AGROECOLOGIA E SUSTENTABILIDADE: UMA EXPERIÊNCIA DE EXTENSÃO
RURAL
FINATTO, Roberto Antônio1; SALAMONI, Giancarla2; COSTA, Adão José
Vital da1; PANIS, Marcelo1
1,2
Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais – ICH/UFPEL - robertofinatto@gmail.com.
Rua Alberto Rosa, 154 – CEP: 96010 - 770 - Centro – Pelotas/RS
1. INTRODUÇÃO
O espaço rural brasileiro sofreu uma significativa transformação a partir das
décadas de 1960 e 1970 com o processo de revolução verde, quando foi iniciada a
modernização das atividades agrícolas baseadas no uso intensivo de insumos,
fertilizantes artificiais e maquinaria para as atividades desenvolvidas, exigindo a
substituição de mão-de-obra, e alta dependência do mercado, tanto para a obtenção
de produtos (tecnologias) como para a comercialização da produção.
O acesso às novas tecnologias como tratores, colheitadeiras, agrotóxicos e
fertilizantes químicos exigia elevados investimentos por parte dos produtores rurais
e grande parte deles não conseguiram ser incorporados pelo modelo da moderna
agricultura. Ainda, a estagnação gerada por essas práticas levou a exaustão dos
solos, impactando negativamente o ambiente em todas as suas dimensões.
No âmbito social, este modelo promoveu uma diferenciação entre os
agricultores, pois excluiu o pequeno produtor familiar que não teve acesso às novas
tecnologias. Favoreceu, assim, o processo do êxodo rural, quando o pequeno
produtor, em muitos casos, foi obrigado a vender suas terras, abandonando o
campo em busca de emprego nas áreas urbanas ou, muitas vezes, buscando outras
fontes de renda na própria área rural.
Diante dessa situação, intensifica-se o debate em torno da proposta da
agroecologia que surge como uma possibilidade de atingir a sustentabilidade no
espaço rural, visando alterar o padrão imposto pela revolução verde. Para isso, leva
em consideração as especificidades dos agroecossistemas locais, por meio da
implantação de técnicas adequadas e economicamente viáveis, onde o
conhecimento camponês acumulado ao longo das gerações possa ser aproveitado e
valorizado, e suas práticas possam ser incorporadas para a construção de novas
técnicas de manejo agrícola.
O modelo agroecológico poderá orientar o desenvolvimento na agricultura de
forma mais harmoniosa por basear-se nos pilares de sustentabilidade propostos por
SACHS (ecológico, econômico, político, social e cultural), os quais permitem
incorporar as complexidades da eficiência econômica e tecnológica, da eqüidade
social (qualidade de vida) e da preservação ambiental, assegurando a qualidade dos
recursos naturais e dos produtos.
Nesse contexto, o trabalho desenvolvido busca fortalecer o debate em torno
da agroecologia, analisando propostas de desenvolvimento e práticas de extensão
rural de base agroecológica no estado do Rio Grande do Sul e mais especificamente
no município de Pelotas, caracterizando os produtores do município de Pelotas em
relação a sua lógica de produção familiar.
2. MATERIAL E MÉTODOS
A presente pesquisa está estruturada em duas etapas, a saber: a primeira
refere-se ao levantamento bibliográfico relacionado ao referencial teórico utilizado na
análise, aprofundando o conhecimento relacionado às questões como
sustentabilidade, extensão rural, agricultura familiar e especificamente o paradigma
científico sobre a agroecologia. A partir desta análise elaborada a priori procedeu-se
o levantamento de dados e informações secundários referentes à temática de
estudo nos censos agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -
IBGE, cadastros da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER e
Associação Regional de Produtores Agroecológicos da Região Sul – ARPASUL.
Com vistas a oferecer um balizamento aos dados e proporcionar um maior
detalhamento das informações secundárias, pretende-se realizar mensurações
diretas no campo. Portanto, a segunda etapa da pesquisa refere-se à caracterização
dos produtores familiares de base agroecológica do município de Pelotas e ao
georreferenciamento de suas propriedades. Cabe ressaltar que a realização das
entrevistas diretamente com os produtores estará sendo conduzida pela perspectiva
teórica adotada, ou seja, será utilizada como proposta de tipificação de produtores
familiares os estudos elaborados por Lamarche (1993;1998). Segundo o autor o
grau de lógica familiar e a relação entre autonomia e dependência em relação ao
mercado mostram diferentes tipos de exploração agrícola.
Os resultados obtidos pela pesquisa de campo serão confrontados com a
metodologia de Lamarche para assim proceder-se a análise comparativa do modelo
teórico com a realidade empírica. Para uma melhor compreensão dos dados e
informações serão confeccionados gráficos, tabelas e mapas, os quais aliados a
redação final do trabalho permitirão responder as questões referentes ao problema
da pesquisa.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O estado do Rio Grande do Sul destaca-se, em nível nacional, pelos
importantes avanços que tem dado nos estudos/pesquisas e práticas de produção
orgânica. Os institutos de pesquisa, como EMBRAPA, EMATER, as Universidades e
Organizações-não-governamentais têm realizado trabalhos com os produtores rurais
a fim de experimentar novas técnicas para uma produção agrícola sustentável, os
trabalhos avançam, principalmente, na produção de hortigranjeiros.
No estado temos como exemplo de organizações que trabalham com
produção orgânica o Centro de Tecnologias Alternativas e Populares – CETAP,
localizado na Fazenda Anoni no município de Sarandi, (assentamento do projeto de
reforma agrária, no norte do Estado). Este núcleo foi criado em 1986, por ocasião de
um encontro sobre tecnologias alternativas, que reuniu pesquisadores de várias
áreas, comprometidos com a agroecologia e com movimentos populares (Sindicatos
Rurais, Movimento dos Sem Terra – MST, grupos de mulheres, trabalhadores rurais
e produtores familiares).
Também, a Assessoria e Serviços de Projetos em Agricultura Alternativa –
ASPTA, no município de Ijuí, e o Centro de Assessoria ao Pequeno Produtor, do
município de São Lourenço do Sul, entre outros, que desenvolvem atividades
semelhantes na área de agricultura de base agroecológica.
Em Pelotas, a partir de 1984, a Pastoral Rural (ligada à Diocese da Igreja
Católica) começou um trabalho de incentivo a agroecologia junto aos produtores
familiares do município, por meio de cursos de formação, visitas a Centros de
Agricultura Ecológica e implementação de experiências locais. Passada uma
década, no ano de 1995, a Pastoral Rural priorizou o trabalho de assessoria na
organização dos agricultores que adotaram o sistema agroecológico, a fim de que
pudessem comercializar adequadamente seus produtos.
Prestando assessoria aos grupos de pequenos agricultores no município e na
região a Pastoral Rural, busca disponibilizar técnicas alternativas sustentáveis de
manejo de culturas integrando os princípios de preservação ambiental com
rendimentos satisfatórios na produção dos alimentos cultivados, buscando ainda,
garantir a comercialização dos produtos visando que o produtor rural obtenha renda
em detrimento da diferenciação de sua produção.
A Pastoral firmou, também, convênio com o Centro de Apoio ao Pequeno
Agricultor – CAPA (São Lourenço do Sul), com o objetivo de oferecer assistência
técnica, na área da agroecologia, aos produtores familiares de Pelotas. Como
resultado desta ação conjunta, em 1995, foi fundada a ARPASUL (Associação
Regional de Produtores Agroecológicos da Região Sul) e, em novembro do mesmo
ano, foi inaugurada a primeira feira de produtos agroecológicos da região sul do
estado, na cidade de Pelotas.
Atualmente, a produção de base agroecológica, dos produtores cadastrados
que recebem assessoria da ARPASUL da região de Pelotas, é destinada para a
feira ecológica realizada semanalmente na cidade e parte para os programas de
bolsa alimentação do governo federal. A difícil comercialização do produto ainda é
um entrave para o desenvolvimento dessa produção em maior escala.
Atualmente estão cadastradas na ARPASUL, recebendo assistência técnica
na produção e comercialização, em torno de 56 famílias de produtores rurais
cadastradas, distribuídas em 4 municípios da região sendo que 39 pertencem ao
município de Canguçu, 14 ao município de Pelotas, 02 de Morro Redondo, e 01 do
município de Capão do Leão.
4. CONCLUSÕES
O espaço agrário vem sendo local de novas relações de produção,
influenciadas e fomentadas pela assessoria de órgãos públicos, como EMATER,
cooperativas, e até mesmo de instituição privadas, principalmente, no caso
especifico das Organizações-não-Governamentais – ONGs, tendo preocupação de
concretizar o debate acerca da problemática da sustentabilidade e da produção
agroecológica. A extensão rural adquire, assim, um papel fundamental, na medida
em que pesquisa/incentiva não apenas técnicas para a produção orgânica, mas
proporciona a busca por um sistema de produção agroecológica.
Dessa forma, entende-se que os prejuízos econômicos, sociais, ambientais e
energéticos, causados pelo modelo da agricultura moderna ou convencional,
atingiram patamares de insustentabilidade, buscam-se, então, estratégias viáveis de
desenvolvimento regional, fundamentadas nas potencialidades naturais de cada
agroecossistema.
A unidade de produção familiar, por possuir características intrínsecas, pode
perfeitamente ser associada aos princípios básicos da agroecologia. A importância
estrutural do núcleo familiar, que se orienta primordialmente à garantia da
reprodução social, traz consigo pelo menos duas decorrências: uma primeira e
fundamental é a visão sobre a preservação dos recursos naturais, em uma
perspectiva e não da próxima colheita, mas da próxima ou próximas gerações. A
segunda decorrência é a versatilidade para manejar os recursos agroecológicos
disponíveis. Do ponto de vista produtivo, a experiência adquirida em condições
muitas vezes limite, confere uma garantia adicional de continuidade de reprodução
econômica aos sistemas produtivos de caráter familiar.
Faz-se necessária assim, uma abordagem que torne complementares as
ações de pesquisa, extensão rural e as demandas dos produtores rurais. O grande
desafio é aproximar a realidade dos laboratórios e estações experimentais das
condições dos agricultores, valorizando sua base empírica de conhecimento
acumulada ao longo dos anos no manejo das técnicas agrícolas. Contemplando
assim, a participação destes nas ações de planejamento e desenvolvimento de um
novo sistema agrícola.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALTIERI, Miguel A. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura
sustentável. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998, 110 p.
GERARDI, L. H. O. e SALAMONI, G. Para entender o campesinato: a contribuição
de A. V. Chayanov. In: Geografia, Rio Claro, v.19, n. 2, out.1994.
GLIESSMAN, Stephen R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura
sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005, 653 p.
KITAMURA, P. C. Agricultura sustentável no Brasil: avanços e perspectivas. Revista
Ciência e Ambiente, Santa Maria, Julho/Dezembro, p. 7-28, 2003.
LAMARCHE, H (Coord.) Agricultura Familiar: Comparação Internacional.
Campinas/SP: Ed: UNICAMP, 1993, 336 p.
LAMARCHE, H (Coord.). Agricultura familiar: do mito à realidade. Campinas/SP:
Ed: UNICAMP, 1998, 348 p.
Pastoral Rural. Agricultura Ecológica – Insumos Alternativos: adubação e
proteção de cultivos. Pelotas, s/d. 25 p.
Revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável. Porto Alegre/RS, V.
1, n°2, Abril/Junho 2000.
SACHS, Ignacy. Estratégias de transição para o século XXI: desenvolvimento e
meio ambiente. São Paulo: Studio Nobel, 1993, 48p.