Caracteriza��o da Turma: Aspectos Sociais by wffrh55

VIEWS: 13 PAGES: 9

									Caracterização da Turma: Aspectos Sociais


       A turma que é objecto da presente intervenção era formada, no início do ano lectivo,
por 22 elementos. Atendendo às características da Escola, que se insere numa zona de forte
crescimento demográfico, é considerada uma turma “reduzida”, beneficiando de um estatuto
especial, pois todas as restantes turmas têm mais 25 alunos, chegando mesmo aos 30. Ao
longo do primeiro período verificou-se a entrada de uma nova aluna (meados de Novembro),
enquanto de deu a saída de uma outra, transferida logo no início do segundo período.
       Em termos etários, a composição da turma revela-se bastante heterogénea. No início
do ano lectivo as idades dos alunos oscilavam entre os 9 e os 15 anos (actualmente entre os 10
e os 16). No entanto, uma clara maioria de alunos (17 dos 23 que passaram pela turma)
tinham 10 ou 11 anos em Dezembro de 1999.
       Esta heterogeneidade é ainda sensível em outro aspecto: o conjunto dos alunos tem
uma origem bastante diversificada quanto ao estabelecimento de ensino frequentado no 1º
ciclo. Existem grupos de 3 a 5 alunos com origem em quatro escolas distintas (a própria EBI,
duas escolas públicas da zona e uma escola privada com paralelismo pedagógico) e um
conjunto equivalente de alunos cada qual proveniente de outras escolas.
       Passando para a análise do ambiente familiar podemos analisar, para obter uma
melhor caracterização do contexto em que nos movemos, algumas variáveis como o nível
académico, a profissão e a estrutura dos familiares (ascendentes ou outros) com quem vivem
os(as) alunos(as).
       Quanto ao nível académico, mais de 80% dos Encarregados de Educação e/ou pais dos
elementos da turma de que conhecemos estes dados, cumpriram apenas o que agora se
considera a escolaridade obrigatória (9º ano); mais de 30% apenas completaram ou
frequentaram o 1º ciclo do Ensino Básico. Apenas em dois casos temos a frequência do
Ensino Secundário e em outros dois do Ensino Superior.
       Esta situação tem natural reflexo na estrutura profissional dos Encarregados de
Educação da turma, em que predominam os(as) empregados(as) de comércio e serviços e
outros(as) trabalhadores(as) por conta de outrém de nível baixo ou intermédio, normalmente
ligados(as) a pequenas e médias empresas da região. Apenas temos referência a uma
professora e a um economista (dois casos de cursos superiores). Normalmente trabalham
ambos os elementos do casal, pois apenas 5 mães são domésticas (menos de 25% do total).
       Quanto ao núcleo familiar com que vivem os alunos da turma, verifica-se que a
maioria (17) vive com o agregado familiar original (pai, mãe e eventuais irmãos) e apenas
uma minoria com apenas um dos progenitores (2) ou com um dos progenitores e a família de
um segundo casamento (2). Num dos casos não se conhecem os elementos (veremos adiante
que isso se deve a uma situação de abandono escolar) e em outro o aluno vive com os tios.
       A outro nivel, foi possível apurar que mais de metade dos alunos dispõe de um espaço
próprio para estudar (quarto individual ou partilhado com um irmão), sendo esporádico o
único caso em que se afirma que o local de estudo é exclusivamente a Escola.
       Quanto aos alunos propriamente ditos, a sua atitude e as suas expectativas em relação
à Escola não são muito diferentes do que seria de esperar: nove alunos acham-na boa, três
bonita e quatro “incrível”, o “máximo”, “gira” ou “fixe”. Dois alunos mostram-se intimidados
com o barulho e um com o tamanho. Só uma aluna (aque se matriculou mais tarde) a acha
“péssima”. Quanto aos professores, cerca de metade esperam que sejam bons, chegando dois
a especificar que pretendem “bom ensino”; outros falam em “não darem fichas” ou em
“darem boas notas”; um mais pragmático espera que os professores “sejam o que são”,
enquanto outro mais ambicioso espera “tudo e mais alguma coisa”.
       Em termos de expectativas de futuro, a dispersão é muito grande, pois só em dois caos
(veterinário e camionista) existem opiniões repetidas. Alguns (3) ainda não sabem o que
pretendem vir a ser ou não pensaram nisso e os restantes dividem-se entre candidatos a polícia
sinaleira, paraquedista, jornalista, professor, médico, economista, modelo ou treinadora de
golfinhos e focas, entre algumas outras hipóteses.


Caracterização da Turma: Aspectos Psicopedagógicos


       Como já atrás se referiu esta é uma turma considerada “especial” devido à inclusão de
vários alunos com diversos níveis de dificuldades de aprendizagem, que se passam a
apresentar nos traços gerais:


       a) Alunos com necessidades educativas especiais
       Aluna nº 3 – Aluna apenas com a frequência do 1º ciclo, com indicações de apatia e
       baixa auto-estima.
       Aluno nº 11 – Aluno com acrocefalia e diagnóstico não confirmado de outra desordem
       do foro mental, perturbadora do seu desenvolvimento intelectual e causadora de
       distúrbios da linguagem.
       Aluna nº 22 – Aluna com défice auditivo profundo (100%) num dos ouvidos e mais
       ligeiro (20%) no outro.
       b) Alunos em potencial risco educacional
       Aluno nº 5 – Aluno com 14 anos e que transitara do 4º ano com grandes dificuldades e
       grande falta de assiduidade, indiciando-se uma forte possibilidade de abandonar a
       escolaridade para entrar no mundo do trabalho.
       Aluno nº 15 – Aluno com 15 anos, que apenas teve acesso à escolaridade com 12/13
       anos devido às características do seu núcleo familiar original, ligado a ambientes de
       marginalidade. O pai faleceu e mãe encontra-se presa, pelo que o Tribunal de Menores
       entregou a sua tutela (e dos outros três irmãos mais novos) aos tios com quem vive.
       Aluna nº 23 – Aluna de 14 anos que entrou mais tarde para a turma. Ambiente familiar
       atípico, tendo a aluna estado internada num colégio nos últimos anos e afastada dos
       pais. Actualmente vive com a mãe e padrasto. Levou 9 anos para completar o 1º ciclo,
       embora não estivessem referenciadas anteriormente necessidades educativas especiais.


       c) Casos de alunos com dificuldades de aprendizagem mais ou menos graves
       Aluno nº 8 – Aluno com graves distúrbios (dislexia ?) na produção escrita, revelando
       extrema lentidão e numerosos erros ortográficos, embora funcione oralmente acima da
       média e compreenda com correcção enunciados orais. Leitura hesitante.
       Aluna nº 9 – Aluna com desordem por défice de atenção, com sensíveis dificuldades
       na capacidade de compreensão de enunciados escritos.
       Aluno nº 21 – Aluno com relatório do 1º ciclo que indicava grande nível de timidez e
       “bloqueios” em determinadas áreas como a Matemática (incapacidade ou recusa de
       fazer contas de dividir) e Educação Física (vergonha em se expôr e falhar nas
       actividades). No entanto, o desempenho em Língua Portuguesa é regular.


       A par destes casos, mais problemáticos ou complexos do ponto de vista pedagógico, a
turma tem um conjunto de alunos claramente acima da média (nºs 1, 4, 12, 13, 14, 17 e 20),
com bastante autonomia e espírito de responsabilidade e iniciativa, acabando por ser uma
minoria aqueles que poderemos considerar como alunos “regulares”.
Estratégias


Diagnóstico da situação – Conselho de Turma/Equipa de Apoios (Perfil de Turma)
Planificação geral comum:
       -   Definição de objectivos globais e disciplinares.
       -   Materiais didácticos/actividades diversificados para alguns alunos.
       -   Atenção a todos os alunos e aos seus ritmos de aprendizagem.
Trabalho entre os pares – Entreajuda, solidariedade.
Apoio na sala de aula – Modalidade conforme as disciplinas.
Sala de estudo/Actividades de complemento curricular.
Organização da sala – Proporcionar um bom ambiente de trabalho, não criando espaços
               estanques, mas dando resposta a necessidades específicas.
    Planta da sala organizada espontaneamente pela turma (Setembro)



(Nº 5)        Nº 2         Nº19             Nº 9      Nº 13       Nº3




Nº 7                                                             Nº 21




Nº 10                                                            Nº 18




Nº 15                     Nº 14            Nº 17                 Nº 16




Nº 20                                                             Nº 4




Nº 12                      Nº 8            Nº 11                  Nº 1




Nº 6




Nº 22




                          Mesa do(a)   Professor(a)
             Planta da sala com a turma (Dezembro/Fevereiro)



               Nº 2         Nº10        Nº 19           Nº 7         Nº1




  Nº 15                                                            (nº 16)




  Nº 20                                                             Nº 9




   Nº 4                                                             Nº 13




  Nº 17       Nº 14        Nº 23                                    Nº 12




  Nº 21                                                             Nº 18




  Nº 11                                 Nº 22          Nº 16        Nº 6
                                                       (nº 3)


Professora
de Apoio                                                            Nº 8




                                      Mesa do(a)   Professor(a)




                               Graduação crescente das dificuldades de
                                aprendizagem a ultrapassar pelos alunos
               OBJECTIVOS FUNDAMENTAIS




                    8                             23
   11
                    3              9              15
   22
                   21                             5




                                                Prevenir
Desenvolver    Desenvolver a   Desenvolver
                                              situações de
 estratégias   auto-estima e   competências
                                               abandono
 inclusivas    competências      básicas
                                                 escolar
 perante as       básicas
    NEE
Contributos para a inclusão – apresentação de um “Perfil de Turma”


Maria João Pinto
Paulo Guinote


       Tomando como princípio orientador da nossa prática pedagógica o conceito de
inclusão, urge concretizar na prática estratégias efectivas para a construção de uma “escola
inclusiva”. A tarefa não é fácil, pois está nos seus primeiros passos, e estamos conscientes
das muitas dificuldades que nos surgirão num caminho por onde ainda tacteamos em
busca das orientações mais adequadas.
       Sabendo que é necessário gerir diferenças em sala de aula e estando empenhados
em promover aprendizagens de qualidade para todos os alunos, surgem-nos desde logo
diversas questões:
       -   Planificar… para quem ?
       -   Como definir estratégias de intervenção sem conhecer em profundidade as
           situações a enfrentar ?
       -   Que materiais utilizar no apoio a uma pedagogia que se pretende diferenciada e
           adaptada às necessidades educativas de cada aluno ?
       Sem possuirmos um conhecimento sistemático dos alunos com quem vamos
trabalhar, desde os seus ritmos e formas de aprendizagem ao seu contexto familiar,
passando pelas aspirações de futuro, pela imagem que têm da Escola, não é possível
planificar um trabalho adequado a todos os alunos e que aspire a alcançar um real sucesso
educativo que ultrapasse o mero sucesso escolar para consumo estatístico.
       Com tudo isto em mente, pretendemos apresentar um instrumento de trabalho
que visa identificar os diversos estilos de aprendizagem presentes em cada grupo de
alunos, denominado “Perfil de Turma”, actualmente em aplicação em todas as escolas do
concelho de Sesimbra, como estratégia dinamizadora das práticas inclusivas do trabalho
entre docentes e discentes de cada turma.
       Para exemplificar a sua aplicação apresentamos um caso concreto – uma turma de
5º ano da Escola Básica Integrada da Quinta do Conde.
Maria João Pinto


   Licenciada em Antropologia pela Faculdade de Ciências Sociais Humana da Universidade
    Nova de Lisboa.

   Pós-Graduada em Sociologia das Religiões.

   Professora dos 1º e 11º Grupo A desde o ano lectivo de 1985/86.

   Professora dos Apoios Educativos da ECAE de Sesimbra.



Paulo Guinote


   Licenciado em História e Mestre em História Contemporânea pela Faculdade de Ciências
    Sociais Humana da Universidade Nova de Lisboa.

   Professor dos 1º e 10º Grupo A desde o ano lectivo de 1986/87, actualmente colocado na
    Escola Básica Integrada da Quinta do Conde

   Colaborador do Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a Comemoração dos
    Descobrimentos Portugueses desde 1990.

   Autor de diversas obras de investigação histórica.

								
To top