Modo de viver Leonardo Boff Neste dia 7 de dezembro, junto com outros quatro militantes pela paz e pela beleza da Terra, recebi no Parlamento Sueco o Prêmio Right Livelihood (reto modo de viver), também chamado Nobel alternativo. Prêmio imerecido, pois há nomes mais notáveis e meritórios como Thomas Berry, o pai da ecologia integral norte-americana, ou o astrofísico Brian Swimme, que une cosmologia e espiritualidade. Mas o prêmio vem fortalecer uma teologia da libertação integral que venho defendendo a partir dos anos 90, teologia que se propõe ouvir não apenas o grito dos oprimidos mas também o grito da Terra. Dentro da opção pelos pobres, marca registrada da teologia da libertação, deve estar inserido o grande pobre, nossa Terra ofendida pelo tipo de civilização vigente, depredadora e consumista. Permito-me transcrever parte do pequeno discurso que fiz naquele Parlamento: ''Já fizemos demasiadas intervenções na natureza e contra ela. Temos modificado a base físico-química da Terra. O que precisamos, urgentemente, é modificar nossa mente e nosso coração. Se quisermos salvar a biosfera e garantir um futuro bem-aventurado para todos, precisamos principalmente de uma ecologia mental e espiritual. A Terra está doente porque nós, indivíduos e sociedade, estamos espiritualmente doentes. Temos em nossas mentes e corações demasiada arrogância, vontade de poder como dominação, tendências à discriminação, à subjugação e à destruição do outro. O projeto da tecnociência, que tantos benefícios trouxe para a vida humana, propiciou o surgimento do princípio de autodestruição. A máquina de morte já construída pode devastar toda a biosfera e impossibilitar o projeto planetário humano. Precisamos, em contrapartida, criar o princípio de co-responsabilidade e de cuidado por tudo o que é e por tudo o que vive. A forma dominante de globalização representa uma tragédia para a maioria da humanidade. A razão reside no fato de que tanto a economia mundialmente integrada quanto o mercado se regem pela competição e não pela cooperação. Se dermos livre curso à competição sem a cooperação podemos nos devorar e colocar em alto risco todo o sistema vida. Desta vez não há uma arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os demais. Queremos nos salvar todos juntos. Precisamos desentranhar tendências que estão também presentes em nossa mente e em nosso coração: a solidariedade, a compaixão, o cuidado, a comunhão e a amorização. Tais valores e forças interiores poderão fundar um novo paradigma de civilização, a civilização da humanidade reunificada na Casa Comum, no Planeta Terra. Viver tais dimensões significa viver a verdadeira espiritualidade humana. Ela não é monopólio das igrejas e das religiões, mas a dimensão mais profunda do ser humano. Por ela percebemos que as coisas todas do universo não estão justapostas umas às outras mas inter-retroconectadas entre si. Um elo liga e religa tudo, constituindo a sagrada unidade do universo. Esse elo secreto é a Fonte originária de todo o ser. É aquilo que todas as religiões chamam de Deus, mistério de ternura e de vida, cujo nome não se encontra em nenhum dicionário, só no coração humano. Meu empenho, já há 30 anos, como teólogo da libertação integral, foi pensar e repensar, viver e transmitir esta mensagem: Terra e humanidade formamos uma única realidade. Na verdade, nós, seres humanos, somos a própria Terra que sente, pensa, ama e venera. Temos uma mesma origem e um mesmo destino. Somos chamados a ser não o Satã da Terra mas seu Anjo bom. Chegamos a uma encruzilhada em que devemos decidir pelo futuro que queremos. E queremos manter a família humana unida junto com a grande família biótica, inseridos nas forças diretivas que regem todo o universo. Nossa missão é de celebrar a grandeza da criação e religá-la ao Seio de onde veio e para onde vai, com cuidado, leveza, alegria, reverência e amor. Agradeço o prêmio Right Livelihood que consagrou essa perspectiva, porque foi vista como benfazeja para o futuro dos pobres, da humanidade e do sistema-Terra.''
Leonardo Boff é teólogo e escritor