e inútil como um verso de que não nos conseguimos lembrar.
Não sejamos, porém, soberbos e desagradecidos, recordemos a sensata
recomendação dos nossos maiores, quando nos aconselhavam a guardar o que
não era preciso, mais tarde ou mais cedo, aí iríamos encontrar aquilo que, sem
o sabermos então, nos viria a fazer falta.(p. 74)
Decidem a escolha dos seis bonecos: o bobo, o palhaço, a enfermeira, o esquimó, o
mandarim e o assírio de barbas. São três dias de atividade intensa no papel e no barro. Algor
dirige-se ao Centro com os desenhos. Ao chegar lá, depara-se com um enorme cartaz branco,
retangular, onde, em letras de um azul brilhante e intenso, se liam de um lado a outro: VIVA
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EM SEGURANÇA, VIVA NO CENTRO. Por baixo, só duas palavras em preto: PEÇA
INFORMAÇÕES. O cartaz aparece ali algumas vezes, mudando de cor, com as mesmas
palavras e com figuras de famílias felizes, sem identidade definida, mas obrigadas a sorrir.
Afigura-se de mau agouro o convite de Marçal, Algor imagina-se com a sua família naquele
cartaz, já que Marçal afirmava que quando fosse promovido a guarda residente iriam todos
morar no Centro. Pede para falar com o chefe do departamento, mas quem o atende é o
subchefe. E antes que Algor falasse dos bonecos, este lhe informa que o Centro decidiu deixar
de adquirir os seus produtos, os que vinha fornecendo até a suspensão de compras, agora é
definitivo e irrevogável. Algor desabafa:
Já estava à espera disso, senhor, mas permita-me o desabafo, é duro, depois
de tantos anos de fornecedor, ter de ouvir semelhantes palavras, A vida é
assim, faz-se muito de coisas que acabam. Também se faz de coisas que
principiam, Nunca são as mesmas.(p. 95)
O subchefe obriga Algor a retirar a grande quantidade de artigos da sua olaria que estão
a ocupar um espaço que faz falta, no prazo máximo de duas semanas. Mostra os desenhos ao
chefe do departamento que fica de lhe dar a resposta no dia seguinte, mas já o alerta que não
poderia vender nem os bonecos e nem as mercadorias que seriam retiradas a ninguém; caso
aceitasse os bonecos, ele teria que respeitar as regras as quais já conhecia: ser fornecedor
exclusivo do Centro. Sai arrasado e arruma a sua furgoneta em uma esquina de onde se
avistava, à distância de três extensos quarteirões, a fachada descomunal
do Centro, a qual correspondia à parte que é habitada.
Exceptuando as portas que abrem para o exterior, em nenhuma das restantes
frontarias há aberturas, são impenetráveis panos de muralha onde os painéis
suspensos que prometem segurança não podem ser responsabilizados por
tapar a luz e roubar o ar a quem dentro delas vive, Ao contrario dessas
fachadas lisas, a frente virada para este lado, está crivada de janelas, centenas
e centenas de janelas, milhares de janelas, sempre fechadas por causa do
condicionamento da atmosfera interna. O edifício do Centro ,satisfaz-se com
exibir quarenta e oito andares acima do nível da rua e esconder dez pisos
abaixo dela, uma altura total de cento e setenta e quatro metros. Digamos que
a largura das fachadas menores é de cerca de cento e cinqüenta metros, e a das
maiores um pouco mais de trezentos e cinqüenta, não levando por ora em
conta, claro está, a construção do prolongamento.Obteremos como resultado
um volume de nove milhões cento e trinta e cinco mil metros cúbicos. O
Centro é realmente grande. E é ali, que o meu querido genro quer que eu vá
viver, por trás de uma daquelas janelas que não se pode abrir, dizem eles que é
para não alterar a estabilidade térmica do ar condicionado, mas a verdade é
outra, as pessoas podem, suicidar-se, se quiserem, mas não atirando-se de cem
metros de altura para a rua, é um desespero que dá demasiado nas vistas e
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espevita a curiosidade mórbida dos transeuntes, que logo querem saber
porquê. (p.101)
Pensa, então, que se casasse com Isaura Estudiosa, não precisaria morar no Centro e
nem abandonar a olaria que foi do pai e do avô. Suspira, olha ao relógio. Já era hora de recolher
o genro à porta dos serviços de segurança. Algor desabafa com o genro:
São os tempos que mudam, são os velhos que em cada hora envelhecem um
dia, é o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós que só podemos ser
o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo,
se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia
bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a
vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais do que isso. (p. 107)
Antes de chegarem a casa, Marçal quer cumprimentar os seus pais. Estes não aceitam
que o filho queira levar o sogro com ele e Marta para morar no Centro quando fosse
promovido. Na verdade, seus pais é que queriam ir.
Marçal conhece o cão Achado e implica com ele, pois lhe morde a bota. Marta lhe
conta que está com atraso de dois dias. Pai e filha esperam a resposta do Centro em relação aos
bonecos. O chefe do departamento telefona para Algor e faz uma encomenda experimental de
200 figuras de cada modelo dos bonecos. Fazem um acordo de trabalhar uma semana nas
estatuetas e uma semana para retirar a louça do Centro. Algor pede para a primeira semana ser
da construção dos bonecos, pois é mais estimulante construir do que destruir.
Filha e pai começam a desenvolver os moldes e Marta conta a Algor que está grávida.
Decidem os materiais que irão utilizar e finalmente começam pelo assírio de barbas. Algor
cuida com o tipo de serviço que a filha possa fazer sem que este a prejudicasse. Em um desses
momentos Algor fala:
Farei essa parte do trabalho lá fora, ao ar livre, o tempo está seguro. Tu estás
grávida, eu não, que se saiba, Faço o que posso, percebo que há coisas que
estão a fugir-me das mãos e outras que ameaçam fazê-lo, o meu problema é
distinguir entre aquelas por que ainda vale a pena lutar e aquelas que devem
ser deixadas ir sem pena, Ou com pena, A pena pior , minha filha, não é a que
se sente no momento, é a que se vai sentir depois, quando não houver remédio,
Diz-se que o tempo tudo cura,, Não vivemos bastante para lhe tirar a prova. (p.
156)
Chega o primeiro dia de regresso com as louças. Volta para casa e conta a filha que as
deixou em uma cova perto do rio. Comenta que se sentiu mais indignado pelo vexame que
passou do que exausto pelo esforço. Com cuidado, ele descansou no solo as diferentes peças de
louça, arrumou irmãs com irmãs, encaixou-as. As louças empilhadas cobriram em filas
regulares o recanto de chão que deveriam ficar ordenadas até a consumação do tempo.
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Finalmente termina o transporte da destruição com a ajuda de outra camioneta que conseguiu.
Algor pensa: “É o que tem de bom a associação de idéias, umas vão puxando pelas outras, de
carreirinha, a habilidade está em não deixar perder o fio à meada, em compreender que um
caco no chão, é também o seu passado de quando o não era, é também o seu futuro de não saber
o que virá a ser.” (p. 182)
Certa noite em sonho, Algor está sentado no banco de pedra, quando vê na parede
construída de tijolos refratários, a sombra de Marçal projetada contando que foi promovido e
que o sogro deveria fechar a olaria. À fraca luz que consegue entrar pela estreita porta do
forno, via a sombra agora do chefe do departamento de compras a dizer-lhe que a encomenda
de bonecos de barro acabara de ser cancelada. Ao abrir os olhos e perceber que estava na cama,
pensou em muitas coisas: Pensou que o seu trabalho se tornara definitivamente inútil, que a
existência da sua pessoa deixara de ter justificação suficiente e medianamente aceitável, Sou um
trambolho para eles, murmurou. (p. 198)
O trabalho com os bonecos continua cada vez mais árduo. Algor só interrompia-o para
comer e dormir. No quarto dia de trabalho, estava na hora de buscar Marçal novamente. Já
havia passado os dez dias. Na volta, o genro pede para parar na casa dos pais para dizer que ele
e a esposa almoçariam lá no dia seguinte e contariam uma novidade. Só a progenitora estava
em casa e pergunta se a notícia era a promoção do filho e que iriam morar com ele no Centro.
Desta forma, Marçal achou melhor contar que a notícia era a gravidez de Marta. No dia
seguinte, vão almoçar com os pais de Marçal e Algor fica a trabalhar e comer o que Marta
havia preparado e deixado para ele. Até que Isaura Madruga aparece para dizer que arranjou
trabalho na povoação, em uma loja, para atender balcão. Isaura vai embora. O casal volta do
almoço. Fica pronta a primeira fornada de trezentas estatuetas.
Algor vai levar o genro para o seu trabalho no Centro após a sua folga. Algor pede ao
subchefe que o deixe entregar os trezentos primeiros bonecos que se encontram prontos para
ver a reação dos consumidores. Volta para casa e continua o trabalho com Marta, fazendo o
molde dos próximos trezentos. Marta vai comprar lixa na loja onde Isaura está trabalhando.
Volta para casa. Já passaram os dez dias de trabalho de Marçal e quando Algor está indo buscá-
lo sente um inquieto pressentimento que algo de mal está para suceder. Volta a falar com o
subchefe que o manda levar os bonecos no dia seguinte, pois teve a idéia de fazer um inquérito
sobre a situação prévia à compra e sobre a situação decorrente do uso: distribuir por um
determinado número de potenciais compradores gratuitamente uma coleção completa de seis, e
averiguar depois que opinião lhes mereceu o artigo em poucos dias. Algor concordou. Ao pegar
o genro, este lhe conta que foi promovido. Chegam a casa e Marçal conta a Marta sobre a
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promoção e que na mudança não poderão levar as suas coisas para o Centro, pois lá já tem tudo
o que necessitam. Levarão apenas algumas peças de decoração, mudam-se as pessoas. Terão
dez dias para se mudarem, é o regulamento. Na manhã seguinte Algor e Achado levam os
bonecos acabados ao Centro. Marçal e Marta conversam sobre o pequeno desentendimento
entre pai e filha e sobre os sentimentos deles:
Zangaste-te com ele. É o mesmo problema de sempre, se não falamos somos
infelizes, e se falamos desentendemo-nos, Há que ter paciência, não é
necessária uma excepcional agudeza de visão para perceber que o teu pai está
a ver-se a si mesmo como se vivesse numa ilha que se vai tornando mais
pequena em cada dia que passa, um pedaço, outro pedaço, repara que acaba de
ir levar os bonecos ao Centro, depois voltará a casa para acender o forno, mas
estas coisas anda a fazê-las como se duvidasse da razão de ser que tiveram
alguma vez, como se desejasse que lhe apareça um obstáculo impossível de
transpor para poder dizer enfim acabou-se, Creio que tens razão,Não sei se
tenho razão, o que tento é pôr-me no seu lugar, dentro de uma semana tudo
quanto estamos a ver aqui perderá grande parte do significado que tinha, a
casa continuará a ser nossa, mas nela não viveremos, o forno não manterão seu
nome de forno se não houver quem lho dê todos os dias, a amoreira-preta
persistirá em criar as suas amoras, mas não terá ninguém que venha apanha-
las, se nem a mim mesmo, que não nasci nem me criei debaixo daquele tecto,
me vai ser fácil separar-me disto, que não se dirá do teu pai. (p. 267)
O casal vai até a casa dos pais de Marçal contar a novidade. Eles discutem porque
queriam eles irem morar no Centro. Marta chora. Vão os três até o Centro conhecer o
apartamento que irão morar: no 34º andar e mais quatorze em cima deles; os móveis são claros,
diferentes do sítio e só havia duas janelas. Observam a ala residencial do Centro:
Havia dois corredores para separar os blocos de apartamentos com vista para
fora daqueles que tinham vista para dentro. A parte habitada do Centro é
constituída por quatro seqüências verticais paralelas de apartamentos,
dispostas como placas de baterias ou de colméias, as interiores ligadas costas,
as exteriores ligadas à parte central pelas estruturas das passagens. Marta
disse, Estas pessoas não vêem a luz do dia quando estão em casa, As que
moram nos apartamentos voltados para o interior do Centro também não,
respondeu Marçal, Mas essas, como tu disseste, sempre se podem distrair com
as vistas e o movimento, ao passo que estas daqui estão praticamente
enclausuradas, não deve ser nada fácil viver nestes apartamentos, sem luz do
sol, a respirar ar enlatado durante todo o dia. (p. 278 -279)
Marçal fica para trabalhar e os dois voltam para casa. Após três dias o chefe do
departamento liga para dizer a Algor que os resultados do inquérito foram ruins, apenas duas
senhoras idosas agradeceram pelos bonecos que enfeitaram suas casas que não ficavam no
Centro. E assim, o Centro não compraria mais nada.
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A família prepara o pouco que poderia levar para a mudança. Algor vai até a casa de
Isaura pedir-lhe que tome conta do Achado. Ele se declara para ela, se beijam e se abraçam. Ele
vai embora. No dia seguinte, é o primeiro dia de trabalho de Marçal. Algor resolve andar para
descobrir os segredos do Centro. O casal combina de ir até o sítio no dia de folga. Mas este é
cancelado sob sigilo absoluto dos guardas residentes, por serem considerados mais dignos de
confiança. Descobriram uma gruta quando faziam as escavações destinadas aos armazéns
frigoríficos. A gruta deveria ser vigiada dia e noite. Marçal conta somente o que pode e que iria
trabalhar à paisana na madrugada seguinte das duas às seis. Algor pensa sobre o segredo que
Marçal não pode contar:
No essencial, um segredo é mais ou menos como a combinação de um cofre,
embora não tenhamos conhecimento dela sabemos que se compõe de seis
dígitos, que é possível até que se repita algum ou alguns deles, e que por muito
numerosas que sejam as seqüências possíveis, não são infinitas. Como em
todas as coisas da vida é uma questão de tempo e de paciência, uma palavra
aqui, outra palavra acolá, um subentendido, uma troca de olhares, um súbito
silêncio, pequenas gretas dispersas que se vão abri no muro, a arte do
devassador está em saber aproxima-las, em eliminar as arestas que as separam,
chegará sempre um momento em que nos perguntaremos se o sonho, a
ambição, a esperança secreta dos segredos não serão, afinal, a possibilidade
ainda que vaga, ainda que longínqua, de deixarem de o ser. (p. 321)
Na manhã seguinte, o subchefe liga para Algor na nova casa e pede que ele passe lá à
tarde para receber o pagamento dos trezentos bonecos, mesmo com o prejuízo do Centro que
não os vendeu. Vai receber e volta para casa com a idéia de à noite investigar. Pergunta ao
genro a que profundidade estava a escavação. Marçal diz que o acesso se faz pelo piso zero-
cinco e está a quinze ou vinte metros abaixo do chão. Marçal sai de madrugada para fazer a
vigia e Algor sai logo atrás. Mas é surpreendido por Marta que o questiona. Algor quer ver com
os seus próprios olhos. Chegou até Marçal que se assusta ao ver o sogro ali. Dá a lanterna a ele
e diz para ver o que foi procurar. Caminha até o fim da gruta, quando encontra um banco de
pedra com vultos alinhados mal definidos que apareceram e desapareceram. São corpos
humanos: três homens e três mulheres; vê restos de ataduras que parecem ter servido para
imobilizar os pescoços e ataduras iguais prendiam-lhes as pernas.
Algor começa a voltar após o chamado de Marçal que vai ao seu encontro. Algor chora.
Os dois conversam:
Sabes o que é aquilo, Sei, li alguma coisa em tempos, respondeu Marçal, E
também sabes que o que ali está, sendo o que é, não tem realidade, não pode
ser real, Sei, E contudo eu toquei com esta mão na testa de uma daquelas
mulheres, não foi uma ilusão, não foi um sonho, se agora lá voltasse iria
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encontrar os mesmos três homens e as mesmas três mulheres, as mesmas
cordas a ata-los, o mesmo banco de pedra, a mesma parede em frente, Se não
são os outros, uma vez que eles não existiram, quem são estes, perguntou
Marçal, Não sei, mas depois de os ver fiquei a pensar que talvez o que
realmente não exista seja aquilo a que damos o nome de não existência.(p.
333)
Cipriano diz ao genro que quando desceu teve a impressão de ver a base de um muro
que atravessava a gruta de lado a lado, mas sem chegar às paredes. Há apenas uma passagem ao
longo do muro. No chão vê-se uma grande mancha negra, a terra está requeimada naquele
local, como se durante muito tempo tivesse ardido ali uma fogueira.
Voltou para casa e contou tudo a Marta. Disse que se ela visse o que ele viu
compreenderia:
Aliás ainda estás a tempo de ir lá abaixo, Deixe-se de idéias, Não é fácil
deixar-se de idéias depois de se ter visto o que eu vi, Que foi que viu, quem
são essas pessoas, Essas pessoas somos nós, disse Cipriano Algor, Que quer
dizer, Que somos nós, eu, tu, o Marçal, o Centro todo, provavelmente o
mundo. (p. 335)
Algor diz que vai embora porque não quer ficar o resto dos seus dias atado a um banco
de pedra a olhar para uma parede. Após três semanas que havia ficado no Centro, pega a sua
mala, despede-se da filha e deixa um abraço para Marçal. Pega a furgoneta e dirige-se a casa de
Isaura. Chega lá e não a encontra nem o Achado. Estranha, pois é domingo, dia em que não se
trabalha. No caminho para o seu sítio, encontra Achado e em seguida Isaura, que conta-lhe que
o cão fugiu no primeiro dia, voltando para o seu sítio como se estivesse a esperá-lo. Trazia-lhe
água e comida e fazia-lhe um pouco de companhia todos os dias. A casa estava aberta. Marta
havia dado uma chave para Isaura. Esta lhe conta que certo dia dormiu em sua cama e ele lhe
diz que nunca mais ela dormiria em outra cama a não ser a dele. Conta a Isaura tudo o que lhe
ocorreu. Conforme combinado, à tarde liga para Marta e conta que Isaura ficará com ele. Marta
fala com Isaura sobre o futuro.
Quatro dias depois, Marta liga para dizer que viriam na tarde seguinte. Algor comenta
que não é a folga de Marçal. Marta manda que o pai guarde as perguntas até o dia seguinte. O
casal vem de táxi e Marçal conta que pediu demissão juntamente com mais dois colegas: um
externo e um residente. Marta diz que iria embora com Marçal. Isaura sugere ir também com
Algor. Arrumam as coisas e embarcam na furgoneta os quatro. Algor desce e vai até o forno,
pega alguns bonecos e coloca-os de pés firmes na terra molhada. Os três resolvem ajudá-lo. E
aos poucos não só diante da casa, mas também defendendo a entrada da olaria estão mais de
trezentos bonecos. E ao seguir com a furgoneta, vêem um cartaz daqueles grandes na fachada
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do Centro: BREVEMENTE, ABERTURA AO PÚBLICO DA CAVERNA DE PLATÃO,
ATRACÇÃO EXCLUSIVA, ÚNICA NO MUNDO, COMPRE JÁ A SUA ENTRADA.
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5. O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO
A Caverna de José Saramago nos remete a caverna da alegoria de Platão, conforme nos
mostra o último capítulo da obra. Este mito é uma passagem de um escrito do filósofo Platão e
encontra-se na obra intitulada A República no livro VII.
Imagine uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres
humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são
forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar
a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz
exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no
interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os
prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida
uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa
mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos,
animais e todas as coisas. Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os
prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas,
mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as
próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens
(estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não
podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a
luminosidade possível é a que reina na caverna.
Platão indaga o que aconteceria, se alguém libertasse os prisioneiros. E estes o quê
fariam libertados. Em primeiro lugar, olhariam toda a caverna, veriam os outros seres humanos,
a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora doloridos pelos anos de imobilidade, começariam a
caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele
adentrariam.
Em um primeiro momento, ficariam completamente cegos, pois a fogueira na verdade é
a luz do sol, e eles ficariam inteiramente ofuscados por ela. Depois, acostumando-se com a
claridade, veriam os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho,
enxergariam as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não viram senão
sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente
agora estão contemplando a própria realidade. Libertados e conhecedores do mundo, os
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prisioneiros regressariam à caverna, ficariam desnorteados pela escuridão, contariam aos outros
o quê viram. Poderiam tentar libertá-los ou então, muito provavelmente, teriam medo de
enfrentar a realidade de fora da caverna, para a qual não estariam preparados.
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6. CONTRAPONTO
A crise de identidade é vista como parte de um processo amplo de mudança, que está
deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros
de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo. O sintoma da crise
é o declínio das velhas identidades pautadas em paradigmas de classe, gênero, sexualidade,
etnia, raça e nacionalidade, que foram a marca da estabilização do mundo social, gerando o
surgimento de novas identidades e a fragmentação do indivíduo.
O conceito de identidade pessoal também passa por mudanças na medida em que a
visão do sujeito integrado se desfaz. Essa perda de um sentido de si ocasiona o que se
denomina deslocamento ou descentralização do sujeito. O que gera a crise de identidade é a
ação conjunta de um duplo deslocamento, a descentralização dos indivíduos tanto do seu lugar
no mundo social e cultural quanto de si mesmos.
A concepção de identidade desenvolveu-se desde a postura do sujeito do Iluminismo,
observado no personagem do oleiro Cipriano Algor enquanto produzia as suas louças de barro,
evoluindo para a concepção de sujeito sociológico, até atingir o que os teóricos definem como
sujeito pós-moderno. Do sujeito individualista do Iluminismo, centrado, dotado das
capacidades de consciência e razão, extremamente consciente da sua identidade, passou-se à
noção de sujeito sociológico, que, pela primeira vez, reconhecia a importância dos outros eus,
através dos quais os valores, sentidos e símbolos do mundo por ele habitado eram mediados.
Houve, portanto, um salto da individualização para a interação. A identidade do sujeito
sociológico resulta dessa interação entre o indivíduo e a sociedade. Embora o eu real
permaneça, ou seja, ele continuava a ser oleiro, até tentando substituir a louça de barro por
bonecos (troca o produto, mas não o material que dá origem a sua profissão), porém algo mais
moderno surge: o plástico, sua postura é terminantemente modificada pelo diálogo contínuo
com o mundo exterior. Cipriano representa algo prestes a terminar. É o homem que está em
uma situação terrível, pois a sua cultura e o seu modo de trabalhar não é mais aceito e nem
valorizado pela sociedade moderna. É o homem sufocado pela inovação e pela modernidade e
que, de repente, vê a sua existência, realização e possibilidades destruídas. O capitalismo
nascente não está nada preocupado com o destino de pessoas como Algor. Cada inovação
tecnológica trará vítimas e então é que a sociedade e os cidadãos têm que pensar quais são os
custos sociais destas inovações e que há que se atender a estes custos. O seu sujeito sociológico
se destrói, não assimila o processo. Ele é oleiro, mas para a sociedade não era mais nada. O
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progresso identificado pelo Centro na obra agrega o mundo exterior para o qual Algor não
estava preparado, suas idéias não evoluíram e em conseqüência ele ficou arcaico. A audaciosa
escolha de Cipriano Algor no final, de abandonar o Centro e voltar para casa, responde por uma
reação à massificação do mundo contemporâneo, que exila o respeito pelo homem.
Antigamente as pessoas eram formadas nas praças, na grande superfície da catedral;
modernamente o lugar central da formação das novas mentalidades é o shopping. É neste
espaço fechado que as pessoas se encontram passando uma ao lado das outras; ou estão
sentadas, olhando em frente, para uma parede por onde passam sombras, confundindo estas
sombras com a realidade. Iludem-se com as aparências refletidas nas vitrines, nos anúncios, nas
placas, nos dizeres, nos produtos e acabam por aceitar o que lhes é imposto pela massificação.
O centro comercial é o que mais se parece com uma caverna, converte-se em um espaço
público onde todo mundo vai. É uma espécie de paradigma da relação humana enclausurada.
Esta é a caverna que Saramago e Platão se referem: um mundo sem juízo de valores. A
exemplo da caverna de Platão, o shopping não tem janelas, é claustrofóbico, espaço onde não
se vê a luz do sol ou da lua, apenas as iluminações artificiais a que as pessoas são expostas. A
identidade é a responsável pela estabilização e localização do sujeito. Com isso surge um
sujeito fragmentado e destruído, sem identidade fixa permanente, que é formado e
transformado continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou
interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.
Passam-se assim, à compreensão de que o conceito de identidade unificada é uma
narrativa do eu, construída por cada um de nós, e que o homem contemporâneo vive em
permanente confronto com uma multiplicidade enorme de identidades possíveis e cambiantes,
com as quais, temporariamente pode se identificar. No Centro havia várias identidades, e é para
lá que Cipriano é levado, sem trabalho e com uma idade já avançada, é obrigado a abandonar
tudo aquilo em que sempre acreditou. Muda-se com o genro Marçal e a filha Marta que está
grávida. A vida no Centro é diferente. As pessoas não podiam circular pelo complexo
comercial: não deveriam sair de seus aposentos e nem utilizar os elevadores; já estavam
relegadas no mundo, não podiam se quer conviver umas com as outras. A exclusão social já
estava presente. Mesmo assim Algor quis descobrir coisas, pois sua curiosidade foi aguçada. E
na profundeza das escavações para a ampliação do shopping, em horas avançadas da noite,
acaba por encontrar o seu eu morto, como aqueles homens acorrentados no Mito de Platão, no
fundo da caverna, enxergando apenas através de sombras.
O conceito de deslocamento não implica substituição de um centro por outro, mas por
uma pluralidade de centros de poder. O que caracteriza a modernidade tardia é a diferença. As
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múltiplas divisões e os antagonismos sociais produzem uma variedade de diferentes posições
de sujeito, ou seja, de identidades para indivíduos, as quais passam por diversos estágios de
identificação e, ao invés, do que muitos pensam, não é algo inato. A concepção que o indivíduo
tem de si próprio como uma identidade unificada é o resultado de uma elaboração discursiva
que constrói a sua narrativa particular do eu.
A literatura, pelo seu caráter eminentemente discursivo, tem sido o espaço em que as
localizações do sujeito e as construções ou as desconstruções da identidade afloram,
permitindo-nos uma visualização clara de como os indivíduos de épocas diversas concebem ou
não suas identidades.
A questão da identidade tem sido abordada por José Saramago de modos diversos, mas
sempre como meio de desconstruir um discurso paradigmático. Ao escrever A Caverna,
Saramago nos exorta à identificação com Cipriano Algor, o homem comum que perde a sua
identidade por não se preparar adequadamente para o progresso e enfrentar as mudanças que
este exige para viver na pós-modernidade. Algor foi o culpado e não o progresso.
A Caverna revela um mundo em que a condição humana e o conhecimento são
aviltados. A multiplicação das imagens no mundo contemporâneo impede-nos de ver o que
efetivamente está ocorrendo, numa situação semelhante à que vivem os habitantes da caverna
de Platão, em que os homens, de costas para o mundo, só o imaginam a partir das sombras
projetadas nas pedras. Comparam-se a caverna de Platão com o fundo do Centro da obra de
Saramago, como as luzes de ambos.
O Mito da Caverna narrado por Platão no livro VII da República é uma das mais
poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, em qualquer tempo para descrever a situação
em que se encontra a humanidade hoje. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver
sombras a nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Essa poderosa crítica à condição dos
homens, escrita há quase 2500 anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões como é o
principal intertexto em A Caverna de Saramago. Nunca vivemos tanto, dentro daquilo que
Platão imaginou ser a caverna.
Percebe-se com o Mito da Caverna de Platão que as sombras substituíram a realidade
que existe do lado de fora. A exemplo dele, estamos acorrentados, enxergamos apenas as
sombras projetadas de fora de uma gruta escura e profunda. E essas sombras, por serem
manipuladas e impostas, são enganadoras, assim como o Centro que determinava a vida dos
personagens, no romance de Saramago.
Há, no entanto, uma diferença entre o mito da caverna de Platão e a obra A Caverna, do
escritor português. Naquela há aquele que sai da gruta e encontra a realidade; nesta, há aqueles
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que vão de fora para dentro e que, quando chegam lá ao fundo, compreendem que aquele não
pode ser o mundo deles, o nosso mundo.
Com o Mito da Caverna, Platão quis mostrar que é sempre doloroso atingir o
conhecimento. Há que percorrer caminhos bem definidos para alcançá-lo, pois romper com a
inércia da ignorância requer sacrifícios. A primeira etapa a ser atingida é a da opinião, quando o
indivíduo se ergue das profundezas da caverna e tem o seu primeiro contato com as novas e
imprecisas imagens exteriores. Nesse primeiro instante, ele não as consegue captar na
totalidade, vendo apenas algo indefinido flutuar à sua frente. No momento seguinte, porém,
persistindo em seu olhar inquisidor, ele finalmente poderá ver o objeto na sua integralidade,
com os seus perfis bem definidos. Só então, ele atingirá o conhecimento. Essa busca não se
limita a descobrir a verdade dos objetos, mas algo bem mais superior: chegar à contemplação
das idéias morais que regem a sociedade: o bem, o belo e a justiça.
A questão da identidade pode ser entrevista na reelaboração que Saramago faz do mito,
uma vez que uma visão globalizadora e massificante leva, ainda que não se queira, a uma
anulação do eu individual.
Os nomes escolhidos por Saramago para as suas personagens são significativos em
termos da parábola que narra: Algor, que significa agitação febril (que se origina no seu
desconforto moral ante a dominância de um mega centro econômico), é o sobrenome do oleiro;
enquanto que Gacho, significando o lugar do pescoço que suporta a canga, define bem o papel
do guarda do centro comercial, que vem a ser genro de Algor.
Há dois mundos: o visível em que a maioria da humanidade está presa, condicionada
pelo lusco-fusco da caverna, crendo, iludida que as sombras são a realidade; o outro mundo, o
inteligível, é privilégio de alguns poucos. Estes poucos conseguiram superar a ignorância em
que nasceram e, rompendo com os ferros que os prendiam ao subterrâneo, ergueram-se para a
esfera da luz em busca das essências. O visível é o império dos sentidos, captado pelo olhar e
dominado pela subjetividade; o inteligível é o reino da inteligência percebido pela razão. O
primeiro é o território do homem comum preso às coisas do cotidiano, o outro é a seara do
homem sábio que se volta para a objetividade, descortinando um universo diante de si.
Saramago, através desta obra, aborda questões e conflitos existenciais essenciais,
inerentes à condição humana. Leva-nos a refletir sobre a forma como encaramos os mesmos; se
são causados pela eterna cegueira do homem, que prefere a ilusão à realidade, ou se são
oriundos do fato de que o homem se perde diante das aparências e jamais chega a atingir a
essência. O escritor afirma que a sociedade atual tem todos os problemas do mundo mas não os
vê, nem quer enfrentar-se com eles. Ele quer que as pessoas não se neguem a pensar no que
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está acontecendo, pois as pessoas que estão na caverna somos todos nós, porque damos muito
mais atenção às imagens do que àquilo que é a realidade. As pessoas estão lá dentro olhando
uma parede, vendo sombras e acreditando que elas são reais, destruindo o que de mais precioso
o ser humano deve ter: a liberdade de decisão.
Saramago possui uma visão crítica e verdadeira sobre o mundo. Se esta visão mostra-se
pessimista, é dever de cada um tentar modificá-la. Atualmente, as desigualdades econômicas se
acentuam e com elas, se acentuam as desigualdades do saber. A Caverna tem o papel de
mostrar como o poder econômico, representado atualmente, pelos grandes centros comerciais e
as multinacionais, está eliminando, cada vez mais rápido, um mundo que era melhor; e mostrar
também, e por outro lado, que apesar de muitas pessoas se sentirem vencidas, podem se rebelar
contra os fatos, e mantendo a dignidade, dizer que não querem esta realidade. Portanto, há
esperança para este mundo e ela está presente em A Caverna: a relação de afeto e ternura entre
as pessoas pode ajudar a salvar a humanidade. Em um mundo em que a falta de relações
afetivas favoreceria o sistema totalitário em detrimento do desenvolvimento humano e em uma
sociedade em que as relações materiais estão acima das relações humanas, cria-se a apatia.
Atualmente, as pessoas se calam, se submetem à ordem e às ordens, não questionam,
simplesmente para não serem despojadas de seus bens materiais, os quais julgam ser mais
importantes que as relações humanas. Não se pode condenar as pessoas que agem assim, pois
são frutos da sociedade capitalista atual, porém, enquanto agirem desta maneira, pouco se
poderá mudar. O medo da polícia e da tortura que anos atrás existia, era um medo que levava à
revolta e, portanto, levava à ação; no entanto, atualmente, a insegurança, o medo do
desemprego, da miséria, paralisa e leva à submissão e à apatia. Enquanto as relações de afeto
existir e o homem não perder a sua capacidade, por menor e esparsa que seja, de se indignar e
de se opor, o mundo ainda pode ter esperanças de ser muito melhor. E foi através das relações
afetivas entre Algor e Isaura ,e Algor e o cachorro Achado, que o nosso personagem principal
de A Caverna, de José Saramago, alcançou a sua salvação. Mas, ficou a preocupação com o
neto que ainda estava para nascer, já confinado naquele ambiente. Qual seria o destino dessa
criança?
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CONCLUSÃO
A questão da identidade na obra A Caverna de José Saramago visa a uma redimensão do
eu em um mundo condicionado pelo capitalismo e pela cultura consumista, que dita modelos de
comportamentos sociais , relegando a um segundo plano os direitos do homem e o respeito ao
próximo.
Ao rever o passado com olhar moderno, ao criar uma alegoria, ao especular sobre o
sentido da vida ou mesmo, ao denunciar que a globalização econômica é uma nova forma de
totalitarismo, Saramago desenvolve em A Caverna, a história de um artesão, Cipriano Algor,
que em determinado momento, vê o fruto de seu trabalho (louças de barro) ser desprezado pelo
mercado, representado pelo Centro Comercial. Sem as vendas que realizava, ele acaba por se
mudar para o Centro, onde o genro é promovido à guarda residente. O artesão é atraído,
justamente para o coração daquilo que representa o capitalismo contemporâneo. Lá, encontra
um mundo de sombras. Sombras estas, no fundo de uma caverna que são confundidas com
imagens da realidade: uma imagem de nós mesmos. Vivemos na caverna do engano, de nossa
própria ignorância e a única forma de sair dela é o debate, a crítica, a análise. A mudança para
poder se sobreviver em uma sociedade de consumo e competitiva está no senso crítico dos
jovens, de cada um em frear o rumo que se está tomando. Em A Caverna, a capacidade crítica e
de indignação não está no mais jovem dos personagens e sim no mais velho, que resiste a se
entregar ao jugo do poder econômico.
José Saramago demonstra em sua obra que o fazer literário não pode prescindir do
momento histórico, doa problemas da vida. Sendo consciente disso, procura despertar a
consciência para os problemas existenciais, sociológicos, filosóficos e econômicos, de que a
literatura pode ser um importante instrumento de conscientização dos homens: libertação da
humanidade.
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