Hist�ria da �frica

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					História da África
in Fage, D. História da África. Lisboa: edições 70, 1997.



África e Antigas Civilizações
por D. Fage




O desenvolvimento pós-neolítico da sociedade humana em África, sobretudo do que é hoje
predominantemente a África negra, ao sul do Sara, foi até agora considerado por nós como um fenómeno
interno sem influências exteriores, se exceptuarmos em certa medida o que dissemos sobre a costa índica
africana. Ora, a norte do Sara, a África fazia parte do mundo mediterrânico e estava em íntimo contacto
com os principais acontecimentos do Próximo Oriente, e uma das grandes civilizações, a do Egipto
faraónico, situava-se na própria África; além de que as civilizações mediterrânicas posteriores, como a da
Fenícia e a de Cartago, a da Grécia e a de Roma, também se estenderam ao norte de África, enquanto a
África do nordeste esteve sujeita à influência e à colonização por parte das antigas civilizações do sul da
Arábia. É por isso necessário voltar atrás e estudar a influência que estas civilizações, na periferia do
continente, podem ter exercido sobre a evolução da sociedade humana em toda a África.

A primeira grande civilização surgida em África, a civilização dos faraós, teve evidentemente as suas
bases em solo africano. O Egipto, porém, era muito diferente de qualquer outra região africana.
Constituído como um grande oásis, com terras de aluvião excepcional- mente férteis que a cheia do Nilo
renovava todos os anos, estava situado na grande encruzilhada em que a África se encontrava entre a Ásia
e o mundo mediterrânico, entre as regiões do Mar Vermelho e do Oceano índico, constituindo um ponto
de importância estratégica fundamental, e atraindo os povos e idéias de todas as direcções. Já muito antes
de 3000 a.C., a fertilidade das suas terras fazia com que os agricultores produzissem para lá das suas
necessidades imediatas, riqueza que permitia manter artífices especializados e comerciantes. Os
cemitérios da cultura gerzeense, do 4.o milénio, fornecem simultaneamente as provas de uma enorme
riqueza e de uma crescente desigualdade na sua distribuição. É então que subitamente aparece em cena a
monarquia absoluta; de início, segundo parece, em dois reinos, um no delta e outro no vale inferior do
Nilo, e mais tarde, no Egipto unificado e governado pelos Faraós.
A revolução operada no pensamento e na organização da humanidade representada por esta evolução,
ficou notavelmente documentada nas pirâmides. Nos cemitérios de Gerzé, não obstante as crescentes
desigualdades de riqueza que se notam entre os membros da sociedade, encontram-se enterrados os
membros ricos ou pobres dessas comunidades. Mas, com o aparecimento dos Faraós, a vida comunitária
ficou subordinada e seria representada pela vida do monarca, cuja sepultura se revestiu de um esplendor
cada vez maior. Ao princípio, as sepulturas reais imitavam os túmulos dos cemitérios de Gerzé, embora
com mobilário mais rico e com algumas centenas de servos do monarca a acompanhá-lo para o outro
mundo. Depois construiu-se sobre a sepultura uma espécie de grande palácio com o nome de mastaba,
com sucessivas mastabas sobrepostas até se chegar à forma da pirâmide que conhecemos. A grande
pirâmide de Gizé, construída cerca de 2400 a. C., medindo 150 metros de altura, com 60 milhões de
toneladas de grandes blocos de pedra numa região onde a pedra de construção é rara, e erguida por
homens que não tinham instrumentos de ferro nem máquinas, marca o apogeu dessa evolução. Os Faraós
começaram por ser considerados como a encarnação do deus Hórus, e depois como filho do deus-sol,
Amon-Rá. Em ambos os casos, eram os intérpretes da vontade divina e os únicos juízes da existência dos
seus súbditos, do uso das terras agrícolas e dos tempos da sementeira e da colheita, dando a conhecer as
suas ordens junto do povo mediante uma vasta hierarquia de sacerdotes, ministros, burocratas e escribas.

Não é conhecida a origem exacta destas transformações. Autores há, como por exemplo, Flinders Petrie e
w: B. Emery, que pensaram ter resultado da chegada de uma raça dominante proveniente da Ásia, o que
parece não .ser o caso, já que as civilizações fluviais do Próximo Oriente parecem ter possuído dinastias
equivalentes bastante mais tarde do que o Egipto. É muito possível, na realidade, como supôs Gordon
Childe, que a idéia de um domínio absoluto único sobre todos os bens da terra tenha tido uma evolução
autônoma nas circunstâncias específicas do delta e do vale inferior do Nilo, com um afluxo permanente
de novas populações pressionadas pelo deserto em direcção aos seus oásis, e inteiramente dependentes
(muito mais do que quaisquer outras civilizações fluviais) das inundações anuais do rio. Já os agricultores
dos tempos de Gerzé produziam três vezes mais do que o necessário para a sua alimentação e de suas
famílias. Contudo, uma tal abundância de excedentes podia facilmente dar origem a divisões e a guerras
com vista à sua apropriação, impedindo ao mesmo tempo a sua utilização plena. Além de que o controlo
exclusivo dos excedentes permitiria que parte deles fosse exportada em troca de outros bens inexistentes
no Egipto, ao mesmo tempo que os mandantes e o número sempre crescente dos seus assistentes eram
alimentados e recompensados com a outra parte desses excedentes e com a nova riqueza proveniente do
comércio, e podiam entregar-se a uma vida de luxo de que os seus palácios, templos e pirâmides são
testemunho. Neste caso, a monarquia absoluta e divina do Egipto seria proveniente de um conceito
originariamente africano.
E também não se deve esquecer que o delta e o vale do Baixo Nilo, embora admiravelmente dotados para
o desenvolvimento de uma agricultura capaz de alimentar uma população densa, estavam, por outro lado,
naturalmente privados de muitos materiais, como a pedra, os metais e a madeira, indispensáveis a uma
cultura materialmente avançada. Assim, à medida que o Egipto se tornava mais rico e se constituía uma
classe dominante, aumentava também a necessidade do comércio exterior; e com o deserto a leste e a
oeste, a única via eficiente de transporte das mercadorias não podia ser outra senão a via fluvial e
marítima. A falta de madeira para construir grandes navios terá feito com que o antigo Egipto nunca se
tenha tornado uma grande potência marítima; como veremos, o seu comércio nos mares Mediterrâneo e
Vermelho era realizado por barcos estrangeiros. Porém, embarcações fabricadas com feixes de papiro
eram capazes de subir o Nilo até ao interior de África, até à Núbia, a região onde os povos de línguas
hamíticas estavam em contacto com os povos negros do Sudão, onde a actividade comercial e militar do
Egipto começou cerca de 2500 a.C.

No tempo da XII dinastia faraónica (cerca de 2 000-1 780 a. C.) foi realizada a colonização da Núbia até à
área de Semna, junto da segunda catarata, e toda uma série de postos fortificados foi estabelecida nas
margens do Nilo, de modo a que pudessem ser encaminha- dos para o Egipto fornecimentos regulares de
ouro, madeira e outros produtos tropicais. Esta aventura colonizadora seria interrompida pelos distúrbios
contra o governo egípcio, associados ao nome dos Hicsos, invasores nómadas vindos do leste, para ser
retomada sob o Novo Império (cerca de l550-l050 a.C.), no momento em que os limites dos núcleos de
povoamento e comerciais atingiram a quarta catarata ou mais longe ainda, mediante uma série de
expedições militares contra um ou vários chefes núbios. Foi então que se construíram cidades, palácios e
templos, colocados sob a autoridade de vice-reis enviados pela corte dos Faraós e onde uma
administração egípcia era encarregada de manter a ordem necessária à actividade comercial e à recolha
regular dos tributos, de tal modo que ao norte começaram a afluir quantidades cada vez maiores de ouro,
escravos, madeira, ébano, marfim, goma e penas de avestruz.

No século IX a.C., estalaram no Egipto desordens civis (em que os soldados núbios desempenharam aliás
um certo papel). Tendo diminuído o controlo do Egipto sobre a Núbia, o vice-reino tornou-se um estado
independente, o reino de Kush, cuja capital teria sido Napata, logo a seguir à quarta catarata, e cujo
poderio superou por algum tempo o do estado egípcio. No tempo dos reis Kashta e Piankhy (à volta de
770-716 a. C.), os exércitos de Kush conquistaram o Egipto, estabelecendo aí a xxv dinastia que reinou
até à conquista do Egipto pelos Assírios em 671-666 a. C. Ignora-se a origem destes reis de Kush. Tanto
podem ter sido descendentes de colonos ou de funcionários egípcios, como de famílias de chefes
submetidas durante o Novo Império. Se assim foi, (eles) assimilaram progressivamente a cultura egípcia,
talvez através da influência dos sacerdotes do templo de Amon-Rá instalado em Jebel Barkal. Depois de
conquistarem o Egipto, decerto consideraram-se Egípcios, e começaram a ser enterrados em pirâmides.
Os seus súbditos incluíam tanto negros como povos de língua hamítica, e depois da sua retirada forçada
do Egipto no século VII, a influência egípcia em Kush entrou em declínio. As províncias meridionais de
Kush tornaram-se mais importantes do que a região do norte onde a influência egípcia primeiramente se
fizera sentir, assim como a sede do governo foi defenitivamente deslocada para uma cidade mais a sul,
Meroé, situada entre a sexta catarata e a confluência de Atbara.

Deve ter havido um conjunto de razões para esta deslocação de Kush em direcção ao sul. A mais provável
é o reaparecimento de tropas egípcias em Kush, no início do século VI. Embora não tenham
reconquistado o reino, causaram destruição na província do norte. Podem, assim, ter acelerado o processo
de desertificação iniciado com o aumento da população de Kush e dos seus rebanhos. Outro factor,
resultante da conquista assíria do Egipto, consistiu no facto de a metalurgia do ferro se tornar uma
importante actividade. A região norte de Kush não possuía madeira adequada para alimentar os fornos de
fundição e as forjas, enquanto a região sul era mais arborizada e detinha maiores reservas de minério de
ferro. Além disso o comércio ao longo do Nilo declinara com o recomeço das actividades militares
egípcias no século VI, enquanto a partir do século III, o comércio no Mar Vermelho iniciou a sua
expansão sob a direcção de mercadores gregos de Alexandria, e uma percentagem cada vez maior do
comércio externo de Kush começou a dirigir-se para leste a partir de Meroé até à costa da Eritreia. No
entanto, no início da era cristã, surgiu aí uma nova potência para controlar o comércio com o interior, o
reino semita de Axum que recebeu influências gregas. Em 350 a. C. ou mesmo antes, um exército do rei
Ezana de Axum foi enviado contra Kush. Tal facto é geralmente considerado como o fim deste reino, mas
na inscrição em que Ezana registou a sua vitória, é de notar que não aparece referência a Meroé, o
inimigo é designado por «Noba» e uma das cidades é chamada «Alwa». Ignora-se quem eram
exactamente estes Noba. Contudo os Romanos conheceram um povo no norte da Núbia, a partir do século
III a. C., a quem chamaram «Nobata», e por volta do século VI o primitivo território de Kush esteve
organizado em três reinos, dos quais um mais a norte era designado em latim por «Nobatia» e o mais a sul
por «Alodia»; em arábico estes nomes passaram a Nuba e Alua. É possível concluir que a antiga Meroé
fora destruída pelos Noba antes da expedição de Ezana, e que estes povos mais tarde constituíram em seu
lugar três reinos.

Diz-se vulgarmente que o reino da Núbia governado a partir de Meroé representa uma antiga tradição
egípcia de organização política «que se deteriorou até ter um fim miserável e inglório» (Como disse A. J.
Arkell). É certo que os aspectos egípcios da cultura meroítica foram desaparecendo. Há indícios por
exemplo de que, no início do século IV a. C., o egípcio antigo se transformou numa língua clássica, usada
nas inscrições, mas não na vida quotidiana. No século II os hieróglifos egípcios eram usados em
inscrições em meroítico (uma língua que não se encontra totalmente decifrada, mas que não parece estar
na raiz do núbio moderno, talvez introduzido pelos Noba). Finalmente, empregaram a escrita cursiva. Os
últimos reis de Meroé foram enterrados modestamente, em comparação com os anteriores, e em
pirâmides ainda menos pretensiosas. Mas, por essa altura, já não havia Faraós no Egipto e o seu país fora
submetido ao poder de estrangeiros, Gregos e Romanos, havia já seis séculos. Do ponto de vista africano,
é preferível considerar o reino de Meroé como um país onde as tradições egípcia e negra se puderam
encontrar e fundir, e onde as regiões interiores do Sudão puderam contactar com os mundos grego-
helenísticos e romanos e com o comércio e a cultura do Mar Vermelho e do Oceano índico.

Dois aspectos de Kush-Meroé têm sido considerados como particularmente significativos para a história
de África subsariana. Como vimos, pensa-se que a Núbia deve ter sido uma das principais vias por onde o
conhecimento da metalurgia do ferro atingiu os povos negros. Os enormes montes de escória ainda hoje
visíveis na antiga Meroé revelam sem dúvida alguma que aí existiu um centro importante de metalurgia
do ferro, a ponto de influenciar pelo menos os povos vizinhos do Sudão oriental. Em segundo lugar, e
embora sujeito a maior controvérsia, supõe-se também que foi essa a via por .onde os aspectos da antiga
cultura egípcia, em especial os conceitos de realeza divina e administração hierárquica, alcançaram os
povos negros e influenciaram o seu desenvolvimento.

Afirma-se frequentemente que as formas de organização monárquica desenvolvidas entre os povos negros
subsarianos e que aparentemente existiam já no primeiro milénio d. C. revelam um modelo comum. O rei,
quando não era propriamente um deus, era considerado como descendente dos deuses, e era por isso
separado dos homens comuns por uma série de rituais. Ele era raramente visto em público, geralmente
dava audiência atrás de uma espécie de cortina, comunicava essencialmente através de porta-vozes e não
podia ser visto a realizar simples actos mundanos como comer e beber. Ele era o representante dos deuses
para o controlo do uso da terra de que o povo dependia, determinava as épocas de sementeira e colheita,
ocu- pando o papel central nas grandes cerimónias apropriadas a cada época. Pensava-se que a fertilidade
do solo, a queda regular de chuvas e, portanto, todo o bem-estar da comunidade estavam dependentes
dele e da sua contínua prosperidade; a sua falta de saúde era um desastre que ou tinha de ser dissimulado
ou por vezes terminava com o seu assassínio ritual. Quando morria era enterrado com grande pompa
juntamente com as mulheres e comitiva. Na sua corte havia geralmente um lugar importante para uma
grande rainha ou rainha-mãe, que era a mulher principal da família real e não a esposa. Abaixo do rei
havia uma hierarquia de grandes funcionários que se ocupavam da corte e que impunham a ordem e os
tributos aos súbditos das comunidas clânicas e aldeãs. As mercadorias mais importantes do comércio a
longa-distância, como ouro, marfim, cobre e sal eram em regra monopólios reais, e o palácio real era o
centro principal dos maiores artesãos do país, tais como ourives, cinzeladores de metais raros, tecelões e
músicos.

Este modelo tem sido identificado por etnógrafos e historiadores através da África negra: por exemplo,
nos reinos lacustres da África oriental, nos estados de Zimbabué-Monomotapa na região austral e na
África ocidental, em monarquias como as de Kanem e Benim. Há evidentemente alguma afinidade com a
monarquia divina do antigo Egipto, embora não se saiba exactamente até que ponto, visto que à situação
do antigo Egipto foi dada por vezes uma interpretação conhecida apenas através de provas arqueológicas,
por analogia com outras partes de África, segundo a moderna pesquisa etnográfica. Contudo, tem-se
argumentado que o modelo egípcio foi difundido no resto do continente através de Kush, o seu posto
avançado a sul, uma vez que a primeira monarquia divina conhecida em África é a do antigo Egipto. Isto
levanta naturalmente a questão de saber se as origens da monarquia em Kush eram de inspiração egípcia
desde o início, ou se ela resultou de uma evolução interna que mais tarde sofreu a influência egípcia. Mas,
se os principais conceitos de realeza e governo foram difundidos a partir do vale do Nilo, é razoável supor
que a difusão se deu a partir de Kush em vez do Egipto, pois existem poucos vestígios da difusão da
influência do antigo Egipto através do deserto a oeste e a leste do Nilo, com a única grande excepção da
propagação do culto de Amon-Rá para oeste ao longo das rotas caravaneiras que atravessavam os oásis,
como Siwa, até ao noroeste de África. É no entanto difícil de compreender a difusão da realeza divina
para além de Meroé.

Há poucos vestígios da extensão da influência meroítica acima do Nilo Branco, onde os povos nilo-
sarianos nada sabiam da civilização urbana e pouco de comércio a longa distância. São necessárias outras
explicações para as duas principais manifestações de governo monárquico, com reis sagrados, que foi
registado entre esses povos nilóticos. Um deles é o reino de Shilluk, cujo poder atingiu a norte o que se
supõe serem os limites meridionais da autoridade de Meroé. Mas o reino de Shilluk desenvolveu-se
apenas por volta do século XVI, o que significa cerca de doze séculos depois da destruição de Meroé, e
deveu-se, ao que parece, à invasão e conquista por parte de um ramo dos Luos, um grupo nilótico vindo
do sul. Porém, a maioria dos Luos - como em geral todos os povos nilóticos - permaneceram sem pátria; o
outro exemplo antigo de realeza divina num contexto nilótico, resultou da conquista, mais ou menos no
mesmo período, de agricultores de língua banto pelos Luos, mais a sul na região que hoje é o Uganda. Aí,
no reino Bunioro, torna-se bastante evidente que um ramo meridional dos Luos se apropriou de um
sistema monárquico que já estava implantado no país, em vez de introduzir a realeza divina entre os
Bantos.

Se se quiser considerar a hipótese da difusão a partir de Meroé, é mais plausível supor que esse tipo de
monarquia se difundiu através do Nilo Azul, influenciando os Sidamas, povo de língua cushítica habitante
da região sudoeste do planalto etíope, cujos reinos Kaffa e Enarea, ou seus precursores, devem ter sido
por sua vez influenciados pela África banto. Este facto pode ter ocorrido através de um substrato
cushítico dominado por imigrantes Bantos. Só uma explicação deste tipo pode esclarecer como um
conjunto de crenças e práticas originárias do vale do Nilo podiam ter chegado a tempo de influenciarem,
por volta do século XII ou ainda anteriormente, os reinos bantos do Zimbabué/Monomotapa.

Mas isto é uma simples conjectura. Realmente existem provas consistentes de contactos meroíticos com o
mundo exterior, além do Egipto, somente para leste onde, como se viu, a influência meroítica acabou por
ser apagada pela potência rival de Axum. Há alguns vestígios muito ténues da propagação da influência
núbia para ocidente através do Sudão até cerca do Lago Chade (e daí até Kanem). Mas, segundo as
possibilidades de datação, este facto não parece relacionar-se com a antiga Meroé mas com os reinos
cristãos que se constituí- ram em seu lugar a partir do século VI d. C. Não há, portanto, nada que sugira
uma forte influência de Meroé sobre os reinos do Sudão ocidental, o primeiro dos quais, o antigo Gana, se
encontrava no extremo ocidental e decerto existia já no século VIII; todos eles tinham importantes
relações exteriores não com o leste mas com o norte, através do Sara, por intermédio dos Berberes
nómadas do deserto.

Com efeito, parece mais razoável pensar que, por toda a África e particularmente nos vales dos rios, a
realeza divina possa ter resultado de uma evolução mais ou menos natural a partir do desenvolvimento da
agricultura. À medida que uma comunidade aumentava e se tornava cada vez mais dependente das
colheitas que os seus campos produziam e da água que os alimentava, deve ter havido maior necessidade
de um controlo unificado das suas vidas. Desde que surgiu a crença universal na necessidade de prestar
culto aos espíritos da terra e da água, tornou-se mais importante a mediação dos antepassados no mundo
dos espíritos. O dirigente de cada sociedade, o descendente directo do antepassado fundador do grupo, o
homem que primeiro os guiara no desbravamento da terra e discutira a sua utilização com os espíritos,
tornou-se o primeiro intermediário com o outro mundo, e desse modo foi investido de qualidades
sobrenaturais. Se estes factos aconteceram e se repetiram, a realeza faraónica deve ser encarada como
uma evolução ocorrida no antigo Egipto que pode ter sido difundida daí para o resto de África, como um
exemplo mais sofisticado do desenvolvimento geral africano, resultante das condições específicas do
Baixo Nilo e do Delta. Deste modo, pode ter sido um modelo muitíssimo influente, especialmente via
Meroé, a tal ponto que outras monarquias divinas, podem ter sido levadas a adoptar ou adaptar algumas
das suas características, por vários meios indirectos.

Já foi mencionado que o antigo Egipto não se orientou para o mar, essencialmente porque faltava madeira
para construir barcos adequados a esse meio. Por volta de 3000 a. C., é certo que já se importava madeira
do porto de Biblo, no Líbano, em troca de produtos manufacturados como papiro. Havia igualmente
comércio de cobre com Chipre, e Creta minóica começou a tornar-se um importante entre- posto
marítimo para o Mediterrâneo oriental. Em toda essa área a riqueza do Egipto tornara-se, sem dúvida, um
importante estímulo para o comércio e para o crescimento das cidades e da civilização humana, sendo
ainda esse desenvolvimento que trouxe a África os dois mais importantes povos marítimos e mercantis do
Mediterrâneo oriental, os Gregos e os Fenícios.

Ao iniciar as trocas comerciais entre Creta minóica e o Egipto, as comunidades gregas marítimas
começaram a prosperar e a multiplicar-se, colonizando muitas terras ao longo do litoral mediterrânico
oriental. A partir do fim do século VII, estabeleceram-se numerosas colónias de emigrantes gregos nos
férteis vales da Cirenaica (assim designada por causa da colónia de Cirene). Estas foram essencialmente
núcleos agrícolas, que contavam com o Mediterrâneo para os contactos exteriores, pouco influentes aliás
no resto de África, da qual estavam na verdade separados, por todos os lados, pelo deserto.

Muito mais importante foi a colónia de comerciantes que se se estabeleceu nessa época em Naucratis,
próximo de Roseta, um dos braços do Nilo. Os comerciantes gregos chegaram a dominar o comércio
externo egípcio e grande parte da sua actividade comercial, quando ocorreu o declínio da organização
interna egípcia depois das invasões assíria e persa. Em 332 a. C., e influência grega no Egipto
intensificou-se com a conquista do território aos Persas por Alexandre da Macedónia. Um dos seus
generais, Ptolomeu, estabeleceu uma nova dinastia reinante e a capital foi transferida do Nilo para uma
nova cidade, Alexandria, no litoral mediterrânico. Sustentada pela riqueza agrícola do Egipto assim como
pelo papel dominante que assumiu como charneira do comércio entre o Mediterrâneo, o Mar Vermelho e
a costa ocidental do Oceano 1ndico, Alexandria tornou-se em breve a maior das cidades gregas, chegando
a possuir, segundo se crê, uma população de 300000 cidadãos e outros tantos escravos. Uma parte da sua
riqueza foi utilizada no apoio à actividade intelectual de uma forma activa e verdadeiramente
internacional, razão pela qual a filosofia e a ciências gregas se fundiram com a herança das antigas
civilizações fluviais do Egipto e da Ásia, constituindo-se assim uma plataforma de conhecimento e
reflexão a partir da qual foi possível o progresso posterior. O Judaísmo teve aqui a sua primeira
implantação e, em resultado disso, Alexandria tornou-se o principal centro de desenvolvimento da
religião e filosofia da cristandade.
Os grandes concorrentes dos Gregos no comércio mediterrânico foram os Fenícios. Fenícia era o nome
que os Gregos .davam ao litoral da Síria e do Líbano, habitado por um povo de língua semita que noutro
contexto é conhecido sob a designação de Cananeus. Biblo foi um dos seus portos mais antigos: mais
tarde Tiro e Sídon tornaram- se as principais cidades. Devido a uma região interior árida e inóspita, os
Fenícios procuraram naturalmente no mar o seu sustento, dispondo de uma situação privilegiada para
servir de intermediários comerciais entre as civilizações fluviais da Mesopotâmia e do Egipto. Não
desenvolveram uma civilização original, mas foram, no entanto, entre outras coisas, os inventores do
alfabeto, o mais flexível de todos os sistemas de escritas e actualmente a base de toda a escrita no mundo,
com excepção da China e do Japão.

Geralmente, os Fenícios eram suplantados pelos Gregos na concorrência pelo comércio marítimo do
Egipto, mas para ocidente man- tiveram o seu predomínio. Aqui, o principal benefício era o acesso à prata
e ao chumbo e a outros metais da Península Ibérica e de outras regiões do ocidente europeu ainda mais
distantes. Enquanto os Gregos se expandiam para ocidente ao longo da costa do Mediterrâneo, a rota
fenícia para oeste acompanhava o litoral africano. Remando contra os ventos predominantes de oeste (só
podiam velejar quando o vento soprava de popa) e preferindo navegar de dia, ancorando as galeras junto
às praias durante a noite, os Fenícios necessitavam de numerosos pontos de apoio no litoral. Por volta do
século VIII a. C., alguns destes pontos a oeste da Cirenaica estavam a tornar-se importantes colónias
urbanas.

Até as colónias mais reduzidas, viradas para o mar e pouco interessadas no continente a que voltavam as
costas, contribuíram provavelmente para o processo que transformou as tribos Berberes das planícies e
vales costeiros em agricultores sedentários pertencentes a uma civilização mediterrânica, enquanto os
seus parentes nas montanhas e estepes do interior continuavam a ser pastores nómadas e independentes.
As colónias fenícias necessitavam de géneros alimentícios para consumo e fornecimento das galeras e por
vezes também para exportação e os agricultores berberes recebiam em troca os produtos manufacturados
do mundo mediterrânico. Na realidade, recebiam algo mais: ao compartilharem com os Fenícios os
mesmos fundamentos linguístico-culturais afro-asiáticos, os Berberes revelaram-se muito receptivos às
influências culturais semitas e a influência fenícia abriu caminho à aceitação das grandes religiões
monoteístas, primeiro do Judaísmo e posteriormente do Cristianismo e do Islamismo. Mesmo os pastores
do interior não escaparam totalmente ao processo de transformação. As colónias fenícias e as áreas
vizinhas de desenvolvimento agrícola ofereciam boas oportunidades para os assaltos e pilhagem, e mais
tarde, para a crescente troca de gado, peles e produtos pecuários para o artesanato, além dos cereais que
no Inverno alimentavam os homens e o gado.
Houve três áreas principais onde os entrepostos organizados pelos Fenícios constituíram bases para o
crescimento de grandes cidades. Uma delas é a actual região do norte da Tunísia, a maior área
particularmente adequada a uma agricultura próspera, em toda a África de noroeste. Além disso, a região
era ainda importante para os Fenícios devido à sua posição estratégica, controlando o estreito da Sicília,
entrada para o Mediterrâneo ocidental. Na própria Sicília, os Fenícios encontraram-se em concorrência
directa e tenaz com os colonos gregos: por isso, tornou-se vital para eles assegurar um controlo único a
partir da costa e dos portos da Tunísia. Para tal efeito concentraram aí enormes colónias que podiam ficar
independentes do auxílio da pátria distante, graças ao apoio certo da agricultura das planícies. Com efeito,
enquanto o poder fenício na metrópole sofria cada vez mais com os ataques de povos asiáticos como os
Assírios e os Persas, as suas colónias na Tunísia começaram a agir com maior autonomia. Finalmente, por
volta do século VI, a maior delas, Cartago, emergiu como uma potência independente que controlava
todas as outras colónias em África e no Mediterrâno ocidental. As crescentes responsabilidades imperiais
e comerciais de Cartago corresponderam à sua importância como cidade, cuja população se calcula em
cerca de 400000 habitantes, e que requeria forças militares e navais consideráveis. Por isso, durante o IV
século ela estendeu o seu controlo sobre a planície da Tunísia a fim de assegurar o fornecimento de
alimentos e de soldados berberes para o seu exército.

As outras zonas mais importantes do desenvolvimento urbano fenício no noroeste africano foram a região
hoje chamada Tripolitana, onde se encontravam as cidades de Léptis Magna, Oea e Sabrata, e a costa
atlântica de Marrocos, onde a cidade principal era Lixus (actual Larache). Ignoram-se as razões por que
se desenvolveram grandes cidades nessas duas zonas. É certo que Lixus estava situada no litoral mais
próximo da região da planície arável do noroeste africano, mas Trípoli actualmente não possui
praticamente nenhuma zona agrícola. Contudo, nos tempos antigos era diferente, pois os Cartagineses (e
depois deles os Romanos) eram muito dotados para a agricultura em condições de semi-aridez, e na
Trípolitana, com a ajuda de um sistema de irrigação mantido por mão-de-obra escrava, conseguiram
cultivar cereais e oliveiras, tanto para exportação como para consumo local. De facto, nos tempos antigos
Tripoli estava muito próxima do deserto.

Parece provável que uma grande parte da importância da Tripolitana e de Lixus tenha resultado do facto
de estarem situadas no término de vias comerciais que se dirigiam para o sul através do Sara até ao Sudão
habitado por povos negros. Foi atrás mencionado que os Fenícios, à medida que se estabeleceram ao
longo do litoral do norte de África, estavam muito mais interessados em África, do que em garantir o
acesso ao seu extremo ocidental. O continente a norte do Sara fornecia poucos produtos comerciáveis que
não pudessem ser obtidos mais rapidamente algures no Mediterrâneo. Mas é provável que, à medida que
os Fenícios se foram tornando Cartagineses em contacto mais estreito com os Berberes, e mais
dependentes deles em alimentos para abastecerem as suas cidades, por esse motivo, como povo
comerciante, se tenham interessado pela possibilidade de adquirir bens valiosos ou exóticos vindos de
terras mais a sul das suas, ou seja do Sara ou mesmo de mais além.

Os contactos humanos através do deserto subsistiriam desde a altura em que o Sara era uma terra de
pastagem com uma população comparativamente mais estável, e subseqüentemente, teriam sido
perpetuados através da prática da transumância. Tanto nos limites setentrional como meridional do
deserto, os pastores e os agricultores só teriam a lucrar com o intercâmbio dos seus produtos. Por
conseguinte, terá sido possível que pequenas quantidades de produtos originários da África tropical
passassem de tribo em tribo através do deserto até ao norte de África, enquanto, e inversamente, os
produtos mediterrânicos e sarianos tenham alcançado o Sudão. Alguns pastores sarianos compreenderam
sem dúvida que o comércio ou a pilhagem praticadas no deserto (ou, com o mesmo fim, os assaltos aos
mercadores no deserto) proporcionavam oportunidades vantajosas para enriquecer. Formaram-se bandos,
um dos quais era o dos Garamantes do Fezzan, no Sara central a sul de Tripoli, que são descritos por
Heródoto no século V a. C. como um povo que «usava carros de quatro cavalos para atacar os Etíopes»
(Oito séculos mais tarde, Ptolomeu afirmou que os assaltos dos Garamantes atingiam as terras onde havia
rinocerontes). No século I a. C. o geógrafo Estrabão escreveu sobre os assaltos feitos por povos mais
ocidentais, os Nigrites, que utilizavam carros e viviam provavelmente no oásis de Tuat e pelos Parusii
que habitavam próximo do litoral atlântico. Heródoto refere ainda uma rota de oásis desde o Fezzan até às
montanhas de Hoggar, e um grupo de Nazamons da Cirenaica, que atravessou o Sara em direcção a
sudoeste até atingir «uma vasta extensão de terreno pantanoso e depois dele uma cidade, em que todos os
habitantes eram de pequena estatura e todos negros. Um grande rio com crocodilos corria de oeste para
este». Supõe-se, geralmente, que este rio era o Níger.

Diz-se que a actividade dos condutores de carros sarianos, como os Garamantes e Parusii consistia na
pilhagem e não no comércio, embora uma conduza facilmente à outra. Encontra-se actualmente a
confirmação segura de que os condutores de carros realmente atravessavam o deserto em direcção à terra
dos negros. Foi descoberta uma grande quantidade de gravuras rupestres representando veículos com
rodas, puxados por quatro animais de quatro patas em posição de atravessar o deserto ao longo de dois
caminhos de terra (onde hoje existem estradas transitáveis). Um deles - o que confirma a descrição de
Heródoto - corre para sudoeste do Fezzan e Gadames, através da passagem mais estreita do Sara até à
curva do Níger, e o outro - confirmando Estrabão - vai desde a parte sul de Marrocos em direcção aos
vales superiores dos rios Senegal e Níger. Foram interpretados como provas de rotas comerciais que
terminariam respectivamente em Tripoli e Lixus.

Porém, partindo do princípio de que os veículos com rodas eram de facto quadrigas, convém salientar que
os carros antigos eram veículos ligeiros inadequados ao transporte de mais de uma ou duas pessoas ou a
percorrer distâncias muito grandes; os vestígios não indicariam, nesse caso, um comércio transariano
muito significativo, mas apenas a existência de duas estradas ao longo das quais o contacto tribo a tribo,
através do Sara, seria mais fácil do que o normal. Mas os desenhos - ou pelo menos alguns deles -
poderiam representar carros de bois, constituindo, desta feita, indícios de alguma espécie de comércio
regular. Assim sendo, paira um mistério sobre a natureza dos produtos transportados. Não surgiram nas
estações arqueológicas na parte do Sudão a ocidente do vale do Nilo quaisquer produtos de procedência
mediterrânica de qualquer época remota. O único bem oriundo do sul importado para o norte de África, e
com algum impacte nas primeiras fontes literárias é o carbúnculo, uma pedra preciosa cuja identidade não
foi determinada e que, de qualquer forma, não necessitaria de ser transportada em carros. Mais tarde, um
bem importante levado para o Sudão, oriundo do Sara, foi o sal, mas não teria deixado vestígios para os
arqueólogos, e as principais importações do norte de África vindas do Sara incluíam ouro em pó, escravos
e artigos como marfim, peles e penas de avestruz. Na época clássica, não teria sido necessária a
importação destas últimas, pois os animais corriam ainda livremente no próprio norte de África. Nem os
escravos negros nem o ouro em pó necessitariam de carros para serem transportados, nem tão-pouco
parecem ter estado presentes no norte de África na época clássica, na medida em que seguiam o percurso
regular das caravanas de camelos que comerciavam no Sara por alturas de meados do primeiro milénio d.
C. Todavia, parece que os Cartagineses conheciam bastante bem as possíveis vantagens das relações
comerciais com o Sudão para pensarem em tomar directamente a iniciativa. Na qualidade de povo
marítimo, era pouco provável que desafiassem o poder das tribos que controlavam o deserto; a melhor
alternativa seria explorarem as perspectivas de empreenderem o comércio marítimo ao longo do litoral
sariano.

Se por um lado dispomos de abundantes vestígios arqueológicos sobre a costa oriental de África no que
se refere às actividades, durante o período clássico, de comerciantes vindos do mar, por outro nada se
encontrou sobre a costa ocidental abaixo do sul de Marrocos, em que Mogador (Essauira) é a colónia
cartaginesa mais conhecida a sul. São meramente literárias as provas de que os Cartagineses foram mais
além, e muito questionável a sua interpretação. Heródoto, ao escrever no séc. V, afirma que para além do
Estreito de Gibraltar, e possivelmente além da sua colónia mais distante, os Cartagineses negociavam em
ouro através da troca muda. Esta forma de comércio sugere ou que o comércio tinha um carácter
transitório com pessoas que não estavam acostumadas a lidar com estrangeiros, ou - o mais provável - que
os Cartagineses queriam ocultar os seus pormenores de possíveis concorrentes*[A «troca muda» ou
«comércio silencioso» tornou-se uma prática muito conhecida quando comerciantes de outras regiões
começaram a negociar com povos não acostumados a comerciar com estrangeiros (casos posteriores
ocorridos na África ocidental são referidos nos capítulos 3 e 4). Diz-se que funcionava do seguinte modo:
os visitantes colocam as mercadorias que trazem para troca e depois afastam-se para longe. As pessoas da
região aproximam-se e depositam ao lado das mercadorias uma quantidade do seu produto que
consideram como o justo valor de troca e em seguida retiram-se. Os comerciantes voltam e retirar-se-ão
de novo se não estiverem satisfeitos com a troca, na esperança de receberem maior quantidade de
produtos locais. Quando estão satisfeitos, levam consigo os produtos locais e deixam as suas mercadorias.
Se a troca muda acontecia realmente desta forma clássica é outra questão. Há razões para crer que, pelo
menos, na África ocidental, as histórias sobre a troca muda ocultavam sistemas de corretagem local (e
podem ter sido difundidas para proteger os interesses dos corretores)].

O Periplus do séc. IV, falsamente atribuído a Cilax, refere que os Cartagineses comerciavam, a partir de
uma ilha chamada Kerne, com uma grande cidade dos Etíopes, conquanto não o ouro, mas peles, marfim
e vinho (embora uma outra fonte do séc. IV associe Kerne ao ouro). Por último, temos o chamado
Periplus de Hanão, um dos raros textos cartagineses que sobreviveu, todavia, apenas numa versão em
grego. Tanto a sua autenticidade como a sua interpretação são perfeitamente discutíveis, mas trata-se,
manifestamente de uma narrativa de uma ou mais viagens do séc. V com o intuito de estabelecer colónias
ao longo da costa atlântica, a mais meridional das quais se situava na ilha de Kerne, e averiguar depois a
possibilidade de comerciar mais longe.

Kerne seria talvez uma das ilhas próximas da costa ocidental do Sara, tal como Arguim (que os
Portugueses viriam a utilizar como feitoria no século xv), ou uma ilha da foz do rio Senegal, uma vez que
se diz que Hanão, logo a seguir a Kerne, subiu um grande rio. O principal problema do Périplo de Hanão
reside na determinação da distância a que os exploradores cartagineses se aventuraram. Alguns
interpretam o texto como revelando que Hanão atingiu a Serra Leoa ou mesmo o Camarões, enquanto
outros rejeitam a segunda parte do Périplo considerando-a como uma amálgama de velhos mitos. Na
perspectiva da história africana, no entanto, a controvérsia revela-se estéril. Parece evidente que os
Cartagineses tenham explorado as possibilidades do comércio marítimo com o Sudão, e que possam ter
atingido os seus limites a noroeste, próximo do Senegal. É no entanto irrelevante saber até onde
exploraram, visto que é quase certo que estava para além das suas possibilidades efectivas manter um
comércio marítimo regular com a África ocidental. A costa do Sara, seca e inóspita, tornou praticamente
impossível a manutenção de pontos de apoio regulares que eram tão vitais para as acções marítimas dos
Cartagineses e o comércio com os seus poucos habitantes nómadas não seria muito compensador. Os
Cartagineses tinham de enfrentar também problemas graves de técnica naútica. Não navegavam apenas
no delimitado Mediterrâneo mas no alto mar onde as enormes vagas rebentavam directamente em praias
abertas. Além disso, tanto os ventos predominantes como as correntes perto da costa atlântica até ao Cabo
Verde vinham do norte. Isso terá facilitado o primeiro reconhecimento da costa para sul, mas terá
dificultado enormemente o regresso das galés em direcção ao norte. Os Cartagineses devem ter concluído
que as galés mediterrânicas não estavam adaptadas ao estabelecimento de uma navegação regular em
ambas as direcções ao -longo da costa atlântica a sul de Marrocos.

Portanto, muito embora a viagem da descoberta de Hanão possa ter sido longa e bem sucedida, não
parece ter dado continuidade ao tráfego marítimo com a África ocidental. O comércio que os Cartagineses
realizavam com a África negra manteve-se indirectamente através da mediação das tribos nómadas
berberes que dominavam o Sara ocidental. A influência cartaginesa em África ficou, assim, efectivamente
limitada às áreas agrícolas colonizadas no norte de África próximo das suas cidades. Essa influência foi
naturalmente mais forte na região contígua de Cartago e em segundo lugar na Numídia, conjunto de vales
e montanhas na Tunísia ocidental e Argélia oriental onde, na época da luta decisiva pela sobrevivência de
Cartago contra o imperialismo romano, alguns chefes Berberes formaram grandes reinos para explorar a
crescente prosperidade agrícola dos seus povos.

O novo poder romano não esteve inicialmente muito interessado no domínio do noroeste africano. Um
objectivo muito mais importante para os interesses romanos em África foi o Egipto, com a sua grande
riqueza agrícola e o acesso ao rico comércio da Ásia e do Oceano índico. Na realidade, à medida que o
poder imperial romano aumentou, o Egipto caiu quase insensivelmente sob o seu domínio, sendo por fim
organizado em província romana em 30 a. C. Muito antes, Roma havia-se envolvido num conflito com
Cartago pelo controlo da Sicília, que tinha uma importância estratégica vital para ambos os impérios.
Roma continuava a temer - ou a cobiçar - Cartago mesmo depois de ter deixado a Sicília (201 a. C.) e
desencadeou ainda, em 149, uma guerra a fim de destruir o poder cartaginês na própria metrópole. Este
fim foi alcançado em 146 a. C., quando a velha cidade de Cartago foi totalmente destruída e a terra onde
estivera situada foi votada à agricultura.

Mas não terminou aqui a questão. Para prevenir o ressurgimento do poder cartaginês, os Romanos
continuaram a ocupar as planícies da Tunísia, com as quais constituíram uma província que denominaram
África. Mas isso conduziu-nos a um conflito com os reinos berberes vizinhos, de que resultou a Numídia
ter de ser anexada ao Império para assegurar o seu domínio em África. Os Romanos enfrentaram então
um problema idêntico ao que, mais tarde, iria afectar todos os imperialistas no continente africano,
nomeadamente os Franceses depois da ocupação da Argélia em 1830. As fronteiras do seu domínio
imperial eram alvo de ataques contínuos por parte das tribos vizinhas. Finalmente, os Romanos decidiram
ocupar quase toda a terra arável do Egipto até Marrocos (chamada Mauritânia mais tarde), e fixar uma
fronteira militar contínua, o limes, que procuraram guarnecer com soldados regulares, ao longo da
periferia da estepe sariana.

Esses homens, juntamente com outros imigrantes que procuravam novas oportunidades nas colónias,
fixaram-se na região e desse modo deram origem a uma nova população sedentarizada Romano-Berbere.
Dedicados à exploração agrícola para alimentar a Roma imperial e os seus exércitos, os Romano-
Berberes tornaram o norte de África uma parte integrante do Império Romano, como o comprovam
actualmente as ruínas de numerosas cidades, fórums, teatros, termas e vilas.

O Império Romano consolidou assim uma anterior tendência característica da história no norte de África,
devido às influências egípcia, grega e fenícia. As suas áreas cultivadas e os seus habitantes foram, com
efeito, separados do continente africano e atraídos firmemente para a esfera da civilização mediterrânica,
uma civilização que tinha já assegurado as suas raízes intelectuais na fusão da filosofia grega com o
Judaísmo, da qual resultou o Cristianismo e, em 334 d. C., a conversão do Imperador Constantino.
Alexandria continuou a ser um dos maiores centros desta civilização, e foi aí, mais do que em qualquer
outro lado, que uma seita judaica dissidente se transformou em igreja cristã. O padre fundador dessa
moderna doutrina cristã, Atanásio era um Alexandrino, tal como o seu oponente Ario (c. 256-336) o
propagado r da heresia que tem o seu nome (arianismo) e que nasceu na Líbia. A nova Cartago que os
Romanos construíram era também um importante centro tanto do Judaísmo como do Cristianismo, e foi aí
que surgiu S.to Agostinho (nascido na Numídia em 334, e falecido, como bispo, em Hipona em 430) o
maior de todos os primeiros padres cristãos.

O papel do antigo Judaísmo no norte de África, não é facilmente compreendido, por se lhe terem
sobreposto o Cristianismo e o Islamismo, parecendo no entanto ter sido bastante importante. Além de ter
preparado o caminho para as duas últimas religiões monoteístas semitas, alguns aspectos do Judaísmo
parecem ter sido integrados logo de início na cultura berbere, tanto de pastores como de agricultores
sedentarizados. Recorde-se que durante o século IX a. C., período importante da colonização fenícia,
existiram estreitas relações entre Canaã e os reinos de Israel e Judá. Parece muito provável que, em
África, os colonos a quem chamamos Fenícios possam ter incluído pessoas que seriam Judeus se tivessem
permanecido na Palestina. Em 65 a. C., o reino da Judéia foi sujeito ao domínio do Império Romano, o
que proporcionou contactos posteriores entre o seu povo e as províncias africanas. Quando esse reino foi
destruído em 70 d. C. pelos Romanos, seguiu-se a grande Diáspora juntamente com a necessidade de
uma definição clara da religião própria dos imigrantes. Não é pois surpreendente que no tempo dos
Romanos existissem vestígios de grandes comunidades judaicas no Egipto e noutros pontos do norte de
África, não só nas principais cidades mas também no interior, nos oásis do norte do Sara onde entre
outras coisas parece ter havido banqueiros, financeiros e metalurgistas associados ao comércio através do
deserto. A sua influência sobre as tribos de Berberes na região parece, assim, ter sido enorme.

A história do Cristianismo no norte de África está muito melhor documentada. Esta religião obtivera um
apoio considerável muito tempo antes da conversão de Constantino. A aceitação do Cristianismo como
religião oficial do Império Romano teve como resultado muito provável a sua propagação ainda mais
rápida. Mas criou igualmente uma situação na qual os Egípcios e os Berberes parecem ter sentido a
necessidade de usar o Cristianismo como expressão dos seus particularismos locais.

Os que detinham posições de autoridade ou influências na estrutura governativa romana aceitaram
naturalmente a igreja oficial do Império (a igreja melquita como se chamou no Egipto). Mas grande parte
da população optou por igrejas sectárias, mostrando desse modo que, embora integradas no mundo
romano-cristão, se distinguiam dele enquanto elementos egípcios ou berberes desse mundo. Isto foi muito
evidente no Egipto onde se desenvolveu a igreja copta, que era de facto uma igreja egípcia, devotada à
perspectiva monofisista da natureza de Cristo e que o resto da cristandade declarara herética depois do
Concílio de Calcedónia em 451 d. C. No noroeste africano não havia razões doutrinais para um conflito
com a igreja oficial; mas na Numídia, em especial, constituiu-se algo semelhante a uma igreja nacional
para a população rural, como resultado do conflito acerca da eleição dos bispos que provocou o cisma
donatista (séc. IV).

O impacte directo do Império Romano em África para além do limes foi mínimo. Em virtude da
segurança e da prosperidade garantidas pelo Império às terras no extremo norte das rotas do deserto, pode
perfeitamente ter aumentado o comércio com os povos do Sara e inclusivamente até com os que se
encontravam além dele. Mas, como sempre, essas trocas encontravam-se nas mãos das tribos do deserto,
que não pertenciam ao mundo romano e estavam interessadas tanto em atacá-lo como em comerciar com
ele. Numa tentativa de impedir os assaltos e facilitar o comércio, os Romanos empreenderam operações
militares no Fezzan durante o século I d. C., sendo este, contudo, o limite mais meridional do seu poder, e
a sua força mantida ali apenas durante algumas décadas.

De facto, nas suas tentativas de resolver o problema da manutenção do limes contra tribos turbulentas, os
Romanos deram um passo que posteriormente tornou impossível a continuação do seu império africano.
No tempo de Ptolomeu, o camelo, um animal asiático, foi introduzido no Egipto. Os Romanos em breve
compreenderam o seu valor como animal de carga que podia ajudar a resolver os problemas logísticos
resultantes do abastecimento dos postos de fronteira junto do deserto, e do seu reforço rápido em caso de
necessidade. O camelo, no entanto, revelou-se uma arma de dois gumes. Era muito mais útil para as tribos
do deserto como animal de sela, aumentando consideravelmente a sua mobilidade, permitindo-lhes
concentrar-se rapidamente para um ataque à fronteira e às terras junto dela, e em seguida dispersar
imediatamente para o deserto, não deixando nenhum alvo que os soldados romanos pudessem atacar.

Por volta do século V, o Império Romano estava a desmoronar-se por todo o lado, e o norte de África foi
praticamente invadido e a província de África foi durante um tempo controlada pelos Vândalos, uma tribo
teutónica que tinha atravessado a Europa até à Península Ibérica e passado o Estreito de Gibraltar, vinda
de uma região entre os rios Oder e Vístula. Mas, com o tempo, os Vândalos integraram-se na população
Romano-Berbere e os seus descendentes tornaram- se súbditos do novo Império Romano de Bizâncio. A
maior ameaça ao império em África foram então os cavaleiros Berberes, montados em camelos, que
estavam em todo o lado violando e fazendo recuar o limes, desenvolvendo um novo poder político
próprio que os historiadores árabes depois chamaram de Zenata, uma confederação de tribos do norte do
Sara e das estepes circunvizinhas. O Império bizantino em África ficou limitado ao Egipto e à Cirenaica,
à Tripolitana e às províncias África e Numídia. No resto do território, o avanço de pastores sarianos
provocou a destruição da antiga civilização agrícola mediterrânica.

Mas se o poder político do mundo mediterrânico em África estava a desmoronar-se por todo o lado, uma
das sementes por ele plantada criara raízes em solo africano e tinha-se até propagado ao interior do
continente. Esta era a religião e a cultura cristãs. As igrejas nativas africanas do Egipto e do noroeste
africano estiveram eventualmente para ser eliminadas, devido ao crescimento do Islamismo, a seguir à
conquista árabe da África a norte do Sara no século VII; mas, nessa época, o Cristianismo tinha-se
propagado já a outras regiões. As igrejas rivais melquita e monofisista no Egipto procuravam aumentar a
sua força por meio da conversão de três reinos que se tinham formado ao longo do Alto Nilo, na Núbia,
como sucessores da antiga Meroé. Entre a l.a e a 3.a cataratas estava Nobatia ou Nuba, com a capital em
Faras; para lá da 3.a catarata e até à antiga Meroé situava-se Makuria (Makurra) com a capital em
Dongola Velha; a seguir a esta encontrava-se Alodia (Alua), com capital em Soba, no curso inferior do
Nilo Azul. Durante o século VI, os reis e respectivas cortes nos reinos de Nobatia e Alodia foram
convertidos por missionários monofisistas, enquanto os missionários melquitas parecem ter tido um
sucesso comparável em Makuria. As classes dominantes na Núbia obtiveram talvez assim um reforço
intelectual e cultural devido à sua herança meroítica que os auxiliou a manter a independência dos seus
reinos até ao século XIV, altura em que finalmente sucumbiram, depois de séculos de infiltração
muçulmana através dos comerciantes do Egipto e das tribos nómadas árabes e beduínas do deserto.

O Cristianismo desfrutou um sucesso mais notável e duradouro em zonas mais meridionais e uma vez
mais isto deveu-se a anteriores legados das antigas civilizações. Os habitantes semitas do sudoeste da
Arábia (no Iemen actual e regiões vizinhas) tinham desenvolvido no começo do primeiro milénio a. C.
uma civilização própria, resultante de dois contributos. Em primeiro lugar, a Arábia do sudoeste
controlava as ligações entre o Mar Vermelho e o Oceano índico a ocidente. O seu povo estava, portanto,
bem colocado para se dedicar ao comércio na região, e tirar proveito dele, tanto mais que na sua própria
terra e no nordeste de África muito próximo de si, tinham acesso às principais fontes de dois produtos
muito valiosos, o incenso e as especiarias. Em segundo lugar, a sua região na península da Arábia era a
única a receber chuvas regulares durante alguns meses de Verão, quando a monção de sudoeste atingia as
montanhas do Iemen. Contudo foi possível desenvolver uma civilização agrícola através da construção de
represas e de uma organização política que controlasse a irrigação dos vales, constituindo-se assim alguns
reinos importantes, dos quais Sabá (Sheba) é o mais conhecido e foi durante algum tempo o mais
poderoso.

Pelo menos no início do século VII a. C., os árabes de sudoeste começaram a expandir-se para a vizinha
África. Fizeram-no em parte como negociantes, em busca de fornecimentos de incenso, especiarias e
marfim. Mas, à medida que a sua população começou a crescer mais do que a capacidade agrícola
bastante limitada da metrópole, torna- ram-se também colonizadores. Nos planaltos da Eritreia e da
Etiópia, para lá da árida costa ocidental do Mar Vermelho, encontraram ainda melhores condições para a
agricultura do que na sua terra de origem, e a partir daí puderam penetrar cada vez mais em África, a fim
de explorar as rotas do comércio em busca de produtos como marfim, ouro e cola. O movimento não
incluiu apenas os Sabeus mas também alguns elementos judeo-árabes.

Por volta do século I d. C., os colonos semitas, misturados com os povos cushitas que falavam também
línguas afroasiáticas, garantiram a sua independência política, com a criação do reino de Axum. Aqui
constituiu-se uma língua e escrita próprias, o Ge'ez (donde provém o moderno amárico) que embora fosse
semita, era diferente das outras línguas semitas da Arábia. Por volta do século III d. C., através do seu
porto de Adulis, Axum teve por algum tempo o poder suficiente para alargar o seu domínio no Mar
Vermelho até ao Iemen. Os comerciantes estrangeiros tinham grande actividade em Adulis desde o século
III a. C., fazendo de Adulis o principal porto do Mar Vermelho e do Oceano indico para o comércio dos
Gregos de Alexandria, cuja presença depressa provocou a introdução do Cristianismo no reino. O século
IV viu Axum no auge do seu poder, no tempo do rei Ezana (cerca de 320-350 d. C.), que ficou famoso
não só pela sua expedição a Kush, mas também pelos grandes edifícios e obeliscos que mandou erigir em
Axum, e ainda por ter sido o primeiro rei que aceitou o Cristianismo.

A conversão de Ezana marca um momento alto da influência grega em Axum (há inscrições em grego
desta época, assim como em língua ge'ez) e representou sem dúvida uma acção política tendente a
consolidar os laços comerciais com o Egipto e o mundo bizantino, tão importantes para a prosperidade de
Axum. Envolveu igualmente Axum em posteriores aventuras com o Iemen, onde o Cristianismo esteve
em competição directa com o Judaísmo. No início do século VI, Dhu Nuves, o último rei himiarita que
dominou o Iemen depois do período do domínio de Axum no século III, converteu-se ao Judaísmo e
desencadeou a perseguição aos Cristãos. Este facto conduziu à invasão do Iemen por Axum no tempo do
rei Ella Asheba em 525 d. C., e a um período seguinte de domínio axumita que durou até à chegada dos
Persas sassânidas no fim do século VI.

Porém, se o Cristianismo em Axum foi originalmente uma religião do rei e da classe dominante, adoptado
sobretudo por razões políticas e económicas, em breve se tornou muito mais do que isso. A tradição
refere que, depois do Concílio de Calcedónia, nos finais do século V, chegaram a Axum monges
monofisistas. Parece que foram muito bem sucedidos na pregação entre uma população mista com
antecedentes semíticos, cushíticos, judaicos e cristãos, e a sua acção conduziu ao aparecimento de uma
igreja nacional distinta, com as Escrituras traduzidas em ge'ez. Quando Cosmas Indicopleustes escreveu,
na primeira metade do século VI, considerou Axum um país totalmente cristianizado. A igreja etíope,
tornou-se um elemento vital na vida nacional; possuindo uma tradição monástica muito forte, fora capaz
de manter pelo menos um mínimo de conhecimento, atingira uma apreciável proporção da população e
revelara um desejo de adoptar uma atitude sincrética para com as crenças tradicionais judaicas ou mesmo
pagãs. Ela criou uma ampla base sobre a qual a tradição axumita da monarquia centralizada pôde
sobreviver da época helenística no Mar Vermelho e ao embate provocado ao declínio pelo crescimento do
poder islâmico, controlando o seu comércio e as regiões do litoral. O reino deslocou-se para os planaltos
do interior, absorveu cada vez mais populações africanas e desse modo, embora permanecendo
firmemente cristão do ponto de vista doutrinal, operou-se numa transformação do reino greco-semita de
Axum no reino africano da Etiópia que perdurou até ao século xx.



Os Estados e o Comércio no Sudão

O acesso dos árabes muçulmanos ao poder na África a norte do Sara e o seu domínio do comércio no Mar
Vermelho e no ocidente do Oceano índico a partir do século VII, levou a um aumento considerável das
fontes de informação relativas ao desenvolvimento da África negra. O mundo islâmico, herdeiro tanto da
civilização helenística como da persa, às quais associou o seu próprio contributo original, manteve um
elevado nível de pesquisa intelectual e de conhecimento pelo menos até ao século XIV. Os árabes
estavam bem informados sobre a região de Bilad-al-Sudan, «a terra dos negros», que alcançavam através
das rotas comerciais transarianas e cujo término a norte estava nas suas mãos. Os relatos de geógrafos,
historiadores e viajantes árabes do Sudão ocidental e central começam a ser valiosos no século VIII e a
quantidade e qualidade das suas informações aumenta constantemente até à obra de Ibn Khaldun, o maior
historiador árabe, que escreveu por volta dos finais do século XIV. Nessa época, em que a vida intelectual
dos principais centros do mundo islâmico entrou em declínio, o conhecimento histórico encontrava-se
localizado no próprio Sudão, sabendo-se que sobreviveram crónicas aí escritas por autores africanos pelo
menos no século XVI. Essas fontes de informação escritas podem ser confirmadas pela moderna
arqueologia e ainda pelo estudo das tradições orais daqueles reinos negros que perduraram até aos nossos
dias.

Uma das impressões deixadas pelos autores árabes mais antigos sobre o Sudão ocidental e central,
especialmente uma que está absolutamente confirmada por escritores posteriores, é que esta terra não era
habitada apenas por sociedades tribais. Nela existiam reinos organizados com os quais, embora nada
tivessem a ver com o Islão e parecessem mesmo muito estranhos aos olhos dos muçulmanos, os árabes
eram capazes e estavam interessados em negociar, como faziam com outros estados não muçulmanos. As
mais antigas e as mais notáveis manifestações destes reinos sudaneses conhecidas dos árabes parecem ter
pertencido a duas áreas específicas no limite meridional do Sara. Uma estava situada a norte dos vales do
Alto Níger e Senegal, onde o principal estado se veio a chamar Gana (*) e a outra localizava-se a norte e
nordeste do Lago Chade, onde se estabeleceu o reino de Kanem dos Saifauas. Os dados comprovam que a
formação do governo monárquico no antigo Gana foi provavelmente um pouco anterior à de Kanem.

A primeira referência conhecida sobre o reino do Gana é a do escritor al-Fazari, do século VIII. Nos
finais do IX e início do século X, os escritos de Iacubi e al-Masudi dão a idéia de um poderoso reino
sudanês cujo monarca exercia um certo poder sobre reinos mais pequenos. A principal actividade
económica do reino era a obtenção de ouro dos povos negros do sul, e a troca do mesmo por sal sariano e
produtos africanos do norte, trazidos para sul pelas tribos tuaregues da faixa ocidental do deserto,
nomeadamente os Sanhajas que controlavam as rotas caravaneiras a partir de Audagast, uma cidade
comercial sanhaja a norte do Gana, até Sijilmasa, no oásis de Tafilalete a sul de Marrocos.
[(*) O Gana inicial não pode confundir-se com o seu homónimo actual, que está situado bastante mais a
sul e a leste. Deve notar-se que as actuais tradições dos Soninkes, o povo nativo do antigo Gana, parecem
mencioná-lo como o reino de Uagadugu (e Uagadugu é o nome soninke para a região onde estava situado
o antigo Gana). Contudo, os autores árabes - e de uma forma geral a história - usam o nome de Gana tanto
para a cidade capital como para o reino. No entanto, o primeiro autor melhor informado sobre o assunto,
al-Bakri, faz notar que Gana é com rigor o título do rei. O termo pode assim resultar da palavra malinke
gana ou kana que significa «chefe», embora o nome que al-Bakri utiliza para o rei que então governava
seja Tunka Manin, e tunka realmente significa «chefe» em soninke. Deve ainda referir-se que os tarikhs
de Tungubutu (veja-se mais adiante) aplicam o nome Kaya-Magha para a primeira dinastia do Gana, e
magha significa igualmente chefe ou governante. É com efeito frequente mencionar tanto os estados
como as capitais na África negra através de um termo que indica a presença da realeza. Desse modo mali
em língua malinke (e mandé em soninke) significa «o lugar onde reside o senhor [ma]» - «e, por
extensão, o povo malinke ou mandé é o povo do rei». Pela mesma razão, Iendi, a capital do reino dos
Dagombas significa «onde o rei vive». Para um exemplo relativo à África central, veja-se Cazembe, no
capítulo 5.].

Em 1067-8 a. C., o geógrafo al-Bakri, de Córdova, foi capaz de efectuar um relato bastante completo
sobre o reino, a sua principal cidade e o comércio de Gana. O rei, que não era filho do seu antecessor mas
filho de uma irmã do seu antecessor, era um autocrata que só comunicava indirectamente com os seus
súbditos, e a quem eram atribuídas honras divinas. Assim como constituía o foco de uma hierarquia de
ministros de estado, o rei era também alvo dê um culto pra- ticado por sacerdotes em bosques isolados
próximo da capital. Quando morria, era enterrado juntamente com numerosos servidores sob uma grande
cúpula feita de madeira e argila. Tinha sob seu comando um exército numeroso. Al-Bakri diz que eram
200000 homens, dos quais 40000 arqueiros. Uma vez que a sua referência seguinte menciona cavalos de
pequena estatura em Gana, parece provável que houvesse igualmente cavalaria no exército (*). Foi sem
dúvida este poder militar que permitiu ao rei assegurar a permanência na sua corte de um número de
pequenos reis - talvez vice-reis ou reféns de monarquias tributárias. A cidade capital também geralmente
chamada Gana, era composta por duas zonas distintas. Uma delas era uma cidade exclusivamente
constituída por cabanas redondas de barro e era aí que o rei tinha o seu palácio rodeado por uma cerca. A
outra, à distância de alguns quilómetros, era uma cidade de casas de pedra, habitada por muçulmanos e
com um certo número de mesquitas. A maioria dos muçulmanos parece ter sido composta por imigrantes
que comerciavam vindos do norte de África, mas alguns serviam a corte real e pagã como ministros e
funcionários. As duas cidades juntas formavam um vasto complexo urbano; a totalidade da área
compreendida entre elas estava ocupada por habitações. Esta zona urbanizada era abastecida com
produtos de agricultura intensiva praticada nas imediações com água fornecida por poços. Finalmente, al-
Bakri relata alguns pormenores sobre o comércio de importação e exportação obviamente bem
organizado e praticado com bestas de carga sendo as principais mercadorias o ouro, o sal, o cobre e
produtos artesanais sujeitos a um controlo real e a tributação.




[(*) A primeira referência explícita à cavalaria no Sudão ocidental aparece na descrição de Al-Umari
(cerca de 1338) - o rei do Mali teria então 10000 cavaleiros.].




Um ponto de interesse na extensa narrativa de al-Bakri, e em geral nas fontes árabes sobre o antigo Gana,
é de que pouco nela se diz sobre os processos usados então na mineração e extracção do ouro, o que
parece estranho dado que a prosperidade do reino e do comércio transariano dependiam evidentemente
dele. Sabiam, sem dúvida, realmente muito pouco, tal como as palavras de al-Bakri dão a entender: «O
melhor ouro que se encontra nesta terra vem da cidade Ghiyaro, que está a 18 dias de viagem da cidade
do rei, num país habitado por tribos de negros, sendo as suas habitações contíguas...Ghiyaro está a 20
quilómetros (do Níger) e tem muitos muçulmanos». AI-Masudi, um século antes, afirmara que os
mercadores de Gana obtinham o seu ouro por meio da troca muda, e al-Idrisi um século mais tarde disse
que o ouro vinha «da terra de Uangara», que «confinava» com o reino do Gana.

Durante muito tempo, supôs-se que «Ghiyaro» e «Uangara» fossem locais onde se produzia ouro, e hoje
as jazidas auríferas mais próximas, que poderiam ser consideradas «contíguas» ou «adjacentes» ao antigo
Gana, seriam os depósitos aluviais de Bambuk, a meio do Senegal e do seu afluente Faleme e do Boure,
nas imediações do Alto Níger e seus afluentes. Mas as referências seriam igualmente a locais onde
prosperava um comércio do ouro. A descrição de Idrisi de uma «terra de Uangara» como um território
enorme sujeito anualmente a inundações dos rios circundantes é, na verdade, menos adequada ao
Bambuque e ao Buré do que ao delta interno do Níger entre Djenne e Tungubutu. Não se trata de uma
zona de produção de ouro, mas de uma região agrícola e pastoral, e os vestígios arqueológicos permitem
agora comprovar que Djenne, no afluente sul do Níger, o rio Bani, era já uma cidade comercial
importante e próspera por alturas de meados do primeiro milénio. A descrição de Idrisi levanta algumas
dificuldades que podem ser resumidas se na verdade se partir do princípio de que «Uangara» não era
tanto uma área de terra mas um grupo de pessoas específicas que a habitava, e mais concretamente, um
grupo de comerciantes. No séc. XIV, é possível verificar, pelas provas apresentadas por Ibn Battuta (que,
ao invés de Idrisi, chegou a visitar o Sudão ocidental), juntamente com as da tradição haúça, que termos
como «Uanjara», «Uanjarata» e «Uangaraua» se referem a um grupo especializado de comerciantes
longínquos, originariamente Soninkes - tal como o .povo do Gana - que eram muçulmanos. A referência
de al-Bakri aos muçulmanos em Ghiyaro sugere que estes Uangaras podem perfeitamente ter sido já
islamizados no séc. XI. Além disso, uma vez que sabemos que grande parte do poder comercial de
Djenne assentava na ligação que os seus mercadores estabeleciam entre o comércio das terras a sul da
Guiné e o comércio no Sara de e para Tungubutu (ver mais à frente), é possível que pelo menos uma parte
do ouro pelo qual o Gana era famoso pudesse ter sido trazida das terras a sul de Djenne, da região do
Lobi, se não mesmo da ainda mais remota Achanti. Embora o Islamismo dos mercadores que se
dedicavam a esta actividade lhes tenha chegado por via do comércio transariano estes possuíam uma forte
razão comercial para manterem os comerciantes sarianos - e o mundo árabe em geral - afastados do
contacto directo com os mineiros que extraíam o ouro; talvez provenha daí a história da troca muda com
os negros primitivos.

O aparecimento de um reino comparável a Gana mais para leste, nó Kanem, parece ter chegado ao
conhecimento dos árabes algum tempo depois e também de uma forma menos precisa. No fim do século
IX, Iacubi escreveu sobre «um reino dos Zaghawas que se situa na região chamada Kanem», e
acrescentou que as «suas habitações eram cabanas cobertas de colmo. Não costumam viver em cidades».
Os Zaghawas eram pastores nilo-sarianos do Sara ocidental, de modo que a conclusão parece ser de que
os reis do Kanem eram originaria- mente nómadas que não tinham um reino fixo. Isto é de facto
confirmado pelas tais antigas tradições do reino. Um século mais tarde, no entanto, al-Muhallabi refere
duas cidades no Kanem, mas o que mais o impressionou, porque ofendia os princípios islâmicos, foi a
natureza dessa monarquia. O povo «louvava e adorava o rei em vez de Alá. Imagina que ele não come
quaisquer alimentos... A sua religião é o culto dos seus reis, uma vez que acredita que são eles que trazem
a vida e a morte, a doença e a saúde».

A concepção dos árabes sobre a história antiga do reino de Kanem é forçosamente obscura, enquanto que
as origens do antigo Gana, com o inicial desenvolvimento da sua organização política e da vida
económica, ficaram para lá do seu horizonte histórico. Os primeiros historiadores que consideraram as
questões de como e quando estes reinos organizados se constituíram no Sudão (por exemplo Flora Shaw,
Maurice Delafosse, Herbert Palmer ou Yves Urvoy) adoptaram a explicação de que tais reinos eram
constituídos por povos negros agricultores infiltrados e conquistados por pastores do deserto, que eram
Hamitas (ou mesmo Semitas; Delafosse, por exemplo, sugeriu que o reino de Gana fora estabelecido por
«sírio-judeus»).
É fácil compreender por que razão esses historiadores adoptaram tal ponto de vista. Em primeiro lugar,
eles próprios representavam uma raça estrangeira que tinha imposto com grande facilidade o seu domínio
aos negros em toda a África. Pensavam que a raça branca era culturalmente muito superior à negra que,
segundo eles, se encontrava num estádio de desenvolvimento muito mais primitivo. Viram-se a si
próprios como sucessores dos invasores e conquistadores muçulmanos, do norte de África até ao Próximo
Oriente, que também não eram negros mas caucasóides aparentados com eles. Eles e os seus colegas
europeus construíram por isso uma imagem da história africana na qual o papel dos negros era
essencialmente passivo e tudo o que era dinâmico e construtivo atribuído a invasores estrangeiros como
eles próprios. Escreveu o antropólogo C. G. Seligman em 1930: «Além da influência relativamente tardia
dos Semitas - bastante limitada no caso dos Fenícios (Cartagineses) e bastante difundida no caso dos
árabes (de Maomé) - as civilizações de África são as dos Hamitas, a sua história é a destes povos e da sua
interacção com dois outros grupos africanos, os negros e os bosquímanos, quer essa influência tenha sido
exercida pelos Egípcios altamente civilizados quer pelos mais variados povos pastores.. .».

Foram já indicadas algumas das falhas nesta «hipótese hamítica». Não existe, por exemplo, qualquer
vestígio hamítico nas línguas bantos que Seligman supunha serem a dos «negros hamitizados», e é
provável que os agricultores bantos tenham deslocado e absorvido na realidade alguns povos de língua
hamítica. Ora, a língua dos agricultores negros haúças é «hamítica» - pode acrescentar-se que no início do
século XIX estes Haúças foram conquistados pelos Fulas, na realidade pastores que falavam uma língua
sudanesa. Há ainda uma questão de ordem geral: os protagonistas da hipótese hamítica confundiam
freqüente e perigosamente raça, cultura e língua.

No entanto, para além do facto de estes escritores fazerem parte de uma sociedade que estava convencida
de que os povos brancos possuíam uma superioridade inerente sobre os povos de pele mais escura, «raça
inferior sem instituições», havia aparentemente provas para sustentar o seu ponto de vista sobre a história
africana. Agora, podiam ver as tribos nómadas do deserto a moverem-se para as terras aráveis da África
ocidental. Os Tuaregues tinham obtido o controlo sobre as cidades da faixa do Níger, como Gao e
Tungubutu, nos finais do século XVIII, e outros viviam a sul dessa região. As tribos árabes tinham
avançado para sul e oeste, a partir da Núbia, em direcção a Kanem e Bornu, do século XIV em diante.
Além disso, as mais antigas tradições de alguns dos estados mais importantes na história do Sudão
ocidental e central afirmavam, com efeito, que os seus reinos tinham sido fundados por imigrantes vindos
do norte que não eram negros.

Dois importantes tarikhs (crónicas) elaborados por autores sudaneses em Tungubutu, nos séculos XVI e
XVII, afirmavam que o reino do Gana fora fundado, muito antes da Hégira muçulmana (622 d. C.), por
uma dinastia chamada Kaya-Magha, que não era negra. Não se sabia ao certo qual a sua origem, mas um
autor pensou que fosse provavelmente de origem sanhaja. Isto parece ter confirmação numa passagem da
informação fornecida por al-Bakri. Ele afirmava que o sistema de sucessão ao trono no Gana era
matrilinear, e a matrilinearidade é característica dos Tuaregues-Berberes, a que pertenciam os Sanhajas
antes de se islamizarem. Por outro lado, o estilo de vida da corte real e dos seus súbditos pagãos parece
ser totalmente de origem negra, e dizem os tarikhs que o povo do reino era Soninké (isto é, Mandeus do
norte, enquanto os do sul são os Malinkés) e ainda que a dinastia Kaya-Magha original fora talvez
substituída por reis negros.

A dinastia saifaua, que governou Kanem e o reino que lhe sucedeu em Bornu sucessivamente dos sécs. X
ao XIX, afirmava descender de um antepassado epónimo, Saif ibn Dhu Yazan, que vivera no Iemen no
século VI, na época de Dhu Nuvas e da conquista axumita de Ella Asbeha. É evidentemente uma questão
em aberto saber como e quando pôde essa dinastia ter chegado ao longínquo Kanem. Mas é interessante
que as tradições dos primeiros reis afirmem que eles apenas escolhiam as suas mulheres entre a nobreza
dos Tebus (ou Tedas), pastores sarianos do centro-leste aparentados com os Zaghawas. Este facto traz
uma confirmação à questão das origens do reino vista por Iacubi e al-Muhallabi nos séculos IX e X, e
sugere que a fundação do reino pode estar associada de algum modo a povos nómadas como os Zaghawas
e os Tebus, na qualidade de intermediários, e com acontecimentos junto do Mar Vermelho em que
estavam envolvidos o Iemen, Axum e a Núbia. O primeiro rei saifaua considerado como sendo
exclusivamente de origem local, parece ter reinado ainda antes do início do século XIII.

Estas opiniões locais referentes às origens dos reis de Gana e Kanem podem ser comprovadas de outro
modo. Por exemplo, o reino songai a sul do Níger também reclamava uma origem iemenita para a sua
primeira dinastia. Entre o Kanem e o Songai, as lendas dos pequenos estados haúças iniciam-se com a
referência a um Canaanita que tentou sem sucesso tornar-se «rei de Tripoli» e com um Baiajida «filho do
rei de Bagdade». Este último pode corresponder a Abu Yazid, personagem histórica, chefe carijita que foi
morto enquanto chefiava uma revolta abortada contra o domínio fatimida na Tunísia em 947 d. C. e cujos
seguidores se dispersaram pelo Sara em conseqüência desse facto.

Talvez ainda mais notável seja a lenda Kisra que chegou até aos nossos dias como um substrato da
memória histórica dos povos das margens do vale do Benué e do Níger até aos limites do território
songai. O tema principal desta lenda que tem aliás muitas variantes, é o seguinte: Kisra era rei dos Parsos
ou Baghdadshi (quer dizer, Persas) que antes da conquista de Meca por Maomé (630d. C.) empreendera
uma campanha contra os Rumis (quer dizer, Bizantinos) no Egipto. Ocupou o Egipto até Nupata, onde
pediu autorização para se fixar. O rei de Nupata (por vezes chamado Mesi, isto é, Messias) consultou o
espírito da família, Issa Oesus, que o aconselhou a pedir a Kisra que conquistasse terras a oeste e que o rei
de Nupata devia segui-lo. Kisra partiu e atingiu provavelmente os vales do Benué e do Níger, enquanto o
rei de Nupata chegou a Gobir (zona norte dos Haúças) onde fundou um reino de onde derivam todos os
outros estados haúças. Kisra morreu em Bussa (noroeste da Nigéria) mas ele ou os seus companheiros
foram responsáveis pela fundação dos reinos de Borgu (a noroeste da Nigéria adjacente ao Daomé), de
Nupe (a norte da Nigéria na confluência do rio Benué), de Kuararafa ou Jukun (no Benué) e mais para
sul, de Igala e de loruba.

O início deste relato é reconhecidamente histórico. Kisra é Cósroas (Khosru) II, o rei sassânida da Pérsia
de 590 a 628. Os Sassânidas estavam então a avançar para oeste contra o mundo cristão e em 616, pouco
depois da expulsão dos Axumitas do lemen, o seu exército ocupou o Egipto, conservando-o em seu poder
até serem expulsos por Heraclio dez anos depois. Ignora-se se Cósroe se deslocou ao Egipto, pois foi
assassinado no seu próprio palácio em Ctesifonte em 628. Não é contudo impossível que depois da sua
expulsão do Egipto, alguns Persas tenham procurado refúgio no Nilo e finalmente tenham sido absorvidos
pelos reinos cristãos na Núbia (em cuja arte é visível a influência persa). De um modo geral, o final do
século VI e o início do século VII foi um período de grandes convulsões nas regiões circundantes do Mar
Vermelho. Houve primeiro um período de predomínio persa e de recuo axumita na Arábia, depois entre
622 e 630 verificou-se o advento do Islão e o estabelecimento do seu domínio no Egipto e no litoral
africano do Mar Vermelho. Os cristãos da Arábia e dos reinos da Núbia e Axum não foram afectados por
estas importantes transformações. Embora seja muito improvável que um número significativo de Núbios,
Iemenitas ou Persas actuais se tenham dirigido alguma vez a Kanem ou mais longe ainda, não e de modo
algum absurdo supor que se verificassem reacções em cadeia que tenham feito chegar até aos vales dos
rios Níger e Benué, o eco dos grandes acontecimentos do nordeste africano e do Mar Vermelho, através
da África, passando por povos sarianos nómadas como os Zaghawas e os Tebus.

A explicação mais plausível para as lendas de grandes heróis, como Kisra, ou membros da linhagem Saif
ou Baiajida chegados ao Sudão vindos de leste ou norte, é serem elas um instrumento usado pelos reinos
sudaneses com fim de relacionar as suas origens - do ponto de vista cronológico, geográfico e temático -
com o que podem ter percebido ser a linha principal do desenvolvimento histórico no Próximo Oriente e
nordeste africano. Havia decerto necessidade de um tal instrumento depois da chegada do Islamismo ao
Sudão e da sua aceitação por muitas dinastias reinantes (podem contudo ter necessitado ao mesmo tempo
de conservar os costumes tradicionais e os deveres para com os antepassados). O facto de algumas lendas
como a de Kisra terem sido conservadas essencialmente por sociedades pagãs, pode ser uma objecção
àquela explicação. No Borgu actual, por exemplo, embora seja muito conhecida a narrativa de Kisra, ela
existe na cultura popular, o que não é aprovado pela sociedade muçulmana. Trabalhos recentes têm
contudo sugerido que esta objecção é mais aparente do que real (A argumentação que se segue é devida
pelo autor ao seu colega Paulo Farias). O conhecimento da história e da lenda árabes não foi
necessariamente introduzido e propagado unicamente por uma nova classe de intelectuais, historiadores e
letrados muçulmanos. Ainda hoje, por exemplo, o Alcorão é conhecido tanto de cor e através da recitação
como através da leitura (inicialmente sê-lo-ia ainda mais), e a sociedade árabe e berbere tradicional
apreciava decerto a arte dos bardos e contadores de histórias. Assim, propagar-se-iam mais rapidamente e
a maior distância o conhecimento do prestigiado mundo que produzira o Islamismo e o desejo de
estabelecer relações com ele - por exemplo ao longo das rotas comerciais freqüentadas pelos mercadores
sudaneses islamizados - do que a conversão efectiva à nova religião. Desse modo, os griots (bardos) e os
guardiões da tradição em reinos ainda pagãos, podiam facilmente incorporar folclore do nordeste nas suas
narrativas tradicionais e adaptá-las aos objectivos dos seus protectores e senhores. Deve notar-se
igualmente que personagens como Saif e Kisra e Baiajida não são exactamente heróis muçulmanos; pelo
contrário, os dois primeiros são anti-heróis da lenda e da tradição islâmicas, enquanto Abu Yazid era um
rebelde malogrado contra uma das dinastias mais importantes do Islão africano.

Subsiste no entanto ainda uma questão fundamental: não há dúvida que as terras dos povos negros
agricultores do Sudão, imediatamente a sul do Sara, foram durante séculos sujeitas a assaltos, infiltrações,
conquistas e fixação de povos nómadas vindos do deserto. Estes povos devem ter tido igualmente algum
tipo de contacto com os povos do norte e do nordeste de África.

Não é difícil construir um modelo do processo de interação entre os povos pastores e agricultores na zona
fronteiriça entre o Sara e o Sudão. Grupos de cavaleiros nómadas seriam empurrados para sul e expulsos
do deserto pelos freqüentes conflitos entre tribos, pelo crescimento da população e do gado, por uma
estação invulgarmente seca ou pelo simples desejo de comércio ou de aventura. Deviam apascentar o seu
gado nas zonas de vegetação compreendidas entre as aldeias de agricultores, e trocar alguma carne, peles
e lacticínios por produtos agrícolas e artes anais das aldeias. Inicialmente, não deviam ter uma base fixa
nem uma relação política formal com os chefes de aldeia. Devem no entanto ter lançado olhares
cobiçosos à riqueza e à estabilidade relativa das sociedades agrícolas e a mobilidade resultante da posse
de cavalos e camelos permitiu-lhes a pilhagem com uma ousadia crescente. Os seus próprios conflitos e
alianças confundiram-se assim com a política dos habitantes das aldeias. Os seus chefes fizeram alianças
por meio de casamentos com algumas famílias dirigentes das aldeias, e assim obtiveram direitos sobre a
chefia das aldeias e dos respectivos campos. Finalmente os intrusos, com a sua cavalaria e um forte
sentido de disciplina de grupo necessária à sobrevivência no deserto, obtiveram o controlo do território e
instalaram-se como nobreza dominante cobrando tributo aos camponeses e enviando uma parte deles à
capital onde habitava o rei. Com o correr do tempo, porém, o rei e os nobres, através'de casamentos,
tornaram-se muito semelhantes à população quer do ponto de vista racial quer lingüístico.

Não se trata de um quadro fantasista. É, por exemplo, comparável ao que Ibn Khaldun percebeu ter-se
repetido freqüentemente a norte do Sara, e que iria desempenhar um papel essencial na sua filosofia da
história. Do mesmo modo e ainda mais a propósito, pode ser reconstituído facilmente através das
tradições actuais sudanesas, em especial as de Kanem, mas também de reinos mais pequenos como, por
exemplo, os de Mossi e Dagomba mais a oeste e a sul. Foi elaborado por um dos primeiros historiadores
europeus da África ocidental, Yves Urvoy, um modelo semelhante para a região de Air, habitada em
tempos antigos pelos Haúças e que hoje em dia é território predominantemente tuaregue.

Parece, no entanto, que Urvoy e os seus contemporâneos com idênticos pontos de partida cometeram um
grave erro de interpretação àcerca da natureza e significado da interacção entre «Hamitas» e negros da
zona meridional do Sara. Uma vez que os participantes mais activos eram os do norte, eles concluíram
que a sua cultura e as tradições políticas haviam triunfado, donde resultou que os reinos não eram
sudaneses mas «hamíticos». Mas, em quase todos os domínios da vida social, eram os negros os mais
avançados. Enquanto os recém- -chegados eram pastores nómadas, os negros eram agricultores
sedentários que habitavam em aldeias e cidades.

É agora evidente que existiam, já na segunda metade do primeiro milénio, cidades importantes no Sudão
ocidental. As ruínas de Kumbi no sul da Mauritânia, que correspondem à posição do antigo Gana e a
descrição que al-Bakri faz dele, datam pelo menos do séc. IX e, no máximo, de cerca dos sécs. XII a XV,
ocupando a cidade à volta de 200 acres. O outeiro que representa a localização inicial de Djenne
demonstrou a existência de uma cidade com perto de 80 acres, próspera desde meados do séc. VIII até
cerca de 1100. Conhecem-se outras escavações de núcleos mais abaixo no Níger e no centro do Sudão;
poucas foram escavadas, mas a de Daima, já mencionada, com 90 metros de altura no centro e
estendendo-se por algo como 30 acres, constitui o resíduo da constante ocupação humana, talvez apenas
de uma grande aldeia, com mais de dezoito séculos, desde mais ou menos o séc. VI a. C. Conhecem-se no
norte e no leste do Lago Chade ruínas de construções de tijolo. As provas de uma urbanização primitiva
estendem-se também para sul, até à Guiné; por exemplo, em Ife, tradicionalmente o primeiro centro do
núcleo ioruba, a descoberta de passeios feitos de cerâmica demonstra que esta característica
manifestamente urbana data pelo menos do séc. XI d. C. A existência de vestígios numa região tão
meridional sugere mais uma vez que os negros do Sudão ocidental e central possuiriam provavelmente
cidades nas épocas tradicionalmente indicadas para a chegada de heróis lendários como Baiajida ou os
Saifauas. Estas cidades seriam presumivelmente o mercado, centros rituais e políticos de sociedades
agrícolas avançadas, e o seu crescimento e expansão geográfica devem ter sido fomentados pelo
aparecimento, por alturas de meados do primeiro milénio, de um comércio regular de caravanas de
camelos através do Sara.

Vale a pena considerar aqui um segundo modelo - mais complementar do que alternativo do primeiro -, o
da interacção entre povos pastores e agricultores do Sabel, na fronteira entre o Sara e o Sudão Os assaltos
feitos pelos pastores do deserto encorajavam os agricultores oeste-africanos a agruparem-se em
comunidades cada vez maiores e melhor defendidas. Eram preferíveis as aldeias aos agrupamentos
familiares dispersos, e finalmente algumas dessas aldeias tornavam-se cidades fortificadas Estas
mudanças na distribuição espacial da população, originaria sem dúvida as correspondentes
transformações socio-políticas Era freqüente os chefes de famílias mais antigas e mais poderosas
adquirirem autoridade, decerto com fins militares específicos, e portanto também em certas esferas
políticas, sobre os chefes de outras unidades familiares. Esta hipótese é ainda mais provável do que a
primeira. Pelo menos nos seus aspectos espaciais ela é sustentada por importantes provas arqueológicas
na encosta de Tichit-Ualata Aí os trabalhos de Patrick Munson forneceram aquilo que se afiguram os
primeiros indícios certos do cultivo de cereais sudaneses na região. Os respectivos agricultores
começaram a viver nas margens dos lagos então existentes nessa região, mas por volta do ano 1000 a C.
concentravam as suas habitações em aldeias de tamanho considerável e fortificadas no cimo de colinas.
Uma vez que estas não eram na realidade o melhor local para o cultivo dos cereais, a conclusão óbvia é a
de que os agricultores procuravam proteger-se dos ataques dos pastores Por volta de 400 a C, as aldeias
foram abandonadas, talvez pelo facto de a região se ter tornado imprópria para a agricultura devido à
acção combinada da pastorícia e da seca. É ainda significativo que esta encosta de Tichit-Ualata esteja
situada mesmo a norte do local presumível da capital do antigo Gana, a mais antiga organização político-
militar criadas por negros da África ocidental

A riqueza, as oportunidades e os prazeres que cidades como Kumbi-Saleh podiam oferecer tornaram-se
naturalmente poderosos atractivos, que levaram os povos pastores a deixar o deserto para se fixarem no
Sudão, e quanto mais se sedentarizavam mais absorvidos e aculturados foram pela sociedade agrícola e
urbana do Sudão. Mas este facto deixa ainda por esclarecer a questão de o governo monárquico
organizado ser uma inovação dos recém-chegados ou de existir já a sua chegada, bastando-lhes proceder à
apropriação. O Princípio genérico defendido nesta obra é que o governo detido por reis divinos ou
sagrados deve ter evoluído no Egipto entre povos agricultores. No Sudão parece, por isso, preferível
considerá-lo como um desenvolvimento local e não como uma introdução de pastores vindos do Sara.
No entanto, os pastores, ao chegarem, tiveram um papel político importante e, assim como se crê
vulgarmente que a história da moderna Inglaterra começou com a conquista normanda em 1066, também
as tradições sudanesas têm razão ao defender que a história de África ocidental pré-colonial tomou um
novo rumo a partir das incursões e das conquistas desse período. Como já se afirmou, os recém-chegados
devem ter trazido consigo alguns elementos característicos do ritual monárquico que tinham assimilado
embora indirectamente nos seus contactos com o norte e o nordeste de África. Mas concretamente, a sua
chegada deve ter implicado um importante desenvolvimento ao nível da organização política e ainda
provavelmente uma institucionalização mais precisa do seu modo de funcionamento. Estes efeitos
resultariam de diversos factores. A posse de cavalos e a possibilidade de aquisição regular destes animais
numa terra onde eles só eram alimentados com grandes dificuldades, permitiu-Ihes exercer um domínio
sobre áreas muito maiores do que os anteriores governantes. Além disso, o facto de os recém-chegados
não terem laços definidos com as terras cultivadas nem com os cultos religiosos associados a elas,
permitiu-lhes uma margem maior de manobra política do que aos seus antecessores. Eles necessitavam de
legitimar o seu poder por meio de casamentos com as famí1ias reinantes sudanitas, mas podiam escolher
as famílias que quisessem e nas condições que desejassem a fim de que uma parte dos seus descendentes
se tomassem senhores com poder crescente e outros simples vassalos tributários.

Os processos políticos referidos pela tradição relativa à fundação dos estados do Sudão ocidental e
central, que sobreviveram até à sua incorporação na historiografia moderna, devem representar a
conversão de pequenas unidades políticas, cidades-estado ou mesmo aldeias-estado, em reinos maiores
que requeriam uma maior organização administrativa, definida de modo mais claro. O desenvolvimento
de monarquias organizadas que ocorreu por volta do século X constituiu portanto um processo em duas
fases, que mergulha as raízes da realeza na Revolução Neolítica dos negros sudaneses, e cujo último
florescimento terá sido o resultado de séculos de interacção entre estes negros e os seus vizinhos pastores
do Sara que estimularam o seu desenvolvimento e crescimento. As tradições históricas mais consistentes
são naturalmente as que provêm das últimas linhagens reais mais poderosas. Nas primeiras lendas do
Kanem, do Songai, dos reinos dos Haúças, dos Mossis e dos Dagombas, por exemplo, parece possível
distinguir, embora tenuemente, os estádios mais antigos de desenvolvimento associados aos primeiros
invasores, ou ainda às estruturas originais da sociedade neolítica mais recente.

Neste contexto, é talvez significativo que os primeiros reinos importantes conhecidos pelos árabes no
norte de África estejam justamente a norte de áreas que foram muitíssimo favoráveis à agricultura nos
primeiros tempos e à evolução da Idade do Ferro. O Gana ficava exactamente a norte dos vales do Alto
Níger e do Senegal, e Kanem mesmo a norte da bacia do Lago Chade. O facto destes reinos não estarem
de facto situados nestas áreas propícias mas sim fronteiriços ao deserto, a norte, sugere que os contactos
sarianos e o comércio devem ter desempenhado um papel importante ao favorecerem a formação das
monarquias mais antigas. Por outro lado, podia realmente tratar-se de uma ilusão óptica. Foi exactamente
nestas áreas atingidas pelas rotas comerciais no norte de África que o mundo exterior pôde pela primeira
vez saber da existência de importantes reinos na África ocidental. Do mesmo modo, os interesses
económicos destes reinos não permitiram aos estrangeiros vindos do norte obter! informações sobre
reinos semelhantes mais a sul. Al-Bakri por exemplo, menciona a existência de dois reinos a sul do antigo
Gana, mas nada sabemos ao certo sobre eles além dos nomes que lhes atribuiu, Malal e Dau.

Contudo, as tradições locais são praticamente unânimes em apresentar um quadro de notável evolução
política ocorrida na África ocidental, que se processou de norte para sul, a partir dos limites do deserto até
ao Sudão, e daqui até à Guiné. Foram já apresentadas as razões políticas da aceitação desse quadro como
historicamente correcto e as razões económicas conduzem a idêntica conclusão.

Desde a formação do deserto, ou mesmo desde uma época ainda mais recuada, que a fronteira entre o
Sara e o Sudão foi sempre muito importante. Não só porque foi aqui que os negros estiveram em contacto
com outros povos e culturas, mas também porque constituíam uma divisória ecológica importante entre a
terra arável e a terra apenas apropriada à pastorícia, e ainda entre os próprios africanos e as terras
temperadas que rodeiam o Mediterrâneo, sendo os povos sarianos nómadas o seu elo de ligação.

Por esse motivo deve ter sido sempre uma importante fronteira comercial e não foi por acaso que as
antigas rotas de carros conduziam directamente através do deserto até às terras mais promissoras do
desenvolvimento agrícola dos negros e, no caso do Gana, também às terras auríferas. De modo evidente
no caso do Gana, e talvez de forma menos clara no caso do Kanem, parece que o factor económico foi de
grande importância para o desenvolvimento de reinos extensos, no sentido de monopolizar as exportações
sudanesas destinadas aos povos sarianos e africanos do norte e de controlar a distribuição no Sudão dos
produtos recebidos em troca.

Uma parte importante das primeiras informações árabes relativas ao antigo Gana é de carácter económico
- como se pode ver pelo relato de al-Bakri. Para al-Fazari, a primeira fonte árabe, o Gana era
essencialmente «a terra do ouro», enquanto abundam episódios que realçam a sua riqueza em relatos
posteriores. Um dos mais conhecidos é a história contada por Ibn-Haukal, um mercador que escreveu no
século x. Ele afirmou que quando se encontrava em Sijilmasa, um centro de caravanas a sul de Marrocos,
viu um «cheque» (isto é, uma ordem de pagamento) de um mercador de Audagast no valor de 40000
dinares (equivalente a 20000 libras de ouro, ou 100000 dólares de prata e muitas vezes este valor em
moeda actual). Se o comércio transariano era de facto praticado nesta escala e com este grau de
sofisticação já no início do século x, e não só em ouro, mas também em sal (diz-se que por vezes foi
trocado por ouro de igual peso), cobre e diversas mercadorias, pode ver-se facilmente que devem ter sido
importantes as razões económicas para a extensão do império a sul do Sara, pelo menos no antigo Gana.
Os dados económicos relativos ao Kanem que se encontram nos antigos autores árabes são escassos; mas
isso deve-se sem dúvida ao facto de Kanem não ter acesso às fontes de ouro do mesmo modo que o Gana,
e não ter atraído tanta atenção. Estava no entanto situado a sul do Fezzan, a terra dos antigos Garamantes.
Quando o seu reino ficou mais forte, procurou sempre expandir-se para o Fezzan, e o seu poder foi por
vezes efectivo até Bilma, uma importante fonte de sal para o Sudão. Em tempos mais recentes, a estrada
de Tripoli e Tunísia via Fezzan e Bilma até ao Lago Chade e ao país dos Haúças era uma das mais
importantes rotas caravaneiras. Parecia portanto provável que os factores comerciais tivessem
desempenhado pelo menos algum papel no aparecimento de um reino organizado no Kanem. Foi sugerido
que eles se relacionariam com o desenvolvimento do comércio de escravos negros para o norte de África.

No antigo Gana e nos estados que lhe sucederam, o antigo Mali e o Império Songai de Gao, parecem
muito mais evidentes os factores económicos que intervieram na formação do Império. Os grupos
dominantes procuraram estender o seu poder através das vias comerciais especialmente na direcção norte-
sul, de modo a que todos os produtos valiosos do Sudão lhes viessem parar às mãos. As capitais de outras
cidades comerciais obtiveram assim o controlo dos produtos procurados pelos comerciantes do Sara e do
norte de África e os seus agentes asseguravam igualmente o controlo da distribuição dos produtos vindos
dessas regiões do Sudão. Variavam os meios pelos quais asseguravam a produção sariana. Como se viu,
os relatos árabes mais antigos revelam que o ouro era obtido na fronteira sul do Gana por meio da troca
com povos menos avançados que adquiriam com efeito o ouro escavando a terra de aluvião. Por último,
em especial no Mali e no Songai, constituiu-se uma classe especializada de mercadores sudaneses, em
estreita aliança com os governantes, cujo tráfico (assim como o dos mercadores do norte) estava sujeito a
impostos alfandegários regulares e outras taxas. No caso do ouro, o comércio estava certamente sujeito ao
controlo real a ponto de parecer um verdadeiro monopólio estatal, sendo os comerciantes na realidade ou
servidores do rei ou indivíduos autorizados por ele. Parece igualmente que uma certa parte do produto
sudanês obtido na capital e noutros centros urbanos chegava sob a forma de tributos de povos vassalos.
Sem dúvida que o objectivo do sistema comercial era concentrar a riqueza nas mãos do rei e da classe
dominante. Uma parte desta riqueza podia ser utilizada na compra de cavalos e armas a fim de criar um
exército que era muito mais poderoso do que quaisquer outras possíveis concentrações de força. Com esse
exército, era possível estender a maiores distâncias, tanto o controlo real sobre o tributo como o comércio
e desse modo aumentar a riqueza do reino e dos seus partidários. Quanto mais rica e poderosa fosse a
monarquia, mais clientes conseguiam atrair ao seu serviço e menos estariam eles dispostos a apoiar
senhores rivais. Do mesmo modo se tornou possível recrutar cada vez mais escravos para o serviço do
palácio, do governo e do exército, e criar novas unidades de produção nos campos e no artesanato, que
podiam complementar, se não substituir, a produção das unidades familiares tradicionais.

Mas a circulação de caravanas através do Sara, que ajudara a estimular o aparecimento de unidades
económicas e políticas maiores no sudão, estivera sempre nas mãos das tribos sarianas descendentes dos
antigos Gamarantes e Parusii, e especificamente dos Sanhajas e Tuaregues. O advento do camelo veio
possibilitar um aumento substancial do volume e da regularidade do comércio transariano. Este foi
objecto de desenvolvimento por parte dos mercadores, agora árabes e judeus também, que financiavam as
caravanas que partiam de oásis a norte, como Tafilalete e Uargla. Mas as fortunas destes mercadores e os
cameleiros do deserto foram forçosamente afectadas pelas mudanças no equilíbrio político no norte de
África a seguir à sua conquista pelos árabes. Assim, por volta do século XI, o controlo de Tafilalete pelos
Sanhajas, onde estava situada Sijilmasa a sua base caravaneira a norte, foi ameaçado pelo aumento do
poder dos Zenatas que se expandiam a partir do leste.

A ascensão de reinos organizados no Sudão colocou igualmente problemas às tribos sarianas. À medida
que o poder dos reis do Gana aumentou, lançavam olhares cobiçosos ao comércio trazido até eles pelos
Sanhajas de rosto velado e procuraram estender o seu controlo para norte à custa daqueles. Visto que os
Sanhajas estavam divididos n certo número de facções tribais rivais, os Lamtumas, Godalas e Masufas,
foram perdendo gradualmente terreno. Por volta dos finais do século X, o seu principal centro comercial
no sul, Audagast, tornara-se tributário do Gana. Contudo, os Sanhaja tinham já experimentado na certa
influência islâmica e no início do século seguinte um dos seus chefes tribais apercebeu-se de que o
Islamismo podia constituir um princípio unificador que os auxiliasse a estabelecer o equilíbrio. Um
religioso muçulmano do sul de Marrocos, Abd Allah ibn Yasin foi persuadido a vir pregar entre os
Sanhajas. Depois dos primeiros esforços vicissitudes, a sua interpretação rígida e puritana do Islamismo
ganhou ascendente sobre as tribos sanhajas e tornou-se uma liga guerreira conhecida na história sob a
designação de almorávidas (*).




[(*) O nome de almorávidas deriva do rábico al-Murabitun «povo do ribat». A idéia comum de ribat é
um mosteiro fortificado onde se dava instrução militar e religiosa. Concluiu-se portanto, com muita razão,
dado o carácter do movimento, que os almorávidas possuíam uma base desse tipo e os estudiosos
perderam um certo tempo a discutir onde se encontravam os seus vestígios. A pesquisa moderna
demonstrou, no entanto, que neste caso, ribat não tem esse significado concreto, e que al-Murabitun
significa aproximadamente «povo da crença religiosa»].




Em meados do séc. XI, os almorávidas haviam readquirido para os Sanhajas o controlo da rota ocidental
das caravanas transarianas e dos seus términos em Sijilmasa e Audagast. O próprio Gana ficou sob a sua
influência e pelo menos as suas classes dominante e mercantil tornaram-se muçulmanas. Dispondo de
uma segura base económica, o exército dos almorávidas abandonou então o deserto para empreender a
conquista das terras islâmicas colonizadas e abastadas do norte e nordeste de África e da Península
Ibérica, que será abordada no Capítulo 7. A nossa atenção dirige-se aqui para os estudos sudaneses, e a
verdade é que, não obstante a islamização do Gana, que se seguiu ao aparecimento dos almorávidas, a
orientação do desenvolvimento político do Sudão ocidental e central se manteve pagã e sudanesa pelo
menos até ao séc. XVII.

As fontes árabes indicam que o Gana não foi o primeiro estado sudanês a aceitar o Islamismo. Este lugar
é atribuído geralmente ao Takrur, um reino mais pequeno no vale do Senegal a sudoeste do Gana, cujo rei
e corte se diz que foram convertidos algumas décadas mais cedo. Com efeito, o tráfico transariano
proporcionou meios para que o Islamismo pudesse contactar todos os povos sudaneses imediatamente a
sul do deserto. AI-Muhallabi (nos finais do século X) refere a conversão do rei de «Kaukau», que pode
ser o mesmo «Kuku» que tinha um rei muçulmano no tempo de al-Bakri, e talvez estes sejam os nomes
da antiga capital songai de Kukiya. AI-Bakri refere ainda a conversão de um rei de Malal, enquanto a
chegada do Islamismo à corte de Kanem é atribuída à época em que governava um rei provavelmente dos
finais do século XI. Mas esta aceitação inicial do Islamismo no Sudão ocidental e central parece ter sido
essencialmente restrita às classes dominante e mercantil, esta especialmente no Sudão ocidental.

Havia motivos evidentes para que os governantes e comerciantes sudaneses fossem receptivos ao
Islamismo; ou porque facilitava as relações cada vez mais importantes com os mercadores e os chefes no
Sara e no norte de África, ou porque lhes fornecia instrução valiosa para a manutenção de
correspondência e registos diplomáticos, administrativos e comerciais. Mas a aceitação do Islamismo
pelos reis do Sudão foi em regra só na aparência. Se fosse mais do que isso teria destruído uma base
essencial do seu poder, enquanto sucessores dos antepassados fundadores dessas sociedades, os primeiros
reis pagãos que tinham feito o pacto inicial com o mundo dos espíritos e com os deuses de quem dependia
a prosperidade do seu povo e a sua agricultura, como era crença geral da população.
Talvez só no Gana e nos reinos menores adjacentes, como o Takrur, que estavam sujeitos à influência
dos Sanhajas e dos almorávidas, o lslamismo do século XI tenha avançado e conseguido atingir toda a
base da sociedade. A longo prazo, isto traria importantes consequências para todo o Sudão ocidental
através da expansão de uma classe mercantil totalmente islamizada. Mas ao nível mais imediato, o ataque
almorávida pode ter vindo acelerar processos de mudança que minavam a base agrícola do poder sudanês
nesta região tão próxima do deserto. O êxito económico e político do Gana terá suscitado aumentos nas
populações humana e animal, que veio sobrecarregar os recursos naturais existentes de água, solo e
madeira. Em certa medida, foi possível manter a situação desde que a riqueza continuasse a provir do
comércio de longa distância. Mas a agressividade guerreira dos almorávidas desencorajou de facto alguns
mercadores de enviarem os seus produtos através do Sara ocidental, e mesmo depois de os Sanhajas
terem assegurado o controlo absoluto tanto da rota ocidental como dos seus términos, nem por isso as
condições melhoraram. Quando os almorávidas partiram, os Sanhajas do deserto dividiram-se novamente
nas suas facções, procurando cada uma o lucro máximo no mais curto prazo possível, e todas procurando
adquirir e apascentar mais gado à custa dos agricultores já instalados. Deste modo, tanto a agricultura
como o comércio viram-se ameaçados. Gradualmente, as terras setentrionais e centrais do reino
transformaram- se em deserto, a ponto de as cidades terem de ser abandonadas. Cada vez mais os
comerciantes transarianos preferiam percorrer as rotas mais centrais que iam até à curva do rio Níger, do
que atravessar o agitado Sara ocidental para chegarem a um Sudão ocidental empobrecido. Tanto o
declínio do comércio como o da agricultura provocaram a diminuição de receitas para a manutenção do
poder central. Mas a sul, os povos mandé cuja agricultura não tinha sido perturbada, que viviam junto do
rio Níger e aproveitavam as boas condições para a agricultura e uma boa rota comercial a nordeste da
curva do Níger, começaram a romper o controlo do Gana, e ainda mais a diminuir os recursos postos à
disposição do seu governo. É com efeito possível que numa tentativa de remediar esta situação, a capital
do Gana tenha sido transferida mais para sul. Al-ldrisi (cerca de 1150) refere que ela se situava no Níger,
mas devido ao declínio das comunicações pelas rotas transarianas a oeste, talvez essa cidade não fosse a
capital de Gana mas a de um dos primeiros reinos vassalos que se tinha tornado independente.

Desenrolava-se então com efeito uma luta entre os grupos mandés mais meridionais com vista à
transmissão da herança do antigo Gana. Inicialmente, a supremacia parece ter passado para um povo
chamado Susu, cujo rei Sumanguru se diz que conquistou e tornou tributários os territórios que restavam
do Gana no começo do século XIII. Mas o poder de Sumanguru foi ameaçado por outro grupo mandé, os
Keitas, ao que parece originalmente comerciantes no Baixo Níger, os quais se esforçavam por obter o
controlo político sobre vários reinos antigos no vale do Alto Níger que sem dúvida correspondiam ao
Malal e ao Dau de al-Bakri. A tradição afirma que depois de uma longa guerra, os Keitas elegeram um
rei, Sundiata, que destronou Sumanguru e prosseguiu até à conquista da capital do Gana, lançando desse
modo os fundamentos do novo Império Mandé do Mali.

Pensa-se que Sundiata reinou entre 1230 e 1255 aproximadamente e é tido como um arquétipo dos reis
sudaneses desse período. Por um lado é a grande figura heróica da tradição mandé, sendo muitas das suas
vitórias atribuídas a poderes mágicos. Por outro lado, Sundiata é ainda apresentado como sendo originário
de uma família muçulmana. É com efeito razoável supor que os Keitas, enquanto comerciantes, tivessem
sido islamizados, além de que o seu sucessor imediato e filho VII (cerca de 1255-1270) foi o primeiro de
muitos mansa do Mali a fazer a peregrinação a Meca.

Os tarikhs de Tungubutu apresentam o império fundado por Sundiata como uma continuação natural do
antigo Gana. Esta parece ser uma perspectiva correcta da história. O antigo Gana, pelo menos na sua fase
final, era controlado pelas classes dominante e mercantil dos Soninkes que pretendiam monopolizar o
comércio local do Sudão ocidental e as suas ligações com o comércio transariano. O Mali foi criação de
um grupo mandé mais meridional, que possuía melhores recursos agrícolas e um controlo mais directo
sobre as regiões auríferas de aluvião, e que pretendia controlar todo o Sudão pelo menos até à curva do
Níger onde estavam situados os novos términos meridionais do tráfico transariano, Tungubutu e Gao.
Nesse aspecto, Sundiata e os seus sucessores foram muito bem sucedidos e por volta do século XIV
controlavam um império bastante mais extenso do que o antigo Gana, a partir da sua capital em Niani,
próximo ou junto do Alto Níger. Esse império chegou a ter cerca de 2000 quilómetros desde a costa
atlântica a oeste até às fronteiras da actual Nigéria a leste e uma extensão máxima de cerca de 960
quilómetros, desde os centros caravaneiros como Audagast, Valata (para onde fugiram os mercadores
muçulmanos de Gana depois da ocupação da sua capital por Sumanguru) e Tamakka (Es-Souk), a norte,
até aos limites das florestas do sudoeste da Guiné.

O eixo central deste Império e a sua principal via de comunicação era o rio Níger. No entanto, a
navegação deste rio até ao actual Segu estava nas mãos de um povo não mandé, os Songai. O início da
história dos Songai recua ao primeiro milénio, altura em que eram essencialmente agricultores e
pescadores e habitavam as margens do Níger em Dendi, entre a curva do Níger e Borgu. Mas os
pescadores estenderam continuamente a sua acção pelo rio acima, o que levou os Songai a contactar de
perto com o tráfico que utilizava uma via curta através do Sara até à curva do Níger. Daí resultaram duas
conseqüências que vieram consolidar a formação de uma monarquia centralizada entre os Songais, e
ainda deslocar o seu centro para norte, sendo a capital transferida por volta de 1100 d. C., de Kukiya no
Dendi, para Gao. Na época da ascensão dos Keitas ao poder, no Mali, os canoei- ros songais actuavam
para oeste até ao principal centro de comércio mandé de Djenne. O controlo sobre os domínios e a
actividade dos Songais tornou-se, deste modo, de suma importância para os Keitas. Este objectivo parece
ter sido alcançado por volta do terceiro quartel do século XIII, e mantido embora com possíveis
interrupções até cerca do início do século xv.

O controlo sobre os Songais permitiu aos comerciantes mandé alargarem-se para leste e trazer o comércio
internacional e o Islamismo aos pequenos reinos haúças, onde foram conhecidos como Uangarauas (isto
é, «povo de Uangara» ou apenas «mercadores mandé»). A tradição afirma que os primeiros Uangaraua
devem ter chegado à terras dos Haúças no século XIV, e que estavam decerto já bem implantados no
século seguinte. De forma geral, o controlo dos Songais permitiu ao Mali atingir o auge da prosperidade e
do poder. O império ficou rigorosamente demarcado no mapa (literal e figurativamente, pois aparece no
mapa-mundi desenhado em 1339 por Angelo Dulcert, membro da grande escola de cartógrafos então
existente em Maiorca), através da magnífica peregrinação a Meca via Egipto, que foi realizada por Mansa
Musa (1312-1337) em 1324-5. Relata-se de modo variável a travessia do Sara feita por Musa com uma
comitiva de 8000 a 15000 pessoas e que levou tanto ouro com ele, o qual gastou de forma tão pródiga,
que o valor do metal foi depreciado em 12 % no Egipto. É evidente que tal peregrinação teve outros
motivos para além dos religiosos; deve também ter procurado consolidar laços políticos, económicos e
culturais com o mundo islâmico. Há certas indicações sobre os sucessos alcançados. Por exemplo, a partir
desta época, sabe-se que houve no Cairo um albergue para estudantes sudaneses, enquanto se afirma que
Musa trouxe consigo um poeta e arquitecto andaluz, as-Sahili, que construiu as mesquitas de Gao e
Tungubutu e ainda um palácio nesta última cidade. Data possivelmente desse período o lançamento das
bases da tradição escolar islâmica nas cidades sudanesas como Tungubutu e Ualata, que iriam produzir os
tarikhs, fonte tão valiosa para os historiadores modernos, assim como obras religiosas e filosóficas.

Mas as melhores fontes para a história do Mali nos séculos XIII e XIV são de facto os escritores do norte
de África: al-Umari (1301- -1349) e Makrisi (1360-1442) que se basearam em grande parte nas provas
coligidas através da visita de Musa ao Cairo; Ibn-Kahldun (1332-1406) cujo serviço nas cortes de Tunes e
Fez e como mufti no Cairo lhe forneceu suficiente informação para dedicar um capítulo da sua grande
história aos «reis do Sudão- (essencialmente do Mali); e Ibn Batuta (1304-1368) - um marroquino que
passou a vida inteira viajando pela maior parte do mundo conhecido, nomeadamente a longínqua China -,
através de uma viagem feita pelo território do Mali durante os anos de 1352-3. É bastante favorável o
quadro do Mali do século XIV fornecido por estes sofisticados habitantes do mundo muçulmano que se
encontrava então no apogeu da sua civilização e erudição.

Ibn Batuta, por exemplo, ao viajar em toda a extensão desse vasto império, vai comentando freqüentes
vezes a facilidade das deslocações. A segurança e prosperidade eram tais que não havia necessidade de
viajar em grandes grupos com guardas armados, levar provisões ou fazer preparativos antecipados, uma
vez que se podia comprar alimentos e obter alojamento seguro em todas as aldeias. “Os negros possuem
algumas qualidades admiráveis. São muito raramente injustos e têm maior horror à injustiça do que
qualquer outro povo. O seu sultão não perdoa a ninguém que seja culpado do mínimo acto de injustiça.
Há total segurança no país. Nenhum viajante ou habitante tem algo a temer por causa de ladrões ou
homens violentos”.

O leitor obtém de facto uma impressão de um sistema jurídico e de um governo ordenados, de uma vida
económica próspera e de uma civilização urbana tão avançada como qualquer outra das que existiam
então na Europa ocidental e numa área muitíssimo mais vasta. Adquire-se a impressão de que era uma
civilização islâmica, mantida pela religião, leis, administração e saber islâmicos. Isto é contudo uma
ilusão resultante do facto de os autores árabes, para obterem informações, dependerem em última
instância essencialmente das visitas feitas aos muçulmanos sudaneses das classes dirigente e mercantil, ou
no caso de Ibn Batuta, do facto de ele poder apenas comunicar com o povo das grandes cidades que
tinham uma numerosa população imigrante do norte, a qual sabemos que era administrada separadamente
de certo modo como um regnum in regno. A realidade pode ser melhor avaliada em dois trechos
informativos fornecidos por al-Umari. Num deles diz-se que Mansa Musa não sabia, até à sua
peregrinação, que segundo a lei muçulmana não devia ter mais do que quatro mulheres. No outro, talvez
mais significativo, diz-se que as práticas pagãs e mágicas estavam espalhadas entre os súbditos de Musa,
e que ele temia impulsionar demasiado a causa da islamização, porque sabia que ao fazê-lo iria diminuir a
produção de ouro (e indubitavelmente também a de outros produtos do solo) que era tão essencial para a
economia imperial.

Em suma, o império era mantido através do exercício da autoridade em seu próprio proveito, por uma
classe dirigente quase islamizada e uma classe mercantil mais genuinamente islâmica, e pela força (al-
Umari refere-se a um exército de 100000 homens, com 10000 cavaleiros), sobre variados grupos sociais
tradicionais que acreditavam num mundo de espíritos e deuses pagãos, e que pensavam que a sua
prosperidade dependia da manutenção das relações tradicionais com o mundo do além. No que respeitava
aos súbditos mandé, a posição do Mansa derivava em grande parte da sua proclamada descendência de
Sundiata, o herói mágico que fundara a nova e mais extensa comunidade mandé.

Mas o Mali no seu apogeu incluiu muitos povos que não eram Mandés e não partilhavam as tradições e
crenças mandés, e só conseguiu manter o controlo sobre os seus vassalos na medida em que o poder
central se conservou unido e mais forte do que qualquer outro poder regional que se erguesse contra ele.
Existira já um período no fim do século XIII, em que se duvidara deste facto. Então o governo central
fora sustentado graças à usurpação do poder por um Sakura que não era keita mas um dos seus escravos
libertos, que conseguiu assegurar o controlo do exército. Suleiman, o Mansa no tempo de Ibn- Batuta, não
deve também ter estado na linha directa da sua sucessão, e depois da sua morte em 1360, várias facções
da família real começaram a competir entre si pelo poder. Em tal situação, o poder existente nalguns dos
principais territórios vassalos pôde adquirir uma importância vital. Encontravam-se sob o controlo de
vice-reis que eram membros dos Mansarin, que tinham desse modo acesso à autoridade central do próprio
Mali, e que podiam igualmente assegurar as bases do poder local por meio de casamentos dentro das
famílias dirigentes locais. Alguns membros dessas famílias reinantes podiam ser levados, em certos casos,
como reféns para a corte de Mansa. Aí podiam adquirir conhecimentos sobre o modo como o poder
central era manipulado e mantido, e ainda faziam provavelmente alianças com as facções adversárias
dentro da família imperial.

As relações do Mali com o Songai eram especialmente importantes se se queria manter o império intacto.
Um dos tarikhs de Tungubutu afirma que em certa altura, dois irmãos da família real songai fugiram da
corte do Mansa onde tinham estado ao serviço como oficiais do exército do Mali, e regressaram a Gao. O
resultado foi um renascer da monarquia songai, sem dúvida graças às lições aprendidas da experiência no
Mali (Existe um fragmento de uma crónica do século XVII que afirma que a nova dinastia era de origem
mandé). Os reis songai adoptaram um novo título, Sonni, e por volta de 1400 actuavam de forma
independente, uma vez que um deles saqueou a capital do Mali, Niani.

A dinastia dos Sonni em dado momento teve um Sonni Ali (1464- -1492) que na tradição songai é
apresentado como um grande inova- dor; um mago-herói - mas também de certo modo um muçulmano -
comparado a Sundiata na tradição mandé. Uma vida inteira de campanhas militares destruiu o poder
militar do Mali, reduzindo este império aos vales do Gâmbia e Alto Níger e às terras imediatamente
adjacentes. Para norte delas formaram-se os reinos independentes dos Tucolores e dos Diaras. Para leste
de Djenné, Sonni Ali e o seu sucessor Muhammad (1493-1528) construiu um novo império governado a
partir da capital songai, Gao. A sua expansão para sul foi limitada por novos reinos independentes criados
na curva do Níger pelos cavaleiros mossis vindos de leste. O império songai no entanto, ao tentar afirmar
a sua autoridade sobre os reinos haúças até aos limites de Bornu, conseguiu expandir-se no sentido leste-
oeste de modo semelhante ao do Mali no seu apogeu, enquanto para norte o seu poder foi bastante mais
longe abarcando Air a nordeste, e a noroeste atingindo 800 km ou mais do deserto até aos importantes
depósitos de sal de Teghaza e Taudeni.

Sonni Ali recebeu diferentes tratamentos por parte dos tarikhs. Foi «um homem de grande força e energia
inesgotável», lutando sem cessar e sempre vitorioso, mas foi também «o tirano, o debochado, o maldito, o
opressor». Este dualismo é o reflexo da existência de forças opostas no império que ele fundou e que
faziam com que ele não fosse tão estável nem tão duradouro como o do Mali. Sonni Ali representou a
reacção songai contra o imperialismo maliano; a sua força como rei songai residiu no seu papel de
defensor do paganismo tradicional local. Ele parece ter revelado uma hostilidade deliberada em relação
aos religiosos e eruditos muçulmanos das principais cidades, em especial Tungubutu, eles que eram
representantes de uma doutrina universalista que servira os propósitos imperiais do Mali. No entanto na
mesma época, Sonni Ali foi um imperialista, e teve necessidade de alguns aspectos da experiência
muçulmana mandé ao pretender estabelecer um sistema político que pudesse integrar com sucesso vários
povos não-songai.

Imediatamente após a sua morte, revelou-se a importância desta dicotomia, quando o seu herdeiro foi
afastado e o poder tomado por um dos seus generais, Muhammad Turé, um mandé, que estabeleceu uma
nova dinastia, a dos Askias. Verificou-se de novo, mais tarde, com o insucesso de Muhammad em
estabelecer uma pacífica sucessão. Pode dizer-se que a história do império songai de Gao entre a
deposição de Askia Muhammad pelos seus filhos em 1528 e a sua destruição por conquistadores vindos
de Marrocos em 1591, foi uma luta contínua entre dois grupos políticos, um representante dos Songais,
pagão e nacionalista e o outro proclamando um universalismo muçulmano de tipo maliano. A importância
da divisão entre as duas facções foi tal que explica a fácil vitória alcançada pela pequena força
expedicionária marroquina que atravessou o deserto na direcção de Gao e Tungubutu em 1590-91.

A partir de então, os reis songais, assim como os seus predecessores do Mali, apenas governaram o
pequeno reino daí resultante: Dendi. A idéia que surgira no antigo Gana, de um vasto império que
monopolizasse os tributos e o comércio de todo o Sudão ocidental em benefício quase exclusivo das
classes dirigente e mercantil dos Mandé, essa idéia não voltou a ter quaisquer defensores efectivos do
ponto de vista político. Por motivos intrínsecos à história norte-sariana e sudanesa, a partir de então as
rotas comerciais transarianas mais importantes deslocaram-se ainda mais para leste, relativamente à época
em que o Mali e o Songai eram os principais estados sudaneses, a partir da Tunísia e Tripoli para o
Kanem e Haúça.

A história do Kanem, como vimos atrás, pode em certa medida ser interpretada como uma tentativa de
construir um tipo de império como Gana possuía mais a oeste. Sem dúvida que a conversão dos seus reis,
os Mai, ao Islamismo por volta dos finais do século XI, foi um indício da influência crescente dos
comerciantes transarianos. Por volta do início do século XIII, a capital sitUada em Njimi controlava o
território a sul do Kanem próximo do Lago Chade, enquanto a norte o poder dos Saifauas atingia os
depósitos de sal de Bilma e do oásis de Djado. A sua influência fazia sentir-se muito mais longe, a norte
até ao Fezzan e a sudoeste até pelo menos às proximidades dos reinos haúça. Mas seguiram-se então
cerca de três séculos de disputas internas entre facções do grupo dominante dos Saifauas. Houve
igualmente conflitos crescentes com os Bulalas, um grupo de pastores comparável aos anteriores
Zaghawas que tinham inicialmente criado um reino, mas cuja influência foi destrutiva e não construtiva
uma vez que eles competiam com os governantes saifawa pelo poder. Os Mai foram possivelmente
forçados a retirar do Kanem e a procurar restabelecer o seu reino a partir de uma nova base a sul de
Ngazargamu, a antiga província de Bornu, a sudoeste do Lago Chade.

Durante o século XVI, este novo reino saifawa de Bornu tornou-se cada vez mais poderoso. Os Bulalas,
embora continuando chefes do Kanem, tornaram-se seus tributários e a influência dos Saifauas de novo se
fez sentir na terra dos Haúças. No fim do século, estabeleceram-se relações permanentes com os Turcos
otomanos que controlavam então o Egipto e Tripoli, resultando daí que o Mai Idris Alauma (cerca de
1560-1590) obteve fornecimentos de armas de fogo e instrução para os seus soldados no uso dessas armas
e de tácticas adequadas, e conseguiu ainda recrutar um corpo de cameleiros árabes. Em conseqüência
disso, assenhoriou-se de uma força muito mais considerável do que qualquer outra que pudesse erguer-se
contra ele, e começou a transformar o seu reino num estado unificado e governado segundo os princípios
islâmicos. Mas, uma vez mais, a linhagem saifawa não conseguiu manter o poder imperial. Houve
contínuas guerras na fronteira com os Haúças a oeste e os Jukuns a sul, enquanto tribos tUaregues
começaram a invasão pelo deserto a norte. Os príncipes saifauas procuraram ignorar estes conflitos
competindo entre si nos rituais e festas da corte e o seu império dissolveu-se lentamente.

Os altos e baixos da organização monárquica e do poder imperial no Kanem e Bornu não foram talvez
maiores do que os que ocorreram na área mais ocidental que os reis de Gana, Mali e Songai procuraram
por seu lado controlar nessa mesma época. Houve, sem dúvida, do ponto de vista político, bastante mais
continuidade no Kanem-Bornu. o sistema saifawa parece contudo nunca ter exercido uma influência
profunda comparável à influência crescente dos Mandés. É de grande interesse, por exemplo, o facto de o
Islamismo ter atingido os reinos haúças na fronteira com o Bornu, a partir do Mali que estava a muitas
centenas de quilómetros de distância. A explicação deste facto parece estar mais uma vez relacionada
com o. ponto de vista de os factores económicos do império parecerem ter sido menos importantes ou
pelo menos não tão determinantes no Kanem e Bornu. Não se formou nenhuma classe mercantil Kanuri
que se pudesse comparar com a dos Mandés. Os recursos disponíveis para a exploração comercial devem
ter sido menores - decerto não existia qualquer acesso directo às fontes do ouro - e o país encontrava-se
demasiado exposto à infiltração de pastores do deserto a norte e nordeste, os Bulalas, às tribos tuaregues
ou os árabes Shuwa. Depois da chegada dos comerciantes mandé, os reinos menores haúças, embora
sujeitos por vezes às pressões militares tanto do Kanem-Bornu como dos Songais, conseguiram proceder
a uma utilização muito mais proveitosa dos seus recursos. Por volta do século XVI, produziam
excedentes agrícolas e tinham manufacturas prósperas de metalurgia, tecelagem e couro (A que os
europeus chamavam «couro marroquino» porque no início o importavam de Marrocos, mas
provavelmente do Sudão através de Marrocos). Essas actividades iriam tornar estes estados no principal
mercado sudanês para os mercadores transarianos, e ainda lhes permitiram, apesar da falta de unidade
política, criar um sistema comercial e rotas mercantis em direcção a regiões mais meridionais que iriam
competir com os mercadores mandés mais a oeste. Deve examinar-se, em seguida, a influência dos
sistemas político-económicos dos Mandés, dos Haúças e do Kanem-Bornu sobre os povos da zona da
Guiné, a sul do Sudão central e ocidental.



Os Estados e o Comércio na Guiné

O vasto sistema político e comercial mandé cujas origens e desenvolvimento foram esboçados no capítulo
anterior, dificilmente teria existido sem atingir mais a sul os povos negros da África ocidental na região
da Guiné. De igual modo, a lenda de Kisra menciona movimentos que provocaram o aparecimento de
extensos reinos organizados no Sudão central, que não se detiveram aí tendo repercussões ainda mais a
sul. De um modo geral, parece suficientemente claro que as transformações económicas e políticas que
tiveram lugar no Sudão ocidental e central a partir dos finais do primeiro milénio tenderam, naturalmente,
para extravasar e influenciar a evolução noutros pontos da África ocidental.

No entanto, essa influência parece ter implicado algumas vezes a intervenção política directa dos estados
sudaneses nos assuntos dos povos guineenses. Pelo menos em certa medida, a explicação deste facto
parece ser de carácter técnico-militar. O poder dos chefes sudaneses fora dos territórios centrais que eram
habitados pelos seus grupos étnicos dependia de possuírem uma força militar superior. A cavalaria
tornou-se a arma principal nos seus exércitos e um instrumento ideal para o emprego da força a grandes
distâncias nas amplas savanas. Além disso, através do controlo dos términos meridionais das rotas
comerciais transarianas e também da importação de cavalos adequados a fins militares, detinham o
monopólio desta força. Mas, quanto mais a cavalaria era utilizada a sul, menos eficiente ela se tornava.
Era difícil utilizá-la eficazmente nas savanas arborizadas; na floresta era impossível visto que os cavalos
só se podiam deslocar em fila ao longo dos caminhos estreitos e sinuosos feitos por viajantes a pé. Quanto
mais a cavalaria penetrava para sul, mais facilmente podia ser posta fora de combate por grupos locais de
arqueiros e lanceiros muito menos dispendiosos. Isto ficou claramente demonstrado depois da conquista
dos Songais pelos Marroquinos. Os invasores foram capazes de dominar sem grandes dificuldades as
principais cidades da curva do Níger, mas sempre que tentavam aproximar-se dos reis songai, que se
haviam refugiado nas matas de Dendi, as suas forças foram apanhadas em emboscadas e obrigadas a
retirar.

Neste contexto, é pois importante recordar que existe uma área na Guiné entre o Baixo Volta e a fronteira
sueste da Nigéria actual, onde, devido a uma pluviosidade extremamente baixa para essa latitude, não
existe floresta densa nem sequer no litoral e até as faixas arborizadas são mais estreitas e menos densas.
Com efeito, esta área situa-se quase mesmo a sul da fronteira, a leste da curva do Níger, entre as zonas
mandé e chadianas do Sudão. As zonas de floresta contíguas a ela, onde hoje se situam o Gana e a Nigéria
ocidental, estavam geralmente abertas à influência do norte.

O maior desenvolvimento do poder político e económico no Sudão antes do século XVII foi sem dúvida o
que resultou da iniciativa mandé nos impérios sucessivos do Gana e do Mali (e em certa medida também
do Songai). Este facto teve decerto consequências políticas directas nas terras situadas a oeste e a sul do
centro mandé, nas imediações dos cursos superiores dos rios Níger e Senegal. Estendendo-se do Baixo
Senegal até à Libéria ocidental, existia aí uma amálgama de povos como os Tucolores, Uolofes, Sereres,
Diolas, Tendas, Papeis e Golas, entre outros. Os linguístas estão de acordo acerca das línguas destes
povos que formam uma subfamília «oeste-atlântica» da principal família lingüística negra (a níger-
congolesa) que é totalmente distinta da subfamília que compreende as várias línguas e dialectos mandé.
Em termos gerais, parece que estes povos «oeste-atlânticos» eram negros que possuíam gado e vastas
capacidades agrícolas (incluindo por vezes a rotação de culturas) e que tinham um alto nível de vida aldeã
e de artesanato (inclusive trabalho em metal) mas que não tinham desenvolvido muito o comércio a longa
distância ou estruturas políticas consideráveis que se pudessem comparar com as dos Mandés, talvez em
parte porque estes se interpunham entre eles e o estímulo directo resultante dos contactos transarianos.

Houve, no entanto, um grupo étnico que falava uma língua oeste-atlântica totalmente diferente de todos
os outros, e a sua história passou a ter, por volta do século XI, conseqüências tão importantes para uma
vasta região da África ocidental que as suas relações com o crescimento do comércio e do império mandé
devem ser consideradas em primeiro lugar. Trata-se do povo Fula (Fulani em inglês e Peul em francês).

Embora alguns Fulas actualmente sejam sedentários e urbanos, como veremos mais adiante, devem
distinguir-se historicamente de todos os outros povos africanos ocidentais porque o seu modo de vida
básico era a pastorícia itinerante. Os Fulas também têm sido diferenciados de outros africanos ocidentais
do ponto de vista antropométrico, dizendo-se que são mais esguios, possuem nariz direito, o cabelo mais
liso e os lábios mais finos do que é normal entre os negros da África ocidental. Além disso, embora
possam ter pele escura como os outros, alguns dos Fulas têm de forma notória a pele mais clara ou mais
avermelhada. Esta combinação de traços culturais e físicos distintos deu origem à idéia de que os Fulas
eram inicialmente um povo de pastores sarianos, até possivelmente nilo-sarianos, que emigrara para
ocidente ao longo dos limites meridionais do deserto.

Se assim foi, deve tratar-se de uma migração pré-histórica, uma vez que o primeiro indício provável dos
Fulas em tempos históricos indica que eles eram um dos grupos de criadores de gado que habitavam a
região onde os Soninkes (isto é, os Mandés do norte) edificaram o reino do Gana. A dispersão dos povos
pastores para outras regiões foi um dos efeitos do crescimento dessa sociedade agrícola sedentária. Os
antepassados dos actuais Fulas parecem ter decidido instalar-se mais a sudoeste, nas estepes que ladeiam
o vale médio do Senegal. Foi provavelmente aí, no caso de não serem originariamente africanos, que eles
adquiriram a sua língua actual através da fusão com os povos da região, dado que existem relações mais
estreitas com as línguas dos Sereres e dos Uolofes dos vales do Baixo Senegal e do Gâmbia. Mas, com o
aparecimento do reino do Takrur, o seu modo de vida pastoril foi de novo ameaçado. Alguns deles
optaram por participar da sociedade sedentária (a muçulmana) e tornaram-se assim o povo hoje chamado
Tucolor (ou Toucouleur que é a versão francesa de um nome que significa «povo de Takrur»; no Senegal,
os Franceses usavam as designações Toucouleur e Peul de forma mais ou menos variável; com efeito, as
línguas são essencialmente as mesmas).

Contudo, outros Fulas não aceitaram o modo de vida sedentária e islâmica e, por volta do século XI,
procuraram preservar o seu pastoralismo pagão e tradicional deslocando-se para leste através das
pastagens do Sudão entre os 10° e 15° de latitude norte. Por volta do século xv tinham-se já instalado em
número considerável nos planaltos do Futa Jalon e nas imediações de Macina, o delta interior do curso
superior do Níger em Tungubutu. Começavam também a aparecer no país dos Haúças, onde hoje existem
cerca de quatro milhões de pessoas descendentes dos Fulas. Por volta do século XVI, os grupos
avançados da migração fula encontravam-se no Bornu, e no século XVIII um grupo numeroso instalou-se
nas terras altas de pastagens do Camarões.

Esta notável migração foi caracterizada pelo facto de, excepto no extremo oeste (Futa Toro - o antigo
Takrur - e Futa Jalon), os Fulas geralmente não desalojarem nem se misturarem com os gentílicos das
regiões onde se fixavam. Permaneciam em comunidades distintas, cada uma delas com o seu próprio guia
ou chefe, o ardo, deslocando-se continuamente com as suas manadas através das pastagens e rodeando os
campos das aldeias agrícolas. As suas relações com os governos e com a economia das comunidades
sedentárias - bastante semelhantes às dos ciganos na Europa - eram essencialmente de natureza
simbiótica. Pretendiam trocar os seus lacticínios, peles e por vezes gado por alguns dos produtos da
sociedade sedentária, mas sem participar dela. Decerto, muitos Fulas abandonaram este pastoralismo
pagão para se fixarem nos novos centros urbanos e não nas aldeias de agricultores, e ali se converteram
ao Islão. Desconhece-se como isso se processou, mas pode ter acontecido pelo facto de as cidades, com a
sua desenvolvida rede comercial, proporcionarem de longe os melhores mercados para os Fulas
oferecerem os seus produtos e adquirirem algumas mercadorias e bens de que necessitavam vindos de
outras regiões, de tal modo que alguns Fulas se fixavam nelas de início para apoiar os seus irmãos do
campo (Foi mencionado por E. F. Gautier que nas estepes a norte do Sara, os nómadas são mais atraídos
pelas cidades do que pelas explorações agrícolas). Assim como o crescimento das cidades e do comércio
no Sudão, para leste até aos Haúças, esteve freqüentes vezes relacionado com as iniciativas mandé, pode
dizer-se que o fortalecimento do poder mandé e do seu comércio teve tendência para atrair e para
empurrar para leste os Fulas. Os Fulas urbanizados devido à dispersão, não só conservaram os seus laços
étnicos com os pastores itinerantes das áreas rurais, como com os Fulas e os Tucolores islamizados que se
concentravam no extremo ocidental do Futa Toro e do Futa Jalon. Desse modo, quando no século XVIII
eles começaram a reorganizar a sociedade tradicional na África ocidental de modo algo semelhante às
teocracias muçulmanas, a rede de comunidades muçulmanas Fulas nas cidades de todo o Sudão ocidental
e central, juntamente com os laços que estas comunidades urbanas mantinham com os numerosos Fulas,
nómadas e pagãos, do meio rural circundante, permitiram que as idéias da reforma e da revolução
muçulmana se propagassem de forma rápida e impetuosa a enormes distâncias.

Outros efeitos do crescimento do poder político e do comércio mandé no Sudão ocidental foram menos
dramáticos e tiveram menos alcance do que a dispersão dos Fulas, embora trouxessem mudanças
significativas para os povos da costa atlântica, que rodeavam o território mandé a oriente e a sul. Grupos
de fugitivos das convulsões políticas (por vezes talvez das primeiras fases da dispersão fula) instalaram-se
nas zonas costeiras do Atlântico. Os mais notáveis entre eles foram os Susus que, como se viu atrás,
tinham concorrido sem sucesso ao legado do antigo Gana, sendo o seu rei Sumanguru derrotado pelo
chefe keita, Sundiata, o fundador do grande império do Mali. Actualmente, os Susus vivem junto do mar
entre os Tenes e os Sereres, constituíndo desse modo uma cunha da língua mandé no território das línguas
oeste-atlânticas. Outros grupos de língua mandé deslocaram-se para oeste ou para . sul em direcção à
costa como comerciantes ou conquistadores. No caso dos comerciantes, o acesso às fontes de sal que se
obtinha no litoral constituiu provavelmente um importante incentivo. Já referimos que existia, nesse
tempo, uma estreita relação entre o comércio .e a formação de estados, especificamente porque o tributo
representava um meio fácil de adquirir excedentes para o comércio. O crescimento do comércio mandé
em direcção ao litoral deu origem a que um certo número de pioneiros mandé edificasse reinos em
proveito próprio e em competição com o modelo principal do Mali. Parece terem existido dois eixos
principais da expansão mandé. Um deles estendia-se ao longo do rio Gâmbia, uma artéria comercial
muito útil, que tem início a alguns quilómetros da nascente do Faleme, um dos principais afluentes do
Senegal, cujo curso superior estava na posse firme dos Mandés. O outro, separado da Gâmbia pelo
maciço do Futa-Jalon que os Fulas ocupavam, estendia-se para sul no sentido da actual Serra Leoa, junto
dos territórios dos Susus. Em ambas as áreas estavam estabelecidas unidades políticas dirigidas por
chefes designados farimas. Parece que inicialmente estes pagavam muitas vezes tributo ao Mali, e ainda
conservavam alguma ideia da supremacia final desse império mesmo depois do seu declínio nos fins do
século xv.

Verificou-se um último contributo dos Mandés para a geografia étnica e política das regiões do oeste
atlântico, quando elas foram invadidas na primeira metade do século XVI, a partir de leste, por bandos de
assaltantes e conquistadores chamados Manes. Através dos seus trajos e das armas (que os europeus
comentaram nessa época) assim como pela sua língua, não resta qualquer dúvida que os Manes eram,
com efeito, na sua origem, soldados mandés. No entanto, um outro problema é saber como conseguiram
avançar paralelamente à costa vindos de leste. As fontes exteriores só conseguem referenciá-los
aproximadamente a meio da costa liberiana. Existe contudo uma tradição mane, fixada por escrito por
volta de 1625, que afirma que eles atingiram pela primeira vez a costa junto de um forte português. Isto
só pode ter acontecido na Costa do Ouro (a costa do actual Gana) a cerca de 1000 quilómetros para leste.
Não se encontra confirmação deste facto nem nos relatos portugueses (embora sejam bastante omissos
para este período) nem nas tradições existentes entre os actuais povos do Gana. Mas, tendo em atenção o
que mais adiante se afirmará acerca das relações dos Mandés com a Costa do Ouro, não seria de modo
nenhum impossível que um contingente militar mandé ali chegasse, pelas estradas comerciais que a partir
de Djenne conduziam para sudoeste. A decisão de regressar ao país de origem pelo ocidente e ao longo
do litoral pode ter estado relacionada com o surto do poderio militar songai ao longo do médio Níger.
Uma decisão deste tipo não foi um passo no desconhecido como se poderia supor, dado que existem
provas de que os Mandés de oeste como os da Gâmbia, conheciam a actividade comercial de outros
Mandés no interior da Costa do Ouro.

Assim sendo, por volta de 1540, os Mandés avançavam para oeste paralelamente à costa da actual
Libéria, combatendo cada grupo tribal que encontravam. Foram quase sempre bem sucedidos. A seguir a
cada vitória instalavam-se alguns deles como senhores de um novo estado, enquanto outros conseguiram
arrastar à sua passagem alguns elementos da região como auxiliares (chamados sumbas) e fortalecidos
desse modo, caminhavam para novas vitórias mais a oeste. O avanço mane só foi realmente sustido
quando, a noroeste do que é actualmente a Serra Leoa, encontraram os Susus, um povo mandé como eles,
que possuía armas, táctica e organização militares semelhantes.

O resultado final das conquistas dos Manes veio complicar consideravelmente a situação étnica no limite
sul e sudoeste da região oeste-atlântica. Parece terem sido estas conquistas que tornaram os Mendés, de
língua mandé, a população dominante no sul da Serra Leoa. Mas a norte, os Lokos falam também mandé;
contudo, há razões para crer que a sua base étnica teve originariamente proveniência «oeste-atlântica». Os
Tenes, seus vizinhos, embora falem uma língua oeste- atlântica, parecem ser uma aristocracia de origem
mane, assim como alguns sobados entre os Krus, o grupo dominante da actual Libéria, parecem ter
surgido do mesmo modo.

A influência mandé nas terras a leste da Libéria, nas actuais repúblicas da Costa do Marfim e do Gana,
parece ter tido inicialmente uma intenção comercial, embora isso pudesse e tivesse ocasionado
consequências importantes no domínio político, como já foi sugerido acerca da antiga história dos Manes.
Ela esteve relacionada com a expansão de uma classe especializada de comerciantes mandé islamizados,
chamados Diulas, que parecem estar inicialmente relacionados, senão identificados, com os traficantes de
ouro uangara/soninke mencionados no capítulo 3. (Foi assinalado que há contextos em que os termos
«Diula» e «Uangara» são usados indistintamente- Para os Soninkes, diula é apenas um termo que
significa «comerciante», mas fora das áreas de língua mandé passou a ter uma conotação étnica). No que
respeita à expansão para sul e sudoeste dos Diulas (ou Uangaras), o desenvolvimento da cidade comercial
de Djenne foi um factor chave. Não se chegou a um consenso sobre a data em que a cidade foi realmente
fundada, mas é evidente que por volta do século XIII ela era já um importante centro da actividade
mercantil e muçulmana. Os Diulas, ao apoiarem-se em Djenne, fizeram-no com vista à abertura do tráfico
em direcção ao sul. A cidade não está situada no rio Níger, a via principal de comunicação oeste-leste
através do império do Mali, mas num dos seus afluentes a sul, o rio Bani, que aí segue um curso algo
tortuoso em regiões pantanosas, quase paralelo ao Níger, que ele encontra a sul de Tungubutu. Embora,
Djenne não possuísse boas comunicações naturais com a região central mandé a oeste, estava protegida
pelas terras pantanosas que a rodeavam, e era uma boa base para mercadores que desejassem ligar o
comércio de e para sul e sudoeste com as rotas transarianas que terminavam em Tungubutu e noutras
cidades da curva do Níger.

Havia dois produtos principais originários do sul e sudoeste que costumavam atrair o interesse dos
comerciantes no território mandé. O primeiro era o ouro. Existiam vastos depósitos no país dos Lobis no
vale do Volta Negro, a cerca de 500 Km a sul-sueste de Djenne. Além disso, o ouro podia ser obtido por
meio da lavagem das areias de aluvião ou escavando minas relativamente pouco profundas em mui- tos
locais das florestas a sul da Costa do Marfim e do actual Gana. Neste país, com efeito, nos vales e nas
proximidades dos rios Ofin e Ankobra, existem depósitos de ouro que se revelaram os mais ricos de toda
a África ocidental. Tiveram sem dúvida alguma um interesse crescente em função da exploração cada vez
mais intensiva dos depósitos aluviais de Bambuque e Buré, que deviam estar já a produzir resultados
diminutos (o seu rendimento nos tempos actuais tem sido insignificante comparado com o do Gana
actual; a sua exploração é essencialmente uma ocupação para os agricultores na estação seca).

O segundo produto de maior interesse no sul para os mercadores do norte era a noz de cola, o fruto de
árvores que cresciam espontaneamente na floresta tropical. A noz quando mastigada tem um sabor
agradável e refrescante, e desempenha um papel na etiqueta da hospitalidade e das relações sociais nos
países árabes. Dado que é um estimulante suave, tinha um certo interesse para as comunidades islâmicas a
quem era negado por lei o prazer do álcool. Existem algumas variedades da árvore da cola, mas aquela
que produz os frutos mais procurados pelo comércio e pelos hábitos sociais, a Cola nitida, era originária
das florestas que se estendem da Serra Leoa até ao actual Gana.

Provavelmente existiam já então alguns povoamentos de língua mandé a sul de Djenne (e também a leste
na direcção do país dos Haúças), nomeadamente dos povos designados Samos e Busas, que devem ter
constituído um ponto de partida para os mercadores Diulas poderem avançar. A sua prática consistia em
estabelecer núcleos próximos das aldeias dos chefes pagãos mais importantes, repetindo aparente- mente
desse modo o modelo próprio da antiga cidade de Gana, com o seu bairro de mercadores muçulmanos ao
lado da capital pagã. O primeiro núcleo mais importante a sul de Djenne era Bobo-Diu- lasso, cujo nome
indica a sua situação, pois significa «o núcleo diula no país dos Bobo». A sul de Bobo-Diulasso, Kong foi
um outro centro importante dos Diulas, a cerca de 560 km de Djenne, donde irradiavam numerosas rotas
comerciais em direcção às florestas da Costa do Marfim e da Libéria oriental. Mas ainda hoje estas terras
são relativamente pouco habitadas e há quinhentos anos atrás deviam ser muito escassamente povoadas.
As rotas comerciais mais lucrativas parece terem-se localizado mais para leste, quer partindo
directamente de Djenne, por exemplo em direcção às terras auríferas dos Lobis, quer de Bobo-Diulasso e
Kong, em direcção às terras habitadas pelos povos de língua acane que actualmente são o grupo
dominante da metade meridional da República do Gana. Por volta de 1300, havia núcleos importantes de
Diulas em Begho, a sudeste de Kong, num recanto das montanhas de Banda e a 110km daí, em Bono-
Mansu próximo do actual Tekyiman em território Brong dos Achantis do norte (O Bono-Mansu tem,
talvez, um significado semelhante a Bono-Oiulasso, por exemplo «o núcleo man(de) no país Bono
(Brong)»; man é ainda a raiz do termo akan para reino, onam e aman no plural).
Quando no século xv os Portugueses se empenharam em tentar aceder, por mar, ao comércio do ouro na
África ocidental os seus agentes conseguiram reunir numerosas informações acerca do comércio entre
Djenne e as terras dos Acanes, o que se reflecte nos escritos de Cadamosto (cerca de 1455), Pacheco
Pereira (1505) Valentim Fernandes (1507) e João de Barros (1552). Os três primeiros obtiveram
informações sobre a região da Gâmbia, onde naturalmente os Portugueses puderam contactar com as
zonas fronteiriças do império Mali. O aspecto mais vantajoso desse tráfico parece ter sido a troca secular
do sal sariano pelo ouro da África ocidental. O sal era transportado em camelos, pelo deserto até
Tungubutu, em enormes blocos que atingiam o peso de 100 quilos cada (um camelo podia carregar dois),
e em seguida era transportado para Djenne, em embarcações, possivelmente songai (cada uma das quais
podia transportar cerca de 20 toneladas) onde 50 quilos valiam cerca de 8 onças de ouro. Este era
aproximadamente o dobro do seu valor em Tungubutu, pelo que o comércio era bastante lucrativo.
Segundo o testemunho de Fernandes, um mercador uangara instalado em Djenne podia ter um lucro
equivalente a 7500 onças de ouro ao ano. O latão e o cobre, tecidos azuis e vermelhos, seda e especiarias
eram outras mercadorias importadas por Djenne pelo mesmo processo, e eram provavelmente também
reexportadas para o sul. Em Djenne, o sal (assim como outros produtos) era fragmentado em pedaços
mais pequenos e levados para o sul em caravanas de cem ou duzentos carregadores. As fontes
portuguesas indicam que no final da estação seca, os mercadores regressavam à região norte com
escravos e ouro em pó. Uma parte destes bens ficava retida no Sudão; outra parte era enviada mais para
norte para comprar sal e outras mercadorias do norte de África. Os Portugueses estavam sobretudo
interessados neste comércio, na medida em que envolvia o ouro, mas sem dúvida muitos carregadores
levariam, nas suas deslocações rumo ao norte, carregamentos de noz de cola (produto de menor interesse
para os Portugueses).

Pacheco Pereira, assim como um dos tarikhs de Tungubutu, refere alguns locais para onde se dirigiam as
caravanas dos Diulas saídas de Djenne. Um importante mercado era designado por «a terra de Toom», e a
cidade talvez tivesse especificamente o nome de Bitu. Ambos os termos são facilmente identificáveis,
sendo Ton e Tonawa «<povo de Ton» os termos mandé e haúça respectivamente para desginar os Acanes,
enquanto bitu é o termo haúça para Begho. Segundo os informadores de Pacheco, o povo de «Toom»
eram monstros estranhos com cabeça de cão com quem se praticava a troca muda como regra, mas
Fernandes, ao salientar que o comércio com eles era monopólio absoluto dos Uangaras (isto é, Diulas)
fornece efectivamente a explicação para tal história.

Por volta do século XIV, os Acanes pareciam habitar predominantemente a savana a norte das zonas
florestais onde se encontravam as mais ricas jazidas de ouro. Um dos efeitos da chegada ao seu país dos
mercadores diulas parece ter sido encorajar a formação de reinos que controlavam as saídas dos caminhos
da floresta por onde o ouro era transportado. (Parece existir novamente um paralelo significativo com o
antigo Gana.) Com efeito, os primeiros reinos conhecidos dos Acanes situam-se a norte da floresta ou nos
seus limites e não na floresta propriamente dita. Próximo das minas de ouro dos Lobis ficava Bona,
segundo parece, de início um estado acane, embora tenha sido conquistado pelos Dagombas nos finais do
século XVI. OS dois reinos mais antigos e mais importantes foram provavelmente o de Banda, governado
a partir da região estratégica de Begho que controlava o desfiladeiro nas montanhas por onde passava a
estrada comercial principal em direcção a Kong, e o de Bono, com a capital em Bono-Mansu. Em ambas
as cidades existiam evidentemente importantes núcleos de Diulas. Já se afirmou que a monarquia Bono,
sob a forma que teve até ser conquistada pelos Achantis em 1722-3, foi fundada em 1295. No entanto,
uma interpretação mais rigorosa dos dados tradicionais, indica que seria mais razoável uma data mais
próxima de 1420. Essa data (e mesmo a outra anterior) está de acordo com a noção de que o
desenvolvimento político do reino de Bono está associado ao desenvolvimento da rota comercial de
Djenne, e que a fundação de Banda foi provavelmente mais ou menos contemporânea.

A direcção principal da expansão de Bono parece ter sido para sudoeste, paralelamente ao limite norte da
floresta que aí curva para sul em direcção à costa e ao desfiladeiro das montanhas Akwupim-Togo por
onde corre o rio Volta até ao mar e a zona das pastagens que se alarga gradualmente e se estende desde
Sekondi até ao leste da Nigéria. Chamou-se já a atenção para a importância desta região costeira e para o
facto de os primeiros agricultores não estarem bem equipados para viver nas densas florestas equatoriais.
Pode muito bem ter acontecido que os antepassados do grupo meridional dos Acanes, geralmente
conhecidos por Fantes, tenham atingido o litoral a sul da floresta a oeste de Acra, rodeando-a ao longo do
Volta, tendo-se fundido ali com os primeiros habitantes e estabelecido um certo número de pequenos
reinos, na época em que os Portugueses chegaram por mar, por volta de 1470. Alguns desses reinos
parecem ter conservado tradições que os relacionam com Bono.

Evidentemente que a floresta não estava então desabitada, pois de outro modo o ouro não teria atingido
cidades como Bono-Mansu e Begho. Era, no entanto, escassamente povoada (como o são hoje as zonas
não-auríferas da floresta situadas a oeste da Costa do Madim e da Libéria) ou então o trabalho do ouro era
provavelmente uma ocupação essencialmente sazonal para grupos de homens provenientes da savana. Do
mesmo modo era evidente que, com a valorização crescente da riqueza que se podia obter com o
comércio do ouro, existiam muitos incentivos para os Acanes se instalarem permanentemente e em
grande número na floresta. Isso foi facilitado pela aquisição de plantas alimentares do sudoeste asiático.

Na altura da chegada dos Portugueses ao litoral, existia um núcleo já significativo de povoados acanes e
uma actividade económica e política na floresta que tinha o seu limite meridional aproximadamente nos
rios Ofin e Pra, correspondendo ao actual estado achanti de Adansi. Era conhecido pelos europeus no
litoral como Acane e Tuifo, embora o seu nome exacto fosse Akyerekyere. Aquelas designações são
elucidativas. Acane (ou «Acani») só por si é bastante significativo, pois para os mercadores europeus
durante os séculos XVI e XVII os «Acanes» eram conhecidos como os melhores comerciantes de ouro.
Tuifo, que se pode traduzir por «o povo Tui», também é revelador, dado que Tui é o nome de uma das
duas principais línguas acas do Gana (a outra é a fante).

Não se sabe muito àcerca dos Acanes ou dos Tuifos. Não temos, por exemplo, a certeza se eram um ou
dois reinos, ou se na realidade era algo mais do que o primeiro núcleo de povoamento e comércio dos
Acanes na floresta. Isso deve-se simplesmente ao facto de não terem sobrevivido à grande expansão
económica e política que ocorreu entre os Acanes da floresta devido ao aparecimento a sul de novos
mercados altamente competitivos para o seu ouro, em conseqüência da actividade marítima européia, e
que eram alternativas para os mercados antigos do sistema diula. Pensa-se geralmente que foi um facto
muito importante para o posterior desenvolvimento dos Acanes. Para o historiador ganês do século XIX,
C. C. Reindorf, Acani foi «o primeiro local da nação dos Acanes... a partir do qual os outros adquiriram
conhecimento e sabedoria». As dinastias reinantes de muitos e importantes reinos acanes reclamam a sua
descedência dos Acanis e dos Tuifos, e pensa-se que o seu desenvolvimento esteve relacionado com o
estabelecimento da rota comercial dos Diulas a partir do norte. Assim, os governantes de Akuamu, um
dos três maiores reinos que competiam com o comércio dos europeus no século XVII, conservam a
tradição de que os seus antepassados vieram da região dos Tuifos, antes disso de Dormaa (a sul de
Begho) e, ainda antes, de Kong. Man- tiveram-se as ligações com Dormaa até ao século xx.

Foi já afirmado que as famílias reais de Akuamu e de outros estados acanes, eram de facto de origem
diula. Isto representa uma conclusão forçada perante as provas existentes. O máximo que se pode dizer é
que as novas oportunidades económicas que os Diulas tiveram, serviram talvez para estimular alguns
chefes tradicionais, de grupos aparentados com os Acanes, a desenvolver um poderio político mais vasto
e eficaz; que os chefes muçulmanos diulas devem ter sido úteis conselheiros neste processo, e que por
vezes as famílias dirigentes de ambos os lados se devem ter aliado e em certa medida fundido pelo
casamento. No entanto, as instituições e os costumes dos estados acanes parecem ter-se desenvolvido a
partir de bases indígenas como, por exemplo, os grandes festivais do inhame ou a herança matrilinear dos
cargos e ainda em 1798 um importante rei acane, Osei Kuame dos Achantis, foi deposto por ser favorável
aos muçulmanos.

Sabe-se, no entanto, da história dos séculos XVII e XVIII que os Diulas-Mandés detinham sem dúvida a
iniciativa política nas áreas onde se tinham fixado quando isso lhes interessava. Mas, por vezes isso pode
ter acontecido nas regiões dos Acanes, pelo menos em parte, como reacção ao crescente fortalecimento
dos seus estados. Deve ser esse um dos factores que contribuiram para a criação do novo estado de Gonja
pelos Mandés no início do século XVII.

Gonja é uma região estéril, mesmo a norte de Bono, escassamente habitada com exceção de zonas
fronteiriças que eram importantes para os comerciantes diulas, uma vez que próximo delas passavam
algumas das maiores vias comerciais que conduziam às áreas produtoras de ouro e de cola dos Acanes.
Por volta do início do século XVII, as condições existentes para estes mercadores eram bastante piores do
que tinham sido inicialmente. Em primeiro lugar, o reino de Bono era então tão forte e extenso que devia
conseguir ditar em certa medida as condições em que permitia aos Diulas a compra de ouro e cola vindos
da floresta que está situada junto da sua fronteira sul. Em segundo lugar, desde o fim do século XV que se
formara um novo reino militar, Dagomba, que se expandira imediatamente para nordeste de Gonja. A
conquista de Bona pelos Dagombas foi sem dúvida perturbadora para os Diulas, mas ainda mais
importante deve ter sido o facto de em Daboia, no Volta Branco, os Dagombas se terem apoderado da
única fonte de sal importante da região. Os seus reis foram sem dúvida capazes de explorá-lo em seu
proveito, e em prejuízo da posição comercial dos Diulas. Um terceiro factor foi o facto de os Diulas não
serem já o único grupo de comerciantes inter-regionais a operar nessa área. A Crónica de Kano (A
Crónica de Kano encontra-se num manuscrito árabe que parece datar só do fim do século XIX, e os dados
cronológicos que fornece para os reis de Kano não são universalmente aceites. Baseia-se, no entanto,
provavelmente em crónicas mais antigas ou na tradição oral existente no tempo em que foi escrita, e, por
alguns cálculos, as referências a Gonja devem reportar-se ao período acima mencionado) relata a abertura
do comércio entre o país dos Haúças e Gonja, especificamente para nozes de cola, no tempo dos reis que
terão governado durante os meados ou a segunda metade do século xv. Existe, de facto, uma referência a
mercadores de Gonja que iriam comerciar ao país dos Haúças; assim sendo, talvez fossem
Diulas/Uangaras. Leo Africanus, no entanto, referindo-se à situação no Início de 1500, mencionou
mercadores do país dos Haúças que se tornaram «muito ricos porque levam as suas mercadorias a países
muito distantes e porque a sul estão em contacto freqüente com um país onde se encontram grandes
quantidades de ouro», e isso refere- se com certeza aos mercadores haúças que comerciavam com o país
dos Acanes. Pelo menos no século XVI, os comerciantes diulas, devem ter encontrado em Gonja a
concorrência dos comerciantes do país haúça.

A reacção dos Diulas na região de Bono-Banda-Gonja contra o agravamento geral da sua posição parece
ter consistido na colocação ao seu serviço de soldados aventureiros mandés. Não se entende claramente
através das fontes disponíveis donde eles vieram. Podem ter vindo do norte onde o surto do poderio
militar songai a partir de 1464 aproximadamente deve ter provocado a diminuição de oportunidades para
alguns dos soldados mandés, ou podem habitar já a região, por exemplo como guardas dos comerciantes
diulas. Todas as provas indicam que estes guerreiros entraram em Gonja vindos de sudoeste, e edificaram
um estado que começou a expandir-se à custa dos estados de Bono e Dagomba. Este último foi forçado a
deslocar a sua capital, Iendi, das proximidades de Daboia para a sua actual localização mais a leste. Os
vários povos de língua acane e gur que habitavam o novo estado foram divididos pelos chefes dos grupos
mandés, um dos quais foi reconhecido como rei. A constituição do reino revela semelhanças imediatas
com os Dagombas e com a organização política dos Acanes. Gonja não se revelou, no entanto, favorável
à manutenção de um governo centralizado, nem o poderio dos Dagombas a norte ou o dos Acanes a sul
tinha sido totalmente destruído, e o novo reino foi perdendo rapidamente a sua autoridade à medida que
os bandos de conquistadores se integravam cada vez mais nas suas comunidades locais.

A presença dos Diulas e as alterações no equilíbrio do poder provocaram insurreições políticas noutros
locais além de Gonja. No século XVII, as tensões entre muçulmanos e pagãos da região de Begho
conduziram a uma guerra destruidora que levou finalmente ao abandono total da capital de Banda. A
população local provavelmente instalou-se em algumas cidades a leste, enquanto os Diulas se retiraram
para oeste, para um local mais afastado nas montanhas de Banda, onde criaram o novo centro comercial
de Bonduku. Por volta de 1730, houve idênticas perturbações em Kong, onde os Diulas conseguiram
apoderar-se do poder político. Esta mudança pode ter estado associada, como esteve sem dúvida a queda
final de Gonja, à formação do estado dos Achantis que controlou praticamente todos os Acanes da
floresta assim como a sua importante produção.

As referências aos mercadores haúças e à constituição do poderio dos Dagombas (que esteve relacionado
com o comércio haúça) têm por mérito recordar-nos que no actual Gana os Diulas actuavam numa região
da Guiné que esteve igualmente aberta a influências políticas e económicas originárias do Sudão central.
A ausência de flo- restas no litoral a leste do Volta fez com que o actual território do Gana fosse
particularmente aberto a influências vindas de leste. Com efeito, dois grupos de povos, os Dagombas e os
Mamprussis e outros parentes seus ao norte, e os Gás, Adangmes e Euas a sudoeste, mantêm tradições
sobre a sua origem, nomeadamente a de que os seus antepassados vieram de leste.

No caso dos Dagombas e dos Mamprussis, e do povo mossi seu aparentado a norte da República do
Burquina Fasso, estas tradições foram analisadas multo exaustivamente, e a sua historia inicial pode hoje
ser delineada com bastante segurança. Os reinos dos Dagombas e dos Mamprussis, os dois maiores reinos
dos Mossis - Uagadugu e Iatenga (ou Uahiguia) - e ainda outras pequenas monarquias, foram criados por
cavaleiros invasores que assolaram a bacia do Volta a partir de leste, e no século XV, que apareceram
provavelmente na sua fronteira oriental nos fins do século anterior. Antes disso, talvez entre os séculos XI
e XIV, cavaleiros semelhantes tinham organizado aparentemente um certo número de reinos mais para
leste, em Diamare, território dos Songais mesmo a sul do país dos Dendis, em ambas as margens do
Níger, onde hoje se encontram as cidades de Niamei e Sai. Na realidade, os tarikhs de Tungubutu referem
assaltos dos Mossis contra as maiores cidades da curva do Níger, que parece terem ocorrido
interminavelmente entre 1260 e 1480, e esses assaltantes provi- riam eventual e originariamente de
Diamare. O que fez sem dúvida terminar esses assaltos, e pode ter conduzido à extinção dos reinos
diamares, foi o aumento do poderio militar dos Songais na curva do Níger a partir da época do Sonni Ali.
No tempo de Askiya Muhammad (1493-1529) e Askiya Daoud (1549-1582), os exércitos songais fizeram
a guerra ao país inimigo e destruíram as suas cidades.

É possível que a criação dos reinos que sobreviveram até aos tempos modernos na bacia do Volta esteja
de algum modo relacionada com esta alteração no equilíbrio político mais a norte e a leste. De qualquer
modo, nos meados do século XV e a partir de uma zona próxima do extremo nordeste do actual Gana, os
antepassados das linhagens dominantes de Mamprussi, Dagomba, Uagadugu, Iatenga e de outros reinos
começaram a expandir-se na direcção oeste, utilizando a sua cavalaria para conquistar e lançar tributos
sobre muitas terras pertencentes aos povos agricultores da região voltaica ou de língua gur. Por vezes os
reis-sacerdotes dos cultos animistas locais foram assassinados e depostos. Ainda mais freqüentemente os
invasores escolhiam esposas nessas famílias e desse modo reclamavam o senhorio da terra tanto por
direito como por conquista. De qualquer modo, o resultado disso foi a constituição de uma nobreza
autoritária e hierárquica acima dos grupos autóctones aparentados e a sua reunião em reinos unificados.
Em conseqüência disto, a etnia dos conquistadores fundiu-se com as etnias locais, mas os títulos de
nobreza e o poder mantiveram a possibilidade de reconhecer a descendência dos conquistadores originais,
distinguindo-se pela posse de cavalos, embora em tempo de guerra a cavalaria fosse reforçada por hostes
de archeiros locais.

O conjunto dos reinos Mossi-Dagomba foi criado por processos muito semelhantes aos usados, cerca de
sete séculos antes, pelos Zaghawas quando fundaram o reino de Kanem a norte do lago Chade. Na
realidade, não esquecendo que em Diamare surgiram aparentemente os primeiros reinos songai, parece
certo que os fundadores dos estados da bacia do Volta, juntamente com os primeiros reis Songai, foram
os representantes a ocidente do processo de constituição de estados que se iniciou primeiramente junto do
Lago Chade. Não é muito difícil imaginar os jovens cavaleiros nobres de povos como os Zaghawas ou os
Bulalas a avançarem para oeste a fim de criarem novos estados em seu próprio proveito. Talvez as
políticas pagãs dos Haúças pré-uangaras tivessem nascido deste modo, e só depois os reinos de Diamare e
Dendi, seguindo-se-lhes a repetição do ciclo mais a oeste.

Se isto foi possível a oeste do Kanem, aconteceu do mesmo modo na zona de passagem para sudoeste que
se prolonga até à costa. Foi isso o que realmente sucedeu, e a este respeito a lenda de Kisra fornece um
modelo útil (embora não seja único). Sugere ela que o ciclo de expansão e conquista, seguido da
organização dos reinos, e de novo da expansão, conquista e organização política noutras regiões, deve ter
continuado através da África ocidental a partir da região do Lago Chade e dos Haúças em duas direcções
principais. Uma é a linha já considerada, que incluíu também, muito provavelmente, os reinos de Borgu
(em cuja região se diz que morreu Kisra), logo a sul de Diamare. A outra dirigiu-se mais para sul, a partir
dos Haúças e de Borgu, compreendendo o estado de Jukun no Benué, a que os Haúças chamavam
Kuararafa, o reino Nupe mesmo a norte da confluência do Benué e do Níger, o reino Igala a sul de Nupe,
os reinos iorubas a sudoeste de Nupe e a sul de Borgu, o reino de Benim a leste dos iorubas, e os reinos
dos Ajas a oeste daqueles. Para lá dos Ajas, que são um ramo dos Euaes, ficaram os pequenos reinos dos
Adangmes e Gãs na zona sudoeste de Gana.

Os chefes destes reinos e de muitos outros, consideravam o leste ou o nordeste (no caso de Benim, a terra
dos Ioruba) como a direcção por onde tinham vindo os seus antepassados. Nalguns casos, pouco mais é
possível afirmar. Os Jukuns sobrevivem hoje como um pequeno grupo com pouco interesse pelo passado
do império outrora controlaram a norte da fronteira entre os Haúças e Bornu. Conhece-se o que hoje resta
da sua história, principalmente através dos relatos dos territórios haúças, em especial Kano e Bornu, aos
quais os Jukuns provavelmente pagavam tributo por volta dos séculos xv e XVI. No século XVII eles
foram no entanto uma potência militar temível que conseguiu desvastar tanto o território dos Haúças
como o de Bornu. O declínio posterior e a desintegração do seu estado devem estar relacionados com a
chegada dos Fulas à região no século XVIII. O Nupe foi realmente conquistado pelos Fulas, no século
XIX, em seguida a um período de guerra civil e, em consequência disso, pouco se sabe hoje da sua antiga
história. Existe ainda uma outra dificuldade relativa ao aparecimento da nova dinastia de Igala por volta
de 1500, que praticamente extinguiu na totalidade as tradições da história de Nupe anterior a essa época.
Mesmo o passado de Igala é hoje visto em termos de influências políticas sucessivas com origem nos
Iorubas, no Benim e nos Jukuns, sendo difícil, se não impossível, estabelecer um quadro cronológico
satisfatório para essa história.

Há, com efeito, muito que dizer acerca do facto de os reinos de Jukun, Nupe, loruba e Benim, e ainda
talvez os reinos de Borgu, terem seguido um processo político comum, ou uma série de processos, mas é
só entre os Iorubas e no Benim que é possível obter uma noção clara do que se passou. No caso do
Benim, a primeira explicação para este facto é a de que conservou o seu reino intacto até ao fim do século
XIX, tendo sido efectuado um valioso registo da sua tradição por um dos seus chefes, J. U. Egharevba. A
partir de 1480, o reino esteve em contacto com os europeus e podem utilizar-se os seus relatos para
comprovar a história tradicional desde aquela época. No que respeita aos Iorubas, enquanto estiveram
ocupados numa série de guerras intestinas destruidoras, durante quase todo o século XIX, foram
desenvolvendo um sentido bastante forte de identidade cultural. Foram auxiliados nisso, de modo algo
paradoxal, pelo facto de estarem abertos às missões cristãs e através delas à educação ocidental, desde a
década de 1840. A base de qualquer investigação sobre o passado ioruba é com efeito uma História
escrita por um pastor ioruba, conhecido como Reverendo Samuel Johnson, em 1897. Além disso, dispõe-
se hoje de um conjunto razoável de vestígios arqueológicos tanto para os Iorubas como para o Benim.

O actual interesse sobre o Benim e a sua história começou de facto com o grande número de peças da sua
arte, especialmente as modeladas em latão, mas que inclui igualmente alguns trabalhos notáveis em
marfim, que foram pilhados da cidade de Benim depois da expedição inglesa em 1897. Pouco depois, em
1910, o etnógrafo alemão Leo Frobenius revelava pela primeira vez ao mundo exterior a existência de
uma tradição ainda mais requintada de escultura em latão e terracota de Ife, segundo a tradição a cidade
onde os Iorubas se dispersaram para fundar os seus reinos. O conhecimento desta arte aumentou
consideravelmente mais tarde graças à investigação arqueológica. Uma grande parte das peças
descobertas em Ife são representações em tamanho natural de cabeças de antigos reis e rainhas num estilo
de beleza invulgar e de um naturalismo até então insuspeitado entre artistas africanos. Algumas das peças
de latão de Benim têm a forma de representação de cabeças reais, inicialmente também naturalistas, mas
progressivamente estilizadas, mas uma das suas principais realizações é a grande série de placas de latão
modelado (de que se conhecem cerca de mil), que representam cenas da história e da lenda de Benim, e
que outrora adornavam o palácio real na capital do reino.

A corrente naturalista na arte de Ife e do Benim, juntamente com o alto grau de apuro técnico necessário
para produzir trabalhos de latão tão perfeitos pelo processo de moldes de cera, levou de imediato os
europeus a supor que para ela contribuira alguma influência não- -européia. Se assim aconteceu, deve ter
sido em tempos muito recuados, dado que pelo menos algumas placas do Benim foram vistas já em
meados do século XVII, altura em que um escritor holandês se referiu ao palácio do rei como tendo
«pilares de madeira incrustada com cobre, onde representavam as suas vitórias», enquanto a tradição do
Benim afirma que a arte de modelar latão foi trazida de Ife para o Benim no tempo de um rei que
governou provavelmente cerca de um século antes da chegada dos Portugueses.

A pesquisa arqueológica recente confirmou a antiguidade das culturas que produziram a arte de Ife e ào
Benim, e demonstrou igual- mente que não houve necessidade de influência externa para que esse
trabalho se realizasse. O actual ponto de vista é o de que a escultura do Ife e do Benim terá evoluído
naturalmente a partir da escultura da cultura de Nok, que produziu belas figurinhas de terracota, e que
data do período que vai de 900 a. C. a 200 d. C. A área onde foram encontrados os objectos da cultura de
Nok estende-se desde a zona ocidental do território haúça através do Benué até às terras dos Jukuns,
enquanto o trabalho em latão da tradição de Ife-Benim é também conhecido em Nupe e Igala.

A única inovação vinda do exterior deve ter sido a técnica de moldes de cera para ligas de cobre. Há, no
entanto, várias razões para este facto não ser tão significativo como se supunha. Em primeiro lugar, a
escultura em metal é apenas um aspecto secundário. Naquela região produziram-se óptimas obras de
terracota, pedra e marfim, e ainda hoje se fazem belas peças em madeira e cabaça, materiais esses que não
são de natureza a sobreviver como vestígios arqueológicos. Em segundo lugar, a cultura de Nok constitui
uma prova em como a técnica metalúrgica do ferro, e ainda a do estanho, eram praticadas já há muito
tempo nessa região. O problema principal com o cobre e as suas ligas deve ter sido o de obter quantidades
suficientes desse metal.

As zonas de trabalho do cobre mais conhecidas em termos históricos situam-se em Air e no Baixo Congo,
a uma distância de cerca de 1300 kms uma da outra, mas a produção na primeira parece ter sido bastante
fraca, e de qualquer modo o cobre usado para modelar as esculturas revestia invariavelmente a forma de
latão ou bronze, em que o cobre entra numa liga de outros metais como o zinco, o estanho e o chumbo. É
praticamente tido como certo que pelo menos o latão não era fabricado na África subsariana, pelo que
surge com bastante força a possibilidade de grande parte do metal ter vindo de fora, através do comércio
transariano e, eventualmente, a partir de 1480, por via do comércio marítimo europeu, sabendo-se que
ambos transportavam grandes quantidades de ligas de cobre. No que respeita ao processo de fundição
com moldes de cera, ele pode ter sido empregue em Nok para o estanho, e além disso foi usado
freqüentemente para o latão ou bronze no leste da Guiné, desde as terras dos Acanes a ocidente (os seus
trabalhos mais famosos são pequenos pesos esculpidos com os quais pesavam o ouro em pó) até ao
Camarões a leste. As esculturas de metal mais antigas até agora identificadas nesta região são os
magníficos bronzes exumados em Igbo-Ukwu, no leste da Nigéria, que foram datados do século IX d. C.
e pertencem acidentalmente a um estilo que parece ser totalmente diferente da tradição de Ife-Benim.

O requinte da arte de Ife e do Benim sugere que ela deve ter estado associada a funções reais ou
sacerdotais numa sociedade rica e altamente organizada. Afirmou-se já que as placas do Benim
decoraram outrora o palácio real; sabe-se ainda que as cabeças em latão eram utilizadas nos altares dos
antepassados no palácio, enquanto a finalidade mais provável das cabeças naturalistas de Ife seria a de
efígies usadas nos funerais de estado. Visitantes holandeses do século XVII acharam justo comparar a
capital do Benim com as principais cidades holandesas desse tempo, tais como Amesterdão e Harlem. A
arqueologia moderna demonstrou que era uma cidade muralhada com perto de 2,5 quilómetros quadrados
e um conjunto de cercas que se estendiam pelos campos circundantes, por vezes, numa área de vários
quilómetros. Demonstrou ainda que por volta do século XIII existia já no local uma cultura equivalente à
que os visitantes do século XVII observaram.

Este facto permite confirmar à evidência a conclusão, obtida através da lista de reis e conservada pela
tradição do Benim, sobre as origens da dinastia derrotada pelos Ingleses nos finais do século XIX, que
podem recuar a cerca de 1300 ou 1200 d. C. A tradição do Benim afirma, contudo, que não só o trabalho
em latão foi introduzido no Benim a partir de Ife depois de essa dinastia se ter estabelecido (ao que parece
com base num reino ou reinos ainda mais antigos), como ainda afirma que essa dinastia foi iniciada por
um princípe de Ife, Oranmiyan. Em tempos mais recentes, os reis do Benim enviavam sem dúvida
mensageiros a Ife para confirmação da sua entronização e recebiam mensagens de Ife, enquanto a
tradição revela que inicialmente as cabeças dos reis de Benim eram enviadas para Ife, a fim de aí serem
enterradas.

As tradições iorubas mais fidedignas hoje em dia, não provêm de Ife mas de Oio, que foi o estado ioruba
mais importante dos séculos XVII e XVIII, e cujas tradições foram preservadas na grande História dos
Iorubas de Johnson. No entanto, a tradição de Oio confirma sem dúvida o ponto de vista do Benim sobre
as suas relações com Ife. Oranmiyan aparece nela como Oranyan, neto do fundador de Ife, Oduduwa,
considerado também como o primeiro rei de Oio. Mais adiante afirma-se que todos os outros reinos
iorubas foram fundados por descendentes de Oduduwa vindos de Ife.

Estes primeiros reis iorubas são evidentemente figuras lendárias mais divinas que humanas, e o primeiro
rei histórico de Oio pode ter sido Aganju, segundo a tradição neto de Oranyan, que terá provavelmente
reinado antes dos finais do século xv. No entanto, não parecem existir motivos para contestar o conceito
de que muitas outras dinastias da região, inclusive a do Benim, foram criação de emigrantes de Ife, e não
subsistem hoje dúvidas acerca do facto de a actual cidade de Ife ser mais antiga do que qualquer outra no
Benim, e de ela ter na realidade uma antiguidade considerável. Tanto as esculturas de terracota como as
de latão têm sido aí encontradas num contexto que se pode datar dos séculos XI ou XII, enquanto a
escavação de covas consideradas como local funerário das cabeças dos reis de Benim, revelou datas
correspondentes ao IX e X séculos d. C. Refira-se, aliás, que se sabe agora da existência de uma
importante povoação no local do primeiro núcleo de Oio, por alturas de 1100.
E difícil rejeitar a conclusão de que o Benim e os reinos iorubas foram criados por grupos de imigrantes
que, vindos do norte e nordeste, atingiram as terras de comunidades agrícolas e metalúrgicas como as da
antiga cultUra de Nok, se tivermos em conta uma versão da lenda de Oduduwa que conta a história de
uma imigração da Arábia via Bornu e país dos Haúças que é uma reminiscência da história de Kisra. O
facto de existir uma tradição à parte sobre Oduduwa, que ê um mito da sua descida do céu a fim de criar o
mundo em Ife, constitui um certo reforço àquele ponto de vista. Ele parece ser um reflexo da crença de
que existiram uma sociedade e uma cultura iorubas antes da formação dos reinos que perduraram até ao
século XIX. A constituição de novos reinos por invasores tem sido com efeito apontada como um
processo que ocorreu muito antes no Kanem/Bornu e entre os Haúças, e talvez bastante mais tarde na
bacia do Volta, e parece correcto aceitar que ele se verificou igualmente em Borgu, Nupe e entre os
Jukuns e os Iagalas.

Tanto a sul como a norte, o sucesso dos recém-chegados pode estar talvez relacionado com a posse de
cavalaria. Shango, o deus das guerras dos lorubas, também representado como filho do Oranyan, é
nitidamente um cavaleiro. Os exércitos de Oio que no século XVII estenderam o seu poder para sudoeste,
através das planícies limítrofes das florestas até aos territórios dos Ajas, junto da costa no Daomé, foram
ao que parece compostos essencialmente por cavalaria. É certo que atualmente os Iorubas são muitas
vezes considerados habitantes da floresta. Mas muitos deles vivem ainda nas savanas do norte; além de
que, a antiga história de Oio revela uma luta contínua pelo poder contra os outros reinos da savana, Borgu
e Nupe: e a actual concentração de população na floresta pode ser parcialmente uma conseqüência da
pressão dos Fulas durante o século XIX. É certo que lfe se situa na floresta e os recém-chegados podem
ter sido atraídos para ela por se tratar de um importante centro de culto dos povos que estavam prestes a
dominar. Por outro lado, o Benim situa-se mesmo na floresta onde, além de não servirem para a guerra, os
cavalos dificilmente sobrevivem, apesar de que os reis e os nobres sempre insistiam em aparecer em
público a cavalo (como o testemunham as placas de latão e os visitantes dos séculos XVII e XVIII).

Outra característica dos recém-chegados consistia em serem construtores de cidades. O tamanho e a
complexidade da cidade de Benim já foram mencionados, enquanto os Iorubas actualmente habitam
especificamente só em cidades, a partir de onde os camponeses percorrem grandes distâncias para atingir
os seus campos. Essas cidades tinham muralhas e eram bastante populosas. O perímetro da cerca exterior
em Ife, por exemplo, tinha perto de 15km, enquanto a capital de Oio, antes do século XIX, deve ter tido
muralhas com cerca de 25 km de extensão máxima. Esse facto recorda a situação no país dos Haúças,
onde as cercas de Keno e Katsina por exemplo, tinham ambas à roda de 22 Km. Há no entanto, indícios
em como nem toda a área interior das muralhas era ocupada por edifícios. Isso acontecia sem dúvida entre
os Haúças no século XIX quando, por exemplo, o viajante Henry Barth calculou que cerca de 30000
pessoas ocupariam apenas 1/3 do espaço cercado em Kano, e que em Katsina cerca de 8000 pessoas
habitariam apenas 1/6 da área interior das muralhas. Apesar disso, a questão das muralhas das cidades
desta região é muito complexa, como já o demonstraram os arqueólogos tanto em Ife como no Benim, e
parece que a construção de muralhas terá proporcionado uma protecção suficientemente ampla para todos
os súbditos do rei e seus animais por algum tempo em caso de necessidade. Se assim aconteceu, talvez se
possa encontrar a explicação das cidades muralhadas que nos primeiros tempos seriam santuários
estabelecidos pelos recém-chegados num país potencialmente hostil ou, em alternativa, refúgios
construídos pelos povos invadidos.

Sabe-se que existem numerosos vestígios de fortificação em Tado e Nuatsi, que se situam numa linha
que, a partir de Ketu, o estado ioruba mais ocidental, se dirige para oeste paralelamente ao mar e a cerca
de 96 Km de distância dele. As tradições dos Euaes e dos Gãs referem-se a este eixo por onde os seus
antepassados terão emigrado, enquanto Tado é referenciada como o ponto de onde os povos ajas
dispersaram em direcção à região que actualmente ocupam, e Nuatsi como o centro de dispersão dos
Euaes. Parece portanto que o pro- cesso de constituição de estados continuou para oeste a partir dos
Iorubas ao longo desse eixo. Talvez se tratasse de uma via utilizada para refúgio dos governantes que
tinham sido destituídos pelos chefes iorubas, dado que a oeste dessa linha os primeiros chefes gãs
parecem ter sido reis-sacerdotes de comunidades muito pequenas, enquanto a leste os reis ajas terão
estado sujeitos em certa medida à influência ioruba (embora possa ter sido uma simples consequência da
expansão de Oio durante os séculos XVII e XVIII). As fortificações não foram ainda escavadas por
arqueólogos, mas a dispersão dos Ajas a partir de Tado é tradicionalmente localizada por volta dos
meados do século XVI, e a chegada dos Gãs às planícies de Acra deve ter ocorrido ao mesmo tempo ou
um pouco mais cedo.

O processo de formação do estado da parte oriental da Guiné tem sido encarado essencialmente em
termos de ocupação militar e de motivação política. As provas disponíveis não permitem na realidade
elaborar qualquer interpretação económica global do tipo da que foi proposta para a Guiné ocidental. Isso
talvez não seja surpreendente. Como se disse já, a origem dos estados no Sudão central parece ter sido
muito menos influenciada por razões comerciais do que o foi mais a oeste, enquanto o comércio a longa-
distância no Sudão central, e daí até à Guiné oriental, parece ter sido estimulado em grande parte pela
influência dos comerciantes mandés que alcançaram os reinos haúças vindos de oeste no século XIV. Mas
se aceitarmos a hipótese de que os reinos da Guiné oriental historicamente conhecidos, surgiram em
consequência da saída contínua de pequenos grupos que abandonavam os reinos inicialmente criados,
para se lançarem na conquista, teremos de aceitar a evidência de que as vantagens económicas,
nomeadamente o desejo de conquistar e explorar novos territórios em proveito próprio, constituíram
poderosos incentivos para esses grupos. Se tivermos em conta a tradição e alguma lógica, as histórias das
migrações de Kisra e de outros conquistadores podiam ser mais uma prova do incremento das rotas
comerciais onde os mercadores difundiam essas histórias, do que das verdadeiras conquistas. De qualquer
modo, se recordarmos a natureza das interacções ocorridas mais a norte, entre o Sara e o Sudão, e a
antiguidade da cultura de Nok, muitas energias dos conquistadores devem ter sido votadas à conquista,
exploração e desenvolvimento dos primeiros reinos, os quais terão possuído as suas próprias redes
comerciais. Uma vez que a memória destes reinos foi muito apagada pelas conquistas, deve ser difícil
descobrir provas históricas para sus- tentar um tal ponto de vista. Mas ele parece confirmar-se, por
exemplo, ao ter em conta que os antepassados dos reis mossi-dagomba se deslocaram em direcção
inversa, no mesmo eixo que os comerciantes uangara-mandé utilizaram para atingir as terras dos Haúças.
Embora a correlação cronológica seja aqui obscura, pode no entanto afirmar-se que a riqueza das cidades
da curva do Níger estava então a ser prejudicada pela importante actividade dos Mossis.

Por si só, os vestígios artísticos são suficientes para demonstrar que alguns dos novos reinos dotaram os
seus governantes de uma riqueza considerável. Ela era em grande parte proveniente sem dúvida do
tributo, mas além disso também do comércio. O latão e o bronze utilizados em Ife e no Benim, assim
como nos territórios acanes, deviam ter sido trazidos de outra região, provavelmente em troca de alguns
produtos locais. É escasso o nosso conhecimento acerca do antigo comércio da Guiné oriental e dos seus
métodos, mas existem cada vez mais provas de que ele deve ter sido volumoso.

Parece ser um contributo importante para esta questão a escavação realizada por Thurstan Shaw em Igbo-
Ukwu, assim como a sua datação aproximada do século IX, conforme foi já referido. Os achados incluem
a sepultura de um homem que só pode ter sido um rico monarca ou um rei-sacerdote, e existem indícios
importantes de actividade comercial. Igolo-Ukwu situa-se no país dos Ibos-orientais, onde se pensava não
existir qualquer tradição monárquica e estar localizado fora de qualquer sistema de comércio a longa
distância até à chegada dos comerciantes europeus ao litoral. Em tais condições, era difícil perceber como
tinha sido acumulada tanta riqueza. Contudo, trabalhos recentes revelaram que, antes da chegada dos
europeus, as comunidades do delta do Níger e das enseadas a leste do Camarões enviavam sal e peixe
seco para norte em troca de produtos agrícolas, e que existia ainda um tráfico, no sentido este-oeste até ao
sul do país ioruba, de alguns produtos artes anais especializados.

Este facto é comprovado pelas descrições dos primeiros comerciantes portugueses no litoral no século
XVI. OS Portugueses de então não foram grandes inovadores do comércio africano, pelo simples facto de
terem poucos produtos seus para exportar que interessassem aos compradores africanos. A sua prática
consistiu geralmente em apoderar-se do comércio local e explorá-lo em seu próprio proveito. A sua
principal preocupação foi, como se disse, a de obter ouro na Costa do Ouro (isto é, no litoral do actual
Gana). De certo modo isso foi fácil visto que existia já uma activa comunidade de comerciantes entre os
Acanes que viviam próximo no litoral (Diulas, Acanes e outros mercadores do interior apareciam na costa
já por volta de 1500). Mas essa comunidade tinha de ser abastecida das mercadorias que pretendia
comprar. De início, os Portugueses importavam, entre outras coisas, enormes quantidades de tecidos
marroquinos que provavelmente já costumavam chegar aos Acanes em pequenas quantidades por terra.
No entanto, em breve descobriram que podiam fornecer as mercadorias pretendidas na Costa do Ouro a
partir de uma região mais próxima. Inicialmente os Portugueses procuravam-nas principalmente no
Benim, não porque aqui houvesse grande produção, mas porque existia um sistema comercial bem
organizado e facilmente acessível por mar. (Mais tarde este sistema esteve sujeito a um controlo régio no
interesse do monarca, a tal ponto que os Portugueses preferiram comerciar com os Itsekiris e Ijaus fora do
controlo do Benim.) Uma das principais importações dos Portugueses para o Benim e territórios
adjacentes foram utensílios de cobre, e entre as principais exportações para a Costa do Ouro
encontravam-se os tecidos dos lombas, missangas (algumas talvez de Ife, que produzia nessa altura vidro,
e outras missangas de pedra provavelmente do Alto Benué), e escravos.

Subsistem portanto poucas dúvidas acerca do comércio como factor de acumulação de riqueza e do
desenvolvimento do poder monárquico na Guiné oriental, ainda que tenha exercido aqui uma influência
menos decisiva do que na Guiné ocidental. É ainda possível que a rede comercial do Benim e da região
do delta do Níger possa ter alcançado a sul a foz do Congo, que seria uma boa fonte de cobre, e para onde
se diz que navegaram as canoas dos Fantes por volta do século XVII.




O Nordeste e a África Banto

[...] Existem [...] dois factores que condicionam o núcleo banto nesta área imensa. um deles foi a força
numérica e cultural dos povos que habitavam já os territórios para onde os Bantos se deslocavam. Em
segundo lugar, temos o factor de ordem geográfica: os Bantos não estavam nada interessados em
colonizar terras onde a agricultura não assegurava a subsistência, o que era corrente, em virtude de um
índice de pluviosidade anual inadequado ou insuficiente.
Na maior parte da imensa área para onde os Bantos se deslocavam, os habitantes seriam provavelmente
falantes da língua khoisan, cujos sobreviventes são os Khoikhoi (ou «Hotentotes») de pequena estatura e
pele amarelada e os bosquímanos Sano A distinção entre ambos situa-se basicamente ao nível cultural. Os
Khoikhoi são pastores e dominam as técnicas da olaria, cestaria, tecelagem e metalurgia. Os que restaram
dos San são caçadores-recolectores nómadas na Idade da Pedra, e é possível que fosse genericamente este
o estado cultural dos Khoisans quando os Bantos entraram em cena. Assim sendo, a sua densidade
populacional teria apresentado valores muito inferiores aos alcançados pelos Bantos que se dedicavam à
agricultura, tendo como conseqüência a sua incapacidade de resistir ao avanço destes últimos. Terão sido
exterminados, influenciados ou então assimilados pela sociedade e pela cultura dos grupos bantos, ou
empurrados para zonas que não interessavam aos Bantos para efeitos de constituição de núcleos. A maior
parte destes situava-se na região cada vez mais árida no extremo sudoeste do continente que culmina no
deserto da Namíbia e no deserto vizinho do Calaári. Hoje em dia, quase todos os sobre- viventes se
encontram distribuídos em redor das franjas desta região seca, e é no próprio Calaári que os poucos San
que sobreviveram caçam e recolhem. Outras e maiores comunidades de caçadores-recolectores de
pequena estatura, ainda existentes, subsistem num outro meio ambiente geográfico difícil, a floresta da
bacia do Congo, e em particular a floresta do alto Ituri, muito húmida e relativamente fria, no nordeste do
Zaire. São normalmente designados por pigmeus e pigmóides. Todavia, não sabemos se os seus
antepassados teriam sido na origem falantes khoisan, dado hoje todos estes grupos de pequena estatura
que vivem nas florestas falarem as línguas das comunidades banto com as quais vivem em relação de
simbiose ou subordinação.

A aridez da ponta sudoeste do continente é uma conseqüência extrema do facto de a maior parte da
precipitação na África meridional vir, no Verão, do Oceano Indico. A sul dos 20° de latitude S, mais de
metade das terras altas do interior recebe em média menos de 400 mm de precipitação por ano, sendo, por
conseguinte, pouco propícias à agricultura. Deste modo, muito embora existam bons vestígios
arqueológicos de que os agricultores da Idade do Ferro haviam atravessado o Limpopo e se começaram a
instalar no Transval, Suazilândia e Natal a partir do séc. IV, o seu subseqüente avanço na África
meridional foi relativamente lento. O gado passou a ter uma importância cada vez maior na sua economia
e sociedade e a colonização centrou-se nas planícies costeiras melhor irrigadas antes de avançar para o
interior. A sedentarização nas terras altas de pastagem da savana só se terá iniciado cerca de 1300, e no
litoral os Bantos podem só ter alcançado o rio Kei próximo do séc. XVI (altura em que dispomos de
fortes indícios da sua presença através das narrativas dos marinheiros portugueses naufragados). A razão
pela qual as línguas banto localizadas mais a sueste terão sofrido uma influência tão significativa do
discurso khoisan reside, sem dúvida, no facto de a sua expansão final registar um processo lento e
experimental por parte de pequenos grupos de pessoas, e grande parte desse avanço se ter processado
através da absorção de muitos dos habitantes que falavam khoisan nas suas próprias estruturas sociais.

No nordeste existia também uma zona seca, uma faixa extensa que se prolongava para sul a partir do
deserto que se estende desde o Lago Turkana (Rudolfo) até ao sul da Somália, e que separava as regiões
planálticas e lacustres a ocidente que tinham sido ocupadas pelos Bantos a partir do litoral oriental que
eles tinham povoado. Mas a aridez não fora o único problema que se pôs aos Bantos dessa região. Se
quiseram avançar mais tiveram de lutar pela posse da terra contra tribos combativas de pastores nómadas
que falavam línguas «nilo-sarianas» ou mesmo «hamíticas».

Atualmente, os tipos étnicos existentes ao longo da fronteira nordeste da área banto apresentam alguma
complexidade. A grande faixa de terra seca que se estende a sul, desde a área do Lago Turkana até ao
centro da Tanzânia através do Quénia, é ocupada essencialmente pelos nilo-sarianos mais meridionais,
que falam as chamadas línguas «nilo- -hamíticas» tais como os pastores massais e a norte deles os
Kipsigis, os Nandis e os Samburus. Contudo, a leste dos Massais do sul existem os restantes grupos que
falam línguas hamíticas ou khoisan, como por exemplo, os Iraqw e os Sandaves. A nordeste dos Massais,
existe um grande prolongamento do território banto ocupado por tribos, como os Kambas e Quicuios, que
devem ter vindo da região litoral a sul da Somália. Para norte e nordeste dos nilo-hamitas vivem outros
nilo-sarianos, os chamados «nilóticos», como os Luos, os Acholis, os Dinkas e os Nuer, cujo território se
prolonga para norte pelo Nilo Branco até à antiga Meroé. Para nordeste situa-se o Corno de África
habitado por povos de línguas afroasiáticas, quer pastores nómadas das planícies áridas como os Somalis
e os Oromos (Galas) de língua cushítica, ou agricultores como os povos de língua semítica que
colonizaram os planaltos etíopes vindos do nordeste do antigo reino de Axum ou os Sidamas de língua
cushítica dos planaltos mais meridionais.

Este é um quadro simplificado da distribuição actual das populações. Seria muito precipitado esboçar
algo acerca da situação existente quando chegaram à região os primeiros Bantos há cerca de dois mil
anos. Todos os vestígios existentes sugerem que durante os dois últimos milénios têm existido fluxos e
refluxos populacionais nesta fronteira nordeste dos Bantos e fora dela; com efeito, esta região africana
tem conhecido, ainda nos últimos quinhentos anos, movimentos de população numa escala e de um tipo
que são talvez únicos na história de África deste período. A própria designação «nilo-hamita» ilustra o
problema. Do ponto de vista lingüístico, ela pouco significa, como vimos. Do ponto de vista cultural, no
entanto, pode indicar aqueles «nilóticos» , isto é povos do Alto Nilo Branco, que se deslocaram para um
território anteriormente ocupado por pastores de língua «hamítica», cuja cultura em parte assimilaram.
Esta interaculturação é, com efeito, típica desta região. Por isso encontram-se indiscriminadamente
sistemas de classes etárias entre alguns Bantos mais a norte, como os Quicuios, alguns povos nilo-
harníticos e nilóticos, e entre os Cushitas do sul (entre os quais se supõe que teve origem o sistema cíclico
de classes etárias *). E ainda provavelmente nesta área que os Bantos obtiveram o primeiro gado, e depois
a técnica de ordenhar, talvez através dos povos cushitas.

[(*) um sistema de classes etárias divide a população masculina em grupos de rapazes, guerreiros e
velhos. Todos os rapazes pertencem, durante um certo tempo, a um determinado grupo; chegado o
momento, todos são formalmente iniciados na condição de guerreiros. Depois de um intervalo de anos,
esse grupo será classificado como um grupo de velhos, por meio de uma cerimónia (ou talvez como de
velhos mais novos), elegíveis para o casamento e para responsáveis pelo governo, enquanto o grupo mais
jovem entre eles será designado como o dos guerreiros do país.].




O que talvez se possa afirmar com certeza é que no primeiro milénio os Bantos estavam a avançar para
norte (evitando, no entanto, a faixa de terra seca desde o Lago Turkana até à Tanzânia central), iam
absorvendo caçadores e recolectores da Idade da Pedra e ainda assimilando ou empurrando para norte os
povos de língua cushítica que possuíam gado e alguma agricultura. No final do primeiro milénio, a
situação tomou, no entanto, um rumo diferente. Os povos cushíticos no Como de África começaram a
dedicar-se à pastorícia extensiva. A expansão dos pastores somalis para oés-sudoeste terá desencadeado
um amplo movimento dos Oromos, cuja principal linha contornava, da esquerda para a direita, o extremo
sul das terras altas da Etiópia, e que viria culminar com a invasão destes planaltos, no séc. XVI, tanto de
sul como de oeste. Os Oromos haviam desalojado também os Bantos no litoral mais a norte, fazendo com
que avançassem para oeste em direcção às faldas florestadas do Monte Quénia. Mas a mudança que mais
afectou os Bantos deu-se cerca de 700 d. C., quando os pastores nilotas e os seus rebanhos começaram a
sua deslocação para oeste do Lago Turkana. Alguns destes nilotas iriam acabar por conquistar e dominar
as monarquias bantos do norte do Lago Vitória; outros, em maior número, instalaram-se e misturaram-se
com povos falantes de banto detentores de uma organização política inferior, na parte oriental do Lago,
tendo como resultado povos semelhantes aos modernos Luos. Em termos mais genéricos, a influência
nilótica parece ter provocado mudanças na sociedade e na economia dos povos de língua banto que
melhor os adequavam à ocupação de terras mais áridas do que aquelas que haviam preferido inicialmente
para a instalação dos seus núcleos. Duas das mudanças mais óbvias foram uma maior incidência na
criação de gado leiteiro e a dispersão da população humana, em vez da sua concentração, em grandes
aldeias próximas de rios e lagos. Tais mudanças tiveram lugar em zonas tão a sul como os rios Zambeze e
Limpopo, já nos sécs. X e XI e, a breve trecho, acabaram por facilitar a ocupação de terras mais áridas
ainda m.ais para sul.

No entanto, seria errado tentarmos compreender o que sucedeu no extremo nordeste, a partir de cerca de
700 d. C., apenas tendo em conta as reacções dos povos predominantemente pastoris, como os cushíticos
e os nilo-sarianos, às pressões exercidas anteriormente na região pela expansão dos agricultores banto.
Não devemos esquecer que ao longo desses tempos, o litoral do Mar Vermelho e do Oceano Indico esteve
aberto ao comércio e ao povoamento estrangeiro, e que os reinos constituídos pela primeira colonização
do sul da Arábia e sob a influência do Cristianismo existiam ainda nos planaltos do norte da Etiópia. Por
volta do século XIV, se não antes, existiam também reinos organizados entre os Sidamas no sudoeste do
planalto e entre os Bantos a norte e oeste do Lago Vitória.

Depois do século VII, as relações exteriores com o nordeste africano foram um monopólio dos árabes
muçulmanos, oriundos na sua maior parte do Mar Vermelho e do litoral da Arábia, no Golfo Pérsico, mas
que mantinham relações com o resto do mundo muçulmano desde o Egipto até à Índia e ainda mais longe.
Inicialmente, as relações que se desenvolveram entre os muçulmanos árabes que se instalaram nas costas
africanas do Mar Vermelho e do Golfo de Aden e no reino cristão da Etiópia, que tivera origem no antigo
Axum, foram relativamente amistosas. Os cristãos eram «o povo do Livro», o rei cristão de Axum fora
tradicionalmente mais cordial com Maomé do que a maioria dos outros potentados, e os Axumitas eram
considerados como sendo de origem sul-arábica. Não foi feita qualquer tentativa, ao que parece, para
destruir o reino cristão, que na realidade conseguiu enviar ao Egipto um pedido de bispos monofisistas
para dirigirem a sua igreja (e continuou a fazê-lo de facto até ao século xx). A ascensão do Islão e o seu
poderio no Mar Vermelho isolaram inevitavelmente o reino etíope das relações comerciais e culturais
com o mundo grego e mediterrânico que tinham tido uma importância vital no seu primitivo
desenvolvimento. Para sobreviver, teve de voltar-se para África; para resistir, foi preciso avançar para o
interior novamente e conquistar e aculturar os povos pagãos africanos, na sua maior parte cushíticos. Foi
esta a principal preocupação dos reis, soldados e sacerdotes etíopes a partir do século XI até ao século
XIII, «a idade das trevas» da história etíope.

Inicialmente, a Etiópia cristã entrou em crise, mas a partir do fim do século XIII recomeçou a
desenvolver-se sob a dinastia salomónica restaurada (A dinastia cultivou a lenda de que o primeiro rei da
Etiópia era o produto de uma aliança entre Salomão e a Rainha de Sabá), que consolidou o conceito de
um reino cristão africano com a sua tradição própria e uma literatura em língua ge'ez. Mas o ge'ez era
então uma língua clássica e clerical; a língua quotidiana do reino era o amárico, uma língua semítica
derivada do ge'ez mas com contributos cushíticos. O centro do reino situava-se na província de Amara,
junto ao Lago Tana, a cerca de 320 quilómetros a sul de Axum, em Tigre que era então uma província
fronteiriça enquanto os limites meridionais do reino se estendiam até à curva do rio Abay (Nilo Azul) que
corre para sul a partir do Lago Tana.

No litoral eritreu, as colónias de mercadores e colonos árabes foram convertendo ao Islamismo as tribos
locais de cushitas - Sahos, Afares, Somalis - e constituíram reinos muçulmanos com tendências
expansionistas. A Etiópia cristã, embora dependente dos muçulmanos para comerciar, foi capaz de
resistir-lhes politicamente. A rota principal para o avanço do comércio e do Islamismo para o interior
situou-se, assim, mais a sul, através dos planaltos meridionais. O avanço foi dirigido a partir de Zeila, um
porto do Mar Vermelho que era a capital de Ifat, o mais próspero dos sultanatos muçulmanos. A cidade-
estado de Harar tornou-se no interior uma base permanente para os comerciantes muçulmanos, e além
disso a busca de fontes de ouro, marfim e escravos levou-os a Xoa e ao território dos Sidamas, onde
foram organizados novos estados muçulmanos como Hadya e Bali.

Ifat veio com efeito a reanimar a velha rota comercial que outrora ligara Meroé ao mar, e graças à qual
Meroé alcançara a prosperidade. Naturalmente, a monarquia etíope recentemente consolidada reagiu
contra este crescimento do poderio muçulmano. A partir do reinado de Amda Syon (1314-1344), o grande
herói da dinastia restaurada, foram dirigidas várias guerras contra Ifat e os reinos muçulmanos do interior.
O domínio político dos muçulmanos no interior para lá de Harar enfraqueceu, e mesmo Ifat foi obrigado a
pagar tributo durante algum tempo. Contudo, os muçulmanos deslocaram a sua base para Adal, um pouco
mais a leste, e continuaram a comerciar com o interior embora por uma rota mais a sul, através de uma
região baixa onde os soldados etíopes não gostavam de se aventurar. No século XVI, quando a
constituição do poderio naval dos Turcos otomanos no Mar Vermelho proporcionou aos muçulmanos um
fornecimento constante de armas de fogo, o equilíbrio do poder alterou-se novamente. Ahmad ibn
lbrahim Gran (1507-42), de Adal, restaurou o império muçulmano no interior e ameaçou devastar a
própria Etiópia.

O reino cristão só foi provavelmente salvo da destruição pelo oportuno aparecimento, em 1541, após
alguns anos de embaixadas de e para Portugal, de uma pequena mas bem armada e disciplinada força
expedicionária de mosqueteiros portugueses. Em 1542, depois de uma série de duros reencontros que
provocaram grandes baixas, os sobreviventes portugueses juntaram-se aos Etíopes para uma grande
batalha na qual o exército de Adal foi desbaratado e o próprio Gran foi morto. Pouco tempo depois,
começaram a avançar hordas de pagãos oromos através da via de comunicação com o interior, o que
impediu qualquer outra ameaça da parte de Adal. Mas os Oromos constituíram uma ameaça para a
Etiópia cristã muito mais insidiosa e difícil de solucionar do que os exércitos de Adal. Os seus pastores
começaram a avançar em massa para os planaltos numa frente que se prolongava de sudoeste para oeste.
Principiava, assim, a desmoronar-se a tradição da monarquia cristã centralizada e ainda do modo de vida
agrícola que constitui a a sua base, e três séculos passaram antes de a ameaça dos Oromos ser sustida.

Os perigos externos e os problemas internos com que o estado e a igreja cristã da Etiópia se defrontaram a
partir do século VII foram tantos que não deve ter havido grande oportunidade para o reino exercer uma
influência muito determinante sobre os seus vizinhos negros a oeste e a sul. No caso de alguma influência
significativa ter atingido os povos negros do Vale do Nilo e da região dos Grandes Lagos a partir do
planalto etíope, o mais provável é que ela proviesse dos reinos que se constituíram entre os Sidamas.
Estes foram essencialmente povos agricultores da língua cushítica dos planaltos do sul que tinham evitado
a influência e a colonização semítica que conduzira primeiro ao aparecimento de Axum, depois da
monarquia cristã etíope nos planaltos do norte. Pouco se sabe da sua história antes da chegada dos
comerciantes muçulmanos de Zeila, que provocou a incorporação dos Sidamas do norte e do leste nos
estados muçulmanos de Bali e Hadya. Contudo, as guerras de Amda Syon e dos seus sucessores
impediram a sua islamização efectiva e de facto isso levou-os a uma conversão nominal ao Cristianismo.

No extremo sudoeste, para lá do rio Omo, os povos sidamas edificaram um certo número de pequenos
reinos que, embora tendo contactos com os comerciantes de Zeila, parecem ter evitado consideravelmente
as influências muçulmana e cristã, tendo-se conservado essencialmente pagãos. É obscura a origem
desses reinos. As tradições existentes no reino melhor conhecido de Kaffa (os outros eram os de Jimma,
Janjero e Enaryea) não se referem à monarquia anterior aos anos de 1400. Indicam, sim, que ela foi criada
por vagas de nobres imigrantes vindos do norte que conquistaram e organizaram os povos autóctones,
alguns dos quais podem ter sido negros nilóticos. Mas esta explicação da origem dos reinos pode reflectir
a dominação posterior da Etiópia no século XIV. É possível que a tradição dos Sidamas ocidentais sobre a
monarquia seja bastante anterior ao século xv. Os antigos textos árabes e etíopes afirmam que, no século
X, a Etiópia cristã estava a ser ameaçada por ataques de um povo governado por uma rainha. uma das
interpretações do nome dado a este povo, Hamuia (que é, por outro lado, desconhecido), situá-lo-ia no
país dos Sidamas ou próximo dele, a sul do rio Abay. A menção a uma rainha regente é o resultado de
uma tradição, assinalada nos Actos dos Apóstolos, de que Meroé nos últimos tempos era governada por
rainhas chamadas Candácias. Contudo, a origem desta tradição é, sem dúvida, a de que, entre 160 a. C. e
15 d. C., cinco dos onze governantes de Kush terão sido mulheres, enquanto candácia é uma palavra
meroítica que significa «rainha» ou «rainha-mãe» (sendo desse modo um título e não um nome).

Acontece que em 1613-14, um jesuíta português chamado António Fernandes visitou Enarea e Janjero;
também se conhece bastante sobre Kaffa através de pesquisas efectuadas no século xx. Em consequência
disso, é possível reconstituir alguns aspectos dos reinos dos Sidamas antes de terem sido oprimidos pela
conquista dos Oromos que mais tarde se converteram ao Islamismo, ou pelo avanço do reino cristão da
Etiópia nos finais do século XIX. Como complemento da criação de gado, havia uma agricultura próspera
que incluía arados de um tipo semelhante aos do antigo Egipto e a produção de algodão e café assim
como de produtos alimentares. Eram fornecidos tecidos, gado e sal aos negros vizinhos em troca de ouro
(que os próprios Sidamas produziam em pequenas quantidades). Eram usadas pequenas barras de ferro
como moeda. Nesta importante base económica, foram edificados rei- nos onde o estatuto dos reis era
pelo menos semidivino e onde as rainhas-mães desempenhavam um papel importante. Quando o rei
morria, o seu corpo era envolvido em pele de boi e depois da eleição pelo conselho de um dos seus filhos
para o trono, era enterrado com um ritual complicado, que incluía o sacrifício de muitas vacas, num
túmulo escavado.

Alguns costumes e cerimónias ligadas à monarquia nos reinos sida- mas são reminiscências de outros
nalguns dos reinos lacustres bantos, e foi já sugerida também a possibilidade de a monarquia sidama ter
tido alguma relação com a monarquia meroítica. No entanto, ambas as relações são pura especulação, e
não podem constituir uma base sólida para posteriores reflexões sobre a noção básica de que a realeza
divina atingiu os reinos bantos por difusão a partir dos reinos históricos do Vale do Nilo, Egipto e Núbia.
Considerando necessária a idéia da difusão, parece muito mais provável - como referimos no capítulo 2 -
que ela se tenha dado através de um estrato cushítico pré-histórico posto em fuga devido à expansão dos
Bantos.

No entanto, os reinos pagãos dos Si damas desde o início do século xv, ou talvez mesmo desde o século
x, ocupavam decerto uma posição geográfica altamente importante. A comunicação com a Núbia era
possível ao longo do Nilo Azul, com os nilotas ao longo do vale do rio Sobat, com a bacia do Lago
Turkana pelo rio Omo, e através da via de Webi Shibeli com o litoral índico da Somália, onde se
encontravam estabelecidos os comerciantes árabes pelo menos desde o século VII. uma vez que os
Sidamas constituíram sem dúvida uma ligação através da qual o comércio e as influências do mundo do
Mar Vermelho conseguiram alcançar os nilóticos, eles puderam do mesmo modo transmitir a esses povos
idéias que tinham a sua origem próximas quer em Meroé quer em Axum. Tudo isto reveste interesse, pois
é certo que a partir do século XV alguns grupos nilóticos emigraram e fundaram reinos tanto a norte
como a sul do seu país de origem.

Não há, contudo, razão para pensar que os movimentos de povos nilóticos e de outros nilo-sarianos
tenham sido exclusiva ou principalmente devido a influências exercidas através dos reinos sidamas. Foi
anteriormente afirmado que a migração meridional de «nilo-hamitas» pode ter sido desencadeada pela
pressão dos Oromos sobre as terras da bacia do Lago Turkana. Na medida em que as migrações dos Oro-
mos foram provocadas pela expansão da pastorícia somali em direcção ao Corno, é admissível que a
causa desses vastos movimentos populacionais possa ter estado de certo modo ligada ao crescimento do
comércio árabe e à colonização do litoral da Somália a partir do século VII. Se assim foi, então
retomemos de novo a idéia de que a evolução ocorrida na bacia do Mar Vermelho foi a causa principal
dos movimentos populacionais nilóticos. Por outro lado, sem dúvida que estes movimentos devem ter
sido o resultado de factores puramente locais, como o crescimento demográfico ou - como acontece com
qualquer povo de pastores - o aumento dos rebanhos que conduziu ao esgotamento das pastagens locais.

O primeiro movimento importante de população nilótica acerca do qual se sabe algo é o dos Luos, que
começaram a deslocar-se do seu país de origem entre o extremo norte do Lago Turkana e as nascentes do
Sobat um pouco antes do século XVI. A história das migrações dos Luos é complexa e não pode ser
contada aqui detalhadamente. O aspecto importante a reter é que existiam dois tipos perfeitamente
distintos de povoamento luo. Um tinha a forma de deslocações em massa de pastores que se fundiam com
os anteriores habitantes das terras por onde passavam e criavam novos grupos étnicos que falavam
línguas nilóticas. Essa foi, por exemplo, a origem dos actuais povos Acholi e Alua no nordeste do uganda.
Ainda mais a sul, na margem oriental do Lago Vitória, existe um grande grupo de povos que se chamam
Luos e que falam uma língua nilótica, mas que são o resultado da fusão de pastores luo que imigraram e
agricultores bantos da região. Essencialmente, eram todas sociedades sem estado. Mas noutras regiões,
tanto entre os Shilluk, a norte da confluência do Sobat com o Nilo Branco, como no território banto a
noroeste do actual uganda, apareceram em cena, por volta de 1500, pequenos grupos de imigrantes luos
como fundadores de dinastias reais.

Será talvez ainda mais interessante saber que esses pequenos grupos de Luos não foram os únicos
invasores e fundadores de dinastias, a norte ou a sul, a aparecer vindos dos vales do Alto Nilo e do
sudoeste da Etiópia. Ainda por volta de 1500, foi conquistado o que restava do antigo reino de Alua
(Alodia) por imigrantes negros chamados Funj, que fundaram uma dinastia que governou a partir de
Senar até ser dominada em 1821 por um exército egípcio enviado por Muhammad Ali. As origens dos
Funj são objecto de controvérsia mas possivelmente a explicação mais provável é a de que eles devem ter
sido pastores vindos de zonas mais elevadas do Nilo Azul. Em segundo lugar, o grupo luo conhecido
como Bito, que criou as dinastias que governaram os reinos bantos de Bunioro, Toro e Buganda que se
mantiveram até ao século xx, alcançaram esses resultados conquistando e apoderando-se das instituições
de um reino anterior que parece ter sido criado por imigrantes vindos do norte. Actualmente recorda-se
muito pouco acerca desse reino, excepto em Bunioro que sem dúvida herdou a maior parte do território
central do anterior estado. Ali, o estado precedente é designado Kitara, e nele os agricultores bantos eram
governados por reis e nobres pastores chamados Chuezis, que se diz terem partido para sul, quando
chegaram os Bitos. Mais para oeste, e mais próximo do antigo Kitara, no Buganda, o período chuezi
parece estar incluído numa lenda de um grande herói chamado Kintu, que se diz ter chegado do nordeste
e ter reunido pela primeira vez os vários clãs bantos sob uma autoridade central.

Do conteúdo dessas lendas pode deduzir-se que os Bitos inicialmente, eram, em comparação, um povo
bárbaro consciente de que estava a apoderar-se de um sistema político e económico consideravelmente
mais avançado do que qualquer outro conhecido antes. Com efeito, sendo Luos, deviam viver numa
sociedade governada mais por classes etárias do que por reis ou chefes. Os Bitos procuraram legitimar o
seu acesso ao poder em Bunioro ao afirmar que os Chuezis os tinham convidado a vir; que eles tinham
tomado pacificamente os palácios, as insígnias, os rebanhos e as mulheres dos seus predecessores, que se
tinham deslocado alegremente para o sul; e que as mulheres chuezis os tinham instruído nos deveres da
realeza. No Buganda, a nova dinastia reclamou-se como o resultado de uma aliança entre um descendente
de Kintu e de uma filha do primeiro rei bito de Bunioro. Como salientou no entanto o Professor Oliver, a
verdadeira natureza da invasão de Kitara pelos Luos, é perceptível na tradição do reino mais meridional
do Ruanda que os Luo não conseguiram conquistar. Aí faz-se referência a uma terrível invasão dos
Banioros (isto é, povo de Bunioro) que, numa época que deve ser equivalente ao início do século XVI,
surgiram em cena, assolaram a região, mataram gado e escravizaram mulheres e crianças.

Existem algumas provas arqueológicas da conquista do que a tradição afirma ser o último bastião dos
Chuezis nas enormes fortificações de Bigo, no limite sul da terra ocupada pelos Bitos invasores e na
fronteira norte de Ankole. A escavação dessas fortificações revelou que estiveram ocupadas por volta de
1350-1500, e que a estrutura básica (embora nem toda a vastidão do complexo) é essencialmente
semelhante às cercas reais que se usavam em Ankole e no Ruanda até ao século XIX. Não resta dúvida,
portanto, que os reis chwezi faziam parte de um grupo de pastores, conhecidos variavelmente por Himas
ou Tutsis, que permaneceram no período colonial como nobreza dominante nos reinos de Ankole, Ruanda
e Burundi a sul de Toro, a conquista mais meridional dos Bitos. O nome chuezi (assim como os de Gabu
e Ranzi, que se diz terem estado associados aos Chuezis no governo de Kitara) é ainda, com efeito, um
nome clânico dos Himas.

A estrutura social dos reinos que se desenvolveram a partir da conquista dos Bitos, era muito mais
homogénea do que a .dos estados himas ou provavelmente dos de Kitara. Por exemplo, no Ruanda, os
Tutsis dominantes eram uma casta endógama constituindo cerca de 10 % da população e distinguiam-se
claramente do resto da população tanto pela constituição física como pelas funções. Eram mais altos (a
estatura média é de cerca de 1,80 m), magros e de pele ligeiramente mais clara; a sua ocupação era o
governo e a administração da justiça sob a égide do seu rei sagrado; a sua vida permitia o cultivo das artes
como a poesia, a música e a cestaria; eram os únicos proprietários de gado do reino e viviam quase
exclusivamente dos seus produtos; e a sua relação geral com o resto da população tem sido comparada
justamente àquela que existia entre senhores e servos nos feudos da Idade Média européia. Contudo, eles
falavam a mesma língua banto do povo em geral, os Hutus, que eram agricultores e a quem foi tirada
grande parte do gado. Abaixo dos Hutus, que constituíam 85 % da população, havia uma classe ainda
mais pobre, os Tuas, de tipo pigmeu, que formavam os restantes 5 %. Os Tuas eram caçadores e oleiros e
devem representar um elemento não assimilado da antiga população encontrada pelos Bantos quando
chegaram ao país.

A origem da classe dominante Tutsi/Hima/Chuezi nos reinos bantos lacustres é uma questão intrigante.
Do ponto de vista serológico eles são negros, o que parece eliminar a possibilidade de uma origem
cushítica. Alguns explicam a sua diferenciação física da maioria da população banto como uma simples
conseqüência de uma dieta melhorada e rica em proteínas. Mas as tradições dos Ruandeses e dos
Bugandeses afirmam que esta classe dominante imigrou vinda do norte. Além disso, os costumes
funerários reais dos reinos himas foram considerados como muito semelhantes aos dos estados sidamas,
que decerto estiveram em contacto freqüente com os povos nilóticos e podem mesmo ter possuído um
substrato nilótico. Não é certamente insensato supor que a incursão luo não foi a primeira invasão nilótica
em território lacustre banto.

Existem outras provas que podiam sustentar a noção de que na área lacustre a criação de governos
monárquicos foi o resultado de influências vindas do norte em diversas vagas. Enquanto no extremo
nordeste, desde o litoral do Quénia até à região do Monte Quénia, as tribos bantos, como já se afirmou,
não tinham Estado, e continuaram nessa situação até aos tempos modernos, foram organizados reinos
entre os povos a sul e sudoeste dos territórios dos Hima. Com efeito, os indícios fornecidos pela tradição
indicam para a formação do Estado, influências que se propagaram para sul a oeste do Lago Vitória e
depois para sudeste até ao oeste da Tanzânia, e para norte até à extremidade do Lago Malavi. Geralmente,
a oeste da Tanzânia e prolongando-se também até ao extremo sul do território «nilo-hamítico» que fica a
nordeste da Tanzânia, existe uma tradição comum de chefia tribal que se assemelha ao modelo lacustre, e
que é atribuído à vinda de proprietários de gado do norte ou do noroeste. É, no entanto, significativo notar
que o gado trazido pelos estrangeiros não era o gado de chifres longos dos Himas e Tutsis, mas uma
espécie com chifres pequenos que actualmente não se encontra nos reinos lacustres. Parece portanto que
os fundadores de estados na Tanzânia ocidental terão .deixado a região do uganda antes da chegada dos
Himas.

Entre os Bantos da Tanzânia, a organização monárquica teve tendência para se processar em menos
escala do que sucedia mais a norte. Os princípios eram os mesmos, mas por vezes o rei podia ter apenas
alguns milhares de súbditos. Isto pode reflectir o facto de a terra ser muito menos adequada à agricultura
do que os solos aluviais e vulcânicos bem irrigados da região lacustre, a ponto de as comunidades serem
naturalmente mais pobres e portanto as oportunidades de desenvolvimento real serem menores. Mas
indica ainda que a edificação de reinos consideráveis pelos imigrantes na região lacustre se pro- cessou
por fases, e que apenas a primeira, a sul, deve ter atingido no máximo a Tanzânia. Levanta-se, portanto, a
questão de saber o que realmente coube a esses imigrantes edificar; se eles tiveram de começar com um
tipo de sociedade sem estado, como a que se encontra entre os Bantos do Quénia, ou se encontraram
comunidades que já tinham em si os germes donde podia formar-se e proliferar a noção de realeza divina.

É perfeitamente claro que a ausência de chefia entre os Bantos do Quénia não pode provar que esse fosse
o estado «natural» da sociedade banto. Além dos sistemas de classes etárias, existem várias provas que
revelam que as suas estruturas sociais assim como políticas foram muito influenciadas pela fusão e
intercâmbio com os seus vizinhos cushíticos e «nilo-hamíticos». É pois necessário avançar mais para sul,
para estudar o que se conhece sobre a história antiga dos Bantos para lá da actual Tanzânia, no território
que albergava o núcleo inicial do povoamento banto, e que se considera demasiado antigo para poder ter
sido atingido pela influência nilótica. No entanto, estes Bantos meridionais não evoluíram numa situação
de isolamento total. Foram decerto sujeitos à influência do comércio do Oceano índico e do povoamento
do litoral leste africano, devendo ser primeiro narrado o percurso deste comércio e povoamento.

A navegação no Oceano índico parece ter apresentado aos primeiros navegadores menos problemas do
que a navegação no Atlântico. Como já se referiu, o sistema de ventos de monção da zona norte do
Oceano índico foi um importante factor dado que sopravam constantemente em direcção à costa africana
durante os meses de Inverno e em direcção à índia e à península arábica durante o Verão. Foi, portanto,
possível desenvolver o comércio regular transoceânico para e da África oriental muito antes e com barcos
mais simples do que aconteceu no litoral atlântico. Como se disse no capítulo 2, os marinheiros do
sistema comercial do Mar Vermelho ao serviço do Egipto helenístico estavam já certamente
familiarizados com a zona norte do litoral africano do Oceano índico por volta do ano 100 d. C. O
PéripIo do Mar Eritreu menciona uma cidade chamada Rhapta como sendo o centro comercial mais
meridional na «Azania», e geralmente supõe-se que estaria localizada algures no delta do Rufiji. Na
forma em que chegou até nós, a Geografia de Ptolomeu parece reflectir o conhecimento geográfico que
fora acumulado em Alexandria por volta do IV século. Com base nela, é evidente que os marinheiros
gregos estavam familiarizados com a costa até pelo menos ás proximidades de Cabo Delgado. Conheciam
igualmente uma ilha chamada «Menou- thias» que deve ter sido Madagascar ou uma das Ilhas Comores.
(Parece que tiveram também alguma idéia da geografia interior da África oriental com os seus grandes
lagos e montanhas com o cume coberto de neve.)

Será, com efeito, razoável supor que a navegação helenística deveria terminar naturalmente próximo do
extremo norte do Canal de Moçambique entre a África e Madagascar, porque representa o limite
meridional dos ventos regulares da monção. O quadro traçado pelo PéripIo e por Ptolomeu é de facto
confirmado por achados de moedas helenísticas, romanas, bizantinas e persas na costa, no período
compreendido entre o século III a. C. e o século IV d. D. A principal concentração destas descobertas
encontra-se na costa sul da Somália, sugerindo desse modo uma intensidade das trocas comerciais com as
regiões planálticas do sul da Etiópia ocupadas pelos Sidamas. Essas moedas foram contudo encontradas
também mais a sul nas ilhas de Zanzibar e Mafia. Moedas semelhantes eram fabricadas na índia
ocidental, havendo portanto poucas dúvidas de que, durante os últimos séculos antes da era cristã e nos
primeiros da mesma era, existia um sistema organizado de comércio marítimo que ligava os países que
confinavam com o ocidente do Oceano índico, e que era frequentemente impulsionado por mercadores
gregos ou greco-romanos estacionados no Egipto. O seu interesse pelo nordeste africano devia-se ao facto
de este ser uma fonte de especiarias, incenso, goma, marfim, ouro e escravos. Esse sistema parece
também ter tido relações com o comércio do Oceano índico oriental e para lá dele, dado que existem
provas de comerciantes chineses desse período terem algum conheci- mento sobre a África oriental.

Por volta do século IV, a influência grega sobre o comércio da zona ocidental do Oceano índico decaiu
devido ao surto do poderio naval da Pérsia sassânida, e em parte devido talvez ao desenvolvimento de
rotas terrestres comerciais no nordeste africano a partir de Axum. No século VII, no entanto, os árabes
destruíram o poderio sassânida e obtiveram ainda o domínio do Egipto e do litoral do Mar Vermelho
enquanto os muçulmanos iniciaram igualmente a penetração no noroeste da índia do século XI em diante.

Os primeiros núcleos de povoamento árabe na costa da África oriental parecem ter sido acampamentos
temporários de famílias que deviam ser tanto pescadores como comerciantes, talvez pré-islâmicos. Dos
séculos IX e X, no entanto, existem vestígios de numerosas cidades na costa, em especial na costa da
Somália, mas também nas linhas de Zanzibar e Pemba. A construção foi feita inicialmente em barro, mas
pelo menos no começo do século XII construíam-se em calcário grandes edifícios, mesquitas e ainda
provavelmente fortes e palácios. Por volta do fim do século XII, os Shirazis», assim chamados na
Crónica de Quíloa (a mais antiga que se conhece de numerosas histórias locais escritas em árabe, e
aparentemente compostas cerca de 1520), instalaram-se em Quíloa Kisiwani (Isto é, «Quíloa na ilha».
Existem hoje duas outras cidades vizinhas que também se chamam Quíloa), uma ilha junto da costa sul da
Tanzânia a cerca de 160 milhas a norte do Cabo Delgado. É talvez errado pensar-se que os Xirazis vieram
de Xiraz na Pérsia. É mais provável que tenham chegado a Quíloa idos da costa sul da Somália (embora
certamente tivessem contactos com a região do Golfo Pérsico na sua qualidade de comerciantes). A
decisão dos Shirazis se mudarem mais para sul revela uma alteração na orientação do comércio
muçulmano com a África oriental; o comércio com a costa sul estava então a tornar-se mais lucrativo do
que o comércio com a costa norte. Existem algumas provas de que um outro grupo de comerciantes
seguiu o caminho dos Shirazis para sul no fim do século XIII e substituiu-os no governo de Quíloa.

Não há dúvida de que desde 1200 Quíloa se tornou a mais próspera das cidades comerciais da costa
oriental, e que houve um progresso crescente na sua prosperidade depois de 1300. Ibn Battuta, que visitou
Quíloa em 1331, pensou que era «uma das cidades mais belas e com construções mais imponentes» que
jamais visitara. As ruínas da sua Grande Mesquita ainda hoje se podem ver e as escavações recentes do
que deve ter sido o palácio real indicam que era uma magnífica estrutura erigida provavelmente no início
do século XIV num estilo que recorda a arquitectura dos Omíadas e Abássidas de cerca de 500 anos
antes. Entre as outras trinta e sete cidades costeiras que prosperavam nessa época, contavam-se (de sul
para norte), Kismani na ilha de Mafia, Kizimkazi na ilha de Zanzibar, Mombaça, Gedi (hoje totalmente
em ruínas e abandonada), Melinde e Mogadishio; muitas delas são conhecidas através de relatos árabes
contemporâneos ou portugueses do século XVI, tendo-se realizado importantes trabalhos arqueológicos
nalgumas delas. Mesmo as cidades mais pequenas podiam ocupar quarenta ou cinquenta acres, todas
tinham grandes edíficios em pedra e todas revelaram abundantes provas da sua prosperidade comercial
em especial nos séculos XIV e xv. O indício mais notável é talvez as quantidades substanciais de
porcelana chinesa que foram encontradas. Isso é importante do ponto de vista arqueológico porque podem
ser datadas rigorosamente: a maior parte delas pertence à dinastia Ming (1368-1620). A porcelana foi
provavelmente apenas um produto de luxo; os principais produtos de importação eram as contas que
foram encontradas em grandes quantidades, e tecidos que deixam pouco ou nenhum vestígio
arqueológico. Outro indicativo da prosperidade comercial e da sofisticação é o facto de as moedas, geral-
mente de cobre, serem cunhadas pelo menos em três cidades costeiras; em Quíloa desde o tempo de um
rei que governou de 1277 até 1294, em Mogadishio desde cerca de 1332 e em Zanzibar provavelmente
desde o século xv.

As povoações comerciais exerciam uma influência poderosa na aculturação dos Bantos do litoral. Ibn
Battuta disse que em Quíloa «a maior parte dos seus habitantes são Zanj de pele muito escura». O efeito
geral do povoamento árabe, foi decerto criar ao longo da costa uma cultura islâmica, homogénea e de raiz
urbana, a dos Suaílis das cidades (do termo árabe sahel, «costa», donde Suaíli, «povo da costa»). A língua
suaíli é sem dúvida banto e, embora tenha adoptado um vocabulário arábico considerável, a partir do
século XIII começou a suplantar a língua árabe como língua corrente nas cidades costeiras. A literatura
popular começou provavelmente a ser escrita em suaíli por volta do século XVI; durante o século XIX
principiou a substituir o arábico como língua da narrativa histórica, e por volta do século XX tinha-a
substituído para todos os efeitos. Com o crescimento das rotas comerciais continentais, no século XIX, o
uso do suaíli começou a propagar-se ao interior. Actualmente é a língua nacional da Tanzânia, e é
geralmente compreendida em toda a parte oriental da África desde o norte do Quénia até Moçambique, e
para ocidente até ao Alto Congo.

Não obstante, antes do século XIX, as cidades comerciais costeiras parecem não ter exercido influência
sobre os povos do interior para lá das zonas litorais do Quénia e da Tanzânia. A pesquisa arqueológica
que tem sido levada a efeito nesta região não fez qualquer descoberta proveniente da zona costeira ou do
Oceano indico, com data anterior ao fim do século XVIII. Por um lado isso é facilmente explicável.
Numa faixa entre oitenta e cento e trinta quilómetros para o interior o ambiente começa a mudar desde a
floresta mista e a savana irrigada pelas chuvas da monção até atingir a região do mato inóspito. Em
grande parte da sua extensão, esta fronteira ecológica é acompanhada pela fronteira étnica entre os povos
agricultores bantos do litoral e os pastores seminómadas. Desse modo, tanto os factores ambientais e
étnicos como os factores culturais contrariaram o desenvolvimento das rotas comerciais para o interior a
partir do litoral. O problema consiste pois em esclarecer a presença nesta costa de tantas cidades
comerciais muçulmanas e o desenvolvimento de uma sociedade rica e avançada árabe-suaíli.

O que deve ter acontecido é que os primeiros comerciantes árabes da costa somali que comerciavam
especiarias, incenso, marfim, escravos e ouro com o interior, devem ter começado a explorar a zona com
a ajuda dos ventos da monção para ver se podiam encontrar a sul mais fornecimentos desses produtos tão
desejados. Marfim e escravos foram sem dúvida obtidos no litoral sul, e aumentou a sua procura nas
regiões desenvolvidas desde o Egipto até à índia, graças aos seus laços comerciais com o Mediterrâneo e
a Ásia. Sabe-se por exemplo que os escravos Zanj eram empregues em minas de sal próximas de Basra já
no século IX, enquanto o marfim africano era esculpido mais facilmente do que o asiático, pelo que era
procurado em zonas tão longínquas como a Europa ocidental e a China. AI-Idrisi, na sua descrição da
costa (escrita em 1154, mas baseada talvez numa outra fonte mais antiga), afirma que fora descoberto na
proximidade de Melinde um depósito de ferro de alto teor, e que se revelara rentável trabalhá-lo com vista
à exportação para a índia. Mas entre a data da informação de Idrisi e a de Abufelda, que escreveu no
início do século XIV, foi feita uma descoberta muito mais importante: a de que era possível obter ouro
por troca no litoral, no limite sul da navegação pelas monções. Deve ter sido essa descoberta que
provocou a migração dos Shirazis, e levou Quíloa a suplantar Mogadishio, no sul da Somália, como
centro comercial mais importante, embora ao tempo da visita de Ibn Battuta em 1331, Mogadishio fosse
ainda aparentemente a cidade maior e a mais desenvolvida no seu aspecto cultural.

O ouro que se podia obter no litoral das monções mais a sul, vinha do território actualmente chamado
Zimbabué, e em breve os mercadores árabes ou suaílis começaram a explorar as rotas comerciais em
direcção a esse território. A primeira delas dirigia-se talvez para sudoeste a partir de Quíloa e da costa
próxima a sul, seguindo a linha dos vales de rios como o Rovuma, que corria do planalto que ficava no
extremo sul do Lago Malavi. Por eles teriam vindo os comerciantes até ao Vale do Zambeze e às
numerosas vias de acesso à estepe do Zimbabué onde era explorado o ouro. A descoberta do Zambeze, no
entanto, deve ter revelado que, apesar da irregularidade dos ventos da monção no Canal de Moçambique,
seria mais fácil alcançar o Zimbabué a partir dos portos de Quíloa no litoral mais meridional. Sofala
tornou-se o porto principal, numa ilha junto da costa a meio caminho entre o delta do Zambeze e a foz do
rio Sabi. Se a Crónica de Quíloa é digna de crédito, a cidade de Sofala deve ter sido fundada (ou apenas
conquistada) a partir de Quíloa pouco tempo depois da migração dos Shirazis, isto é, por volta do fim do
século XII.

Pode deduzir-se facilmente desta extensão para sul do sistema comercial árabe na África oriental, que o
ouro era então já explorado no território que veio a ser o Zimbabué. Isto é sem dúvida um facto. O
Zimbabué do século XX tem sido na realidade um produtor considerável de ouro, e já se disse que
«dificilmente se encontra uma mina actual...que não seja o local de um "trabalho antigo"» (Summers).
Inicialmente, ao que parece, o ouro era muito abundante à superfície no planalto do Zimbabué, e existem
inúmeros vestígios de antigas minas a uma profundidade que atinge os 30 metros. Não é fácil atribuir uma
data às próprias minas, tanto mais que muitas delas sofre- ram interferências de mineiros ou prospectores
modernos, mas o equilíbrio das provas culturais que lhes podem estar associadas sugere sem sombra de
dúvida que o ouro era extraído no planalto do Zimbabué por volta do séc. XI.

A dada altura, chegou-se a sugerir que as técnicas utilizadas nas primeiras minas de ouro do Zimbabué
eram muito semelhantes às que outrora se usavam no sul da índia, e que as minas haviam sido abertas em
resposta a uma iniciativa vinda do exterior. Os comerciantes do Oceano índico estariam, sem dúvida,
interessados em novas fontes de ouro, tanto mais que cerca do séc. IV os recursos auríferos do sul da
índia se estavam a esgotar. Talvez não seja de todo impossível imaginar alguns precursores dos
comerciantes árabe-suaílis a efectuarem prospecções da costa oriental para o interior, a sul das barreiras
de vegetação rasteira e espinhosa e das suas tribos de pastores, quiçá inicialmente em busca de maiores
fontes de marfim, e a encontrarem depois afloramentos de ouro e, apercebendo-se da sua importância, a
enviarem mineiros pioneiros do sul da índia, a fim de iniciarem a sua exploração. Mas,
independentemente do facto de as técnicas usadas em qualquer situação mineira ser em certa medida
determinadas pelas circunstâncias em que o minério é encontrado, e de a tecnologia primitiva não
apresentar um grande leque de técnicas, quando se considera a exploração inicial de minas de ouro no
Zimbabué, na perspectiva dos vestígios arqueológicos contemporâneos existentes grosso modo na África
central e meridional, não é, na verdade, necessário pensarmos que foi precisa qualquer influência externa
para que o seu começo tivesse lugar.

Observamos já a rapidez com que todos os Bantos se dedicaram à extracção do ferro e, conquanto os
minérios de ferro se encontrem mais facilmente e em maior quantidade nas suas terras do que os outros
minérios, dispomos de indícios adequados que comprovam o gosto que tinham no seu trabalho, e a sua
enorme habilidade, onde quer que fossem identificados estes minérios. Possuímos já vestígios da
extracção e fundição de minérios de cobre na província de Shaba no moderno Zaire, cerca de 1800 kms a
norte das minas de ouro do Zimbabué, no séc. IV ou V. O cobre tem em comum com o ouro as
características de ser um metal extraordinariamente brilhante, dúctil e fácil de trabalhar, conferindo-lhe
formas elegantes; em comparação com o metal mais comum, o ferro, é também relativamente duradouro.
O cobre é, por conseguinte, um bom material para o fabrico de adornos e objectos de prestígio, ainda
mais se não existir por perto o ouro. Demonstram-no bem os grandes cemitérios parcialmente escavados
em Sanga e Katoto, no vale superior do Lualaba, no Zaire. Tais adornos foram usados entre os sécs. VII e
XVII, e por volta dos sécs. XI e XII - muito embora Sanga fique a cerca de 240 kms da fonte mais
próxima de cobre que se conhece, e Katoto ainda mais distante: homens, mulheres e crianças eram
sepultados em conjunto com consideráveis quantidades de pulseiras, colares e outra joalharia de cobre
muito trabalhada. Com o passar do tempo, as sepulturas continham também um cada vez maior número
de pequenos lingotes de cobre em forma de X; só podem ter sido considerados símbolos de riqueza,
talvez mesmo usados como moeda. Mais a sul, na Zâmbia, no próprio Zimbabué, e a sul deste, na zona
norte do Transval, existem imensos vestígios da extracção e do trabalho do cobre já a partir do séc. VIII.
Sabe-se de igual modo que, tanto no Zimbabué como no norte do Transval, o estanho era extraído e
também ligado ao cobre para produzir o bronze. Com semelhante experiência na extracção e trabalho dos
metais, nada parece levar-nos a supor que os indígenas bantos no Zimbabué não tardassem a dedicar-se à
extracção e trabalho do ouro, uma vez identificado o minério e as suas possibilidades.
Todavia, é importante registar que, desde cerca do séc. VIII em diante, algumas das estações pré-
históricas que foram escavadas na África central, até algo como 1600 kms da costa leste, revelaram
pequenas quantidades de objectos, como contas de vidro, conchas e cauris, que só podem ter sido levados
para o interior a partir do Oceano Indico. Será credulidade excessiva sugerirmos que os comerciantes
estrangeiros haviam penetrado até meio do continente no séc. VIII. Somos, sem dúvida, levados a
concluir que, nesta altura, as comunidades bantos da África central e meridional se encontravam já
suficientemente avançadas para organizarem sozinhas o comércio cobrindo distâncias consideráveis.
Poderemos pressupor que todas estas comunidades eram por norma auto-suficientes nas necessidades
básicas do quotidiano, como géneros alimentícios, habitações, cerâmica, materiais que, para todos os
efeitos, eram volumosos e difíceis de transportar. Mas havia pelo menos três matérias-primas necessárias
ou pretendidas pelas sociedades que progrediam na Idade do Ferro e que não se encontravam distribuídas
equitativamente. O sal de qualidade só podia ser obtido no litoral, ou de salinas esporádicas no interior,
que acaba- riam por revestir uma considerável importância em termos económicos. Os afloramentos
acessíveis de cobre, com o qual era possível fabricar objectos de adorno e prestígio existiam apenas em
áreas muito limitadas. O minério de ferro estava muito mais uniformemente distribuído, mas, em
comparação, os minérios de qualidade superior são raros e, por conseguinte, poder-se-á pensar que os
povos que viviam perto deles conseguiriam uma vantagem significativa no fabrico de utensílios
(especialmente enxadas) e armas de boa qualidade (Verifica-se também que o melhor barro utilizado na
cerâmica não estava distribuído igualmente em todo o lado, e o mesmo acontecendo com os utensílios
cerâmicos. Estes eram frágeis e baratos tendo em conta o volume, pelo que é difícil imaginar o seu
comércio através de grandes distâncias). Deste modo, a troca processar-se-ia a um bom ritmo, e não seria
despropositado pensar que por alturas do séc. VIII a rede de comércio interno tivesse entrado em contacto
com a procura externa dos principais artigos africanos por parte dos comerciantes do Oceano índico (em
particular, dado que a costa seria muitas vezes a fonte de sal mais próxima). Se a extracção de ouro se
iniciou no planalto do Zimbabué por volta do séc. VII, seria plausível contar que em finais do séc. XII
tivesse já chegado ao litoral uma quantidade suficiente do metal para servir de poderoso chamariz capaz
de atrair para sul os comerciantes shirazis, mais concretamente, para Quíloa e Sofala, zona onde iriam
tentar penetrar no interior por sua própria iniciativa.

Por volta do século XIV, a relação entre a rede interna de trocas e o comércio do Oceano índico é
comprovada pelas escavações que têm sido realizadas em Ingombe Ilede, próximo do ponto onde o rio
Kafue que corre do Catanga para sul, encontra o Zambeze a cerca de metade do seu curso. Estas
revelaram sepulturas dos séculos XIV e xv que continham ricos ornamentos em ouro e cobre, lingotes em
forma de X e fio de cobre, tecido de algodão, marfim, contas de vidro e de conchas do Oceano índico. Há
aqui várias questões de interesse. Em primeiro lugar, não existem fontes próximas de ouro nem de cobre;
todos os produtos feitos destes metais devem ter sido levados para norte ou sul, a uma distância de pelo
menos 160 Km. Dado que não existiam vestígios de habitações contemporâneas e permanentes, é lógico
concluir que estes produtos tenham sido trazidos expressamente para serem trocados 'pelas contas do
Oceano índico, e também provavelmente por tecidos (embora alguns deles possam ser de manufactura
local), e sem dúvida por sal, além de que o sítio de Ingombe-Ilede no século XIV era mais um
acampamento comercial do que um local de habitação permanente. Finalmente, a riqueza patenteada nos
túmulos revela que se trata dos funerais de indivíduos pertencentes a uma classe dirigente ou mercantil
desenvolvida (se de facto não são ambas a mesma).

Cerca de um século depois, quando os Portugueses chegaram ao sudoeste de África atraídos pelo
comércio do ouro (conquistaram Sofala e Quíloa em 1505), o quadro tornou-se relativamente simples.
Havia reinos organizados no interior com os quais valia a pena comerciar, e os Portugueses procuraram
fazê-lo criando estabelecimentos comerciais ou feitorias ao longo do Zambeze (decerto até 160km de
Ingombe-Ilede), e também nos vales do seu afluente, o Mazoa, até ao planalto a noroeste do Zimbabué.
Além disso, é evidente que estes entrepostos comerciais foram instalados no rasto da antiga penetração
dos mercadores árabe-suaílis.

O Zimbabué moderno foi a sede do mais conhecido de entre todos os antigos reinos bantos meridionais.
Foi feito aqui provavelmente mais trabalho do que em qualquer outra parte, sobre a tradição oral
existente, a qual parece remontar a cerca de 1400. Mas tão importante ou ainda mais do que isso, é o facto
de esta área da África central ter sido a mais explorada pelos Portugueses no século XVI devido ao seu
ouro; e foi aí, e mais a sul no Transval, que os primeiros reinos bantos com construções em pedra, deram
assim origem a ruínas duradouras e muito impressionantes que têm fascinado exploradores e arqueólogos
há mais de um século.

Ao todo, sabe-se que existem cerca de 200 ruínas de pedra no Zimbabué e nas áreas vizinhas de
Moçambique e do Transval. A primeira reacção européia foi dizer que os africanos subsarianos não
construíam em pedra (na realidade, eram incapazes de construir em pedra) e que por isso as ruínas deviam
ter sido edificadas por estrangeiros - foram indicados por várias vezes construtores árabes, sabeus e até
fenícios. Com efeito, a razão pela qual a construção em pedra era rara na África subsariana devia-se
essencialmente ao facto de a boa pedra de construção também ser rara. O barro é muito mais abundante e,
quando cozido ou seco ao sol, pode ser usado com menos dificuldade e trabalho para se obterem idênticos
ou ainda melhores resultados. Isto acontece em especial se se tomar cuidado no sentido de evitar os
efeitos da chuva, embora, se isso não acontecer, os edifícios de adobe se desmoronem em montículos
informes tornando-se muito mais difíceis de descobrir e interpretar pelos arqueólogos do que as ruínas de
pedra.

Na região do Zimbabué, acontece no entanto que o país é coberto de afloramentos rochosos, muitos dos
quais se desintegram naturalmente em placas de cerca de 15 cm de espessura com que se pode facilmente
formar blocos de construção com pelo menos duas faces paralelas. Portanto, os Bantos que se fixaram ali
usavam naturalmente a pedra para construção, não para todos os fins (os seus locais de habitação actuais
continuam a ser normalmente cabanas redondas de adobe com estacas de madeira e tectos de palha), mas
quando queriam construir grandes estruturas ou construir plataformas nas encostas onde podiam erigir
cabanas, ou reunir tais habitações em conjuntos fortificados. Através das técnicas que usaram, isto é,
paredes de pedra sem argamassa e sem juntas unidas, pode ver-se que os construtores do Zimbabué
criaram a sua própria arte e não foram influenciados por outras arquitecturas, como por exemplo as
construções islâmicas de calcário do litoral. Há, com efeito, muitos outros exemplos de contrução em
pedra no interior da África subsariana onde existiam condições adequadas, como por exemplo em
Engaruka no norte da Tanzânia, onde se crê que os construtores foram os predecessores cushíticos dos
actuais «nilo-hamitas». Mas as ruínas de pedra do Zimbabué são notáveis pelo seu esplendor e grandeza.
O local mais famoso, o «Grande Zimbabué», visto pelos europeus pela primeira vez em 1860, estende-se
por cerca de 24 hectares, e inclui algumas muralhas que têm nove metros de altura e chegam a atingir 4,5
metros de espessura na base, tendo muitas delas configuração elaborada, por exemplo, em forma angular.
Ao que parece, locais como esses só podem representar capitais reais e centros de culto de estados
importantes que desenvolveram sistemas políticos e económicos capazes de mobilizar e orientar recursos
consideráveis de mão-de-obra preparada e disciplinada.

As investigações de arqueólogos no «Grande Zimbabué» e em muitas outras estações durante cerca de
oitenta anos, indicam que estas ruínas devem ter estado associadas a uma cultura, produzida por uma
sociedade agrícola que utilizava o ferro: o povo da «Montanha do leopardo» do primeiro milénio. Esta
cultura começou a construir em pedra de modo intenso por volta do século XII, e nessa época o «Grande
Zimbabué» era já um local de enorme prestígio. As realizações mais esplêndidas no «Grande Zimbabué»
podem datar-se dos séculos XIV e XV, e estão relacionadas com uma crescente prosperidade, revelada
pela primeira vez pela presença de grandes quantidades de porcelana e missangas importadas. Este
desenvolvimento do centro reflecte-se na quantidade crescente de construções em pedra com uma
sofisticação comparável, embora em escala menor, a outros pontos do Zimbabué em especial a sul e a
oeste revelando desse modo um crescimento da população, sem dúvida sob o controlo ou a influência do
centro. Contudo, depois dos meados do século XV a construção em pedra parece ter parado praticamente
até aos séculos XVII ou XVIII, altura em que se verificou um renascer da construção em pedra, da
prosperidade e do poder aparentemente igual ao que existira anteriormente.

Este quadro arqueológico começa a concretizar-se logo que é completado com o conhecimento existente
acerca da história da zona costeira e da tradição oral local. Através do desenvolvimento dos seus próprios
recursos agrícolas e mineiros, sob o estímulo proporcionado pelo aumento do comércio costeiro, alguns
dos líderes tradicionais que acumulavam as funções de chefia com as sacerdotais, começaram a adquirir o
estatuto de governantes divinos, desenvolvendo o poder militar, garantindo o aumento do número de
sequazes e servidores a expensas dos vizinhos e rivais, e investindo a sua riqueza em grandes manadas de
gado que eram apascentadas nas planícies adjacentes, durante a seca no planalto, e cuja carne podia servir
como recompensa para os seus servidores. Os seus centros de culto, onde se tinha acesso às divindades
através dos espíritos dos antepassados, situados freqüentemente em fortalezas nas colinas ou em grutas
próximo das quais foram encontradas as maiores ruínas, tornaram-se desse modo mais poderosos do que
os outros, permitindo-lhes assim atrair ainda mais seguidores, mais riqueza, mais comércio e mais
poderio. O auge deste processo verificou-se a partir do século XII, a ponto de, no século XIV, todo o
planalto onde existia ouro estar praticamente sob o domínio de um grande rei-sacerdote do «Grande
Zimbabué», ou de pequenos reis que lhe prestavam obediência. É sem dúvida significativo que o início da
primazia comercial de Quíloa na costa oriental e o crescimento do seu comércio do ouro, assim como o
de Sofala com o interior, datem do século XIII.

Nos finais do século XIV, o desenvolvimento do «Grande Zimbabué» chegou ao fim. Manteve-se até à
actualidade como um importante centro de culto dos povos Shona do actual Zimbabué, que são quase de
certeza os descendentes do povo que fez a sua grandeza imperial, mas nunca mais voltou a ser um centro
político ou económico importante. O que terá eventualmente sucedido é que a estrutura do «Grande
Zimbabué,. entrou em competição com uma série de dinastias rivais. Três destas dinastias terão alcançado
maior êxito, atingindo cada uma, durante algum tempo, o poder hegemónico sobre uma área de
dimensões idênticas à que era dominada pelos governantes do «Grande Zimbabué».

A primeira destas dinastias ficou mais conhecida pelo nome dado, no séc. XVI, pelos Portugueses ao seu
líder, Monomotapa, derivado de Mwene Mutapa, «senhor (ou chefe) do saque», forma de tratamento
muito enaltecedora. Assim se criou um grupo dominante que, juntamente com os seus seguidores, partiu
do planalto rumo ao norte, no começo do séc. XV, a fim de conquistarem e expulsarem os povos da parte
sul do vale médio do Zambeze, entre Tete e o Zumbo dos zimbabués que, por não disporem de pedra para
construção de casas, as fariam de madeira e matope. Os antecedentes desta movimentação, e na verdade,
o aparecimento de outras dinastias rivais como as de Changamire e de Torua, podem perfeitamente ter
estado na origem da rotura económica e política do planalto. Houve quem sugerisse que terá estado
associada de alguma forma aos grupos Sotho que nesta altura se deslocavam para sul entre as terras altas
e o Calaári. O mais provável será talvez ter resultado de uma ou mais catástrofes naturais, como secas,
destruição de sementeiras ou epidemias do gado, numa situação em que o desenvolvimento das
populações humanas e do gado podem ter exercido pressões consideráveis sobre a terra. Todavia, uma
explicação mais concreta para esta movimentação da dinastia dos Monomotapas em direcção ao Zambeze
reside na tradição de que migraram para assegurarem melhores fornecimentos de sal. Poder-se-á fazer
uma interpretação mais lata no sentido de que o grupo Monomotapa pretendia alargar os seus contactos
importantes com a principal artéria comercial controlada pelos árabe-suaílis ao longo do Zambeze.
(Poder-se-á dizer que a estação do «Grande Zimbabué, se afigura algo excêntrica em relação às principais
rotas comerciais e às principais fontes de ouro.) A importância do comércio de longa distância para os
estados sucessores do Zimbabué poderia ser ilustrada com.a história da dinastia Changamire. Ouviu-se
falar dela pela primeira vez na década de 1490, quando tentou desafiar o poder do Monomotapa nas
planícies meridionais do Zambeze, mas foi derrotada. Mais tarde, porém, nos finais do séc. XVII, os
Changamires voltam a surgir como desafiadores vitoriosos do poder e da riqueza dos Toruas, a dinastia
que, a partir de finais do séc. XV, desenvolvera uma hegemonia sobre uma área considerável do planalto
conhecido como Butua, no sudoeste do centro antigo do «Grande Zimbabué», uma área que era
fertilizada pelas caravanas de comércio que iam e vinham do empório costeiro que os árabes haviam
desenvolvido em Sofala, e que os Portugueses tinham ocupado em 1505. Enquanto os Monomotapas
entraram em decadência após a penetração activa dos Portugueses entre 1575 e 1666, os Butuas,
possivelmente aliados aos comerciantes muçulmanos que operavam no vale do Gabi, prosperaram e
ganharam terreno e acabaram, em finais do séc. XVII, por expulsar os Portugueses das suas feitorias
comerciais no interior das terras altas. O êxito dos Butuas pode, como é lógico, ser equiparado ao
recrudescimento, nos sécs. XVII e XVIII, das construções de pedra no sudoeste.

A combinação das fontes arqueológicas, tradicionais, árabes e portuguesas permite reconstruir a história
dos reinos bantos do planalto do Zimbabué em maior profundidade do que é possível noutros territórios
centrais e meridionais dos Bantos. Mas é manifestamente evidente que nos finais do século xv pelo
menos, estes foram os únicos reinos bantos importantes da África central. Havia, por exemplo, um estado
Maravi (Esta é a antiga designação do actual Malavi) a norte do Zambeze no extremo sul do Lago
Malavi. Mas pouco se sabe da sua história. Os outros reinos melhor conhecidos a seguir àqueles são os da
costa ocidental em ambas as margens do Baixo Congo. Isso sucede porque os Portugueses chegaram ao
reino do Congo, mesmo a sul do rio Congo, em 1842, e estiveram intimamente ligados à sua existência
nos cem anos seguintes. Além deste reino que tinha uma costa de cerca de 140 quilómetros e atingia cerca
de 400 quilômetros para o interior até ao vale do rio Cuango; existiam numerosos estados mais pequenos
e em certa medida tributários, como o Loango e Cacongo, a norte da foz do Congo, e o Ndongo, a sul.

Por meio de informações da tradição oral, começadas a ser coligidas pouco depois de chegarem os
Portugueses, pode dizer-se que o reino do Congo se formou através da conquista de alguns reinos bantos
mais pequenos e já existentes. No período português havia sinais evidentes do facto: o rei, chamado
Manicongo (sendo Mani equivalente a muene) estava no topo de uma hierarquia de chefes provinciais e
sub-provinciais (também chamados manis, isto é, «senhores») que eram designados por ele e sob o poder
de quem estavam as aldeias e a sua chefia tradicional. O rei, que possuía pouco mais do que uma escolta
de soldados à sua directa disposição, dependia dos seus manis para o recrutamento em tempo de guerra e
era um conselho desses senhores que o elegia entre os membros elegíveis da família real. Parece,
portanto, que o reino foi edificado por uma nobreza conquistadora que invadiu o país e os dados
tradicionais indicam que isso se verificou a partir da região acima do Malebo (Stanley) Pool por volta de
1400.

Porque teria essa nobreza agido dessa maneira não se sabe ao certo. Havia obviamente vantagem em
organizar um grande reino, e o estado dos Bacongos tinha um sistema regular de taxas e uma tesouraria
central. Mas porque viriam os conquistadores de nordeste para este território em especial? Uma parte da
resposta pode talvez encontrar-se na rápida organização pelos Portugueses, depois da sua chegada, de
caravanas comerciais para o interior dirigidas por condutores chamados pombeiros. Em troca dos
produtos portugueses, e do sal costeiro e das conchas de Luanda chamadas nzimbu, que eram a moeda no
Congo, esses pombeiros traziam desde Malebo Pool marfim, cobre, escravos e tecidos de ráfia. Muito
dificilmente os Portugueses podiam ter agido deste modo e tão rapidamente, se não existissem já no
litoral provas de que esses produtos podiam ser obtidos do interior. (Referiu-se já que os Portugueses
raramente foram iniciadores de novo tráfico.) O facto de os Bacongos terem uma moeda fixa, à
semelhança de outros estados costeiros (Loango usava por exemplo tecidos de ráfia), sugere ainda que
esses estados tinham já um considerável grau de complexidade comercial. Podem, assim, ter existido
razões comerciais para os povos do interior quererem obter o domínio do litoral, para assegurar o seus
fornecimentos de sal, por exemplo (e ainda possivelmente para exportar o seu cobre, como se aludiu no
fim do capítulo 4).

O reino do Congo, e seus vizinhos, situa-se na extremidade noroeste da orla das savanas onde os Bantos
foram ter quando saíram das florestas da bacia do Congo. A nobreza dominante parece ter organizado os
reinos mais pequenos da região mais ou menos na mesma época em que o estado do Zimbabué,
provavelmente também edificado a partir de unidades mais pequenas, se encontrava no seu apogeu, e
tomou o rumo do outro extremo das savanas, afastando-se para sueste. Por conseguinte, perguntar-se-á se
estes dois conjuntos de iniciativas políticas não se terão inspirado nas proezas dos Bantos mais ao centro,
sobre as quais pouco se sabe, uma vez que deixaram vestígios arqueológicos menos sólidos e estavam
mais longe dos olhos dos cronistas.

Isso não constitui um grande problema, numa perspectiva negativa. O Professor Oliver utilizou o termo
muene (que no Congo deu origem a mani) para designar um tipo e organização política característica
daqueles povos bantos a sul da Tanzânia e mais longe ainda, que não foram forçados a adoptar a estrutura
de reinos mais consistentes por parte de nilotas ou grupos nilóticos vindos do norte. Este tipo de
organização política, que actuava mais através da persuasão religiosa e mágica e de laços familiares do
que de meios declaradamente políticos, baseava-se na capacidade presumível de o principal descendente
do antepassado fundador de uma comunidade, melhor do que qualquer outro mortal, comunicar com o
outro mundo e, através dos espíritos dos antepassados e dos espíritos da terra e da água, aplacar as forças
da natureza tão vitais para a prosperidade das comunidades agrícolas. Era, evidentemente, fundamental no
mundo banto em geral, tal como o era no dos agricultores negros da África ocidental, donde os bantos
tinham emergido. No Zimbabué, Monomotapa e Butua, esse tipo de organização parece ter comprovado a
sua capacidade de crescer e transformar-se até funcionar numa escala nacional. Tanto aqui como na
região do Baixo Congo, a idéia de obter riqueza através do comércio e da tributação do produto excedente
da terra parece ter proporcionado o incentivo necessário.

A questão mais difícil de responder é se o mesmo incentivo produzia resultados igualmente
impressionantes nas partes mais centrais da vasta área banto. Aqui, uma das dificuldades advém do pouco
trabalho arqueológico desenvolvido no Zaire e em Angola, em comparação com o que foi possível
conseguir na região para sul da Zâmbia. A riqueza do material encontrado nas sepulturas de Sanga e
Kotoko indica que as produções excedentárias e sofisticadas desenvolvidas por eles e o comércio de
longa distância situar-se-iam em pleno coração da África banto já no séc. XI. Mas predomina a opinião
geral de que as sepulturas não fornecem provas suficientes sobre a estratificação social e, por
conseguinte, não se pode ter a certeza de que os consideráveis recursos materiais existentes fossem
explorados com vista ao apoio a uma grande superestrutura política. Também não dispomos de
informações sobre este assunto, para além das que sobreviveram durante o período colonial. Muito
embora estas tradições nos possam orientar numa tentativa de compreensão do passado, remontando
muito provavelmente a quatro ou cinco séculos, enfermam consideravelmente no que se refere à
cronologia e poucas ou nenhumas provas fornecem a não ser as de uma ligação muito reduzida à história
política, na medida em que os sobreviventes vitoriosos a pretendem ver recordada. No entanto, a história
política que relatam revela um processo de contínuo florescimento, declínio e dispersão de conceitos
estatais e políticos.

Dois povos parecem ter tido papéis de destaque neste processo, os Lubas, que vivem de ambos os lados
do vale superior do Lomani, e os Lundas, que vivem mesmo a oeste deles. Ambos os povos possuíam
reinos extensos por volta do século XVII: O principal estado luba (parece terem existido dois menores
mesmo a oeste daquele) ocupava uma área de cerca de 50000 Km quadrados a oeste do Lago Kisale até
cerca do rio Luemba. As suas tradições afirmam que foi fundado por imigrantes vindos de nordeste, que
erigiram o reino a partir de unidades políticas mais pequenas numa época que se situa provavelmente
entre os limites de 1400 a 1500. O reino lunda, ou império visto que era cerca de três vezes maior do que
o principal reino luba, ocupava o território compreendido entre os rios Bushmaie e Kuilu, e a sul desde o
curso superior do rio Cassai até ao seu curso na direcção oeste, a norte. Os dados tradicionais afirmam
que ele foi constituído por imigrantes vindos do país luba num período correspondente ao século XVI. Os
indícios sugerem ainda que esses imigrantes lubas tinham aprendido por experiência própria no seu país a
integrar os chefes ancestrais das comunidades agrícolas locais na hierarquia política sem criar conflitos e
tensões, no que tiveram mais sucesso do que haviam tido no próprio país.

Nos séculos XVII e XVIII, muitos outros reinos do modelo lunda foram criados, em especial a sul da
própria Lunda. um deles foi o reino dos Lozis junto das planícies irrigadas do Alto Zambeze,
provavelmente fundado no século XVII. Outros foram especificamente partes do império lunda,
governadas por reis intitulados Kazembe, que parecem ter começado por ser os chefes de grupos
invasores ou de comerciantes enviados pelos governantes lundas. Destes, o mais famoso foi o Kazembe
que criou um reino no vale de Luapula entre o lago Moero e o Catanga.

Devem também ser considerados neste contexto, os grupos de Jagas e Imbangalas que apareceram na
fronteira oriental do reino do Congo na última parte do século XVI, e cujas actividades militares
contribuíram para. apressar o declínio de um estado já enfraquecido pela interferência dos Portugueses
nos seus assuntos; os Imbangalas eram um bando especial, possivelmente maior e mais coerente do que o
habitual. Estes bandos evidenciavam um comportamento muito semelhante aos Manes, seus
contemporâneos, na região da Serra Leoa mais a norte, estando mobilizados permanentemente para a
guerra e acostumados a dominar os núcleos comunitários através do ataque-surpresa e a integrar depois os
seus prisioneiros na sua própria sociedade. uma consequência final das suas actividades foi o
aparecimento de uma série de reinos militares ao longo da fronteira oriental do reino do Congo, sendo o
maior e o mais estável o reino de 1mbangala do Cassanje, no Alto Cuango. Costumava pensar-se que os
Jagas tinham vindo da região da Luba e que os Imbangalas tinham avançado da região da Lunda. Sabe-se
agora que os pontos de partida para os seus ataques ficavam no interior do reino do Congo, cobiçado pelo
seu comércio e riqueza, tanto maIs que as suas próprias terras estavam sujeitas a secas periódicas.
Existiam outros bandos, que passaram mais despercebidos do que os Jagas e os 1mbangalas, e que parece
terem tido um papel idêntico do outro lado da África banto. Foram os grupos que os Portugueses
conheceram como os «Zimbas», vindos do interior para atacar as zonas costeiras entre Quíloa e Mombaça
na segunda metade do séc. XVI e os três primeiros quartéis do XVII. O império maravi parece ter sido o
culminar de uma série de incursões nas terras imediatamente a norte do baixo Zambeze, e a tradição
maravi reivindica uma origem luba para os seus primeiros reis. Será provavelmente correcto afirmar que,
apesar de os actuais invasores do reino do Congo, vindos de leste e do vale do Zambeze, e dos
Monomotapas vindos do norte, poderem não descender de parentes dos Lubas e dos Lundas, em primeiro
ou mesmo segundo ou terceiro grau, constituíram, no entanto, um sintoma de uma constante instabilidade
que impediu os povos bantos que viviam no centro do continente de aproveitarem vantajosamente o seu
legado político. Parece não terem faltado pessoas com o necessário conhecimento e vontade de
transformar aldeias agrícolas em unidades políticas; na verdade existiram essas pessoas. um reino
raramente permanecia estável e unido por muito tempo sem que os grupos de nobres começassem a
competir pelo trono e pelo poder. Como resultado da luta, o reino podia dividir-se em duas ou mais
partes, ou as províncias periféricas tornavam-se independentes, ou os contendores derrotados afastavam-
se e procuravam construir de novo noutro local o que não tinham conseguido tomar para si dentro dele.

É difícil ter certezas sobre os problemas subjacentes que aí existiram. É por demais óbvio que os reinos
bantos tiveram tendência para sofrer as conseqüências de não possuírem um direito explícito de sucessão
ao trono, sendo-lhes, deste modo, difícil assegurar a lealdade constante dos povos subjugados com
tradições diferentes das suas a qualquer distância do centro do poder. Mas estes problemas diziam
respeito igualmente aos reinos da África ocidental, cuja estabilidade em geral parece ter sido maior do
que nos estados bantos. Alguns reinos bantos, no entanto, parecem ter sido melhor sucedidos do que
outros. Estes incluem o grupo lacustre a norte e no centro de África, os grupos do Congo e do Zimbabué
(pelo menos até os Portugueses se terem infiltrado neles), e ainda o reino dos Lozis e o reino Kazembe do
Luapula, que duraram até ao século XIX. A estabilidade dos reinos lacustres devia ter algo a ver com o
facto de as suas classes dominantes não serem de origem banto. Mas é também certo estar associada ao
facto de as suas terras serem extraordinariamente irrigadas, férteis e muito produtivas, o que constituiu
provavelmente um factor primordial para os Lozis. Exceptuando o reino dos Lozis, os reinos da África
central situavam-se num ambiente muito mais marginal. Estavam situados em áreas planálticas com solos
pobres e sem grandes lagos (Talvez valha a pena mencionar que parece ter existido um estado luba,
extraordinariamente estável embora muito pequeno, chamado Kikonja na margem norte do Lago Kisale)
e em grande parte dependentes dos rios para obter água. uma série de estações pouco chuvosas podia,
pois, criar uma situação crítica para as colheitas e o gado de populações que aumentavam com o
crescimento de reinos organizados. Os reinos mais prósperos neste tipo de ambiente, foram, juntamente
com o Kazembe de Luapula, os da periferia desse sistema, os grupos do Congo e do Zimbabué. Estes
últimos tinham a vantagem de estarem no litoral ou próximo dele o que proporcionou contrastes do meio
ambiente, e portanto favoreceu o desenvolvimento de sistemas comerciais estáveis e permitiu
complementar a produção de bens provenientes da agricultura. O reino do Zimbabué teve ainda a grande
vantagem resultante da riqueza mineral e do acesso ao sistema comercial do Oceano indico. Longe do
mar, Kazembe possuía também uma apreciável riqueza mineral, e esteve em contacto permanente com as
costas ocidental e oriental por meio de rotas caravaneiras existentes, nos séculos XVIII e XIX.

A conclusão acerca da África central parece ser, portanto, a de que nessas regiões, onde não existiam
fontes importantes de riqueza mineira, onde todos iam produzindo os mesmos produtos agrícolas no
mesmo ambiente que podia revelar-se crítico para a produção agrí- cola à medida que a população
aumentava e as estações secas fossem prolongadas, nessas regiões havia poucas possibilidades de
aumentar os excedentes que a agricultura era capaz de produzir, através do comércio de longa distância.
Os reinos não conseguiram, portanto, desenvolver-se além de um certo limite, e dificilmente
sobreviveram a grandes crises de escassez agrícola. Devia ser esse o contexto no qual grupos como os
Jagas, os 1mbangalas e os Kazembes do Luapula, se lançavam do interior em direcção ao litoral e seu
comércio, ou - no caso dos Kazembes - em direcção a uma importante fonte de riqueza mineira que
estava ligada à costa por importantes rotas comerciais.

No entanto, ainda que as condições fossem freqüentemente desfavoráveis à sua estabilidade e
crescimento, há indícios de que os Bantos da África central possuíam realmente um conceito básico de
organização monárquica, o do poder do muene. Parece lógico admitir, portanto, que os Bantos se
dirigiram para norte do núcleo original de povoamento na África central levando consigo esse conceito.
uma vez chegados a um meio mais favorável junto do Lago Vitória, ele deve ter começado a florescer de
novo. Os povos nilóticos que conquista- ram os Bantos lacustres do norte devem muito provavelmente ter
alimentado e desenvolvido um conceito local de monarquia, em vez de introduzirem um que lhes fosse
próprio.

				
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