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ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO
DE LONGA-METRAGEM
LATITUDE ZERO
Roteiro
DI MORETTI
ROTEIRO PREMIADO EM CONCURSO
MINISTÉRIO DA CULTURA
PRÊMIO DESENVOLVIMENTO DE PROJETO
SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DE SÃO PAULO
SUNDANCE/NHK INTERNATIONAL AWARD 98
PROJETO SEMI-FINALISTA NA AMÉRICA LATINA
Tratamento 9
Maio 1999
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CENA 01 - SALÃO INT. TARDE
LENA, grávida de oito meses, veda portas e janelas. O “Dama de
Ouro”, um decadente bar/restaurante/armazém de beira de estrada,
tem um amplo salão e dois balcões de madeira que dividem o espaço
dos secos e molhados da área dos cachaceiros.
DETALHE de pregos atravessando ripas de madeira. A forte luz do
sol só consegue penetrar nas nesgas das tábuas. Projetada contra
a parede, vemos a SILHUETA de Lena colocando os últimos embrulhos
de roupa dentro de uma grande mala em cima de uma mesa. Lena,
ofegante, cabelos desgrenhados e sujos, acende uma pequena vela
e caminha tropeçando na desarrumação do local. Senta-se exausta
e deposita a vela sobre uma mesa. A luz trêmula faz fundo para as
cadeiras de pernas para o ar e ilumina seu rosto cansado. Ela se
senta com dificuldade, sua gravidez aumenta suas dimensões. Tira
os chinelos. Mexe nos pés, massageia-os, primeiro de modo suave,
depois violento. Bufa. Traz a vela mais perto de si. Abre uma caixa
bonita onde guarda seus objetos mais valiosos: maços de dinheiro,
alguns dólares, uma correntinha de ouro com crucifixo, algumas
jóias e velhas fotos. Fica mirando uma delas. Desiste. Joga-a
dentro da caixa. Massageia as costas, o couro cabeludo e a barriga.
Relaxa. Amarra os cabelos num rabo de cavalo. Olha em torno, abaixa
a cabeça entre as pernas. Volta a mexer na barriga, maternal,
afetuosa. Essa gestualidade delicada vai tornando-se cada vez mais
ritmada e rápida. Esgueira a mão livre para dentro do próprio
decote; massageia um seio, apalpa-o, espreme-o. Com a outra mão,
que abandona o toque na barriga, ela mexe no rosto, no pescoço.
Suga um dedo, desce a mão para os joelhos e coxas, ergue o vestido,
acariciando e introduzindo os dedos na vagina. Joga a cabeça para
trás e, sentada, apoia apenas a ponta do dedão de cada pé no chão.
Contorce-se. Ofega. Manipula-se com brutalidade crescente e, no
entanto, os ruídos que emite lembram um choro infantil, abafado.
Um som gutural, como um soluço, acompanha os movimentos das suas
mãos entre as pernas. Sua cabeça gira sobre os ombros, sempre no
ritmo dos próprios gestos, ela está prestes a gozar.
CORTA PARA
CENA 02 - FACHADA EXT. TARDE
Rente ao chão da estrada, vemos em PLANO GERAL a imagem sinuosa do
armazém “Dama de Ouro” (EFEITO CALOR). Em OFF, ouvimos o SOM do gozo
de Lena.
CORTA PARA
CENA 03 ESTRADA/QUEIMADA/GARIMPO EXT. TARDE
SUBJETIVA a partir de um caminhão em movimento pelas estradas que
levam ao “Dama de Ouro”: vilarejos miseráveis, garimpos abandonados,
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campos calcinados pela queimada, florestas exuberantes, campos de
cerrados, rios e lagos, grandes chapadões, fogo...
MÚSICA. Os CRÉDITOS INICIAIS se intercalam com as imagens.
CORTA PARA
CENA 04 - FACHADA EXT. ENTARDECER
GRANDE PLANO GERAL do Armazém “Dama de Ouro”. Um caminhão velho,
carregado de toras de madeira, estacionado em seu pátio está pronto
a partir. Um estranho carrega suas malas e se aproxima da soleira
da entrada do bar. Ao redor do bar, vemos uma GALINHA VELHA, amarrada
numa das pilastras da varanda.
CORTA PARA
CENA 05 - SALÃO INT/EXT. ENTARDECER
Lena, apreensiva com a inesperada visita, tenta ver através das
frestas da porta de entrada. Ela volta-se para a mesa onde estava
sentada, fecha a caixa rapidamente enquanto se dirige, na ponta dos
pés, para seu quarto. Ouvimos o SOM de batidas secas na porta. Os
golpes na porta se repetem. Ouvimos, em OFF, o RUÍDO de um caminhão
partindo. A CÂMERA avança na direção da parede frontal onde a figura
do estranho anda na varanda entre janela e a porta. Novas batidas.
Lena entra no QUADRO carregando uma espingarda quando a CÂMERA chega
perto da porta.
LENA
Quem é?
SILÊNCIO. Depois, quase gritando, nervosa.
LENA
Quem é?
VILELA (OFF)
É... É um amigo, de São Paulo.
A gente pode conversar?
LENA
Não tenho amigo em São Paulo.
Lena deixa a espingarda escondida ao lado de sua mesa preferida. Vai
até a porta e procura enxergá-lo através das frestas. Só vemos um
vulto junto a porta.
VILELA (OFF)
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Boa tarde, senhora. Eu, posso
entrar?
LENA
Tá fechado.
Finalmente, num gesto brusco, arranca uma das travessas de madeira
que trancava a porta, abrindo um pequeno vão que lhe permite espiar
o estranho.
LENA
Tá fechado! Já faz tempo que tá
fechado! Se ficar aí dando bobeira,
periga morrer de fome. 100
quilômetros pra frente ou pra trás
tem mais bar.
Lena bate a porta com violência na cara do estranho.
VILELA (OFF)
Dona Lena? Dona Lena? Eu só queria
ver se...
Lena reage ao ouvir seu nome e destrava a porta. Finalmente eles estão
frente a frente.
VILELA, de cavanhaque e cabelos oleosos, envolto em suor e poeira,
deposita sua bagagem, uma mala grande e uma mochila branca encardida,
no chão da varanda.
VILELA
Dona Lena?
LENA
Não sou "dona" de nada.
VILELA
A senhora não vai perguntar como
sei seu nome?
LENA
(irônica.)
Tem muita gente por aí que sabe o
meu nome.
VILELA
Será que a gente não pode sentar?
Lena, ainda em pé e em sua frente, resiste em recebê-lo.
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VILELA
(simpático)
Não acha ruim viver nessa
escuridão?
Ela recua até o balcão blasfemando sua própria sina. Vilela se faz
penetrar delicadamente no salão.
LENA
Ah, meu saco, mais um pastor.
Será que nem no fim do mundo a gente
tem paz.
VILELA
Não ouvi o gerador, tá pifado?
Lena acende um lampião. SILÊNCIO. Vilela, investigando com o olhar
todo o ambiente, vai até o balcão e revela sua fonte.
VILELA
Foi o Mattos.
Lena mal consegue disfarçar sua surpresa. Estão frente a frente.
LENA
Mattos?! Que Mattos?
VILELA
O Coronel, da Polícia Militar.
LENA
Já é coronel, o desgraçado?!
SILÊNCIO entre eles. A noite começa a cair. Ela se serve de um copo
d’água. Apoia-se pelos cotovelos sobre o balcão e tenta encontrar
a razão pela qual aquele estranho lhe foi procurar.
LENA
Você tá muito longe de casa!
VILELA
É, um pouco.
Vilela caminha em direção à porta de entrada.
LENA
3.232 quilômetros.
VILELA
É, mais ou menos.
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LENA
A distância daqui até São Paulo.
Vilela pega a bagagem que havia deixado na varanda e volta mais
confiante para o salão.
VILELA
É, por aí.
SILÊNCIO novamente. Lena sai de trás do balcão e acende castiçais
improvisados espalhados pelo ambiente.
VILELA
Ele disse que você podia...
LENA
(interrompendo-o, agressiva.)
Olha, não sei e não quero saber o
que o ele disse pra você.
Ao passar por sua mesa, pega a espingarda e se encaminha para o
quarto. Vira-se ao chegar à porta.
LENA
Você pode se ajeitar por aí. Amanhã
o caminhão da madeireira passa bem
cedo. Pega ele e se arranca. Aqui
já tem gente demais.
Vilela permanece olhando em sua direção, estático.
CORTA PARA
CENA 06 - SALÃO INT. MANHÃ
Junto ao telhado, rente a prateleira quase vazia de mantimentos,
observamos uma grande ARANHA tecer sua teia.
Lena, cabelos desgrenhados, sai do quarto ainda ajeitando o vestido.
Olha em volta.
PV DE LENA: a mala e a mochila de Vilela, juntamente com suas roupas
de dormir e um lençol amarfanhado, estão sobre a mesa de bilhar. No
centro do salão, uma mesa de café arrumada para dois.
Lena, prende o cabelo, e sai, decidida, pela porta principal.
CORTA PARA
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CENA 07- MOINHO DO GARIMPO EXT. MANHÃ
PLANO GERAL. As casas abandonadas, paredes enegrecidas pelo tempo,
entulhos de metal por toda parte. A CÂMERA acompanha Lena que
atravessa a rua do Moinho em busca de Vilela.
Lena avista Vilela que caminha pela borda da cratera do garimpo.
Grita em sua direção.
LENA
Que é que você ainda tá fazendo
aqui?!
Vilela se equilibrando com dificuldade na beira da cratera.
VILELA
Este lugar tá precisando de uma
faxina!
CORTA PARA
CENA 08 - CRATERA DO GARIMPO EXT. MANHÃ
Lena, ofegante, sobe para o interior da cratera.
LENA
Escuta, não dá pra ficar aqui.
Acabou! Tudo! O garimpo não dá nem
cascalho. O pessoal foi tudo
virando pistoleiro. Gente que fica
aí na estrada, de tocaia. Você tem
que ir embora
Que é que você tá pensando?
VILELA
Eu não penso nada, eu tenho fome.
E quando tô com fome não consigo
pensar direito.
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LENA
Você tá tirando uma da minha cara?
Quem é você? Eu não te conheço!
E também não quero conhecer. O que
é que o ele quer? Fica mandando
guardinha pra me vigiar.
VILELA
Não vim espionar ninguém. Eu vim
pra trabalhar!
LENA
Ah! Ah! Ah! Trabalhar?! Coitado!
Trabalhar com quê?!
Lena mostra o Moinho, o “Dama de Ouro” e a paisagem desolada.
LENA
Olha isso! Olha! Vem aqui!
Trabalhar?! Deus do céu! Isso aqui
é o cu do mundo. Tá vendo a estrada
ali, depois dela só tem mato!
VILELA
O coronel pediu pra te ajudar.
LENA
Pra quê? Você vai tirar ouro daí?
Como é que você se meteu nessa? Você
é mais um imbecil da turminha dele.
Será que todo mundo tem que lamber
suas botas. Quem ele acha que é?
Acha que pode me prender aqui?
Agora manda um puxa-saco. Era só o
que faltava, um puxa-saco pra me
segurar aqui. Vê se te manda. Não
vou deixar mais nenhum vagabundo
chupar meu sangue.
Vilela faz menção em retornar, Lena continua.
LENA
Ainda mais um cuzão covarde,
capacho do Mattos.
De súbito, ele se volta e lhe desfere um poderoso soco na boca. Lena
cai violentamente no chão, sob o sol abrasador. Ela,
instintivamente, protege sua barriga de grávida.
LENA
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Seu filho da puta! Escroto! Você
acha que é o primeiro que aquele
sacana ajuda? Seu...
Lena se levanta e parte para cima dele tentando lhe retribuir o soco.
Vilela a segura por uma gravata de pescoço e mesmo assim ela continua
tentando esmurrá-lo. Os dois rolam na terra batida até dentro de uma
poça de lama.
Segue-se uma luta feia, suja, patética, sem vitoriosos. Finalmente,
Lena pára e Vilela a solta. Os dois estão cansados e totalmente
enlameados.
Vilela se senta sobre um monte de terra, pernas entreabertas, mãos
juntas e a cabeça caída sobre o peito.
Lena, ainda no chão, chora silenciosamente, enquanto acaricia sua
barriga. A intensidade do choro vai diminuindo até se tornar um fio
agudo e monocórdio. A CÂMERA se afasta, mostrando os dois em meio
à paisagem quase lunar da cratera.
Vilela olha para Lena, levanta-se, retira um lenço do bolso e limpa
a fronte enlameada de Lena, que continua seu choro surdo.
CORTA PARA
CENA 09 - SALÃO INT. TARDE
DETALHE da mão de Lena ralando mandioca sobre o tampo da mesa. Lena,
com os cabelos escorridos do banho, prepara o jantar.
Vilela, sentado no beiral da porta de entrada, fuma pausadamente.
De espíritos agora desarmados, eles têm uma conversa calma, sincera
e intimista.
VILELA
Ele disse...
Lena, sem tirar os olhos de seu afazer, o interrompe sem violência.
Não há qualquer sentimento em sua voz.
LENA
O Mattos fala muito!
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VILELA
Ele disse que aqui...
LENA
"Bom Jesus de Dentro" é o nome
deste lugar. Aí do lado tem
Resplendor, mais pra frente vem
Mata Grande, Cercadinho,
Jacobina, Redenção das Mortes...
VILELA
Ele disse que tinha uma amiga aqui
e que se eu...
LENA
(reagindo.)
Uma amiga?!
VILELA
É, que tinha um bar e que talvez eu
pudesse passar uns tempos. Ajudar
no restaurante. Sei fazer muita
coisa...
Lena volta a sorrir sem qualquer entusiasmo, balança a cabeça e se
perde em seus pensamentos.
LENA
Ele só arruma confusão.
VILELA
Que nada! O coronel agora é dos
grande. Manda em tudo.
LENA
Tão fodidos!
Vilela caminha em direção a sua mochila, de onde retira a carta
lacrada e pára ao seu lado com a carta na mão.
VILELA
É... Ele mandou isso pra você.
Lena hesita. Finalmente, limpa suas mãos no avental, pega a carta
e rasga o envelope. Lê.
LENA
É... Ele fala de você... são do
mesmo batalhão...
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Vilela se empertiga, batendo continência.
VILELA
Capitão Vilela, ao seu dispor.
Lena amassa a carta.
LENA
(decepcionada)
O desgraçado nem perguntou nada.
VILELA
O quê?
LENA
Esquece.
Vilela se volta para a janela e fala, observando a paisagem.
VILELA
Ele vai me chamar quando der pra
voltar. Tem umas coisas lá pra
acertar... Um dia eu volto!
LENA
Não tem lugar pra ficar, por aqui.
Vilela vai para trás do balcão.
VILELA
Qualquer cantinho serve. Sem luxo!
LENA
Você já trabalhou em bar? Sabe
servir uma mesa?
Vilela, muito mais à vontade, se serve de uma aguardente. Antes de
beber, derrama um pouco para o santo.
VILELA
Lá no quartel a gente mexe com tudo.
Eu posso...
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LENA
Esquece, não adianta. Aqui só entra
mosca e barata. Bicho de toda cor
e tamanho. Não precisa ter
experiência pra tratar com essa
freguesia.
VILELA
(animado)
Talvez um jeito na entrada, uma
tinta aqui dentro.
Lena terminando de ralar a mandioca, levanta a cabeça e lhe dá um
sorriso enigmático. SILÊNCIO.
CORTA PARA
CENA 10 - SALÃO INT. MANHÃ
SEQUÊNCIA DE MONTAGEM com Vilela arrumando o interior do salão:
1) Com roupa de tarefa de quartel e empunhando um pé-de-cabra,
retira, com movimentos fortes e ágeis, as tábuas que selavam a janela
lateral do salão. A luz do sol matinal invade o ambiente. Lena está
atrás do balcão, lavando a louça do café.
VILELA
(excitado)
As pessoas gostam de lugar claro.
Isso aqui é um comércio!
2) Ele, agora, tira as ripas de outra janela.
VILELA
... nos restaurantes, aí da
estrada, os caras tratam a
freguesia de qualquer jeito. Esse
monte de infeliz que fica tudo
espremido na boléia só come
besteira. Motorista gosta é de
comida boa e cerveja gelada.
3) Vilela empilha entulho e lixo em um dos cantos do salão. Lena
recosta uma cadeira na parede e, enquanto se balança, observa sua
frenética atividade.
VILELA
... é só descer a lombada e dá de cara
com o lugar. O nome é legal, tem muito
espaço, a fachada é bonita...
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4) Vilela, em outro ponto do salão, joga entulho em uma pilha ao
lado da janela.
VILELA
... o sujeito vem carregando poeira
nessa estrada traiçoeira! 800
quilômetros de terra vermelha! Nego
chega cagando lama!
5) Vilela lava o piso com sabão. As mesas e cadeiras estão agora
empilhadas em um dos cantos.
VILELA
... Vou dar um jeito no gerador.
Aquilo parece um motor de fusca. A
gente precisa de luz, muita luz...
6) Lena entra no quarto. Vilela, esfregando o chão até a porta de
entrada, não percebe que está falando sozinho.
VILELA
(sonhador, loquaz)
... Isso aqui vai virar ponto de
transportadora! A gente faz acordo
com os ônibus. Imagina povo da
Amazônia toda!
Ele se vira e procura Lena. O salão está vazio.
CORTA PARA BLACK
CENA 11 - SALÃO INT/EXT. TARDE
Todo o restaurante tem agora um melhor aspecto. As mesas estão
centralizadas, o balcão está mais limpo, os cartazes amarelados
foram retirados deixando suas marcas nas paredes. Vilela engraxa as
dobradiças da porta de entrada.
Lena abre uma grande caixa de papelão pardo sobre uma das mesas. Em
seguida, retira dela um bonito vestido de noiva.
LENA
Lavei antes de guardar.
Há todo um ritual nesse momento. Lena desdobra o vestido com cuidado
e o coloca junto ao corpo como que o experimentando. Observa-o,
acaricia-o. Vilela se aproxima de Lena e pousa a lata de graxa sobre
a mesa. Suas mãos estão completamente sujas.
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VILELA
(intrigado)
Bonito! Você que fez? É casada?
LENA
(olha para os lados)
É. É resto de pano. Nunca serviu pra
nada.
Lena, sem hesitar e para surpresa de Vilela, rasga com as duas mãos
o vestido de noiva.
LENA
Agora vai servir pra alguma coisa.
Lena abandona o vestido. Vilela tenta tocar o tecido.
LENA
(virando-se)
Não põe a mão!
PASSAGEM DE TEMPO. Vilela, do lado de fora do salão, trabalha na
dobradiça de outra janela.
Lena sai do quarto puxando um grande pacote de lona plástica preta
amarrado com corda de sisal. Abandona-o no centro do salão e volta
novamente para o quarto.
Vilela que percebeu a movimentação, vê o grande objeto recoberto de
lona. Constatando a ausência de Lena, pula para dentro e se aproxima
do embrulho. Limpa as mãos em um pedaço de estopa.
VILELA
(alto, para Lena)
Com o gerador funcionando, a gente
pode religar o luminoso, as luzes
piscando, já pensou?: “Dama de
Ouro”, ”Dama de Ouro”!
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Ele se agacha e o abre com cuidado. É uma cama de campanha algo
enferrujada, tem um colchão podre, com tufos de estopa saindo pelos
buracos. Vilela examina a em seguida a monta. Feliz, ele se aproxima
do quarto para agradecer o gesto de acolhida de Lena. Pára e fala,
com voz suave e hesitante, através da porta.
VILELA
Eu queria te agradecer...Você vai
ver, Lena. Isso aqui vai ficar...
Lena abre uma fresta da porta e o interrompe.
LENA
Tudo bem. Mas deixa eu dormir que
eu tô cansada...
Vilela retorna e se senta no beiral da janela, olhando para o quarto
de Lena. Acende um cigarro. Traga-o com vigor, enquanto brinca com
o isqueiro, acendendo-o e o apagando. O RUÍDO do isqueiro mistura-se
ao do vento, que aos poucos se intensifica.
CORTA PARA
CENA 12 - SALÃO INT/EXT. TARDE
Lena está sentada em sua mesa preferida fazendo manicure e pedicure
completos. Vemos alicate, tesourinha, potinhos de esmalte,
baciazinha com água, lixa, etc.
Vilela, em outro ponto do salão, de lado para Lena, sentado junto
a uma mesinha, tenta consertar o velho radioamador do bar. Válvulas,
pequenas chaves de fenda, parafusos e uma bateria de caminhão cercam
a tentativa de colocar o “Dama de Ouro” em contato com o mundo
externo. O SOM INTERMITENTE do chiado do rádio se mistura ao DIÁLOGO.
VILELA
E... E o filho? Vai ter ele aqui?
(pausa)
Você nunca sai. Como é que faz se
precisar de ajuda?
LENA
Me viro.
VILELA
(confuso)
E... e a grana, dá?
LENA
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(interrompendo-o.)
Que grana?! Isso aqui dava muito
dinheiro quando o garimpo
funcionava. O negócio começou a
secar, o ouro acabou...
(pausa)
Agora, uma vez por mês eu tenho que
ir até a cidade pra receber o "meu
soldo".
Ambos trocam olhares e sorriem.
VILELA
Soldo?
LENA
É, não é assim que vocês falam.
Soldo. Soldo de Soldado! Ele me
manda dinheiro.
VILELA
O Coronel pensa em tudo.
LENA
(resignada)
É. Ele pensa em tudo.
Uma forte interferência do rádio interrompe o diálogo e Vilela se
concentra no aparelho. PAUSA.
VILELA
Isso não é lugar pra criança
nascer.
LENA
Difícil é "agora", o parto é tudo
muito rápido.
VILELA
Eu tenho dois filhos, dois
moleques.
LENA
Dois filhos?! Eu tenho dois irmãos.
Eu era a mais nova, eu sou a mais
nova. Eles eram muito maiores.
Tinha até inveja do tamanho deles.
Eles dialogam mas na verdade estão absortos em suas próprias
histórias pessoais e seus pequenos afazeres.
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VILELA
Nem sempre as coisas dão certo.
Eu...eu sou separado da minha
mulher.
LENA
Antes as coisas aconteciam muito
rápido, agora acho que a vida
demora muito pra passar, ainda tô
no oitavo mês...
VILELA
Já faz 3 meses que eu não vejo os
moleques. O mais velho tem oito, o
mais novo, seis.
LENA
Achei que tava preparada pra ser
mãe. Sinto uma força me empurrando,
dando um tranco nas costas. Vai,
vai ter teu filho, tá na hora!
VILELA
Os dois ficam com a mãe. Ela que deu
o nome das crianças. Ela dizia que
nome bom era nome de santo.
Besteira! O mais engraçado é que
ela também tinha um nome lá da
Bíblia. Tinha o nome daquela
vagabunda da Bíblia. Madalena!
Madalena!
LENA
Eu me chamo Helena, nome de rainha!
VILELA
É, é um nome decente!
LENA
Bonito o nome da sua mulher.
VILELA
A própria vagabunda! Agora tá lá,
metendo minhoca na cabeça dos
meninos, falando mal de mim. Quem
disse que pai não tem sentimento?
LENA
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É. Castigo!
VILELA
Ela vive botando os meninos de
castigo! Tem que ter tempo para
cuidar deles. Desgraçada! Bate
perna feito perua de shopping.
Esfrega o rabo na cara do primeiro
que olha. Pra acabar com a raça dela
não precisa de muito. A gente fica
mexido! O Coronel pediu calma, deu
uns conselhos. Mas, os pensamentos
voltam e ficam batendo aqui dentro.
Acho que é doença!
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LENA
A gente pode contar a história da
gente pelas doenças que teve:
sarampo, cachumba, rubéola...
Depois opera a garganta, aí vem
menstruação, dor de cabeça,
cólica...
VILELA
Isso é uma vantagem da mulher!
LENA
Vesícula, gripe, reumatismo...
VILELA
É uma vantagem poder parir um
filho!
LENA
Artrite, bexiga, bico de
papagaio...
VILELA
Eu sei que ela tem outro. Vaca!
LENA
Eu morro de nojo só de pensar em
acabar toda mijada numa cama do
INPS.
A interferência do rádio aumenta abruptamente e é seguida por um
pequeno estouro e alguma fumaça.
Lena se assusta. O radioamador emudece definitivamente.
Lena confere a pintura das unhas e, assoprando-as, caminha até a
porta de entrada. Olha para fora. SONS do crepúsculo: grilos, sapos
ao longe...
CORTA PARA
CENA 12A - CÉU/SOL EXT. ENTARDECER
PV de Lena: o sol, como uma grande bola de fogo, vai se pondo.
CORTA PARA
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CENA 13 - SALÃO INT. NOITE
Nas janelas abertas, as cortinas --feitas com o tecido do vestido
de noiva-- ondulam ao sabor do vento fraco. SOM de uma enorme carreta
cruzando a estrada.
A LUZ dos faróis varre o salão. Lena deixa o quarto, suando muito
e visivelmente perturbada com o calor,. Com dificuldade para
respirar, se dirige para trás do balcão. Anda em pequenos círculos,
ergue a camisola bem acima dos joelhos e se abana.
Lena, absorta em seu mal estar, abre a torneira da pia, molha mãos
e pulsos demoradamente. Passa as mãos sobre os braços e os umedece
também. Prende os cabelos. Enchendo de água as mãos em concha, lava
o rosto repetidas vezes,. Molha o pescoço, o peito, umedece a barriga
com movimentos circulares delicados. O suor e a água fazem sua
camisola aderir sensualmente ao corpo.
Vilela, em sua cama, desperta, observando Lena em silêncio.
Acompanha seus movimentos com desejo, mas não consegue vê-la
totalmente. Ergue-se nos cotovelos e fala com ela.
VILELA
Lena... Lena? Algum problema?
LENA
Não, não, tá tudo bem.
LENA
Eu... Eu pensei que você tivesse
dormindo.
VILELA
É, eu tava.
LENA
Eu não agüento mais esse calor. Até
a água tá quente!
VILELA
Você quer alguma coisa?
(pausa)
Você quer alguma coisa?
LENA
Não, não! Daqui a pouco eu fico bem.
Carregar essa barriga pra cima e
pra baixo não é fácil.
Lena senta-se em uma cadeira ao lado de Vilela, que senta-se na cama.
21
VILELA
Deve ter um lado bom.
LENA
O lado de fora!
VILELA
Na rádio patrulha fiz muito parto.
LENA
(sorrindo)
É. Isso é uma coisa boa. Um parteiro
profissional!
VILELA
As mulheres esperavam a gente pra
economizar na condução. Cansei de
pegar criança em trem, ônibus. Viva
e morta! As mães largavam lá mesmo.
No começo eu ficava puto, mas
depois de ver toda aquela miséria,
meu Deus...
LENA
Vida dura! Aqui não tem nada que
patrulhar.
VILELA
Tem você!
Vilela tenta tocar Lena, que se levanta.
LENA
(mudando o tom)
Eu me cuido!
Lena caminha na direção do quarto.
VILELA
(recompondo-se)
Tem muita criança nascendo neste
mundo. Não tem lugar pra tanta
gente.
LENA
(interrompendo-o)
Amanhã a gente conversa, tá?
Lena apaga o candeeiro e entra no quarto. Vilela responde à despedida
olhando para o vazio.
22
VILELA
Boa noite.
Vilela não encontra posição para dormir. O ar está parado. Deita-se
de bruços, a cama range. Vira-se de costas; força seu dorso nu contra
o colchão e a cabeça contra o travesseiro. A CÂMERA começa a se
afastar, passando pelo candeeiro que Lena havia deixado sobre a mesa.
Vilela parece se masturbar.
A porta se abre silenciosamente. SUPER-DETALHE dos olhos de Lena.
PV de Lena: Vilela, de costas, toca-se semi-coberto pelo lençol.
CORTA PARA
CENA 14 - MOINHO DO GARIMPO/CASA DE FORÇA EXT/INT. TARDE
DETALHE: mão de Vilela em cuia apanha minério de ferro com cascalhos.
SEQUÊNCIA DE MONTAGEM com Vilela investigando os escombros do
Moinho: caminha por entre o maquinário enferrujado, sobe e desce
escadas, espia sobre grandes caçambas.
Vilela dentro da casa de força transformada em estábulo, mexe com
uma VACA LEITEIRA, magra e velha.
CORTA PARA
CENA 15 - LAVRA DO GARIMPO EXT. TARDE
DETALHE de uma bacia de ferro boiando no leito enlameado e vermelho
de um veio de garimpo abandonado.
Vilela retira o objeto do pequeno córrego ferruginoso e contempla
a área devastada ao redor.
O barranco acidentado, mais parecendo uma paisagem lunar, é um
verdadeiro cenário fantasma formado por crateras, lama, pedaços de
roupas velhas, peneiras, balanças e máquinas enferrujadas.
CORTE PARA
CENA 16 - ÁREA DO TANQUE EXT. MANHÃ
O sol arde. Sob o telhadinho do tanque, Lena está debruçada
esfregando uma saia. Ao chão, uma tina lotada de roupa suja. Os gestos
de Lena são vigorosos e repetitivos. Ela bate a saia contra o espaldar
do tanque esfregando e torcendo.
23
Lambuzado de manga, Vilela se balança em um pneu dependurado sob a
grande sombra de uma árvore. Com seu canivete, ele retira nacos da
fruta. Lambe a lâmina, evitando que o sumo escorra. Há um certo
desleixo em seu modo de estar.
O velho rádio de pilha de Lena, tocando uma música evangélica, se
equilibra sobre o pneu dianteiro de um velho trator abandonado sobre
uma ponte de troca de óleo, próxima ao tanque. A VOZ DO LOCUTOR surge
por entre chiados e interferências.
LOCUTOR (OFF)
Irmão do garimpo, do comércio, da
fazenda. O sangue de Cristo tem
poder e atravessa as fronteiras do
Brasil.
Vilela se ergue e caminha até o tanque. Interpõe seu corpo ao de Lena
para lavar as mãos.
Imediatamente, Lena pega a saia e outras roupas para colocá-las no
varal evitando o contato físico.
LOCUTOR (OFF)
Através deste encontro com Jesus
pelas ondas do rádio, estamos
aqui, ao seu lado.
Vilela se aproxima da ponte de troca de óleo, pára ao lado do rádio
preparando-se para urinar. Vira-se para Lena.
VILELA
Isso aqui tá parado há quanto
tempo?
Lena, por detrás dos lençóis estendidos, afasta uma das roupas para
ver Vilela. Dá um leve muxoxo, e volta estender as roupas.
24
LOCUTOR (OFF)
Irmão, irmã, coloque qualquer
objeto de seu uso pessoal perto de
seu aparelho de rádio. Vamos
clamar pela intervenção divina.
Vilela arreia o zíper da calça e mija demoradamente.
LOCUTOR (OFF)
Libere, irmão, toda energia
negativa, toda inveja, todo
mau-olhado. Deixe a mão de Jesus
baixar sobre você.
Vilela ressabiado olha para o próprio pênis, enquanto o balança para
guardá-lo.
LOCUTOR (OFF)
Aquele que tem andado como um
morto-vivo que receba os prodígios
da ressurreição. Você está com
Deus na Z Y C 407, ondas curtas de
quarenta e nove metros, mil e
seiscentos quilohertz. Rádio
Difusora, o portal da Amazônia...
Volta música evangélica.
CORTA PARA
CENA 17 - SALÃO INT. TARDE
O salão está vazio. Escuta-se o RUÍDO do cano de água ligado no
exterior do salão. Vilela, em OFF, canta enquanto toma seu banho.
As portas da frente e dos fundos estão abertas e sua cama arrumada.
Um RUÍDO de caminhão invade o salão junto com a poeira provocada por
sua passagem. Lena sai do quarto e se projeta para o centro do salão.
Derruba coisas, tenta erguê-las, cambaleia, tenta se apoiar numa das
mesas, caindo ao chão. Agonia. Ela se contorce em estranhas posições.
Seu filho a sacode por dentro. Está exausta. PAUSA.
Vilela, entra pela porta dos fundos, retornando do banho, secando-se
com uma toalha e sem camisa. Ao avistar Lena caída, corre para
socorrê-la.
VILELA
Que é que foi? Que é que foi?
LENA
Tá tudo bem...
25
VILELA
(desajeitado)
Mas o que é que é? Tá na hora?
LENA
Parece que ele tá com pressa.
Vilela ajuda Lena a sentar-se em uma cadeira.
VILELA
Você tá com dor?
LENA
Não, agora não, já passou.
VILELA
Você precisa de um médico.
LENA
Deixa, eu já disse, já passou.
VILELA
Mas...
LENA
Olha, eu me conheço. Sei dele.
Também. Agora ele vai acalmar. É um
bichinho assustado e curioso. Não
agüenta ficar sossegado. Agora ele
se aquieta.
Lena acaricia o próprio ventre, enquanto Vilela segura sua mão.
LENA
Ele é muito teimoso!
VILELA
Ou teimosa.
LENA
É homem, eu sei.
VILELA
Como?
LENA
Eu sinto.
VILELA
26
É porque a barriga tá pontuda?
LENA
Não! Pelo jeito que ele mexe com o
pé. Fica girando aí dentro. Ele vai
até onde o cordão deixa, aí começa
a enroscar e ele volta tudo ao
contrário. É enrolado, é homem!
Vilela acaricia o ventre de Lena. Eles ficam assim por um tempo.
CORTA PARA
CENA 18 - VARANDA EXT. MANHÃ
Vilela puxa o cordão que prende os pés da galinha, que esperneia e
cacareja até ser dominada. Ele a leva, para dentro.
CORTA PARA
CENA 18A - SALÃO INT. MANHÃ
Lena, diante do balcão, sentada numa cadeira, com uma bacia de água
quente entre suas pernas, depena a galinha.
Vilela, atrás do balcão, com um pilão, prepara uma caipirinha.
LENA
Não tá certo...
VILELA
O quê?
LENA
Você, aqui. Isso não é legal.
VILELA
Eu quero ficar. Aqui eu tô “limpo”.
Lá, na polícia, eles fazem tua
cabeça virar estopa. Nas greves não
te deixam nem dormir, você não pode
falar com ninguém. É tudo uma puta
prova. Uma confusão atrás da outra.
LENA
Tem gente ruim em qualquer lugar,
gente que fica esperando só pra
passar rasteira.
CORTA PARA
27
CENA 18B - SALÃO INT. MANHÃ
Lena, diante do fogão e várias panelas fumegando, prepara o almoço.
Vilela prepara a mesa no meio do salão.
VILELA
Comecei a fazer tudo sem reclamar.
Fui ficando bom! Um bom soldado!
Era sempre a minha turma que metia
os peitos no tiroteio. Cê não sabe
Lena, vagabundo tem até
metralhadora.
LENA
Eu trabalhava de gerente num hotel,
perto da rodoviária. Era um bom
lugar. Tinha tanta coisa pra gente
fazer. Via as pessoas entrando e
saindo, arrumava as bebidas,
ajudava com a limpeza. Às vezes era
corrido. Vinte quartos! É muita
coisa!
(pausa)
Um dia o Mattos apareceu...
VILELA
Também já tive perto de muita coisa
boa, mas sempre dava tudo errado,
e lá tava eu, só com a roupa do
corpo.
CORTA PARA
CENA 18C - SALÃO INT. MANHÃ
Vilela e Lena estão à mesa. Lena serve a galinhada. Enquanto ela o
serve, ele já começa a comer.
28
LENA
Comecei a ter nojo. Teve um dia que
eu tava sozinha e peguei um saco de
lixo que tinha estourado bem no
meio do corredor. Comecei a pegar
a sujeira toda. Quanto mais mexia,
mais subia aquele cheiro ruim. Tava
lá agachada, recolhendo aquela
porcaria e aí ele abriu a porta e
me mediu inteira, me comeu com os
olhos.
Vilela levanta a cabeça e a encara, mastigando uma coxa de galinha.
VILELA
A gente nunca acha que vai
acontecer com a gente. Eu vi os
dois, no carro, no escuro. Porra!
Aquilo não era lugar pra namorar.
Cheguei e pedi os documentos, eu
fui educado. Aí, ele foi pra
frente, pro lado do porta luvas e
pegou uma coisa que brilhava no
escuro. Lugar de documento é no
bolso! Um tiro! Tive que dar, tive
que me defender!
CORTA PARA
CENA 18D - SALÃO INT. MANHÃ
Lena e Vilela estão terminando seu almoço. Vilela afasta seu prato
e acende um cigarro.
VILELA
Eles queriam um "exemplo". Me
fritaram, “em nome da corporação".
Pra mim o garoto tava armado. O
Coronel ainda foi falar com o
corregedor, me escondeu, mexeu os
pauzinhos. Não deu jeito, tive que
sumir.
Lena, chupando o ossinho da sorte.
LENA
Ele também me fez promessas. Lugar
limpo, casa bonita, lençóis de
ouro, o meu próprio negócio... Ele
te disse que eu sou forte? Eu não
29
sou forte coisa nenhuma, eu só
perdi o nojo.
(pausa, olha para o osso)
Não sobrou nada, só o filho dele me
chutando a barriga.
Lena olha por algum tempo para o ossinho da sorte, oferece-o para
Vilela, que não compreende o que ela quer. Lena desiste e quebra ela
mesma o osso.
CORTA PARA
CENA 19 - CASA DO GERADOR/ÁREA DO TANQUE INT/EXT. ENTARDECER
EDIÇÃO: esta cena se intercala com a seguinte.
Vilela é iluminado intermitentemente por vários flashs e faíscas de
luz.
Ele está debruçado sobre o gerador do armazém, tentando consertá-lo.
Várias ferramentas ao seu redor e um pequeno lampião o ajudam neste
serviço.
O motor do gerador teima em não pegar. De repente, ele deslancha
cobrindo o silêncio com um enorme roncar de máquina velha.
Vilela, na sacada da casinha está feliz com sua façanha.
CORTA PARA
CENA 20 - SALÃO INT. ENTARDECER
EDIÇÃO: esta cena se intercala com a anterior.
Lena sentada em sua mesa preferida, está acabando de tricotar um xale
azul de lã, para o futuro bebê.
De súbito, a lâmpada do balcão começa a piscar até acender.
A TV reavive.
30
O rosto de Lena é iluminado pela luz azulada da TV. Ela sorri.
CORTA PARA
CENA 21 - SALÃO INT. NOITE
PENUMBRA. As cortinas ondulam levemente. Lena e Vilela estão vendo
TV, em um aparelho P&B.
Vilela, vestindo uma camisa branca com uma estampa de águia nas
costas, tem o antebraço para trás, enganchado no espaldar; as pernas
abertas e curvas, os pés enroscados entre os pés da cadeira. O tronco
está caído displicentemente para o lado de fora, oposto a Lena. Ela
está com os joelhos colados, a planta dos pés no chão e as mãos
pousadas sobre a barriga.
Eles assistem um programa policial popularesco, onde o APRESENTADOR
esbraveja impropérios contra delinqüentes, garimpeiros desonestos,
policiais corruptos, propondo pena de morte e execuções públicas.
Os dois permanecem em suas posições durante algum tempo, presos à
tela. Vilela observa Lena. Primeiro com alguma discrição, depois
ostensivamente, percorrendo todo seu corpo até não mais tirar os
olhos dela. Lena ajeita as roupas, cobre as pernas que estavam algo
à mostra.
Vilela pousa sua mão sobre a perna de Lena e a descobre novamente.
Lena faz menção de se erguer e sair, mas é contida por Vilela que
a segura firmemente. PAUSA.
Os dois se olham fixamente.
O apresentador da TV sobe o tom e começa a espancar a mesa com seu
chicote.
Vilela segura as mãos de Lena e, com alguma dificuldade, em função
de sua barriga de grávida, beija Lena vorazmente,. Lena responde com
a mesma intensidade, tensionando o pescoço. Eles tiram as roupas com
rapidez, sem qualquer sensualidade, como se lutassem contra o tempo.
Transam sobre a mesa de bilhar, com seus corpos banhados pela luz
da TV.
No monitor, o apresentador, cada vez mais tenso, com as veias do
pescoço saltando, suando em bicas, ameaça chicotear a própria câmera
de TV.
CORTA PARA
31
CENA 22 - SALÃO INT. MANHÃ
Uma lufada de ar faz a porta do bar abrir-se lentamente, rangendo.
A luz da manhã invade o ambiente. A televisão, ainda ligada, está
fora do ar; restos de roupas sobre a mesa desalinhada; a cama de armar
de Vilela, que não foi usada à noite, está intacta.
LENA (OFF)
(lânguida)
Vilela... Vilela.
Lena sai do quarto usando apenas a camisa de Vilela que tem a águia
estampada nas costas. Atravessa o salão, vai até a janela e grita.
LENA
Vilela!
Lena vai até a porta e vemos sua silhueta recortada na soleira.
LENA (OFF)
Vilela! Vilela!
Lena volta a entrar no salão e, de repente, vê a lata de suas economias
aberta sobre sua mesa. Corre para ela.
DETALHE da caixinha de Lena semi-vazia. O dinheiro e o ouro
desapareceram. Sobre as velhas fotos e lembranças, restou somente
seu crucifixo de ouro.
Lena mexe furiosamente na caixinha, jogando para fora as velhas
fotos. Lena caminha até a porta. Fecha-a. Mexe nos objetos de maneira
aleatória, procurando conferir-lhes alguma ordem inexistente. Ao
voltar na direção do balcão, derruba uma cadeira no chão, apanha-a
e vai colocá-la no lugar mas, ao invés disso, atira-a com toda força
sobre o balcão. Atira outra e outra, quebra garrafas, copos e louças,
vira mesas. Arranca as cortinas, tenta rasgá-las, se enrosca nelas
e cai ao chão, exausta. LONGA PAUSA. Quando tudo parece calmo, ela,
em novo surto de raiva, retoma a quebradeira. Por último quebra a
TV.
CÂMERA ALTA: O salão está devastado, Lena estatelada no meio.
CORTE PARA BLACK
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CENA 23 - CRATERAS EXT. TARDE
Rosto de Lena olhando para o horizonte, olhos secos.
A CÂMERA mais afastada nos revela que está em meio à crateras do
garimpo.
GPG: Lena, na mesma posição, é agora um pequeno ponto em meio à
imensidão de terra escavada.
CORTA PARA BLACK
CENA 24 - SALÃO INT. NOITE
Várias velas acesas estão espalhadas pelo salão. Lena, com a barriga
imensa, sai do quarto vestindo uma camisola surrada. Anda em torno
do salão, chutando o ar e os objetos que encontra em seu caminho.
Os braços estirados, balançam ao longo do corpo.
Senta-se numa cadeira, pousa os braços sobre as coxas e,
pateticamente, observa a porta fechada. SILÊNCIO.
De súbito, ergue-se, atravessa o caos do salão e se dirige ao balcão.
Liga o rádio de pilha no VOLUME mais alto e sintoniza uma música
sertaneja totalmente destorcida. Com gestos autômatos, ela ameaça
uma coreografia patética. Caminha até o meio do salão, se agacha,
levanta a cabeça e começa a emitir sons onomatopéicos. Ruídos
guturais graves e longos parecem nascer de suas vísceras. A cena é
insólita.
CORTE PARA BLACK
CENA 25 - SALÃO INT. NOITE
O salão ainda está iluminado por tocos de velas. Ouve-se o SOM da
respiração ofegante e contínua de Lena.
A CÂMERA se move junto aos escombros do salão. Percebe-se o caos.
Lena, em OFF, geme e seus gemidos vão-se mesclando aos exercícios
respiratórios que faz. Os ruídos vão crescendo de intensidade, os
intervalos são cada vez mais curtos. Lena, aninhada num canto do
salão, cercada por um círculo de velas e apoiada entre duas cadeiras,
está semi-coberta por um lençol molhado de suor. Suas contrações
fazem ela urrar. Sua respiração se torna cada vez mais sincopada.
CORTA PARA
33
CENA 25A - LUAR EXT. NOITE
A lua cheia brilha no céu amazônico.
CORTA PARA
CENA 25B - FLORESTA EXT. NOITE
Uma grande queimada vai consumindo a floresta no meio da noite. RUÍDO
de madeira queimando.
CORTA PARA
CENA 25C - CÉU DA MANHÃ EXT. AMANHECER
Uma nuvem de fuligem passeia pelo céu da manhã. O SOM do crepitar
da queimada vai diminuindo.
CORTA PARA
CENA 25D - ÁREA DO TANQUE EXT. AMANHECER
O varal de roupas estendido no fundo do armazém ostenta alguns
lençóis brancos e algumas fraldas que balançam ao sabor do vento.
Escutamos ao longe o CHORO de uma criança. A nuvem de fuligem se
deposita sobre as roupas e começa a manchar de cinza as alvas peças.
CORTA PARA
CENA 26 - SALÃO INT. DIA
Lena mete a mão dentro de sua dispensa de mantimentos e puxa uma lata
de atum semi enferrujada.
De repente, surpreende-se com a corrida de uma grande RATAZANA
cinzenta que sai do fundo escuro da dispensa.
Lena, mecanicamente, apanha um abridor e com alguma dificuldade abre
a lata, cortando-se. Lena joga o atum num prato sem prestar atenção
ao seu pequeno ferimento. O sangue e o óleo do atum se confundem na
mistura nauseante.
Lena, em pé no balcão, apanha um pedaço de pão velho e endurecido
e come o atum com as mãos.
CORTE PARA
(CENA 27 - ÁREA DO TANQUE EXT. TARDE = CANCELADA)
34
CENA 28 - SALÃO/VARANDA INT./EXT. NOITE
Lena sai do quarto com uma fralda em torno do pescoço. Veste uma
camisola. Mexe no cabelo, no corpo. Calor. Com a fralda ela procura
acertar INSETOS em vôo.
Senta-se e com a mão espalmada tenta sem êxito caçar uma MOSCA no
tampo da mesa.
SILÊNCIO. Em OFF, ouvimos trovões ao fundo e, logo, a criança
recomeçando a chorar. Um RELÂMPAGO e o ruído de um TROVÃO invadem
o salão. Começa uma forte tempestade elétrica. A porta chacoalha
contra a parede. O salão parece que vai ser arrancado do chão.
Lena se levanta e sai pela porta do salão. Pega uma cadeira, coloca-a
no limite da varanda e se senta. Deixa-se molhar demonstrando grande
prazer. A tempestade segue violenta.
DETALHE do rosto molhado de Lena, sob a chuva. CLARÕES de relâmpagos
refletem-se em seu rosto.
CORTE PARA
CENA 29 - SALÃO INT. MANHÃ
DETALHE de uma vassoura rústica juntando cacos e outros detritos.
SEQUÊNCIA DE MONTAGEM de Lena arrumando o salão do bar: retirando
lixo, desvirando cadeiras, as mesas, cobrindo-as com toalhas e
adereços, arrumando garrafas no fundo do balcão, passando o pano,
tirando poeira, lavando peças da cozinha, guardando-as. Em OFF, a
criança volta a chorar.
Ela vai até a porta do quarto, observa-a. Depois, vai até a porta
da frente, abre-a. A luz do dia invade o salão.
CORTA PARA
CENA 30 - PÁTIO EXT. MANHÃ
Lena, com a camisa de águia de Vilela sobre um dos ombros, arrasta
a cama de Vilela e a joga em uma fogueira, onde em uma pilha de
entulhos já ardem as cortinas, a TV quebrada e os pedaços de mesas
e cadeiras quebradas.
Posta-se à frente da fogueira e admira a combustão das chamas. Depois
de um instante, pega a camisa com a estampa da águia e a deposita
no centro da pira.
DETALHE da camisa sendo consumida pelas chamas.
35
CORTA PARA
CENA 31 - BANHEIRO INT. TARDE
Lena, em frente a um tímido espelho, se maquia e penteia. Passa batom,
rouge, base.
Sai da frente do espelho, acreditando-se pronta, o QUADRO fica vazio.
Volta-se ao espelho para acentuar a maquiagem. Sai novamente. Volta
uma terceira vez e agora resolve carregar nas tintas, reforçando
contornos, aplicando mais base. Borra-se um pouco de rouge.
CORTA PARA
CENA 32 - SALÃO INT. NOITE
GPG, CÂMERA ALTA. Lena vestida com uma roupa de noite, algo vulgar,
e calçada em suas sandálias de salto alto, está ao fundo do salão,
no canto do balcão da mercearia.
Uma LAGARTIXA atravessa uma das paredes.
CORTA PARA
CENA 33 - FUNDOS EXT. MANHÃ
Lena está tomando banho e ouve o RUÍDO de um caminhão que se aproxima.
Percebe que o veículo está encostando no pátio de seu
estabelecimento. Seguem-se BARULHOS de vozes indistintas e de carga
sendo descarregada. Lena fica ansiosa, desliga o chuveiro, apanha
a toalha e o vestido que estavam pendurados ao lado e SAI DE QUADRO.
CORTA PARA
(CENA 34 - SALÃO INT. MANHÃ = CANCELADA)
CENA 35 - PÁTIO EXT. MANHÃ
Todas as janelas estão fechadas. Lena sai de dentro do salão e pára
atônita com o que vê.
PV DE LENA: Vilela emerge da poeira do caminhão que está partindo.
No chão, pilhas, caixas de mantimentos, materiais de construção e
um engradado com um GALO e VÁRIAS GALINHAS.
Lena fica imóvel, boquiaberta.
Vilela tenta abrir um sorriso, já caminhando em sua direção.
VILELA
Oi. Tudo bem, Lena?
36
Lena espera que ele chegue mais perto, apanha uma cadeira da varanda
e a arremessa com violência contra ele,. Vilela se esquiva e recua
assustado. A cadeira espatifa-se contra o engradado de galinhas.
LENA
(alucinada)
Se você passar desta porta eu te
mato, desgraçado!
Lena volta-se para dentro, batendo a porta violentamente.
CORTA PARA
CENA 36 - SALÃO INT. MANHÃ
Lena recosta-se na porta, ofegante e ressentida.
VILELA (OFF)
Leeeeena? Deixa eu explicar?
Não é o que você tá pensando!
PASSAGEM DE TEMPO. Todas as janelas permanecem fechadas. Lena, atrás
do balcão, se dedica aos últimos preparativos do almoço.
VILELA (OFF)
(tom suave)
Ô Lena... Você tá me ouvindo?
Abre a porta... Eu vou te contar
tudo...
CORTA PARA
CENA 37 - ACOSTAMENTO OPOSTO DA ESTRADA INT./EXT. DIA
Sob o sol inclemente, vemos Vilela sentado no meio de pilhas de
caixas, fardos de mantimentos, bebidas, peças de decoração, etc. O
engradado com galinhas está ao lado.
Sequioso e faminto ele abre uma garrafa de cerveja e outra de
salsichas em conserva. Logo, ele cospe o gole de cerveja quente que
acabara de tomar. O CHORO da criança é percebido por um surpreso
Vilela. Ele faz um gesto de brinde ao bebê.
VILELA
(quase para si)
Bem vindo ao mundo...
PV DE VILELA através das janelas: as atividades domésticas de Lena.
Um caminhão passa, em PP, levantando poeira.
37
Vilela, faz menção de se levantar, mas desiste. Sabe que tem de
permanecer à distância.
CORTA PARA
(CENA 38 - ACOSTAMENTO OPOSTO DA ESTRADA EXT. ENT = CANCELADA)
CENA 39 - ACOSTAMENTO OPOSTO DA ESTRADA EXT. NOITE
PLANO GERAL: Em meio a uma tenda já bastante organizada e maior,
Vilela balança seu corpo em uma rede de sisal protegido por um
mosquiteiro. O salão do restaurante apaga suas luzes. A do quarto
de Lena permanece acesa. OUVEM-SE aves e pequenos animais noturnos
da região: corujas, sapos e grilos.
Vilela, meticulosamente, anota num pequeno caderno números e cifras
de contas intermináveis. Uma trepidante fogueira aquece suas noites
e um lampião a gás lhe serve de luz.
CORTA PARA
CENA 40 - ACOSTAMENTO OPOSTO DA ESTRADA EXT. DIA
Uma longa trilha de FORMIGAS, carregando açúcar, atravessa a barraca
e se perde no mato.
Sol a pino. Dentro da tenda, Vilela sem camisa, suando, olha
pateticamente a ação das formigas.
De súbito, DETALHE da mão de Lena estendendo uma caneca de café
fumegante. Vilela, surpreso, arregala os olhos e depois de alguma
hesitação começa a sorver o café com prazer.
Ela lhe dá as costas e volta em direção ao salão em passos rápidos.
Empolgado, ele vai atrás dela.
38
VILELA
Sabe o que é Lena. Você vai
entender. Espera! Eu trouxe o que
faltava. Agora sim, isso vai
parecer um lugar de verdade.
Espera, Lena! Só peguei a grana
emprestada. Eu vou devolver! Tudo
no lugar certo. Com juros. Nós
vamos ganhar muito dinheiro... Era
pra voltar antes, mas acabei
ficando lá na cidade...
Lena entra no salão e fecha a porta no nariz de Vilela, interrompendo
sua fala.
CORTA PARA
CENA 41 - SALÃO INT. DIA
Lena acaba de bater a porta na cara de Vilela. Ela se dirige ao balcão,
onde um varal improvisado seca as fraldas do bebê.
De súbito, a porta dos fundos vem abaixo com um violento coice de
Vilela. Ele entra transfigurado. Colhe Lena pelos braços e a joga
contra uma cadeira.
VILELA
Senta a bunda aí, que agora você vai
me ouvir.
Vilela ronda a cadeira em círculos, falando com gestos largos.
VILELA
Se eu peguei aquela grana, é porque
vou devolver. Não sou ladrão de
galinha. Não vou me sujar por pouco.
Eu tenho palavra!
LENA
Vá se foder! Eu não sou imbecil!
Porque não me falou?
VILELA
Você ainda não confia em mim.
39
LENA
Que puta prova de confiança, me
assalta no meio da noite e ainda
cobra confiança? Eram minhas
economias pra tirar o pé deste
inferno e...
VILELA
(interrompendo)
Eu emprestei o dinheiro pra a gente
tentar se salvar. Eu fiz pela gente,
pra você, pra criança! Essa porra
tem que acontecer!
Vilela dá as costas e sai pela porta da frente.
Lena permanece imóvel, lutando contra suas próprias dúvidas.
CORTA PARA BLACK
CENA 42 - SALÃO INT. ENTARDECER
DETALHE de um SAPO pulando no centro do salão. Os coturnos
desgastados de Vilela passam rente ao sapo.
Vilela, carregando várias caixas de mantimentos, atravessa o salão
em direção ao balcão. Com sua passagem, descortina a presença de Lena
que o observa impassível. Ele deposita as caixas e continua se
justificando.
VILELA
(animado)
Você tinha que tá lá. Você reclama
daqui? Aquilo é que é terra de
ninguém! Tem que ser muito esperto,
o que conta é a lábia, o jeitinho pra
conseguir as coisas.
Lena acompanha com os olhos a atividade de Vilela que pega seu
canivete, rasga uma caixa e retira um pacote de presente.
VILELA
Isso é pra você!
40
Vilela se afasta, enquanto Lena abre o presente. A CÂMERA fecha em
uma caixinha de música kitsch. MÚSICA da caixinha.
CORTA PARA
CENA 43 - FACHADA/ÁREA DO TANQUE/CASINHA DO GERADOR EXT/INT DIA
SEQUÊNCIA MONTAGEM. Sob o SOM da MÚSICA da caixinha, Vilela e Lena
reformam o visual externo do “Dama de Ouro”. O MONÓLOGO é contínuo
e atravessa o tempo das diversas ações.
1) Vilela prega um degrau solto da escada da porta da frente. Lena
passa ao seu lado carregando caixas de mantimentos para dentro do
salão.
VILELA
(falando alto)
Aí, eu encontrei umas pessoas que
mexem com pedras, peles, jacaré,
coisa assim. Um deles tem um bar, a
gente conversou muito.
2) Vilela, na área do tanque, recolhe entulho e pneus velhos da
casinha do gerador. Fora, Lena o ajuda nesta tarefa. Atividade
frenética.
VILELA
Mulher, música, bebida,... Tem até
umas outras coisas, sabe como é...
É meio barra pesada, mas lá esse
tipo de coisa dá certo!
3) Vilela pendurado em uma escada cambaleante rearranja a cobertura
do telhado do armazém. A CÂMERA corrige para Lena que está logo abaixo
sustentando a escada. Percebe-se que ela ainda está desconfortável.
41
VILELA
E tinha uns caras lá muito mal
encarados. Sabe quem eram os caras?
Fiscais do governo.
Sabe o que eles fazem de verdade?
São pistoleiros! Você encomenda
alguém, dá a foto do sujeito e mais
cinqüenta paus. O serviço é rápido
e limpo!
4) Vilela, em cima do telhado da varanda, repinta de amarelo o nome
“Dama de Ouro” no topo da fachada do bar.
VILELA
(cada vez mais animado)
O tal dono do bar tinha um carro
novinho e nenhum dente na boca!
Nenhum! E o pior é que ele nem sabia
dirigir?
5) Vilela, sujo de tinta, pinta a última parede lateral.
VILELA
Tavam falando lá, que tão querendo
abrir uma madeireira aqui perto,
que esse negócio de ouro já era. Tá
ouvindo, Lena? Uma porção de gente
nova por aqui.
6) Quando Vilela se aproxima com seu pincel do batente da janela,
a CÂMERA revela Lena por trás atenta a tudo. A MÚSICA termina.
CORTA PARA BLACK
CENA 44 - PÁTIO AO LADO DA ESTRADA EXT. CREPÚSCULO
PLANO GERAL do “Dama de Ouro” reformado. A fachada cintila contra
o horizonte. As luzes internas se acendem.
VILELA (OFF)
Lena! Lena!
Vilela, agachado ao pé do mastro, está remendando os últimos fios
elétricos para a reinstalação do luminoso.
42
VILELA
Lena! Leeeena! Vem cá dá uma
olhada...
A porta se abre e Lena a passos tímidos anda até o meio do pátio e
levanta a fronte. RUÍDOS elétricos de ligação.
O brilho das novas luzes do luminoso refletem no seu rosto incrédulo.
PV DE LENA: as luzes do luminoso cintilam num vai-e-vem delicado se
destacando no céu crepuscular.
PLANO GERAL do pátio: Lena está em pé em frente ao mastro, ainda
absorta com o efeito do luminoso. Vilela se acerca dela e pousa a
mão sobre seu ombro. Eles se entreolham.
CORTA PARA
CENA 45 - SALÃO INT.EXT. NOITE
Lena, com relativa delicadeza, está recolhendo as fraldas que estão
penduradas em cima do balcão. Cada uma que é recolhida revela Vilela
que está bebendo e fumando solenemente junto ao balcão.
VILELA
Imagina o freguês comendo batata
frita com catchup e dá de cara com
cocô de nenê estampado na fralda,
não pega bem, né Lena.
Vilela vai até a porta do quarto de Lena e espia dentro.
VILELA
Porra, me esqueci. Como é mesmo o
nome?
LENA
Não precisa se preocupar...
(PAUSA).
... foi tudo bem.
VILELA
Acho que a gente devia levar no
médico.
LENA
Não,...bobagem.
VILELA
43
Olha, que não é não. Não quero que
você fique sem cuidado. Não precisa
criar a criança como bicho. Não
custa.
Lena já com todas as fraldas nas mãos se encaminha para o quarto.
Vilela se desloca para o meio do salão.
LENA
Por quê? Você vai pagar com meu
dinheiro?
Lena some para dentro do quarto.
Vilela com uma expressão algo decepcionada, sorve profundamente o
cigarro. Ouve a porta reabrir e olha em sua direção. Lena reaparece.
LENA
Você pode dormir aqui hoje... Se
quiser...
Lena volta para o interior do quarto, deixando a porta aberta. Vilela
dá um sorriso de consentimento. Ele derrama um gole de pinga para
o santo, e toma o resto.
CORTA PARA
CENA 46 - SALÃO INT. DIA
Vilela quebra o ferrolho de um baú, que Lena trouxe para o meio do
salão. Abre sua tampa e vai para a despensa, para organizá-la.
Lena retira de dentro do baú uma camisa xadrez (que aparecerá na cena
55), volta a vasculhar o baú, até achar a camisa de PM de Mattos.
Vai até Vilela e coloca a camisa por sobre as costas de Vilela,
experimentando-a.
LENA
Não olha.
VILELA
(colocando a mão no nariz)
Puta cheiro ruim!
44
LENA
Ah! deixa de frescura. Sentido!
Fecha os olhos.
Vilela pega do baú uma velha camisa militar, em cuja tarja se lê na
tarja o nome Mattos. Ele a mede por fora do corpo.
VILELA
Uh, que cheiro de rato morto
Lena vira Vilela de frente.
LENA
É cheiro de velho. Pode abrir.
VILELA
Velho era o rato. Qual era mesmo o
número do defunto? Coronel Rattos
ao seu dispor!!
Eles começam a rir num crescendo. O CHORO da criança chama a atenção
de Lena. Ela, ainda rindo, SAI DE CENA. Logo após a saída de Lena,
Vilela desmancha o semblante alegre. Sente um volume no bolso da
camisa de Mattos. Retira o objeto.
DETALHE da mão de Vilela. Vemos uma pepita de ouro.
DETALHE do rosto de Vilela. Seus olhos brilham. A CÂMERA se afasta.
Vilela joga a camisa de volta no baú e o fecha com descaso.
CORTA PARA
CENA 47- SALÃO INT./EXT. NOITE
No meio do salão, uma mesa posta com toalha, dois pratos enfeitados
com arranjo de guardanapo, talheres, um castiçal de velas e copos
de vinho, tudo novo. Lena está sentada junto à mesa vestindo uma roupa
mais “social”. Velas estão dispostas em torno do ambiente.
Vilela, imitando um garçom, usando um colete e tendo uma toalha no
braço se aproxima por trás. Serve vinho na taça de Lena e ela lhe
retribui com um sorriso delicado, meio desajeitada com a
brincadeira.
45
LENA
Não olha pra trás, seu chefe tá
olhando. Por que não tira o dia de
folga e janta comigo? Eu tô
convidando, mas é o homem que paga.
Vilela se dirige a cadeira vazia.
VILELA
O cavalheiro fez reserva?
Como? Então por favor comandante,
queira esperar a sua vez.
Vilela sorri, puxa a cadeira para si, senta-se à mesa Delicadamente,
ele retira o guardanapo de Lena de cima do prato revelando a pepita
de ouro (Cena 46). Lena se surpreende.
LENA
Aonde você arranjou isso?
VILELA
Herança do Mattos.
Lena passa a pepita na língua lascivamente.
VILELA
Parceira, nosso futuro está pronto!
Um crescente BOLERO se sobrepõe ao diálogo dos dois. A CÂMERA vai
se afastando até sair pela porta da frente do salão
VILELA
Isso aqui ainda vai dar muito
dinheiro, Lena. Escreve o que eu tô
te falando. Vai ter tanta gente, que
a gente não vai ter tempo de contar
a grana.
LENA
(irônica)
Só que dessa vez eu preciso arranjar
um lugar mais seguro para esconder
tanto dinheiro!
Os dois riem e brindam o momento.
CORTA PARA
CENA 48 - SALÃO INT. NOITE
46
ESCURIDÃO. Um pequeno foco de luz percorre o balcão. O SOM DO BOLERO
continua a ser ouvido.
Lena, subitamente, emerge por detrás deste, com papel higiênico
enrolado no pescoço como se fosse um echarpe, dança o bolero,
afetando sensualidade, se insinuando à invisível audiência.
Aparenta estar levemente alcoolizada.
Vilela, sentado, segue a performance de Lena com uma lanterna. A
ATMOSFERA é surreal.
Lena desce do balcão e, lânguida, vêm em direção a Vilela.
DETALHE da mão de Vilela desligando o radinho de pilha. Cessa o
bolero, quebra-se o encanto.
Vilela levanta-se. Agora ele e Lena estão frente à frente.
LENA
O meu Capitão está muito feliz hoje.
Beijam-se apaixonadamente.
CORTA PARA BLACK
CENA 49 - FACHADA EXT. TARDE
Lena está costurando a barra de uma calça masculina, sentada na
cadeira de balanço. A CÂMERA a deixa e lentamente vai revelar Vilela
sentado no chão, debruçado sobre um mapa do Brasil e lendo um trecho
de um guia de viagem.
47
VILELA
(lendo)
A fascinante paisagem da Região
Norte do Brasil, possui mistérios
e perigos que o homem branco ainda
não conhece. À oeste erguem-se as
fronteiras inóspitas com o resto
do continente. Para quem aprecia a
aventura de um mundo primitivo,
esta área é um verdadeiro paraíso.
Vilela toma mais um gole de cerveja e seu olhar se perde no infinito.
Lena rompe o fio da costura com a boca.
LENA
Achei que era o paraíso. Nunca tinha
saído de São Paulo. O Brasil, pra
mim, era aquele negócio de
plástico, que a gente bota o lápis
dentro pra desenhar o contorno do
mapa. É tudo muito verde, verde,
verde. Só quando tem queimada, a
gente pode ver o que tem dentro do
mato fechado.
Lena tenta encaixar a linha dentro da agulha.
DETALHE da mão de Vilela demarcando com um círculo vermelho no mapa
o lugar em que eles estão.
Vilela se levanta, vai para o centro do pátio e olha para cima,
desafiando o forte sol e começando a girar.
PV DE VILELA: os raios do sol brilham no ESPECTRO DA LENTE DA CÂMERA.
VILELA (OFF)
Lena, vem ver a latitude 9!
Lena, vem ver a latitude zero!
Lena, você sabia que a gente é uma
merdinha nesse mundão!!!
Lena sorri ao ver Vilela rodopiar.
GRANDE PLANO GERAL do “Dama de Ouro” perdido na imensidão do garimpo,
onde Vilela é somente um pontinho negro dando voltas em si mesmo.
CORTA PARA
CENA 50 - FACHADA EXT. NOITE
48
As luzes do luminoso, azul, vermelha e amarela, banham o rosto de
Vilela, que permanece encostado na soleira da varanda, absorto em
seus pensamentos. Ele está com os braços cruzados sobre o peito, os
pés e os joelhos unidos. Tenso. Sobre o chão, ao seu lado, três
garrafas de cerveja vazias e uma outra aberta pela metade.
Lena vem até a porta do salão, vestindo um chale antigo, recosta-se
no batente, observando o perfil de Vilela. Ela está iluminada, pelas
costas, pela luz do salão e, pela frente, pelo pisca alternado do
luminoso.
LENA
(pausa)
Frio?
VILELA
Como?
LENA
(maternal)
Tá com frio?
VILELA
(sem tirar os olhos do luminoso)
Não, não.
Lena senta-se ao lado de Vilela e estende o chale sobre os dois.
SILÊNCIO. Eles admiram durante um longo tempo o céu estrelado e a
luminosa lua minguante que nasce no meio da floresta. Lena,
sutilmente, recosta sua cabeça no ombro de Vilela.
CENA 50A - CÉU ESTRELADO EXT. NOITE
Céu estrelado e lua minguante sobre a floresta.
49
LENA (OFF)
Tá na hora da gente tentar outra
coisa.
(pausa)
Vamos pra bem longe daqui? Começar
do zero.
Vilela não responde, dá um meneio de corpo tirando seu ombro como
apoio da cabeça dela. Pega a garrafa e toma um grande gole de cerveja,
demonstrando que não quer tocar no assunto.
CORTA PARA BLACK
CENA 51 - SALÃO INT. DIA
DETALHE de peças da espingarda sendo limpas pelas mãos de Vilela.
Uma garrafa de bebida está ao lado, sobre o tampo da mesa
Junto à mesa e compenetrado como um bom soldado, ele lubrifica a arma
desmontada.
Lena traz duas xícaras de café fumegante e se senta na sua frente,
atenta à sua destreza. Ele começa a remontá-la. Depois de longo
silêncio e alguns goles de café quente, ela volta ao assunto.
LENA
A gente precisa ir embora e você não
resolve. Faz mais de uma semana que
eu tô esperando uma resposta.
Vilela se ajeita na cadeira, espreguiça-se e volta à sua atividade
sem responder.
LENA
Porra, a gente já tentou tudo. Isso
aqui não dá certo! Vilela, eu sei
que a gente pode começar de novo,
sei lá, qualquer outro lugar, menos
aqui...
VILELA
Você sabe que eu tenho que ficar
escondido. Em que maldito lugar
você acha que eu vou ter paz? E aqui,
é só dar mais um tempo.
50
LENA
Esperar mais o quê?
Vilela pára e olha nos olhos de Lena que agora está recostada na mesa
ao lado.
VILELA
(ríspido)
Por isso que esse lugar nunca deu
certo! Você não tem paciência.
LENA
Paciência? Paciência, eu tenho pra
ver você se acabando, bebendo que
nem um porco, todo dia. E tem mais,
o bebê precisa...
De súbito, Vilela, numa ação relâmpago, imobiliza Lena com sua mão
esquerda e pede silêncio.
VILELA
Shiiiiii!
DETALHE DE UM ESCORPIÃO, sobre a mesa onde está apoiada Lena,
chegando perigosamente perto de seu corpo.
Vilela, numa ação rápida, acerta o bicho com a coronha da espingarda.
Lena, assustada, corre para trás de uma cadeira.
Vilela, apanha o escorpião morto entre os dedos, joga-o pela janela
e se volta para Lena.
VILELA
Tá bom, Lena. A gente vai embora!
Lena toma um gole de café.
CORTA PARA
CENA 52 - SALÃO INT. MANHÃ
Vilela, suando, em atividade frenética, finaliza a arrumação de
malas e bagagens para a mudança.
Lena traz uma última trouxa de roupa que soca dentro do baú,
fechando-o com dificuldade.
Vilela arrasta o pesado baú na direção da porta de saída, passa por
Lena e eles trocam um olhar cúmplice.
51
Um RUÍDO surdo crescente interrompe a ação e ecoa por todo o salão
do armazém.
Eles se entreolham desentendidos. O RUÍDO intensifica-se.
O bebê começa a chorar. O salão estremece e eles correm para fora.
CORTA PARA
CENA 53 - PÁTIO EXT. MANHÃ
Lena e Vilela saem para o pátio.
PV DE LENA E VILELA: um pequeno e barulhento avião faz vôo rasante
à frente e acima do Dama de Ouro.
O avião, em seguida, aterrissa na estrada ã frente do
estabelecimento, levantando imensa nuvem de poeira vermelha. Faz a
volta logo adiante e vem estacionar no pátio à frente deles. A porta
do aparelho se abre e um homem, cujo rosto ainda não vemos, desce,
começando a se aproximar.
Lena e Vilela boquiabertos permanecem estáticos.
É MATTOS, quem, calçado em suas botas, com um boné na cabeça e
carregando uma pequena mochila, caminha a passos firmes para a
varanda, onde está o casal.
Passa por um atônito Vilela sem cumprimentá-lo, pára rapidamente à
frente de Lena, junto a varanda, e lhe faz um comprimento tirando
os óculos escuros.
MATTOS
Como vai Helena?
Lena, assustada, parece estar vendo um fantasma. Mattos entra no
salão.
CORTA PARA
CENA 54 - SALÃO INT. MANHÃ
Mattos anda pelo salão, passando-o em revista. Finalmente, se senta
numa mesa, deposita sua mochila no chão, bate a poeira do boné e
coloca os pés pra cima apoiados em uma cadeira.
52
Lena entra e se dirige para trás do balcão. Nervosa, rearranja as
coisas nos mesmos lugares. Evita encarar Mattos. Vilela, respeitoso,
fica parado na soleira da porta, observando a constrangedora
situação. A atmosfera pesa. Um bizarro estranhamento toma conta do
lugar.
MATTOS
(irônico)
Humm... acho que cheguei na hora
certa...
Lena cria coragem e olha Mattos firmemente.
LENA
(forte)
O que é que você veio fazer aqui?
Mattos e Lena sustentam o olhar sem piscar. Finalmente, Mattos quebra
a tensão.
MATTOS
Este mês o trem pagador veio fazer
o depósito em casa.
Mattos retira de seu bolso um maço de dinheiro enrolado em um elástico
e o joga sobre a mesa.
MATTOS
Serviço de primeiro mundo. Rápido e
fácil.
Com o canto do olho Lena observa o dinheiro e volta a limpar o balcão.
MATTOS
(sarcástico)
Viajei tanto para te ver e você não
me dá nem um sorriso? Tá diferente,
tá mais gordinha...
Lena pára tudo que está fazendo, limpa as mãos num pano de prato,
dá a volta pelo balcão e vem se sentar se na frente de Mattos que
tira os pés da cadeira.
LENA
Perdeu seu tempo, estamos fechando.
Você é “nosso” último cliente.
53
MATTOS
Ah, esqueci que por trás desse
rostinho lindo tem um bicho do mato.
Vilela se aproxima dos dois tentando amenizar o clima.
VILELA
Comandante, que bom, pensei que
nunca mais...
MATTOS
(cortando)
E aí, não cumprimenta mais os
amigos.
(pausa)
Pelo que estou vendo deu tudo certo.
Não te falei? A Lena tem um coração
de manteiga, é só tratar bem...
VILELA
(constrangido)
Não é isso, Comandante...
MATTOS
E aí? Não vai me servir? Minha
garganta tá seca. Êta, terrinha
quente.
Vilela permanece de pé ao lado de Mattos que o empurra para pegar
sua cerveja.
MATTOS
Vamos homem, copo e cerveja!
Vilela se vira servilmente, quando Lena o segura com força pelo
braço, fazendo-o sentar-se.
LENA
Deixa que eu pego!
Lena se dirige para a geladeira. Vilela, sem graça, mal consegue
encarar Mattos que confortavelmente acende uma cigarrilha.
54
MATTOS
(irônico)
Viu, Lena, o Vilela sempre foi muito
disciplinado, eu sabia que ia dar
tudo certo...
(olhando para os quatro cantos)
O lugar até que ficou bonitinho.
Lena deposita rudemente uma cerveja e dois copos sobre a mesa, Vilela
se antecipa servindo os dois copos.
MATTOS
(olhando para ela)
Ah, Lena eu já lhe apresentei o cabo
Vilela?
Lena encara Vilela mostrando estranheza, Vilela desvia o olhar.
MATTOS
Ah, é claro, que esquecimento o meu:
Lena, Cabo Vilela. Cabo Vilela,
Lena.
Lena olha Vilela com raiva.
LENA
Prazer, capitão...
Lena sai e cria-se um longo silêncio.
MATTOS
(quebrando o clima)
Meio quieto aqui, né? Que horas
começa a agitação? Música,
mulheres!
Mattos levanta um brinde.
MATTOS
Saúde amigos, muitos anos de vida ao
novo “Dama de Ouro”...
CORTA PARA
55
CENA 55 - SALÃO INT. NOITE
DETALHE do rádio sobre a mesa. CHIADO. TRAVELLING-OUT. A CÂMERA
revela diversas garrafas de cerveja vazias sobre o tampo da mesa,
onde Mattos está apoiado, adormecido. O CHIADO do rádio se mistura
ao CHORO da criança. Vilela varre o chão e Lena está lavando pratos.
Mattos acorda.
MATTOS
Olha Lena, acho que tem uma criança
chorando aí...
Lena vai em direção ao quarto. Mattos volta-se para Vilela,
levantando uma das garrafas vazias.
MATTOS
E aí colega, não divide uma?
Vilela abandona a vassoura, apanha outra cerveja e a leva até a mesa
de Mattos. Senta-se frente a frente com Mattos. Estranhamento. LONGA
PAUSA
Depois de criar coragem, Vilela tenta iniciar a conversa.
VILELA
Coronel, foi bom o senhor ter
chegado. Tava louco pra saber da
minha...
MATTOS
Bonita camisa, cabo! Você deu tempo
para o presunto esfriar?
VILELA
(toca-se da camisa de Mattos)
Desculpe senhor. Mas é que... a Lena
disse que...
MATTOS
Hum... Ela não pensou duas vezes em
se livrar do passado. Mas e aí cabo,
me conta, gostou do material? Ah...
Ah... Ah... Vamos, beba homem, não
precisa ficar encabulado. Neste fim
de mundo eu já teria comido até a
minha avó.
(fazendo o sinal da cruz)
Que Deus a tenha... Ah... Ah...
Ah...
56
VILELA
(nervoso)
Mas comandante, eu quero saber se eu
posso voltar...
MATTOS
(interrompendo)
Agora, me diz uma coisa, ela também
lhe deu as minhas cuecas?
Espero que você esteja honrando
elas. Talvez tenham ficado um pouco
folgadas em você, hein, cabo. Tá
criando o bicho solto... Ah...
Ah... Ah...
Vilela sorri amarelo com a gracinha de Mattos e se levanta.
VILELA
Senhor, eu vou dormir. Tô muito
cansado.
MATTOS
Tá dispensado cabo.
(olha o ambiente, muda o tom)
Mudança sempre dá muito trabalho.
Aonde é que vai ser o futuro ninho
do amor?
Vilela não responde e silenciosamente se dirige para o quarto. Quando
chega na porta é surpreendido pelo chamado estridente de Mattos.
MATTOS
Cabo! Eu fiz uma pergunta.
VILELA
(forte)
Senhor, fale um pouco mais baixo,
assim o senhor vai acordar o seu
filho.
Vira-se e fecha a porta do quarto. Reação de Mattos.
CORTA PARA
CENA 56 - AÇUDE EXT. MANHÃ
DETALHE da superfície do lago que reflete a paisagem do nascer do
dia. Uma pequena pedra desmancha esta imagem, formando pequenas
ondas concêntricas.
57
É Mattos, sentado no píer do açude, quem joga pedrinhas no lago.
Vilela chega pela beira do lago e se mantém a uma distância
respeitosa.
MATTOS
(sem olhar para ele)
Descansar!
VILELA
(incomodado)
Coronel... o senhor tem olhado meu
caso? A poeira já baixou?
MATTOS
(olha para ele, autoritário)
Você não entendeu Vilela. Você tá
fodido! A situação só piorou. Tá
começando a feder. Vou te
avisando; você só volta quando eu
mandar, entendeu?
(gesto de degola)
Se voltar agora, dança! E tá
proibido de ligar pra mim, meu
telefone tá grampeado.
VILELA
Mas coronel...
MATTOS
(irascível)
Você fica o tempo que precisar,
Isso é uma ordem!.
Mattos volta-se para o lago, e atira mais uma pedrinha.
MATTOS
(tom mais suave)
Vilelinha, você não vai se
arrepender, amigo. Aqui ainda
tem muito ouro.
DETALHE da pedra afundando na água.
CORTA PARA
CENA 57 - MOINHO DO GARIMPO/CASA DE FORÇA/GALINHEIRO EXT. MANHÃ
Lena recolhe alguns ovos dentro do galinheiro. Mattos se aproxima
por trás e a rodeia. Pega um ovo do cesto de Lena, quebra-o e o toma
cru.
58
MATTOS
Gemada engorda e faz crescer.
LENA
(deixando os ovos de lado,
olha fixo para ele)
Olha Mattos, suas piadinhas já não
têm mais graça. Você me largou com
filho na barriga e disse pra me
virar. E é isso que eu tô tentando.
Por isso, desinfeta, cai fora!
Lena quer sair do lugar e força a passagem. Mattos impede.
MATTOS
Você sabe que eu sempre gostei de
você assim, mais bravinha. O ódio
faz umas covinhas lindas no seu
rosto.
Mattos pega as mãos de Lena.
MATTOS
Você não merece essa vida, olha suas
mãos, elas estão apodrecendo.
Mattos tenta levar a mão de Lena em direção ao seu pênis.
MATTOS
Lembra dos velhos tempos?
Lena se livra de Mattos e Deixa o ambiente.
MATTOS
(voz de comando)
Lena!
Lena pára automaticamente.
59
MATTOS
Você acha que eu vim pra cá pra me
sujar com biscateira. Você e este
matadorzinho se merecem. Só vim
aqui pra te avisar que você não vai
ver mais a cor do meu dinheiro. A
fonte secou, benzinho.
CORTA PARA
CENA 58 - PÁTIO/VARANDA EXT. MANHÃ
Vilela está sentado na soleira da varanda, mastigando um raminho de
capim e esculpindo com seu canivete um pedaço de pau, observando a
movimentação à sua frente.
É Mattos quem está lidando com o motor do avião estacionado à frente
do Dama de Ouro. Vai em seguida até a cabine do aparelho e aciona
as hélices, que começam a rodar.
O RUÍDO do do avião chama a atenção de Lena, que surge na varanda.
Pára próximo a Vilela.
Mattos apanha um grande envelope meio amassado de dentro da cabine
e caminha na direção dos dois. A CÂMERA o acompanha até ENQUADRAR
também Lena e Vilela. Mattos consulta seu relógio.
MATTOS
(falando alto)
Senhores! Tudo que é bom dura pouco.
Chegou a hora da despedida. Por
favor, nada de lágrimas. Odeio
sentimentalismo barato. Mas,
antes, vocês tem que aceitar meu
presente de casamento!
Vilela se levanta, Mattos estende o envelope amassado em sua direção
e na de Lena.
MATTOS
Pode abrir.
(voltando-se para Lena)
Chega mais perto.
Lena se aproxima e apanha o envelope . Ela e Vilela ficam lado a lado,
de frente para Mattos.
A CÂMERA destaca Mattos.
MATTOS
60
(pomposo)
Eu, como padrinho deste feliz
casal, gostaria de neste momento
transmitir a escritura de posse
desta porra... do Garimpo “Dama de
Ouro” e que você, Lena, você Vilela
e essa criança... sejam muito
felizes. Eu vou dar uma mijada.
Mattos entra no salão. Lena abre o envelope, retirando dele uma
escritura de imóvel.
Lena e Vilela se olham desentendidos. Ao fundo, vemos as hélices do
avião girando e fazendo GRANDE RUÍDO. Vilela apanha e brande o
documento.
VILELA
(falando alto)
Que porra é essa?
LENA
(também alto)
Você que devia saber. Fui eu que
fiquei babando atrás do
patrãozinho? Servindo cerveja,
limpando o chão onde ele pisa?
VILELA
(duro)
Queria se livrar, me empurrou pra
cima de você.
LENA
(magoada)
Que é que ele te falou, hein? “Vai
lá! Vai lá que tem uma trouxa, que
vai te dar casa, comida e uma boa
trepada enquanto te conta a estória
de amor da vida dela”.
De súbito, Lena percebe a mancha úmida de leite em volta de seu seio.
Pára, olha para o interior do salão e sai correndo para lá, deixando
Vilela sozinho.
CORTA PARA
61
CENA 59 - SALÃO INT. DIA
Lena chega esbaforida no momento em que Mattos está em frente ao seu
quarto, olhando na direção do bebê e limpando suas mãos em uma fralda.
MATTOS
Não achei a toalha...
Lena, mais calma, se interpõe entre Mattos e a porta do quarto.
LENA
É a sua cara, né?
Lena vira-se e fecha a porta na cara de Mattos. Mattos apanha sua
mochila e sai.
CORTA PARA
CENA 60 - PÁTIO EXT. DIA
GPG do Dama de Ouro. Vemos Vilela ao lado do mastro e Lena em frente
à varanda como dois pontinhos negros. O Avião de Mattos levanta vôo
ao fundo.
CORTA PARA BLACK
CENA 61 - SALÃO INT. DIA
O salão está novamente arrumado para receber clientes, deixando
perceber que a mudança foi adiada. Vilela, junto ao fogão, mexe em
panelas. Em seguida, apanha uma garrafa de pinga, um copo, serve-se
e bebe.
Vilela está eufórico, porém compenetrado. De sob o balcão, ele apanha
um queijo meia cura e corta-o no sentido do raio; dispõe
carinhosamente os pedaços num prato e os cobre com uma toalhinha de
tule.
Lena cruza o ambiente carregando uma bacia pequena de fraldas sujas.
Percebemos que está chateada. Determinada, ela deposita com
violência a bacia ao lado do prato de queijo.
62
LENA
Você não entendeu nada! A gente tá
falando disso já faz tempo. Não
entra na minha cabeça. Primeiro
você some, depois volta todo
bonzinho, aí resolve que vai embora
comigo e agora quer ficar?!
VILELA
Lena? Agora isso daqui é só nosso.
LENA
Nosso? O que é que nós vamos fazer
com isso, hein, capitão?
VILELA
Você não vai se arrepender. Aqui
ainda tem muito ouro.
LENA
Você tá louco? Já arrancaram
tudo...
VILELA
Você não acredita em mim. Você torce
pra gente se fuder. É a primeira vez
que eu tenho alguma coisa que é
minha. Lá fora, eu não sou ninguém!
LENA
Você é um covarde, Vilela.
Fraco e covarde!
Lena o fulmina com os olhos e sai com a bacia de fraldas sujas.
Vilela a observa por um tempo e volta com redobrado entusiasmo aos
seus afazeres. Distribui laranjas e mamões em cestos atrás do balcão.
Organiza insistentemente os objetos ao seu redor. Toma outra
talagada de pinga.
CORTA PARA
CENA 62- SALÃO/LUMINOSO INT.EXT. NOITE
As luzes internas estão apagadas e o luminoso está aceso. Um pesado
caminhão se aproxima, ouve-se o RUÍDO de freadas a ar, como se ele
fosse parar.
A porta do banheiro abre-se bruscamente e Vilela sai dali
atabalhoado, erguendo a calça, arrumando a camisa dentro dela.
Devido à escuridão, tromba em caixotes e banquetas. Acende as luzes,
63
empertiga-se. O caminhão segue viagem, o RUÍDO vai diminuindo até
desaparecer na distância.
Lena sai do quarto ainda de cabelo desgrenhado, arrancada do sono
pelo barulho promovido por Vilela. Pára encolhida junto ao balcão.
VILELA
Já te falei, tem que deixar a luz
acesa!
Lena fuzila Vilela com seu olhar.
VILELA
Tá vendo, perdi o cliente. Viu tudo
apagado e foi embora.
A criança começa a chorar, Lena volta para o quarto. Vilela olha para
a grande quantidade de comida disposta por todos os lados. Chuta uma
cadeira refletindo sua raiva.
A criança CHORA cada vez mais violentamente. Ele abre uma cerveja,
vai até a porta do quarto e a encosta. Gesticula em direção ao choro,
praguejando.
CENA 62A - FACHADA/LUMINOSO EXT. NOITE
O luminoso do “Dama de Ouro” pisca alternadamente. Vemos a dança
errática de MOSQUITOS e MARIPOSAS, em torno das luzes.
Outro caminhão traz e leva seus RUÍDOS. Vilela não encontra posição
para se acomodar, muda de cadeira em cadeira inquieto e impaciente.
O CHORO da criança continua compulsivo.
Vilela gira por todo o salão olhando raivosamente para o quarto.
Senta-se. Lena sai do quarto e se aproxima do fogão. Põe azeite numa
caneca e a aquece. Troca os pés de apoio, balança-se, esperando o
óleo esquentar na caneca sobre a chama.
Vilela, do outro lado do balcão, provocadoramente, fica batendo na
lâmpada que está em frente ao seu rosto. As sombras de ambos dançam
nas paredes do salão.
Lena ignora a provocação e com uma pequena colher de café recolhe
o óleo quente. Vai para o quarto.
A lâmpada balança, iluminando cada vez uma metade do rosto de Vilela.
CORTA PARA
CENA 63 - LAVRA EXT. DIA/CREPÚSCULO
64
Vilela emerge de um dos buracos da lavra, totalmente sujo de lama.
Ao lado, um enxadão permanece fincado na terra. Com grande esforço
começa a rodar a manivela que trás o balde cheio de barro e pedras
para a superfície. Quando o balde aflora, ele o agarra e o descarrega
numa pilha de lama. Munido de uma peneira e uma mangueira, começa
a lavar o material.
PASSAGEM DE TEMPO. DIVERSOS ÂNGULOS da mesma ação.
Silhueta de um cansado Vilela se destaca contra o céu crepuscular,
bateando a lama. O dia morre.
CORTA PARA BLACK
CENA 64 - SALÃO INT. MANHÃ
O restaurante está aberto deixando a luz do dia invadi-lo totalmente
por janelas e portas. A criança CHORA baixinho.
Vilela, com cara de quem dormiu mal, está sentado numa mesa e,
primeiro com as mãos depois com o lençol que trás enrolado ao corpo,
procura tapar os ouvidos. A maneira como enrola a cabeça no lençol
a deixa imensa e, como cobre-lhe também a visão, tem que tatear a
mesa para achar a garrafa de pinga e levá-la à boca, bebendo do
gargalo. Faz calor. Ele está apenas de cuecas. O CHORO DO BEBÊ é agora
cortante e constante.
PASSAGEM DE TEMPO.
Vilela joga mata-mata sozinho na mesa de bilhar. Bêbado, ele só
consegue fazer espirrar as bolas.
CORTA PARA
CENA 65 - MOINHO DO GARIMPO/CASA DE FORÇA EXT. TARDE
DETALHE de um martelo malhando um ferro aquecido sobre uma bigorna.
Vilela, barba por fazer, sem camisa e suando muito, tenta consertar
a peça.
Lena sai da casa de força e passa por Vilela, carregando um balde
de leite em direção ao salão.
Vilela enxuga o suor nas costas do braço e descarrega sua impaciência
no ferro. Olha para Lena.
VILELA
Lena? Leeena?
65
Ela o ignora por completo e continua sua caminhada.
VILELA (OFF)
Lena? Leeena?
Vilela a segue por trás e enfia o ferro quente no leite. Lena
assusta-se largando o balde. O líquido derrama. Lena recua
assustada.
Vilela atira-se sobre ela, derrubando-a. Crava-lhe os joelhos entre
as pernas, abrindo-as. Ela resiste o quanto pode. Ele arranca o seu
vestido, rasgando-o.
Ele torce seu braço violentamente, imobilizando-a e a deixando de
bruços. Ele a penetra por trás no meio do chão batido de terra
vermelha. Vilela, violento e rápido, goza com movimentos grotescos.
CÂMERA ALTA. Vilela, exausto, deitado de barriga pra baixo, em cima
dela, com os braços em cruz.
CORTA PARA
CENA 66 - CAMPO/FUNDOS EXT. NOITE
TRAVELLING IN lento. Lena, ainda marcada por alguns hematomas, é
iluminada pelo crepitar das chamas de uma grande queimada. Está com
seu BEBÊ no colo --aqui visto pela primeira vez--, coberto com o xale
de tricô azul. Está encolhida, sentada na posição da Madona, perdida
em seus pensamentos. Não está chorando, mas seus olhos demonstram
enorme tristeza.
CORTA PARA BLACK
CENA 67 - PÁTIO EXT. DIA
Um caminhão vai desaparecendo à distância, levantando muita poeira.
Vilela, embriagado e cada vez com pior aspecto, sai da porta do salão
de braços abertos. Salta grotescamente, esmurrando o ar. Cai de
joelhos junto à margem da estrada.
VILELA
(urrando)
Filho da Puta! FILHO DA PUTA!
Ao fundo, a criança TOSSE assustada e dispara um CHORO HISTÉRICO.
Lena, ainda com leves marcas de hematoma, aparece na porta do salão,
olhando Vilela com desprezo.
VILELA
66
Que é que eles querem? O lugar é
limpo, a comida é boa. Vão ter que
comer poeira nessa porra de
estrada.
Lena permanece na soleira da porta.
Vilela começa outra vez a esbravejar contra o mundo, está insano.
Tenta reerguer-se e perde o equilíbrio.
VILELA
Olha a minha cara! Olha pra mim! Me
fala, o que é que tá errado?
Levanta com algum esforço e, tropegamente, caminha em direção a Lena,
que continua imóvel olhando o show de Vilela.
VILELA
A gente precisa de um telefone.
Nunca vi correio por aqui. Que porra
de lugar é esse? Olha pra mim!
LENA
Por que você não vai embora? Cai
fora!
VILELA
Eu tentei me mandar daqui. Queria
sumir pra bem longe mas o Coronel
mandou eu ficar aqui...
LENA
O Mattos?
VILELA
Liguei pra ele. O desgraçado falou
que me entregava pros homem se eu te
largasse...
Lena desfere uma violenta bofetada na cara de Vilela que cai
estatelado na poeira.
CORTA PARA
CENA 68 - SALÃO INT. NOITE
Vilela está sentado numa mesa, comendo compulsivamente. Juntou
vários pratos e se serve de todos de modo atabalhoado, deixando cair
as migalhas. Come muito, intercalando com grandes goles de cerveja
67
que lhe escorrem pelo peito. Concentra-se nos próprios gestos e
ruídos selvagens.
Lena aparece na fresta da porta e o observa com desprezo.
Vilela ainda com a boca cheia, vira-se para a porta.
VILELA
(violento)
O que tá olhando? Nunca viu? Eu tô
comendo?!
A porta do quarto se fecha.
Vilela ainda come e bebe por algum tempo. Começa a sentir falta de
ar. Abre uma janela, põe metade do corpo para fora, volta. Ofega.
Derruba alguns pratos de comida no chão.
Pateticamente, tenta pegar os pratos que derrubou, abaixa-se,
terminando por cair sobre a sujeira. Seus grunhidos e movimentos
revelam a grande quantidade de comida que ingeriu. Rende-se ao peso
do estômago deitando-se de costas.
CÂMERA ALTA revela Vilela estendido no chão, de braços abertos em
cruz, rodeado por restos de comida e sujeira. Sua respiração é
sonora, um fio.
CORTA PARA
CENA 69 - SALÃO INT. NOITE
DETALHE da lâmpada acima do balcão piscando. Finalmente, ela apaga.
O BARULHO SURDO do gerador cessa.
Vilela, em péssimo aspecto, na penumbra, sentado numa mesa, cercado
por garrafas de cervejas vazias, ergue a cabeça lentamente. Caminha
cambaleante até o fundo do balcão, pega uma vela e a acende.
RUÍDOS de vento e de um caminhão pesado passando ao longe.
Os ventos se tornam cada vez mais fortes, até que abrem a porta com
violência, apagando a vela.
Vilela volta-se para o balcão, apanha mais velas e as traz para a
mesa. Acende duas novas velas, cola-as com sua própria parafina no
tampo. Um forte vento apaga-as novamente. Ele torna ao balcão, pega
duas novas velas, as equilibra sobre o tampo e tenta acendê-las até
conseguir. Vai até a porta e a fecha.
De repente uma das janelas se abre violentamente com um pé de vento
e novamente as velas se apagam.
68
Ele caminha em direção à janela e com alguma força consegue fechá-la,
confere as trancas das janelas e retorna ao balcão.
O tremor das mãos de Vilela dificulta o reacender de todas as velas
postadas no balcão e na mesa. Antes da última, ele percebe que está
sem fósforos. Joga a caixinha no chão com desleixo e reaproveita o
último palito para acender a última vela. Com ar de satisfação
patética caminha vitorioso para sua mesa para saborear mais um gole
de cerveja. Inexplicavelmente, as velas começam a tremular, fazendo
a luz do lugar ganhar formas irregulares, criando uma dança de
sombras nas paredes.
O rosto de Vilela reflete sua tensão.
De repente, todas as velas se apagam. Com um urro Vilela atira o copo
ao longe, violentamente. A criança começa a CHORAR.
CORTA PARA
CENA 69A - CRATERA EXT. DIA
Vilela, bêbado, caminha tropeçando em suas próprias pernas.
VILELA
(berra aos ventos)
Eu sou um homem com muitas idéias!
Com muitas idéias!
Resvala nas encostas erodidas da cratera, deixa cair a garrafa de
pinga já quase vazia que levava nas mãos. Murmura sons
incompreensíveis e continua a andar a esmo, perdido em seu delírio
pessoal.
VILELA
Eu sou um homem de muitas idéias!...
CORTA PARA
CENA 70 - SALÃO INT. NOITE
DETALHE do leite talhado fervendo na caneca.
Lena se serve do leite em uma xícara, percebe que está estragado e
o joga pia abaixo. Volta-se ao armário da dispensa e percebe que o
estoque está depauperado, são poucas latas de alimento enferrujadas,
muita sujeira e algumas BARATAS.
A criança CHORA acintosamente.
69
Vilela, jogado numa mesa, apoiado sobre os cotovelos, bebe mais um
copo de pinga. Ele parece não dormir há vários dias, o que, somado
ao fato de estar alcoolizado, lhe atribui um aspecto horrível.
Lena consegue encontrar na fruteira uns maracujás azedos, ainda em
bom estado. Corta-os e começa a passá-los em uma peneira.
VILELA
(irônico)
As mães sempre acham que os filhos
tem dor. Um bando de bundonas. Vocês
acreditam em tudo. Ele tá é com
manha. Já pensou nisso? É só manha!
Lena continua sua ação e não dá a mínima atenção. Vilela segue
“filosofando” sobre educação infantil.
VILELA
Eu coloquei dois filhos no mundo,
ali na ponta do laço. Comigo não tem
essa de... quero isso, quero
aquilo... O pai tem que saber a hora
certa de mostrar autoridade. Não
pode deixar montar. Tem que mostrar
quem manda no galinheiro.
Lena continua a preparar o suco e a medida que seu desabafo for
crescendo, vai espremer os maracujás na peneira com mais força.
70
LENA
(explodindo)
Tua sabedoria me cansa. Me enjoa
cada coisa que você fala. Você sabe
tudo, né?
(pausa)
Que é que você sabe de chorar? Você
não é homem? H o m e m! Só porque tem
um pau aí no meio das pernas, fica
cagando regra! Cabo..
(pausa)
... cabo matador! Esse monte de
cadáver que você fez tá te matando,
tá te comendo por dentro. Você só
sabe viver assim, de tocaia, pra
meter bala no meio da testa de gente
inocente!
Vilela perde a paciência e dá um grande murro no tampo da mesa perto
do balcão. Pratos e garrafas voam para longe. A criança aumenta o
VOLUME de seu choro.
LENA
(histérica)
Essa é a conversa que você entende.
P o r r a d a!... Tudo o que você sabe
é foder com a vida dos outros!
Desgraçado!
Raivosamente, Vilela estoura uma garrafa contra a mesa e armado com
o caco que lhe sobrou na mão, faz menção de se dirigir ao quarto do
bebê.
Lena diante da ameaça iminente a seu filho corre em direção ao quarto,
trancando-se lá.
Vilela chega à porta.
VILELA
(grita)
Essa criança só veio pra
atrapalhar! Só deu azar!
Vilela desiste do quarto, tapa os ouvidos e, de maneira caricata,
imita o choro da criança misturado aos seus próprios grunhidos. Vai
para trás do balcão pega objetos e materiais de limpeza. Passa a
limpar o bar de modo compulsivo. Todas as suas ações são praticadas
com muita atrapalhação e o local se torna cada vez mais caótico. Estas
tarefas são abandonados todas pela metade. Lava louças e quebra
alguns pratos, sem se importar. Pega os restos e os põe para secar.
71
Limpa o balcão, derrubando coisas, perdendo outras. De quatro, passa
pano úmido no chão, furiosamente. Tenta recolher toda sujeira que
espalhou pelo salão. Ao tentar ajeitar algumas mesas, derruba
outras.
VILELA
(louco, ofegante e apressado)
Arrumação. Limpeza e arrumação,
esse é o segredo do negócio. Não dá
pra viver num chiqueiro. Ninguém
pode trabalhar numa sujeira dessas.
Isso é pra um cara que não se dá
valor. Eu preciso tirar toda essa
sujeira. Toda a sujeira. Esse
cheiro de mijo, de cocô. Tudo isso
vira o estômago da gente. Água. Água
e sabão. Água e sabão e pano e muito
braço. Isso aqui ainda vai brilhar
muito.
Vilela se empertiga todo.
VILELA
“Soldado, as latrinas tem que estar
brilhando, quero ver tua cara
refletida na privada! Quero que
você limpe esse chão com a língua!”
Vilela se levanta lentamente olhando para a porta do quarto. O CHORO
da criança parece crescer de intensidade. Como numa ladainha, Vilela
apanha e põe na cabeça o boné da PM, começando a repetir a mesma frase,
primeiro em tom baixo para si mesmo, e, depois, gradativamente mais
alto.
VILELA
Soldado, se não pode ajudar, não
atrapalha. Soldado, se não pode
ajudar, não atrapalha. Soldado, se
não pode ajudar, não atrapalha.
Soldado, se não pode ajudar, não
atrapalha. Soldado, se não pode
ajudar, não atrapalha. Soldado, se
não pode ajudar, não atrapalha.
Soldado, se não pode ajudar, não
atrapalha. Se não pode ajudar, não
atrapalha.
Vilela larga o rodo com o pano úmido e, de súbito, se precipita sobre
a porta do quarto, arrombando a porta com violência.
72
VILELA (OFF)
(urrando)
Soldado, se não pode ajudar, não
atrapalha. Soldado, se não pode
ajudar, não atrapalha.
Logo que Vilela invade o quarto de Lena, a CÂMERA inicia um lento
MOVIMENTO DE 360 em torno do próprio eixo, por todo o salão. Enquanto
presenciamos o ambiente destruído, com sujeira espalhada pelos
quatro cantos, ouvimos os GRITOS assustadores de Lena e Vilela
brigando, misturados ao CHORO assustado da criança. De súbito,
ouvimos um TIRO seco de espingarda. Tudo se torna silencioso. LONGA
PAUSA. Ouvimos outro TIRO. Ao final do MOVIMENTO DE 360, a CÂMERA
está novamente na porta do quarto arrombada. Vilela sai para o salão
com um ligeiro sorriso nos lábios e, com as pernas trêmulas, caminha
na direção da porta da frente. De súbito, cai de joelhos e, num
segundo momento, desaba com a cara no chão. Nas suas costas, vemos
dois furos sangrentos de bala.
Lena entra no salão carregando a espingarda junto ao peito, com o
cano ainda fumegante. Aproxima-se de Vilela.
CORTA PARA
CENA 71 - SALÃO INT. NOITE
Lena, com um lenço lhe prendendo os cabelos, está sentada numa
cadeira, absorta e estática, olhando o corpo inerte de Vilela que
está estendido no chão, na mesma posição em que morrera. Várias
velas, algumas quase expirando, cercam o cadáver. LONGA PAUSA.
DETALHE do rosto de Lena impassível, sem emoção, seus olhos estão
secos, ela não pisca.
CORTA PARA
CENA 72 - VARANDA/FACHADA EXT. MANHÃ
PG frontal da varanda. Lena está jogando as cadeiras e móveis da
varanda para dentro do salão, fechando as janelas em seguida. Ao
final, com o “Dama de Ouro” totalmente lacrado, Lena, satisfeita,
se afasta para observá-lo.
CORTA PARA
CENA 73 - ESTRADA/CAMINHÃO EXT. TARDE
Lena está sentada à beira da estrada em cima de uma mala. Ao seu lado,
outra mala menor, uma trouxa de roupas e uma cesta para o bebê,
coberta por um pano branco. Ela tem um chapéu para se proteger do
73
sol forte e uma bolsa a tiracolo pende de seu ombro. Está suada e
empoeirada, denotando que já espera há algum tempo. Ao fundo, ouvimos
o SOM de uma queimada e o CREPITAR de madeiras.
Na linha do horizonte da estrada, surge a imagem retorcida de um
caminhão se aproximando e levantando muita poeira.
Lena avança para o meio da estrada de braços levantados, o caminhão,
em velocidade, passa por ela e pela CÂMERA. Em seguida, o ouvimos
frear. De marcha a ré, entra novamente em QUADRO, parando ao lado
de Lena.
ELIPSE. DETALHE da mão de Lena fechada, tensa, segurando o chapéu
que balança com o movimento do caminhão em velocidade. A mão relaxa
um pouco e vemos a pepita de ouro que ela ganhou (cena 48) brilhar
com o sol.
Rosto de Lena na caçamba do caminhão. O vento agita seus longos
cabelos. A CÂMERA revela o bebê sugando vorazmente seu peito. Em OFF,
continuamos a ouvir, agora em crescendo, o CREPITAR DO FOGO. Com o
afastamento do caminhão, a CÂMERA corrige para mostrar, em GRANDE
PLANO GERAL, o “Dama de Ouro”, agora túmulo de Vilela, ardendo em
enormes labaredas.
CRÉDITOS FINAIS.
F I M