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Agricultura Familiar

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11/26/2011
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AGROECOLOGIA E SUSTENTABILIDADE: UMA EXPERIÊNCIA DE EXTENSÃO

RURAL



FINATTO, Roberto Antônio1; SALAMONI, Giancarla2; COSTA, Adão José

Vital da1; PANIS, Marcelo1

1,2

Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais – ICH/UFPEL - robertofinatto@gmail.com.

Rua Alberto Rosa, 154 – CEP: 96010 - 770 - Centro – Pelotas/RS





1. INTRODUÇÃO



O espaço rural brasileiro sofreu uma significativa transformação a partir das

décadas de 1960 e 1970 com o processo de revolução verde, quando foi iniciada a

modernização das atividades agrícolas baseadas no uso intensivo de insumos,

fertilizantes artificiais e maquinaria para as atividades desenvolvidas, exigindo a

substituição de mão-de-obra, e alta dependência do mercado, tanto para a obtenção

de produtos (tecnologias) como para a comercialização da produção.

O acesso às novas tecnologias como tratores, colheitadeiras, agrotóxicos e

fertilizantes químicos exigia elevados investimentos por parte dos produtores rurais

e grande parte deles não conseguiram ser incorporados pelo modelo da moderna

agricultura. Ainda, a estagnação gerada por essas práticas levou a exaustão dos

solos, impactando negativamente o ambiente em todas as suas dimensões.

No âmbito social, este modelo promoveu uma diferenciação entre os

agricultores, pois excluiu o pequeno produtor familiar que não teve acesso às novas

tecnologias. Favoreceu, assim, o processo do êxodo rural, quando o pequeno

produtor, em muitos casos, foi obrigado a vender suas terras, abandonando o

campo em busca de emprego nas áreas urbanas ou, muitas vezes, buscando outras

fontes de renda na própria área rural.

Diante dessa situação, intensifica-se o debate em torno da proposta da

agroecologia que surge como uma possibilidade de atingir a sustentabilidade no

espaço rural, visando alterar o padrão imposto pela revolução verde. Para isso, leva

em consideração as especificidades dos agroecossistemas locais, por meio da

implantação de técnicas adequadas e economicamente viáveis, onde o

conhecimento camponês acumulado ao longo das gerações possa ser aproveitado e

valorizado, e suas práticas possam ser incorporadas para a construção de novas

técnicas de manejo agrícola.

O modelo agroecológico poderá orientar o desenvolvimento na agricultura de

forma mais harmoniosa por basear-se nos pilares de sustentabilidade propostos por

SACHS (ecológico, econômico, político, social e cultural), os quais permitem

incorporar as complexidades da eficiência econômica e tecnológica, da eqüidade

social (qualidade de vida) e da preservação ambiental, assegurando a qualidade dos

recursos naturais e dos produtos.

Nesse contexto, o trabalho desenvolvido busca fortalecer o debate em torno

da agroecologia, analisando propostas de desenvolvimento e práticas de extensão

rural de base agroecológica no estado do Rio Grande do Sul e mais especificamente

no município de Pelotas, caracterizando os produtores do município de Pelotas em

relação a sua lógica de produção familiar.

2. MATERIAL E MÉTODOS



A presente pesquisa está estruturada em duas etapas, a saber: a primeira

refere-se ao levantamento bibliográfico relacionado ao referencial teórico utilizado na

análise, aprofundando o conhecimento relacionado às questões como

sustentabilidade, extensão rural, agricultura familiar e especificamente o paradigma

científico sobre a agroecologia. A partir desta análise elaborada a priori procedeu-se

o levantamento de dados e informações secundários referentes à temática de

estudo nos censos agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -

IBGE, cadastros da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER e

Associação Regional de Produtores Agroecológicos da Região Sul – ARPASUL.

Com vistas a oferecer um balizamento aos dados e proporcionar um maior

detalhamento das informações secundárias, pretende-se realizar mensurações

diretas no campo. Portanto, a segunda etapa da pesquisa refere-se à caracterização

dos produtores familiares de base agroecológica do município de Pelotas e ao

georreferenciamento de suas propriedades. Cabe ressaltar que a realização das

entrevistas diretamente com os produtores estará sendo conduzida pela perspectiva

teórica adotada, ou seja, será utilizada como proposta de tipificação de produtores

familiares os estudos elaborados por Lamarche (1993;1998). Segundo o autor o

grau de lógica familiar e a relação entre autonomia e dependência em relação ao

mercado mostram diferentes tipos de exploração agrícola.

Os resultados obtidos pela pesquisa de campo serão confrontados com a

metodologia de Lamarche para assim proceder-se a análise comparativa do modelo

teórico com a realidade empírica. Para uma melhor compreensão dos dados e

informações serão confeccionados gráficos, tabelas e mapas, os quais aliados a

redação final do trabalho permitirão responder as questões referentes ao problema

da pesquisa.



3. RESULTADOS E DISCUSSÃO



O estado do Rio Grande do Sul destaca-se, em nível nacional, pelos

importantes avanços que tem dado nos estudos/pesquisas e práticas de produção

orgânica. Os institutos de pesquisa, como EMBRAPA, EMATER, as Universidades e

Organizações-não-governamentais têm realizado trabalhos com os produtores rurais

a fim de experimentar novas técnicas para uma produção agrícola sustentável, os

trabalhos avançam, principalmente, na produção de hortigranjeiros.

No estado temos como exemplo de organizações que trabalham com

produção orgânica o Centro de Tecnologias Alternativas e Populares – CETAP,

localizado na Fazenda Anoni no município de Sarandi, (assentamento do projeto de

reforma agrária, no norte do Estado). Este núcleo foi criado em 1986, por ocasião de

um encontro sobre tecnologias alternativas, que reuniu pesquisadores de várias

áreas, comprometidos com a agroecologia e com movimentos populares (Sindicatos

Rurais, Movimento dos Sem Terra – MST, grupos de mulheres, trabalhadores rurais

e produtores familiares).

Também, a Assessoria e Serviços de Projetos em Agricultura Alternativa –

ASPTA, no município de Ijuí, e o Centro de Assessoria ao Pequeno Produtor, do

município de São Lourenço do Sul, entre outros, que desenvolvem atividades

semelhantes na área de agricultura de base agroecológica.

Em Pelotas, a partir de 1984, a Pastoral Rural (ligada à Diocese da Igreja

Católica) começou um trabalho de incentivo a agroecologia junto aos produtores

familiares do município, por meio de cursos de formação, visitas a Centros de

Agricultura Ecológica e implementação de experiências locais. Passada uma

década, no ano de 1995, a Pastoral Rural priorizou o trabalho de assessoria na

organização dos agricultores que adotaram o sistema agroecológico, a fim de que

pudessem comercializar adequadamente seus produtos.

Prestando assessoria aos grupos de pequenos agricultores no município e na

região a Pastoral Rural, busca disponibilizar técnicas alternativas sustentáveis de

manejo de culturas integrando os princípios de preservação ambiental com

rendimentos satisfatórios na produção dos alimentos cultivados, buscando ainda,

garantir a comercialização dos produtos visando que o produtor rural obtenha renda

em detrimento da diferenciação de sua produção.

A Pastoral firmou, também, convênio com o Centro de Apoio ao Pequeno

Agricultor – CAPA (São Lourenço do Sul), com o objetivo de oferecer assistência

técnica, na área da agroecologia, aos produtores familiares de Pelotas. Como

resultado desta ação conjunta, em 1995, foi fundada a ARPASUL (Associação

Regional de Produtores Agroecológicos da Região Sul) e, em novembro do mesmo

ano, foi inaugurada a primeira feira de produtos agroecológicos da região sul do

estado, na cidade de Pelotas.

Atualmente, a produção de base agroecológica, dos produtores cadastrados

que recebem assessoria da ARPASUL da região de Pelotas, é destinada para a

feira ecológica realizada semanalmente na cidade e parte para os programas de

bolsa alimentação do governo federal. A difícil comercialização do produto ainda é

um entrave para o desenvolvimento dessa produção em maior escala.

Atualmente estão cadastradas na ARPASUL, recebendo assistência técnica

na produção e comercialização, em torno de 56 famílias de produtores rurais

cadastradas, distribuídas em 4 municípios da região sendo que 39 pertencem ao

município de Canguçu, 14 ao município de Pelotas, 02 de Morro Redondo, e 01 do

município de Capão do Leão.



4. CONCLUSÕES



O espaço agrário vem sendo local de novas relações de produção,

influenciadas e fomentadas pela assessoria de órgãos públicos, como EMATER,

cooperativas, e até mesmo de instituição privadas, principalmente, no caso

especifico das Organizações-não-Governamentais – ONGs, tendo preocupação de

concretizar o debate acerca da problemática da sustentabilidade e da produção

agroecológica. A extensão rural adquire, assim, um papel fundamental, na medida

em que pesquisa/incentiva não apenas técnicas para a produção orgânica, mas

proporciona a busca por um sistema de produção agroecológica.

Dessa forma, entende-se que os prejuízos econômicos, sociais, ambientais e

energéticos, causados pelo modelo da agricultura moderna ou convencional,

atingiram patamares de insustentabilidade, buscam-se, então, estratégias viáveis de

desenvolvimento regional, fundamentadas nas potencialidades naturais de cada

agroecossistema.

A unidade de produção familiar, por possuir características intrínsecas, pode

perfeitamente ser associada aos princípios básicos da agroecologia. A importância

estrutural do núcleo familiar, que se orienta primordialmente à garantia da

reprodução social, traz consigo pelo menos duas decorrências: uma primeira e

fundamental é a visão sobre a preservação dos recursos naturais, em uma

perspectiva e não da próxima colheita, mas da próxima ou próximas gerações. A

segunda decorrência é a versatilidade para manejar os recursos agroecológicos

disponíveis. Do ponto de vista produtivo, a experiência adquirida em condições

muitas vezes limite, confere uma garantia adicional de continuidade de reprodução

econômica aos sistemas produtivos de caráter familiar.

Faz-se necessária assim, uma abordagem que torne complementares as

ações de pesquisa, extensão rural e as demandas dos produtores rurais. O grande

desafio é aproximar a realidade dos laboratórios e estações experimentais das

condições dos agricultores, valorizando sua base empírica de conhecimento

acumulada ao longo dos anos no manejo das técnicas agrícolas. Contemplando

assim, a participação destes nas ações de planejamento e desenvolvimento de um

novo sistema agrícola.





5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



ALTIERI, Miguel A. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura

sustentável. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998, 110 p.

GERARDI, L. H. O. e SALAMONI, G. Para entender o campesinato: a contribuição

de A. V. Chayanov. In: Geografia, Rio Claro, v.19, n. 2, out.1994.

GLIESSMAN, Stephen R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura

sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005, 653 p.

KITAMURA, P. C. Agricultura sustentável no Brasil: avanços e perspectivas. Revista

Ciência e Ambiente, Santa Maria, Julho/Dezembro, p. 7-28, 2003.

LAMARCHE, H (Coord.) Agricultura Familiar: Comparação Internacional.

Campinas/SP: Ed: UNICAMP, 1993, 336 p.

LAMARCHE, H (Coord.). Agricultura familiar: do mito à realidade. Campinas/SP:

Ed: UNICAMP, 1998, 348 p.

Pastoral Rural. Agricultura Ecológica – Insumos Alternativos: adubação e

proteção de cultivos. Pelotas, s/d. 25 p.

Revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável. Porto Alegre/RS, V.

1, n°2, Abril/Junho 2000.

SACHS, Ignacy. Estratégias de transição para o século XXI: desenvolvimento e

meio ambiente. São Paulo: Studio Nobel, 1993, 48p.


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