ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
ITAICI 42 - Dezembro 2000
PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS.
AMOR HUMANO E AMOR CRISTÃO
ÍNDICE
EDITORIAL
ARTIGOS
Os Exercícios e a Psicanálise: a ordenação afetiva como reconversão
libidinal
Ricardo Torri, SJ
Exercícios Espirituais, vivência a partir do ser mais profundo - um
movimento gerador de vida
J. Geraldo Kolling, SJ
Dinamismos psico-afetivos na Primeira Semana dos Exercícios Espirituais
Pius T. Sidegun, SJ
Amor humano e amor cristão
Luis González-Quevedo, SJ
ORAÇÃO INACIANA
Orar nossa própria afetividade
Rezar na desolação
SUBSÍDIOS
Oração
Lilian de Carvalho
O Amor
Janaina Clara Nazario
Tratamento de alguns entraves psicológicos: Minha experiência
Paulo Lisbôa, SJ
A Confidencialidade no Acompanhamento Espiritual
Gilles Nadeau
Revisando nossa história afetivo-sexual
Álvaro González, Pbro. e Equipe do CEI (Chile)
Acompanhamento espiritual e Psicoterapia: Semelhanças e diferenças
Catarina e Milton Paulo de Lacerda
1
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Comunicação não verbal
Catarina e Milton Paulo de Lacerda
Rezando a dor para ser curado
Maria do Carmo Costa
COMUNICAÇÕES
Os Exercícios levam à opção evangélica pelos pobres – Encontro de
Orientadores de Exercícios, Itaici 13-15 out. 2000
R. Paiva, SJ
BIBLIOGRAFIA
Livros em Destaque
Francisco R. Romanelli, SJ
Livros em Revista
R. Paiva, SJ
Índices do Ano 2000
EDITORIAL
PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS
No limiar do Quinto Centenário do Nascimento de Inácio de Loyola (1991), celebrou-se em
Salamanca um Simpósio Internacional sobre ―Psicologia e Exercícios Inacianos‖. O evento
contou com a participação de especialistas tanto da área psicológica quanto da metodologia
inaciana. O tema central foi ―A transformação do eu nos Exercícios Espirituais‖. As
ponências e comunicações apresentadas naquele importante Simpósio foram publicados em
dois alentados volumes da benemérita coleção ―Manresa‖1. Sua leitura continua sendo
imprescindível a quem desejar aprofundar o tema.
A Psicologia é uma ciência relativamente recente. Os Exercícios Espirituais (EE) foram
idealizados quatro séculos e meio atrás. Até que ponto podemos e devemos atualizá-los,
havida conta das posteriores descobertas das ciências humanas? Em um contexto de
contínuas mudanças, o homem e a mulher da virada do milênio poderão ainda ―tirar
proveito‖, para o seu crescimento humano e espiritual, da metodologia dos EE?
Todos os colaboradores da nossa revista e, provavelmente, a maioria dos leitores, estamos
convictos da utilidade dos Exercícios inacianos, porque a temos experimentado em nossas
próprias vidas. Um médico, especialista em cardiologia, dizia depois de fazer os EE, que
recomendaria a experiência a todos os seus pacientes. Uma psicóloga, especializada em
terapia para cardíacos, escreveu: ―Os caminhos da cura passam pelo coração: Provas
científicas mostram que corações confiantes e livres de mágoas vivem vidas mais longas e
saudáveis‖ (Lúcia Miranda).
Há dois tipos fundamentais de EE: os que visam uma ―eleição‖ ou escolha que oriente para
o resto da vida (―Eleição de estado de vida‖); e os que, feita já a eleição, visam a ―Reforma
de vida‖, em um contínuo crescimento espiritual. Em ambos os casos, o objetivo implica em
importantes mudanças de ordem psicológica e espiritual. A função da Psicologia, no
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processo de transformação do eu que os EE pretendem, será estimular a saúde, garantir a
liberdade, evitar a ―manipulação‖, ajudar na integração da pessoa.
Este número publica artigo sobre a Eleição, que nos foi enviado do além-mar (Portugal); três
trabalhos de jesuítas-psicólogos brasileiros (Ricardo Torri, Pe. J. Geraldo Kolling, Pe. Pius T.
Sidegun) e vários subsídios, focalizando os aspectos psico-afetivos da vida espiritual. Outro
artigo trata do centro dinâmico de toda vida humana e cristã: o amor. As seções ―Oração
inaciana‖, ―Comunicações‖ e ―Bibliografia‖ e os Índices do ano completam o número.
O exemplar de assinante é acompanhado de boleto bancário para renovação da assinatura.
A todos agradecemos o apoio e desejamos um santo Natal e um feliz Ano Novo.
NOTA:
1
ALEMANY, Carlos, e GARCÍA-MONGE, José A., Eds., Psicología y Ejercicios Ignacinos.
Bilbao, Mensajero / Santander, Sal Terrae, s.d. 2 vols.
ARTIGO
O autor é mestre em psicologia, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
OS EXERCÍCIOS E A PSICANÁLISE: A ORDENAÇÃO
AFETIVA COMO RECONVERSÃO LIBIDINAL1
Ricardo Torri, SJ
“O amor não se anula, ordena-se”
(Carlos Domínguez).
Os Exercícios Espirituais são, essencialmente, um processo de ordenação afetiva. O seu
principal objetivo é a ordenação dos afetos do exercitante. Trata-se, conforme escreveu
Santo Inácio, de ―...tirar de si todos os afetos desordenados‖ (EE 1)2. Ou, para dizê-lo de
outro modo, de ―...ordenar a própria vida, sem determinar-se por nenhum afeto
desordenado‖ (EE 21).
É fundamental, portanto, que tenhamos claro o que são os afetos desordenados. Afinal, é
isso o que se deseja tirar do exercitante. E o fruto esperado dessa operação é que ele
alcance uma liberdade tal que não seja mais determinado por seus afetos desordenados.
Livre, o exercitante estará, pois, em condições de buscar, encontrar e abraçar a vontade de
Deus a seu respeito.
O Afeto Desordenado3
Todo afeto possui uma intensidade e, em condições normais, vincula-se a um objeto. O
objeto de um afeto — seja ele desordenado ou não — pode ser uma pessoa, uma coisa, um
lugar, uma idéia, uma atividade, etc.
Com freqüência, diz-se que um afeto desordenado é um afeto intenso. De uma pessoa que
tem um grande afeto por determinado objeto, por exemplo, costuma-se afirmar que ela tem
um afeto desordenado. Não cremos, porém, que a desordem de um afeto resida em sua
intensidade. A intensidade de um afeto é variável; ela pode ser maior ou menor. É verdade
que os afetos desordenados que importa mais ordenar são afetos desordenados intensos.
Mas isso não significa que um afeto muito intenso seja, por isso mesmo, automaticamente,
desordenado.
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Também não reside no objeto — numa eventual maldade inerente ao objeto do afeto — a
desordem que procuramos. Pois, via de regra, o objeto de um afeto desordenado não é
mau, mas bom ou neutro. De um afeto ligado a um objeto mau, convém dizer que é um
afeto ―mau‖, não que é um afeto ―desordenado‖.
Os afetos desordenados são, pois, afetos de intensidade variável investidos em objetos
bons ou, na pior das hipóteses, neutros.
Onde reside, então, a desordem de um afeto desordenado? A resposta — o critério de
ordem — que procuramos está no Princípio e Fundamento, no qual Santo Inácio estabelece
o fim para o qual o homem é criado: ―...para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso
Senhor...‖ (EE 23). Ou seja, numa palavra: para amar a Deus, pois quem ama louva,
reverencia e serve àquele que ama.
Um afeto desordenado é, então, um afeto que não está ordenado para este fim. É um afeto
que não está ordenado — isto é: orientado, dirigido, voltado — para Deus, ou para aquele
que no-lo revelou: Jesus. Um afeto desordenado, enfim, é um afeto que não tem a Deus por
razão.
A Ordenação Afetiva
O processo de ordenação dos afetos implica, por conseguinte, em dois movimentos: (1)
primeiramente, trata-se de retirar o afeto das criaturas; (2) em segundo lugar, trata-se de pôr
todo o afeto em Deus — em Jesus.
E a dinâmica dos Exercícios corresponde a esse movimento em dois tempos: (1) na
Primeira Semana, o foco está no abandono dos antigos objetos de amor, aos quais se
estava desordenadamente afeiçoado; (2) na Segunda, o acento incide sobre a constituição
de um novo objeto de amor: Jesus Cristo. A Terceira e a Quarta Semanas são uma
confirmação desse último movimento.
Note-se que, nesse processo, a afetividade do exercitante não é objeto de anulação ou de
negação; não se trata de eliminar o afeto, mas de ordená-lo. Observe-se também que o
afeto que vai ser investido nesse novo objeto é o mesmo; o exercitante não dispõe de um
outro afeto senão daquele que ele já investia nos seus antigos objetos de amor.
Seja como for, como conseqüência desse processo de ordenação afetiva, diz Santo Inácio,
―...arrancando de si, quanto possível, o amor de todas as criaturas para o pôr no Criador
delas...‖ (Const. P.III c.1 n.26 [288])4, o exercitante estará em condições de amar a Deus em
todas as coisas e todas as coisas nele. Ou seja, ao fim e ao cabo, o exercitante dá-se conta
de que pode e deve amar as criaturas, desde que o seu amor seja ordenado, isto é, desde
que ame a Deus nelas, e desde que as ame em Deus.
Os Exercícios e a Psicanálise
Em linhas gerais, isso é o que se pode dizer do principal objetivo dos Exercícios. A pergunta
passa a ser, então: é possível descrever a mudança que se pretende produzir no exercitante
em termos psicológicos? Ou ainda: o processo dos Exercícios, que tanto relevo concede à
afetividade humana, admite ser descrito segundo as categorias de uma teoria psicológica?
Mais exatamente: admite ser traduzido em conceitos psicanalíticos?
Acreditamos que sim, e o objetivo desse artigo é dar as razões dessa nossa convicção. Mais
do que isso, estamos convencidos de que essa transcrição, além de possível, é desejável,
dela resultando uma compreensão mais profunda do processo que os Exercícios pretendem
desencadear no exercitante, do tipo de mudança que se espera produzir nele, bem como
das dificuldades que este processo está destinado a enfrentar. Retomemos, pois, o conceito
fundamental de afeto, tal como concebido por Freud, o criador da psicanálise5.
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O Afeto na Teoria Freudiana
O conceito de afeto não é estranho à psicanálise. Longe disso: poucas teorias, no campo da
psicologia, deram tanta importância ao domínio da afetividade com o objetivo de dar conta
das razões — ou das ―semrazões‖ — do comportamento humano.
Segundo Freud, os seres humanos são dotados de pulsões sexuais (Eros). ―Libido‖ é o
nome da energia psíquica destas pulsões. Estas, cuja origem é somática (corporal),
manifestam-se, psiquicamente, de duas maneiras: pela representação e pelo afeto.
Quando uma pulsão sexual é investida num objeto externo à pessoa, fala-se numa ―catexia6
objetal da libido‖ ou, simplesmente, em ―libido objetal‖. A libido objetal é a libido investida na
representação psíquica de um objeto externo. O afeto, por sua vez, é a expressão
qualitativa da quantidade de libido investida nessa representação.
A Ordenação Afetiva como Reconversão Libidinal7
Introduzidos esses conceitos, eis no que se traduz o processo de ordenação afetiva de que
acima falávamos. Para dizê-lo com Domínguez Morano: num processo de ―reconversão
libidinal‖! Trata-se de desfazer as catexias libidinais anteriores — ou seja: de desinvestir a
libido dos antigos objetos de amor — para, em seguida, reinvesti-la num novo objeto: Jesus
Cristo. Mais exatamente: trata-se de abandonar as representações psíquicas dos objetos
externos aos quais a libido esteve até então investida para, num segundo movimento,
propor uma nova representação para a libido, de modo que o afeto do exercitante — que é a
expressão qualitativa da quantidade de libido mobilizada — esteja, doravante, soldada a
essa nova representação. Em termos psicanalíticos, eis em que consiste o que os
Exercícios pretendem lograr.
Para que esse objetivo seja atingido, dois tempos são necessários. O primeiro deles é o
tempo do desinvestimento libidinal. O segundo é o do reinvestimento da libido. Nada impede
que o primeiro e o segundo tempos aconteçam, em parte, simultaneamente. Em todo o
caso, é necessário que o primeiro movimento tenha já avançado um pouco, de modo a
disponibilizar um certo montante de libido, a fim de que o segundo tempo, o do
reinvestimento, possa ter início.
O que, na linguagem dos Exercícios, chama-se ―Primeira Semana‖ corresponde, pois, ao
que acima denominamos ―tempo do desinvestimento libidinal‖. Esse abandono, por parte da
libido, de seus antigos objetos de amor não se dá, porém, sem resistências. Com efeito,
segundo Freud, a principal característica da pulsão sexual é a sua plasticidade — sendo
essa a razão pela qual fala-se em ―pulsão‖ e não em ―instinto‖ sexual. A multiforme
variedade dos modos de comportamento sexual dos seres humanos é uma prova cabal
dessa maleabilidade da libido. Isso significa: a libido, em princípio, admite troca de objeto.
Ocorre, contudo, que, quando encontra um vínculo objetal especialmente gratificante, a
libido pode fixar-se nessa catexia. A essa tenacidade com que a libido eventualmente adere
a determinados objetos, Freud fez referência por meio das expressões ―adesividade‖ ou
―viscosidade‖ da libido.
O Difícil Manejo da Culpa
Vencer essa aderência da libido aos seus antigos objetos de amor é meta da Primeira
Semana. Para atingi-la, os Exercícios lançam mão do que Domínguez Morano descreve
como uma ―utilização funcional da culpa‖ — recurso necessário, mas não isento de riscos
para o exercitante. Para explicá-lo, porém, somos obrigados a fazer uma breve digressão.
O problema do sentimento de culpa remete-nos a um outro grupo de pulsões — que não as
pulsões sexuais — reconhecidas pela psicanálise: as pulsões de morte (Tanatos). Segundo
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Freud, a pulsão de morte é aquilo que, atuando silenciosamente no interior do organismo,
acaba por reconduzi-lo, inexoravelmente, de volta ao estado inorgânico. Quando parte dela
é extrovertida, voltada para fora, o resultado é a agressividade (ou a destrutividade). Essa
agressividade, porém, admite ainda um outro destino: a introversão. O sentimento de culpa
é, justamente, a expressão afetiva da introversão da pulsão de morte — no que ele
obedece, como se vê, a uma lógica auto-destrutiva.
A agressividade passível de ser extrovertida e que é introvertida é assumida pelo superego
(supereu) e dirigida punitivamente contra o ego (eu). Superego, em psicanálise, é o nome da
instância psíquica que resulta da internalização das normas e valores sociais que os pais e
os educadores tornam presente para cada indivíduo no tempo de sua socialização. As
outras duas instâncias psíquicas são o id (isso) — que é a sede das pulsões (Eros e
Tanatos) — e o ego, cuja principal ocupação é a ingrata tarefa de tentar conciliar as
exigências pulsionais do id com os imperativos morais do superego — levando em conta
ainda as condições objetivas da realidade externa, que também impõe limites à gratificação
das pulsões. Dito isso, podemos retomar o curso anterior dos nossos pensamentos.
Com o objetivo de vencer a adesividade da libido, de conseguir que o exercitante abandone,
de fato, as suas antigas catexias objetais, os Exercícios fazem um uso funcional do
sentimento de culpa. O risco está em que — consistindo o sentimento de culpa na
manifestação afetiva da introversão da pulsão de morte, via superego — o exercitante pode
entrar em um circuito vicioso de auto-destruição. Aqui, como em poucos lugares, requer-se
grande sensibilidade da parte de quem dá os Exercícios. De fato, no campo da
psicopatologia, há certos quadros clínicos — como, por exemplo, a neurose obsessiva —
especialmente dados à auto-agressão. A própria crise de escrúpulos que Santo Inácio
padeceu em Manresa — e que quase o conduziu ao suicídio! — é uma amostra eloqüente
do risco de que estamos falando.
O Reinvestimento da Libido
Seja como for, ao tempo do desinvestimento libidinal, segue-se o tempo do reinvestimento
da libido — isto é: a Segunda Semana. Esta consiste, essencialmente, na apresentação de
um novo objeto de amor para a libido que o exercitante retirou — ou está retirando — dos
seus objetos desordenados. Já dissemos que novo objeto é esse: Jesus Cristo — ou, se
quisermos dizê-lo de modo mais extenso: Jesus Cristo e o seu projeto, o Reino.
Certos leitores — especialmente aqueles para os quais o sexual é, por definição, culpável —
terão muita dificuldade em aceitar o que está afirmado acima. Resistirão em admiti-lo, diria
Freud. Não obstante, é este mesmo o ponto de vista que sustentamos: a energia psíquica
que o exercitante investe na representação ―Jesus Cristo e o Reino‖ é energia libidinal! Ele
não dispõe de uma outra espécie de energia — de uma energia mais digna, talvez — para
essa operação. Numa biografia romanceada de São Francisco de Assis, Nikos Kazantzakis
escreveu: ―Amor existe apenas um, sempre o mesmo, seja votado a uma mulher, a um filho,
a uma mãe, à pátria, a uma idéia ou a Deus‖8.
Naturalmente, tratando-se do investimento libidinal da representação ―Jesus Cristo e o
Reino‖, estamos falando de uma versão secundária — isto é, inibida — do investimento da
libido. A libido objetal admite, de fato, duas versões. Em sua versão primária (desinibida),
trata-se do investimento da libido num objeto externo com vistas a uma satisfação
diretamente sexual. Em sua versão secundária, consiste ela na mesma catexia, mas inibida
em seu objetivo: a consumação sexual. Seja como for, a libido não deixa de ser libido
porque o seu objetivo final não é atingido.
O Enamoramento por Jesus
O ato de investir a libido maciçamente numa pessoa — Jesus Cristo é uma pessoa —
resulta num estado de coisas que não podemos deixar de descrever como um estado de
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―enamoramento‖. Numa carta a um jesuíta colombiano, o Pe. Arrupe escreveu: ―...não
tenhas mais que uma grande paixão na vida: amar a Jesus Cristo com toda a tua alma. Seja
esta a idéia fixa da tua existência‖9. Nos Exercícios, não se trata de outra coisa senão de
deixar-se apaixonar por Jesus Cristo e por tudo o que concerne a ele — nomeadamente,
pelo seu projeto: o Reino de Deus.
Dissemos acima que, quando a pulsão sexual é investida em um objeto externo, fala-se em
―libido objetal‖. Há, porém, uma outra possibilidade e que agora vem a propósito mencionar:
a libido pode ser investida no próprio ego. Nesse caso, a libido é chamada ―narcísica‖. Em
condições normais, um certo montante da libido tem sempre esse segundo destino, de
modo que parte da libido de que dispõe um indivíduo costuma ser investida em objetos
externos, ao passo que uma outra parte toma por objeto de catexia o seu próprio ego.
Quando uma pessoa apaixona-se, porém, ocorre uma reconfiguração da distribuição da
libido. Uma porção considerável da libido narcísica migra para o objeto da paixão; boa parte
do que, normalmente, é libido narcísica transforma-se em libido objetal. O resultado desse
superinvestimento libidinal de um objeto é, segundo a psicanálise, a idealização do objeto
amado. Quem quer que já se tenha apaixonado alguma vez sabe disso: quem ama
supervaloriza o que ama; exalta as virtudes do objeto amado; atribui-lhe virtudes que ele
não tem; fecha os olhos para os eventuais defeitos e limitações daquilo que ama. ―O amor é
cego‖, dizem os poetas. É ilusório, prefere dizer Freud. Porque quem ama não ama um
objeto real, mas uma idealização do mesmo. Está, pois, iludido.
Tratando-se, contudo, da paixão amorosa por Jesus Cristo e pelo seu Reino, algo de novo
acontece. Pois, aqui, não há possibilidade de idealização. Isto é: Jesus Cristo e o projeto do
Reino de Deus não podem ser aumentados, melhorados, aperfeiçoados ou engrandecidos
— numa palavra: não admitem ser idealizados, porque são já o ideal. O novo amor a que os
Exercícios pretendem introduzir o exercitante é, pois, um amor singular: um amor isento do
risco do engano ou da ilusão.
A Identificação a Jesus
O amor não é, porém, o único vínculo que se pretende estabelecer entre o exercitante e a
pessoa de Jesus. Em suas investigações, Freud distinguiu duas espécies de vínculos
libidinais entre as pessoas.
A primeira delas, já mencionada, é a libido objetal. A segunda forma de vínculo, acima
anunciada, é a identificação. O vínculo libidinal que há entre duas pessoas que estão
apaixonadas é a libido objetal. Já o vínculo que costuma existir entre amigos, companheiros,
iguais entre si, é a identificação.
Num grupo psicológico, por exemplo, o vínculo que sustenta a relação do membro do grupo
com o líder é a libido objetal. O membro procede como se estivesse apaixonado pelo líder.
No que concerne à relação entre os membros do grupo, reina entre eles a identificação. Os
membros identificam-se entre si na medida em que percebem que partilham uma
propriedade comum: o amor ao líder.
Essas duas espécies de vínculo não são, contudo, excludentes: podem perfeitamente
coexistir. Como fruto dos Exercícios, espera-se que aconteça justamente isto: que o
exercitante se apaixone por Jesus Cristo e que, ademais, identifique-se a ele.
A identificação é um processo através do qual um indivíduo incorpora um aspecto, uma
propriedade ou um atributo de um objeto transformando-se, total ou parcialmente, segundo o
modelo desse objeto. A matriz do superego, que já mencionamos, é formada exatamente por
meio da identificação da criança aos pais, na resolução do que Freud chamou ―complexo de
Édipo‖. Identificar-se a Jesus Cristo significa, pois, incorporá-lo e, por conseguinte,
transformar-se, de modo a assemelhar-se a ele. Aquilo que ele representa é internalizado,
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
passando a existir não mais como algo externo ao indivíduo, mas como parte do seu aparelho
psíquico, no seu superego. São informações novas que o ego, doravante, terá que levar em
conta quando for manejar os conflitos entre as exigências do id e os ditames do superego.
É, contudo, preferível que o seguimento generoso de Jesus Cristo seja mais o resultado de
uma paixão arrebatadora por ele do que o efeito da ação policialesca do superego. De fato,
ambas as alternativas são possíveis. O acolhimento dos preceitos e conselhos cristãos pode
resultar do fato de que o indivíduo os tenha solidamente internalizados em seu superego.
Com tanta força que, em condições normais, o ego não tem outra alternativa senão acatá-
los. Mas o seguimento também pode brotar, de modo espontâneo, simplesmente, do amor.
Este é, aliás, um dos traços da psicologia do enamoramento registrado por Freud: a sujeição
humilde de quem ama ao objeto do seu amor. Mais uma vez, quem quer que já se tenha
apaixonado sabe perfeitamente do que estamos falando. Quem ama submete-se ao que
ama. Partindo dessa observação, o pai da psicanálise chegou mesmo a comparar a relação
entre o amante e o amado àquela que há entre o hipnotizado e o hipnotizador.
A Potencialização dos Afetos
Vê-se, pois, que aquilo que os Exercícios almejam produzir no exercitante abarca a
totalidade da sua vida afetiva. Trata-se de dar um novo destino à sua libido, seja propondo
um novo objeto de amor para as suas catexias objetais, seja apresentando-lhe um novo
modelo de identificação.
É evidente que, para atingir tão ambiciosa meta, conta-se, antes de mais nada, com a graça
divina. Mas isso não significa que os meios humanos estejam dispensados de concorrer
para o mesmo fim. Entre estes, queremos destacar dois expedientes acionados pela
dinâmica dos Exercícios que, segundo Domínguez Morano, visam a uma potencialização
dos afetos do exercitante.
O primeiro deles reside no método de oração, a saber, na utilização da contemplação e da
aplicação dos sentidos no curso dos Exercícios. Ou seja, estamos falando de procedimentos
que estimulam a imaginação — isto é, a dimensão do visual — no exercitante.
Segundo Freud, o aparelho psíquico — que acima descrevemos como constituído por três
instâncias: o id, o ego e o superego — admite ainda ser pensado em outros termos. Ele é
formado por dois grandes sistemas: (1) o sistema consciente e pré-consciente e (2) o
sistema inconsciente. Ao primeiro, pertence tudo aquilo que, num dado momento, é
iluminado pela luz da consciência ou pode tornar-se consciente mediante um esforço de
concentração. Ao sistema inconsciente, pertence o que, por pressão do recalque, está
impedido de tornar-se consciente.
Algo mais pode ser dito a respeito destes dois sistemas — e algo que nos interessa. É que o
sistema inconsciente é caracterizado por ser o domínio do que Freud denominou
―representações de coisa‖, que são representações de natureza visual. Ao passo que o
sistema consciente e pré-consciente compreende, de específico, as representações de
palavra, cuja natureza é verbal.
Isto significa mobilizar, por meio dos Exercícios, a dimensão visual, mais do que a verbal;
tocar em uma esfera que tem maior parentesco com o inconsciente do que com o sistema
consciente e pré-consciente. É provável, pois, que esse recurso seja capaz de potencializar
os afetos do exercitante em um nível mais profundo do que aquele que seria atingido por
meio de orações meramente verbais.
Outro expediente, citado por Domínguez Morano, pode ser encontrado no colóquio tríplice
com o qual Santo Inácio sugere que determinadas orações sejam concluídas. Ora, quais
são os três interlocutores propostos nesse colóquio? Não o Pai, o Filho e o Espírito Santo,
como seria de se esperar; mas a Mãe, o Filho e o Pai. Ou seja, interlocutores que remetem
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
o exercitante, em cheio, a um drama universalmente atravessado pelos seres humanos e
que deixa marcas indeléveis em sua vida psíquica inconsciente: o complexo de Édipo.
O complexo de Édipo consiste na triangulação amorosa ocorrida entre a criança — isto é, o
Filho — e os seus pais — a Mãe e o Pai — durante a primeira infância. Em sua versão mais
simples, a criança elege a própria mãe como objeto do seu amor, passando a ter, em
relação ao próprio pai, uma relação ambivalente de amor e ódio. Na resolução do complexo
de Édipo, a criança abandona suas aspirações incestuosas e identifica-se ao próprio pai,
donde a formação do superego. Seja como for, o que nos interessa é que essas primitivas
relações de amor — e também de ódio — deixam marcas permanentes no inconsciente
humano. Remeter, pois, o exercitante a algo que o toca tão profundamente — mesmo sem
que ele o perceba — pode ser descrito como um expediente adicional para ajudá-lo a
alcançar o fruto esperado pelos Exercícios: uma abrangente remodelação afetiva.
Conclusão
Muita coisa poderia ainda ser dita a título de transcrição para a linguagem da psicanálise da
dinâmica dos Exercícios Espirituais. Sabemos que essa não é, contudo, uma empresa
destinada a acolher, sem mais, o aplauso e a admiração de todos. De fato, as relações entre
a fé cristã e o pensamento freudiano nunca foram amistosas.
Freud, pessoalmente, era ateu, mas é preciso ter presente que a psicanálise não é,
necessariamente, uma disciplina hostil à religião. Numa carta a um de seus discípulos, o
pastor protestante Oskar Pfister, Freud escreveu: ―A psicanálise em si não é religiosa nem
anti-religiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso como o laico poderão
servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores‖10.
Na era do diálogo com a cultura, esse artigo pretende dar testemunho de que o convívio
entre a psicanálise e a espiritualidade cristã — nomeadamente, inaciana — é possível e
pode ser mutuamente enriquecedor. Cremos, pois, que, embora sumário, o que acima
consignamos seja amostra suficiente de que o casamento ou — talvez nem tanto — a
amizade entre a psicanálise e a espiritualidade inaciana promete ser fecunda.
NOTAS:
1
Este artigo é fruto das reuniões do grupo de estudos sobre psicanálise e espiritualidade
inaciana do qual fazem parte o P. Cláudio Pires, SJ e os estudantes jesuítas Eduardo
Pereira, Ricardo Torri e Walace Rodrigues.
2
LOYOLA, Santo Inácio de. Exercícios espirituais; apresentação, tradução e notas do
Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici. São Paulo: Loyola, 2000. 160p.
3
Na definição subseqüente, acompanhamos, em parte, o pensamento do P. Luis María
García Domínguez, SJ. Cf. DOMÍNGUEZ, Luis María García. Qué son las afecciones desor-
denadas para Ignacio y cómo leerlas hoy desde la psicología. In: ALEMANY, Carlos, GARC-
ÍA-MONGE, José A. (Eds.). Psicologia y ejercicios ignacianos; la transformación del yo en la
experiencia de Ejercicios Espirituales. Bilbao: Mensajero; Santander: Sal Terrae, 1990. V.1,
p.94-108. (Colección Manresa, 5).
4
Constituições da Companhia de Jesus anotadas pela Congregação Geral XXXIV e Normas
Complementares aprovadas pela mesma Congregação. São Paulo: Loyola, 1997. 504p.
5
O pensamento de Freud pode ser encontrado em: FREUD, Sigmund. Edição standard
brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
24 v.
6
―Catexia‖ = energia, força, impulso... (N.d.R.).
9
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
7
Em boa parte do que se segue, acompanhamos de perto as idéias do P. Carlos
Domínguez Morano, SJ, professor de Psicologia da Religião da Faculdade de Teologia de
Granada, na Espanha. Cf. DOMÍNGUEZ, Carlos. Ordenación de la afectividad y mecanis-
mos de defensa. In: ALEMANY, Carlos, GARCÍA-MONGE, José A. (Eds.). Psicologia y ejer-
cicios ignacianos; la transformacion del yo en la experiencia de Ejercicios Espirituales. Bil-
bao: Mensajero; Santander: Sal Terrae, 1990. V.1, p.109-140. (Colección Manresa, 5).
8
KAZANTZAKIS, Nikos. O pobre de Deus. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p.15.
9
LAMET, Pedro Miguel. Arrupe: da bomba de Hiroshima à crise pós-conciliar. São Paulo:
Loyola, 1992. p.207.
10
FREUD, Ernst L., MENG, Heinrich (Orgs.). Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939); um
diálogo entre a psicanálise e a fé cristã. Viçosa: Ultimato, 1998. p.25.
SUBSÍDIO
A oração a seguir ganhou o prêmio de poesia no I Festival Inaciano de Música e Poesia, em
Belo Horizonte, MG.
ORAÇÃO
Lilian de Carvalho
Comunhão que une / Coração, mente, corpo e espírito.
União do Criador / Com a criatura...
Exercícios Espirituais / Moldando / Momento de encontro,
Encanto. / Grande desejo / Conduz.
Tudo parece lento, vento... / Inácio se adianta, / Previne. / Ensina.
Sinto medo. / Medo de mergulhar / No mar de mim mesma.
Perder minha imagem, / Reconhecer-me nos Olhos do Criador.,
Profundezas... / Mas a alma clama
E ao longe ouço a Voz / Que me chama
Voz que se forma / No vazio / Da ausência
Da quase dormência da minh‘alma.
Voz que é silêncio de ternura, / Brandura / Amor.
Experimento a emoção / Liberdade consagrada / A cada viva criatura.
Liberdade de ser essência: / Ser inacabado. / No movimento interior
Silêncio arde. / Arde o destempero / Desola a alma / Foge a calma.
E no momento seguinte / Silêncio sopra / A voz do Senhor
Nas feridas da alma / Transformadas em flor. / Aos poucos
A graça revela. / Revela o Filho Amado Jesus / Dentro e fora de mim. Não mais morto na
Cruz, / Não mais longe nos céus.
Encontro Jesus Cristo Vivo / No pulsar do coração,
Nos detalhes delicados / Simples cotidiano...
Vai derramando seu sonho / Pelos passos dos meus pés.
Com braços ternos de compaixão / Abraça o barulho, o entulho
Escondidos nas dobras do meu orgulho.
Lágrimas lavam a dor. / Amor integra / Luz e sombra,
O bem e o mal. / Vida / Morte, / RESSURREIÇÃO!
Lucidez do Homem Inácio / Deixar sinais
Do caminho da santidade. / Linguagem do Criador
A desvendar / Os sonhos de eternidade.
Linguagem do Criador / a desvendar / Os sonhos de eternidade.
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Despertos assim / Na alma e no coração,
O invisível vai se tornando visível / Fazendo o seu caminho
Em Oração. / Oração, / Coração,
Cor... / Ação.
ARTIGO
O autor, formado em Psicologia pela Universidade Gregoriana (Roma), foi Mestre de
Noviços, na Província do Brasil Meridional da Companhia de Jesus. Atualmente é Diretor do
Centro de Espiritualidade Cristo Rei (CECREI), em São Leopoldo, RS. O conceito “alma”
caiu em desuso na nossa linguagem teológico-espiritual. O texto a seguir revaloriza o termo,
para designar a dimensão mais profunda do nosso ser.
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, VIVÊNCIA A
PARTIR DO SER MAIS PROFUNDO
UM MOVIMENTO GERADOR DE VIDA
Pe. J. Geraldo Kolling, SJ
"Uma alma purificada em seu interior, uma alma que reza,
é como o sol em seu esplendor."
Introdução
Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio são fonte de vida, de vida em crescente amplitude.
Quando o ser humano se dispõe a caminhar sob a ação de Deus, realiza-se nele um
processo de abertura e de superação, de curas e de construção da personalidade. Este
processo pode ser obstaculizado por fechamentos, individualismos, medos e traumas ou por
simples características da personalidade, sendo favorecido por dinamismos de abertura e
coragem, generosidade e prospectiva. A vida desde o mais íntimo da pessoa humana
deseja ser despertada e vivenciada em plenitude. Contribuição substancial pode a
psicologia trazer aos Exercícios Espirituais por sua harmoniosa colaboração complementar.
1. O tema "Exercícios Espirituais, vivência desde o mais profundo" é algo crucial no
ensinamento espiritual. É provável andarmos hoje um tanto prevenidos com o acentuado
dualismo dos últimos séculos, quando alma e corpo eram considerados quase como
entidades opostas, representando a alma o aspecto mais sagrado e profundo do ser
humano. Vemos, ao longo da história da Igreja, homens e mulheres, como Sto. Inácio, São
Francisco de Assis, Sta. Clara, com amor entranhável amarem seu ser mais profundo, como
a mãe ama seu filho. Sendo, por graça de Deus, tão nobre entre as criaturas, a alma
humana e cristã era, para Clara de Assis, maior que o céu. Tomamos, até certo ponto,
consciência de uma dimensão profunda de nosso interior, que nos permite experimentar
como que outra vida, superior, que não podemos revelar ao mundo exterior. Sendo esta vida
superior o aspecto mais verdadeiro de nosso ser, queremos subtraí-la às influências
externas. Em terminologia mais atualizada, de C.G.Jung, é esse o papel do ego, cuja função
é apreciar e servir a essência de nosso ser. Com ego prepotente, a serviço de si mesmo, a
personalidade, distorcida e sufocada, não pode gerar plenitude de vida.
2. A função dos Exercícios Espirituais é gerar vida, fazer viver desde a verdade mais
profunda da alma. Hoje, mais e mais, a psicologia descobre o eu mais profundo, a alma, e a
traduz em linguagem de nosso tempo. Os grandes homens e mulheres da Igreja a
conheceram muito bem. A alma é tida como a essência do ser humano, essência de ordem
diferente da essência do corpo. O corpo está vivo; a alma é vivificante, é a vida em si
mesma, é vida pura. Alma, o ser profundo, não é conceito, não é pura idéia. A alma é o que
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somos no mais íntimo de nós mesmos, com nossas moções mais ricas e mais profundas. A
alma é profunda beleza: é nossa natureza, nossa identidade; ela dá sentido à nossa vida, o
significado de nossa existência. É ela que nos chama a voltar, a viver em plenitude. É nossa
tarefa ir descobrindo, dia a dia, a imensa beleza que é esta essência, a alma. Não há
imaginação que possa conceber sua beleza. A alma nos move e promove, nos ensina, nos
dignifica, nos eleva. Sua criatividade não tem fronteiras, é imensa a profundidade de sua
inteligência, a riqueza de sua memória, o poder de sua vontade, a generosidade de seu
amor; é o ponto alto de nossa natureza, é o que somos. É função da espiritualidade a plena
integração entre alma e corpo.
3. Os Exercícios Espirituais dinamizam o movimento da alma, revigoram sua vida espiritual,
purificam suas aspirações, criam relações transcendentes, abrem-nos ao louvor do Criador.
Por vezes, requerem a desestabilização da personalidade, equivocadamente construída:
não sua mutilação, mas sua reestruturação, sua libertação em relação ao próprio ego.
Significa ser capaz de realmente viver a partir da alma, do coração, da profundeza do ser.
Isso requer uma personalidade suficientemente forte e audaz, mas sensível e flexível.
Reconquistada a supremacia da vida da alma, do nosso eu mais profundo, seremos
capazes de viver uma verdadeira relação de amor, como o atesta a vida de muitos santos.
Se a vida não se desenvolve a partir da alma, pode tornar-se motor de todo o nosso ego o
mais crasso individualismo e, em decorrência, gerar-se nossa indisponibilidade, a
incapacidade de partilharmos a vida com os demais. Este individualismo invade de tal forma
nossa vida que nos isolamos, eximindo-nos da responsabilidade de ocupar-nos dos irmãos,
tornando-nos incapazes de fecundas relações fraternas e comunitárias. O aprofundamento
não terá espaço nem condições de vingar. Quando não vivemos a partir da alma, nossas
relações, normalmente, não são sadias nem estáveis; imperceptivelmente, perdemo-nos nas
contingências do momento, em dependências, sem dar-nos conta.
4. Para o homem, sua relação com Deus será sempre, porque constitutiva de seu ser e de
seu destino, penhor de auto-realização. Viver esta relação é atestar que Deus, melhor que
nós mesmos, nos conhece, no mais profundo de nosso ser. É também fundamentar, no
homem, sua capacidade de procurar e encontrar a Deus, de conhecê-lo e amá-lo. Estas
significações da nossa relação, com base na criação, permitem conceber uma continuidade
entre as ordens da natureza e da graça. Elas convidam para a integração de tudo que é
humano na vida de fé. Elas falam do amor de Deus a este mundo, onde ele firmou sua
aliança com o homem. Ao viver o homem sua permanente relação com o mundo, que não é
criação sua, depara-se-lhe, majestoso e imprescindível, o Criador.
5. De beleza incomparável, é a alma o ambiente propício e precioso onde acontece a vida.
Os Exercícios Espirituais querem despertar a vida da alma, redescobrindo sua verdadeira
riqueza: suscitam, em nós, melhor conhecimento e amor mais autêntico para com nossa
alma; ensinam-nos a gerar vida, a partir da alma, fazendo-nos viver, extasiados, a
gratuidade do amor divino, em sua absoluta liberdade criadora; levam-nos, enfim, a
perceber, como possível e necessária, a mais plena harmonia entre o homem e o Senhor
Deus, seu Criador. É isso que dá sentido à nossa existência.
6. Os Exercícios Espirituais procuram conscientizar o homem de que a medida de sua
humanidade é sua relação com Deus. O mundo criado torna-se revelador da imensa
liberalidade de Deus, como doador e mestre da vida. Cristo nos revela seu e nosso Deus
como Pai, vivo e operante, que, solícito pelo homem, o convida a participar da vida divina. O
Espírito, com seu dinamismo de vida, faz do homem o cume da criação do Pai, em vista do
fim supremo: sua união com Deus, na relação de aliança pessoal e comunitária. Muitos
passam pela vida sem despertar para tão estupenda maravilha. Optam, talvez, por
adormecer a alma, não querendo confrontar as imposições do ego com o que a alma lhes
propõe.
7. O reconhecimento de Deus, como Criador e Senhor, e o temor filial ante sua divina
Majestade serão sempre o fundamento de todo itinerário cristão: geram a tomada de
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consciência diante da maldade do pecado, como movimento de auto-suficiência ou como
recusa de aceitar-se como criatura, em total dependência. O pecado, como fonte de
desordem, leva à desestruturação do mundo relacional do homem, no seio da criação; o
perdão oferecido por Deus, pelos méritos de Cristo, faz renascer a esperança de tornar-se o
homem artífice de um mundo novo, mais justo e mais humano. Porque, sob o título de rei
universal, exerce Jesus Cristo, sobre toda a criação, sua irrestrita soberania, a ele outorgada
pelo Pai, que o constitui caminho de vida para os homens, a norma de vida do cristão é a do
discípulo, definido como companheiro de Cristo, que o coloca em permanente situação de
convocado e o torna vitorioso na oferenda de seu serviço.
8. O ser humano se define por sua capacidade de abertura à ação de Deus. Sua inteligência
e sua vontade, unidas à sua afetividade, são as estruturas de acolhimento do mistério de
Deus, servindo-lhe de mediações. A primazia e a gratuidade do amor e da graça de Deus
significam, para todo homem, a real possibilidade de ser constituído em sujeito de fé
religiosa, constituindo-se a relação do homem com Deus na ordem da resposta humana ao
chamamento divino. A resposta é livremente assumida, procedente de deliberação do
homem de aceitar seu Deus e de encontrar, nesta relação, sua auto-realização.
Os Exercícios Espirituais ajudam-nos a conhecer
a própria alma, isto é, o eu mais profundo
9. Na vida de todo ser humano, tem Deus um momento de lhe despertar a alma. Pode ser
uma enfermidade, um acidente, um choque, um momento de angústia e depressão, uma
perda irreparável. Seja qual for, uma triste experiência sempre evocará em nosso espírito
um sentimento de vazio, uma sensação de impotência e frustração em nossa vida. Porém,
independente da forma, o chamado é, para todo homem, o mesmo: voltar à verdadeira vida
da alma, voltar ao eu mais profundo. Os Exercícios Espirituais, ajudando-nos a conhecer a
própria alma, constituem-na ponto de partida para a plenitude da vida, mediante nosso total
despojamento, na vivência da humildade e pobreza, dando-nos Maria o exemplo da mais
profunda humildade, pela livre renúncia a todas as possíveis, porém efêmeras glórias
mundanas e da mais austera pobreza, no generoso abandono de todas as metas
transitórias e equívocas, motivo de regozijo e de ambição para as pessoas centradas em si
mesmas.
10. O amor de Deus pela humanidade alcança seu pleno cumprimento com o consentimento
de Maria. A Encarnação abre a plenitude dos tempos, onde a ação criadora de Deus
culmina na divinização do homem. Cristo confere ao homem a capacidade de acolhimento
do mistério de Deus. O Filho do Homem, em sua vida mortal, oculta ou pública, está,
inequivocamente, presente sob os traços fundamentais da pobreza e da humildade.
Atraindo-nos o Pai para seu Filho, somos levados a descobrir o esplendor da vida filial e
fraterna.
11. O homem é assim convocado a ultrapassar-se. Tal disponibilidade é testada em relação
à pobreza e humildade de Cristo, quando, nos Exercícios Espirituais, somos desafiados a
desejar nossa identificação com o Cristo da Paixão, o Homem das dores, humilhado e
desprezado, sucumbido ao ódio e aos suplícios. O acolhimento desta soberana vontade do
Pai, que, em seu eterno e imperscrutável desígnio, "sacrifica seu Filho para salvar os
servos" recebe aqui o nome de Eleição. Opera-se assim uma páscoa com Cristo. Supõe-se
que o homem aceite ser amado e escolhido pelo Pai para sua associação ao Cristo.
12. Mestre Eckhart, maravilhoso místico da Idade Média, diz que a alma cresce por
subtração, isto é, quanto mais nos desprendemos da prepotência do nosso ego, mais vida e
mais vigor terá nossa alma. Se glorificamos nosso ego, dando-lhe todas as atenções, em
vão esperamos viver a partir de nosso ser mais profundo: as duas atitudes são
incompatíveis. É preciso optar; mas a opção pela vida em profundidade não exclui de todo a
intromissão do nosso ego, que sempre encontra maneira de imiscuir-se no que julga de sua
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alçada. O Espírito do Senhor nos ensinará como desprender-nos das vaidades e ambições
do ego para, resolutamente, seguir as pegadas de Cristo pobre e humilde.
13. Segundo os Exercícios Espirituais, deve buscar-se, em toda escolha irrevogável, a luz da
comunicação de Deus; efetivada por moção do Espírito, caracteriza-se a eleição pela presteza
e segurança da decisão a ser tomada, como resposta definitiva ao chamado divino. Tal
presteza e segurança, sem vacilações ou vãos temores, é insuspeito critério de discernimento
da operante presença de Deus, que inunda a alma de paz celestial e alegria espiritual. Para
uma pessoa que vive a partir do seu eu mais profundo, o mundo interior, na presença de
Deus, é belíssimo, encantador paraíso de delícias. Em sua oração contemplativa, assombra-
se a alma cristã diante da beleza que refulge em seu interior, tão mais luminosa que a luz do
sol. Para viver desde o ser mais profundo da alma, é preciso dedicar, cada dia, algum tempo
ao estudo da própria alma e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em nós. A
tirania de nosso egoísmo busca obscurecer e neutralizar a sensibilidade e beleza de nosso
interior. Amar o mais íntimo de nossa alma é vital para o crescimento na seara do Senhor, e é
fonte de paz em nossa vida. O Sl 131 nos fala desta paz do coração, brotada do interior:
"Senhor, meu coração não é pretensioso, não aspira a grandiosas proezas...".
14. Os Exercícios Espirituais, ensinando a escutar nosso íntimo mais profundo, nos
desvendam distintas maneiras de cultivá-lo. Para uns será a contemplação da mãe
natureza, a fruição de seu poder de cura. — É importante que a mãe natureza alimente o
amor de nossa alma. — Para outros será a visitação de obras de arte, a audição de música,
um exercício intelectual, a prática do esporte, etc. A alma tem sua própria linguagem, uma
linguagem nobre e altamente sensível, distinta da linguagem da mente. É preciso aprender a
linguagem do coração. Nossa alma, normalmente, mais do que palavras, usa a linguagem
dos símbolos, e cada alma tem sua linguagem simbólica própria. Se nos chama a atenção o
vôo do pássaro, é, talvez, porque nossa alma nos está chamando à liberdade interior. Outra
linguagem da alma é a dos sonhos, tão profundos conhecedores do nosso íntimo.
15. Não basta, porém, escutar nosso íntimo; é preciso confiar na sua voz, acatar sua
mensagem. Confiar na voz interior é, hoje, virtude sempre mais rara, de muitos ignorada ou
esquecida. Na civilização ocidental nos deixamos conduzir mais pelo aspecto racional de
nosso ser, quando não pelo sentimental. Não fomos educados a escutar a voz de nosso
íntimo, suas valiosas intuições.
16. Um dos mais cruciais desafios da Refundação da Vida Religiosa é, talvez, o aprendizado
do amor ao nosso eu mais profundo e, conseqüentemente, do amor aos nossos irmãos. É o
Espírito que, guiando-nos pelo caminho da escuta de nosso eu, concilia nossa confiança em
nós e nos outros; da confiança nasce a alegria por nós e pelos outros; e da alegria, o desejo
de cultivar tempos gratuitos de encontro com o Pai, para que o fulgor de sua beleza
purifique e transforme nossa vida, machucada pelo sórdido individualismo da modernidade.
17. A apaixonada busca de Deus é a razão última de nossa vida. Sentimo-nos chamados a
ser amigos de Jesus e a dar frutos abundantes e duradouros (Jo 15,16), permanecendo
unidos a ele. "Sem mim — diz o Senhor (Jo 15,5) — nada podeis fazer." Ser frutíferos
implica em estarmos unidos ao Cristo, para que nossas obras sejam expressão do seu
amor, e não só de vis interesses e ambiciosa competição. Os Exercícios Espirituais nos
proporcionam esta caminhada.
18. Na aventura dos Exercícios Espirituais é Deus quem escolhe o homem e se propõe a
ser seu escolhido. Deus eleva o homem acima de si mesmo, e depois, simuladamente, o
abandona; gratifica-o com seus dons, e priva-o de seus favores; deixa-o morrer, e o faz
reviver. Assim educa o homem a humilde e fiel disponibilidade, a um confiante abandono de
si mesmo. A graça de Deus torna possível o que ao homem era impossível: acolher seu
Deus, tal qual ele é.
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19. "Os Exercícios Espirituais permitem afirmar que o homem é chamado a participar na
obra de Deus, integrando todas as potencialidades de seu ser humano. As diversas formas
de oração e as Regras do Discernimento parecem pressupor que ele é espírito, corpo e
alma, sendo o espírito princípio de vitalidade para a alma e para o corpo. A abrangência do
espírito se estende para além da alma, com sua memória, inteligência e vontade; é razão, é
liberdade, desejo, afetividade... O que é espiritual distingue-se, assim, do que é psíquico ou
somático, sem serem, no entanto, separados. Da mesma forma, é para a alma e para o
corpo do homem, na sua existência terrestre." (Monique Verheeck).
20. "Os Exercícios Espirituais reconhecem ainda ao espírito do homem a possibilidade de
verdadeira autonomia, não obstante a evidente vulnerabilidade às influências exteriores, que
caracterizam também sua memória, inteligência e vontade, cujo objeto não é,
necessariamente, relativo a Deus e a seu desígnio salvífico. Dá-se o mesmo com os
sentidos; o cristão dispõe-se a colocá-los em relação à revelação de Deus, sendo sua vida
espiritual não mais simples expressão de sua natureza, mas abertura ao crescimento do
sentido e dinamismo que se manifesta em Jesus." (idem)
21. Se desejamos, de forma mais eficaz e fecunda, colaborar na expansão do Reino,
encontramos, nos Exercícios Espirituais e na psicologia, elementos que favorecem a
abertura ao Espírito, que conduz a História e, gradativamente, nos transforma, através de
experiências e vivências pessoais e comunitárias. Ambas as fontes são de ímpar
fecundidade e riqueza para uma vida solidária, que brota do interior do ser pessoal. Usá-las,
sem as absolutizar, é dom e tarefa pessoal. Compromisso e ascese, disciplina e graça,
morte e ressurreição: vida mais plena, desde o cerne.
Conclusão
A ciência, a mística e os Exercícios Espirituais concordam em que o ser humano, embora
extremamente limitado, é substancial potencialidade de vida. O exercício de harmonização e
integração do ser humano, de sua personalidade como um todo, pode ser profunda e
intensamente favorecido pela experiência dos Exercícios Espirituais, que nele
desencadeiam um processo de riquezas humanas, especialmente a vivência desde o mais
íntimo do ser. Pode também ser favorecido pelo desabrochar de potencialidades no cultivo
psico-espiritual. Assim, Exercícios Espirituais e ciência colaboram para a maior glória de
Deus, ajudando o homem a crescer em liberdade e no transcendente amor teocêntrico. A
psicologia é pois instrumental importante para uma vida consagrada mais plena e mais livre.
Sempre, porém, é preciso ter presente que a psicologia sem espiritualidade é como túnel
cavado na água.
ARTIGO
Pe. Pius formou-se em Psicologia na Universidade Gregoriana (Roma) e foi Diretor do
CECREI, em São Leopoldo. Atualmente é Reitor da Igreja do Rosário, em Curitiba, e
continua orientando Exercícios Espirituais. Acaba de publicar “Vida em Plenitude”.
DINAMISMOS PSICO-AFETIVOS NA PRIMEIRA SEMANA
DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Pius T. Sidegun, SJ
Introdução
Na primeira etapa dos Exercícios Espirituais (EE), o exercitante passa por um processo de
purificação dos ―afetos desordenados‖, que engloba todas as formas de apegos e de auto-
centramento. É preciso inteirar-se bem dos dinamismos psico-afetivos e espirituais que
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movem o exercitante. A compreensão destes dinamismos pode ajudar a entender melhor as
possíveis e as diferentes reações defensivas que ele pode acionar para proteger-se e
permanecer refugiado nos seus apegos, quando colocado em situação de confronto e de
interpelação pela Palavra de Deus ou pela ação do Espírito Santo. Neste sentido, um
conhecimento mais amplo da psique humana pode vir ao encontro da espiritualidade e
qualificar a genuinidade dos elementos dinâmicos e estruturais da vida afetiva e espiritual do
exercitante, que se encontra em processo de purificação, na primeira etapa dos EE.
Objetivo da “oração preparatória‖
Na sistematização dos EE de S. Inácio de Loyola, encontra-se uma seqüência que visa
proporcionar ao exercitante um ambiente de silêncio interior e exterior, onde haja o mínimo
de interferências que o perturbem e o desviem da experiência de oração. Santo Inácio quer
que a experiência de oração envolva toda a vida e história do exercitante. Que todas as
disposições de ânimo participem do ―sabor novo‖ da ação do Espírito Santo, que realiza o
―querer e o agir‖ de Deus (cf. Fl 2,13).
Para dispor o espírito e criar um estado de ânimo aberto e receptivo à ação do Espírito de
Deus, Santo Inácio propõe uma ―oração preparatória‖ (EE, 46). Esta visa preparar o ―terreno
da vida‖ para ser receptivo à semente da Palavra de Deus e torná-lo fecundo pela ação do
Espírito Santo.
O espírito que perpassa a ―oração preparatória‖ visa ―desarmar‖ o exercitante de suas
justificativas e reações defensivas. A experiência orante requer que o exercitante se
―desnude‖, se ―renda‖ e se ―despoje‖ de si mesmo, para lançar-se nos braços
misericordiosos e providentes de Deus. Neste sentido, a ―oração preparatória‖ coloca o
exercitante em contato e em sintonia com a ação da Trindade em sua vida. Este referencial
é fundamental para criar uma disposição de ânimo sintonizada com a ação do Espírito. Isto
requer a presença, a abertura e a receptividade de todo o ser do exercitante. Todas as
dimensões da vida participam da experiência orante. Para alcançar esta meta, é importante
fazer silêncio nos pensamentos, na vontade e nos sentimentos. Geralmente, a mente é
muito ativa e ―barulhenta‖. A vontade tende a ser muito aquisitiva e utilitarista. Os
sentimentos tendem a valorizar e apreciar o que é agradável e repelir o que é exigente e
implica ―morrer‖ para si mesmo. Tais atitudes dificultam a ação do Espírito. De fato, a moção
do Espírito pode ser desviada ou bloqueada por forças inconscientes que resistem em
aceitar o ―novo‖ e a conversão dos dinamismos mais profundos. Neste caso, a mudança de
mentalidade ou dos paradigmas não acontece. A pessoa tende a permanecer girando em
torno de si mesma, sem processar, em si, uma transformação mais profunda e significativa.
Objetivo da “composição de lugar”
No primeiro preâmbulo (EE, 47), Santo Inácio propõe a ―composição de lugar‖. Santo Inácio
recorre à faculdade imaginativa e à capacidade de fazer uso de símbolos, para colocar o
exercitante numa situação relacional, onde há interação e intercomunicação. À luz da fé,
sugere ao exercitante tornar presente a realidade divina, servindo-se de imagens e de
símbolos. A imagem ou o símbolo torna presente a realidade transcendente. No conceito de
K. G. Jung, torna visível o que está no invisível. Nesta perspectiva, ―compor o lugar‖ torna-se
significativo para o exercitante que entra em relação e em sintonia com as pessoas da
Trindade, com Maria, José, Arcanjos e Santos..., para realizar e ―saborear‖ sua experiência de
oração.
Para facilitar a compreensão do significado de ―composição de lugar‖, numa linguagem
atual, pode-se usar a imagem de santuário interior, que consiste em criar um ―espaço
interior”, um ―lugar sagrado‖, como ―a tenda de encontro‖ de Moisés (Ex 33,7-11). Uma
imagem simbólica pode ajudar nesta construção. Por exemplo, um templo, uma gruta, o
sacrário, a sombra de uma árvore, uma fonte, o deserto, o alto da montanha, o fundo do
mar, a natureza... O santuário interior é um ―lugar‖ onde a pessoa pode se situar para se
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encontrar com Deus nos momentos de oração e de contemplação. Este ―lugar” quer
expressar a morada de Deus na pessoa e facilitar a intercomunicação e a escuta de Sua
revelação.
Neste preâmbulo, Inácio fala em ―ver o lugar, as pessoas...‖ (EE, 47). Esta dimensão do ―ver
as pessoas‖ pode traduzir-se pelo conceito de comunidade espiritual. Esta é constituída por
―personagens espirituais‖, cuja presença é significativa na vida da pessoa. Neste sentido, a
pessoa pode tornar presente as pessoas da Trindade, Maria, José, os arcanjos, o anjo da
guarda, santos de sua devoção, amigos e amigas. A comunidade espiritual acompanha,
guia, esclarece e fortifica a experiência de oração. Ela pode ajudar a desvendar a verdade
oculta ou desconhecida a nível consciente, seja em relação a Deus, a si mesmo e aos
outros, como também, em relação às experiências da vida. É preciso criar vínculos de fé e
de confiança, para que a interação e a intercomunicação com os ―membros‖ da comunidade
espiritual sejam eficazes e provoquem a conversão desejada. É de suma importância o
aspecto dos vínculos de fé e de confiança. A relação de fé e de confiança dá sustentação e
persistência nos momentos de desafio, de confronto e de tirar as máscaras. Como também,
nos momentos de deixar-se conduzir por ―alguém‖ da comunidade espiritual. Pela entrega
confiante, o exercitante se despoja das seguranças pessoais e se confia plenamente à
orientação e à ação do Espírito Santo. Ou, também, pode confiar-se à orientação de algum
―personagem‖ de confiança, presente na sua comunidade espiritual. É com este
―personagem‖ que o exercitante pode viver um ―diálogo interior‖ mais expressivo e
existencial. Este conceito expressa a dimensão da interação e da intercomunicação, da
―escuta‖ e da ―fala‖.
O diálogo interior consiste em ―ouvir‖, ―falar‖ e ―agir‖. Para que aconteça a experiência do
diálogo interior, são necessários laços de fé e de confiança. No diálogo interior ocorre uma
conversa ―de coração a coração”, onde a pessoa fala, escuta, pode ser questionada,
confrontada, desmascarada na sua ambigüidade, pode expor-se na sua verdade mais
profunda... Por exemplo, Jesus dialoga com Nicodemos, com a samaritana, com Maria e
Marta, com os fariseus... Esta interação e intercomunicação, ―fala‖ e ―escuta‖, levam a uma
resposta-compromisso que transforma a vida do exercitante.
Esta experiência orante chama-se contemplação. Ela consiste em silenciar, admirar,
saborear e deter-se numa palavra, numa frase, num símbolo, numa paisagem, numa
pessoa, numa cena... É deixar-se atrair por aquilo que fala ao coração e desperta
admiração, encantamento, fascínio, plenitude, silêncio, provocação... No dizer de Santo
Inácio de Loyola, “o que sacia e satisfaz a alma não é o muito saber, mas o sentir e
saborear as coisas internamente‖ (EE, 2). A experiência de oração contemplativa
descentraliza o exercitante de si e centra-o em Deus.
A contemplação se realiza pela potência da capacidade imaginativa. Esta é uma das
potências com que Deus dotou a pessoa humana para facilitar a sintonia com a dimensão
transcendente da vida. O simbólico é um meio que pode levar a pessoa a uma profunda
experiência do amor de Deus. Esta faculdade imaginativa pode proporcionar maior
profundidade à experiência contemplativa. Santo Inácio de Loyola, na primeira etapa dos
Exercícios Espirituais, que está sendo considerada (EE 47, 53, 56, 58, 65-70), propõe ―ver‖,
com os ―olhos da imaginação”, o cenário e as pessoas que fazem parte da cena do relato
bíblico a ser contemplado ou de aspectos da história pessoal a ser considerada. “Olhar e
contemplar” o que as pessoas “fazem”, ―ouvir” o que ―falam‖... Fazer parte ativa do cenário:
envolver-se, participar, admirar, encantar-se... A contemplação consiste em ―ver, ouvir,
sentir, agir‖ e comprometer-se. Requer da pessoa uma atitude de silêncio interior.
O sentido do silêncio fecundo
A atitude de silêncio interior pode ser adquirida centrando a atenção na respiração ou
através da repetição lenta de um mantra, uma palavra, uma frase, contemplando uma
imagem, um símbolo, a natureza... O silêncio pode ajudar o exercitante no esvaziamento de
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si e no centrar-se no mistério a ser contemplado. O silêncio interior predispõe o exercitante a
entrar no Mistério a ser contemplado, envolvendo-se com a presença das pessoas da
Trindade, com a ―comunidade espiritual” e, assim, vivenciar o diálogo orante. Tal atitude leva
a silenciar os pensamentos, a vontade e os afetos. Pois, o exercitante descentra-se de si
mesmo e centra-se no Mistério que o envolve. Neste caso, os pensamentos com suas
pretensões, justificativas e intelectualizações desaparecem do campo consciente. A vontade
é absorvida pela participação da ação do Espírito de Deus. Os sentimentos são permeados
pelo Espírito em ação, suscitando abertura e acolhimento da mensagem que o Mistério
comunica. Neste sentido, o silêncio abre um espaço interior para o exercitante se deixar
possuir pela ação do Espírito Santo. Esta atitude silenciosa torna o silêncio fecundo, porque
abre espaço interior e deixa o Espírito Santo ser o protagonista da experiência de oração
contemplativa.
Outro elemento orientador básico é o desejo que é uma força motivacional e uma orientação
dinâmica que move internamente o exercitante a escolher, a decidir e a agir. O desejo
sinaliza o que o exercitante valoriza, onde e em quem está centrado, o que quer e o que
realmente é. É importante que o desejo da Trindade e o desejo do exercitante se abracem e
se transformem em energia construtiva.
O sentido das Adições [EE 75-90]
As Adições referentes à primeira etapa dos Exercícios Espirituais, têm como objetivo
proporcionar ao exercitante um ambiente externo que favoreça à disposição interior de
espírito uma sintonia mais envolvente e significativa com Deus. O ambiente externo, os
sinais simbólicos e os gestos de penitência são meios dos quais o exercitante pode dispor
para ajudar-se a alcançar o que deseja: crescer na íntima comunhão com Deus, através do
processo de purificação dos ―afetos desordenados‖. Os ritos penitenciais, propostos nas
Adições, recebem seu sentido e sua força transformadora na medida em que colocam o
exercitante em comunhão com Deus. Os gestos simbólicos e os ritos visam adentrar o
exercitante na vida da Trindade. Neste sentido, transcendem a dimensão humana e
ancoram a vida do exercitante no coração da Trindade. Tal experiência de misericórdia e de
amor leva o exercitante à ―exclamação de espanto com afeto intensificado‖ (EE, 60): ―Sou
um pecador amado e perdoado! Quão misericordioso é o Deus de Jesus Cristo!‖ Esta
experiência de reconciliação da vida com Deus, com os outros e consigo mesmo, suscita um
espírito de gratidão e de amor para com Deus. Ao mesmo tempo, o exercitante sente-se
interpelado pela experiência vivida e se pergunta: ―Que fiz por Cristo? Que faço por Cristo?
Que farei por Cristo?‖ Estas perguntas despertam o desejo de conhecer mais intimamente a
pessoa e a missão de Jesus Cristo. Neste estágio o exercitante oferece condições para
mergulhar no mistério da vida de Jesus Cristo e configurar sua vida com a d‘Ele.
Conclusão
A experiência de conversão de Santo Inácio é uma verdadeira ―escola‖ de vida, que oferece
uma psico-pedagogia ao exercitante que nela se matricula, cuja aprendizagem leva o
―aluno‖ ao âmago do seu ser, para enraizar sua vida no coração da Trindade, dele haurir a
seiva da vida divina e deixar-se imbuir pelo espírito da Trindade. A passagem pela primeira
etapa dos Exercícios Espirituais visa proporcionar ao exercitante uma transformação radical
na matriz mental, volitiva e afetiva. A purificação dos ―afetos desordenados‖ é o processo
pelo qual o exercitante cria, em si, um ―novo‖ referencial, um ―novo‖ centro afetivo, uma
―nova‖ matriz mental, volitiva e afetiva. De fato, o exercitante que se entrega na gratuidade à
ação do Espírito Santo, vive, simultaneamente, um processo de libertação e de
transformação psico-espiritual.
ARTIGO
O autor é membro do CEI-Itaici e redator da revista.
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AMOR HUMANO E AMOR CRISTÃO
Luis González-Quevedo, SJ
INTRODUÇÃO: UMA UTOPIA IMPRESCINDÍVEL
Escritores de todas as épocas, pessoas de todas as raças, credos e culturas, homens e
mulheres de ontem e de hoje escrevem e falam incansavelmente do amor, como resposta e
solução à questão do sentido da existência humana. O homem e, ainda mais, a mulher
colocam a esperança de sua felicidade pessoal em ―amar e ser amados‖. Com amor, tudo
vale a pena; sem ele, a vida se esvazia. O sábio já dizia: ―mais vale um prato de verdura
com amor, do que um boi cevado com rancor‖ (Pr 15,17).
Esta unanimidade quanto ao apreço do amor esfacela-se, logo mais, ao se tentar descrever
as diversas formas e características concretas do amor. Fala-se, então, de amor divino e
amor humano; amor casto e ―amor de perdição‖; amor adolescente e amor adulto, etc.
Para o poeta-cantor, ―todo amor é sagrado‖ (Milton Nascimento). De fato, todo amor
verdadeiro suscita na pessoa apaixonada fascínio e temor, reações clássicas diante do
sagrado.
“Medo. De ti. Amar-te / é o mais alto risco...
Mas tu és / teu próprio além,
como a luz e o mundo...”
(Pedro Salinas) 1.
Para além da poesia, do romantismo e da exploração da beleza dos jovens na mídia, os
adultos sabem que ―amar‖, de verdade, não é fácil, não é jogo para adolescentes. A
juventude é, sim, a época das primeiras experiências amorosas, existencialmente
importantes, mas inevitavelmente passageiras e superficiais.
“Amar é privilégio de maduros, / que amor começa tarde”.
(Drummond de Andrade).
A constatação das dificuldades leva a maioria dos autores contemporâneos a um certo
pessimismo, a respeito do amor. O teólogo Carlos Palácio constata, na cultura atual, ―um
ceticismo difuso mas generalizado‖ quanto ao amor humano, ―imperativo impossível‖,
―realidade etérea, incansavelmente perseguida, mas nunca alcançada‖ 2.
―Nada é tão fascinante quanto o amor, desgraçadamente‖, escreve Hanif Kureishi, no seu
romance Intimidade, publicado em português pela Companhia das Letras. Trata-se de um
desabafo do marido, na véspera de abandonar o lar, após o fracasso do seu casamento.
Sempre houve, ―desgraçadamente‖ sim, fracassos matrimoniais. Leão Tolstoi abandonou a
esposa e os filhos na velhice. Jorge Luís Borges combinou com um amigo que o viesse
procurar de táxi. Pegou seu livro de cabeceira, subiu ao táxi e nunca mais regressou ao
domicílio conjugal, não digo ―lar‖, porque o grande escritor argentino nunca conseguiu
formar um verdadeiro lar. Ele mesmo declarou que nunca chegou a ―sair‖ da biblioteca da
casa do seu pai. Só tornaria a casar na velhice, com a sua secretária, pouco antes de
morrer.
Nas novas gerações parece estar aumentando a sensação de que o amor humano não é
para durar. Se for ―eterno‖ só ―enquanto dura‖ (Vinícius de Morais), deverá ser consumido
rapidamente, antes de que apodreça. Porque ―o amor é entidade crepuscular. Seu dia é
curto...‖ 3. O tema do último romance do escritor inglês Julian Barnes é, justamente, este: ―a
dissolução do amor‖. O amor do casal protagonista acaba ―nos etcéteras da vida‖ 4.
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Neste tema universal, a fleuma britânica coincide com o romantismo latino e com a saudade
brasileira. Uma das canções mais populares do cantor francês Charles Trenet pergunta: ―O
que fica dos nossos amores?‖ (Que Reste-t-il de Nos Amours?). E os nossos compositores
de música popular não são mais otimistas. Basta lembrar os sambas de Nélson Cavaquinho:
―Folhas Secas‖, ―Pranto do Poeta‖, ―Quando Eu me Chamar Saudade‖, ―Se Você me
Ouvisse‖, ―Mulher sem Alma‖:
“Tire seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor”
(―A Flor e o Espinho‖, samba de Nélson Cavaquinho
e Guilherme de Brito).
Falecido o grande compositor, seu parceiro Guilherme de Brito continua fazendo músicas
tristes, porque ―eu acho que toca mais as pessoas do que as músicas alegres‖ 5.
”Assim como nasce uma flor / Que ninguém consegue explicar /
Nasce também o amor / Que não devia acabar”...
(―A Pomba da Paz‖, de Guilherme de Brito).
O amor ―não devia acabar‖... mas acaba! ―O amor pode acabar... de manhã, de tarde, de
noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no
conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por
qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o
amor acaba‖ 6.
O cinema tem sido pródigo, também, em representar o fascínio e as frustrações do amor
humano. No filme Rocco e seus irmãos (Luchino Visconti, 1960), há um belo diálogo entre
Rocco (interpretado por Alain Delon) e Nádia (Annie Girardot). Ele é um jovem migrante do
sul da Itália, desambientado na grande cidade de Milão. Ela, uma moça prostituída, que
acaba de sair da cadeia.
―O que faria você se estivesse no meu lugar?‖, pergunta Nádia a Rocco. ―Teria fé – diz ele -
não teria medo... Teria confiança‖. ―Em quê?‖, retruca a garota. ―Na vida – responde Rocco-
...em tudo!‖. ―Em você também?‖, insinua ela, criando clima de intimidade. ―Sim, também em
mim‖, diz ele, com um afeto diferente de tudo o que a moça conheceu até aquele momento.
―Quando venha a Milão me procure – conclui Nádia –. Talvez você possa me ensinar a não
ter medo‖.
―No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor‖ (1Jo 4,18). Mas o
amor de Rocco e Nádia, como a maioria dos amores humanos, não é perfeito. Por isso, não
resiste aos ciúmes de um irmão de Rocco que, tendo sido namorado de Nádia, humilha-a,
brutalmente, diante de Rocco. Depois do desastre, Nádia diz: ―Não creio em mais nada... O
que era bonito transformou-se em culpa‖. E ao irmão de Rocco lhe diz: ―Você estragou o
sonho mais lindo que tive na vida. Agora pode fazer o que quiser. Não importa mais nada...‖.
Em filme anterior, o mesmo diretor de cinema revelava-se já um mestre na apresentação da
força destrutiva da paixão amorosa. Senso (em português: ―Sedução da carne‖, 1954) é
uma obra prima do melodrama. A protagonista (Lívia Serpieri, interpretada por Alida Valli) é
uma condessa italiana do tempo do Risorgimento. Casada, jamais havia cometido uma
leviandade, até apaixonar-se pelo tenente austríaco Franz Mahler (Farley Steward). O
exército austríaco ocupava a cidade de Veneza. Como outra Anna Karenina, no grande
romance de Leão Tolstoi, a condessa Serpieri não é mais dona dos seus sentimentos e
corre atrás do tenente: ―Não nos preocupemos com paraíso ou inferno‖, dizem os amantes,
citando Heine. ―O único que importa é o agora...‖.
É experiência humana universal que ―o amor é cego‖ e surdo à voz da razão. Alguns o
consideram uma forma de ―loucura‖. O amor leva Lívia Serpieri a perder o pudor, a mentir e
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a aviltar-se. A condessa acaba traindo sua própria Pátria, entregando ao amante dinheiro
recolhido para a causa dos patriotas italianos. O oficial austríaco mostra-se covarde e
degradado: ―Sou um desertor bêbado. Não sou seu herói romântico‖, diz Franz a Lívia. Ela
ainda o ama: ―Deixei tudo por você!‖ Mas o amante arranja outra mulher mais nova: ―Pago-a
com o seu dinheiro‖. Finalmente, a protagonista denuncia o amante, como desertor. E Franz
é fuzilado.
Na modernidade e pós-modernidade globalizadas, há um enfraquecimento das relações
humanas autênticas. A Internet, se por um lado facilitou a rapidez de contatos eletrônicos ou
―virtuais‖, por outro, está afetando negativamente os contatos familiares e sociais. Pesquisas
recentes, nos Estados Unidos, mostram que passar horas conectado à Internet gera
propensão a ter crises de depressão e solidão. A ―aldeia global‖ está produzindo uma
―multidão solitária‖.
Os jovens são os mais atingidos por este ambiente. Um jovem noivo, em vésperas da boda,
dizia: ‖humanamente, o casamento cristão me parece impossível‖. Já, uma noiva,
habitualmente mais romântica, disse-me: ―Eu sei que, depois do casamento, o nosso
relacionamento vai mudar. Mas, no nosso caso, tenho fé que mudará para melhor‖.
O segredo do casamento cristão é não olhar apenas um para o outro ou para si mesmos,
mas os dois abrir-se para o Outro e, juntos, olharem na mesma direção, na presença e na
saudade do Senhor. Não caiamos, porém, na tentação maniqueísta de diminuir o amor
humano, para exaltar o amor divino. Desde que Deus se fez homem, ambos amores se
interpenetram.
Esboçada a complexa problemática do amor humano, pesquisaremos o vocabulário do
amor, na Sagrada Escritura e nas línguas clássicas, para buscar depois a novidade do amor
cristão. Possa o estudo das palavras com que designamos o mistério do amor ajudar-nos a
compreender a Palavra eterna que, saindo do Silêncio do Pai, se nos revelou na carne do
Filho muito amado.
O AMOR NO ANTIGO TESTAMENTO
O pensamento hebraico não é dualista. A mesma palavra („ahab = amor, do verbo „aheb =
amar, gostar, apaixonar-se) é empregada para expressar tanto o amor de Deus pelos seres
humanos, especialmente pelo povo de Israel (Dt 4,37; Is 43,4), quanto os amores ilícitos,
notadamente as relações adúlteras de Israel (Os 2,7; Ez 16,36). A Bíblia hebraica conhece
todos os amores humanos: Abraão amava Isaac (Gn 22,2) e Rebeca amava seu filho Jacó
(Gn 25,28); Sansão amou Dalila, para sua desgraça (Jz 16,15) e Rute amou sua sogra
Noemi, para felicidade de ambas (Rt 4,15); Elcana amava Ana, mesmo sendo estéril (1Sm
1,5) e Abraão é chamado ―amigo‖ de Deus (2 Cr 20,7).
Antigamente interpretava-se o nome Davi como dôd (= amado). Tal etimologia, hoje, é
duvidosa, mas não há dúvida de que o rei Davi é o personagem do AT que recebeu mais
graças e dons de Deus. Mesmo que ele nem sempre tenha correspondido adequadamente ao
amor de Deus, a posteridade o idealizou, relacionando-o com o rei messias, do qual é
antecessor e figura. Jônatas, filho de Saul, amou Davi ―como a si mesmo‖ (1Sm 18,1.3;
20,17). E o rei chorou a morte de Jônatas, porque lhe era mais caro do que o amor das
mulheres (2Sm 1,26).
A palavra dôd, com o sentido de ―amado‖, ocorre 38 vezes na Bíblia hebraica, todas menos
uma (Is 5,1) no Cântico dos Cânticos. Este livro bíblico, absolutamente singular, é uma
coletânea de cantos de amor. Com ―pudico erotismo‖, descreve a experiência amorosa em
perspectiva paradisíaca, inspirada no relato do Paraíso Terrestre, antes da queda (Gn 2) 7.
“Como seus amores são belos,
minha irmã, noiva minha.
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Seus amores são melhores do que o vinho,
e mais fino que os outros aromas,
o odor de seus perfumes” (Ct 4,10).
No Cântico, o amor humano simboliza as relações entre Deus e seu povo. O amor do rei
Salomão e da sua esposa egípcia é espelho, sacramento e manifestação da paixão e
ternura de Deus pela humanidade8.
A leitura mística do Cântico (em São Bernardo ou em São João da Cruz) faz do amor
humano a parábola viva do amor de Deus por nós, que nos convida, por sua vez, a amá-lo,
como a esposa ama o esposo. O Esposo é Deus presente em Cristo. A Esposa é ―a alma‖, é
toda pessoa amada por Deus. Ela se entrega sem reservas ao seu Amado, livremente
escolhido9.
Esta visão ideal choca-se brutalmente com a visão moderna e pós-moderna, que apresenta
o amor e o sexo como uma fatalidade: ―A mulher está condenada ao amor‖, disse a atriz do
cinema alemão Maria Schell. Ao chegar aos 60 anos, esta bela mulher se tirou a vida. Um
diretor de teatro inglês diz: ―O encontro entre homem e mulher - dois seres absolutamente
diferentes - é quase um milagre― (Paul Heritage). E um crítico de cinema nacional
acrescenta: ―A sexualidade é mais ponto de desencontro e colisão do que de harmonia,
como gosta de afirmar a ingenuidade romântica‖ (Luiz Zanin Onachio) 10.
O Cântico dos Cânticos idealiza, certamente, o amor humano. Mas a Bíblia, no seu
conjunto, não é ingênua nem romântica. Os textos bíblicos recolhem uma vasta gama de
mentalidades e comportamentos. Há textos pessimistas a respeito da sexualidade e da
―mulher má‖11. E há textos otimistas que exaltam o amor humano e a esposa ideal:
“Alegra-te com a mulher da tua mocidade” (Pr 5.18).
“Como o sol levantando-se sobre as montanhas do Senhor
assim é a beleza da mulher em sua casa bem arrumada” (Eclo 26,16) 12.
A revelação judaico-cristã não pode ser contra o sexo, como diz um preconceito muito
estendido. Pelo contrário, a Sagrada Escritura é a favor do amor e da vida. Ela defende a
pureza das fontes da vida. O prazer sexual com a esposa legítima é valorizado
poeticamente:
“Bebe água limpa do teu poço... Bendita seja a tua fonte, goza
com a esposa a tua juventude: cerva querida, gazela formosa;
que te embriaguem sempre as suas carícias, e o seu amor te
satisfaça sem cessar!” (Pr 15.18-19).
O AMOR NA CULTURA CLÁSSICA
Jesus viveu em ambiente judaico, mas o Novo Testamento está escrito em grego. E a
palavra de Jesus chegou até à nossa língua portuguesa, através do latim. O conhecimento
destas línguas, matriz da nossa civilização ocidental, ser-nos-á útil na tentativa de conhecer
melhor Jesus. No tema que nos ocupa, o vocabulário greco-latino sobre o amor é mais rico
do que o hebraico. Embora não estejam rigidamente separados, podemos distinguir, pelo
menos, três pares de vocábulos:13
1) Eros, traduzido geralmente pela palavra latina amor, é o amor captativo. Centralizado no
próprio sujeito, busca a satisfação de suas próprias necessidades. Por isso, os antigos
Padres da Igreja latina (Tertuliano, Cipriano, Ambrósio) evitavam a palavra amor ou a
empregavam raramente e com certa prudência, ao tratar de sentimentos cristãos. Sto.
Agostinho, apesar dos malentendidos a que tem dado seu pensamento, contribuiu para
cristianizar a palavra amor-eros14. Eros é ―amor de desejo‖, mas não exclusivamente sexual.
Platão distingue o ―eros vulgar‖ do ―eros celeste‖. Plotino define eros como o ―desejo de se
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unir ao que é belo‖. Ama-se um corpo que é belo, pela alma que o habita15. O chamado
―amor platônico‖ se dirige a uma pessoa ideal e longínqua, absolutamente inacessível, ou a
uma pessoa próxima, mas idealizada excessivamente. Tal foi, por exemplo, a paixão que
Inácio teve por uma senhora da mais alta nobreza, segundo conta em sua Autobiografia16.
Eros ―não é a única forma de amor, mas está presente em toda forma de amor‖ 17, porque
em todo amor humano o amante deseja alcançar algo que não tem e espera obter do
amado.
2) Philia, que poderíamos traduzir por dilectio, é o amor de amizade. Santa Catarina de
Sena o coloca no topo dos ―Três degraus do amor‖, acima do ―amor servil‖ e do ―amor
interesseiro‖. Trata-se de uma afeição menos violenta e sensível do que eros, mais serena e
sóbria, mais delicada e profunda, mais lenta e duradoura. Na amizade, a aceitação e o
respeito ao outro prevalece sobre o desejo possessivo. Todavia, ―o amor de amizade não
existe em estado puro, separado do amor de desejo‖18. A amizade dispensa muitas palavras
e gestos externos, porque não é (não deveria ser) possessiva nem ciumenta. O amor erótico
é exclusivo e mais exigente nas suas manifestações sensíveis. Este amor de desejo pode
ser unilateral, enquanto a amizade exige reciprocidade. Na reciprocidade, espera-se receber
do amigo algo ―em troca‖ ou como conseqüência natural do afeto. O Catecismo da Igreja
Católica trata da amizade humana, ao falar da caridade (n. 1829), da solidariedade (n.
1939), da castidade (n. 2347) e das pessoas homossexuais, necessitadas do ―apoio de uma
amizade desinteressada‖ (n. 2359).
3) Finalmente, a tradição cristã privilegiou o termo agápe. Pouco usado no grego clássico,
aparece já na versão dos LXX19 e em Fílon de Alexandria. Agápe é traduzido para o latim
por caritas (caridade). Trata-se do amor oblativo ou de doação, que não busca seu próprio
interesse, antes o bem da pessoa amada. Tem seu fundamento no próprio Deus-Amor e foi
derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Agápe é um
amor essencialmente gratuito, altruísta e predominantemente espiritual, embora esteja
enraizado no psico-físico. A psicologia profunda ensinou-nos a desconfiar de um amor que
pretenda ser ―puramente espiritual‖. A psicanálise freudiana sustenta que não é possível
amar gratuitamente. Ama-se para ser amado ou pela satisfação que traz ao amante o
simples fato de amar. Todos nós já experimentamos a singela alegria de amar sem esperar
nada em troca. ―Nesta experiência de gratuidade, conhecemos um instante de leveza
verdadeira, de liberdade verdadeira, porque amamos e nos agrada amar, quer sejamos
amados ou não‖.20
No Novo Testamento, Paulo adota a palavra agápe como denominação específica do amor
cristão (cf sobretudo 1 Cor 13). E, no cume da revelação judaico-cristã, São João escreve:
―Deus é amor-agápe‖ (1Jo 4,8.16). Antes, no prólogo de seu evangelho, tinha escrito: ―E a
Palavra se fez carne e habitou no meio de nós‖ (Jo 1,14). Em Jesus, o amor de Deus por
nós se revelou como amor encarnado (feito carne). O novo mandamento, que deve
identificar os seus discípulos, é amar com este amor-agápe com que Ele nos amou (Jo
15,12). No final do evangelho, no diálogo do Senhor com Pedro, depois da ressurreição (Jo
21,15-17), Jesus pergunta: ―Simão, filho de João, tu me amas (agapas me)?‖ Pedro
responde: ―Sim, Senhor, tu sabes que sou teu amigo (phileo se)‖. Provavelmente, a
diferença dos verbos agapao e phileo, aqui não tenha muita relevância. De fato, na terceira
vez, Jesus pergunta: ―Simão, filho de João, tu és meu amigo (phileis me)?‖ E Pedro
responde empregando o mesmo verbo (phileo, em lugar do agapao).
A NOVIDADE DO AMOR CRISTÃO
Os cristãos, como os demais seres humanos, conhecem e vivem as diversas formas do
amor humano. Um belo documento cristão do século primeiro da nossa era descreve assim
a vida dos cristãos: ―Não se distinguem dos demais, nem pela região, nem pela língua, nem
pelos costumes. Não habitam cidades à parte... Alguns moram em cidades gregas, outros
em cidades bárbaras, conforme a sorte de cada um... Casam-se como todos os homens e
como todos procriam, mas não rejeitam os filhos. A mesa é comum, não o leito. Estão na
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carne, mas não vivem segundo a carne... Hostilizam-nos os judeus, quais estrangeiros;
perseguem-nos os gregos...‖ 21.
A fé cristã é herdeira da fé de Israel. Jesus, os Doze Apóstolos, o próprio Paulo eram
judeus. Interrogado a respeito do maior mandamento (Mt 22, 36) ou de como receber a vida
eterna em herança (Lc 10, 25), Jesus se reporta aos preceitos judaicos de amor a Deus e ao
próximo (Mt 22, 37-39; Lc 10, 27).
Os gestos e as palavras de Jesus chegaram até nós em grego, língua dos quatro
evangelhos canônicos. O mais antigo dos quatro (o de Mc) foi escrito em Roma. Embora de
origem judaica, dirige-se a leitores não judeus. O evangelho de Mateus foi escrito
originalmente em ―dialeto hebraico‖ (= aramaico) e se dirige às comunidades judaico-cristãs.
Já o de Lucas nasceu de e para o mundo greco-cristão. Quanto ao evangelho de João, hoje
se valoriza mais o seu substrato judaico do que suas influências helenistas. O próprio São
Paulo, nascido e formado no judaísmo, conhece e utiliza com brilhantismo a cultura grega.
Entretanto, o cristianismo, tanto nas suas origens judaicas, como na sua inculturação grega,
apresentou-se no mundo antigo como uma nova forma de vida, como um Caminho
diferente. A novidade do Evangelho (= ―Boa Nova‖) de Jesus Cristo não consiste na língua
em que é escrito e proclamado, mas no objeto central do seu anúncio: a pessoa de Jesus.
Todo amor verdadeiro traz sempre consigo a cor e o sabor da novidade. ―A partir da data
que conheci e amei meu marido comecei uma vida nova‖, disse-me uma esposa das
Equipes de Nossa Senhora. A novidade da vida iluminada pelo amor é tal que parece
prometer conservar-se sempre assim, eternamente nova. No entanto, a experiência nos
ensina que, infelizmente, o amor humano envelhece, adoece e pode morrer.
O cantor Gilberto Gil, depois de um casamento fracassado, escreveu:
”Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Se o amor é
como um grão! / Morrenasce, trigo / Vivemorre, pão” (Grão).
A fé ilumina o amor humano com nova luz
O poeta baiano nos lembra a palavra de Jesus: ―Se o grão de trigo que cai na terra não
morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a;
mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna‖ (Jo
12, 24-25). A fé na ressurreição de Jesus, fundamento da esperança cristã na ressurreição
da carne, ilumina as alegrias e frustrações do amor humano com nova luz. Paulo diz que o
amor-agápe jamais acabará (1Cor 13, 8). Já não é, pois, preciso devorar apressadamente
os prazeres desta vida, porque temos pela frente um tempo aberto, que se prolonga até o
infinito. A vida humana ganha em beleza e alegria, quando contemplada à luz da eternidade
(sub especie aeternitatis).
Além da perenidade no tempo, o amor cristão se distingue do mero amor terreno pela
universalidade, no espaço: ―Ouvistes que foi dito: ‗Amarás o teu próximo e odiarás o teu
inimigo!‘ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos
perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o
seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos‖ (Mt 5,43-45). O
fundamento do amor cristão pelos inimigos está no amor do próprio Deus, que não exclui
ninguém, antes privilegia os pecadores.
Amos Oz, escritor israelense dos nossos dias, considera descabida a pretensão cristã do
amor universal. Ao discordar dele, temos o risco de cair na velha tese de um teólogo
luterano, segundo a qual cristianismo e judaísmo seriam radicalmente diferentes: ―No
judaísmo, o amor é exclusivo e particularista. No cristianismo, tem alcance universal... O
amor cristão pretende ser totalmente diferente do amor humano‖ 22.
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Hoje, porém, somos muito mais sensíveis aos valores que o cristianismo herdou não só do
judaísmo, como também da simples natureza humana. Jesus nos revelou, em plenitude, a
capacidade de amar que já está latente em todo ser humano. Este é ―capaz de Deus‖
(capax Dei). Por isso, pode ouvir e fazer sua a mensagem de Jesus. Porque ele é o ―ouvinte
da Palavra‖ (Rahner), isto é, o único ser a quem lhe é dirigida a Palavra de Deus, porque é
capaz de escutá-la e dar-lhe uma resposta. Quem diz com verdade ―eu amo‖ está
prometendo, consciente ou inconscientemente, amar ―para sempre‖. E quem ama
verdadeiramente um só ser humano, está amando, de algum modo, toda a humanidade. Tal
é a vocação irreprimível do amor humano. Nisso, como em tantas outras coisas, ―a alma
humana é naturalmente cristã‖ (Tertuliano).
A revelação judaico-cristã, porém, não se limita a revelar ao ser humano o que, no fundo de
si mesmo, já sabia. Em um dos diálogos de Platão, o mestre Sócrates extraía toda a
Geometria de um escravo iletrado. Na Boa-Nova de Jesus Cristo, não. ―Em Jesus, o ser
humano aprende mais do que já sabia sobre si mesmo‖ 23; aprende, em primeiro lugar, que a
vocação humana transcende, no tempo e no espaço, o mundo transitório em que vivemos.
Outro traço característico do amor cristão é a sua gratuidade e incondicionalidade. Nygren
enfatizou também este aspecto: ―Como o amor de Deus (é absolutamente gratuito), o amor
cristão deve ser espontâneo e não motivado, livre de todo cálculo, sem limites nem
condições‖ 24. Jesus reafirma a idéia da pertença total do ser humano a Deus. A exigência
decorrente deste sentido de pertença é total e incondicional: ―Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas
forças‖ (Mt 12,20). Não se trata aqui de um amor de desejo (eros), nem mesmo de um amor
de amizade (philia), que aliás suporia uma certa equivalência entre Amado e amante.
Estamos diante do amor na sua mais alta e profunda radicalidade (agápe). O que não leva a
marca do agápe, ao menos na sua intencionalidade, não merece o nome de amor cristão25.
Finalmente, o traço mais inequivocamente original do amor cristão é o fato de ser um amor
crucificado, isto é, um amor que se esvazia de si mesmo, para doar-se a todos e, de
maneira preferencial aos pobres, aos excluídos. Jesus não veio para chamar justos, mas
pecadores. Aqui, sim, o amor cristão se diferencia do mero amor humano. Porque é próprio
deste o desejo de elevar-se, ―subir na vida‖, realizar-se e usufruir da maior felicidade
possível. Pelo contrário, o amor de Deus, em Cristo, revelou-se como um amor que se
abaixa, que não quer destacar-se nem aproveitar-se da condição divina, mas assume a
condição de escravo, humilhando-se e fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz (Fl
2,6-8).
No centro da pregação de Paulo está a cruz de Cristo. E Cristo crucificado é ―escândalo
para os judeus, loucura para os gentios‖ (1Cor 1,23). A cruz e o amor são uma mesma
coisa. Sem a cruz, não se compreenderia a profundidade do amor de Cristo. Quando Paulo
fala da cruz de Cristo está falando do amor de Deus26:
“A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós,
quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).
“Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a vida por nós” (1Jo 3,16).
A cruz de Cristo prova a existência de um amor que se doa até ao sacrifício da própria vida.
Cristo morreu pelos fracos, pelos ímpios, pelos pecadores, pelos inimigos... Não há maior
manifestação de amor gratuito. A cruz é a expressão mais alta do amor de Deus27.
CONCLUSÃO: O AMOR É POSSÍVEL!
Nossa pesquisa na cultura atual, na Bíblia e nas línguas clássicas nos leva a concluir que não
podemos ignorar a realidade onipresente do amor, nem falar indiscriminadamente deste:
25
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
“Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão,/
não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente,
não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo
essa palavra que é toda sigilo e nudez,
perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie”.
(Carlos Drummond de Andrade, ―O Seu Santo Nome‖).
Inácio de Loyola é também muito discreto ao falar do amor. Não ignora a importância do
afeto na vida humana. Muito cedo perdeu aquele amor primeiro, que marca uma pessoa,
para o resto da vida: o amor materno. Na juventude, ―foi tentado e vencido pelo vício da
carne‖, segundo testemunho do seu companheiro Laínez. Convertido, aos trinta anos, fez
voto de castidade e, durante toda a sua vida, será fiel a diversas amizades femininas, como
mostra sua abundante correspondência.
Nos Exercícios Espirituais, a conversão do exercitante e o chamado ao seguimento de
Jesus passam por um processo de ordenação dos afetos. Não se trata de matar o afeto,
mas de ordená-lo. No Princípio e Fundamento, Inácio evita a palavra amor, que poderia
sintetizar, porém, o ―louvar, reverenciar e servir‖ (EE 23). Mas na contemplação final dos
Exercícios (―Contemplação para alcançar amor‖), o exercitante pede a graça de ―em tudo
amar e servir‖ (EE 233). Pouco antes, Inácio adverte que ―o amor consiste mais em obras do
que em palavras‖ (EE 230). Amar alguém não significa apenas dizer I love you. Amar
alguém significa querer o bem dele e fazer todo o possível para que seja feliz.
O modelo absoluto, o paradigma do amor cristão é a vida e a morte de Jesus. Por isso,
Inácio só fala do amor depois de o exercitante ter contemplado demoradamente os
―mistérios da vida de Cristo‖. Toda a vida de Jesus foi uma vida para os outros, uma pro-
existência: ―Tendo amado os seus que estavam no mundo, Jesus amou-os até o fim‖ (Jo
13,1b). A expressão ―até o fim‖ (eis télos), aqui, não tem apenas sentido temporal (até o final
da sua vida), mas indica ainda a intensidade e radicalidade do extremado amor que levou
Cristo a entregar sua vida por nós.
Inácio deu diversos avisos aos seus companheiros sobre como tratar o próximo. No início de
um deles, como resumo de sua espiritualidade, escreveu: ―Jesus, meu amor, foi
crucificado‖28. Como toda espiritualidade cristã, a espiritualidade inaciana é cristocêntrica.
Amar cristãmente será, pois, amar como Jesus amou.
Mas, é possível amar assim? É possível amar até o fim, até o extremo de dar a vida por
seus amigos (Jo 15,13)? É possível amar os inimigos e perdoar os que nos tiram a vida (cf.
Lc 23,34)? Sim, queremos afirmar com firmeza, é possível amar assim, porque assim amou
o homem Jesus de Nazaré, que se fez igual a nós em tudo, menos no pecado (Hb 4,15). O
amor com que Cristo, Nosso Senhor, continua a nos amar, com um Coração de homem,
prova que o amor humano é possível.
Jesus nos ensinou a amar, não apenas com o seu exemplo exterior. Admirar alguém não
nos capacita para imitá-lo. Jesus nos ensinou a amar, amando-nos e fazendo-nos sentir
amados, no mais íntimo do nosso ser. O único modo de aprender a amar é sentir-se amado.
Uma exercitante dizia, com a lucidez que Deus dá no clima de silêncio profundo: ―A causa
de muitos dos meus pecados é não me ter sentido amada. Desde criança, sempre desejei
ser amada e nunca consegui... Até hoje, não tinha feito a experiência do amor de Deus‖.
Sentindo-se ―Filho muito amado‖, Jesus pode nos amar gratuita e incondicionalmente:
―Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo‖ (Jo 15.9). E, amando-nos, nos fez
26
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
capazes de amar: ―Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei‖ (Jo 15,12). O novo
mandamento não é, para nós, uma ordem externa, é uma necessidade interna,
conseqüência natural de nos sentirmos tão amados. ―Só o amor é digno de fé‖ (Von
Balthasar). E, entre todos os amores humanos, nenhum é tão digno de fé como o amor de
Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Em outro lugar, contei o caso de uma jovem apaixonada por um radialista, ao qual jamais
viu, mas cuja voz escutava todos os dias29. São Pedro diz que os cristãos amamos o Senhor
Jesus sem nunca tê-lo visto e que isso será para nós ―fonte de alegria inefável‖ (1Pd 1,8).
Famintos desta alegria, sedentos de amor, escutamos, todos os dias, a Palavra do Senhor.
A Palavra nos convida a entrar em comunhão com Jesus, no sacramento da Eucaristia. E a
mesa eucarística nos leva a viver em comunidade fraterna, buscando em cada irmão e irmã
necessitados de amor o rosto sofrido do Senhor. ―A amizade com os pobres – escreveu
Inácio – nos faz amigos do Rei eterno‖ 30.
Quero terminar com o testemunho de um dos maiores autores espirituais do século XX,
Thomas Merton. Sendo monge, aos 51 anos, apaixonou-se por uma jovem enfermeira. No
começo, pensou que aquele amor humano poderia ser integrado na sua vocação monástica e
sacerdotal. Mas, ao crescer, na linha da exclusividade característica do amor erótico,
compreendeu que era incompatível com a sua vocação. Depois de nove meses de sofrimento,
Merton renunciou à relação humana mais profunda que jamais experimentara, ao longo de
uma vida rica de experiênciais espirituais31. Homem sensível à beleza, poeta e místico, Merton
deixou-nos um belo testemunho: ―O amor é a epifania32 de Deus em nossa pobreza‖.
NOTAS:
1
Pedro Salinas, De Amor. Madrid, Mondadori, 1998, 14.
2
Carlos Palácio, ―Amor Impossível? Perspectiva Cristã sobre um problema cultural‖,
Convergência 35 (junho 2000), 281 e 282.
3
Rubens Alves, em: Diário do Povo, Campinas, 11 de junho de 1990.
4
Ubiratan Brasil, ―Curiosidade levou Barnes a escrever ‗Love, Etc‘‖, O Estado de São Paulo,
24 de setembro de 2000.
5
Janaína Rocha, ―A alegria do parceiro que Nélson ensinou a ser triste‖, O Estado de São
Paulo, 25 de set. de 2000.
6
Paulo Mendes Campos, O amor acaba. Crônicas líricas e existenciais. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira. Reproduzido no caderno ―Mais‖, Folha de São Paulo, 2 de janeiro de
2000.
7
Pierre Grelot, em: Revue Biblique, 1999, p. 253-255, comentando a obra de Othmar Keel,
Le Cantique des cantiques (―Lectio Divina. Commentaires‖, 6). Paris, Cerf, 1999.
8
Introdução ao Cântico na Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. SP, Edições Paulinas, 1990.
9
Cf. Celso LORASCHI, ―Quem é esta que sobe do deserto encostada ao seu amado?‖,
Estudos Bíblicos, n. 67 (2000), 45-51. Este autor apresenta interessante interpretação
histórico-social e feminista do Cântico, distante da interpretação alegórica tradicional.
10
O Estado de São Paulo, 28 de agosto de 1999.
11
Pr 5,20; 11,22; 19,13; 21,9; 25,24; 27,15; 31,3; Eclo 25,12-26; 26,6-12; 42,12-14...
12
Cf. Pr 18,22; 19,14; 31,10-31; Eclo 26,1-4; 13-18; 36,21-27...
27
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
13
A distinção é didática. O termo grego agápe pode ser traduzido tanto por dilectio como por
caritas.
14
Isabelle BOCHET, Saint Augustin et le désir de Dieu. Paris, Études Augustiniennes, 1982,
277-278.
15
Jean-Yves Leloup, Caminhos da realização. Dos medos do eu ao mergulho no Ser.
Petrópolis, Vozes, 1999, p. 184.
16
Autobiografia de Inácio de Loyola.Trad. e notas: Pe. Armando Cardoso, SJ. SP, Loyola,
1987, p. 22 (n.6).
17
Ignace Lepp, Psychanalyse de l‟amour. Paris, Grasset, 1959, p. 19.
18
Alfonso García Rubio, Nova evangelização e maturidade afetiva. SP, Paulinas, 1993, p.
106.
19
Versão grega da Bíblia hebraica.
20
Jean-Yves Leloup, op. cit., p. 185.
21
A Carta a Diogneto. Petrópolis, Vozes, 1976 (Col. ―Fontes da Catequese‖, 10).
22
Anders Nygren, Erôs et Agápe. La notion chrétienne de l‟amour et ses transformations.
Paris, Aubier, s.d. (Original sueco de 1930), Vol. I, pp. 59 e 94. Palácio diz: ―A maneira de
Jesus amar inverte radicalmente o que habitualmente chamamos amor‖ (loc. cit. 287).
23
C. Palácio, loc. cit., p. 285.
24
A. Nygren, p. 93.
25
Id., ib., p. 94
26
Id., ib., 122 e 129.
27
Id., ib., 123-124.
28
Cartas de Santo Inácio de Loyola. Vol. 2. SP, Loyola, 1990, p. 149s.
29
Luis González-Quevedo, Experiência de Deus: Presença e Saudade. (Col. ―Leituras e
Releituras‖, 2). SP, Edições Loyola, 2000, p. 71.
30
Carta aos padres e irmãos de Pádua, 7 de agosto de 1547, cit. em: Congregação Geral
XXXIV da Companhia de Jesus, decreto 2, n. 8. Cf. Gustavo Gutierrez, ―Amigos de Deus,
amigos dos pobres‖, Itaici, n. 27 (março 1997), 72-78.
31
A ―crise sentimental‖ de Thomas Merton é descrita por John Howard Griffin, Follow the
Ecstasy (JHG Editions/Latitudes Press), cit. por Mario Sarrionandia, ―Una crisis sentimental
en la vida de Thomas Merton‖, El Ciervo. Barcelona, 36 (julio-agosto, 1987), 25-26.
32
Epifania: manifestação.
ORAÇÃO INACIANA
28
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Traduzimos e adaptamos texto publicado, sem indicação de autor, em “Cuadernos de
Espiritualidad” (Santiago de Chile), n. 123 (set.-out. 2000) pp. 3-4.
ORAR NOSSA PRÓPRIA AFETIVIDADE
1. Procure entrar em oração, pacificando todo o seu ser: corpo, mente, afetividade. Sentado
ou caminhando devagar, enquanto se dirige ao lugar que escolheu para rezar, respire
profundamente até sentir quietude e paz interior. Apresente-se ao Senhor na sua verdade,
tal como você é neste momento: condições físicas, estado de ânimo, desejos espirituais...
Acolha o silêncio, afastando todo temor ou inquietação.
2. Tome consciência da presença do Senhor. Você não está sozinho(a). Ele olha para você
com amor; Ele o aceita e o escuta. Peça ao Espírito Santo que venha orar em você.
3. Lembre uma imagem, cena ou frase que o ajude a entrar em clima de diálogo com o
Senhor. E deixe brotar a petição muito vital que traz no coração, neste momento.
Após esses ―preâmbulos‖, tome os seguintes ―pontos‖ para o diálogo com o Senhor, em um
ou vários tempos de oração:
Imagine o olhar de Deus sobre sua realidade afetiva:
o Será um olhar de reprovação ou de desconfiança? (―Olhe o terreno que você está
pisando!‖); um olhar de frieza e desinteresse? (―Você quis isso, agora vire-se
sozinho!‖).
o Ou um olhar de amor e de alegria (cf. Is 62,5), de misericórdia e compaixão (cf.
Lc 15,2)? Um olhar de Pai maternal, que respeita a sua liberdade e quer ajudá-lo
a viver em plenitude!
o Faça oração com as respostas que surjam no seu coração.
Examine o sentido de suas relações humanas:
o Estão regidas por um claro projeto de vida familiar, profissional, religiosa?
o Esse projeto de vida é um projeto de amor? Você vive esse projeto com paz e
alegria?
o Faça oração com as respostas que se lhe ocorrem.
Que pessoas ocupam, atualmente, os primeiros lugares na sua afetividade? Faça-as
subir ao ―podium‖ do seu afeto: A quem daria a ―medalha‖ de ouro, de prata e de
bronze?
o Essas pessoas trazem harmonia e equilíbrio à sua vida? Ajudam-no a viver o seu
projeto de vida, com dinamismo e alegria?
o Ou essas relações privilegiadas complicam a sua vida, freando o seu
crescimento humano e espiritual?
o Faça oração com as respostas que o Senhor lhe sugerir.
Ao concluir cada tempo de oração, procure dialogar mais pessoalmente com o Senhor,
oferecendo-lhe as conclusões da sua oração e pedindo-lhe confirmação do que lhe parece
ser vontade Dele.
29
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ORAÇÃO INACIANA
REZAR NA DESOLAÇÃO1
1. Rompimento da fraternidade (Gn 4,8-16)
a) O Senhor perguntou a Caim: ―Onde está o seu irmão Abel?... O que foi que você fez?‖
(vv. 8-12).
b) Caim disse: ―Minha culpa é grave e me atormenta... Terei de esconder-me de ti, andando
errante e perdido pelo mundo; o primeiro que me encontrar, me matará‖ (vv. 13-14).
c) ―O Senhor (YHWH, Adonai) colocou um sinal sobre Caim, a fim de que ele não fosse
morto por quem o encontrasse‖ (vv. 14-16).
2. Passagem do Mar Vermelho (Ex 14,1-32)
a) ―Cheios de medo, os filhos de Israel clamaram ao Senhor (YHWH, Adonai)‖ (vv. 1-12).
b) Moisés disse ao povo: ―Não tenham medo. Fiquem firmes e verão o que YHWH fará hoje
para salvar vocês... podem ficar tranqüilos‖ (vv. 13-20).
c) ―Moisés estendeu a mão sobre o mar e YHWH vez o mar se retirar com um forte vento
oriental, que soprou a noite inteira... Nesse dia, o Senhor salvou Israel da mão dos egípcios‖
(vv. 21-31).
3. Como ser líder de um povo insatisfeito? (Nm 11,1-32)
a) A multidão, faminta, começou a reclamar: ―Quem nos dará carne para comer? Que saudade
dos alhos e das cebolas do Egito! Agora não temos outra coisa além desse maná!‖ (vv. 1-9).
b) Moisés ouviu o povo reclamar e disse ao Senhor (YHWH, Adonai): ―De onde vou tirar
carne para dar a todo esse povo?‖...Eu sozinho não consigo carregar o peso de todo este
povo!... Por que me tratas tão mal? Prefiro a morte! (vv. 10-15).
c) Moisés reuniu 70 anciãos do povo. Josué era seu ajudante desde a juventude. E o
Senhor levantou do mar um vento que arrastou bandos de codornizes, fazendo-as cair no
acampamento (vv. 16-32).
4. Desolação de Elias (1 Rs 19,1-8)
a) Elias ficou com medo e partiu. Chegou a Bersabéia... e continuou a caminhar pelo
deserto... Por fim, sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a morte: ―Para mim, chega
Senhor! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor que meus pais‖ (vv. 1-4).
b) ―Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e lhe disse: ―Levante-se e
coma‖. Elias abriu os olhos... Comeu, bebeu e deitou-se outra vez (vv. 5-6).
c) O anjo do Senhor (YHWH, Adonai) o tocou de novo: ―Levante-se e coma, pois o caminho
é superior às suas forças‖. Elias se levantou, comeu, bebeu e caminhou quarenta dias e
quarenta noites até o Horeb, a montanha de Deus (vv. 7-8).
5. Experiência de Deus de Elias (1Rs 19,9-14)
30
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
a) Elias entrou na gruta da montanha e aí passou a noite. ―Que fazes aqui, Elias?‖(vv. 9-10).
b) Houve um furacão, um terremoto e, depois, apareceu o fogo (vv. 11-12).
c) Ouviu-se uma brisa suave...: ―o que é que você está fazendo aqui, Elias?‖ (vv. 13-21).
6. Desolação de Jeremias (Jr 15,10-21)
a) ―Ai de mim, minha mãe, por que me puseste no mundo! Todos me amaldiçoam... Javé
(YHWH, Adonai), será que eu não te servi do melhor modo possível?... Lembra-te de mim,
ajuda-me, não me deixes perecer... Olha como suporto insultos por tua causa‖ (vv. 10-15).
b) ―(Outrora) a tua Palavra era festa e alegria para o meu coração, porque eu levava o teu
nome, o Senhor, Deus dos exércitos! (Mas, agora), será que Tu te transformaste para mim
em rio enganoso e água inconstante?‖ (vv. 16-18).
c) O Senhor me respondeu: ―Se você voltar, farei você voltar a estar ao meu serviço.
Lutarão contra você, e não o vencerão; porque eu estou com você para livrá-lo e salvá-lo.
Oráculo de Javé‖ (vv. 19-21).
7. O profeta é seduzido por Deus (Jr 20,7-12)
a) Tu me seduziste, Javé (YHWH, Adonai), e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que
eu e venceste (vv. 7-8).
b) Eu me dizia: ―Não pensarei mais Nele, não falarei mais no seu nome! Estou cansado de
suportar. Não agüento mais!‖ (vv.9-10).
c) Porém, Tu Senhor, estás ao meu lado. Tu vês o meu coração. A Ti confiei a minha causa!
(vv. 11-12).
8. Temer só a Deus (Is 8,11-15)
a) Assim me disse o Senhor (YHWH, Adonai), enquanto me segurava pela mão... (v. 11).
b) Não participem do medo desse povo, não se apavorem (v. 12).
c) Chamem de Santo só ao Senhor... Dele sim, tenham temor (v. 13).
9. O Senhor é meu pastor (Sl 23/22)
a) ―Javé (YHWH, Adonai) é o meu pastor. Nada me falta‖ (vv. 1-3).
b) ―Mesmo que eu passe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, porque Tu estás
comigo... Teu bastão e teu cajado me deixam tranqüilo‖ (v. 4).
c) ―Diante de mim preparas a mesa... unges minha cabeça com óleo...‖ (vv. 5-6).
10. De quem terei medo? (Sl 27/26)
a) ―Javé (YHWH, Adonai) é minha luz e salvação: de quem terei medo?‖ (vv 1-3).
b) ―Uma só coisa peço ao Senhor. E só esta procuro: habitar na casa de Javé, todos os dias
de minha vida‖ (vv. 4-6).
c) ―É tua face que eu procuro, Senhor‖. ―Não me escondas a tua face‖. ―Espera em Javé.
Seja firme e corajoso(a)‖ (vv.7-14).
31
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
11. Confiança (Sl 130/131)
a) Senhor, meu coração não é ambicioso... Não ando atrás de grandezas (v.1).
b) ―Eu fiz calar e repousar meus desejos, como criança desmamada no colo de sua mãe‖ (v. 2).
c) ―Israel (substitua por seu nome), coloque a esperança no Senhor, desde agora e para
sempre‖ (v. 3).
12. Deus nos prova na paciência (Eclo 2,1-6)
a) Meu filho, se desejas servir ao Senhor, prepara-te para a provação (vv. 1-2).
b) Sofre as demoras de Deus... (vv. 2-4).
c) Porque o ouro é provado no fogo e as pessoas escolhidas, no cadinho da humilhação (vv.
5-6).
13. Tempestade no mar da Galiléia (Mt 8,23-27)
a) Jesus e os discípulos entraram na barca. E eis que houve grande agitação no mar, de
modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia (vv. 23-24).
b) Os discípulos o acordaram: ―Senhor (Kyrie), salva-nos, porque estamos afundando!‖
(v.25).
c) ―Por que vocês têm medo, homens de pouca fé (oligo-pistoi = de fé curta)? E, levantando-
se, ameaçou os ventos e o mar, e tudo ficou calmo (vv. 26-27).
14. Não tenham medo! (Mt 10,26-33)
a) Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. (vv. 26-28).
b) Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no
chão sem o consentimento do Pai de vocês (vv. 29).
c) Quanto a vocês, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenham medo!
Vocês valem mais do que muitos pardais (vv. 30-31).
15. O Senhor nos convida a descansar (Mt 11,28-30)
a) ―Vinde a mim, vós que estais cansados. Eu lhes darei descanso‖ (v. 28).
b) ―Tomem meu jugo (= escutem minha palavra). Eu, manso e humilde de coração, serei
vosso descanso‖ (v. 29).
c) ―Meu jugo (= minha doutrina) é suave‖ (v.30).
16. Jesus e Pedro, caminhando sobre as águas (Mt 14,22-33)
a) Jesus estava rezando, sozinho, na montanha, enquanto a barca de Pedro enfrentava a
tempestade. Depois, veio até os discípulos, andando sobre o mar. Os discípulos,
apavorados, gritaram de medo: ―É um fantasma!‖ (vv. 22-26).
32
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
b) ―Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!‖ Pedro disse: ―Senhor, se és tu, manda-me ir ao
teu encontro, caminhando sobre a água‖. Jesus respondeu: ―Vem!‖. E Pedro andou sobre as
águas (vv. 27-29).
c) Sentindo o vento, Pedro ficou com medo e começou a afundar: ―Senhor, salva-me!‖
Jesus, segurou-o e lhe disse: ―Homem fraco de fé, por que duvidaste?‖ O vento cessou.
―Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!‖
17. “Não tenhas medo, pequeno rebanho...”(Lc 12,22-32)
a) ―Não vivais preocupados com o que comer... nem com o que vestir... será que vós não
valeis mais do que os pássaros?‖ (v. 22-24).
b) ―Quem dentre vós pode, com sua preocupação, acrescentar um minuto à duração de sua
vida?... Olhai como crescem os lírios do campo...‖ (vv. 25-28).
c) ―Não vos inquieteis!... Não tenhais medo... pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o
Reino‖ (vv. 29-32).
18. Somos filhos de Deus e herdeiros da glória (Rm 8,14-18)
a) Guiados pelo Espírito de Deus, somos filhos de Deus. O próprio Espírito nos garante isso.
Não recebemos um Espírito de escravos, para ter medo, mas um Espírito de filiação adotiva,
que nos faz dizer com liberdade e confiança: Abba! Pai! (v.14-16).
b) Somos filhos no Filho, logo somos também herdeiros de Deus, junto com Cristo. Agora
participamos dos seus sofrimentos. Amanhã participaremos da sua glória! (v.17).
c) Lembrarei sempre que os sofrimentos do momento presente não se podem comparar
com a glória futura a que estamos destinados (v.18).
19. Reavive o dom de Deus que está em você (2Tm 1,6-14)
a) Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de
sabedoria. Não se envergonhe de dar testemunho de nosso Senhor (vv. 6-8).
b) Jesus Cristo nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, desde toda a eternidade
(vv. 9-11).
c) Como Paulo, prisioneiro por causa do Evangelho, não me envergonharei. Sei em quem
coloquei a minha fé (= confiança amorosa). Conservarei esta atitude de confiança com o
auxílio do Espírito Santo, que habita em mim (vv.12-14).
20. Deus é amor e o Amor lança fora o temor (1Jo 4,7-21)
a) Deus é amor. Ele nos amou primeiro, está conosco, deu-nos o seu Espírito (vv. 7-13).
b) Nós reconhecemos e acreditamos no amor que Deus tem por nós. Temos plena
confiança no dia do julgamento, porque o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo
(14-17).
c) No amor não existe medo. Pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo. Quem sente
medo ainda não está realizado no amor. Quanto a nós, amemos, porque Ele nos amou
primeiro (vv. 18-21).
21. A Igreja celeste, Nova Jerusalém (Ap 21,1-4)
33
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
a) ―Vi um novo céu e uma nova terra... a Nova Jerusalém... como noiva enfeitada para o seu
Esposo‖, Cristo (vv. 1-2).
b) ―Ouvi uma forte voz: Esta é a morada de Deus com os homens‖, Emanuel (v. 3).
c) ―Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais
luto, nem grito, nem dor, porque as coisas antigas passaram‖ (v. 4).
NOTAS:
1
Na desolação, Inácio recomenda ―insistir mais na oração, meditação e em examinar-se
muito‖ (EE 319,2).
SUBSÍDIO
A autora é religiosa, Beneditina da Divina Providência, formada em Psicologia.
O AMOR
Janaína Clara Nazário
“Há mais alegria em dar
do que em receber”.
Amar quem sabe amar não é difícil, porque a reciprocidade de afetos é espontânea, livre,
sem subterfúgios. Amar quem já ―se ama‖ não é difícil, pois sua auto-estima tem como
alicerce a confiança básica, condição indispensável para estabelecer vínculos maduros.
Amar quem não sabe amar é difícil. Tudo se dá na base da troca, do ―toma lá, dá cá‖, a
relação acontece mediante cobranças e manipulações do outro.
Quem não se ama não sabe deixar livre aqueles que julga amar, aprisiona, explora, domina.
Quem não conhece o amor não sabe perder, está fechado para a renúncia e para a humildade.
Quem não se ama não sabe lidar com o amor que recebe gratuitamente do outro...
desconfia e não se entrega, não aprofunda a relação.
Quem se ama, ama também o outro e sabe respeitar os limites da fronteira do outro. Não é
invasivo e nem permissivo. Ama sua própria liberdade e a liberdade do outro. Não invade as
fronteiras do outro sem ser convidado, como também não se deixa invadir por elementos
intrusos. Ama a liberdade, porque sabe que depois da vida é ela o dom mais precioso que
todo ser humano tem. Dom este que torna a pessoa mais semelhante ao seu Criador.
ARTIGO
Pe. Paulo Lisbôa tem longa experiência de orientação de Exercícios com acompanhamento
individual. É membro do CEI-Itaici e autor de diversos livros (Orar a Comunhão. Oração
cotidiana na comunhão trinitária,Ed. Loyola, 2000).
TRATAMENTO DE ALGUNS ENTRAVES PSICOLÓGICOS:
34
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
MINHA EXPERIÊNCIA
Paulo Lisbôa, SJ
Introdução
No serviço aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE), em especial durante
os mesmos, nós que acompanhamos a experiência, sentimos cada vez mais a necessidade
de bastante atenção aos possíveis entraves psicológicos. Isso facilitará o discernimento
espiritual, na ajuda a exercitantes que temos aos nossos cuidados em EE de oito e até
mesmo de 30 dias.
No espaço mais reduzido de um artigo de revista, eu me proponho apresentar apenas
quatro aspectos que considero importantes, nessa questão dos possíveis entraves
psicológicos, em pessoas que se apresentam para fazer EE. Nas páginas que se seguem,
apresentarei as resistências em se dar a conhecer [1], o fenômeno do cansaço que beira a
depressão [2], a demasiada centralização na própria pessoa [3], e pela incapacidade de
distinguir moções espirituais de impulsos do inconsciente [4].
Há livros especializados na Orientação espiritual que desenvolvem com mais amplidão o
assunto1. Embora o horizonte desses livros seja também da vida espiritual fora dos EE, as
indicações para esse acompanhamento, fornecem preciosas indicações que podem ser
aplicadas aos tempos de EE.
A minha intenção é apresentar sucintamente, quase a modo de ajudas práticas para o
trabalho de acompanhamento em tempo de EE, aqueles quatro aspectos.
Desenvolvimento
Sendo o mais objetivo possível, procurarei não me alongar em incursões técnicas e
científicas, mas desenvolver cada um dos 4 itens, a partir de minhas experiências pessoais,
no trabalho de acompanhamento em EE. De meus erros e acertos e também de
observações pessoais em supervisões de acompanhamentos é que escrevo2. Estarei
sempre entrevendo situações que aconteceram e que podem acontecer nesses
acompanhamentos. Por isso, o estilo será coloquial, dirigido mais a pessoas que estão ou
se interessam pelo serviço do acompanhamento espiritual em tempo de EE.
[1] As resistências em se dar a conhecer
Acredito que muitos de vocês, acompanhantes, já encontraram, em EE de 8 ou 30 dias e
mesmo em EE na Vida Corrente (EVC), pessoas que resistiam falar de si e de suas coisas,
dificultando o processo de acompanhamento espiritual. Certamente, vocês se deram conta
que isso aconteceu, com mais freqüência, em pessoas antes desconhecidas e que faziam,
pela primeira vez, os EE com acompanhamento individual.
Em casos como esses, é natural que haja dificuldade inicial em abrir-se a partir do interior,
dos sentimentos, dos afetos e desejos e, sobretudo, das dificuldades e problemas atuais,
que pudessem estar interferindo na caminhada dos EE.
É claro que, em se tratando de EE de 8 dias, uma vez que se nota a resistência, deve-se,
imediatamente, cuidar de fazer algo na linha da entre-ajuda que desbloqueie a resistência.
Quando os EE são mais prolongados, pode haver mais calma para agir no sentido desse
desbloqueio. Em qualquer um dos casos será muito útil aproveitar a dinâmica da matéria
que vai ser dada, para sugerir um exercício ou uma oração sobre a história de Deus na vida
pessoal. É importante pedir que o exercitante tenha escrito essa teografia que foi rezada3.
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Ao falar com o exercitante, é muito oportuno que a conversa parta do que foi escrito. Há
exercitantes que espontaneamente pedem para ler a teografia. Por ela, vocês já terão
elementos importantes que os ajudarão a situar essa pessoa concreta em seu contexto e
momento existencial.
Pode ser que a sugestão dada não seja aceita e acolhida pelo exercitante, ou simplesmente
seja rejeitada. Isso se percebe logo, no primeiro encontro, quando se pergunta, com
delicadeza, sobre o exercício feito. Nesses casos, é necessário induzir os exercitantes, com
muito jeito, a tentarem resumir um pouco a vida atual: situação e atuação na família ou
comunidade, cidade e região de origem, motivações pessoais de vida e até mesmo se há
algo que esteja dificultando a entrada nos EE. Tudo o que for tentado no sentido dessa
abertura, deve ser feito sempre com muita discrição, sem pressa ou ansiedades. Não somos
nós que vamos solucionar o problema. Ter consciência de que a atitude de certa distância
estratégica do acompanhante, facilitará a abertura do exercitante, sem que este se sinta
coagido. O importante é não gerar tensões.
Vocês bem sabem que esse dar-se a conhecer é limitado pela circunstância desse período
concreto de EE, de acordo com a modalidade escolhida. Por isso, devemos nos contentar
com os dados que são fornecidos para o bom prosseguimento da experiência de oração.
Caso contrário, estaremos extrapolando o nosso serviço, abeirando-nos do que faz um
psicólogo e terapeuta4. Isso inclusive poderá ter o efeito negativo do fechamento definitivo
das pessoas em questão.
A “chave de leitura” do acompanhamento espiritual é
diferente da usada pelo psicólogo.
Na minha prática de acompanhante de EE, percebo que a ―chave de leitura‖ do
acompanhamento espiritual é diferente daquela usada pelo psicólogo. O ambiente do
acompanhamento é de fé, à luz do que disse São Paulo: ―Pois nosso combate não é contra
o sangue, nem contra a carne, mas contra os espíritos do mal...‖ 5. Percebo também que a
minha atitude diante das questões levantadas deve ser diferente. Por exemplo, na situação
de baixa auto-estima, por causa de uma educação castradora, eu a situo na ótica da fé:
―Deus a(o) aceita como você é e não como uma imagem fabricada por seus pais...‖
[2] O cansaço que se aproxima da depressão
Parece que o fenômeno depressivo, hoje em dia, está mais generalizado do que em outros
tempos6. Isso tem a sua repercussão na oração em tempo de EE. Na certa, mais de uma
vez, em EE com acompanhamento, vocês já tiveram casos de gente muito cansada,
beirando a estafa. Sabemos que, por mais boa vontade que essas pessoas tenham em
fazer os EE, não estão nas melhores condições para tirar o fruto deles. Que fazer então?
Tratando apenas daqueles que fazem os EE de 8 dias em grupos7, sugiro alguns
estratagemas para serem utilizados e agilizados conforme os casos.
Com aqueles que se manifestam declaradamente estressados e deprimidos, não há outra
solução senão acolhê-los com muita caridade, desenvolvendo a empatia, que é a
capacidade de situar-se no nível da pessoa acompanhada. Há atitudes, como a do
acolhimento inicial e da escuta atenta ao longo da conversa, entre outras, que predispõem a
isso. Na prática, fazer um caminho paralelo ao que é realizado com os demais participantes
dos EE. Ou seja, é melhor deixá-los livres de acompanhar ou não as atividades em grupo.
Basta que participem das Celebrações Eucarísticas. Entre muitos outros casos, lembro-me
de uma pessoa que acompanhei muitos anos atrás e que estava nessa situação deprimida8.
Procurei receber essa pessoa com todo o carinho e atenção, concedendo-lhe até mais
tempo de atendimento do normal. Ela foi a poucas colocações minhas. Tentei apenas
trabalhar com ela as causas de sua situação existencial. Cuidando para não extrapolar,
servi-me de alguma ajuda psicológica, preparando-a para um possível tratamento posterior.
36
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
O momento desses EE não deixou de ser a hora da graça para essa pessoa que, a partir
deles, procurou uma ajuda terapêutica mais especializada. Acabou fazendo curso de
Psicologia e, hoje, ajuda outras pessoas nessa área humana. Até hoje somos muito amigos!
Àqueles que se apresentam com um grande cansaço, causado pelo excesso de esforço
despendido até o dia do início dos EE, é preciso ajudá-los a ir entrando pouco a pouco na
oração. Como em todos os grupos, em geral, há muita gente nessa situação, eu costumo
dar mais tempo de sono nos dois primeiros dias e insisto na motivação para esse descanso
necessário. Em alguns retiros para gente menos experiente, pode haver um momento de
relax livre diariamente9.
Especialmente com os que se queixam mais, mesmo depois dos dois primeiros dias iniciais,
costumo motivá-los para que durmam mais e não se preocupem em fazer todos os
momentos de oração. No acompanhamento pessoal, é importante que mostremos
compreensão e muito acolhimento da caminhada de cada um, animando-os sempre10.
[3] A demasiada centralização sobre si mesmos
Não é novidade para quem atende espiritualmente pessoas ou as acompanha em seus EE,
o fato de que a intensa preocupação de alguém consigo mesmo é um desajuste de
personalidade. Não é preciso ser formado em Psicologia para saber que tal desajuste,
chegado a um grau mais intenso, vai impedir um relacionamento interpessoal adequado e
satisfatório. Pessoas que se acham centralizadas demais sobre si mesmas, assim como têm
muito limitada a sua capacidade de intercomunicabilidade com os outros, também terão
muita dificuldade em se comunicar com Deus na oração.
Com certa freqüência, mesmo fora dos EE, encontramos esse tipo de gente que a
Psicologia chama de ―narcisista‖11. Pe. Houdek, SJ, chega a aplicar o fenômeno psicológico
à caminhada espiritual de algumas pessoas, quando para elas “Deus se torna apenas mais
um ser que é obrigado a lhes dar satisfação e prazer” 12.
Nesses casos, a descentralização só será possível, se tivermos condições de reconduzir a
experiência dos EE ao seu objetivo verdadeiro: ao Amor gratuito de Deus, que pode levar a
pessoa em questão também ao amor de seus semelhantes. Durante os colóquios diários,
com muito tato, não deixar que a conversa gire só em torno da problemática pessoal. Às
vezes será preciso provocar essa mudança de rumo com algumas perguntas do tipo:
“...Você está falando desse problema porque os textos dados o levaram a isso?... Você acha
que nos tempos de oração houve conversa com Deus sobre a questão? ...Que tal se você
ficasse mais atento ao que Deus lhe quer falar?...”
Se essas pessoas possuídas de uma ―espécie de narcisismo espiritual‖13 fazem os EE de 8
dias, é um pouco mais difícil conseguir mudança mais substancial. O que se pode, em
tempo tão reduzido de dias, é dar algumas indicações para que elas se habituem a orar na
vida mais altruisticamente. Nesse sentido, será muito bom, renovar a experiência do ―exame
espiritual diário‖, caso esteja já esquecido, ou iniciá-las nessa prática tão altruista14. Seria
bom, também, sugerir a continuidade de um acompanhamento espiritual fora de EE, com
uma terapia psicológica de reforço.
Para as pessoas que fazem outros tipos de EE, especialmente os de mês e na vida
corrente, o procedimento será diferente. Contando com o maior tempo em que estaremos
com as pessoas, poderemos voltar com mais freqüência à proposta de pequenos exercícios
mais voltados para as necessidades reais do povo mais carente e desprotegido de recursos
materiais e espirituais.
[4] A incapacidade de distinguir moções espirituais de impulsos do inconsciente
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Em seus acompanhamentos de pessoas fazendo EE, vocês certamente já encontraram
mais de um caso com esse tipo de incapacidade. Aliás, isso é mais comum do que se
pensa, especialmente em se tratando de iniciantes. Eu constato mais esse fenômeno nos
que iniciam a caminhada espiritual nos EE. Contudo, não raras vezes eu me deparei com
pessoas que já haviam feito tipos de EE e que ainda tinham dificuldades de bem discernir
essa diferença. A título de exemplo, praticamente em todos os EE de mês que orientei,
sempre houve pessoas com essa dificuldade.
A primeira observação que eu faço é que todos nós acompanhantes de EE ou mesmo fora
deles, deveríamos saber lidar bem com essa situação. Caso contrário, corremos o risco de
estar confundindo estados de espírito e deixando também confusos os que vêm a nós,
atrapalhando-os em sua caminhada espiritual.
É preciso que esteja claro para nós, por um lado, a noção não teórica mas prática de
moções espirituais e suas manifestações, na consolação e desolação espiritual. Por outro,
também mais na prática, a noção de impulsos inconscientes e suas manifestações, na
euforia e no ―baixo astral‖.
O que acontece com bastante freqüência, em especial naqueles que estão iniciando os EE,
é que não sabem lidar com os diversos estados de espírito. Julgam imediatamente que
todas as sensações boas e prazerosas, produzidas por impulsos ou estímulos positivos,
sejam já consolações espirituais, ao contrário, que as sensações menos prazerosas,
originadas por estímulos negativos já sejam desolações espirituais. A primeira coisa que se
deve fazer, nesses casos, é mostrar que as coisas não são assim tão simples e que é
preciso distinguir o psicológico do espiritual. Nesse momento, faz-se necessária uma
explicação a respeito desses impulsos inconscientes, sempre muito ligados ao que é dito na
conversa de cada dia. É muito oportuno também retomar as Regras de discernimento de
espíritos para a primeira semana dos EE15. Supõe-se que as mesmas já tenham sido
explicadas teoricamente, a todo o grupo de exercitantes e que na conversa, sejam
lembradas e trazidas como ajuda imediata na prática de algum discernimento espiritual.
Ultimamente, venho observando um fenômeno que demanda mais discernimento.
Especialmente em pessoas saídas da Renovação Carismática e que vêm para serem
acompanhadas em EE, não raro há uma busca exacerbada de emoções, na linha da
emotividade. Para elas, se não há lágrimas ou outras manifestações epidérmicas, não
houve ―consolação espiritual‖ de que fala Santo Inácio16. Há confusão entre experiência de
Deus e exacerbação da emotividade. A ajuda nesses casos será reconduzir a pessoa em
questão à objetivação da oração, conforme a metodologia inaciana dos EE. Esta sempre
conduz a um esvaziamento de si, que permite a saída para os outros.
Entendida e elaborada aquela distinção, os exercitantes começam a sentir com mais
facilidade e tranqüilidade as moções espirituais que acontecem no interior deles.
Conseqüentemente, estarão mais aptos para realizar a experiência dos EE, onde Deus se
comunica através do que vai acontecendo no mais profundo do ser, pelas consolações e
desolações espirituais.
Conclusão
Há outros obstáculos de ordem psicológica que podem tornar impraticável a realização
satisfatória de EE. Lembro apenas mais três: os medos e fobias apenas sentidos e ainda
não detectados e analisados; a sexualidade não bem acolhida e trabalhada pessoalmente,
gerando desintegração afetiva e as transferências e contra-transferências.
Os medos e a não elaboração da sexualidade são mais claramente reconhecíveis, sem
possibilidades para uma rápida ajuda, em especial, em se tratando de EE de 8 dias. Os
aspectos transferenciais já foram tratados muito bem em artigo de nossa revista, no número
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
especial dedicado ao Acompanhamento Espiritual17. Achei por bem, então, não tratá-los no
espaço deste artigo.
Para terminar, desejo apenas relembrar o que Inácio de Loyola recomenda para quem dá os
EE: ―Aquele que dá os EE não se volte nem se incline a uma parte ou a outra, mas se
mantenha no meio, como o fiel duma balança, deixando agir diretamente o Criador com a
criatura e a criatura com o seu Criador e Senhor‖ 18. Essa recomendação, ao final da 15ª
Anotação dos EE, coloca-nos em nosso ministério de ajuda aos exercitantes, como simples
instrumentos da ação da Graça de Deus. É esta que vai definindo o caminho melhor a ser
seguido pelo exercitante.
Tudo o que eu apresentei acima como propostas e sugestões para o tratamento ou solução
de alguns entraves psicológicos em pessoas que fazem EE, deve obedecer a norma
inaciana do bom senso espiritual. Todas as nossas ajudas, sempre inspiradas na e pela
Graça, apenas procurarão deixar as pessoas mais livres para irem ao encontro direto com o
Criador: ―Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres‖ 19.
NOTAS:
1
HOUDECK Frank J., S.J., Guiados pelo Espírito – Direção Espiritual em Perspectiva
Inaciana. O autor apresenta uma bibliografia interessante de autores americanos (USA),
entre eles o afamado Willian Barry, S.J., já muito nosso conhecido por seus livros sobre a
Oração.
2
Oriento EE desde 1969, mas só a partir de 1975 é que se instituiu aqui em Itaici a prática
dos EE com o acompanhamento pessoal e diário. Eu aderi desde o início a essa prática dos
EE, mais conforme a metodologia inaciana.
3
―Teografia‖: neologismo cunhado pelo Pe. Ulpiano Vázquez, para designar as marcas
deixadas na gente pela ação de Deus. Pessoalmente, utilizo essa expressão ao apresentar
o texto do ―Princípio e Fundamento‖ (EE 23).
4
Todos os autores experimentados em dar EE acompanhados, são unânimes em garantir a
originalidade e distinção do serviço do Acompanhamento ou, como dizem muitos, da
Direção Espiritual (Houdek, Barry e outros) com outros tipos de ajuda puramente
psicológica.
5
Cfr. Ef 6, 12.
6
É o que constatam autores como Houdek, que chega a afirmar que, na América do Norte,
―a maioria dos que iniciam a direção espiritual sofre, pelo menos, uma forma moderada de
depressão psicológica‖. Em nossa realidade sul americana não será diferente.
7
O cansaço próximo à depressão é mais comum em EE de 8 dias. Em EE de mês o
fenômeno é bem mais raro, porque o descanso o equilíbrio psíquico é uma das exigências a
serem avaliadas, para a admissão dos candidatos. Mesmo que possam vir pessoas
estressadas para esses EE, é mais fácil ter razões para afastá-las imediatamente da
experiência.
8
Os EE foram realizados aqui mesmo em Vila Kostka, em um tempo em que ainda não era
muito comum que os EE fossem acompanhados individualmente. Pude assim dedicar mais
tempo à pessoa em questão.
39
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
9
Esses momentos diários de relax grupal foram sempre conduzidos por alguma irmã que
me ajudava. A técnica é conhecida e não é difícil de ser aplicada. Há inclusive gravações já
preparadas, como as do Pe. Pius Sidegum, SJ.
10
O ideal para bem realizar os EE é que as condições físicas do exercitante sejam as
melhores, em vista de se conseguir os frutos de uma oração em maior profundidade.
Contudo, quando isso não acontece, é importante animar e valorizar o pouco que a pessoa
pode realizar no momento.
11
A expressão vem de Narciso, personagem mitológica que enamorou da sua própria
imagem refletida nas águas. Narcisismo é a busca compulsiva de si mesmo.
12
Op. cit. p.29.
13
Idem Ibid. p.28.
14
Para iniciar ou renovar a prática do ―Exame Espiritual Diário‖, cfr. subsídio publicado em
Itaici, nº 40 (junho de 2000), p.24.
15
EE n. 313 – 327. Essas regras, mais próprias para a primeira semana dos EE, tratam
diretamente da consolação e desolação espiritual. Dependendo dos casos, poderão ser de
utilidade também as da Segunda Semana: EE n. 328 – 336.
16
EE n. 316.
17
CARDENAS Veron Salvador, S.J., Alguns pressupostos do Acompanhamento Espiritual –
Itaici, n. 37 pp 57 a 62.
18
EE n. 15.
19
Gl 5, 1.
SUBSÍDIO
Publicamos a parte final de artigo “Sobre o respeito da confidencialidade no acompanhamento
espiritual”, publicado em Cahiers de Spiritualité Ignatienne 91 (1999) 179-188; também em
Manresa 72 (2000) 75-82. Por confidencialidade se entende a “ação de manter o segredo das
informações”. O autor é padre. A tradução portuguesa é do Pe. Paulo Lisbôa, SJ.
A CONFIDENCIALIDADE NO ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL
Gilles Nadeau
Por que preocupar-se da confidencialidade no acompanhamento espiritual?
Em primeiro lugar porque a corrente social atual no que respeita a confidencialidade nos
aconselha a rever nossas práticas na Igreja sobre este tema. Com o fim de proteger o
cidadão, o legislador estuda a possibilidade de colocar exigências profissionais para as
numerosas pessoas que se declaram ―terapeutas‖. Nós desejamos que o acompanhamento
espiritual seja assumido cada vez mais por pessoas formadas e competentes. Sem nos
apresentarmos como ―terapeutas‖, coisa que não somos, desejamos que seja dado ao
acompanhamento uma certa seriedade ―profissional‖, muito particularmente nos Centros de
recurso. É bem possível que as circunstâncias nos levem um dia a dar contas sobre o
respeito à confidencialidade.
40
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
O que poderia acontecer se um dia uma pessoa planejasse formar um processo contra o
seu acompanhante ou contra o Centro de recurso por ruptura de confidencialidade?
Como reagiriam os responsáveis de um Centro de formação espiritual se um de seus
estudantes exigisse consultar seu dossier?
É só para a sociedade civil que existem os códigos de ética institucional e os códigos de
deontologia profissional?
É uma prática corrente em nossas instituições a tolerância clara, firmada, no marco de uma
supervisão?
Existem outras razões mais profundas que lutam pelo respeito escrupuloso da
confidencialidade no acompanhamento espiritual. Procedem da natureza mesma deste
serviço e da relação que se deriva dele.
O acompanhamento espiritual supõe a abertura de coração da pessoa acompanhada. É-nos
dado então, como acompanhantes, entrever uma realidade da ordem do mistério: a relação
de um irmão ou de uma irmã na fé com o seu Senhor. Esta realidade tem aparência do
divino. É da ordem do sagrado. Temos o privilégio de estar diante de uma ―presença real‖ do
Senhor. Difundir aquilo de que somos testemunhas é uma espécie de profanação. Quebrar
a confidencialidade requerida para aproximar-nos de um tal santuário, não nos associa aos
ladrões do Templo? Sabemos o que Jesus fez com eles. A pessoa acompanhada pede-nos
para que vamos com ela até seu santuário interior. Chegados a este lugar é preciso, nos diz
Santo Inácio, deixar que ―o Criador atue sem intermediários com a criatura, e a criatura com
seu Criador e Senhor‖, em uma espécie de silêncio sacro que, a meu entender, deve estar
presente como atitude interior ao longo de todo o acompanhamento. Quebrar a
confidencialidade é quebrar este silêncio e deixar que intervenham outros intermediários,
mesmo que a pessoa acompanhada os ignore.
O andamento do acompanhamento espiritual é impossível sem uma confiança recíproca.
Notemos que o dever do respeito à confidencialidade vale igualmente para a pessoa
acompanhada. Esta pode também enfraquecer a confiança da pessoa do acompanhante,
em conseqüência de uma falta de discrição de sua parte.
Nenhum acompanhamento sem confidências, nenhuma confidência sem segredo.
Confiança, confidência, confidencialidade: outras variantes da palavra ―fé‖. O
acompanhamento espiritual é um ato permanente de fé no Espírito Santo que atua no
coração dos dois. Seguros com essa certeza optamos confiar-nos a outro.
Mas a confiança é frágil. Se a pessoa acompanhada sente-se traída por uma falta de
confidencialidade, reagirá. Poderá decidir terminar a relação, duvidando recomeçar com
outro acompanhante por temor de ser traída outra vez. Poderá também continuar a relação
de acompanhamento, cessando de se confiar internamente. Ela terá medo de se confrontar
com seu acompanhante. Ser acompanhado é consentir em mostrar sua vulnerabilidade. Isso
só se faz em um clima de confiança. Lembremos que a noção de ―confidência‖ pode ser
subjetiva. O que para um parece uma confidência banal pode não o ser para a outra pessoa.
Pouco importa: a confiança é de cada um!
Em forma de conclusão, deixo a palavra às pessoas que acompanhamos.
Querido Acompanhante, Querida Acompanhante
Um dia nossos caminhos se encontraram. Eu lhe pedi um grande serviço: que você fosse
testemunha de minha experiência de Deus e me acompanhasse em meu caminho para Ele.
Você consentiu. Saiba que eu lhe sou muito agradecido. Fazemos juntos uma grande obra.
41
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Agradeço a sua disponibilidade de tempo e de coração, agradeço sua confiança, agradeço
sua oração.
Quando entro em sua casa tenho sempre um pouco de medo, algumas vezes mais do que
outras. Já reparou? Eu lhe abro o meu coração. Tenho necessidade de dizer tudo a você.
Você saberá compreender-me o bastante pelo menos, para ajudar-me a me compreender a
mim mesmo? Exige muita humildade o mostrar-me tão pobre diante de você, e, sobretudo,
muita confiança. A respeito de sua intimidade, você está seguro de que ninguém pode ouvir,
do exterior de seu escritório, o conteúdo de nossas conversas?
O que você faz com todas as minhas confidências? Eu não exponho aos olhares dos
demais a minha vulnerabilidade e nem as riquezas do meu coração.
Não revele nada, nem sequer de modo indireto, o que eu partilho com você. Para os outros
é tão fácil dar interpretações! Enquanto estamos juntos não tenho nada contra a sua
jovialidade. Conheço a sua delicadeza. Mas, diante dos outros nós dois devemos estar
atentos.
Você deve fazer perguntas e me ajudar a ser verdadeiro(a), de acordo. Mas proceda com
habilidade. Eu não gostaria sobretudo de ficar com a impressão de que você está curioso
por saber de minha vida particular.
Quando me acompanhar não me fale de outras pessoas que você acompanha. Quero ser
único(a) aos seus olhos. Mesmo que você não as nomeie, é sempre possível que eu as
conheça. Além disso, eu poderia pensar que você fala de mim a outros.
Se um outro revela alguma coisa de mim a você, procure esquecê-la. Eu mesmo gostaria de
lhe dizer as coisas que me dizem respeito. De outra forma, há o risco de que não escute o
que eu lhe digo, esperando somente o que eu lhe deveria dizer.
Peço que você recorde ao nosso grupo de partilha e a todo pessoal do nosso Centro de
acolhimento que eles estão também obrigados à confidencialidade. Se meus responsáveis
lhe pedem uma avaliação, converse comigo antes de responder. Eu lhe pedi que você fosse
meu acompanhante espiritual e nada mais.
No curso de sua formação eu aceitei os verbatim1, com a segurança de que você tomará
medidas para que estes textos estejam protegidos e desapareçam depois de utilizados. O
que você faz para responder a esta exigência?
Eu tenho também muitas dificuldades a que você seja a um tempo meu avaliador e meu
acompanhante espiritual. Será necessário que eu fale disso antes de dar meu
consentimento. Pode acontecer que eu o recuse.
Compreendo que você tem necessidade de ajuda e de formação permanente. Quando você
procurar estes meios, peço-lhe que fale de si e não de mim2.
Em reciprocidade, eu me comprometo a respeitar a confidencialidade sobre aquilo que
ocorrer em nossos encontros. Se eu faltar, lembre-me.
Quando você falar de mim, esforce-se para se colocar em meu lugar. Você gostaria que as
suas confidências fossem difundidas como você faz com as minhas? Você ficaria
descontente se eu chegasse de improviso no momento em que fala de mim aos outros?
Você me permite confrontá-lo comigo agora? Quando você falta à confidencialidade, é para
o meu bem ou para valorizá-lo a si mesmo? De onde vêm esses desejos de falar? Onde
está a sua liberdade interior e a sua ―indiferença‖? eu sei que eu sou atrevido. É porque eu
tenho confiança em você, que escolheu o ―difícil ofício do acompanhamento espiritual‖.
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Obrigado mais uma vez! Rogo por você... rogo pelos outros.
NOTAS:
1
A expressão indica um texto descritivo do acompanhamento de uma pessoa. Na prática
Norte Americana este texto é entregue para os membros de um grupo de supervisão, que o
utilizam muito discretamente, nas sessões de formação permanente de Acompanhantes. No
Brasil, não existe este costume.
2
Sobre a supervisão, ver: W.A. Barry, W.J. Connolv, A prática da direção espiritual,
DDB/Belarmin, Col.Christus, pp. 238-239; Maurício Giulani, ―Um supervisor?‖, Cahiers de
Spiritualité Ignatienne, volume XXI, nº 81, janeiro-março 1997, pp. 67-71.
SUBSÍDIO
Traduzimos e adaptamos de “Cuadernos de Espiritualidad” (Santiago de Chile) n. 123 (set.-
out. 2000) 30-34. O autor é presbítero. Seu subsídio deve ser complementado com o texto
“Orar a nossa própria afetividade”, publicado neste mesmo número da revista.
REVISANDO NOSSA HISTÓRIA AFETIVO-SEXUAL
Álvaro González e Equipe do CEI (Chile)
Introdução
Integrar nossa vida afetiva e nossa vida sexual é tarefa necessária para toda pessoa e, de
maneira particular, para os(as) consagrados(as), chamados(as) a viver o celibato.
Para tanto, ajuda revisar nossa história afetivo-sexual. Desenvolveremos, assim, a partir da
realidade, uma maior sensibilidade e compreensão de nós mesmos. Isso nos permitirá,
também, partilhar com outros e sarar nossas feridas.
Roteiro para revisar nossa história
a) Família de origem e primeiros anos
1. Nosso desenvolvimento afetivo-sexual foi marcado por nosso contexto familiar. Tenta
explicitar as atitudes e comportamentos dos teus pais, irmãos e parentes, nessa área.
2. Que sabes sobre as circunstâncias da gravidez de tua mãe, nos meses que precederam o
teu nascimento? Que sabes sobre este? Onde nasceste e quem cuidou de ti, depois de
nascer?
3. Conheces alguma foto de ti, quando bebê? Que pensas/sentes de tua experiência de
bebê? Como era ser bebê em tua família?
4. Poderias mencionar dois fatos que te marcaram nos primeiros anos de tua vida?
5. Como e quanto se expressava o carinho na tua família? O que fazias para chamar a
atenção? O que estava permitido e o que estava proibido?
6. Que comentários sobre o sexo eram feitos na tua família? Falava-se sobre o tema ou se
evitava? Como era o ambiente quando se falava do assunto?
7. Que pessoas, fatos ou publicações influenciaram na tua maneira de pensar e agir em
matéria sexual?
43
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
8. Por quem te sentiste amado(a), aceito(a) e apoiado(a) nesta etapa de tua vida?
9. Que temores, inseguranças e invejas te rodeavam, com relação ao carinho de teus pais
contigo e com teus irmãos?
10. Que lembranças tens da tomada de consciência da tua identidade sexual (ser homem ou
mulher)? Como valorizava tua família os meninos e as meninas? Tratava-os de maneira
diferente? Quais eram os critérios com que teus familiares e vizinhos julgavam o
comportamento dos meninos e das meninas?
11. Como foi o despertar da tua sexualidade? Como e quando descobriste ter sensações
sexuais? Como viveste a curiosidade sexual? Participaste de jogos sexuais? Como te
sentiste?
12. Como chegaste a saber a respeito de: a) as diferenças sexuais; b) como nascem os
nenês?; c) as relações sexuais? auto-erotismo (masturbação)?
13. O que mexe no teu coração, depois destas perguntas?
b) Adolescência e juventude
1. Quais são as primeiras lembranças espontâneas desse período?
2. Destaca dois fatos dessa etapa que tenham marcado tua maneira de viver tua afetividade
e sexualidade?
3. Com quem partilhavas tuas preocupações? Eras uma pessoa amigável e socialmente
integrada? Sentias-te aceito(a) pelos outros?
4. Como foram teus encontros com pessoas do outro sexo? a) Encontros e desencontros; b)
namoros e paqueras; c) experiências sexuais.
5. Como te vias como pessoa sexuada? a) Que temores tinhas? b) Como afirmavas a tua
identidade sexual (ser homem ou mulher)? c) Como viveste as mudanças físicas ou
fisiológicas da puberdade?
6. Tiveste episódios ou períodos de masturbação? a) Fantasias que a acompanhavam; b)
temores e sentido de culpa que te deixava; c) que passos deste para resolvê-los?
7. Como te sentias contigo mesmo(a), na juventude? Que ideais, projetos ou sonhos te
habitavam?
8. Tiveste momentos ou etapas em que te sentias inseguro a respeito da tua orientação
sexual? a) Curiosidade ou comportamentos inadequados com pessoas do mesmo sexo; b)
episódios de tipo homossexual; c) atitudes ou condutas provocativas de adultos para
contigo, que te molestaram e prejudicaram.
9. Quais as pessoas e os ambientes que te ajudaram a viver melhor e integrar tua
afetividade e sexualidade? Como aprendeste a expressar teus afetos?
10. O que mexe ainda no teu coração, depois destas perguntas?
c) Experiência atual
Hoje, precisamos revisar e partilhar nossa maneira de nos relacionar e de amar os outros,
para crescer em liberdade interior e capacidade de servir melhor.
44
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
1. Entabulaste relações de amizade verdadeira, nas quais és conhecido(a) em profundidade
e conhecer o outro verdadeiramente? a) O que aprendeste nestas relações? b) Como
expressas, hoje, teu carinho? c) Como expressas tua necessidade de estar perto
(intimidade)?
2. Atualmente, quais são as dificuldades mais importantes que tens na área afetivo-sexual?
a) O quê não tens sabido ou podido viver melhor, nessa área? b) Com quem conversas, a
sério, sobre isso?
3. Se és celibatário(a), quais são as alegrias e sofrimentos da tua vivência celibatária? a) O
celibato te ajuda a amar mais e melhor os outros? b) O que te ajuda e o que te atrapalha
para viver melhor o celibato? c) Como ―seduzes‖ (cativas) os outros?
4. Que pessoas e situações te ajudaram a integrar melhor tua afetividade e sexualidade? a)
O que necessitarias para conseguir uma melhor integração? b) Que passos poderias dar
nesta tarefa de integração?
5. Que dificuldades tens, atualmente, para dar afeto?
6. Ao terminar esta revisão de um aspecto importante de tua história: a) A quem gostarias
de agradecer? b) A quem gostarias de perdoar? c) A quem deverias pedir perdão? d) O que
necessitas tu perdoar?
7. Que pequeno passo queres dar para conseguir uma maior integração afetivo-sexual? O
que mexe no teu coração, depois destas perguntas?
SUBSÍDIO
Catarina e Milton Lacerda são um casal de psicólogos, membros da equipe leiga do CEI-
Itaici.
ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL E PSICOTERAPIA:
SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS
Catarina e Milton Paulo de Lacerda
1.1 Semelhanças
Há muitos pontos de aproximação entre Acompanhamento Espiritual e Psicoterapia, embora
sejam dois campos distintos de trabalho com pessoas. Por isso é importante que o
Acompanhante esteja atento para saber até onde vai seu papel. Podemos destacar, por
exemplo:
Observação do todo da pessoa (do sujeito): da mesma forma que um psicoterapeuta, o
acompanhante precisa estar atento à linguagem verbal e não verbal. Precisa destacar as
atitudes, a postura, o ritmo da fala, o volume da voz, os gestos, o modo de olhar, a
expressão facial e assim por diante.
Privilégio: estar à disposição do outro para acolher sua partilha é um privilégio para ambos,
é serviço e não expressão de superioridade.
Sigilo: Ambos estão ligados ao sigilo profissional (não só ao sigilo natural, também
chamado "discrição"), porque se trata de uma partilha que é feita numa relação de
intimidade. O que é trazido para a partilha não pode ser levado para os demais
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
acompanhantes, mesmo que seja feita supervisão de casos. Apenas o conteúdo ali pode ser
levado, não a identidade do sujeito que deve ser resguardada, para que não se entre em
clima de "fofoca", que poria a perder toda a confiabilidade do trabalho.
Relação de confiança: o clima necessário para a partilha é o da confiança mútua. O sujeito
é que escolhe o acompanhante, assim como acontece entre cliente e terapeuta. Como a
Confiança tem por definição "a fé no amor", toda confiança supõe que se acredita ou no
amor da outra pessoa ou, ao menos, na sua boa vontade e honestidade. Trata-se de
comportamento necessariamente ético. Ora só existe ética profissional a partir da ética
pessoal, porque ninguém dá o que nem tem para si mesmo.
Transferência e Contratransferência: São dois fenômenos que ocorrem em todo
relacionamento humano, mais ainda no de Terapia e Acompanhamento, por serem relações
muito próximas. Como Transferência se entende tudo aquilo que acontece no sujeito
durante o processo, seja de Terapia seja de Acompanhamento. É muito comum que ele
projete (de modo inconsciente) na pessoa que o atende fantasias e lembranças passadas
com outras pessoas, introduzindo uma espécie de "filtro" na relação presente. Por exemplo,
pode "ver" no Acompanhante ou no Terapeuta seu pai ou sua mãe ou namorado ou amigo
ou aquele que um dia o prejudicou e assim por diante. - Por outro lado, sempre acontece no
Acompanhante ou no Terapeuta uma reação correspondente, também em nível
inconsciente, que é a Contratransferência. Pode por isso sentir atração ou repulsa,
superproteção (sentir-se mais responsável do que seria conveniente), envolvimento afetivo e
até somatizações (falta de ar, peso na cabeça, palpitações, azia, diarréia, dor de estômago
etc.). Precisa perceber o que acontece no outro e em si mesmo, distinguindo o que é do
sujeito e o que é seu.
Dependência e Simbiose: como na terapia, o acompanhado pode ligar-se
desesperadamente ao Acompanhante, como se fosse tábua de salvação, criando aí uma
dependência prejudicial a ambos. Pode chegar a formar uma simbiose, caso em que um não
consegue viver sem o outro, sob disfarces até piedosos. É importante que o Acompanhante
tanto quanto o Terapeuta sinta-se inteiramente livre para encaminhar o sujeito a outro
profissional, quando necessário, de modo a cortar essa relação viciada.
Autonomia: a finalidade dos dois papéis é ajudar o sujeito a conquistar sua Autonomia, isto
é, a sua liberdade de ter consciência de si mesmo e do que o cerca com realismo, de sentir
com espontaneidade e decidir com objetividade na construção de uma Vida feliz.
1.2 Diferenças
Nos objetivos: a psicoterapia procura libertar o sujeito para a autonomia no plano do seu
relacionamento consigo mesmo, com os outros e até com o ambiente. Na medida em que
liberta realmente a pessoa de seus condicionamentos negativos, pode favorecer a
superação dos impedimentos à fé. Porque a maior parte dos problemas assim chamados
"religiosos", na verdade são problemas de personalidade, em pelo menos 90%. O
Acompanhamento espiritual ideal, por outra parte, acrescenta a dimensão do
relacionamento com Deus e os recursos da Revelação, ou seja, os princípios da S.
Escritura, a experiência de Deus na oração e nos Sacramentos e o testemunho da
comunidade cristã como incentivo para superar o aparente paradoxo da felicidade na
proposta de Jesus. Isto é, que o caminho pascal passa necessariamente pela Paixão e pela
Cruz.
No treinamento: para o Psicoterapeuta requerem-se pelo menos 5 anos de estudo
intensivo e prática em estágios supervisionados para que possa exercer a profissão. Já para
o Acompanhamento Espiritual, a parte teórica mínima é proporcionada pelos Cursos de
Capacitação (CAPs 1 e 2), sendo que no 2º há algum treino no atendimento prático, em
nível de laboratório. Entretanto, além dessa preparação, que podemos chamar de "A Arte de
Acompanhar", é preciso levar em conta o Dom correspondente. Nenhum dos dois se
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
improvisa ou se impõe. Tanto Terapia como Acompanhamento são prestação de serviço,
mas o Acompanhamento é feito no nível da gratuidade, como ajuda fraterna.
No processo: A Psicoterapia se inicia com uma Anamnese, levantamento de dados
pessoais e do ambiente do cliente. Prossegue das formas mais inesperadas e variadas,
dependendo da pessoa, do caso e da linha terapêutica adotada pelo profissional. Conforme
o modo de proceder deste, usam-se técnicas diversas, desde a simples escuta até
exercícios de fantasia ou atividades corporais. Segue-se um caminho de começo, meio e
fim, supondo determinada duração também conforme a linha. Não é recomendável que o
terapeuta fale sobre sua própria vida para o cliente. - Já o Acompanhamento restringe-se à
vida de oração do acompanhado, com as implicações desta na vida pessoal, seja dentro de
um retiro seja na vida diária. A interferência do Acompanhante dependerá da conveniência
de esclarecer dúvidas, sugerir novos modos de orar para melhor relacionamento com Deus,
orientar oportunamente quanto ao discernimento dos espíritos, podendo até falar da própria
experiência, se isso lhe parecer oportuno e útil ao acompanhado. Mesmo tendo um início, o
processo de Acompanhamento pode continuar por toda a vida.
SUBSÍDIO
Transcrevemos texto inédito, extraído de “Subsídios em nível psicológico”.
COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL
Catarina e Milton Paulo de Lacerda
Em todo relacionamento humano são muitos os modos de as pessoas se comunicarem.
Pensa-se geralmente na comunicação por palavras. No entanto, há vários outros aspectos
dignos de atenção para quem deseja comunicar-se bem, mais ainda quando se esperam
resultados de especial responsabilidade. Por isso, a afirmação vale também para o
Acompanhamento Espiritual, ocasião em que o Acompanhante segue com alguém
interessado em acertar na vida de oração, dentro ou fora dos EE.
Algumas dicas sobre a Comunicação não verbal podem ser úteis ao Acompanhante, a fim
de despertá-lo para sinais significativos, mas não expressos em palavras. O que vem aqui
exposto nem deve ser tido como ponto de partida para análise psicológica nem para
julgamento de valor sobre as pessoas. São apenas alguns indicadores que ainda
necessitam de observação maior dentro do contexto delas. Afinal, "quem vê cara não vê
coração".
Podem ser aí contados, entre outros possíveis, o Tempo, o Ritmo do discurso, a Expressão
facial, o Sorriso, o Vestuário, o Andar, a Postura, os Gestos e os Olhos1.
2.1. O Tempo: Costuma ser significativo o fato de a pessoa se inscrever logo para ser
atendida ou ficar hesitando, procurar diariamente o Acompanhante durante os EE e, se fora
dos mesmos, nos prazos combinados. Chegar sempre bastante tempo antes da hora ou,
pelo contrário, habitualmente atrasar-se. Tentar abreviar laconicamente a sessão ou, pelo
contrário, procurar estender-se, como quem quer "alugar" a quem a atende, e só no final
"lembrar-se" de algo significativo para partilhar. Qual a mensagem contida nessas escolhas?
2.2. O Ritmo do discurso: Não é à toa que as pessoas falam lenta ou apressadamente,
deixando fluir as palavras ou de modo entrecortado, respirando de modo ofegante no meio
das frases ou de maneira normal. O volume e a entonação da voz podem trair emoções (voz
chorosa, esganiçada, áspera, macia, fininha ou infantil...). Tudo isto pode ser questão de
temperamento e também de formação familiar. São sinais significativos para ser lidos e
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
interpretados, mesmo sem a pretensão de fazer uma análise psicológica, pois para isto é
necessário treinamento muito mais exigente e prolongado.
2.3. A Expressão facial: Os cabelos e o modo como estão penteados (ou descuidados), o
enrugamento ocasional ou já marcado da testa, para cima (indicando preocupação,
ansiedade e algum outro tipo de perturbação da tranqüilidade) ou o vinco entre os olhos
(rigidez, severidade, perfeccionismo), o colorido ou a palidez das faces (anemia, medo,
apreensão, timidez...), o morder dos lábios (ressecamento ou motilidade por ansiedade) ou
lábios comprimidos (sinal de propósito firme), cacoetes (piscadelas, fungações,
coceiras...indicando ansiedade, tensão emocional...), narinas abertas (metabolismo
acelerado, prontidão talvez para lutar ou para fugir)
2.4. O sorriso: não basta o posicionamento dos lábios (arqueados para cima). Devem estar
de acordo com o todo do rosto e da postura corporal. Daí podem perceber-se sorrisos
francos, de cabeça bem posicionada, olhar brilhante e lábios entreabertos. Mas também
sorrisos "amarelos", sorrisos de dentes cerrados (agressivos, prontos para morder), sorrisos
de amargura, sorrisos de superioridade e auto-suficiência, sorriso de futilidade, sorriso de
desgosto e desaprovação e assim por diante.
2.5. O Vestuário: o tipo de roupa (clássica, esportiva, bem ou mal passada, ajustada ou não
ao tamanho da pessoa), assim como os sapatos (limpos ou não...) e os enfeites (broches,
bottons, colares, brincos etc.) e o perfume podem sugerir maior ou menor bom gosto ou, até
mesmo, sofisticação e tendência para a vaidade. Até mesmo pode indicar o estado
emocional (mesmo que bem ou mal arrumada, a pessoa pode sentir-se muito à vontade).
2.6. O Andar: a maneira como a pessoa caminha, ao entrar e sair da sala, ou fora dela, com
firmeza e decisão ou, pelo contrário, meio trôpega, hesitante e arrastando os pés; pisando
com força ou tão de leve que mal se escutem os passos como se não quisesse ser percebida.
2.7. A Postura: sentar-se comodamente e bem encostada (ânimo e generosidade, embora
também arrogância) ou, pelo contrário, na beirada da cadeira (estar à vontade e confiante
ou, pelo contrário, insegura e querendo logo ir embora), ficar meio deitada como se
estivesse em cadeira de praia (displicência e comodismo). Ter ombros encurvados e cabeça
baixa, geralmente também com voz submissa (depressão, desânimo, fragilidade,
desconfiança... muitas vezes com boa dose de agressividade contida). Peito aberto e tronco
ereto (abertura e disposição de cooperar). Pernas cruzadas podem mostrar desembaraço ou
simplesmente imitação do outro que já estava assim. Se balançando uma delas na direção
do outro, pode indicar estar à vontade com este. Pelo contrário, se a estiver agitando,
sugere tensão. Levemente flexionadas quando de pé, parece humilhar-se. Respiração
aumentada (tensão e forte emoção), suspiros (ansiedade e angústia).
2.8. Os Gestos: aperto de mão firme (autoconfiança) ou frouxo (receio de envolver-se).
Mãos postas (parecem estar pedindo algo, talvez até pedindo socorro). Ficar segurando
bolsa ou outro objeto (desconforto e confiança ainda pequena). Mãos se arranhando (auto-
agressão). Punhos fechados (tensão ou agressividade contida).Tamborilando com os dedos
ou rabiscando sem parar (como o anterior). Pés cruzados para trás (tolhimento, repressão).
Pés que não param, balançando na vertical (impaciência) ou na horizontal (insegurança,
estar "meio perdido").
2.9. Os Olhos: são "as janelas da alma", revelando atitudes interiores. Olhos brilhando,
dizem entusiasmo e alegria. Mortiços, falam de tristeza e desânimo. Ausentes, exprimem
ensimesmamento. De soslaio, desconfiança. Olhos que se desviam e não se fixam no
interlocutor, falta de maior interesse e, até, insegurança. As sobrancelhas abaixadas
refletem concentração e seriedade. Levantadas, surpresa e alegria.
NOTA:
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
1
São muitas as obras de consulta possíveis. De maneira especial, por ser muito intuitivo, vale
verificar "O Corpo Fala", de Pierre Weil, com ilustrações de Roland Tompakow, Ed. Vozes.
SUBSÍDIO
A autora é religiosa da Providência de Gap.
REZANDO A DOR PARA SER CURADO
(exercício de educação, purificação e integração
da afetividade na dinâmica do discernimento)
Maria do Carmo Costa
Pressupostos
1. Ressentimento, mágoa, sentimento de culpa, desânimo, perda de sentido da vida, dor de
se sentir rejeitado, levam ao afastamento ou falta de gosto pela oração. São a causa mais
comum das dificuldades para rezar, refletir, meditar, contemplar. São expressões do nosso
―eu profundo‖ que precisa de socorro; precisa ser curado.
2. Os Exercícios Espirituais supõem que cada pessoa tenha aprendido a acolher, conviver,
deixar acontecer os sentimentos tais quais são: nem bons, nem maus. Apenas sentimentos.
Podem ser agradáveis ou desagradáveis. O discernimento supõe essa aprendizagem...
3. Os exercícios aqui propostos supõe uma atitude interior orante, de profunda entrega ao
Senhor, sem querer ser dono do processo... Fazer apenas os exercícios e não querer
controlar os resultados... eles acontecerão a seu tempo... segundo os desígnios de Deus...
4. A atitude orante básica comporta a mesma pedagogia de Jesus em suas curas no
evangelho, antes de operar um milagre, realizar uma cura.
O que queres que eu te faça? (tomar consciência de si mesmo).
Queres ser curado? Crês nisso? (é verdadeiro seu desejo de ser curado?).
Vai em paz... Tua fé te salvou! (você mesmo agiu na cura).
Exercícios
‖Sofrer para deixar de sofrer... A dor cura a própria dor...‖.
a) Prepare-se para a oração como de costume... Faça algum exercício de consciência de si
mesmo... Coloque-se na presença do Senhor...
b) Procure encontrar seu ―lugar interior de oração‖, o que mais costuma fazer, o mais
agradável, fazendo a composição de lugar... Se possível uma cena evangélica que o
coloque na intimidade do Senhor... ou também uma experiência de oração que marcou sua
vida no passado... Reviva a cena ou a experiência.
c) Estando com o Senhor, deixe seus sentimentos aparecerem como são e como estão no
momento... Sentimento é sentimento... nem bom, ...nem mau (raiva, rejeição ou sentimento
de ser rejeitado, alegria, entusiasmo, vergonha, coragem, ambição) só diferem porque nos
deixam com sensação interior agradável ou desagradável. Deixe seus sentimentos serem o
que são... apenas sentimentos...
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
d) Os sentimentos desagradáveis nos bloqueiam, desanimam... Quando isso acontece no
aqui e agora como por exemplo, na oração, é sinal de que precisamos cuidar deles... Na
verdade mais profunda, podemos chamar essa sensação desagradável de Dor – O
sentimento está doendo e quer de mim uma aceitação e acolhida desse fato... O que é
acolher o sentimento?... é deixar doer... acontecer com toda a sua força... Peça a Jesus
para perceber a presença d‘Ele nesse momento de dor.
e) Cada dor tem um nome: raiva, ódio, rejeição, vergonha, culpa, inveja... e tudo mais que
temos direito de sentir como seres vivos. Identificá-la com clareza e liberdade também faz
parte da cura. Uma vez identificada a dor, o sentimento, deixe isso acontecer de novo no
aqui e agora...
f) Se for necessário, procure romper e reviver o fato que lhe causou essa dor. Cuidado! Não
analise... não procure causa e efeito... não explique nada a si mesmo... não atribua culpa
nem a si nem aos outros... Viva simplesmente a dor... Sinta a dor doendo... o que vai curar a
dor é a própria dor... mesmo que lhe pareça morrer com essa dor, não desista... deixe essa
dor doer até acabar... ―Sê curado. Tua fé te salvou!‖
g) Esse exercício o ajudará a curar as dores que carrega do passado... Vá cuidando de cada
situação dolorosa que lhe é dado tomar consciência... não force nada... cuide apenas do
que aparece... cada situação por sua vez ao longo dos dias de oração, seu porão vai sendo
visitado por você mesmo em companhia da pessoa de Jesus... deixe a dor doer... fale com
ele sobre essa dor... mostre a Ele como está doendo... aprenderá, pela experiência, como é
possível limpar o nosso passado... integrá-lo... ter para com você mesmo, para com seu
passado, o mesmo olhar misericordioso do Pai... é a sua parte para ajudar o Pai na sua obra
recriadora... o passado integrado não mais existirá como dor, mas como lugar da
manifestação do Senhor... do encontro com Ele... consigo mesmo... com a sua condição de
criatura... comungando e compreendendo os irmãos...
h) A cura da dor, (o sentimento desagradável que me atinge) é um processo... não está em
nossas mãos saber nem o dia, nem a hora em que seremos curados... nossa parte é
apenas essa: deixar que aconteça a dor... cada vez de novo... conscientemente... sem
justificar ou explicar nada... a qualquer hora ou circunstância... o importante é que ela acaba
e você fica plenamente libertado para viver em plenitude de dor ou alegria o Aqui e Agora...
i) Com a prática deste exercício você passará a ter uma atitude nova diante dos seus
sentimentos. Poderá acolher tanto quanto a dor com a mesma liberdade interior... poderá
tratar adequadamente cada situação presente... não mais precisará jogar a dor no seu
porão... terá melhores condições para discernir no quotidiano da vida a vontade de Deus...
terá melhor disponibilidade, generosidade, criatividade para os apelos do Reino... maior e
melhor empatia com os irmãos... seu mundo interno estará sendo libertado passo a passo...
Retomando os passos do Exercício
1. Prepare-se para a oração.
2. Composição do lugar, da cena, da experiência.
3. Estando com o Senhor, deixe os sentimentos acontecerem. Deixar doer. Peça ao Senhor
que o ajude a perceber a presença d‘Ele neste momento de dor.
4. Identificar, com clareza e liberdade, a sua dor. Dê nome ao que está sentindo, uma vez
feito isso, volte ao presente e deixe acontecer aqui e agora.
5. Se necessário, reviva o fato que lhe causou essa dor. Não analise... não justifique... não
atribua culpa nem a si mesmo nem aos outros. Viva simplesmente a dor... Sinta a dor doendo...
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
6. Termine a oração agradecendo ao Senhor por essa experiência que acabou de fazer:
―rezar os mistérios dolorosos de sua própria vida‖.
COMUNICAÇÃO
OS EXERCÍCIOS LEVAM À OPÇÃO
EVANGÉLICA PELOS POBRES
Encontro de Orientadores de Exercícios, 13-15 out. 2000
R. Paiva, SJ
Dimensão social dos EE
O assessor convidado, Pe. José Flávio M. Tardin, SJ, é orientador de EE e autor de
Catequese na Comunidade (Ed. Loyola, 1996) e atua no Centro Santa Fé, dedicado à
promoção integral do jovem trabalhador e suas famílias.
Com fundamentação bíblica, elementos da realidade brasileira, dados da Igreja e referindo-
se sempre aos EE, conseguiu dar-nos uma bem organizada ―composição de lugar‖. Levou-
nos, também, a uma oração bem inaciana, voltada para vencer as afeições desordenadas e
ao serviço do Povo de Deus e da construção de uma sociedade igualitária.
Debates em grupos, espaço onde se manifestaram depoimentos que nos tocaram e
moveram, terminaram com útil plenário. A Liturgia da Missa pôde explicitar o potencial
libertador da Liturgia. Todos testemunhamos que os EE, quando bem dados, suscitam a
opção evangélica pelos pobres.
Troca de experiências
Ágil e bem humoradamente conduzida pelo Pe. Luís Quevedo, a partilha permitiu que
fossemos informados do que ocorre em muitas partes onde os EE são dados. Destaque
para os Exercícios ―leves‖ e até EVC dados nas favelas, a idosos, em leprosário, etc.
O que é fundamental ao dar os EE
Pe. Paulo Lisbôa conduziu o trabalho da manhã de domingo, com introdução breve,
proveitoso trabalho de grupo e eficiente plenário. Resumimos as conclusões para seu
conhecimento e reflexão. Todos os grupos enfatizaram que o silêncio, motivado e
introduzido gradativamente em alguns exercícios preparatórios é um ambiente necessário e
característico da oração inaciana. É preciso sentir e conhecer as moções, em vista do
discernimento, que leva à libertação das redes e armadilhas do pecado e à descobrir a
vontade de Deus na própria vida. Silêncio interior, atenção às moções, discernimento e
serviço são fundamentais na espiritualidade inaciana e devem estar presentes nas
introduções e adaptações dos EE como nos mesmos EE completos.
Outros aspectos: intervenções legítimas e impróprias de quem dá os EE; preparação e
introdução gradativa aos EE; não omitir, no processo, em particular nos EE de 8 dias, a
ajuda para perceber as moções, os exames, sobretudo o geral e o de oração, mas também
o particular, a ―Jornada Inaciana‖ (muito importante para a dimensão social dos EE) e a
reforma de vida. Nesta, ajudar quem faz os EE a ―dar ponto‖, ―amarrar‖ propósitos
concretos.
Encerramento
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Precedendo a liturgia final, de envio e entrega, Pe. Romanelli nos lembrou que participamos
de uma história que teve o seu começo em Vila Kostka, há bem 30 anos (1971). O encontro
tem uma dupla dimensão: 1ª) estudar um tema que leva a aprofundar alguma dimensão dos
EE. A dimensão social é da maior importância, pois está conforme ao contexto em que
apresentamos os EE; 2ª) Encontro de pessoas, troca de idéias, debate, comunicação.
Agenda
O próximo encontro de orientadores será de 19 a 21 de outubro de 2001. O encontro de
acompanhantes, de 18 a 20 de maio.
LIVROS EM DESTAQUE
Francisco Rinaldo Romanelli, SJ
COLEÇAO “LEITURAS E RELEITURAS”
Em boa hora as Edições Loyola lançam uma nova coleção com textos de espiritualidade. A
coleção ―Leituras e Releituras‖ quer colocar temas de espiritualidade ao alcance do grande
público. Os textos são breves, em estilo acessível aos leitores medianamente familiarizados
com temas de espiritualidade e querem ser lidos e relidos. O formato pequeno (70 ou 80
páginas de 13 x 18 cm), e a capa em cores atraentes, com destaque visual do título,
convidam à leitura. O preço igualmente é convidativo.
Netto de Oliveira, José Antônio, SJ, Perfeição ou Santidade e outros textos espirituais.
(Coleção ―Leituras e Releituras‖, 1), SP, Edições Loyola, 2000, 72 p. R$ 5,00.
Pe. Netto foi Mestre de Noviços, assessor da CRB e da CLAR e primeiro diretor do Centro
de Espiritualidade de Itaici. Atualmente, é Superior Provincial da Província Centro-Leste da
Companhia de Jesus. Portanto, um homem inteiramente familiarizado com a espiritualidade.
Três artigos compõem o livro: ―Perfeição e Santidade‖; ―Experiência Inaciana de
Discernimento‖; ―Abnegação - Renúncia - Mortificação‖.
O artigo principal já apareceu em Itaici: Revista de Espiritualidade Inaciana, n° 18 (dez.
1994), pp. 5-14. O autor parte da constatação de que muitos cristãos e, particularmente,
cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria e não dão um testemunho vivencial de
que o Evangelho é uma alvissareira Boa Nova. Antes parecem viver um interminável
sentimento de culpa diante de Deus. Buscando uma resposta para esse fenômeno, o autor
aponta como causa principal da mesma, a confusão que é feita entre perfeição e santidade.
O conceito de perfeição que a pessoa tem não é teórico, mas existencial e foi-se formando
através das experiências positivas ou negativas da vida. Ele se identifica no plano pessoal
com não ter defeitos, vícios e pecados. A busca da perfeição torna-se um projeto
voluntarístico, em que a pessoa exige o máximo de si, por vezes prescindindo da ajuda de
Deus e dos outros. Como não consegue avançar muito, ela se entristece, se culpabiliza e se
deixa tomar pelo desânimo. A perfeição visa o próprio sucesso, não tem um referencial fora
de si.
Já a santidade busca acolher o ―Amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo
Espírito que nos foi dado‖ (Rm 5, 5). No processo de santificação, a pessoa aceita, sem
condições, ser amada por Deus em suas fraquezas e limitações, também no seu pecado.
Ela tem consciência de fazer parte de uma Igreja pecadora e santa. A santidade nunca se
fecha, antes, abre-se para Deus acolhendo sua graça e sua misericórdia e abre-se para os
outros no amor, na humilde aceitação de ajuda, no serviço e no dom.
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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
Em se tratando de assunto de tamanha importância, a leitura destas páginas faz aflorar o
desejo de que o autor tivesse se distendido mais amplamente sobre o lugar e as expressões
da ascese cristã e do combate espiritual, como formas de colaboração com a graça de
Deus.
A segunda parte do livro aborda o momentoso tema do discernimento, partindo da
experiência de discernimento de Inácio de Loyola, tal qual constatamos na sua Autobiografia
e no seu Diário Espiritual. O autor mostra que o discernimento era uma atitude permanente
na vida de Inácio e que o ―buscar e encontrar a Deus em todas as coisas‖ faz-se o núcleo
mais profundo da espiritualidade inaciana.
O terceiro artigo é tradução e adaptação de um escrito de lrenée Hausher, versando sobre a
Abnegação, a Renúncia e a Mortificação. Com clareza e boa fundamentação bíblica, o artigo
dá a esses conceitos seu sentido profundo, positivo e libertador, resgatando-os da
resistência que lhes confere a cultura egocêntrica, narcisista e hedonista de hoje.
Quem deseja avançar nos caminhos da vida espiritual, certamente encontrará inspiração e
estímulo nas páginas deste livro.
González-Quevedo, Luís, SJ. Experiência de Deus: Presença e Saudade. (Coleção
―Leituras e Releituras‖, 2), SP, Edições Loyola, 2000, 80 p. R$ 5,00.
O segundo volume da Coleção ―Leituras e Releituras‖ leva o título: Experiência de Deus:
Presença e Saudade. Seu autor não necessita de recomendações entre os nossos leitores.
É o Pe. Luís Quevedo, SJ, ex- professor da Universidade de Goiânia, ex-Mestre de Noviços,
membro do CEI-ITAICI e competente redator de Itaici - Revista de Espiritualidade Inaciana.
Em estilo ameno, recheado de citações e depoimentos, o volume aborda o sempre atual
tema da fé. Num mundo fascinado pelo progresso científico e pelos extraordinários avanços
tecnológicos, ainda haveria espaço para a fé? E, no contraponto dessa pergunta, outras
questões surgem sobre o sentido da vida, do sofrimento, da morte e da esperança.
A primeira parte do livro: ―Experiência de uma Presença‖, retoma um artigo com o mesmo
título, já publicado em: Itaici - Revista de Espiritualidade Inaciana, n° 11, março de 1993, pp.
56-69 e agora inteiramente revisado e atualizado. Aqui são apresentados testemunhos e
feitas considerações sobre a experiência de Deus, que se faz presente na totalidade e na
diversidade da vida: na família e na vida conjugal, na vida consagrada e no sacerdócio, no
mundo dos pobres, na arte e na natureza. É na história concreta que Deus se manifesta a
tantas pessoas, dessa forma gozosa, pacificante e unificadora que a espiritualidade inaciana
denomina ―consolação‖.
A segunda parte: ―Experiência de uma saudade‖, retoma também um artigo já publicado em
Itaici - Revista de Espiritualidade Inaciana, n° 25, setembro de 1996, pp. 39-49. Ela focaliza
a experiência da aparente ausência de Deus, sob os temas da saudade, do silêncio e do
deserto.
A saudade por excelência é a saudade de Deus que brota, por um lado, da necessidade
absoluta de Deus e, por outro, da insuficiência e limitação de toda experiência humana de
Deus. O coração do homem sente-se machucado e perplexo pelo silêncio de Deus, diante
das injustiças e do sofrimento que atinge justos e pecadores. É o que expressam quer os
homens de oração, no livro dos Salmos, quer os homens de letras, na literatura
contemporânea.
O tema do deserto é ambivalente. Na experiência do povo de Deus, o deserto foi um lugar
inóspito, penoso, cheio de tentações, de idolatria, de murmuração. Mas foi também o lugar
53
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
onde Israel nasceu como povo de Deus, na experiência fundante da Aliança. Na vida, faz-se
mister atravessar o deserto para se chegar à Terra da Promessa.
A terceira parte do livro: ―Quem é o nosso Deus?‖, apresenta Deus como o Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, um Deus amoroso e providente, sempre presente, mesmo quando
sentido como ausência. Ele é o Deus de Israel, o Abbá de Jesus, o Deus dos pobres, o
Deus do Reino, o Deus da Vida, o Deus Amor-agape, o Deus nossa esperança, que se
tomou amorosamente visível na existência histórica de Jesus de Nazaré.
Através das páginas deste livro, o leitor se sentira esclarecido em muitas de suas
experiências e, certamente, enriquecido e alimentado. Leitura Recomendada.
LIVROS EM REVISTA
R. Paiva, SJ
Inácio de Loyola, Santo, Exercícios Espirituais – Apresentação, tradução e notas do
Centro Inaciano de Espiritualidade de Itaici – Edições Loyola, 2000.
Trata-se de uma tradução fiel do texto espanhol, dito ―autógrafo‖ (pois tem correções do
próprio Autor), cotejado com as versões latinas (elaboradas também por ele). No entanto, a
pontuação atualizada, o emprego de termos precisos mas de uso corrente, garantem uma
leitura fácil. O índice remissivo e as notas ajudarão quem se inicia ou retoma os estudos
desta obra prima da literatura espiritual cristã. Em algum ponto (como no Princípio e
Fundamento), seria de desejar que não escasseassem as notas. Algum lapsus de revisão
deverão ser corrigidos em uma segunda edição. Vale à pena conferir!
NETTO DE OLIVEIRA, José Antônio, SJ, Perfeição ou Santidade e outros textos
espirituais, (Coleção ―Leituras e Releituras‖, 1). São Paulo, Edições Loyola, 2000.
Esta nova coleção se apresenta com a finalidade de publicar textos breves, destinados a
serem lidos, relidos e meditados com olhos novos e novo coração... O primeiro pequeno
volume vem com três artigos do Pe. Netto de Oliveira, primeiro diretor do CEI-Itaici,
conhecido largamente entre os que praticam e estudam os Exercícios Espirituais no Brasil,
atualmente Provincial. Escritos claros, de leitura fácil e iluminadora. O primeiro artigo,
―Perfeição e Santidade‖, tem o grande mérito de afastar do leitor o sentimento de culpa que
nasce da continuada constatação que cada pessoa humana é obrigada a fazer da
persistência de defeitos e limitações ao longo da vida. Este sentimento, faz pensar,
freqüentemente, que não se corresponde à graça, que a santidade é para alguns
privilegiados, que é uma meta inacessível ao comum dos mortais. De fato o Autor consegue
seu objetivo: ajudar a, libertos de uma falsa concepção da perfeição, podermos viver, com
humildade a intimidade, proximidade e alegria com o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. O
segundo artigo, ―Experiência Inaciana de Discernimento” é um clássico. Merecia ser
republicado, lido e relido. O terceiro, ―Abnegação – Renúncia – Mortificação”, é um resumo e
adaptação do artigo de Irinée Hausheer, SJ, um autor de primeira linha, pouco conhecido
entre nós. Na breve introdução, lemos que ―A abnegação dura eternamente; a renúncia,
tanto tempo quanto as solicitações terrestres; a mortificação (no seu verdadeiro sentido, que
é ativo) poderia tornar-se supérflua”. Sugiro que aceitemos o convite e sigamos, com a
retomada do sentido evangélico e paulino destas grandes idéias, o caminho cristão,
contrário ao caminho largo da auto-indulgência sem lucidez com as próprias fantasias,
sentimentos e instintos.
González-Quevedo, Luís, SJ, Experiência de Deus: Presença e Saudade, (Coleção
―Leituras e Releituras‖,2). São Paulo, Edições Loyola, 2000.
54
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
O segundo pequeno volume desta nova coleção vem dividido em três partes. O Autor é um
dos estudiosos atuais da espiritualidade inaciana, muito conhecido nos círculos de
espiritualidade e vida religiosa consagrada. A introdução, ―A Fé em Deus no limiar de uma
nova era‖, coloca o problema da dificuldade de crer que atormenta muitos de nossos
contemporâneos. Não parece que Deus se esconde? Segue-se ―A experiência de uma
presença‖, que reúne testemunhos da presença de Deus na experiência de muitas pessoas.
Não se trata, de uma colagem de depoimentos, antes é uma reflexão de cunho sapiencial,
ilustrada e confirmada com depoimentos válidos. O segundo tema, ―A experiência da
saudade”, recebe uma iluminação muito forte do acolhimento respeitoso da nostalgia de
Deus, expressa por muitas pessoas sinceras em sua busca, e dos dados das Escrituras e
de textos de poetas da altura de um Pablo Neruda. Finalmente, a parte conclusiva, ―Quem é
nosso Deus‖, procura explicitar a imagem de Deus, o Abbá, o Pai de Jesus, o Deus dos
pobres, o Deus do Reino, o Deus da vida, o Deus Amor- Ágape, para terminar com Deus
nossa esperança. O Autor pretende, visivelmente, oferecer uma ocasião de confiança
esperançosa, nesta virada de milênio, assolada por um ateísmo difuso e pelo sofrimento de
tantas pessoas marcadas pela desumanidade de enormes sofrimentos.
Lisbôa, Paulo, SJ, Orar a Comunhão – Oração cotidiana na comunhão trinitária. São
Paulo, Loyola, 2000.
Um dos poucos livros para ajudar a meditar e contemplar o mistério da Santíssima Trindade,
neste ano jubilar a ele dedicado. Escrito com tranqüila objetividade, especialmente
organizado para que seja usado para a oração. Atento ao contexto, inserido na realidade,
sem forçar ―doutrinações‖. Fiel à matriz bíblica, ajuda para uma sincera retomada da vida
cristã, em sua beleza e bondade, e para a vida solidária, engajada na luta pelo resgate do
irmão. Merece calorosa recomendação.
Sidegum, Pe. Pius T., SJ, Vida em plenitude – Integração pela experiência
contemplativa. Porto Alegre / RS, Editora Nova Prova, 2000.
Formado em Psicologia pela Universidade Gregoriana, Roma, com grau de Mestre, Pe.
Pius, até recentemente trabalhou no CECREI de S. Leopoldo / RS, enfatizando um
acompanhamento para o crescimento humano-espiritual de religiosos/as e leigos/as.
Dedicou-se a dar EE personalizados com muito êxito. Atualmente, recomeça seu trabalho
em Curitiba. Na primeira parte do livro – bastante extenso (316 pp.), e enriquecido com
notas bibliográficas e alguma ilustração – Pe. Pius trata da experiência de oração, que exige
uma disciplina dos sentidos e uma ida ao núcleo, ao que é original, recebido como graça. A
segunda parte é dedicada à oração contemplativa, como experiência a ser cultivada. A
terceira parte, expõe os EE como um processo integrativo em 5 fases. A quarta parte ocupa
a maior parte do volume e apresenta 91 exercícios de contemplação. Impressiona o cuidado
e a riqueza dos textos introdutórios aos exercícios de contemplação. Certamente, o grande
público do Pe. Pius, nestes seus 17 anos de ministério dos EE, vai reconhecer seu peculiar
uso de elementos de psicologia, para iluminar e melhor conduzir os passos de quem os faz.
Itamar Vian, Sabedoria da Vida – Histórias que ensinam. Aparecida, SP, Santuário,
2000.
Pequeno livro, que faz rir, ficar sério e pensar, na brevidade de suas histórias e estórias,
muito bem contadas. O Autor reconhece que vivemos tempos amargos, mas se propõe,
como qualquer bom garimpeiro, a encontrar ouro onde outros olhos só vêm pedras. Não
percam a anedota número 20, As três peneiras!
Ana Roy, Tu me deste um corpo. São Paulo, Paulinas, 2000.
A Autora, religiosa inserida, é Auxiliar do sacerdócio, dá Exercícios Espirituais para vários
tipos de público, em especial para os meios populares. Lecionou 11 anos no CETESP, curso
de preparação de formadores para a vida religiosa consagrada. Seu presente livro nasceu
55
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
da convicção que não é possível falar de espiritualidade desligada da corporeidade. Depois
de nos inspirar a um respeito e estima pelo corpo humano, firmemente apoiada numa boa
teologia bíblica, nos dois primeiros capítulos (“Espírito ... Espiritualidade” e “Formação
histórica e emergência da espiritualidade bíblica), a Autora comenta alguns dos mais
importantes versículos do Gênesis (―A terra e a criação do ser humano‖) com simplicidade
de estilo e lucidez de idéias. Os dois capítulos seguintes estudam ―As estruturas relacionais
e sociais do corpo humano‖ e ―As estruturas físicas e transcendentais do corpo humano – A
árvore da vida‖. Em tudo, ela não perde de vista a dimensão da crise da sociedade
contemporânea e dos seus valores. Seu capítulo conclusivo, ―Rumo à uma inserção
inculturada”, abala a curiosa crença de que espiritualidade têm tudo a ver com alienação ou
intimismo... Pelo contrário! De fato, não é à toa que tantos dos nossos têm sido mártires!
Coleção CES, São Paulo, Loyola, 2000.
Uma palavra sobre esta coleção de livros de formato de bolso, muito legíveis e de grande
contemporaneidade: o CES é o Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus no
Brasil. O primeiro volume é de Johan Konings, exegeta reconhecido, que sabe ser popular:
A Palavra se fez livro. Onde encontrar uma introdução inteligente e inteligível de como
nasceu e se formou a Bíblia em menos de 100 páginas? O segundo, de João Batista
Libânio, Cenários da Igreja, faz pensar, com sua análise das linhas de força presentes na
realidade eclesial de hoje e o rosto que teria no caso de um ou outro grupo delas se afirmar
como dominante. O n. 3 (Teologia da Espiritualidade Cristã), de Danilo Mondoni, já foi
apresentado, nesta revista, n. 40, p. 96. Obra praticamente única em português, muito
necessária para professores, estudantes e interessados na espiritualidade cristã (não só
católica!). Libânio, novamente se debruça sobre a realidade do mundo e da Igreja em A
Igreja contemporânea – Encontro com a modernidade, para, com sua habitual agudeza, nos
ajudar a entendê-las melhor. O volume mais recente, é da autoria de Paulo Gaspar
Menezes, um dos melhores filósofos jesuítas da atualidade. Tradutor e profundo conhecedor
de Hegel, introduz-nos ao Conhecimento afetivo em Santo Tomás. Trabalho tanto mais
oportuno, quanto, de novo, damos importância à ―inteligência emocional‖.
Azevedo, Mateus Soares, Mística Islâmica – Atualidade e convergência com a
espiritualidade cristã. Petrópolis, Vozes, 2000.
O conflito se inflama, de novo, na Terra Santa, enquanto não cessam de chegar notícias
terríveis da Indonésia, Argélia, Afeganistão, que tendem a fazer crer à opinião pública que o
Islã gera fundamentalismo e fanatismo. Neste contexto, a Vozes presta-nos o serviço de
publicar esta obra, acessível ao leitor comum, e sem erudição supérflua. Dá-nos elementos
válidos para insistir no diálogo com a religião, que é norma de vida para milhões de fiéis
seguidores pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde os minaretes das mesquitas já são
vistos em diversas cidades. Não deixem de ler, se estão interessados no diálogo inter-
religioso, ou querem se interessar nele!
Eisemberg, Moisés, As missões jesuíticas e o pensamento político moderno – Encontros
culturais, aventuras teóricas. Belo Horizonte / MG, Editora UFMG, 2000.
Limitamo-nos a indicar a publicação desta obra, útil subsídio para os estudiosos da questão
missionária e dos problemas da inculturação e evangelização. Com estilo sereno,
comentando as fontes, o Autor conduz sua análise.
ÍNDICES DO ANO 11 (2000)
ÍNDICE POR AUTOR
No Páginas
56
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
ANTONCICH, Ricardo, Os Exercícios Espirituais ante o problema do
mal e as exigências da conversão 40 35-43
ARRUPE, Pedro, Invocação à Trindade 39 43-44
BECHARA, Odette, Os Três Modos de Orar [EE 238-260] 41 84-86
BECHARA, Odette, Revisão da Oração 41 75-76
BINGEMER, Maria Clara Lucchetti, A luz da Trindade Santa 39 39-42
BUCKER, Bárbara P., Perspectivas do mistério trinitário em relação
com o feminino 39 29-38
CASALDÁLIGA, Pedro, Tenho Sede! 40 80
CARVALHO, Lilian de, Oração 42 16
CEI-ITAICI, A Força da Metodologia nos Exercícios Espirituais 41 05-42
CEI-ITAICI, Passos da Oração 39 79
CENTRO OSCAR ROMERO, Vida e Martírio de Dom Oscar Romero 39 87-88
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, A Trindade de Cláudio Pastro 39 70
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Experiência Inaciana de Discernimento 39 75-78
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, História de salvação ou condenação 40 81-83
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Luz e sombra: O Exame de consciência 41 71-73
COSTA, Maria do Carmo, Rezando a dor para ser curado 42 73-75
DENICOL, Odilo, Bendito seja Deus! Relato de uma conversão 40 71-75
GONZÁLEZ, Álvaro Pbro., e Equipe do CEI (Chile) Revisando nossa
história afetivo-sexual 42 63-65
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Exame de Consciência Teologal 40 76
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Revisão de vida: Pecados capitais 40 44
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Conversão e amor à Vida 40 59-69
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Amor humano e amor cristão 42 31-44
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Matrimônio e Vida Consagrada:
Duas parábolas de comunhão 39 45-59
IRMÃS DE S. JOSÉ DE CHAMBÉRY, 350 Anos à Serviço da
Comunhão 39 89-91
JUNGES, José Roque, Resposta cristã ao problema do mal 40 25-34
KOLLING, J. Geraldo, Exercícios Espirituais, vivência a partir do
ser mais profundo - um movimento gerador de vida 42 17-24
LACERDA, Catarina e Milton Paulo de, Acompanhamento espiritual
e Psicoterapia: Semelhanças e diferenças 42 67-69
LACERDA, Catarina e Milton Paulo de, Comunicação não verbal 42 70-72
LEFRANK, Alex, Ocasiões e dificuldades para vivermos como
“Amigos no Senhor” 39 67-69
LISBÔA, Paulo, A Conversão no Ano Santo 39 71-74
LISBÔA, Paulo, Tratamento de alguns entraves psicológicos:
Minha experiência 42 51-58
MAC DOWELL, João A., Purificação do Coração 41 43-60
MALDANER, Maria Fátima, A Contemplação Evangélica [EE 102-126] 41 79-81
MALDANER, Maria Fátima, A Meditação com as Três Potências
[EE 45-54] 41 77-78
MALDANER, Maria Fátima, Aplicação dos Sentidos [EE 121-127] 41 82-83
MALDANER, Maria Fátima, O pecado dos primeiros pais, pecado da
Humanidade 40 84-85
MARTINI, Carlo Maria, Reflexões sobre o sacramento da reconciliação 40 77-79
MIRANDA, Mário de França, Espiritualidade e Inculturação da Fé 41 61-70
MORO, Ulpiano Vázquez, O que fazem as pessoas divinas (EE 108) 39 05-20
NADEAU, Gilles, A Confidencialidade no Acompanhamento Espiritual 42 59-62
NAZARIO, Janaina Clara, “O Amor” 42 50
NEUTZLING, Inácio, A banalização da injustiça social. A Meditação
sobre o pecado nos Exercícios Espirituais 40 47-58
OLIVEIRA JR., José Jomêr de, O Novo Logotipo do CEI-Itaici 39 92
Orar nossa própria afetividade 42 45
57
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
PAIVA, R., Os EE levam à opção evangélica pelos pobres 42 76-77
PAIVA, R., Revisão de vida: Os dez mandamentos 40 45-46
PALACIN, Luis, Abbá 39 60
PASSOS, José dos, Serenidade 40 70
PIRES, Iolanda Maria e GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis,
Exame Espiritual Diário 40 24
RECH, Helena Teresinha, A Trindade e a Comunhão Inter-pessoal.
Espiritualidade trinitária e comunidade 39 21-28
Rezar na desolação 42 46-49
SALLES, Walter, O “Drama” da Criação: A Primeira Semana dos EE 40 05-23
SIDEGUN, Pius T., Dinamismos psico-afetivos na Primeira Semana
dos Exercícios Espirituais 42 25-30
TORRI, Ricardo, Os Exercícios e a Psicanálise 42 05-15
VENDRAMINI, Roseli Della Paschoa, Trindade - “Casamento que
dá certo!” 39 61-66
ÍNDICE POR MATÉRIA
No Páginas
TEXTO
AMOR, MATRIMÔNIO
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Amor humano e amor cristão 42 31-44
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Matrimônio e Vida Consagrada:
Duas parábolas de comunhão 39 45-59
COMUNICAÇÃO
IRMÃS DE S.JOSÉ DE CHAMBÉRY, 350 Anos à Serviço da Comunhão 39 89-91
OLIVEIRA JR., José Jomêr de, O Novo Logotipo do CEI-Itaici 39 92
PAIVA, R., Os EE levam à opção evangélica pelos pobres 42 76-77
COMUNHÃO, COMUNIDADE
LEFRANK, Alex, Ocasiões e dificuldades para vivermos como
“Amigos no Senhor” 39 67-69
RECH, Helena Teresinha, A Trindade e a Comunhão Inter-pessoal.
Espiritualidade trinitária e comunidade 39 21-28
CONVERSÃO
ANTONCICH, Ricardo, Os Exercícios Espirituais ante o problema do
mal e as exigências da conversão 40 35-43
DENICOL, Odilo, Bendito seja Deus! Relato de uma conversão 40 71-75
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Conversão e amor à Vida 40 59-69
LISBÔA, Paulo, A Conversão no Ano Santo 39 71-74
ESPIRITUALIDADE
MAC DOWELL,João A., Purificação do Coração 41 43-60
EXAMES
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Luz e sombra: O Exame de consciência 41 71-73
PIRES, Iolanda Maria e GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis,
Exame Espiritual Diário 40 24
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
MORO, Ulpiano Vázquez, O que fazem as pessoas divinas (EE 108) 39 05-20
NEUTZLING, Inácio, A banalização da injustiça social. A Meditação
58
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
sobre o pecado nos Exercícios Espirituais 40 47-58
SALLES, Walter, O “Drama” da Criação: A Primeira Semana dos EE 40 05-23
MAL (Problema do)
ANTONCICH, Ricardo, Os Exercícios Espirituais ante o problema do
mal e as exigências da conversão 40 35-43
JUNGES, José Roque, Resposta cristã ao problema do mal 40 25-34
METODOLOGIA DOS EXERCÍCIOS
CEI-ITAICI, A Força da Metodologia nos Exercícios Espirituais 41 05-42
ORAÇÃO INACIANA
MALDANER, Maria Fátima, O pecado dos primeiros pais, pecado
da humanidade 40 84-85
Orar nossa própria afetividade 42 45
Para rezar a Primeira Semana 40 86-92
Rezar a Trindade com São João 39 80-86
Rezar na desolação 42 46-49
PARA JOVENS
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Experiência Inaciana de Discernimento 39 75-78
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, História de salvação ou condenação 40 81-83
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Luz e sombra: O Exame de consciência 41 71
PECADO E PENITÊNCIA
MARTINI, Carlo Maria, Reflexões sobre o sacramento da reconciliação 40 77-79
NEUTZLING, Inácio, A banalização da injustiça social. A Meditação
sobre o pecado nos Exercícios Espirituais 40 47-58
PERFIL
CENTRO OSCAR ROMERO, Vida e Martírio de Dom Oscar Romero 39 87-88
PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS
KOLLING, J. Geraldo, Exercícios Espirituais, vivência a partir do
ser mais profundo - um movimento gerador de vida 42 17-24
SIDEGUN, Pius T., Dinamismos psico-afetivos na Primeira Semana
dos Exercícios Espirituais 42 25-30
TORRI, Ricardo, Os Exercícios e a Psicanálise 42 05-15
SUBSÍDIOS
BECHARA, Odette, Os Três Modos de Orar [EE 238-260] 41 84-86
BECHARA, Odette, Revisão da Oração 41 75-76
CARVALHO, Lilian de, Oração 42 16
CASALDÁLIGA, Pedro, Tenho Sede! 40 80
COSTA, Maria do Carmo, Rezando a dor para ser curado 42 73-75
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, A Trindade de Cláudio Pastro 39 70
GONZÁLEZ, Álvaro Pbro., e Equipe do CEI (Chile) Revisando nossa
história afetivo-sexual 42 63-65
GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Exame de Consciência Teologal 40 76
LACERDA, Catarina e Milton Paulo de, Acompanhamento espiritual
e Psicoterapia: Semelhanças e diferenças 42 67-69
LACERDA,Catarina e Milton Paulo de, Comunicação não verbal 42 70-72
LISBÔA, Paulo, Tratamento de alguns entraves psicológicos:
Minha experiência 42 51-58
MALDANER, Maria Fátima, A Contemplação Evangélica [EE 102-126] 41 79-81
MALDANER, Maria Fátima, A Meditação com as Três Potências
[EE 45-54] 41 77-78
59
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
MALDANER, Maria Fátima, Aplicação dos Sentidos [EE 121-127] 41 82-83
NADEAU, Gilles, A Confidencialidade no Acompanhamento Espiritual 42 59-62
NAZARIO, Janaina Clara, “O Amor” 42 50
PAIVA, R., Revisão de vida: Os dez mandamentos 40 45-46
PALACIN, Luis, Abbá 39 60
PASSOS, José dos, Serenidade 40 70
PIRES, Iolanda Maria e GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Exame
Espiritual Diário 40 24
TEXTO
CEI-ITAICI, A Força da Metodologia nos Exercícios Espirituais 41 05-42
TRINDADE
ARRUPE, Pedro, Invocação à Trindade 39 43-44
BINGEMER, Maria Clara Lucchetti, A luz da Trindade Santa 39 39-42
BUCKER, Bárbara P., Perspectivas do mistério trinitário em relação
com o feminino 39 29-38
CIGOÑA, J. Ramón F. de la, A Trindade de Cláudio Pastro 39 70
VENDRAMINI, Roseli Della P., Trindade - “Casamento que dá certo!” 39 61-66
BIBLIOGRAFIA
Bibliografia sobre Trindade e Comunhão 39 93-94
Sobre a Primeira Semana dos Exercícios 40 93
LIVROS EM DESTAQUE
GONZÁLEZ- QUEVEDO, Luis, SJ, Experiência de Deus: Presença e
Saudade, (Coleção ―Leituras e Releituras‖,2). São Paulo,
Edições Loyola, 2000 42 79-80
NETTO DE OLIVEIRA, José Antônio, SJ, Perfeição ou Santidade e
outros textos espirituais, (Coleção ―Leituras e Releituras‖, 1).
São Paulo, Edições Loyola, 2000 42 78-79
PAIVA, R., O Discernimento: Pessoal, em família, em comunidade 40 94
LIVROS EM REVISTA
ARMELINI, Fernando e MORETTI, Giuseppe, Tinha rosto e palavras
de Homem - um perfil de Jesus, Paulinas, SP/1999. 39 contracapa
AZEVEDO, Mateus Soares, Mística Islâmica – Atualidade e
convergência com a espiritualidade cristã. 42 83
CAVADI, Augusto, Orar com o Cosmo - propostas de orações
ecumênicas, Paulinas, SP/1999. 39 contracapa
CNBB, O que é o Ecumenismo - ajuda para trabalhar a exigência do
diálogo - projeto rumo ao novo milênio, Loyola, SP / 1999. 39 contracapa
CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS
CRISTÃOS, Diálogo católico-pentecostal - evangelização,
proselitismo e testemunho comum, Paulinas, SP/1999. 39 contracapa
EISEMBERG, Moisés, As missões jesuíticas e o pensamento político
moderno – Encontros culturais, aventuras teóricas. 42 83
GRINGS, Dadeus, Creio na Santíssima Trindade, Santuário,
Aparecida 1999. 40 95
HOUDECK, Frank J., SJ, Guiados pelo Espírito - Direção Espiritual
em Perspectiva Inaciana, Edições Loyola, SP, 2000. 40 95
INÁCIO DE LOYOLA, Santo, Exercícios Espirituais – Apresentação,
tradução e notas do Centro Inaciano de Espiritualidade de Itaici
Edições Loyola, 2000. 42 81
KOLVENBACH, Peter Hans, SJ, Educação Inaciana - Desafios na
Virada do Milênio - Coleção Ignaciana nº 43, Ed. Loyola, SP, 1999. 39 96
KONINGS, Johan, A Palavra se fez livro. 42 82
60
ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42
LACERDA, Milton Paulo de, A Virtude do Diálogo; A Virtude da
Confiança; A Virtude da Humildade; A Virtude do desprendimento;
A Virtude da Paciência, Edições Vozes, Petrópolis, 1999. 40 95
LIBÂNIO,J.B., A Igreja contemporânea – Encontro com a
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