Lendas e Tradi��es do Vale do Minho - PowerPoint by 3Ly6kSW

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									Lendas e Tradições
        do
  Vale do Minho
                         Inês Negra
Passou-se a história que eu vou contar no tempo da guerra contra Castela, em
   1388, no início do reinado de D. João, o Mestre de Avis.
É sabido que o herói desta guerra, para além de Nuno Álvares e dos múltiplos
   cavaleiros que se notabilizaram, o herói foi, sobretudo, o povo português, que
   inconscientemente se uniu a ponto de formar uma só identidade. A todo o lado
   acorreu a defender a sua terra, a expulsar o inimigo invasor, a fazer justiça por
   suas mãos contra os traidores. As mulheres tiveram neste movimento popular
   um papel preponderante. Basta que relembremos as maravilhosas, e
   impressionantes, páginas de Fernão Lopes sobre o que se passou no cerco de
   Lisboa ou, apenas e mais singelamente, a figura lendária da célebre padeira de
   Aljubarrota, coadjuvada pelas restantes mulheres da vida.
A Inês Negra é uma outra heroína popular desses tempos conturbados e , tal como
   a padeira Brites de almeida, era uma virago poderosa e musculada. A sua
   história fui buscá-la a uma velha Crónica escrita por Duarte Nunes de Leão.
Melgaço tomara, como muitas outras cidades e vilas do reino, o partido do
   castelhano, no início desta guerra. Passara-se tempo, haviam sido ganhas
   muitas batalhas, algumas terras tinham tido reconquistadas, outras haviam-se
   rendido sem luta. Melgaço, porém, mantinha-se fiel a Castela e , entretanto, já
   D. João se tinha casado com a filha do duque de Lencastre.


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                     Inês Negra                  (Cont)


Ainda no Norte, o novo Rei reunira as cortes, em Braga, e decidira não partir da
   região sem realizar o assalto definitivo à cidade traidora, que havia repelido
   facilmente tentativas anteriores de reconquista.
D. João juntou um exército bastante razoável e foi pôr cerco a Melgaço, onde os
   castelhanos se prepararam para resistir ao embate da sua fúria. Contudo,
   nenhum dos exércitos chegou a guerrear .A batalha resolveu-se de outro modo:
   numa luta singular entre duas mulheres, ambas de Melgaço e inimigas de longa
   data. Os exércitos, assim como a população, limitaram-se ao papel de
   espectadores quase passivos do combate entre as duas viragos.
Inês Negra, a partidária dos portugueses, fugira de Melgaço aquando da sua
   tomada pelos castelhanos. Do lado de dentro dos mouros da cidade ficara
   aquela sua velha rival, a quem tinham passado a chamar «Arrenegada»por ter
   traído os seus.
Diz a lenda que a Arrenegada - estava-se nas ultimações da batalha - lançou um
   desafio, gritando das muralhas, à Inês Negra que passeava pelo arraial de D.
   João o seu conhecido ódio ao castelhano. No meio dos mais diversos
   impropérios, a Arrenegada propunha resolver aquela batalha num combate
   único entre ambas e afiançava ter, para o efeito, a autorização do chefe da
   guarnição castelhana.


                                                               Melgaço    Mapa
                    Inês Negra                   (Cont)


El-Rei, que assistia a cena boquiaberto, ao ver que Inês se dispunha a aceitar o
   desafio da de dentro, mandou um emissário até à muralha para inquirir da
   verdade das afirmações da Arrenegada. E como lhe fosse garantida a
   veracidade do desafio e da proposta, ordenou que se desse à virago tudo o que
   ela achasse necessário ao combate.
A Arrenegada saiu do castelo e encaminhou-se para o centro do terreiro entre
   gritos de apoio dos seus partidários. De entre a soldadesca e a população do
   arraial de D. João, que rodeavam a cena, surgiu a Inês Negra, e o entusiasmo
   das gentes atingiu um ponto indescritível de frenesim, a raiar o paroxismo.
De espada na mão, sobressaia arregaçada e corpete entreaberto, a Inês Negra
   atirou com o chapéu de feltro ao ar e respondeu à sua gente com um urro
   imenso, avançando decidida para a outra que a esperava já de espada
   desembainhada.
Durante uns segundos, tão longos como a eternidade, as duas mulheres mediram-
   se, de mão ilharga, olhos chispando ódios. Inês, de um pulo, desferiu uma
   estocada que a outra aparou com a espada. E , espadeirada para aqui,
   espadeirada para ali, as duas mulheres combateram ferozmente,
   acompanhadas pela grita insana de todos quantos assistiam. Um golpe de sorte
   da virago do castelo fez saltar a espada de Inês Negra e no arraial português
   perpassou um silêncio sussurrado.

                                                               Melgaço    Mapa
                      Inês Negra                    (Cont)


Mas, depois de um segundo de hesitação, Inês correu para um camponês que
   assistia ao duelo, tirou-lhe a forquilha da mão e voltou à lide, desgrenhada e
   rota.
Procurou acertar nas pernas da outra, que sentindo-se em desvantagem agarrou
   um varapau que estava caído no terreiro, atirando-se à Inês Negra com fúria tal
   que lhe quebrou a vara nas costas. A outra, enlouquecida pela dor e pela raiva,
   largou a forquilha decidida a utilizar os seus próprios meios. Atirou-se com todo
   peso do seu corpo, agarrou-se aos cabelos da traidora e, com unhas e dentes,
   atacou-a com redobrada força. Rolaram pelo chão empoeirado até que de entre
   os gritos variados e sobrepostos da multidão se destacou um imenso berro.
Fez-se um silêncio quase de tumba. Os corpos que estrebuchavam no solo
   pararam subitamente e todos, de olhos esbugalhados, sem perceberem quem
   vencera afinal, sentiram um arrepio percorrer-lhes o corpo suado de ansiedade.
De repente, levantou-se do terreiro a virago do castelo. Olhou à volta e foi possível
   ver-se-lhe «nos focinhos muitas nódoas das punhadas da de fora».A multidão
   do arraial pareceu renascer: um imenso grito de alegria atroou os ares enquanto
   centenas de barretes eram atirados ao ar. Fugiu a Arrenegada tapando o rosto
   com as mãos, roupas em farrapos, cabelos em desalinho.
No chão, sentada de pernas abertas, sacudida de riso e nervoso, a Inês Negra
   arfava exibindo dois tufos de cabelo negro - o último e mais válido argumento
   do combate.
                                                                   Melgaço Mapa
                    Inês Negra                   (Cont)


Os castelhanos, no dia seguinte, fiéis à palavra dada na hora do duelo singular,
   abandonaram o castelo, sem mais lutas.
El-Rei quis recompensar a Inês Negra, mas ela confessou que se sentia
   bastamente satisfeita com a sova que dera na velha rival de Melgaço. E,
   quando a bandeira de El-Rei se ergueu na torre principal do castelo de
   Melgaço, a mulher, no meio dos besteiros que a rodeavam, gritou para as
   muralhas da velha fortaleza:
-Mas vencemos-te! Tornas ao nosso poder! És d’el –Rei de Portugal!
Fim




                                                               Melgaço    Mapa
                O Coto da Moura
Há muitos, muitos anos no lugar onde hoje existe uma fonte que enche um regato e
   rega muitos campos, havia uma Moura encantada que todos os dias, ao nascer
   do sol, saía para estender o seu tesouro no cimo de um penedo, a que
   chamaram Coto da Moura. Servia este penedo de soalheiro ao tesouro da
   Moura. Depois de estender o seu tesouro, a moura sentava-se no cimo do
   penedo e, enquanto cantava, ia penteando os seus belíssimos cabelos louros
   com um maravilhoso pente de ouro. Refulgia ao longe tal conjunto. Pensava-se
   que a Moura assim fazia para atrair, com o deslumbrante das jóias, alguém que
   a pudesse desencantar.
Os que por ali passavam contavam tal visão, mas a maior parte do povo, ou se
   mostrava incrédulo, ou temia aproximar-se. Então, um certo dia, um dos
   homens mais corajosos da aldeia foi ver se o que contavam era verdade.
Quando chegou junto da fonte, viu uma Moura com o cabelo e um pente de ouro.
   Estava ela sentada sobre o penedo a pentear-se. Aproximou-se lentamente,
   para a surpreender, de forma a que ela não pudesse escapar. Então ela,
   pressentindo a presença do homem, disse-lhe:
-Meu caro Senhor, tenho um pente e uma «peina». Qual deles queres?
O homem não esperava tal oferta! Até porque diziam que a Moura guardava com
   grande cuidado o seu tesouro.


                                                               Melgaço    Mapa
            O Coto da Moura (Cont)
Restabelecido da surpresa, mas julgando pouco provável serem de ouro os
    cabelos da Moura, apesar de brilharem como esse metal, respondeu depois de
    breves momentos:
-Quero o pente!
-Ai homem, que me acabaste de dobrar a «fada»!
A Moura, depois de o fixar com um triste olhar, atirou o pente para o regato.
    Enquanto o homem o foi apanhar, motivado pela ganância, a Moura
    desapareceu.
Em vão o homem procurou o pente. E ainda hoje se julga que o som das águas a
    cair no regato se parecem com o choro de uma donzela. Por isso se diz que o
    fado da Moura ainda continua, já que o encanto só seria quebrado se o homem
    tivesse pedido a «peina» da Moura, que era a sua bela cabeleira.
Fim




                                                              Melgaço    Mapa
O Lagarto de Lamas de Mouro
Em tempos que lá vão, nas imediações da chã de Lamas de Mouro, existia um
   monstruoso lagarto que afligia toda a população. O enorme réptil postava-se
   sobranceiro ao caminho que leva à Senhora da Peneda, e todos os que ali
   passava eram engolidos pelo seu apetite voraz. Todos os anos, alguns
   pastores, perdigueiros, e romeiros, que por ali passavam com destino ao
   Santuário da Senhora, eram vitimas do feroz lagarto.
Ora ali perto, no coto da meadinha, morava uma mulher que passava o tempo a fiar
   na roca e a assoalhar as suas meadas, aproveitando tão arrumado lugar ao sol.
   Acontece que um dia esta mulher, em andanças de devota ou de pegureira,
   passou por perto do lagarto. Ao ver a figura que se aproxima, o terrível sáurio
   acometeu-a para a devorar num supremo e insuspeito esforço a mulher
   arrancou da cintura uma arma de defesa, que não era outra coisa senão a sua
   roca! Com extraordinária habilidade desferiu um poderoso golpe no até então
   invencível réptil, transformando-o em pedra!
Crê-se que a mulher era Nossa Senhora, e a prova do seu feito pode-se ainda hoje
   ver no lugar dito de Portela do lagarto, nome que advém da forma rochosa que
   encima o penhasco, pois se assemelha ao repugnante réptil.
Fim



                                                                Melgaço    Mapa
                   O Tear de Ouro
Em tempos que lá vão, junto do regato do Martingo, onde existe um penedo com
   uma grande brecha que ninguém fora, até então, capaz de abrir, ouvia-se um
   barulho familiar. Parecia o bater de um tear em pleno trabalho. Sempre que ali
   passavam os transeuntes, ouviam uma labuta ininterrupta, o que levou o povo a
   acreditar que naquele local morava uma moura encantada! Era de tal forma
   contínuo o trabalho, que o povo decidiu quebrar o encanto para salvar a pobre
   da moura de tão pesado fado. Se assim pensaram, logo se reuniram junto do
   penedo com um entendido no livro de S. Cipriano, para dar início ao
   desencantamento.
à medida que a leitura ia avançando, o penedo, lentamente, ia-se abrindo,
   deixando descoberto ao olhares do povo a beleza estonteante de um fantástico
   tesouro! Maravilhados, fixaram os objectos que eram familiares no seu dia-a-
   dia, mas que aqui refulgiam na cor do ouro: tear, lançadeiras, canelas, pentes,
   etc. Da moura não havia rastro!
Perante tal visão, resolveu-se deitar mão a tão grande fortuna. O entendido no
   Livro de S. Cipriano havia dito que não poderia parar a leitura, pois caso tal
   sucedesse, o penedo fechar-se-ia imediatamente. Assim, um outro homem, que
   tinha tanto de coragem como de ambição, aventurou-se dentro do penedo, e
   entregava as peças do tesouro aos de fora. Estavam eles nestes trabalhos, e
   depois de muita riqueza ter saída do misterioso penedo, quando o leitor,
   distraído pelo esforço e impaciente na sorte, perguntou:
                                                                Melgaço    Mapa
              O Tear de Ouro (Cont)
-Já está tudo fora?
Nesse mesmo momento o rochedo fechou-se, prendendo no seu interior o
   desgraçado do homem que entrara para resgatar o tesouro!
Ouviu-se então uma voz do interior que dizia:
-Só libertarei o homem depois de restituírem ao penedo o tesouro!
Apavorados, prometeram fazer tudo o que a voz pedira. Assim fizeram, e nunca
   mais tentaram conquistar o tesouro.
Fim




                                                           Melgaço    Mapa
         Empresa das Mulheres
No tempo em que os portugueses disputavam com os castelhanos as terras do
   Alto-Minho, um exército lusitano, composto por quinze mil homens, batalha os
   galegos nas margens do Minho. De tal forma era bem sucedido o seu empenho,
   que chegavam a provar o delicioso sabor da vitória. Ébrios deste prazer, julgam-
   se senhores do mundo. Com entusiasmo desmesurado, aventuram-se por
   terras da Galiza, alucinados de bravura, dispostos a bater o inimigo em sua
   própria casa. Mas tal esforço não lhes corre de feição, já que, depois de
   curtíssimas vitórias, os lusos são obrigados a retroceder, ante o vigor do
   adversário, espicaçado pela vaidade nacional ferida, e supridos de tropas
   frescas. Vindo os galegos no encalço os portugueses, desorientados, recuam lá
   para os lados de Castro Laboreiro. Acossados pelo enfurecido inimigo, pronto a
   corrigir a desfeita sofrida, as tropas portuguesas não encontram forma de
   enfrentar, temendo-se uma ultrajante derrota e o risco de perda da soberania
   pelos próprios territórios!
É então que as mulheres daquele lugar, ao verem os seus desnorteados, e perante
   a afronta desmesurada dos galegos, corajosas e determinadas, resolvem
   intervir. E se os homens fogem desorganizados e abandonando as armas, elas,
   depois de se armarem como os guerreiros, cerram fileiras e avançam sem
   medo, prontas a salvar o país da ignomínia de uma humilhante derrota. Perante
   tal atitude e coragem ficam extasiados e confusos, por sua parte, os
   castelhanos.
                                                                 Melgaço    Mapa
     Empresa das Mulheres (Cont)
É então que os homens lusitanos, provocados pelo exemplo de suas mulheres,
   resolveram voltar para a luta, envergonhados das suas momentâneas
   pusilanimidade e defecção. Recuperada a energia e a fé indispensáveis,
   organizaram-se e batem os espanhóis, ainda perplexos pela coragem e força
   das mulheres de Castro Laboreiro. Esta batalha ficou conhecida por “Empresa
   das Mulheres”.
Fim




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               Senhora da Orada
Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do Vale do Minho
   espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas
   com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e
   ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se
   voltaram para os santos, pois só a eles parecia restar o poder para debelar tão
   grande infortúnio.
Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé
   Anes, mais conhecido como o “Vira-Pipas”, pois andava sempre com uma
   malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco
   desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de umas pequenas
   leiras que amainava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada ,
   trabalho que fazia com muito desvelo e devoção.
Numa certa manhã , como de costume, Tomé foi arranjar a capela . Como era
   ainda cedo, só tinha tomado o seu «mata-bicho», lá em casa, e uma pequena
   malga de vinho na tasca da Mirandolina.
Chegado à capela, o “ Vira-Pipas” quase morreu de susto, pois a imagem da
   Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Vezes
   acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a
   borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente.


                                                                Melgaço    Mapa
           Senhora da Orada (Cont)
Cego não estava ! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente,
   mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os Galegos os autores
   de tão vil afronta. Furioso saiu o “ Vira Pipas” em direcção à Vila de Melgaço
   para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar
   tal desfeita.
Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do
   Arrocheiro para dar uma ajuda na trafega do vinho. Este era trabalho a que
   nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços do vinho lá ia
   bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e
   comido, deixou-se o “Vira-Pipas “ levar pelo sono, de modo que já só noite
   dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo.
   Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão
   fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o
   acontecido com uma visita à igreja . Ao entrarem, verificaram que a imagem da
   Virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o “ Vira Pipas”!
No dia seguinte, muito envergonhado, decidiu o Tomé ir à Senhora da Orada mais
   cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande
   esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescindível «mata-
   bicho»! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte, para dissipar os
   possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.

                                                                Melgaço    Mapa
           Senhora da Orada (Cont)
Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado, com aquela cara de
   choro que toda a criança tem quando não o leva ao colo. Tomé ficou abismado,
   sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém ,
   preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados
   com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a Senhora
   da orada voltava à noitinha . Umas vezes levava o menino, outras não. Só o
   Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande
   responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe aconteceu, julgando-se
   destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo
   do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu!
Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro, no concelho de
   Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da Orada a fim de
   se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região.
   Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela.
Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma Senhora,
   muito bonita e educada, que dizia saber como tratar aquela doença. Ninguém
   sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer
   um chá com uma planta que trazia no alforge, e, juntando outras ervas,
   mandava prepara um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse
   mulher ,criança ou homem.

                                                               Melgaço    Mapa
           Senhora da Orada (Cont)
Recomendava às pessoas que lavassem com ervas de Santa Maria e folhas de
   sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim, e lavassem as roupas
   amiúde. A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manhã até à noite , não
   parava de atender os doentes . Não comia nem aceitava convite para ficar à
   noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho , este ajudava
   a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde
   mais encontrar.
Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas
   sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A Senhora
   que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se
   perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa Senhora.
Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da
   Senhora da Orada !
Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a
   protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu
   rapidamente     o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos os
   desaparecimentos da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos
   acreditaram!
Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias.
Fim
                                                                Melgaço    Mapa
               Frei João da Cruz
Há muitos anos vivia perto de Melgaço um jovem nobre mas de fraca fortuna.
   Chamava-se Mendo de Azevedo, era valente, belo e doido pela aventura.
   Tendo sofrido um desaire político, passou a Espanha. E aí encontrou, certa
   tarde, numa das belas casas solarengas de La Marina, uma jovem muito bela,
   muito rica e nobre. Chamava-se a donzela Sol e pertencia à família dos
   senhores de Yepes.
D. Mendo arranjou meio de a ver muitas vezes. E porque era também jovem, belo e
   nobre, fácil lhe foi conquistar aquela que era para ele já toda a razão da sua
   existência.
Tentou D. Mendo consertar a sua vida em Portugal. O amor fizera dele um outro
   homem, mais crente, mais sensato. Apesar de lhe terem sido confiscados os
   bens, conseguiu um perdão para voltar à pátria. Porém, o seu desespero foi
   enorme quando, ao pedir-lhe a mão de sua filha D. Sol, ouviu da boca do
   Senhor de Yepes um tremendo «não»!
Desorientado, D. Mendo fez o que nunca fizera: suplicou. Foi, porém, escarnecido
   e alcunhado de querer caçar fortunas! Ferido gravemente no seu amor próprio,
   D. Mendo encheu-se de coragem e resolveu abandonar para sempre o que fora
   o seu grande sonho de amor. Para isso conseguiu uma pequena entrevista com
   a jovem D. Sol. Ela surgiu-lhe a medo, por entre a folhagem do jardim e quando
   a lua começava a pratear toda a avenida dos lilases. Ele beijou-lhe a mão
   gelada.
                                                                 Melgaço Mapa
            Frei João da Cruz (Cont)
- Querida, será esta a ultima vez que vos procurarei!
Ela levou ao rosto o seu lencinho de rendas. Balbuciou:
- Amo-vos, D. Mendo! Serei incapaz de amar outro qualquer!
- Mas se vosso pai me insultou, como poderei permanecer aqui sem manchar o
    meu nome?
- Levai-me convosco!
- Impossível!
- Porque? Colocais o vosso nome acima da nossa afeição?
D. Mendo suspirou.
- Minha querida Sol, tentai compreender. Se eu vos raptasse, então sim... Então
    poderiam chamar-me aventureiro ou caçador de fortunas. Eu quero-vos, mas
    com o consentimento de vosso pai.
- Nunca o dará!
-Talvez dê.
- Achais? Como?
- Se eu me alistar... Se fizer a guerra no estrangeiro... Se ganhar fama e fortuna...
    Talvez ele ceda! D. Sol deixou de chorar.


                                                                  Melgaço     Mapa
           Frei João da Cruz (Cont)
- E se a sorte vos for adversa? Se morrerdes ou ficardes prisioneiro?
- Será porque Deus assim o quis!
Ela deixou-se atrair ao abraço do bem-amado.
- Ide, então... Mas voltai breve!... Eu esperarei por vós!
E o luar escondeu-se para não ver o beijo que trocaram...
D. Mendo de Azevedo cumpriu o que dissera. Seguiu para África a combater os
    infiéis. Entretanto, o Senhor de Yepes formou logo um rápido plano: casar D.
    Sol com o filho de um amigo seu, oriundo da Toscana, o capitão D. Rodrigo
    Rocatti y Alvear.
Chorou a jovem amargamente. Pediu mil vezes a morte antes que chegasse o dia
    aprazado para o casamento. Olhava em volta, tentando encontrar um amigo
    que a ajudasse a cumprir a promessa que fizera a D. Mendo. Tudo em vão. O
    dia chegou, implacável. Sem remédio.
De índole branda, D. Sol deixou-se conduzir pelo braço de D. Rodrigo. Ele bem a
    notara distante.
Compreendera que não era amado! Aliás, o sogro contara-lhe o «simples episódio»
    de D. Mendo, agora longe e afastado para sempre. Mas no orgulho do capitão
    espanhol sangrava a ferida aberta pela ausência espiritual da que fizera sua
    mulher.

                                                               Melgaço    Mapa
            Frei João da Cruz (Cont)
O tempo passou. Talvez três... Talvez quatro anos. As coisa não haviam mudado.
    Apenas D. Sol se mostrava cada vez mais triste, cada vez mais distante. E um
    dia chegou ao castelo onde habitavam os senhores de Rocatti e Alvear um
    cativo resgatado de Orão. Este cativo contou a D. Sol que estivera com um
    nobre português, D. Mendo de Azevedo, também cativo. Que esse português
    lhe falara saudosamente da sua pátria e de uma terra de Espanha onde deixara
    o seu coração. Sobressaltou-se D. Sol e quis saber mais desse português.
    Nunca ela fora tão viva na conversa, no interesse pelos outros... O ex-cativo
    contou então qual era a vida de D. Mendo, remando numa galera mourisca e
    exposto a todos os escárnios.
Consumida pelo remorso pois só por ela D. Mendo partira, D. Sol perguntou ao ex-
    cativo se não haveria forma de resgatar D. Mendo. Disse –lhe ele, então, que
    descobrira o quanto se tinham amado. E sabendo que o seu companheiro não
    teria forma de arranjar dinheiro para o resgate, viera ele procurá-la para que
    salvasse D. Mendo.
D. Sol perguntou ainda:
- Mas foi ele quem vos mandou?
- Oh, não! Ele é demasiado soberbo! Acabará morrendo, porque se impõem,
    mesmo cativo, e os mouros hão-de matá-lo!
- E mais ninguém pensa resgatá-lo? Ele não tem família em Portugal?
                                                                Melgaço    Mapa
           Frei João da Cruz (Cont)
-A família está arruinada. Por isso me lembrei de vir procurar-vos.
D. Sol tapou o rosto com as mãos. Suspirou:
- Oh meu Deus! Como hei-de arranjar tanto dinheiro?
- Eu esperarei. Só voltarei aqui quando me chamardes.
- E quem entregará o resgate?
- Eu próprio.
- Sem que se saiba que fui eu?
- Assim o juro!
- Nem mesmo a D. Mendo o direis?
- A ninguém, Senhora!
- Pois aguardai alguns dias. Tenho muitas jóias e pode ser que consiga a quantia
    necessária. Depois vos mandarei chamar. E agora, ide! Receio que meu marido
    vos encontre.
Saiu o ex-cativo do castelo dos senhores de Rocatti, para dias depois lá voltar a
    receber uma enorme quantia em dinheiro, e jóias, e roupas. Porém, quando
    saiu, foi direito ao dono do castelo, dizendo, triunfante:
- Aqui tendes, Senhor, do que vossa esposa é capaz!
D. Rodrigo empalideceu.
                                                               Melgaço    Mapa
           Frei João da Cruz (Cont)
-O quê? Pois ela conseguiu... Ela ousou entregar-vos tudo isso... Para que o
    libertassem?
- Eis a prova, Senhor!
D. Rodrigo encheu o peito de ar.
- Não há dúvida: ela será capaz de tudo! E tendes a certeza que ele foi já
    resgatado?
- Sim! Fomos ambos resgatados quase ao mesmo tempo. Um grande de Portugal
    intercedeu por ele.
-E porque vieste aqui dizer-me isso?
-Porque o odeio! Ele é um soberbo! Ousou bater-me!
-Porquê?
- Porque... Porque duvidei da sua bem-amada!
D. Rodrigo atirou ao chão um saco de moedas.
- Pois levai isso depressa e desaparecei da minha vista, se não quiserdes
    acompanhar minha esposa na lição que lhe vou dar!
O ex-cativo pegou na bolsa de dinheiro e desapareceu.
Só D. Rodrigo rangeu os dentes de desespero e sibilou com ódio:
- Vou matá-la! Vou matá-la! Mas dar-lhe-ei uma morte lenta!
                                                           Melgaço    Mapa
            Frei João da Cruz (Cont)
Encarcerada no subterrâneo do castelo, D. Sol esperava calmamente a morte
    anunciada. Na tarde do seu último dia, pediu ao carcereiro a esmola de um
    padre para a confessar. Correu o homem a satisfazer o pedido da mulher de
    seu amo. Foi a um convento próximo, contou o sucedido e pediu um frade. Logo
    um, entre os outros, pediu humildemente ao superior que o deixasse sair. Foi o
    padre com o carcereiro. Caminharam silenciosos. Chegados lá, D. Sol caiu de
    joelhos, proclamando a sua inocência. Contou o seu amor perdido e a sua
    fraqueza em ter consentido num casamento sem amor, o seu remorso por saber
    longe e sofrendo torturas sem nome o único homem que havia amado. Gritou o
    seu propósito de apenas desejar salvá-lo. Jamais pensara num gesto menos
    puro. Mas morria sem pena, porque a vida era um fardo demasiadamente
    pesado.
Nem notou D. Sol como chorava o frade ao dar-lhe a absolvição. Por fim levantou-
    se. Olhou a dama por uns momentos e não pôde conter-se.
Murmurou:
- Ambos morremos para o mundo para ressuscitar para Deus!
D. Sol, ouvindo-o assim, encarou-o melhor. Soluçou:
- Pois será possível?
O frade segurou-lhe uma das mãos.

                                                                Melgaço    Mapa
            Frei João da Cruz (Cont)
- Sim, é possível. Sou eu, o que foi Mendo de Azevedo e agora é apenas um Frei
    João da Cruz!
- Mas como?... Como?
- Fui feito prisioneiro pelos mouros e resgatado por ordem do meu Rei. Porém,
    quando já vinha perto, soube da vossa boda com D. Rodrigo. Então... Julguei
    morrer de dor... Só o convento dominicano me recebeu e confortou!
Ela continuava soluçando.
- Senhor! Graças vos dou por me terdes acarinhado à hora da minha morte! Sabei
    vós, D. Mendo...
O frade interrompeu-a:
- Dizei antes Frei João da Cruz...
- Pois seja. Frei João, sabei que morro feliz! A nossa consciência fica limpa perante
    Deus! E se o não ficar perante os homens, que o mesmo Deus lhes perdoe!
    Dizei-lhe, Frei João... Que estou pronta!
O frade limpou as lágrimas que lhe inundavam o rosto. Revoltou-se.
- Não, não poderei consentir! A vossa morte é uma violência. É necessário que D.
    Rodrigo reconheça que estais inocente. Vou falar com ele!
Ela gritou:

                                                                  Melgaço     Mapa
           Frei João da Cruz (Cont)
- Não o façais! Para ele basta o meu desejo de resgatar-vos como prova de que
    sempre vos amei!
- No pensamento nem sempre mandamos. Nos actos, sim. E de obras más estais
    inocente. Vou falar com D. Rodrigo!
E saindo apressado, sem qualquer despedida, frei João da Cruz foi falar com o
    Senhor do castelo. Quando o monge pediu a D. Rodrigo o indulto de D. Sol, por
    saber da sua inocência, D. Rodrigo gracejou:
- Que sabeis, padre, das mentiras das mulheres? São capazes de tudo, mesmo à
    hora da morte!
O frade ripostou:
- Senhor! Juro-vos pela cruz que trago comigo, pelas minhas vestes de frade, que
    ela está inocente!
- E eu garanto-vos que ela é perjura! Que ela espera o homem que sempre amou
    para me atraiçoar!
E que, para maior afronta, é português!
-E eu juro-vos que isso não acontecerá!
-Como o provais?
- Dizendo-vos que antes de ser Frei João da Cruz fui D. Mendo de Azevedo.

                                                               Melgaço    Mapa
            Frei João da Cruz (Cont)
D. Rodrigo empalideceu de raiva e de surpresa. Exclamou:
- Como? Pois ela... Ela viu-vos... ouviu-vos a sós?... Estiveram ambos... A rirem-se
   de mim?...
- Senhor, respeitai o meu hábito!
- Vou demonstrar-vos o meu respeito!
E sacando da espada, enterrou-a com requintes de malvadez no corpo do jovem
   frade. Depois, correndo ao cárcere, sem pronunciar qualquer palavra matou D.
   Sol da mesma maneira.
Com a espada gotejando sangue, D. Rodrigo subiu do subterrâneo para o castelo.
   Parecia um espectro do Inferno. Vendo-o, os criados sumiram-se atemorizados.
   E no cimo do monte, no mosteiro dos dominicanos, o sino tocou e os frades
   oraram, mal a triste nova lá chegou a cima!
No eco do sino tocando, o vento segredava à floresta:
-Mataram Frei João da Cruz!
Fim




                                                                  Melgaço    Mapa
      O Tomás das Guingostas
Em tempos que já lá vão, no reinado de D. Isabel, viveu no lugar de Sante, um
   homem chamado Tomás Joaquim Codeço, mais conhecido por Tomás das
   Guingostas. Este homem tinha uma quadrilha, da qual era líder. O povo dizia
   que o Tomás das Guingostas, com a sua quadrilha, roubava aos senhores e
   comerciantes ricos para depois distribuir pelos pobres. Tomás era um homem
   destemido e forte, que enfrentava qualquer pessoa sem medo. Caso o número
   dos perseguidores impusessem mais respeito, como acontecia frequentemente
   com as perseguições da Guarda Real, o Tomás refugiava-se numa mina que
   tinha no lugar de Sante, que era um verdadeiro labirinto, indo desde este lugar
   até ao cruzeiro de S. Paio.
Como prova da sua valentia, conta-se que um dia, em Castro Laboreiro, enquanto
   andava nas suas deambulações predatórias, teve uma refrega com os
   castelhanos, vindo a sua quadrilha a ser desbaratada. A ver-se no perigo da
   derrota, o Tomás só pensou em fugir. Na urgência da fuga, prendeu-se o cartão
   ao rabo do cavalo, afirmando, quem o viu, que as patas do cavalo deitavam
   lume enquanto corria para Pomares.
Encorajado pela sorte e pela força, Tomás das Guingostas continuava os seus
   feitos pelas aldeias da vizinhança, ora porque de dia se refugiava dos soldados
   da Rainha nas minas, ora porque durante a noite estes, temerosos do que lhes
   poderia suceder, não se aventuravam na perseguição do bandoleiro.

                                                                Melgaço    Mapa
  O Tomás das Guingostas (Cont)
Acontece que um dia, 30 de Janeiro de 1839, encontrava-se o nosso herói a
    cavaquear na tasca do seu vizinho e amigo Policarpo, quando foi cercado por
    uma escolta militar que ali ia para o prender. À surpresa respondeu com uma
    rápida fuga pelo alçapão, mas foi frustrado o seu intento quando os militares o
    agarraram pelas pernas, chegando a cortar-lhe os suspensórios para melhor o
    resgatarem do buraco da liberdade almejada. Assim o levaram, perante a
    consternação de todos os presentes.
Ao chegar a escolta à ponte D’Alote, o prisioneiro, apontando o outro lado da
    margem, exclamou:
- Foi ali que pratiquei o meu primeiro crime!
A sua fama impeliu os olhares curiosos dos jovens militares para o dito lugar,
    distraindo-os dos seus propósitos. Logo Tomás das Guingostas se virou para os
    praças que o prendiam, e pisou os calos de um deles, com o intuito da fuga,
    como tantas vezes fizera antes. Foi de tal maneira encarniçada a refrega entre
    Tomás e os soldados, que da violência dos seus arremessos ficou a marca dos
    seus dedos numa das pedras da ponte. O comandante, vendo quão manhoso e
    ardiloso era o ladrão, mandou-o logo ali fuzilar. E, depois de o decapitar,enviou
    a cabeça como troféu à Rainha, vindo o seu corpo a ser sepultado nas traseiras
    da capela de S. Bento de Barata.


                                                                  Melgaço     Mapa
  O Tomás das Guingostas (Cont)
Quando a Rainha viu o rosto sem vida de Tomás, repreendeu fortemente os
   guardas. Depois de informada dos feitos de Tomás, lamentou que tal injustiça
   tenha sido cometida com tão bondoso e corajoso homem. Ainda hoje o povo
   recorda Tomás com muito, carinho e respeito.
Fim




                                                              Melgaço    Mapa
                           Os Lobos
No tempo em que de noite não havia luz em lado nenhum, os lobos vinham com
   frequência visitar as casas. Nas noites escuras de Inverno, quando certos
   barulhos circundavam as casas, todos se arrepiavam, pensando no lobo
   esfomeado.
As histórias de pessoas e rebanhos devorados pelos lobos ouviam-se com
   frequência junto à lareira. Naquele dia o Agostinho tinha ido a Castro Laboreiro
   com o seu carro de bois. Ganhava a vida carregando feno, vinho ou lenha dos
   montes. Camiões e camionetas era coisa que não existia. Nesse dia carregara
   o carro com uma pipa de vinho para Laboreiro e, no regresso, para aproveitar o
   frete, trazia um carro de feno, abundante lá para Castro Laboreiro. Já que tinha
   de fazer o caminho, assim ganhava duas vezes, ocupando sempre o carro.
Quando regressou, como a viagem era longa e o caminho difícil para a segurança
   da carga, já fazia noite. Vinha sozinho com os bois entrepostos pela ladeira
   abaixo, com um aguilhão para picar o gado. No meio da escuridão, o gado
   parecia conhecer melhor o caminho do que o tio Agostinho, que ora seguia à
   frente dos animais, ora se colocava ao lado, conforme locais e a disposição.
Havia passado Lamas de Mouro e estava perto de Cubalhão, num sítio a que
   chamam «as Grandes Botas de Cubalhão». Num raio de 4 ou 5 km não se vê
   viva alma ou casa habitada. Ali não existe nada!


                                                                 Melgaço    Mapa
                      Os Lobos (Cont)
As pessoas diziam que aquelas «botas» eram muito medrosas por ali ter sucedido
    há muito tempo acontecimentos estranhos com lobos. Conta-se que ali, numa
    encruzilhada, aparecia um lobo que comia as pessoas. Todo o que por aquele
    local passava, a uma certa hora, era comido! É verdade que alguns diziam
    terem visto no dito lugar botas, bocados de pés... Acontece que uma vez um
    homem muito valente, quando soube que tinha aparecido mais umas botas e
    pernas disse:
“- Eu vou desafiar o lobo! Vou matar esse lobo maldito!” Ninguém queria acreditar
    no que estava a ouvir. Os outros homens bem tentaram dizer-lhe que o que
    pretendia era uma loucura, e que iria morrer, como os outros; que ele sozinho
    não conseguia matar o lobo. Mas ele fez ouvidos de mercador e, depois de se
    apanhar com uma boa caneca de vinho, foi para a encruzilhada esperar o lobo,
    levando consigo um valente pau com que estava habituado a lutar nas festas e
    nas feiras da região.
A dado momento apareceu o lobo. Assim que o viu, o homem levantou o pau, em
    posição de espera, ora rodando à direita, ora à esquerda, na tentativa de não
    ser surpreendido pelo lobo. O lobo foi-se aproximando, confiante, mas sem
    grande entusiasmo, como querendo estudar os golpes do seu adversário. O
    homem bem tentava «botar-lhe» o pau, mas o lobo, de tão manhoso e
    inteligente, apanhava o pau ao homem com o rabo!

                                                               Melgaço    Mapa
                       Os Lobos (Cont)
O pobre do homem por mais ágil que fosse, não conseguia acertar nem na cabeça
   nem no corpo do lobo, porque este desviava sempre o pau com o rabo.
Durante a noite o homem foi lutando sempre, na expectativa de acertar na cabeça,
   mas sem sucesso. Começava a ficar cansado e a baixar cada vez mais a vara.
   Parecia que o lobo sabia o que estava a fazer: levar o pobre do homem a tal
   fadiga que, não conseguindo depois defender-se, o poderia comer a seu belo
   prazer.
Na aldeia a espera já angustiava os mais hesitantes. Então, um dos amigos, foi
   atrás dele: «Esse desgraçado vai-se fazer comer! Deixa-me ir acudi-lo».Pegou
   num outro pau e lá foi, não sem antes deixar de levar consigo lume , para
   assustar o lobo. Quando chegou junto do amigo, estava ele ainda a lutar com o
   lobo, e o lobo a deitar-lhe o rabo... Resolveu atacar o lobo pelo outro lado, a ver
   se lhe acertava na cabeça, pois ele não se podia defender dos dois ao mesmo
   tempo. Desta forma conseguiram dominar o lobo e matar a fera que a todos
   assustava.
Estava o tio Agostinho a pensar nesta luta, quando viu aproximar-se dele um
   grande cão, que logo viu ser um lobo! Perante tal visão, sentiu um arrepio pelo
   corpo todo. Segurou com força o aguilhão do gado, e colocou-se na frente dos
   bois, sem nunca tirar os olhos daquele animal que não deixava, agora, de o
   seguir.

                                                                   Melgaço     Mapa
                      Os Lobos (Cont)
Durante 2 km o lobo acompanhou-o, sem mostrar qualquer receio, nem esboçar
   qualquer ar de ferocidade. Não teria ele fome? Estaria ele ali só para lhe
   lembrar que aquele era o seu território, exigindo o respeito que lhe era devido?
   A resposta era difícil de encontrar, mas o certo é que, já perto de Cubalhão, às
   primeiras casas, o latir dos cães ao barulho dos rodados do carro fez parar o
   lobo. Tio Agostinho sentiu que o sangue voltava, na certeza de que dali para
   baixo já não era terra de lobos.
Fim




                                                                 Melgaço    Mapa
             A Jovem Encantada
Vivia no lugar do Quinjo, em Castro Laboreiro, uma princesa que tinha sido
    encantada sob a forma de uma serpente, e que trazia uma flor presa na boca.
Era esta princesa fabulosamente rica e estava disposta a dividir a sua riqueza com
    quem a desencantasse. Como ia de 100 em 100 anos à feira de Entrime ,em
    Espanha, altura em que recuperava a sua forma humana, lá contou como
    deveria proceder a pessoa que estivesse disposta a desencantá-la: ir ao lugar
    do Quinjo e dar um beijo à flor que ela, já na forma de cobra, trazia na boca.
Se os séculos foram passando sem que aparecesse alguém suficientemente
    corajoso para realizar tal façanha, nem por isso se pode dizer que o tempo
    tenha apagado nos homens a crença no tesouro escondido ou tenha
    esmorecido a fé na sua recuperação, mesmo que para tal se tivesse de cumprir
    o ritual prescrito pela lenda. A cobiça era sentimento mais forte que a
    repugnância e o medo, sem contar ainda que a astúcia humana é de tal forma
    atrevida e pretensiosa que só por si consegue dar, a quem dela resolva largar
    mão, uma coragem inicial que na maioria dos casos, se não é condição de
    sucesso é pelo menos de chegada à última etapa possível.




                                                                Melgaço    Mapa
         A Jovem Encantada (Cont)
Foi assim que um dia, levados pela cobiça e apoiados na astúcia, um grupo de
   homens, tentaram desencantar a princesa. Se o pensaram, logo programaram a
   aventura, animados pelo facto de um deles conhecer os segredos do livro de S.
   Cipriano, que ajudaria a tomar o tesouro escondido e defendido pela serpente.
Havia contudo uma dificuldade que a todos transtornava, e que não viam meio de a
   superar. Como ganhar coragem para beijar a serpente? Lembraram-se então os
   nossos heróis de um cego que havia no lugar e que, pelo facto de não ver, não
   sentiria repugnância em praticar o acto. Bastante instado, mas sem saber bem
   ao que ia, o pobre lá anuiu em juntar-se-lhes. Reunido o grupo no local certo, no
   dia e hora combinados, resolveu o animador da proeza, na intenção talvez de
   melhor avivar os pormenores da façanha, puxar do livro e ler a lenda aos
   companheiros no próprio cenário onde se iria desenrolar o drama. A um dado
   passo da leitura, porém, fez-se ouvir um barulho medonho que, repercutindo-se
   pelas fragas adiante, parecia querer fendê-las para delas fazer sair a figura de
   um monstro.
Nem se interrogaram a respeito do estranho fenómeno: gasta a última reserva de
   coragem, hei-los numa corrida doida, galgando descendo penedos, na ânsia de
   alcançar a segurança do lugar onde habitavam que, estranho ao facto,
   recuperava no sono a energia gasta num dia de luta árdua.


                                                                  Melgaço    Mapa
         A Jovem Encantada (Cont)
Sozinho no lugar do Quinjo, ficou o cego, desprotegido de tudo e de todos, e
   completamente amedrontado. Valeu-lhe o bordão, seu único apoio e guia, para
   descobrir forma do chegar a chão seguro e sossegado. E chegou, passados
   uns dias a Pereira, uma pequena povoação espanhola, que lhe deu guardaria.
Depois de conhecida a aventura no julgar, deixar rasto!
A nunca mais ninguém daqueles lugares pensou em repetir a proeza.
Em tempos mais recentes, um jovem, ao saber, por um pastor, da existência da
   serpente, logo se lembrou da sua terrível história de amor. A mãe da sua
   namorada contrariava muito seriamente o namoro e afeição que a filha
   mantinha com ele, facto que os obrigava a encontrarem-se às escondidas por
   entre as penedias. Não tardou muito que a mãe desse com o esconderijo dos
   namorados e, desesperada com a desobediência da filha, lhe lançasse esta
   maldição:
-«Que de futuro andes de rastos como as cobras no alto do Quinjo».
Passados dias, desapareceu a rapariga sem deixar rasto!
Associando os factos, não restaram dúvidas ao rapaz de que se tratava da
   namorada que cumpria o fado a que fora condenada pela mãe. A confirmá-lo,
   lá estava a flor que ele lhe oferecera e que ela, numa atitude garrida, trazia
   entre os dentes no momento em que recebera a maldição.

                                                               Melgaço    Mapa
        A Jovem Encantada (Cont)
Desesperado pela triste sorte da jovem e também pela sua infelicidade, subiu ao
   monte e perguntou à serpente quais as possibilidades que havia de lhe quebrar
   o encanto. Respondeu-lhe esta que bastaria que ele, rapaz, tivesse a coragem
   de a beijar na boca. Mas, cautela, se à terceira tentativa o não conseguisse,
   redobraria o seu encanto e não mais podia trazê-la à vida e ao seu amor.
Voltou o rapaz mais tarde, acompanhado com gente amiga, para realizar o
   desencanto: porém na altura em que se aproximou da serpente, esta lançou tais
   silvos e contorceu-se de tal maneira que pôs em fuga todos os que
   presenciavam a cena. Não desistiu o namorado e, na segunda tentativa, fez-se
   acompanhar de um padre, para ajudar o ritual com as suas rezas, e, esquecido
   do que havia acontecido aos outros seus conterrâneos, de um ceguinho que,
   pelo facto de não ver, poderia substitui-lo no acto de beijar a serpente com
   menos repugnância . Repetiu-se a cena anterior e tanto o padre como o cego
   fugiram desaustinados.
Entendeu o rapaz que teria que ser ele sozinho, e sem a ajuda ou apoio de
   ninguém, mas amparado pelo amor que nutria pela jovem, a cumprir o feito.
Enchendo-se de coragem, aproximou-se da serpente e, sem dificuldade de maior,
   deu-lhe o beijo, recebendo em troca nos seus braços a namorada.
   Regressaram felizes a Ribeiro de Baixo, seu lugar de nascimento, e casaram
   mais tarde na Vila.
Fim
                                                                 Melgaço Mapa
               A Truta da Rainha
ARAGÚNCIA, a Rainha de Aragão, foi vítima de uma intriga de escudeiros,
  criados do Rei seu marido. Um desses mancebos queixou-se ao seu
  Senhor que Aragúncia se desgostava dele preferido a companhia de um
  outro rapaz do seu séquito, e o Rei de Aragão enfureceu-se com isso.
  Embora esta causa nos pareça fútil e mesquinha, o Rei de Aragão decidiu
  que Aragúncia devia morrer por ela. Ao conhecer a sorte que lhe estava
  reservada, a Rainha não quis ficar à espera da hora da sua sentença e
  fugiu. Disfarçou-se de mendiga, descompôs o penteado, sujou o rosto e
  partiu com algumas aias e escudeiros fiéis. O Rei de Aragão, assim que
  soube desta fuga, tratou de ir-lhe no encalço. E tê-la-ia apanhado junto ao
  rio Minho se Aragúncia não tivesse pedido aos barqueiros que o
  demorassem o mais possível. Os barqueiros, condoídos da sorte da Rainha,
  meteram a conversar com o Rei, fizeram pedidos, aproveitaram para
  queixas e, quando pensaram que Aragúncia já devia estar suficientemente
  longe, atravessaram-no para a outra margem. A impaciência do Rei era tal
  que, já dentro da barcaça, assustou o seu ginete de guerra e estiveram à
  beira de se afogarem no rio. E, enquanto tentavam equilibrar o barco, o
  tempo ia aliando-se à Rainha.
Com efeito, Aragúncia que não esperava auxílio de ninguém, acolheu-se
  numas escarpas negras que mais pareciam um castelo natural.

                                                               Monção     Mapa
           A Truta da Rainha                              (Cont)


O Rei decidiu pôr-lhe cerco. Esperava desse modo matá-la pela fome e pela sede,
   não se cansando de repetir que nenhum outro mal lhe desejava.
O cerco manteve-se e o tempo passou. Aragúncia não desesperava e por isso, ao
   fim de alguns dias, no momento exacto em que a sede apareceu, encontrou
   uma pequena fonte escondida entre as fragas. E a fonte matou-lhe a sede,
   quando a fome começou a ameaçar visitá-la.
Haviam decorrido quinze dias quando a fome desceu, finalmente, sobre a Penha
   da Rainha.
De súbito, sobre o penhasco pairou a águia real. Descreveu círculos,
   circuncírculos, descendo pouco a pouco, mansamente, sobre o rochedo
   escarpado. No bico trazia uma truta que largou no penhasco, assustada talvez
   pelo inesperado de uma presença humana.
Aragúncia pegou no peixe e apesar de a fome a torturar com as suas garras de
   harpia, embrulhou-o em folhas de árvore e mandou-o ao Rei de Aragão para
   que se saciasse.
Diz a lenda que o Rei recebeu a truta ofertada por Aragúncia num local que desde
   então passou a chamar-se Trute, onde instalara o seu arraial.



                                                               Monção     Mapa
            A Truta da Rainha                              (Cont)


Persuadido de que o braço de Deus amparava a sua Rainha, o Senhor de Aragão
   perdoou-lhe a falta que não cometera e levantou o cerco, contrito. Perdoada
   soberanamente por um erro que não cometera, Aragúncia recusou acompanhar
   o Rei de volta ao Paço onde passara a sua vida. Quedou-se naqueles lugares,
   onde viveu o resto dos seus dias, em penitências austeras e devotos exercícios.
Nesse castelo - hoje conhecido como Castelo de Furna ou Castelo de Fraião –
   existe uma pequena chã que conserva, dessa época, o nome de Horta da
   Rainha. Nas manhãs de S. João, acorre o povo às pias donde jorra a água que
   um dia dessedentou Aragúncia, a fim de se curar das enfermidades da pele.
Fim




                                                                Monção     Mapa
                       O Carvoeiro
No tempo em que os carvoeiros vinham à Vila de Monção vender o seu produto,
    aproveitavam para carregar nas suas mulas outros produtos de préstimo para
    as pessoas. Acontece que, entre os moradores da Vila, estes homens eram
    frequentemente brindados com partidas de mau gosto, porque julgavam-nos
    ingénuos ou ignorantes. Um dia, vinha para a Vila o carvoeiro Zé Preto com o
    seu burro carregado de carvão.
O burro progredia com dificuldade, não só porque a carga era pesada, mas
    também porque as moscas não o largavam. Ao passar à Valinha, um homem
    que morava ali junto ao caminho, querendo brincar com o Zé Preto, pediu se lhe
    podia arranjar um quilo de moscas!
- Arranjo, sim Senhor!
Respondeu sem demoras o Zé. Parou o burro e começou a apanhar as moscas
    que pousavam no pobre do animal, aproveitando até as que estavam nos
    burros dos amigos que por ali passavam, juntando o tal quilo de moscas que lhe
    encomendavam. Encomenda pedida, encomenda entregue:
-Aqui tem o que pediu, amigo!
Mas o homem, sentando-se numa pedra que estava mesmo junto ao caminho,
    começou a apartar as moscas, depois de uma olhadela atenta, seguida de uma
    breve pousa:

                                                                Monção     Mapa
                   O Carvoeiro                    (Cont)


-Esta não é mosca, é mosco! Este é mosco..., este é mosco..., etc...,etc...-
Não deixava o homem nada da parte que era suposta ser das moscas, para depois
   dizer que não pagava a encomenda que pedira. Zé Preto bem controlou os
   nervos para não desancar uma grande surra no esperto do homem. Mas não
   ficava pela demora.
Aproximou-se o natal e havia que fazer os doces da ceia festiva. O tal fulano da
   Valinha encomendou ao Zé Preto um quartilho de mel para a mulher fazer as
   rabanadas. Tinha chegado a ocasião da vingança!
Encomenda é encomenda. Lá trouxe o quartilho de mel, mas não sem antes ter
   metido no frasco um pouco de merda de cão no fundo do frasco. Quando foi à
   Vila, passou pela casa do tal homem para entregar a encomenda. Este quando
   a recebeu, sentiu um cheiro que não era propriamente aquele a que estava
   habituado quando engolia umas colheres de mel para os resfriados.
-Mas que raio me trouxeste tu? Isto é mel ou é aquilo que estou a pensar?
O espertalhão nem coragem tinha para mencionar o que via no fundo do frasco, tal
   era o nojo que sentia.
-Então vossemecê «extremava» os «moscos» das moscas e não «extrema» o mel?
Lembrando da partida que fizera ao carvoeiro no passado, o homem da Valinha
   nem ousou ripostar. Ficou com o preparado, prometendo a si mesmo nunca
   mais repetir a brincadeira com o Zé Preto.
Fim                                                               Monção Mapa
            Feiticeiras de Castro
Que as feiticeiras se reúnem de noite para as suas tropelias e divagações festivas,
   todos os sabem, mas porque é que elas têm uma predilecção pelo Monte do
   Crasto, isso é que ninguém consegue adivinhar. O certo é que por ali são
   muitas as vezes em que as vadias das feiticeiras incomodam muitos dos
   caminhantes.
Os afazeres do campo ou dos ofícios nem sempre terminavam à luz do dia,
   obrigando a percorrer os caminhos mais esconsos e escuros, envolvidos pela
   floresta viva. As feiticeiras preferiam a escuridão, querendo-a só para si,
   infligindo por isso toda a espécie de males aos que se aventuravam pela noite
   nos locais dos seus encontros. No Monte do Castro havia um cruzamento que
   todos temiam percorrer de noite. Ali aconteciam coisas do diabo que ninguém
   queria entender, mas somente evitar.
Conta-se que um homem estava a trabalhar ali perto, na Quinta do Pinho. Era ele
   pedreiro e encontrava-se a reparar umas paredes que tinham urgência de
   obras. Era essa urgência que o tinha obrigado a trabalhar pela noite dentro.
   Enquanto picava e assentava a pedra, o som do cinzel e do maço alongava-se
   na noite, perturbando o silêncio da mata. A dada altura começou a ouvir umas
   vozes muito estranhas:
-Ah! Seu malandro..., seu...,seu aquele.... A trabalhar pela noite dentro?


                                                                 Monção     Mapa
        Feiticeiras de Castro                                   (Cont)


O homem nem respondeu, pois não via ninguém a quem culpar aquelas vozes
   provocadoras.
Mas, alongando um pouco o olhar, viu vir na sua direcção uma porca com
   porquinhos... Largando o maço foi ao encontro dos porcos, na tentativa de os
   agarrar. Ora pega num, ora pega noutro...,agarra aqui, agarra ali..., mas os
   porcos pareciam estar a gozar com ele, pois não os conseguia segurar.
Até que voltou a ouvir as vozes misteriosas:
- Vai-te embora daqui! Não te fazemos mal, porque te conhecemos, senão já não
   te ias embora!
Fixando os olhos apenas no caminho de regresso a casa , o pobre do homem não
   deixava de dizer, baixinho, para si. – As feiticeiras deram comigo! - E sem olhar
   para trás correu para casa, temendo pela vida.
A mesma sorte não tiveram o Caetano e o Tavares! O Caetano trabalhava na casa
   da D. Augusta como jornaleiro. Um dia a patroa mandou-o para Nogueira, para
   uma Quinta que lá tinha, a tratar das sementeiras. O trabalho botou-se para
   muito tarde, regressando a casa já noite feita e bem escura.
Quando passava ao Castro saltaram-lhe ao caminho um bando de feiticeiras, que
   depois de o rodearem, soltando altas gargalhadas e dando grandes pulos,
   pegaram nele e meteram-no numa corte de gado, deixando-o todo nu! Tolhido
   pelo medo, e temendo as feiticeiras, o Caetano permaneceu ali toda a noite, no
   meio dos animais.
                                                                   Monção Mapa
         Feiticeiras de Castro                                    (Cont)


De manhã cedo foi o dono da corte soltar os animais para os campos e encontrou
    aquele homem!
Vendo-o nu, e de olhar perdido, bem tentou o Senhor ter uma resposta para a
    pergunta sobre o que lhe acontecera, mas o Caetano nada dizia: estava mudo!
- Isto é coisa de feiticeiras! - Concluiu o dono da corte, apressando-se a ir procurar
    agasalho para o pobre do Caetano.
Já quanto ao Tavares, as coisas foram mais sérias. Naquela noite regressava ele
    de tocar bombo pelas festas e romarias, quando foi surpreendido pelas
    feiticeiras. As feiticeiras rasgaram-lhe a roupa e depois de o lançarem nas
    silvas, levaram-no para cima de um penedo, em Boca, na freguesia de Moreira.
    O povo chamava a esse penedo, e parece com razão, o penedo das feiticeiras.
    Com as artes do diabo e a força do mafarrico, colocaram-no bem no cimo do
    penedo da Boca, deixando-o aí sozinho e maltratado. Diz-se que foi preciso
    uma escada para descer o pobre do Tavares de cima do penedo. Mesmo assim
    a empresa revelou-se difícil, pois o homem nem se mexia com o medo da
    véspera.
Muitas outras coisas dizem daquele cruzamento do Monte do Crasto, de tal forma
    que sempre que podem, os moradores da zona evitam atravessá-lo depois da
    noite cair.
Fim
                                                                   Monção      Mapa
  O Penedo da Toca e a Pedra
         Sobreposta
Sempre os homens se interrogam das formas e razões que justificam as posições
   dos muitos penedos que enfeitam os montes destas terras. Como se colocaram
   uns em cima dos outros, em equilíbrio de malabaristas? Se muitos não
   chegaram a qualquer conclusão o mesmo não se pode dizer dos moradores de
   Pias e de Sago.
A gente de Pias diz que o Penedo da Toca foi para ali transportado às costas por
   N.ª Senhora, e a prova disso é a marca das suas mãos na cova que ela deixou
   no penedo. Dizem que foi tão fácil para a Senhora transportar o penedo, que
   depois de o pousar, ainda teve tempo para fiar sete maçarocas de linho.
Quanto aos de Sago, a Pedra Sobreposta está naquela posição desde o dilúvio.
   Depois do pecado dos homens, querendo Deus castigar o mundo das
   maldades, fez cair sobre a terra tal quantidade de água que tudo foi levado
   pelas enxurradas. Nada conseguia fazer parar as chuvas e as torrentes, que
   tudo arrasavam. Foi nessa ocasião que um penedo muito grande, vindo com a
   água, ficou em cima de outro, e por isso lhe chamam de Pedra Sobreposta.
Depois do dilúvio ficou ali para sempre como memória, para que os homens não
   esqueçam o poder de Deus.
Fim



                                                               Monção     Mapa
           A Igreja dos Milagres
Na freguesia de Cambezes, do concelho de Monção, existe um Santuário dedicado
   a Nossa Senhora dos Milagres. Se todas as inovações da Mãe de Deus o povo
   crente encontra a protecção milagrosa da Virgem, ao dar-lhe o nome de
   Senhora dos Milagres quer premiar um acontecimento que esteve na origem do
   Santuário. Havia uma Senhora fidalga, de nome Eulália, que tinha esmero nas
   riquezas deste mundo e na educação dos filhos. Um dos seus filhos, chamado
   Damião, era uma criança alegre e brincalhona, como são todas as crianças de
   tenra idade. Mas Damião parecia ultrapassar todos na brincadeira,
   descuidando-se por vezes das mesmas. Bem a mãe procurava conter os seus
   entusiasmos, mas ele não parava de fazer as maiores tropelias:
-Pára um pouco rapaz, senão ainda dás cabo de tudo!
-Mãe, olha!
E lá continuava a saltar e correr sem temer - para desespero da pobre mãe-
   qualquer obstáculo. Quando fazia as asneiras sem gente de fora por perto, D.
   Eulália ainda se contia nas repreensões, apesar de estar sempre de coração
   sobressaltado.
Num certo dia festivo organizou a família Pereira de Castro um jantar de cerimónia,
   para o qual convidou os amigos e familiares mais chegados. Estavam todos à
   mesa, incluindo os filhos. O Damião foi ouvindo as conversas e os comentários
   dos comensais.

                                                                 Monção     Mapa
        A Igreja dos Milagres                                  (Cont)


Até que, criança que era, pegou numa das pontas da toalha e puxou-a com tal
   força que lançou ao chão a louça toda que estava em cima da mesa! A D.
   Eulália nem queria acreditar que ele fizera aquilo, logo no dia em que tinha
   convidados em casa. Desesperada pelo incómodo da situação, num gesto
   irreflectido gritou-lhe bem alto, para surpresa de todos:
-Malvado tu sejas! Que fiques tolhido toda a vida de pés e mãos!
A verdade é que a partir daquele dia a criança ficou paralisado de pés e mãos! Ao
   ver o que aconteceu ao seu filho, D. Eulália sentiu que o castigo de Deus tinha
   caído sobre as suas monstruosas palavras. Arrependida e perseguida pela
   culpa de tal desgraça para seu filho, levantou o coração de mãe aflita para a
   Mãe de Cristo:
-Senhora das Dores, tu que também és mãe e choraste pelo sofrimento do teu
   filho, suplico-te que me concedas o milagre da cura do meu filho! Prometo-te
   que caso ouças o meu pedido construirei aqui uma igreja que não haverá maior
   pelas redondezas.
O arrependimento e a sua dor eram grandes, mas a fé era ainda maior. Se alguns
   viam na criança doente um castigo merecido, outros viram uma oportunidade
   para Deus manifestar o seu poder. As preces de D. Eulália foram ouvidas e o
   menino recuperou todas as suas forças. –Milagre! Foi a palavra que mais se
   ouviu na boca de todos.

                                                                Monção     Mapa
       A Igreja dos Milagres                                (Cont)


E foi que se cumpriu o prometido, erguendo o Santuário onde hoje todos veneram
   a Senhora dos Milagres, como memória da protecção da Senhora, mãe de
   Deus.
Fim




                                                             Monção     Mapa
               Os Figos de Ouro
São muitos os penedos que saltam aqui e ali pelos montes do concelho de
   Monção. Em Pias existem alguns com nome feito e bem conhecidos, como o
   Penedo da Toca, o de Teixugueira, ou o Penedo da Ponte. Existiam em Pias
   dois penedos que faziam uma ponte entre si. Através deles, mesmo pelo meio,
   passava um carreiro que ia dar ao monte, para as bandas de Taias.
Acontece que um dia, um grupo de pessoas seguia por esse carreiro para o
   campo. Era frequente que quem ali passava, parasse um pouco, olhando para a
   paisagem lá ao fundo. Desta forma agiram as pessoas que seguiam nesse dia.
   Uma do grupo, mais curiosa, reparou em algo de diferente num campo, a que
   chamavam das minas, por aí acreditarem existir tesouros de mouras.
-Ó mulher, o que é aquilo ali nas minas?
-Eu sei lá! Parece uma esteira estendida com qualquer coisa. Vamos lá ver o que
   é.
Desceram às minas e quando chegaram junto à esteira, encontraram-na cheia de
   figos de seira! Surpreendidas, olharam em volta, mas como não viram ninguém,
   apanharam cada uma três figos e meteram-nos na bolsa. Seguiram para o
   campo onde iam trabalhar e, quando regressaram à noite a casa, guardaram os
   figos numa gaveta da mesa da cozinha.



                                                              Monção     Mapa
            Os Figos de Ouro                             (Cont)


Ainda foram perguntaram se alguém tinha perdido seiras de figos, ou se outros
   tinham também encontrado figos, mas não souberam mais nada sobre as
   misteriosas seiras. Entretanto passaram-se três dias, e como ninguém
   perguntou pelos figos, resolveram ir à cozinha comer os figos. Mas, para sua
   surpresa, quando abriram a gaveta, no lugar dos figos encontraram três peças
   de ouro!
Refeitas da surpresa, guardaram o ouro no lugar mais escondido da casa,
   confidenciando entre si que certamente aquela era ouro das mouras que
   moravam nos penedos do monte. Guardaram o segredo para si e agradeceram
   a sorte da fortuna.
Fim




                                                              Monção     Mapa
                             A Coca
Era uma vez um jovem moço de gentil disposição e de grandes forças que nasceu
   de pais novos e ricos, lá para os lados do oriente e a quem deram o nome de
   Jorge.
Desde novo se dedicou às armas, servindo o imperador Diocleciano no seu
   exército. O grande valor e coragem que demonstrava nas batalhas fizeram-no
   ser estimado por todos os companheiros que o nomearam seu tribuno e mestre
   de campo. Mas o imperador que servia moveu uma impiedosa perseguição aos
   cristãos, o que levou o valente guerreiro a descobrir a força que levava aquela
   gente a preferir a morte a negar o seu Deus. Converteu-se a Cristo e jurou
   servir a sua vontade, dando protecção e auxilio aos que dele necessitavam.
Andava um dia S. Jorge nas terras de Líbia quando escutou um grito horrendo e
   desesperado.
Acorreu o jovem guerreiro àquele apelo de ajuda. Quando chegou junto do local de
   onde viera o grito deparou com um terrível animal e uma jovem donzela. Era
   esse mostro um enorme dragão que tentava devorar a jovem. S. Jorge não
   hesitou um segundo e, avançando de lança em punho, feriu de morte a fera
   assassina. Perante tal acto de bravura, a jovem, que S. Jorge vem a saber ser
   uma princesa filha do Rei da Líbia, impressionada pela heroicidade do
   cavaleiro, descobre a fé do Santo, vindo também ela a converter-se.


                                                                Monção     Mapa
                         A Coca             (Cont)


Muitos foram ainda os feitos de este Santo guerreiro, desejoso de vencer o mal e
   fazer reinar o bem. Por esta razão o povo de Monção celebra a vitória de S.
   Jorge sobre Coca no dia da sua maior festa, a festa do Corpo de Deus. Assim
   celebram a luta contra o mal e o triunfo do bem.
Fim




                                                               Monção     Mapa
                         A Danaide
Quando em tempos, Portugal andava em guerra com Espanha, o marido de
   Danaide partiu para defender sua pátria.
Quando veio, soube que Danaide o tivera traído...
.«Só te perdoo quando tiveres peneirado toda a água do Rio Minho».
E assim... nunca Danaide foi perdoada e perdura até aos dias de hoje no magnífico
   busto que se encontra na Praça Deu-la Deu.
Fim




                                                                Monção    Mapa
             Deu-La-Deu Martins
O brasão de armas de Monção perpetua esta figura portuguesa do tempo das
   guerras de D. Fernando, Rei de Portugal, com D. Henrique de Castela, no
   longínquo século XIV: em campo branco uma torre, no alto da qual emerge um
   vulto de mulher, em meio corpo, segurando um pão em cada uma das mãos;
   em volta a legenda, Deus a deu – Deus o há dado.
Pois esta é a história de Deu-La-Deu Martins, a mulher do capitão-mor de Monção,
   Vasco Gomes de Abreu, e dos actos de bravura que fizeram dela a heroína e o
   símbolo daquela Vila nortenha.
Estava-se em guerra, como já disse. Vasco Gomes de Abreu ausentara-se em
   serviço do Rei de Portugal e o adiantado da Galiza, D. Pedro Rodrigues
   Sarmento, general de Henrique de Castela, decidiu aproveitar a ocasião e pôr
   cerco a Monção com um poderoso exército.
A Vila aguentou o cerco apesar da falta de recursos de todo o género. Os
   alimentos eram escassos, os homens válidos muito poucos. Deu-La-Deu tomou
   o comando da praça e, durante todo o tempo que durou o cerco, dirigiu os seus
   homens, lutou a seu lado nos momentos de maior perigo, encorajou os
   vacilantes e desesperados, assistiu os feridos, fechou os olhos espantados de
   céu e dor dos mortos. Desmultiplicou-se, sem um momento de desânimo, sem
   uma vacilação.


                                                               Monção     Mapa
         Deu-La-Deu Martins                                   (Cont)


Porém, intramuros, esgotava-se tudo, lentamente: os recursos militares, a comida,
    os próprios homens e a coragem também. O desespero descia sobre espíritos e
    corpos massacrados por dias e dias de expectativa num lance decisivo.
E foi num desses momentos de desespero que, lúcida, Deu-La-Deu mandou
    recolher a pouca farinha que ainda existia na Vila e com ela fazer alguns pães.
    Os olhos famintos e desorbitados dos habitantes chisparam de ténue mas
    selvagem alegria. O pão, o ultimo naco! Depois da morte, mas que interessa
    isso se ela nos espera na mesma e nós estamos fartos de a esperar.
Mas...
Prontos os pães, Deu-La-Deu subiu à muralha com eles na mão. Chegou-se a uma
    ameia e jogou-os aos sitiantes, ante o espanto dos seus conterrâneos, sem
    forças para mais do que pasmo, gritando bem alto:
- A vós, que não podendo conquistar-nos pela força das armas nos haveis querido
    render pela fome, nós, mais humanos e porque, graças a Deus, nos achamos
    bem providos, vendo que não estais fartos, vos enviamos esse socorro e vos
    daremos mais, se o pedirdes!
Na verdade, também o inimigo tinha fome, muita. Por isso, face àquele
    esbanjamento de pão, acreditaram na fartura dos sitiados e levantaram cerco,
    partindo para terras de Espanha.

                                                                 Monção     Mapa
         Deu-La-Deu Martins                              (Cont)


É esta a história de Deu-La-Deu Martins, a defensora de Monção. Resta
   acrescentar que, depois da sua morte, durante muito tempo, foi costume os
   vereadores do município irem até junto do seu túmulo quando tomavam posse
   dos seus cargos.
Fim




                                                            Monção    Mapa
              O Outeiro Pedroso
Lá para os lados do Monte do Castelo, na freguesia de Sago, existia, como o
   próprio nome o diz, um castelo onde moravam, em tempos antigos os mouros.
   Quem morava à volta do local conhece a «buraca da Moura»,as pias onde os
   mouros se lavavam, e o morro que encima o castelo, a que o povo chama de
   «Curunha do Castelo». Há quem diga que os mouros subiam lá para cima com
   uma corneta, que tocavam quando avistavam alguém a aproximar-se. Nessa
   altura, formavam-se grupos dos dois lados, e aquilo era pedrada de todo
   tamanho! Os mouros não deixavam lá entrar ninguém. Quando queriam sair
   seguiam pela «buraca da Moura» até ao castelo de Lapela, por um túnel
   subterrâneo. Alguns afirmam que esse túnel ia até à outra margem do Minho.
Com o tempo desapareceram todos e só por lá ficou uma moura, sozinha,
   escondida na maior parte do tempo, aparecendo só pela manhã, quando
   penteava os longos cabelos ao sol.
Ora, dizia-se, a Moura escondida tesouros fabulosos, mas era preciso desencantar
   a Moura e os tesouros para os conseguir trazer para casa. Sabiam os mais
   velhos que era preciso levar lá um arado com galinhas cangadas!Só assim o
   tesouro sairia de dentro dos penedos que se encontravam no castelo.




                                                               Monção     Mapa
          O Outeiro Pedroso                              (Cont)


Um certo dia, uns homens da aldeia foram à mourama e levaram, ao cantar dos
   galos, dois galos cangados com um arado. Subiram ao castelo nessa
   companhia, na esperança de conseguirem o tão ambicionado tesouro da
   Moura. Os galos começaram a cantar e , entre um barulho imenso, o penedo
   começou a abrir-se. Mas, de dentro do penedo só saíam cobras! Quanto mais o
   penedo abria, maiores eram as cobras. os homens nem queriam acreditar no
   que viam. Cheios de medo, gritaram uns para os outros:
-Valha-nos Jesus Cristo!
E o desabafo apresentou-se como ordem de fugida. Largando galos e todas as
   pertenças , deram a correr para bem longe dali. Mais tarde, quando um mais
   corajoso foi ver o resultado, encontrou o penedo bem fechado, como sempre
   estivera no passado.
Fim




                                                             Monção     Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves
A aldeia de Paços, que faz parte da freguesia de Lara, viveu nos primeiros tempos
   da monarquia um fidalgo - o conde de Lara - chamado Fernão Gonçalves. Era
   este fidalgo um batalhador incansável contra os mouros. Casado com uma
   infanta de Navarra, teve um filho e uma filha. Na luta contra os sarracenos, D.
   Fernão perdeu o filho, D. Gonçalo, e ficou-lhe apenas a filha, D. Constança.
   Uma desgraça nunca vem só; logo a seguir à morte do filho morreu também a
   sua esposa, D. Sancha. Então o seu ódio contra os mouros exacerbou-se. Não
   podia suportar a tristeza no seu lar quase deserto e encontrou na luta sem
   tréguas o único lenitivo para a sua dor. Tornou-se impiedoso. Homens e
   mulheres caíam sob a sua espada. Porém, se deparava com crianças órfãs, o
   seu furor acalmava e chegava ao ponto de as levar consigo para as empregar
   ao serviço, na ânsia de lhes dar melhor vida e formar-lhes uma alma cristã.
Como não queria mostrar o seu lado fraco, pedia aos seus súbitos que tomassem
   conta das crianças, mas afastava-as do seu próprio convívio. Certa vez porém,
   ainda a filha era pequenita, encontrou-se numa aldeia mourisca com o Rei D.
   Ramiro II, numa famosa batalha contra a moirama. Os cristãos haviam vencido
   o Rei de Córdova. Os sarracenos retiravam em alvoroço. No meio da confusão,
   um choro de criança fez-se ouvir. Era o de um rapazito de uns sete anos de
   idade. Tinham-lhe morto o pai a mãe e os irmãos.


                                                                Monção     Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves                                         (Cont)


Perante cena tão desoladora, D. Fernão enterneceu-se, mau grado seu. Pegou no
   menino e ordenou que o levassem para o seu castelo de Viana do Minho.
   Quando regressou da batalha, fez baptizar cristãmente o pequeno mouro. E
   porque o rapazito mostrava dotes de extraordinária inteligência. Mandou-o
   educar, dando-lhe os mesmos mestres de sua filha, cuja idade orçava pela do
   pequeno órfão. Todavia, apesar deste destaque dado por D. Fernão Gonçalves,
   todos os seus vassalos e servidores chamavam ao pequeno apenas «o
   Mouro».Outros pareciam ignorar o seu nome de cristão e chamavam-lhe pelo
   seu nome muçulmano: Abdalá.
O jovem mouro foi crescendo. Grandes eram as ausências de D. Fernão. E o
   jovem começou a compreender - até porque nada lhe escondiam - que nessas
   ausências o seu protector empregava o tempo a matar os da sua raça .Uma dor
   imensa apertava-lhe a garganta. O sangue fervia-lhe nas veias. A consciência
   gritava-lhe que devia afastar-se do castelo - apesar do que devia a D. Fernão -
   e juntar-se aos seus. Todavia, o coração segredava-lhe que, se o fizesse,
   nunca mais veria a jovem D. Constança. E ele amava-a no seu mais forte
   sentimento. Constança teria então quinze anos e ele dezassete. Era tão
   formosa como ele nunca tinha visto igual. Os seus olhos negros, de expressão
   doce e profunda, os seus cabelos de ébano, a sua voz suave não lhe saíam dos
   sentidos. Jamais lhe chamara «Mouro», embora gostasse de o tratar por
   Abdalá.
                                                                Monção     Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves                                       (Cont)


Estudavam juntos e esforçavam-se por aprender. Eram os mais cultos entre os
    jovens que os rodeavam. Eram belos e galantes. O amor do jovem mouro era
    correspondido por Constança, tanto mais que ele havia recebido as águas do
    baptismo. Mas o que ela não sabia era o drama íntimo de Abdalá quando via
    chegar das campanhas D. Fernão Gonçalves, com a espada tinta do sangue
    dos da sua raça. Para ele, aquele sangue era como se fosse o seu! E uma onda
    de revolta tomava-o de assalto. Nesses momentos só um pensamento o
    dominava: fugir e vingar-se ! Tanto mais que o seu amor vivia escondido,
    receoso de uma represália de D. Fernão. Enchendo-se de coragem, foi procurar
    Constança. O calor começara a declinar. O Sol descia no horizonte. Corria um
    vento fresco, mas a terra ainda estava quente. Num recanto do pátio quase
    privativo de Constança, Abdalá tinha uma expressão dolorosa, ao dizer:
-Constança... É preciso que eu parta!
Ela agarrou-se-lhe a um braço, suplicante.
-Não, não quero! És tudo para mim, bem o sabes! Já não tenho mãe nem irmãos!
- Ficas com o teu pai.
- Amo-te mais do que a meu pai!
-Mas pressinto que ele não nos deixará casar.


                                                               Monção     Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves                                      (Cont)


-Talvez o convença. Mas para isso terás de esquecer o ódio da tua raça aos
   nossos!
-E acaso o teu pai esquece o que tem aos meus? Bem leio nos seus olhos esse
   ódio que não terá fim.
- Mas foi ele quem te recolheu e te mandou educar!
- Enquanto criança! Hoje, já sei pegar numa arma. Sou portanto um inimigo.
-Talvez não. Tentarei falar-lhe.
-Será inútil, Constança! Se me afasto, levando a morte na alma, é porque receio
   que a minha presença te possa acarretar infelicidade. Quando a mim...
   Procurarei a morte do corpo num campo de batalha.
Constança encostou a cabeça ao peito do seu bem-amado. Chorava em silêncio.
   Ele abraçou-a com arrebatamento.
-Preciso que me compreendas! Se pudesse ter-te por esposa, nem que fosse uma
   hora, daria em troca a minha vida! Porém, ficaria louco de dor se te
   acontecesse algo por minha causa!
Abdalá calou-se. No lajedo do pátio ouvia-se um tilintar de esporas. Constança
   segredou:
- Vai-te! Vai-te embora, porque ele viu-nos!

                                                              Monção     Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves                                        (Cont)


-Não posso agora deixar-te sozinha!
- É preferível, peço-te! Se ele te encontra junto de mim, mata-te e nunca mais
   poderei perdoar-lhe! Foge, Abdalá !Suplico-te!
D. Fernão vira-os, na verdade, e compreendera tudo. Pegou na espada para a
   descarregar sobre Abdalá. Mas Constança gritou horrorizada:
-Poupai-o, mesmo à custa da minha vida, Senhor meu pai!
Então, o jovem mouro resolveu fugir. Não para se livrar da morte, mas porque
   nesse momento todo o ódio recalcado da sua raça lhe gritou que deveria
   procurar vingança no campo de batalha.
Ao afastar-se Abdalá ouviu D. Fernão clamar:
-Maldito! Para sempre serás maldito!
As lutas continuavam ferozes, sanguinárias, de parte a parte. Do lado dos
   sarracenos o ódio parecia mais aceso ainda, desde que o Rei de Córdova dera
   poderes a um jovem que viera do campo de Entre-Douro-e-Minho. D. Fernão
   mostrava-se mais excitado. Zangava-se até ao furor por qualquer ninharia, e os
   seus vassalos mais dilectos haviam-no aconselhado a ficar em Paços. Porém,
   D. Fernão rejeitava com desprezo esse conselho e estava sempre no mais
   aceso da luta.


                                                                Monção    Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves                                         (Cont)


Um dia, a batalha travava-se fora da região onde ele tinha os seus domínios.
    Ajudava o monarca D. Ramiro II na luta contra os infiéis. No meio da contenda,
    D. Fernão Gonçalves caiu do cavalo. Logo o rodeou uma turba de mouros. Mais
    de vinte adagas caíram sobre ele. Mas logo uma voz possante perguntou:
-Quem o vai desarmar sou eu!
Os outros, vendo um dos chefes, retiraram as armas , embora sem perder de vista
    o ferido.
O chefe mouro falou:
-D. Fernão Gonçalves! Sabes quem sou?
Mal podendo ver, pois a agonia aproximava-se, D. Fernão teve forças para
    responder.
-Sei quem és ...És Abdalá, o maldito a quem poupei a vida!
-Que fizeste de tua filha?
-Que te importa?
-Amo-a, apesar de tudo!
-Pois... Fica feliz! Vou morrer... E ela... Espera-te!
-Onde?
-No salão nobre do meu palácio, onde cresceste e fizeste homem!

                                                                Monção     Mapa
A Vingança de Fernão Gonçalves                                            (Cont)


-Porquê no salão nobre?
-Porque lá a fechei... Antes de vir para aqui! E agora... Satisfaz o teu ódio...mata-
   me!
-Não matarei o pai daquela a quem amo ... Outros o farão por mim.
E dando costas, fez sinal para que não prolongassem a agonia de D. Fernão.
Terminada a batalha, que estava já no fim e agora ganha pelos mouros, Abdalá e
   alguns dos seus obtiveram licença para se embrenharem nos domínios de D.
   Fernão Gonçalves. Atravessaram rios e montanhas, ligeiros como o vento. Ao
   cair da noite, o jovem mouro chegou ao palácio. Parecia deserto. Nem um
   criado, nem um guarda. Arranjou luz e forçou a porta do salão nobre. Ao entrar,
   o quadro que lhe deparou deixou-o horrorizado...Gritou:
-Constança, meu amor!
Mas ela não respondeu. Estava morta sobre um divã estofado de damasco. A seu
   lado, tombada no solo, ainda ensanguentada, uma das espadas de seu pai.
Abdalá caiu de joelhos soluçando. Compreendia a terrível vingança de D. Fernão.
   Poderia ter-lhe dito que a deixaria morta para que jamais lhe pertencesse. Mas
   preferiu dar-lhe a alegria de uma esperança na certeza de que, assim, se
   vingaria duplamente!


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A Vingança de Fernão Gonçalves                                          (Cont)


Abdalá teve um acesso de loucura. Quis destruir tudo, incendiar o palácio. Só muito
   a custo o levaram dali. Porém, ao recobrar a consciência, não mais largou o
   campo de batalha. E só mostrou semblante feliz quando, certa tarde, caiu
   ferido num combate. Morreu a sorrir proferindo o nome de Constança:
Fim




                                                                 Monção     Mapa
          A Lenda dos Marinhos
Os Marinhos são uma das mais antigas famílias da Península Ibérica, existente
   muito antes da fundação do reino de Portucale. Ao seu nome anda ligada uma
   velha lenda que tenta explicar-lhe a génese.
Um fidalgo da Terra de Valadares, junto à Galiza, de nome D. Froilão, ou D. Froiaz,
   que era caçador e monteiro-mor, andava um dia a cavalo, perto do mar,
   correndo atrás de um veado, quando avistou da encosta de um monte uma
   belíssima mulher adormecida sobre a areia. Aproximando-se sem que ela
   desse por isso, viu espantando que a mulher era nada menos do que uma
   sereia.
Sentindo-se observada no seu sono pausado e sem sonhos, a mulher acordou
   sobressaltada e procurou escapar-se para o mar .
Porém , dois dos escudeiros de D. Froiaz barraram-lhe o caminho e agarram-na.
Defendeu-se o melhor que pôde, usando as mãos, dando golpes com a cauda,
   mas de nada lhe valeu, porque num ápice os braços dos homens fecharam-se
   sobre ela e achou-se presa em cima do cavalo e coberta por um gibão.
D. Froiaz levou-a para o castelo. Ia encantando com aquele ser que o mar
   trouxera. Pediu ao capelão que a baptizasse e escolheu-se o nome de Marinha
   a dona vinda do mar. Tão formosa era D. Marinha que o cavaleiro passou a
   viver com ela como se a sua mulher fosse e dela lhe nasceu o primogénito.

                                                                 Monção     Mapa
      A Lenda dos Marinhos                                       (Cont)


Como os peixes, Marinha era muda. Apesar dos infinitos esforços de D. Froiaz, que
    se não poupou a trabalhos , não conseguiram que D. Marinha articulasse um
    som sequer. No entanto, os olhos da sereia eram um mar de palavras
    desnecessárias, revoltos de amor, encapelados de ternura. D. Marinha não
    precisava falar, mas a D. Froiaz faltava-lhe ouvi-la humana.
Na véspera de S. João, pela tarde, alvoroçou-se o castelo com os preparativos
    para os festejos nocturnos.
Tinham juntado lenha em grandes pilhas e começavam a acender as tradicionais
    fogueiras que deveriam consumir a noite e o ano inteiro porque no dia seguinte
    começaria a chegar outra noite e o Inverno. Bois e carneiros estavam já
    esfolados e enfiados em grandes espetos assando lentamente com o rodar das
    horas.
D. Marinha andava passeando pelo terreiro com o filho nos braços, observando
    aqueles preparativos totalmente novos, completamente desconhecidos para si.
    De súbito Froiaz arrancou-lhe o menino dos braços e fez menção de o atirar ao
    fogo. Enlouquecida, a sereia soltou um guincho estridente de gaivota ferida e
    bradou:
-Filho!!



                                                                Monção     Mapa
      A Lenda dos Marinhos                                     (Cont)


Com o guincho saltou-lhe da boca um bocado de carne que a impedia de falar, mas
   não de olhar. A partir daí, D. Marinha passou a dizer tudo naturalmente e
   acabou esquecendo a linguagem silenciosa e vital do mar.
D. Froiaz casou com ela e em memória deste dia a que chamou feliz, baptizou a
   criança com o nome de João Froiaz Marinho.
Foi este o primeiro dos Marinhos, como foi o primeiro filho de D. Froiaz e de
   Marinha. A sua casa era muito perto da Galiza, na Terra de Valadares, e
   chamavam-lhe Torre dos Marinhos.
Fim




                                                              Monção     Mapa
       D. Mariana de Lencastre
Graças ao nosso Rei D. João IV havia já anos que Portugal vivia a sua feliz
   independência. Apesar de tudo o monarca português, temendo alguma cilada
   dos Castelhanos, tinha mandado pôr guarnições em todas as praças fortes
   fronteiriças entregando-as ao cuidado de honrados e ilustres fidalgos.
Monção, uma dessas praças portuguesas, sentia-se ameaçada, mas D. João IV,
   prevendo o perigo que podia correr, confiou-a a um dos ilustres cavaleiros
   portugueses: D. João Rodrigues de Vasconcelos. A ele foi confiado esse cargo
   elevado por ter praticado actos importantes por terras de Cartagena das Índias
   e do Nordeste Brasileiro, vindo a tornar-se notável fidalgo.
O ataque a esta praça seria muito fácil, pois o único limite era um pequeno curso
   de água, ao qual davam o nome de rio Minho.
Um certo dia vieram a Monção alguns fidalgos visitar o governador. Em face disto,
   o ilustre hóspede organizou uma festa pomposa para todos os nobres, e os
   seus representantes, que o quiseram visitar nesta terra portuguesa. Um dos
   cavaleiros que assistia ao festim recitava passagens emocionantes dos
   “Sermões” de Padre António Vieira, um dos melhores oradores da época. Toda
   a atenção das damas e cavaleiros estava voltada para as palavras daquele
   fidalgo, quando a porta se abriu discretamente. Um dos escudeiros, sem que
   fosse visto, entrou, aproximou-se de D. João Rodrigues de Vasconcelos e
   segredou-lhe qualquer coisa que pareceu ser acatada com mau humor.

                                                                Monção    Mapa
    D. Mariana de Lencastre                                       (Cont)


O governador disse à sua esposa, que se encontrava a seu lado, que fizesse as
   honras da casa porque ia ausentar-se e não sabia se demoraria. Quando
   chegou ao salão de visitas viu que era Pedro de Bettencourt, capitão de armas,
   que queria falar –lhe. Bettencourt inclinou-se respeitosamente para o saudar e
   apressou-se a pedir desculpas por ter interrompido a sua festa, mas que o fez
   visto se tratar dum perigo para a Pátria. O Governador, que não sabia de nada,
   encheu-se de curiosidade e pediu que lhe contasse o sucedido imediatamente.
Então este começou por dizer que uma contrabandista, que acabava de chegar de
   Espanha, trazia a notícia de que um grosso corpo de soldados Castelhanos
   estavam preparados para vir atacar Portugal, e por isso o melhor era reagir
   imediatamente.
Momentos depois D. João R. Vasconcelos voltava ao salão do festim com ar
   carregado e preocupado, mas D. Mariana leu no semblante do marido qualquer
   coisa de extraordinário, e perguntou se tinha más notícias. D. João de
   Vasconcelos explicou a razão da sua preocupação, o que inquietou um pouco
   sua esposa.
A noite veio e Pedro Bettencourt, que a mandado do governador tinha ido com
   soldados fazer pesquisas, não aparecia. O governador deixou sua casa, e foi
   debruçar-se nas muralhas da fortaleza.


                                                                Monção     Mapa
    D. Mariana de Lencastre                                        (Cont)


Tudo era silêncio, apenas se ouvia o rumor das águas límpidas do rio, onde a lua
   se reflectia. De repente um barulho estranho o fez despertar daquela
   sonolência. Olhou e viu um barquito que vogava apressadamente o rio. Correu
   à margem e viu que era o seu emissário.
-Então, o que é feito da tua gente? Interrogou ansiosamente o Conde.
-Nem eu sei ao certo, respondeu Bettencourt. Deixei tudo e vim preveni-lo, pois a
   nossa Nação precisa de socorro imediato.
Ao outro dia, encostadas às muralhas da fortaleza, viam-se mulheres e crianças
   chorosas que se despediam dos maridos e dos pais. Eles partiam para servir a
   Pátria e defender o seu Rei, pensava D. Mariana, que também via naquela
   multidão de homens o seu marido. Antes de se separarem ele tinha-lhe dito que
   se durante três dias não recebesse notícias suas, é porque fazia parte daqueles
   que haviam dado a sua própria vida pela honra da Nação!
Três dias se passaram sem que houvesse notícias. D. Mariana sentia o seu
   coração estalar de dor e angústia, e a todo o passo parecia ver diante de si a
   figura exangue do marido a sucumbir. Estava na verdade abatida e desde que
   ele partira não tinha dormido uma só hora. Olhava com saudade o futuro, e
   sentia cada vez mais morrer em si a esperança de o ver com vida diante dos
   seus olhos. O que seria feito dele? Todos o ignoravam.


                                                                Monção      Mapa
    D. Mariana de Lencastre                                       (Cont)


Talvez, como o próprio governador avisara, fizesse já parte daqueles que deram o
   seu sangue pela Pátria. Entrou nos seus aposentos e tudo parecia inerte, muito
   vago e banal. Ajoelhou-se em frente da imagem de Jesus, e durante uma hora
   os seus joelhos firmes no pavimento não se mexeram e o seu pensamento
   corria de encontro a quem a podia auxiliar. Orava pelos irmãos de armas de seu
   esposo, por ele, pela Pátria, pelo Rei; as suas orações pareciam não ter fim.
   Seguidamente levantou-se sem o menor ruído, correu ao seu quarto e
   deixando-se cair em cima do luxuoso leito, assim permaneceu durante toda a
   noite. Mal conseguia adormecer. Noite dentro, acordando em sobressalto,
   correu às muralhas julgando alcançar qualquer esperança; mas tudo era sereno
   e mudo e nesta ansiedade permaneceu até que qualquer coisa surgiu em
   terras espanholas: um grupo de cavaleiros portugueses, de ar carregado, olhos
   no chão, caminhavam calados e inquietos. À frente vinha D. João de
   Vasconcelos, com a mesma expressão dos seus camaradas:
D. Mariana, ao ver tão esperado cortejo, pareceu ficar louca de alegria e
   entusiasmo, mas, passados minutos, começou a admirar um dos espectáculos
   mais horríveis da sua existência. Um grupo de espanhóis, galopando
   abertamente, surgiu de entre os matagais de silvas e choupos! Aparecendo de
   surpresa frente a meia dúzia de almas Portuguesas extenuadas, julgaram
   resolvida a contenda.

                                                                Monção     Mapa
    D. Mariana de Lencastre                                       (Cont)


O combate começou e a agilidade dos nossos era extraordinária; mas que poderia
   fazer tão pouca gente contra aquela multidão de piratas cruéis?
A Condessa, dentro das muralhas de Monção, assistia a esta peleja. Vendo o seu
   esposo defender-se com coragem e bravura dum bando de galegos; vendo os
   seus irmãos caírem cobertos de sangue, ensopados em pó, não pôde resistir.
   Correu a chamar auxílio para aqueles infelizes que acabavam de suspirar. Nada
   conseguiu; as forças eram quase nada, e de nada servia a sua parca
   resistência, pois acabariam por fazer companhia aos que faziam já parte dos
   mortos.
Não desanimou, porém, a heróica mulher. Pediu que lhe trouxessem
   imediatamente todas as munições que existissem na praça de Monção. Toda a
   gente trabalhava: uns levavam os canhões, outros traziam pólvora, e até a
   própria Condessa ajudou a colocar na margem do rio as peças de artilharia.
Soou o primeiro tiro quando acabava de aparecer novo grupo de soldados inimigos,
   os quais foram ceifados imediatamente pela metralha. Outra e mais outra, as
   balas partiam e um fumo cheirando a pólvora queimada espalhava-se no ar.
   Dentro em pouco o combate tinha fim com a vitória dos Portugueses, e os
   poucos que escaparam àquele cruel combate já atravessavam o rio Minho em
   quatro batéis. D. Mariana, trémula, mas com um sorrir de heroicidade no rosto,
   esperava a chegada dos barquitos.

                                                                Monção     Mapa
    D. Mariana de Lencastre                                       (Cont)


Enfim, chegaram, e todos a felicitaram e lhe agradeciam a vida, mas, sentindo-se
   ela elevada em demasia por aqueles que viram diante de si a sombra terrível da
   morte, afirmava que nada de maior tinha feito por eles ou pela Pátria. Apenas
   tinha cumprido o seu dever. O seu marido, que até ali tinha estado calado e
   pensativo, disse, com lágrimas nos olhos:
-Não sei que encanto ou que fado tem esta terra, Senhora. Porque faria Deus as
   mulheres de Monção tão grandes heroínas?
-Não é justo que se chame a uma mulher, que não fez mais que o seu dever, uma
   heroína, retorquiu D. Mariana.
Afastado o perigo e dando asas à alegria, subiram todos à praça para festejarem
   tão grande fortuna.
Fim




                                                                Monção     Mapa
           Cornetadas de Tangil
É da tradição da minha terra fazerem-se as cornetadas. As cornetadas eram feitas
   quando um viúvo ou viúva resolvia casar-se, por isso procuravam casar-se em
   segredo sem o povo saber. Quando o povo se apercebia dum casamento duma
   viúva ou viúvo, juntava-se e fazia-se as cornetadas, arranjava-se cornetas e
   tambores, e saíam todas as noites a fazer barulho e a cantar cantigas aos
   viúvos ,durante uma semana, oito dias. Ao sétimo dia realizava-se a choradeira,
   as pessoas que tinham mais jeito faziam o pranto e no oitavo dia realiza-se o
   enterro. Arranjavam-se uma urna e metia-se dentro um espantalho que
   significava o viúvo ou viúva, e assim decorria o funeral acompanhado de muita
   gente para o certo local.
Nesse local o espantalho era queimado, e uma pessoa lia o testamento das coisas
   que o viúvo ou viúva podiam deixar. Então, deixando as coisas as pessoas,
   vizinhos e conhecidos, começando pelos bens e terminando nas roupas de
   vestir.
E eram assim os divertimentos dos povos de outros séculos.
Fim




                                                                Monção     Mapa
           Festa Corpo de Deus
No dia do corpo de Deus, após a Procissão Solene recolher à Igreja, dá-se, numa
   arena improvisada de Campo do Souto, um torneio entre as forças do Bem,
   representado pelo Cavaleiro S. Jorge, e do Mal, representadas pela horrenda
   figura de um dragão conhecido por Coca.
Fim




                                                              Monção     Mapa
                    A Porta do Sol
Na terra de Valença que reclama de Ulisses e Viriato a fundação, e que outrora
   também se chamou Contrasta, vivia uma princesa que por ser tão bela, valente
   e pura, herdou o nome desta esplendorosa terra. Contrasta era uma das duas
   princesas filhas de um Rei muito velhinho que aqui reinava.
A beleza da princesa era exaltada pela paisagem verdejante que a rodeava, de tal
   forma os montes e vales ostentavam uma fertilidade generosa. Parecia que a
   natureza se prolongava no brilho que os raios de sol reflectiam no olhar de
   Contrasta. Por todas estas maravilhas, cada dia que passava, a princesa era
   mais cobiçada por todos os que conheciam o perfume da sua presença.
Ora um dia, um terrível príncipe Mouro que por ali passava, não conseguiu resistir
   aos seus encantos. Juntou numeroso e experimentado exército, e atacou a paz
   e alegria dos que ali moravam.
Travaram-se duras e difíceis batalhas, foram dias e dias de sofrimento atroz, de
   lutas e cruéis chacinas, até que o Rei cansado pela velhice, e triste por se ver
   incapaz de suster o avanço do Mouro, fugiu envergonhado, refugiando-se em
   seus frondosos jardins, que circundavam todo o palácio.
Escondido no meio das flores, o pai de Contrasta viu pétala a pétala...., folha a
   folha...., as flores a cair. E, ao cair, as pétalas transformavam-se em pedras,
   que, sobrepondo-se, formaram grandes e nobres muralhas que sepultaram o
   cadáver do nobre Rei, transformando a sua sepultura numa fortaleza dominante
   e intransponível.
                                                                 Valença    Mapa
                 A Porta do Sol                         (Cont)

O príncipe Mouro queria encontrar o velho Rei para reclamar a glória da vitória,
   bem como as riquezas do palácio e a mão de Contrasta. Mas apesar de
   percorrer no seu corcel toda a muralha que entretanto se formara, não encontra
   qualquer indício do Rei nem das riquezas! Levado pela ira e furioso por se ver
   sem despojos, bate em retirada, destruindo tudo o que encontra pelo caminho.
   Estava já a sair da fortaleza quando encontra a princesa mais nova. Esta fita-o
   com um olhar sofrido, desamparado de toda a força, apesar de nele soltar-se
   ainda a ternura que lhe ia no mais íntimo da alma. Não se abandonou a
   qualquer escrúpulo o príncipe tresloucado, que mal viu a jovem, pegou na
   espada para a trespassar friamente, levando a princesa à morte cruel e dura.
   Foi de tal maneira cruel o gesto, que a própria natureza sentiu aquele golpe
   cobarde. Os pássaros voaram sobre o cadáver da princesa moribunda cantando
   e falando como nunca os homens tinham alguma vez escutado: “Tu ó bela, que
   tanto nos acarinhastes..., Tu será a Rainha do Sol!” Naquele mesmo instante o
   dia, antes tenebroso e frio, transformou-se em intenso sol ardente, que a tudo
   iluminou, envolvendo a princesa em mil sóis. Quando a luz brilhante foi
   perdendo força, havia desaparecido o corpo da jovem, agora transformado num
   belo portal a que depois chamaram de “portas do sol”.
Entretanto, aos gritos da irmã mais nova acorreu aflita Contrasta, princesa herdeira
   do reino vencido. O Mouro ao ver chegar a sua antiga paixão não teve coragem
   para suplicar o perdão ou forças para justificar o seu gesto bárbaro. Perdido de
   razão e desejoso por dar fim a jornada tão violenta, pegou naquela que vira
                                                                  Valença    Mapa
                A Porta do Sol                        (Cont)

desaparecer a irmã e levou-a para junto de uma frondosa árvore. Ali acabou o
   que antes havia começado: martirizou Contrasta, deixando-a em lenta
   agonia debaixo da árvore, que muitas vezes lhe servia de sombra
   repousante. Caíam-lhe as folhas sobre o rosto desfalecido segredando-lhe
   baixinho: “Serás coroada..., serás coroada, tu que foste uma princesa
   valente e tão bondosa.”
E sobre as “portas do sol” desceu a coroa que lembra como a barbárie destruiu
   bondades e belezas tão prometedoras. Aquelas que a natureza protegeu
   pela beleza e graça, alcandorando-as aos lugares de destaque, não
   ficaram sem que a mesma natureza desse resposta ao actor do hediondo
   crime. Todas as forças se uniram para lançar o guerreiro Mouro no fundo
   do vale, transformando-o em rio. E ainda hoje corre aquele a quem
   chamam de Minho, vergado aos pés das princesas assassinadas. Por
   vezes bem ele procura alcançar os muros da fortaleza, como suplicando
   perdão pelos seus actos, mas lá volta ao seu leito, resignado pelo poder e
   beleza das “portas do sol”.
Fim



                                                                Valença    Mapa
      As Bruxas do Caminho de Melim
Havia uma chã muito grande, adiante da quebrada que ia para Melim, que tinha
    muita má fama.
O povo não se cansava de contar o que por ali se passava.
Acontece que um dia, mandou uma mãe seus filhos buscar o correio ao lugar de
    Melim, pois soubera que o marido que estava no Brasil lhe havia escrito. A
    viagem ainda era longa, cerca de meia hora, e a noite estava a cair.
- Ó meus filhinhos, vós não ides buscar a carta do vosso pai?
- Vamos mãe! - Responderam prontamente as crianças, desejosos das novidades
    frescas do pai, e com vontade de obedecer à mãe.
- Atenção que não vades ali por baixo, por aquela chã. Ide por cima!
Mas os miúdos, desejosos de cumprir rapidamente o caminho, não deram ouvidos
    à mãe, e foram pela chã. À ida para Melim, quando ali passaram, ouviram dois
    estouros, mas nada viram. Quando regressavam e chegaram à chã, viram duas
    mulheres à sua frente. Estavam as duas a dançar, vestidas de vermelho, ora
    virando para um lado ora para o outro, etc..
Os rapazes viram naquilo obra do diabo, e disseram:
- Mas que putas são estas que estão aqui a dançar? Quem vem lá?
- Olha a tia Isaura também está aqui a dançar! – A bruxa tinha-se representado
    numa mulher que conheciam.
                                                               Valença    Mapa
  As Bruxas do Caminho de Melim                                      (Cont)


- Ó Quim – disse o mais velho, de nome João, - vamos embora daqui! Se eu
    soubesse que isto ia acontecer tinha trazido comigo um pau para lhes cair em
    cima.
Mas quanto mais eles subiam o caminho, mais elas trepavam atrás deles.
- Isto são como burros a trepar – disse um dos irmãos, antes de chegar a casa,
    abafadinhos de tanto fugir e ainda com as risadas das bruxas nos ouvidos.
Vendo-os neste estado, a mãe bem lhes lembrou do aviso que lhes fizera:
- Eu não disse para não seguirem o caminho da chã? Eu sei que ali se juntam as
    bruxas todas das redondezas, porque já as vi ali ! E lá contou aos filhos o que
    vira:
Era eu ainda novinha e fora lá abaixo ao campo tapar umas poças para no outro
    dia ir regar. Então ouvi-as falar. Eram seis, e diziam umas para as outras:
- Bom, agora quando é que embarcamos para o Brasil?
- Eu também quero ir, - respondeu uma delas imediatamente.
- Vamos lá a ver se o que manda no barco consente, porque eu ando prenhe. Não
    sei vamos lá a ver...
-Amanhã vamos falar com ele!
No dia seguinte iam a entrar para o barco e diziam umas para as outras:

                                                                 Valença      Mapa
  As Bruxas do Caminho de Melim                                     (Cont)

- Se andar , é esta noite...
Elas eram quase todas casadas e iam para o Brasil para se divertirem...
Então o barqueiro - que era o diabo - disse:
- Entrem todas para irmos embora... Entraram todas mas o barco não seguia
    viagem. O diabo bem dizia que o barco não ia, e perguntava se alguma estava
    grávida. Ao que todas responderam que não! O diabo contava as presentes,
    mas o barco não se mexia. E só quando por fim, acrescentou mais um aos que
    via, o barco parecia que desaparecia, tal era a velocidade:
- Ai que morremos aqui todas, - gritou uma mais nova, que não estava habituada
    àquelas andanças.
Chegadas ao Brasil foram ao folguedo. Quando voltavam para vir embora, uma
    delas disse:
- Agora vamos cada uma buscar o seu ramo.
- Deus te livre de fazer isso! – Respondeu-lhe o diabo - não vês que os ramos
    podem denunciar o que fazemos?
Mas esta bruxa, nas escondidas, lá pegou num pequeno ramo e, quando encontrou
    o namorado, ofereceu-lho. No dia seguinte o namorado colocou o ramo ao
    peito, e foi com ele à missa. As outras bruxas também foram à missa. No fim
    das cerimónias, ao sair da porta da igreja, foram ter com o namorado da amiga
    e disseram-lhe:
                                                                Valença      Mapa
  As Bruxas do Caminho de Melim                                 (Cont)


-Tira isso daí! Ouviste? Se não tirares, não passas de hoje!
O pobre do rapaz, virando-se para a noiva , só disse!
-Então porque é que mo deste? Mas que namorada que eu tenho!
- Dei - to para o guardares, e não para o mostrares a toda a gente.
A partir daquele dia o jovem não quis saber mais da namorada, por desconfiar
    daquelas ameaças tão misteriosas.
Fim




                                                            Valença      Mapa
          A Mudança de Marcos
Há muitos anos um homem de S. Pedro da Torre, antes de morrer, deixara um bom
    campo ao seu neto. Era um dos melhores campos da freguesia. Ora o rapaz era
    muito novo e pouco conhecedor das maldades das pessoas.
Um outro homem tinha também uma leira no mesmo sítio, que fazia vizinhança
    com o campo do rapaz. Esse homem, com o tempo, ia mudando os marcos do
    terreno e roubava terra ao moço. Um dia a alma do avô apareceu ao neto, e
    perguntou-lhe o que o vizinho andava a fazer. E o neto lá disse ao avô o que
    estava a suceder, que o vizinho lhe roubava todos os anos um pouco de terra,
    mas que ele tinha receio de o enfrentar, pois não conhecia bem a terra e ainda
    era novo. Então o avô agarrou no cabo da enxada e foi ao campo com o
    tratante. Espetou o cabo da enxada no marco de cima, e mandou o ladrão para
    alinhar até cima meio metro para fora.
- Agora vais para o marco lá de baixo de todo, que eu fico no meio – disse o avô ao
    ladrão. Agora vê tu quanto roubaste ao meu neto estes anos todos! Agora
    sabes que mais? Por agora fica assim, para a outra que me fizeres, descer cá
    abaixo eu mato-te!
- Ai isto foi a lavrar que fugiu mais para cima, e lá veio um bocado de terra para
    diante! – justificou-se o ladrão.
- Pois ficas avisado!
Dali em diante nunca mais o homem passou com o arado pela terra do jovem,
    temendo que a ameaça do velho avô se cumprisse.
Fim                                                               Valença Mapa
                      O Morto Vivo
Em tempos muito atrasados, lá para as bandas de Cristelo Covo, perto da Senhora
   da Cabeça, havia um barbeiro. Ora, um dia, um homem foi cortar o cabelo.
   Naquele tempo um corte de cabelo eram trinta reis. O Homem lá se sentou no
   banco para cortar o cabelo, mas quando o tinha já cortado, não querendo pagar
   o trabalho, fez-se de morto, caindo redondo no chão! Bem, se estava morto, o
   melhor era metê-lo no caixão e seguir o serviço de funeral. Lá meteram o
   homem no caixão e levaram-no para a igreja, a fim de aí ficar durante a noite
   para ser enterrado no outro dia. O coitado do barbeiro, por causa dos trinta reis,
   foi sempre na cola dele, desconfiado de desenlace tão inoportuno para a sua
   bolsa. Quando todos regressaram, noite dentro, a casa, o barbeiro escondeu-se
   na igreja para ver o que acontecia.
E lá ficou, sozinho e de olho atento. A certa hora da noite ouviu-se um estranho
   barulho vindo do exterior, que obrigou o barbeiro a manter-se no seu lugar. Era
   uma quadrilha de gatunos que vinham de mais uma noite de assaltos . Naquela
   noite traziam consigo uma fortuna muito grande. E então, entraram na igreja
   onde estava o caixão. Mas um deles, apesar de ver o caixão e de não ver mais
   ninguém, disse para os camaradas: - Ai, aqui cheira a corpo vivo! O que estava
   no caixão, supondo-se descoberto, gritou: - Acudi-me, meus irmãos defuntos!
   Ao escutarem aquele grito vindo do caixão, os gatunos fugiram todos,
   abandonando toda a fortuna que levavam.

                                                                   Valença    Mapa
                  O Morto Vivo                        (Cont)


Cada um fugiu por onde podia, mas quando se encontraram já um pouco mais
   longe, um deles, mais resolvido, disse: -Alto lá! Nós deixamos tanta fortuna sem
   sabermos a quem? Isto não pode ser. Eu vou para trás. Quero ver quem se
   apoderou do que é nosso. Os outros, encorajados pelo colega, foram também.
   Mas na igreja o «morto» e o barbeiro, ao terem-se visto com tamanha fortuna,
   esqueceram o problema que tinham entre si, e começaram a partilhar as coisas
   dos ladrões... Como as portas tinham sido fechadas, os gatunos aproximaram-
   se silenciosamente para ouvirem o que se passava lá dentro. Eles estavam
   ainda lá a terminar as partilhas: -Ah, mas ainda faltam os meus trinta reis –
   disse o barbeiro. Os que estavam fora ouviram aquilo e voltaram a fugir,
   dizendo uns para os outros: -Valha-nos S. Cristóvão! Vamos fugir que eles são
   tantos e tantos, que já só sobram trinta reis para cada um. E lá não quiseram
   mais voltar para tirar satisfação do que lhes acontecera.
Fim




                                                                 Valença    Mapa
             A Rainha Aragunta
No tempo dos reis e das rainhas, houve uma de nome Aragunta, Rainha de
  Aragão. Aragunta era uma Senhora nobre e cheia de virtudes, sempre
  preocupada em agradar ao marido e em satisfazer as necessidades dos seus
  súbditos. Mas, como em todos os lugares, as invejas e as ambições infestaram
  os corações daqueles e daquelas que a serviam, fazendo com que intrigas e
  contendas sucedessem com frequência no seu castelo.
O seu marido Rei não era homem para muitas conversas, nem para mexericos,
  interessado que estava no governo e expansão do seu reino. Deixava aos
  criados mais próximos e à Rainha o governo do castelo. Como cada um queria
  tirar proveito da sua posição de criado fiel e diligente, denunciando ou
  inventando culpas para os outros, para chamar sobre si as atenções ou
  desculpas, a paz dentro das muralhas começou a perder-se. Alguns dos
  servidores mais próximos do Rei chegaram até a culpar a Rainha pelos
  desmandos do castelo! Aragunta confiava no marido e na certeza de que ele
  estaria do seu lado perante as acusações de que era alvo. Desconhecia que se
  estava a formar uma infame intriga, em que ela era apresentada como a causa
  de todo o mal que acontecia à real e até ao reino!
Serena da verdade que lhe assistia, retirou-se um dia para os seus aposentos,
  para as orações aos santos das suas devoções, como era costume fazer,
  quando uma das criadas, das de sua confiança, entrou na câmara real,
  ofegante e trémula:
                                                             Valença    Mapa
           A Rainha Aragunta                                 (Cont)


-Majestade...!
-Diz Guiomar! O que é que aconteceu para vires com tanta pressa e aflição?
-Acabo de passar pelo salão do palácio uma coisa tremenda.
- O que foi, mulher? Senta-te e conta com calma.
-O vosso amado marido e meu Senhor estava a ser industriado pelos criados, na
    companhia de D. Mendo, de acontecimentos em que a minha Senhora era
    testemunha. Diziam que o que tem vindo a suceder, como já anteriormente
    haviam sua Majestade, é culpa da minha Senhora. O Rei está muito furioso e,
    exclamou pelos presentes, fala da necessidade de matar a Rainha, já que ela
    não cumpre dignamente o papel que lhe cabe1 Eles querem matar Vossa
    Senhoria! Temos que fugir quanto antes.
 - Chama por D. Teresa e um lacaio, e vamos fugir para o castelo da furna, no outro
    lado do rio.
Vai depressa!
 Sabedora da sorte que lhe esperava, naquela mesma noite fugiu à Rainha,
    disfarçada de indigente acompanhada pela amiga e por servos fiéis.
    Caminharam pela noite, só montando quando atravessavam lugar ermo e
    inabitado, de forma a não revelar a sua dignidade real. Chegados ao rio Minho,
    chamaram pelo barqueiro, que logo veio para os levar a outra margem.

                                                                 Valença    Mapa
           A Rainha Aragunta                                 (Cont)


Há já algum tempo que Rei dera pela fuga da Rainha. Se antes estava zangado
   pelo incómodo das culpas que apontavam à Rainha, dando-a como indigna da
   sua condição, agora gritava de fúria por tão grave decisão da esposa. Ele não ia
   consentir tal agravo, deixando que ela fugisse sem uma condenação exemplar.
   Acompanhado de numeroso séquito, partiu imediatamente na mesma noite em
   perseguição de Aragunta.
A Rainha conhecia o ânimo e tempero do Rei, e por isso sabia que não ia
   descansar sem a perseguir. E como só tinha um pouco de avanço, pela
   surpresa da fuga, havia-o limitado pelo facto de por vezes ter de caminhar ao
   lado da montada que criado segurava. Tendo consciência deste facto, ofereceu
   ao barqueiro duas moedas de outro para que ele demorasse o Rei na travessia,
   enquanto ela recolhia ao Castelo da Furna. O barqueiro não sabia como fazer
   frente ao Rei ou fazê-lo passar tempo o para o atrasar, sem que o Rei não
   descobrisse a estratégia. Por isso, resolveu afundar o barco e foi para casa.
   Quando a comitiva perseguidora chegou, chamou pelo barqueiro. Correu este
   imediatamente para quem o chamava, avisando-os que naquela noite não tinha
   qualquer barca disponível, porque os bandidos tinham-nas roubado na noite
   anterior. Se queriam passar o rio devim subir um pouco mais a margem, que
   encontrariam outro lugar e barqueiro que faria o serviço.
 Entretanto já Aragunta tinha chegado à Furna e bem acastelada. Veio o Rei Pôr-
   lhe cerco, procurando a rendição pela fome.
                                                                 Valença    Mapa
           A Rainha Aragunta                                  (Cont)


E se o Rei conhecia a Rainha, sabia que ela nunca se iria render, o que lhe resolvia
   a tarefa ingrata de er de matar a própria esposa. A fome e a sede encarregar-
   se-iam de matar!
Mas dentro do Castelo, Aragunta descobriu uma fonte, que a alimentava de água
   sempre pura.
Aquela fonte, que brotara da rocha, alimentava-a na coragem da resistência. O Rei
   mantinha o cerco e os do castelo resistiam. Passaram-se quinze dias sem
   rendição de qualquer das partes, até que uma águia, vindo de apanhar uma
   belíssima truta no rio Minho, que carregava no forte bico, ao passar sobre o
   castelo, assustada por algum ruído ou sombra, abriu o bico, largando a truta
   que veio cair mesmo dentro das muralhas.
Os sitiados viram naquela truta uma oportunidade para saciar a fome que os
   incomodava. Mas Aragunta Não pensava da mesma maneira, apesar de ter
   tanta fome como os demais. Mandou que a levassem ao Rei, que estava em
   seu acampamento, num lugar que depois se veio a chamar de Trute.
Este lugar de Trute está agora no concelho de Monção... Vendo a oferta que a
   Rainha Aragunta lhe enviara, o marido vingativo cedeu, pois compreendera que
   a Rainha estava protegida pelo braço divino. Levantou o cerco ao castelo e
   enviou mensageiros para comunicar à Rainha que lhe perdoara a rebeldia.


                                                                  Valença    Mapa
          A Rainha Aragunta                               (Cont)


Os que estavam com a Rainha no perdão do Rei o regresso dos privilégios e da
   dignidade de Aragunta, mas esta não quis regressar com o Rei ao seu palácio.
   Preferiu Aragunta ficar por aqueles lugares, terminando a vida com devotos
   exercícios e grandes penitências, enchendo de graça e de bênção todos os
   lugares por onde passava. Quando morreu, passados longos anos, a pequena
   chã dentro do castelo ficou conhecida como a Horta da Rainha, nome que ainda
   hoje conserva. Crente nas graças da água que alimentou tão nobre pessoa, o
   povo passou a ir à pia onde brotara essa miraculosa água nas de S. João.
Fim




                                                              Valença    Mapa
              A Senhora do Faro
Os Valencianos quando querem socorrer-se da padroeira celeste, lançam o seu
   olhar para um monte majestoso que os fascina pela beleza e pelo mistério. Lá
   no alto, olham o mundo pela paisagem sempre bela e fresca do rio Minho,
   serpenteando para o mar.
Mas se o monte, e a paisagem que desvela, inebria o olhar, o que mais atrai é o
   santuário da Senhora do Faro. Ali colocaram a mãe de Deus os frades de
   Ganfei para abençoar a terra que está a seus pés e as águas que ali nascem
   em minas abundantes e puras, a que o povo pôs o nome de «minas dos
   frades».Todo o Valenciano orgulha-se da protecção da Senhora do Faro.
Acontece que um dia, um homem daqui, tendo ido para terras de África, ficou
   cativo dos Mouros.
No meio das paisagens agrestes e secas de África, e sujeito à escravatura mais vil,
   o homem desfalecia de dia para dia. Agrilhoado pelos pés, privado de todas as
   coisas e tendo de suplicar todos os dias por um pouco de água, desesperava
   aquele homem pela sua terra e pelas águas puras da mesma.
Lembrava-se sobretudo da Senhora do Faro.
Uma noite, devotamente, encomendou-se à protecção da Senhora do Faro,
   suplicando para que o socorresse em transe tão difícil. E nestas orações
   adormeceu o pobre do homem.

                                                                 Valença    Mapa
          A Senhora do Faro                                 (Cont)


Uma brisa fresca e um barulho de água a correr, que lhe eram familiares, acordou-
   o. Era manhã e os pés ainda se encontravam agrilhoados, mas o local já não
   era a África do seu sofrimento, mas um monte que logo reconheceu ser o Monte
   do Faro, a sua Terra! Naquele momento o homem compreendeu que fora
   ouvido pela Virgem Mãe de Deus! Agradecido à Senhora do Faro, deixou, em
   memória do milagre que recebera, o grilhão que carregara nos pés pendurado
   na capela da salvadora.
Fim




                                                                Valença   Mapa
  S. Rosendo e os Partos Difíceis
Conta-se que, no tempo em que os frades habitavam o Convento de Sanfíns de
   Friestas, houve um frade de nome Rosendo com fama de santidade, e que valia
   a todos os aflitos. Esse frade, um dia, morreu. A partir daí, os que antes da sua
   morte iam pedir-lhe as suas graças, agora só podiam rezar a ele junto do
   cemitério do convento, que está um pouco acima da igreja, no meio do monte.
   Faziam isto até que descobriram que no convento estava guardada a correia
   que apertava as pobres vestes do frade. O povo quis ver a correia para lhe
   tocar, e suplicar pela intercessão do frade S. Rosendo.
Desde esses tempos, nas freguesias vizinhas, quando uma mulher estava em
   trabalho de parto e estes se relevavam morosos ou difíceis, mandavam alguém
   ao convento pedir a correia de S. Rosendo. Os frades já sabiam dos propósitos
   do povo que ali vinha pedir a correia de S. Rosendo, cedendo imediatamente a
   relíquia, que tinha uma fivela em marfim. Corria o transporte com toda a força,
   sem descurar o respeito, para junto da parturiente, com aquela salvação
   prometida. Quando chegava, enrolavam a correia ao ventre da parturiente,
   passando logo os trabalhos de parto à corrente normalidade. Conta-se que
   aqueles que nasciam sobre a protecção de S. Rosendo eram marcados na vida
   pela sua intercessão.
Fim


                                                                  Valença    Mapa
              O Portão de Crasto
Quem passa junto à Quinta do Crasto, em Friestas, depara-se com um
  monumental portal carregado de história e de mistério. Todos os que por ali
  passam ficam extasiados pela beleza do portal, coroado e encima por belas
  ameias e cruzeiro, lembrando os privilégios e benefícios de D. Afonso
  Henriques e de D. Dinis aos habitantes daquela terra.
O povo dali já se maravilhava com os efeitos que o sol desenhava quando se
  soltava por detrás das cumeadas das montanhas e deixava estender manchas
  luminosas pelos campos do antigo couto monástico. Os antepassados não
  deixaram de notar tal fenómeno, vendo nas luminosas manchas o brilho que
  refulge por entre os vitrais das igrejas e pelas frestas austeras das casas. Era
  tal a semelhança, que com o tempo a povoação começou a ser conhecida como
  «Frestas» e mais tarde «Friestas», nome que ainda hoje conserva!
Mas se a terra se apropriava daquela forma do sol nascente, afirmando-se como
  local de luz a salientar em tonalidades de cor as sombras recortadas das
  montanhas, ela veio também a tornar-se campo seguro e de repouso para os
  perseguidos e perdidos pelas sombras deste mundo.
Contam os antigos que qualquer condenado que conseguisse chegar junto do
  Portal da Quinta de Crasto ficaria livre da sua pena. Assim se justificava a
  grandiosidade do portal em lugar tão inóspito. Tocar nas pedras que davam
  forma à beleza do portal era o suficiente para apagar todo o crime e toda a
  perdição.
                                                                  Valença Mapa
          O Portão de Crasto                                 (Cont)


A propósito deste privilégio, conta o povo de um terrível acontecimento que se deu
   na vizinha freguesia de Gondomil. Um homem havia discutido com um vizinho a
   propósito de umas estremas. Não estava um homem de acordo com a posição
   dos marcos, julgando-se roubado pelo vizinho, que aproveitara, segundo ele, as
   últimas lavradas para aumentar a parte que lhe cabia. Como entraram em
   contenta acesa, o tal homem que se afirmava roubado, não hesitou, provocado
   pelo desprezo do vizinho, em puxar da enxada e desferir um golpe que matou o
   seu adversário.
Quando chamaram os homens da guarda da Rainha para prender o homicida, este
   deu a correr para a freguesia de Friestas, fugindo às autoridades. Ninguém o
   incomodou nessa fuga desesperada, até que se agarrou ao Portal da Quinta de
   Crasto. Chegou o povo e os guardas e cercaram-no, pedindo que se
   entregasse. Mas ele, invocando os direitos e privilégios daqueles que se
   protegiam junto do portal, viu o crime ser perdoado.
Fim




                                                                Valença    Mapa
                A Mulher Marinha
Há muitos anos, por alturas do repovoamento destas terras conquistadas aos
  mouros, houve um Senhor de nome Froião, rico-homem da terra a que deu o
  nome, sendo o primeiro da estirpe D. Froilano. Era ele Senhor do Castelo de
  Froião.
Um dia, partiu o ilustre Senhor pelos seus montados com três escudeiros, em
  busca de caça. Cavalgando pelos montes e vales da sua terra, juntavam e
  matavam enorme quantidade de animais com que organizavam grandiosos
  festins no castelo. Era frequente encontrar o javali, a corsa, o veado, etc., que
  eram o regalo dos caçadores. Mas naquele dia, junto ao rio, D. Fraião e os que
  o acompanhavam tiveram uma visão deslumbrante e inusitada: uma belíssima
  mulher dormia sobre a erva, mesmo na borda da água! Perante aquela visão,
  concluíram todos que se tratava de uma mulher marinha. Já ouvira D. Fraião
  falar dessas mulheres, mas nunca tinha alguma vez visto uma delas. Ali estava
  uma mulher marinha dormindo. Mandou o fidalgo parar todo o séquito. Desceu
  da montada e, impondo silêncio a todos, desceu ao rio para ver melhor a mulher
  que o deslumbrava. A mulher marinha sentiu os passos do fidalgo, acordando
  logo de seguida. Ao ver D. Fraião, que se aproximava, e os seus três
  escudeiros, quis recolher ao mar, fugindo daqueles que desconhecia. D. Froião
  compreendeu as intenções da mulher marinha. Chamou os escudeiros e,
  juntos, foram em sua perseguição, apanhando-a antes que ela se acolhesse no
  mar, seu lugar próprio.
                                                                 Valença    Mapa
            A Mulher Marinha                             (Cont)


Depois de a ter apanhado e de a ter coberto com o seu manto, mandou que a
   colocassem sobre uma besta, levando-a de seguida para o castelo
Por onde passava todos admiravam a beleza daquela mulher. Os olhos de D.
   Froião, iluminados pela formosura da mulher marinha, deixaram-se conquistar,
   obrigando o coração a entregar-se àquele amor misterioso. No desejo de
   desposar a que roubara ao mar, D. Froião fez baptizar a mulher, dando-lhe o
   nome de Marinha, nome que deixou marcado nas terras onde passou a viver
   com o seu amado Senhor.
Fim




                                                              Valença    Mapa
       O Monge e o Passarinho
Estava um monge no coro da capela do mosteiro de Ganfei a rezar as matinas com
   os outros religiosos, quando chegou àquela parte do salmo onde se diz que «mil
   anos à vista de Deus são como o dia de ontem que já passou».
Admirou-se o homem com aquela frase que não compreendia e começou a dar
   voltas à cabeça para descobrir como poderia aquilo ser. E, como era seu
   costume acabadas as matinas, ficou a rezar no coro. Naquele dia pediu, com
   todo o ardor, a Nosso Senhor que, se fosse de Sua vontade, lhe desse a
   conhecer a explicação daquelas palavras. E para ali ficou no coro, esquecido de
   tudo, surdo aos ruídos e distraído do que não fosse aquela frase ressoando
   lenta e compassada dentro do seu cérebro. O frio gélido da madrugada passava
   sem o trespassar e ele ali, ajoelhado e esquecido. Subitamente, entrou no coro
   um passarinho. Do fundo do seu adormecimento, o monge começou a ouvir um
   canto suavíssimo que lhe baniu do cérebro as palavras do versículo e tomou
   conta de si, inteiro. Pousado no banco do coro o passarinho cantava; ajoelhado
   no chão carcomido pelos anos o monge ouvia. E o passarinho levantou voo,
   rodopiou frente ao monge como que a chamá-lo e saiu do coro levando o
   homem atrás, como se um elo invisível os ligasse. Atravessaram corredores no
   silêncio da madrugada até que, já no exterior, o passarinho parou sobre uma
   árvore do bosque fronteiro ao convento. O servo de Deus, insensivelmente,
   pôs-se debaixo da árvore a ouvir aquele cântico tão suave.

                                                                Valença    Mapa
   O Monge e o Passarinho                                         (Cont)

Daí a breves instantes, como pareceu ao monge, o passarinho levantou voo e
   desapareceu
Esperou. Como viu que a ave não voltava, encaminhou lentamente os seus passos
   para o mosteiro, com uma enorme pena de ter durado tão pouco aquele
   momento inesquecível. Mas o sol já estava a pé e era necessário retomar as
   obrigações diárias da comunidade...
Chegou ao convento e achou estranho encontrar tapada a porta por onde saíra de
   madrugada.
Um pouco adiante encontrou outra, aberta de novo, e ia entrar quando um irmão
   porteiro, desconhecido, lhe perguntou, ao mesmo tempo que barrava a
   passagem:
-Quem sois, irmão? Que buscais?
-Eu sou o sacristão. Ainda há pouco daqui saí, depois das matinas.
E reparando que o outro o olhava com ar estranho, acrescentou baixinho:
-Porque estará tudo tão mudado?!
O porteiro, sempre na sua frente, quis saber mais e perguntou os nomes do abade,
   do prior, do procurador. Sem entender, o bom do monge nomeou-os a todos,
   enquanto o outro ia abanando a cabeça. Não, não conhecia nenhum daqueles
   nomes! E o sacristão, espantado com tudo aquilo, sentindo-se muito fatigado,
   pediu que o levasse ao abade, que tudo esclareceria.
                                                               Valença     Mapa
   O Monge e o Passarinho                                           (Cont)


Frente ao abade, cresceu a estupefacção do monge, que confuso e maravilhado,
   não o reconheceu, nem ele a si. Sem saber que mais dizer, o nosso homem
   sentou-se num banco e apoiou a cabeça nas mãos, tentando descobrir o que se
   passava consigo. O abade, iluminado por Deus, mandou que lhe trouxessem os
   anais e história da Ordem.
Procurou nos velhos alfarrábios os nomes que aquele monge apontava e, depois
   de muito folhear, encontrou-os: tinham vivido ali há trezentos anos!
Era muito estranho tudo aquilo! O abade olhou o homem que ali sentado na sua
   frente, longa barba branca, corpo de velho alquebrado. Considerou o que havia
   de dizer-lhe, como explicar aquele facto insólito, e optou por saber do velho o
   que se passara.
Ele, então, contou o que lhe havia sucedido.
Só então o abade compreendeu como eram misteriosos os desígnios de Deus.
O monge, tomou consciência do que se passara consigo. Louvou a Deus pela
   maravilha que operara e agradeceu-lhe a compreensão das palavras do salmo.
   Sentia ter vivido de mais, ainda que a sua longa vida tivesse parecido curta e,
   agora, cansado, queria juntar-se aos velhos companheiros.
Fim


                                                                Valença      Mapa
                Os Três Sapinhos
Esta lenda conta-se na região de Sanfins, no Norte de Portugal, uma das terras de
    mais antigo povoamento cristão. Pertenceu esta região à nobre e antiquíssima
    família dos Sousãos, à qual esteve ligado Soeiro Mendes. Estes Sousãos já
    habitavam o território que havia de ser Portugal muito antes da sua
    independência política e constituíram uma das mais poderosas forças de auxilio
    às pretensões de Afonso Henriques.
Mas vamos agora à história .
Quando os reis afonsinhos andavam em guerra com os mouros da Moirama, no
    reino de Marnocos, foi lá batalhar um homem da freguesia de Eiriz, chamado
    Frutuoso das Donas, que viveu e morreu na casa do Viso, que ainda hoje
    existe na dita freguesia.
Este bom homem teve a infelicidade de lá ficar cativo na guerra. Foi levado como
    escravo para o palácio do Rei da Moirama, que o empregava no trabalho da
    lavoura, atrelado de parelha com uma mula ao cambão do arado.
Roto e cansado, durante dias e dias não fazia mais do que percorrer, de um lado
    para o outro, intermináveis campos de trigo. Nas lamentações da sua triste vida,
    o pobre cativo apenas soltava este queixume:
- Ai terra de Eiriz, terra de Eiriz, que te não torno a ver !
Ora um dia, a filha do Rei, que por ali passeava, atentou naquelas palavras, que
    muito a surpreenderam.
                                                                  Valença    Mapa
            Os Três Sapinhos                                 (Cont)

E, cheia de pressa, correu ao palácio a revelá-las a seu pai, como quem dá uma
   boa nova:
- Meu pai, meu pai, o cristão que trazemos ao arado com a mula é de Eiriz!
O velho Rei, que vivia tristíssimo porque era cego e proscrito, ficou muito contente
   com a noticia e mandou logo chamar o pobre escravo.
Este, cheio de medo, não tivesse cometido algum erro involuntário, foi ao poço
   lavar-se e, nos seus farrapos, apresentou –se tremendo. Mas muito espantado
   ficou quando ouviu o Rei perguntar-lhe, trémulo e ansioso:
- Acabam de dizer-me que és de Eiriz. Será isso verdade?
- Saiba vossa real majestade que sim Senhor!
- Conta-me então como é a igreja da tua freguesia - pediu o Rei.
E o Frutuoso lá respondeu, um pouco espantado com tudo aquilo, dando os sinais
   certos da igreja de Eiriz.
Muito satisfeito com a resposta, o Rei perguntou-lhe mais:
- E conheces a cidade de Citânia ? E a Lameira de Redundo? E a Cancela do
   Hortal? E o lugar de Celeirô?
- Oh, meu Senhor, se conheço!
- E conheces umas ervas de virtude, chamadas abróteas, de que há muito em
   Celeirô, ao pé do Penedo broqueado?

                                                                  Valença    Mapa
            Os Três Sapinhos                              (Cont)


A tudo respondeu Frutuoso muito acertado, dando os sinais certos. Pois se ele era
   de Eiriz!!
Então o Rei foi a uma burra, fechada a sete chaves , que trazia numa algibeira do
   albornoz, abriu-a e tirou de lá uns sapatos novos que pereciam mesmo feitos
   de encomenda para o Frutuoso e, entregando-lhos, disse:
- Toma tu estes sapatos com que te vou mandar a Portugal, à tua terra de Eiriz.
   Mas não os calces antes de chegar a Celeirô. Aí passearás com eles por cima
   das abróteas, andando de um lado para o outro até as solas ficarem verdes, e
   bem verdes, com o suco das ervas que pisas. Depois deves tirá-los e metê-los
   dentro desta taleiga, que te dou. Na vinda, desce pela Cancela do Hortal, onde
   procurarás e encontrarás três sapinhos, escondidos dentro da boneca da
   cancela . Trata logo de os apanhar, o que será tarefa bem custosa, porque os
   sapinhos são muito saltões e bravios. Mas se mos trouxeres, tanto tu, como
   todos nós, havemos de ser muito felizes.
O Frutuoso aceitou muito contente a missão de que o Rei o encarregou,
   prometendo que tudo havia de cumprir.
O Rei, por seu lado, mandou logo aparelhar um navio que o trouxe a Portugal,
   recomendando-lhe com todo o cuidado que nem à ida nem à vinda entrasse
   em sua casa nem se desse a conhecer, devendo voltar logo ao navio, que
   ficava à sua espera.

                                                                Valença   Mapa
            Os Três Sapinhos                              (Cont)


Recebidas estas ordens, vestido com um fato novo à moda dos mouros da
   Moirama, lá seguiu para Portugal o pobre Frutuoso, muito alegre por tornar a
   ver a sua terra de Eiriz.
Chegado que foi a Celeirô fez tudo o que lhe recomendara o cego Rei mouro e,
   recolhendo os sapatos e os sapinhos dentro da taleiga, fez-se logo à vela para
   o reino de Marnocos, na Moirama. Quando chegou ao palácio foi recebido com
   muita alegria pelo Rei mouro, que, pegando logo na saquita , tirou dela os
   sapatos com as solas verdes das abróteas.
Esfregou os olhos com eles e imediatamente recuperou a vista, sendo grande o
   seu contentamento e muitas as lamentações pelos maus tratos que dera ao
   Frutuoso e pela longa ignorância em que vivera de que o seu cativo era de
   Eiriz.
O Rei contou, então, que tinha sido governador da Citânia de Sanfins, mas que,
   tendo sido vencido e cego nas guerras contra os reis de Portugal, foi por eles
   desterrado para a Moirama de Marnocos, deixando em Monte Córdova as suas
   pobres filhas encantadas, convertidas em três sapinhos, vagueando
   desprezivelmente pela Lameira de Redundo , logrando só agora a ventura de as
   ver junto de si.
Em seguida, o Rei pegou nos sapatinhos com muita ternura e levou-os para a sala
   mais rica do seu palácio.

                                                                Valença   Mapa
            Os Três Sapinhos                                (Cont)


Aí, no meio de muita alegria, murmurou umas palavras mágicas e os sapinhos
    transformaram-se em três meninas novas, muito bonitas, que começaram a
    dançar de contentes, havendo uma grande festa em toda a Moirama.
Frutuoso foi então chamado a uma outra sala do palácio, onde estava um grande
    monte de dinheiro.
O Rei, como recompensa daquele tão grande serviço, encheu-lhe os bolsos de
    ouro e disse-lhe que estava livre e podia seguir para a, sua terra.
E, na verdade, Frutuoso voltou para Eiriz, para a casa do Viso. Viveu rico e feliz,
    usando sempre os trajes da Moirama e comprazendo-se em contar as suas
    aventuras de Marnocos.
Fim




                                                                 Valença    Mapa
            Teotónio e o Menino
Teotónio era ainda menino, pois ainda menino seguiu ele para Coimbra, levado
    por seu tio D.Crescónio, que era pároco da povoação de S.Bartolomeu, ligada a
    norte à cidade de Tui, tio este que foi nomeado Bispo de Coimbra.
Como era seu costume, foi brincar junto da Fonte de Torrinho, que se situava nos
    terrenos anexos à casa de seus pais, em Tardinhade.
Brincava com a água que caia da fonte e com a terra,fazendo lama e constituindo
    brinquedos próprios da idade.
Em certo momento apareceu-lhe outro menino e brincaram juntos.
Todos sujos , com a roupa cheia de lama, ambos reparam nisso e Teotónio disse
    que a mãe lhe ia ralhar. E achando que eram já horas de regressar, o outro
    menino animou Teotónio, dizendo-lhe que a mãe não lhe ralharia.
O outro menino numa volta do caminho desapareceu e Teotónio teve que correr
    para casa, porque uma forte chuvada o surpreendeu. Chegou a casa todo sujo
    de lama e molhado. E a mãe recebeu com carinho e não lhe ralhou,
    apressando-se a mudar-lhe a roupa .
O menino anónimo apareceu de novo no dia seguinte, perguntando a Teotónio se a
    mãe lhe ralhou ou bateu . Ele respondeu que não.
Então, o menino disse-lhe: Sabes? É que eu fui a correr para casa e contei à minha
    mãe que a tua te ia ralhar e bater por ires cheio de lama .

                                                                Valença    Mapa
        Teotónio e o Menino                                (Cont)



E ela mandou que chovesse já para tu te molhares e a tua mãe ao ver-te molhado
   não te ralhava .
E Teotónio perguntou-lhe: e tu onde moras?
Ao que o menino respondeu: No céu e minha mãe é Maria .
E desapareceu!
O menino que brincou com Teotónio era Jesus.
Fim




                                                             Valença    Mapa
     Os Três Potes Enterrados
Contavam os amigos que, em tempos que lá vão,a população de Sopo andava
   muito intrigada com uns barulhos lá para a Mata do Carreiro. Os rumores
   andavam de boca em boca,mas ninguém ousava dizer em voz alta que se
   tratava de uma moura encantada a arrumar os seus tesouros nas «casinhas
   dos mouros». Não era aquele um barulho de metais?
A dado momento,à curiosidade acresceu a ganância.Mas o medo em enfrentar o
   desconhecido impedia qualquer iniciativa.Certamente que a Moura defenderia
   com todas as artimanhas o seu fantástico tesouro. E neste impasse permanecia
   toda a comunidade, até que um rapazote mais afoito,e ainda pouco
   experimentado na vida, se resolveu em esclarecer o mistério e em tirar dessa
   aventura o devido prémio.Se o pensou,logo partiu para a Mata do Carreiro
   disposto a todos os desafios.
Conforme se aproximava das «casinhas dos Mouros», de onde vinha o ruído,mais
   este aumentava.Entretanto fez-se silêncio.Confuso, parou a busca, até que
   ouviu uma voz que lhe disse:
-Vens à procura de um tesouro?
A voz, feminina,colocara-lhe uma questão demasiado simples,mas à qual ele, com
   medo, não foi capaz de responder:
                                                              Cerveira   Mapa
  Os Três Potes Enterrados                                           (Cont)


-Se vens à conquista de riqueza,tens de procurar o lugar de onde ela vem! Aqui
    tens três potes enterrados.Um tem ouro, outro veneno, e o outro a guerra.Caso
    encontres o de ouro, serás rico, mas se abrires o da guerra, sofrereis todos;
    caso abras o de veneno,todo o vale, suas plantas, animais e pessoas,
    morrerão! Toma todo o tempo para decidir.
Se antes não respondeu pelo medo, agora ficou mudo de pavor.Diante de si estava
    a riqueza e a desgraça; uma vida regalada ou a morte daquilo que mais
    amava.Esperava receber um conselho, uma mera pista, um sinal que o
    ajudasse a optar por um e a renegar os outros, mas nada lhe era manifestado.
Ali ficou por muito tempo, hesitando entre avançar para a sorte ou fugir à
    tragédia.Bem queria ele ter uma ajuizada opinião de um amigo ou familiar!
    Encontrava-se ali sozinho e com um dilema que só ele poderia resolver.Depois
    de muito pensar olhando para as hospedes, resolveu sentar-se num rochedo
    comodamente.Assim se encontrava,quando, por breves momentos, levantou a
    cabeça, deixando estender o olhar pelo vale.Imediatamente se levantou, e, sem
    mais olhar para trás, regressou a casa.
A partir daquele dia nunca mais se ouviu qualquer barulho lá para os lados da Mata
    do Carreiro.
Fim
                                                                 Cerveira Mapa
      A Capela de S. Sebastião
Conta-se que o caminho em direcção às Mourelas era uma via a evitar quando o
   sol se punha. Um dia alguém da terra indo às tantas da noite para tapar a poça
   da água que havia de utilizar na rega do dia seguinte, ao passar à porta onde
   morava Silvana ouviu vozes e gritos. Aquilo parecia coisa do outro mundo! Não
   querendo tomar o sentido das palavras e dos gritos, só teve tempo para fugir,
   deixando enxada e botas pelo caminho. Aquele era um lugar que todos temiam
   e que os mais velhos sabiam habitado por um frade que ali aparecia
   frequentemente. Houve quem dissesse que ouvira de dentro da casa vozes
   veladas que segredavam para os passantes que não deviam passar por ali a
   desoras. Há muito que se temia o lugar à noite, pois dizia-se que o frade que ali
   aparecia era o mesmo que tinha sido assassinado há muito tempo na antiga
   Capela de S. Sebastião, enquanto celebrava a Santa Missa .
O estranho acontecimento era assunto pouco chamado aos serões de Inverno. O
   certo é que todos sabiam, pelo menos os mais velhos, desse homicídio
   hediondo! O que ninguém sabia era a razão de tão tresloucado gesto do
   assassino! Já matar o frade era mau sinal, agora dentro de lugar Santo, como
   era o da capela! Depois daquele dia todos temiam o pior. Se o criminoso foi
   preso, tal não era suficiente para desagrado do acontecido. A capela foi interdita
   ao culto por causa do pecado ali cometido.


                                                                   Cerveira   Mapa
  A Capela de S. Sebastião                                          (Cont)


Passou-se algum tempo, e a capela ali erguida, apesar de fechada e interdita,
   impressionava pela lembrança. Os habitantes de Nogueira já tinham encontrado
   um novo lugar de culto, na capela da Quinta dos Cunhas, que mais tarde viria a
   ser a Igreja paroquial, mas tinham que dar uma solução à capela amaldiçoada.
   Até que um dia resolveu o povo e o clero desmontar a capela e transferi-la para
   outro local, onde ainda hoje se encontra, juntamente com o seu Pelourinho.
   Alguma da pedra aparelhada ainda ficou lá para os lados do valado da bouça,
   no caminho da entrada da Quinta da Mourela.
A capela saiu do local do crime, mas as vozes do pobre frade assassinado ainda
   hoje clamam por desagravo ou justiça!
Fim




                                                                Cerveira     Mapa
                  Santa Vera Cruz
Contam os antigos que, uma vez, por ocasião da festa da Santa Vera Cruz, no dia
   3 de Maio, houve um homem que não respeitou o dia Santo. Naquele tempo
   todos respeitavam os dias santos, e em Nogueira o dia da Santa Vera Cruz era
   especialmente celebrado! Ninguém trabalhava nesse dia. Nem o «vivo» saía
   para qualquer serviço! A eles apenas se dava de comer e beber.
Ora esse homem, lavrador em Nogueira, ou porque se esqueceu do dia, ou porque
   não o quis respeitar, cangou os melhores bois para lavrar um campo. Cangados
   os bois e carregado o arado, lá foi para o dito campo lavrar. Pensava ele que ia
   lavrar! Mas quando aparelhou os bois e começou a lavrar, mal tinha andado uns
   metros, quando a certa altura os bois se ajoelharam à frente do arado!
O lavrador ainda pensou que tinham escorregado ou que era manha deles. Então
   deu umas fortes varadas e aguilhoou os bois, incitando-os os levantarem-se e a
   continuar a lavrada. Mas os bois, apesar das varadas e dos gritos do lavrador,
   já angustiado pela birra dos animais, nem se mexeram! Podia matá-los que não
   conseguia demovê-los daquela posição!
O homem achou aquilo muito estranho, pois nunca tal tinha acontecido com
   aqueles bois, que ele próprio ensinara! Teriam eles visto alguém que lhes
   pusesse mau olhado? Aquilo já lhe parecia coisa sem qualquer explicação!
   Resolveu sair do rabo do arado para ir ver o que se passava. Mas mal larga o
   arado, nota que algo está preso, por debaixo do mesmo arado.

                                                                 Cerveira   Mapa
              Santa Vera Cruz                          (Cont)


Eis que um grande prodígio se lhe apresenta: aquilo era uma verdadeira Cruz!
Pensando agora em que dia estava, lembrou-se do devido respeito à Santa Vera
   Cruz! Tinha-se o Senhor Jesus servido do respeito e devoção dos animais para
   lhe dar uma valente lição! Pedindo perdão do seu pecado e arrependido, voltou
   o pobre do lavrador para sua casa.
Desde aquele dia, na freguesia de Nogueira, o que ali sucedeu serviu de exemplo
   para todos, e aumentou a devoção pela Santa Vera Cruz.
Fim




                                                                Cerveira   Mapa
                 A Cova da Moura
Em tempos que lá vão, quando os mouros e cristãos ainda viviam próximos uns
   dos outros, apesar de inimigos, uma bela Moura ficou perdida de amores por
   um jovem cavaleiro cristão. Da janela do castelo, lá na atalaia, onde seu pai era
   Senhor, fixava a pobre da Moura o horizonte, na ânsia de ver a sua paixão. Só
   se tinham encontrado em segredo, pela calada da noite, com medo de serem
   vistos.
Com o passar dos tempo, o amor entre eles foi crescendo de tal maneira, que já
   não suportavam a ausência um do outro, nem os fugazes encontros às
   escondidas! Por isso, apesar de saberem o quanto isso era difícil, resolveram
   revelar ao pai da jovem o segredo do amor que partilhavam, para que este
   autorizasse o casamento.
O chefe mouro nem queria ouvir o que a jovem filha lhe pedia! Casar com um
   cristão? A filha tinha de certeza perdido o juízo por completo! Não pertencia o
   pretenso noivo ao inimigo e a outra fé? Como podia aceitar tal casamento?
Ao princípio ainda pensou que aquilo era desvario da juventude, e da força da
   primavera que se iniciara em plena pujança. Por isso deixou passar algum
   tempo para ver da perseverança do desejo.
Mas o tempo passava e a filha cada vez mais se agarrava àquele cavaleiro que lhe
   importunava a porta.


                                                                  Cerveira   Mapa
             A Cova da Moura                               (Cont)

Usou todas as artimanhas para que a paixão desaparecesse, desde alertar os
    guardas para não deixarem aproximar-se o cristão, até fechar a pobre da
    donzela moura na mais alta das torres do castelo. Nada conseguiu!
Esgotadas as tentativas para convencer a filha a deixar esse amor, resolveu o
    chefe mouro chamar uma mulher das redondezas, que diziam ter grandes
    poderes. Depois de lhe contar o que pretendia, confiou à bruxa o remédio para
    tão grande mal de amor.
Introduziu-se a bruxa nos aposentos da jovem moura, para lhe conquistar a
    confiança e a convencer a colocar uns brincos que trazia consigo. A donzela
    ainda negou a oferta, desconfiada da aparência da mulher que a visitava, mas
    quando lhe disseram que os brincos lhe iam ficar muito bem, porque ela era
    muito linda, e que os brincos eram mesmo talhados para o seu rosto, lá aceitou,
    por entre um sorriso de vaidade. Quando estava a acabar de prender o segundo
    brinco, a bruxa disse umas palavras estranhas para enfeitiçar a pobre da
    moura! Naquele mesmo instante a bela jovem transformou-se numa horripilante
    cobra!
A partir daquele dia nunca mais a moura foi vista pelo jovem cavaleiro que, por
    isso, morreu de desgosto! Diz o povo que há quem tenha visto uma cobra muito
    estranha pelos lados da Atalaia. Também há quem diga que, uma vez por mês,
    aparece uma linda jovem com uns belos brincos, na Praia da Lenta, num local
    onde existe uma cova, segundo dizem, liga o rio à Atalaia.

                                                                    Cerveira   Mapa
             A Cova da Moura                             (Cont)


Têm-na visto ali a lavar, esquecendo-se por vezes de uma outra peça das suas
   belas e ricas roupas.
Muito mostram pena da moura e da sua fada, por ter desejado um amor que lhe
   era proibido. Todos acreditam que quem conseguir tirar os brincos das orelhas,
   lhe acaba o feitiço que a maldita da bruxa lhe impôs! Até hoje ainda ninguém
   conseguiu tal feito, permanecendo a pobre da moura no encantamento de
   antanho!
Fim




                                                                  Cerveira   Mapa
                A Fonte da Porca
Reza a lenda que junto a uma fonte, agora chamada de Fonte dos Porcos,
    aparecia uma porca com porquinhos de ouro. Tal aparecimento era comentado
    por toda a vizinhança, e só não o achavam tão estranho, porque, segundo
    diziam, morava naquela fonte uma moura encantada! Todos acreditavam que
    os ditos porcos pertenciam à jovem encantada.
Se alguns habitantes não se incomodavam com o que se dizia, outros, que por ali
    já tinham passado, não gostavam muito de contar o que lhes tinha sucedido
    quando viram os ditos porcos de ouro!
Isto porque um dia, passava junto à dita fonte um lavrador, vendo tal maravilha,
    logo pensou em levá-los para casa. Ouvia ele por detrás da fonte umas vozes
    femininas estranhas, mas não ligou ao sentido delas, procurando antes juntar
    os porcos dourados com uma varinha, que entretanto arranjou mesmo ali no
    monte. Bem ele corria para os porcos, abrindo os braços na direcção da sua
    casa, que nada conseguia. Os porcos passavam através da varinha! Parecia
    que eram feitos de fumo dourado! Era tal o seu desespero e impaciência, que
    resolveu largar tudo, e voltou para casa sem os malditos porcos, que lá
    continuavam a andar de um lado para o outro. Há quem diga que muitos outros
    repetiram a aventura deste pobre lavrador, mas todos calavam o sucedido. Os
    porcos dourados continuavam a sair pelo monte e os homens sempre tentaram
    aprisionar um deles, mas nunca o conseguiram.
Fim

                                                               Cerveira   Mapa
                   A Mina de Ouro
Há muito tempo, em Cornes, havia uma mina que estava coberta por fortes
    matagais. Constava-se que lá estava muito dinheiro, prata e ouro.
Ora soube-se, um dia, que um rapaz, o filho da casa a quem pertencia a
    propriedade onde estava a mina, foi para o monte com as ovelhas. Ele já tinha
    ido para ali muitas vezes anteriormente, mas, apesar de já ter escutado o que o
    povo dizia sobre a mina, nunca lá tinha encontrado alguma coisa. O certo é que
    gostava de ir para aquele sítio, porque ali a erva era fresca e as ovelhas
    depressa fartavam.
Mas naquele dia, ao chegar junto da mina, encontrou uma menina muito bonita
    junto à porta da mina!
- A menina que está aqui a fazer? –perguntou o moço.
- Estou aqui encantada! ... Você quer casar comigo – disse a menina perante a
    surpresa do rapaz.
- Está bem! Quero!
- Então vai depressa a casa buscar dois cestos vazios, sem mesmo nada!
O moço lá foi, correndo pelo monte abaixo até casa, onde pegou em dois cestos e
    voltou para perto da menina. Ao chegar junto dela, ela mandou-o entrar para
    dentro da mina. Quando ele entrou, ficou encantado com o que viu: muito ouro
    e muitas jóias!

                                                                 Cerveira   Mapa
              A Mina de Ouro                          (Cont)


O rapaz tinha conseguido desencantar a moura! Levou a moura para casa, e juntos
   carregaram os dois cestos de ouro. Logo de seguida preparam a boda e, com
   grande festa, celebraram o casamento.
Fim




                                                               Cerveira   Mapa
          O Convento de S. Paio
As gentes do vale do Minho, próximas de Vila Nova de Cerveira, sempre estranhou
   o isolamento do Convento de S. Paio! Elas bem sabiam que os homens de
   Deus procuravam os lugares ermos e afastados para melhor se recolherem na
   oração e na meditação da palavra divina. Sabiam, inclusive, que o inóspito lugar
   também punha à prova os monges, sacrificando-os na carne, para se
   aproximarem de Deus e, assim, mostrarem o desapego do mundo.
Mas se isto era conhecimento de todos, também em todos havia um fascínio por
   aquele lugar, bendito para o olhar e para as águas! Os monges lá saberiam
   porque é que o teriam escolhido. E certamente não seria só pelo silêncio! E
   porque é que todos assim pensavam?
O segredo passava de boca em boca, até que todos o confirmaram: nos dias mais
   claros e cheios de sol, todo o lugar do Convento, lá ao longe, luzia num brilho
   bem conhecido, que denunciava riqueza. Ainda houve quem dissesse que era
   uma moura encantada que aproveitava o sol para estender as riquezas do seu
   tesouro, ou penteava os belos cabelos doirados! Mas naquele local, casa de
   monges, o brilho só podia vir de outra coisa: eram os monges a estender ao sol
   as moedas de ouro que tinham escondidas!
Com o passar dos anos, o brilho manteve-se em dias solarengos, e podia-se ver de
   longe o resplendor. Ainda hoje há quem afirme que, nos dias mais claros, o
   brilho do ouro continua a refulgir lá para os lados do Convento de S. Paio!
Fim
                                                                 Cerveira   Mapa
     O Cavalo com mau olhado
Um dia, a tia Maria Berta da freguesia de loivo, acompanhada por três vizinhas, foi
    aos moinhos, que se situavam lá no regueiro da Vila, no meio do monte, para
    moer uns pobres sacos de milho.
Depois de receberem os sacos da farinha, desceram o dito monte em alegre
    cavaqueira. Maria Berta vinha a contar-lhes o que lhe sucedera na véspera,
    num passeio a Cortes juntamente com o seu marido. Nesse dia o marido havia
    estreado um fato muito lindo. Estavam a passar perto da casa de uma mulher
    que diziam ter uma fama de feiticeira, quando, olhando para o marido, notou
    que a camisa estava cheia de piolhos! E disse-lhe, contou:
-“Ai! Está quieto António! Como tu tens a tua camisa cheia de piolhos! Ai Jesus,
    que grandes!” O marido rispostou-lhe imediatamente:” Olha mulher, eu vou tirar
    isto tudo e queimar!”
“Queimas o quê? Não que ela custou muito dinheiro!”
Aquilo tinha sido mesmo coisa da feiticeira. Foi ter com a Pura, uma mulher sabida
    da aldeia, que resolveu tudo com uma rezas, depois de lhe confirmar que a tal
    mulher da barraca era mesmo uma feiticeira. - Ai que puta de feiticeira”, não
    resistiu a tia Berta no desabafo.
Estavam nestas conversas, quando, mesmo ali à frente das três amigas, apareceu
    um cabritinho branco aos pinchos! Tia Berta ficou entusiasmada com a
    aparição, mas as outras duas, ainda a pensar na conversa que tinham
    escutado, não mostraram tanto entusiasmo.
                                                                 Cerveira   Mapa
 O Cavalo com mau olhado                                             (Cont)
- Vou apanhar aquele cabritinho! Disse tia Berta.
-Deixa ir o que vai, Maria Berta! Deixa ir o que vai e não tires pelo que está!
    Respondeu-lhe a mais velha.
- Então ele é tão lindo! Vou apanhá-lo.
-Ó mulher de Deus, faz-nos a vontade!
Tomando consciência das palavras mais sabidas da amiga, logo gritou tia Berta:
-Ai Nossa Senhora do Porto, Cruzes e égua....
Naquele momento desapareceu o cabrito!
Num profundo silêncio acabaram de fazer a descida, e regressou cada uma a sua
    casa. Mas aqueles dias pareciam ser de má sina para Tia Maria Berta! Mal
    entrara em casa quando o seu filho, que morava na Mata Velha, lhe entrou de
    rompante muito atrapalhado:
-Minha mãe, vinde ver o meu cavalo! Não sei o que lhe aconteceu!
- O cavalo está caído no chão! Esta manhã levei-o para o campo para comer,
    quando passado uns tempos, começou por deixar de comer, até que caiu
    redondo!
-Quem é que estava lá?
-Só estava a vizinha do campo ao lado, aquele que todos dizem ser feiticeira. Ela
    andava a semear batatas à enxada, mas não tirava os olhos do cavalo.
-Eu não te disse que ela era uma bruxa! A gaja vingou-se no pobre do cavalo! Não
    te preocupes que eu vou lá desenfeitiçar o cavalo.
                                                               Cerveira Mapa
 O Cavalo com mau olhado                                                (Cont)

Correram os dois para a Mata Velha para cortar a fada. Berta havia escutado de
   uma amiga de Viana do Castelo, que também vendia sardinhas como ela, e que
   morava ao pé da Capela das Melheiras, uma reza que resolvia aqueles males.
   Era aquela a ocasião de por à prova as palavras que aprendera e por cobro ao
   assédio das feiticeiras. Chegados junto do cavalo, que ainda jazia prostrado, tia
   Berta colocou-se em posição de respeito e disse:

“Eu te corto a fada
Fada infernal
Corto tudo quanto é mau
Todas as dores
Todos os ligamentos saem de ti para fora
Raivas e ódios
Te deixem comer
Te deixem Beber
Te deixem fazer tudo Quanto É vontade de Deus e S. Cipreste
Tudo quanto eu faço te preste
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai Nosso e uma Avé Maria....”
                                                                  Cerveira   Mapa
 O Cavalo com mau olhado                                               (Cont)


Responderam os dois rezando três vezes o Pai Nosso e a Avé Maria e, no fim, o
   cavalo pôs-se de pé! A partir daquele dia não mais as feiticeiras importunaram a
   tia Maria Berta.
Fim




                                                                 Cerveira   Mapa
                       O Cervo Rei
Há muitos, muitos anos, num lugar de montes e vales luxuriantes de vegetação e
   ervas frescas, mesmo junto a um grande e belíssimo curso de rio, estabeleceu-
   se um grande bando de cervos. Naquele lugar ainda não tinham passado os
   homens, que já ocupavam as terras do interior. Aí, no interior, os homens
   organizavam grandes caçadas,não dando sossego e paz aos animais,
   principalmente cervos, que eram os preferidos para os banquetes. Os cervos
   encontraram nos altos, próximos do rio, o esconderijo e o alimento que
   precisavam para sobreviverem. Eram tantos os que fugiam para este local de
   segurança, que tiveram que se organizar. Escolheram o veado mais forte e belo
   de todo o bando para seu chefe!
Acreditavam todos os veados que, por ser tão grande, forte e belo, o seu chefe só
   podia vir do Olimpo, ali onde os deuses moravam! E se não o adoravam como
   Deus, pelo menos respeitavam-no como um Rei! O grande Cervo liderava a
   resolução de todos os problemas do bando, escolhia os pastos, organizava as
   caminhadas pelas veredas mais perigosas. A sua autoridade era respeitada por
   todos os cervos. Um dia, ao subir ao mais alto dos montes, colocou-se em cima
   de um penedo e olhou o longo vale lá ao fundo! Voltando o pescoço para as
   encostas, sentiu orgulho em ver os seus cervos a pastar em segurança e em
   tão belo lugar.

                                                               Cerveira   Mapa
                   O Cervo Rei                      (Cont)

Nesse mesmo dia resolveu convocar todos os que o serviam para lhes comunicar
    os seus propósitos:
-Meus caros cervos, chamei-vos aqui para vos dizer que é tempo de sermos nós a
    mandar neste local. Por isso vamos edificar aqui um reino novo, do qual sermos
    os únicos habitantes! Fugimos para aqui dos homens que nos perseguem. Mas
    agora é preciso lutar, e nós lutaremos para que estes montes e vales sejam
    nossos, e nenhum homem possa aqui entrar! Todos os cervos, em grande
    clamor, apoiaram a proposta:
-Viva o Rei dos Cervos! Lutaremos juntos contigo! Gritavam de tal maneira que
    todos os montes e vales tomaram conhecimento do novo reino! A partir daquele
    momento todos deviam cumprir o dever de defender o seu reino até à morte,
    caso fosse necessário. Era tal o empenho dos cervos, que até os outros
    animais reconheciam as fronteiras desse reino dos cervos! Com o tempo, e com
    o falhanço de muitas tentativas de alguns animais e homens mais corajosos,
    todos temiam entrar nesses montes, vindo a chamar àquele lugar «Terra de
    Cervaria»!
O Rei Cervo, vendo o sucesso do seu reino, julgou-se invencível! Os veados mais
    novos iam crescendo em profunda reverência e devoção pelo Rei, ao
    escutarem, da boca dos mais velhos, as façanhas que ele fizera no passado.

                                                                Cerveira   Mapa
                   O Cervo Rei                      (Cont)

Perante tal devoção e obediência, o Rei Cervo,para além de invencível, começou a
   convencer-se que também era imortal! Os tempos foram passando, e as
   tentativas dos homens de conquistar aquele local tão belo redobraram em
   esforço. Foram anos e anos de luta, que esgotaram as energias e não
   pouparam as vidas de um lado e do outro. Vieram os Celtas,os romanos, os
   mouros, todos tentaram aí a sua sorte. Aos poucos os cervos foram caindo,
   morrendo, tombados pelos ataques dos inimigos. Aquando da reconquista cristã
   e da formação do reino de Portugal,já só o velho Rei Cervo restava! Ora, um
   certo dia, um nobre cavaleiro português, habituado à peleja e à conquista,
   resolveu que também aquele canto do Condado Portucalense seria terra de
   Portugal! Era necessário conquistá-lo ao Rei Cervo? Pois então ia lutar com
   ele! Ousado e consciente da sua valentia, desafiou o Rei Cervo para uma luta,
   frente a frente. O Rei Cervo aceitou o desafio. Aquele era o seu reino e não era
   um jovem, por mais corajoso e intimorato que fosse, que o iria vencer. Não era
   ele da estirpe dos deuses e imortal? Combinado o dia, lá apareceu o valente
   fidalgo, cavaleiro de Henrique. Astuto, o Rei Cervo escolheu um campo de
   batalha povoado de arvoredos e ervas daninhas, ao fundo de umas pequenas
   valas que ali existiam, um local a que chamavam “valinhas.”


                                                                 Cerveira   Mapa
                    O Cervo Rei                       (Cont)

Impetuoso e fazendo jus à juventude, o cavaleiro forçou a montada para enfrentar
   sem delongas o velho Rei. Ainda hoje não se sabe que mais artimanhas usou o
   Rei Cervo, o que se sabe é que apesar da coragem e força do jovem cavaleiro
   português, foi o velho Rei que venceu o combate, dando a morte ao pobre do
   fidalgo! Vitorioso,regressou o Rei Cervo ao alto do monte, carregando consigo a
   bandeira, que conquistara ao fidalgo cavaleiro. Ali, solitário, hasteava bem alto o
   brasão presente na bandeira para que todos soubessem a quem pertencia a
   vitória. Mas numa coisa estava errada o velho Rei! Também por ele passavam
   os anos! Havia-se julgado imortal, mas, com o tempo, depois de tanta luta e
   tanto comando, as forças começavam a faltar-lhe. Para o não revelar aos
   pretendentes do seu reinado, pelo qual tanto lutara, foi-se escondendo aos
   olhares curiosos daqueles que, ao longe, o apontavam como Rei e Senhor
   daquele lugar. Com o passar dos anos, os curiosos começaram questionar-se
   sobre as ausências, cada vez mais frequentes do velho Cervo Rei. Até que
   deixaram de o ver! O que seria dele? A pergunta era fácil, de fazer, mas a
   resposta não era assim tão fácil, pois não havia quem tivesse a coragem de ir
   procurar o Rei Cervo. Até que uns caçadores mais afoitos, ou menos
   conscientes dos perigos que corriam, atreveram-se na região da «cervaria», tão
   desejada e apetecida.

                                                                   Cerveira    Mapa
                   O Cervo Rei                     (Cont)



Em cuidados de caçador iam eles, quando, no meio da mata verde e florida,
   encontraram sem vida o velho Rei Cervo! Aquela não era a imagem que tinham
   do glorioso e forte Rei! Ali estava ele, prostrado por terra, com o corpo numa
   chaga,cheio de feridas malignas! Mas numa coisa ele mostrava ainda a fama de
   lutador e de Senhor daqueles terras: apesar de prostrado, segurava as armas
   do cavaleiro vencido, o escudo das cinco quinas! Terminava o reinado
   anunciado o que lhe viria a suceder !
Desaparecido o Rei Cervo, os homens vieram logo de seguida, confiantes na
   riqueza daquelas terras pelas quais tão ansiosamente lutaram. No lugar onde o
   Rei Cervo ostentava o garbo a todo o vale, construíram uma cidade, à qual
   puseram o nome de Cerveira. Mas querendo honrar tão digno antepassado no
   senhorio daquelas terras, e para que ficasse na memória de todos, desenharam
   nas armas da sua cidade um cervo em campo verde, destacado, sustentando
   nas suas patas, bem visíveis e bem presas, um escudo com as quinas
   portuguesas! Essa terra chama-se hoje Vila Nova de Cerveira!
Fim

                                                               Cerveira   Mapa
             As Bruxas Viajantes
O António andava de uns tempos a esta parte preocupado com o que lhe vinha
   acontecendo! Ele era um pobre pescador de Lovelhe, ainda jovem, que não
   fazia mal a ninguém, nem queria mal à mais triste alma. Porque é que haviam
   de se meter na sua vida? Todos os dias, quando chegava junto do seu pequeno
   barco para ir à pesca, nunca o encontrava no local onde o havia deixado!
Aquilo parecia coisa do diabo! António andava desconfiado de um grupo de
   amigos, que, certamente, lhe estavam a pregar uma brincadeira. Mas ele não
   era homem de brincadeiras! Naquele dia olhava para os companheiros a ver se
   um sorriso, uma palavra, uma atitude os denunciava. Mas nada! A coisa repetia-
   se de dia para dia e nenhum sinal dos autores. Aquilo não podia continuar!
Não só a pescaria andava perdida, como o sono não o visitava há já algum tempo.
   Tinha de tomar medidas urgentes!
Depois de arquitectar um plano para descobrir os tratantes, resolveu levá-lo por
   diante: mal se tinha posto o sol, viera pela calada da noite para dentro do barco,
   deitando-se por baixo das travessas. Depois foi só resistir ao sono e manter os
   ouvidos alerta ao mínimo ruído ou movimento. As horas foram passando, e
   nada de estranho acontecera. No sino da torre da Igreja já estava a soar a
   meia-noite. Era tarde demais! António estava para desistir do seu posto de
   vigilância quando começou a ouvir umas vozes ao longe. Mas aquelas não
   eram vozes de homem! O que ouvira era um grande alarido de mulheres que
   falavam em voz alta e riam a bandeiradas despregadas.

                                                                   Cerveira   Mapa
         As Bruxas Viajantes                                 (Cont)

Mas que raio era aquilo, perguntou para si mesmo o pobre do pescador! Ficou
   cheio de curiosidade, mas não saiu do seu lugar, para não denunciar o plano
   que tinha, e até porque as vozes vinham na direcção do seu barco.
As mulheres entraram para o barco em grande festa e algazarra. Pegaram aos
   remos e gritaram: - Vamos irmãs, vamos ao Brasil, terra do nosso
   contentamento!
E continuaram a rir e a dizerem as coisas mais disparatadas. Bem escondido, o
   António nem teve tempo para entender bem o que se passava, pois logo o
   barco estava a parar e as mulheres, que agora o António entendeu só poderem
   ser bruxas por remarem tão depressa, apesar de as conhecer a todas, lá
   partiram para o meio da floresta. Olhando pela borda, António viu-as
   desaparecerem pelo meio da folhagem, cantando e dançando, enquanto
   levantavam as saias em gestos tresloucados. Entretanto fez-se silêncio e o
   pescador saiu do barco para ver aquela terra desconhecia, e aquelas plantas e
   flores que nunca vira antes! Mas com receio das bruxas, logo regressou ao
   barco, mas não sem antes tirar uma flor que ali estava, cheia de frescura e de
   beleza. Novamente escondido no fundo do barco, sentiu António o regresso das
   bruxas e a viagem de volta. Mais uma vez o barco parou, e as bruxas
   despediram-se até ao próximo encontro. António resolveu ficar mais um pouco
   de tempo, até que nenhum ruído lhe chegasse aos ouvidos.


                                                               Cerveira   Mapa
         As Bruxas Viajantes                                 (Cont)


No silêncio total, ainda noite naquela manhã de domingo, correu o pobre do
   pescador para casa, com a flor que recolhera no Brasil.
Estava na hora de ir cumprir a obrigação da Santa Missa de Domingo, e António
   vestiu o melhor fato, colocando no bolso do casaco uma vistosa flor! Era a que
   recolhera durante a noite! Na igreja todos notaram a flor de António, mas
   ninguém estava tão preocupado como um grupo de mulheres que estava no
   canto esquerdo, mesmo ao fundo da igreja. No fim da devoção, já quando
   regressava a casa, uma delas foi ter com o pescador, e avisou-o:
- Se contas a alguém quem somos, o que viste ou ouviste, és um homem morto!
Aquilo assustou deveras o pobre do António! Depois daquele dia nunca mais o seu
   barco mudou de sítio, mas também ele nunca disse a ninguém o que se
   passara. Só quando a última das bruxas morreu é que resolveu contar aquela
   estranha aventura e o nome das bruxas.
Fim




                                                               Cerveira   Mapa
    A Fonte de Nossa Senhora
Andavam, em tempos que lá vão, meninos, lá para os lados da capela de Santa
    Marinha, num local que fica entre os lugares da Veiga e Carreiros, da freguesia
    de Ferreira. Eram as crianças irmãos, e viviam na maior pobreza, num
    miserável casebre juntamente com a mãe, que lhes transmitiu uma inabalável fé
    em Deus.
Um dia iam eles a subir a serra da S. Silvestre em hora de calor abrasador, sem
    terem consigo sequer um pouco de água! Cheios de sede e de fome,
    recordaram as palavras da mãe e apelaram a Deus, chorando, que os ajudasse
    naquele hora, crentes de que a sua prece seria escutada.
A dado momento, com efeito, apareceu-lhes Nossa Senhora!
-O que quereis?-perguntou a Senhora.
Atónitos, os meninos ajoelharam e repetiram as suas preces. Baixando-se um
    pouco, introduziu Nossa Senhora o punho na rocha sobre a qual aparecera. Do
    orifício criado pela mão da Senhora imediatamente brotou um jorro de água!
Depois de saciarem a terrível sede que traziam, suplicaram os meninos por pão.
-Ide para casa, que encontrareis o forno com pão- disse a nossa Senhora.
Mal tiveram eles tempo para agradecer à bela Senhora que lhes aparecera, pois
    logo se meteram a caminho, correndo em direcção a casa.


                                                                 P. Coura   Mapa
A Fonte de Nossa Senhora                                            (Cont)


Lá chegados, verificaram que o forno estava cheio de pão, ainda quente, como se
   tivesse sido acabado de cozer! Chamaram pela mãe para comer, pois, apesar
   de esta ter permanecido em casa, não imaginara semelhante milagre dentro da
   sua pobre casa. Depois de saciarem a fome, agradeceram longamente a graça
   recebida da Senhora, rezando junto a uma cruz que encimava a porta de
   entrada do pobre casebre.
Da abertura feita pela Senhora no penedo ainda hoje brota água. Há quem diga
   que esta fonte nunca secou!
Fim




                                                              P. Coura   Mapa
             A Moura Encantada
Os antigos dizem que, uma vez, um homem que tinha uma mina para regar os
   seus campos esteve perto da fortuna , mas, por ignorância, perdeu-a!
Tinha também este homem vários filhos. Um dia, um dos filhos, que era uma
   menina, foi à dita mina buscar água e apareceu-lhe uma moura! A moura entrou
   em conversa com a menina, e perguntou-lhe:
- Minha querida menina, o que é que estão a fazer em tua casa?
- Estamos a cozer o pão, e a fazer um bolo –respondeu, sem medo.
Então, diz ela:
-Olha, não digas nada a ninguém; não digas que me viste!Tu, ao fim do bolo estar
   cozido, vens aqui e trazes-me um bocadinho. Mas não digas aos teus pais!
A rapariga lá voltou para casa. Deixou que o pão cozesse no forno, e foi
   preparando as coisas sem dizer aos pais. Assim que o bolo estava
   pronto,agarrou a moça um pedacito de bolo, e foi-o leva à mulher que
   encontrara junto à mina.



                                                               P. Coura   Mapa
          A Moura Encantada                                 (Cont)



Quando lá chegou,a mulher aceitou o bolinho e agradeceu. Depois, pegou num
   porrão de barro e, com muito jeitinho, meteu-lhe umas poucas de coisas dentro.
   A menina ainda viu que o que ela metia reluzia ao sol. Era ouro! Correu
   imediatamente para casa,mas quando mostrou aos pais,aquilo transformou-se
   em carvões. A menina não compreendia o que se passava. Mas aquilo era
   ouro!
Os pais e a menina não sabiam que para ter o ouro, os carvões tinham de ser
   desencantados. Ignorando isso,e não se informando nos mais entendidos,
   deitaram fora o que estava no porrão de barro!No dia seguinte viram que os
   carvões já não estavam onde os tinham deixado.A moura viu o que fizeram, e
   levou o ouro outra vez.
Fim




                                                               P. Coura   Mapa
       A Ponte dos Cavaleiros
Antigamente, a terra onde hoje fica a freguesia de Vascões não tinha casa alguma.
   Por aquela altura tinham vindo para Portugal vários fidalgos espanhóis que se
   oferecem ao nosso Rei D.Fernando para tomar o reino de Castela, que era
   governado pelo assassino D.Henrique, que matou o seu irmão D. Pedro.Os
   fidalgos, receosos do fratricida,viram no bisneto de D. Sancho IV um legítimo
   pretendente ao trono. Aos que aqui ficaram, beneficiou-os D.Fernando com
   terras e comendas. Um desses nobres foi D.Garcia Rodrigues de Caldas Lima,
   que veio a casar com D. Leonor de Sousa Magalhães.
Diz-se que, mais tarde, D. Garcia, triste por não ter sido suficientemente premiado
   pelos seus esforços na guerra em favor de D.João I, se retirou para Vascões,
   onde povoou a freguesia com a sua gente,e constituiu nela o solar na casa da
   chã do Souto, vindo ela a chamar-se Paço, como ainda hoje é conhecida.
Um dia, vinha o nobre homem com sua digníssima Senhora, a cavalo.
Era preciso atravessar o rio, o que fizeram num local a seguir a Bico, pois não
   existia ali qualquer ponte que lhes facilitasse a passagem.
Estavam eles e sua comitiva a passar o, rio quando, depois de um movimento mais
   repentino da montada de D. Leonor, se soltou um sapato à fidalga Senhora.


                                                                 P. Coura   Mapa
   A Ponte dos Cavaleiros                                         (Cont)



Como a corrente, naquela dia, estava um pouco forte,o sapato caído desapareceu
   logo rio abaixo! Vendo o sucedido, D.Garcia resolveu ali construir uma ponte,
   para que mais nenhum malefício importunasse a sua fidalga gente.
Como era muito rico, dispôs do dinheiro necessário para urgir os materiais
   preciosos. Entregaram-se todos à construção da ponte, principalmente os
   cavaleiros que com ele moravam no Paço. Por esta razão, a ponte ficou a ser
   conhecida para sempre como a Ponte dos Cavaleiros!
Fim




                                                               P. Coura    Mapa
                  A Velha de Bico
O Sr. Emílio, em tempos de juventude,passara por muitas terras como pintor. Ia
    percorrendo as freguesias de Paredes de Coura pintando ora casas ora
    capelas, sempre preocupado em fazer o melhor serviço, para agrado daqueles
    que requisitavam os seus serviços.
Mas, por obra do mafarrico, com frequência era presenteado com a visita das
    bruxas! Umas vezes ele próprio as via, outras eram os vizinhos que sofriam a
    sua perversidades. Na tenra idade, uma sua vizinha, a ti Mariquinhas, bem lhe
    dizia que até algumas mouras encantadas eram feiticeiras, mas ele não
    acreditava.
-Isso não existe, Ti Mariquinhas- afirmava ele a pé junto.
-Ai não?- fixava-lhe os olhos a pobre vizinha. – Havias de ver o que aconteceu ao
    meu tio António! Uma altura, muito cedo, foi ele soltar uma água d’uns poços,
    numa Quinta que trazíamos, e apareceram-lhe umas meninas a dançar diante
    dele! Diante daquele espectáculo, ele assustou-se, mas uma veio pegar-lhe na
    mão e levou-o para o meio delas.
Então uma delas agarrou-o, e desceu-lhe as calças, puxando-as para
    baixo.Trouxe-o assim até àquela poça,à beira da estrada, e «chapolou-o» lá! No
    fim, pô-lo na beira da estrada, e ele veio-se embora! Chegou a casa a tremer.
    “Que tens António?... O que é que tens tu, homem de Deus?” ele contou-me o
    que lhe fizeram. Um sobrinho nosso, perguntou-lhe: “Foi mesmo verdade isso?”

                                                                P. Coura   Mapa
               A Velha de Bico                           (Cont)


“Foi menino, foi verdade Deus queira que não te aconteça o mesmo a ti quando
    fores grande!”
Neste episódio pensava o pobre do Emílio quando estava, já homem feito,na casa
    de lavrador.
Encontrava-se ali há alguns dias, a trabalhar como pintor. As raparigas da casa não
    paravam de lhe falar de feiticeiras:
-Ai Emílio se tu soubesses o que elas me fizeram dizia uma. Acrescentava logo a
    outra:- Tinha uma roupa ali no soalheiro, e tu nem sabes o que aconteceu! E lá
    foram elas relatando...” fizeram isto... Fizeram aquilo...”
O Emílio agradado pela companhia, lá ia fazendo coro com elas e, meio a brincar
    meio a sério, acrescentou:
-Olhai que quem tiver esta noite roupa estendida nos arames, fora da porta, vai ver
    que elas vão fazer mal!
No dia seguinte, o pobre do pintor nem queria acreditar! As suas calças
    apareceram cortadas! Com sete facadas, cortaram as perneiras e tudo o que
    era frente!
- Ó Deolinda – chamava agora por uma das raparigas. Arre bruxa, arre diabo! Olha
    para as minhas calças!
-Ai Jesus! Foi de termos falado nelas! Elas não gostam que falem delas!

                                                                  P. Coura   Mapa
               A Velha de Bico                           (Cont)


A partir desse dia, Emílio nem queria ouvir sequer mencionar o nome «bruxa»,
    quanto mais contar-lhes as façanhas! Mas senão as chamava, elas vinham a
    ele! Um dia, estava ele a pintar a capela de S. Bento, em Bico, e chegara a hora
    de descansar para o almoço. Ainda tinha acabado de descer, para se sentar
    numa pequena pedra ali ao lado, quando viu vir na sua direcção a Sr. Casimira.
A tia Casimira era uma mulher muito velha, feia, magra e má! No seu íntimo, o
    Emílio sentiu que lhe acabara de chegar alguma desgraça, e disse muito
    baixinho: “ tens tudo de mau, o Senhor me perdoe!”. O Povo cismava com ela.
    Ninguém a queria ver por perto! E lá veio ela:
-Ó Emílio..., é a tia Casimira!
-Estou a descansar um bocadinho, Sra. Casimira – respondeu, tentando não
    provocar a mulher. Mas ela em vez de continuar o seu caminho, como seria do
    agrado do pobre homem, veio sentar-se mesmo ali ao lado.
-Olha , vim dar uma voltinha! A minha nora, agora, só quer que eu coma migas. E
    eu que gosto de um bocadinho de café! Vou ali à loja buscar umas pedrinhas de
    açúcar, e... Réu catrapéu, ficou ali a falar sem parar...
Eis então que aparece um homem, com um carro de vacas carregado. Vinha o
    pobre homem descansado e com o gado sossegado, quando, ao dar a volta, a
    mulher deu com os olhos nas vacas. Ninguém queria acreditar no que estava a
    ver!
                                                                  P. Coura   Mapa
               A Velha de Bico                           (Cont)


As vacas começaram aos saltos, e fugiram com o carro carregado, pelo caminho
   acima, virando toda a carga! O pobre do lavrador, vendo o que acontecera às
   vacas, voltou-se para a velha, gritando:
-Ó sua velha! Sua bruxa!
O Emílio só teve tempo de se levantar e colocar no meio dos dois.
-Zé, olha lá o que fazes! Olha lá o que fazes, homem...! Ainda matas a mulher!
Veio a vizinhança toda, chamada pela gritaria. A tia Casimira aproveitou a confusão
   para fugir para casa, enquanto alguns dos presentes tentavam segurar as
   vacas, que mais pareciam ter besouros a picar nelas.
No fim, alguém lembrou:- olha Emílio, é dos olhos! Era ela moça, segundo dizem, e
   já fazia mal com os olhos!
Emílio não esquecia estas coisas, por mais tempo que passasse, nem daquilo que
   acontecia aos afilhados daqueles que se enganavam no credo! Mas isso eram
   outras histórias. Agora havia que fazer o seu trabalho, na graça de Deus, e sem
   conversas que provocassem os achados desses males.
Fim




                                                                  P. Coura   Mapa
              O Campo da Fome
Conta-se que, há muitos anos, num mês de Maio, aconteceu algo muito estranho lá
   para os lados de Formariz. Como acontece frequentemente, aquando das
   lavradas onde participam muitas pessoas, na hora do almoço, as mulheres da
   casa transportam para o campo em que se está a trabalhar o repasto para
   todos. É costume estender as toalhas de linho numa sombra mais agradável, e
   aí sentarem-se os trabalhadores à volta do que sai dos generosos cestos: broa
   de milho e de centeio, uns nacos de carne de porco e um caldo de feijões e
   couves. Tudo isto regado por umas malgas de vinho.
Encontrava-se o grupo da lavrada na tarefa de satisfazer o estômago e descansar
   as pernas e costas, em alegre cavaqueira, quando se aproximou dele um cão
   com aspecto de esfomeado! Sentindo-se importunados naquele momento de
   agradável convívio, todos enxotavam o cão, sem lhe lançar o mais pequeno
   pedaço de pão!
-Fora cão! Xô...! Vai-te embora!- gritaram os mais incomodados.
O cão não teve outro remédio senão fugir dali. Mas uns passos à frente, voltou-se
   para trás e, fixando os olhos naqueles que o escorraçaram, caíram-lhe os olhos
   ao chão! Toda a gente que assistiu ao sucedido ficou perplexa. Nunca tinha
   visto coisa semelhante antes daquele dia!

                                                               P. Coura   Mapa
           O Campo da Fome                               (Cont)


O cão entretanto desapareceu, mas o último olhar que tivera para com os
   presentes permaneceu marcado no seu pensamento, de tal maneira que
   adivinharam logo ali um mau presságio!
Passaram-se os anos e ainda hoje, diz-se, o campo onde aquelas pessoas
   estavam a trabalhar nunca mais foi o mesmo na produção. O acontecimento
   marcou tanto as pessoas, que ao campo, quase infértil a partir daquele dia –
   sendo hoje uma bouça-,deram o nome de«Campo da Fome».
Fim




                                                              P. Coura   Mapa
    O Padre Sábio da Giesteira
Diz a lenda que, em tempos remotos, houve um padre conhecido como «o sábio da
   Giesteira»
A todos causava admiração a sua inteligência e dotes oratórios! Mas o que mais
   impressionava os que o conheciam era a capacidade de prevenir
   acontecimentos e de ajuizar dos elementos da natureza, bem como de ser
   provido de uma imaginação invulgar.
O nome de «sábio» foi-lhe pelas pessoas mais idosas do povo, ao verificarem que
   as inovações que o padre havia previsto no passado, como as novas estradas,
   o caminho de ferro, os aviões, etc., vieram de facto acontecer.
Conta-se que um dia de Verão, em pleno mês de Julho, ia o Padre da Giesteira a
   passar junto a uma eira de um lavrador, que estava a fazer uma malhada de
   centeio. Como o padre levasse o criado com uma croça de palha no braço –que
   era o guarda-chuva desse tempo, a gente da malhada começou a rir-se, em
   forte gargalhada. O padre virou-se então para o criado, perguntando-lhe a razão
   de tal risota! O criado fez notar ao seu patrão que estavam em Julho, e que as
   pessoas se riam porque levavam consigo uma croça!
Foi então que o Padre parou e disse para o criado:


                                                                P. Coura   Mapa
 O Padre Sábio da Giesteira                                            (Cont)

-Vai lá dizer-lhes que ponham uns molhos de palha no fundo da eira, porque daqui
   a uma hora, caso não façam isso, podem não ter lá centeio nenhum!
Os que estavam na malhada nem queriam acreditar que estavam a receber tal
   conselho! Mas o certo, é que dali a uma hora veio uma tal tromba de água, que
   levou todo o centeio que já tinham malhado pela eira fora!
Com estas e outras maravilhas, crescia a fama do Padre da Giesteira. Eram tão
   grandes os feitos e tão doutos os sermões, que a sua fama chegou ao
   conhecimento da Corte. Reunida a Corte, onde os rumores sobre a personagem
   do Padre cresciam enquanto o esperavam. Eis então que surge um padre de tal
   maneira mal vestido e com um capote tão velho, que logo julgaram por bem
   retirar a cadeira que lhe estava destinada! O Sábio Padre não se atrapalhou.
   Chegando perto do local onde deveria pregar, vendo que a única cadeira
   disponível havia sido retirada, tirou das costas o capote e, dobrando-o, sentou-
   se em cima dele! Quando chegou a altura de ir pregar, ninguém o ajudou a
   subir ao púlpito, como era costume.
Depois de subir debaixo de um murmurinho maldizente, e de, por breves
   momentos, fixar a ilustre assembleia, começou o sermão da seguinte maneira:

                                                                 P. Coura   Mapa
 O Padre Sábio da Giesteira                                          (Cont)


“Padre da Giesteira
Que nasceu entre os giestais,
Que irá aqui dizer
A tantas pessoas Reais?”
De tal forma seguiu o sermão, que o silêncio, que se fazia nas frequentes pausas
    exigidas pela oratória, incomodava por tão acutilante que parecia! Falara o
    sábio Padre tão bem, que no fim todos os que estavam próximos do púlpito o
    queriam ajudar a descer! A estes respondeu o imperturbável sacerdote que
    para subir é que era preciso ajuda. Para descer já não precisava!
Regressou o Padre ao local donde saíra, e lá encontrou cómoda cadeira onde se
    sentar. Mas ele, dobrando novamente o velho capote, voltou a sentar-se em
    cima dele!
Meio envergonhada pela atitude que tomou anteriormente, meio admirada pela
    coragem e inteligência daquele homem,a Corte propôs que pedisse o que
    desejasse. Esse seria o preço de tão admirável acontecimento. Pediu o «Sábio
    da Giesteira» que a sua residência fosse considerada «Couto», benefício que
    lhe foi logo concedido.
Fim


                                                               P. Coura   Mapa
         O Pretinho do Cruzeiro
No lugar do Outeiro, em Infesta, existe um cruzeiro que estava dentro de uma
   Quinta que pertenceu a uma antiga e nobre casa da qual já nada existe. Essa
   casa chamava-se Casa do Paço.
A Casa do Paço era uma grande propriedade,trabalhada por muitos caseiros e
   criadagem.Enquanto uns trabalhavam e amainavam as terras, outros serviam
   no interior da casa a nobre família.Acontece que um dos membros varões da
   casa,quando andava por terras de África, se afeiçoou a um menino negro de tal
   maneira,que, no regresso à metrópole, o trouxe para a Casa do Paço como seu
   escudeiro.
Os tempos foram passando e o «pretinho» ganhou a estima de toda a família,ao
   mesmo que mostrava para com os seus membros uma obediência e respeito
   que a todos surpreendia.Era ele muito devoto do Senhor do Cruzeiro!
Mas se a riqueza abundava naquela casa, o mesmo não acontecia com a
   descendência! Os senhores da casa estavam a ficar cada vez mais velhos,
   sempre estimados pelo seu serviçal de cor,mas sem filhos que herdassem a
   fortuna e o título.Chegou o dia em que a última das fidalgas morreu,e o pobre
   do criado,ainda tão jovem, ficou sozinho no imenso casarão!


                                                               P. Coura   Mapa
      O Pretinho do Cruzeiro                                     (Cont)


Vendo-se sozinho, não tendo com quem partilhar os seus dias, e como era muito
   devoto, o «pretinho» saía muitas vezes de casa para rezar junto do dito
   cruzeiro da Quinta.Ali se ajoelhava, rezando e chorando pelas Senhoras que
   tanto o estimaram! A sua devoção a todos impressionava,ao ponto de ninguém
   o importunar no seu recolhimento.Mesmo durante as noites em que os rapazes
   saíam para as esfolhadas e serões de divertimento,quando tinham de passar
   junto do cruzeiro,onde estava em oração de joelhos o pobre do rapaz,todos se
   calavam e paravam qualquer comentário mais desrespeitoso, para não
   perturbar a oração. Mas um dia, pela manhã quando passaram os primeiros
   trabalhadores que seguiam para os campos,encontraram o «pretinho»
   prostrado nos degraus do cruzeiro, já sem vida!Logo a notícia correu por toda a
   freguesia e arredores, dado que o seu comportamento era sobejamente
   conhecido nas redondezas.Quando o foram levantar verificaram que o seu
   corpo estava manchado de sangue sem que se visualizasse qualquer
   ferimento!Lembraram-se da paixão do senhor,e de como Ele tinha suado
   sangue no Monte das Oliveiras! A maravilha impressionou tanto as gentes da
   terra, que a partir daquele dia o criado das fidalgas passou a ser venerado com
   fama de santidade.
Fim


                                                                P. Coura   Mapa
     Os Combates da Travanca
Por toda a parte, e principalmente pelas terras do norte de Portugal, as fidelidades
   ao soberano português, D. João IV, ou aos espanhol Filipe, andavam muito
   complicadas desde o ano de 1640. As guerras que se seguiram à restauração
   do reino português, apaixonavam a maior parte no desejo pátrio de defender a
   independência, perdida anteriormente, também serviam para denunciar os
   traidores.
O soberano espanhol não se deu por vencido com a morte do seu representante
   em Lisboa, reivindicando o direito à coroa portuguesa, que o Duque de
   Bragança lhe negava. Restaurado o reino, havia agora que prover a
   sobrevivência do mesmo como estado livre, resistindo ás investidas daquelas
   que julgavam encontrar ainda apoio do lado de cá da fronteira. Neste desígnio
   se aventuravam os espanhóis por terras lusitanas, em fortes incursões, ora
   procurando apoio para as suas pretensões, ora cercando praças fortes que não
   renegavam o amor pátrio à Casa de Bragança.
Corria o ano de 1662, e mais uma vez o temível inimigo da independência lusa
   penetrava em solo pátrio. No dia 9 de Agosto, vésperas do dia de S. Lourenço,
   encontrava-se já o exército castelhano pronto a atacar a Praça de Paredes de
   Coura.

                                                                  P. Coura   Mapa
 Os Combates da Travanca                                              (Cont)


Como já a noite estava a cair, resolveram os chefes desse exército acampar nas
   proximidades, preparando-se para o ataque definitivo do dia seguinte.Noite
   feita, estranharam os espanhóis o que estavam a ver lá para os lados da
   Cerdeira, na freguesia de Cunha! Aquilo não podia ser verdade, pois durante o
   dia não tinham visto grande movimento!
Os soldados segredavam entre si, enquanto os chefes reuniram de emergência. Lá
   ao longe, naquele encosta do monte, as luzes e o movimento eram tão grandes
   que a todos assustava. Como é que era possível existir ali um exército
   português tão numeroso? O temor e a insegurança começaram a alastrar pelas
   hostes castelhanas. E se os chamavam à ordem e à coragem para o dia
   seguinte, o certo é que os soldados ficaram tolhidos de medo e sem atenção
   para qualquer comando! Quando amanheceu, era tão grande a desordem e a
   confusão no campo castelhano, que os militares portugueses viram logo uma
   oportunidade de levar de vencida a luta que estava prometida da véspera.
   Saíram das fortificações gritando o nome de Portugal com tal força e coragem,
   que os soldados inimigos só tiveram tempo para se porem em fuga, largando
   para trás muito das suas pertenças. Não satisfeitos com a vitória na batalha, os
   soldados lusos perseguiram até à margem do Minho os fugitivos, que tão cedo
   não esqueceriam tamanha derrota.
Uma coisa, ao princípio, foi difícil de entender para os portugueses.

                                                                 P. Coura      Mapa
 Os Combates da Travanca                                              (Cont)


Porque é que o inimigo se mostrou tão desorganizado e temeroso, quando o seu
   número em muito ultrapassava o das tropas portuguesas? Foi então que um
   jovem, que naquela noite tinha ficado de guarda, contou o que também ele vira
   lá para os lados da capela de S. Lourenço da Cerdeira: as manadas de vacas
   que por ali andam durante o dia e a noite tinham, por grande milagre, as hastes
   iluminadas! Logo compreenderam a confusão dos espanhóis que, por estarem
   mais longe, não distinguiram a figura dos animais!
Então alguém recordou que aquela tinha sido a noite da véspera da festa de S.
   Lourenço, que se celebrava nesse dia 10 de Agosto! O povo viu no milagroso
   acontecimento a protecção de S. Lourenço, que assim quis juntar à sua festa a
   vitória dos portugueses, a que deram o nome de «Combates da Travanca».
A partir daquela data, para agradecer ao Santo protector, o feriado municipal
   passou a ser o dia 10 de Agosto, com grandes solenidades na Capela de S:
   Lourenço, na freguesia da Cunha.
Fim




                                                                P. Coura       Mapa
      A Senhora das Angustias
Foi num domingo de Junho de um ano que a história não menciona. Na igreja de
   Padornelo, a Virgem sorria no altar iluminado. Mãos caridosas haviam colocado
   flores em jarras bonitas e um aroma delicioso enchia a Casa do Senhor. A
   missa estava a chegar ao seu termo. Os fiéis ouviam-na com devoção. No altar,
   o sacerdote voltou-se para lançar a bênção sobre a assistência. E nesse
   momento soleníssimo, uma voz doce e magoada encheu o templo! Os fiéis
   entreolharam-se. A voz vinha do altar. Olharam, então, a Virgem. E com grande
   espanto verificaram que a sua expressão, outrora sorridente, se transformara
   numa expressão de dor. E a voz, essa voz celestial, chegou audível a toda a
   assistência:
- Meus filhos! Escutai-me, vós que sois cristãos! Neste preciso momento alguns
   que não crêem no meu amado Filho renovam o sacrifício do meu Jesus,
   crucificando-o de novo. Tal acto enche de dor o meu coração de mãe!
Os cristãos quedaram-se estarrecidos. Havia lágrimas nos olhos de muitos. O
   sacerdote tomando alento, pois também ficara petrificado, perguntou:
-Senhora! Dizei-nos onde se encontram esses pecadores e nós os castigaremos.
De novo a voz doce e triste da Virgem Mãe soou:
- Não é castigando que evitareis o suplício do meu amado Filho! Ide e falai-lhes!
   Dizei-lhes do meu sofrimento! Estão na última casa à direita da rua principal.

                                                               P. Coura   Mapa
  A Senhora das Angustias                                           (Cont)


Como electrizados, os féis saíram da igreja e dirigiram-se para a casa assinalada
    pela Mãe de Deus. Chegados lá, ouviram gargalhadas e blasfémias. O padre
    bateu à porta. Alguém veio abrir. Então os féis entraram, quantos podiam, e
    depararam com um quadro horrível: ao centro da casa estava um corpo de
    homem, feito de cera e, à semelhança de Cristo, coroado de espinhos, o qual
    estavam pregado numa cruz. À volta, outros homens riam e proferiam
    blasfémias. Em cima das mesas, copos sujos de vinho e garrafas vazias.
Uma onda de revolta tomou os fiéis que contemplavam horrorizados tão
    ignominioso acto.
Correram sobre os blasfemos, no intuito de os espancar. Mas o sacerdote gritou:
- Prudência! Lembrai-vos, irmãos, da recomendação da Virgem Maria!
Os homens suspenderam o gesto castigador. Mas já os outros, saindo da surpresa,
    tentavam ganhar tempo. Um deles, talvez o dono da casa, gritou:
- Fora daqui, ratos de sacristia! Ou querem ajudar-nos na nossa tarefa?
Foi o padre quem respondeu:
- Viemos, porque a Mãe do Senhor a quem estais ofendendo pediu que vos
    falássemos!
Houve risadas trocista. Um deles gracejou:
- E por onde anda em passeio, a Mãe deste homem que íamos crucificar?
                                                               P. Coura      Mapa
  A Senhora das Angustias                                          (Cont)

Sem alteração na voz, o sacerdote respondeu:
- Estava connosco, no altar que é a Casa de Deus, e ouvia as comunicações.
   Porém, de súbito deixou de sorrir. Viu o que se estava a passar aqui. As
   lágrimas correram-lhe pelo rosto e, magoada, pediu-nos que impedíssemos
   mais este desacato!
Já não riram os homens. Olharam o sacerdote como se acabassem de ouvir um
   louco. Depois repararam na gente que enchia a casa e se espalhava pela rua.
   O mais velho dos que estavam perguntou para os outros:
- Acreditam no que ele diz?
Alguns disseram:
-Não acreditamos!
O mais idoso tomou:
- Se não acreditam, teremos de convir que um de nós é denunciante. Fizemos isto
   no máximo segredo. Há um traidor entre nós.
Os homens rebelaram-se. E um deles arriscou:
- Talvez tenhas sido tu, já que pões em dúvida o que esta gente diz!
O velho arriscou:
- Acho tudo isto muito estranho. E perguntou: entre os que foram convidados para
   a festa que realizámos, algum conhece, na igreja, a imagem da tal mãe de
   Jesus?
                                                               P. Coura     Mapa
  A Senhora das Angustias                                            (Cont)


Dois dos sacrílegos levantaram-se. O velho disse:
- Muito bem. Entre os seis que aqui estávamos, dois e mais eu, portanto três
   homens, conhecemos a imagem que está no altar. É uma figura de mulher, que
   sorria. Pois proponho que nos dirijamos à igreja e vejamos se a imagem já não
   sorri. Se assim for, desde já me declaro culpado e arrependido. Caso contrário,
   voltaremos aqui e ninguém poderá impedir-nos de continuar com a nossa
   diversão.
Estão de acordo?
Os homens gritaram, convictos de que a sua razão venceria:
- Estamos!
Tornou o velho, voltando-se para o sacerdote:
-E tu? Se acreditas nos milagres do teu Cristo e crês no que vieste aqui dizer,
   promete deixar-nos com a tua gente, se caso a imagem continuar no altar a
   sorrir!
O padre ficou uns segundos calado. Parecia orar no íntimo do seu ser. Depois
   declarou solenemente.
- Estou de acordo! Vamos todos à igreja!
E aquela gente, minutos antes disposta para a luta, segui apressada, coração
   palpitando, para a igreja de Padornelo.
                                                                P. Coura      Mapa
  A Senhora das Angustias                                         (Cont)


Brilhavam ainda no altar as velas que não haviam sido apagadas depois da missa.
    A multidão entrou com os olhos postos no altar. E então soou um estranho
    cântico, misturado com soluços e orações fervorosas. No altar, a Virgem que
    dantes sorria mostrava a mesma expressão dolorosa. O padre falou:
- Irmãos transviados do caminho de Deus! Dizei-me: qual é agora a expressão da
    Virgem Mãe de Jesus?
Contiveram a respiração, para ouvir os sacrílegos, aqueles que tinham ido por
    ordem da Senhora impedir mais uma crucificação. E foi ainda o homem mais
    velho quem respondeu:
- Na verdade... A expressão da Senhora... É de angústia!
Romperam logo clamores:
- Nossa Senhora das Angústias!... Rogai por eles... E rogai por nós!
O velho baixou a cabeça. Depois elevou o olhar para a Santa Mãe de Deus e
    clamou:
- Senhora das Angústias! Perdoa-me e pede ao teu Filho que nos perdoe!
    Éramos loucos e recuperámos a razão! Não mais te faremos sofrer!
Um coro de soluços subiu na igreja. O sacerdote exclamou apenas:
- Amem!

                                                              P. Coura     Mapa
  A Senhora das Angustias                                        (Cont)


E ainda hoje há quem afirme que a Senhora das Angústias, se a olharem bem, não
   tem sempre a mesma expressão. Em geral, está triste. Mas às vezes, para
   determinadas pessoas que sabem orar-lhe, ela volta a sorrir, como Mãe
   amantíssima que é!
Fim




                                                             P. Coura     Mapa
       S. Bento da Porta Aberta
Os habitantes de Cossourado nem queriam acreditar no que viam! O Santo que
   haviam colocado na capela recentemente inaugurada, o Patriarca S. Bento,
   apareceu no dia seguinte em cima de uma árvore do recinto, apesar da porta ter
   ficado fechada toda a noite, e ainda o permanecer naquela altura!
Imediatamente foram chamar pelo reverendo pároco, mesmo antes de colocar uma
   escada para descer o Santo de lugar tão arejado. Apareceram todas as
   pessoas do lugar para ver o sucedido. Aquilo era obra de algum malandro!
Só não entendiam o facto do dito meliante não ter roubado a imagem, pois era de
   grande valor. Seria uma brincadeira de mau gosto? Quem é que teria a chave
   da porta, para abrir e tornar a fechar? Uma certeza tinham: o autor de tal obra
   não era homem de grande fé ou respeito!
Depois de descerem o pobre do S. Bento do altar improvisado, de o terem
   recolocado no altar principal, que era seu por direito de padroado, todos se
   ajoelharam para desagravar o ultraje, e lá foram aos seus afazeres,
   comentando o triste episódio, não sem antes terem mudado a fechadura da
   porta, a terem fechado a quatro voltas de chave e conferido a segurança da
   mesma.
Mas a surpresa e indignação desse dia passou para a estupefacção e
   maravilhamento no dia seguinte.
Não é que apesar de todos os cuidados do dia anterior, o Santo padroeiro estava
   outra vez no cimo da árvore?
                                                                P. Coura   Mapa
   S. Bento da Porta Aberta                                        (Cont)


Depois de terem conferido que a porta ainda se encontrava fechada, e que a chave
   não tinha sido roubada, não encontravam explicação para o sucedido! Aquilo já
   dava a entender que era coisa do outro mundo! Mas o que é que podiam fazer?
   O S. Bento ali estava, e parecia que satisfeito! Não havia outro remédio senão
   voltar a coloca-lo no seu devido lugar.
Acontece que a mesma cena se foi repetindo com o passar dos dias! A notícia de
   tão estranho acontecimento já atraía multidões a Cossourado, sem que os
   pobres dos habitantes da terra soubessem o que deveriam fazer. Aquilo assim
   não podia continuar! Estaria o Santo zangado com o povo, não querendo ficar
   na capela que haviam construído para ele com tão grande sacrifício, preferindo
   a árvore que dava sombra ao largo? Estavam eles na discussão das razões das
   saídas do Santo, quando alguém reparou que talvez fosse por a capela ter
   pouca luz ou a porta não deixar entrar o ar, por ser toda fechada, ou ainda
   porque não permitia ao Santo dar uma olhadela a quem passava no caminho.
   Um outro acrescentou que, de facto, a porta era demasiado fechada, não
   deixando até que os devotos, quando por ali passavam, olhassem para o Santo
   a pedir algum favor!
Por muito tempo discutiram sobre o assunto, até que resolveram mandar fazer uma
   porta gradeada para a capela, e que fosse bastante aberta , apesar de impedir
   a entrada de qualquer animal, para que não faltasse o respeito devido.

                                                               P. Coura     Mapa
   S. Bento da Porta Aberta                                           (Cont)


Feita a dita porta e colocada nos umbrais da capela, esperaram pelo dia seguinte
   para ver qual a reacção de S. Bento. Nesse dia, logo de madrugada, acorreram
   todos à capela, e qual não foi o seu espanto ao verificar que, de facto, o Santo,
   pela primeira vez, havia permanecido no belo altar que lhe haviam dedicado!
Conta-se que a partir daquele dia o Santo nunca mais saiu e, por isso, deram à
   capela e ao local o nome de “ S. Bento da Porta Aberta”.
Fim




                                                                  P. Coura     Mapa
   O Penedo dos Casamentos
Em tempos que lá vão, preparava-se o merendeiro para a festa de S. João
  d’Arga: um pedaço de orelha de porco, chouriço, presunto e um saboroso
  frango, por vezes cabrito. Não havia altura do ano em que os ânimos
  andassem tão fortes e os corações tão ansiosos. Toda a mocidade andava
  irrequieta. Os rapazes combinavam os grupos e preparavam os
  instrumentos de música; as raparigas organizavam o cesto e as melhores
  roupas, por entre palavras de confidências e votos de esperança.
O S.João d’Arga anunciava-se sempre como um caminho de todas as
  esperanças. E uma noite de folia e de encontros.
Depois de formado o «rancho» e combinado o percurso, que se repetia de ano
  para ano, partia-se em grande algazarra pelas veredas e atalhos que
  conduziam ao Santo folgazão. Por entre as cantigas e as vozes de
  incitamento, os olhares cruzavam-se e as vontades aproveitavam a
  oportunidade que as dificuldades do caminho ofereciam.

Ó meu Senhor S.João d’Arga,
Ó meu Santo adorado
Venho de tão longe
P’ra arranjar namorado


                                                            Caminha    Mapa
O Penedo dos Casamentos                                                (Cont)

Aquele era o reino dos jovens solteiros! As raparigas carregam os cestos redondos
   à cabeça, cobertos de lindas toalhas. Sobre as blusas de terilene, as correntes
   de ouro chamam a atenção dos rapazes. No meio do folguedo, como saber da
   verdade ou perenidade dos amores prometidos? Como saber do futuro dos
   amores ausentes, dos de longa data ou dos recentes?
As raparigas solteiras sabiam como resolver tal dilema. Acorriam, pressurosas e
   esperançadas ao Penedo do casamento. Aqui chegadas, voltavam-se de costas
   para o penedo e atiravam uma pedra.
Se a pedra ficasse no topo do penedo, é porque a ditosa que a arremessou viria a
   casar-se brevemente!
Havia as que, crentes, anunciavam em grande clamor o desfecho do desafio:
-Vou casar! Vou casar!
Havia as que guardavam silenciosamente o resultado, mais crentes na Senhora
   residente no lugar da castanheira, a quem se confiavam:

“Nossa Senhora da Rocha
No lugar de Castanheira
É a nossa advogada
Da mocidade solteira.”

                                                                Caminha     Mapa
O Penedo dos Casamentos                                           (Cont)


Mas depois, todas convergiam para o Santo com fama de casamenteiro, para
  cumprir promessas de agradecimento, ou formular os mais escondidos desejos,
  cientes que estavam no lugar apropriado:

No altar de S. João
Nascem rosas amarelas
S.João subiu ao céu
A pedir pelas donzelas

Ó meu Senhor S.João,
Casai-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
Naquilo que bem sabeis

Hei-de deixar ao relento
Uma folha de figueira
Se S. João a orvalhar
Hei-de encontrar quem me queira.
                                                            Caminha    Mapa
O Penedo dos Casamentos                                              (Cont)


Chegados, e depois de cumprida a romaria, comido o farnel, e dançado por todo o
  dia e noite, era hora de voltar. Para as mais crentes e afortunadas, havia uma
  certeza:

Prendi o Sol à lua
As campainhas ao sino
O meu coração ao teu
Com corrente de ouro fino
Fim




                                                              Caminha     Mapa
            Os Marcos Mudados
Em tempos que lá vão, havia aqui um homem muito rico, mesmo muito rico. Ele
    tinha muitas propriedades, muitas terras...., campos muito grandes. Um certo
    dia , foi ele trabalhar para o campo maior que tinha, que pegava com o de um
    amigo seu. Estava ele ali a trabalhar, até que olhou para o campo do amigo
    mesmo ali ao lado. Foi até à extrema e, não vendo ninguém por perto, roubou
    uma “malha de grade direita de terra”, mudando os marcos de posição.
Fê-lo de tal maneira no segredo, que nem os filhos , nem ninguém alguma vez
    soube da tramóia.
Até o próprio amigo, proprietário da leira , não deu por nada.
Chegando a um certo tempo o homem adoeceu! Adoeceu... Chamaram-lhe o
    médico ! Apesar de ter vindo o médico e de terem ido com ele para tudo..., ele
    não teve cura e morreu.
Dali passado tempo, todos os que moravam na sua casa começaram a ouvir uns
    barulhos . De noite o barulho aumentava pelos telhados. Os vizinhos também
    começaram a ouvir os barulhos e outras coisas, e foram ter com os filhos:
- Ai vós tende cuidado! Ide ver o que é que se passa!
- Ai nós não vamos nada.
-Ide ver o que é, porque pode ser o vosso pai!


                                                                Caminha    Mapa
         Os Marcos Mudados                                    (Cont)


-Ah! Nós não queremos crer em nada disso!
Entretanto adoeceu-lhes uma irmã. Foram com ela para o médico ...., para aqui e
   para ali... Remédios, exames feitos, uma coisa e outra... Não lhe acusava nada!
   Mas a irmã foi indo, foi indo...e morreu!
Depois adoece-lhes uma vaca. Morre-lhes também! Até que um dos vizinhos, mais
   arrojados, foi ter com os filhos do tal homem e disse-lhes:
- Não, tende paciência! Assim não pode ser. Nós temos que ir a algum lado saber
   do que se passa!
Um dos filhos ainda lhe respondeu:
- Oh! Eu não quero saber nada disso!
- Não, tens de ir saber disso!
Foi tanta a insistência do vizinho, que eles foram saber o que era . Era o pai!
   Perguntaram-lhe então o que é que ele queria. Ao que ele respondeu:
- Não, eu não quero nada, pois eu estou bem e não me falta nada! Há só uma
   coisa que eu quero.




                                                                Caminha    Mapa
         Os Marcos Mudados                                      (Cont)


Quero que tu – virando-se para o filho – vás ao campo grande, leves a grade
    contigo, meças uma malha de grade, e mudes os marcos para o vizinho. Quero
    que faças isso porque roubei essa malha de terra.
O filho ficou surpreendido:
- Mas meu pai, você nunca nos disse nada!
- Mas é assim... Eu já há muito que vos dei sinal! Morreu a tua irmã, morreu a vaca,
    e era para morrerem todos, porque vós não quisestes saber! Se não fosse o
    vizinho ,que teimou contigo para vires ver... Vá, vai mudar essa malha de terra,
    porque assim eu não estou bem!
O filho lá carregou a grade e foi para o campo cumprir o mandado do pai. O amigo
    vizinho, dono da leira nem queria acreditar!
-Não pode ser! O teu pai não tirou nada!
Mas o filho não quis saber de mais histórias. Mudou a tal malha de grade de terra
    que o pai lhe havia dito.
Bem se viu depois que o pai foi para onde tinha que ir, pois nunca mais se ouviu
    por ali qualquer barulho!
Fim



                                                                 Caminha     Mapa
            Santa Maria da Ínsua
Frei Diogo Arias olhou para a pequena ermida solitária, ali junto à foz do Minho,
   numa língua de areia a querer invadir o mar. O Santo frade tinha finalmente
   encontrado o lugar onde poderia entregar-se a Deus e meditar as palavras
   divinas. Juntamente com um pequeno grupo de irmãos, aventurou-se até à
   imagem da Senhora de Carmes e confiou-lhe o seu segredo. Servo do menino
   que estava ao colo da Senhora ,prometeu Frei Diogo que ali ergueria um
   convento, para, longe do barulho do mundo, entregar-se à sua protecção. Os
   irmãos que o seguiam, bem compreendiam e admiravam a vontade e coragem
   do seu patrono, mas descriam das possibilidades de levar a bom termo tal
   propósito. Afinal, aquele lugar não era tão sujeito aos caprichos e rumores do
   mar e suas tempestades? Como encontrar ali o sossego? Ausente a vozoaria
   humana, como silenciar a dos elementos da natureza? E como se podia ali
   viver sem qualquer fonte de água doce? Frei Diogo pressentia a descrença dos
   irmãos, mas não via neles qualquer desânimo. O entusiasmo com que levava
   por diante as obras e a fé que transmitia, iam contagiando, lentamente, todos os
   frades. Valha-nos Deus e a Virgem! Era o crédito para todas as dúvidas. Ao
   longe passavam os marinheiros e pescadores, os quais, atónitos, iam
   registando os progressos das obras. Grande coragem e fé teriam que ter
   aqueles frades, para desejarem viver tão pobremente, sem comodidade e sem
   água doce, pensavam os homens do mar.


                                                                 Caminha    Mapa
        Santa Maria da Ínsua                                  (Cont)


Acabadas as obras e celebrada a inauguração e dedicação da capela, foram, logo
   desde os primeiros dias, surpreendidos os frades por tão doce quietude do mar.
   Mas a surpresa aumentou quando, por mais alterado que fosse o mar, e a
   tormenta afastasse qualquer navegador, dentro do convento, principalmente na
   capela, não se ouvia qualquer barulho! Era o silêncio um convite à oração, que
   assim lhes permitia elevar o espírito para as coisas celestes! Aquele era na
   verdade um lugar protegido e abençoado pela Virgem Senhora da Conceição,
   que frei Diogo Arias havia colocado no altar da capela, e que agora recebia o
   nome do local: Senhora da Ínsua! E se a alegria e a fé cresciam a cada dia nos
   corações dos irmãos, ela ficou para sempre fortalecida quando Frei Diogo lhes
   indicou, a mando da Senhora que lhe havia aparecido em sonhos, um local para
   escavar. Assim fizeram. Ainda a escavação estava no início, e logo um jorro de
   água doce a todos maravilhou! Milagre! Foi este o grito e entusiasmo e
   ferveroso de todos, pelo inusitado do local e pela qualidade da água que aí
   brotava. Pelas redondezas passou o relato de tal feito milagroso. Todos
   acorriam para ver e beber de tão ditosa fonte, vindo esta a ser conhecida como
   Fonte Milagrosa, e as suas águas pretendidas para todas as curas. Junto à
   imagem, Senhora da Conceição, Frei Diogo Arias agradecia as graças
   concedidas pela Virgem que, daí em diante, seria sempre a Estrela do Mar para
   os mareantes e pescadores, e o último remédio para a saúde de todos.
   Fim
                                                               Caminha    Mapa
     Senhora de ao Pé da Cruz
Conta-se que a Senhora de ao Pé da Cruz veio pelo mar! Veio pelo mar abaixo até
   chegar a estas terras. Apareceu ali no limite de Moledo. Uns homens e
   mulheres que estavam perto da praia a trabalhar viram-na e apanharam-na
   logo. Cheios de alegria, carregaram com ela cá para cima e puseram-na na
   capela. Todos os desafortunados acorriam à capela da Senhora, pois
   acreditavam que ela ali viera para satisfazer os anseios e curar as maleitas da
   vida. De todas as aldeias vinham peregrinos e curiosos para rezarem à imagem
   milagrosa.
Mas a presença da milagrosa Senhora despertou inveja nas redondezas. Então um
   grupo de homens maus juntou-se para roubar a imagem da Senhora. Numa
   certa noite vieram pela aldeia acima. Quando passaram pela Cova, já quase a
   chegarem perto da capela, a Sr.ª de Ao Pé da Cruz formou um nevoeiro tão
   forte, tão cerrado que não se via céu nem terra. Os bandidos tiveram que parar,
   pois nada viam, nem já os companheiros! Cada um virou para seu lado, vindo a
   perderem-se pelos montes. Quando se fez dia, encontraram-se longe de casa e
   mais longe ainda da capela da Senhora de ao Pé da Cruz. Perante tal milagre,
   e vendo que não conseguiram roubar a Senhora, nunca mais tentaram repetir a
   aventura.
As gentes das povoações vizinhas, sabendo do acontecido, pois encontraram
   perdidos os amaldiçoados homens, correram em clamor à capela da Senhora
   para agradecer a sua presença.
Fim
                                                                  Caminha Mapa
                     Santo Aginha
Perdida entre os arvoredos da serra de Arga, a pouca distância de Caminha, está a
   pequena aldeia de Arga de S. João. Aí existe uma minúscula capela de
   branquíssima fronteira, dedicada a Santo Aginha, e mandada edificar em
   memória do milagre que vou contar.
Diz a tradição do lugar que Aginha era um perigoso salteador de estradas e casais.
   A região vivia em pânico porque não havia dia que o homem desse sossego às
   pessoas. Ai de quem jornadeasse sozinho pelos carreiros e descaminhos da
   serra! Quando menos esperasse via aparecer-lhe pela frente, de punhal em
   riste e chapelão de abas largas descaídas sobre os olhos, o malfadado Aginha.
   E se não levasse fazenda ou moeda consigo, passava um mau bocado porque
   o assaltante só desistia da presa depois de a esbulhar, nem que fosse da roupa
   que trazia. Se, por outro lado, arriscasse um gesto de autodefesa, poderia ficar
   bem maltratado, pois o salteador, ainda que por vezes fosse mais fraco do que
   a vítima, era homem habituado a rudezas e de uma agilidade de gato bravo.
Dizem que, um dia, Aginha caiu sobre um padre que vinha de dar a extrema-unção
   a uma velhota que vivia num pequeno casal escondido nas brenhas. E, não se
   sabe como, o padre teve modos de o converter ao bom caminho e persuadir a
   abandonar aquelas malas-artes. Como penitencia, o padre mandou que
   permanecesse no monte, só, nos mesmos locais onde antes atacava os
   viandantes, mas agora auxiliando quem passasse do modo que pudesse.

                                                                 Caminha    Mapa
                  Santo Aginha                        (Cont)


Aginha obedeceu e por ali ficou, esperando que cada gesto bom que fizesse lhe
   apagasse, acto a acto, o passado.
Certo dia, descia a serra uma carroça puxada por dois pachorrentos bois,
   carregada de lenha e com um carreiro sentado no varal. Aginha estava
   encostado a um carvalho, mastigando pensativamente uma azeda, quando viu
   a carroça virar-se repentinamente: uma roda passou sobre uma pedra maior,
   desequilibrou-se e tombou para o lado.
O carreiro, aflito duplamente – pelo desastre e por se saber em terras de Aginha -,
   olhou em volta procurando auxílio. Soltou dois palavrões , tirou o chapéu, coçou
   o cocuruto e disse mal da sua vida. Subitamente, os seus olhos deram em
   Aginha, que se levantava para o auxiliar. Fez-se branco de pavor. E ignorando a
   conversão do salteador, crendo que ele se aproximava para o maltratar, pegou
   na machada da lenha e, automaticamente, desferiu-lhe uma pancada tão cheia
   de pânico que o matou.
Com o coração angustiado, desatou a correr serra abaixo até chegar à aldeia.
   Dirigiu-se às entidades a declarar o sucedido, tanto mais que sabia – pensava –
   esperá-lo uma moeda de ouro, por recompensa. As autoridades tomaram conta
   do ocorrido e disseram-lhe que mais tarde se certificariam do facto.



                                                                 Caminha    Mapa
                  Santo Aginha                        (Cont)


Voltou o carreiro, com o coração mais leve, ao local do crime para finalmente
   socorrer os bois e trazer o carrego para a aldeia. Sentia, contudo, no fundo das
   tripas um certo horror pelo que fizera e por isso tratou de tudo como um burro
   empalado, olhando em frente, evitando encarar o corpo que estendera no chão.
Quando dias depois as autoridades se dignaram a subir a serra para verificar o
   óbito do assaltante, encontraram incólume o corpo de Aginha e, segundo dizem,
   exalando um suave cheio de flores silvestres numa madrugada de Maio.
Esta é a história do assaltante que foi tão Santo e fez tais milagres que o povo,
   agradecido, passou a venerá-lo na capela de Arga de S. João.
Fim




                                                                 Caminha    Mapa
      Lobisomem da Junqueira
O tio António saiu naquele dia chuvoso para a junqueira, para além da ponte sobre
    o Coura, mesmo junto à Sr.ª da Ajuda. A necessidade de roçar um pouco de
    junco obrigava-o a manejar com força e destreza o gadanho que levara junto
    com a foucinha. Fazia-o como sempre o fizera, mas naquele malfadado dia um
    cão teimoso rondava continuamente e tirava-lhe a paciência.
-Sai cão!
Ameaçava com o gadanho levantado. Em vão! De olhos fixos no pobre do tio
    António, ora ameaçava um pouco, avançando, ora recolhia mais ao largo. Isto
    sem nunca tirar os olhos do homem que o ameaçava.
-Sai! Olha que te corto uma perna, seu filho da mãe! Ou foges ou não sei o que te
    faça!
Nada! Aquilo estava a desesperar o trabalho. O que teria o raio do cão -pensava
    Tio António - para não temer o gadanho ou a foucinha, e para o fixar com tanta
    raiva? Agora era o pobre do homem que estava a ficar receoso. Não vira ele
    tantos cães a fugir diante de uma pequena vara, quanto mais do gadanho!
    Aquilo já lhe estava a passar o entendimento e, num acto de puro desespero,
    lançou o foucinho ao maldito cão, fugindo logo de seguida sem olhar para trás.
    Ainda ouviu um latido dorido, mas, assustado, nem se importou em largar tudo
    naquele lugar, voltando para casa.


                                                                Caminha    Mapa
  Lobisomem da Junqueira                                           (Cont)


A mulher estranhou-lhe o comportamento, mas tio António não estava para
   conversas. Tão cedo não voltaria à junqueira!
Os dias passaram e outras necessidades se apresentaram. Precisava de uns
   touros para substituir os que há alguns anos o serviam. Um dia por ocasião da
   feira de Ponte de Lima, resolveu ir até lá para os comprar. Vestiu roupa a
   condizer e partiu, montes fora, na graça de Deus.
Caminhava ele resoluto pelas veredas da Serra d’Arga não sem um pouco de
   receio pelo que se dizia dos meliantes daqueles lugares, quando lhe apareceu
   um Senhor muito bem vestido no trajecto.
-Muito bom dia! Então o Senhor o que é que anda a fazer por estas veredas?
   Questionou o estranho!
-Venho comprar uns tourinhos a Ponte de Lima.
-Uns tourinhos? Porque é que não compra uns touros já grandes, prontos a
   trabalhar?
A conversa parecia querer ir longe! Tio António, cauteloso, lá foi respondendo:
-Não, que não tenho lá muito dinheiro! Com o tempo eu vou-os ensinando!
-Não! O Senhor vai comprar, mas vai comprar uns bem fortes e grandes!



                                                              Caminha       Mapa
  Lobisomem da Junqueira                                             (Cont)


Mas quem era aquele para lhe mandar fazer seja o que for? Quem é que sabia da
    sua vida? Aquilo não estava a parecer-lhe muito correcto. E menos correcto lhe
    pareceu quando o desconhecido o convidou para entrar em sua casa, que
    ficava por ali perto, para comer!
-Ai isso é que não vou!
-Vai sim Senhor! Vá, não tenha medo, pois faço muito gosto em tê-lo à minha
    mesa!
Ao ver a bela casa apontada pelo desconhecido, e vendo os criados que lhe
    vinham ao caminho, o tio António, apesar de um certo medo por não o conhecer
    de lado algum, aceitou entrar.
Entrados na casa, o misterioso homem levou-o à adega, e disse-lhe:
- O Senhor conhece aquilo que está ali pendurado na trave?
Com cara de espanto, o pobre do tio António só balbuciou:
- Conheço! Aquilo é meu! É a minha gadanha e o meu foucinho. Como é que
    vieram aqui parar?
- O Senhor não se lembra? Então eu vou-lhe contar. O Senhor não andava um dia
    a roçar junco na junqueira, e não lhe apareceu um cão?
-Apareceu, apareceu! E eu atirei-lhe com o foucinho, mas deixei-o, pois tive medo
    que ele me fizesse mal!
                                                                Caminha       Mapa
  Lobisomem da Junqueira                                          (Cont)


-Pois então, meu caro amigo, esse cão era eu! O Senhor acabou com o meu mal,
   libertando-me de tal fada de lobisomem. E agora não vai comprar uns
   tourinhos...Vai comigo à feira e sou eu que lhos compro!
Lá foram os dois a Ponte de Lima, onde o homem lhe mercou os melhores bois que
   havia na feira. Depois ainda o acompanhou no caminho até ao alto do monte.
   Chegado a casa, contou tudo o que lhe passou, e todo o mundo ficou admirado.
Fim




                                                              Caminha      Mapa
                      O Rio Âncora
No tempo em que ainda não havia nome de Portugal, a Rainha desta terra, que ia
   desde a Galiza até Gaia, tomou-se de namoros com um fidalgo marroquino.
   Chamava-se a Rainha D. Urraca e o mouro Alboazar. Bem ela afirmava o seu
   amor ao Rei D. Ramiro, mas o coração fugia-lhe para longe. Um dia a
   renegada, perdida de amores, fugiu com o marroquino para um castelo em
   Gaia. Julgava-se ali segura e feliz!
O pobre Rei D. Ramiro viu-se sem esposa e sem honra! Tal ultraje e afronta não
   podia ficar assim. Temia envolver numa guerra todo o seu exército, aquando a
   traidora fugisse para mais longe. Por isso resolveu tomar outras medidas.
   Vestiu-se de pobre mendigo, e embarcou numa pequena barca, que foi
   descendo pela costa até entrar pelo rio dentro. Aí informou-se da presença da
   mulher. Era verdade! Eles estavam naquele castelo, descurada vigilância,
   entregues à paixão. Assim, numa noite de breu, roubou a esposa enquanto
   todos dormiam. Correndo para um navio que ali estava atracado, subiu pelo mar
   até um lugar chamado de Gontinhães, na foz de um pequeno rio, onde atracou
   para descansar. Aqui chegado, contou aos seus fidalgos e aos seus filhos a
   traição da Rainha, pedindo-lhes ajuda para dar a melhor justiça, a tão vil acto de
   sua mulher. Todos ouviram com muita tristeza a tamanha maldade daquela
   mulher, O infante D. Ordonho, com as lágrimas pelos olhos, disse para seu pai.
-Senhor, a mim não cabe falar, porque é minha mãe! Não digo senão que olheis
   pela vossa honra!
                                                                  Caminha     Mapa
                  O Rio Âncora                         (Cont)

Mas ninguém ousou dizer alguma coisa ao Rei. Como era noite, foram todos
    descansar, deixando a Rainha presa, junto com as mulheres que estavam com
    ela. No dia seguinte foram dizer ao Rei que a Rainha estava a chorar. Logo o
    Rei disse:
-Vamos vê-la!
Foram todos os seus conselheiros com ele. Quando chegaram junto dela,
    perguntou-lhe o Rei:
-Porque é que chorais?
-Porque mataste Alboazar, que era muito melhor do que tu!
Todos ficaram horrorizados com semelhante afronta! O Infante, não querendo
    acreditar no que ouvira, só teve tempo para dizer:
-Isto é obra do diabo! Meu pai, o que fareis com ela? Ela ainda vai fugir novamente!
    Então o Rei amarrou a esposa traidora a uma âncora e lançou-a ao mar!
    Orgulhoso, não a deixou nas mãos do inimigo, mas, ofendido na sua honra,
    também a não quis para si.
Abandonada D. Urraca no fundo do mar presa à âncora, regressou D. Ramiro ao
    seu castelo.
A partir daquele dia, o rio onde tal sucedeu passou-se a chamar Âncora.
Fim


                                                                 Caminha     Mapa
               A Flor dos Montes
Era primavera em Venade! Maria Clara saíra com o gado para os campos viçosos,
    onde o verde e as flores desabrochavam pelos montes. Mas não se demorara
    tanto como era seu costume. Voltara mais cedo. A mãe estranhou o facto ao vê-
    la tão cedo em casa. E indagou:
-Já de volta?
A rapariga respondeu, desembaraçada...
-É verdade, minha mãe.Também o sol já lá vai...
-E o gado?
-Está acomodado.
E tentando dar um tom indiferente à pergunta:
-Viu o Zé?
A mãe de Maria Clara parou de lidar. Olhou a filha de frente. Parecia zangada.
- O Zé... O Zé... Então foi por causa dele que voltaste mais cedo?... Pois não me
    fales nele!
Maria Clara assustou-se.
-Porquê?
- Porque essa velha bruxa, que ainda é parente dele, anda p´raí a espalhar que ele
    vai ser um desgraçado contigo! Agora toda a boca danada tem a dizer!

                                                                Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                                (Cont)


Maria Clara embespinhou-se.
- Ora, mãe, deixe-as lá falar! O que lhes rói é ele ter alguma coisinha de seu e eu
    só ter as pobres ovelhas! Que se amofinem, porque eu bem me importo com
    elas!Gosto do Zé e pronto! Queria ele... E havemos de casar!
Do lado de fora soou uma gargalhada. E uma voz
Bem timbrada fez-se ouvir:
- Com que então, andas para aí a falar do Zé, alto e bom som...
Maria Clara, apanhada de surpresa pelo namorado, resolveu levar o caso para a
    brincadeira.
-Eu falo alto... E tu escutas às portas! Com que então... Ouviste tudo?
-Ouvi que gostavas de mim e isso soou-me como música na igreja!
Maria Clara voltou a corar de alegria. Gracejou:
-Vê, mãe,como ele fala? É assim, com estas palavrinhas bonitas, que ele me
    apanha!
-Também tu és bonita, Maria Clara! Bem bonita!
Ela encarou-o, quase séria. Indagou:
- Olha lá, Zé... O que vale mais? Uma cara bonita, ou dinheiro na arca?...


                                                                 Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                              (Cont)


O jovem enamorado riu, antes de responder:
-Conforme, rapariga. Para mim prefiro uma cara bonita e um bom coração, à arca
    mais recheada.
Mas olha que nem todos pensam assim...
   Maria Clara atalhou logo, furiosa:
-Por exemplo, a velha bruxa da tua tia diz que és mal empregado em mim!
Ele pegou-lhe na mão, tentando acalmá-la. Sorria para temperar a borrasca que se
    anunciava.
-Não te zangues, cachopa! É natural que a minha tia pense assim! É de outros
    tempos. Gosta de mim...
-E eu, não gosto?
- Sim... Mas de outra maneira!
 -E que pretende ela que faças?
- Só falarei aquilo que entender...
 - Mas entretanto ela continua a falar... E as outras a seguirem-lhe o exemplo!
Ele encolheu os ombros.
-Olha! Qualquer dia iremos os dois à igreja, e toda a má língua acabará.
Maria Clara ficou suspensa. Quase a medo, perguntou:
                                                              Caminha     Mapa
           A Flor dos Montes                                (Cont)


- Qualquer... dia?
- Sim!... E muito breve! Ainda antes do dia do Senhor! Iremos os dois à sacristia e
    falaremos ao Senhor Prior.
Maria Clara voltou a corar.
- Que lhe vais dizer?
O rapaz olhou a sua bem-amada bem nos olhos, como a buscar inspiração. E
    respondeu, fitando-a sempre:
-Direi assim: Senhor Prior! Quero casar com esta cachopa que é mesmo uma flor
    dos montes!
 Maria Clara não sorriu. Estava quase a chorar de alegria. Voltou-se para a mãe,
    com voz trémula pela emoção.
- Vossemecê ouviu?...
Dias depois mais feliz do que nunca, Flor dos Montes - como os rapazes já
    chamavam a Maria Clara - subiu a serra com o gado. Era uma tarefa diária.
    Estava só. A água da fonte corria de mansinho como em segredo de amor. E a
    jovem sonhava, olhando, lá em cima, o penedo, esquecida até das histórias que
    dele se contavam.



                                                                 Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                                (Cont)


De súbito pareceu a Maria Clara que o penedo se cobria de uma luz doirada.
    Levantou-se, então, num sobressalto, acordadas em si as histórias de antanho.
    E foi precisamente neste instante que uma jovem esplendorosamente bela
    começou a surgir desse penedo, que se abria vagarosamente!
 Quase sem voz, tão grande era a emoção, Maria Clara murmurou:
-Valha-me Nossa Senhora! Tanto oiro!
Deu alguns passos em frente, mas estacou, receosa.
Uma voz bonita falou-lhe então:
- Não temas... Aproxima-te.
-Quem sois?...
A jovem, envolta em fumo e luz, pareceu surpreendida:
 -Quê? Nunca ouviste falar de mim?
-De vós?
- Sim. Eu pelo menos... Deste penedo...
 Maria Clara teve uma revelação. Ficou pálida de medo, e perguntou:
-Sois... A moura encantada?
-Sou, sim. E posso fazer de ti a rapariga mais rica e feliz de todas estas terras.
    Basta que me oiças.
                                                                Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                               (Cont)


- Estou a ouvir-vos...
- E prometes fazer tudo quanto te pedir, sem falares a ninguém no que acaba de
    acontecer?
 - Se for coisa simples, farei!
- Sim, é simples. Tens fermento da última cozedura de pão?
- Tenho, sim. A minha mãe guarda sempre o fermento:
- Neste momento, onde está a tua mãe?
-No rio, a lavar.
-Pois tem de ser agora mesmo! Vai a casa e traz-me o fermento. Eu tomarei conta
    do gado.
- Só isso?
 - Só. Mas não digas a ninguém o que vais fazer, nem que me viste, entendes? Se
    cumprires a tua promessa, serás tão rica, que ninguém neste país te igualará!
 - Por que fazes isso?
- Porque ficarei livre!
Maria Clara ficou um instante pensativa. Depois afirmou, convicta:
- Prometo! Prometo tudo isso!
E arquejando de emoção:
                                                               Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                             (Cont)

- Que bom! Que bom vai ser! Tomai conta do meu rebanho. Eu volto já!
Correndo de pedra em pedra, Flor dos Montes parecia uma andorinha, tão leve e
    contente se mostrava. De súbito, alguém viu-a passar e gritou-lhe:
- Eh rapariga! Que aconteceu para ires correndo assim?... Não ouves? Pareces
    uma tonta, cachopa!
Ofegante, Maria Clara parou. Vendo a tia do seu namorado- aquela que tão más
    ausências fazia dela- gritou-lhe:
-Que me quer, sua bruxa?
A velha ficou varada. Nunca Maria Clara lhe falara assim. Teve um acesso de
    raiva, e exclamou:
- Bruxa, eu? Olha a sem vintém, e ainda por cima malcriada!
Maria Clara teve um riso nervoso.
- Sem vintém? Isso é o que vossemecê pensa!
E com orgulho súbito, remoendo vinganças:
-Serei a mais rica de tudo isto em redor! A velha abriu os olhos num espanto.
Que loucuras proferia a namorada do seu sobrinho! Meneou a cabeça desgostosa.
 - Não há dúvida que além de pelintra és tonta! Tu, rica?... Não tens onde cair
    morta! E queres ainda o meu Zé! Desengana-te... Ele não é para o teu dente!
Maria Clara teve um acesso de raiva.

                                                             Caminha     Mapa
           A Flor dos Montes                                (Cont)

- Serei rica, sim Senhora! Mas se quiser pode levar também o seu sobrinho!
A mulher mostrou-se quase alarmada.
 - Que vento te passou pela cabeça? Quem te meteu essa ideia nos miolos?
- Foi a princesa moura do penedo!
E voltando costas à mulher, que a olhava com espanto e medo, Maria Clara
    continuou correndo. Chegada a casa, tirou o fermento, e voltou, sempre
    correndo, a subir a serra. Nesse tempo, porém, já outras mulheres a que a
    velha tia do Zé Quintão pusera ao corrente do que se passara, seguiam no
    rasto daquela a quem chamavam a Flor dos Montes.
Quase sem poder respirar - tão grande era o cansaço - a rapariga nem reparou no
    gado que voltava sozinho ao redil. Esgazeada, olhou o penedo já quase sem
    luz. A princesa não estava lá! Buscou em volta, numa muda interrogação.
    Então, ouviu as vozes das mulheres e do rapazio, que começavam a subir a
    serra, no seu encalço. A verdade, ou antes, a realidade surgiu-lhe de repente:
    ela faltava à promessa que havia feito à moura! A vaidade falara nela mais alto
    que o desejo de cumprir a palavra dada! A princesa desaparecera. E ela teria
    de quedar-se pobre como era, e ainda cheia de vergonha da sua soberba!
Vendo-a nessa expressão de atarantada e vencida, a risota foi geral. Então
    alucinada, Maria Clara voltou a descer o monte, correndo em direcção a casa. A
    tarde morna fazia do crepúsculo mais um véu de tristeza para calar alegrias. No
    seu leito de enferma, Maria Clara olhava um ponto fixo no tecto. Não falava,
                                                                 Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                               (Cont)

Não dormia, não queria comer. Junto dela, a mãe chorava em silêncio. As vizinhas
    deixaram de a visitar. O próprio Zé Quintão não aparecia. E os dias iam
    passando... E Maria Clara ia mirrando, mirrando...
Nessa tarde porém, algo aconteceu. Vinda do exterior, uma voz chamou:
- Flor dos Montes!
 Maria Clara ouviu. Os seus olhos abriram-se mais. A mãe dela, a seu lado,
    começou a chorar. A voz tornou:
- Flor dos Montes!
 A mãe da rapariga exclamou, num raio de esperança:
- Louvado seja Deus! É o Zé Quintão!
E foi abrir a porta. O rapaz entrou . Comovido, beijou a testa, os olhos de Maria
    Clara. O peito dela arfava, demonstrando a emoção que estava a sentir. Mas
    continuava muda e queda. Zé Quintão voltou a falar-lhe:
- Maria Clara! Tu és a Flor dos Montes. Mas as flores, quando murcham, morrem...
    E tu tens de viver! O Senhor Prior está à nossa espera no domingo. Houve um
    pequeno silêncio. A expressão parada de Flor dos Montes animou-se. Fechou
    os olhos. E as lágrimas começaram a rolar, inundando-lhe o rosto.
 Zé Quintão insistiu:
 - Tens de pôr-te boa! Só faltam três dias!

                                                               Caminha    Mapa
           A Flor dos Montes                                (Cont)


- Então Maria Clara ergueu-se no leito. Pela primeira vez a sua voz enchia a casa,
    desde a malfadada tarde em que descera do monte, correndo.
- Tu falaste-lhe?... Tu queres... ainda...casar comigo?
- E por que não? Não era isso o combinado?
-Mas...
- Mas tens de prometer-me que nunca mais irás sozinha lá a cima, ao penedo!
Fechando os olhos, como a dissipar recordações, ela murmurou quase em surdina:
- Prometo!... Nunca mais! Nunca mais!
Zé Quintão puxou a moça de encontro ao seu peito forte. Tinha lágrimas nos olhos,
    que tentava encobrir. Espreitando do alto, o crepúsculo fez sinal à noite para
    que descesse depressa. E a noite encontrou já os dois namorados abraçados e
    felizes!
Fim




                                                                Caminha    Mapa
                      Serra D’arga
Era uma manhã de primavera , quando Egica e Eulália fugiram a cavalo para longe
    de Ervígio, pai de Eulália e Rei visigodo em Espanha, pois este queria que a
    sua filha casasse com Raismundo, um guerreiro temido.
Os soldados de Ervígio procuravam o par em fuga. Não se atreviam a regressar
    sem a missão cumprida. Contudo o dia ia-se prolongando, os cavalos enchiam-
    se de cansaço e espuma, e o próprio cheiro a primavera parecia cúmplice na
    fuga de Eulália e do jovem Egica, envolvendo-os no seu manto de mistério para
    que não fossem encontrados...
A tarde já ia em meio quando o jovem fez descer a sua noiva e a conduziu junto a
    um regato, para descansarem. Receosa, ela olhou em volta.
-Teremos levado grande dianteira?
- Querida, nada receies! Eles perderam-nos de vista e julgam que seguimos para o
    norte, onde me era fácil encontrar gente amiga. Porém... Troquei-lhes as
    voltas...
-E para onde vamos?
-Vou tentar atravessar a Galiza e procurar refúgio seguro no Mosteiro Máximo,
    onde sei que se encontra um grande amigo de meu pai. Ele nos ajudará!
Com a voz ansiosa, Eulália perguntou:
- Ainda estamos longe?

                                                               Caminha    Mapa
                  Serra D’arga                    (Cont)


O braço forte do jovem guerreiro ergueu-se, apontando, o horizonte.
-O recorte do Monte Medúlio já se divisa além. É só mais um esforço!
-E é nesse monte que existe o mosteiro que procuras?
-Sim, meu amor. Verás que tudo correrá bem?
- Continuemos a cavalgar! Tenho medo! Detesto Resmismundo. É traiçoeiro, feio e
   irascível. Se te apanham matam-te! Ele odeia-te. Odeia-te porque te inveja!
-Na verdade é melhor seguirmos viagem quanto antes. Teremos de chegar ao
   mosteiro primeiro que a noite desça sobre a montanha.
O cavalo abrandou a marcha. Estava visivelmente cansado. A penumbra que
   antecede a noite envolvia completamente aquele estranho grupo no cenário
   grandioso do Monte Medúlio. Lá estava o Mosteiro Máximo, meta dessa carreira
   que durava há algumas horas. O silêncio naquele local e àquela hora era
   impressionante. Ouviam-se as próprias respirações, alteradas pelo cansaço e
   pela emoção.
Descendo da montada, o par fugitivo dirigiu-se para o mosteiro e bateu à porta,
   discretamente.
Um homem com o rosto quase tapado veio abrir.



                                                              Caminha    Mapa
                   Serra D’arga                      (Cont)


Egica tivera o cuidado de colocar Eulália fora do alcance visual do monge. E
    perguntou, com certa ansiedade na voz:
- Irmão, perdoai se venho molestar-vos a esta hora. Mas precisava de falar com
    urgência ao irmão Gondemaro.
O monge porteiro fechou o postigo por onde espreitava. O silêncio voltou a
    envolver a serra.
A espera foi curta, mas o coração de Egíca bateu mais forte quando o postigo
    voltou a abrir-se. Desta vez, porém, assomou um outro rosto, que abriu os olhos
    num espanto incontido.
- Louvado seja Deus! Quem vejo na minha frente!
 Egica sorriu.
-Sim irmão Gondemaro! Sou eu...o filho do homem que convertestes em Salinas!
-E que me quereis?
-Preciso do vosso auxílio. Trago comigo alguém a quem muito quero e que corre
    perigo neste momento...Eulália! Aproxima-te!
A jovem apareceu ante os olhos ainda mais espantados do velho monge. Com voz
    quase velada, ele perguntou a Egica:


                                                                 Caminha    Mapa
                  Serra D’arga                     (Cont)


-Quem é esta dama?
-É Eulália, a filha do Rei Ervígio.
-O monge levou uma das mãos ao peito.
-Santo Deus! Entrai para onde vos não vejam aqui, e contai-me o que neste
   momento vos aflige.
Lá fora, a noite começava a cair...
Quando o jovem Egica acabou o relato da sua odisseia, raptando a filha do Rei
   Ervígio para vir ao Mosteiro Máximo de Monte Medúlio procurar um amigo que
   os casasse, o irmão Gondemaro olhou-os fixamente, num ar aflito.
-Que o Senhor Deus dos Exércitos me inspire, pois não sei que hei-de fazer!
-Não sabeis...porquê? O monge explicou:
-A noite envolve agora os campos e isto aqui é deserto! Todavia, no mosteiro não
   podem ficar mulheres, e muito menos a filha do Rei Ervígio!
Eulália levantou-se com dignidade.
-Não desejo ser uma sombra para a vossa consciência. Aceito a expulsão e só
   desejo que a morte me encontre depressa!
Egica protestou, magoado:
-Eulália! Enquanto o meu braço puder erguer-se, nenhum mal te acontecerá!

                                                              Caminha     Mapa
                   Serra D’arga                      (Cont)


Continuemos descendo a terra lusitana até aos Hermínios e talvez os contrafortes
    dessa serra sejam mais generosos que este mosteiro!
O monge tapou o rosto com as mãos: Silenciou durante alguns segundos. Depois
    murmurou, como em oração:
-Que Deus se amerceie de mim! Destapou o rosto e encarou os jovens.
-Se vos deixo partir, os lobos ou os salteadores poderão matar-vos. Se vos
    recolho... atraiçoo uma das regras! Que hei-de fazer? Que Deus me inspire!
-Escolhei, irmão, entre as nossas vidas e a tranquilidade da vossa consciência.
    Retorquiu Egica.
- Ai de mim! A tranquilidade foi-se com o pôr do sol e vossa aparição. Não há, pois,
    por onde escolher. Ficai! Vou casar-vos agora mesmo secretamente. Amanhã,
    logo que a luz do dia desponte, dar-vos-ei um salvo-conduto para que possais ir
    à presença de uma dama nossa conhecida, que vive num castelo aqui próximo.
    Só ela poderá abrigar-vos.
Egica apertou a mão do monge.
-Que Deus vos recompense, irmão Gondemaro!
Quando a manhã voltou a banhar de luz os campos, o par enamorado despediu-se
    do monge Gondemaro. No rosto dos jovens espalhava-se a felicidade.


                                                                 Caminha     Mapa
                   Serra D’arga                       (Cont)


O monge reparou neles e disse, olhando a filha de Ervígio:
-Pareceis outra, esta manhã!
-Sou feliz, irmão Gondemaro! E não esquecerei quanto vos devo dessa felicidade.
O monge meneou a cabeça.
-Não canteis hossanas antes de tempo! A tempestade ainda não passou. Há que
    informar vosso pai da decisão que tomastes e obter o seu perdão. Agora ide!
    Deus vos abençoará! Vou enviar ao vosso pai um mensageiro de confiança,
    pedindo-lhe perdão para vós dois..., e para mim, que vos uniu na presença de
    Deus sem o seu consentimento.
Eulália fitou o horizonte distante. A sua voz fraca, de menina, esclareceu num
    suspiro:
-Meu pai era tão meu amigo! E tudo isto por causa de um guerreiro ambicioso que
    fingiu amar-me e jurou coisas incríveis...Gostava de saber o que fará meu pai
    depois de escutar o vosso mensageiro, irmão Gondemaro.
Ele prometeu:
-Irei procurar-vos e far-vos-ei ciente da sua resposta, seja ela qual for. Ide, pois,
    descansada na paz do Senhor, porque a luz do dia já é clara!



                                                                  Caminha     Mapa
                  Serra D’arga                     (Cont)


Eulália olhou em volta, como se visse aquele cenário pela primeira vez.
-Como é linda esta serra! Os Romanos chamaram-lhe Monte Medúlio? Pois eu
   penso que ela mais parece uma enorme agra. Quem a cultiva, irmão
   Gondemaro?
-Os monges do nosso mosteiro e alguns particulares. Todos aqui trabalham. Esta é
   uma terra abençoada por Deus!
Egica sorriu, repetindo:
-Serra de Agra! Eis um bom nome, com o qual a baptizo. Daqui por diante os
   nossos filhos só conhecerão esta serra como a de Agra. Os nossos netos
   falarão dela aos seus netos. E assim por diante, através dos séculos! Adeus,
   irmão. Que o Senhor vos acompanhe!
Alguns meses passaram. Eulália e Egica continuavam no castelo onde o salvo-
   conduto do monge Gondemaro os abrigara. Certo dia, Eulália descobriu um
   vulto caminhando em direcção ao castelo.
Desceu a correr, com o coração batendo tão forte que lhe estremecia a túnica
   alvíssima.
Chegada à porta larga, abriu-a, e viu na sua frente o irmão Gondemaro. Sem
   hesitar, correu para ele.
-Trazeis-me noticias de meu pai?

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                  Serra D’arga                    (Cont)


-Recebi-as ontem ao anoitecer e pus-me a caminho logo de manhã.
-Que novas me trazeis?
-Vosso pai enviou esta resposta. « Se me derem um neto varão, perdoar-lhes-ei a
    fuga e a desobediência, e nomearei Egica meu sucessor. Se me não derem um
    neto no prazo de um ano, esquecerei que tive uma filha chamada Eulália!»
A jovem uniu as mãos em muda de acção de graças. O seu rosto transfigurou-se. A
    tremura das pernas obrigou-a a sentar-se numa pedra da estrada. Entretanto
    chegara Egica :
-Egica! Meu pai perdoa-nos se lhe dermos um neto dentro de um ano e nomeia-te
    seu sucessor!
 –Querida! Teremos de pedir a Deus que o filho que esperamos seja um rapaz!
    Nascerá nesta serra de Agra e será um dia Rei dos Visigodos!
Como num eco, o monge ajuntou. - Que Deus vos oiça!
Eulália voltou a olhar o horizonte, que desta vez parecia mais claro, menos
    fechado. Egica passou-lhe o braço pelos ombros e beijou-a nos cabelos.
    Esqueceram por momentos a presença do monge.
E quando se lembraram dele, viram-no já, amparado ao seu bordão, a caminho do
    Mosteiro Máximo.


                                                             Caminha     Mapa
                  Serra D’arga                    (Cont)


Egica murmurou:
-Pobre velho! Nem sequer lhe agradecemos! E deve ser-lhe difícil, esta viagem a
   pé.
Eulália encostou a sua linda cabeça ao braço forte do marido.
- Levar-lhe-emos o nosso filho logo que nasça, para que ele o abençoe! E depois
   partiremos para junto de meu pai!
Passado o tempo devido, nasceu um filho varão, vindo o pai Egica a reinar sobre
   os visigodos, sucedendo ao seu sogro Ervígio.
Fim




                                                              Caminha    Mapa
           A Senhora das Neves
Há muito tempo, vivia nas fraldas da Serra D’Arga, no local onde hoje está a capela
   da Senhora da Serra, um pobre monge, metido na toca de um sobreiro velho,
   fazendo penitência e rezando pelos pecados do mundo. Toda a sua atenção ia
   para Deus, prometendo grandes privações ao corpo, na comida e na bebida.
   Vivia o Santo frade sozinho, tendo como única companhia uma pequena
   imagem de Nossa Senhora, que carregara consigo do convento de onde viera.
Todos os dias o frade confidenciava com a Virgem os seus pensamentos e as suas
   orações. Havia-a colocado num altar improvisado dentro da cavidade onde
   morava, para melhor a homenagear e louvar, confiando na sua intercessão para
   conseguir a purificação total para si, e a salvação para os homens.
Ora aconteceu que um dia, no maior pico do verão, no mês de Agosto, o frade
   sentiu uma sede terrível que lhe afogueava a garganta. Bem queria o pobre do
   frade aguentar a sede, dando assim testemunho da capacidade de sofrimento e
   de penitência com que queria presentear continuamente a Virgem e o seu
   bendito filho. Mas era de tal forma quente o dia, que resolveu suspender a dura
   penitência, para ir ali perto, junto de uma fonte bem fresca, apagar a secura que
   lhe afligia a garganta.
Quando regressou ao seu poiso, notou, com extrema surpresa, que a Virgem já lá
   não estava!


                                                                 Caminha     Mapa
       A Senhora das Neves                                     (Cont)


Entristecido e aflito, pensou logo que a Virgem o tinha abandonado, por não ter
   resistido à sede. Ajoelhou-se com o rosto por terra, e suplicou à Senhora:
-Ò Virgem, Santa Mãe de Deus! Perdoai a minha falta de sacrifício! Por amor do
   vosso Santo Filho, meu Salvador, não me abandones!
Nisto, ouviu um grande estrondo! Temeroso do poder de Deus, tapou o rosto com
   as mãos, até que o silêncio voltou. Levantou lentamente a cabeça e olhou então
   para o alto. O sobreiro estava desfeito e envolto em brancura! Era a imagem da
   Virgem rodeada de neve, fitando-o com extrema doçura! E se aquele era um dia
   abrasador de Agosto, logo se transformou em dia fresco e acolhedor, que nem
   a mais suave Primavera.
Vendo tão grande milagre, pegou o frade na imagem da Senhora, e aí lhe construiu
   um lindo nicho de pedra para a colocar. A partir daquele dia começou a chamar-
   lhe Nossa Senhora das Neves!
Fim




                                                               Caminha    Mapa

								
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