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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42







ITAICI 42 - Dezembro 2000



PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS.

AMOR HUMANO E AMOR CRISTÃO

ÍNDICE



EDITORIAL



ARTIGOS

Os Exercícios e a Psicanálise: a ordenação afetiva como reconversão

libidinal

Ricardo Torri, SJ



Exercícios Espirituais, vivência a partir do ser mais profundo - um

movimento gerador de vida

J. Geraldo Kolling, SJ



Dinamismos psico-afetivos na Primeira Semana dos Exercícios Espirituais

Pius T. Sidegun, SJ



Amor humano e amor cristão

Luis González-Quevedo, SJ



ORAÇÃO INACIANA

Orar nossa própria afetividade



Rezar na desolação



SUBSÍDIOS

Oração

Lilian de Carvalho



O Amor

Janaina Clara Nazario



Tratamento de alguns entraves psicológicos: Minha experiência

Paulo Lisbôa, SJ



A Confidencialidade no Acompanhamento Espiritual

Gilles Nadeau



Revisando nossa história afetivo-sexual

Álvaro González, Pbro. e Equipe do CEI (Chile)



Acompanhamento espiritual e Psicoterapia: Semelhanças e diferenças

Catarina e Milton Paulo de Lacerda





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42







Comunicação não verbal

Catarina e Milton Paulo de Lacerda



Rezando a dor para ser curado

Maria do Carmo Costa



COMUNICAÇÕES

Os Exercícios levam à opção evangélica pelos pobres – Encontro de

Orientadores de Exercícios, Itaici 13-15 out. 2000

R. Paiva, SJ



BIBLIOGRAFIA

Livros em Destaque

Francisco R. Romanelli, SJ



Livros em Revista

R. Paiva, SJ



Índices do Ano 2000





EDITORIAL



PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS

No limiar do Quinto Centenário do Nascimento de Inácio de Loyola (1991), celebrou-se em

Salamanca um Simpósio Internacional sobre ―Psicologia e Exercícios Inacianos‖. O evento

contou com a participação de especialistas tanto da área psicológica quanto da metodologia

inaciana. O tema central foi ―A transformação do eu nos Exercícios Espirituais‖. As

ponências e comunicações apresentadas naquele importante Simpósio foram publicados em

dois alentados volumes da benemérita coleção ―Manresa‖1. Sua leitura continua sendo

imprescindível a quem desejar aprofundar o tema.



A Psicologia é uma ciência relativamente recente. Os Exercícios Espirituais (EE) foram

idealizados quatro séculos e meio atrás. Até que ponto podemos e devemos atualizá-los,

havida conta das posteriores descobertas das ciências humanas? Em um contexto de

contínuas mudanças, o homem e a mulher da virada do milênio poderão ainda ―tirar

proveito‖, para o seu crescimento humano e espiritual, da metodologia dos EE?



Todos os colaboradores da nossa revista e, provavelmente, a maioria dos leitores, estamos

convictos da utilidade dos Exercícios inacianos, porque a temos experimentado em nossas

próprias vidas. Um médico, especialista em cardiologia, dizia depois de fazer os EE, que

recomendaria a experiência a todos os seus pacientes. Uma psicóloga, especializada em

terapia para cardíacos, escreveu: ―Os caminhos da cura passam pelo coração: Provas

científicas mostram que corações confiantes e livres de mágoas vivem vidas mais longas e

saudáveis‖ (Lúcia Miranda).



Há dois tipos fundamentais de EE: os que visam uma ―eleição‖ ou escolha que oriente para

o resto da vida (―Eleição de estado de vida‖); e os que, feita já a eleição, visam a ―Reforma

de vida‖, em um contínuo crescimento espiritual. Em ambos os casos, o objetivo implica em

importantes mudanças de ordem psicológica e espiritual. A função da Psicologia, no





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



processo de transformação do eu que os EE pretendem, será estimular a saúde, garantir a

liberdade, evitar a ―manipulação‖, ajudar na integração da pessoa.



Este número publica artigo sobre a Eleição, que nos foi enviado do além-mar (Portugal); três

trabalhos de jesuítas-psicólogos brasileiros (Ricardo Torri, Pe. J. Geraldo Kolling, Pe. Pius T.

Sidegun) e vários subsídios, focalizando os aspectos psico-afetivos da vida espiritual. Outro

artigo trata do centro dinâmico de toda vida humana e cristã: o amor. As seções ―Oração

inaciana‖, ―Comunicações‖ e ―Bibliografia‖ e os Índices do ano completam o número.



O exemplar de assinante é acompanhado de boleto bancário para renovação da assinatura.

A todos agradecemos o apoio e desejamos um santo Natal e um feliz Ano Novo.



NOTA:

1

ALEMANY, Carlos, e GARCÍA-MONGE, José A., Eds., Psicología y Ejercicios Ignacinos.

Bilbao, Mensajero / Santander, Sal Terrae, s.d. 2 vols.





ARTIGO



O autor é mestre em psicologia, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).



OS EXERCÍCIOS E A PSICANÁLISE: A ORDENAÇÃO

AFETIVA COMO RECONVERSÃO LIBIDINAL1

Ricardo Torri, SJ



“O amor não se anula, ordena-se”

(Carlos Domínguez).



Os Exercícios Espirituais são, essencialmente, um processo de ordenação afetiva. O seu

principal objetivo é a ordenação dos afetos do exercitante. Trata-se, conforme escreveu

Santo Inácio, de ―...tirar de si todos os afetos desordenados‖ (EE 1)2. Ou, para dizê-lo de

outro modo, de ―...ordenar a própria vida, sem determinar-se por nenhum afeto

desordenado‖ (EE 21).



É fundamental, portanto, que tenhamos claro o que são os afetos desordenados. Afinal, é

isso o que se deseja tirar do exercitante. E o fruto esperado dessa operação é que ele

alcance uma liberdade tal que não seja mais determinado por seus afetos desordenados.

Livre, o exercitante estará, pois, em condições de buscar, encontrar e abraçar a vontade de

Deus a seu respeito.



O Afeto Desordenado3



Todo afeto possui uma intensidade e, em condições normais, vincula-se a um objeto. O

objeto de um afeto — seja ele desordenado ou não — pode ser uma pessoa, uma coisa, um

lugar, uma idéia, uma atividade, etc.



Com freqüência, diz-se que um afeto desordenado é um afeto intenso. De uma pessoa que

tem um grande afeto por determinado objeto, por exemplo, costuma-se afirmar que ela tem

um afeto desordenado. Não cremos, porém, que a desordem de um afeto resida em sua

intensidade. A intensidade de um afeto é variável; ela pode ser maior ou menor. É verdade

que os afetos desordenados que importa mais ordenar são afetos desordenados intensos.

Mas isso não significa que um afeto muito intenso seja, por isso mesmo, automaticamente,

desordenado.





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Também não reside no objeto — numa eventual maldade inerente ao objeto do afeto — a

desordem que procuramos. Pois, via de regra, o objeto de um afeto desordenado não é

mau, mas bom ou neutro. De um afeto ligado a um objeto mau, convém dizer que é um

afeto ―mau‖, não que é um afeto ―desordenado‖.



Os afetos desordenados são, pois, afetos de intensidade variável investidos em objetos

bons ou, na pior das hipóteses, neutros.



Onde reside, então, a desordem de um afeto desordenado? A resposta — o critério de

ordem — que procuramos está no Princípio e Fundamento, no qual Santo Inácio estabelece

o fim para o qual o homem é criado: ―...para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso

Senhor...‖ (EE 23). Ou seja, numa palavra: para amar a Deus, pois quem ama louva,

reverencia e serve àquele que ama.



Um afeto desordenado é, então, um afeto que não está ordenado para este fim. É um afeto

que não está ordenado — isto é: orientado, dirigido, voltado — para Deus, ou para aquele

que no-lo revelou: Jesus. Um afeto desordenado, enfim, é um afeto que não tem a Deus por

razão.



A Ordenação Afetiva



O processo de ordenação dos afetos implica, por conseguinte, em dois movimentos: (1)

primeiramente, trata-se de retirar o afeto das criaturas; (2) em segundo lugar, trata-se de pôr

todo o afeto em Deus — em Jesus.



E a dinâmica dos Exercícios corresponde a esse movimento em dois tempos: (1) na

Primeira Semana, o foco está no abandono dos antigos objetos de amor, aos quais se

estava desordenadamente afeiçoado; (2) na Segunda, o acento incide sobre a constituição

de um novo objeto de amor: Jesus Cristo. A Terceira e a Quarta Semanas são uma

confirmação desse último movimento.



Note-se que, nesse processo, a afetividade do exercitante não é objeto de anulação ou de

negação; não se trata de eliminar o afeto, mas de ordená-lo. Observe-se também que o

afeto que vai ser investido nesse novo objeto é o mesmo; o exercitante não dispõe de um

outro afeto senão daquele que ele já investia nos seus antigos objetos de amor.



Seja como for, como conseqüência desse processo de ordenação afetiva, diz Santo Inácio,

―...arrancando de si, quanto possível, o amor de todas as criaturas para o pôr no Criador

delas...‖ (Const. P.III c.1 n.26 [288])4, o exercitante estará em condições de amar a Deus em

todas as coisas e todas as coisas nele. Ou seja, ao fim e ao cabo, o exercitante dá-se conta

de que pode e deve amar as criaturas, desde que o seu amor seja ordenado, isto é, desde

que ame a Deus nelas, e desde que as ame em Deus.



Os Exercícios e a Psicanálise



Em linhas gerais, isso é o que se pode dizer do principal objetivo dos Exercícios. A pergunta

passa a ser, então: é possível descrever a mudança que se pretende produzir no exercitante

em termos psicológicos? Ou ainda: o processo dos Exercícios, que tanto relevo concede à

afetividade humana, admite ser descrito segundo as categorias de uma teoria psicológica?

Mais exatamente: admite ser traduzido em conceitos psicanalíticos?



Acreditamos que sim, e o objetivo desse artigo é dar as razões dessa nossa convicção. Mais

do que isso, estamos convencidos de que essa transcrição, além de possível, é desejável,

dela resultando uma compreensão mais profunda do processo que os Exercícios pretendem

desencadear no exercitante, do tipo de mudança que se espera produzir nele, bem como

das dificuldades que este processo está destinado a enfrentar. Retomemos, pois, o conceito

fundamental de afeto, tal como concebido por Freud, o criador da psicanálise5.



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42







O Afeto na Teoria Freudiana



O conceito de afeto não é estranho à psicanálise. Longe disso: poucas teorias, no campo da

psicologia, deram tanta importância ao domínio da afetividade com o objetivo de dar conta

das razões — ou das ―semrazões‖ — do comportamento humano.



Segundo Freud, os seres humanos são dotados de pulsões sexuais (Eros). ―Libido‖ é o

nome da energia psíquica destas pulsões. Estas, cuja origem é somática (corporal),

manifestam-se, psiquicamente, de duas maneiras: pela representação e pelo afeto.



Quando uma pulsão sexual é investida num objeto externo à pessoa, fala-se numa ―catexia6

objetal da libido‖ ou, simplesmente, em ―libido objetal‖. A libido objetal é a libido investida na

representação psíquica de um objeto externo. O afeto, por sua vez, é a expressão

qualitativa da quantidade de libido investida nessa representação.



A Ordenação Afetiva como Reconversão Libidinal7



Introduzidos esses conceitos, eis no que se traduz o processo de ordenação afetiva de que

acima falávamos. Para dizê-lo com Domínguez Morano: num processo de ―reconversão

libidinal‖! Trata-se de desfazer as catexias libidinais anteriores — ou seja: de desinvestir a

libido dos antigos objetos de amor — para, em seguida, reinvesti-la num novo objeto: Jesus

Cristo. Mais exatamente: trata-se de abandonar as representações psíquicas dos objetos

externos aos quais a libido esteve até então investida para, num segundo movimento,

propor uma nova representação para a libido, de modo que o afeto do exercitante — que é a

expressão qualitativa da quantidade de libido mobilizada — esteja, doravante, soldada a

essa nova representação. Em termos psicanalíticos, eis em que consiste o que os

Exercícios pretendem lograr.



Para que esse objetivo seja atingido, dois tempos são necessários. O primeiro deles é o

tempo do desinvestimento libidinal. O segundo é o do reinvestimento da libido. Nada impede

que o primeiro e o segundo tempos aconteçam, em parte, simultaneamente. Em todo o

caso, é necessário que o primeiro movimento tenha já avançado um pouco, de modo a

disponibilizar um certo montante de libido, a fim de que o segundo tempo, o do

reinvestimento, possa ter início.



O que, na linguagem dos Exercícios, chama-se ―Primeira Semana‖ corresponde, pois, ao

que acima denominamos ―tempo do desinvestimento libidinal‖. Esse abandono, por parte da

libido, de seus antigos objetos de amor não se dá, porém, sem resistências. Com efeito,

segundo Freud, a principal característica da pulsão sexual é a sua plasticidade — sendo

essa a razão pela qual fala-se em ―pulsão‖ e não em ―instinto‖ sexual. A multiforme

variedade dos modos de comportamento sexual dos seres humanos é uma prova cabal

dessa maleabilidade da libido. Isso significa: a libido, em princípio, admite troca de objeto.

Ocorre, contudo, que, quando encontra um vínculo objetal especialmente gratificante, a

libido pode fixar-se nessa catexia. A essa tenacidade com que a libido eventualmente adere

a determinados objetos, Freud fez referência por meio das expressões ―adesividade‖ ou

―viscosidade‖ da libido.



O Difícil Manejo da Culpa



Vencer essa aderência da libido aos seus antigos objetos de amor é meta da Primeira

Semana. Para atingi-la, os Exercícios lançam mão do que Domínguez Morano descreve

como uma ―utilização funcional da culpa‖ — recurso necessário, mas não isento de riscos

para o exercitante. Para explicá-lo, porém, somos obrigados a fazer uma breve digressão.



O problema do sentimento de culpa remete-nos a um outro grupo de pulsões — que não as

pulsões sexuais — reconhecidas pela psicanálise: as pulsões de morte (Tanatos). Segundo



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Freud, a pulsão de morte é aquilo que, atuando silenciosamente no interior do organismo,

acaba por reconduzi-lo, inexoravelmente, de volta ao estado inorgânico. Quando parte dela

é extrovertida, voltada para fora, o resultado é a agressividade (ou a destrutividade). Essa

agressividade, porém, admite ainda um outro destino: a introversão. O sentimento de culpa

é, justamente, a expressão afetiva da introversão da pulsão de morte — no que ele

obedece, como se vê, a uma lógica auto-destrutiva.



A agressividade passível de ser extrovertida e que é introvertida é assumida pelo superego

(supereu) e dirigida punitivamente contra o ego (eu). Superego, em psicanálise, é o nome da

instância psíquica que resulta da internalização das normas e valores sociais que os pais e

os educadores tornam presente para cada indivíduo no tempo de sua socialização. As

outras duas instâncias psíquicas são o id (isso) — que é a sede das pulsões (Eros e

Tanatos) — e o ego, cuja principal ocupação é a ingrata tarefa de tentar conciliar as

exigências pulsionais do id com os imperativos morais do superego — levando em conta

ainda as condições objetivas da realidade externa, que também impõe limites à gratificação

das pulsões. Dito isso, podemos retomar o curso anterior dos nossos pensamentos.



Com o objetivo de vencer a adesividade da libido, de conseguir que o exercitante abandone,

de fato, as suas antigas catexias objetais, os Exercícios fazem um uso funcional do

sentimento de culpa. O risco está em que — consistindo o sentimento de culpa na

manifestação afetiva da introversão da pulsão de morte, via superego — o exercitante pode

entrar em um circuito vicioso de auto-destruição. Aqui, como em poucos lugares, requer-se

grande sensibilidade da parte de quem dá os Exercícios. De fato, no campo da

psicopatologia, há certos quadros clínicos — como, por exemplo, a neurose obsessiva —

especialmente dados à auto-agressão. A própria crise de escrúpulos que Santo Inácio

padeceu em Manresa — e que quase o conduziu ao suicídio! — é uma amostra eloqüente

do risco de que estamos falando.



O Reinvestimento da Libido



Seja como for, ao tempo do desinvestimento libidinal, segue-se o tempo do reinvestimento

da libido — isto é: a Segunda Semana. Esta consiste, essencialmente, na apresentação de

um novo objeto de amor para a libido que o exercitante retirou — ou está retirando — dos

seus objetos desordenados. Já dissemos que novo objeto é esse: Jesus Cristo — ou, se

quisermos dizê-lo de modo mais extenso: Jesus Cristo e o seu projeto, o Reino.



Certos leitores — especialmente aqueles para os quais o sexual é, por definição, culpável —

terão muita dificuldade em aceitar o que está afirmado acima. Resistirão em admiti-lo, diria

Freud. Não obstante, é este mesmo o ponto de vista que sustentamos: a energia psíquica

que o exercitante investe na representação ―Jesus Cristo e o Reino‖ é energia libidinal! Ele

não dispõe de uma outra espécie de energia — de uma energia mais digna, talvez — para

essa operação. Numa biografia romanceada de São Francisco de Assis, Nikos Kazantzakis

escreveu: ―Amor existe apenas um, sempre o mesmo, seja votado a uma mulher, a um filho,

a uma mãe, à pátria, a uma idéia ou a Deus‖8.



Naturalmente, tratando-se do investimento libidinal da representação ―Jesus Cristo e o

Reino‖, estamos falando de uma versão secundária — isto é, inibida — do investimento da

libido. A libido objetal admite, de fato, duas versões. Em sua versão primária (desinibida),

trata-se do investimento da libido num objeto externo com vistas a uma satisfação

diretamente sexual. Em sua versão secundária, consiste ela na mesma catexia, mas inibida

em seu objetivo: a consumação sexual. Seja como for, a libido não deixa de ser libido

porque o seu objetivo final não é atingido.



O Enamoramento por Jesus



O ato de investir a libido maciçamente numa pessoa — Jesus Cristo é uma pessoa —

resulta num estado de coisas que não podemos deixar de descrever como um estado de



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―enamoramento‖. Numa carta a um jesuíta colombiano, o Pe. Arrupe escreveu: ―...não

tenhas mais que uma grande paixão na vida: amar a Jesus Cristo com toda a tua alma. Seja

esta a idéia fixa da tua existência‖9. Nos Exercícios, não se trata de outra coisa senão de

deixar-se apaixonar por Jesus Cristo e por tudo o que concerne a ele — nomeadamente,

pelo seu projeto: o Reino de Deus.



Dissemos acima que, quando a pulsão sexual é investida em um objeto externo, fala-se em

―libido objetal‖. Há, porém, uma outra possibilidade e que agora vem a propósito mencionar:

a libido pode ser investida no próprio ego. Nesse caso, a libido é chamada ―narcísica‖. Em

condições normais, um certo montante da libido tem sempre esse segundo destino, de

modo que parte da libido de que dispõe um indivíduo costuma ser investida em objetos

externos, ao passo que uma outra parte toma por objeto de catexia o seu próprio ego.



Quando uma pessoa apaixona-se, porém, ocorre uma reconfiguração da distribuição da

libido. Uma porção considerável da libido narcísica migra para o objeto da paixão; boa parte

do que, normalmente, é libido narcísica transforma-se em libido objetal. O resultado desse

superinvestimento libidinal de um objeto é, segundo a psicanálise, a idealização do objeto

amado. Quem quer que já se tenha apaixonado alguma vez sabe disso: quem ama

supervaloriza o que ama; exalta as virtudes do objeto amado; atribui-lhe virtudes que ele

não tem; fecha os olhos para os eventuais defeitos e limitações daquilo que ama. ―O amor é

cego‖, dizem os poetas. É ilusório, prefere dizer Freud. Porque quem ama não ama um

objeto real, mas uma idealização do mesmo. Está, pois, iludido.



Tratando-se, contudo, da paixão amorosa por Jesus Cristo e pelo seu Reino, algo de novo

acontece. Pois, aqui, não há possibilidade de idealização. Isto é: Jesus Cristo e o projeto do

Reino de Deus não podem ser aumentados, melhorados, aperfeiçoados ou engrandecidos

— numa palavra: não admitem ser idealizados, porque são já o ideal. O novo amor a que os

Exercícios pretendem introduzir o exercitante é, pois, um amor singular: um amor isento do

risco do engano ou da ilusão.



A Identificação a Jesus



O amor não é, porém, o único vínculo que se pretende estabelecer entre o exercitante e a

pessoa de Jesus. Em suas investigações, Freud distinguiu duas espécies de vínculos

libidinais entre as pessoas.



A primeira delas, já mencionada, é a libido objetal. A segunda forma de vínculo, acima

anunciada, é a identificação. O vínculo libidinal que há entre duas pessoas que estão

apaixonadas é a libido objetal. Já o vínculo que costuma existir entre amigos, companheiros,

iguais entre si, é a identificação.



Num grupo psicológico, por exemplo, o vínculo que sustenta a relação do membro do grupo

com o líder é a libido objetal. O membro procede como se estivesse apaixonado pelo líder.

No que concerne à relação entre os membros do grupo, reina entre eles a identificação. Os

membros identificam-se entre si na medida em que percebem que partilham uma

propriedade comum: o amor ao líder.



Essas duas espécies de vínculo não são, contudo, excludentes: podem perfeitamente

coexistir. Como fruto dos Exercícios, espera-se que aconteça justamente isto: que o

exercitante se apaixone por Jesus Cristo e que, ademais, identifique-se a ele.



A identificação é um processo através do qual um indivíduo incorpora um aspecto, uma

propriedade ou um atributo de um objeto transformando-se, total ou parcialmente, segundo o

modelo desse objeto. A matriz do superego, que já mencionamos, é formada exatamente por

meio da identificação da criança aos pais, na resolução do que Freud chamou ―complexo de

Édipo‖. Identificar-se a Jesus Cristo significa, pois, incorporá-lo e, por conseguinte,

transformar-se, de modo a assemelhar-se a ele. Aquilo que ele representa é internalizado,



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



passando a existir não mais como algo externo ao indivíduo, mas como parte do seu aparelho

psíquico, no seu superego. São informações novas que o ego, doravante, terá que levar em

conta quando for manejar os conflitos entre as exigências do id e os ditames do superego.



É, contudo, preferível que o seguimento generoso de Jesus Cristo seja mais o resultado de

uma paixão arrebatadora por ele do que o efeito da ação policialesca do superego. De fato,

ambas as alternativas são possíveis. O acolhimento dos preceitos e conselhos cristãos pode

resultar do fato de que o indivíduo os tenha solidamente internalizados em seu superego.

Com tanta força que, em condições normais, o ego não tem outra alternativa senão acatá-

los. Mas o seguimento também pode brotar, de modo espontâneo, simplesmente, do amor.

Este é, aliás, um dos traços da psicologia do enamoramento registrado por Freud: a sujeição

humilde de quem ama ao objeto do seu amor. Mais uma vez, quem quer que já se tenha

apaixonado sabe perfeitamente do que estamos falando. Quem ama submete-se ao que

ama. Partindo dessa observação, o pai da psicanálise chegou mesmo a comparar a relação

entre o amante e o amado àquela que há entre o hipnotizado e o hipnotizador.



A Potencialização dos Afetos



Vê-se, pois, que aquilo que os Exercícios almejam produzir no exercitante abarca a

totalidade da sua vida afetiva. Trata-se de dar um novo destino à sua libido, seja propondo

um novo objeto de amor para as suas catexias objetais, seja apresentando-lhe um novo

modelo de identificação.



É evidente que, para atingir tão ambiciosa meta, conta-se, antes de mais nada, com a graça

divina. Mas isso não significa que os meios humanos estejam dispensados de concorrer

para o mesmo fim. Entre estes, queremos destacar dois expedientes acionados pela

dinâmica dos Exercícios que, segundo Domínguez Morano, visam a uma potencialização

dos afetos do exercitante.



O primeiro deles reside no método de oração, a saber, na utilização da contemplação e da

aplicação dos sentidos no curso dos Exercícios. Ou seja, estamos falando de procedimentos

que estimulam a imaginação — isto é, a dimensão do visual — no exercitante.



Segundo Freud, o aparelho psíquico — que acima descrevemos como constituído por três

instâncias: o id, o ego e o superego — admite ainda ser pensado em outros termos. Ele é

formado por dois grandes sistemas: (1) o sistema consciente e pré-consciente e (2) o

sistema inconsciente. Ao primeiro, pertence tudo aquilo que, num dado momento, é

iluminado pela luz da consciência ou pode tornar-se consciente mediante um esforço de

concentração. Ao sistema inconsciente, pertence o que, por pressão do recalque, está

impedido de tornar-se consciente.



Algo mais pode ser dito a respeito destes dois sistemas — e algo que nos interessa. É que o

sistema inconsciente é caracterizado por ser o domínio do que Freud denominou

―representações de coisa‖, que são representações de natureza visual. Ao passo que o

sistema consciente e pré-consciente compreende, de específico, as representações de

palavra, cuja natureza é verbal.



Isto significa mobilizar, por meio dos Exercícios, a dimensão visual, mais do que a verbal;

tocar em uma esfera que tem maior parentesco com o inconsciente do que com o sistema

consciente e pré-consciente. É provável, pois, que esse recurso seja capaz de potencializar

os afetos do exercitante em um nível mais profundo do que aquele que seria atingido por

meio de orações meramente verbais.



Outro expediente, citado por Domínguez Morano, pode ser encontrado no colóquio tríplice

com o qual Santo Inácio sugere que determinadas orações sejam concluídas. Ora, quais

são os três interlocutores propostos nesse colóquio? Não o Pai, o Filho e o Espírito Santo,

como seria de se esperar; mas a Mãe, o Filho e o Pai. Ou seja, interlocutores que remetem



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



o exercitante, em cheio, a um drama universalmente atravessado pelos seres humanos e

que deixa marcas indeléveis em sua vida psíquica inconsciente: o complexo de Édipo.



O complexo de Édipo consiste na triangulação amorosa ocorrida entre a criança — isto é, o

Filho — e os seus pais — a Mãe e o Pai — durante a primeira infância. Em sua versão mais

simples, a criança elege a própria mãe como objeto do seu amor, passando a ter, em

relação ao próprio pai, uma relação ambivalente de amor e ódio. Na resolução do complexo

de Édipo, a criança abandona suas aspirações incestuosas e identifica-se ao próprio pai,

donde a formação do superego. Seja como for, o que nos interessa é que essas primitivas

relações de amor — e também de ódio — deixam marcas permanentes no inconsciente

humano. Remeter, pois, o exercitante a algo que o toca tão profundamente — mesmo sem

que ele o perceba — pode ser descrito como um expediente adicional para ajudá-lo a

alcançar o fruto esperado pelos Exercícios: uma abrangente remodelação afetiva.



Conclusão



Muita coisa poderia ainda ser dita a título de transcrição para a linguagem da psicanálise da

dinâmica dos Exercícios Espirituais. Sabemos que essa não é, contudo, uma empresa

destinada a acolher, sem mais, o aplauso e a admiração de todos. De fato, as relações entre

a fé cristã e o pensamento freudiano nunca foram amistosas.



Freud, pessoalmente, era ateu, mas é preciso ter presente que a psicanálise não é,

necessariamente, uma disciplina hostil à religião. Numa carta a um de seus discípulos, o

pastor protestante Oskar Pfister, Freud escreveu: ―A psicanálise em si não é religiosa nem

anti-religiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso como o laico poderão

servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores‖10.



Na era do diálogo com a cultura, esse artigo pretende dar testemunho de que o convívio

entre a psicanálise e a espiritualidade cristã — nomeadamente, inaciana — é possível e

pode ser mutuamente enriquecedor. Cremos, pois, que, embora sumário, o que acima

consignamos seja amostra suficiente de que o casamento ou — talvez nem tanto — a

amizade entre a psicanálise e a espiritualidade inaciana promete ser fecunda.



NOTAS:

1

Este artigo é fruto das reuniões do grupo de estudos sobre psicanálise e espiritualidade

inaciana do qual fazem parte o P. Cláudio Pires, SJ e os estudantes jesuítas Eduardo

Pereira, Ricardo Torri e Walace Rodrigues.

2

LOYOLA, Santo Inácio de. Exercícios espirituais; apresentação, tradução e notas do

Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici. São Paulo: Loyola, 2000. 160p.

3

Na definição subseqüente, acompanhamos, em parte, o pensamento do P. Luis María

García Domínguez, SJ. Cf. DOMÍNGUEZ, Luis María García. Qué son las afecciones desor-

denadas para Ignacio y cómo leerlas hoy desde la psicología. In: ALEMANY, Carlos, GARC-

ÍA-MONGE, José A. (Eds.). Psicologia y ejercicios ignacianos; la transformación del yo en la

experiencia de Ejercicios Espirituales. Bilbao: Mensajero; Santander: Sal Terrae, 1990. V.1,

p.94-108. (Colección Manresa, 5).

4

Constituições da Companhia de Jesus anotadas pela Congregação Geral XXXIV e Normas

Complementares aprovadas pela mesma Congregação. São Paulo: Loyola, 1997. 504p.

5

O pensamento de Freud pode ser encontrado em: FREUD, Sigmund. Edição standard

brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

24 v.

6

―Catexia‖ = energia, força, impulso... (N.d.R.).



9

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42





7

Em boa parte do que se segue, acompanhamos de perto as idéias do P. Carlos

Domínguez Morano, SJ, professor de Psicologia da Religião da Faculdade de Teologia de

Granada, na Espanha. Cf. DOMÍNGUEZ, Carlos. Ordenación de la afectividad y mecanis-

mos de defensa. In: ALEMANY, Carlos, GARCÍA-MONGE, José A. (Eds.). Psicologia y ejer-

cicios ignacianos; la transformacion del yo en la experiencia de Ejercicios Espirituales. Bil-

bao: Mensajero; Santander: Sal Terrae, 1990. V.1, p.109-140. (Colección Manresa, 5).

8

KAZANTZAKIS, Nikos. O pobre de Deus. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p.15.

9

LAMET, Pedro Miguel. Arrupe: da bomba de Hiroshima à crise pós-conciliar. São Paulo:

Loyola, 1992. p.207.

10

FREUD, Ernst L., MENG, Heinrich (Orgs.). Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939); um

diálogo entre a psicanálise e a fé cristã. Viçosa: Ultimato, 1998. p.25.





SUBSÍDIO



A oração a seguir ganhou o prêmio de poesia no I Festival Inaciano de Música e Poesia, em

Belo Horizonte, MG.



ORAÇÃO

Lilian de Carvalho



Comunhão que une / Coração, mente, corpo e espírito.

União do Criador / Com a criatura...

Exercícios Espirituais / Moldando / Momento de encontro,

Encanto. / Grande desejo / Conduz.

Tudo parece lento, vento... / Inácio se adianta, / Previne. / Ensina.

Sinto medo. / Medo de mergulhar / No mar de mim mesma.

Perder minha imagem, / Reconhecer-me nos Olhos do Criador.,

Profundezas... / Mas a alma clama

E ao longe ouço a Voz / Que me chama

Voz que se forma / No vazio / Da ausência

Da quase dormência da minh‘alma.

Voz que é silêncio de ternura, / Brandura / Amor.

Experimento a emoção / Liberdade consagrada / A cada viva criatura.

Liberdade de ser essência: / Ser inacabado. / No movimento interior

Silêncio arde. / Arde o destempero / Desola a alma / Foge a calma.

E no momento seguinte / Silêncio sopra / A voz do Senhor

Nas feridas da alma / Transformadas em flor. / Aos poucos

A graça revela. / Revela o Filho Amado Jesus / Dentro e fora de mim. Não mais morto na

Cruz, / Não mais longe nos céus.

Encontro Jesus Cristo Vivo / No pulsar do coração,

Nos detalhes delicados / Simples cotidiano...

Vai derramando seu sonho / Pelos passos dos meus pés.

Com braços ternos de compaixão / Abraça o barulho, o entulho

Escondidos nas dobras do meu orgulho.

Lágrimas lavam a dor. / Amor integra / Luz e sombra,

O bem e o mal. / Vida / Morte, / RESSURREIÇÃO!

Lucidez do Homem Inácio / Deixar sinais

Do caminho da santidade. / Linguagem do Criador

A desvendar / Os sonhos de eternidade.

Linguagem do Criador / a desvendar / Os sonhos de eternidade.



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Despertos assim / Na alma e no coração,

O invisível vai se tornando visível / Fazendo o seu caminho

Em Oração. / Oração, / Coração,

Cor... / Ação.





ARTIGO



O autor, formado em Psicologia pela Universidade Gregoriana (Roma), foi Mestre de

Noviços, na Província do Brasil Meridional da Companhia de Jesus. Atualmente é Diretor do

Centro de Espiritualidade Cristo Rei (CECREI), em São Leopoldo, RS. O conceito “alma”

caiu em desuso na nossa linguagem teológico-espiritual. O texto a seguir revaloriza o termo,

para designar a dimensão mais profunda do nosso ser.



EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, VIVÊNCIA A

PARTIR DO SER MAIS PROFUNDO

UM MOVIMENTO GERADOR DE VIDA



Pe. J. Geraldo Kolling, SJ



"Uma alma purificada em seu interior, uma alma que reza,

é como o sol em seu esplendor."



Introdução



Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio são fonte de vida, de vida em crescente amplitude.

Quando o ser humano se dispõe a caminhar sob a ação de Deus, realiza-se nele um

processo de abertura e de superação, de curas e de construção da personalidade. Este

processo pode ser obstaculizado por fechamentos, individualismos, medos e traumas ou por

simples características da personalidade, sendo favorecido por dinamismos de abertura e

coragem, generosidade e prospectiva. A vida desde o mais íntimo da pessoa humana

deseja ser despertada e vivenciada em plenitude. Contribuição substancial pode a

psicologia trazer aos Exercícios Espirituais por sua harmoniosa colaboração complementar.



1. O tema "Exercícios Espirituais, vivência desde o mais profundo" é algo crucial no

ensinamento espiritual. É provável andarmos hoje um tanto prevenidos com o acentuado

dualismo dos últimos séculos, quando alma e corpo eram considerados quase como

entidades opostas, representando a alma o aspecto mais sagrado e profundo do ser

humano. Vemos, ao longo da história da Igreja, homens e mulheres, como Sto. Inácio, São

Francisco de Assis, Sta. Clara, com amor entranhável amarem seu ser mais profundo, como

a mãe ama seu filho. Sendo, por graça de Deus, tão nobre entre as criaturas, a alma

humana e cristã era, para Clara de Assis, maior que o céu. Tomamos, até certo ponto,

consciência de uma dimensão profunda de nosso interior, que nos permite experimentar

como que outra vida, superior, que não podemos revelar ao mundo exterior. Sendo esta vida

superior o aspecto mais verdadeiro de nosso ser, queremos subtraí-la às influências

externas. Em terminologia mais atualizada, de C.G.Jung, é esse o papel do ego, cuja função

é apreciar e servir a essência de nosso ser. Com ego prepotente, a serviço de si mesmo, a

personalidade, distorcida e sufocada, não pode gerar plenitude de vida.



2. A função dos Exercícios Espirituais é gerar vida, fazer viver desde a verdade mais

profunda da alma. Hoje, mais e mais, a psicologia descobre o eu mais profundo, a alma, e a

traduz em linguagem de nosso tempo. Os grandes homens e mulheres da Igreja a

conheceram muito bem. A alma é tida como a essência do ser humano, essência de ordem

diferente da essência do corpo. O corpo está vivo; a alma é vivificante, é a vida em si

mesma, é vida pura. Alma, o ser profundo, não é conceito, não é pura idéia. A alma é o que



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somos no mais íntimo de nós mesmos, com nossas moções mais ricas e mais profundas. A

alma é profunda beleza: é nossa natureza, nossa identidade; ela dá sentido à nossa vida, o

significado de nossa existência. É ela que nos chama a voltar, a viver em plenitude. É nossa

tarefa ir descobrindo, dia a dia, a imensa beleza que é esta essência, a alma. Não há

imaginação que possa conceber sua beleza. A alma nos move e promove, nos ensina, nos

dignifica, nos eleva. Sua criatividade não tem fronteiras, é imensa a profundidade de sua

inteligência, a riqueza de sua memória, o poder de sua vontade, a generosidade de seu

amor; é o ponto alto de nossa natureza, é o que somos. É função da espiritualidade a plena

integração entre alma e corpo.



3. Os Exercícios Espirituais dinamizam o movimento da alma, revigoram sua vida espiritual,

purificam suas aspirações, criam relações transcendentes, abrem-nos ao louvor do Criador.

Por vezes, requerem a desestabilização da personalidade, equivocadamente construída:

não sua mutilação, mas sua reestruturação, sua libertação em relação ao próprio ego.

Significa ser capaz de realmente viver a partir da alma, do coração, da profundeza do ser.

Isso requer uma personalidade suficientemente forte e audaz, mas sensível e flexível.

Reconquistada a supremacia da vida da alma, do nosso eu mais profundo, seremos

capazes de viver uma verdadeira relação de amor, como o atesta a vida de muitos santos.

Se a vida não se desenvolve a partir da alma, pode tornar-se motor de todo o nosso ego o

mais crasso individualismo e, em decorrência, gerar-se nossa indisponibilidade, a

incapacidade de partilharmos a vida com os demais. Este individualismo invade de tal forma

nossa vida que nos isolamos, eximindo-nos da responsabilidade de ocupar-nos dos irmãos,

tornando-nos incapazes de fecundas relações fraternas e comunitárias. O aprofundamento

não terá espaço nem condições de vingar. Quando não vivemos a partir da alma, nossas

relações, normalmente, não são sadias nem estáveis; imperceptivelmente, perdemo-nos nas

contingências do momento, em dependências, sem dar-nos conta.



4. Para o homem, sua relação com Deus será sempre, porque constitutiva de seu ser e de

seu destino, penhor de auto-realização. Viver esta relação é atestar que Deus, melhor que

nós mesmos, nos conhece, no mais profundo de nosso ser. É também fundamentar, no

homem, sua capacidade de procurar e encontrar a Deus, de conhecê-lo e amá-lo. Estas

significações da nossa relação, com base na criação, permitem conceber uma continuidade

entre as ordens da natureza e da graça. Elas convidam para a integração de tudo que é

humano na vida de fé. Elas falam do amor de Deus a este mundo, onde ele firmou sua

aliança com o homem. Ao viver o homem sua permanente relação com o mundo, que não é

criação sua, depara-se-lhe, majestoso e imprescindível, o Criador.



5. De beleza incomparável, é a alma o ambiente propício e precioso onde acontece a vida.

Os Exercícios Espirituais querem despertar a vida da alma, redescobrindo sua verdadeira

riqueza: suscitam, em nós, melhor conhecimento e amor mais autêntico para com nossa

alma; ensinam-nos a gerar vida, a partir da alma, fazendo-nos viver, extasiados, a

gratuidade do amor divino, em sua absoluta liberdade criadora; levam-nos, enfim, a

perceber, como possível e necessária, a mais plena harmonia entre o homem e o Senhor

Deus, seu Criador. É isso que dá sentido à nossa existência.



6. Os Exercícios Espirituais procuram conscientizar o homem de que a medida de sua

humanidade é sua relação com Deus. O mundo criado torna-se revelador da imensa

liberalidade de Deus, como doador e mestre da vida. Cristo nos revela seu e nosso Deus

como Pai, vivo e operante, que, solícito pelo homem, o convida a participar da vida divina. O

Espírito, com seu dinamismo de vida, faz do homem o cume da criação do Pai, em vista do

fim supremo: sua união com Deus, na relação de aliança pessoal e comunitária. Muitos

passam pela vida sem despertar para tão estupenda maravilha. Optam, talvez, por

adormecer a alma, não querendo confrontar as imposições do ego com o que a alma lhes

propõe.



7. O reconhecimento de Deus, como Criador e Senhor, e o temor filial ante sua divina

Majestade serão sempre o fundamento de todo itinerário cristão: geram a tomada de



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consciência diante da maldade do pecado, como movimento de auto-suficiência ou como

recusa de aceitar-se como criatura, em total dependência. O pecado, como fonte de

desordem, leva à desestruturação do mundo relacional do homem, no seio da criação; o

perdão oferecido por Deus, pelos méritos de Cristo, faz renascer a esperança de tornar-se o

homem artífice de um mundo novo, mais justo e mais humano. Porque, sob o título de rei

universal, exerce Jesus Cristo, sobre toda a criação, sua irrestrita soberania, a ele outorgada

pelo Pai, que o constitui caminho de vida para os homens, a norma de vida do cristão é a do

discípulo, definido como companheiro de Cristo, que o coloca em permanente situação de

convocado e o torna vitorioso na oferenda de seu serviço.



8. O ser humano se define por sua capacidade de abertura à ação de Deus. Sua inteligência

e sua vontade, unidas à sua afetividade, são as estruturas de acolhimento do mistério de

Deus, servindo-lhe de mediações. A primazia e a gratuidade do amor e da graça de Deus

significam, para todo homem, a real possibilidade de ser constituído em sujeito de fé

religiosa, constituindo-se a relação do homem com Deus na ordem da resposta humana ao

chamamento divino. A resposta é livremente assumida, procedente de deliberação do

homem de aceitar seu Deus e de encontrar, nesta relação, sua auto-realização.



Os Exercícios Espirituais ajudam-nos a conhecer

a própria alma, isto é, o eu mais profundo



9. Na vida de todo ser humano, tem Deus um momento de lhe despertar a alma. Pode ser

uma enfermidade, um acidente, um choque, um momento de angústia e depressão, uma

perda irreparável. Seja qual for, uma triste experiência sempre evocará em nosso espírito

um sentimento de vazio, uma sensação de impotência e frustração em nossa vida. Porém,

independente da forma, o chamado é, para todo homem, o mesmo: voltar à verdadeira vida

da alma, voltar ao eu mais profundo. Os Exercícios Espirituais, ajudando-nos a conhecer a

própria alma, constituem-na ponto de partida para a plenitude da vida, mediante nosso total

despojamento, na vivência da humildade e pobreza, dando-nos Maria o exemplo da mais

profunda humildade, pela livre renúncia a todas as possíveis, porém efêmeras glórias

mundanas e da mais austera pobreza, no generoso abandono de todas as metas

transitórias e equívocas, motivo de regozijo e de ambição para as pessoas centradas em si

mesmas.



10. O amor de Deus pela humanidade alcança seu pleno cumprimento com o consentimento

de Maria. A Encarnação abre a plenitude dos tempos, onde a ação criadora de Deus

culmina na divinização do homem. Cristo confere ao homem a capacidade de acolhimento

do mistério de Deus. O Filho do Homem, em sua vida mortal, oculta ou pública, está,

inequivocamente, presente sob os traços fundamentais da pobreza e da humildade.

Atraindo-nos o Pai para seu Filho, somos levados a descobrir o esplendor da vida filial e

fraterna.



11. O homem é assim convocado a ultrapassar-se. Tal disponibilidade é testada em relação

à pobreza e humildade de Cristo, quando, nos Exercícios Espirituais, somos desafiados a

desejar nossa identificação com o Cristo da Paixão, o Homem das dores, humilhado e

desprezado, sucumbido ao ódio e aos suplícios. O acolhimento desta soberana vontade do

Pai, que, em seu eterno e imperscrutável desígnio, "sacrifica seu Filho para salvar os

servos" recebe aqui o nome de Eleição. Opera-se assim uma páscoa com Cristo. Supõe-se

que o homem aceite ser amado e escolhido pelo Pai para sua associação ao Cristo.



12. Mestre Eckhart, maravilhoso místico da Idade Média, diz que a alma cresce por

subtração, isto é, quanto mais nos desprendemos da prepotência do nosso ego, mais vida e

mais vigor terá nossa alma. Se glorificamos nosso ego, dando-lhe todas as atenções, em

vão esperamos viver a partir de nosso ser mais profundo: as duas atitudes são

incompatíveis. É preciso optar; mas a opção pela vida em profundidade não exclui de todo a

intromissão do nosso ego, que sempre encontra maneira de imiscuir-se no que julga de sua





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alçada. O Espírito do Senhor nos ensinará como desprender-nos das vaidades e ambições

do ego para, resolutamente, seguir as pegadas de Cristo pobre e humilde.



13. Segundo os Exercícios Espirituais, deve buscar-se, em toda escolha irrevogável, a luz da

comunicação de Deus; efetivada por moção do Espírito, caracteriza-se a eleição pela presteza

e segurança da decisão a ser tomada, como resposta definitiva ao chamado divino. Tal

presteza e segurança, sem vacilações ou vãos temores, é insuspeito critério de discernimento

da operante presença de Deus, que inunda a alma de paz celestial e alegria espiritual. Para

uma pessoa que vive a partir do seu eu mais profundo, o mundo interior, na presença de

Deus, é belíssimo, encantador paraíso de delícias. Em sua oração contemplativa, assombra-

se a alma cristã diante da beleza que refulge em seu interior, tão mais luminosa que a luz do

sol. Para viver desde o ser mais profundo da alma, é preciso dedicar, cada dia, algum tempo

ao estudo da própria alma e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em nós. A

tirania de nosso egoísmo busca obscurecer e neutralizar a sensibilidade e beleza de nosso

interior. Amar o mais íntimo de nossa alma é vital para o crescimento na seara do Senhor, e é

fonte de paz em nossa vida. O Sl 131 nos fala desta paz do coração, brotada do interior:

"Senhor, meu coração não é pretensioso, não aspira a grandiosas proezas...".



14. Os Exercícios Espirituais, ensinando a escutar nosso íntimo mais profundo, nos

desvendam distintas maneiras de cultivá-lo. Para uns será a contemplação da mãe

natureza, a fruição de seu poder de cura. — É importante que a mãe natureza alimente o

amor de nossa alma. — Para outros será a visitação de obras de arte, a audição de música,

um exercício intelectual, a prática do esporte, etc. A alma tem sua própria linguagem, uma

linguagem nobre e altamente sensível, distinta da linguagem da mente. É preciso aprender a

linguagem do coração. Nossa alma, normalmente, mais do que palavras, usa a linguagem

dos símbolos, e cada alma tem sua linguagem simbólica própria. Se nos chama a atenção o

vôo do pássaro, é, talvez, porque nossa alma nos está chamando à liberdade interior. Outra

linguagem da alma é a dos sonhos, tão profundos conhecedores do nosso íntimo.



15. Não basta, porém, escutar nosso íntimo; é preciso confiar na sua voz, acatar sua

mensagem. Confiar na voz interior é, hoje, virtude sempre mais rara, de muitos ignorada ou

esquecida. Na civilização ocidental nos deixamos conduzir mais pelo aspecto racional de

nosso ser, quando não pelo sentimental. Não fomos educados a escutar a voz de nosso

íntimo, suas valiosas intuições.



16. Um dos mais cruciais desafios da Refundação da Vida Religiosa é, talvez, o aprendizado

do amor ao nosso eu mais profundo e, conseqüentemente, do amor aos nossos irmãos. É o

Espírito que, guiando-nos pelo caminho da escuta de nosso eu, concilia nossa confiança em

nós e nos outros; da confiança nasce a alegria por nós e pelos outros; e da alegria, o desejo

de cultivar tempos gratuitos de encontro com o Pai, para que o fulgor de sua beleza

purifique e transforme nossa vida, machucada pelo sórdido individualismo da modernidade.



17. A apaixonada busca de Deus é a razão última de nossa vida. Sentimo-nos chamados a

ser amigos de Jesus e a dar frutos abundantes e duradouros (Jo 15,16), permanecendo

unidos a ele. "Sem mim — diz o Senhor (Jo 15,5) — nada podeis fazer." Ser frutíferos

implica em estarmos unidos ao Cristo, para que nossas obras sejam expressão do seu

amor, e não só de vis interesses e ambiciosa competição. Os Exercícios Espirituais nos

proporcionam esta caminhada.



18. Na aventura dos Exercícios Espirituais é Deus quem escolhe o homem e se propõe a

ser seu escolhido. Deus eleva o homem acima de si mesmo, e depois, simuladamente, o

abandona; gratifica-o com seus dons, e priva-o de seus favores; deixa-o morrer, e o faz

reviver. Assim educa o homem a humilde e fiel disponibilidade, a um confiante abandono de

si mesmo. A graça de Deus torna possível o que ao homem era impossível: acolher seu

Deus, tal qual ele é.







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19. "Os Exercícios Espirituais permitem afirmar que o homem é chamado a participar na

obra de Deus, integrando todas as potencialidades de seu ser humano. As diversas formas

de oração e as Regras do Discernimento parecem pressupor que ele é espírito, corpo e

alma, sendo o espírito princípio de vitalidade para a alma e para o corpo. A abrangência do

espírito se estende para além da alma, com sua memória, inteligência e vontade; é razão, é

liberdade, desejo, afetividade... O que é espiritual distingue-se, assim, do que é psíquico ou

somático, sem serem, no entanto, separados. Da mesma forma, é para a alma e para o

corpo do homem, na sua existência terrestre." (Monique Verheeck).



20. "Os Exercícios Espirituais reconhecem ainda ao espírito do homem a possibilidade de

verdadeira autonomia, não obstante a evidente vulnerabilidade às influências exteriores, que

caracterizam também sua memória, inteligência e vontade, cujo objeto não é,

necessariamente, relativo a Deus e a seu desígnio salvífico. Dá-se o mesmo com os

sentidos; o cristão dispõe-se a colocá-los em relação à revelação de Deus, sendo sua vida

espiritual não mais simples expressão de sua natureza, mas abertura ao crescimento do

sentido e dinamismo que se manifesta em Jesus." (idem)



21. Se desejamos, de forma mais eficaz e fecunda, colaborar na expansão do Reino,

encontramos, nos Exercícios Espirituais e na psicologia, elementos que favorecem a

abertura ao Espírito, que conduz a História e, gradativamente, nos transforma, através de

experiências e vivências pessoais e comunitárias. Ambas as fontes são de ímpar

fecundidade e riqueza para uma vida solidária, que brota do interior do ser pessoal. Usá-las,

sem as absolutizar, é dom e tarefa pessoal. Compromisso e ascese, disciplina e graça,

morte e ressurreição: vida mais plena, desde o cerne.



Conclusão



A ciência, a mística e os Exercícios Espirituais concordam em que o ser humano, embora

extremamente limitado, é substancial potencialidade de vida. O exercício de harmonização e

integração do ser humano, de sua personalidade como um todo, pode ser profunda e

intensamente favorecido pela experiência dos Exercícios Espirituais, que nele

desencadeiam um processo de riquezas humanas, especialmente a vivência desde o mais

íntimo do ser. Pode também ser favorecido pelo desabrochar de potencialidades no cultivo

psico-espiritual. Assim, Exercícios Espirituais e ciência colaboram para a maior glória de

Deus, ajudando o homem a crescer em liberdade e no transcendente amor teocêntrico. A

psicologia é pois instrumental importante para uma vida consagrada mais plena e mais livre.

Sempre, porém, é preciso ter presente que a psicologia sem espiritualidade é como túnel

cavado na água.





ARTIGO



Pe. Pius formou-se em Psicologia na Universidade Gregoriana (Roma) e foi Diretor do

CECREI, em São Leopoldo. Atualmente é Reitor da Igreja do Rosário, em Curitiba, e

continua orientando Exercícios Espirituais. Acaba de publicar “Vida em Plenitude”.



DINAMISMOS PSICO-AFETIVOS NA PRIMEIRA SEMANA

DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

Pius T. Sidegun, SJ



Introdução



Na primeira etapa dos Exercícios Espirituais (EE), o exercitante passa por um processo de

purificação dos ―afetos desordenados‖, que engloba todas as formas de apegos e de auto-

centramento. É preciso inteirar-se bem dos dinamismos psico-afetivos e espirituais que



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movem o exercitante. A compreensão destes dinamismos pode ajudar a entender melhor as

possíveis e as diferentes reações defensivas que ele pode acionar para proteger-se e

permanecer refugiado nos seus apegos, quando colocado em situação de confronto e de

interpelação pela Palavra de Deus ou pela ação do Espírito Santo. Neste sentido, um

conhecimento mais amplo da psique humana pode vir ao encontro da espiritualidade e

qualificar a genuinidade dos elementos dinâmicos e estruturais da vida afetiva e espiritual do

exercitante, que se encontra em processo de purificação, na primeira etapa dos EE.



Objetivo da “oração preparatória‖



Na sistematização dos EE de S. Inácio de Loyola, encontra-se uma seqüência que visa

proporcionar ao exercitante um ambiente de silêncio interior e exterior, onde haja o mínimo

de interferências que o perturbem e o desviem da experiência de oração. Santo Inácio quer

que a experiência de oração envolva toda a vida e história do exercitante. Que todas as

disposições de ânimo participem do ―sabor novo‖ da ação do Espírito Santo, que realiza o

―querer e o agir‖ de Deus (cf. Fl 2,13).



Para dispor o espírito e criar um estado de ânimo aberto e receptivo à ação do Espírito de

Deus, Santo Inácio propõe uma ―oração preparatória‖ (EE, 46). Esta visa preparar o ―terreno

da vida‖ para ser receptivo à semente da Palavra de Deus e torná-lo fecundo pela ação do

Espírito Santo.



O espírito que perpassa a ―oração preparatória‖ visa ―desarmar‖ o exercitante de suas

justificativas e reações defensivas. A experiência orante requer que o exercitante se

―desnude‖, se ―renda‖ e se ―despoje‖ de si mesmo, para lançar-se nos braços

misericordiosos e providentes de Deus. Neste sentido, a ―oração preparatória‖ coloca o

exercitante em contato e em sintonia com a ação da Trindade em sua vida. Este referencial

é fundamental para criar uma disposição de ânimo sintonizada com a ação do Espírito. Isto

requer a presença, a abertura e a receptividade de todo o ser do exercitante. Todas as

dimensões da vida participam da experiência orante. Para alcançar esta meta, é importante

fazer silêncio nos pensamentos, na vontade e nos sentimentos. Geralmente, a mente é

muito ativa e ―barulhenta‖. A vontade tende a ser muito aquisitiva e utilitarista. Os

sentimentos tendem a valorizar e apreciar o que é agradável e repelir o que é exigente e

implica ―morrer‖ para si mesmo. Tais atitudes dificultam a ação do Espírito. De fato, a moção

do Espírito pode ser desviada ou bloqueada por forças inconscientes que resistem em

aceitar o ―novo‖ e a conversão dos dinamismos mais profundos. Neste caso, a mudança de

mentalidade ou dos paradigmas não acontece. A pessoa tende a permanecer girando em

torno de si mesma, sem processar, em si, uma transformação mais profunda e significativa.



Objetivo da “composição de lugar”



No primeiro preâmbulo (EE, 47), Santo Inácio propõe a ―composição de lugar‖. Santo Inácio

recorre à faculdade imaginativa e à capacidade de fazer uso de símbolos, para colocar o

exercitante numa situação relacional, onde há interação e intercomunicação. À luz da fé,

sugere ao exercitante tornar presente a realidade divina, servindo-se de imagens e de

símbolos. A imagem ou o símbolo torna presente a realidade transcendente. No conceito de

K. G. Jung, torna visível o que está no invisível. Nesta perspectiva, ―compor o lugar‖ torna-se

significativo para o exercitante que entra em relação e em sintonia com as pessoas da

Trindade, com Maria, José, Arcanjos e Santos..., para realizar e ―saborear‖ sua experiência de

oração.



Para facilitar a compreensão do significado de ―composição de lugar‖, numa linguagem

atual, pode-se usar a imagem de santuário interior, que consiste em criar um ―espaço

interior”, um ―lugar sagrado‖, como ―a tenda de encontro‖ de Moisés (Ex 33,7-11). Uma

imagem simbólica pode ajudar nesta construção. Por exemplo, um templo, uma gruta, o

sacrário, a sombra de uma árvore, uma fonte, o deserto, o alto da montanha, o fundo do

mar, a natureza... O santuário interior é um ―lugar‖ onde a pessoa pode se situar para se



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encontrar com Deus nos momentos de oração e de contemplação. Este ―lugar” quer

expressar a morada de Deus na pessoa e facilitar a intercomunicação e a escuta de Sua

revelação.



Neste preâmbulo, Inácio fala em ―ver o lugar, as pessoas...‖ (EE, 47). Esta dimensão do ―ver

as pessoas‖ pode traduzir-se pelo conceito de comunidade espiritual. Esta é constituída por

―personagens espirituais‖, cuja presença é significativa na vida da pessoa. Neste sentido, a

pessoa pode tornar presente as pessoas da Trindade, Maria, José, os arcanjos, o anjo da

guarda, santos de sua devoção, amigos e amigas. A comunidade espiritual acompanha,

guia, esclarece e fortifica a experiência de oração. Ela pode ajudar a desvendar a verdade

oculta ou desconhecida a nível consciente, seja em relação a Deus, a si mesmo e aos

outros, como também, em relação às experiências da vida. É preciso criar vínculos de fé e

de confiança, para que a interação e a intercomunicação com os ―membros‖ da comunidade

espiritual sejam eficazes e provoquem a conversão desejada. É de suma importância o

aspecto dos vínculos de fé e de confiança. A relação de fé e de confiança dá sustentação e

persistência nos momentos de desafio, de confronto e de tirar as máscaras. Como também,

nos momentos de deixar-se conduzir por ―alguém‖ da comunidade espiritual. Pela entrega

confiante, o exercitante se despoja das seguranças pessoais e se confia plenamente à

orientação e à ação do Espírito Santo. Ou, também, pode confiar-se à orientação de algum

―personagem‖ de confiança, presente na sua comunidade espiritual. É com este

―personagem‖ que o exercitante pode viver um ―diálogo interior‖ mais expressivo e

existencial. Este conceito expressa a dimensão da interação e da intercomunicação, da

―escuta‖ e da ―fala‖.



O diálogo interior consiste em ―ouvir‖, ―falar‖ e ―agir‖. Para que aconteça a experiência do

diálogo interior, são necessários laços de fé e de confiança. No diálogo interior ocorre uma

conversa ―de coração a coração”, onde a pessoa fala, escuta, pode ser questionada,

confrontada, desmascarada na sua ambigüidade, pode expor-se na sua verdade mais

profunda... Por exemplo, Jesus dialoga com Nicodemos, com a samaritana, com Maria e

Marta, com os fariseus... Esta interação e intercomunicação, ―fala‖ e ―escuta‖, levam a uma

resposta-compromisso que transforma a vida do exercitante.



Esta experiência orante chama-se contemplação. Ela consiste em silenciar, admirar,

saborear e deter-se numa palavra, numa frase, num símbolo, numa paisagem, numa

pessoa, numa cena... É deixar-se atrair por aquilo que fala ao coração e desperta

admiração, encantamento, fascínio, plenitude, silêncio, provocação... No dizer de Santo

Inácio de Loyola, “o que sacia e satisfaz a alma não é o muito saber, mas o sentir e

saborear as coisas internamente‖ (EE, 2). A experiência de oração contemplativa

descentraliza o exercitante de si e centra-o em Deus.



A contemplação se realiza pela potência da capacidade imaginativa. Esta é uma das

potências com que Deus dotou a pessoa humana para facilitar a sintonia com a dimensão

transcendente da vida. O simbólico é um meio que pode levar a pessoa a uma profunda

experiência do amor de Deus. Esta faculdade imaginativa pode proporcionar maior

profundidade à experiência contemplativa. Santo Inácio de Loyola, na primeira etapa dos

Exercícios Espirituais, que está sendo considerada (EE 47, 53, 56, 58, 65-70), propõe ―ver‖,

com os ―olhos da imaginação”, o cenário e as pessoas que fazem parte da cena do relato

bíblico a ser contemplado ou de aspectos da história pessoal a ser considerada. “Olhar e

contemplar” o que as pessoas “fazem”, ―ouvir” o que ―falam‖... Fazer parte ativa do cenário:

envolver-se, participar, admirar, encantar-se... A contemplação consiste em ―ver, ouvir,

sentir, agir‖ e comprometer-se. Requer da pessoa uma atitude de silêncio interior.



O sentido do silêncio fecundo



A atitude de silêncio interior pode ser adquirida centrando a atenção na respiração ou

através da repetição lenta de um mantra, uma palavra, uma frase, contemplando uma

imagem, um símbolo, a natureza... O silêncio pode ajudar o exercitante no esvaziamento de



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si e no centrar-se no mistério a ser contemplado. O silêncio interior predispõe o exercitante a

entrar no Mistério a ser contemplado, envolvendo-se com a presença das pessoas da

Trindade, com a ―comunidade espiritual” e, assim, vivenciar o diálogo orante. Tal atitude leva

a silenciar os pensamentos, a vontade e os afetos. Pois, o exercitante descentra-se de si

mesmo e centra-se no Mistério que o envolve. Neste caso, os pensamentos com suas

pretensões, justificativas e intelectualizações desaparecem do campo consciente. A vontade

é absorvida pela participação da ação do Espírito de Deus. Os sentimentos são permeados

pelo Espírito em ação, suscitando abertura e acolhimento da mensagem que o Mistério

comunica. Neste sentido, o silêncio abre um espaço interior para o exercitante se deixar

possuir pela ação do Espírito Santo. Esta atitude silenciosa torna o silêncio fecundo, porque

abre espaço interior e deixa o Espírito Santo ser o protagonista da experiência de oração

contemplativa.



Outro elemento orientador básico é o desejo que é uma força motivacional e uma orientação

dinâmica que move internamente o exercitante a escolher, a decidir e a agir. O desejo

sinaliza o que o exercitante valoriza, onde e em quem está centrado, o que quer e o que

realmente é. É importante que o desejo da Trindade e o desejo do exercitante se abracem e

se transformem em energia construtiva.



O sentido das Adições [EE 75-90]



As Adições referentes à primeira etapa dos Exercícios Espirituais, têm como objetivo

proporcionar ao exercitante um ambiente externo que favoreça à disposição interior de

espírito uma sintonia mais envolvente e significativa com Deus. O ambiente externo, os

sinais simbólicos e os gestos de penitência são meios dos quais o exercitante pode dispor

para ajudar-se a alcançar o que deseja: crescer na íntima comunhão com Deus, através do

processo de purificação dos ―afetos desordenados‖. Os ritos penitenciais, propostos nas

Adições, recebem seu sentido e sua força transformadora na medida em que colocam o

exercitante em comunhão com Deus. Os gestos simbólicos e os ritos visam adentrar o

exercitante na vida da Trindade. Neste sentido, transcendem a dimensão humana e

ancoram a vida do exercitante no coração da Trindade. Tal experiência de misericórdia e de

amor leva o exercitante à ―exclamação de espanto com afeto intensificado‖ (EE, 60): ―Sou

um pecador amado e perdoado! Quão misericordioso é o Deus de Jesus Cristo!‖ Esta

experiência de reconciliação da vida com Deus, com os outros e consigo mesmo, suscita um

espírito de gratidão e de amor para com Deus. Ao mesmo tempo, o exercitante sente-se

interpelado pela experiência vivida e se pergunta: ―Que fiz por Cristo? Que faço por Cristo?

Que farei por Cristo?‖ Estas perguntas despertam o desejo de conhecer mais intimamente a

pessoa e a missão de Jesus Cristo. Neste estágio o exercitante oferece condições para

mergulhar no mistério da vida de Jesus Cristo e configurar sua vida com a d‘Ele.



Conclusão



A experiência de conversão de Santo Inácio é uma verdadeira ―escola‖ de vida, que oferece

uma psico-pedagogia ao exercitante que nela se matricula, cuja aprendizagem leva o

―aluno‖ ao âmago do seu ser, para enraizar sua vida no coração da Trindade, dele haurir a

seiva da vida divina e deixar-se imbuir pelo espírito da Trindade. A passagem pela primeira

etapa dos Exercícios Espirituais visa proporcionar ao exercitante uma transformação radical

na matriz mental, volitiva e afetiva. A purificação dos ―afetos desordenados‖ é o processo

pelo qual o exercitante cria, em si, um ―novo‖ referencial, um ―novo‖ centro afetivo, uma

―nova‖ matriz mental, volitiva e afetiva. De fato, o exercitante que se entrega na gratuidade à

ação do Espírito Santo, vive, simultaneamente, um processo de libertação e de

transformação psico-espiritual.





ARTIGO



O autor é membro do CEI-Itaici e redator da revista.

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AMOR HUMANO E AMOR CRISTÃO

Luis González-Quevedo, SJ



INTRODUÇÃO: UMA UTOPIA IMPRESCINDÍVEL



Escritores de todas as épocas, pessoas de todas as raças, credos e culturas, homens e

mulheres de ontem e de hoje escrevem e falam incansavelmente do amor, como resposta e

solução à questão do sentido da existência humana. O homem e, ainda mais, a mulher

colocam a esperança de sua felicidade pessoal em ―amar e ser amados‖. Com amor, tudo

vale a pena; sem ele, a vida se esvazia. O sábio já dizia: ―mais vale um prato de verdura

com amor, do que um boi cevado com rancor‖ (Pr 15,17).



Esta unanimidade quanto ao apreço do amor esfacela-se, logo mais, ao se tentar descrever

as diversas formas e características concretas do amor. Fala-se, então, de amor divino e

amor humano; amor casto e ―amor de perdição‖; amor adolescente e amor adulto, etc.



Para o poeta-cantor, ―todo amor é sagrado‖ (Milton Nascimento). De fato, todo amor

verdadeiro suscita na pessoa apaixonada fascínio e temor, reações clássicas diante do

sagrado.



“Medo. De ti. Amar-te / é o mais alto risco...

Mas tu és / teu próprio além,

como a luz e o mundo...”

(Pedro Salinas) 1.



Para além da poesia, do romantismo e da exploração da beleza dos jovens na mídia, os

adultos sabem que ―amar‖, de verdade, não é fácil, não é jogo para adolescentes. A

juventude é, sim, a época das primeiras experiências amorosas, existencialmente

importantes, mas inevitavelmente passageiras e superficiais.



“Amar é privilégio de maduros, / que amor começa tarde”.

(Drummond de Andrade).



A constatação das dificuldades leva a maioria dos autores contemporâneos a um certo

pessimismo, a respeito do amor. O teólogo Carlos Palácio constata, na cultura atual, ―um

ceticismo difuso mas generalizado‖ quanto ao amor humano, ―imperativo impossível‖,

―realidade etérea, incansavelmente perseguida, mas nunca alcançada‖ 2.



―Nada é tão fascinante quanto o amor, desgraçadamente‖, escreve Hanif Kureishi, no seu

romance Intimidade, publicado em português pela Companhia das Letras. Trata-se de um

desabafo do marido, na véspera de abandonar o lar, após o fracasso do seu casamento.



Sempre houve, ―desgraçadamente‖ sim, fracassos matrimoniais. Leão Tolstoi abandonou a

esposa e os filhos na velhice. Jorge Luís Borges combinou com um amigo que o viesse

procurar de táxi. Pegou seu livro de cabeceira, subiu ao táxi e nunca mais regressou ao

domicílio conjugal, não digo ―lar‖, porque o grande escritor argentino nunca conseguiu

formar um verdadeiro lar. Ele mesmo declarou que nunca chegou a ―sair‖ da biblioteca da

casa do seu pai. Só tornaria a casar na velhice, com a sua secretária, pouco antes de

morrer.



Nas novas gerações parece estar aumentando a sensação de que o amor humano não é

para durar. Se for ―eterno‖ só ―enquanto dura‖ (Vinícius de Morais), deverá ser consumido

rapidamente, antes de que apodreça. Porque ―o amor é entidade crepuscular. Seu dia é

curto...‖ 3. O tema do último romance do escritor inglês Julian Barnes é, justamente, este: ―a

dissolução do amor‖. O amor do casal protagonista acaba ―nos etcéteras da vida‖ 4.



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Neste tema universal, a fleuma britânica coincide com o romantismo latino e com a saudade

brasileira. Uma das canções mais populares do cantor francês Charles Trenet pergunta: ―O

que fica dos nossos amores?‖ (Que Reste-t-il de Nos Amours?). E os nossos compositores

de música popular não são mais otimistas. Basta lembrar os sambas de Nélson Cavaquinho:

―Folhas Secas‖, ―Pranto do Poeta‖, ―Quando Eu me Chamar Saudade‖, ―Se Você me

Ouvisse‖, ―Mulher sem Alma‖:



“Tire seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor”

(―A Flor e o Espinho‖, samba de Nélson Cavaquinho

e Guilherme de Brito).



Falecido o grande compositor, seu parceiro Guilherme de Brito continua fazendo músicas

tristes, porque ―eu acho que toca mais as pessoas do que as músicas alegres‖ 5.



”Assim como nasce uma flor / Que ninguém consegue explicar /

Nasce também o amor / Que não devia acabar”...

(―A Pomba da Paz‖, de Guilherme de Brito).



O amor ―não devia acabar‖... mas acaba! ―O amor pode acabar... de manhã, de tarde, de

noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no

conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por

qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o

amor acaba‖ 6.



O cinema tem sido pródigo, também, em representar o fascínio e as frustrações do amor

humano. No filme Rocco e seus irmãos (Luchino Visconti, 1960), há um belo diálogo entre

Rocco (interpretado por Alain Delon) e Nádia (Annie Girardot). Ele é um jovem migrante do

sul da Itália, desambientado na grande cidade de Milão. Ela, uma moça prostituída, que

acaba de sair da cadeia.



―O que faria você se estivesse no meu lugar?‖, pergunta Nádia a Rocco. ―Teria fé – diz ele -

não teria medo... Teria confiança‖. ―Em quê?‖, retruca a garota. ―Na vida – responde Rocco-

...em tudo!‖. ―Em você também?‖, insinua ela, criando clima de intimidade. ―Sim, também em

mim‖, diz ele, com um afeto diferente de tudo o que a moça conheceu até aquele momento.

―Quando venha a Milão me procure – conclui Nádia –. Talvez você possa me ensinar a não

ter medo‖.



―No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor‖ (1Jo 4,18). Mas o

amor de Rocco e Nádia, como a maioria dos amores humanos, não é perfeito. Por isso, não

resiste aos ciúmes de um irmão de Rocco que, tendo sido namorado de Nádia, humilha-a,

brutalmente, diante de Rocco. Depois do desastre, Nádia diz: ―Não creio em mais nada... O

que era bonito transformou-se em culpa‖. E ao irmão de Rocco lhe diz: ―Você estragou o

sonho mais lindo que tive na vida. Agora pode fazer o que quiser. Não importa mais nada...‖.



Em filme anterior, o mesmo diretor de cinema revelava-se já um mestre na apresentação da

força destrutiva da paixão amorosa. Senso (em português: ―Sedução da carne‖, 1954) é

uma obra prima do melodrama. A protagonista (Lívia Serpieri, interpretada por Alida Valli) é

uma condessa italiana do tempo do Risorgimento. Casada, jamais havia cometido uma

leviandade, até apaixonar-se pelo tenente austríaco Franz Mahler (Farley Steward). O

exército austríaco ocupava a cidade de Veneza. Como outra Anna Karenina, no grande

romance de Leão Tolstoi, a condessa Serpieri não é mais dona dos seus sentimentos e

corre atrás do tenente: ―Não nos preocupemos com paraíso ou inferno‖, dizem os amantes,

citando Heine. ―O único que importa é o agora...‖.



É experiência humana universal que ―o amor é cego‖ e surdo à voz da razão. Alguns o

consideram uma forma de ―loucura‖. O amor leva Lívia Serpieri a perder o pudor, a mentir e



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a aviltar-se. A condessa acaba traindo sua própria Pátria, entregando ao amante dinheiro

recolhido para a causa dos patriotas italianos. O oficial austríaco mostra-se covarde e

degradado: ―Sou um desertor bêbado. Não sou seu herói romântico‖, diz Franz a Lívia. Ela

ainda o ama: ―Deixei tudo por você!‖ Mas o amante arranja outra mulher mais nova: ―Pago-a

com o seu dinheiro‖. Finalmente, a protagonista denuncia o amante, como desertor. E Franz

é fuzilado.



Na modernidade e pós-modernidade globalizadas, há um enfraquecimento das relações

humanas autênticas. A Internet, se por um lado facilitou a rapidez de contatos eletrônicos ou

―virtuais‖, por outro, está afetando negativamente os contatos familiares e sociais. Pesquisas

recentes, nos Estados Unidos, mostram que passar horas conectado à Internet gera

propensão a ter crises de depressão e solidão. A ―aldeia global‖ está produzindo uma

―multidão solitária‖.



Os jovens são os mais atingidos por este ambiente. Um jovem noivo, em vésperas da boda,

dizia: ‖humanamente, o casamento cristão me parece impossível‖. Já, uma noiva,

habitualmente mais romântica, disse-me: ―Eu sei que, depois do casamento, o nosso

relacionamento vai mudar. Mas, no nosso caso, tenho fé que mudará para melhor‖.



O segredo do casamento cristão é não olhar apenas um para o outro ou para si mesmos,

mas os dois abrir-se para o Outro e, juntos, olharem na mesma direção, na presença e na

saudade do Senhor. Não caiamos, porém, na tentação maniqueísta de diminuir o amor

humano, para exaltar o amor divino. Desde que Deus se fez homem, ambos amores se

interpenetram.



Esboçada a complexa problemática do amor humano, pesquisaremos o vocabulário do

amor, na Sagrada Escritura e nas línguas clássicas, para buscar depois a novidade do amor

cristão. Possa o estudo das palavras com que designamos o mistério do amor ajudar-nos a

compreender a Palavra eterna que, saindo do Silêncio do Pai, se nos revelou na carne do

Filho muito amado.



O AMOR NO ANTIGO TESTAMENTO



O pensamento hebraico não é dualista. A mesma palavra („ahab = amor, do verbo „aheb =

amar, gostar, apaixonar-se) é empregada para expressar tanto o amor de Deus pelos seres

humanos, especialmente pelo povo de Israel (Dt 4,37; Is 43,4), quanto os amores ilícitos,

notadamente as relações adúlteras de Israel (Os 2,7; Ez 16,36). A Bíblia hebraica conhece

todos os amores humanos: Abraão amava Isaac (Gn 22,2) e Rebeca amava seu filho Jacó

(Gn 25,28); Sansão amou Dalila, para sua desgraça (Jz 16,15) e Rute amou sua sogra

Noemi, para felicidade de ambas (Rt 4,15); Elcana amava Ana, mesmo sendo estéril (1Sm

1,5) e Abraão é chamado ―amigo‖ de Deus (2 Cr 20,7).



Antigamente interpretava-se o nome Davi como dôd (= amado). Tal etimologia, hoje, é

duvidosa, mas não há dúvida de que o rei Davi é o personagem do AT que recebeu mais

graças e dons de Deus. Mesmo que ele nem sempre tenha correspondido adequadamente ao

amor de Deus, a posteridade o idealizou, relacionando-o com o rei messias, do qual é

antecessor e figura. Jônatas, filho de Saul, amou Davi ―como a si mesmo‖ (1Sm 18,1.3;

20,17). E o rei chorou a morte de Jônatas, porque lhe era mais caro do que o amor das

mulheres (2Sm 1,26).



A palavra dôd, com o sentido de ―amado‖, ocorre 38 vezes na Bíblia hebraica, todas menos

uma (Is 5,1) no Cântico dos Cânticos. Este livro bíblico, absolutamente singular, é uma

coletânea de cantos de amor. Com ―pudico erotismo‖, descreve a experiência amorosa em

perspectiva paradisíaca, inspirada no relato do Paraíso Terrestre, antes da queda (Gn 2) 7.



“Como seus amores são belos,

minha irmã, noiva minha.



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Seus amores são melhores do que o vinho,

e mais fino que os outros aromas,

o odor de seus perfumes” (Ct 4,10).



No Cântico, o amor humano simboliza as relações entre Deus e seu povo. O amor do rei

Salomão e da sua esposa egípcia é espelho, sacramento e manifestação da paixão e

ternura de Deus pela humanidade8.



A leitura mística do Cântico (em São Bernardo ou em São João da Cruz) faz do amor

humano a parábola viva do amor de Deus por nós, que nos convida, por sua vez, a amá-lo,

como a esposa ama o esposo. O Esposo é Deus presente em Cristo. A Esposa é ―a alma‖, é

toda pessoa amada por Deus. Ela se entrega sem reservas ao seu Amado, livremente

escolhido9.



Esta visão ideal choca-se brutalmente com a visão moderna e pós-moderna, que apresenta

o amor e o sexo como uma fatalidade: ―A mulher está condenada ao amor‖, disse a atriz do

cinema alemão Maria Schell. Ao chegar aos 60 anos, esta bela mulher se tirou a vida. Um

diretor de teatro inglês diz: ―O encontro entre homem e mulher - dois seres absolutamente

diferentes - é quase um milagre― (Paul Heritage). E um crítico de cinema nacional

acrescenta: ―A sexualidade é mais ponto de desencontro e colisão do que de harmonia,

como gosta de afirmar a ingenuidade romântica‖ (Luiz Zanin Onachio) 10.



O Cântico dos Cânticos idealiza, certamente, o amor humano. Mas a Bíblia, no seu

conjunto, não é ingênua nem romântica. Os textos bíblicos recolhem uma vasta gama de

mentalidades e comportamentos. Há textos pessimistas a respeito da sexualidade e da

―mulher má‖11. E há textos otimistas que exaltam o amor humano e a esposa ideal:



“Alegra-te com a mulher da tua mocidade” (Pr 5.18).

“Como o sol levantando-se sobre as montanhas do Senhor

assim é a beleza da mulher em sua casa bem arrumada” (Eclo 26,16) 12.



A revelação judaico-cristã não pode ser contra o sexo, como diz um preconceito muito

estendido. Pelo contrário, a Sagrada Escritura é a favor do amor e da vida. Ela defende a

pureza das fontes da vida. O prazer sexual com a esposa legítima é valorizado

poeticamente:



“Bebe água limpa do teu poço... Bendita seja a tua fonte, goza

com a esposa a tua juventude: cerva querida, gazela formosa;

que te embriaguem sempre as suas carícias, e o seu amor te

satisfaça sem cessar!” (Pr 15.18-19).



O AMOR NA CULTURA CLÁSSICA



Jesus viveu em ambiente judaico, mas o Novo Testamento está escrito em grego. E a

palavra de Jesus chegou até à nossa língua portuguesa, através do latim. O conhecimento

destas línguas, matriz da nossa civilização ocidental, ser-nos-á útil na tentativa de conhecer

melhor Jesus. No tema que nos ocupa, o vocabulário greco-latino sobre o amor é mais rico

do que o hebraico. Embora não estejam rigidamente separados, podemos distinguir, pelo

menos, três pares de vocábulos:13



1) Eros, traduzido geralmente pela palavra latina amor, é o amor captativo. Centralizado no

próprio sujeito, busca a satisfação de suas próprias necessidades. Por isso, os antigos

Padres da Igreja latina (Tertuliano, Cipriano, Ambrósio) evitavam a palavra amor ou a

empregavam raramente e com certa prudência, ao tratar de sentimentos cristãos. Sto.

Agostinho, apesar dos malentendidos a que tem dado seu pensamento, contribuiu para

cristianizar a palavra amor-eros14. Eros é ―amor de desejo‖, mas não exclusivamente sexual.

Platão distingue o ―eros vulgar‖ do ―eros celeste‖. Plotino define eros como o ―desejo de se



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unir ao que é belo‖. Ama-se um corpo que é belo, pela alma que o habita15. O chamado

―amor platônico‖ se dirige a uma pessoa ideal e longínqua, absolutamente inacessível, ou a

uma pessoa próxima, mas idealizada excessivamente. Tal foi, por exemplo, a paixão que

Inácio teve por uma senhora da mais alta nobreza, segundo conta em sua Autobiografia16.

Eros ―não é a única forma de amor, mas está presente em toda forma de amor‖ 17, porque

em todo amor humano o amante deseja alcançar algo que não tem e espera obter do

amado.



2) Philia, que poderíamos traduzir por dilectio, é o amor de amizade. Santa Catarina de

Sena o coloca no topo dos ―Três degraus do amor‖, acima do ―amor servil‖ e do ―amor

interesseiro‖. Trata-se de uma afeição menos violenta e sensível do que eros, mais serena e

sóbria, mais delicada e profunda, mais lenta e duradoura. Na amizade, a aceitação e o

respeito ao outro prevalece sobre o desejo possessivo. Todavia, ―o amor de amizade não

existe em estado puro, separado do amor de desejo‖18. A amizade dispensa muitas palavras

e gestos externos, porque não é (não deveria ser) possessiva nem ciumenta. O amor erótico

é exclusivo e mais exigente nas suas manifestações sensíveis. Este amor de desejo pode

ser unilateral, enquanto a amizade exige reciprocidade. Na reciprocidade, espera-se receber

do amigo algo ―em troca‖ ou como conseqüência natural do afeto. O Catecismo da Igreja

Católica trata da amizade humana, ao falar da caridade (n. 1829), da solidariedade (n.

1939), da castidade (n. 2347) e das pessoas homossexuais, necessitadas do ―apoio de uma

amizade desinteressada‖ (n. 2359).



3) Finalmente, a tradição cristã privilegiou o termo agápe. Pouco usado no grego clássico,

aparece já na versão dos LXX19 e em Fílon de Alexandria. Agápe é traduzido para o latim

por caritas (caridade). Trata-se do amor oblativo ou de doação, que não busca seu próprio

interesse, antes o bem da pessoa amada. Tem seu fundamento no próprio Deus-Amor e foi

derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Agápe é um

amor essencialmente gratuito, altruísta e predominantemente espiritual, embora esteja

enraizado no psico-físico. A psicologia profunda ensinou-nos a desconfiar de um amor que

pretenda ser ―puramente espiritual‖. A psicanálise freudiana sustenta que não é possível

amar gratuitamente. Ama-se para ser amado ou pela satisfação que traz ao amante o

simples fato de amar. Todos nós já experimentamos a singela alegria de amar sem esperar

nada em troca. ―Nesta experiência de gratuidade, conhecemos um instante de leveza

verdadeira, de liberdade verdadeira, porque amamos e nos agrada amar, quer sejamos

amados ou não‖.20



No Novo Testamento, Paulo adota a palavra agápe como denominação específica do amor

cristão (cf sobretudo 1 Cor 13). E, no cume da revelação judaico-cristã, São João escreve:

―Deus é amor-agápe‖ (1Jo 4,8.16). Antes, no prólogo de seu evangelho, tinha escrito: ―E a

Palavra se fez carne e habitou no meio de nós‖ (Jo 1,14). Em Jesus, o amor de Deus por

nós se revelou como amor encarnado (feito carne). O novo mandamento, que deve

identificar os seus discípulos, é amar com este amor-agápe com que Ele nos amou (Jo

15,12). No final do evangelho, no diálogo do Senhor com Pedro, depois da ressurreição (Jo

21,15-17), Jesus pergunta: ―Simão, filho de João, tu me amas (agapas me)?‖ Pedro

responde: ―Sim, Senhor, tu sabes que sou teu amigo (phileo se)‖. Provavelmente, a

diferença dos verbos agapao e phileo, aqui não tenha muita relevância. De fato, na terceira

vez, Jesus pergunta: ―Simão, filho de João, tu és meu amigo (phileis me)?‖ E Pedro

responde empregando o mesmo verbo (phileo, em lugar do agapao).



A NOVIDADE DO AMOR CRISTÃO



Os cristãos, como os demais seres humanos, conhecem e vivem as diversas formas do

amor humano. Um belo documento cristão do século primeiro da nossa era descreve assim

a vida dos cristãos: ―Não se distinguem dos demais, nem pela região, nem pela língua, nem

pelos costumes. Não habitam cidades à parte... Alguns moram em cidades gregas, outros

em cidades bárbaras, conforme a sorte de cada um... Casam-se como todos os homens e

como todos procriam, mas não rejeitam os filhos. A mesa é comum, não o leito. Estão na



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carne, mas não vivem segundo a carne... Hostilizam-nos os judeus, quais estrangeiros;

perseguem-nos os gregos...‖ 21.



A fé cristã é herdeira da fé de Israel. Jesus, os Doze Apóstolos, o próprio Paulo eram

judeus. Interrogado a respeito do maior mandamento (Mt 22, 36) ou de como receber a vida

eterna em herança (Lc 10, 25), Jesus se reporta aos preceitos judaicos de amor a Deus e ao

próximo (Mt 22, 37-39; Lc 10, 27).



Os gestos e as palavras de Jesus chegaram até nós em grego, língua dos quatro

evangelhos canônicos. O mais antigo dos quatro (o de Mc) foi escrito em Roma. Embora de

origem judaica, dirige-se a leitores não judeus. O evangelho de Mateus foi escrito

originalmente em ―dialeto hebraico‖ (= aramaico) e se dirige às comunidades judaico-cristãs.

Já o de Lucas nasceu de e para o mundo greco-cristão. Quanto ao evangelho de João, hoje

se valoriza mais o seu substrato judaico do que suas influências helenistas. O próprio São

Paulo, nascido e formado no judaísmo, conhece e utiliza com brilhantismo a cultura grega.



Entretanto, o cristianismo, tanto nas suas origens judaicas, como na sua inculturação grega,

apresentou-se no mundo antigo como uma nova forma de vida, como um Caminho

diferente. A novidade do Evangelho (= ―Boa Nova‖) de Jesus Cristo não consiste na língua

em que é escrito e proclamado, mas no objeto central do seu anúncio: a pessoa de Jesus.



Todo amor verdadeiro traz sempre consigo a cor e o sabor da novidade. ―A partir da data

que conheci e amei meu marido comecei uma vida nova‖, disse-me uma esposa das

Equipes de Nossa Senhora. A novidade da vida iluminada pelo amor é tal que parece

prometer conservar-se sempre assim, eternamente nova. No entanto, a experiência nos

ensina que, infelizmente, o amor humano envelhece, adoece e pode morrer.



O cantor Gilberto Gil, depois de um casamento fracassado, escreveu:



”Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Se o amor é

como um grão! / Morrenasce, trigo / Vivemorre, pão” (Grão).



A fé ilumina o amor humano com nova luz



O poeta baiano nos lembra a palavra de Jesus: ―Se o grão de trigo que cai na terra não

morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a;

mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna‖ (Jo

12, 24-25). A fé na ressurreição de Jesus, fundamento da esperança cristã na ressurreição

da carne, ilumina as alegrias e frustrações do amor humano com nova luz. Paulo diz que o

amor-agápe jamais acabará (1Cor 13, 8). Já não é, pois, preciso devorar apressadamente

os prazeres desta vida, porque temos pela frente um tempo aberto, que se prolonga até o

infinito. A vida humana ganha em beleza e alegria, quando contemplada à luz da eternidade

(sub especie aeternitatis).



Além da perenidade no tempo, o amor cristão se distingue do mero amor terreno pela

universalidade, no espaço: ―Ouvistes que foi dito: ‗Amarás o teu próximo e odiarás o teu

inimigo!‘ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos

perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o

seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos‖ (Mt 5,43-45). O

fundamento do amor cristão pelos inimigos está no amor do próprio Deus, que não exclui

ninguém, antes privilegia os pecadores.



Amos Oz, escritor israelense dos nossos dias, considera descabida a pretensão cristã do

amor universal. Ao discordar dele, temos o risco de cair na velha tese de um teólogo

luterano, segundo a qual cristianismo e judaísmo seriam radicalmente diferentes: ―No

judaísmo, o amor é exclusivo e particularista. No cristianismo, tem alcance universal... O

amor cristão pretende ser totalmente diferente do amor humano‖ 22.



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Hoje, porém, somos muito mais sensíveis aos valores que o cristianismo herdou não só do

judaísmo, como também da simples natureza humana. Jesus nos revelou, em plenitude, a

capacidade de amar que já está latente em todo ser humano. Este é ―capaz de Deus‖

(capax Dei). Por isso, pode ouvir e fazer sua a mensagem de Jesus. Porque ele é o ―ouvinte

da Palavra‖ (Rahner), isto é, o único ser a quem lhe é dirigida a Palavra de Deus, porque é

capaz de escutá-la e dar-lhe uma resposta. Quem diz com verdade ―eu amo‖ está

prometendo, consciente ou inconscientemente, amar ―para sempre‖. E quem ama

verdadeiramente um só ser humano, está amando, de algum modo, toda a humanidade. Tal

é a vocação irreprimível do amor humano. Nisso, como em tantas outras coisas, ―a alma

humana é naturalmente cristã‖ (Tertuliano).



A revelação judaico-cristã, porém, não se limita a revelar ao ser humano o que, no fundo de

si mesmo, já sabia. Em um dos diálogos de Platão, o mestre Sócrates extraía toda a

Geometria de um escravo iletrado. Na Boa-Nova de Jesus Cristo, não. ―Em Jesus, o ser

humano aprende mais do que já sabia sobre si mesmo‖ 23; aprende, em primeiro lugar, que a

vocação humana transcende, no tempo e no espaço, o mundo transitório em que vivemos.



Outro traço característico do amor cristão é a sua gratuidade e incondicionalidade. Nygren

enfatizou também este aspecto: ―Como o amor de Deus (é absolutamente gratuito), o amor

cristão deve ser espontâneo e não motivado, livre de todo cálculo, sem limites nem

condições‖ 24. Jesus reafirma a idéia da pertença total do ser humano a Deus. A exigência

decorrente deste sentido de pertença é total e incondicional: ―Amarás o Senhor, teu Deus,

com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas

forças‖ (Mt 12,20). Não se trata aqui de um amor de desejo (eros), nem mesmo de um amor

de amizade (philia), que aliás suporia uma certa equivalência entre Amado e amante.

Estamos diante do amor na sua mais alta e profunda radicalidade (agápe). O que não leva a

marca do agápe, ao menos na sua intencionalidade, não merece o nome de amor cristão25.



Finalmente, o traço mais inequivocamente original do amor cristão é o fato de ser um amor

crucificado, isto é, um amor que se esvazia de si mesmo, para doar-se a todos e, de

maneira preferencial aos pobres, aos excluídos. Jesus não veio para chamar justos, mas

pecadores. Aqui, sim, o amor cristão se diferencia do mero amor humano. Porque é próprio

deste o desejo de elevar-se, ―subir na vida‖, realizar-se e usufruir da maior felicidade

possível. Pelo contrário, o amor de Deus, em Cristo, revelou-se como um amor que se

abaixa, que não quer destacar-se nem aproveitar-se da condição divina, mas assume a

condição de escravo, humilhando-se e fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz (Fl

2,6-8).



No centro da pregação de Paulo está a cruz de Cristo. E Cristo crucificado é ―escândalo

para os judeus, loucura para os gentios‖ (1Cor 1,23). A cruz e o amor são uma mesma

coisa. Sem a cruz, não se compreenderia a profundidade do amor de Cristo. Quando Paulo

fala da cruz de Cristo está falando do amor de Deus26:



“A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós,

quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).

“Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a vida por nós” (1Jo 3,16).



A cruz de Cristo prova a existência de um amor que se doa até ao sacrifício da própria vida.

Cristo morreu pelos fracos, pelos ímpios, pelos pecadores, pelos inimigos... Não há maior

manifestação de amor gratuito. A cruz é a expressão mais alta do amor de Deus27.



CONCLUSÃO: O AMOR É POSSÍVEL!



Nossa pesquisa na cultura atual, na Bíblia e nas línguas clássicas nos leva a concluir que não

podemos ignorar a realidade onipresente do amor, nem falar indiscriminadamente deste:





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



“Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão,/

não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente,

não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo

essa palavra que é toda sigilo e nudez,

perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie”.

(Carlos Drummond de Andrade, ―O Seu Santo Nome‖).



Inácio de Loyola é também muito discreto ao falar do amor. Não ignora a importância do

afeto na vida humana. Muito cedo perdeu aquele amor primeiro, que marca uma pessoa,

para o resto da vida: o amor materno. Na juventude, ―foi tentado e vencido pelo vício da

carne‖, segundo testemunho do seu companheiro Laínez. Convertido, aos trinta anos, fez

voto de castidade e, durante toda a sua vida, será fiel a diversas amizades femininas, como

mostra sua abundante correspondência.



Nos Exercícios Espirituais, a conversão do exercitante e o chamado ao seguimento de

Jesus passam por um processo de ordenação dos afetos. Não se trata de matar o afeto,

mas de ordená-lo. No Princípio e Fundamento, Inácio evita a palavra amor, que poderia

sintetizar, porém, o ―louvar, reverenciar e servir‖ (EE 23). Mas na contemplação final dos

Exercícios (―Contemplação para alcançar amor‖), o exercitante pede a graça de ―em tudo

amar e servir‖ (EE 233). Pouco antes, Inácio adverte que ―o amor consiste mais em obras do

que em palavras‖ (EE 230). Amar alguém não significa apenas dizer I love you. Amar

alguém significa querer o bem dele e fazer todo o possível para que seja feliz.



O modelo absoluto, o paradigma do amor cristão é a vida e a morte de Jesus. Por isso,

Inácio só fala do amor depois de o exercitante ter contemplado demoradamente os

―mistérios da vida de Cristo‖. Toda a vida de Jesus foi uma vida para os outros, uma pro-

existência: ―Tendo amado os seus que estavam no mundo, Jesus amou-os até o fim‖ (Jo

13,1b). A expressão ―até o fim‖ (eis télos), aqui, não tem apenas sentido temporal (até o final

da sua vida), mas indica ainda a intensidade e radicalidade do extremado amor que levou

Cristo a entregar sua vida por nós.



Inácio deu diversos avisos aos seus companheiros sobre como tratar o próximo. No início de

um deles, como resumo de sua espiritualidade, escreveu: ―Jesus, meu amor, foi

crucificado‖28. Como toda espiritualidade cristã, a espiritualidade inaciana é cristocêntrica.

Amar cristãmente será, pois, amar como Jesus amou.



Mas, é possível amar assim? É possível amar até o fim, até o extremo de dar a vida por

seus amigos (Jo 15,13)? É possível amar os inimigos e perdoar os que nos tiram a vida (cf.

Lc 23,34)? Sim, queremos afirmar com firmeza, é possível amar assim, porque assim amou

o homem Jesus de Nazaré, que se fez igual a nós em tudo, menos no pecado (Hb 4,15). O

amor com que Cristo, Nosso Senhor, continua a nos amar, com um Coração de homem,

prova que o amor humano é possível.



Jesus nos ensinou a amar, não apenas com o seu exemplo exterior. Admirar alguém não

nos capacita para imitá-lo. Jesus nos ensinou a amar, amando-nos e fazendo-nos sentir

amados, no mais íntimo do nosso ser. O único modo de aprender a amar é sentir-se amado.

Uma exercitante dizia, com a lucidez que Deus dá no clima de silêncio profundo: ―A causa

de muitos dos meus pecados é não me ter sentido amada. Desde criança, sempre desejei

ser amada e nunca consegui... Até hoje, não tinha feito a experiência do amor de Deus‖.



Sentindo-se ―Filho muito amado‖, Jesus pode nos amar gratuita e incondicionalmente:

―Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo‖ (Jo 15.9). E, amando-nos, nos fez



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



capazes de amar: ―Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei‖ (Jo 15,12). O novo

mandamento não é, para nós, uma ordem externa, é uma necessidade interna,

conseqüência natural de nos sentirmos tão amados. ―Só o amor é digno de fé‖ (Von

Balthasar). E, entre todos os amores humanos, nenhum é tão digno de fé como o amor de

Jesus Cristo, Nosso Senhor.



Em outro lugar, contei o caso de uma jovem apaixonada por um radialista, ao qual jamais

viu, mas cuja voz escutava todos os dias29. São Pedro diz que os cristãos amamos o Senhor

Jesus sem nunca tê-lo visto e que isso será para nós ―fonte de alegria inefável‖ (1Pd 1,8).

Famintos desta alegria, sedentos de amor, escutamos, todos os dias, a Palavra do Senhor.

A Palavra nos convida a entrar em comunhão com Jesus, no sacramento da Eucaristia. E a

mesa eucarística nos leva a viver em comunidade fraterna, buscando em cada irmão e irmã

necessitados de amor o rosto sofrido do Senhor. ―A amizade com os pobres – escreveu

Inácio – nos faz amigos do Rei eterno‖ 30.



Quero terminar com o testemunho de um dos maiores autores espirituais do século XX,

Thomas Merton. Sendo monge, aos 51 anos, apaixonou-se por uma jovem enfermeira. No

começo, pensou que aquele amor humano poderia ser integrado na sua vocação monástica e

sacerdotal. Mas, ao crescer, na linha da exclusividade característica do amor erótico,

compreendeu que era incompatível com a sua vocação. Depois de nove meses de sofrimento,

Merton renunciou à relação humana mais profunda que jamais experimentara, ao longo de

uma vida rica de experiênciais espirituais31. Homem sensível à beleza, poeta e místico, Merton

deixou-nos um belo testemunho: ―O amor é a epifania32 de Deus em nossa pobreza‖.



NOTAS:

1

Pedro Salinas, De Amor. Madrid, Mondadori, 1998, 14.

2

Carlos Palácio, ―Amor Impossível? Perspectiva Cristã sobre um problema cultural‖,

Convergência 35 (junho 2000), 281 e 282.

3

Rubens Alves, em: Diário do Povo, Campinas, 11 de junho de 1990.

4

Ubiratan Brasil, ―Curiosidade levou Barnes a escrever ‗Love, Etc‘‖, O Estado de São Paulo,

24 de setembro de 2000.

5

Janaína Rocha, ―A alegria do parceiro que Nélson ensinou a ser triste‖, O Estado de São

Paulo, 25 de set. de 2000.

6

Paulo Mendes Campos, O amor acaba. Crônicas líricas e existenciais. Rio de Janeiro,

Civilização Brasileira. Reproduzido no caderno ―Mais‖, Folha de São Paulo, 2 de janeiro de

2000.

7

Pierre Grelot, em: Revue Biblique, 1999, p. 253-255, comentando a obra de Othmar Keel,

Le Cantique des cantiques (―Lectio Divina. Commentaires‖, 6). Paris, Cerf, 1999.

8

Introdução ao Cântico na Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. SP, Edições Paulinas, 1990.

9

Cf. Celso LORASCHI, ―Quem é esta que sobe do deserto encostada ao seu amado?‖,

Estudos Bíblicos, n. 67 (2000), 45-51. Este autor apresenta interessante interpretação

histórico-social e feminista do Cântico, distante da interpretação alegórica tradicional.

10

O Estado de São Paulo, 28 de agosto de 1999.

11

Pr 5,20; 11,22; 19,13; 21,9; 25,24; 27,15; 31,3; Eclo 25,12-26; 26,6-12; 42,12-14...

12

Cf. Pr 18,22; 19,14; 31,10-31; Eclo 26,1-4; 13-18; 36,21-27...



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13

A distinção é didática. O termo grego agápe pode ser traduzido tanto por dilectio como por

caritas.

14

Isabelle BOCHET, Saint Augustin et le désir de Dieu. Paris, Études Augustiniennes, 1982,

277-278.

15

Jean-Yves Leloup, Caminhos da realização. Dos medos do eu ao mergulho no Ser.

Petrópolis, Vozes, 1999, p. 184.

16

Autobiografia de Inácio de Loyola.Trad. e notas: Pe. Armando Cardoso, SJ. SP, Loyola,

1987, p. 22 (n.6).

17

Ignace Lepp, Psychanalyse de l‟amour. Paris, Grasset, 1959, p. 19.

18

Alfonso García Rubio, Nova evangelização e maturidade afetiva. SP, Paulinas, 1993, p.

106.

19

Versão grega da Bíblia hebraica.

20

Jean-Yves Leloup, op. cit., p. 185.

21

A Carta a Diogneto. Petrópolis, Vozes, 1976 (Col. ―Fontes da Catequese‖, 10).

22

Anders Nygren, Erôs et Agápe. La notion chrétienne de l‟amour et ses transformations.

Paris, Aubier, s.d. (Original sueco de 1930), Vol. I, pp. 59 e 94. Palácio diz: ―A maneira de

Jesus amar inverte radicalmente o que habitualmente chamamos amor‖ (loc. cit. 287).

23

C. Palácio, loc. cit., p. 285.

24

A. Nygren, p. 93.

25

Id., ib., p. 94

26

Id., ib., 122 e 129.

27

Id., ib., 123-124.

28

Cartas de Santo Inácio de Loyola. Vol. 2. SP, Loyola, 1990, p. 149s.

29

Luis González-Quevedo, Experiência de Deus: Presença e Saudade. (Col. ―Leituras e

Releituras‖, 2). SP, Edições Loyola, 2000, p. 71.

30

Carta aos padres e irmãos de Pádua, 7 de agosto de 1547, cit. em: Congregação Geral

XXXIV da Companhia de Jesus, decreto 2, n. 8. Cf. Gustavo Gutierrez, ―Amigos de Deus,

amigos dos pobres‖, Itaici, n. 27 (março 1997), 72-78.

31

A ―crise sentimental‖ de Thomas Merton é descrita por John Howard Griffin, Follow the

Ecstasy (JHG Editions/Latitudes Press), cit. por Mario Sarrionandia, ―Una crisis sentimental

en la vida de Thomas Merton‖, El Ciervo. Barcelona, 36 (julio-agosto, 1987), 25-26.

32

Epifania: manifestação.





ORAÇÃO INACIANA





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Traduzimos e adaptamos texto publicado, sem indicação de autor, em “Cuadernos de

Espiritualidad” (Santiago de Chile), n. 123 (set.-out. 2000) pp. 3-4.



ORAR NOSSA PRÓPRIA AFETIVIDADE

1. Procure entrar em oração, pacificando todo o seu ser: corpo, mente, afetividade. Sentado

ou caminhando devagar, enquanto se dirige ao lugar que escolheu para rezar, respire

profundamente até sentir quietude e paz interior. Apresente-se ao Senhor na sua verdade,

tal como você é neste momento: condições físicas, estado de ânimo, desejos espirituais...

Acolha o silêncio, afastando todo temor ou inquietação.



2. Tome consciência da presença do Senhor. Você não está sozinho(a). Ele olha para você

com amor; Ele o aceita e o escuta. Peça ao Espírito Santo que venha orar em você.



3. Lembre uma imagem, cena ou frase que o ajude a entrar em clima de diálogo com o

Senhor. E deixe brotar a petição muito vital que traz no coração, neste momento.



Após esses ―preâmbulos‖, tome os seguintes ―pontos‖ para o diálogo com o Senhor, em um

ou vários tempos de oração:



 Imagine o olhar de Deus sobre sua realidade afetiva:



o Será um olhar de reprovação ou de desconfiança? (―Olhe o terreno que você está

pisando!‖); um olhar de frieza e desinteresse? (―Você quis isso, agora vire-se

sozinho!‖).



o Ou um olhar de amor e de alegria (cf. Is 62,5), de misericórdia e compaixão (cf.

Lc 15,2)? Um olhar de Pai maternal, que respeita a sua liberdade e quer ajudá-lo

a viver em plenitude!



o Faça oração com as respostas que surjam no seu coração.



 Examine o sentido de suas relações humanas:



o Estão regidas por um claro projeto de vida familiar, profissional, religiosa?



o Esse projeto de vida é um projeto de amor? Você vive esse projeto com paz e

alegria?



o Faça oração com as respostas que se lhe ocorrem.



 Que pessoas ocupam, atualmente, os primeiros lugares na sua afetividade? Faça-as

subir ao ―podium‖ do seu afeto: A quem daria a ―medalha‖ de ouro, de prata e de

bronze?



o Essas pessoas trazem harmonia e equilíbrio à sua vida? Ajudam-no a viver o seu

projeto de vida, com dinamismo e alegria?



o Ou essas relações privilegiadas complicam a sua vida, freando o seu

crescimento humano e espiritual?



o Faça oração com as respostas que o Senhor lhe sugerir.



Ao concluir cada tempo de oração, procure dialogar mais pessoalmente com o Senhor,

oferecendo-lhe as conclusões da sua oração e pedindo-lhe confirmação do que lhe parece

ser vontade Dele.





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ORAÇÃO INACIANA



REZAR NA DESOLAÇÃO1

1. Rompimento da fraternidade (Gn 4,8-16)



a) O Senhor perguntou a Caim: ―Onde está o seu irmão Abel?... O que foi que você fez?‖

(vv. 8-12).



b) Caim disse: ―Minha culpa é grave e me atormenta... Terei de esconder-me de ti, andando

errante e perdido pelo mundo; o primeiro que me encontrar, me matará‖ (vv. 13-14).



c) ―O Senhor (YHWH, Adonai) colocou um sinal sobre Caim, a fim de que ele não fosse

morto por quem o encontrasse‖ (vv. 14-16).



2. Passagem do Mar Vermelho (Ex 14,1-32)



a) ―Cheios de medo, os filhos de Israel clamaram ao Senhor (YHWH, Adonai)‖ (vv. 1-12).



b) Moisés disse ao povo: ―Não tenham medo. Fiquem firmes e verão o que YHWH fará hoje

para salvar vocês... podem ficar tranqüilos‖ (vv. 13-20).



c) ―Moisés estendeu a mão sobre o mar e YHWH vez o mar se retirar com um forte vento

oriental, que soprou a noite inteira... Nesse dia, o Senhor salvou Israel da mão dos egípcios‖

(vv. 21-31).



3. Como ser líder de um povo insatisfeito? (Nm 11,1-32)



a) A multidão, faminta, começou a reclamar: ―Quem nos dará carne para comer? Que saudade

dos alhos e das cebolas do Egito! Agora não temos outra coisa além desse maná!‖ (vv. 1-9).



b) Moisés ouviu o povo reclamar e disse ao Senhor (YHWH, Adonai): ―De onde vou tirar

carne para dar a todo esse povo?‖...Eu sozinho não consigo carregar o peso de todo este

povo!... Por que me tratas tão mal? Prefiro a morte! (vv. 10-15).



c) Moisés reuniu 70 anciãos do povo. Josué era seu ajudante desde a juventude. E o

Senhor levantou do mar um vento que arrastou bandos de codornizes, fazendo-as cair no

acampamento (vv. 16-32).



4. Desolação de Elias (1 Rs 19,1-8)



a) Elias ficou com medo e partiu. Chegou a Bersabéia... e continuou a caminhar pelo

deserto... Por fim, sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a morte: ―Para mim, chega

Senhor! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor que meus pais‖ (vv. 1-4).



b) ―Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e lhe disse: ―Levante-se e

coma‖. Elias abriu os olhos... Comeu, bebeu e deitou-se outra vez (vv. 5-6).



c) O anjo do Senhor (YHWH, Adonai) o tocou de novo: ―Levante-se e coma, pois o caminho

é superior às suas forças‖. Elias se levantou, comeu, bebeu e caminhou quarenta dias e

quarenta noites até o Horeb, a montanha de Deus (vv. 7-8).



5. Experiência de Deus de Elias (1Rs 19,9-14)





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a) Elias entrou na gruta da montanha e aí passou a noite. ―Que fazes aqui, Elias?‖(vv. 9-10).



b) Houve um furacão, um terremoto e, depois, apareceu o fogo (vv. 11-12).



c) Ouviu-se uma brisa suave...: ―o que é que você está fazendo aqui, Elias?‖ (vv. 13-21).



6. Desolação de Jeremias (Jr 15,10-21)



a) ―Ai de mim, minha mãe, por que me puseste no mundo! Todos me amaldiçoam... Javé

(YHWH, Adonai), será que eu não te servi do melhor modo possível?... Lembra-te de mim,

ajuda-me, não me deixes perecer... Olha como suporto insultos por tua causa‖ (vv. 10-15).



b) ―(Outrora) a tua Palavra era festa e alegria para o meu coração, porque eu levava o teu

nome, o Senhor, Deus dos exércitos! (Mas, agora), será que Tu te transformaste para mim

em rio enganoso e água inconstante?‖ (vv. 16-18).



c) O Senhor me respondeu: ―Se você voltar, farei você voltar a estar ao meu serviço.

Lutarão contra você, e não o vencerão; porque eu estou com você para livrá-lo e salvá-lo.

Oráculo de Javé‖ (vv. 19-21).



7. O profeta é seduzido por Deus (Jr 20,7-12)



a) Tu me seduziste, Javé (YHWH, Adonai), e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que

eu e venceste (vv. 7-8).



b) Eu me dizia: ―Não pensarei mais Nele, não falarei mais no seu nome! Estou cansado de

suportar. Não agüento mais!‖ (vv.9-10).



c) Porém, Tu Senhor, estás ao meu lado. Tu vês o meu coração. A Ti confiei a minha causa!

(vv. 11-12).



8. Temer só a Deus (Is 8,11-15)



a) Assim me disse o Senhor (YHWH, Adonai), enquanto me segurava pela mão... (v. 11).



b) Não participem do medo desse povo, não se apavorem (v. 12).



c) Chamem de Santo só ao Senhor... Dele sim, tenham temor (v. 13).



9. O Senhor é meu pastor (Sl 23/22)



a) ―Javé (YHWH, Adonai) é o meu pastor. Nada me falta‖ (vv. 1-3).



b) ―Mesmo que eu passe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, porque Tu estás

comigo... Teu bastão e teu cajado me deixam tranqüilo‖ (v. 4).



c) ―Diante de mim preparas a mesa... unges minha cabeça com óleo...‖ (vv. 5-6).



10. De quem terei medo? (Sl 27/26)



a) ―Javé (YHWH, Adonai) é minha luz e salvação: de quem terei medo?‖ (vv 1-3).



b) ―Uma só coisa peço ao Senhor. E só esta procuro: habitar na casa de Javé, todos os dias

de minha vida‖ (vv. 4-6).



c) ―É tua face que eu procuro, Senhor‖. ―Não me escondas a tua face‖. ―Espera em Javé.

Seja firme e corajoso(a)‖ (vv.7-14).



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11. Confiança (Sl 130/131)



a) Senhor, meu coração não é ambicioso... Não ando atrás de grandezas (v.1).



b) ―Eu fiz calar e repousar meus desejos, como criança desmamada no colo de sua mãe‖ (v. 2).



c) ―Israel (substitua por seu nome), coloque a esperança no Senhor, desde agora e para

sempre‖ (v. 3).



12. Deus nos prova na paciência (Eclo 2,1-6)



a) Meu filho, se desejas servir ao Senhor, prepara-te para a provação (vv. 1-2).



b) Sofre as demoras de Deus... (vv. 2-4).



c) Porque o ouro é provado no fogo e as pessoas escolhidas, no cadinho da humilhação (vv.

5-6).



13. Tempestade no mar da Galiléia (Mt 8,23-27)



a) Jesus e os discípulos entraram na barca. E eis que houve grande agitação no mar, de

modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia (vv. 23-24).



b) Os discípulos o acordaram: ―Senhor (Kyrie), salva-nos, porque estamos afundando!‖

(v.25).



c) ―Por que vocês têm medo, homens de pouca fé (oligo-pistoi = de fé curta)? E, levantando-

se, ameaçou os ventos e o mar, e tudo ficou calmo (vv. 26-27).



14. Não tenham medo! (Mt 10,26-33)



a) Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. (vv. 26-28).



b) Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no

chão sem o consentimento do Pai de vocês (vv. 29).



c) Quanto a vocês, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenham medo!

Vocês valem mais do que muitos pardais (vv. 30-31).



15. O Senhor nos convida a descansar (Mt 11,28-30)



a) ―Vinde a mim, vós que estais cansados. Eu lhes darei descanso‖ (v. 28).



b) ―Tomem meu jugo (= escutem minha palavra). Eu, manso e humilde de coração, serei

vosso descanso‖ (v. 29).



c) ―Meu jugo (= minha doutrina) é suave‖ (v.30).



16. Jesus e Pedro, caminhando sobre as águas (Mt 14,22-33)



a) Jesus estava rezando, sozinho, na montanha, enquanto a barca de Pedro enfrentava a

tempestade. Depois, veio até os discípulos, andando sobre o mar. Os discípulos,

apavorados, gritaram de medo: ―É um fantasma!‖ (vv. 22-26).









32

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b) ―Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!‖ Pedro disse: ―Senhor, se és tu, manda-me ir ao

teu encontro, caminhando sobre a água‖. Jesus respondeu: ―Vem!‖. E Pedro andou sobre as

águas (vv. 27-29).



c) Sentindo o vento, Pedro ficou com medo e começou a afundar: ―Senhor, salva-me!‖

Jesus, segurou-o e lhe disse: ―Homem fraco de fé, por que duvidaste?‖ O vento cessou.

―Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!‖



17. “Não tenhas medo, pequeno rebanho...”(Lc 12,22-32)



a) ―Não vivais preocupados com o que comer... nem com o que vestir... será que vós não

valeis mais do que os pássaros?‖ (v. 22-24).



b) ―Quem dentre vós pode, com sua preocupação, acrescentar um minuto à duração de sua

vida?... Olhai como crescem os lírios do campo...‖ (vv. 25-28).



c) ―Não vos inquieteis!... Não tenhais medo... pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o

Reino‖ (vv. 29-32).



18. Somos filhos de Deus e herdeiros da glória (Rm 8,14-18)



a) Guiados pelo Espírito de Deus, somos filhos de Deus. O próprio Espírito nos garante isso.

Não recebemos um Espírito de escravos, para ter medo, mas um Espírito de filiação adotiva,

que nos faz dizer com liberdade e confiança: Abba! Pai! (v.14-16).



b) Somos filhos no Filho, logo somos também herdeiros de Deus, junto com Cristo. Agora

participamos dos seus sofrimentos. Amanhã participaremos da sua glória! (v.17).



c) Lembrarei sempre que os sofrimentos do momento presente não se podem comparar

com a glória futura a que estamos destinados (v.18).



19. Reavive o dom de Deus que está em você (2Tm 1,6-14)



a) Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de

sabedoria. Não se envergonhe de dar testemunho de nosso Senhor (vv. 6-8).



b) Jesus Cristo nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, desde toda a eternidade

(vv. 9-11).



c) Como Paulo, prisioneiro por causa do Evangelho, não me envergonharei. Sei em quem

coloquei a minha fé (= confiança amorosa). Conservarei esta atitude de confiança com o

auxílio do Espírito Santo, que habita em mim (vv.12-14).



20. Deus é amor e o Amor lança fora o temor (1Jo 4,7-21)



a) Deus é amor. Ele nos amou primeiro, está conosco, deu-nos o seu Espírito (vv. 7-13).



b) Nós reconhecemos e acreditamos no amor que Deus tem por nós. Temos plena

confiança no dia do julgamento, porque o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo

(14-17).



c) No amor não existe medo. Pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo. Quem sente

medo ainda não está realizado no amor. Quanto a nós, amemos, porque Ele nos amou

primeiro (vv. 18-21).



21. A Igreja celeste, Nova Jerusalém (Ap 21,1-4)





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a) ―Vi um novo céu e uma nova terra... a Nova Jerusalém... como noiva enfeitada para o seu

Esposo‖, Cristo (vv. 1-2).



b) ―Ouvi uma forte voz: Esta é a morada de Deus com os homens‖, Emanuel (v. 3).



c) ―Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais

luto, nem grito, nem dor, porque as coisas antigas passaram‖ (v. 4).



NOTAS:

1

Na desolação, Inácio recomenda ―insistir mais na oração, meditação e em examinar-se

muito‖ (EE 319,2).









SUBSÍDIO



A autora é religiosa, Beneditina da Divina Providência, formada em Psicologia.



O AMOR

Janaína Clara Nazário



“Há mais alegria em dar

do que em receber”.



Amar quem sabe amar não é difícil, porque a reciprocidade de afetos é espontânea, livre,

sem subterfúgios. Amar quem já ―se ama‖ não é difícil, pois sua auto-estima tem como

alicerce a confiança básica, condição indispensável para estabelecer vínculos maduros.



Amar quem não sabe amar é difícil. Tudo se dá na base da troca, do ―toma lá, dá cá‖, a

relação acontece mediante cobranças e manipulações do outro.



Quem não se ama não sabe deixar livre aqueles que julga amar, aprisiona, explora, domina.



Quem não conhece o amor não sabe perder, está fechado para a renúncia e para a humildade.



Quem não se ama não sabe lidar com o amor que recebe gratuitamente do outro...

desconfia e não se entrega, não aprofunda a relação.



Quem se ama, ama também o outro e sabe respeitar os limites da fronteira do outro. Não é

invasivo e nem permissivo. Ama sua própria liberdade e a liberdade do outro. Não invade as

fronteiras do outro sem ser convidado, como também não se deixa invadir por elementos

intrusos. Ama a liberdade, porque sabe que depois da vida é ela o dom mais precioso que

todo ser humano tem. Dom este que torna a pessoa mais semelhante ao seu Criador.





ARTIGO



Pe. Paulo Lisbôa tem longa experiência de orientação de Exercícios com acompanhamento

individual. É membro do CEI-Itaici e autor de diversos livros (Orar a Comunhão. Oração

cotidiana na comunhão trinitária,Ed. Loyola, 2000).



TRATAMENTO DE ALGUNS ENTRAVES PSICOLÓGICOS:



34

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



MINHA EXPERIÊNCIA

Paulo Lisbôa, SJ



Introdução



No serviço aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE), em especial durante

os mesmos, nós que acompanhamos a experiência, sentimos cada vez mais a necessidade

de bastante atenção aos possíveis entraves psicológicos. Isso facilitará o discernimento

espiritual, na ajuda a exercitantes que temos aos nossos cuidados em EE de oito e até

mesmo de 30 dias.



No espaço mais reduzido de um artigo de revista, eu me proponho apresentar apenas

quatro aspectos que considero importantes, nessa questão dos possíveis entraves

psicológicos, em pessoas que se apresentam para fazer EE. Nas páginas que se seguem,

apresentarei as resistências em se dar a conhecer [1], o fenômeno do cansaço que beira a

depressão [2], a demasiada centralização na própria pessoa [3], e pela incapacidade de

distinguir moções espirituais de impulsos do inconsciente [4].



Há livros especializados na Orientação espiritual que desenvolvem com mais amplidão o

assunto1. Embora o horizonte desses livros seja também da vida espiritual fora dos EE, as

indicações para esse acompanhamento, fornecem preciosas indicações que podem ser

aplicadas aos tempos de EE.



A minha intenção é apresentar sucintamente, quase a modo de ajudas práticas para o

trabalho de acompanhamento em tempo de EE, aqueles quatro aspectos.



Desenvolvimento



Sendo o mais objetivo possível, procurarei não me alongar em incursões técnicas e

científicas, mas desenvolver cada um dos 4 itens, a partir de minhas experiências pessoais,

no trabalho de acompanhamento em EE. De meus erros e acertos e também de

observações pessoais em supervisões de acompanhamentos é que escrevo2. Estarei

sempre entrevendo situações que aconteceram e que podem acontecer nesses

acompanhamentos. Por isso, o estilo será coloquial, dirigido mais a pessoas que estão ou

se interessam pelo serviço do acompanhamento espiritual em tempo de EE.



[1] As resistências em se dar a conhecer



Acredito que muitos de vocês, acompanhantes, já encontraram, em EE de 8 ou 30 dias e

mesmo em EE na Vida Corrente (EVC), pessoas que resistiam falar de si e de suas coisas,

dificultando o processo de acompanhamento espiritual. Certamente, vocês se deram conta

que isso aconteceu, com mais freqüência, em pessoas antes desconhecidas e que faziam,

pela primeira vez, os EE com acompanhamento individual.



Em casos como esses, é natural que haja dificuldade inicial em abrir-se a partir do interior,

dos sentimentos, dos afetos e desejos e, sobretudo, das dificuldades e problemas atuais,

que pudessem estar interferindo na caminhada dos EE.



É claro que, em se tratando de EE de 8 dias, uma vez que se nota a resistência, deve-se,

imediatamente, cuidar de fazer algo na linha da entre-ajuda que desbloqueie a resistência.

Quando os EE são mais prolongados, pode haver mais calma para agir no sentido desse

desbloqueio. Em qualquer um dos casos será muito útil aproveitar a dinâmica da matéria

que vai ser dada, para sugerir um exercício ou uma oração sobre a história de Deus na vida

pessoal. É importante pedir que o exercitante tenha escrito essa teografia que foi rezada3.







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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Ao falar com o exercitante, é muito oportuno que a conversa parta do que foi escrito. Há

exercitantes que espontaneamente pedem para ler a teografia. Por ela, vocês já terão

elementos importantes que os ajudarão a situar essa pessoa concreta em seu contexto e

momento existencial.



Pode ser que a sugestão dada não seja aceita e acolhida pelo exercitante, ou simplesmente

seja rejeitada. Isso se percebe logo, no primeiro encontro, quando se pergunta, com

delicadeza, sobre o exercício feito. Nesses casos, é necessário induzir os exercitantes, com

muito jeito, a tentarem resumir um pouco a vida atual: situação e atuação na família ou

comunidade, cidade e região de origem, motivações pessoais de vida e até mesmo se há

algo que esteja dificultando a entrada nos EE. Tudo o que for tentado no sentido dessa

abertura, deve ser feito sempre com muita discrição, sem pressa ou ansiedades. Não somos

nós que vamos solucionar o problema. Ter consciência de que a atitude de certa distância

estratégica do acompanhante, facilitará a abertura do exercitante, sem que este se sinta

coagido. O importante é não gerar tensões.



Vocês bem sabem que esse dar-se a conhecer é limitado pela circunstância desse período

concreto de EE, de acordo com a modalidade escolhida. Por isso, devemos nos contentar

com os dados que são fornecidos para o bom prosseguimento da experiência de oração.

Caso contrário, estaremos extrapolando o nosso serviço, abeirando-nos do que faz um

psicólogo e terapeuta4. Isso inclusive poderá ter o efeito negativo do fechamento definitivo

das pessoas em questão.



A “chave de leitura” do acompanhamento espiritual é

diferente da usada pelo psicólogo.



Na minha prática de acompanhante de EE, percebo que a ―chave de leitura‖ do

acompanhamento espiritual é diferente daquela usada pelo psicólogo. O ambiente do

acompanhamento é de fé, à luz do que disse São Paulo: ―Pois nosso combate não é contra

o sangue, nem contra a carne, mas contra os espíritos do mal...‖ 5. Percebo também que a

minha atitude diante das questões levantadas deve ser diferente. Por exemplo, na situação

de baixa auto-estima, por causa de uma educação castradora, eu a situo na ótica da fé:

―Deus a(o) aceita como você é e não como uma imagem fabricada por seus pais...‖



[2] O cansaço que se aproxima da depressão



Parece que o fenômeno depressivo, hoje em dia, está mais generalizado do que em outros

tempos6. Isso tem a sua repercussão na oração em tempo de EE. Na certa, mais de uma

vez, em EE com acompanhamento, vocês já tiveram casos de gente muito cansada,

beirando a estafa. Sabemos que, por mais boa vontade que essas pessoas tenham em

fazer os EE, não estão nas melhores condições para tirar o fruto deles. Que fazer então?



Tratando apenas daqueles que fazem os EE de 8 dias em grupos7, sugiro alguns

estratagemas para serem utilizados e agilizados conforme os casos.



Com aqueles que se manifestam declaradamente estressados e deprimidos, não há outra

solução senão acolhê-los com muita caridade, desenvolvendo a empatia, que é a

capacidade de situar-se no nível da pessoa acompanhada. Há atitudes, como a do

acolhimento inicial e da escuta atenta ao longo da conversa, entre outras, que predispõem a

isso. Na prática, fazer um caminho paralelo ao que é realizado com os demais participantes

dos EE. Ou seja, é melhor deixá-los livres de acompanhar ou não as atividades em grupo.

Basta que participem das Celebrações Eucarísticas. Entre muitos outros casos, lembro-me

de uma pessoa que acompanhei muitos anos atrás e que estava nessa situação deprimida8.

Procurei receber essa pessoa com todo o carinho e atenção, concedendo-lhe até mais

tempo de atendimento do normal. Ela foi a poucas colocações minhas. Tentei apenas

trabalhar com ela as causas de sua situação existencial. Cuidando para não extrapolar,

servi-me de alguma ajuda psicológica, preparando-a para um possível tratamento posterior.



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



O momento desses EE não deixou de ser a hora da graça para essa pessoa que, a partir

deles, procurou uma ajuda terapêutica mais especializada. Acabou fazendo curso de

Psicologia e, hoje, ajuda outras pessoas nessa área humana. Até hoje somos muito amigos!



Àqueles que se apresentam com um grande cansaço, causado pelo excesso de esforço

despendido até o dia do início dos EE, é preciso ajudá-los a ir entrando pouco a pouco na

oração. Como em todos os grupos, em geral, há muita gente nessa situação, eu costumo

dar mais tempo de sono nos dois primeiros dias e insisto na motivação para esse descanso

necessário. Em alguns retiros para gente menos experiente, pode haver um momento de

relax livre diariamente9.



Especialmente com os que se queixam mais, mesmo depois dos dois primeiros dias iniciais,

costumo motivá-los para que durmam mais e não se preocupem em fazer todos os

momentos de oração. No acompanhamento pessoal, é importante que mostremos

compreensão e muito acolhimento da caminhada de cada um, animando-os sempre10.



[3] A demasiada centralização sobre si mesmos



Não é novidade para quem atende espiritualmente pessoas ou as acompanha em seus EE,

o fato de que a intensa preocupação de alguém consigo mesmo é um desajuste de

personalidade. Não é preciso ser formado em Psicologia para saber que tal desajuste,

chegado a um grau mais intenso, vai impedir um relacionamento interpessoal adequado e

satisfatório. Pessoas que se acham centralizadas demais sobre si mesmas, assim como têm

muito limitada a sua capacidade de intercomunicabilidade com os outros, também terão

muita dificuldade em se comunicar com Deus na oração.



Com certa freqüência, mesmo fora dos EE, encontramos esse tipo de gente que a

Psicologia chama de ―narcisista‖11. Pe. Houdek, SJ, chega a aplicar o fenômeno psicológico

à caminhada espiritual de algumas pessoas, quando para elas “Deus se torna apenas mais

um ser que é obrigado a lhes dar satisfação e prazer” 12.



Nesses casos, a descentralização só será possível, se tivermos condições de reconduzir a

experiência dos EE ao seu objetivo verdadeiro: ao Amor gratuito de Deus, que pode levar a

pessoa em questão também ao amor de seus semelhantes. Durante os colóquios diários,

com muito tato, não deixar que a conversa gire só em torno da problemática pessoal. Às

vezes será preciso provocar essa mudança de rumo com algumas perguntas do tipo:

“...Você está falando desse problema porque os textos dados o levaram a isso?... Você acha

que nos tempos de oração houve conversa com Deus sobre a questão? ...Que tal se você

ficasse mais atento ao que Deus lhe quer falar?...”



Se essas pessoas possuídas de uma ―espécie de narcisismo espiritual‖13 fazem os EE de 8

dias, é um pouco mais difícil conseguir mudança mais substancial. O que se pode, em

tempo tão reduzido de dias, é dar algumas indicações para que elas se habituem a orar na

vida mais altruisticamente. Nesse sentido, será muito bom, renovar a experiência do ―exame

espiritual diário‖, caso esteja já esquecido, ou iniciá-las nessa prática tão altruista14. Seria

bom, também, sugerir a continuidade de um acompanhamento espiritual fora de EE, com

uma terapia psicológica de reforço.



Para as pessoas que fazem outros tipos de EE, especialmente os de mês e na vida

corrente, o procedimento será diferente. Contando com o maior tempo em que estaremos

com as pessoas, poderemos voltar com mais freqüência à proposta de pequenos exercícios

mais voltados para as necessidades reais do povo mais carente e desprotegido de recursos

materiais e espirituais.



[4] A incapacidade de distinguir moções espirituais de impulsos do inconsciente







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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Em seus acompanhamentos de pessoas fazendo EE, vocês certamente já encontraram

mais de um caso com esse tipo de incapacidade. Aliás, isso é mais comum do que se

pensa, especialmente em se tratando de iniciantes. Eu constato mais esse fenômeno nos

que iniciam a caminhada espiritual nos EE. Contudo, não raras vezes eu me deparei com

pessoas que já haviam feito tipos de EE e que ainda tinham dificuldades de bem discernir

essa diferença. A título de exemplo, praticamente em todos os EE de mês que orientei,

sempre houve pessoas com essa dificuldade.



A primeira observação que eu faço é que todos nós acompanhantes de EE ou mesmo fora

deles, deveríamos saber lidar bem com essa situação. Caso contrário, corremos o risco de

estar confundindo estados de espírito e deixando também confusos os que vêm a nós,

atrapalhando-os em sua caminhada espiritual.



É preciso que esteja claro para nós, por um lado, a noção não teórica mas prática de

moções espirituais e suas manifestações, na consolação e desolação espiritual. Por outro,

também mais na prática, a noção de impulsos inconscientes e suas manifestações, na

euforia e no ―baixo astral‖.



O que acontece com bastante freqüência, em especial naqueles que estão iniciando os EE,

é que não sabem lidar com os diversos estados de espírito. Julgam imediatamente que

todas as sensações boas e prazerosas, produzidas por impulsos ou estímulos positivos,

sejam já consolações espirituais, ao contrário, que as sensações menos prazerosas,

originadas por estímulos negativos já sejam desolações espirituais. A primeira coisa que se

deve fazer, nesses casos, é mostrar que as coisas não são assim tão simples e que é

preciso distinguir o psicológico do espiritual. Nesse momento, faz-se necessária uma

explicação a respeito desses impulsos inconscientes, sempre muito ligados ao que é dito na

conversa de cada dia. É muito oportuno também retomar as Regras de discernimento de

espíritos para a primeira semana dos EE15. Supõe-se que as mesmas já tenham sido

explicadas teoricamente, a todo o grupo de exercitantes e que na conversa, sejam

lembradas e trazidas como ajuda imediata na prática de algum discernimento espiritual.



Ultimamente, venho observando um fenômeno que demanda mais discernimento.

Especialmente em pessoas saídas da Renovação Carismática e que vêm para serem

acompanhadas em EE, não raro há uma busca exacerbada de emoções, na linha da

emotividade. Para elas, se não há lágrimas ou outras manifestações epidérmicas, não

houve ―consolação espiritual‖ de que fala Santo Inácio16. Há confusão entre experiência de

Deus e exacerbação da emotividade. A ajuda nesses casos será reconduzir a pessoa em

questão à objetivação da oração, conforme a metodologia inaciana dos EE. Esta sempre

conduz a um esvaziamento de si, que permite a saída para os outros.



Entendida e elaborada aquela distinção, os exercitantes começam a sentir com mais

facilidade e tranqüilidade as moções espirituais que acontecem no interior deles.

Conseqüentemente, estarão mais aptos para realizar a experiência dos EE, onde Deus se

comunica através do que vai acontecendo no mais profundo do ser, pelas consolações e

desolações espirituais.



Conclusão



Há outros obstáculos de ordem psicológica que podem tornar impraticável a realização

satisfatória de EE. Lembro apenas mais três: os medos e fobias apenas sentidos e ainda

não detectados e analisados; a sexualidade não bem acolhida e trabalhada pessoalmente,

gerando desintegração afetiva e as transferências e contra-transferências.



Os medos e a não elaboração da sexualidade são mais claramente reconhecíveis, sem

possibilidades para uma rápida ajuda, em especial, em se tratando de EE de 8 dias. Os

aspectos transferenciais já foram tratados muito bem em artigo de nossa revista, no número





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



especial dedicado ao Acompanhamento Espiritual17. Achei por bem, então, não tratá-los no

espaço deste artigo.



Para terminar, desejo apenas relembrar o que Inácio de Loyola recomenda para quem dá os

EE: ―Aquele que dá os EE não se volte nem se incline a uma parte ou a outra, mas se

mantenha no meio, como o fiel duma balança, deixando agir diretamente o Criador com a

criatura e a criatura com o seu Criador e Senhor‖ 18. Essa recomendação, ao final da 15ª

Anotação dos EE, coloca-nos em nosso ministério de ajuda aos exercitantes, como simples

instrumentos da ação da Graça de Deus. É esta que vai definindo o caminho melhor a ser

seguido pelo exercitante.



Tudo o que eu apresentei acima como propostas e sugestões para o tratamento ou solução

de alguns entraves psicológicos em pessoas que fazem EE, deve obedecer a norma

inaciana do bom senso espiritual. Todas as nossas ajudas, sempre inspiradas na e pela

Graça, apenas procurarão deixar as pessoas mais livres para irem ao encontro direto com o

Criador: ―Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres‖ 19.







NOTAS:

1

HOUDECK Frank J., S.J., Guiados pelo Espírito – Direção Espiritual em Perspectiva

Inaciana. O autor apresenta uma bibliografia interessante de autores americanos (USA),

entre eles o afamado Willian Barry, S.J., já muito nosso conhecido por seus livros sobre a

Oração.

2

Oriento EE desde 1969, mas só a partir de 1975 é que se instituiu aqui em Itaici a prática

dos EE com o acompanhamento pessoal e diário. Eu aderi desde o início a essa prática dos

EE, mais conforme a metodologia inaciana.

3

―Teografia‖: neologismo cunhado pelo Pe. Ulpiano Vázquez, para designar as marcas

deixadas na gente pela ação de Deus. Pessoalmente, utilizo essa expressão ao apresentar

o texto do ―Princípio e Fundamento‖ (EE 23).

4

Todos os autores experimentados em dar EE acompanhados, são unânimes em garantir a

originalidade e distinção do serviço do Acompanhamento ou, como dizem muitos, da

Direção Espiritual (Houdek, Barry e outros) com outros tipos de ajuda puramente

psicológica.

5

Cfr. Ef 6, 12.

6

É o que constatam autores como Houdek, que chega a afirmar que, na América do Norte,

―a maioria dos que iniciam a direção espiritual sofre, pelo menos, uma forma moderada de

depressão psicológica‖. Em nossa realidade sul americana não será diferente.

7

O cansaço próximo à depressão é mais comum em EE de 8 dias. Em EE de mês o

fenômeno é bem mais raro, porque o descanso o equilíbrio psíquico é uma das exigências a

serem avaliadas, para a admissão dos candidatos. Mesmo que possam vir pessoas

estressadas para esses EE, é mais fácil ter razões para afastá-las imediatamente da

experiência.

8

Os EE foram realizados aqui mesmo em Vila Kostka, em um tempo em que ainda não era

muito comum que os EE fossem acompanhados individualmente. Pude assim dedicar mais

tempo à pessoa em questão.









39

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



9

Esses momentos diários de relax grupal foram sempre conduzidos por alguma irmã que

me ajudava. A técnica é conhecida e não é difícil de ser aplicada. Há inclusive gravações já

preparadas, como as do Pe. Pius Sidegum, SJ.

10

O ideal para bem realizar os EE é que as condições físicas do exercitante sejam as

melhores, em vista de se conseguir os frutos de uma oração em maior profundidade.

Contudo, quando isso não acontece, é importante animar e valorizar o pouco que a pessoa

pode realizar no momento.

11

A expressão vem de Narciso, personagem mitológica que enamorou da sua própria

imagem refletida nas águas. Narcisismo é a busca compulsiva de si mesmo.

12

Op. cit. p.29.

13

Idem Ibid. p.28.

14

Para iniciar ou renovar a prática do ―Exame Espiritual Diário‖, cfr. subsídio publicado em

Itaici, nº 40 (junho de 2000), p.24.

15

EE n. 313 – 327. Essas regras, mais próprias para a primeira semana dos EE, tratam

diretamente da consolação e desolação espiritual. Dependendo dos casos, poderão ser de

utilidade também as da Segunda Semana: EE n. 328 – 336.

16

EE n. 316.

17

CARDENAS Veron Salvador, S.J., Alguns pressupostos do Acompanhamento Espiritual –

Itaici, n. 37 pp 57 a 62.

18

EE n. 15.

19

Gl 5, 1.





SUBSÍDIO



Publicamos a parte final de artigo “Sobre o respeito da confidencialidade no acompanhamento

espiritual”, publicado em Cahiers de Spiritualité Ignatienne 91 (1999) 179-188; também em

Manresa 72 (2000) 75-82. Por confidencialidade se entende a “ação de manter o segredo das

informações”. O autor é padre. A tradução portuguesa é do Pe. Paulo Lisbôa, SJ.



A CONFIDENCIALIDADE NO ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL

Gilles Nadeau



Por que preocupar-se da confidencialidade no acompanhamento espiritual?



Em primeiro lugar porque a corrente social atual no que respeita a confidencialidade nos

aconselha a rever nossas práticas na Igreja sobre este tema. Com o fim de proteger o

cidadão, o legislador estuda a possibilidade de colocar exigências profissionais para as

numerosas pessoas que se declaram ―terapeutas‖. Nós desejamos que o acompanhamento

espiritual seja assumido cada vez mais por pessoas formadas e competentes. Sem nos

apresentarmos como ―terapeutas‖, coisa que não somos, desejamos que seja dado ao

acompanhamento uma certa seriedade ―profissional‖, muito particularmente nos Centros de

recurso. É bem possível que as circunstâncias nos levem um dia a dar contas sobre o

respeito à confidencialidade.









40

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



O que poderia acontecer se um dia uma pessoa planejasse formar um processo contra o

seu acompanhante ou contra o Centro de recurso por ruptura de confidencialidade?



Como reagiriam os responsáveis de um Centro de formação espiritual se um de seus

estudantes exigisse consultar seu dossier?



É só para a sociedade civil que existem os códigos de ética institucional e os códigos de

deontologia profissional?



É uma prática corrente em nossas instituições a tolerância clara, firmada, no marco de uma

supervisão?



Existem outras razões mais profundas que lutam pelo respeito escrupuloso da

confidencialidade no acompanhamento espiritual. Procedem da natureza mesma deste

serviço e da relação que se deriva dele.



O acompanhamento espiritual supõe a abertura de coração da pessoa acompanhada. É-nos

dado então, como acompanhantes, entrever uma realidade da ordem do mistério: a relação

de um irmão ou de uma irmã na fé com o seu Senhor. Esta realidade tem aparência do

divino. É da ordem do sagrado. Temos o privilégio de estar diante de uma ―presença real‖ do

Senhor. Difundir aquilo de que somos testemunhas é uma espécie de profanação. Quebrar

a confidencialidade requerida para aproximar-nos de um tal santuário, não nos associa aos

ladrões do Templo? Sabemos o que Jesus fez com eles. A pessoa acompanhada pede-nos

para que vamos com ela até seu santuário interior. Chegados a este lugar é preciso, nos diz

Santo Inácio, deixar que ―o Criador atue sem intermediários com a criatura, e a criatura com

seu Criador e Senhor‖, em uma espécie de silêncio sacro que, a meu entender, deve estar

presente como atitude interior ao longo de todo o acompanhamento. Quebrar a

confidencialidade é quebrar este silêncio e deixar que intervenham outros intermediários,

mesmo que a pessoa acompanhada os ignore.



O andamento do acompanhamento espiritual é impossível sem uma confiança recíproca.

Notemos que o dever do respeito à confidencialidade vale igualmente para a pessoa

acompanhada. Esta pode também enfraquecer a confiança da pessoa do acompanhante,

em conseqüência de uma falta de discrição de sua parte.



Nenhum acompanhamento sem confidências, nenhuma confidência sem segredo.

Confiança, confidência, confidencialidade: outras variantes da palavra ―fé‖. O

acompanhamento espiritual é um ato permanente de fé no Espírito Santo que atua no

coração dos dois. Seguros com essa certeza optamos confiar-nos a outro.



Mas a confiança é frágil. Se a pessoa acompanhada sente-se traída por uma falta de

confidencialidade, reagirá. Poderá decidir terminar a relação, duvidando recomeçar com

outro acompanhante por temor de ser traída outra vez. Poderá também continuar a relação

de acompanhamento, cessando de se confiar internamente. Ela terá medo de se confrontar

com seu acompanhante. Ser acompanhado é consentir em mostrar sua vulnerabilidade. Isso

só se faz em um clima de confiança. Lembremos que a noção de ―confidência‖ pode ser

subjetiva. O que para um parece uma confidência banal pode não o ser para a outra pessoa.

Pouco importa: a confiança é de cada um!



Em forma de conclusão, deixo a palavra às pessoas que acompanhamos.



Querido Acompanhante, Querida Acompanhante



Um dia nossos caminhos se encontraram. Eu lhe pedi um grande serviço: que você fosse

testemunha de minha experiência de Deus e me acompanhasse em meu caminho para Ele.

Você consentiu. Saiba que eu lhe sou muito agradecido. Fazemos juntos uma grande obra.





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Agradeço a sua disponibilidade de tempo e de coração, agradeço sua confiança, agradeço

sua oração.



Quando entro em sua casa tenho sempre um pouco de medo, algumas vezes mais do que

outras. Já reparou? Eu lhe abro o meu coração. Tenho necessidade de dizer tudo a você.

Você saberá compreender-me o bastante pelo menos, para ajudar-me a me compreender a

mim mesmo? Exige muita humildade o mostrar-me tão pobre diante de você, e, sobretudo,

muita confiança. A respeito de sua intimidade, você está seguro de que ninguém pode ouvir,

do exterior de seu escritório, o conteúdo de nossas conversas?



O que você faz com todas as minhas confidências? Eu não exponho aos olhares dos

demais a minha vulnerabilidade e nem as riquezas do meu coração.

Não revele nada, nem sequer de modo indireto, o que eu partilho com você. Para os outros

é tão fácil dar interpretações! Enquanto estamos juntos não tenho nada contra a sua

jovialidade. Conheço a sua delicadeza. Mas, diante dos outros nós dois devemos estar

atentos.



Você deve fazer perguntas e me ajudar a ser verdadeiro(a), de acordo. Mas proceda com

habilidade. Eu não gostaria sobretudo de ficar com a impressão de que você está curioso

por saber de minha vida particular.



Quando me acompanhar não me fale de outras pessoas que você acompanha. Quero ser

único(a) aos seus olhos. Mesmo que você não as nomeie, é sempre possível que eu as

conheça. Além disso, eu poderia pensar que você fala de mim a outros.



Se um outro revela alguma coisa de mim a você, procure esquecê-la. Eu mesmo gostaria de

lhe dizer as coisas que me dizem respeito. De outra forma, há o risco de que não escute o

que eu lhe digo, esperando somente o que eu lhe deveria dizer.



Peço que você recorde ao nosso grupo de partilha e a todo pessoal do nosso Centro de

acolhimento que eles estão também obrigados à confidencialidade. Se meus responsáveis

lhe pedem uma avaliação, converse comigo antes de responder. Eu lhe pedi que você fosse

meu acompanhante espiritual e nada mais.



No curso de sua formação eu aceitei os verbatim1, com a segurança de que você tomará

medidas para que estes textos estejam protegidos e desapareçam depois de utilizados. O

que você faz para responder a esta exigência?



Eu tenho também muitas dificuldades a que você seja a um tempo meu avaliador e meu

acompanhante espiritual. Será necessário que eu fale disso antes de dar meu

consentimento. Pode acontecer que eu o recuse.



Compreendo que você tem necessidade de ajuda e de formação permanente. Quando você

procurar estes meios, peço-lhe que fale de si e não de mim2.



Em reciprocidade, eu me comprometo a respeitar a confidencialidade sobre aquilo que

ocorrer em nossos encontros. Se eu faltar, lembre-me.



Quando você falar de mim, esforce-se para se colocar em meu lugar. Você gostaria que as

suas confidências fossem difundidas como você faz com as minhas? Você ficaria

descontente se eu chegasse de improviso no momento em que fala de mim aos outros?



Você me permite confrontá-lo comigo agora? Quando você falta à confidencialidade, é para

o meu bem ou para valorizá-lo a si mesmo? De onde vêm esses desejos de falar? Onde

está a sua liberdade interior e a sua ―indiferença‖? eu sei que eu sou atrevido. É porque eu

tenho confiança em você, que escolheu o ―difícil ofício do acompanhamento espiritual‖.





42

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Obrigado mais uma vez! Rogo por você... rogo pelos outros.



NOTAS:

1

A expressão indica um texto descritivo do acompanhamento de uma pessoa. Na prática

Norte Americana este texto é entregue para os membros de um grupo de supervisão, que o

utilizam muito discretamente, nas sessões de formação permanente de Acompanhantes. No

Brasil, não existe este costume.

2

Sobre a supervisão, ver: W.A. Barry, W.J. Connolv, A prática da direção espiritual,

DDB/Belarmin, Col.Christus, pp. 238-239; Maurício Giulani, ―Um supervisor?‖, Cahiers de

Spiritualité Ignatienne, volume XXI, nº 81, janeiro-março 1997, pp. 67-71.





SUBSÍDIO



Traduzimos e adaptamos de “Cuadernos de Espiritualidad” (Santiago de Chile) n. 123 (set.-

out. 2000) 30-34. O autor é presbítero. Seu subsídio deve ser complementado com o texto

“Orar a nossa própria afetividade”, publicado neste mesmo número da revista.



REVISANDO NOSSA HISTÓRIA AFETIVO-SEXUAL

Álvaro González e Equipe do CEI (Chile)



Introdução



Integrar nossa vida afetiva e nossa vida sexual é tarefa necessária para toda pessoa e, de

maneira particular, para os(as) consagrados(as), chamados(as) a viver o celibato.

Para tanto, ajuda revisar nossa história afetivo-sexual. Desenvolveremos, assim, a partir da

realidade, uma maior sensibilidade e compreensão de nós mesmos. Isso nos permitirá,

também, partilhar com outros e sarar nossas feridas.



Roteiro para revisar nossa história



a) Família de origem e primeiros anos



1. Nosso desenvolvimento afetivo-sexual foi marcado por nosso contexto familiar. Tenta

explicitar as atitudes e comportamentos dos teus pais, irmãos e parentes, nessa área.



2. Que sabes sobre as circunstâncias da gravidez de tua mãe, nos meses que precederam o

teu nascimento? Que sabes sobre este? Onde nasceste e quem cuidou de ti, depois de

nascer?



3. Conheces alguma foto de ti, quando bebê? Que pensas/sentes de tua experiência de

bebê? Como era ser bebê em tua família?



4. Poderias mencionar dois fatos que te marcaram nos primeiros anos de tua vida?



5. Como e quanto se expressava o carinho na tua família? O que fazias para chamar a

atenção? O que estava permitido e o que estava proibido?



6. Que comentários sobre o sexo eram feitos na tua família? Falava-se sobre o tema ou se

evitava? Como era o ambiente quando se falava do assunto?



7. Que pessoas, fatos ou publicações influenciaram na tua maneira de pensar e agir em

matéria sexual?



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8. Por quem te sentiste amado(a), aceito(a) e apoiado(a) nesta etapa de tua vida?



9. Que temores, inseguranças e invejas te rodeavam, com relação ao carinho de teus pais

contigo e com teus irmãos?



10. Que lembranças tens da tomada de consciência da tua identidade sexual (ser homem ou

mulher)? Como valorizava tua família os meninos e as meninas? Tratava-os de maneira

diferente? Quais eram os critérios com que teus familiares e vizinhos julgavam o

comportamento dos meninos e das meninas?



11. Como foi o despertar da tua sexualidade? Como e quando descobriste ter sensações

sexuais? Como viveste a curiosidade sexual? Participaste de jogos sexuais? Como te

sentiste?



12. Como chegaste a saber a respeito de: a) as diferenças sexuais; b) como nascem os

nenês?; c) as relações sexuais? auto-erotismo (masturbação)?



13. O que mexe no teu coração, depois destas perguntas?



b) Adolescência e juventude



1. Quais são as primeiras lembranças espontâneas desse período?



2. Destaca dois fatos dessa etapa que tenham marcado tua maneira de viver tua afetividade

e sexualidade?



3. Com quem partilhavas tuas preocupações? Eras uma pessoa amigável e socialmente

integrada? Sentias-te aceito(a) pelos outros?



4. Como foram teus encontros com pessoas do outro sexo? a) Encontros e desencontros; b)

namoros e paqueras; c) experiências sexuais.



5. Como te vias como pessoa sexuada? a) Que temores tinhas? b) Como afirmavas a tua

identidade sexual (ser homem ou mulher)? c) Como viveste as mudanças físicas ou

fisiológicas da puberdade?



6. Tiveste episódios ou períodos de masturbação? a) Fantasias que a acompanhavam; b)

temores e sentido de culpa que te deixava; c) que passos deste para resolvê-los?



7. Como te sentias contigo mesmo(a), na juventude? Que ideais, projetos ou sonhos te

habitavam?



8. Tiveste momentos ou etapas em que te sentias inseguro a respeito da tua orientação

sexual? a) Curiosidade ou comportamentos inadequados com pessoas do mesmo sexo; b)

episódios de tipo homossexual; c) atitudes ou condutas provocativas de adultos para

contigo, que te molestaram e prejudicaram.



9. Quais as pessoas e os ambientes que te ajudaram a viver melhor e integrar tua

afetividade e sexualidade? Como aprendeste a expressar teus afetos?



10. O que mexe ainda no teu coração, depois destas perguntas?



c) Experiência atual



Hoje, precisamos revisar e partilhar nossa maneira de nos relacionar e de amar os outros,

para crescer em liberdade interior e capacidade de servir melhor.



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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42







1. Entabulaste relações de amizade verdadeira, nas quais és conhecido(a) em profundidade

e conhecer o outro verdadeiramente? a) O que aprendeste nestas relações? b) Como

expressas, hoje, teu carinho? c) Como expressas tua necessidade de estar perto

(intimidade)?



2. Atualmente, quais são as dificuldades mais importantes que tens na área afetivo-sexual?

a) O quê não tens sabido ou podido viver melhor, nessa área? b) Com quem conversas, a

sério, sobre isso?



3. Se és celibatário(a), quais são as alegrias e sofrimentos da tua vivência celibatária? a) O

celibato te ajuda a amar mais e melhor os outros? b) O que te ajuda e o que te atrapalha

para viver melhor o celibato? c) Como ―seduzes‖ (cativas) os outros?



4. Que pessoas e situações te ajudaram a integrar melhor tua afetividade e sexualidade? a)

O que necessitarias para conseguir uma melhor integração? b) Que passos poderias dar

nesta tarefa de integração?



5. Que dificuldades tens, atualmente, para dar afeto?



6. Ao terminar esta revisão de um aspecto importante de tua história: a) A quem gostarias

de agradecer? b) A quem gostarias de perdoar? c) A quem deverias pedir perdão? d) O que

necessitas tu perdoar?



7. Que pequeno passo queres dar para conseguir uma maior integração afetivo-sexual? O

que mexe no teu coração, depois destas perguntas?





SUBSÍDIO



Catarina e Milton Lacerda são um casal de psicólogos, membros da equipe leiga do CEI-

Itaici.



ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL E PSICOTERAPIA:

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Catarina e Milton Paulo de Lacerda



1.1 Semelhanças



Há muitos pontos de aproximação entre Acompanhamento Espiritual e Psicoterapia, embora

sejam dois campos distintos de trabalho com pessoas. Por isso é importante que o

Acompanhante esteja atento para saber até onde vai seu papel. Podemos destacar, por

exemplo:



Observação do todo da pessoa (do sujeito): da mesma forma que um psicoterapeuta, o

acompanhante precisa estar atento à linguagem verbal e não verbal. Precisa destacar as

atitudes, a postura, o ritmo da fala, o volume da voz, os gestos, o modo de olhar, a

expressão facial e assim por diante.



Privilégio: estar à disposição do outro para acolher sua partilha é um privilégio para ambos,

é serviço e não expressão de superioridade.



Sigilo: Ambos estão ligados ao sigilo profissional (não só ao sigilo natural, também

chamado "discrição"), porque se trata de uma partilha que é feita numa relação de

intimidade. O que é trazido para a partilha não pode ser levado para os demais



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acompanhantes, mesmo que seja feita supervisão de casos. Apenas o conteúdo ali pode ser

levado, não a identidade do sujeito que deve ser resguardada, para que não se entre em

clima de "fofoca", que poria a perder toda a confiabilidade do trabalho.



Relação de confiança: o clima necessário para a partilha é o da confiança mútua. O sujeito

é que escolhe o acompanhante, assim como acontece entre cliente e terapeuta. Como a

Confiança tem por definição "a fé no amor", toda confiança supõe que se acredita ou no

amor da outra pessoa ou, ao menos, na sua boa vontade e honestidade. Trata-se de

comportamento necessariamente ético. Ora só existe ética profissional a partir da ética

pessoal, porque ninguém dá o que nem tem para si mesmo.



Transferência e Contratransferência: São dois fenômenos que ocorrem em todo

relacionamento humano, mais ainda no de Terapia e Acompanhamento, por serem relações

muito próximas. Como Transferência se entende tudo aquilo que acontece no sujeito

durante o processo, seja de Terapia seja de Acompanhamento. É muito comum que ele

projete (de modo inconsciente) na pessoa que o atende fantasias e lembranças passadas

com outras pessoas, introduzindo uma espécie de "filtro" na relação presente. Por exemplo,

pode "ver" no Acompanhante ou no Terapeuta seu pai ou sua mãe ou namorado ou amigo

ou aquele que um dia o prejudicou e assim por diante. - Por outro lado, sempre acontece no

Acompanhante ou no Terapeuta uma reação correspondente, também em nível

inconsciente, que é a Contratransferência. Pode por isso sentir atração ou repulsa,

superproteção (sentir-se mais responsável do que seria conveniente), envolvimento afetivo e

até somatizações (falta de ar, peso na cabeça, palpitações, azia, diarréia, dor de estômago

etc.). Precisa perceber o que acontece no outro e em si mesmo, distinguindo o que é do

sujeito e o que é seu.



Dependência e Simbiose: como na terapia, o acompanhado pode ligar-se

desesperadamente ao Acompanhante, como se fosse tábua de salvação, criando aí uma

dependência prejudicial a ambos. Pode chegar a formar uma simbiose, caso em que um não

consegue viver sem o outro, sob disfarces até piedosos. É importante que o Acompanhante

tanto quanto o Terapeuta sinta-se inteiramente livre para encaminhar o sujeito a outro

profissional, quando necessário, de modo a cortar essa relação viciada.



Autonomia: a finalidade dos dois papéis é ajudar o sujeito a conquistar sua Autonomia, isto

é, a sua liberdade de ter consciência de si mesmo e do que o cerca com realismo, de sentir

com espontaneidade e decidir com objetividade na construção de uma Vida feliz.



1.2 Diferenças



Nos objetivos: a psicoterapia procura libertar o sujeito para a autonomia no plano do seu

relacionamento consigo mesmo, com os outros e até com o ambiente. Na medida em que

liberta realmente a pessoa de seus condicionamentos negativos, pode favorecer a

superação dos impedimentos à fé. Porque a maior parte dos problemas assim chamados

"religiosos", na verdade são problemas de personalidade, em pelo menos 90%. O

Acompanhamento espiritual ideal, por outra parte, acrescenta a dimensão do

relacionamento com Deus e os recursos da Revelação, ou seja, os princípios da S.

Escritura, a experiência de Deus na oração e nos Sacramentos e o testemunho da

comunidade cristã como incentivo para superar o aparente paradoxo da felicidade na

proposta de Jesus. Isto é, que o caminho pascal passa necessariamente pela Paixão e pela

Cruz.



No treinamento: para o Psicoterapeuta requerem-se pelo menos 5 anos de estudo

intensivo e prática em estágios supervisionados para que possa exercer a profissão. Já para

o Acompanhamento Espiritual, a parte teórica mínima é proporcionada pelos Cursos de

Capacitação (CAPs 1 e 2), sendo que no 2º há algum treino no atendimento prático, em

nível de laboratório. Entretanto, além dessa preparação, que podemos chamar de "A Arte de

Acompanhar", é preciso levar em conta o Dom correspondente. Nenhum dos dois se



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improvisa ou se impõe. Tanto Terapia como Acompanhamento são prestação de serviço,

mas o Acompanhamento é feito no nível da gratuidade, como ajuda fraterna.



No processo: A Psicoterapia se inicia com uma Anamnese, levantamento de dados

pessoais e do ambiente do cliente. Prossegue das formas mais inesperadas e variadas,

dependendo da pessoa, do caso e da linha terapêutica adotada pelo profissional. Conforme

o modo de proceder deste, usam-se técnicas diversas, desde a simples escuta até

exercícios de fantasia ou atividades corporais. Segue-se um caminho de começo, meio e

fim, supondo determinada duração também conforme a linha. Não é recomendável que o

terapeuta fale sobre sua própria vida para o cliente. - Já o Acompanhamento restringe-se à

vida de oração do acompanhado, com as implicações desta na vida pessoal, seja dentro de

um retiro seja na vida diária. A interferência do Acompanhante dependerá da conveniência

de esclarecer dúvidas, sugerir novos modos de orar para melhor relacionamento com Deus,

orientar oportunamente quanto ao discernimento dos espíritos, podendo até falar da própria

experiência, se isso lhe parecer oportuno e útil ao acompanhado. Mesmo tendo um início, o

processo de Acompanhamento pode continuar por toda a vida.





SUBSÍDIO



Transcrevemos texto inédito, extraído de “Subsídios em nível psicológico”.



COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL

Catarina e Milton Paulo de Lacerda



Em todo relacionamento humano são muitos os modos de as pessoas se comunicarem.

Pensa-se geralmente na comunicação por palavras. No entanto, há vários outros aspectos

dignos de atenção para quem deseja comunicar-se bem, mais ainda quando se esperam

resultados de especial responsabilidade. Por isso, a afirmação vale também para o

Acompanhamento Espiritual, ocasião em que o Acompanhante segue com alguém

interessado em acertar na vida de oração, dentro ou fora dos EE.



Algumas dicas sobre a Comunicação não verbal podem ser úteis ao Acompanhante, a fim

de despertá-lo para sinais significativos, mas não expressos em palavras. O que vem aqui

exposto nem deve ser tido como ponto de partida para análise psicológica nem para

julgamento de valor sobre as pessoas. São apenas alguns indicadores que ainda

necessitam de observação maior dentro do contexto delas. Afinal, "quem vê cara não vê

coração".



Podem ser aí contados, entre outros possíveis, o Tempo, o Ritmo do discurso, a Expressão

facial, o Sorriso, o Vestuário, o Andar, a Postura, os Gestos e os Olhos1.



2.1. O Tempo: Costuma ser significativo o fato de a pessoa se inscrever logo para ser

atendida ou ficar hesitando, procurar diariamente o Acompanhante durante os EE e, se fora

dos mesmos, nos prazos combinados. Chegar sempre bastante tempo antes da hora ou,

pelo contrário, habitualmente atrasar-se. Tentar abreviar laconicamente a sessão ou, pelo

contrário, procurar estender-se, como quem quer "alugar" a quem a atende, e só no final

"lembrar-se" de algo significativo para partilhar. Qual a mensagem contida nessas escolhas?



2.2. O Ritmo do discurso: Não é à toa que as pessoas falam lenta ou apressadamente,

deixando fluir as palavras ou de modo entrecortado, respirando de modo ofegante no meio

das frases ou de maneira normal. O volume e a entonação da voz podem trair emoções (voz

chorosa, esganiçada, áspera, macia, fininha ou infantil...). Tudo isto pode ser questão de

temperamento e também de formação familiar. São sinais significativos para ser lidos e







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interpretados, mesmo sem a pretensão de fazer uma análise psicológica, pois para isto é

necessário treinamento muito mais exigente e prolongado.



2.3. A Expressão facial: Os cabelos e o modo como estão penteados (ou descuidados), o

enrugamento ocasional ou já marcado da testa, para cima (indicando preocupação,

ansiedade e algum outro tipo de perturbação da tranqüilidade) ou o vinco entre os olhos

(rigidez, severidade, perfeccionismo), o colorido ou a palidez das faces (anemia, medo,

apreensão, timidez...), o morder dos lábios (ressecamento ou motilidade por ansiedade) ou

lábios comprimidos (sinal de propósito firme), cacoetes (piscadelas, fungações,

coceiras...indicando ansiedade, tensão emocional...), narinas abertas (metabolismo

acelerado, prontidão talvez para lutar ou para fugir)



2.4. O sorriso: não basta o posicionamento dos lábios (arqueados para cima). Devem estar

de acordo com o todo do rosto e da postura corporal. Daí podem perceber-se sorrisos

francos, de cabeça bem posicionada, olhar brilhante e lábios entreabertos. Mas também

sorrisos "amarelos", sorrisos de dentes cerrados (agressivos, prontos para morder), sorrisos

de amargura, sorrisos de superioridade e auto-suficiência, sorriso de futilidade, sorriso de

desgosto e desaprovação e assim por diante.



2.5. O Vestuário: o tipo de roupa (clássica, esportiva, bem ou mal passada, ajustada ou não

ao tamanho da pessoa), assim como os sapatos (limpos ou não...) e os enfeites (broches,

bottons, colares, brincos etc.) e o perfume podem sugerir maior ou menor bom gosto ou, até

mesmo, sofisticação e tendência para a vaidade. Até mesmo pode indicar o estado

emocional (mesmo que bem ou mal arrumada, a pessoa pode sentir-se muito à vontade).



2.6. O Andar: a maneira como a pessoa caminha, ao entrar e sair da sala, ou fora dela, com

firmeza e decisão ou, pelo contrário, meio trôpega, hesitante e arrastando os pés; pisando

com força ou tão de leve que mal se escutem os passos como se não quisesse ser percebida.



2.7. A Postura: sentar-se comodamente e bem encostada (ânimo e generosidade, embora

também arrogância) ou, pelo contrário, na beirada da cadeira (estar à vontade e confiante

ou, pelo contrário, insegura e querendo logo ir embora), ficar meio deitada como se

estivesse em cadeira de praia (displicência e comodismo). Ter ombros encurvados e cabeça

baixa, geralmente também com voz submissa (depressão, desânimo, fragilidade,

desconfiança... muitas vezes com boa dose de agressividade contida). Peito aberto e tronco

ereto (abertura e disposição de cooperar). Pernas cruzadas podem mostrar desembaraço ou

simplesmente imitação do outro que já estava assim. Se balançando uma delas na direção

do outro, pode indicar estar à vontade com este. Pelo contrário, se a estiver agitando,

sugere tensão. Levemente flexionadas quando de pé, parece humilhar-se. Respiração

aumentada (tensão e forte emoção), suspiros (ansiedade e angústia).



2.8. Os Gestos: aperto de mão firme (autoconfiança) ou frouxo (receio de envolver-se).

Mãos postas (parecem estar pedindo algo, talvez até pedindo socorro). Ficar segurando

bolsa ou outro objeto (desconforto e confiança ainda pequena). Mãos se arranhando (auto-

agressão). Punhos fechados (tensão ou agressividade contida).Tamborilando com os dedos

ou rabiscando sem parar (como o anterior). Pés cruzados para trás (tolhimento, repressão).

Pés que não param, balançando na vertical (impaciência) ou na horizontal (insegurança,

estar "meio perdido").



2.9. Os Olhos: são "as janelas da alma", revelando atitudes interiores. Olhos brilhando,

dizem entusiasmo e alegria. Mortiços, falam de tristeza e desânimo. Ausentes, exprimem

ensimesmamento. De soslaio, desconfiança. Olhos que se desviam e não se fixam no

interlocutor, falta de maior interesse e, até, insegurança. As sobrancelhas abaixadas

refletem concentração e seriedade. Levantadas, surpresa e alegria.



NOTA:





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1

São muitas as obras de consulta possíveis. De maneira especial, por ser muito intuitivo, vale

verificar "O Corpo Fala", de Pierre Weil, com ilustrações de Roland Tompakow, Ed. Vozes.





SUBSÍDIO



A autora é religiosa da Providência de Gap.



REZANDO A DOR PARA SER CURADO

(exercício de educação, purificação e integração

da afetividade na dinâmica do discernimento)



Maria do Carmo Costa



Pressupostos



1. Ressentimento, mágoa, sentimento de culpa, desânimo, perda de sentido da vida, dor de

se sentir rejeitado, levam ao afastamento ou falta de gosto pela oração. São a causa mais

comum das dificuldades para rezar, refletir, meditar, contemplar. São expressões do nosso

―eu profundo‖ que precisa de socorro; precisa ser curado.



2. Os Exercícios Espirituais supõem que cada pessoa tenha aprendido a acolher, conviver,

deixar acontecer os sentimentos tais quais são: nem bons, nem maus. Apenas sentimentos.

Podem ser agradáveis ou desagradáveis. O discernimento supõe essa aprendizagem...



3. Os exercícios aqui propostos supõe uma atitude interior orante, de profunda entrega ao

Senhor, sem querer ser dono do processo... Fazer apenas os exercícios e não querer

controlar os resultados... eles acontecerão a seu tempo... segundo os desígnios de Deus...



4. A atitude orante básica comporta a mesma pedagogia de Jesus em suas curas no

evangelho, antes de operar um milagre, realizar uma cura.



O que queres que eu te faça? (tomar consciência de si mesmo).



Queres ser curado? Crês nisso? (é verdadeiro seu desejo de ser curado?).



Vai em paz... Tua fé te salvou! (você mesmo agiu na cura).



Exercícios



‖Sofrer para deixar de sofrer... A dor cura a própria dor...‖.



a) Prepare-se para a oração como de costume... Faça algum exercício de consciência de si

mesmo... Coloque-se na presença do Senhor...



b) Procure encontrar seu ―lugar interior de oração‖, o que mais costuma fazer, o mais

agradável, fazendo a composição de lugar... Se possível uma cena evangélica que o

coloque na intimidade do Senhor... ou também uma experiência de oração que marcou sua

vida no passado... Reviva a cena ou a experiência.



c) Estando com o Senhor, deixe seus sentimentos aparecerem como são e como estão no

momento... Sentimento é sentimento... nem bom, ...nem mau (raiva, rejeição ou sentimento

de ser rejeitado, alegria, entusiasmo, vergonha, coragem, ambição) só diferem porque nos

deixam com sensação interior agradável ou desagradável. Deixe seus sentimentos serem o

que são... apenas sentimentos...







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d) Os sentimentos desagradáveis nos bloqueiam, desanimam... Quando isso acontece no

aqui e agora como por exemplo, na oração, é sinal de que precisamos cuidar deles... Na

verdade mais profunda, podemos chamar essa sensação desagradável de Dor – O

sentimento está doendo e quer de mim uma aceitação e acolhida desse fato... O que é

acolher o sentimento?... é deixar doer... acontecer com toda a sua força... Peça a Jesus

para perceber a presença d‘Ele nesse momento de dor.



e) Cada dor tem um nome: raiva, ódio, rejeição, vergonha, culpa, inveja... e tudo mais que

temos direito de sentir como seres vivos. Identificá-la com clareza e liberdade também faz

parte da cura. Uma vez identificada a dor, o sentimento, deixe isso acontecer de novo no

aqui e agora...



f) Se for necessário, procure romper e reviver o fato que lhe causou essa dor. Cuidado! Não

analise... não procure causa e efeito... não explique nada a si mesmo... não atribua culpa

nem a si nem aos outros... Viva simplesmente a dor... Sinta a dor doendo... o que vai curar a

dor é a própria dor... mesmo que lhe pareça morrer com essa dor, não desista... deixe essa

dor doer até acabar... ―Sê curado. Tua fé te salvou!‖



g) Esse exercício o ajudará a curar as dores que carrega do passado... Vá cuidando de cada

situação dolorosa que lhe é dado tomar consciência... não force nada... cuide apenas do

que aparece... cada situação por sua vez ao longo dos dias de oração, seu porão vai sendo

visitado por você mesmo em companhia da pessoa de Jesus... deixe a dor doer... fale com

ele sobre essa dor... mostre a Ele como está doendo... aprenderá, pela experiência, como é

possível limpar o nosso passado... integrá-lo... ter para com você mesmo, para com seu

passado, o mesmo olhar misericordioso do Pai... é a sua parte para ajudar o Pai na sua obra

recriadora... o passado integrado não mais existirá como dor, mas como lugar da

manifestação do Senhor... do encontro com Ele... consigo mesmo... com a sua condição de

criatura... comungando e compreendendo os irmãos...



h) A cura da dor, (o sentimento desagradável que me atinge) é um processo... não está em

nossas mãos saber nem o dia, nem a hora em que seremos curados... nossa parte é

apenas essa: deixar que aconteça a dor... cada vez de novo... conscientemente... sem

justificar ou explicar nada... a qualquer hora ou circunstância... o importante é que ela acaba

e você fica plenamente libertado para viver em plenitude de dor ou alegria o Aqui e Agora...



i) Com a prática deste exercício você passará a ter uma atitude nova diante dos seus

sentimentos. Poderá acolher tanto quanto a dor com a mesma liberdade interior... poderá

tratar adequadamente cada situação presente... não mais precisará jogar a dor no seu

porão... terá melhores condições para discernir no quotidiano da vida a vontade de Deus...

terá melhor disponibilidade, generosidade, criatividade para os apelos do Reino... maior e

melhor empatia com os irmãos... seu mundo interno estará sendo libertado passo a passo...



Retomando os passos do Exercício



1. Prepare-se para a oração.



2. Composição do lugar, da cena, da experiência.



3. Estando com o Senhor, deixe os sentimentos acontecerem. Deixar doer. Peça ao Senhor

que o ajude a perceber a presença d‘Ele neste momento de dor.



4. Identificar, com clareza e liberdade, a sua dor. Dê nome ao que está sentindo, uma vez

feito isso, volte ao presente e deixe acontecer aqui e agora.



5. Se necessário, reviva o fato que lhe causou essa dor. Não analise... não justifique... não

atribua culpa nem a si mesmo nem aos outros. Viva simplesmente a dor... Sinta a dor doendo...





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6. Termine a oração agradecendo ao Senhor por essa experiência que acabou de fazer:

―rezar os mistérios dolorosos de sua própria vida‖.





COMUNICAÇÃO



OS EXERCÍCIOS LEVAM À OPÇÃO

EVANGÉLICA PELOS POBRES

Encontro de Orientadores de Exercícios, 13-15 out. 2000



R. Paiva, SJ



Dimensão social dos EE



O assessor convidado, Pe. José Flávio M. Tardin, SJ, é orientador de EE e autor de

Catequese na Comunidade (Ed. Loyola, 1996) e atua no Centro Santa Fé, dedicado à

promoção integral do jovem trabalhador e suas famílias.



Com fundamentação bíblica, elementos da realidade brasileira, dados da Igreja e referindo-

se sempre aos EE, conseguiu dar-nos uma bem organizada ―composição de lugar‖. Levou-

nos, também, a uma oração bem inaciana, voltada para vencer as afeições desordenadas e

ao serviço do Povo de Deus e da construção de uma sociedade igualitária.



Debates em grupos, espaço onde se manifestaram depoimentos que nos tocaram e

moveram, terminaram com útil plenário. A Liturgia da Missa pôde explicitar o potencial

libertador da Liturgia. Todos testemunhamos que os EE, quando bem dados, suscitam a

opção evangélica pelos pobres.



Troca de experiências



Ágil e bem humoradamente conduzida pelo Pe. Luís Quevedo, a partilha permitiu que

fossemos informados do que ocorre em muitas partes onde os EE são dados. Destaque

para os Exercícios ―leves‖ e até EVC dados nas favelas, a idosos, em leprosário, etc.



O que é fundamental ao dar os EE



Pe. Paulo Lisbôa conduziu o trabalho da manhã de domingo, com introdução breve,

proveitoso trabalho de grupo e eficiente plenário. Resumimos as conclusões para seu

conhecimento e reflexão. Todos os grupos enfatizaram que o silêncio, motivado e

introduzido gradativamente em alguns exercícios preparatórios é um ambiente necessário e

característico da oração inaciana. É preciso sentir e conhecer as moções, em vista do

discernimento, que leva à libertação das redes e armadilhas do pecado e à descobrir a

vontade de Deus na própria vida. Silêncio interior, atenção às moções, discernimento e

serviço são fundamentais na espiritualidade inaciana e devem estar presentes nas

introduções e adaptações dos EE como nos mesmos EE completos.



Outros aspectos: intervenções legítimas e impróprias de quem dá os EE; preparação e

introdução gradativa aos EE; não omitir, no processo, em particular nos EE de 8 dias, a

ajuda para perceber as moções, os exames, sobretudo o geral e o de oração, mas também

o particular, a ―Jornada Inaciana‖ (muito importante para a dimensão social dos EE) e a

reforma de vida. Nesta, ajudar quem faz os EE a ―dar ponto‖, ―amarrar‖ propósitos

concretos.



Encerramento





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



Precedendo a liturgia final, de envio e entrega, Pe. Romanelli nos lembrou que participamos

de uma história que teve o seu começo em Vila Kostka, há bem 30 anos (1971). O encontro

tem uma dupla dimensão: 1ª) estudar um tema que leva a aprofundar alguma dimensão dos

EE. A dimensão social é da maior importância, pois está conforme ao contexto em que

apresentamos os EE; 2ª) Encontro de pessoas, troca de idéias, debate, comunicação.



Agenda



O próximo encontro de orientadores será de 19 a 21 de outubro de 2001. O encontro de

acompanhantes, de 18 a 20 de maio.





LIVROS EM DESTAQUE



Francisco Rinaldo Romanelli, SJ



COLEÇAO “LEITURAS E RELEITURAS”



Em boa hora as Edições Loyola lançam uma nova coleção com textos de espiritualidade. A

coleção ―Leituras e Releituras‖ quer colocar temas de espiritualidade ao alcance do grande

público. Os textos são breves, em estilo acessível aos leitores medianamente familiarizados

com temas de espiritualidade e querem ser lidos e relidos. O formato pequeno (70 ou 80

páginas de 13 x 18 cm), e a capa em cores atraentes, com destaque visual do título,

convidam à leitura. O preço igualmente é convidativo.



 Netto de Oliveira, José Antônio, SJ, Perfeição ou Santidade e outros textos espirituais.

(Coleção ―Leituras e Releituras‖, 1), SP, Edições Loyola, 2000, 72 p. R$ 5,00.



Pe. Netto foi Mestre de Noviços, assessor da CRB e da CLAR e primeiro diretor do Centro

de Espiritualidade de Itaici. Atualmente, é Superior Provincial da Província Centro-Leste da

Companhia de Jesus. Portanto, um homem inteiramente familiarizado com a espiritualidade.



Três artigos compõem o livro: ―Perfeição e Santidade‖; ―Experiência Inaciana de

Discernimento‖; ―Abnegação - Renúncia - Mortificação‖.



O artigo principal já apareceu em Itaici: Revista de Espiritualidade Inaciana, n° 18 (dez.

1994), pp. 5-14. O autor parte da constatação de que muitos cristãos e, particularmente,

cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria e não dão um testemunho vivencial de

que o Evangelho é uma alvissareira Boa Nova. Antes parecem viver um interminável

sentimento de culpa diante de Deus. Buscando uma resposta para esse fenômeno, o autor

aponta como causa principal da mesma, a confusão que é feita entre perfeição e santidade.



O conceito de perfeição que a pessoa tem não é teórico, mas existencial e foi-se formando

através das experiências positivas ou negativas da vida. Ele se identifica no plano pessoal

com não ter defeitos, vícios e pecados. A busca da perfeição torna-se um projeto

voluntarístico, em que a pessoa exige o máximo de si, por vezes prescindindo da ajuda de

Deus e dos outros. Como não consegue avançar muito, ela se entristece, se culpabiliza e se

deixa tomar pelo desânimo. A perfeição visa o próprio sucesso, não tem um referencial fora

de si.



Já a santidade busca acolher o ―Amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo

Espírito que nos foi dado‖ (Rm 5, 5). No processo de santificação, a pessoa aceita, sem

condições, ser amada por Deus em suas fraquezas e limitações, também no seu pecado.

Ela tem consciência de fazer parte de uma Igreja pecadora e santa. A santidade nunca se

fecha, antes, abre-se para Deus acolhendo sua graça e sua misericórdia e abre-se para os

outros no amor, na humilde aceitação de ajuda, no serviço e no dom.





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ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42







Em se tratando de assunto de tamanha importância, a leitura destas páginas faz aflorar o

desejo de que o autor tivesse se distendido mais amplamente sobre o lugar e as expressões

da ascese cristã e do combate espiritual, como formas de colaboração com a graça de

Deus.



A segunda parte do livro aborda o momentoso tema do discernimento, partindo da

experiência de discernimento de Inácio de Loyola, tal qual constatamos na sua Autobiografia

e no seu Diário Espiritual. O autor mostra que o discernimento era uma atitude permanente

na vida de Inácio e que o ―buscar e encontrar a Deus em todas as coisas‖ faz-se o núcleo

mais profundo da espiritualidade inaciana.



O terceiro artigo é tradução e adaptação de um escrito de lrenée Hausher, versando sobre a

Abnegação, a Renúncia e a Mortificação. Com clareza e boa fundamentação bíblica, o artigo

dá a esses conceitos seu sentido profundo, positivo e libertador, resgatando-os da

resistência que lhes confere a cultura egocêntrica, narcisista e hedonista de hoje.



Quem deseja avançar nos caminhos da vida espiritual, certamente encontrará inspiração e

estímulo nas páginas deste livro.



 González-Quevedo, Luís, SJ. Experiência de Deus: Presença e Saudade. (Coleção

―Leituras e Releituras‖, 2), SP, Edições Loyola, 2000, 80 p. R$ 5,00.



O segundo volume da Coleção ―Leituras e Releituras‖ leva o título: Experiência de Deus:

Presença e Saudade. Seu autor não necessita de recomendações entre os nossos leitores.

É o Pe. Luís Quevedo, SJ, ex- professor da Universidade de Goiânia, ex-Mestre de Noviços,

membro do CEI-ITAICI e competente redator de Itaici - Revista de Espiritualidade Inaciana.



Em estilo ameno, recheado de citações e depoimentos, o volume aborda o sempre atual

tema da fé. Num mundo fascinado pelo progresso científico e pelos extraordinários avanços

tecnológicos, ainda haveria espaço para a fé? E, no contraponto dessa pergunta, outras

questões surgem sobre o sentido da vida, do sofrimento, da morte e da esperança.



A primeira parte do livro: ―Experiência de uma Presença‖, retoma um artigo com o mesmo

título, já publicado em: Itaici - Revista de Espiritualidade Inaciana, n° 11, março de 1993, pp.

56-69 e agora inteiramente revisado e atualizado. Aqui são apresentados testemunhos e

feitas considerações sobre a experiência de Deus, que se faz presente na totalidade e na

diversidade da vida: na família e na vida conjugal, na vida consagrada e no sacerdócio, no

mundo dos pobres, na arte e na natureza. É na história concreta que Deus se manifesta a

tantas pessoas, dessa forma gozosa, pacificante e unificadora que a espiritualidade inaciana

denomina ―consolação‖.



A segunda parte: ―Experiência de uma saudade‖, retoma também um artigo já publicado em

Itaici - Revista de Espiritualidade Inaciana, n° 25, setembro de 1996, pp. 39-49. Ela focaliza

a experiência da aparente ausência de Deus, sob os temas da saudade, do silêncio e do

deserto.



A saudade por excelência é a saudade de Deus que brota, por um lado, da necessidade

absoluta de Deus e, por outro, da insuficiência e limitação de toda experiência humana de

Deus. O coração do homem sente-se machucado e perplexo pelo silêncio de Deus, diante

das injustiças e do sofrimento que atinge justos e pecadores. É o que expressam quer os

homens de oração, no livro dos Salmos, quer os homens de letras, na literatura

contemporânea.



O tema do deserto é ambivalente. Na experiência do povo de Deus, o deserto foi um lugar

inóspito, penoso, cheio de tentações, de idolatria, de murmuração. Mas foi também o lugar





53

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



onde Israel nasceu como povo de Deus, na experiência fundante da Aliança. Na vida, faz-se

mister atravessar o deserto para se chegar à Terra da Promessa.



A terceira parte do livro: ―Quem é o nosso Deus?‖, apresenta Deus como o Pai de nosso

Senhor Jesus Cristo, um Deus amoroso e providente, sempre presente, mesmo quando

sentido como ausência. Ele é o Deus de Israel, o Abbá de Jesus, o Deus dos pobres, o

Deus do Reino, o Deus da Vida, o Deus Amor-agape, o Deus nossa esperança, que se

tomou amorosamente visível na existência histórica de Jesus de Nazaré.



Através das páginas deste livro, o leitor se sentira esclarecido em muitas de suas

experiências e, certamente, enriquecido e alimentado. Leitura Recomendada.





LIVROS EM REVISTA



R. Paiva, SJ



 Inácio de Loyola, Santo, Exercícios Espirituais – Apresentação, tradução e notas do

Centro Inaciano de Espiritualidade de Itaici – Edições Loyola, 2000.



Trata-se de uma tradução fiel do texto espanhol, dito ―autógrafo‖ (pois tem correções do

próprio Autor), cotejado com as versões latinas (elaboradas também por ele). No entanto, a

pontuação atualizada, o emprego de termos precisos mas de uso corrente, garantem uma

leitura fácil. O índice remissivo e as notas ajudarão quem se inicia ou retoma os estudos

desta obra prima da literatura espiritual cristã. Em algum ponto (como no Princípio e

Fundamento), seria de desejar que não escasseassem as notas. Algum lapsus de revisão

deverão ser corrigidos em uma segunda edição. Vale à pena conferir!



 NETTO DE OLIVEIRA, José Antônio, SJ, Perfeição ou Santidade e outros textos

espirituais, (Coleção ―Leituras e Releituras‖, 1). São Paulo, Edições Loyola, 2000.



Esta nova coleção se apresenta com a finalidade de publicar textos breves, destinados a

serem lidos, relidos e meditados com olhos novos e novo coração... O primeiro pequeno

volume vem com três artigos do Pe. Netto de Oliveira, primeiro diretor do CEI-Itaici,

conhecido largamente entre os que praticam e estudam os Exercícios Espirituais no Brasil,

atualmente Provincial. Escritos claros, de leitura fácil e iluminadora. O primeiro artigo,

―Perfeição e Santidade‖, tem o grande mérito de afastar do leitor o sentimento de culpa que

nasce da continuada constatação que cada pessoa humana é obrigada a fazer da

persistência de defeitos e limitações ao longo da vida. Este sentimento, faz pensar,

freqüentemente, que não se corresponde à graça, que a santidade é para alguns

privilegiados, que é uma meta inacessível ao comum dos mortais. De fato o Autor consegue

seu objetivo: ajudar a, libertos de uma falsa concepção da perfeição, podermos viver, com

humildade a intimidade, proximidade e alegria com o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. O

segundo artigo, ―Experiência Inaciana de Discernimento” é um clássico. Merecia ser

republicado, lido e relido. O terceiro, ―Abnegação – Renúncia – Mortificação”, é um resumo e

adaptação do artigo de Irinée Hausheer, SJ, um autor de primeira linha, pouco conhecido

entre nós. Na breve introdução, lemos que ―A abnegação dura eternamente; a renúncia,

tanto tempo quanto as solicitações terrestres; a mortificação (no seu verdadeiro sentido, que

é ativo) poderia tornar-se supérflua”. Sugiro que aceitemos o convite e sigamos, com a

retomada do sentido evangélico e paulino destas grandes idéias, o caminho cristão,

contrário ao caminho largo da auto-indulgência sem lucidez com as próprias fantasias,

sentimentos e instintos.



 González-Quevedo, Luís, SJ, Experiência de Deus: Presença e Saudade, (Coleção

―Leituras e Releituras‖,2). São Paulo, Edições Loyola, 2000.







54

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



O segundo pequeno volume desta nova coleção vem dividido em três partes. O Autor é um

dos estudiosos atuais da espiritualidade inaciana, muito conhecido nos círculos de

espiritualidade e vida religiosa consagrada. A introdução, ―A Fé em Deus no limiar de uma

nova era‖, coloca o problema da dificuldade de crer que atormenta muitos de nossos

contemporâneos. Não parece que Deus se esconde? Segue-se ―A experiência de uma

presença‖, que reúne testemunhos da presença de Deus na experiência de muitas pessoas.

Não se trata, de uma colagem de depoimentos, antes é uma reflexão de cunho sapiencial,

ilustrada e confirmada com depoimentos válidos. O segundo tema, ―A experiência da

saudade”, recebe uma iluminação muito forte do acolhimento respeitoso da nostalgia de

Deus, expressa por muitas pessoas sinceras em sua busca, e dos dados das Escrituras e

de textos de poetas da altura de um Pablo Neruda. Finalmente, a parte conclusiva, ―Quem é

nosso Deus‖, procura explicitar a imagem de Deus, o Abbá, o Pai de Jesus, o Deus dos

pobres, o Deus do Reino, o Deus da vida, o Deus Amor- Ágape, para terminar com Deus

nossa esperança. O Autor pretende, visivelmente, oferecer uma ocasião de confiança

esperançosa, nesta virada de milênio, assolada por um ateísmo difuso e pelo sofrimento de

tantas pessoas marcadas pela desumanidade de enormes sofrimentos.



 Lisbôa, Paulo, SJ, Orar a Comunhão – Oração cotidiana na comunhão trinitária. São

Paulo, Loyola, 2000.



Um dos poucos livros para ajudar a meditar e contemplar o mistério da Santíssima Trindade,

neste ano jubilar a ele dedicado. Escrito com tranqüila objetividade, especialmente

organizado para que seja usado para a oração. Atento ao contexto, inserido na realidade,

sem forçar ―doutrinações‖. Fiel à matriz bíblica, ajuda para uma sincera retomada da vida

cristã, em sua beleza e bondade, e para a vida solidária, engajada na luta pelo resgate do

irmão. Merece calorosa recomendação.



 Sidegum, Pe. Pius T., SJ, Vida em plenitude – Integração pela experiência

contemplativa. Porto Alegre / RS, Editora Nova Prova, 2000.



Formado em Psicologia pela Universidade Gregoriana, Roma, com grau de Mestre, Pe.

Pius, até recentemente trabalhou no CECREI de S. Leopoldo / RS, enfatizando um

acompanhamento para o crescimento humano-espiritual de religiosos/as e leigos/as.

Dedicou-se a dar EE personalizados com muito êxito. Atualmente, recomeça seu trabalho

em Curitiba. Na primeira parte do livro – bastante extenso (316 pp.), e enriquecido com

notas bibliográficas e alguma ilustração – Pe. Pius trata da experiência de oração, que exige

uma disciplina dos sentidos e uma ida ao núcleo, ao que é original, recebido como graça. A

segunda parte é dedicada à oração contemplativa, como experiência a ser cultivada. A

terceira parte, expõe os EE como um processo integrativo em 5 fases. A quarta parte ocupa

a maior parte do volume e apresenta 91 exercícios de contemplação. Impressiona o cuidado

e a riqueza dos textos introdutórios aos exercícios de contemplação. Certamente, o grande

público do Pe. Pius, nestes seus 17 anos de ministério dos EE, vai reconhecer seu peculiar

uso de elementos de psicologia, para iluminar e melhor conduzir os passos de quem os faz.



 Itamar Vian, Sabedoria da Vida – Histórias que ensinam. Aparecida, SP, Santuário,

2000.



Pequeno livro, que faz rir, ficar sério e pensar, na brevidade de suas histórias e estórias,

muito bem contadas. O Autor reconhece que vivemos tempos amargos, mas se propõe,

como qualquer bom garimpeiro, a encontrar ouro onde outros olhos só vêm pedras. Não

percam a anedota número 20, As três peneiras!



 Ana Roy, Tu me deste um corpo. São Paulo, Paulinas, 2000.



A Autora, religiosa inserida, é Auxiliar do sacerdócio, dá Exercícios Espirituais para vários

tipos de público, em especial para os meios populares. Lecionou 11 anos no CETESP, curso

de preparação de formadores para a vida religiosa consagrada. Seu presente livro nasceu



55

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



da convicção que não é possível falar de espiritualidade desligada da corporeidade. Depois

de nos inspirar a um respeito e estima pelo corpo humano, firmemente apoiada numa boa

teologia bíblica, nos dois primeiros capítulos (“Espírito ... Espiritualidade” e “Formação

histórica e emergência da espiritualidade bíblica), a Autora comenta alguns dos mais

importantes versículos do Gênesis (―A terra e a criação do ser humano‖) com simplicidade

de estilo e lucidez de idéias. Os dois capítulos seguintes estudam ―As estruturas relacionais

e sociais do corpo humano‖ e ―As estruturas físicas e transcendentais do corpo humano – A

árvore da vida‖. Em tudo, ela não perde de vista a dimensão da crise da sociedade

contemporânea e dos seus valores. Seu capítulo conclusivo, ―Rumo à uma inserção

inculturada”, abala a curiosa crença de que espiritualidade têm tudo a ver com alienação ou

intimismo... Pelo contrário! De fato, não é à toa que tantos dos nossos têm sido mártires!



 Coleção CES, São Paulo, Loyola, 2000.



Uma palavra sobre esta coleção de livros de formato de bolso, muito legíveis e de grande

contemporaneidade: o CES é o Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus no

Brasil. O primeiro volume é de Johan Konings, exegeta reconhecido, que sabe ser popular:

A Palavra se fez livro. Onde encontrar uma introdução inteligente e inteligível de como

nasceu e se formou a Bíblia em menos de 100 páginas? O segundo, de João Batista

Libânio, Cenários da Igreja, faz pensar, com sua análise das linhas de força presentes na

realidade eclesial de hoje e o rosto que teria no caso de um ou outro grupo delas se afirmar

como dominante. O n. 3 (Teologia da Espiritualidade Cristã), de Danilo Mondoni, já foi

apresentado, nesta revista, n. 40, p. 96. Obra praticamente única em português, muito

necessária para professores, estudantes e interessados na espiritualidade cristã (não só

católica!). Libânio, novamente se debruça sobre a realidade do mundo e da Igreja em A

Igreja contemporânea – Encontro com a modernidade, para, com sua habitual agudeza, nos

ajudar a entendê-las melhor. O volume mais recente, é da autoria de Paulo Gaspar

Menezes, um dos melhores filósofos jesuítas da atualidade. Tradutor e profundo conhecedor

de Hegel, introduz-nos ao Conhecimento afetivo em Santo Tomás. Trabalho tanto mais

oportuno, quanto, de novo, damos importância à ―inteligência emocional‖.



 Azevedo, Mateus Soares, Mística Islâmica – Atualidade e convergência com a

espiritualidade cristã. Petrópolis, Vozes, 2000.



O conflito se inflama, de novo, na Terra Santa, enquanto não cessam de chegar notícias

terríveis da Indonésia, Argélia, Afeganistão, que tendem a fazer crer à opinião pública que o

Islã gera fundamentalismo e fanatismo. Neste contexto, a Vozes presta-nos o serviço de

publicar esta obra, acessível ao leitor comum, e sem erudição supérflua. Dá-nos elementos

válidos para insistir no diálogo com a religião, que é norma de vida para milhões de fiéis

seguidores pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde os minaretes das mesquitas já são

vistos em diversas cidades. Não deixem de ler, se estão interessados no diálogo inter-

religioso, ou querem se interessar nele!



 Eisemberg, Moisés, As missões jesuíticas e o pensamento político moderno – Encontros

culturais, aventuras teóricas. Belo Horizonte / MG, Editora UFMG, 2000.



Limitamo-nos a indicar a publicação desta obra, útil subsídio para os estudiosos da questão

missionária e dos problemas da inculturação e evangelização. Com estilo sereno,

comentando as fontes, o Autor conduz sua análise.





ÍNDICES DO ANO 11 (2000)

ÍNDICE POR AUTOR



No Páginas





56

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



ANTONCICH, Ricardo, Os Exercícios Espirituais ante o problema do

mal e as exigências da conversão 40 35-43

ARRUPE, Pedro, Invocação à Trindade 39 43-44

BECHARA, Odette, Os Três Modos de Orar [EE 238-260] 41 84-86

BECHARA, Odette, Revisão da Oração 41 75-76

BINGEMER, Maria Clara Lucchetti, A luz da Trindade Santa 39 39-42

BUCKER, Bárbara P., Perspectivas do mistério trinitário em relação

com o feminino 39 29-38

CASALDÁLIGA, Pedro, Tenho Sede! 40 80

CARVALHO, Lilian de, Oração 42 16

CEI-ITAICI, A Força da Metodologia nos Exercícios Espirituais 41 05-42

CEI-ITAICI, Passos da Oração 39 79

CENTRO OSCAR ROMERO, Vida e Martírio de Dom Oscar Romero 39 87-88

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, A Trindade de Cláudio Pastro 39 70

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Experiência Inaciana de Discernimento 39 75-78

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, História de salvação ou condenação 40 81-83

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Luz e sombra: O Exame de consciência 41 71-73

COSTA, Maria do Carmo, Rezando a dor para ser curado 42 73-75

DENICOL, Odilo, Bendito seja Deus! Relato de uma conversão 40 71-75

GONZÁLEZ, Álvaro Pbro., e Equipe do CEI (Chile) Revisando nossa

história afetivo-sexual 42 63-65

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Exame de Consciência Teologal 40 76

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Revisão de vida: Pecados capitais 40 44

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Conversão e amor à Vida 40 59-69

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Amor humano e amor cristão 42 31-44

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Matrimônio e Vida Consagrada:

Duas parábolas de comunhão 39 45-59

IRMÃS DE S. JOSÉ DE CHAMBÉRY, 350 Anos à Serviço da

Comunhão 39 89-91

JUNGES, José Roque, Resposta cristã ao problema do mal 40 25-34



KOLLING, J. Geraldo, Exercícios Espirituais, vivência a partir do

ser mais profundo - um movimento gerador de vida 42 17-24

LACERDA, Catarina e Milton Paulo de, Acompanhamento espiritual

e Psicoterapia: Semelhanças e diferenças 42 67-69

LACERDA, Catarina e Milton Paulo de, Comunicação não verbal 42 70-72

LEFRANK, Alex, Ocasiões e dificuldades para vivermos como

“Amigos no Senhor” 39 67-69

LISBÔA, Paulo, A Conversão no Ano Santo 39 71-74

LISBÔA, Paulo, Tratamento de alguns entraves psicológicos:

Minha experiência 42 51-58

MAC DOWELL, João A., Purificação do Coração 41 43-60

MALDANER, Maria Fátima, A Contemplação Evangélica [EE 102-126] 41 79-81

MALDANER, Maria Fátima, A Meditação com as Três Potências

[EE 45-54] 41 77-78

MALDANER, Maria Fátima, Aplicação dos Sentidos [EE 121-127] 41 82-83

MALDANER, Maria Fátima, O pecado dos primeiros pais, pecado da

Humanidade 40 84-85

MARTINI, Carlo Maria, Reflexões sobre o sacramento da reconciliação 40 77-79

MIRANDA, Mário de França, Espiritualidade e Inculturação da Fé 41 61-70

MORO, Ulpiano Vázquez, O que fazem as pessoas divinas (EE 108) 39 05-20

NADEAU, Gilles, A Confidencialidade no Acompanhamento Espiritual 42 59-62

NAZARIO, Janaina Clara, “O Amor” 42 50

NEUTZLING, Inácio, A banalização da injustiça social. A Meditação

sobre o pecado nos Exercícios Espirituais 40 47-58

OLIVEIRA JR., José Jomêr de, O Novo Logotipo do CEI-Itaici 39 92

Orar nossa própria afetividade 42 45



57

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



PAIVA, R., Os EE levam à opção evangélica pelos pobres 42 76-77

PAIVA, R., Revisão de vida: Os dez mandamentos 40 45-46

PALACIN, Luis, Abbá 39 60

PASSOS, José dos, Serenidade 40 70

PIRES, Iolanda Maria e GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis,

Exame Espiritual Diário 40 24

RECH, Helena Teresinha, A Trindade e a Comunhão Inter-pessoal.

Espiritualidade trinitária e comunidade 39 21-28

Rezar na desolação 42 46-49

SALLES, Walter, O “Drama” da Criação: A Primeira Semana dos EE 40 05-23

SIDEGUN, Pius T., Dinamismos psico-afetivos na Primeira Semana

dos Exercícios Espirituais 42 25-30

TORRI, Ricardo, Os Exercícios e a Psicanálise 42 05-15

VENDRAMINI, Roseli Della Paschoa, Trindade - “Casamento que

dá certo!” 39 61-66





ÍNDICE POR MATÉRIA



No Páginas



TEXTO



AMOR, MATRIMÔNIO

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Amor humano e amor cristão 42 31-44

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Matrimônio e Vida Consagrada:

Duas parábolas de comunhão 39 45-59



COMUNICAÇÃO

IRMÃS DE S.JOSÉ DE CHAMBÉRY, 350 Anos à Serviço da Comunhão 39 89-91

OLIVEIRA JR., José Jomêr de, O Novo Logotipo do CEI-Itaici 39 92

PAIVA, R., Os EE levam à opção evangélica pelos pobres 42 76-77



COMUNHÃO, COMUNIDADE

LEFRANK, Alex, Ocasiões e dificuldades para vivermos como

“Amigos no Senhor” 39 67-69

RECH, Helena Teresinha, A Trindade e a Comunhão Inter-pessoal.

Espiritualidade trinitária e comunidade 39 21-28



CONVERSÃO

ANTONCICH, Ricardo, Os Exercícios Espirituais ante o problema do

mal e as exigências da conversão 40 35-43

DENICOL, Odilo, Bendito seja Deus! Relato de uma conversão 40 71-75

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Conversão e amor à Vida 40 59-69

LISBÔA, Paulo, A Conversão no Ano Santo 39 71-74



ESPIRITUALIDADE

MAC DOWELL,João A., Purificação do Coração 41 43-60



EXAMES

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Luz e sombra: O Exame de consciência 41 71-73

PIRES, Iolanda Maria e GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis,

Exame Espiritual Diário 40 24



EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

MORO, Ulpiano Vázquez, O que fazem as pessoas divinas (EE 108) 39 05-20

NEUTZLING, Inácio, A banalização da injustiça social. A Meditação



58

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



sobre o pecado nos Exercícios Espirituais 40 47-58

SALLES, Walter, O “Drama” da Criação: A Primeira Semana dos EE 40 05-23



MAL (Problema do)

ANTONCICH, Ricardo, Os Exercícios Espirituais ante o problema do

mal e as exigências da conversão 40 35-43

JUNGES, José Roque, Resposta cristã ao problema do mal 40 25-34



METODOLOGIA DOS EXERCÍCIOS

CEI-ITAICI, A Força da Metodologia nos Exercícios Espirituais 41 05-42



ORAÇÃO INACIANA

MALDANER, Maria Fátima, O pecado dos primeiros pais, pecado

da humanidade 40 84-85

Orar nossa própria afetividade 42 45

Para rezar a Primeira Semana 40 86-92

Rezar a Trindade com São João 39 80-86

Rezar na desolação 42 46-49



PARA JOVENS

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Experiência Inaciana de Discernimento 39 75-78

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, História de salvação ou condenação 40 81-83

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, Luz e sombra: O Exame de consciência 41 71



PECADO E PENITÊNCIA

MARTINI, Carlo Maria, Reflexões sobre o sacramento da reconciliação 40 77-79

NEUTZLING, Inácio, A banalização da injustiça social. A Meditação

sobre o pecado nos Exercícios Espirituais 40 47-58



PERFIL

CENTRO OSCAR ROMERO, Vida e Martírio de Dom Oscar Romero 39 87-88



PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS

KOLLING, J. Geraldo, Exercícios Espirituais, vivência a partir do

ser mais profundo - um movimento gerador de vida 42 17-24

SIDEGUN, Pius T., Dinamismos psico-afetivos na Primeira Semana

dos Exercícios Espirituais 42 25-30

TORRI, Ricardo, Os Exercícios e a Psicanálise 42 05-15



SUBSÍDIOS

BECHARA, Odette, Os Três Modos de Orar [EE 238-260] 41 84-86

BECHARA, Odette, Revisão da Oração 41 75-76

CARVALHO, Lilian de, Oração 42 16

CASALDÁLIGA, Pedro, Tenho Sede! 40 80

COSTA, Maria do Carmo, Rezando a dor para ser curado 42 73-75

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, A Trindade de Cláudio Pastro 39 70

GONZÁLEZ, Álvaro Pbro., e Equipe do CEI (Chile) Revisando nossa

história afetivo-sexual 42 63-65

GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Exame de Consciência Teologal 40 76

LACERDA, Catarina e Milton Paulo de, Acompanhamento espiritual

e Psicoterapia: Semelhanças e diferenças 42 67-69

LACERDA,Catarina e Milton Paulo de, Comunicação não verbal 42 70-72

LISBÔA, Paulo, Tratamento de alguns entraves psicológicos:

Minha experiência 42 51-58

MALDANER, Maria Fátima, A Contemplação Evangélica [EE 102-126] 41 79-81

MALDANER, Maria Fátima, A Meditação com as Três Potências

[EE 45-54] 41 77-78



59

ITAICI - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE INACIANA - Nº 42



MALDANER, Maria Fátima, Aplicação dos Sentidos [EE 121-127] 41 82-83

NADEAU, Gilles, A Confidencialidade no Acompanhamento Espiritual 42 59-62

NAZARIO, Janaina Clara, “O Amor” 42 50

PAIVA, R., Revisão de vida: Os dez mandamentos 40 45-46

PALACIN, Luis, Abbá 39 60

PASSOS, José dos, Serenidade 40 70

PIRES, Iolanda Maria e GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, Exame

Espiritual Diário 40 24



TEXTO

CEI-ITAICI, A Força da Metodologia nos Exercícios Espirituais 41 05-42



TRINDADE

ARRUPE, Pedro, Invocação à Trindade 39 43-44

BINGEMER, Maria Clara Lucchetti, A luz da Trindade Santa 39 39-42

BUCKER, Bárbara P., Perspectivas do mistério trinitário em relação

com o feminino 39 29-38

CIGOÑA, J. Ramón F. de la, A Trindade de Cláudio Pastro 39 70

VENDRAMINI, Roseli Della P., Trindade - “Casamento que dá certo!” 39 61-66



BIBLIOGRAFIA

Bibliografia sobre Trindade e Comunhão 39 93-94

Sobre a Primeira Semana dos Exercícios 40 93



LIVROS EM DESTAQUE

GONZÁLEZ- QUEVEDO, Luis, SJ, Experiência de Deus: Presença e

Saudade, (Coleção ―Leituras e Releituras‖,2). São Paulo,

Edições Loyola, 2000 42 79-80

NETTO DE OLIVEIRA, José Antônio, SJ, Perfeição ou Santidade e

outros textos espirituais, (Coleção ―Leituras e Releituras‖, 1).

São Paulo, Edições Loyola, 2000 42 78-79

PAIVA, R., O Discernimento: Pessoal, em família, em comunidade 40 94



LIVROS EM REVISTA

ARMELINI, Fernando e MORETTI, Giuseppe, Tinha rosto e palavras

de Homem - um perfil de Jesus, Paulinas, SP/1999. 39 contracapa

AZEVEDO, Mateus Soares, Mística Islâmica – Atualidade e

convergência com a espiritualidade cristã. 42 83

CAVADI, Augusto, Orar com o Cosmo - propostas de orações

ecumênicas, Paulinas, SP/1999. 39 contracapa

CNBB, O que é o Ecumenismo - ajuda para trabalhar a exigência do

diálogo - projeto rumo ao novo milênio, Loyola, SP / 1999. 39 contracapa

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS

CRISTÃOS, Diálogo católico-pentecostal - evangelização,

proselitismo e testemunho comum, Paulinas, SP/1999. 39 contracapa

EISEMBERG, Moisés, As missões jesuíticas e o pensamento político

moderno – Encontros culturais, aventuras teóricas. 42 83

GRINGS, Dadeus, Creio na Santíssima Trindade, Santuário,

Aparecida 1999. 40 95

HOUDECK, Frank J., SJ, Guiados pelo Espírito - Direção Espiritual

em Perspectiva Inaciana, Edições Loyola, SP, 2000. 40 95

INÁCIO DE LOYOLA, Santo, Exercícios Espirituais – Apresentação,

tradução e notas do Centro Inaciano de Espiritualidade de Itaici

Edições Loyola, 2000. 42 81

KOLVENBACH, Peter Hans, SJ, Educação Inaciana - Desafios na

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