OSSOS DO OFÍCIO Os grandes escritores sempre procuraram comportar-se como pessoas normais. No entanto, a maioria jamais conseguiu disfarçar certas excentricidades. Em O Ofício de Escrever (Angra), Ramón Nieto fornece pilhas de curiosidades sobre os grandes gênios da literatura. Entre as pérolas está a revelação de que Balzac adorava fantasiar-se de monge e Walter Scott ficava excitadíssimo diante de uma folha em branco. O pesquisador espanhol comete, porém, uma certa injustiça: entre os mais de 40 autores ali descritos não há um único brasileiro.
REINVENÇÃO DA LÍNGUA E DO DESTINO A prosa de ficção brasileira conheceu dois apogeus incontestáveis: as obras de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) e João Guimarães Rosa (1908-1967). Machado, com a maleabilidade urbana de sua linguagem, fala, descontado o gênio, como um de nós, seus leitores futuros (na verdade, nós é que tomamos emprestadas suas palavras, suas ironias, suas ambigüidades...). Rosa, por sua vez, parece ter esgotado as fontes da linguagem nas quais bebeu. O modo como ele emprega as palavras, constrói as frases, arma a narrativa, sempre alérgico ao lugar-comum, não é passível de conversão ao linguajar cotidiano. Ler seus contos, suas novelas ou seu único romance pode realmente parecer difícil, porque temos de aprender uma linguagem que não é a nossa, tornarmonos poliglotas em nosso próprio idioma. Mas o esforço vale a pena. Não falemos, por ora, de Grande Sertão: Veredas (1956), talvez o maior romance da língua portuguesa e certamente um dos maiores em todas as línguas. Sagarana (1946), cuja 52ª reimpressão acaba de sair pela Nova Fronteira, já dá a medida da grandeza de Rosa. Pelo menos dois contos merecem estar em qualquer antologia: "O Burrinho Pedrês" e "A Hora e a Vez de Augusto Matraga". Ambos contam "estórias" de queda e redenção. Rosa é um escritor religioso, o que o torna ainda mais difícil numa época de desencantamento absoluto, mas a transcendência que lhe interessa é a reinvenção humana. E um burrinho, para ele, pode revelar-se mais humano que qualquer um de nós.
FREUD SE EXPLICA Você até pode antipatizar com o vienense Sigmund Freud, como Stewart, o narrador de Megalomania de Freud, de Israel Rosenfield (Companhia das Letras). Mas certamente vai reconhecer, tanto quanto o neurocientista do romance, o fascínio que o suposto "último" texto freudiano provoca. Nele, além de histórias instigantes, Freud faz uma revisão dos conceitos principais da psicanálise e reconhece os deslizes de sua teoria. Cuidado: a opção narrativa do autor e o estilo do texto fazem com que você duvide de que Megalomania tenha mesmo sido escrito por Rosenfield.
LONGO ALCANCE Michio Kaku, professor de física teórica em Nova York, não é cigana de feira mas manja de cenários futuristas. Em Visões do Futuro: Como a Ciência Revolucionará o Século XXI, (Rocco), Kaku dedica-se a uma tarefa delicada: inventariar, através de uma rede muito bem tramada de argumentos e entrevistas, as principais inovações que estão sendo gestadas dentro dos grandes laboratórios do mundo. Clonagem, computador definitivo e cura do câncer são alguns dos temas discutidos com um verdadeiro dream team de cientistas e pesquisadores.