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CURSO CULTURA POLíTICA SOCIALISTA

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11/24/2011
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111
CURSO



CULTURA POLÍTICA SOCIALISTA









A questão urbana no Brasil









Fundação João Mangabeira



Brasília, 2011

Sede própria - SHIS QI 5 Conjunto 2 Casa 2

CEP 71615-020 - Lago Sul - Brasília, DF

Telefax: 61 3365-4099 / 3365-5277 / 3365-5279

www.fjmangabeira.org.br

www.tvjoaomangabeira.com.br









DIRETORIA EXECUTIVA

Presidente: Carlos Siqueira

Diretor-Financeiro: Renato Xavier Thiebaut

Diretor de Assessoria: Marcos Rezende Villaça Nunes

Diretor de Cursos: José Carlos Saboia

Diretora-Administrativa: Carmen Soriano Puig



CONSELHO CURADOR

Membros natos Membros eleitos pelo Conselho Curador

Eduardo Henrique Accioly Campos Jaime Wallwitz Cardoso

Carlos Siqueira Dalvino Trocolli Franca

Jaime Lewis Gorman Jr.

Membros eleitos pelo Alexandre Aguiar Cardoso

Diretório Nacional do PSB Sérgio Machado Resende

Luiza Erundina de Sousa Adilson Gomes da Silva

Roberto Amaral Álvaro Cabral

Serafim Fernandes Corrêa Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz

Kátia Born Ribeiro Silvânio Medeiros

Mari Elizabeth Trindade Machado

Antônio Cesar Russi Callegari

Suplentes

Paulo Blanco Barroso

Elaine Breintebach

Paulo Braccarense

Joe Carlo Vianna Valle

CONSELHO FISCAL Manoel Antônio Vieira Alexandre

Cacilda de Oliveira Chequer

Auxiliadora Maria Pires Siqueira da Cunha

Antônio Marcos Ferreira Duarte



Suplentes

Marcos José Mota Cerqueira

Dalton Rosa Freitas

Sumário







1 Apresentação 7







2 Introdução 11







3 A evolução urbana no Brasil contemporâneo 13



O processo de industrialização e a produção da cidade 14



O crescimento radial 16



A verticalização 18



O policentrismo 18



O padrão de urbanização 19



A lógica especulativa 20







4 Tipologia das cidades brasileiras 23



Cidades novas 23



Cidades pequenas e médias 24



Grandes cidades 24



Metrópoles 25

5 Regiões metropolitanas no Brasil 27



Qualificação das regiões metropolitanas 27





6 Os problemas metropolitanos e suas limitações de governança 33









7 Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano 37



Habitação 39



Saneamento básico 40



Mobilidade urbana 41



Inexistência ou falta de acesso aos serviços públicos de natureza social 44



Segurança pública 46





8 Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização como produtor

da habitação subnormal 49





9 Estatuto da Cidade como instrumento de intervenção e planejamento 53







10 Ações pontuais dos últimos governos 55



Histórico do desenvolvimento do arcabouço legal 59

11 O Plano Diretor do Município 65







12 Estruturação de políticas públicas para a superação da condição de

exclusão social 67

Planejamento urbano 67



Saneamento básico 69



Habitação 71



A mobilidade urbana 73



Segurança pública 77



Políticas sociais 81







13 Conclusão 97







14 Referências bibliográficas 109

Apresentação

1





Apresentação



Carlos Siqueira *

Presidente da Fundação João Mangabeira







O documento de referência relacionado à Aula 4 trata de uma questão que

o Partido Socialista Brasileiro entende essencial à superação do cenário de exclusão

social que caracteriza nosso país, e que vem se reproduzindo continuamente, em

que pese ter havido avanços pontuais nos últimos anos.



Se considerarmos que a taxa de urbanização atingiu aproximadamente

85% (2010), é no território das cidades em particular que se materializa a injustiça

social, a iniquidade no acesso aos direitos garantidos pelo texto constitucional, as

violações de um sem número de direitos, que em seu conjunto aviltam a dignidade

dos brasileiros.



Esse cenário de violação de direitos, ainda que assole prioritariamente os

debaixo, os extratos inferiores de renda, conforme se demonstra ao longo desse

documento, atinge a todos, por transformar a cidade em lócus de segregação, de

tensões e insatisfações, que se desdobram em violência epidêmica, que vitimam

tanto, e tão violentamente, quanto situações de conflito civil aberto (ainda que

caiba aos pobres de maneira direta os elementos recorrentes da violência urbana,

não raro ela atinge aos ricos, na forma aparentemente aleatória do sequestro, do

latrocínio, do roubo a mão armada).

7

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Apresentação

1





A cidade, compreendida do ponto de vista de uma perspectiva política

trans-formadora, que subverta e inverta as prioridades tradicionalmente atribuídas,

pelo arranjo hegemônico que vem conduzindo os destinos da nação, não é apenas,

portanto, objeto do urbanismo, ou do planejamento urbano. Trata-se, a rigor, de

concertar todas as políticas de Estado, para que de tal concerto se invente um

espaço radicalmente novo de existência e convivência, lugar dos relacionamentos

fraternos, do acolhimento, da hospitalidade, da atenção e respeito à diferença, da

equidade.



Se a cidade congrega a imensa maioria da população de nosso país, é em seu

território que se desenrola a luta política que cabe a um partido socialista travar.

Trata-se, portanto, não apenas de realizar intervenções que melhorem a qualidade

de vida urbana, mas transformar os objetivos relacionados a tal melhoria em uma

plataforma política total, que permita realizar as inversões de prioridades, sem as

quais não se pode transformar o Brasil em um país justo e fraterno, ou ainda criar

condições adequadas de desenvolvimento, que um projeto de nação decente deve

preconizar.



Não por acaso, nesse documento de referência, as diferentes políticas

de Estado são acessadas para qualificar projetos de intervenção urbana, que se

alinhem com a luta de emancipação dos debaixo, que conhecem das cidades,

majoritariamente, suas dimensões exclusivas. Aborda-se, em consequência, não

apenas o planejamento urbano, ou as questões relacionadas à mobilidade, mas a

saúde, a educação, a assistência social, dentre outras políticas, como elementos

8

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Apresentação

1





inerentes à cidade que queremos construir e que seja o local de uma existência digna.

Cidades dignas, pacificadas e fraternas, é neste berço que o PSB quer ver nascer um

Brasil que nunca existiu, que prioriza aqueles que o modelo de desenvolvimento

excludente, concebido sob medida para os interesses dos poderosos – nacionais e

internacionais – só concebe como massa passível de espoliação.









* Carlos Siqueira é advogado. Atualmente é Primeiro Secretário Nacional do PSB e Presidente da

Fundação João Mangabeira.









9

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Introdução

2





Introdução



As cidades enquanto aglomeração populacional têm uma história antiquíssima,

que perpassa um enorme conjunto de civilizações, as quais, a seu modo, foram mais

ou menos urbanas. Do ponto de vista teórico e analítico, contudo, esta antiguidade

da cidade deve ser pensada criticamente, porque, a rigor, o modo de produção da

vida material – para não falar ainda da cultura – variou significativamente ao longo do

tempo, conferindo às cidades papéis e atributos significativamente distintos.



Sob o ponto de vista arqueológico, histórico, urbanístico é possível referir-se

às cidades como algo perfeitamente identificável e contínuo ao longo do tempo, mas,

considerando-se o conjunto da vida social, aquela mesma cidade – antiquíssima em

certos casos – são muitas cidades, apresentando dinâmicas distintas e, em certos

momentos, completamente divergentes.



Em primeiro lugar deve-se considerar que a cidade implica, de saída, relações

determinadas com o mundo rural, sendo que somente nesta relação se define sua

identidade específica, sua natureza primeira. Fazer uma assertiva desta ordem significa,

contudo, afirmar que existe uma relação orgânica entre o urbano e o rural, que se

configura em um determinado modo de produzir os elementos que asseguram a vida

material o que, portanto, estabelece as condições da dinâmica socioeconômica tanto

do campo, quanto da cidade. Se mudam, portanto, as condições gerais, o panorama

em que se desenrola a existência humana, altera-se significativa e substancialmente

o significado das palavras cidade e campo, urbano e rural.



11

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3





A evolução urbana no Brasil contemporâneo







A cidade brasileira é originalmente um produto direto do processo de

colonização, razão pela qual se fixou antes de tudo na faixa litorânea, a partir da qual

se efetivavam as relações de exploração das riquezas que garantiriam, em grande

medida, a opulência da Metrópole. Sua localização obedecia, complementarmente,

a uma lógica de defesa da possessão colonial, contra todos os seus demais

pretendentes, assim como a um modelo de exploração que se aproxi-mava da

pilhagem 1.



A interiorização ocorre, portanto, como suplantação desta primeira etapa

de organização do processo de colonização, requerendo, em consequência, o

desenvolvimento de atividades agrícolas propriamente ditas, ou de exploração do

território, especialmente aquelas que se prestavam ao mercado internacional2.



O desenvolvimento da agricultura de exportação e de larga escala não pode

ser pensado, no entanto, como um processo autônomo, relativamente ao escravismo

colonial3. A história do latifúndio colonial e do sistema econômico que a ele se

1 A esse respeito vale a pena assistir Aguirre, a cólera dos deuses (Werner Herzog, 1972).

2 Note-se que o sistema colonial se organizou, originalmente, segundo os preceitos mercantilistas,

que compreendiam que a riqueza de cada nação dependia diretamente do comércio internacional,

consubstanciando-se no acúmulo de reservas, sob a forma de metais preciosos. Nessa concepção a

possessão colonial tinha uma enorme importância, pois o dinamismo econômico dependia diretamente

de mercadorias que pudessem ser realizadas no mercado internacional.

3 A este propósito considerar especialmente a obra de Jacob Gorender, O escravismo colonial, Editora

Ática, 1992. 13

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

associa só pode ser corretamente compreendida, em sua historicidade pretérita

e consequências presentes, se for aceito que sua dinâmica é aquela da exploração

da mão de obra escrava, fato, que à sua vez, engendra toda uma conformação

social, de que nasce uma cultura que lhe é própria. Nesta experiência de exploração

econômica, que foi simultaneamente uma obra de devastação e genocídio - de

negros e índicos -, a civilização afirmou-se como correlata da barbárie4.



Note-se que estas populações, tanto quanto as demais levas de trabalhadores

- imigrantes, mas especialmente os migrantes nordestinos - permanecem

estrangeiros com relação, senão à cidade, seguramente para com a cidadania. O

processo de desenvolvimento capitalista, que se sucedeu ao escravismo, viria a

fazer deles, tanto quanto aos afrodescendentes, cidadãos de segunda classe, aos

quais correspondem espaços públicos e privados de mesma ordem.



O processo de industrialização e a produção da cidade5



Com a crise do sistema de produção escravista e do universo econômico que

a ele corresponde, inicia-se um processo de diferenciação da atividade econômica

interna, que conduz ao adensamento das cidades - movimento relativamente

tímido até a década de 1930. A partir dessa década ocorre, contudo, um impulso

4 A conquista ibérica, esse primeiro capítulo da história colonial européia, “transformou o mundo

recém-conquistado em uma câmara de torturas”, escreve Benjamin. As ações da “soldadesca hispânica”

criaram uma nova configuração espiritual (...) “que não podemos representar sem horror”. (LÖVY, 2005,

p. 10).

5 Considerando os limites do presente trabalho, não é possível relatar a história do desenvolvimento

das cidades brasileiras em geral. Optou-se, portanto, por tomar os casos das cidades de São Paulo e Rio

de Janeiro como exemplos, mesmo que eles não sejam necessariamente paradigmáticos. A vantagem

desta escolha reside no fato de que ela revela, mais do que qualquer outra opção, a relação entre a

14 cidade brasileira e a modernidade, com todos os seus recortes, possibilidades e desafios.



Cultura política socialista.

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

decisivo no processo de industrialização brasileiro, que decorre essencialmente da

crise da economia cafeeira, cujo efetivo ponto de inflexão pode de ser encontrado a

partir da crise geral da economia capitalista, consubstanciada no crash da bolsa de

Nova Iorque, em 1929. Por razões que não cabe desenvolver no presente estudo,

o Estado de São Paulo toma a dianteira do processo de industrialização brasileiro,

configurando, em consequência, grande parte do dinamismo original do moderno

processo de urbanização do país.



A partir, portanto, da década de 1930 inicia-se um processo mais vigoroso de

urbanização, que visto a partir do prisma da cidade de São Paulo, e seus indicadores

populacionais, apresenta-se do seguinte modo:



• Em 1930 a cidade registra 890 mil habitantes, cifra que atinge aproxi-madamente



1,6 milhão em 1945;



• De 1920 a 1930 o crescimento populacional foi de 56%, ao passo que no período



1930 a 1940 de 47%;



• Este crescimento populacional já é explicado essencialmente pelo fluxo migratório



interno (para o conjunto do Estado de São Paulo, entre 1935 e 1945 os migrantes montam a



401.990, ao passo que os imigrantes correspondem a apenas 3.027);



• Em 1940, por outro lado, São Paulo já concentrava 45,4% do valor bruto da



produção industrial do Brasil6.









6 Fonte: CAMPOS, Cândido Malta; GAMA, Lucia Helena; SACCHETTA, Vladimir (org.), São Paulo,

Metrópole em trânsito: percursos urbanos e culturais. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004 15

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

O crescimento radial



Como esse incremento populacional se distribuiu pelo espaço? Observa-se

desde fins da década de 1930 uma tendência à expansão radial da cidade, no sentido

de sua periferia. Esse movimento era relativamente novo, e, portanto, ainda não

estava consolidado como solução habitacional típica para as camadas populares,

pois até então a população de baixa renda ocupava fundamentalmente os cortiços,

que se concentravam nas regiões centrais da cidade - estratégia de habitação que

privilegiava a proximidade entre o local de moradia e aquele do trabalho7. Os

registros cartográficos da cidade daquela época começaram a mostrar, contudo,

manchas dispersas de ocupação, que sobrepunham novos e velhos loteamentos,

sem uma integração efetiva ao centro da cidade. Observa-se, ainda, uma tendência à

conurbação dessas áreas, que excediam o território estrito da cidade - constituindo-

se, portanto, nos rudimentos da área metropolitana de São Paulo.



Quais foram os fatores aceleradores desta expansão radial? Em primeiro

lugar a reorganização dos transportes urbanos, que deixaram de se estruturar

por meio dos trilhos (trens e bondes) - às margens dos quais se organizaram os

bairros mais antigos - para se comporem sobre a lógica do veículo automotivo, que

poderia chegar às mais rarefeitas populações, com mais flexibilidade que a ferrovia

e seus equivalentes. Além disso, houve na década de 1940, uma grande crise no

mercado de imóveis para locação, em função da Lei do Inquilinato de 1942 - que

congelou os aluguéis -, somando-se a esse fato a organização de um sistema de



7 Para menção rápida sobre os cortiços:

http://www.favelatemmemoria.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=63&from_info_

index=6&sid=4 (último acesso em 20/07/2011)

16 http://www.ensaioaberto.com/joao_rosa_cabeca_de_porco.htm



Cultura política socialista.

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

vendas parceladas de terrenos (1937)8. Esse trinônio levou as camadas populares a

se encaminharem para a autoconstrução periférica que, apesar dos inconvenientes

de sua condição excêntrica, para com os núcleos de atividade econômica, eram

acessíveis por ônibus, além de terem os lotes valores de aquisição mais módicos.



No que se refere ao processo de industrialização e seus efeitos sobre a

organização do território urbano, além da correlação evidente entre ambos os

fenômenos, há que se indicar um evento específico, que viria a ter grande impacto

sobre o modo como se organizou a cidade. Trata-se da opção resoluta que fez o país

pela indústria automobilística, fato que se consolida já a partir da década de 1950.

Esta opção teve impacto decisivo sobre a constituição de toda a malha de transporte

e escoamento de mercadorias do país, para não falar da configuração de sua matriz

energética, que passou a ser altamente dependente de combustíveis fósseis. No que

se refere à cidade de São Paulo particularmente, no período compreendido entre

1964 e 1985, se construíram muitas das maiores de suas vias públicas: Avenida Vinte

e Três de Maio, Ruben Berta, Bandeirantes, Marginais do Pinheiros e Tietê; havendo

ainda ampliação (alargamento) da Avenida Paulista, Faria Lima, entre outras.



Em que pese o discurso desenvolvimentista, esta definição se mostrou

igualmente vinculada a concepções sócio-políticas que espelham o que se tem de

mais atrasado no país, ou seja, a opção preferencial pela solução individual e privada,

a indiferença para as condições da maioria e a segregação espacial entre ricos e



8 Para referência rápida sobre estes dois pontos, ver:

http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp399.asp

http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq031/arq031_03.asp

http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao01/materia03/

http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?codigo=137540&path=/suasfinancas/

17

imoveis/direitos/

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

pobres. No que se refere à cidade propriamente dita, tal definição trouxe impactos de

longo prazo que viriam a comprometer sua sustentabilidade, especialmente porque

houve um grande comprometimento ambiental, que repercute sobre os índices de

poluição do ar, mas também implica em poluição sonora e comprometimento de

mananciais - devido à ocupação desordenada e periférica, que avançou sobre as

cabeceiras de rios. Existe, ainda, o problema da impermeabilização do solo urbano,

que fez da enchente uma consequência comum, ainda que não totalmente natural

dos verões brasileiros.



A verticalização



Data da década de 1940 a origem do impulso que conduziria à verticalização

da cidade, processo que tem - novamente com relação a São Paulo - vínculo com

dois institutos jurídicos específicos, ou seja, o estabelecimento de normas para

regulamentar a copropriedade - condomínios (1928) - e a Lei do Inquilinato (1942).

A rigor, o grande impulso para edificação de edifícios só ocorreria após a publicação

da Lei do Inquilinato, que inibiu a atividade rentista (conforme já havia foi indicado

mais acima). A verticalização passa a ser um fenômeno que altera significativamente

a paisagem urbana, contudo, apenas a partir das décadas de 1960 e 1970, até

mesmo porque, nas décadas antecedentes havia uma grande resistência a essa

solução arquitetônica, em função do estigma do cortiço.



O policentrismo



Deve-se considerar, ainda, como elemento da configuração da geografia

da cidade o policentrismo que viria a caracterizá-la a partir também da década

de 1950, com a constituição de subcentros como Pinheiros, Lapa, Santo Amaro,

18

Cultura política socialista.

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

Brás, fenômeno este que seria suplementado mais recentemente com os eixos da

Avenida Faria Lima, Luiz Carlos Berrini, e assim por diante.



Não se pode deixar de fazer alusão, por fim, à grande atenção que o poder

público conferiu historicamente às vias perimetrais, em detrimento das radiais. A

rigor, este comportamento, além de privilegiar a população de renda mais alta - pois

as vias perimetrais ligam entre si bairros economicamente privilegiados -, acaba

sendo de grande interesse de incorporadores e construtores, pois propicia uma

enorme valorização dos terrenos e propriedades existente nessas localidades.









O padrão de urbanização



São três, portanto, no essencial, as características do processo de urbanização

brasileiro, conforme ele é ilustrado a partir da experiência de São Paulo - que, de

certo modo, se repete nas demais áreas Metropolitanas do país.







a) Verticalização que se intensifica a partir especialmente das décadas de 1960-1970,



em grande parte estimulada por financiamentos para tal fim;





b) Expansão horizontal de baixa densidade, caracterizada por um alargamento



permanente da fronteira urbana. Este processo foi apoiado pelas políticas de financiamento e



produção habitacional, assim como pela oferta reativa dos serviços públicos básicos9;



9 A população de baixa renda, em especial, acabou por se conformar a esta tendência, tendo se

vulgarizado os loteamentos e conjuntos habitacionais periféricos, que se fundamentam do ponto de

vista econômico no baixo preço dos terrenos e na autoconstrução. 19

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

c) Criação contínua de novos centros, bem como de novos bairros de classe média,



sendo que estes últimos foram grandemente favorecidos pela disponibilidade de financiamentos



para tal fim10.





Esse padrão de urbanização é uma consequência simultânea da velocidade

de crescimento da população das cidades, da falta de planejamento, e da submissão

quase irrestrita a uma ótica privada de desenvolvimento urbano, que instrumentalizou

para seus fins limitados as políticas públicas correspondentes. Os princípios de

expansão das cidades obedecem, portanto, a uma lógica, mas ela seguramente não

é a do urbanismo, uma vez que aqueles se subordinam, a rigor, diretamente aos

ditames da especulação imobiliária, que produz o espaço urbano como negócio

entre particulares.



A lógica especulativa



A partir das décadas de 1950 a 1960 o empreendimento imobiliário

mudou de escala, tornou-se grande negócio, sendo legítimo dizer, portanto, que

sua atividade principal converteu-se efetivamente na produção da cidade, com

fundamento em uma lógica articulada e sistemática de especulação e exploração,

que tem por elemento essencial a ação do poder público, ao oferecer e disponibilizar

os equipamentos urbanos que apoiam a expansão desordenada, mas extremamente

lucrativa da cidade11.



10 O raciocínio de base de ambas as tendências tem por fundamento a percepção de que os

centros tradicionais são lugares saturados, que deveriam ser objeto de descentralização, até mesmo

administrativa.

11 A esse respeito, ver:São Paulo1975: crescimento e pobreza. Publicação de 1976, organizada pelo

CEBRAP. São Paulo: Loyola, 1976 http://www.centrodametropole.org.br/divercidade/numero6/

20 Introdu__o_Livro%5B1%5D.pdf MARICATO, Ermínia. Produção capitalista da casa e da cidade no Brasil.



Cultura política socialista.

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

Para se mensurar a escala envolvida nesse processo de produção, basta

lembrar que em 1940 a população urbana do país correspondia a 26,3% do total, ao

passo que em 2000 atingiu-se algo em torno de 80%, com aproximadamente 70%

dos brasileiros ocupando não mais do que 10% do território nacional. Do ponto de

vista absoluto, partiu-se de 18,8 milhões de habitantes, para se atingir a cifra de 138

milhões12.



Nesse modelo de expansão - designado pela literatura especializada

de padrão periférico de crescimento urbano - observa-se a seguinte dinâmica:

retenção especulativa de áreas periféricas da cidade, que são objeto de projetos

habitacionais descontínuos, os quais, por força mesmo de tal descontinuidade no

sentido radial, obrigam o poder público a estender os serviços públicos básicos, até

os limites extremos das linhas de expansão da cidade - onde efetivamente reside

parte significativa e mais vulnerável de sua população. Em assim procedendo, além

de sancionar movimentos de valor urbanístico duvidoso, o poder público acaba por

propiciar a valorização de todas as áreas intermediárias vazias, que passam a ser

comercializadas, então, com lucros excepcionais, pois incorporam, sem contrapartida

privada, as melhorias que foram propicia-das pelo investimento estatal.



A lógica deste modelo é reforçada por uma característica que o Brasil repete,

acompanhando uma tendência mundial, ou seja, o elevado índice de metropolização

– processo em que a urbanização intensa unifica espacialmente vários municípios.

Para se ter uma ideia de ordem de grandeza desse fenômeno, basta lembrar que as

nove principais regiões metropolitanas do país respondem por 30% da população

Alfa Ômega, 1969.

12 MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana. Editora Vozes, Petrópolis,

2001. 21

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

A evolução urbana no Brasil contemporâneo

3

urbana. A Região Metropolitana de São Paulo, a maior entre elas, congrega à sua

vez 39 cidades, concentrando uma população aproximada de dezenove milhões

de habitantes13.



Note-se que os preceitos especulativos não orientam apenas a expansão

dos bairros populares das cidades, mas envolvem ainda, e de maneira muito

especial, as regiões consideradas nobres. Como já se aludiu mais acima, a

tendência a se investir em vias perimetrais, que articulam bairros de populações

de alta renda, ou suas áreas de interesse comercial, encontra-se determinada

pela valorização imobiliária. O mesmo ocorre na determinação dos eixos de

expansão que atendem às demandas dessas mesmas populações, como é o

caso, em São Paulo, do eixo sudoeste da cidade, que alinha uma série de bairros

dos estratos econômicos superiores.









22 13 www.emplasa.sp.gov.br



Cultura política socialista.

A questão urbana no Brasil

Tipologia das cidades brasileiras

4





Tipologia das cidades brasileiras







As cidades brasileiras constituem uma rede urbana dotada de grandes

potencialidades para o desenvolvimento. Grandes problemas de infraestrutura e

de serviços públicos, contudo, encontram seu território mais próprio nas cidades,

em especial nas regiões metropolitanas, carecendo da formulação e implantação

de políticas cujas naturezas, ainda que se referindo ao local, demandam esforços

do conjunto da federação.



Segundo o arquiteto Jorge Wilheim, as cidades brasileiras formam um

arquipélago onde existem “ilhas” de consumidores modernos, com os mesmos

gostos e padrões de consumo, onde ocorre o diálogo interurbano global em níveis

diversos e simultâneos. As “ilhas” são delimitadas pelos “oceanos” compostos

pelas populações excluídas.



A atenção à abordagem da problemática propriamente urbana das cidades

brasileiras deve ser diferenciada em função de sua dinâmica de crescimento e de

importância regional, conforme as seguintes características:



Cidades novas



Essas cidades, criadas sem nenhuma orientação ou planejamento, tiveram

crescimento rápido e ocupam a função de centro regional de referencia para

comércio (apoio às atividades agrícolas regional, entreposto para transporte,

23

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Tipologia das cidades brasileiras

4

exportação); serviços como educação, saúde, cultura e ainda referência na rede

logística de transporte. São cidades com menos de cinquenta anos de criação e

estão localizadas principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, fruto

do avanço das fronteiras agrícolas.









Cidades pequenas e médias



São importantíssimas para o desenvolvimento brasileiro, em razão de sua

relação estreita, bem como articulação com a região de produção agrícola a que

pertence. As médias são responsáveis pelos melhores índices de qualidade de vida,

bem dotadas de infraestrutura, rápida formação de riquezas e desenvolvimento

cultural. Seus maiores desafios estão no controle de seu crescimento horizontal,

verticalização e mobilidade.









Grandes cidades



Aquelas com população superior a 500 mil habitantes, com algumas

ultrapassando um milhão de habitantes. São polos de região muitas vezes

com características próprias, ligadas ao turismo, parques industriais, florestas

circundantes, portos fluviais e outros. Apresentam grandes dificuldades no controle

de sua expansão e ocupação de solo, no saneamento básico, transporte público,

serviços de saúde, atendimento de creches, oportunidades de emprego, presença

de periferias com ocupação irregular, padrão habitacional de péssima qualidade,

dentre outras questões complexas.

24

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Tipologia das cidades brasileiras

4

Metrópoles



São aquelas cidades que catalisam o diálogo global, imprescindível para

estratégias de desenvolvimento nacional. São casos especiais e como tanto merecem

políticas nacionais e estaduais diferenciadas. São cidades que devido ao processo

de desenvolvimento e crescimento se transformaram em uma mancha urbana que

extrapola as divisas oficias dos municípios, e que passaram a ter importância nacional e

mesmo internacional, como polos geradores de riquezas e desenvolvimento.



Seus maiores desafios são o controle de seu crescimento urbano, já que

extrapolam os limites da municipalidade, a forte presença dos abismos sociais e espaciais

entre grupos da população, segregação social expressiva, serviços públicos inadequados

e insuficientes, poluição ambiental, situações de riscos, violência, crime organizado e

aqueles ligados às insuficiências da relação institucional entre os diferentes municípios.









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Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Regiões metropolitanas no Brasil

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Regiões metropolitanas no Brasil







No Brasil, as primeiras regiões metropolitanas foram estabelecidas em 1973,

tendo por marco regulatório a Lei Complementar 14, promulgada nos quadros

da Constituição de 1967. A instituição de uma região metropolitana, depois da

Constituição de 1988, passou a ser atribuição dos Estados-membros, que definem os

critérios específicos para sua instituição como também para a gestão metropolitana,

critérios esses voltados à integração da organização, do planejamento e execução

de funções públicas de interesse comum dos municípios que compõem a Região

Metropolitana, a partir de uma perspectiva regional.









Qualificação das regiões metropolitanas



Segundo o Observatório das Metrópoles, “[...] até 31 de março de 2010, o

Brasil contava com 35 regiões metropolitanas (RMs) e 3 regiões integradas de

desenvolvimento econômico (RIDE’s). No caso das RIDE’s, vale lembrar ainda, que na

sua composição inclui municípios de diferentes unidades de federação.”, conforme se

indica no quadro a seguir:









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Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Regiões metropolitanas no Brasil

5





Quadro 1: Regiões Metropolitanas segundo as Grandes Regiões - 2010









Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste

Belém (PA) Aracajú (SE) Baixada Santista (SP) Carbonífera (SC) Goiania (GO)

Macapá (AP) Agreste (AL) Belo Horizonte (MG) Chapecó (SC) RIDEDF*

Manaus (AM) Cariri (CE) Campinas (SP) Curitiba (PR) Vale do Rio Cuiabá (MT)

Fortaleza (CE) Grande Vitória (ES) Florianópolis (SC)

Grande São Luís (MA) Rio de Janeiro (RJ) Foz do Itajaí (SC)

João Pessoa (PB) São Paulo (SP) Lages (SC)

Maceió (AL) Vale do Aço (MG) Londrina (PR)

Natal (RN) Norte / Nord

Recife (PE) Catarinense (SC)

Ride Porto Alegre (RS)

Petrolina / Juazeiro Tubarão (SC)

Ride Teresina / Timon Vale do Itajaí (SC)

Salvador (BA)

Sudoeste

Maranhense (MA)

3 13 7 12 3

38

Fonte: Assembléias Legislativas Estaduais, Governos de Estado; www.planalto.gov.br e

www.integracao.gov.br para legislação federal.



*A RIDEDF conta com dois municípios do estado de Minas Gerais, portanto da região Sudeste. Para efeito

de contagem optamos por manter essa RIDE na esteregião Centro-Oeste, visto que o núcleo metropolitano

e a maioria dos municípios pertencem a essa região.









28

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Regiões metropolitanas no Brasil

5





Localização das Regiões Metropolitanas Oficiais14:









14 As informações acima foram pesquisadas em: “As Metrópoles no Censo 2010: novas tendências?”

produzido pelo Observatório das Metrópoles, disponível em (acessado em 29/09/2011, as 12h49):

http://www.observatoriodasmetropoles.net/download/texto_MetropolesDez2010.pdf 29

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A questão urbana no Brasil

Regiões metropolitanas no Brasil

5





Regiões Metropolitanas15:









POSIÇÃO REGIÃO METROPOLITANA ESTADO POPULAÇÃO

1 Região Metropolitana de São Paulo SP 19.672.582

2 Região Metropolitana do Rio de Janeiro RJ 11.711.233

3 Região Metropolitana de Belo Horizonte MG 4.882.977

4 Região Metropolitana de Porto Alegre RS 3.979.561

5 RIDEDF e entorno DF 3.716.996

6 Região Metropolitana do Recife PE 3.688.428

7 Região Metropolitana de Fortaleza CE 3.610.379

8 Região Metropolitana de Salvador BA 3.574.804

9 Região Metropolitana de Curitiba PR 3.168.980

10 Região Metropolitana de Campinas SP 2.798.477

11 Região Metropolitana de Goiânia GO 2.173.006

12 Região Metropolitana de Manaus AM 2.106.866

13 Região Metropolitana de Belém PA 2.100.319

14 Região Metropolitana de Vitória ES 1.685.384

15 Região Metropolitana da Baixada Santista SP 1.678.513

16 Região Metropolitana de Natal RN 1.350.840

17 Região Metropolitana de São Luís MA 1.327.881

18 Região Metropolitana de João Pessoa PB 1.198.675

19 Região Metropolitana de Maceió AL 1.156.278

20 RIDE Grande Teresina / Timon PI / MA 1.142.912

21 Região Metropolitana do Norte/Nordeste Catarinense SC 1.094.570

22 Região Metropolitana de Florianópolis SC 1.012.831





Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Censo Brasileiro 2010







15 Há uma discrepância da tabela acima, relativamente aos dados do Observatório das Metrópoles,

em razão de não estarem contabilizadas por aquela instituição as Regiões Metropolitanas apontadas em

30 vermelho, a saber, Campina Grande e Feira de Santana.



Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Regiões metropolitanas no Brasil

5









POSIÇÃO REGIÃO METROPOLITANA ESTADO POPULAÇÃO

23 Região Metropolitana de Aracaju SE 835.654

24 Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá MT 834.060

25 Região Metropolitana de Londrina PR 764.258

26 RIDE Petrolina / Juazeiro PE / BA 757.776

27 Região Metropolitana do Vale do Itajaí SC 689.909

28 Região Metropolitana de Campina Grande PB 687.135

29 Região Metropolitana de Feira de Santana BA 672.701

30 Região Metropolitana do Vale do Aço MG 615.004

31 Região Metropolitana de Maringá PR 612.617

32 Região Metropolitana do Agreste AL 601.251

33 Região Metropolitana do Cariri CE 564.557

34 Região Metropolitana da Foz do Rio Itajaí SC 532.830

35 Região Metropolitana de Macapá AM 509.883

36 Região Metropolitana de Chapecó SC 403.548

37 Região Metropolitana Carbonífera SC 369.366

38 Região Metropolitana de Tubarão SC 356.790

39 Região Metropolitana de Lages SC 350.607

40 Região Metropolitana do Sudoeste maranhense MA 345.878

TOTAL 89.336.316

TOTAL POPULAÇÃO BRASILEIRA 190.732.694

POPULAÇÃO VIVENDO EM REGIÕES METROPOLITANAS 47%









31

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A questão urbana no Brasil

Os problemas metropolitanos e suas limitações de governança

6





Os problemas metropolitanos e suas limitações de governança







A descentralização e o aumento do protagonismo dos municípios colocados

pela Constituiçao de 1988 levaram à transferência de poder decisório para o

município ou as entidades e os órgãos locais.



A descentralização, a sua vez, tem duas vertentes: uma, usada por tendências

democratizantes, vê a descentralização como possibilidade de tornar o governo mais

acessível ao cidadão, aumentando a participação direta da cidadania e o controle e

a responsabilização social.



Outra vertente, focalizando apenas os processos de modernização gerencial

da gestão pública, enxerga na descentralização a possibilidade de aumento da

eficiência do governo local. As formulações mais radicais dessa última tese se

associam a um ideário de extração francamente neoliberal, que chega a defender

as ditas cidades-estado – globais e globalizadas –, que não teriam por referência um

Estado-nação, de tal forma que se articulariam, sem mediações, o local e o global.



A autonomia municipal que nasce do marco constitucional de 1988 deve

ser considerada, contudo, incompleta ou parcial, visto que não se fez acompanhar

de recursos orçamentários que pudessem fazer frente aos enormes problemas que

passaram a ser de competência dos Municípios, seja de modo direto e principal, seja

de forma subsidiária ou complementar.



33

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Os problemas metropolitanos e suas limitações de governança

6

Se, contudo, um dos elementos mais fortes da reforma do Estado, sob a

perspectiva dos chamados setores sociais, foi a descentralização, no relacionado

à infraestrutura urbana ele tornou-se um grande obstáculo, uma vez que quase

todos os temas ligados à questão – transportes, saneamento, energia, entre outros

– dificilmente estão circunscritos a um só município.



A maior parte das redes de infraestrutura se encontra atualmente sob

gestão poder estadual ou federal. Por outro lado, como se trata de redes cuja

cobertura excede o território municipal, dificilmente uma cidade, isoladamente,

tem força política para determinar a estratégia de investimentos e gestão dessas

infraestruturas. Ocorre, contudo, que a oferta dos serviços, sua distribuição pelas

diferentes comunidades, o acesso ou ausência dele, são determinantes para a

qualidade de vida dos munícipes e para o próprio modelo de gestão territorial, com

enormes impactos na economia das cidades.



A descentralização e o aumento da autonomia municipal levaram,

complementarmente, a um conflito de governança das áreas metropolitanas,

havendo um enfraquecimento das antigas instâncias de gestão (quando efetivamente

existentes). Não se desenvolveu, contudo, um arranjo institucional que permita dar

conta dos problemas cujas escalas são maiores que um município isoladamente e

menor do que o Estado.



A associação de municípios por meio de consórcios foi uma das respostas que

emergiram recentemente, na tentativa de superar os limites da ação exclusivamente

municipal, para problemas que tem escalas maiores que o estritamente local.





34

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Os problemas metropolitanos e suas limitações de governança

6

Muito embora os consórcios devam ser compreendidos como um passo

importante, na construção de instâncias de governança regional – e no caso, das

regiões metropolitanas –, o fato de que venham se constituindo em torno de

problemas específicos (transportes, gestão hídrica, coleta de resíduos sólidos,

saúde, etc.) – os torna limitados, como alternativa de gestão cooperativa.









35

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7





Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano







A concentração populacional e as grandes densidades se consolidam nas

cidades, em especial nas metrópoles, e fazem sobressair as grandes desigualdades

sociais – miséria, desemprego, violência, habitações subnormais, e outras. A cidade

é, portanto, o espaço da exclusão de muitos e das melhores condições de vida para

poucos.



“Por um lado, há a hipótese de que a urbanização é necessária para o processo do crescimento



nacional pelas economias de aglomeração e escala que cria, pelas oportunidades de emprego



e melhoramento de posição social que oferece e, finalmente, por seu clima favorável à



elaboração de ideologias progressistas. Por outro lado, porém, acusa-se a urbanização de



agravar desequilíbrios socioeconômicos e disparidades regionais, de gerar subemprego,



degradação da habitação e definição de serviços essenciais. As pessoas reagem como se a



origem, tanto das boas coisas como das más, fosse a cidade e, por consequência, devesse esta



elaborar suas respostas em seu próprio interior” (SANTOS, 1982, p. 181).





Evolução da população total do Brasil nos últimos 30 anos16



ANO POPULAÇÃO % CRESCIMENTO

1980 119.002.706

1990 146.825.475 23,38

2000 169.799.170 15,65

2010 190.755.799 12,34



16 Crescimento % equivale ao crescimento decenal, apurado a título de exemplo conforme segue

[(146.825475/119.002.706)-1] x 100. 37

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7





Taxa de urbanização do Brasil nos últimos 30 anos

ANO % DA POPULAÇÃO TOTAL

1980 67,59%

1990 75,59%

2000 81,25%

2010 84,38%







Em 2009, 19% dos domicílios urbanos brasileiros abrigavam famílias cujo

rendimento era de até ½ salário mínimo per capita. No Norte (30,7%) e no Nordeste

(36,3%), os percentuais em questão estavam muito acima da média nacional; na

outra ponta estava o Sul (10,9%), seguido do Sudeste (12,2%) e do Centro-Oeste

(16,4%) encontram-se em situação mais favorável.



A população de menor rendimento residia majoritariamente em casas

(96,6%). De uma forma geral, em 2009, 87,5% dos domicílios brasileiros eram casas

e 12,1% apartamentos.



Das crianças e adolescentes de até 17 anos, 44,7% viviam com uma renda

familiar per capita de meio salário mínimo e 18,5% de ¼ de salário mínimo.



Nesse cenário é razoável afirmar que a segregação urbana está relacionada

às condições econômicas das famílias, em que uma minoria com melhores condições

tem de forma privilegiada o acesso aos bens de consumo.



A segregação na cidade é também espacial (distância entre moradias de

diferentes grupos), causada pela valorização excessiva dos imóveis que dispõem de

38

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

serviços de infraestrutura (pavimentação de vias, água/esgoto, transporte público,

etc.), associados a uma localização estratégica quanto ao acesso ao trabalho,

educação, saúde, comércio, lazer, cultura e outros.



Habitação



O resultado é uma grande quantidade, a maioria, de pessoas habitando

locais cada vez mais distantes, com péssima qualidade ambiental, em assentamentos

irregulares, loteamentos clandestinos, favelas, cortiços, habitação subnormal, sem

acesso a serviços de saneamento, saúde, educação e segurança. São, nessas condições,

obrigadas a se locomoverem a pé, ou de bicicleta, por não terem condições de pagar

tarifa do transporte público, ou se sujeitarem aos transportes clandestinos.



Outra quantidade menor, habitando a cidade legal, dotada de todos os

serviços públicos (transporte público, metrô, escolas melhor equipadas, clinicas

de saúde, hospitais melhor equipados, cinemas, praças, quadras esportivas, etc.),

com a presença do Estado, valendo-se de meios de transportes individualizados,

particulares, e dos altos muros de condomínios fechados e vigilância particular.



Segundo o Plano Nacional de Habitação (2009) do Ministério das Cidades,

o número de famílias morando em locais com carências de ao menos um item de

infraestrutura, em áreas urbanas, alcança cerca de 12 milhões. Destas, cerca de 3,2

milhões de famílias vivem em assentamentos precários.



O déficit habitacional (2007) corresponde a 6,5 milhões de domicílios. A maior

parte deste déficit é urbano e fortemente concentrado nas famílias que auferem

renda de até R$ 600,00 (a valores de 2007).

39

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A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

DEFICIT HABITACIONAL URBANO

POR FAIXA DE RENDA DA FAMÍLIA (em R$ de 2007)

Renda Nº Unid. % sobre total

do deficit

até 600,00 4.287.472 65,0

600,00 a 1200,00 1.748.598 27,0

1200,00 a 2000,00 325.715 5,0

mais de 2000 205.245 3,0

TOTAL 6.567.030 100,0





Saneamento básico



Um serviço essencial à boa qualidade de vida, o saneamento básico, também

tem a sua condição de acesso ligada diretamente à renda e à escolaridade. Em 2009,

62,6% dos domicílios brasileiros urbanos eram atendidos, ao mesmo tempo, por

rede de abastecimento de água, rede coletora de esgoto e coleta de lixo direta. Entre

aqueles com rendimento médio de até ½ salário mínimo per capita, o percentual não

chegava à metade (41,3%) e subia para 77,5% entre os domicílios com mais de dois

salários mínimos de rendimento domiciliar per capita.



No Norte, 13,7% dos domicílios urbanos tinham acesso simultâneo aos três

serviços de saneamento e, nos domicílios mais pobres, esse percentual não chegava

a 10%. No Nordeste, o percentual médio ficava em 37% (27,9% para a faixa de

rendimento de até ½ salário mínimo per capita). O Sudeste demonstra possuir uma

melhor cobertura dos serviços em questão, com uma média de 85,1% dos domicílios

atendidos.



Em 2009, quase 60% das crianças de até 14 anos (46,3 milhões) residiam em

domicílios em que pelo menos um serviço de saneamento (água, esgoto ou lixo)

40

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

não era adequado. Cerca de 5 milhões de crianças (10,9% do total de 0 a 14 anos)

moravam em domicílios onde essas três formas de saneamento eram inadequadas

simultaneamente, percentual que chegava a 19,2% entre as crianças nordestinas17.



Analisando a relação entre a escolaridade e o acesso, observa-se que quanto

menor o número de anos de estudo, mais vulnerável a pessoa se encontrará por não

ter acesso adequado a abastecimento de água. Assim, a maior parcela do déficit

(aproximadamente 47%) é formada de pessoas sem instrução ou com menos de 1

ano de estudo.



Mobilidade urbana



Talvez o mais forte impacto da segregação espacial nas grandes e medias

cidades encontre-se na mobilidade, que desequilibra a economia das cidades e

acentua a exclusão social.



A forma de crescimento horizontal das cidades, distanciando, cada vez mais,

o local da moradia dos mais pobres do seu local de trabalho, associado à falta de

prioridade de políticas públicas de transporte público urbano, só tem agravado a

situação.



Na Região Metropolitana de SP apenas 7% dos trabalhadores que residem

na capital se deslocam para outro município para trabalhar, já nas cidades do colar

metropolitano esse percentual sobe para 43%, com forte tendência de crescimento,

pois há 10 anos ele era 38%. Isso indica que os moradores da periferia são muito

mais dependentes dos empregos fora e consequentemente, muito dependentes

dos sistemas de transporte metropolitano. (IPEA 2011)

17 As estatísticas apontadas acima foram obtidas da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2010, IBGE. 41

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A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

O modelo construído na maioria das cidades brasileiras, em especial nas

metrópoles, privilegia automóveis e motos, que, juntos, respondem por apenas

20% das viagens urbanas, em detrimento do transporte coletivo ou não motorizado,

como bicicletas ou trânsito de pedestres.



De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar do

IBGE, realizada nos anos de 1992 e 2008, houve um incremento médio de 7% nos

tempos de viagem das populações, que vivem nas maiores metrópoles brasileiras,

sendo que o percentual médio de trabalhadores que gastam mais de 1 hora no

deslocamento casa-trabalho subiu de 15,7% para 19%.



A falta de políticas públicas para transporte de massas e mobilidade urbana,

aliada a passagens cada vez mais caras, provocaram uma queda de cerca de 30% na

utilização do transporte público no Brasil, nos últimos dez anos.



Tem sido muito pouco o investimento em mobilidade urbana nas últimas

décadas, onde ocorreu o incentivo à utilização do transporte individual. Um dado da

pesquisa mostra que 90% dos subsídios federais para transporte de passageiros são

destinados à aquisição e operação de veículos individuais (carros e motocicletas).

Como consequência, o uso de automóveis nas grandes cidades cresce 9% ao ano,

enquanto o de motocicletas dá saltos de 19%.



Como agravante, nos últimos 10 anos, as tarifas do transporte intermunicipal

metropolitano subiram cerca de 30% acima da inflação medida pelo IPCA, seguindo

praticamente o mesmo comportamento das tarifas dos sistemas de ônibus urbanos.

As tarifas dos sistemas metro ferroviários também subiram em termos reais, mas

bem abaixo do acumulado observado nos sistemas sobre pneus.

42

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

Observe-se que o aumento real das tarifas de transporte é um dos principais

motivos do aumento das viagens intermunicipais a pé dos residentes dos municípios

do colar metropolitanos. Essas viagens aumentaram cerca de 60% en-tre 1997 e

2007, o dobro das viagens a pé intermunicipais dos residentes do município de São

Paulo e o triplo das viagens municipais a pé de toda a RMSP18.



O principal motivo para realização de viagens a pé é a pequena distância

(76% dos pedestres), mas aquele que mais cresceu entre 1997 e 2007, para os

residentes da periferia metropolitana de São Paulo, foi a tarifa cara do transporte

publico (IPEA 2011).



A política de combustíveis também contribuiu para o encarecimento do

transporte público, pois os ônibus movidos a diesel estão em 85% dos municípios do

país e são o principal meio de transporte de massas nas grandes cidades. Segundo

o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do óleo diesel subiu

50% a mais que o da gasolina nos últimos 10 anos.



Como solução para amenizar o quadro, surgiram os meios de transportes

ilegais, sem controle ou fiscalização pelo poder público. Trata-se dos sistemas de

vans, peruas, motos que hoje estão presentes em 63% das cidades brasileiras com

mais de 300 mil habitantes.



O ambiente e as condições criados para a mobilidade resultam no crescente

aumento dos óbitos por acidentes de trânsito no Brasil urbano.







18 Comunicado IPEA - Dinâmica populacional e sistema de mobilidade nas metrópoles brasileiras – 28

de julho de 2011. 43

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A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7



ÓBITOS POR TRÂNSITO

Categoria Nº (2008) Variação (%)

entre 1998/2008

Pedestre 12.157 -40,2

Ciclista 2.072 189,2

Motociclista 11.471 505,5

Automóvel 10.420 57,2

Caminhão 1.264 100,7

Ônibus 230 23,2

Outros 660 26,6

TOTAL 38.274 23,9

Fonte: DATASUS/MS









Inexistência ou falta de acesso aos serviços públicos de natureza social



A segregação urbana tem ainda outra face, que não é espacial, mas sim

social, marcada pela dificuldade que alguns grupos têm para conseguir serviços de

melhor qualidade, como escolas, médicos, emprego, cultura e lazer.



Conforme os dados e análise do IBGE (SIS – Síntese de Indicadores Sociais,

2009) em 2008, dois terços dos jovens brancos e menos de um terço dos pretos e

pardos cursavam o nível superior. 14,7% dos brancos e somente 4,7% dos pretos e

pardos adultos tinham superior completo em 2008.



Entre o 1% com o maior rendimento familiar per capita na população

brasileira, apenas 15% eram pretos ou pardos.





44

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

O estudo destaca que a renda da família é determinante para a frequência à

escola, que aumenta conforme aumenta o nível de rendimento das famílias: na faixa

de 0 a 3 anos, a taxa era 18,5% para as famílias que viviam com até ½ salário mínimo

per capita e 46,2% para as que viviam com mais de 3 salários mínimos per capita.



No grupo de 4 a 6 anos, a taxa era de 77,1%, na faixa de até ½ SM, e quase

universal (98,8%), para as crianças na faixa de rendimento de mais de 3 salários

mínimos per capita. Na faixa dos 7 a 14 anos de idade, que corresponde ao ensino

fundamental, o acesso à escola está praticamente universalizado em todos os níveis

de rendimento. A frequência escolar dos adolescentes de 15 a 17 anos era de 78,4%,

nas famílias do primeiro quinto de rendimento (os 20% mais pobres), e 93,7%, nas

famílias do último quinto, as 20% mais ricas.



A escolaridade também está relacionada ao acesso aos serviços de saúde. O

aumento do nível de escolaridade reduz a procura por serviços de saúde por motivo

de doença, na área urbana, possivelmente pelo fato de a educação trazer um maior

conhecimento dos problemas de saúde dos indivíduos e como evitá-los, no que

se refere a uma boa alimentação, exercícios físicos, etc., melhorando assim a sua

qualidade de vida.



Segundo análise do IBGE19, em 2003 (Acesso e utilização de serviços de

saúde), na classe de rendimento familiar inferior a 1 salário mínimo a dependência

do serviço público de saúde correspondia a 97%, enquanto na classe com renda

superior a 20 salários mínimos a dependência era de somente 16% - a grande maioria

dos mais ricos se utilizam de planos privados de assistência médica.





19 Acesso e utilização de serviços de saúde 2003 (base de informações PNAD 2003). 45

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

Se analisarmos o atendimento da demanda existente, ele se comporta

de forma a reproduzir a exclusão dos mais pobres. Entre os mais pobres, o não

atendimento da demanda foi de 3,3%, tendo caído para 0,5% entre aqueles com

renda acima de 20 salários mínimos. Em termos relativos, o não atendimento à

demanda entre os mais pobres foi 6,5 vezes maior comparado ao do grupo de maior

renda20.



Um forte indicador da exclusão dos mais pobres relativamente à saúde

está na mortalidade infantil, onde aproximadamente 70% das mortes de recém-

nascidos ocorrem por causas evitáveis, entre elas, falta de atenção adequada à

mulher durante a gestão, no parto e também ao feto e ao bebê, ligadas diretamente

à condição social da mãe. Além desses fatores, a mortalidade infantil também está

associada à educação, ao padrão de renda familiar, ao acesso aos serviços de saúde,

à oferta de água tratada e esgoto e ao grau de informação das mães. Mais uma vez

os mais pobres são os que mais perdem vidas.



Segurança pública



A não presença do Estado, nas franjas da cidade, na periferia, na favela, “nas

comunidades”, abre espaço para o crime organizado e o tráfico de drogas, para as

milícias, gangs e outras formas de organização e de poder. A violência decorrente

deste desenho social novamente recai sobre os excluídos.



As estatísticas oficiais de criminalidade indicam, desde há pelo menos duas décadas, todas as



modalidades de violência e crime, em especial aquelas que envolvem a prática de violência



como os roubos, os sequestros, os estupros e especialmente os homicídios. Em todo o País,





46 20 Acesso e utilização de serviços de saúde 2003 (base de informações PNAD 2003).



Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Caracterização das dimensões da exclusão no ambiente urbano

7

o alvo preferencial dessas mortes são adolescentes e jovens adultos masculinos, em especial



procedentes das chamadas classes populares urbanas. (* Sérgio Adorno - Núcleo de Estudos



da Violência, do Centro de Excelência da Fundação de Pesquisa do Estado de São Paulo



(Fapesp).





Provavelmente parte significativa dessas mortes são frutos de conflitos entre

quadrilhas, associados ou não ao tráfico de drogas. O cenário se completa com as

mortes praticadas por policiais, justiceiros, grupos de extermínios, linchamentos e

outras formas de violência que se caracterizam como violação dos direitos humanos.



Segundo o Ministério da Saúde, Sistema de Vigilância de Violências e

Acidentes (VIVA), os homens jovens, de 20 a 29 anos, de cor parda e com escolaridade

média de 5 a 8 anos de estudo foram as principais vítimas de violência urbana no

Brasil em 2009. Do total de 4.019 atendimentos em unidades de referência para

acidentes e violências, 2.915 foram de pessoas do sexo masculino (71,1%), contra

1.098 do sexo feminino (28,7%).



Do total, 2.207 foram de pessoas de cor parda e 714 de cor preta,

correspondendo a 72,8% dos atendimentos, o total de pessoas de cor branca foi de

90 (2,3%)



“O fato de termos a maioria dos atendimentos ocorrendo na parcela identificada como

parda e preta aponta para as relações de gênero e racismo. Sabe-se que as diferenças

raciais associam-se às desigualdades sociais, que condicionam as ocorrências de

eventos violentos nas comunidades”, afirma Marta Silva (coordenadora da área de

Vigilância e Prevenção de Acidentes e Violências do Departamento de Análise de

Situação de Saúde - Dasis).

47

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização

como produtor da habitação subnormal 8





Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização como

produtor da habitação subnormal







O processo de urbanização brasileiro se encontra com a lógica sistêmica da

sociedade capitalista contemporânea - globalizada - na habitação subnormal e, em

especial na favela, que é ao mesmo tempo seu produto reiterado e signo de uma

desigualdade que não faz senão crescer.



A Região Metropolitana de São Paulo conta com aproximadamente 5 milhões de pessoas,



cerca de 27% da população total, vivendo em habitações irregulares: loteamentos ilegais,



favelas e cortiços. O desemprego em níveis altos contribui para que as franjas das cidades



sejam locais de risco urbano.





A complexidade desse processo mostra-se pelo conjunto de algumas variáveis sociais, como a



violência e a construção pelo próprio morador em áreas de risco geológico e de enchentes, em



áreas de mananciais e outras áreas de proteção ambiental, em terrenos instáveis, como risco



de desabamento ou contaminação do solo. As periferias apresentam essas características e



outras, como saneamento básico precário e dificuldades de acesso aos serviços de saúde e



educação. (SILVA et alli., 2004, p. 23)





Nesse processo que produz a habitação subnormal opõem-se, ainda, a cidade

legal - capitalista em sua essência, provida dos serviços públicos essenciais, regular

em seus vários aspectos, e regulamentada em tudo que é essencial (espaço, portanto,

da minoria) - e outra cidade, fundada no cubismo improvisado dos cortiços, nas

49

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização

8 como produtor da habitação subnormal



formas íngremes em tons terracota das moradias de auto-construção; na ilegalidade

explícita da favela - irregular tanto juridicamente, quanto em seu urbanismo de ruas

tortas e acidentais, no traçado incerto do barraco, nos caminhos necessários, mas

impressionistas de seus habitantes -; todos eles submetidos a uma relação precária

com o solo urbano, com o que se afirma um vínculo quase insubsistente como o

mundo que, de toda forma, é o único que é dado a estes homens e mulheres viverem.



O processo de urbanização se apresenta como uma máquina de produzir favelas e agredir o meio



ambiente. O número de imóveis ilegais na maior parte das grandes cidades é tão grande que,



inspirados na interpretação de Arantes e Schwarz sobre Brecht, podemos repetir que “a regra



se tornou exceção e a exceção regra”. A cidade legal (cuja produção é hegemônica e capitalista)



caminha para ser, cada vez mais, espaço da minoria. O direito à invasão é até admitido, mas



não o direito à cidade. A ausência do controle urbanístico (fiscalização das construções e do uso/



ocupação do solo) ou flexibilização radical da regulação nas periferias convive com a relativa



“flexibilidade”, dada pela pequena corrupção, na cidade legal. Legislação urbana detalhista



e abundante, aplicação discriminatória da lei, gigantesca ilegalidade e predação ambiental



constituem um círculo que se fecha em si mesmo - Ermínia Maricato.









Este território da maioria, sem regras claras, lugar do precário e do improviso, da vida

edificada sobre o espaço inóspito, é lugar de degredo, um infra mundo no qual ainda

assim vivem homens verdadeiros, cidadãos de carne e osso, que aparecem para o

poder público, e para a indiferença privada, como espectros, uma humanidade de

segunda ordem, de que se apercebem apenas pelos custos que gera, e pelo peso que

representa para os afortunados.

50

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização

como produtor da habitação subnormal 8

Revela-se nisso a natureza terrível do sistema econômico que se constrói, dia a dia,

assim como a perversidade das relações que engendra. A rigor, como o índice de

pujança econômica do capitalismo tardio (pós-industrial para muitos) é a própria

redundância, ou seja, o crescimento econômico que desemprega em lugar de

empregar aparece como questão, e exatamente nas cidades, a população que não

pode se integrar naturalmente aos processos formais de trabalho e que, para seus

fins, é inútil e inaproveitável. Esses “ociosos”, tão perpétuos quanto involuntários,

esses desgarrados da história, se concentram e se aglutinam espacialmente, como

produto necessário do próprio processo que produz a riqueza e, nesta concentração

necessária, sujeitam-se a toda sorte de riscos, que já no pequeno horror de suas

manifestações acidentais e aleatórias - a enchente, o deslizamento de terra, a

chacina, a ausência de saneamento e serviços públicos em geral, etc. -, prenunciam

possibilidades que vão para além do imaginável, mas não da história.



(...) Uma quantidade importante de seres humanos já não é mais necessária ao pequeno



número que molda a economia e detém o poder. Segundo a lógica reinante, uma multidão



de seres humanos encontra-se assim sem razão razoável para viver neste mundo, onde,



entretanto, eles encontraram a vida.





Para obter a faculdade de viver, para ter os meios para isso, eles precisariam responder às



necessidades das redes que regem o planeta, as redes dos mercados. Ora, eles não respondem



– ou antes, são os mercados que não respondem mais à sua presença e não precisam deles.



Ou precisam muito pouco e cada vez menos. Sua vida, portanto, não é mais “legítima”, mas



tolerada. Importuno, o lugar deles neste mundo lhes é consentido por pura indulgência, por



sentimentalismo, por reflexos antigos, por referência ao que por muito tempo foi considerado



sagrado (teoricamente, pelo menos). Pelo medo do escândalo. Pelas vantagens que os

51

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização

8 como produtor da habitação subnormal



mercados ainda podem tirar disso. Pelos jogos políticos, pelas jogadas eleitorais baseadas



na impostura de ver em curso uma “crise” provisória que cada campo pretende ser capaz de



estancar.





E depois, determinado bloqueio atávico das consciências impede de aceitar de imediato uma



implosão. É difícil admitir; impensável declarar que a presença de uma multidão de humanos



se torna precária, não pelo fato inelutável da morte, mas pelo fato de que, enquanto vivos,



sua presença não corresponde mais à lógica dominante, uma vez que já não dá lucro, mas,



ao contrário, revela-se dispendiosa, demasiado dispendiosa. Ninguém ousará declarar,



numa democracia, que a vida não é um direito, que uma multidão de vivos está em número



excedente. Mas num regime totalitário, será que não se ousaria? Já não se ousou? E, embora



deplorando, será que já não admitimos o princípio, quando a uma distância igual àquela de



nossos locais de férias a fome dizima populações? (FORRESTER, 1997, p. 27-8)









52

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Um fator especial de exclusão: o processo de urbanização

como produtor da habitação subnormal 9





Estatuto da Cidade como instrumento de intervenção e

planejamento







Como se indicou anteriormente, muito há para se fazer para corrigir a

trajetória das cidades brasileiras. Muitas ainda têm o desafio de trabalhar com a

eliminação da miséria, das condições mínimas para sobrevivência, transformando-

as em espaços democráticos, de justiça social e com boa qualidade de vida.



Nesta luta devem estar articulados os municípios, os Estados e a União,

num grande esforço para mudança da realidade urbana e por que não da realidade

brasileira.



Aos Municípios cabem as ações voltadas aos interesses locais, em especial

o desenvolvimento urbano, sendo que o principal desafio é a concretização da

Reforma Urbana proposta pela Constituição Brasileira e detalhada pelo Estatuto da

Cidade.



Basicamente se trata do fortalecimento do Município no controle da produção

da cidade, sobrepondo-se ao capital na definição de diretrizes do crescimento

urbano, qualidade de moradias, universalização dos serviços de saneamento básico,

transporte e todos os outros da área social.









53

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Ações pontuais dos últimos governos 10





Ações pontuais dos últimos governos







Os governos do período mais recente da história do Brasil vêm empreendendo

uma série de medidas objetivando tratar as questões pertinentes ao ambiente

urbano, com ênfase particular no saneamento ambiental, habitação, mobilidade,

dentre outros temas de grande relevo para fins urbanísticos.









O programa Minha casa, minha vida (Lei 11.997, de 07/07/2009) tem

nesse contexto uma grande importância, visto se destinar a aumentar o acesso da

população de baixa renda à casa própria, tendo por meta a construção de 1 milhão

de moradias.









O relevo do programa para fins da política habitacional pode ser visto no

quadro a seguir, que caracteriza mudança significativa no padrão de atendimento

por faixa de renda.









55

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

10 Ações pontuais dos últimos governos









ATENDIMENTO POR FAIXA DE RENDA





678.876

61.486 594.947

544.208 95.409 65.651

489.457 75.495 449.810

388.198 143.073 116.555 77.643 131.076

309.398 339.171

127.291 86.442

102.815

119.963 521.981

134.047 398.220

160.014 87.327 352.158

76.408 226.421 285.725

98.943 100.893 149.029

Ano 2002 Ano 2003 Ano 2004 Ano 2005 Ano 2006 Ano 2007 Ano 2008 Ano 2009

175.351 260.907 236.356 346.384 468.713 617.390 372.167 529.296

Até 5 SM Até 5 SM Até 5 SM Até 5 SM Até 5 SM Até 5 SM Até 5 SM Até 5 SM





Até 03 SM Entre 03 e 05 SM Acima de 05 SM









As intervenções do governo federal, em parceria com Estados e Municípios, no

âmbito do saneamento ambiental caminham na mesma linha, ou seja, a de se garantir

acesso a bens e serviços públicos essenciais a uma vida efetivamente compatível com a

contemporaneidade e afinada com a sanidade que a mesma implica.



Há que se considerar, contudo, que o cenário ainda não é o ideal, conforme

demonstra o quadro a seguir:









56

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Ações pontuais dos últimos governos 10







DOMICÍLIOS PARTICULARES PERMANENTES (%)

CARACTERÍSTICAS GRANDES REGIÕES

BRASIL

N NE SE S CO

ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Rede geral 83,9 58,3 78,0 91,8 84,1 81,3

Outra forma 16,1 41,7 22,0 8,2 15,9 18,7

ESGOTAMENTO SANITÁRIO

Rede coletora 52,5 9,5 32,1 80,6 33,4 37,6

Fossa séptica 20,7 50,6 22,9 8,2 43,4 10,9

Outro 22,9 32,3 34,2 10,6 21,9 50,4

Não tinham 3,9 7,6 10,8 0,6 1,3 1,1

DESTINO DO LIXO 1,1

Coletado 87,9 80,1 75,4 95,3 90,7 89,1

Outro 12,1 19,9 24,6 4,7 9,3 10,9

PNAD-2008





No capítulo da mobilidade urbana, há que se enaltecer as ações no sentido

de se ampliar a oferta de serviços públicos de transporte, com ênfase particular

para a construção de metrôs, modal no qual o Brasil ainda tem um desenvolvimento

bastante insuficiente, mesmo se comparado a seus vizinhos na América do Sul –

como é o caso da rede de metrôs de Buenos Aires, relativamente a São Paulo.

Observa-se neste tópico, ainda, decisões cuja qualidade estratégica é duvidosa. O

trem bala que se planeja construir, ligando São Paulo ao Rio de Janeiro, é bastante

questionável, pois consome uma quantidade enorme de recursos, para servir a uma

parcelo muito pouco significativa da população nacional.







57

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

10 Ações pontuais dos últimos governos





Ações que contam com esforço cooperado das três esferas de governo

na área de segurança pública também merecem acompanhamento próximo. As

intervenções nas favelas cariocas, por exemplo, demonstrou ser absolutamente

essencial à normalidade da vida cidadã que o Estado se faça presente em todos os

territórios da cidade. Há que se observar, contudo, que a ação estrita no âmbito

da segurança, por mais importante que o seja, constitui-se em uma solução parcial

e precária. Faz-se necessário que o Estado se faça presente assegurando o acesso

ao conjunto de serviços essenciais, entendidos como tal saúde, educação, lazer e

cultura, habitação, saneamento ambiental, para não falar das dimensões próprias à

modernidade, como a inclusão digital.



Feito esse rápido apanhado, em que pese ser necessário reconhecer os

esforços que vêm sendo empreendidos, os avanços realizados, é forçoso apontar

para as limitações existentes. As populações de baixa renda, os que não são

endinheirados em sentido próprio, vivem mal nas cidades. São precárias para

estes segmentos as condições de sanidade, os transportes públicos afligem tais

populações com horas a fio em transportes públicos abarrotados, desatualizados e

ineficientes.



Os serviços públicos são de difícil acesso e, salvo aqueles que têm uma

forte componente territorial em sua organização – casos da saúde e educação –,

assimetricamente presentes nas vidas dos cidadãos. O modelo de urbanização

imposto pelos interesses do capital imobiliário privilegia a centralidade de

equipamentos ligados aos diferentes serviços públicos, em uma sociedade em

que as classes mais pobres têm seu lugar de existência nas periferias distantes e,

consequentemente, desassistidas. Nesse sentido, a dinâmica territorial materializa

58

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Ações pontuais dos últimos governos 10

uma iniquidade social, que está relacionada à apropriação por poucos, apropriação

privada, de patrimônio que é coletivamente construído e que deveria ter, em

consequência, uma natureza efetivamente pública, que só se realiza enquanto tal à

medida que se facilitam os acessos.



Atinge-se nesse ponto a razão de ser última da insuficiência daquilo que

vem sendo feito nos últimos anos. Se a cidade se organizou territorialmente para

dar forma à exclusão, se os equipamentos e serviços públicos foram construídos

particularmente onde estão os ricos, é preciso então assumir a necessidade de se

repensar a propriedade urbana, colocando-a a serviço da promoção dos direitos mais

elementares de cidadania. Trata-se, portanto, não apenas de levar serviços a custos

brutais para as periferias, mas de reorganizar os territórios mais antigos das cidades,

para que recebam aqueles que os ricos só aceitam como compatriotas e concidadãos,

se estiverem em condição de segregação espacial.



Os instrumentos que o Estatuto da Cidade instituiu, na justa medida de seu

uso parcimonioso e moderado, denunciam de maneira categórica que as políticas

relacionadas ao urbanismo são praticadas em nome dos ricos e não dos que se

encontram em condição de exclusão.



Histórico do desenvolvimento do arcabouço legal



O Estatuto da Cidade está vinculado à questão do desenvolvimento urbano,

fundado no cumprimento da função social da cidade. Trata-se da Lei Federal de

n.º 10.257 de 10 de julho de 2001, que somada a outras legislações compõe os

instrumentos urbanísticos federais.



59

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

10 Ações pontuais dos últimos governos





Nos últimos 30 anos foram editados três instrumentos urbanísticos federais

importantes:



• Lei Complementar 14, de 8/6/73, que cria as regiões metropolitanas e instaura os



primeiros instrumentos de planejamento federal no campo urbano e territorial;



• Lei 6.766, de 19/12/79, recentemente alterada pela Lei 9.875, de 29/01/99, que



dispõe sobre o parcelamento do solo;



• Lei de Loteamentos e Lei 6.803 de 2/7/80, que dispõe sobre as diretrizes básicas



para o zoneamento industrial nas áreas críticas de poluição. O Estatuto vem complementar



a legislação até então existente e dar à Política Urbana instrumentos eficazes de gestão.









O debate em torno do Estatuto da Cidade no Congresso Nacional (Câmara

e Senado) levou 10 anos. A demora na promulgação da Lei n.º 10.257 dá a medida

de sua importância. Sancionada em julho de 2001, torna-se o grande instrumento

regulador e definidor de diretrizes gerais da política urbana (a Lei re-gulamenta os

artigos 182 e 183 da Constituição Federal).









Diferentemente da legislação tradicional, o Estatuto não apresenta fórmulas,

parâmetros ou receituário de passos e instrumentos a serem seguidos, na crença

de um suposto planejamento urbano racional e salvador, que garanta uma cidade

perfeita e isenta de conflitos. Estabelece de forma clara e aberta formas possíveis

de diálogo entre planejamento e gestão, planejamento e política.

60

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Ações pontuais dos últimos governos 10

De competência do município, a política urbana proposta no Estatuto tem

por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da

propriedade urbana mediante diretrizes gerais:





• Garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana,



à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços



públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações;



• Gestão democrática por meio da participação da população e de associações



representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e



acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano;



• Cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais setores da sociedade



no processo de urbanização, em atendimento ao interesse social;



• Planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição espacial da



população e das atividades econômicas do Município e do território sob sua área de influência,



de modo a evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre



o meio ambiente;



• Oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e serviços públicos



adequados aos interesses e necessidades da população e às características locais;



• Ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar a:



- Utilização inadequada dos imóveis urbanos;

- Proximidade de usos incompatíveis ou inconvenientes;





61

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

10 Ações pontuais dos últimos governos



- Parcelamento do solo, a edificação ou o uso excessivos ou inadequados



em relação à infraestrutura urbana;



- Instalação de empreendimentos ou atividades que possam funcio-nar



como polos geradores de tráfego, sem a previsão da infraes-trutura



correspondente;



- Retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subu-



tilização ou não utilização;



- Deterioração das áreas urbanizadas;



- Poluição e a degradação ambiental.



• Integração e complementaridade entre as atividades urbanas e rurais, tendo



em vista o desenvolvimento socioeconômico do Município e do território sob sua área de



influência;



• Adoção de padrões de produção e consumo de bens e serviços e de expansão



urbana compatíveis com os limites da sustentabilidade ambiental, social e econômica do



Município e do território sob sua área de influência;



• Justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização;



• Adequação dos instrumentos de política econômica, tributária e financeira e



dos gastos públicos aos objetivos do desenvolvimento urbano, de modo a privilegiar os



investimentos geradores de bem-estar geral e a fruição dos bens pelos diferentes segmentos



sociais;



• Recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resultado a



valorização de imóveis urbanos;

62

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Ações pontuais dos últimos governos 10

• Proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do



patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico;



• Audiência do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de



implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre



o meio ambiente natural ou construído, o conforto ou a segurança da população;



• Regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa



renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização, uso e ocupação



do solo e edificação, consideradas a situação socioeconômica da população e as normas



ambientais;



• Simplificação da legislação de parcelamento, uso e ocupação do solo e das normas



edilícias, com vistas a permitir a redução dos custos e o aumento da oferta dos lotes e unidades



habitacionais;



• Isonomia de condições para os agentes públicos e privados na promoção de



empreendimentos e atividades relativos ao processo de urbanização, atendido o interesse



social.









Além das Diretrizes gerais o Estatuto trouxe novos poderes para as

Administrações Municipais, por meio de institutos tributários, financeiros, jurídicos

e políticos, no sentido de atender mais plenamente à função social da propriedade

e da cidade. Constituem-se em instrumentos efetivos de intervenção propi-ciados

pelo Estatuto da Cidade:

63

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

10 Ações pontuais dos últimos governos







• Parcelamento, edificação ou utilização compulsórios;



• Desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública;



• Direito de superfície;



• Direito de preempção;



• Outorga onerosa do direito de construir;



• Transferência do direito de construir;



• Operações urbanas consorciadas;



• Estudo de impacto de vizinhança;



• Usucapião especial de imóvel urbano.









Importante destacar que o Estatuto da Cidade serve principalmente para

a obtenção de uma gestão democrática da cidade, favorecendo as Administrações

Municipais que têm o compromisso de garantir uma melhor qualidade de vida

urbana para a maioria dos seus cidadãos.









64

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

O Plano Diretor do Município 11





O Plano Diretor do Município







O ponto central, aquele que deflagra todo o processo de implantação de

uma política municipal de urbanização e de gestão democrática da cidade é o Plano

Diretor.



Instrumento de planejamento municipal, que com a nova lei passou a ser

obrigatório (ressalvado, desde que mais favoráveis, as disposições contidas nas

Constituições Estaduais e nas Leis Orgânicas Municipais) para:



• Com mais de vinte mil habitantes;



• Integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas;



• Onde o Poder Público municipal pretenda utilizar os instrumentos pre-vistos no



§ 4º do art. 182 da Constituição Federal (imposto progressi-vo);



• Integrantes de áreas de especial interesse turístico;



• Inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades com



significativo impacto ambiental de âmbito regional ou nacional.









A elaboração do Plano Diretor Municipal, que deve abranger todo o

território do município e não somente a zona urbana, deve garantir a ampla

participação dos organismos governamentais, não governamentais, sociedade civil

e forças empreendedoras, assim como a ampla publicidade através de audiências 65

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

11 O Plano Diretor do Município





públicas, debates e acesso de qualquer interessado aos documentos e informações

produzidos.



O processo de elaboração do Plano Diretor é um processo político,

democrático e público na definição de qual é a cidade que queremos, no presente e

no futuro.



O eixo norteador deve ser a participação popular, garantida mediante a

constituição de órgãos colegiados de política urbana, debates, audiências, consultas

públicas, conferências; planos e projetos de lei de iniciativa popular, referendos,

plebiscitos.



Dentro desse esquema, a participação popular pode encontrar lugar em

todas as dimensões da política urbana: a formulação de instrumentos urbanísticos,

a negociação e aprovação na Câmara, a implementação, a gestão cotidiana e, se

necessário, sua revisão.









66

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

de exclusão social 12





Estruturação de políticas públicas para a superação da condição de

exclusão social



Planejamento Urbano



O entendimento de que a cidade é o espaço de consolidação das exclusões

geradas pelas diferentes classes sociais, onde uma minoria se associa ao Estado para

o controle dos espaços e serviços e ainda para manter as condições de reprodução

do capital e uma grande maioria fica à margem desse processo é condição inicial

para atuarmos em prol da reforma urbana.



O Estado atua através da legislação urbanística, essa definida pelo e para

os interesses dos grupos burgueses e pelo capital imobiliário, colocando a grande

maioria dos bairros e construções na condição de ilegalidade e clandestinidade,

principalmente nas grandes cidades e metrópoles. Esse é um grande desafio para

as três instâncias de governo, desenvolver programas de regularização fundiária

urbana garantindo o direito de propriedade para aqueles quem tem a posse pacífica

do lote urbano, integrando-os á cidade legal.



Outro desafio se refere ao não cumprimento da função social da

propriedade, conceito que está contido na Constituição Brasileira e no Estatuto da

Cidade que regulamenta a política urbana no Brasil. Nas cidades brasileiras, há uma

quantidade expressiva e inaceitável de terrenos e prédios ociosos no tecido urbano,

dotados de toda a infraestrutura de serviços públicos, estocados em geral com fins

especulativos.

67

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



Além de interferirem negativamente no mercado de terras, estas áreas oneram

o poder público municipal, que se vê obrigado a atender às justas reivindicações dos

moradores de áreas desprovidas de toda e qualquer infraestrutura e, nesta tarefa,

dotar de serviços e equipamentos também os terrenos ociosos existentes.



Necessário reverter o papel desempenhado pelos interesses das burguesias

urbanas e do capital especulativo, trabalhando na construção de uma política de

desenvolvimento urbano, através do Plano Diretor Municipal e dos instrumentos

previstos no Estatuto da Cidade de forma a garantir o acesso à cidade para todos e

a Justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização.



A elaboração do Plano Diretor Municipal deve garantir a ampla participação

da sociedade local, em especial os representantes dos excluídos da cidade. Não

deve ser mais um instrumento técnico de poder de uma classe sobre as demais. O

Plano Diretor é um processo político, democrático e público na definição de qual

é a cidade que queremos, no presente e no futuro. Uma cidade de todos e não de

alguns.



O eixo norteador de sua construção deve ser a participação popular,

garantida mediante a constituição de órgãos colegiados de política urbana, debates,

audiências, consultas públicas, conferências; planos e projetos de lei de iniciativa

popular, referendos, plebiscitos. Trata-se de um pacto por uma cidade democrática,

sustentável, justa socialmente e onde os investimentos públicos devam ser feitos

em prol da maioria, garantindo-lhes uma melhor qualidade de vida e a cidadania.









68

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

de exclusão social 12

Saneamento básico









Este é o setor que complementa o processo de exclusão espacial das cidades.

Quando a maioria da população urbana é obrigada a se estabelecer, muitas vezes

de forma clandestina ou irregular, nas periferias da cidade, ela encontra ou constrói,

moradias subnormais, com reaproveitamento de materiais não adequados, técnicas

rudimentares e inseguras de construção, condições insalubres de ventilação e

iluminação, além da ausência de infraestruturas adequadas.



O desafio nesse setor é o de redirecionamento, no nível das três esferas de

Governo, dos investimentos públicos para o setor, de forma a eliminar a exclusão

espacial, que se vem caracterizando ao longo deste documento.



No saneamento básico são urgentes investimentos que garantam o acesso

aos serviços de fornecimento de água potável, como de recolhimento e afastamento

dos esgotos domésticos. Quando se fala de acesso, não se trata somente da execução

de obras de instalação de redes, mas de um conjunto de ações que garantam

efetivamente a utilização de tais serviços, tais como:





• Programas de construção de banheiros para as habitações que ainda não



dispõem desse espaço, devidamente interligados ás redes públicas;



• Política de tarifas que seja compatível com a renda das famílias que serão



atendidas, inclusive com política de subsídios se for o caso; soluções técnicas para



água e esgoto que sejam compatíveis com a realidade local;

69

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social





• Ações integradas com as políticas de saúde e educação de forma



a desenvolver comportamentos compatíveis com os novos serviços



colados à disposição, desenvolvendo uma educação sanitária



que propicie melhores condições de saúde às pessoas.







Destaque deve ser dado á questão do lixo doméstico. Além da necessidade

de ampliação dos serviços de coleta de forma regular, cabem ações que propiciem

a implantação de coletas seletivas, que integrem os catadores autônomos, ou

catadores de “lixões” de forma cooperativa, transformando-os parceiros, em um

sistema integrado de coleta de resíduos sólidos urbanos.



Ações educativas com objetivo de trabalhar coleta seletiva, reciclagem, lixo

zero, e outras que propiciem alterações de comportamento urbano e melhoria na

qualidade ambiental da cidade também são necessárias.



É pertinente à política de saneamento o tema da drenagem urbana,

diretamente ligada á forma de ocupação do solo urbano. Ocupações, legais ou

clandestinas, de áreas naturais de drenagem, como beira de córregos, alagadiços

ou áreas de encostas, sujeitas a deslizamento de solo, além da excessiva densidade

urbana e impermeabilização do solo pelas vias e áreas internas aos lotes e a

destruição de vegetação ciliar nas nascentes e cabeceiras de córregos e rios (na

zona rural) tem provocado eventos de grande destruição e prejuízos econômicos e

sociais na cidade.



O não disciplinamento ou controle da forma de ocupação, tem levado o poder

70

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

de exclusão social 12

público a investir consideráveis recursos em soluções paliativas e emergências, nas

tentativas recorrentes controle de enchentes urbanas. A construção de ”piscinões” ou

canalizações com ampliação da calha de rios e córregos, sempre com investimentos

elevadíssimos, não tem sido suficientes para o controle dos eventos de enchentes e

deslizamentos, onde as vítimas novamente são as classes dos mais pobres.



O desafio é definir política de uso e ocupação de solo que alivie ou liberte os

canais de drenagem natural, não somente na zona urbana consolidada mas também

na rural, de forma a proteger o recurso hídrico e garantir a permeabilidade do solo.

Essas ações devem ser consideradas em processos de regularização fundiária,

reurbanização de favelas e áreas irregulares de assentamento, implantação de

novas vias urbanas e conjuntos habitacionais.



Incorporar o conceito de “bacia hidrográfica” e a partir daí definir um plano

de macro drenagem para o município é condição primordial no entendimento das

formas de ocupação do solo e de como garantir melhores condições de habitação

para os excluídos e na construção de uma cidade que seja compatível com a

preservação dos recursos hídricos.









Habitação



A trajetória da política habitacional no País tem sido marcada por mudanças

na concepção e no modelo de intervenção do poder público no setor que ainda não

lograram êxito, especialmente no que se refere ao equacionamento do problema

da moradia para a população de baixa renda.

71

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



Enquanto a política habitacional estiver baseada em princípios financeiros

e não sociais, os mais necessitados continuarão á margem, buscando soluções

próprias para viver na cidade.



Embora a União seja a responsável em rever o sistema de financiamento

da habitação de interesse social, garantindo que as camadas de baixa renda

tenham acesso à moradia, o município deve se integrar nesse esforço, garantindo

mecanismos e instrumentos ligados ao planejamento urbano e aos serviços públicos

que levem a uma integração de novas unidades habitacionais de forma inclusiva,

com a cidade já consolidada.



Criar mecanismos onde o capital imobiliário, produtor de novos espaços

urbanos, possa dar a sua contra partida social garantindo reservas ou disponibilidades

de solo urbano que possam ser utilizados para fins de habitação popular, em regiões

que propiciem a inclusão urbana, é uma das possibilidades.



Outra possibilidade é utilizar os instrumentos previstos no Estatuto da

Cidade de forma a ocupar áreas e imóveis ociosos, abandonados ou deteriorados

nas áreas centrais, destinando-os a habitações para os segmentos de baixa renda,

como forma de recuperar e dar vida aos velhos centros urbanos.



A configuração adequada das políticas de Estado requere que se compreenda

que a habitação não se restringe à casa, mas incorpora o direito à infraestrutura,

saneamento ambiental, mobilidade e transporte coletivo, equipamentos e serviços

urbanos e sociais, buscando garantir direito à cidade. Para assegurar tais direitos,

mais uma vez, é necessária a construção de amplo debate sobre as necessidades

da cidade quanto à habitação, por meio do Plano Municipal de Habitação, com

72

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Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

de exclusão social 12

definição de diretrizes, obrigações e responsabilidades de todos os atores envolvidos

na produção da cidade, em especial dos excluídos.



É fundamental assegurar, durante todo o processo mecanismos de controle

social que permitam a transparência dos programas e ações a serem implantadas,

especialmente no que se refere à definição clara dos critérios e meios de seleção

das famílias beneficiadas.









A mobilidade urbana



As condições historicamente construídas pelas políticas públicas de

transporte e trânsito urbano precisam ser revertidas de forma a contribuírem para

a construção de cidades mais sustentáveis, com melhorias das condições de vida

para a grande massa de excluídos.



Nesse sentido cabe, em particular, encontrar formas de cobrança das

externalidades negativas provocadas pelo modelo preferencial do uso de

automóveis/motocicletas, em detrimento do transporte coletivo, dos usuários de

bicicletas e dos pedestres.



Esta cobrança pode ser feita tanto na forma operacional – por exemplo, com

restrições à circulação de automóveis – quanto na forma econômica, de aumento

dos custos de aquisição e operação de automóveis.



Os grandes desafios da mobilidade urbana estão centrados na inversão

das prioridades de uso do espaço urbano, que historicamente tem investido

73

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A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



mais recursos no apoio ao deslocamento por automóveis, tornando precárias as

condições de circulação a pé, em bicicleta ou em ônibus vos sistemas modais para

as políticas públicas de transporte público e trânsito.



Quanto aos serviços de transporte público os desafios que se apresentam

são:



1. Muitos problemas apresentados nos sistemas de transporte público estão



relacionados à falta de modelos regulatórios adequados, bem como de contratos e instrumentos



jurídicos que permitam um melhor controle da atividade por parte do poder público. Tal



ambiente regulatório demonstra-se menos favorável à realização dos investimentos necessá-



rios à melhoria de qualidade dos serviços prestados, prejudicando ainda a produtividade e



integração do serviço.





2. Apresenta-se, ainda, com ênfase particular a necessidade de regular a si-tuação



do transporte público nas Regiões Metropolitanas, objetivando a integração dos serviços,



incorporando aspectos relativos à operação, planejamento, além da gestão financeira,



jurídica e institucional. Im-põem-se desenvolver uma política de transporte público válida



para to-da a Região Metropolitana e não somente para a cidade pólo, por meio da elaboração



e implantação de um Plano de Transporte Urbano Inte-grado (obrigatório para cidades com



mais de 500 mil habitantes, con-forme o Estatuto da Cidade);





3. O acesso dos usuários de baixa renda ao transporte público tem se tor-nado cada



dia mais difícil em função do encarecimento das tarifas, que tem se tornado um dos principais



estímulos ao transporte individual. Baratear as tarifas, seja por maior controle, justiça na



redistribuição dos ônus pelos programas de gratuidade e ainda criar subsídios é desafio para



a ampliação do número de usuários e minimização da exclusão so-cial pela mobilidade;

74

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de exclusão social 12

4. Novas tecnologias disponíveis para programação e controle dos serviços possibilitam



quaisquer formas de integração entre diferentes meios de transporte, transformando os



sistemas públicos de transporte de forma a serem mais eficientes e atrativos;





5. Todo o sistema de transporte público precisa rever seus índices de pro-dutividade



(Índice de passageiros por Quilômetro – IPK, por exemplo) e encontrar formas de melhorá-los,



seja pela reprogramação dos servi-ços, pela oferta de serviços diferenciados, ou por meio da



substituição de tecnologias. Outras possibilidades são os investimentos em projetos físicos



– por exemplo, faixas, canaletas exclusivas e corredores – e/ou controle eletrônico do uso



do espaço viário, associados a restrições ao uso do automóvel nas situações em que isto for



essencial.





6. Grande parte dos sistemas municipais de transporte por ônibus urbanos apresenta



equilíbrio financeiro (mesmo que isso seja motivo de exclusão de muitos por conta das altas



tarifas), no entanto os sistemas in-termunicipais de ônibus e os metro-ferroviários não



apresentam a mesma situação de equilíbrio, fato que muitas vezes impede a integração entre



esses diferentes sistemas, sob o risco de se perder o equilíbrio existente no sistema de ônibus.



O desafio é buscar o equilíbrio entre o aumento do custo proveniente da maior qualidade da



infraestrutura e da participação de sistemas deficitários, com o potencial de redução de custo



operacionais por medidas de racionalização e controle.





Quanto á circulação de pessoas (trânsito), que é uma atividade essencial

para a sustentabilidade das grandes cidades e metrópoles e que tem relação direta

com a qualidade dos sistemas públicos de transporte, os maiores desafios são:



1. Dotar os municípios de pessoal adequado, com capacidade técnica para o trabalho



com trânsito e ainda o uso de materiais adequados;

75

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12 de exclusão social



2. Organizar processos de capacitação dos órgãos municipais de trânsito, de forma



a permitir que os mesmos instituam sistemas permanentes de coleta de informações e



organização de indicadores, em especial aqueles ligados aos acidentes de trânsito, tornando



transparente à sociedade dados confiá-veis;





3. Aumentar a coordenação de esforços de fiscalização da Polícia Militar (Governo



Estadual) e das polícias municipais, por meio de convênios es-pecíficos e ainda pela



organização completa e definitiva dos cadastros na-cionais de condutores e de infrações;





4. Mostrar para a sociedade, por meio de programas de comunicação perma-



nente e trabalho competente de parte da fiscalização, as vantagens de um sistema eficaz



de fiscalização e de sua importância para a defesa da vida e melhoria das condições de



circulação para todos. Buscar-se-ia nesse caso a eliminação de imagens negativas, formadas



pelas notórias deficiências do Estado na prestação de bons serviços e pela visão equivocada a



respeito da chamada “indústria de multas”.





5. Reforçar os recursos do FUNSET- Fundo Nacional de Segurança e Edu-cação de



Trânsito, para investimentos em programas de educação e segu-rança de trânsito e os da



Cide - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, para investimento para melhoria



da infraestrutura de trânsito e transporte;





6. Implantar efetivamente a obrigatoriedade da Inspeção Veicular completa (IV), para



garantir melhor segurança dos veículos em circulação e risco menor de acidentes, além de se



diminuir a emissão de poluentes, o que permitirá melhorar a qualidade do ar nas grandes



cidades e metrópoles.









76

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de exclusão social 12

Segurança pública



Na maior parte das cidades brasileiras o tema violência ou insegurança é

o tema de maior preocupação da população, às vezes perdendo apenas para a

questão “emprego”, e é uma das causas básica da segregação espacial que ocorre

nas cidades, conforme dados apresentados no início desse documento.



Primeiramente, é preciso entender que quando falamos em combate

à violência ou formas de garantir a segurança pública nas cidades brasileiras

é imprescindível considerar as especificidades e as demandas locais. O

desenvolvimento econômico regional, a urbanização local, os valores culturais e suas

transformações, as dinâmicas das relações sociais, o cotidiano das comunidades,

as estruturas familiares, as redes comunitárias, as relações de vizinhança, entre

outros, são fenômenos que provocam situações diferentes, que confirmam que as

múltiplas realidades regionais são profundamente distintas. Isso indica que as ações

dos gestores na área da segurança pública, sejam eles estaduais ou municipais,

não podem ser desenvolvidas sem se levar em consideração as es-pecificidades e

demandas pertinentes a cada território local21.



Em segundo lugar, é preciso entender o que significa segurança pública,

quem são os agentes ou atores que podem assegurá-la, para num terceiro momento

analisarmos de que forma os municípios podem contribuir para com a segurança

pública.



21 Este tema é abordado em mais detalhes no artigo “Gestão em Segurança Pública” de Tereza Cristina

BARALDI, texto base da aula VI, Módulo II, do Curso de Gestão Pública promovido pela Fundação

João Mangabeira, disponível em: http://www.tvjoaomangabeira.com.br/index.php/modulo-ii/aula-vi-

modulo-ii-6. 77

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Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



Os objetos da segurança pública são a prevenção e a repressão da

criminalidade. É fundamental destacar que até muito recentemente se entendia

segurança pública como uma atividade apenas de combate à criminalidade,

mas hoje o componente de prevenção, e não apenas de combate, é central para

compreendermos inclusive como as cidades podem lidar com esta questão.



Quanto a quem seriam os “agentes garantidores da segurança pública”, a

Constituição Brasileira de 1988 estabelece no seu artigo 144 que:



A Segurança Pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para



a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através



dos seguintes órgãos: I – polícia federal; II – polícia rodoviária federal; III – polícia ferroviária



federal; IV – polícias civis; V- polícias militares e corpos de bombeiros militares22.









O que não significa dizer, como se verá adiante, que as possíveis ações

de prevenção da violência no âmbito local estejam apenas na mão, e sob

responsabilidade, das forças policiais.



Voltando ao âmbito local, de que forma os municípios podem contribuir

com a segurança pública e quais são os desafios atuais para as cidades?



Até surgir a concepção preventiva de segurança pública, a responsabilidade

sobre ela era somente do Poder Público, que sempre atuou por meio das suas

forças policiais. Atualmente, a segurança pública (e seus problemas) é vista como



22 No § 8º do art. 144, o Constituição também incluiu as Guardas Municipais na esfera de atuação da

78 Segurança Pública.



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de exclusão social 12

algo a ser compartilhado entre governo e sociedade. Há uma distribuição de

responsabilidades específicas, igualmente importantes e multidisciplinares, para o

governo e para a sociedade.



Algumas sugestões para o trabalho preventivo, nas cidades, no que se refere

à violência e à criminalidade (BARALDI, 2008):





• Cuidar da limpeza e iluminação urbana;



• Urbanizar as favelas, trazendo condições sanitárias adequadas para a prevenção



na área da saúde e da segurança pública, com acesso fácil a todas as moradias e a limpeza



pública;



• Estabelecer áreas de lazer bem cuidadas para espaço de convivência, segura para



as crianças, adolescentes e as pessoas da comunidade;



• Incentivar os jovens a prosseguirem seus estudos;



• Fortalecer a viabilidade econômica e a coesão social dessas comunida-des;



• Disponibilizar mais serviços públicos efetivos e facilidades para os mo-radores, ou



seja, mais presença do Estado não apenas por meio das forças policiais, mas sim na garantia



de todos os direitos sociais;



• Estreitar os laços comunitários na população por meio de políticas pú-blicas



efetivas;



• Alimentar relações positivas entre a comunidade e as forças policiais – dois projetos



utilizados para construir essas relações positivas são: Polí-cia Comunitária, exercido pelos



policiais militares e civis (consiste na aproximação e convivência pacífica entre forças policiais 79

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12 de exclusão social





e comunidades para o auxílio mútuo na solução de crimes, bem como na sua prevenção) e os



Conselhos de Segurança Pública, que são conselhos paritários, formados por representantes



dos poderes públicos e da comunidade, cujo objetivo é tratar das questões de segurança



pública daquela região e de buscar suas soluções para prevenção ou repressão.









Estas ações, e muitas outras que poderiam estar descritas aqui, explicitam

um ponto central nos enfrentamento dos desafios que se colocam para as cidades

no campo da segurança pública: a existência de parcerias entre a comunidade

afetada pela criminalidade e os diferentes agentes do Poder Público. Parcerias

aqui entendidas no seu sentido mais amplo, não apenas aquelas entre as forças

policiais e o poder público local, mas envolvendo também outros atotes locais

como empresários, comerciantes, prestadores de serviços e organizações sociais,

ou organizações não governamentais.



No entanto, muitos especialistas chamam a atenção para um ponto

importante do ponto de vista da gestão “essas parcerias não se sustentam sem uma

coordenação exercida com dedicação exclusiva, ou seja, que haja um controle da

própria comunidade sobre essas parcerias” (BARALDI, 2008).



É importante, ainda, que se estabeleçam fundos específicos para custear

a função do coordenador local dessas parcerias, esteja esta coordenação na mão

de um órgão policial, ou vinculada à criação de um órgão público local específico.

Nos Estados Unidos, por exemplo, esta liderança é exercida pela autoridade policial

local. Na Europa, o fortalecimento comunitário na área de segurança é liderado

80 pelo poder político local”.

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de exclusão social 12

Políticas sociais



Educação



A educação, atualmente, tem dois elementos basilares, a Constituição

Federal (consequentemente, as Constituições Estaduais e do Distrito Federal e as

Leis Orgânicas dos Municípios para complementá-la) e a Lei de Diretrizes e Bases da

Educação Nacional (Lei nº 9.394 de 20/12/1996)23. Note-se que a Educação Básica

compreende:



• Educação Infantil com as creches, que atendem crianças de zero a quatro anos e



as pré-escolas que atendem, depois da creche até os seis anos;



• Ensino Fundamental, com dois conjuntos - os anos iniciais (1ª a 4ª séries) e que



corresponde ao que foi conhecido como curso primário e mais antigamente grupo escolar e os



anos finais (5ª a 8ª séries) e que corresponde ao antigo curso ginasial. Esta divisão deverá ser



alterada com a introdução do ensino fundamental de nove anos. Poderemos ainda encontrar



a terminologia de ciclos em função da adoção da progressão continuada, e ainda anos e



não séries. É oferecido regularmente dos 6 aos 14 anos. Cabe aqui fazermos referência à



alteração que está ocorrendo no ensino fundamental com o acréscimo de um ano letivo e que



passará a ter a duração de 9 anos, obrigatoriamente, a partir de 2010, por força da Lei Nº



11.274 de 6 de fevereiro de 2006.



23 A LDB, traz a normatização de toda a educação contemporânea, desde os princípios básicos, direitos

e obrigações, atribuições dos entes federados e municípios, públicos e privados, explicitação sobre

níveis e modalidades de ensino, profissionais da educação até dos recursos financeiros e sua utilização

(LOPES, checar data). 81

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12 de exclusão social





• Ensino Médio, subsequente ao ensino fundamental e anterior ao universitário,



com a duração de três anos. Conhecido anteriormente como Colegial ou ainda Científico ou



Clássico, incluindo também o Magistério ou Normal;



• Ensino Técnico ou Profissional, direcionado para as mais diversas profissões;



• Educação Especial, direcionada para as pessoas com necessidades especiais para o



aprendizado, tanto em escolas regulares como em escolas especiais;



• Educação de Jovens e Adultos, direcionada a todos os que não tiveram acesso à



escola, voluntária ou involuntariamente, na idade apropriada.









Quando se trata dos desafios para as cidades da educação, o professor

José Norberto Callegari Lopes, em texto de 2007 para o curso de Formação Política

coordenado pela Fundação João Mangabeira24, apresenta uma reflexão que deve

ser tida como ponto de partida: “Para que [a educação] seja considerada uma

política pública são necessários fundamentalmente dois elementos: o primeiro que

seja aberta para todos, ou seja, pública, o segundo que a sociedade participe da

sua gestão, podendo-se mesmo considerá-la tão mais pública quanto maior for

a participação popular”. Conceito básico para compreendermos os desafios e as

possibilidades de alcance de uma educação pública de qualidade.



Nos municípios, responsáveis pela educação infantil (praticamente

exclusivos) e pelo ensino fundamental (em conjunto com o Estado), por

determinação constitucional (§ 2º do artigo 211), a gestão da educação é feita pelas



82 24 Curso de Formação Política, Módulo II “Políticas Públicas e Direitos Humanos”, Aula 1 - Educação.



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de exclusão social 12

Secretarias Municipais ou equivalentes (Departamentos), devendo existir também,

em cada Município, o Conselho Municipal de Educação, com funções deliberativas.

É importante lembrar que aos Conselhos Municipais cabe uma tarefa importante,

que nem sempre é exercida, a de criar as normas para autorização e fiscalização

dos estabelecimentos públicos e privados de educação infantil, que não estejam

subordinados ao sistema estadual.



Os Municípios atuam muito pouco no ensino médio, no profissionalizante e

no superior, pois, para fazê-lo, necessitam alocar recursos orçamentários superiores

ao mínimo constitucional, além de atender a toda a demanda nos níveis sob a sua

responsabilidade.



Outro ponto importante é que o Estado ainda é o grande provedor da

educa-ção básica no Brasil – a participação do setor privado no total de matrículas

varia entre 10% para o ensino fundamental, chegando a 27% na educação infantil25.

Pensar em uma educação de qualidade no âmbito das cidades, cujo acesso seja

universal, num espaço que promova a inclusão significa pensar no fortalecimento e

na promoção de uma educação pública de qualidade, promovida e garantida pelos

agentes públicos.



A participação da comunidade e as parcerias com diferentes atores,

como empresas e organizações da sociedade civil, são fundamentais, no entanto

é necessário que seja uma política que ganhe centralidade no planejamento da

gestão local, caso contrário serão feitos sempre remendos para corrigir rumos de

um desafio que não foi enfrentado com o peso que deveria.





25 Dados do INEP, última atualização: 2006. 83

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12 de exclusão social



A avaliação também é apontada por muitos especialistas como sendo um

ponto central para o aprimoramento da garantia de uma educação pública de

qualidade.



Quando tratamos ainda especificamente das cidades, alguns problemas

precisam ser equacionados e solucionados em curto ou médio prazo, para que a

educação possa ser considerada uma política pública consistente, valendo destacar

o aumento do atendimento na educação infantil, especialmente nas creches, pois o

número de matrículas corresponde a cerca de 30% da população nessa faixa etária;

e a melhoria da qualidade no ensino fundamental e médio.



No caso do ensino médio é importante lembrar que se trata basicamente

de uma responsabilidade dos Estados, mas é uma questão latente em todas as

cidades brasileiras, independente do ente federado responsável pela sua execução,

havendo uma demanda por matrícula no ensino médio que supera em muito a

oferta existente.



Considerado o cômputo geral dos desafios, apresenta-se com relação

ao ensino fundamental a necessidade premente de se investir pesadamente

na melhoria da qualidade da educação, ao passo que nas demais modalidades

educacionais faz-se necessário complementar tais esforços com a universalização

dos serviços prestados à população.



Saúde



O perfil epidemiológico no Brasil está em transição. Isso significa que

a população ainda está sujeita, em muitas regiões e segundo as suas condições

84

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de exclusão social 12

de vida, a doenças infecto-contagiosas, que deveriam estar superadas, pois já as

conhecemos e sabemos, teoricamente, como evitar.



Embora a expectativa de vida para os brasileiros que nasceram a partir de

2009 é de 73,17 anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística (IBGE) o que representa um crescimento de 10,6 anos em comparação

com 1980, essa população também é afetada por males do chamado primeiro

mundo, ou seja, as doenças cardiovasculares e as crônico-degenerativas. A vida

longa e a mudança importante em meio urbano de hábitos alimentares e do perfil

de atividades ampliam o risco dessas doenças e aumentam os gastos com assistência

médico-hospitalar. Reforça-se aqui a importância do ambiente urbano e sua forte

relação com a saúde dos indivíduos, desde a qualidade ambiental, como o acesso

às diferentes políticas e serviços públicos. Mais uma vez os processos de exclusão

contribuem para o nível de saúde dos mais pobres.



Uma peculiaridade trágica do nosso perfil epidemiológico é que estamos

perdendo, especialmente nas capitais e grandes cidades do Brasil, um grande

número de homens jovens. Segundo o Mapa da Violência 2006 , o Brasil ocupa

o terceiro lugar mundial no número de homicídios de jovens, atrás de Colômbia e

Venezuela. A taxa é de 51,7 homicídios por 100 mil habitantes jovens, sendo que

75% dos homicídios de jovens foi realizado com armas de fogo. Outro “dragão-da-

maldade” é o trânsito das grandes capitais.



São vidas poupadas pela redução progressiva da mortalidade infantil e que

se perdem ou perdem qualidade por causa da violência.



A criação e implantação do SUS, a partir da Constituição de 1988, muito tem

85

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12 de exclusão social



contribuído pela melhoria das condições de saúde do povo brasileiro, somando-

se às políticas de saneamento básico, educação, segurança, seguridade e todas as

demais que compreendem o conceito de bem estar.



O princípio geral orientador do Sistema Único de Saúde é o de que “a saúde

é um direito do cidadão e um dever do Estado”, conforme expresso na Constituição.



O SUS estabelece um elenco de princípios que poderiam ser ordenados em

dois grupos: os princípios nucleares ou ideológicos e os princípios organizacionais.



No primeiro grupo estão:



O princípio da universalidade garante que todos os cidadãos têm direito à

saúde, independente de qualquer condição e direito de acesso a todos os níveis de

assistência à saúde.



O princípio da integralidade informa que esse direito é integral, abrangendo

os aspectos de promoção, proteção e assistência à saúde física, psíquica e social,

e garante o acesso a um “conjunto articulado e contínuo das ações e serviços

preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os

níveis de complexidade do sistema”



O princípio da equidade informa que esse direito deve ser garantido de forma

equânime, segundo as necessidades, com igualdade de acesso, sem preconceitos

ou privilégios de qualquer espécie.



O princípio da participação diz respeito à natureza democrática do SUS

que garante espaços e mecanismos de participação e controle social por meio

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de exclusão social 12

de Conselhos deliberativos em cada esfera de governo e da realização, a cada

quatro anos, de Conferências municipais, estaduais e nacional de saúde, onde

representantes dos usuários, trabalhadores e gestores deliberam sobre diretrizes e

questões do Sistema Único de Saúde.



No segundo grupo estão os princípios de organização do sistema:



A descentralização é um princípio organizativo do SUS, que informa que é na

esfera municipal, mais próximo à população, que deve estar o poder de decisão do

sistema. Ao Município compete planejar, organizar, controlar e avaliar as ações e os

serviços de saúde e gerir e executar os serviços públicos de saúde. E que à direção

estadual do SUS, além de promover a de a descentralização para os Municípios

dos serviços e das ações de saúde, compete prestar apoio técnico e financeiro aos

Municípios e executar supletivamente ações e serviços de saúde.



O princípio da regionalização diz respeito a aproximar a oferta de serviços

de seus usuários, bem como de prover a eficiência dos recursos, por meio da

organização regional dessa oferta.



O princípio de hierarquização da rede de serviços de saúde dialoga com a

questão da regionalização, pois diz respeito à organização da oferta por níveis de

complexidade, que também objetiva a eficiência dos recursos e a garantia do acesso

do usuário a todos os níveis de complexidade, porém de forma ordenada.



Com o SUS, os municípios criaram e expandiram redes de atendimento

ambulatorial, para a promoção, proteção e atendimento básico à saúde de toda a

população. A expansão da rede deu-se, sobretudo, no atendimento básico.

87

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12 de exclusão social



Para dar conta dessa expansão, os governos municipais não só aumentaram

progressivamente o percentual de seus orçamentos para a Saúde, como utilizaram

outras estratégias, como o consórcio, para conseguir prover serviços de retaguarda

(apoio diagnóstico e terapêutico e internações) para sua população.



Por outro lado a parte do sistema que se refere aos estabelecimentos

especializados (clínicas, laboratórios de diagnostico e hospitais), necessita de

maiores recursos financeiros e humanos teve uma expansão menor, mantendo-se

a distorção da distribuição de leitos, maior no setor privado do que no público.



O SUS é uma realidade. Mais da metade dos brasileiros, cerca de 96 milhões

de pessoas, está cadastradas no Programa Saúde da Família (PSF). Os dados do

Panorama da Saúde no Brasil, publicação elaborada com base na Pesquisa Nacional

por Amostra de Domicílios (Pnad), com referência no ano de 2008, mostram que o

Saúde da Família é mais abrangente que os planos de saúde. O serviço particular

atende a 25,9% da população, ou seja, cerca de 49,2 milhões de pessoas.



A maior parte das famílias atendidas vive na Região Nordeste, que concentra

35,4% dos domicílios cadastrados ou 9,7 milhões de famílias. Em seguida estão o

Sudeste, com 9,1 milhões de atendidos e o Sul, onde as equipes de saúde visitam

4,5 milhões de casas. A Região Norte tem cobertura em 2 milhões de domicílios ou

7,4% do total no país.



Outros indicadores reforçam a importância do SUS, sendo internacionalmente

reconhecido pelo seu progresso no atendimento universal à AIDS, na implementação

do Programa Nacional de Imunização e no atendimento relativo á Atenção Básica.



88

Cultura política socialista

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de exclusão social 12

Grande gargalo no SUS que reflete diretamente na sua capacidade de

resolutividade esta no seu financiamento, que deve ser tripartite – município,

estado e união. A Emenda Constitucional 29, aprovada em 2000, definiu que o

Ministério da Saúde deve gastar em saúde, em relação ao ano anterior, valor igual

acrescido da variação nominal do PIB; os Estados 12% de sua receita disponível e

os Municípios 15%. Apesar da União e dos Estados questionarem a necessidade de

regulamentação da Emenda, os Municípios acolheram a sua determinação, o que

foi vital para a implementação do SUS.



Hoje ainda não temos a regulamentação da Emenda 29, aprovada, mantendo

a grande sobrecarga de compromisso de financiamento com os Municípios.



O SUS propõe um jogo cooperativo entre os atores, particularmente entre

as esferas de governo, o setor privado e a sociedade. Essa cooperação é essencial

para que a saúde consiga realizar os princípios da universalização, equidade

e integralidade. Porém, os interesses conflitantes acabam, muitas vezes, por

caracterizar um jogo competitivo. Embora com essas dificuldades, desse ponto

de vista, a arquitetura do SUS é uma das mais bem sucedidas experiências de

articulação institucional e vem sendo observada e aproveitada por outras políticas

públicas.



Considerando os avanços obtidos pelo SUS durante seus dezesseis anos de

implementação, considerando que a saúde é uma produção política e social, que

extrapola o setor saúde e considerando que o Brasil é um país continental e com

muitas diferenças e iniqüidades regionais, é preciso trabalhar com um conjunto de

desafios que podem impedir ou propiciar a implementação plena da saúde como

direito de todos e dever do Estado. 89

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Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



Entre esses desafios, cinco parecem ter uma importância crucial para que

tenhamos um avanço ou um refluxo nas conquistas do SUS:



A Politização da Saúde - A inscrição do SUS na Constituição e toda a movimentação

que se seguiu teve sustentação num movimento político conhecido como Reforma

Sanitária, os movimentos populares de saúde foram protagonistas do processo

de mudança. É preciso trabalhar continuamente o que o SUS representa para a

população brasileira, a garantia do direito à saúde sem nenhuma condicionante,

e ouvir da população o que está errado e precisa ser corrigido, retomando e

reforçando essa aliança.



Financiamento estável da Saúde - O financiamento da Saúde nunca foi o previsto

na Constituição e na Lei Orgânica.Há poderosos interesses, inclusive de partidos

políticos, governadores e prefeitos, que trabalham pela desvinculação de recursos

e que conseguiram obstaculizar a regulamentação da Emenda. O financiamento é

estratégico para a continuidade ou a falência do Sistema Único de Saúde.



Efetivação do Pacto entre gestores - A idéia de que a articulação intergestores

pode ser pactuada e não hierarquicamente normatizada é um grande avanço

na construção do SUS, representa a possibilidade de dar corpo a compromissos

que envolvem as três esferas de governo – municipal, estadual e federal – e

transparência a seus objetivos e planos. O Pacto pela Saúde precisa ser apropriado

pelos Conselhos e representações da população, como formas de acompanhar e

avaliar o cumprimento dos compromissos pelos gestores.



Radicalização da descentralização - É preciso avançar na regionalização e

descentralização do SUS, a partir de uma unidade de princípios, e uma diversidade

90

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de exclusão social 12

operativa que respeite as singularidades regionais. A regionalização da rede de

assistência, garantindo o acesso da população a todos os níveis de complexidade e

desafogando os grandes centros como pólos de prestação de serviços, é um ponto

importante para a qualidade da assistência.



Aliança Saúde e Meio Ambiente - A Saúde há muito tempo tem clareza sobre os

impactos dos condicionantes ambientais sobre a saúde da população. É preciso

aproveitar esse momento, em que se amplia a percepção das estreitas relações

entre a situação ambiental, o bem-estar e o futuro das pessoas, para reforçar uma

aliança intersetorial, que propicie projetos em conjunto e um esforço integrado

para melhorar as condições presentes e as perspectivas de futuro.



Acolhimento do usuário e garantia de acesso aos diferentes níveis de complexidade

- Um desafio que permanece, apesar de toda a expansão dos serviços e dos

empregos em saúde, é a melhoria do acolhimento ao usuário e a garantia de seu

acesso, quando necessário, aos outros níveis de complexidade do sistema.



O processo de trabalho nas unidades do sistema de saúde ainda serve mais

aos interesses corporativos do que aos interesses da população e a troca constante

de gestores e gerentes, por critérios estranhos a competência técnica, mantêm a

dificuldade de controle e avaliação do atendimento.



A saúde se produz com pessoas e entre pessoas. É, antes de tudo, uma

relação entre sujeitos, com suas potencialidades, limites e saberes, mediada por

tecnologias geradas pelo conhecimento científico e pelo conhecimento popular. É

preciso resgatar a importância dessa relação, para que o Sistema, além de eficiente

e eficaz, seja humano e olhe para as pessoas e não para as doenças ou problemas.

91

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



Cultura, desporto e lazer









No campo da cultura, desporto e lazer, o ponto de partida e o elemento

fundamental para que se enfrentem os desafios colocados para as cidades e,

consequentemente, construam-se política públicas adequadas para lidar com tais

desafios é considerar que cultura, esporte e lazer é um direito, e um direito de

todos, e não uma política setorial seja de prevenção da violência, seja de promoção

da imagem da cidade ou do município.



O ex-diretor da Unesco René Maheu defendeu a tese de que o esporte

e a cultura vieram da mesma fonte: o lazer. Para ele, o esporte e a cultura, em

sua espontaneidade, além de expressarem valores éticos, oferecem dignidade à

liberdade. Esta questão é ainda mais relevante quando estamos falando da parcela

jovem e idosas da população que vive em nossas cidades.



O desporto especificamente, nas cidades de diferentes portes, deve ser

visto como meio de educação, de saúde e de lazer e não deve ser abordado apenas

pelo seu viés de “esporte competitivo”, tendo como meta que todos os jovens se

profissionalizem seja em qual área do esporte eles estejam, este não pode ser o

indicador.



A prática esportiva frequente e a adoção de políticas públicas locais

que incentivem a prática do esporte nos diversos espaços públicos na cidades,

especialmente nas escolas, é um vetor de promoção da educação de forma mais

ampla.

92

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

de exclusão social 12

As políticas públicos para o esporte devem considera-lo também como um

meio para a saúde, promoção da qualidade de vida e garantia de lazer, um direito

de todos. Diferentes pesquisa internacionais mostram como países e cidades que

têm políticas para o desporto com esses componentes gasta-se menos com saúde

pública, e muitas vezes com segurança pública, apesar deste último não poder ser o

objetivo principal da política e si.



Um exemplo de política que poderia ser debatido tanto no âmbito da

educação, como da cultura, como da inclusão social, mostrando que essas políticas

são intrinsecamente relacionadas e assim devem ser abordadas nas cidades, é o

Programa Abrindo Espaços que consiste na abertura das escolas públicas nos fins

de semana, com oferta de atividades de esporte, lazer, cultura, inclusão digital e

capacitação para o mundo do trabalho. Ao contribuir para romper o isolamento

institucional da escola e fazê-la ocupar papel central na articulação da comunidade,

o programa materializa um dos fundamentos da cultura de paz: estimular a

convivência entre grupos diferentes e favorecer a resolução de conflitos pela via da

negociação. (NOLETO, 2008)









Assistência social



Os excluídos da cidade legal, na sua grande maioria se caracterizam pela

condição de pobreza. Pobreza que, segundo Amartya Sen, é entendido como a

privação de capacidades substantivas e da liberdade de escolher e usufruir a vida

com independência, pela falta de oportunidade de desenvolvimento e o frágil e

irregular acesso a serviços públicos em todas as áreas.

93

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



A assistência social se constitui em torno da premissa de garantir segurança

aos excluídos e todos os que estão em riscos sociais, assegurando condições

mínimas de cidadania. A Constituição Federal de 1988 elevou a assistência social

para a condição de política social, compondo com a saúde e a previdência social o

tripé da seguridade social. Desde então, os municípios enfrentam dificuldades em

se estruturarem de forma a atender a demanda social existentes nas cidades.









A partir da Constituição ocorreram regulamentações como a Lei Orgânica

da Assistência Social – LOAS, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, o

Sistema Único da Assistência Social – SUAS e a NOB - Norma Operacional Básica da

Assistência Social, que evidenciam que este é um campo ainda em construção, que

transita do antigo modelo assistencialista (da política do favor e da benemerência,

do primeiro-damismo e do clientelismo eleitoral), para um novo estatuto em que a

assistência se coloca como direito social, mesmo que ainda esteja muito longe sua

efetiva materialização.









Esse novo formato de política trouxe mudanças na organização e gestão da

Assistência Social, assim como no desenho institucional da ação governamental.

Uma das mais importantes dentre elas é a instituição de processos de deliberação

democrática, tais como:



• Conferências com representação dos vários segmentos sociais, para a proposição



de diretrizes para a política, nos três níveis – Município, Estado e União;

94

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

de exclusão social 12

• Institucionalização dos conselhos como órgãos colegiados permanentes e de



caráter deliberativo sobre a política;



• Criação das Comissões Intergestores, nas esferas, federal e estadual, como fóruns



de negociação e pactuação entre os gestores das três ins-tâncias de governo.









Quanto ao financiamento da política de assistência social, a Constituição

Federal e a LOAS determinam que o mesmo integre o orçamento da Seguridade

Social, que é partilhado pelas três esferas de governo .



A NOB/SUAS apresenta uma nova metodologia de financiamento, de forma

a atender a PNAS/2004, que traz substantivas mudanças quando comparadas ao

legado institucional de financiamento e de gestão financeira e orçamentária.



Os critérios de partilha de recursos e de transferência de recursos do SUAS

rompem com a lógica de financiamento praticada mediante relação convenial,

baseada no estabelecimento de valores per capita com vinculação ao binômio

meta/entidade , que obstruía a gestão local dos recursos.



O SUAS institui, então, critérios de partilha com base técnica e critérios de

transferência, por meio dos pisos de proteção social, criados pela NOB/SUAS, com

regulação específica e com efetivo repasse regular e automático fundo a fundo.



A operacionalização desse modelo de financiamento pela via fundo a fundo,

com repasses regulares, automáticos e que utilizam mecanismos informatizados

tem permitido o cumprimento do compromisso legal de efetivo pagamento. Isso

está sendo possibilitado tanto pelas novas regras estabelecidas pela NOB/SUAS e 95

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Estruturação de políticas públicas para a superação da condição

12 de exclusão social



regulações complementares, quanto pela implantação da RE-DESUAS, o sistema

nacional de informação do SUAS.



Todas essas transformações e avanços na formatação da política da

Assistência Social não provocaram de imediato uma inversão das práticas até

então desenvolvidas. Ainda persistem desafios a serem enfrentados para que se

efetive a política organizada por meio de um sistema, que exige necessariamente a

participação de instâncias e atores diversos, nem sempre sintonizados, em tempo e

interesse, com as disposições do processo. Os desafios que se apresentam são:





• Concretizar os mecanismos de gestão em especial aqueles que garantem a par-



ticipação e o controle social.



• Avançar no processo de descentralização, sem perder a visão nacional e



integradora, acompanhadas de estratégias solidárias de coordenação e cooperação;



• Adotar novas estratégias que promovam a integralidade e a eqüidade no acesso;



• Superação dos constantes conflitos e embates dos novos conceitos da política,



relativamente ao velho modelo assistencialista;



• Promover mudança cultural em relação ao modo como a sociedade brasileira vê e



convive com a desigualdade, a pobreza, a violência, o abandono e o sofrimento humano dos



cidadãos deste país.









96

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Conclusão

13





Conclusão



“Os conhecidos e assustadores problemas das nossas cidades precisam ser entendidos



como partes fundamentais da questão nacional. A dinâmica de formação, crescimento e



transformação das nossas cidades sintetiza duas questões nacionais cruciais: a questão



democrática e a questão distributiva.” (RIBEIRO: 1, 2011).



As reflexões realizadas ao longo deste documento buscaram mostrar que

os desafios que se colocam para as cidades hoje são muitos, com base em raízes

históricas e modelos de sociedade e de desenvolvimento que comumente não

priorizaram a inclusão social, a distribuição de renda e o reconhecimento de que

todos são iguais e têm o mesmo direito à cidade.



Nas diversas áreas do campo das políticas públicas pode-se apontar

caminhos para que os espaços urbanos no Brasil contemporâneo sejam mais

inclusivos e garantidores de direitos. Independente da área específica, existem

elementos comuns que devem ser buscados, caso se pretenda evoluir no sentido da

construção de um outro modelo de cidade. Esses elementos passam essencialmente

pela questão democrática e pela questão redistributiva (RIBEIRO, 2011).



A questão democrática se traduz na capacidade dos diferentes atores que

interagem e constroem os espaços urbanos, tantos públicos como privados, de

forjarem uma nova coalizão de interesses, não aquela especulativa e excludente,

mas um novo pacto que seja capaz de instalar nas cidades um regime político

republicano, que assegure a todos o direito à cidade. Ou seja, alianças, parcerias

97

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

13 Conclusão





e políticas públicas que garantam, no processo de reconstrução e reinvenção

dos nossos espaços urbanos, o direito à participação de todos nos processos

deliberativos que dizem respeito à cidade e seus destinos.



É fundamental, ainda, que se abandone o modelo tradicional de gestão,

muito presente em grande parte da administração pública brasileira, que planeja

e executa suas ações de forma compartimentalizada. É imprescindível para a

construção de um modelo novo de cidade a integração entre as diversas políticas

públicas, o único caminho, em termos de gestão, capaz de atender às demandas

cada vez mais complexas e diversas apresentadas pela sociedade, que tende à

urbanização de todo o seu modo de vida.



Já o aspecto “redistributivo” refere-se à quebra do controle excludente do

acesso à riqueza, à renda e às oportunidades geradas no (e pelo) uso e ocupação

do solo urbano, assegurando a todos o direito à cidade como riqueza social em

contraposição a sua mercantilização.



Trata-se, portanto, em seus elementos mais essenciais, de organizar as

políticas públicas para que elas promovam as inversões de prioridades, que colocam

nos centros de suas ações, os excluídos, passando a operar, todo o aparelho estatal

sob a lógica de assegurar e promover os direitos humanos dos debaixo. Nesse

sentido, o Partido Socialista Brasileiro preconiza as seguintes ordens de intervenções

na questão urbana brasileira.









***

98

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Conclusão

13

Considerando que a população se direciona às cidades para melhor desfrutar

do patrimônio comum que a humanidade tem construído ao longo de sua história,

para desfrutar dos benefícios de uma vida que deve se aninhar no contexto de

comunidades vibrantes, animadas pelo progresso, pela hospitalidade, os gestores

públicos estão obrigados a prover melhores condições para os que chegam ao

território urbano.



Não existe aqui, evidentemente, qualquer ordem de menosprezo à vida

no campo, mas o reconhecimento de que ela também vai melhor, se desenrola

com mais conforto e segurança, se as cidades se encontram bem organizadas e

pujantes, do ponto de vista socioeconômico. Dessa forma, o gestor que promove

o desenvolvimento urbano, tendo por prioridade os debaixo, ao fazê-lo se insere

não apenas na corrente das demandas dos que chegam, mas em uma obra de

civilização, que conspira a favor de uma sociedade fraterna e equânime. Com base

nesse princípio fundamental, cabe ao gestor e em particular àqueles que se alinham

à esquerda, com o Partido Socialista Brasileiro, ter por elementos de orientação em

suas ações as seguintes propostas:



Habitação



Desenvolver projetos que possam promover uma vida que tenha sanidade,

respeito, privacidade, ou seja, que transforme o local de moradia em espaço de

promoção da humanidade de cada qual e do conjunto dois direitos humanos

assegurados pelo texto constitucional, mas violados na prática cotidiana, em

particular quando as diferentes populações são condenadas a viverem em habitações

subnormais, cortiços, favelas, aos quais não chegam os serviços públicos essenciais.

99

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

13 Conclusão





Não se trata, portanto, apenas de se pensar na casa, mas enredá-la em

condições de vida que assegurem o acesso à cidade, à sanidade, aos serviços de

saúde, educação, lazer, etc. É preciso superar, em particular, a ideia de que aos

pobres se deve destinar a periferia, longe, distante e precária. A cidade deve ser

construída segundo os princípios de uma sociedade fraterna, que promova a

igualdade de oportunidades, o que só se faz se for enfrentada a questão essencial,

também no setor habitacional, ou seja, uma estrutura fundiária perversa, que dá aos

ricos a cidade legal, urbanizada e organizada e que, em complemento, ganha com a

miséria, á medida que transforma o lugar de destino dos pobres – as periferias – em

lugar do ganho especulativo.



Saneamento ambiental



A meta precípua dessa política setorial consiste em garantir o acesso

universal e permanente, a 100% da população urbanizada, dos serviços de água,

esgotamento sanitário, coleta de resíduos sólidos, etc. Trata-se, nesse último caso,

de assegurar destinação adequada de resíduos residenciais e industriais, do resíduo

(lixo) produzido pela indústria de construção e assim por diante. Nunca é demais

observar que a sanidade do ambiente, em suas diferentes dimensões, é fundamental

para combater a violação de direitos básicos, dentre os quais o direito à saúde.



Mobilidade urbana



Este tema deve ser compreendido em modo amplo, ou seja, no sentido de

promover a apropriação coletiva, plural, democrática, dos diferentes territórios e

oportunidades da cidade.



100

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Conclusão

13

Trata-se, portanto, em especial, de desfazer a segregação espacial em que

vivemos atualmente; permitir que os jovens, independentemente da renda de suas

famílias, possam ir ao teatro, ao cinema, trabalhar e estudar em condições que não

os condene ao esgotamento, devido a deslocamentos insanos, provocados por uma

cultura de sujeição do mais fraco, ao mais poderoso economicamente.



Desse modo, não há meios termos a considerar: é preciso priorizar

efetivamente o transporte coletivo e onerar aqueles que se deslocam por meios

privados, em veículos de pequeno porte e individuais. Faz-se necessário ampliar as

redes ferroviárias, os metrôs, os corredores de interligação de cidades, nas áreas

metropolitanas.



É preciso, ainda, reverter a sanha da renúncia fiscal em benefício do carro

e do modelo de deslocamentos que ele implica. Significa dizer que os gestores e

parlamentares progressistas devem miliar para diminuir ou eliminar impostos

relacionados à produção de equipamentos de transporte coletivo, subsidiar a tarifa

dos transportes coletivos, entre outras medidas congêneres.



Planejamento urbano



O elemento central nesse segmento é a inversão da lógica do planejamento,

que prioriza o capital e o lucro da indústria imobiliária, o padrão insustentável de

vida dos ricos, em detrimento da imensa maioria da população urbana.



Ainda que se deva considera essenciais a participação e controle social no

planejamento urbano, cabe ao gestor público a tarefa essencial de militar por uma

inversão efetiva de prioridades no ato de planejar, não dando por natural e razoável,

aquilo que é uma expressão territorial da sociedade de classes. 101

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

13 Conclusão





Segurança pública



De um ponto de vista socialista a polícia, que instrumentaliza o monopólio

estatal da violência, deve atuar para garantir que todos os territórios da cidade

sejam espaços de cidadania.



Não se trata, portanto, apenas e tão somente de combater a marginalidade

ou o crime, mas de fazê-lo por que ambos estão implicados com a violação de

direitos. Mantendo-se em mente tal perspectiva é possível conduzir a prática

policial, independentemente da força que a realiza, no sentido da aproximação

das comunidades que serve, dos procedimentos preventivos e territorialmente

orientados. A polícia, assim considerada, deixa de ser uma força repressiva que atua

diretamente em benefício do status quo, para se converter em um elemento de

promoção de direitos e de combate a sua violação.



Educação



As metas da política pública de educação precisam ser ambiciosas, pois dela

depende em grande parte a reversão da condição de iniquidade em que vivem a

porção mais significativa de brasileiros. Trata-se, portanto, de:





• Almejar a universalização do acesso e garantia de permanência em todas as etapas



e modalidades educacionais;



• Erradicar o analfabetismo;



• Assegurar a conclusão das séries em idade própria, evitando-se a todo custo a



evasão;

102

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Conclusão

13

• Evitar que a educação de pobres se transforme no ensino profissionali-zante,



quando não a conclusão apenas do ensino médio.



• Ampliar a oferta de vagas nas escolas superiores públicas;



• Prover linhas de crédito d baixíssimo, juros para financiar educação su-perior.









Saúde



Para assegurar que no território das cidades ocorra uma atenção à saúde

compatível com a dignidade de seus moradores é fundamental organizar o modelo

assistencial como um todo.



Postos de saúde, unidades ambulatoriais, prontos socorros devem estar

próximos das populações que servem, assegurando que o serviço de média e

alta complexidade observe a devida economicidade, mas que se faça disponível e

suficiente. Para tanto se demonstram essenciais os serviços de regulação, e viaturas,

que possam fazer o adequado trânsito de pacientes, entre os diferentes níveis de

complexidade do sistema de saúde.



A meta, portanto, é a de aprofundar e radicalizar o SUS, para que ele se

transforme em ferramenta de uma sociedade reconciliada, justa, equânime, e não

o lugar de destino daqueles que, por não terem dinheiro, recebem uma atenção de

segunda classe.









103

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

13 Conclusão





Cultura, desporto e lazer



O problema básico nesta política setorial relaciona-se ao fato de que não se

a perceba como elemento pertinente aos direitos fundamentais da pessoa humana.

Cultura, desporto e lazer são não acessórios de uma vida pautada por necessidades

ou obrigação de ordem superior.



Participar de atividades de tal natureza inscreve o cidadão em todo o ciclo

civilizatório, propiciando-lhe uma vida mais prazerosa, saudável, feliz. Desse modo,

o gestor efetivamente comprometido com as causas populares deve disponibilizar

todos os equipamentos públicos à população, abrir escolas, promover a aproximação

da população com os teatros, cinemas, quadras poliesportivas, praças públicas;

incentivar as iniciativas comunitárias e induzi-las, por meio da promoção em

diferentes espaços urbanos, de oficinas de teatro popular, jogos de rua, competições

esportivas intercomunitárias, etc.



Facilitar, concomitantemente, o acesso da população a tais benefícios, de

tal modo que ao prazer de realiza-los não se oponha o desconforto de meios de

transporte superlotados ou simplesmente indisponíveis.







Assistência Social









Esta política setorial, em que pese a organização mais recente, enfrenta os

mesmos desafios indicados para a saúde pública.

104

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Conclusão

13

Lida, contudo, com questões que são essenciais ao aprofundamento

democrático de nosso país e à compreensão do que deveria ser uma sociedade

acolhedora e inclusiva. Dessa forma, aos gestores públicos que a materializam, cabe

não apenas assistir as populações em condição de vulnerabilidade, mas também

iniciar os debates visando superar o senso comum, que entende encontrar-se tal

vulnerabilidade no território de escolhas de cada um, ou, ainda, nas circunstâncias

de histórias de vida desviantes ou condenáveis.



Trata-se, portanto, de superar a mentalidade de benemerência e filantropia

que inspirou – e inspira – muitas das ações públicas e privadas na área, para inscrevê-

las no território da promoção de direitos e resistência a suas violações.







Regiões Metropolitanas



A questão metropolitana, para ser adequadamente tratada, demanda a

mesma ação intersetorial e multidisciplinar que diz respeito às cidades de um modo

geral, mas requer, complementarmente, o fortalecimento de institucionalidades

que possam dar conta de suas particularidades, em especial a de natureza sócio

territorial.



Sendo maior que o Município e menor que o Estado, compreendendo em

seu território múltiplos recortes, que impactam diferenciadamente os municípios

que as compõem, as regiões metropolitanas precisam desenvolver estratégias e

abordagens com diferentes matizes, compondo arranjos político-institucionais que

permitam conferir a devida especificidade às soluções a serem implantadas.

105

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

13 Conclusão





Faz-se necessário, ainda, fortalecer e empoderar as instâncias de

concertação interferderativa existentes, de modo que elas possam servir de

elemento de concepção, organização, implementação, gestão, monitoramento e

avaliação das políticas pública, para todo o território metropolitano, sem que se

percam os compromissos históricos assegurados na Constituição Federal de acesso

e permanência universais.



Compreendidas as dificuldades de ser criar instâncias de governança que

se superponham e diferenciem de Estados e Municípios, torna-se evidente que o

encaminhamento das questões metropolitanas deve dar-se por meio de um enorme

esforço de cooperação e articulação, colocando-se os gestores na perspectiva da

população, que vive quotidianamente em uma mancha territorial que desconhece

as divisões administrativas, e habita um território cujos pro-blemas requerem um

enfrentamento de ordem e escalas mais amplas.



A ampliação das escalas para enfrentar os problemas metropolitanos implica,

contudo, uma postura política, que é própria aos partidos populares, orientados

não pelas disputas de curto prazo, mas pelo preceito atemporal de assegurar às

populações excluídas, aos debaixo, melhorias significativas de qualidade de vida.









***









106

Cultura política socialista

A questão urbana no Brasil

Conclusão

13

A inversão de prioridades que se detalhou acima deve articular em suas

estratégias, nas ações em que se desdobra, os planos local e nacional, as três esferas

da federação, de modo a mudar de modo maiúsculo e substantivo a qualidade de vida

dos brasileiros, fazendo chegar a seus locais de moradia, aos seus deslocamentos

no tecido urbano, a seus corpos, os benefícios que o texto constitucional promete e

adianta, mas que restam irrealizados.



A possibilidade dessa inversão de prioridades e as tarefas que ela implica

requerem, contudo, uma perspectiva política específica e ela é a do Partido Socialista

Brasileiro, que busca realizar reformas radicais na vida nacional, no contexto de

uma firme e resoluta perspectiva democrática.









107

Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

Referências bibliográficas

14





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Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil

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Cultura política socialista

A questão urbana no Brsil



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