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Esquema corporal
Newra Tellechea Rotta
No estudo da evolução das idéias sobre esquema corporal encontramos que, no fim do
século 19 e no início do século 20, diferentes autores passaram a se preocupar com o estudo
do corpo.
Krishaber descreve pela primeira vez alterações no que chamou “percepção bruta”, em
1873, em um paciente com perturbações da personalidade. Ribor concorda com Krishaber e
comenta o papel das perturbações sensoriais na patologia da personalidade. Uma das
primeiras tentativas para abordar este problema sob um ângulo fisiológico foi feita por Bonnier,
em 1893, quando disse que a origem de nossa atividade, a partir de todas as sensações e
percepções, nos leva sempre à noção de espaço. Mais tarde, em 1905, o mesmo Bonnier
observa que este sentido de espaço se concretiza em um esquema de corpo que chamou de
“configuração topográfica de nossa corporalidade”, ou “atitude de nosso corpo”. Surgiram,
posteriormente, os trabalhos de Pick, autor de expressão “imagem especial do corpo”; de
Schilder, sobre o “esquema corporal”, noção esta dependente não só da atividade motora,
como também dos aspectos emocionais e das necessidades biológicas. Outros autores, como
Head, conceituaram a mesma situação de diferentes formas. Para este se tratava de um
“esquema postural”, imagem tridimensional que o indivíduo tem dele mesmo. Esta imagem é
formada por muitos esquemas, que constituem o esquema original.
Von Boggaert chamou de “imagem de si” o que para Lhermitte era “imagem de nosso corpo”
e para Hécaen e Ajuriaguerra, “somatognosia”.
Segundo Lhermitte, a expressão “esquema corporal”, empregada por Bonnier, Head e
Schilder, não corresponde à realidade, pois não se trata de um esquema, e sim de uma
imagem corporal que, como toda a percepção e toda a representação, não está pronta ao
nascer. Vai sendo edificada pela criança. Lhermitte diz que a imagem que fazemos do nosso
próprio corpo não é tênue e nem um presente do céu; é uma imagem edificada peça por peça,
que assume uma estrutura sólida, capaz de suportar as perturbações a que se expõe
diariamente.
Schilder, mais tarde, diante de novos dados clínicos, amplia e sistematiza a concepção de
Head ao dizer que a imagem corporal é uma integração da Gestalt biológica e estável com uma
Gestalt em contínua modificação a partir de impressões sensoriais e motoras, de reações
conscientes ou automáticas, de condições sociais e de fatores psicológicos que se integram
em uma Gestalt individual.
Os estudos psicanalíticos muito contribuíram para o conceito de esquema corporal. A
organização do “Eu” nada mais é que a fusão do “eu” psíquico com o “eu” corporal. Para Freud
o ego é antes de tudo um ego corporal, Para Ajuriaguerra não se pode separar, na criança, o
corpo do psiquismo, já que a principal forma de ela expressar suas necessidades e suas
emoções é através do corpo.
O estudo das patologias neurológicas capazes de desintegrar a noção de esquema corporal
já adquirido pelo indivíduo adulto tem auxiliado para o conhecimento da integração dessa
mesma noção. O transtorno de nossa imagem corporal pode ocorrer por lesões em diferentes
alturas do sistema nervoso. Por exemplo, a ilusão do membro fantasma pode ocorrer desde
por uma lesão do sistema nervoso periférico nos amputados, até por lesões hemisféricas,
constituindo as alucinações cinestésicas, ou seja, a falta de conhecimento do defeito. É a
anosognosia descrita por Babinski, em que o hemiplégico nega sua paralisia, imaginando que
se hemicorpo paralisado se move normalmente.
A imagem do corpo de cada indivíduo é construída a partir de todas as formas de
sensibilidade, geral e especial, integradas com a motricidade, da integração das percepções
com o gesto e das representações com as ações.
Infância e adolescência: psicologia do desenvolvimento, psicopatologia e tratamento. Org. por José O.
Outeiral. Porto Alegre, Artes Médicas, 1982.
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O desenvolvimento do esquema corporal caminha, pois, passo a passo com o
desenvolvimento sensório-motor. No recém-nascido se observa uma confusão total entre seu
mundo interior e o mundo exterior; eles são separados progressivamente, ao mesmo tempo em
que se organizam. De uma maneira geral, o conhecimento que a criança adquire de seu corpo
é, inicialmente, parcial, regional e assimétrico. Vai sendo construído lentamente, pressupondo
a noção do espaço.
Pode-se dizer, quanto à noção de espaço, o mesmo que Guyau disse com relação a noção
de tempo e Dellais, quanto à memória: “(...) é uma obra de arte que a patologia a qualquer
momento destrói”. Como exemplo, vamos citar uma paciente com um quadro de epilepsia focal
parietal e que, de forma episódica, tinha a sensação de apresentar um membro
extranumerário, próximo ao seu braço esquerdo. Outra paciente com patologia semelhante
relatava que sua cabeça abandonava o corpo e andava alguns metros à sua frente.
Nas primeiras etapas da vida, tem grande importância a manipulação que a mãe faz no
recém-nascido e no lactente, enviando estímulos sensitivos e desencadeando respostas
motoras fundamentais para o desenvolvimento da noção de esquema corporal. A atividade do
lactente se desenvolve em um ritmo relacionado com as alterações tônicas que sofre seu
organismo, dependentes da satisfação ou não das suas necessidades. A isto Ajurriaguerra
chamou “diálogo tônico”, de grande importância para a aquisição da linguagem falada
posteriormente. A evolução da linguagem modifica a imagem corporal em desenvolvimento.
Desde a lalação até a palavra-frase, a palavra vive uma dimensão corporal que se associa com
a dimensão espacial e temporal, resultando desse conjunto a harmonia da comunicação.
A imagem do corpo é elaborada e mantida a partir de dados sensoriais. A somastesia está
entre os principais dispositivos sensoriais que possibilitam o conhecimento do nosso corpo. As
primeiras sensações intero e exteroreceptivas do feto ocorrem no quarto mês de vida intra-
uterina, primeiro na face a í uma sensibilidade mais discriminativa aparece na região da boca e
tem grande importância na sucção. Mais tarde, observa-se a maturação da sensibilidade
profunda, seguida da discriminativa e, finalmente, do sentido das atitudes segmentares e da
palestesia, que se adquirem em torno dos três aos quatro anos de idade.
Quando às sensibilidades especiais, sabemos que no oitavo mês de vida intrauterina o feto
reage a estímulos auditivos intensos. No sétimo mês fetal, o ser humano pode distinguir entre
luz e sombra e, a partir do quarto mês de vida extra-uterina, se estabelece a coordenação entre
a visão e a manipulação, aspecto essencial para a função exploratória que enriquece a noção
de esquema corporal.
No final do primeiro trimestre, a fixação ocular, somada a uma melhor motricidade, permite,
ao lactente, ver seus braços, bem como as formas humanas que se desloca ao seu redor. Até
aí, os limites do seu corpo são determinados pelos limites do espaço que ocupa. Durante o
segundo semestre, tanto o reconhecimento de formas e sons familiares, quanto a possibilidade
de permanecer sentado e de apanhar os objetos, amplia seus limites e lhe permite maior
diferenciação entre seu corpo e o espaço extracorporal. Ao engatinhar, a criança amplia, ainda
mais, seus horizontes, junto com a ampliação de suas relações pelo espaço por onde se
desloca. A experiência de observar seu corpo por inteiro é conseguida no momento em que é
capaz de permanecer de pé. Ao encontrar-se frente às outras pessoas, com uma postura
semelhante à delas, pode imitar, consciente ou inconscientemente, gestos ou atitudes que
assimila como próprios e que passam a aumentar o cabedal de elementos que já tem para a
estruturação de seu esquema corporal.
Wallon insiste, especialmente, na incorporação gradual das crianças à vida social
organizada pelo adulto.
O processo de elaboração da imagem corporal precisa, além da maturidade neurológica, de
outros fatores circundantes que dependem da relação que a criança tem com as pessoas e os
objetos que a rodeiam.
A atividade corporal preparada as operações lógicas, uma vez que a lógica repousa na
coordenação geral das ações antes de formular-se no plano da linguagem. A relação com o
mundo dos outros fica traduzida na comunicação e, em especial, na expressão gestual e
verbal.
A partir dos quatro anos de idade, com a maturação das estruturas comissurais e dos
sistemas de associação intracortical, a criança consegue realizar atos mãos complexos, porém
ainda torpes e acompanhados de sincinesias. O amadurecimento das fibras de associação,
conectando um hemisfério a outro e as diversas zonas funcionais de um mesmo hemisfério,
habilita a criança à aquisição de praxias, inicialmente ideomotrizes e, posteriormente, praxias
construtivas.
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Baseados em outros aspectos que não só os neurológicos, podemos enquadrar o pré-
escolar na classificação de Ajuriaguerra, que distingue três níveis genéticos de organização do
esquema corporal, correspondentes a três setores funcionais de conceitos do próprio corpo e
relacionados com as etapas sucessivas de organização das funções cognitivas descritas por
Piaget. Estes níveis são:
1 – “Noção sensório-motora do corpo”, ou noção do corpo em ação, ocupando um espaço
prático ou espaço de ação. É a fase das praxias ideatórias.
2 – “Noção pré-operatória do próprio corpo”, subordinada à percepção, mas ainda centrada
no próprio corpo. É a fase das praxias ideomotrizes, em que a criança é capaz de reproduzir
apenas gestos simples, mas que, gradativamente, vão se elaborando.
3 – “Noção operatória do corpo”, situada num espaço objetivamente representado. Este
espaço está diretamente ligado às operações em geral e, mais particularmente, às operações
espaciais. É esta noção de espaço que permite o desenvolvimento das praxias construtivas.
Um fato relevante na evolução psicomotora é a constatação de que a ação corporal está na
origem de todo o conhecimento: eu corporal, mundo dos objetos e mundo dos outros. Conclui-
se, portanto, que a primeira educação terá que ser sempre global, que deve ter sua origem no
vivenciado, ou seja, no propósito da educação psicomotora. O comportamento psicomotor,
ligado tanto ao conhecimento do corpo como da vida de relação, é um elemento capital na
interação da personalidade infantil.
A criança em idade escolar está na fase de maturação piramidal, extrapiramidal e
neocerebelar, ou seja, na fase de aquisição de destreza, adquirindo, progressivamente,
direção, metria, força e delicadeza.
O escolar se encontra em plena fase do desenvolvimento práxico e gnósico, da estruturação
do espaço e da seriação temporal. A integração de todos estes dados sensitivo-sensoriais leva
à maturação e ajustamento das condutas motoras, que passam a ser automatizadas, dando
expressão à perfeição tônica e à capacidade de inibição da motricidade voluntária.
O estudo das praxias na criança mostra que há um paralelismo entre o desenvolvimento
práxico e o intelectual, de tal maneira que o movimento adquire um potencal cognitivo. As
praxias, segundo Piaget, “não são movimentos quaisquer, mas sistemas de movimentos
coordenados em função de um esultado ou de uma intenção”. Temos que considerar, portanto,
a praxia numa dimensão de planos em relação ao desenvolvimento intelectual, motor e afetivo.
A partir desta conotação, podemos dizer que o moviemtno está na base da atividade simbólica
e se encontra no início da corticalização. O conhecimento do corpo e de sua disposição para a
ação se segue pelo símbolo. A linguagem do corpo antecede a linguagem simbólica. Portanto,
antes de chegarmos à aprendizagem formal é necessário estar alfabetizado com a linguagem
corporal.
Aos sete anos, a criança é capaz de integrar dados sensitivo-sensoriais que lhe permitem
adquirir a noção do seu corpo e a determinação de sua lateralidade, dando-lhe, desta forma,
condições de ler, escrever e calcular.
Podemos dizer que as dificuldades escolares são conseqüência de uma deficiente
adaptação psicomotora que engloba problemas de desenvolvimento motor, de dominância
lateral, de organização espacial, de construção práxica e de estabilidade psicoafetiva, que
levam à alteração do comportamento da criança.
O adolescente está em fase de elaboração definitiva de seu esquema corporal. Neste
momento, se desenvolvem e se instalam as seguintes habilidades:
- possibilidade de relaxamento global e segmentar;
- independência dos membros em relação ao tronco;
- independência funcional dos diversos segmentos corporais;
- noção de D e E transposta de si para os demais;
- raciocínio lógico e formal.
Como conseqüência, temos o desenvolvimento das diversas capacidades de aprendizagem,
assim como da relação mais ativa com o mundo exterior. Há uma estreita relação entre as
falhas na independência funcional dos diversos segmentos corporais e alterações funcionais e
lesionais do sistema nervoso central.
Em torno dos 12 anos de idade, ocorre uma transformação fundamental no pensamento da
criança, a passagem do pensamento concreto ao pensamento formal ou hipotético-dedutivo, o
que torna possível uma coordenação de operações que anteriormente não existiam. É a livre
atividade da reflexão espontânea, uma das diferenças essenciais entre a adolescência e a
infância.
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As modificações corporais da adolescência dão origem a um período evolutivo com
características e conflitos muito específicos, nos quais o corpo desempenha importante papel,
como base das angústias do indivíduo em crescimento. Todas estas modificações significam
uma inevitável incursão no desconhecido. O adolescente, ao deparar-se com um corpo
desconhecido, diferente daquele idealizado, está de luto pelo corpo infantil que perde, pelos
pais da sua infância, pela identidade infantil, pelas fantasias de bissexualidade, pela
endogamia e pelo corpo adolescente que desejaria ter.
Às transformações corporais correspondem transformações psicológicas que levam a uma
nova relação com os pais, com o mundo e consigo mesmo.
Através do desenho da figura humana procuraremos representar o conceito de esquema
corporal que algumas crianças em tratamento neurológico apresentam, bem como a evolução
deste conceito.
Para finalizar, gostaríamos de dizer, como Ajuriaguerra, que “a noção do esquema corporal
não é só uma noção neurofisiológica, senão uma complexa realidade vivida
neuropsicologicamente. Integra fatores percepto-motores, dinamismos instinto-afetivos e
noções cognitivas com uma longa gênese neuropsicológica que está sempre aberta a
mutações e enriquecimentos”.
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