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Literatura infantil

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Literatura infantil
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11/29/2011
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LITERATURA: CONTANDO HISTÓRIA,

DESVENDANDO UNIVERSOS, FORMANDO LEITORES





Gisele Boucherville

Leila Avelina Júnior

Vanessa C. Reis da Paixão

Acadêmicas do Curso Normal Superior da Unipac-Tiradentes

Joana Alves Fhiladelfio (professora-orientadora – mestre em Educação pela PUC- Rio)



"Há maior significado profundo nos contos de fadas que

me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina.”

Schiller







Resumo

O objetivo teve como objetivo central aprofundar discussões sobre a importância da

literatura na formação de leitores, apontando para a necessidade de se recuperar a milenar arte de

contar histórias,para isso focaliza tanto os contos de fadas tradicionais quanto os modernos, dando

ênfase ao nosso rico folclore, ao mesmo tempo que procura explorar novas tecnologias para

contação de história, porém em sintonia com a modernidade. Nosso referencial metodológico é a

pesquisa bibliográfica enriquecida pela pesquisa de campo. O que possibilita confrontar aspetos

teóricos com as respostas de nossos entrevistados, ou seja, a prática Na análise dos dados revelou

que ouvir e ler histórias é entrar em um mundo encantador, eivado de surpresas, curiosidade, que

diverte e ensina. Essa relação lúdica e prazerosa da criança com a obra literária é uma das

possibilidades de formarmos o leitor. É na exploração da fantasia e da imaginação que instiga-se a

criatividade e se fortalece a interação entre texto e leitor.





1. Introdução: Literatura infantil, Origens e Controvérsias...

A criança não sabe ainda muito coisa quando apenas

sabe decifrar rapidamente um texto. O que importa é o gosto

e a necessidade que pode ter pelo livro.

HélèneGratiot-Alphandéry







A Literatura oportuniza ao leitor ampliar transformar e enriquecer sua experiência de vida,

uma vez que ela é veículo de manifestação de cultura e também de ideologias. Acreditamos que arte

literária, aliada a contar história é profícua para iniciar o homem no mundo literário, sendo um útil

instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade e interesse de

analisar o mundo. Nessa direção, é fundamental mostrar que a literatura da margem à ambigüidade e

à pluralidade, uma vez que uma história traz consigo inúmeras possibilidades de aprendizagem e

pode Ter diferentes significações , dependendo do universo cultural de cada leitor.

Segundo Aragão (2003), dentre outros, a literatura, independentemente de ser infantil,

infanto-juvenil ou quaisquer outros adjetivos que receba, é, antes de tudo arte e deleite. Sendo

assim, o termo infantil associado à literatura não significa que ela tenha sido feita necessariamente

para crianças. Esse autor acrescenta que a literatura infantil acaba sendo aquela que corresponde, de

alguma forma, aos anseios do leitor e que se identifique com ele.

Também Frantz (1997) assevera que a autêntica literatura infantil não deve ser feita

essencialmente com intenção pedagógica, didática ou para incentivar hábito de leitura. Este

tipo de texto deve ser produzido pela criança que há em cada um de nós, sendo que o grande

segredo é trabalhar o imaginário e a fantasia.

Nessa perspectiva, a escritora e poeta Cecília Meirelles, citada pela professora Sônia

Miranda (2001), vê a literatura como exercício de poética e beleza, escrito para qualquer pessoa e

que possa agradar a criança, permitindo, através do auto-estranhamento a reflexão e a análise, que,

em conjunto com a escola, pode conseguir desequilibrar e formar novas estruturas que levem o

sujeito a pensar com criticidade e elaborar opiniões próprias.

A literatura é a arte da palavra, quando lemos, ela nos transporta para determinados cantos

da imaginação ou do pensamento jamais visitados. A viagem é fantástica, cheia de surpresas, os

acontecimentos são imprevisíveis e nos levam a refletir, contestar, concordar, esclarecer dúvidas,

avançar horizontes. Assim o livro de literatura infantil é um rico material que estimula a vivência de

muitas emoções, algo que deve ser resgatado na vida das pessoas. A esse respeito, Cademartori

(1994, p. 23), afirma que





... a literatura infantil se configura não só como instrumento de formação conceitual, mas também de

emancipação da manipulação da sociedade. Se a dependência infantil e a ausência de um padrão inato de

comportamento são questões que se interpenetram, configurando a posição da criança na relação com o

adulto, a literatura surge como um meio de superação da dependência e da carência por possibilitar a

reformulação de conceitos e a autonomia do pensamento.





Na interação da criança com a obra literária está a riqueza dos aspectos formativos nela

apresentados de maneira fantástica, lúdica e simbólica. A intensificação dessa interação, através de

procedimentos pedagógicos adequados, leva a criança a uma maior compreensão do texto e a uma

compreensão mais abrangente do contexto. Uma obra literária é aquela que mostra a realidade de

forma nova e criativa, deixando espaços para que o leitor descubra o que está nas entrelinhas do

texto.

Primórdios da Literatura infantil...





Para Cademartori (1994) a literatura infantil divide-se em dois momentos: a escrita e a

lendária. A lendária nasceu da necessidade que tinham as mães de se comunicar com seus filhos, de

contar coisas que os rodeavam, sendo estas apenas contadas, não sendo registradas por escrito. Os

primeiros livros infantis surgiram no século XVII, quando da escrita das histórias contadas

oralmente. Foram obras de fundo satírico, concebidas por intelectuais que lutavam contra a opressão

para estigmatizar e condenar usos, costumes e personagens que oprimiam o povo. Os autores, para

não serem atingidos pela força do despotismo, foram obrigados a esconder suas intenções sob um

manto fantasioso.

Segundo Zilberman e Coelho, o início da literatura infantil pode ser marcado com Perrault,

entre os anos de 1628 e 1703, com os livros "Mãe Gansa", "O Barba Azul", "Cinderela", "A Gata

Borralheira", "O Gato de Botas" e outros. Depois disso, apareceram os seguintes escritores:

Andersen, Collodi, Irmãos Grimm, Lewis Carrol, Bush. Aragão afirma que o aparecimento da

Literatura Infantil decorre da ascensão da família burguesa, do novo "status" concedido à infância

na sociedade e da reorganização da escola. Sua emergência deveu-se, antes de tudo, à sua

associação com a Pedagogia, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em

instrumento dela.

Essas pesquisadoras afirmam que as crianças do século XVII e XVIII eram vistas como um

adulto em miniatura, sua educação era disciplinadora e punitiva. Foi segundo esse olhar que a

literatura foi escrita, mostrando o indivíduo ideal, através dos heróis e personagens românticos que

representavam as qualidades e as virtudes a serem imitadas. Essa literatura mostrava que toda

história tem um fim, com prêmios ou castigos recebidos por seus personagens.

De acordo com Cademartori (1994), no Brasil, a literatura infantil pode ser marcada com o

livro de Andersen "O Patinho Feio", no século XX. Após surgiu Monteiro Lobato, com seu primeiro

livro "Narizinho Arrebitado" Para Frantz (1997), ele foi o primeiro a escrever para as crianças

brasileiras histórias com qualidade literária, em suas histórias, como o Sítio do Pica-Pau Amarelo,

crianças e adultos vivem uma relação harmoniosa, feliz e enriquecedora para ambos.





A importância do Maravilhoso na Literatura Infantil

Há sempre lobos entre nós ...Não é protegendo as crianças ,

mas pelo contrário, expondo as progressivamente

á vida que vamos fazer delas adultos equilibrados.

Francis Ruy Vidal





Em seus primórdios, a Literatura foi essencialmente fantástica. Nessa época era inacessível à

humanidade o conhecimento científico dos fenômenos da vida natural ou humana, assim sendo o

pensamento mágico dominava em lugar da lógica que conhecemos. A essa fase mágica, e já

revelando preocupação crítica às relações humanas ao nível do social, correspondem as fábulas.

Compreende-se, pois, porque essa literatura arcaica acabou se transformando em Literatura Infantil:

a natureza mágica de sua matéria atrai espontaneamente as crianças.

A literatura fantástica foi a forma privilegiada da Literatura Infantil, desde seus primórdios

(séc.VII), até a entrada do Romantismo, quando o maravilhoso dos contos populares é

definitivamente incorporado ao seu acervo (pelo trabalho dos Irmãos Grimm, na Alemanha; de

Hans Christian Andersen, na Dinamarca; Garret e Herculano em Portugal; etc.).

Considera-se como Maravilhoso todas as situações que ocorrem fora do nosso entendimento

da dicotomia espaço/tempo ou realizada em local vago ou indeterminado na terra. Tais fenômenos

não obedecem as leis naturais que regem o planeta.

O Maravilhoso sempre foi e continua sendo um dos elementos mais importantes na literatura

destinada às crianças. Através do prazer ou das emoções que as estórias lhes proporcionam, o

simbolismo que está implícito nas tramas e personagens vai agir em seu inconsciente, atuando

pouco a pouco para ajudar a resolver os conflitos interiores normais nessa fase da vida.

A Psicanálise afirma que os significados simbólicos dos contos maravilhosos estão ligados

aos eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional. É durante

essa fase que surge a necessidade da criança em defender sua vontade e sua independência em

relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos.

É nesse sentido que a Literatura Infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser

decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta. O

maniqueísmo que divide as personagens em boas e más, belas ou feias, poderosas ou fracas, etc.

facilita à criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social.

Tal dicotomia, se transmitida através de uma linguagem simbólica, e durante a infância, não

será prejudicial à formação de sua consciência ética.. O que as crianças encontram nos contos de

fadas são, na verdade, categorias de valor que são perenes. O que muda é apenas o conteúdo

rotulado de bom ou mau, certo ou errado.

A área do Maravilhoso, da fábula, dos mitos e das lendas tem linguagem metafórica que se

comunica facilmente com o pensamento mágico, natural das crianças. Segundo a Psicanálise, os

significados simbólicos dos contos maravilhosos estão ligados aos eternos dilemas que o homem

enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.

Segundo Held (1980), em seu livro O Imaginário no Poder, “o fantástico seria o irreal no

sentido estético daquilo que é apenas imaginável; o que não é visível aos olhos de todos, que não

existe para todos, mas que é criado pela imaginação, pela fantasia de um espírito.” (p. 25)

Como observa Henri Wallon, o encantamento da abóbora de Cinderela transformada em

carruagem acontece sempre. Mas essas transformações no ponto de vista da criança, teriam o

mesmo sentido que para nós? O adulto chama de maravilhoso o que ultrapassa as normas aceitas.

Ora, no plano das interpretações e do conhecimento a criança não possui ainda normas. "A criança

que brinca de casinha sabe muito bem que está em plena ficção, e é a ficção que a faz pular quando

o adulto aceitar a entrar na brincadeira e tomar como pedaço de torta um pedaço de papel que lhe é

oferecido.”

A Literatura, Escola, Professor: construtores de consciência





Até bem pouco tempo, Literatura Infantil era considerada como um gênero secundário, e

vista pelo adulto como algo pueril (nivelada ao brinquedo) ou útil (forma de entretenimento). A

valorização da Literatura Infantil, como formadora de consciência dentro da vida cultural das

sociedades, é bem recente.

Ler histórias para criança é sempre oportunizar que elas possam sorrir e dar gargalhadas com

situações vividas pelos personagens, com idéias de um conto ou com o jeito de escrever do autor, e

então ser um pouco cúmplice deste momento de humor, de brincadeiras, de fruição. É também

suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida e, responder a tantas perguntas e encontrar

outras idéias para solucionar questões que incomodam o ser humano durante a infância (como os

personagens fizeram.).

A criança que desde muito cedo entra em contato com a obra literária escrita para ela terá

uma compreensão maior de si e do outro. Terá a oportunidade de desenvolver seu potencial criativo

e ampliar os horizontes da cultura e do conhecimento, percebendo o mundo e a realidade que a

cerca.

Para Bettelheim (1996), enquanto diverte a criança, o conto de fadas a esclarece sobre si

mesma, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis

diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça

à multidão e diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança (p.20), sendo que

as obras infantis por abordarem questões de nosso tempo e problemas universais, inerentes ao ser

humano, são excelentes para mostrar a relação entre a interpretação do texto literário e a realidade.



O professor desempenha um papel importantíssimo na formação do aluno leitor, mas

precisa ler para que seus alunos possam ser possuídos pelo texto e assim se apaixonem pela

literatura infantil. A escola, representada na sala de aula pelo professor, tem essa

responsabilidade: de fazer os alunos se apaixonarem não só pela literatura, mas também pela

leitura. Neste sentido cabe ainda discutir: se tanto precisamos fazer pela construção do leitor

considerando a literatura infantil como um caminho a ser usado pela escola, qual deve ser a

formação do professor?



O professor tem em suas mãos a tarefa de propor ao aluno situações de aprendizagens para

(re) construção do conhecimento. A literatura infantil é um instrumento que contribui para

elaboração destas situações. Ele precisa propor atividades que façam a criança refletir e construir

conhecimentos a partir da literatura infantil, porém necessita estar atento também a qualidade dos

livros a serem trabalhados. Ele deve estar consciente de que ler histórias para crianças não é só

propor uma aprendizagem. É propor que as crianças se tornem leitoras, andando por um caminho

absolutamente infinito de descobertas e de compreensão do mundo.



A escola tradicional poderá ser transformada também por professores conscientes que

resgatarão o prazer pela leitura, transformando o ato de ler numa atividade livre. O professor

também deverá promover campanhas na escola com a intenção de explicar aos pais a importância de

ter livros em casa e ler para os seus filhos ajudando-os a serem futuros.

Há necessidade de um entrelaçamento entre escola, literatura e livro. A escola sempre teve a

função de reproduzir aspectos sociais para adestrarem os alunos, para que eles obedecessem aos

padrões ideais. Hoje ela tem a função de transformar a sociedade, revendo esses valores, padrões e

ideais pregados por uma educação normativa.

A presença da leitura infantil no contexto escolar, além de representar um estímulo forte à

aprendizagem da leitura, proporciona novas e diversificadas vivências afetivas, além de

reorganização das percepções do mundo, e a criança passa a escrever melhor, a ter um repertório

mais amplo de informações. É esta a função da literatura, proporcionar a navegação, a aventura, a

criação, para tanto é fundamental a mediação do professor como estimulador.





Contar histórias.... narrar o mundo, desvendar universos

Ainda é possível, no mundo de hoje, que pessoas possam ter interesse pelos contos da tradição oral?

Qual o significado profundo desses contos para a mente infantil?

O que, afinal, sabemos sobre a influência desses contos na vida das crianças?

Abílio e Mattos (2003)





Conhecemos o fascínio das crianças pelas histórias de fadas, príncipes e princesas, bruxas,

magos, madrastas, duendes e animais que voam, falam etc. Muitas vezes, nós mesmos, adultos,

sentimos esse encantamento que os contos oferecem e nem sempre sabemos explicar por quê.

Aliando essas preocupações com a emergência dos múltiplos valores que a literatura infantil

encerra, é importante revitalizar a capacidade de fabular, mergulhar na atmosfera do fantasioso, para

melhor compreender as próprias lembranças de histórias contadas, ouvidas e lidas em nossa

infância. Sobretudo por acreditarmos que, recuperando o passado, compreendendo-o, é possível

escrever uma outra história, mais conscientemente vivida e pensada (Abilio e Mattos, 2003).

Ouvir e ler histórias é entrar em um mundo encantador, cheio ou não de mistérios e

surpresas, mas sempre muito interessante, curioso, que diverte e ensina. É na relação lúdica e

prazerosa da criança com a obra literária que temos uma das possibilidades de formarmos o leitor. É

na exploração da fantasia e da imaginação que instiga-se a criatividade e se fortalece a interação

entre texto e leitor. Quem de nós não lembra com saudades das histórias lidas e ouvidas quando

crianças? Daquela historinha contada por nossos pais ao pé da cama antes de dormir? Ou daquela

contada e interpretada pela professora nas primeiras séries do ensino fundamental?

O impulso de contar histórias deve ter nascido no homem, no momento em que ele sentiu

necessidade de comunicar aos outros alguma experiência sua, que poderia ter significação para

todos. Não há povo que não se orgulhe de suas histórias, tradições e lendas, pois são a expressão de

sua cultura e devem ser preservadas. Concentra-se aqui a íntima relação entre a interação da criança

com a obra literária está a riqueza dos aspectos formativos nela apresentados de maneira fantástica,

lúdica e simbólica. A intensificação dessa interação, através de procedimentos pedagógicos

adequados, leva a criança a uma compreensão maior do texto e mais abrangente do contexto. Uma

obra literária é aquela que mostra a realidade de forma nova e criativa, deixando espaços para que o

leitor descubra o que está nas entrelinhas do texto.

O oficio de narrar uma história traz consigo inúmeras possibilidades de aprendizagem.

Entre elas estão os valores apontados no texto, os quais poderão ser objeto de diálogo com as

crianças, possibilitando a troca de opiniões e o desenvolvimento de sua capacidade de

expressão. O estabelecimento de relações entre os comportamentos dos personagens da

história e os comportamentos das próprias crianças em nossa sociedade possibilita ao

professor desenvolver os múltiplos aspectos educativos da literatura infantil.

Poucas crianças têm o hábito de ler em nosso país. A maioria tem o primeiro contato

com a literatura apenas quando chega à escola. E a partir daí, vira obrigação, pois

infelizmente muitos de nossos professores não gostam de trabalhar com a literatura infantil e

talvez desconheçam técnicas que ajudem a "dar vida às histórias" e que, conseqüentemente,

produzam conhecimentos. Muitos não levam em conta o gosto e a faixa etária em que a

criança se encontra, sendo que muitas vezes o livro indicado ou lido pelo professor está além

das possibilidades de compreensão dela em termos de linguagem.

E para que seja descoberto este prazer, podemos usar os contos de fadas, contos

maravilhosos, jocosos, acumulativos, as fábulas, os poemas, lendas, mitos, alegorias e até

histórias em quadrinhos. Com este repertório, podemos oferecer à criança conhecimentos

sobre os diferentes tipos de textos, e escolherá ler aquele que terá mais afinidade,

espontaneamente, pois um leitor se forma de diferentes maneiras.

Fica então a metáfora traduzida por Sherazade: a liberdade se conquista com o exercício da

criatividade. Fica decretada a sentença para o professor: tecer é viver, somente através da tecitura se

conquista a liberdade de ser e viver.

Walter Benjamin destaca dois grupos pioneiros na arte de narrar: os camponeses sedentários,

mas conhecedores da tradição, e os marinheiros comerciantes. Ambos conservam o necessário

distanciamento espacial e/ou temporal para uma boa narrativa. Do primeiro grupo, vieram-nos os

contos de fadas, como forma de resistência aos desmandos dos senhores feudais (Barbosa, 1991).

Benjamin considera os narradores dos contos de fadas como os primeiros narradores verdadeiros.

Isto porque os contos de fadas sabiam dar um bom conselho quando ele era difícil de se obter.

Ofereciam ajuda numa situação de emergência provocada pelo mito. O conto de fadas é uma das

primeiras medidas que a humanidade tomou para se libertar do mito (Benjamin, 1936). São uma

forma de sobreviver à morte, pela narrativa: "e viveram felizes para sempre".

Segundo Abilio e Mattos, as narrativas da tradição são criações populares e anônimas que

sobreviveram e se espalharam, devido à memória e à habilidade de seus narradores que, de geração

em geração, se incumbiam de manter viva a tradição. Darnton (1986) afirma que essas narrativas,

em sua origem, eram destinadas a um auditório – homens, mulheres e crianças – que não sabia ler e

que se reunia, à noite, ao redor de fogueiras ou lareiras, principalmente entre os camponeses da

França medieval, para escutar o que viria a se tornar, mais tarde, material registrado por estudiosos e

folcloristas, como Charles Perrault, no século XVII, e os irmãos Grimm, no século XIX.

Através de exposição simples, essas narrativas seguem uma seqüência lógica, sem grandes

pormenores, raramente abandonando-se a ação principal pela secundária. O propósito do contador é

prender a atenção dos ouvintes, a ponto de contagiá-los e levá-los a uma participação apreciativa

durante a própria narração. Para manter a sintonia do auditório e a atenção na narrativa, o narrador

usava inflexões de voz, modulações melódicas, expressões fisionômicas e gestos, realçando, assim,

os pontos altos da história (Guimarães, 2001).

Os velhos, por serem considerados improdutivos numa sociedade capitalista, fazem do

preconceito que sofrem a liberdade de poder lembrar. O velho, por estar no fim da vida, busca na

memória a sua eternidade. Daí o ritual de não-tempo criado como atmosfera narrativa. Em Cazuza

(Corrêa, 1984), Vovó Candinha encerra seu ato narrativo em um ritual de culto noturno ao deus-

palavra, ritual próprio de muitos outros contadores de histórias: "Na sua boca, as coisas simples e as

coisas insignificantes tomavam um tom de grandeza que nos arrebatava", diz Cazuza. Vovó

Candinha desfia histórias de fadas.

Contar, para o velho, é viver. Seu único sentido na sociedade capitalista. Em Corda Bamba

(Bojunga, 1988), Dona Maria Cecília compra para a neta uma contadeira de histórias, velha e

faminta, que emenda histórias, enquanto se enche de comida. Esvazia-se de história para ceder

espaço para o alimento que ingere. Passa a contar histórias para não morrer de fome, mas, esvaziada

do que conta, morre de tanto comer.

A origem da narrativa está na experiência que passa de pessoa para pessoa. No mundo

moderno, a experiência pouco importa, por isso, a narrativa, de tradição oral, perde importância e,

com ela, os narradores...

Contar é estar em linha, é estar em trança, como Rapunzel: "trança de gente", senda de

história. É saber passado, presente, futuro. O contar, sempre, é da esfera das tarefas de paciência.

Tinha paciência a mulher que tecia o fio. Numa sociedade em que tempo é dinheiro, o espaço da

narratividade é o não-tempo. Contar, viver. E, nesta carpintaria, tecelagem que é a criação, importa

o narrar. Ameaçado pela superação de sua própria humanidade, num mundo de clones e robôs, o

homem pós-moderno resgata o ofício de narrar: desta vez, sua própria história em homepages, em

histórias ouvidas e recontadas de outra forma em telenovelas...

No campo, tecendo a história da pesquisa





Em nosso nossa pesquisa-ação, tivemos a oportunidade de observar várias crianças de

diferentes níveis e escolaridade. Dessas, a grande maioria preferiram a narrativa de um contador de

história a outras atividades lúdicas. Contávamos, e ouvíamos as possíveis continuações... Nessas

horas, os sonhos se transportam, misturando à ficção dos contos como forma de transformar a

realidade e criar um futuro desejável. Acrediatamos, como Perrone-Moisés (2001) que uma das

principais função da literatura é dizer não a uma realidade injusta e mostrar que existem outras

possibilidades... que a realidade não é um dado imutável e sim uma construção... e que podemos

atuar nesse construir.

Uma outra vertente de nossa pesquisa foi investigar o que teria influenciado pessoas que

gostam de ler e de escrever. Entrevistamos, dez professores-educadores e também, o poeta e escritor

Eric Ponty, autor, dentre outros do livro infantil “O Menino Retirante vai ao circo de Brodoski”, é a

leitura dos quadros de Portinari em uma linguagem bastante acessível e agradável para as crianças e

adultos sedentos de qualidade. Ele nos conta que seus encantos com a literatura tiveram origem no

“Pequeno Príncipe”.E que a televisão não o embotou, ajudando-o a viajar e que ainda hoje é adepto

da tecnologia e do computador.

Segundo uma dessas entrevistadas, uma pedagoga, mestre em literatura infantil e com

atuações em contação de história. Ela nos relata que as crianças embalam na esfera envolvente da

imaginação, quando travestida de Dona Benta, por exemplo, eles não percebem que D. Benta é ela.

Perguntam pelo Saci, pela Narizinho, mandam recados como se não houvesse fronteiras entre a

realidade e a imaginação.

Temos vários professores entrevistados, cada um conta o que lhe marcou e o fez ser o que é

como narrador e professor. Temos também histórias amargas de desilusão com a escola e

professores que lhes fizeram tomar antipatia pela leitura.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANTZ, Maria Helena Zancan. A literatura nas séries iniciais. 2.ed. Ijuí: Unijuí, 1997. 110p.

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas: magia e técnica,

arte e política. Brasiliense: São Paulo. ::

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. 3.ed. Companhia das Letras: São Paulo, 1994.

HOMERO. Odisséia. Série Reencontro. Scipione: São Paulo, 1996. :

MELO NETO, João Cabral de. Antologia poética. 2.ed. José Olympio Editora: Rio de Janeiro, 1973.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. 17.ed. Longman: Essex, 1985.

http://www.infonet.com.br/gustavoaragao/literaturainfantil.htm

CASCUDO, Luís da Câmara. Prefácio. In: Contos tradicionais do Brasil (folclore). Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. 2. ed. São Paulo: Ática, 1991.

DARNTON, Robert. O grande massacre dos gatos e outros episódios da história cultural francesa. 2. ed. Rio de

Janeiro: Graal, 1986.

GUIMARÃES, Maria Flora. O conto popular. In: BRANDÃO, Helena Nagamine (coord.). Gêneros do discurso na

escola, v. 5. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999.

Nacional do Folclore, 1985.

MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

STRÔNGOLI, Maria Thereza. Quem conta um conto aumenta um ponto... na motivação do aluno para a leitura. In:

Leitura: teoria e prática: revista semestral da ALB, Campinas, ano 9, n. 15, junho de 1990.







Gisele não conferi se está faltando algum nome nas referências,

favor verificar...


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