VOCÊ SE AMA

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8/30/2009
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VOCÊ SE AMA? Quando o velejador Lars Grael, medalhista brasileiro em duas Olimpíadas, teve a perna direita decepada num acidente em setembro de 1998, todos davam a sua carreira como encerrada. Sete meses depois, voltou às regatas, usando uma prótese. "Minhas limitações hoje são muito maiores, mas a garra e a vontade de vencer são mais fortes do que elas", disse Grael à EMOÇÃO. O administrador de empresas José Augusto Minarelli, de São Paulo, enfrentou um desastre de outro tipo. Em 1979, ao voltar das férias, foi demitido do alto cargo que exercia numa firma importante. Ficou três anos desempregado. Chegou a quebrar o cofrinho do filho para pagar os trajetos de ônibus. Hoje, aos 55 anos, Minarelli tem uma empresa especializada em conseguir trabalho para executivos, com clientes no país inteiro. "De desemprego eu entendo", sorri. Há um ponto comum entre esses dois sobreviventes. Ambos possuem uma generosa reserva de auto-estima. Na hora do naufrágio, eles se agarraram a uma certeza firmemente ancorada no fundo de si mesmos: "Não importa o que aconteça, eu sou muito valioso para mim". É essa idéia que faz a diferença entre o sujeito que vai à luta para se reerguer e o que se entrega ao desânimo ou ao excesso de álcool, tornando ainda pior a sua situação. "De todos os julgamentos, o mais importante é o que fazemos sobre nós mesmos", ensina o psicólogo americano Nathaniel Branden, que se dedica ao tema da auto-estima. Segundo ele, quase todos os problemas psicológicos - da ansiedade à auto-sabotagem no trabalho e no amor, do medo da intimidade à escravidão das drogas - têm sua raiz no amor insuficiente do indivíduo por si mesmo. A auto-estima influencia tudo o que você faz, desde os atos mais banais, como barganhar o preço do tomate com o feirante, até a opção entre permanecer num emprego seguro mas sem perspectivas ou montar seu próprio negócio. Quem se ama deseja - e sabe que merece - o melhor para si. Não se trata só de ser feliz. Para muita gente, a auto-estima é uma questão de sobrevivência, diante de um mercado de trabalho que exige dos profissionais não apenas competência técnica, mas iniciativa e a coragem de correr riscos. Uma prova da atualidade do assunto é o sucesso do livro lançado em 1999 na França pelos psiquiatras Christophe André e François Lelord. O livro (A Auto-Estima - Amar a Si Mesmo Para Conviver Melhor com os Outros, ainda inédito no Brasil) está há dez meses na lista dos mais vendidos. "O livro toca, ao mesmo tempo, algo de muito íntimo e muito universal", disse André à EMOÇÃO. Narcisismo original Para avaliar a importância da auto-estima, compare a trajetória recente de dois jogadores de futebol: o brasileiro Ronaldinho e o argentino Palermo. Ronaldinho nunca mais foi o mesmo desde o vexame na final da Copa do Mundo de 1998, na França, quando "amarelou" aos olhos do mundo inteiro. Palermo virou motivo de piada na Copa América, no ano passado, ao perder três pênaltis na mesma partida. Você sabe o que aconteceu com ele? Continuou cobrando pênaltis para a seleção argentina e fazendo muitos gols. Talvez a diferença entre os dois artilheiros esteja na maneira como o fracasso eventual os afeta. "Nem sempre os indivíduos com a auto-estima elevada conseguem sucesso em seus empreendimentos", escreve o americano Nathaniel Branden. "Mas as suas derrotas, por mais graves que sejam, são um fato exterior a eles próprios." Numa pessoa com baixa auto-estima, segundo Branden, ocorre o oposto. "Quando algo não dá certo, o indivíduo se identifica com a própria derrota", explica. O insucesso, portanto, serve como uma confirmação de que ele é, essencialmente, um fracassado. O primeiro a apontar o amor-próprio como uma pré-condição para uma existência satisfatória foi o psiquiatra austríaco Sigmund Freud (1856-1938), o fundador da Psicanálise, que o chamou de narcisismo. A palavra pode dar margem a um interpretação errada, já que se tornou sinônimo de egocentrismo, vaidade exagerada. No sentido freudiano, ela significa aceitação incondicional de si mesmo. Não importam as vitórias e os reveses, a riqueza, os dotes físicos ou intelectuais, as conquistas amorosas, o sujeito portador de um saudável narcisismo se ama e pronto. É "uma boa mãe para si mesmo", como definiu o psiquiatra francês Christophe André à EMOÇÃO. Até hoje, os estudiosos da alma humana penam para explicar a auto-estima. Branden escreveu que ela é "o que sentimos a nosso respeito quando nada vai bem". André a comparou à inteligência. "A gente não consegue entendê-la direito, mas distingue-se facilmente quem a tem de quem não a tem", disse ele. No ambiente de trabalho, por exemplo, a diferença é gritante. "Por medo do fracasso", acrescenta o francês, "os funcionários com auto-estima deficiente se acomodam em postos abaixo da sua real qualificação." Há também aqueles que, com medo da rejeição no convívio social e nas relações amorosas, se tornam workaholics, viciados em trabalho, como uma forma de compensar a falta de sucesso em outras áreas. Branden alerta contra essa armadilha. "A atividade produtiva é, certamente, um valor a ser admirado", diz. "Mas quem tenta compensar a auto-estima insuficiente com o trabalho excessivo acaba por enredar-se num círculo sem fim. Por mais que se esforce, sempre achará que ainda precisa trabalhar mais." A infância é decisiva Os alicerces da nossa auto-estima são lançados muito cedo, logo no início da infância. O ponto de partida são atitudes aparentemente insignificantes - por exemplo, uma mãe que sabe sorrir para o filho quando ele requisita o seu olhar. A partir de que idade é possível falar na existência da auto-estima? Ninguém tem certeza. Os psicólogos acreditam que a presença constante de rostos adultos com expressão amável e interessada é importante para que o bebê aprenda, pouco a pouco, a gostar de si mesmo. Mas não há estudos conclusivos que permitam falar na existência de auto-estima antes dos 2 ou 3 anos. É nessa idade que a criança começa a se perguntar sobre sua aparência física. Ela quer saber se os outros a acham bonita. Muito do seu futuro amor-próprio dependerá, então, da reação dos adultos que conviverem com ela. "Geralmente as pessoas dotadas de uma auto-estima sólida foram beneficiadas na infância pelo amor incondicional dos pais", escreveram André e Lelord no best-seller publicado na França. A chave da auto-estima infantil está nesta palavra: incondicional. Os pais, enfatizam os dois psicólogos, não podem dosar seu afeto a partir de critérios como o desempenho escolar, a habilidade de comer sem se lambuzar ou a disposição da criança para fazer o papel de "boazinha" diante dos adultos. É claro que é necessário impor limites, atitude fundamental na educação, mas sem excessos. "Humilhações e castigos descabidos tendem a gerar crianças inseguras e com um forte sentimento de vergonha e de culpa", alerta a psicóloga Janice Vitola, professora da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre. O extremo oposto, a superproteção, também deve ser evitado, segundo Janice, já que transmite uma mensagem de incapacidade e desvalorização. Cultivado na infância, o amor por si mesmo sofre flutuações ao longo da existência. É claro que bases sólidas na fase inicial facilitam tudo, mas os acontecimentos posteriores - ou seja, o sucesso ou não nas relações amorosas, na amizade e no trabalho - também influenciam, e muito. "A auto-estima", afirma o psicanalista Fernando Teixeira, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), "é o resultado do conjunto das nossas relações sociais." Moral da história: se você teve uma infância complicada, isso não é motivo para achar que a sua baixa auto-estima é um destino imutável. André e Lelord contam, no livro, que já encontraram - em geral fora dos consultórios - adultos que, apesar de um "mau começo", foram capazes de construir um amor-próprio sólido. "De qualquer maneira", concluem, "para compreender a auto-estima de um adulto é necessário se debruçar sobre a criança que ele foi." Rejeitar-se é doença Antes de se tornar co-autor de um livro sobre auto-estima, o psiquiatra francês Christophe André atendeu durante anos portadores de distúrbios como a depressão, a anorexia (veja quadro à esquerda), a fobia social (timidez excessiva) e a distimia (quadro na página à direita). "Eu não conseguia curar determinados pacientes, embora o tratamento deles fosse igual ao dos demais", conta. "Percebi que a fonte do sofrimento estava na falta de afeto por si mesmos." André pesquisou o assunto e demonstrou que a auto-estima pode agravar ou amenizar as doenças da alma. "Ela é um fator de proteção muito poderoso", diz. "Nenhuma terapia pode depender 100% da auto-estima, mas, quanto mais se investir no seu fortalecimento, menor será o risco de uma recaída." Não é por acaso que, entre os distúrbios psicológicos, os que mais têm crescido são aqueles que envolvem a aparência física - um dos pilares da auto-estima. Os psicólogos associam esse fenômeno aos ideais de beleza feminina e masculina martelados dia e noite pelos meios de comunicação. "A pessoa com baixa auto-estima sente necessidade de agradar aos outros", analisa a psicóloga carioca Mônica Duchesne, terapeuta da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade. Um caso típico é o de um paciente que está sendo atendido por Maria das Graças Oliveira, coordenadora do Programa de Doenças Afetivas do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Ele se acha gordo demais e não acredita na possibilidade de ser atraente", diz a psiquiatra. "Então só procura mulheres que acha feias, na crença de que isso facilitará a abordagem." Nos últimos anos, os profissionais de saúde têm percebido que a ligação entre os males da baixa auto-estima e os distúrbios do comportamento é muito maior do que se imaginava. Por que será que alguns experimentam drogas ou até se tornam consumidores eventuais sem alterar por isso o rumo das suas vidas, enquanto outros se deixam dominar completamente por essas substâncias? Christophe André cita um trecho do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), no qual o protagonista encontra um planeta cujo único habitante é um bêbado: - O que você faz aqui? - pergunta o pequeno príncipe. - Eu bebo. - Por que você bebe? - insiste. - Para esquecer - diz o bêbado. - Esquecer o quê? - Esquecer a minha vergonha - diz, cabisbaixo. - Vergonha de quê? - insiste, uma vez mais, o principezinho. - Vergonha de beber! "O álcool é uma das maiores tentações para quem tem uma auto-estima vulnerável", afirma o psiquiatra. Na Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), um centro de recuperação de dependentes mantido pela Unifesp, grande parte da aposta dos terapeutas está no amorpróprio dos pacientes. "Nós tentamos o tempo todo convencê-los de que são fortes o suficiente para controlar a vontade de beber", diz a psicóloga Neliana Buzi Figlie, coordenadora do Uniad. "Quando a auto-estima é muito baixa, é difícil que eles acreditem na terapia", completa. Ficam como o bêbado de O Pequeno Príncipe. Os psicólogos que estudam a auto-estima receiam que a rápida popularização dessa idéia dê margem a mal-entendidos. "O amor por si mesmo é incompatível com as fantasias de superioridade ou com a tendência de exagerar as próprias realizações", alerta Branden. Os psiquiatras franceses André e Lelord chegam a recomendar "uma saudável dúvida acerca de si mesmo" como um traço de lucidez. "Só os megalomaníacos se acreditam perfeitos", escreveram. A autoconfiança não resolve tudo - é importante que ela tenha raízes na realidade, ou seja, nas possibilidades efetivas do indivíduo. Super-heróis só existem nas histórias em quadrinhos. Para evitar enganos, leia na próxima página um roteiro com sugestões para melhorar a sua auto-estima e faça um teste para avaliar a quantas anda o caso de amor mais importante de sua vida - o único em que não dá para se separar do parceiro.D Para saber mais Auto-Estima e os Seus Seis Pilares, Nathaniel Branden, Editora Saraiva, São Paulo, 1998 L´Estime de Soi - S´Aimer Pour Mieux Vivre avec les Autres, Éditions Odile Jacob, Paris, 1999. (http://www.odilejacob.fr) O mapa da auto-estima Ela está presente em tudo o que você faz. De acordo com os psiquiatras franceses Christophe André e François Lelord, a auto-estima se compõe de três ingredientes que se manifestam em doses diferentes. Como está o seu amor-próprio? O amor por si mesmo é o alicerce da auto-estima. Significa você se amar de modo incondicional, com todos os seus defeitos e as suas qualidades. Mesmo que seus projetos fracassem, uma voz interior dirá que você é digno de amor e de respeito. Com isso, você conseguirá enfrentar a adversidade e se erguer do tombo. Como você se vê? Na auto-imagem, o que conta é a avaliação que você faz dos seus atributos - sua inteligência, sua beleza, seu talento. Se você menospreza a sua própria capacidade, acabará desperdiçando chances preciosas de se realizar e de ser feliz. Você confia no seu taco? A autoconfiança é o que lhe dá coragem para agir em situações novas. Depende, em grande parte, da atitude dos seus pais quando você era pequeno: eles acreditavam na sua capacidade? A falta de segurança se manifesta na timidez, na hesitação e no medo do desconhecido. Receita de dom-juan Nada sofre tanta influência da auto-estima quanto o jogo da sedução. A conquista de um parceiro provoca euforia. Já a rejeição atira no fundo do poço o amor-próprio de qualquer um. Na década de 60, psicólogos americanos fizeram duas experiências para checar se, a partir do nível de auto-estima, seria possível prever os comportamentos de sedução. Em uma delas, estudantes do sexo masculino foram submetidos a um teste de inteligência. O teste era falso, com notas distribuídas ao acaso - metade dos alunos recebeu uma avaliação baixíssima, enquanto a outra metade teve o desempenho supervalorizado. Depois, usando um pretexto, os pesquisadores fizeram com que eles se encontrassem com um grupo de garotas na lanchonete da faculdade. Elas eram, na verdade, cúmplices da experiência e estavam monitorando os atos de sedução praticados pelos rapazes, como oferecer um café ou perguntar o número do telefone. Os alunos que tinham recebido notas altas eram os que mais paqueravam as moças, enquanto os que se saíram mal no "teste" ficavam mais quieitinhos. Conclusão: a auto-estima elevada desperta o dom-juan que mora dentro de cada homem. A outra pesquisa, dessa vez com moças, mostrou um resultado um pouco diferente: quanto mais elas se sentem desvalorizadas, mais se tornam receptivas à abordagem masculina. E viceversa. O nível de exigência da mulheres na escolha do parceiro aumenta junto com a sua autoestima. A hora do pênalti A final do campeonato terminou empatada e a decisão será por pênaltis. Veja o que, segundo o psicólogo francês Christophe André, pode passar pela cabeça do artilheiro do seu time enquanto ele encara o goleiro. E saiba o que o jogador vai pensar caso chute para fora. A existência ou não de boa autoestima não é tudo. A maneira com que ela resiste aos fatos é importante também. Conheça, então, os quatro tipos de auto-estima: Alta e estável Antes de bater: "Eu tenho tudo para marcar esse gol". Depois de errar: "Paciência. São coisas da vida." Quem está seguro em seu amor-próprio não se deixa abalar pelos eventos externos: "Eu me amo, tenho valor e aceito os fracassos". Alta e instável Antes de bater: "Eu preciso marcar, todos estão olhando para mim". Depois de errar: "Esses idiotas me deixaram nervoso". O indivíduo é vulnerável à opinião alheia: "Eu me amo, mas temo que percebam que não sou tão bom assim". Baixa e instável Antes de bater: "Se eu errar, será uma catástrofe. Não vou suportar tanta vergonha". Depois de errar: "Eu não deveria ter aceitado uma tarefa dessas". Ele dá muita importância às reações dos outros: "Não tenho valor, mas espero estar enganado". Baixa e estável Nunca será escalado para o time. Nem as vitórias o convencem a mudar a opinião negativa sobre si mesmo. Ele "sabe" que é um fracasso, mesmo que o mundo inteiro diga o contrário: "Não me amo, não tenho valor e ninguém me fará mudar de opinião". Pílulas filosóficas O psicólogo Nathaniel Branden formulou alguns princípios cujo objetivo é o de tornar a autoestima uma espécie de filosofia de vida. "O que um indivíduo pensa, acredita e diz a si mesmo influencia o que ele sente e o que faz", ensina. Confira. - Tenho o direito de viver. - Não estou no mundo para corresponder às expectativas alheias. Minha vida pertence a mim. E isso é igualmente verdadeiro para os demais seres humanos. - Se alguém de quem eu gosto não corresponde aos meus sentimentos, isso pode ser decepcionante e até doloroso, mas não reflete o meu valor pessoal. - Nenhum indivíduo ou grupo tem o poder de determinar como vou pensar e sentir a respeito de mim mesmo. - Se os meus objetivos forem racionais, mereço sucesso naquilo que tentar. - Tenho o direito de cometer erros. Essa é uma maneira de eu aprender. - Prefiro corrigir meus erros a fingir que eles não existem. - Não procuro fazer com que minhas convicções pareçam diferentes do que são em nome da popularidade e da aprovação. - Aceito meus pensamentos tais como são, mesmo quando não os endosso. - Aceito a realidade dos meus problemas, mas não sou definido por eles. Meus problemas não são a minha essência. O medo, a dor, a desorientação e os erros não refletem o que eu sou. - Vale mais minha auto-estima do que traí-la por qualquer recompensa imediata. Amor-próprio se aprende em casa Pai que é pai também ensina auto-estima, iniciando as lições já no berço. Para ver seu filho com um bom estoque de amor-próprio, lembre-se dos conselhos dos especialistas: - Ouça seu filho com atenção, para esclarecer bem aquilo que o está preocupando. Ele tem vergonha de si mesmo? Um sentimento de inferioridade? É importante que você e ele entendam o que está acontecendo. Um bom começo de conversa é perguntar: "Você acha que seus colegas não gostam de você? Por que isso o preocupa tanto? Desde quando você acha isso?" - Não tente minimizar as inquietações e o sofrimento do seu filho. Evite aquele velho papo furado de que há situações piores. Nunca diga: "Tem tanta criança que não tem o que comer e você me vem com essa história!?" O que o seu filho sente é real e deve ser compreendido. - Se você imagina já ter a resposta ao problema do seu filho, controle a ansiedade. Primeiro, faça com que ele tente chegar a suas próprias soluções. "Como você pode fazer com que sua professora lhe dê mais atenção?", pergunte. - Ajude seu filho, mas não se intrometa. Dê abertura para que a criança o procure. Sentindo-se importante e respeitada, ela terá mais facilidade para buscar as soluções por si mesma. - Seja um exemplo para os seus filhos. O modelo é fundamental para o aprendizado. Se você for um indivíduo com boa auto-estima, que encara bem os fracassos e respeita a si mesmo, já terá vencido boa parte do caminho. A vida em branco-e-preto "Ó vida, ó dor, ó azar." Esse bordão celebrizou a hiena Hardy, rabugento companheiro do leão Lippy no desenho animado lançado em 1962 pelo estúdio americano Hanna-Barbera. Naquela época, a Medicina não desconfiava que o personagem, além de divertido, era expressão de uma doença psíquica - a distimia, uma parenta da depressão que se manifesta em indivíduos com a auto-estima extremamente baixa. "Os portadores de distimia vivem tristes e estão sempre se autodesvalorizando", explica o psiquiatra francês Christophe André. A enfermidade não chega a provocar o estado de prostração típico de quem enfrenta uma crise depressiva - mas, justamente por isso, pode ser até mais perigosa. É que os sintomas mau humor, desânimo, fadiga e falta de concentração - se instalam como inquilinos permanentes da personalidade. A distimia não impede ninguém de trabalhar nem de cuidar da casa e dos filhos. "O sofrimento se torna uma rotina e o paciente começa a achar que é assim mesmo, eternamente de baixo-astral", diz a psiquiatra Maria das Graças Oliveira, professora da Unifesp. "Por isso, ele não procura ajuda." A doença pode afetar até 3% da população. "É possível que alguém seja distímico por mais de vinte anos sem saber", diz Maurício de Lima, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de Pelotas (RS). Para dar a volta por cima Se você desconfia que a sua auto-estima anda meio caída, não desanime. É possível reverter esse quadro. Os psicólogos franceses Christophe André e François Lelord elaboraram uma lista de nove atitudes práticas que, com certeza, vão ajudar. Para que tudo dê certo, eles recomendam que você, antes de mais nada, incorpore à sua rotina três posturas gerais: transformar os lamentos em decisões ("just do it", simplesmente faça, como diz o anúncio de uma marca de tênis), escolher objetivos viáveis (se você quer um namoro, não adianta sonhar com a Ana Paula Arósio ou com o Thiago Lacerda) e dar um passo de cada vez. Munido dessas estratégias, invista nas novas atitudes: Conhecer a si mesmo É o ponto de partida para a auto-estima. Não se trata de mergulhar na introspecção, e sim de tomar consciência das suas capacidades e dos seus limites. Defina claramente aquilo que lhe agrada e o que lhe desagrada em você mesmo. Quais são os seus valores? O que é e o que não é importante para você? Para adquirir uma visão mais completa sobre si mesmo, vale a pena saber qual é a sua imagem aos olhos dos outros. Com jeitinho, pergunte aos seus amigos o que eles acham de você. Aceitar-se As pessoas com amor-próprio elevado sabem que têm defeitos, como todo mundo. A diferença está na maneira de encará-los. Você se sente inferior por ser o único do escritório a não falar inglês? Vá a uma escola, matricule-se e siga o curso até o fim. Não sinta vergonha das suas falhas e limitações. Se você não sabe dançar e alguém o convida para acompanhá-lo num bolero, há duas alternativas. A mais cômoda é recusar. Em vez disso, você pode simplesmente confessar que não sabe dançar. Quem sabe o seu interlocutor lhe oferece uma aula grátis? Ser honesto consigo mesmo A promoção que você esperava não saiu e um colega lhe pergunta: "Você ficou decepcionado?" Você diz que não liga, quando, na realidade, tem vontade de gritar: "É claro, eu queria muito ter conseguido!" O pior é quando você mesmo tenta se convencer de que esse papo furado é verdade. Quem você pensa que engana? Abra o jogo ao menos com você mesmo. Diga claramente: "Eu quero muito alcançar tal objetivo". Ou então: "Que pena, não consegui o que queria." Agir A ginástica da auto-estima é a ação. Em vez de ficar ruminando as frustrações, faça aquilo que você precisa - e quer - fazer. A decisão de mudança deve se traduzir em atos concretos. Qualquer atitude prática que você tome, ainda que modesta, é melhor do que uma intenção que vira fumaça. Até mesmo as pequenas ações podem ter um efeito simbólico capaz de virar o jogo e erguer a sua auto-estima: dar um telefonema, arrumar a bagunça na mesa de trabalho, ir a uma festa. Enfrentar a crítica interior Sabe aquela "voz" dentro da cabeça que fica achando defeito em tudo o que você faz? Já que não dá para despachá-la com uma passagem só de ida para a Chechênia, é melhor enfrentar essa chata sem rodeios. Será que você foi tão ridículo naquela noite? Recapitule objetivamente o que ocorreu. Se o assunto ainda o incomodar, pergunte aos seus amigos. Na pior das hipóteses, você poderá tirar lições e evitar que o vexame se repita na próxima vez. O importante é se proteger do crítico implacável que mora dentro de você. Não se esqueça: o perfeccionismo é sinal de baixa auto-estima. Aceitar a idéia do fracasso Infelizmente, a existência não é uma série infinita de vitórias. Para alcançar qualquer objetivo, é necessário assumir o risco do fracasso. Mas, e se ele ocorrer, qual é o problema? Errar não é vergonha. Além do mais, a vida não se divide entre o triunfo e a catástrofe. Sempre existe um meio-termo. O revés pode ter um lado positivo, se você aproveitá-lo como uma fonte de aprendizado e não como uma prova da sua incapacidade. Todos fracassam uma vez ou outra. Afirmar-se A auto-afirmação é a sua capacidade de expressar suas opiniões, seus desejos e seus sentimentos, sem deixar de respeitar as opiniões, os desejos e os sentimentos do seu interlocutor. Acostume-se a dizer "não" sem agressividade, pedir um favor sem se desculpar, responder calmamente a uma crítica. Quando você deixa de contradizer o seu interlocutor por medo de que ele fique zangado, o que acontece? Você volta para casa remoendo a conversa e imaginando como teria sido se tivesse falado francamente. Sua auto-estima vai para o brejo. Não tema desagradar seu interlocutor. Ele não vai virar seu inimigo por causa disso - a não ser que também tenha sérios problemas de auto-estima. Manifestar empatia Ouça o que seu interlocutor tem a dizer, mesmo que você pense de modo diferente. Só assim é possível falar, naturalmente, frases como: "Entendo o que você quer dizer, mas tenho outra opinião." As pessoas nos ouvem melhor se nós também somos capazes de levar em conta o que elas nos dizem. Só tome cuidado para não renunciar às suas convicções achando que dessa forma conquistará o afeto de alguém. Escutar não é concordar. Procurar apoio Não tenha vergonha de pedir ajuda - a sensação de que você pode contar com as pessoas ao seu redor é vital para a auto-estima. Aceite, porém, o fato de que essa ajuda pode demorar um pouco. A rede de relações sociais é muito importante para qualquer pessoa. Entre em contato com seus amigos e conhecidos sempre que puder - e não apenas quando está em dificuldades ou precisa "desabafar". Ninguém agüenta muita reclamação. Diversifique e amplie suas relações. Muitas vezes a ajuda vem de pessoas que não são tão próximas assim. O 12º jogador Há sete anos a psicóloga paulista Suzy Fleury, de 40 anos, se dedica à preparação emocional de jogadores de futebol. Segundo ela, numa profissão em que os elogios da imprensa e da torcida se transformam de uma hora para outra em críticas arrasadoras, manter as emoções em equilíbrio é fundamental. "A auto-estima é o pilar de sustentação do jogador e interfere no desempenho dele", diz. "Por isso, damos especial atenção à imagem que ele faz de si mesmo." Suzy ensina os atletas a lidar bem com temas como a autocrítica e a culpa. "O objetivo é que reajam de modo natural aos erros que cometem, sem temer o risco e contornando rapidamente a situação que poderia levá-los à frustração." A confiança atinge o topo Chegar ao cume do Everest, o monte mais alto do mundo, era o sonho do alpinista paranaense Waldemar Niclevicz, de 33 anos. Na primeira tentativa, em 1991, ele ficou bem longe do seu objetivo. "O fracasso me trouxe insegurança, medo e ansiedade", conta ele, que teve de abandonar a escalada por causa do mau tempo. Mas Niclevicz contornou a decepção. Foi atrás de patrocínio para conseguir equipamentos mais modernos e preparou-se para uma nova tentativa, em 1995. "Meu entusiasmo era bem maior", diz. Depois de alcançar o topo do Everest, o alpinista agora tenta escalar o Monte K2, no Paquistão. "Já foram duas tentativas frustradas", conta. "Mas não desisto. Em junho vou enfrentá-lo de novo."

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