SUBSÍDIO DE PREPARAÇÃO PARA O
CONGRESSO DE JOVENS LÍDERES DE
ORATÓRIOS E OBRAS SOCIAIS
LORENA 2005
POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A JUVENTUDE
Organizadores:
Alex Félix dos Santos
Sérgio Augusto Baldin Júnior, sdb
INDICE
OFICINA 01: O que é Política? ____________________________________________________02
OFICINA 02: O que é a Juventude? ________________________________________________04
OFICINA 03: A Evolução do Conceito de Cidadania __________________________________07
OFICINA 04: Direitos e Deveres da Juventude _______________________________________12
OFICINA 05: Protagonismo, um Estilo de Vida_______________________________________31
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OFICINA 1
O QUE É POLÍTICA
1.1 - Democracia, política e idiota. Palavras de origem grega.
por Charles Cruz
de.mo.cra.ci.a sf (gr demokratía)
1 Governo do povo, sistema em que cada cidadão participa do governo; democratismo. 2 A influência do povo no governo de
um Estado. 3 A política ou a doutrina democrática. 4 O povo, as classes populares.
Dicionário Michaelis
A democracia é grega. Parece que não poderia ser diferente. Nasceu no mesmo país que nos deu a filosofia e os princípios da
matemática. Sem estas três instituições, o mundo como o conhecemos hoje não seria o mesmo. Devemos o pouco da coerência
que resta neste mundo ao povo que perseguiu incansavelmente, através destas ciências, o senso lógico.
O surgimento da democracia tem ligação direta com outra palavra de origem grega. A palavra "política" vem de pólis. Foi na
pólis grega que o homem comum conquistou seus primeiros direitos como cidadão. Inicialmente, a vida na pólis não admitia a
influência do homem comum. Mesmo assim, todos os conceitos de pólis contemplam a noção de comunidade. Porquê, já na
sua concepção original, a pólis tinha influência dos seus cidadãos, os que pertenciam as fileiras de guerra e os que podiam
opinar, mesmo que resumidamente.
Esta pólis, que oferecia representatividade política para alguns segmentos da sua sociedade, ofereceu também o cenário ideal
para o surgimento da democracia plena. Com o tempo, parcelas mais amplas das pólis passaram a ter uma representatividade
maior na discussão da coisa pública. Assim, as cidades gregas, na medida em que davam - ou não - mais espaço para seus
cidadãos, dividiram-se entre "oligarquias" e "democracias". Enquanto a pólis tradicional ainda era governada pelos ricos, a
nova pólis era governada pela maioria dos homens livres. Consolidava-se, definitivamente, o conceito moderno de democracia.
O regime onde todos os cidadãos têm poder para influir nos rumos do Estado. Onde todos os cidadãos podem participar da
vida pública. Onde todos podiam, livremente, fazer política. Os filósofos gregos compreendiam que o homem podia, como em
nenhum outro lugar, ser civilizado na pólis.
Ironicamente, os gregos também têm uma palavra para designar alguém que "se prende" em preocupações particulares e que
não participa nem se preocupa com a coisa pública: idiota.
1.2 - Juventude e Democracia
A democracia, regime que assegura a oportunidade para todos, garantindo e estimulando a potencialidade dos que se
demonstram mais capazes, tem na juventude seu núcleo central. No entanto, o privativismo e o coletivismo, modelos de
sociedade democrática, só dão vez ao jovem que consegue aceitar as regras pré-determinadas, o que entra em choque com seus
próprios valores. O adulto pode até confessar-se impotente para reverter um panorama social, mas o jovem costuma desviar-se
das normas preconizadas, não pelo simples instinto de contradição ou pela vontade de renegar o estabelecido, mas,
freqüentemente, pelo prazer de sustentar um ideal. Ele passa, então, a medir forças com o poder, ainda que não tenha um
projeto alternativo, de forma consciente, para apresentar.
O Brasil, que teve uma grande oportunidade de ingressar na modernidade democrática, nos anos 60, perdeu-a por ocasião do
golpe militar de 1964, optando por um modelo de desenvolvimento que comprometeu o futuro das próximas gerações. O
resultado pode ser facilmente constatado no momento atual: a concentração de renda gerou uma economia próspera, mas que
excluiu grande parte do povo e aumenta o nível de pobreza no país. Esta realidade choca-se com os ideais da juventude que,
tradicionalmente, anseia por uma sociedade mais justa. Por contestá-la, o jovem torna-se, então, alvo da reação dos poderosos.
A repressão às idéias preconizadas pela juventude parece ter sido a única política adotada nos últimos anos pelo Estado
brasileiro em relação a seus jovens. Num resquício dos anos de ditadura, muitas vezes, ainda reagem, como se eles estivessem
praticando um crime, quando tudo o que, a grande maioria, sempre desejou e ainda deseja é a alteração do quadro social,
político, cultural, jurídico e ideológico. No entanto, ao tentar inovar, o jovem é visto como afoito, irresponsável,
inconseqüênte. Em resposta a seus ideais é sempre tratado com prepotência e má vontade.
Sabe-se que é impossível a implantação de um projeto democrático que não contemple a juventude. Mas o Brasil, um dos
países com maior taxa de população jovem do mundo, ainda não elaborou uma política direcionada a eles. Contudo, quanto
mais a opinião pública bem informada e independente rejeita os discursos paternalistas e as práticas autoritárias, mais a
democracia avança. E esta é a crença daqueles que apostam no futuro e dos que acreditam que os homens são capazes de criar
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uma sociedade mais fraterna. ("Juventude, uma cidadania necessária" - Lincoln de Abreu Penna - Cidadania/Emancipação -
Editora Tempo Brasileiro - 1990)
Um pouco de humor
Jesus no " SUS "
Jesus Cristo resolveu voltar a Terra... E decidiu vir vestido de médico!Procurou um lugar para descer, escolheu no Brasil um posto de
saúde dosistema SUS. Viu um médico trabalhando há muitas horas e morrendo decansaço. Jesus então entrou de jaleco, passando pela fila
de pacientes nocorredor, até atingir o consultório médico. Os pacientes viram e falaram:
- Olha aí, vai trocar o plantão.
Jesus Cristo entrou na sala e falou para o colega que podia ir, que ele iria tocar o ambulatório dali por diante. E, todo resoluto, gritou:
- O PRÓXIMO.
Entrou no consultório um homem paraplégico em sua cadeira de rodas. Jesus Cristo levantou-se, olhou bem para o aleijado, e com a palma
da mãodireita sobre sua cabeça disse:
- LEVANTA-TE E ANDA!
O homem levantou-se, andou e saiu do consultório empurrando a própria cadeira de rodas. Quando chegou ao corredor, o próximo da fila
perguntou:
- E aí, como é esse Doutor novo?
Ele respondeu:
- Igualzinho aos outros... Nem examina a gente!
Moral da história:
" Tem gente que já recebeu o milagre, mas nem se toca, pois só vive pra reclamar ou botar defeito em tudo nessa vida!!! "
PARA REFLETIR...
1 ) A definição de política contida no texto coincide com os seus conhecimentos? Por quê?
2 ) Porque não é possível existir um Estado verdadeiramente democrático sem políticas específicas para a
juventude?
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OFICINA 02
O QUE É A JUVENTUDE?
Juventude é um período de transição, no qual o sujeito não é criança, nem adulto. Podemos caracterizar este período de
transformações, como um processo de criação de identidade, marcado pela busca de uma caracterização social. Muitos mitos
cercam este tema juventude. Entre eles, o descaso e a falta de entendimento do jovem como ser autônomo e livre em seu
pensamento.
São indivíduos que encontram nas manifestações culturais toda a ânsia de mudança. São indivíduos inseridos num período
histórico competitivo, no qual, suas afinidades e aptidões são desrespeitadas pela lógica mercantilista das relações. Às vezes
agem de forma organizada, outras não. Possuem as mais diversas compreensões acerca da vida. Valorizam coisas diferentes.
Na verdade, são todos diferentes e encontram problemas em comum: o sucateamento da educação pública, o desemprego, a
violência, a intolerância, a marginalidade, a opressão sexual, de gênero e racial. Estas opressões são manifestas de maneira
diferente entre o conjunto da população e a juventude. Podemos estabelecer como parâmetro a relação do jovem com o poder.
O poder de decidir onde morar, o poder de, na sua casa trocar o sofá de lugar, o poder de modificar estruturas sociais, o poder
de decidir os rumos de sua vida e da vida política do país. Esta situação traz uma dualidade imprescindível para a compreensão
do jovem neste contexto social. Por um lado, a juventude tem uma história de lutas. Uma ânsia por mudança, um desejo
sincero de ver acontecer. Um espírito rebelde, inovador, cheio de esperança. Estão descobrindo o mundo e buscando sentido
para sua vida. Por outro lado, temos o jovem que é formado e moldado a partir dos valores passados pela família, pela escola e
pelo grupo onde está inserido.
Este meio em que o jovem se constitui enquanto indivíduo lhe é dado de forma pronta, e isto é aprendido desde a infância. Essa
idéia de conformidade, de receber tudo pronto e esperar que os outros façam, é transferida na compreensão política, onde
constatamos que grande parte da população vê sua vida política limitada a eleição e ao voto. Então, chegam os 16 anos de
idade, e o jovem já pode votar. Seu primeiro contato com a institucionalidade passa a ser a única forma de exercer a cidadania
e, sua única forma de estabelecer relação com o poder público.
Queremos chamar atenção em especial a este aspecto, pois uma pesquisa recente, realizada pelo Núcleo de Pesquisa e opinião,
da Fundação Perseu Abramo , constata que 56% dos jovens acreditam não ter nenhuma influência sobre a política. Sem
dúvida, um dado lamentável...
Aquela juventude que se tornou ícone para um país pela sua rebeldia, criatividade, irreverência, e que protagonizou momentos
decisivos para a democracia do Brasil, perde seu espaço para uma juventude conformada, que ouve e não consegue falar, que
cala, mas que não consente. Estamos vivendo um período histórico em que é necessário reinventar formas de atuação,
organização e compreensão da juventude.
Precisamos inovar e , se não conseguimos falar, então gritemos, cantemos, brinquemos, enfim, nos manifestemos da maneira
que quisermos!
2.1 - O Conceito de Juventude
O conceito de Juventude é relativamente recente, e é definido geralmente, como um estado intermédio entre a infância, idade
da irresponsabilidade, e a vida de adulto, idade da responsabilidade.
Esta diferenciação surge apenas durante o século XVII e, nesta altura, aplica-se apenas a uma classe: a nobreza.
Contudo, durante o séc. XIX, o estatuto alarga-se à classe que substitui a nobreza no poder: a burguesia. Aqui, o período
situava-se entre o acabar dos estudos e o iniciar uma profissão. Ao longo destes dois séculos, todas as restantes classes sociais,
passavam diretamente da infância à vida adulta, através do mundo do trabalho.
É só no nosso século que o estatuto de jovem se passa a aplicar a todas as classes da população nos países industrializados. O
jovem passa a ser um indivíduo de um determinado grupo etário.
Para além do estatuto legal, o papel do jovem não está bem definido na sociedade portuguesa. Sendo a juventude, uma
categoria socialmente construída no contexto de determinadas situações econômicas, sociais ou políticas, é uma categoria
sujeita, pois, a modificar-se ao longo do tempo, de acordo com as condições socioculturais.
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Mesmo a noção comum de jovem, muito associada a fases etárias, tem-se vindo a tornar cada vez mais difícil de delimitar,
pois as exigências da vida do pós-modernismo tendem a prolongar a permanência em casa dos pais e a dependência
relativamente a estes. O chamado generation gap (fosso geracional) nunca foi tão grande nem se fez notar de forma tão nítida.
A distância sociocultural é agora tão grande entre pais e filhos, como era gerações atrás, entre avós e netos. Nestas condições, o
critério etário torna-se insuficiente para definir jovem.
Temos assistido a grandes transformações no sistema social, quer a nível da organização da rede escolar, com o prolongamento
da escolaridade; quer ao nível da dependência do jovem perante o núcleo familiar devido ao adiamento da inserção do jovem
no mercado de trabalho. Isto leva a que a realidade se afaste do conceito tradicional de juventude (1). Existe assim uma
indeterminação social do que é a juventude, e consequentemente da(s) sua(s) realidade(s). Trata-se de uma zona de incerteza
sociológica.
Também a aparentemente simples noção de inserção no mercado de trabalho, é multifacetada. Além da diferença entre jovens
que trabalham, e os que não trabalham, há ainda que distinguir entre aqueles que desenvolvem uma atividade profissional
estável (com contrato, a tempo inteiro, e razoavelmente bem remunerada) (2); e os outros, que trabalham sobretudo para
complementar as prestações familiares, cujo consumo é direcionado essencialmente para os gastos no lazer (3). Nestes casos,
abunda o part-time, e o trabalho temporário e/ou precário, em suma, aquilo a que J. M. Pais chama o mercado de trabalho
secundário, nos sectores "subterrâneos" da economia (PAIS,1994: 18).
2.2 - Juventude Urbana - Marginalizados e em Transformação
O jovem dos anos 90 não está preso aos dogmas cultuados nos anos 60. Ao mesmo tempo pode ser a favor da pena de morte e
ser ecologista. Ser politizado e ir ao caipiródromo. Nos anos 60 tinha que ser sexualmente liberal, marxista e não gostar de
rock. Hoje é normal encontrar, entre rapazes e moças, virgens, literalmente, além de escolherem mitos, os mortos John Lennon,
Jim Morrison, Jesus Cristo. Incoerência? Mudanças radicais? A juventude de ontem desafiava a cultura da competição, "não
confiava em ninguém com mais de 30 anos" e vestia-se com um desmazelo espantoso e proposital. O jovem de hoje
reformulou seus conceitos, preocupando-se com a qualidade de vida embora, não desprezando a valorização do aspecto físico,
característica de sua idade, num país que, já apontava, no final da década de 80, para uma população de 40 milhões de pessoas
com idade entre 15 e 29 anos.
Por outro lado, em 89, um levantamento feito pela empresa de pesquisa americana Saldiva detectou um jovem desacreditado
com o "status quo", com a política econômica e com os valores vigentes. Já nessa época ficou patenteado que todos são
consumistas, independentemente de classe social. Apesar de saber do valor do dinheiro e as dificuldades para o ganho, o jovem
se utiliza da fantasia do consumo como fuga do próprio real. Muito mais do que a droga, o jovem do início da década de 90 já
usava a fantasia como elemento da fuga. E o consumo é a nova droga. A juventude de hoje, segundo a pesquisa, não trazem
nem ligação com os ideais políticos pacifistas da década de 60 nem o culto egoísta ao dinheiro que caracterizou os jovens
urbanos de 80. Enfim, é uma juventude às voltas com suas crises pessoais e profissionais dentro de uma crise econômica do
país. Com a crise econômica acentuada tornou-se mais difícil para os jovens dos anos 80 construírem uma perspectiva de vida
num cenário de desigualdades sociais, um esgotamento de forma de expressão e de estilo incentivando, nesse período, um
êxodo do país para outros onde exista qualidade de vida, economia estável e mercado de trabalho.
2.2.1 - Jovem Urbano
No primeiro semestre de 1995 uma revista brasileira (VEJA) realizou uma pesquisa com jovens urbanos de vários países. Essa
pesquisa aponta um jovem brasileiro menos otimista que os dos outros países no que diz respeito a melhoria da qualidade de
vida no mundo. Apenas 17% acha que sua geração vai viver numa sociedade mais justa. Quanto à política tanto os
marginalizados quanto os urbanos pensam da mesma maneira: os políticos não são confiáveis. A prova cabal desse dado foi o
movimento pró-impeachment, em 1992, uma atuação coletiva de toda a juventude brasileira, tornando-se a grande alavanca
que destituiu o primeiro presidente eleito pelo povo, após o período militar..
Essa mesma pesquisa mostra, também, que apesar da aparente liberdade de escolha dos jovens da classe média existe, na
verdade, um processo intenso de massificação de valores conservadores. Essa globalização operada, sobretudo, pela televisão,
coincide como uma com a dinâmica do jovem de menos idade, que tem entre suas principais características o desejo de
controlar o mundo. A profissão, a realização pessoal e o respeito marcam mais pontos em suas ambições do que o sucesso e a
fama; pessoalmente esperam casar e ter filhos. Lutam por valores mais autênticos da humanidade. Ecologia, comportamento
saudável e seu futuro profissional estão entre suas preocupações, apesar do liberalismo sexual o jovem atual busca
relacionamento onde estejam presentes valores como responsabilidade, respeito e confiança.
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PARA REFLETIR...
1 ) De que forma podemos situar a juventude no contexto social em que vivemos?
2 ) A partir da reflexão sobre o jovem urbano, quais as diferenças que você encontra entre os jovens das
décadsa de 60, 80, 90 e do ano de 2005?
3) No início do item 2.2.1 o autor do texto traz uma reflexão sobre a atuação da juventude no impeachment
do presidente Fernando Collor. Você concorda com a visão de juventude apresentada pelo autor?
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OFICINA 03
A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CIDADANIA
Por Cyro de Barros Rezende Filho
Isnard de Albuquerque Câmara Neto
Departamento de Ciências Sociais e Letras UNITAU
Resumo
Este artigo apresenta a evolução do conceito de cidadania à luz de algumas transformações políticas ocorridas na História das
sociedades. Para tanto, percorremos uma longa trajetória, desde seu nascimento na Antiguidade, passando por uma perda de
seu significado na Idade Média, até ressurgir na Modernidade e originar calorosos debates nos dias de hoje.
PALAVRAS-CHAVE: cidadania; política; história; sociedade
Introdução
A cidadania é notoriamente um termo associado à vida em sociedade. Sua origem está ligada ao desenvolvimento das póleis
gregas, entre os séculos VIII e VII a.C. A partir de então, tornou-se referência aos estudos que enfocam a política e as próprias
condições de seu exercício, tanto nas sociedades antigas quanto nas modernas. Por outro lado, as mudanças nas estruturas
socioeconômicas, incidiram, igualmente, na evolução do conceito e da prática da cidadania, moldando-os de acordo com as
necessidades de cada época. Nosso objetivo aqui é, portanto, apresentar um panorama desse desenvolvimento, enfocando a
cidadania tal como a percebemos hoje, ou seja, como uma condição de igualdade civil e política. Para tanto, destacaremos
alguns processos históricos e as alterações que provocaram no entendimento do conceito, respondendo a anseios dos grupos
sociais envolvidos no desenvolvimento das sociedades políticas. Assim, vamos buscar no campo das relações humanas
organizadas – social, moral e juridicamente – os pontos fundamentais das variações desse conceito, antes e depois das
modernas sociedades industriais.
Estas, a partir do século XVIII, legaram ao mundo novas visões sobre a economia, a sociedade e a política. A partir daí,
alargaram-se os horizontes da esfera pública, ampliando-se, conseqüentemente, os direitos dos cidadãos nos seus expoentes
civis, políticos e sociais. A intensificação desses direitos provocou, ao mesmo tempo, uma contrapartida conservadora, a qual
procurava conter as lutas travadas por direitos legítimos (BARBALET, 1989, p. 11-19).
Este e outros antagonismos colocam a discussão sobre o conceito de cidadania em termos de uma dialética entre o social e o
político. Sem essa dualidade, torna-se difícil entendermos a estreita relação existente entre a cidadania moderna e o
desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, percebida em muitos dos autores consultados (COVRE, 1986, p. 161-188). A
noção desses pressupostos torna-se primordial para a compreensão do debate atual sobre a cidadania. Essa importância é
reforçada pelas conseqüências provocadas pela Segunda Guerra Mundial, a partir da qual se tornou difícil, e até mesmo
pungente, referir-se ao tema cidadania sem esbarrar na questão dos direitos humanos. Para dar conta de todas as modificações
que o conceito sofreu ao longo do tempo, iniciaremos o artigo com o nascimento da cidadania no seu sentido clássico,
identificando suas especificidades no mundo antigo. Na seqüência, teceremos comentários sobre a cidadania na Idade Média,
no contexto do Iluminismo e das Revoluções Burguesas, na época moderna. Por fim, faremos as devidas considerações ao seu
atual significado, privilegiando a esfera dos direitos e deveres e, sobretudo, reforçando o conceito de justiça social ao qual o
termo cidadania está associado.
3.1 - O Nascimento da Cidadania
É difícil datar com precisão o aparecimento do conceito de cidadania. Sabemos que o seu significado clássico associava-se à
participação política. O próprio adjetivo ‗político‘, por sua vez, já nos remete a idéia de pólis (Cidade-Estado Antiga).
Podemos concluir, então, que foi justamente sobre esse tipo de organização urbana que se assentaram as bases do conceito
tradicional de cidadania e de uma considerável parte de seu significado atual.
Atendo-nos aos estudos das póleis gregas e romanas, constatamos que muitas modificações ocorridas, resultado de
transformações nos campos da técnica, da economia e da arte bélica, alteraram potencialmente as relações entre o poder e a
sociedade (CARDOSO, 1985, p. 28-29). Além disso, não podemos esquecer que a urbanização foi o fator que mais contribuiu
para a evolução das póleis. Alterações foram sentidas em todos os níveis da sociedade, da economia e da política. Na realidade
grega, por exemplo, era o regime aristocrático que imperava,. Com esse modo de fazer política, a cidadania confundia-se com
o conceito de naturalidade. Assim considerava-se cidadão aquele nascido em terras gregas, o qual poderia usufruir todos os
direitos políticos. Os estrangeiros, proibidos de ocuparem-se da política, dedicavam-se às atividades mercantis.
Com o passar do tempo, operou-se uma redistribuição do poder político. Aceitou-se o ingresso de estrangeiros na categoria de
cidadão, abolindo-se a escravidão por dívidas. Mais do que indicar uma reformulação do conceito, essa idéia revelava os
reflexos de transformação estruturais. Além de ampliação do quadro de cidadãos, as póleis gregas presenciaram o
deslocamento do controle político e jurídico. Nesse contexto, a aristocracia cedeu espaço a favor das Assembléias e dos
conselhos com participação popular. No entanto, havia ainda critérios de distinção social, por meio dos quais se limitava o
acesso às Magistraturas mais altas, polarizando o poder político.
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Como exemplos dessa polarização, podemos citar as classes censitárias criadas pelo legislador Sólon, no século VI a.C., e a
submissão da Assembléia do povo a um Conselho cujos membros provinham da velha aristocracia, embora esta decisão não
tenha durado muito tempo (CARDOSO, 1985, p. 47). Apesar dessas mudanças, fatores de ordem social e política continuavam
associando o termo cidadania ao exercício da participação política (CARDOSO, 1985, p. 28-29). Mesmo com esse
pleno direito assegurado e a existência de um regime democrático, a cidadania aparecia de forma tímida, principalmente no
que se refere ao efetivo das decisões políticas. Muitos cidadãos, cercados por restrições econômicas e valores ligados à família,
permaneciam completamente alienados e tolhidos na expressão de atos políticos (ARENDT, 1995, p. 37-47). Dessa forma,
seria ingênuo acreditarmos que apenas a garantia de plenos direitos oferecida a um cidadão possibilitava-lhe uma participação
efetiva nas decisões políticas. A cidadania significava, portanto, algo mais do que a garantia de plenos direitos. Era, pois, um
status que oferecia ao cidadão várias possibilidades, indo além das destinadas ao indivíduo comum.
Em Roma, a situação não era diferente. Sociedade escravista, baseada nas ―gens‖ (famílias), era dominada pelos patrícios, os
quais detinham a cidadania e os direitos políticos. À plebe, constituída de romanos não nobres e de estrangeiros, não cabia
qualquer tipo de direito. Este quadro alterou-se aos poucos, possibilitando o acesso à cidadania a todos os romanos de
nascimento, mesmo que fossem escravos libertos. Apesar desse avanço, uma manobra da Aristocracia para preservar o controle
político restringiu, novamente, o acesso à cidadania. Apenas as mais altas magistraturas, entre elas o Senado e o Patriciado,
poderiam usufruir dos privilégios dessa posição. Para conseguirem tal fato, os patrícios aproveitaram-se da tradição mítico-
religiosa, proveniente das origens de Roma, a qual lhes reservava o monopólio da comunicação com os deuses. Dessa forma,
pôde esta camada social criar e manter as magistraturas ao seu bel prazer (CARDOSO, 1985, p. 65). Só em épocas posteriores,
uma parcela de cidadãos enriquecidos conseguiu reverter esse quadro. Nessa realidade política, à plebe reservava-se apenas o
direito à representação. Mesmo assim, esse direito só foi conseguido após conflitos políticos que se estenderam até o século III
a.C., com a criação de instituições propriamente plebéias, como o Tribunato e a Assembléia da Plebe (CARDOSO, 1985, p.
65).
O resultado desse arcabouço institucional era o de uma estrutura aristocrática, disfarçada em República, na qual vigoravam os
interesses do grupo dos patrícios, em detrimento de outras camadas politicamente irrelevantes. Entre estas foram crescentes as
manifestações de descontentamento, sobretudo entre o grupo dos enriquecidos com o comércio, que, mesmo podendo exercer
funções públicas, não conseguiam chegar ao Senado. A partir dessas informações, podemos concluir que a essência política do
conceito de cidadania na realidade greco-romana revestia-se de uma discrepância entre Democracia real e ideal. Defendia-se,
portanto, uma igualdade de direitos políticos que, de fato, não era praticada.
Com o passar dos tempos, entretanto, o conceito de cidadania passou a se referir a outras esferas que não apenas à política.
Assim, para entender seu significado, somos obrigados a atentar para os direitos civis e sociais, situando a cidadania também
na esfera jurídica e moral (MARSHALL, 1967, p. 63-65).
3.2 - As Estruturas Políticas na Idade Média e a Cidadania
A Idade Média foi, em termos sociais, econômicos e políticos, um período de transformações e adaptações a uma nova
realidade organizacional da sociedade. Assim, durante o processo de formação do feudalismo, muitas mudanças ocorreram nas
atitudes mentais e nas relações entre o saber e a política. Estas alterações permitem-nos visualizar duas realidades distintas em
termos sociais, mas muito parecidas na esfera política. Desse modo, devemos pensar, igualmente, em dois tipos de cidadania.
Num primeiro período, que se sucedeu à queda do Império Romano (séc. V), notamos uma perda no significado de cidadania,
tal como herdado da Antigüidade. Uma nova organização social, baseada em ideais de fidelidade, tornou a participação política
um assunto secundário. Nesse contexto, não são poucos os autores que, ao abordar o tema, referem-se à Idade Média como um
período no qual as questões relativas à política cederam espaço à preocupação com outras questões, como, por exemplo, o
plano religioso (ARENDT, 1995, p. 43). Isso se deve, em parte, às constantes invasões que fizeram da Europa um território no
qual contrastavam instituições e costumes provenientes dos mundos bárbaro e romano. Como resultado disso surgiu um tipo
peculiar de organização social (nobreza, clero e camponeses), cujos reflexos foram sentidos até os finais da Idade Moderna.
Além disso, devemos considerar o quadro de dependência, herdado das organizações bárbaras. Os camponeses subordinavam-
se à nobreza, responsável pela redenção de todos. Nesse sentido, bem oportunas são as palavras de Marc Bloch, quando
indaga: ―Ninguém pensava que este (o povo) tivesse que ser consultado, diretamente ou por intermédio dos seus eleitos. Não
tinha ele como seus representantes naturais, segundo o plano divino, os poderosos e os ricos?‖ (BLOCH, 1982, p. 450). A
esse tipo de poder aliou-se um regime judiciário, refletindo uma distinção social e de status. Verificou-se, portanto, uma justiça
diferenciada por estamentos, na qual apenas os estamentos superiores possuíam o direito de ser julgados por um semelhante
(BLOCH, 1982, p. 397-405). Assim, o acesso à justiça, além de constituir-se de elementos consuetudinários, impedia o
julgamento entre ―iguais‖, pelo menos no que tangia às camadas menos favorecidas da sociedade. Era, portanto, uma
sociedade de ordens, diferenciadas tanto política quanto juridicamente. Clero e Nobreza detinham, respectivamente, saber e
poder e, conseqüentemente, os direitos advindos do termo cidadania. Servos permaneciam alheios aos privilégios dos
―cidadãos‖, não podendo acessar o poder público, sem a mediação de outro estamento, detentor de maior poder. Submissos à
justiça e à ordem estabelecida, poucos eram os que podiam ver na justiça uma fonte de direitos (BLOCH, 1982, p. 411).
Este quadro só começou a se reverter no contexto do renascimento urbano e da formação dos Estados Nacionais. Esta fase,
conhecida como Baixa Idade Média, foi a responsável pelo ressurgir da idéia de um Estado centralizado e, por conseqüência,
da noção clássica de cidadania, ligada à concessão de direitos políticos. Iniciava-se, assim, uma nova relação entre política,
economia e sociedade, dado o dinamismo que o nascente capitalismo provocava. Houve espaço
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para o fortalecimento de uma burguesia mercantil que aspirava aos mesmos direitos destinados aos estamentos privilegiados.
Além disso, esse período proporcionou o desenvolvimento dos princípios teóricos que instauraram, tanto o Absolutismo
Monárquico, quanto a moderna noção de cidadania.
Assim, visualizando o contexto medieval, podemos dizer que a noção de direitos políticos e cidadania tornou-se frágil demais,
se comparada às necessidades materiais e espirituais impostas pela ruralização da economia e pela cristianização da sociedade.
Por outro lado, o final desse período registrou profundas alterações sociais, produto da crescente urbanização. Houve, então, a
necessidade de reformulação do antigo conceito de cidadania, o qual retomou o ideal de igualdade entre os cidadãos.
3.3 - O Iluminismo e a Busca da Igualdade
O processo de formação dos Estados Nacionais conheceu, paralelamente às mudanças nos quadros sociopolíticos, a
consolidação da burguesia como classe atuante, tanto política quanto economicamente. Mesmo assim, a centralização
promovida pelo absolutismo monárquico manteve, por um longo tempo, o caráter hereditário do poder e as características
estamentais da Idade Média.
Com um olho nas tradições do passado e outro no progresso do futuro, esse período representou uma transição. Foi o período
das revoluções sociais, das transformações políticas e econômicas, das criações artísticas, do desenvolvimento das ciências, da
disseminação do conhecimento, da busca da liberdade de pensamento e da igualdade entre os indivíduos e do nascimento do
ideal de liberdade. A partir dessas novas diretrizes, procurou-se construir uma sociedade mais justa. O aparecimento dessas
novas idéias foi instigado pelo desenvolvimento do Capitalismo e pelas reformas religiosas do século XV. Estas plantaram
novas visões sobre a espiritualidade, entre as quais podemos citar a prática da redenção, a qual valorizava o trabalho, em
detrimento da caridade e da liberdade para interpretar as escrituras. Nessa nova realidade, a burguesia lutava para conseguir
poder. Apesar de sua proeminência econômica e do apoio recebido do Mercantilismo, essa camada ainda não havia se
afirmado politicamente. Dessa forma, passou a contar com as formulações de uma nova intelligentsia, disposta a contestar os
valores e as injustiças praticadas pelo clero e pela nobreza. Para isso, propagavam maior autonomia de pensamento aos homens
comuns. Como conseqüência disso, surgiram as idéias iluministas-liberais, produto dos avanços nas ciências experimentais e
de uma nova racionalidade, por meio da qual se procurava entender o mundo. Com efeito, houve inovações também para a
concepção de cidadania. Mais próxima daquela experimentada por gregos e romanos, tinha na igualdade e na liberdade seus
princípios básicos.
Foi com esse espírito renovador de igualdade e liberdade que filósofos modernos, como Locke e Rousseau, conceberam as
idéias de uma democracia liberal, baseando-se na razão e contrapondo-se ao direito divino (LOCKE, 1973; ROUSSEAU,
1980). Foram estas idéias que, mais tarde, serviram como substrato teórico das Revoluções Burguesas, ocorridas nos séculos
XVII e XVIII europeus. Esses pensamentos procuravam, antes de tudo, regular as relações de poder, garantindo aos cidadãos
livre atuação civil, econômica e política. Rousseau contestava o uso da força como reguladora da sociedade. Esta, segundo seu
entendimento, devia reger-se pela consciência múltipla dos direitos e deveres dos cidadãos, os quais atuariam diretamente
sobre si mesmos, no sentido de proporcionar a liberdade plena.
Nesta importante fase do Capitalismo, vale ainda ressaltar que, enquanto as idéias de Rousseau continham um caráter de
universalidade, as de Locke forneciam o argumento que a burguesia necessitava para firmar-se politicamente, ao associar o
conceito de liberdade ao de propriedade material (LOCKE, 1973, p. 88). Podemos dizer, portanto, que essas inovações de
pensamento nos remetem à atual concepção de Direito Civil, levantando a questão dos direitos políticos e de quem os deve
possuir e exercer. Essa problemática dos direitos foi o traço distintivo entre a burguesia e o povo. Quando da luta por direitos,
principalmente políticos, ambos distanciavam-se, prevalecendo os interesses da primeira.
Todas as idéias produzidas pelos iluministas traduziam o pensamento político da época, influenciando tanto os movimentos de
independência na América, quanto as Revoluções Inglesa e Francesa. Ao mesmo tempo, o ideal de sociedade, daí surgido, já
apontava desigualdades no campo social. A situação trouxe inúmeros prejuízos para a cidadania, restringindo a sua prática,
assim como observou J.M. Barbalet: “(...) a concessão de cidadania para além das linhas divisórias das classes desiguais
parece significar que a possibilidade prática de exercer os direitos ou as capacidades legais que constituem o status do
cidadão não está ao alcance de todos que os possuem.” (BARBALET, 1989, p.13).
Simultaneamente à ampliação da esfera da cidadania, as diferenças de classe operavam no sentido de limitar os atributos
políticos dos cidadãos. Este aspecto da evolução do conceito de cidadania é o que nos fornece o maior número de ensaios
críticos. Autores afeitos ao materialismo histórico, liberais do século XIX e mesmo estudiosos da atualidade vêem nessa
questão a principal fonte dos limites à prática efetiva da cidadania na contemporaneidade.
3.4 - A Efervescência do Debate Atual sobre Cidadania
Vimos, até aqui, como o conceito de cidadania percorreu mais de dois mil e quinhentos anos de história, vinculando-se cada
vez mais às mudanças nas estruturas sociais. Contudo, é impossível não notar o quanto avanços nos campos da técnica e da
política provocaram na sociedade impactos tão radicais em tão pouco tempo, influenciando indiretamente os direitos e deveres
dos cidadãos. Sobretudo nos séculos XIX e XX, esses progressos transferiram para a esfera da cidadania toda uma gama de
desajustes oriundos do sistema de classes.
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A necessidade de compreender o conceito atual de cidadania à luz dessas questões sociais veio-nos como herança do processo
de formação das democracias modernas. Como sabemos, a Independência dos Estados Unidos e o processo revolucionário
francês acabaram por delinear um novo tipo de Estado. Os ideais de liberdade e de igualdade, embora tivessem uma origem
propriamente burguesa, contribuíram para a inclusão de um maior número de indivíduos no corpus político das sociedades.
Contudo, os anseios da população economicamente menos favorecida ainda não estavam vinculados ao campo dos direitos
sociais. Isto explica, em parte, porque a grande maioria dos estudos contemporâneos sobre cidadania, como, por exemplo, os
de Marshall e Barbalet, têm nas desigualdades de classe o componente fundamental (MARSHALL, 1967; BARBALET, 1989).
Mais do que isso foi o legado das lutas sociais observadas em diversos países, ao longo dos séculos XIX e XX, responsável
pelo caráter reivindicatório da cidadania, tal como a conhecemos. Hoje, uma variedade de atitudes caracteriza a prática da
cidadania. Assim, entendemos que um cidadão deve atuar em benefício da sociedade, bem como esta última deve garantir-lhe
os direitos básicos à vida, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, trabalho, entre outros.
Como conseqüência, cidadania passa a significar o relacionamento entre uma sociedade política e seus membros. Os reflexos
dessa condição no direito internacional, por outro lado, emulsiona esse conceito ao de nacionalidade. Mas foi apenas com as
guerras mundiais e com o temor à extrema violência dos conflitos e de seus subprodutos, como foram os regimes totalitários,
que a sociedade civil e os órgãos internacionais, como a ONU, entenderam ser os direitos humanos uma questão de primeira
ordem para o tema da cidadania contemporânea.
Infelizmente, as garantias constitucionais e os acordos firmados entre as Nações Unidas não foram suficientes para promover
as condições necessárias ao exercício de uma cidadania plena, com liberdade, igualdade e garantia de direitos humanos. Muitas
são as denúncias sobre violações desses direitos, e, embora muitas das sociedades políticas atuais sejam democráticas,
observamos muitos cidadãos à margem dos processos de decisão política e alienados de seus direitos essenciais.
A situação, antes de significar uma falência das sociedades democráticas, como afirmam alguns autores, denota a validade do
debate sobre as classes sociais e seu impacto sobre a cidadania. Acompanhando esta perspectiva, o sociólogo inglês T.H.
Marshall mostra-nos como o desenvolvimento da cidadania até o século XIX esteve intimamente submetido à questão das
relações entre classes sociais antagônicas. Segundo esse autor, esta diferenciação seria inerente à própria relação entre os
direitos e a camada que os teria fomentado. Neste sentido, a cidadania aparece dividida em distintas categorias, com o intuito
de demonstrar o desenvolvimento desigual de cada uma delas e a quais setores pertencia (MARSHALL, 1967, p. 63-66).
Assim, por exemplo, surge a cidadania civil, que marca a superação da situação observada na Idade Média, garantindo os
direitos quanto à liberdade e à justiça e vinculando-se diretamente à burguesia. Já a cidadania política surge com a
universalização de seu próprio conceito e com ampliação dos direitos civis. Estes, segundo Marshall, aparecem com a
diferenciação classista, sobretudo nos séculos XIX e XX, período no qual a efervescência dos conflitos sociais cobrara do
poder público uma atuação no sentido de “... suavizar o mal que as desigualdades econômicas causam aos indivíduos,
colocando uma rede de proteção de política social por baixo dos desfavorecidos” (BARBALET, 1989, p. 76).
Esta nova consciência sobre as diferenças no interior do status de cidadão acentua os debates sobre a exclusão social, os
direitos humanos e mesmo sobre a atuação política da sociedade civil. Por outro lado, no atual estágio do Capitalismo, falar em
cidadania significa considerar, igualmente, as próprias mudanças ocorridas na sociedade, nos valores e na educação,
proporcionados pelas inovações da realidade tecnocientífica.
De certa forma, o contexto agitado do século XX foi responsável pela efervescência da temática dos direitos humanos. No
período compreendido pelas duas guerras mundiais, verificou-se um estado de tensão que, muitas vezes, favoreceu a prática de
violências institucionalizadas, instigando o poder de reivindicação da sociedade civil (BARBALET, 1989). Contudo, foi
somente após a Segunda Guerra Mundial que se observou uma nova relação entre os direitos sociais e o poder público. A
criação, na década de 1940, dos estados de Bem Estar Social (welfare state), confirma o pressuposto de que o temor à
revolução é que propicia as reformas sociais. Entretanto,
foi a própria estrutura previdenciária desses órgãos, aliada às oscilações na economia mundial, que os tornaram um fardo para
o Estado. Assim sendo, a falência deste estado de Bem Estar Social, na década de 1970, revelou a fragilidade dessas reformas.
Estas, aplicadas como meros paliativos, não favoreceram alterações nas estruturas responsáveis pelas desigualdades sociais.
Temos, então, associado ao atual conceito de cidadania, um repertório teórico e mesmo prático, cuja amplitude acompanha o
próprio desenvolvimento das sociedades modernas. Contudo, a extensão desses direitos à totalidade da população não
possibilitou a garantia da liberdade e da igualdade idealizadas por Rousseau. Para isso, contribuíram todas as transformações
vistas nas estruturas econômica e social. Na longa luta para ampliar a representatividade do direito de voto e, portanto,
redefinir o direito de cidadania, a Inglaterra, mãe da Revolução Industrial, serve de exemplo. Em 1832, a Lei da Reforma deu
maior representatividade política aos centros urbanos, em detrimento das áreas rurais; a decisiva atuação das trade unions
conseguiu impor uma legislação trabalhista, a redução da jornada de trabalho e melhores salários. Em 1867, o Ato da Reforma
concedeu direito de voto a todos que tivessem residência própria ou que pagassem aluguel acima de um valor estipulado; em
1884, o mesmo direito foi estendido aos trabalhadores; em 1893, o Partido Trabalhista foi formalmente organizado e, em 1918,
o sufrágio universal masculino foi finalmente estabelecido, tendo as mulheres que esperar o final da década de 1920, para
conquistar o mesmo direito.
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Por outro lado, podemos dizer que todos esses anos de evolução acabaram por afirmar que a cidadania de fato só pode se
constituir por meio de acirrada luta quotidiana por direitos e pela garantia daqueles que já existem. Mais do que isso, notamos
maior preocupação com a difusão desses direitos, seja por meio de educação formal, seja pelos meios de comunicação.
Programas de televisão debatem temas como violência, habitação, saúde, educação e outros direitos básicos. Livros didáticos e
paradidáticos fomentam a discussão sobre o status de cidadão e os direitos humanos; outros associam ao desenvolvimento da
cidadania uma discussão sobre os meios de comunicação e o próprio Capitalismo (DALARI, 1998; COVRE, 1991).
Desse modo, o debate contemporâneo conta com uma série de coletâneas de textos e publicações sobre o tema. Por iniciativa
pública ou dos meios acadêmicos, fomentam-se discussões e propostas, para tornar público um tema tão importante da vida em
sociedade. Neste sentido, problemas recorrentes, como as violações dos direitos humanos, as ineficiências no campo social e o
processo de pauperização manifestado na periferia do capitalismo mostram que a cidadania exige mais do que o simples ato de
votar ou de pertencer a uma sociedade política. Cabe, portanto, à sociedade civil, caráter representativo substitua as pressões
ou mesmo a atuação legítima dos cidadãos. Nisso consiste a essência da cidadania atual.
3.5 – Anotações Conclusivas
Após traçarmos esse quadro evolutivo do conceito de cidadania, podemos dizer que, apesar da existência de profundas
desigualdades sociais, esse termo evoluiu com o passar dos anos. Ampliou a abrangência de sua concepção, abraçando todas
as classes sociais. Deixou de restringir-se apenas à participação política para relacionar uma série de deveres da sociedade para
com o cidadão. Apesar disso, apenas a teoria é igualitária. Na prática ainda há muito que se fazer para que direitos e deveres
sejam os mesmos para todos. Seja como for, a busca pela realização da máxima ―cada homem, um voto‖ continua a ser
perseguida. A concretização deste ideal requer, entretanto,
um esforço coletivo. Dessa forma, há necessidade de suprir as muitas carências oriundas das desigualdades de condições, do
descaso do poder público em áreas vitais, como saúde e educação, por exemplo, e da própria incorporação do significado
antigo de cidadania, como guardiã e fonte de direitos. Seria proporcionada, assim, uma qualidade de vida merecida por todos
os seres humanos, sem restrições.
Referências Bibliográficas
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 7. ed. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1995. PARA REFLETIR...
BARBALET, J. M. A cidadania. Lisboa: Editorial
Estampa, 1989. 1 ) Quais as semelhanças presentes nos textos
BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. Lisboa: Edições desta oficina com os da primeira?
70, 1982.
CARDOSO, Ciro Flamarion. A Cidade Estado Antiga. 2 ) Qual o significado de cidadania para o povo
São Paulo: Ática, 1985. (Série Príncipios). grego? O que passou a significar para os
CASSIRER, Ernst. A Filosofia do Iluminismo. romanos?
Campinas: Editora da Unicamp, 1992.
COVRE, Maria de Lourdes Manzini (org.). A cidadania 3 ) Quais as mudanças ocorridas na Idade Média
que não Temos. São Paulo: Brasiliense, 1986. que significaram a perda do sentido do conceito de
COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O que é cidadania?
Cidadania. São Paulo: Brasiliense, 1998. (Coleção
Primeiros Passos). 4 ) No Iluminismo, a cidadania era um utilizado
DALLARI, Dalmo de Abreu. Cidadania e Direitos por qual grupo que estava em ascensão? Por quê?
Humanos. São Paulo Brasiliense, 1998. (Coleção
Polêmica). 5 ) O que significa cidadania hoje?
LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo. São
Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores).
MARSHALL, Thomas Humprey. Cidadania, Classe
Social e Status. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967.
ROUSSEAU, Jean Jacques. O Contrato Social e
Outros Escritos. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1980.
Cyro de Barros Rezende Filho é Professor
Colaborador Titular no Departamento de Ciências
Sociais e Letras da Universidade de Taubaté.
Isnard de Albuquerque Câmara Neto é Professor
Colaborador Adjunto no Departamento de Ciências
Sociais e Letras da Universidade de Taubaté
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OFICINA 04
DIREITOS E DEVERES DA JUVENTUDE
4.1 Evolução histórica dos Direitos da Juventude
Durante todo o período colonial, Primeiro e Segundo Impérios, não tivemos instituição pública que atendesse a chamada
"infância desvalida". Nos quatro primeiros séculos da história, do País, enfrentou a "questão do menor". Um presidente da
Velha República disse: "o problema social é um caso de polícia". Sessenta anos depois, a violência urbana chegou a tal ponto
que fomos forçados a admitir" que a maioria dos casos de polícia são, em última análise, problemas sociais" (Gabeira,
Fernando:1985). Entretanto, a associação problema social/caso de polícia fez nascer um atendimento ao menor com o cunho de
repressão.O menor era visto como uma ameaça social.Essa mentalidade resultou na criação do Serviço de Assistência ao
Menor, um estabelecimento chamado de "sucursal do inferno" e "escola do crime". O regime militar, em 1964, é que vai
intervir nessa realidade com a intenção de reverter-lha. Em dezembro de 1964 é publicada a Lei 4.513, contendo as diretrizes e
bases para a "Política Nacional do Bem-Estar do Menor". É criada a Fundação do Bem Estar do Menor. O enfoque
correcional-repressivo, é substituído pelo enfoque assistencialista. O menor torna-se então carente. Entretanto, a Funabem, ao
ser criada, não mudou a mentalidade da maioria daqueles que ali foram trabalhar. Isto fez com que, na prática, o modelo
correcional-repressivo fosse o adotado.
De 1982 para cá surgiu uma nova maneira de ver o problema das crianças e jovens em situação de risco. Surge entre os
educadores e trabalhadores sociais da área um movimento de educação progressiva. Uma pergunta, então. se colocou: o que
fazer para superar a sistemática degradação pessoal e social dos jovens ? A resposta não é simples. Não é fácil reverter uma
realidade em pouco tempo. É preciso implodir a "Política do Bem-Estar do Menor" e reconstruí-la. Isto exige muito das
pessoas que se proponham a tal empreendimento. (Costa, Antonio Carlos Gomes da: 1989, Brasil-Criança Urgente). Mudar
este quadro é um desafio. Para isso é preciso uma união de forças entre o governo, as instituições e a sociedade. Em novembro
de 1959 o Brasil votou pela aprovação, na ONU, da Declaração Universal dos Direitos da Criança, cujo principal objetivo é
assegurar uma infância feliz com condições de gozar os direitos e liberdades nela enumerados.
Em outubro de 1986 foi realizado em Brasília o " Encontro Nacional Criança e Constituinte", quando a visão do problema da
juventude passou de local a nacional, as medidas, defendidas no plenário, foram aprovadas. O resultado deste Encontro foi
assegurado no artigo 227 da Constituição Brasileira de 88 e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, aprovado em
1990. Na época, com apoio das bancadas do governo e da oposição, foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente -
ECA, pelo Congresso Nacional, tornando-se a Lei 8.069,de 13 de junho de 1990.(Lisboa, Antônio Márcio J.: 1991). O Estatuto
da Criança e do Adolescente, que garante o direito constitucional de mais da metade da população brasileira, representa uma
verdadeira revolução social. Muito do que determina o Estatuto continua no papel, pois as intenções são maiores do que os
recursos. A proibição de trabalho para menores de l4 anos, garantida pelo ECA está fora da realidade brasileira. È difícil fazer
cumprir esta lei, num país onde as crianças contribuem para o sustento da família. O Estatuto não vem sendo obedecido, mas
existe. Representa tudo de moderno que gostaríamos, mas é difícil sua execução integral. (Rodrigues, Yvon e Rodrigues, Pedro
Paulo: 1991).
4.2 - Os jovens e a necessidade de integração social
Jornal Vale Paraibano, em 05/04/2002
―O pior pecado contra nossos semelhantes não é o de odiá-los, mas de ser indiferentes para com eles". (Bernard Shaw)
Há muitos anos o desemprego tem atingido os jovens de forma arrebatadora. Os dados divulgados pela Organização das
Nações Unidas (ONU) comprovam: a faixa etária dos 15 aos 24 anos representa 41% de todos os desempregados do mundo.
Essa realidade está, justamente, na contramão das expectativas da população jovem - ansiosa em provar seu valor por meio de
uma boa colocação no mercado de trabalho. É natural e, ao mesmo tempo, imprescindível que queiram dar início a sua carreira
e deslanchar seu futuro profissional. O problema é que o Brasil e o mundo ainda engatinham quando o tema recai sobre a
discussão relativa às políticas públicas específicas para esse enorme contingente populacional. Afinal, os jovens representam
18% da população mundial.
Essa falta de incentivo, entretanto, não os impede de agir e adotar uma postura pró-ativa. Hoje, no Brasil, milhões de jovens
constituem um poderoso esquadrão quando o assunto é o trabalho voluntário e a participação em diversas ONG, bem como em
movimentos sociais de grande, médio e pequeno porte. A busca incessante pela experiência e pela possibilidade de contribuir
efetivamente para a mudança tem feito o jovem procurar maneiras alternativas de inserir-se socialmente.
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Levantamento realizado em 2001, o Ano Internacional do Voluntariado, revelou que o Brasil possui um verdadeiro exército
de trabalhadores voluntários. São 14 milhões de pessoas doando em média um dia e meio por semana às atividades voluntárias.
Os trabalhos voltados para educação correspondem a 16%. Já as atividades relacionadas a direitos humanos e saúde,
representam, respectivamente, 9% e 8%.
A participação dos jovens nesse tipo de trabalho cresceu de 7% para 34%. Dados como esse revelam o quanto a juventude
brasileira tem, literalmente, arregaçado às mangas para transformar nossa realidade em algo melhor.
Um exemplo de discussão em torno da participação do jovem na sociedade foi o debate ''Autonomizar os jovens para agir"
realizado no quarto Fórum Mundial da Juventude, ocorrido em 2001, em Dacar, no Senegal. O evento contou com a presença
de 300 delegados de organizações de juventude de todo o mundo visando atrair a atenção mundial para a participação ativa dos
jovens na sociedade, seus direitos e deveres, projetos para formação de capacidades e integração social.
Esse tipo de iniciativa é extremamente válida pois demonstra o quanto a juventude deseja tomar parte das decisões que afetam
não só o seu meio e sua comunidade de modo geral, mas o mundo todo.
Kierkegaard nos lembra que "a vida só pode ser entendida olhando-se para trás. Mas só pode ser vivida olhando-se para
frente". Sendo assim, não nos esqueçamos, por exemplo, dos exemplos do nosso passado recente quando milhões de jovens
brasileiros pintaram seus rostos e saíram às ruas reivindicando o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo.
Lembremos também, da enorme participação da juventude durante os anos de chumbo do regime ditatorial brasileiro. Muitos,
inclusive, tiveram suas vidas ceifadas na defesa árdua de um ideal. Não nos permitamos esquecer, também, das barricadas dos
estudantes parisienses na histórica primavera de 1968.
O Brasil é um país em desenvolvimento e vivemos, constantemente, verdadeiras reviravoltas políticas, econômicas, sociais e
culturais. Nada mais justo para o jovem do que vivenciar esse processo de transição em sua plenitude, contribuindo e
apresentando propostas para elevar o país a uma condição mais digna de figurar entre as grandes potências que compõem o
cenário mundial.
É preciso esclarecer, antes, que um maior apoio ao jovem não significa a apologia do descaso em relação as pessoas mais
experientes e de mais idade, ao contrário, queremos ressaltar a importância de valorizar o respeito ao indivíduo,
independentemente de sua idade, raça, sexo, credo ou classe.
A integração social deve se dar em todos os níveis sob pena de, em plena era da tecnologia e da informação, vivermos alheios
às diversas realidades que nos cercam, nos rebaixando à condição de meros fantoches robotizados e individualistas. Cabe à
sociedade, representada pelo poder público, iniciativa privada, ONG e demais movimentos buscar mecanismos e estabelecer
parcerias que propiciem a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Uma nova geração de talentos, certamente, saberá
corresponder a altura da confiança depositada. Desperdiçar o brilhantismo e a força do jovem é condená-lo à desmotivação
gradativa. Afinal, como diria Balzac: "O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo".
4.3 - Cultura, Esporte e Juventude
4.3.1 - Cultura
"No campo da sociologia, cultura é o conjunto de ferramentas, utensílios, hábitos, instituições, rituais, objetos para vários fins,
sentimentos, atitudes etc., que todos os povos possuem" (sic) (Cultura da qualidade X Cultura Institucional" - Elaine Lima de
Oliveira - Universidade / A busca da qualidade - janeiro/fevereiro de 1994 - IBRAQS - Instituto Brasileiro da Qualidade em
Serviços). "O desenvolvimento de um povo não se alcança apenas pelo aumento do bem estar material, mas exige,
paralelamente, o aprimoramento dos valores artísticos e culturais" (sic) (Mário Henrique Simonsens, economista, abertura do
Programa de Atividades Culturais do Mobral - 1973)
O envolvimento do ser humano com a cultura deve estimular sua plena educação, visando a melhorar-lhe a qualidade de vida,
suscitando seus processos criativos, fazendo emergir vocações. As mais imediatas oportunidades para difundir a cultura de
uma nação está no campo fértil da arte popular - artesanato, bandas de música, canções e danças folclóricas. Todas estas
manifestações devem ser valorizadas e apoiadas, para que não terminem por afogar-se em meio à cultura de massa,
amplamente disseminada pelos meios de comunicação. Instrumentos poderosos de acesso à cultura, eles podem, contudo, vir a
contribuir para a alienação do indivíduo de sua própria cidadania, apagando os traços mais legítimos de sua cultura original.
(Maria Luíza Condé - Professora - Programa de Atividades Culturais do Mobral - Rio de Janeiro - 1973)
Como resultado de um movimento que ligou os jovens, através da União Nacional dos Estudantes, os sindicatos, artistas e
intelectuais, surgiu, no final da década de 50/início de 60 um novo pensamento cultural no Brasil. Deu-se um aprofundamento
de uma arte, brasileira mas universal, cheia de inquietação, buscando novas formas de expressão. Seu objetivo era um só:
estabelecer um diálogo com o povo, levando-lhe uma arte voltada para as questões sociais, pretendendo a transformação do
país. Artistas e intelectuais já haviam criado o CPC - Centro Popular de Cultura que, necessitando de uma base já estabelecida,
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uniu-se a UNE, numa produção cultural das mais vastas e importantes. Foram lançadas publicações como Violão de rua,
que divulgava nomes do porte de Affonso Romano de Santanna e lançava novos autores. Era vendido em sindicatos, nas ruas,
em locais de aglomeração popular.
"Era uma época em que todo o Brasil vivia um grande momento de desenvolvimento e euforia. Nascia a Bossa Nova e o
parque industrial, o país ganhava campeonatos mundiais em diversas modalidades, numa ebulição que envolvia,
principalmente a classe média, já que não chegou, realmente, a envolver os operários, ou os camponêses. Surgiu a poesia
concreta, o Teatro de arena." (Carlos Lira, compositor, declaração recolhida do texto Centro Popular de Cultura - A idéia era
construir um país novo, através da arte - sem identificação do autor- Revista UNE O reencontro do Brasil com a sua juventude-
Edição do Ministério da Educação e do Desporto - dezembro de 1994).
A ligação entre os jovens e o Centro Popular de Cultura destacou-se na música, no teatro e na literatura. Misturava-se shows e
debates de importantes temas do país. Promovia-se noites de autógrafo que contavam com a participação, entre outros, de
Vinícius de Morais e Oscar Niemeyer; revelava-se talentos como Edu Lobo e Nelson Cavaquinho. ( A UNE atraiu o que havia
de melhor na cultura brasileira - Chico Dias, poeta e jornalista - Revista UNE O reencontro do Brasil com a sua juventude -
Edição do Ministério da Educação e do Desporto - dezembro de 1994). O que se pretendia era levar ao povo uma cultura capaz
de transformar, de conscientizar, dando-lhe uma visão política, através do teatro, do cinema e da música. (Toda a poesia,
Ferreira Gullar, poeta e teatrólogo, Editora Civilização Brasileira, 1980).
"Viajávamos o país inteiro, irradiando cultura. Fazíamos espetáculos nas praças principais das cidades, ou numa faculdade,
apresentando peças de autores como Oduvaldo Viana Filho, tendo artistas como Grande Otelo, no elenco junto com a UNE, o
CPC irradiou cultura país afora" (Depoimento de Carlos Verezza, ator e diretor de teatro, cinema e televisão. Publicação UNE
O reencontro do Brasil com a sua juventude - Ministério da Educação e do Desporto - dezembro de 1994).
4.3.2 - Esporte
"Na Grécia antiga, acreditava-se que, por meio de competições freqüentes, era possível estimular não só a habilidade e a arte
dos participantes, como também o interesse e o gosto do público. Quase todas as manifestações artísticas (...) eram objeto de
competições e, muitas vezes, estas coincidiam com as competições atléticas, nos Jogos Pan-helênicos, de intensa mobilização
de todas as comunidades".(sic) (Maria Luíza Condé, professora, Programa de Atividades Culturais do Mobral, Rio de Janeiro,
1973). Pode-se afirmar que foi nos anos 40, graças ao general Jair Jordão Ramos, que a educação física chegou no Brasil,
influênciada pelas escolas francesa e sueca, que davam predominância, respectivamente, aos aspectos ligados à educacão, no
sentido humanista, e à saúde. Até então predominava a escola alemã, nitidamente militarista. Foi então que a prática desportiva
ficou sistematizada nas escolas, aparecendo e destacando-se a Escola de Educação Física do Exército, no Rio de Janeiro, a
Escola Nacional, em Porto Alegre e em Belo Horizonte. Com o nascimento de um movimento pedagógico que envolveu toda a
educação ( Educação permanente) tendo a aptidão física como um dos seus componentes, aí incluindo valores morais e sociais
e graças a divulgação e ao marketing a prática dos exercícios físicos disseminou-se, surgindo as ruas de lazer e as colônias de
férias. As associações de bairro passaram a solicitar áreas onde as pessoas - crianças e adultos - pudessem mexer o corpo,
numa atividade democratizante, uma forma de interação, sem maiores discriminações. (Declarações de Manoel José Turbino,
mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de janeiro - Perspectiva Universitária - nº 161, junho de 1992).
4.3.3 - Patrocinando o esporte
A falta de apoio financeiro ao atleta tem sido o grande impecilho para que haja uma massificação da prática do esporte entre os
jovens do país, que, precisando treinar, estudar e trabalhar ao mesmo tempo, acabam considerando os treinos um tempo
perdido na sua vida. Na verdade sabe-se que excelentes atletas brasileiros vivem uma situação financeira difícil. Os jovens
desportistas não contam como uma situação como a de Juan Torena, 27 anos, estudante de economia em Harvard, casado, pai
de três filhos, que recebia do Estado todas as condições básicas para sustentar a família com tranqüilidade, podendo estudar e
dedicar-se ao esporte, o que o levou a ser um expoente do atletismo, ao final da década de 70. Embora o brasileiro seja dotado
de qualidades atléticas excepcionais, o nível dos professores de educação física, nem sempre os capacita a preparar de forma
eficiente os esportistas. (Declarações de Carlos Alberto Lancetta, professor de educação física da Universidade Gama Filho -
"O importante é competir. E vencer" - Ruy Nogueira - Perspectiva Universitária - nº 156 - outubro de 1981). O jovem
brasileiro foi impulsionado à prática esportiva por algumas universidades, conscientes da importância de uma educação física
que integrasse corpo e mente e que não trabalhasse apenas os músculos. Uma prática com o sentido de educar a personalidade
e a forma de conduta no convívio com a sociedade. ("Cuca" e físico na formação da personalidade" - Rui Nogueira -
Perspectiva Universitária - nº 161, junho de 1992). O grande problema do esporte brasileiro prende-se a carência de recursos
financeiros e técnicos e no sistema de governo que endeusa certas modalidades em detrimento de outras. Maiores recursos
financeiros permitiriam um melhor trabalho técnico, com o atleta treinando com boa orientação. Agora, todo mundo está se
voltando para o apoio da iniciativa privada, que pode ser fundamental para a emancipação do esporte nacional.("Atletismo / O
Mérito de cada um" - Ulisses Laurindo, atleta e jornalista - Perspectiva Universitária - nº 148, setembro de 1980)
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Ao chegar ao seu 186º aniversário o Banco do Brasil, através de uma pesquisa, concluiu que era preciso rejuvenescer sua
imagem. Também identificou o esporte como a atividade que mais interessava ao jovem brasileiro. Assim, passou a patrocinar
coletivamente as seleções brasileiras de vôlei (masculina e feminina), juvenil e infanto-juvenil; e as equipes de judô e tênis de
mesa. Também apoia, individualmente, atletas ligados ao tênis, judô e atletismo. Patrocina, ainda, o vôlei de praia. A Brahma
empresta seu nome ao Campeonato Sul Americano de seleções de vôleibol, o campeonato latino-americano de super cross, o
brasileiro de canoagem, o circuito Limão Brahma de Surf e o Circuito Brahma de Vaquejadas. O patrocínio a Ayrton Senna, na
Fórmula l, rendeu ao Banco Nacional o prêmio Destaque de Marketing, em 1993.
A ginasta Luíza Parente foi participar dos jogos universitários dos Estados Unidos graças ao patrocínio da Companhia de
Turismo First Class. ("Sem patrocinador é mais difícil surgirem campeões" - Perspectiva Universitária - nº 286 - Julho de
1993). A prática do esporte tornou-se um hábito para o brasileiro e, atualmente, é rara a pessoa que não faz uma caminhada,
que não joga um volei. Amplia-se a prática do esporte e também as modalidades praticadas. ("Uma opção para a comunidade"
- Informativo do Instituto da Juventude, nº 29, Julho de 1994). O esporte está sendo usado nas comunidades mais carentes
como uma forma de afastar os jovens de práticas sociais nocivas. É importante na formação do caráter e na personalidade do
cidadão e sua prática não deve se tornar uma competição feroz, mas gerar a integração e a harmonia entre as pessoas (Ricardo
Barros, 32 anos, professor de educação física, "expert" em projetos esportivos em comunidades carentes). Em Arraial do Cabo
(RJ), a prefeitura está desenvolvendo um projeto que visa a ocupar o tempo ocioso dos jovens carentes com a prática de
diversas modalidades esportivas, aproveitando o fascínio que o esporte exerce sobre a juventude. (Fascínio do esporte ajuda a
iniciação profissional) - Informativo do Instituto da Juventude - nº 29, julho de 1994
A importância que o jovem passou a dar ao esporte - dentro do novo conceito que abrange as práticas formais e não formais -
fez com que surgissem as equipes e com que os educadores o incluíssem nos programas escolares. Hoje, o esporte está
presente em qualquer conversa, ajuda a vender produtos, principalmente aqueles ligados à saúde, cria mitos e formas de
comunicação. Até as expressões esportivas foram incorporadas à nossa linguagem diária. A cada quatro anos as Olimpíadas
criam novos mitos e levam um maior número de jovens à práticas esportivas. De tal forma que as vitórias internacionais de
nossos atletas estão sendo democraticamente divididas entre nós, que, ao conseguirmos o 1º lugar nas últimas Olimpíadas e na
Liga Mundial de Vôlei, todo o país vibrou e sentiu-se, também, um pouco campeão. ("Na vitória de um atleta, a realização de
todos nós - Informativo do Instituto da Juventude - nº 19, agosto de 1993)
Atletas especiais
A prática do esporte pela criança excepcional é um instrumento importante para sua integração, socializando-a e
desenvolvendo sua psicomotricidade. (A educação física e a criança excepcional - Artur Henrique G. B.. da Cunha, professor
de educação física - Perspectiva Universitária - nº 148, Dezembro de 1980). As disputas esportivas desenvolvem a auto estima,
melhoram a coordenação motora e removem a socialização do excepcional. ("Olimpíadas para atletas especiais" - Perspectiva
Universitária - nº 298 - julho de 1994). O ideal seria que se desenvolvesse um programa esportivo que mesclasse crianças
deficientes e as "normais", tornando mais fácil a interação do deficiente físico na sociedade. (Uma seleção contra o preconceito
- Informativo do Instituto da Juventude - nº 29, julho de 1994)
Um projeto desenvolvido no morro de Mangueira (RJ) foi considerado por Pele, ministro Extraordinário dos Esportes, como o
melhor exemplo do trabalho de promoção social pelo esporte. Ali, na Vila Olímpica, já passaram mais de 20 mil atletas de seis
a 18 anos, sem contar com os "veteranos", com mais idade. Iniciado em 1987 é desenvolvido por uma equipe multidisciplinar
de professores e com o apoio de diversas empresa e de personalidades no mundo da musica, já está recebendo jovens de outros
morros cariocas. Conta com dois campos de futebol soçaite, piscina semi-olímpica, ginásio, quadra de esportes e um Ciep. Ali,
as crianças além do esporte, recebem educação formal, têm assistência médica, ondontológica e psicológica e fazem cursos
profissionalizantes, contando até com um ateliê aonde são confeccionadas as fantasias da Escola de Samba Estação Primeira de
Mangueira e da Escola Mirim Mangueira do Amanhã. ("Mangueira, na cadência do esporte" - Jorge Luiz Rodrigues - O Globo
- 8/1/95) .
4.4 - Juventude e Educação
Apesar de serem relativamente altas as taxas de escolarização no país — de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (PNAD) de 1985, cerca de 88% dos jovens e 93% das jovens, na faixa de 15 aos 19 anos, eram alfabetizados —, a
situação educacional dos jovens brasileiros ainda é bastante precária. Alta incidência de repetência e de evasão e a grande
defasagem entre a situação escolar nas áreas urbanas e rurais mostram que, no Brasil, a possibilidade de que a educação seja
um instrumento para atingir níveis mais elevados de desenvolvimento econômico e bem-estar social, está seriamente
comprometida. A escola não está garantindo a todos um mínimo de instrumentação que torne as chances sociais menos
desiguais. É bom lembrar que o índice de analfabetismo, entre crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, é de 28,6 %, quase 10%
somente de adolescentes (Crianças & Adolescentes, Volumes I, II e III, Indicadores Sociais, Unicef e IBGE, 1989).
16
A proporção de repetentes mantêm-se em torno dos 20% em todo o País, enquanto a evasão gira em torno de 15%. Isto
significa que se pode estimar em pelo menos 10 milhões o total de crianças brasileiras que estão todos os anos virtualmente
fora da escola. Esta massa fora da escola forma um contingente próximo a 1/3 da população da Argentina, quase igual à do
Chile e superior à população de Portugal. O percentual de alunos do ensino fundamental que completa a oitava série no país
(15%) é inferior ao registrados no Haiti, El Salvador, Peru e Chile. O colapso da educação coloca o Brasil como campeão de
baixa eficiência do ensino na América Latina. (Teixeira, Ib:1994). As principais causas de repetência e evasão são: falta de
condições sócio-econômicas para permanecer na escola; mudanças freqüentes de domicílio em função da instabilidade do
mercado de trabalho dos pais; ingresso precoce da criança e do adolescente no mercado de trabalho; inadequação da escola à
sua clientela majoritária e estabelecimento de padrões avaliativos que discriminam e estigmatizam o aluno pobre. Estudos
recentes têm correlacionado a evasão, também, às múltiplas repetências do aluno, especialmente nas primeiras séries, quando
ele e seus pais desistem de continuar tentando um nível educacional mais elevado. Uma consequência grave da repetência é a
defasagem série-idade que faz com que o aluno se sinta inadaptado à escola.
A pobreza é o fator que obriga os jovens a ingressar precocemente no mercado de trabalho, afastando-o da escola. Alguns
ainda tentam conciliar o horário escolar com as atividades profissionais e acabam sobrecarregados com a grande
responsabilidade. A maioria dos jovens que se encontram nessa situação, trabalha em período integral e reserva, o horário
noturno para os estudos. A Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar - PNAD de 1982 mostrou que, entre os adolescentes das
áreas urbanas de 15 a 19 anos, 48% dos jovens 38% das jovens cursavam a escola no período noturno. Nas áreas rurais, a
proporção dos que freqüentavam os cursos noturnos era de cerca de um terço de todos os matriculados para os jovens e um
quinto para as jovens. São muito poucos os adolescentes de 17 anos que têm escolaridade adequada: apenas 28% em todo o
país têm oito anos ou mais de estudo. Na área urbana há três vezes mais adolescentes nessa situação do que na área rural. No
Nordeste rural, somente 5% dos adolescente conseguem ter os oito anos ou mais de escolaridade. De acordo com a PNAD de
1984, a porcentagem entre os jovens de 15 a 19 anos de idade que haviam completado pelo menos cinco anos de escolaridade
era de 51%. A porcentagem dos que haviam completado nove ou mais anos de escolaridade é de apenas 13%, prevalecendo as
áreas rurais em pior situação.
Entre os adolescentes, a proporção dos que não tiveram nenhuma escolaridade é três a quatro vezes maior entre os residentes
em áreas rurais do que entre os residentes em áreas urbanas. Na faixa dos 15 aos 19 anos de idade, 22% dos jovens das áreas
rurais não tinham nenhuma escolaridade, em comparação a 6% de seus pares nas áreas urbanas. De forma semelhante, para
essa faixa etária, a proporção dos que ainda freqüentam a escola, além da 8ª série era, para os jovens das áreas rurais, de apenas
um quinto daquela registrada para os adolescentes urbanos. Em 1984, por exemplo, apenas 3% dos homens e mulheres das
zonas rurais haviam tido mais de oito anos de escolaridade, em comparação a 17% dos residentes de áreas urbanas. A medida
que aumenta a renda familiar, a escolarização também tende a crescer. Ao longo da década, houve um aumento das taxas de
escolarização em todas as classes de renda, sendo que o crescimento maior foi nas classes de renda mais baixa (até 1/4 salário
mínimo per capita). Apesar disso, são ainda os jovens desta classe social que permanecem em maior número fora da escola:
97% das crianças pertencentes as classes de rendimento superior a 2 salários mínimos per capita estavam freqüentando a escola
em 1989, enquanto nas classes até 1/4 de salários mínimos per capita, a proporção cai para 72,7%. De cada mil alunos urbanos
que ingressam na escola cerca de 450 terminam a 8ª série, enquanto que no meio rural apenas 15 conseguem atingir esta meta.
Essa grande diferença no desempenho entre alunos das duas áreas se deve, principalmente, ao fato que as escolas nas zonas
rurais serem multiseriada e com um único professor, e de não oferecerem formação além da 5ª série.
As diferenças entre a escola pública e escola particular marcam também as profundas desigualdades sociais em que vivem os
estudantes brasileiros. A escola pública perde em eficiência para a particular. No conjunto do País, os repetentes representam
24,4% nas escolas públicas e 9% nas particulares. Para piorar a situação, 22,3% do professorado da rede pública tem formação
inadequada, enquanto que na rede privada o percentual cai para 16%. No Sudeste 10,1% deles podem ser considerados leigos.
No Nordeste a situação é gritante, a proporção chega a 38%. (Crianças & Adolescentes, Volumes I, II e III, Indicadores
Sociais, Unicef e IBGE, 1989). Enquanto a escola particular se preocupa mais com esta questão por causa da necessidade de
enfrentar a concorrência e conquistar sua clientela, o Estado demonstra claramente a pouca atenção que dá à educação. Há
professores leigos no Nordeste que recebem 4 dólares/mês (junho/95). Um recente relatório do Banco Mundial aponta que o
Brasil gasta em educação uma proporção muito menor de seu Produto Interno Bruto (PIB) do que outros países da América
Latina com renda semelhante. Além disso, cerca de um quarto de todos os gastos governamentais com a educação se destina ao
ensino superior, apesar do fato de que apenas 4% de todos os estudantes se encontrarem nesse nível. (Adolescente de hoje, Pais
do Amanhã: Brasil, 1991, Fundação Emílio Odebrecht)
A Coréia do Sul, visando um crescimento econômico sustentado, enfatizou, em primeiro lugar, a educação fundamental de oito
anos e em seguida, a escola secundária. Estudo recente do World Bank, intitulado "The East Asian Miracle", concluiu que este
foi o fator determinante do sucesso do programa educacional em todos os países do Leste Asiático. Enquanto isso, em 1985, as
despesas do Brasil com o ensino primário, em nível federal, foram de apenas 30,8%; em contrapartida, o país gastava bem
mais no ensino superior: 49,3%. O saldo dessas deficiências no sistema educacional é o de que muitos jovens não têm acesso à
escola, e de que a educação recebida por aqueles que a freqüentam é de precária qualidade. (Teixeira, Ib : 1994).
4.5 - Saúde e Juventude
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Não há no Brasil programas especiais de saúde para a faixa etária mais jovem, como há para bebês e crianças. Não se
conhece, também, dados estatísticos amplos e completos sobre os padrões de saúde/doença dos adolescentes ou sobre o uso
que fazem dos serviços de saúde no país. Desde 1960 os profissionais de ensino e médicos vem tentando introduzir a educação
sexual nas escolas no sentido de minorar os problemas advindos do desconhecimento do assunto. A despreocupação brasileira
com esta faixa etária, na área da saúde, resulta em vários riscos para os mais jovens, entre elas, gravidez precoce, alta
incidência de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, elevadas taxas de consumo de drogas, um número
crescente de suicídios, homicídios e acidentes. A taxa de fecundidade entre as jovens vem aumentando. Em 1970, 75 de cada
mil mulheres de 15 a 19 anos davam à luz todos os anos. Já, em 1986, o número subiu para 81. Nas áreas rurais do Nordeste a
taxa se eleva ainda mais rapidamente. Várias hipóteses têm sido levantadas para explicar porque as adolescentes estão
engravidando mais. Entre elas: as lacunas do sistema econômico e social em criar qualquer mudança real nas oportunidades
abertas às mulheres jovens; os efeitos da maior liberdade sexual verificada em todos os segmentos da sociedade, a partir do
final da década de 1960; a ênfase crescente na sexualidade pelos meios de comunicação de massa e a chegada cada vez mais
cedo à menarca (1ª menstruação) entre as meninas brasileiras.
Estudos realizados mostram que a maternidade precoce traz graves riscos para a saúde da mãe e da criança e a relaciona com
os altos índices de mortalidade materna. A maioria das meninas que engravidam tendem a ter baixo nível de escolaridade, e
residem em áreas rurais e pobres. Partindo-se desse princípio, conclui-se que correm muito mais riscos de morrer por
complicações na gravidez, já que não recorrerem a um atendimento pré-natal. Além dos problemas de saúde, há também as
decorrências sociológicas da gravidez prematura. As jovens que se casam ou engravidam muito cedo apresentam uma
probabilidade menor de concluírem os estudos, e, mal preparadas para qualquer emprego, reduzem as chances de melhorar sua
condição econômica . Elas também tendem a criar filhos que continuarão, eles próprios, a viver em condições de pobreza,
perpetuando o ciclo de pobreza e desigualdade social.
Vale lembrar, ainda, que um grande número de jovens está resolvendo o problema da gravidez indesejada com abortos ilegais e
clandestinos, que podem leva-las à morte. Oficialmente, a interrupção da gravidez é ilegal no Brasil em quaisquer
circunstâncias que não sejam a salvação da vida da mãe ou como conseqüência de estupro ou de incesto. Apesar disso, as
estimativas do número de abortos ilegais realizados todos os anos no Brasil variam de um limite minímo de um milhão e
máximo de seis milhões. Na ausência de dados confiáveis, os pesquisadores baseiam suas estimativas em estudos de pequena
escala sobre mulheres em situação de risco e em levantamentos realizados por hospitais, em que são contadas as mulheres
atendidas em conseqüência de abortos mal-feitos ou outras complicações. Dados do Inamps mostram que, entre os casos
decorrentes de aborto atendidos nos hospitais da rede, 4% das pacientes são jovens de 12 a 17 anos e 32% mulheres de 18 a 24
anos.
A falta de conhecimento sobre as formas de evitar a concepção é imensa entre os jovens brasileiros. O nível de escolaridade é
apontado nas pesquisas como o que exerce maior influência no grau de conhecimento, ou não, sobre os metódos
anticoncepcionais. Quanto maior o nível de escolaridade de uma adolescente, maior será a probabilidade de que faça uso de
algum método contraceptivo. Dados de 1986 mostram que, entre as jovens que têm apenas três ou menos anos de escolaridade,
37% praticam a anticoncepção, 44% não fazem nada para evitar a gravidez, e 19% estão grávidas. Ao contrário, entre as
mulheres que têm sete ou mais anos de escolaridade, 57% praticam a anticoncepção e 23% não o fazem. Entre os adolescentes
que tiveram três ou menos anos de escolaridade, a taxa de fecundidade era de 176 por mil, enquanto que entre aquelas que
tinham continuado a estudar até o nível médio, e além dele, a taxa era de 49 por mil. O fato das jovens viverem em zonas
urbanas ou rurais pouco influencia no conhecimento ou não dos métodos contraceptivos. Porém, os níveis de conhecimento
sobre a pílula, a esterilização feminina, o preservativo e o método do ritmo são um pouco mais elevados no Norte (apenas nas
áreas urbanas), no Rio de Janeiro e em São Paulo e um pouco mais baixos no Nordeste. As diferenças não são grandes,
especialmente no que se refere à pílula e à esterilização feminina.
De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Saúde Materno-infantil e Planejamento Familiar - PNSMIPFde 1982, o método
predominante de anticoncepção é a pílula. Com o aumento da difusão do rádio, da televisão e, com melhores níveis de
alfabetização dando acesso a leitura, dos jornais e revistas até mesmo nas áreas mais remotas do país, não é de surpreender que
o conhecimento desses dois métodos de planejamento familiar seja tão alto entre os adolescentes. Os método que se seguem
são: o coito interrompido na região Sul; tabelinha, no Nordeste, na região Amazônica e em São Paulo. A única exceção a esse
padrão parece ser o Piauí onde, 69% das adolescentes das áreas urbanas tomavam a pílula e 25% adotavam os preservativos. A
diferença é particularmente grande em relação aos métodos masculinos (o preservativo, o coito interrompido e a vasectomia) e
ao DIU. Enquanto que 57% das adolescentes residentes em áreas urbanas declararam que tinham conhecimento desse último
método, apenas 27% das adolescentes das áreas rurais o conheciam. Vale ressaltar que, além de evitar uma gravidez prematura,
o aumento no conhecimento sobre os métodos anticoncepcionais e no uso dos preservativos, com o aparecimento da Aids,
significou um avanço importante.
Com freqüência os adolescentes, particularmente as mulheres, são vítimas de um padrão duplo de moralidade. Enquanto seus
pais e a Igreja lhes dizem para adiar as relações sexuais até que se casem, os anúncios e grande parte dos meios de
comunicação de massa promovem o sexo como um produto desejável de consumo, que traz prestígio a todo os que o praticam.
Além disso, as pesquisas têm mostrado que os jovens tendem a ter uma visão exageradamente romântica e irreal do sexo.
Querem se sentir arrebatadas por uma paixão irresistível, não querem planejar a relação sexual e, para muitos (de ambos os
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sexos), se o sexo fôr planejado deixará de ser espontâneo. Muitos argumentam que se tivessem um método anticoncepcional
em casa, seus pais poderiam descobrir, causando um confronto familiar.
A PNSMIPF de 1986 constatou que 80% das adolescentes de 15 a 19 anos que são sexualmente ativas e que nunca se casaram,
não usaram nenhum método anticoncepcional por ocasião da primeira relação sexual e 15% delas adotaram o método do ritmo
ou o coito interrompido (dois métodos que tendem a apresentar elevadas taxas de falha). Restam apenas 5% que usaram um
método eficaz (quase exclusivamente a pílula). Perguntadas sobre por que não haviam usado nada, quase dois quintos
declararam que não estavam esperando ter relação sexual na ocasião e, mais de um terço declarou que não conhecia nenhum
método na época; as restantes disseram que ou não sabiam onde obter um contraceptivo ou não acreditavam que pudessem
engravidar durante a primeira relação sexual ou ainda que queriam engravidar.
A pesquisa de 1986 revela que, entre as adolescentes que tiveram um filho, um terço declarou que não queria ter tido aquela
criança. Como confirmação de que muitas adolescentes se casam por já estarem grávidas, a pesquisa mostrou que apenas 30%
das adolescentes casadas com um ou mais filhos praticaram a anticoncepção antes do primeiro parto (36% nas áreas urbanas e
apenas 17% nas áreas rurais). As adolescentes pobres e menos educadas têm maiores chances de se casarem mais cedo. Além
disso, elas percebem que têm menos a perder com uma maternidade precoce. A gravidez na adolescência pode ser mais aceita
entre os pobres, assim como pode também ser mais valorizada do ponto de vista psicológico, dada a falta de outras fontes de
enriquecimento individual nessas comunidades. Uma outra explicação dos grandes diferenciais de taxas de gravidez entre
jovens ricas e pobres pode ser o fato de que as filhas adolescentes de pais ricos podem pagar por um aborto se engravidarem,
enquanto que para as mais pobres, é mais difícil considerar tal opção.
Obviamente, a maternidade precoce e suas conseqüências são apenas um entre muitos fatores que contribuem para manter
grandes números de jovens brasileiros em condições de extrema pobreza e em risco de vida. Existem no Brasil de hoje vários
milhões de jovens considerados de alto risco por causa da pobreza. Este fator leva à fome e à desnutrição, afetando-lhes a
saúde física e mental e prejudicando-lhes o desenvolvimento físico e intelectual. É também o que marca a falta de um lar ou de
condições habitacionais adequadas, levando as doenças que podem matar. Nesses lares miseráveis, a vida dos jovens se
desenvolve numa vizinhança caracterizada por poucas oportunidades de lazer e segurança e muitas oportunidades de perigo,
brutalidade e exposição a violência. (Adolescente de hoje, Pais do Amanhã: Brasil, 1991, Fundação Emílio Odebrecht).
Um aspecto bastante preocupante detectado pela PNAD de 1986 foi o aumento de óbitos entre os jovens, no grupo de 15 a 17
anos, causado por homicídios, suicídios, acidentes e envenenamentos nas principais cidades brasileiras. A violência é
responsável por mais da metade dos óbitos entre adolescentes. Estas causas externas de mortalidade mostram uma tendência de
crescimento entre 1979 e 1986, o que pode ser um reflexo de dois fenômenos distintos: redução de óbitos por outras causas,
como por exemplo as doenças infecciosas entre adolescentes, e um aumento real da violência tanto nas cidades como nas áreas
rurais. Os casos de homicídios e de suicídios chegam a superar os acidentes de trânsito.(Crianças & Adolescentes, Volumes I,
II e III, Indicadores Sociais, Unicef e IBGE, 1989).
O número crescente de jovens viciados em drogas é alarmante. O Cebrid (Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas
Psicotrópicas) realizou dois levantamentos nacionais, nos anos de 1987 e 1989, para saber como está a relação drogas e
adolescentes. Nas 17 cidades brasileiras pesquisadas, predomina entre os estudantes o uso de drogas consideradas lícitas, que
podem ser obtidas em farmácias e lojas, como os solventes e os inalantes. A situação dos jovens que vivem nas ruas é
dramática. Dependendo da cidade, o índice daqueles que fazem uso de algum tipo de tóxico chega a 45%. Esses jovens que
vivem a esmo nas ruas, sem elos sociais e culturais, acabam consumindo drogas pesadas para "sonhar", numa tentativa de
resgatar sua essência humana, mesmo que às custas da progressiva destruição física. Acabam também, muitas vezes, entrando
para o mundo do crime, que lhes facilita o acesso aos tóxicos (I Congresso Nacional. A Saúde do Adolescente, Academia
Nacional de Medicina, 1991).
É comprovada a influência das condições de saneamento básico sobre a saúde. Apesar disso, menos da metade da população
infanto-juvenil brasileira vive em domicílios com sistema de esgoto sanitário inadequado. Quando se comparam os índices em
relação aos meios urbano e rural, as diferenças são gritantes. No entanto, é necessário levar em consideração que nas áreas
rurais ainda existem recursos ambientais que minimizam estas dificuldades. A Região Nordeste é a que tem os mais baixos
índices de adequação: apenas 22,6% das crianças e adolescentes têm seus domicílios ligados à rede geral de esgoto ou possuem
fossa séptica e somente 34% são abastecidos por água. A simples posse de filtro de água em casa não está ao alcance de 55,8%
da população de 0 a 17 anos.
No tocante à coleta de lixo, no Brasil apenas a metade das pessoas de 0 a 17 anos residem em domicílios onde ela é efetuada.
Logo, o restante do lixo é lançado ao solo, nos quintais, ruas, ou mesmo nos arredores, tornando-se foco de moscas, mosquitos,
ratos e outros parasitas, tornam-se fontes de numerosas doenças. (Crianças & Adolescentes, Volumes I, II e III, Indicadores
Sociais, Unicef e IBGE, 1989). Um relatório do Banco Mundial estima que, desde a década de 1970, o Brasil gasta anualmente
de US$ 3 a 4 bilhões em serviços de saúde e nutrição dos quais 80% a 90% são gastos pelo Inamps (Instituto Nacional de
Assistência Médica e Previdência Social). Ou seja, somente 10 a 20% é gasto na prevenção e controle de doenças sexualmente
transmissíveis, na distribuição de medicamentos, na educação médica e em programas de nutrição. (Adolescente de hoje, Pais
do Amanhã: Brasil, 1991, Fundação Emílio Odebrecht)
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4.6 - Juventude e Emprego
A composição da economia brasileira mudou sensivelmente, à medida em que a sociedade deixou de ser basicamente agrária e
passou a se tornar cada vez mais industrializada. Em resposta a essa mudança, a estrutura da força de trabalho também se
alterou, com impacto profundo na experiência e nas oportunidades de trabalho para os jovens. O declínio do trabalho na
agricultura e o aumento da freqüência escolar foram os responsáveis pela queda, durante as décadas de 1960 e 1970, na
participação dos jovens homens, de menor idade, na força de trabalho. Já entre as jovens, o aumento da freqüência escolar, que
lhes melhorou o nível educacional das mulheres, fez com que elas se tornassem qualificadas para ingressar na força de trabalho
não-manual e no setor de serviços, em expansão, especialmente nas áreas urbanas. Assim, a participação dos jovens, no ínicio
da década de 1990, no mercado de trabalho alcançou o quantitativo de 8,2 milhões de homens e 4,8 milhões de mulheres na
faixa etária de 15 a 29 anos.
Também devido a redução do trabalho agrícola e ao aumento do nível de emprego nos setores da indústria e da prestação de
serviços, a principal tendência tem sido o afastamento do trabalho familiar não-remunerado em direção ao trabalho
remunerado, especialmente entre as mulheres. Em 1989, 89% dos rapazes rurais e 66% dos urbanos, de 15 a 19 anos,
encontram-se na força de trabalho. Entre as moças na mesma faixa etária os percentuais caiam para 41% e 45%
respectivamente. Dados de 1990 mostram que 40,13% das mulheres das zonas urbanas e 36,2% das áreas rurais estavam no
mercado de trabalho. Além das mudanças nas estruturas do país, as altas taxas de participação precoce da juventude no
mercado de trabalho revelam que à medida que a situação econômica se deteriorou e a inflação subiu as famílias passaram a
depender cada vez mais do salário de cada um de seus membros. A pobreza acabou levando a população jovem a ingressar
mais cedo no mercado, com baixo grau de escolarização ou sem qualquer escolaridade, já que a maioria dos jovens acaba
abandonando os estudos em busca de um emprego. (Crianças & Adolescentes, Indicadores Sociais, Volumes I, II e III, Unicef
e IBGE, 1989)
A análise da participação precoce dos jovens no mercado de trabalho revela o nível de desenvolvimento de um País. Nas
economias mais desenvolvidas o número de crianças e adolescentes no mercado de trabalho é mínima. No Brasil, no entanto, o
trabalho de jovens de menos idade é uma prática comum. Para o grupo de 15 a 17 anos, a taxa de atividade para os que vivem
em famílias cuja renda mensal per capita situa-se em até 1/4 do salário mínimo está em torno de 53,7%. Um índice bastante
alto mesmo quando comparada com a de outros países de menor renda per capita que o Brasil. A mais alta taxa de participação
na força de trabalho, por região brasileira, esta no Sul, onde oito em cada dez jovens do sexo masculino, entre 15 e 19 anos
trabalham. Em relação às mulheres, quanto mais urbanizada e desenvolvida for a região, mais elevado é o nível de sua
participação. Assim, as taxas de atividade econômica masculina são geralmente mais elevadas nas zonas rurais do que nas
áreas urbanas, enquanto que a situação é inversa na questão feminina. As regiões Sul e Sudeste apresentam os números mais
elevados de moças de 15 a 19 anos de idade, aproximadamente metade delas, integrando a força de trabalho. (Adolescentes de
Hoje, Pais do Amanhã: Brasil, 1991, Fundação Emílio Odebrecht).
São muitos os obstáculos enfrentados pelos jovens que estão no mercado de trabalho e pelos os que ainda estão tentando
encontrar nele um lugar: más condições de trabalho, baixa remuneração, longa jornadas de trabalho, dificuldade de conciliar
trabalho e escola, altas taxas de desemprego e desajuste entre o estudo recebido e as exigências do mercado. Em todos os
ramos de atividade econômica em que se inserem os jovens de menos idade brasileiros, a grande maioria trabalha na condição
de empregado, com exceção da agricultura, onde a relação predominante entre eles é o trabalho familiar sem remuneração. Do
total de crianças e jovens que trabalham na agricultura, em 1989, 62,3% não recebem rendimento algum.
À medida em que os jovens passaram a obter cada vez mais empregos no setor de prestação de serviços, os empregadores
puderam cada vez mais selecionar a partir de um grande número de candidatos como também reter ou negar benefícios. Em
geral, os jovens trabalham sem carteira assinada e são vítimas de subemprego. O percentual dos que contribuem para o
Instituto da Previdência, que lhes dá direito a benefícios de saúde e a receberem pagamentos da previdência social, caiu de
16%, em 1979, para 11%, em 1985. Apenas 34,6% da população de trabalhadores de 15 a 17 anos têm carteira assinada.
Embora insuficiente, os jovens do Sudeste trabalham sob uma maior proteção da legislação trabalhista. Na Região Nordeste,
por exemplo somente 9,5% deles, na mesma faixa etária, tem a carteira assinada pelo empregador. O número total de jovens,
de 15 a 29 anos, que trabalham sem carteira assinada era, em 1990, 13.026.162. Uma quantidade maior do que aqueles que têm
esse benefício - 12.128.588.
No mercado formal, apenas um em cada 25 empregos é preenchido por um jovem. Sendo que, entre 1960 e 1970, houve um
declínio pronunciado desta participação. Dados do IBGE de 1989 revelam, ainda, que os jovens brasileiros trabalham muito e
ganham pouco, com uma jornada de trabalho muito longa, mais de 40 horas semanais. Entre os adolescentes de 15 a 19 anos,
apenas 8% dos rapazes e 13% das moças economicamente ativas trabalham menos de 30 horas semanais. Cerca de oito em
cada 10 rapazes e sete em cada 10 moças dessa faixa etária trabalham 40 ou mais horas semanais. Apesar disso, os jovens
ganham muito pouco, embora sua renda aumente ligeiramente com a idade. As moças são ainda pior remuneradas do que os
rapazes. Em 1980, apenas 12% dos rapazes e 10% das moças, de 15 a 19 anos, ganhavam pelo menos um salário mínimo.
Embora, de forma geral, seja bastante insatisfatório o nível de instrução das crianças e adolescentes que trabalham, percebe-se
uma diferenciação muito acentuada em seu grau de escolaridade, conforme o ramo de atividade em que se inserem. O
comércio e a indústria de transformação são aqueles onde os jovens apresentam melhor nível de instrução. Isso se deve ao fato
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de se tratar de setores mais formalizados da economia que exigem maior nível de qualificação, além de empregarem quase
exclusivamente jovens a partir dos 14 anos, idade mínima que a lei determina para o ingresso no mercado de trabalho. Já a
agricultura é o ramo de atividade onde eles apresentam pior nível de instrução. Neste setor as crianças costumam se iniciar no
mundo do trabalho muito cedo, geralmente ajudando a seus familiares, na empresa doméstica. Além do mais, a freqüência à
escola no meio rural costuma ser muito inferior àquela no meio urbano.
Como seria de se esperar, os salários são mais baixos entre os adolescentes que têm os menores níveis de escolaridade e,
melhoram progressivamente à medida que aumenta o nível de escolaridade. Mais de 60% das moças de 15 a 19 anos que
trabalham, com dois ou menos anos de escolaridade, ganham menos de 50% do salário mínimo mensal. Na faixa de 15 a 17
anos, os rendimentos ficam em torno de 1,4 salários mínimos. (Crianças & Adolescentes, Indicadores Sociais, Volumes I, II e
III, Unicef e IBGE, 1989). São poucos os trabalhadores jovens que possuem um bom nível de estudo. A grande maioria das
crianças e adolescentes, participantes do mercado formal no Brasil possuem nível de instrução até a 8ª série completa. O
número dos que conseguem ter um diploma de nível de superior, que se caracteriza, pelo menos teoricamente, como uma
forma de atingir ocupações de alto nível e agir como um elevador social, é muito pequeno.
O colapso na educação faz com que o Brasil tenha um dos maiores contingentes de trabalhadores sem escolaridade, entre os
países em desenvolvimento. Uma comparação entre o Brasil e a Coréia do Sul, por exemplo, mostra que, enquanto 60% da
força de trabalho brasileira tem apenas quatro anos de escolaridade, na Coréia a proporção baixa para 7%. Por outro lado,
20,5% dos trabalhadores brasileiros não têm nenhuma escolaridade, sendo que inexiste tal continente de iletrados na Coréia.
Uma pesquisa do Professor Lawrence Lau, de Berkeley, para o Banco Mundial, mostrou que um aumento de 1% no tempo de
escolaridade da força de trabalho pode representar um crescimento de produtividade de 0,4% em apenas um ano. Isto é, um
bom curso primário completo pode também significar substancial avanço do produto nacional bruto.
O Brasil começou a perder a batalha pelo desenvolvimento em meados dos anos 70, quando voltou a ser negligente no campo
da educação. Em 1976, por exemplo, 45,5% dos assalariados brasileiros tinham apenas o curso primário de quatro anos. Já em
1985, a proporção caiu para 40,8%. No topo da pirâmide, na área da universidade, houve um pequeno progresso. Em 1976,
4,4% da massa assalariada tinha o curso universitário e, em 1985, a proporção era de 6%. (Teixeira, Ib: 1994). O desemprego é
o grande fantasma para os jovens que buscam garantir um lugar no mercado formal. Em 1980, os desempregados
representavam cerca de 5% da força de trabalho daqueles que tinham de 15 a 19 anos de idade. Um levantamento especial,
envolvendo jovens na região do Grande São Paulo, realizado em 1985, concluiu que o número era mais elevado, 35% dos
jovens de 10 a 17 anos que se encontravam na força de trabalho estavam desempregados.
Mesmos aqueles que conseguem superar todas as dificuldades e terminar uma faculdade, não têm garantia de empregos. No
que se refere ao primeiro emprego após a graduação, verifica-se que o desvio ocupacional (ocupação pouco ou nada
relacionada com o curso feito) acontece com frequência. Os motivos principais são: desenvolvimento de interesses diferentes,
já que muitos conciliam trabalho e estudo durante o período da faculdade, desempenhando atividades diferentes das que estão
estudando; falta de indicação por pessoas influentes que abra as portas do mercado de trabalho e a busca por uma outra
atividade que permita maiores oportunidades de ascensão profissional. Os meios pelos quais estes jovens diplomados
conseguem ingressar no mercado de trabalho são com mais frequência concurso ou seleção, seguido pelas indicações pessoais
(parentes, amigos, professores e profissionais) e o contato direto com o empregador. Já os anúncios, agências e associações
profissionais tem papel pouco relevante.
As diferenças entre a teoria da escola nos cursos de forma geral e a prática no mercado de trabalho acabam deixando a
escolaridade com um papel mais modesto do que o treinamento em serviço ou estágio na preparação do jovem trabalhador. A
procura por jovens com experiência profissional é outro fator que eleva a importância do treinamento em serviço, para obter e
aperfeiçoar as habilidades e conhecimentos profissionais. Com isso, uma grande parcela da melhoria do sistema de ensino no
país cabe às empresas. É por meio de parceria entre elas e as universidades que se está atualizando a formação acadêmica
recebida nos cursos de nível superior. Esta parceria esta se tornando cada vez mais fundamental para a efetivação da qualidade
total da formação profissional, garantindo trabalhadores que saibam conjugar aptidão técnica com especulação teórica. Nesse
contexto, pode-se entender melhor a importância do estágio. É ele que traz o estudante para uma série de novos desafios a
serem vencidos por meio da rearticulação da sua base teórica, sendo uma peça importante no programa de qualidade total da
formação profissional. Prevalece entre os alunos do ensino médio a aspiração por cursos técnicos e profissionalizantes. Esses
cursos figuram como uma das demandas apresentadas pelas camadas populares para tentar garantir sua inserção no mercado de
trabalho. Tanto que, cálculos do IPEA informam que, o Senai, Senac e as escolas técnicas federais teriam, no máximo, lugares
para apenas 14% da clientela em potencial (Gomes, Cândido Alberto:1990).
Uma face da realidade da vida moderna para muitos jovens brasileiros, e que não aparece nos dados dos censos e
levantamentos, são os meninos de rua. A situação desses jovens é desalentadora. Alguns pesquisadores estimam que existam
cinco milhões de crianças e adolescentes desabrigados no Brasil. Com base em informações da PNAD de 1984, pode-se
estimar mais precisamente que um mínimo de meio milhão de rapazes de áreas urbanas de 15 a 19 anos de idade vive nas ruas.
A maioria dos jovens que foram abandonados por seus pais ou que fugiram de suas famílias para evitarem maus tratos ou
fome, trabalham para sobreviver. Embora algumas das atividades desses jovens desabrigados sejam, sem dúvida, criminosas,
muitos milhares de jovens passam seus dias engraxando sapatos, vigiando ou lavando carros, vendendo cigarros ou chicletes,
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ou fazendo pequenos serviços ocasionais para qualquer um que lhes pague um biscate (Adolescentes de Hoje, Pais do
Amanhã: Brasil, 1991, Fundação Emílio Odebrecht).
4.7 – Juventude e Meios de Comunicação Social
4.7.1 - Declaração sobre os princípios fundamentais relativos à contribuição dos meios de comunicação de massa para o
fortalecimento da Paz e da compreensão internacional para a promoção dos Direitos Humanos e a luta contra o
racismo, o apartheid e o incitamento à guerra.
Proclamada em 28 de novembro de 1978 na vigésima reunião da Conferência Geral da organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e à Cultura, celebrada em Paris.
PREÂMBULO
A Conferência Geral,
Recordando que em virtude de sua Constituição, a UNESCO se propõe a " contribuir para a paz e a segurança estreitando,
mediante a educação, a ciência e à cultura, a colaboração entre as nações a fim de assegurar o respeito universal à justiça, à lei,
os direitos humanos e as liberdades fundamentais" (art. I, 1), e que para cumprir tal tarefa a Organização se preocupará com "
facilitar a livre circulação das idéias por meio da palavra e da imagem". (art. I, 2),
Recordando também que, em virtude de sua Constituição, os Estados Membros da UNESCO, " persuadidos da necessidade de
assegurar a todos o pleno e igual acesso à educação, a possibilidade de investigar livremente a verdade objetiva e a livre troca
de idéias e de conhecimentos, resolveram desenvolver e intensificar as relações entre seus povos, a fim de que estes se
compreendam melhor entre si e adquiram um conhecimento mais preciso e verdadeiro de suas vidas" (Preâmbulo, parágrafo
sexto).
Recordando os objetivos e os princípios das Nações Unidas tal como são definidos em sua Carta,
Recordando a Declaração Universal de Direitos Humanos aprovada pela assembléia Geral das Nações Unidas em 1948 e em
particular o artigo 19 que estipula que " todo indivíduo tem o direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui o
de não ser incomodado por causa de suas opiniões, o de pesquisar e receber informações e opiniões, e o de difundi-las, sem
limitação de fronteiras, por qualquer meio de expressão", assim como o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos,
aprovado pela assembléia Geral das Nações Unidas em 1966, que proclama os mesmos princípios em seu artigo 19 e em seu
artigo 20 condena a incitação à guerra, a apologia ao ódio nacional, racial ou religioso, assim como toda forma de
discriminação, de hostilidade ou de violência,
Recordando o artigo 4 da Convenção Internacional sobre a eliminação de todas as formas de Discriminação Racial, aprovada
pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1965, e à Convenção internacional sobre a repressão e o castigo do crime de
apartheid, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1973, que estipulam que os estados que tenham aderido a
essas convenções se comprometem a adotar imediatamente medidas positivas para eliminar toda incitação a essa discriminação
a todo ato de discriminação e tenham decidido impedir que seja estimulado de qualquer modo que seja o crime de apartheid e
outras políticas segregacionistas semelhantes,
Recordando a Declaração sobre a promoção entre a juventude dos ideais de paz, respeito mútuo e compreensão entre os povos,
aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1965,
Recordando as declarações e as resoluções aprovadas pelos diversos organismos das Nações Unidas relativas ao
estabelecimento de uma nova ordem econômica internacional, e o papel que a UNESCO é convocada a desempenhar nesta
esfera,
Recordando a resolução 59 (1) da Assembléia Geral das Nações Unidas, adotada em 1949, que declara:
"A liberdade de informação é um direito humano fundamental e alicerce de todas as liberdades às quais estão
consagradas as Nações Unidas [...] A liberdade de informação requer, como elemento indispensável, a
vontade e à capacidade de usar e de não abusar de seus privilégios.
Requer também, como disciplina básica, a obrigação moral de pesquisar os fatos sem prejuízo e difundir as informações sem
intenção maliciosa [...]", Recordando a resolução 110 (II) aprovada em 1947 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, que
condena toda propaganda destinada a provocar ou a estimular ameaças contra a paz, a ruptura da paz ou todo ato de agressão,
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Recordando a resolução 127 (II) da mesma Assembléia Geral, que convida os estados Membros a lutar dentro dos limites
constitucionais contra a difusão de notícias falsas ou deformadas que possam prejudicar as boas relações entre os Estados,
assim como as demais resoluções da citada Assembléia relativas aos meios de comunicação de massas e sua contribuição ao
desenvolvimento da confiança e das relações de amizade entre os Estados, Recordando a resolução 9.12 aprovada pela
Conferência Geral da UNESCO em 1968, que reafirma o objetivo da Organização de contribuir para a eliminação do
colonialismo e do racismo, assim como a resolução 12.1 aprovada pela Conferência Geral em 1976, que declara que o
colonialismo, o neocolonialismo e o racismo em todas as suas formas e manifestações são incompatíveis com os objetivos
fundamentais da UNESCO,
Recordando a resolução 4.301, aprovada em 1970 pela Conferência Geral da UNESCO, relativa à contribuição dos grandes
meios de comunicação de massas ao fortalecimento da compreensão e da cooperação internacionais em interesse da paz e do
bem estar da humanidade, e à luta contra a propaganda em favor da guerra, do racismo, do apartheid e o ódio entre os povos, e
consciente do papel fundamental que os meios de comunicação da massas podem desempenhar nessas esferas,
Recordando a Declaração sobre a raça e os preconceitos raciais aprovada pela Conferência Geral em sua 20.ª reunião,
Consciente da complexidade dos problemas que oferece à sociedade moderna a informação e da diversidade de soluções que
lhe há dado, e que apresentou em um manifesto uma reflexão especialmente conduzida pela UNESCO, e em particular a
legítima preocupação de uns e outros para que sejam levadas em conta suas aspirações, suas opiniões e sua personalidade
cultural,
Consciente das aspirações dos países em desenvolvimento no que diz respeito ao estabelecimento de uma nova ordem mundial
de informação e de comunicação,
Proclama neste dia vinte e oito do mês de novembro de 1978 a presente Declaração sobre os princípios fundamentais relativos
à contribuição dos meios de comunicação de massas para o fortalecimento da Paz e da cooperação internacional, para a
promoção dos Direitos Humanos contra o racismo, o apartheid e o incitamento à guerra.
Artigo 1
O fortalecimento da paz e da compreensão internacional, a promoção dos direitos humanos, a luta contra o racismo, o
apartheid e a incitação à guerra exigem uma circulação livre e uma difusão mais ampla e equilibrada da informação. Para esse
fim, os órgãos de informação devem dar uma contribuição essencial, sendo que esta será eficiente caso a informação reflita os
diferentes aspectos do assunto examinado.
Artigo 2
1. O exercício da liberdade de opinião, da liberdade de expressão e da liberdade de informação, reconhecido como parte
integrante dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, constitui um fator essencial do fortalecimento da paz e da
compreensão internacional.
2. O acesso ao público à informação deve ser garantido mediante a diversidade das fontes e dos meios de informação de que
disponha, permitindo assim a cada pessoa verificar a exatidão dos acontecimentos e elaborar objetivamente sua opinião sobre
os acontecimentos. Para esse fim, os jornalistas devem corresponder às expectativas dos povos e dos indivíduos, favorecendo
assim a participação do público na elaboração da informação.
3. Com o objetivo de fortalecer a paz e a compreensão internacional, a promoção dos direitos humanos e da luta contra o
racismo, o apartheid e a incitação à guerra, os órgãos de informação, em todo o mundo, dada a função que lhes corresponde,
contribuem para a promoção dos direitos humanos, em particular ao fazer com a voz dos povos oprimidos que lutam contra o
colonialismo, o neocolonialismo, a ocupação estrangeira e todas as formas de discriminação racial e de opressão seja ouvida,
assim como dos povos que não podem se expressar em seu próprio território.
4. Para que os meios de comunicação possam promover em suas atividades os princípios da presente Declaração, é
indispensável que os jornalistas e outros agentes dos órgãos de comunicação, em seu próprio país ou no estrangeiro, desfrutem
do estatuto que lhes garanta as melhores condições para exercer a sua profissão.
Artigo 3
1. Os meios de comunicação devem dar uma contribuição importante ao fortalecimento da paz e da compreensão internacional
e na luta contra o racismo, o apartheid e contra a propaganda bélica.
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2. Na luta contra a guerra da agressão, racismo e o apartheid, assim como contra as violações dos direitos humanos que ,
entre outras coisas são resultado dos preconceitos e da ignorância, os meios de comunicação, através da difusão da informação
relativa aos ideais, às aspirações, cultura e exigências dos povos, contribuem para eliminar a ignorância e a incompreensão
entre os povos, a sensibilizar os cidadãos de um país às exigências e às aspirações dos outro, a conseguir o respeito dos direitos
e da dignidade de todas as nações, de todos os povos e de todos os indivíduos, sem distinção de raça, de sexo, de língua, de
religião ou de nacionalidade, e de marcar com atenção os grandes males que afligem a humanidade, tais como a miséria, a
desnutrição e as doenças. Ao assim realizar estas tarefas, favorecem a elaboração por parte dos Estados de políticas mais
adequadas às tensões internacionais e para solucionar de maneira pacífica e de igual maneira as diferenças internacionais.
Artigo 4
Os meios de comunicação de massas têm uma participação essencial na educação dos jovens dentro do espírito da paz, da
justiça, da liberdade, do respeito mútuo e da compreensão, a fim de promover os direitos humanos, a igualdade de direitos
entre todos os seres humanos e as nações, e o progresso econômico e social. Desempenham um papel de igual importância para
o conhecimento das opiniões e das aspirações da nova geração
Artigo 5
Para que a liberdade de opinião seja respeitada, assim como a liberdade de expressão e de informação, e para que esta última
respeite todos os pontos de vista, é importante que sejam publicados os pontos de vista apresentados por aqueles que
considerem que a informação publicada ou difundida sobre eles tenha prejudicado gravemente a ação que realizam com o
objetivo de fortalecer a paz e a compreensão internacional, a promoção dos direitos humanos, ou lutar contra o racismo, o
apartheid e contra a incitação à guerra.
Artigo 6
A instauração de um novo equilíbrio e de uma melhor reciprocidade na circulação da informação, condição favorável para o
sucesso de uma paz justa e durável e para a independência econômica e política dos países em desenvolvimento, exige que
sejam corrigidas as desigualdades na circulação da informação com destino aos países em desenvolvimento, procedente deles,
ou em algum desses países. Para tal fim é essencial que os meios de comunicação de massas desses países disponham as
condições e os meios necessários para fortalecer-se, estendendo-se a cooperação entre si e com os meios de comunicação de
massa dos países desenvolvidos.
Artigo 7
Ao difundir mais amplamente toda a informação relativa aos objetivos e aos princípios universalmente adotados, que
constituem a base das relações aprovadas pelos diferentes órgãos das Nações Unidas, os meios de comunicação de massa
contribuem eficientemente no reforço da paz e da compreensão internacional, na promoção dos direitos humanos e no
estabelecimento de uma nova ordem econômica internacional mais justa e igual.
Artigo 8
As organizações profissionais, assim como as pessoas que participam na formação profissional dos jornalistas e dos demais
profissionais dos grandes meios de comunicação que os ajudem a desempenhar suas tarefas de maneira responsável, devem
concordar com a importância dos princípios da presente Declaração nos códigos deontológicos que estabeleçam e pela qual
acreditem.
Artigo 9
No espírito da presente Declaração, é tarefa da comunidade internacional contribuir no estabelecimento de condições
necessárias para uma circulação livre da informação e para sua mais ampla e equilibrada difusão, assim como as condições
necessárias para a proteção, no exercício de suas funções, dos jornalistas e dos demais agentes dos meios de comunicação. A
UNESCO está bem qualificada para oferecer uma valiosa contribuição nessa área.
Artigo 10
1. Com o devido respeito às disposições institucionais que garantem a liberdade de informação e dos instrumentos e acordos
internacionais aplicáveis, é indispensável criar e manter no mundo todo as condições que permitam aos órgãos e às pessoas
dedicados profissionalmente na difusão da informação alcançar os objetivos da presente Declaração.
2. É importante que seja estimulada uma livre circulação e uma ampla e equilibrada difusão da informação.
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3. É necessário para tal fim, que os Estados facilitem a obtenção para os meios de comunicação dos países em
desenvolvimento, as condições necessárias para que se fortaleçam, e que ofereçam a cooperação entre eles e com os meios de
comunicação dos países desenvolvidos.
4. Assim mesmo, baseando-se na igualdade de direitos, na promoção mútua e no respeito à diversidade cultural, elementos do
patrimônio comum da humanidade, é essencial que sejam alimentados e desenvolvidos os intercâmbios de informação tanto
bilaterais como multi-laterais entre todos os Estados, em particular entre os que possuem sistemas econômicos e sociais
diferentes.
Artigo 11
Para que a presente Declaração seja eficiente, é preciso que, com o devido respeito das disposições legislativas e
administrativas e das demais obrigações dos estados Membros, seja garantida a existência de condições favoráveis para a ação
dos meios de comunicação, conforme as disposições da Declaração Universal de direitos Humanos e dos princípios
correspondentes enunciados no Pacto Internacional de direitos Civis e Políticos aprovado pela Assembléia Geral das Nações
Unidas em 1966.
4.7.2 - Jovens se pronunciam sobre o papel da mídia e os direitos humanos
Adital - Lima, Peru - Os Meios de Comunicação em toda sociedade cumprem a função de informar, educar, sensibilizar e
gerar pontes na sociedade que consigam articular discursos, realidades e processos sociais, que todo país atravessa ao longo de
sua história.
Nestes vinte anos de violência política, os meios de comunicação não souberam estar à altura da função social que, por ética,
deveriam assumir. Esses meios, como todos sabemos, ocultaram, tergiversaram e calaram -de maneira irresponsável e sinistra–
fatos delituosos e atrozes que deixaram feridas profundas em nossa sociedade, das quais ainda não se recuperou.
Diante da transcendente responsabilidade que vem assumindo a Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) e no marco da
realização de Audiências Públicas que vêm acontecendo em nosso país, os meios de comunicação massivos -televisão,
imprensa, entre outros- não respondem às demandas que este processo requer. Acreditamos que agora, mais que nunca, têm a
oportunidade de se redimir.
Por isso, solicitamos:
- A cobertura total das audiências públicas que a CVR realiza no país, sem nenhuma discriminação dos lugares mais
afastados de nosso país e dos casos que se apresentem nelas.
- - O acompanhamento permanente do trabalho que a CVR realiza ao longo de sua gestão.
- - O processo de busca de Verdade, Justiça e Reconciliação não apenas deve ser um compromisso assumido pela
Comissão da Verdade e Reconciliação, mas por todos os setores sociais que formam este país fragmentado pela
violência política. Nosso país necessita reconstruir-se sobre a base de uma nova consciência e por vir democrático que
se reflita na valorização e respeito dos Direitos Humanos e na compreensão do vivido no passado, para que estes fatos
nunca mais se repitam.
- -Apoiemos o trabalho desempenhado pela Comissão da Verdade e Reconciliação!
Demandemos que os meios de comunicação outorguem maior espaço às AUDIÊNCIAS PÚBLICAS, para que o Peru
inteiro exerça seu direito à verdade, direito inalienável de todo o povo!
Rede Nacional de Jovens em Direitos Humanos pela Verdade e a Justiça – REDH
Lima, 16 de Junho de 2002 (Fórum Solidariedade Peru)
4.8 – Juventude e Meio Ambiente
4.8.1 - Texto sobre Redes para o Encontro da Juventude pelo Meio Ambiente
Em busca do conceito de ―Redes‖
Aceita por todos como fato presente em nossas vidas, a atuação em rede é algo de que hoje muito se fala. Entretanto, pouco se
compreende em termos concretos, oque isto significa. Fala-se em rede de transportes, rede de ensino público, rede de
abastecimento, rede elétrica, rede de televisão, rede de lojas; sem que percebamos, utilizamos o termo redes para os mais
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diversos fins. E é impressionante como se observa uma consistência no emprego do termo para uma multiplicidade de
aplicações (LIPNACK & STAMPS, 1992, p. 18).
Redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se
dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmo códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de
desempenho). Uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto, altamente dinâmico suscetível de inovação sem
ameaças ao seu equilíbrio(...). Mas a morfologia da rede também é uma fonte de drástica reorganização das relações de poder
(CASTELLS, 2000, p.498).
Para melhor compreensão deste conceito, é preciso visualizar e compreender algumas de suas características.
Principais Características do Trabalho em Redes
Horizontalidade:Premissa essencial para uma rede, todos têm a mesmo poder de decisão.
Multiliderança: Não há chefes na rede, mas sim muitos líderes.
Objetivos compartilhados:Não há redes se seus membros não compartilharem os mesmos objetivos e valores.
Livre intercomunicação: O fluxo de informações é livre entre os membros da rede. Não há censura.
Co-responsabilidade: Todos são co-responsáveis pelo funcionamento da rede, o que requer iniciativa individual.
Democracia:A participação na rede se dá de forma democrática, pautada pela transparência nas relações.
Solidariedade: As redes se contrapõem à cultura do ―levar vantagem‖ e do ―guardar pra si‖.
Autonomia e empoderamento dos seus membros: Organizar-se em rede pressupõe a busca continuada pela
emancipação de seus membros, sendo portanto um operação de natureza política.
Livre entrada e saída: A rede está sempre aberta à entrada e à saída de participantes.
Conceitos associados ao ―organizar-se em Rede‖
Quando falamos em Redes, imediatamente trazemos conceitos associados, que fazem parte do repertório desse tipo de
organização. Redes são usualmente definidas como um sistema de nós (ou nodos) e elos, termos utilizados para se descrever
redes físicas, como a telefônica.
Enquanto fonte ou receptora de informações, uma pessoa é um nó. Enquanto portadora de informações, fazendo uma conexão
entre nós, uma pessoa é um elo. A essência do trabalho em redes reside no relacionamento pessoa-pessoa (LIPNACK &
STAMPS, 1992, p. 10).
Além destes dois novos conceitos apresentados (nós e elos), há pelo menos mais dois termos associados consideravelmente
inerentes ao trabalho em redes: facilitação e hospedagem.Para que a rede funcione com certo dinamismo, é necessária a figura
do facilitador, ou animador. Cada rede pode ter de um a muitos facilitadores ou animadores, os quais não detêm poderes
diferenciados dos demais membros da rede, mas apenas apresentam atributos específicos que os qualificam facilitadores. Eles
não coordenam ou comandam a rede, apenas criam condições propícias ao fluxo de informações. Para tanto, necessitam ser
reconhecidos pelos participantes da rede como tal.
Com relação ao segundo termo, hospedagem, a rede necessita de facilitadores que por sua vez precisam de alguma estrutura de
―suporte‖ à rede. Como a rede não apresenta (nem deve apresentar) natureza jurídica, trata-se de uma forma de organização
que congrega horizontalmente diversas instituições e pessoas. Assim como a rede necessita do papel de facilitadores, ela
também necessita ser ―hospedada‖ por alguma ou algumas instituições. Por exemplo, a Rede Brasileira de Educação
Ambiental – REBEA – atualmente está hospedada no Instituto Ecoar para a Cidadania, uma ONG de SP. Cabe ressaltar que
tanto a facilitação quanto à hospedagem de redes é um processo também dinâmico, está sempre mudando conforme as entradas
e as saídas de participantes e de acordo com o próprio funcionamento da rede.
Objetivos comuns do trabalho em Redes
Em geral a organização em redes pressupõe compartilhar alguns objetivos em comum:
- intercâmbio de informações;
- contribuir para formação de seus membros;
- criar laços de solidariedade;
- realizar ações em conjunto.
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Podemos, no entanto, estar dispostos em rede, sem operar em rede. O que faz da arquitetura de rede uma rede é seu modo de
funcionamento. No caso que nos importa aqui: um modo de operar que contemple, pressuponha e atualize a autonomia dos
membros da rede; que faça da horizontalidade, da descentralização, do empoderamento e da democracia uma ética de operação
(MARTINHO, p. 2).
Como se organizar em Rede?
O primeiro passo para quem deseja organizar-se em rede passa pela necessidade de identificação de objetivos comuns, para
que cada membro possa efetivamente sentir-se pertencente à rede. A noção de pertencimento está diretamente vinculada ao
conceito de participação. Participar pressupõe sentir-se parte, perceber-se pertence ao grupo, à rede, etc.
Vencido este primeiro passo, é necessária a definição de facilitadores para a rede e onde a mesma estará hospedada. Como
vimos anteriormente, a facilitação ou animação é característica básica para o ―organizar-se em rede‖, juntamente com a
hospedagem da rede em si. Um outro conceito associado diretamente vinculado a estes dois é o de Secretaria Executiva.
Comumente a instituição que hospeda a rede e que tem pessoas que a facilitam acaba se tornando a Secretaria Executiva da
rede.
Algumas tipologias de redes
O trabalho de INOJOSA, 1999 nos aponta algumas tipologias de redes. É possível, segundo ela, ―distinguir alguns tipos,
segundo as relações entre os parceiros e segundo o foco de atuação‖ (p. 3)
Quadro 1 – Tipos de redes, quanto à relação entre os parceiros
Rede Subordinada:
Entes são parte de uma organização;
Existe uma interdependência de objetivos;
A articulação depende da vontade dos entes;
Há apenas um lócus de controle.
Rede Tutelada:
Entes têm autonomia mas articulam-se sob a égide de uma organização;
Rede fica dependente da persistência de propósitos do ente mobilizador;
Ente mobilizador tende a ficar como lócus de controle.
Rede Autônoma:
Entes são autônomos e articulam-se voluntariamente;
Pressupõe uma idéia-força mobilizadora;
A rede é aberta e trabalha por pactuação;
As identidades dos parceiros são preservadas e é construída uma identidade da rede;O controle é compartilhado.
Fonte: INOJOSA, 1999, p. 4-5.
Quadro 2 – Tipos de redes, quanto ao foco de atuação
Redes de Mercado:
• São redes articuladas em função da produção e/ou apropriação de bens e serviços
• Visam a complementaridade ou a pontencialização dos parceiros face ao mercado
• As relações são perpassadas pelos interesses do mercado, e podem oscilar entre cooperação e competição
• A relação de parceira das redes de mercado tende a ser de subordinação ou tutela.
Redes de Compromisso Social:
• São redes que têm como foco questões sociais;
• Visam complementar a ação do Estado ou suprir a sua ausência no equacionamento de problemas sociais complexos, que
põem em risco o equilíbrio social;
• As relações nascem e se nutrem de uma visão comum sobre a sociedade ou sobre determinada questão social e da
necessidade de uma ação solidária;
• Demanda estratégias de mobilização constante das parcerias e de reedição.
Fonte: INOJOSA, 1999, p. 6.
WHITAKER (1993) também propõe uma tipologia de redes, mais simplificada. As redes podem interligar somente pessoas;
somente entidades; e ambos. Também podem ser de diferentes tamanhos – de uma equipe que trabalhe em rede a uma rede de
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bairro ou de sala de aula, até uma rede internacional. Podem existir igualmente redes de redes. E dentro de uma rede podem
se formar sub-redes, com objetivos específicos‖ (op. cit., p. 8).
O que fortalece a Rede?
• Tratar as pessoas com respeito e integridade;
• Oferecer primeiro: alimente sua rede com informações, dicas, idéias, links, indicações, experiências, etc. Isso incentivará aos
demais participantes a fazer o mesmo;
• Reconhecer e agradecer os recursos recebidos;
• Deixar tudo às claras: promover um processo de comunicação transparente é fundamental para o trabalho em redes;
• Realizar ações de cultivo: diversas ações podem ser promovidas para articular a rede. Encontros presenciais são importantes
momentos de promover integração entre os membros da rede, e devem ser estimulados sempre que possível;
• Incentivos a articulações regionais: organizações e pessoas de uma mesma região tendem a ter problemas similares e pela
proximidade geográfica, têm maiores possibilidades de realizarem reuniões presenciais;
• Encontros presenciais: reforçam os laços de confiança da rede e a tornam mais propícia a comunicação e trabalho conjunto.
Embora nem sempre todos os integrantes de uma rede possam comparecer a reuniões presenciais, as comunicações aumentam
significativamente após os encontros;
• Construção de mecanismos informativos: o objetivo é manter os participantes atentos às ações da rede. A tônica deste tipo de
comunicação pode ser bastante informal e algumas notícias podem ser de caráter corriqueiro para fortalecer outros tipos de
vínculos entre os participantes.
Dificuldades do trabalho em rede
Podemos identificar algumas barreiras comuns à articulação de redes organizacionais. Estas dificuldades podem ser
classificadas em três tipos de limitações:
1) Barreiras Políticas: quanto mais uma rede for coesa e dotada de um propósito claro e unificador, mais preparada ela estará
para lidar com problemas de relacionamento entre seus integrantes. É preciso que a rede se organize como uma equipe, o que é
bem diferente de um agrupamento.
2) Barreiras Técnicas: estão relacionadas às estratégias de comunicação entre os participantes da rede. É comum as redes
optarem pelo uso de sofisticadas plataformas de comunicação baseadas na informática (internet) e os participantes menos
familiarizados com estas novas tecnologias acabam enfrentando algumas dificuldades ao utilizá-las.
3) Barreiras Internas: o próprio processo de organização da rede pressupõe certas dificuldades, a começar pela própria questão
conceitual. Muitos participantes têm certa dificuldade em entender a dinâmica de funcionamento de uma rede, o que pode ser
decorrente de uma cultura baseada em estruturas hierarquizadas e pouco flexíveis, nas quais estamos inseridos desde a
infância. Além desta dificuldade, há a necessidade de clareza dos papéis de cada participante na rede bem como dos objetivos
da mesma.
Referências
AYRES, B. Redes organizacionais no terceiro setor – um olhar sobre suas articulações. Rio de Janeiro, 2001., 15 p.
CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo : Paz e Terra, 1999.
FACHINELLI, A.C. et al. ―A prática da gestão de redes: uma necessidade estratégica da Sociedade da Informação‖ In:
Revista Com Ciência, 2000.
INOJOSA, R.M. ―Redes de compromisso social‖ In: Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro : FGV, 33 (5), set/out
1999, 115-141 p.
LIPNACK, J. & STAMPS, J. Networks: Redes de Conexões. São Paulo : Aquariana, 1992.
MACHADO, A.L.I. et all Las redes como instrumentos de transformación social. Caracas, www.rbc.org.br, 1999.
MARTINHO, C. Redes e desenvolvimento local. www.rbc.org.br
PRADO, J.L.A. A naturalização da rede em Castells. www.rbc.org.br
WHITAKER, F. Rede: uma estrutura alternativa de organização. CEDAC/ Ano 2/ no 3, 1993, 12 p.
Alguns sites de Referência
www.rits.org.br - Rede de Informações para o Terceiro Setor
www.rebea.org.br - Rede Brasileira de Educação Ambiental
www.repea.org.br - Rede Paulista de Educação Ambiental
www.univag.com.br/remtea - Rede Mato-grossense de Educação Ambiental
www.ecosol.org.br - Rede de Economia Popular Solidária
www.redeceas.esalq.usp.br - Rede Brasileira de Centros de Educação Ambiental
www.redeaguape.org.br - Rede Pantanal de Educação Ambiental
www.reasul.univali.br - Rede Sul Brasileira de Educação Ambiental
4.8.2 - Texto sobre EA para o Encontro da Juventude para o Meio Ambiente
Reconceituando Educação Ambiental
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Prof. Aziz Nacib Ab'Saber
Educação Ambiental é uma coisa mais séria do que geralmente tem sido apresentada, em nosso meio. É um apelo à seriedade
do conhecimento. É uma busca de propostas corretas de aplicação de ciências. Uma "coisa" que se identifica com um processo.
Um processo que envolve um vigoroso esforço de recuperação de realidades nada simples. Uma ação, entre missionária e
utópica, destinada a reformular comportamentos humanos e recriar valores perdidos ou jamais alcançados. Um esforço
permanente na reflexão sobre o destino do homem - de todos os homens - face à harmonia das condições naturais e o futuro do
planeta "vivente", por excelência. Um processo de Educação que garante um compromisso com o futuro.
Envolvendo uma nova filosofia de vida. E, um novo ideário comportamental, tanto em âmbito individual, quanto na escala
coletiva.Para atingir seus objetivos, a Educação Ambiental - aquela verdadeira e incorruptível - exige uma sensibilidade
especial para as coisas da natureza e a melhoria da estrutura da sociedade. Logo, carece de um certo conhecimento articulado
sobre a região que serve de suporte, para homens-habitantes, homens-produtores, e homens integrados em certas
condicionantes sócio econômicas.
É impossível consolidar um corolário de Educação Ambiental exclusivamente em atendendo à escala planetária ou à escala
nacional. Pelo contrário, ele envolve todas as escalas. Começa em casa. Atinge a rua e a praça. Engloba o bairro. Abrange a
cidade ou a metrópole. Ultrapassa as periferias. Repensa o destino dos bolsões de pobreza. Penetra na intimidade dos espaços
ditos "opressores". Atinge as peculiaridades e diversidades regionais. Para só, depois, integrar, em mosaico, os espaços
nacionais. E, assim colaborar com os diferentes níveis de sanidade exigidos pela escala planetária, dum fragmento de astro que
asilou a vida e deu origem aos atributos básicos do ser que pensou o Universo.
A Educação Ambiental obriga-nos a um entendimento claro sobre a projeção dos homens em espaços terrestres, herdados da
natureza e da história. O lugar de cada um nos espaços remanescentes de uma natureza modificada; o lugar de cada um nos
espaços sociais criados pelas condicionantes sócio-econômicas. E, tempo suficiente, para pensar na harmonia ou nos desajustes
entre as formas de ocupação dos solos rurais, face à posição, dinâmica e tendência de crescimento das cidades. Os organismos
urbanos estão sempre invadindo espaços rurais, produtores de alimentos e matérias primas: nunca se ouviu falar de espaços
urbanos invadidos por atividades agrárias! Quando se estabelece a cornubação em uma rede de cidades, a emenda das manchas
urbanas implica em um desaparecimento completo da produtividade agrícola regional.
A preocupação básica da Educação Ambiental é a de garantir um meio ambiente sadio para todos os homens e tipos de vida
existentes na face da Terra. Pretende-se ajudar a preservação da biodiversidade in situ: re-introduzir vegetação onde for
possível; seqüestrar o gás carbônico liberado para a atmosfera nos últimos 100 anos da Revolução Industrial; multiplicar os
bancos de germoplasma necessários à produção de alimentos, e, à introdução ou re-introdução de biomassas de interesse
ambiental, social e econômico. Resguardar a biodiversidade animal, evitando interferências maiores nos nichos e habitats que
propiciaram condições para a permanência de diferentes espécies. Enfim, evitar extinções provocadas por ações predatórias,
tão inconseqüentes quanto muitas vezes desnecessárias.
Garantir a existência de um ambiente sadio para toda a humanidade implica em uma conscientização realmente abrangente,
que só pode Ter ressonância e maturidade através da Educação Ambiental. Um processo educativo que envolve ciência e ética,
e uma renovada filosofia de vida, dotados de atributos e valores essenciais: capacidade de escrever sua própria história;
informar-se permanentemente do que está acontecendo em todo o mundo; criar culturas e recuperar valores essenciais da
condição humana. E, acima de tudo, refletir sobre o futuro do planeta.
Para alcançar seus objetivos maiores, a Educação Ambiental defende uma somatória de sanidades. Sanidade do ar. Sanidade
das águas. Sanidade das coberturas vegetais remanescentes. Sanidade do solo e do subsolo. Uma maior harmonia e menos
desigualdades no interior da sociedade. A possibilidade de uma habitação adequada e sadia. Um transporte coletivo menos
sofrido (e menos poluente). Condições razoáveis no ambiente de trabalho "intramuros". Nas fábricas e oficinas. Um ambiente
que ajude a prolongar a vida e o bem estar de todos os membros da sociedade: crianças, velhos e adultos. Não há que pagar um
dinheiro extra a título de salário de insalubridade, quando se sabe que a continuidade desta atividade, em condições ambientais
tão precárias, é o caminho para a doença, o envelhecimento precoce, a morte. Há que exigir, sim, um ambiente o mais sadio
possível, no interior de todas as instalações industriais. É imoral e desumano pagar um pouco mais para que pessoas "esteios de
família" vivam menos.
Enfim, Educação Ambiental exige método, noção de escala; boa percepção das relações entre tempo, espaço e conjunturas;
conhecimentos sobre diferentes realidades regionais. E, sobretudo, códigos de linguagem adaptada às faixas etárias do alunado.
É um processo que, necessariamente, revitaliza a pesquisa de campo, por parte dos professores e dos alunos. Implica em um
exercício permanente de interdisciplinaridade - a prévia da transdisciplinaridade. Faz balançar o gasto coreto das velhas
disciplinas, eliminando teorizações elitistas e aperfeiçoando novas linhas teóricas, em bases mais sólidas e de entendimento
mais amplo. Nesse sentido, a Educação Ambiental, bem conduzida, colabora efetivamente para aperfeiçoar um processo
educativo maior, sinalizado para a conquista ou reconquista da cidadania. É a nova "ponte" entre a sabedoria popular e a
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consciência técnico-científica. Um artifício e uma escadaria para se escapar da impotência e infertilidade da torre de
marfim, e esgrimir no céu aberto do cotidiano.
Não há lugar para se conduzir, no processo educativo, - dito ambiental -, tentando impingir noções genéricas para habitantes da
beira de um lago ou das margens de um rio ou "furo" da Amazônia, e estendendo-se para os moradores dos sertões interiores
ou das coxilhas do Rio Grande do Sul. Ou, tentar utilizar material documentário preparado para alunos residentes em áreas de
solos férteis e rios perenes, projetando-o para meninos ou adolescentes residentes em rústicos sertões do Nordeste Seco, em
que os rios correm por 5 a 6 meses durante o ano, e em que as condições culturais e sociais da população são totalmente
diversas. Ou, ainda, pretender usar conhecimentos e posturas relacionados aos lindos litorais do Brasil atlântico, no ensino
dirigido para crianças, adolescentes e adultos, condenados à vivência em favelas. Ou, aos pobres trabalhadores, semi-escravos,
que mourejam no coração das selvas.
Alguns sites de Referência
www.rebea.org.br Rede Brasileira de Educação Ambiental
www.agenda21.org.br Portal da Agenda 21
www.geocities.com/cream_br Centro de Referência em Educação Ambiental
www.repea.org.br Rede Paulista de Educação Ambiental
www.redeambiente.org.br Rede Ambiente
4.9 – Juventude e Assistência Social
Em 1993, foi aprovada pelo Congresso Nacional a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), após muita pressão de setores
da sociedade civil organizada. A partir desse momento, a Assistência abandonou seu papel de benemerência e caridade –
firmado historicamente – e incorporou o status de política pública ancorada nos direitos dos cidadãos/ãs e deveres dos
governos em diferentes instâncias.
Apesar de legalmente concebida, a Assistência Social ainda enfrenta resistências, tanto de governos como da sociedade civil.
Mesmo com o reconhecimento legal dos empobrecidos como sujeitos de direitos, a efetivação das políticas de assistência é um
desafio constante de todos/as que lutam por uma sociedade mais justa. A luta nacional no momento é pela implementação do
Sistema Único de Assistência Social (Suas), dando seqüência a organização dos serviços
A política social brasileira, vista como ação planejada, começa a se constituir a partir da década de 70. O Brasil, procura criar
mecanismos de ataque à pobreza das parcelas mais carentes da população. É clara a prioridade na reorganização do sistema
produtivo. Porém, o Estado colocando-se como criador e coordenador de políticas sociais, não chamando a população à
participar da definição e controle dos programas mais adequados às suas reais necessidades, torna o planejamento cada vez
mais centralizado, onde os mecanismos da política econômica e social funcionam como meros doadores, sem qualquer efeito
promocional. Nesses 20 anos, programas como PRONAM (Programa Nacional de Alimentação e Nutrição), PIASS (Programa
de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento do Nordeste), CSU (Programa Nacional de Centros Sociais Urbanos ),
PNBEM (Programa Nacional de Bem-Estar do Menor), e outros, tem transformado a política social em mero complexo
administrativo e operativo, do qual a população não tem participação efetiva.
A política social mais adequada, ao Brasil, deveria atender a 3 vertentes: ocupação, renda e participação política da população.
Nos anos 80 emerge no quadro das políticas sociais as Organizações não-governamentais (ONGs), assumindo o papel do
Estado, na prestação de assistência à população marginalizada. Vários foram os FORUNS de ONGs que discutiam o crescente
pauperismo de parcelas significativa da população brasileira. Os foruns tiveram significado na pressão ao Estado, solicitando
mudanças de ordem política, econômica e social. A Constituição de 1988 e em 1990 o Estatuto da Criança e do Adolescente
procuram redefinir o Estado na questão de políticas sociais. Maiores direitos e deveres são dados à população civil, na gestão
político-administrativa.
O atual governo apresenta o PROGRAMA COMUNIDADE SOLIDÁRIA, que prevê a coordenação, incentivo e promoção das
ações governamentais voltados para o atendimento aos excluídos, através de programas nas áreas de alimentação e nutrição,
serviços urbanos, desenvolvimento rural, geração de emprego e renda, defesa dos direitos e promoção social. O Comunidade
Solidária não se coloca como mais um programa do governo para atender os problemas sociais e sim, como nova visão de
política social. Através do Conselho formado pela Primeira Dama, 10 ministros e 21 representantes da população civil planeja-
se definir prioridades de trabalho e encontrar meios de executá-las em parceria com a sociedade civil, estados e municípios.
A priori, três ações deverão ser atendidas e articuladas com os ministérios do Governo: criação de trabalho, saúde da criança e
capacitação de jovens. Em acordo com o Ministério da Saúde, são previstos investimentos de R$ 2 bilhões para ações de
melhoria das condições de vida de 550 Municípios e 12 bolsões de pobreza dos estados do Norte e Nordeste. Quase 19 milhões
de pessoas serão beneficiadas com a expansão da rede de esgoto, tratamento da água e lixo. O Ministério da Educação e
Cultura destina R$ 32 milhões para atender programas educativos a serem desenvolvidos em conjunto com Prefeituras locais.
A princípio, 156 municípios, de 14 Estados receberão programas no atendimento a material escolar, apoio didático, higiene e
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limpeza, biblioteca infantil, livro didático, merenda escolar, transporte escolar e descentralização da verba para manutenção
da escola.
4.9.1 – Propostas do Governo Federal em 2000
Os jovens menores de 24 anos de comunidades carentes de baixa renda, em situação de risco pessoal e social, passam a ter
atendimento específico por meio do programa Centros da Juventude.
Nos Centros da Juventude, esses jovens serão objeto de estratégia que privilegie a sua participação na criação de
alternativas de esporte, lazer, trabalho, educação, cultura e informação. Em 1999, foram criados 86 centros em diversas
cidades. Cada centro receberá R$ 20 mil do Governo Federal para sua instalação, em parceria com estados e municípios.
Jovens, na faixa etária de 15 a 17 anos, são formados para atuar junto às comunidades na área social (saúde, cultura, meio
ambiente, cidadania, esporte e turismo) para habilitá-los a desenvolver um projeto pessoal de vida. Esse projeto foi
inicialmente instalado em 120 Municípios, incluindo as capitais e cidades com o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH
mais baixo. No período do Avança Brasil, pretende-se capacitar anualmente 3.000 jovens e implantar, em todo o Brasil, 1.050
centros da juventude.
PARA REFLETIR...
1 ) Que transformações ocorreram na visão sobre a criança e o adolescente desde o período colonial até
hoje?
2 ) Os textos tratam sobre inúmeros direitos da criança do adolescente e do jovem, porém os deveres não
estão muito evidentes. Elenque os principais deveres relacionados aos itens apresentados que dizem
respeito ao jovem.
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OFICINA 05
PROTAGONISMO, UM ESTILO DE VIDA
Retomando as conclusões do VII Encontro Latino-Americano de Responsáveis Nacionais da Pastoral da Juventude, realizado
também em Quito (1989), queremos recordar o que se dizia, então, com muita propriedade, afirmando que o militante se
caracteriza porque expressa a presença de Jesus em suas palavras e atos e porque seu estilo de vida é radicalmente distinto. O
documento final deste Encontro apresenta algumas notas características sobre o estilo de vida do jovem militante, dizendo que
este, ―tomando em conta seu passado e sendo consciente de seu presente, constrói seu Projeto de Vida olhando para o futuro,
no marco de um projeto de libertação. Isso promove o desenvolvimento e a integração de sua personalidade‖. Este Projeto de
Vida vai acompanhado de convicções claras e causas suficientes para dar a vida.
Outras características do estilo de vida do jovem militante, segundo o documento citado, são:
1. Pertence a um grupo; vive a experiência viva de Igreja.
2. Tem consciência crítica que se expressa numa atitude permanente de análise da realidade e na assunção de ações
transformadoras.
3. É protagonista e vai construindo história. É, assim mesmo, fervente promotor do protagonismo dos demais; com
capacidade de diálogo e comunicação.
4. Sabe administrar os conflitos, respeitar os valores e as visões de outras pessoas.
5. Realiza uma ação refletida, contextualizada e organizada.
6. Entrega sua vida com espírito de gratuidade e solidariedade, em especial aos mais necessitados.
7. Está consciente das outras culturas e as respeita.
5.1 - Protagonismo: exigências da formação
O espírito que o processo educativo vai gerando no jovem traz, como consciência, a necessidade de uma formação. O militante
quer saber... E quer saber as causas, as raízes das coisas e os fundamentos de suas próprias convicções. Sente que necessita
saber expor aos outros as razões de sua esperança. Percebe-se que, assim com é um tempo de muita ―atividade‖, é um tempo de
muita ―formação‖.
As dificuldades com respeito à Protagonismo, destacadas no XIV Encontro Latino-Americano, indicam que o processo d o
protagonismo se caracteriza por uma formação mais sistemática. As reflexões mostram que os/as jovens estão trabalhando em
diferentes âmbitos das organizações sociais e, alguns em partidos políticos ou instâncias governamentais. E, com o
agravamento dos problemas econômicos e de trabalho, a maioria deles/as estão orientados/as para a sobrevivência e com mais
riscos poderiam entrar na onda do consumismo, da corrupção, perdendo os valores e o sentido de uma prática testemunhal e
transformadora.
Fez-se necessário romper com a mentalidade de desconfiança, vigente na sociedade e na Igreja, de que os/as jovens não estão
capacitados/as e, por isso, muitas vezes, não se investe na formação e na preparação dos/as mesmos/as, nem com o apoio
financeiro, nem com a indicação de pessoas para o acompanhamento.
Por isso o protagonismo faz a Pastoral da Juventude defrontar-se com uma série de desafios que já forma assinalados no VII
Encontro Latino-Americano de Responsáveis Nacionais (Quito – 1989), e que voltam a ser ratificados e ampliados na reflexão
realizada no XIV Encontro Latino-Americano (Quito – 2003). São eles:
Itinerários formativos que facilitem a continuidade das experiências comunitárias com jovens adultos (militantes), já
situados na sociedade.
Criação de grupos de vida para continuar o compromisso militante no que se refere à formação na pastoral, na
necessária integração de fé, cultura e vida.
Novas formas de evangelização encarnadas na realidade dos/as jovens, especialmente com relação ao exercício da
cidadania e o seguimento de Cristo, a partir de uma espiritualidade libertadora, com uma metodologia de participação
e implicação dos agentes.
Reconhecimento dos novos desafios que os/as jovens militantes encontram em sua condição de jovens adultos.
A implantação dos processos educativos, sobretudo na dimensão do compromisso social e político, formando
cidadão/as próximos às estruturas, num processo gradual e sistemático, colocando o protagonismo como um eixo
transversal dentro do Processo de Educação na fé.
5.2 - Protagonismo: exigências no acompanhamento
Com o explicitado anteriormente, fica evidente que outra exigência que brota na dinâmica d o protagonismo é a questão do
acompanhamento. Assim como o/a jovem militante acompanha muitas realidades, sente necessidade de alguém que o anime e
o ajude a procurar soluções e respostas para as perguntas que, como nunca, fervem dentro dele/a. Este ―acompanhamento‖
pode e deve ser dado por seu grupo de referência, mas também por pessoas que o compreendam e sejam capazes de orienta-lo
em suas buscas de felicidade, coerência e compromisso. Trata-se, neste caso, de um acompanhamento ―integral‖, considerando
aspectos de teologia, de política, de sociologia, de direção espiritual, de planejamento etc.
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Uma das maiores reclamações que se escuta, por parte dos militantes, situa-se nessa geografia. Faltam pessoas que
escutem,compreendam, animem, questionem e o façam, misturando afeto e competência. Se o/a militante chegou até este
ponto como fruto de um caminho semelhante e saibam estimular a vivência de discernimentos variados, assim como são
variados os caminhos da realização humana.
Os desafios que se impõem, segundo a voz dos/as jovens, são:
Espaços comunitários onde viver o protagonismo que facilitem o acompanhamento pessoal e comunitário. A
vivências comunitária dos/as militantes inspira-se no estilo de vida das primeiras comunidades cristãs e com elas
busca ser fermento na sociedade. Esta comunidade é uma forma de acompanhamento mútuo que anima a revisão de
vida e de compromisso, a reflexão e a análise da realidade e a aceleração da espiritualidade encarnada e libertadora.
Seu processo pedagógico é animado por todos os seus membros. Neste sentido a comunidade é dona de sua formação,
porém precisa de um acompanhamento através de espaços de iguais que incorporem a reflexão bíblico-teológica no
campo específico que os/as convoca.
Que o acompanhante tenha sua experiência pessoal de protagonismo para que tenha elementos para acompanhar aos
jovens e às jovens militantes.
Proporcionar que o/a militante seja acompanhado em seu processo pela comunidade cristã e não perca proximidade
com a hierarquia eclesiástica. Que não suceda que sejam marginalizados porque são críticos e capazes de
enfrentamento, mas descobri-los e acolhe-los porque são eles que vão promover as mudanças em nossa Igreja.
Ajudar os/as militantes a situar seu compromisso em referência com sua vocação.
O acompanhamento qualificado de um/a assessor/a é fundamental para que o jovem militante cresça em organização,
consciência e compromisso. O assessor/a tem a importante missão de ajudar a encaminhar os conflitos, ser amigo e
testemunhar verdadeiramente sua fé.
Estarem dispostos a gerar outro tipo de redes para outros mares, articulando os militantes do setor político, social e
cultural.
5.3 - Protagonismo: exigências na organização
o protagonismo é um ―estado de vida‖ individual, porém comunitário. O militante, portanto, não carrega em si a tendência ao
isolamento. Necessita de um grupo de referência, com o qual partilha sua vida, discute seus projetos e celebra sua vivência
pujante. Por isso se compreende o desafio que eles lançam, a toda hora, de uma ―organização de militantes‖. Não se trata de
fundar um ―partido‖, de provocar uma nova ―pastoral‖, mas de encontrar um espaço no qual possam encontrar-se para sonhar e
seguir amadurecendo seu compromisso existencial.
É importante, por isso, aproveitar e fortalecer a organização orientada para o encontro dos/as jovens, de forma que se favoreça
a criação e a articulação de redes de comunidades de militantes, que lhes permitam recuperar sua história e ter uma experiência
comunitária de fé.
É necessário, também, um trabalho conjunto com os diversos organismos da Pastoral de Conjunto e a vinculação com
organizações civis e sociais, construindo e favorecendo redes entre os militantes para um maior compromisso evangélico com
as mudanças das estruturas, na vivência do profetismo.
A rede é um espaço de encontro e reconhecimento da diversidade, que permite partilhar experiências, aprofundar a
espiritualidade e a mística, desenvolver ações conjuntas e agendas comuns; é, também, um espaço de repensar o protagonismo
a partir de novas experiências e a partir de uma realidade que muda. Por isso a importância de construir espaços de comunhão
de vida para falar gratuitamente do cotidiano e estar atentos a tudo, constituindo-se grupo de pessoas maduras para conviver
com as diferenças de gêneros, de cultura, de etnia e com um estilo de vida que toma cuidado com o planeta, marcado pela
simplicidade, rechaçando o consumismo.
Existem algumas iniciativas que concretizam este desejo. Um exemplo é a Rede de Militante da Pastoral da Juventude do
Brasil, conhecido como Rede de Minka, que se encontra em rede através de comunicações sistemáticas sobre sua vida e seu
trabalho. Estes ―militantes‖ reúnem-se, de tempo em tempo, para aprofundar suas vivências e crescer na compreensão global
do sentido de suas práticas e de sua fé. A Pastoral da Juventude não pode alienar-se de tudo isso e – embora signifique outra
instância – deve colaborar para que se torne algo sempre mais comum.
A ―Protagonismo‖ é um processo que fez seu caminho na vida, dentro da vida. Faltam formas maduras para recordar e
confirmar as intuições dos ―amores primeiros‖... A vida militante torna-se, assim, uma alegria inexplicável e insubstituível.
São momentos que afirmam que, apesar de a vida ser complexa e conflitiva, ela é, acima de tudo, uma festa e um dom.
PARA REFLETIR...
1 ) Dentre as características de jovem protagonista apresentadas, quais são as que você possui como
qualidades? Quais ainda precisam ser amadurecidas?
2 Você já possui uma pessoa em quem confia para realizar seu acompanhamento espiritual?