Gênero Textual Crônica
Crônica é um gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de
uma revista, seja nas páginas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-
determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se
assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.
Características
A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim o facto de ser publicada
no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições.
Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se
inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que
distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque
próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto
essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o
Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.
A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor
está "dialogando" com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um
determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza
em seu texto, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ele está, na verdade, expondo a
sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Geralmente, as crônicas apresentam
linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que
o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.
Em resumo, podemos determinar cinco pontos:
Narração histórica pela ordem do tempo em que se deram os fatos.
Seção ou artigo especial sobre literatura, assuntos científicos, esporte etc., em jornal ou outro
periódico.
Pequeno conto baseado em algo do cotidiano.
Normalmente possuiu uma crítica indireta.
Muitas vezes a crônica vem escrita em tom humorístico. Exemplos deste tipo de crônica são
Fernando Sabino, Helyda Rezende, Leon Eliachar.eheh
Origem
A palavra crônica deriva do Latim chronica que significava, no início da era cristã, o relato de
acontecimentos em ordem cronológica (a narração de histórias segundo a ordem em que se sucedem no
tempo). Era, portanto, um breve registro de eventos. No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a
crônica passou a fazer parte dos jornais. Ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats,
publicado em Paris. Esses textos comentavam, de forma crítica, acontecimentos que haviam ocorrido
durante a semana. Tinham, portanto, um sentido histórico e serviam, assim como outros textos do jornal,
para informar o leitor. Nesse período, as crônicas eram publicadas no rodapé dos jornais, os "folhetins".
Essa prática foi trazida para o Brasil na segunda metade do século XIX e era muito parecida com os textos
publicados nos jornais franceses. Alencar foi um dos escritores brasileiros a produzir esse tipo de texto
nesse período. Com o passar do tempo, a crônica brasileira foi, gradualmente, distanciando-se daquela
crônica com sentido documentário originada na França. Ela passou a ter um caráter mais literário, fazendo
uso de linguagem mais leve e envolvendo poesia, lirismo e fantasia. Diversos escritores brasileiros de
renome escreveram crônicas:Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Helyda Rezende, Fernando
Sabino,Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos,
Alcântara Machado, etc.
Tipos de Crônica
Crônica Descritiva
Ocorre quando uma crônica explora a caracterização de seres animados e inanimados num espaço, viva
como uma pintura, precisa como uma fotografia ou dinâmica como um filme publicado.
Crônica Narrativa
Tem por eixo uma história, o que a aproxima do conto. Pode ser narrado tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa do
singular. Texto lírico (poético, mesmo em prosa). Comprometido com fatos cotidianos (―banais‖, comuns).
Crônica Dissertativa
Opinião explícita, com argumentos mais ―sentimentalistas‖ do que ―racionais‖ (em vez de ―segundo o IBGE
a mortalidade infantil aumenta no Brasil‖, seria ―vejo mais uma vez esses pequenos seres não alimentarem
sequer o corpo‖). Exposto tanto na 1ª pessoa do singular quanto na do plural.
Crônica Narrativo-Descritiva
É quando uma crônica explora a caracterização de seres, descrevendo-os. E, ao mesmo tempo mostra fatos
cotidianos ("banais", comuns) no qual pode ser narrado em 1ª ou na 3ª pessoa do singular.
Crônica Humorística
Apresenta uma visão irônica ou cômica dos fatos.
Crônica Lírica
Linguagem poética e metafórica. Expressa o estado do espírito, as emoções do cronista diante de um fato de
uma pessoa ou fenômeno.No geral as emoções do escritor.
Crônica Poética
Apresenta versos poéticos em forma de crônica.
Crônica Jornalistica
Apresentação de aspectos particulares de noticias ou fatos. Pode ser policial, esportiva ou política.
VÍCIO SECRETO (01)
Depois de ser assaltada várias vezes, ela decidiu que estava na hora de mudar de vida.
De nada adianta, dizia, andar de carro de luxo e morar em palacete se isso serve apenas para
atrair assaltantes. De modo que comprou um automóvel usado, mudou-se para um
apartamento menor e até começou a evitar os restaurantes da moda.
Tudo isso resultou em inesperada economia e criou um problema: o que fazer com o
dinheiro que já não gastava? Aplicar na Bolsa de Valores parecia-lhe uma solução temerária;
não poucos tinham perdido muito dinheiro de uma hora para outra - quase como se fosse um
assalto. Outras aplicações também não a atraíam. De modo que passou a comprar aquilo de
que mais gostava: jóias. Sobretudo relógios caros. Multiplicavam-se os Bulgan, os Breitling,
os Rolex. Já que o tempo tem de passar, dizia, quero vê-lo passar num relógio de luxo.
E ai veio a questão; onde usar todas essas jóias? Na Ia, nem pensar. Em festas? Tanta
gente desconhecida vai a festas, não seria impossível que ali também houvesse um
assaltante, ou pelo menos alguém capaz de ser tentado a um roubo ao ter a visão de um
Breitling. Sua paranóia cresceu, e lá pelas tantas desconfiava até de seus familiares. De
modo que decidiu: só usa as jóias quando está absolutamente só.
Uma vez por semana tranca-se no quarto, abre o cofre, tira as jóias e as vai colocando:
os colares, os anéis, os braceletes - os relógios, claro, os relógios. E admira-se longamente
no espelho, murmurando: que tesouros eu tenho, que tesouros. O que lhe dá muito prazer.
Melhor: lhe dava muito prazer. Porque ultimamente há algo que a incomoda. É o olhar no
rosto que vê no espelho. Há uma expressão naquele olhar, uma expressão de sinistra cobiça
que não lhe agrada nada, nada.
O Clube dos Cinco Continentes (02)
Começou no dia em que, no boteco, os cinco amigos resolveram, depois de umas e outras,
que iriam almoçar cada sábado na casa de um, que faria o almoço dando descanso à mulher.
Só deram o nome de Clube dos Cinco Continentes quando perceberam que um é negro,
originário da África, portanto, outro é descendente de italiano, portanto europeu, enquanto o
terceiro tem índio no sangue, ficou sendo o americano, e o quarto amigo, japonês, seria,
claro, o asiático. O quinto amigo, de origem indefinida, virou representante da Oceania, para
completar os cinco continentes — pois o charme do clube, disseram às mulheres, era que
cada um faria só comidas típicas do seu continente!
O japonês foi o primeiro, fez sashimi e todos aprenderam a apreciar o peixe cru com
shoyu e gengibre.
No sábado seguinte o italiano fez lasanha. Depois, o americano fez vaca-atolada, que é
costela cozida com mandioca, o mais americano dos vegetais.
O africano fez feijoada. E o representante da Oceania, pesquisando na Internet, soube que
a principal riqueza da Austrália, a maior ilha da Oceania, são os carneiros. Fez carneiro
assado.
De novo foi a vez do japonês, que fez porco agridoce com sushi. O italiano fez uma das
milhares de variações de massa da cozinha italiana, usando um livro de receitas da avó. O
oceanista fez carneiro à caçadora. O americano fez polenta; reclamaram, explicou:
—Polenta é de milho, milho é americano!
E o africano fez feijoada com feijões brancos. O oceanista fez carneiro ensopado. O
europeu fez massa, e o japonês também arranjou um livro de receitas, fez sukiyaki. As
mulheres estavam adorando, principalmente porque eles lavavam a louça depois.
O africano e o oceanista, no entanto, reclamaram onde iriam achar livros de culinária
africana e australiana. E tornaram a fazer feijoada e churrasco de carneiro, embora com todas
as variações possíveis, desde botar frango na feijoada até queijo ralado no churrasco. O
europeu e o asiático, com os livros de receitas, exibiam pratos sofisticados, enquanto o
americano, coitado, fazia tudo que podia com milho, abóbora, amendoim, cara, os frutos da
terra antes de Cabral. Até que, um dia, foram as crianças que reclamaram:
—Mãe, por que todo sábado a gente tem de comer comida esquisita?
Naquele sábado o americano tinha feito um cozido de abóbora com coco e carne-seca, e um
dos meninos menores disse que parecia comida de cachorro. Perguntaram então o que as
crianças gostariam de comer, e a menina maior falou por todos:
—Arroz com feijão, bife, salada e pão!
Afinal, o arroz era asiático e o feijão africano, não? A salada seria americana e o pão
europeu. Mas e o bife? Bem, o bife, disse uma das meninas, podia ser da Austrália, que não
cria só carneiros, mas bois também, conforme a Internet.
Foi o último almoço do clube, o mais elogiado, o único que todos comeram sem
reclamar nem deixar nada de lado. E daí por diante eles passaram a voltar tarde do bar no
sábado, enfrentando o azedume faminto da família e nunca mais lavando os pratos. Foi o que
elas lamentaram com o fim do Clube dos Cinco Continentes.
CADA PERGUNTA! (03)
A menina brinca no tapete, parecendo nem ouvi o jornal, mas, quando começa o
intervalo, levanta a cabeça.
—Pai, que que é corrupção? O pai e a mãe se olham, 0 pai suspira e diz bem,
corrupção..
—... Não é coisa pré gente da sua idade, né.
Claro que é, diz a mãe:
—Responde direito, que se a criança pergunta, é por
Bem, pigarreia ele, corrupção é...
—... Por exemplo roubar dinheiro do governo, que é dinheiro de todo mundo.
—E como é que a corrupção rouba dinheiro do governo?
O pai explica que quem rouba não é a corrupção, é o corrupto, e alguém, ou melhor, é
muita gente que rouba governo.
—Por exemplo, o funcionário que desvia dinheiro do governo. ou deputado que vendo
o voto dele lá no Congresso. Ou um juiz que emprega os parentes deles. Ou o empresário
que paga para ganhar concorrência das obras do governo. Ih, filha, tem tanto jeito de roubar
o governo, não é, mulher?
—E, e o seu pai também rouba o que pode quando faz declaração de imposto de
renda.
Volta o telejornal e menina volta a brincar, eles voltam a ver as noticias. Novo
intervalo, ela de novo ergue a cabeça.
—Por que o dólar sempre sobe e o real sempre cai?
O pai suspira fundo, e com voz monótona compara os Estados Unidos e o Brasil às
diferenças de colonização, Inglaterra e Portugal, e as diferenças geográficas, climáticas,
culturais! Mas a mãe diz que não é por nada disso:
—Acho que é porque eles são um povo menos corrupto, filha.
—Então o povo também é corrupto, mãe?
—E você acha que tinha tanta corrupção se o povo não fosse corrupto?
Você vai fundir a cabeça da menina, diz o pai:
—Isso não é conversa pra criança. E, além disso, bem, cada pergunta!
—Por isso mesmo é preciso responder.
Volta o telejornal, e depois no intervalo a menina volta a perguntar:
—E o que que é impunidade?
—Essa eu mato fácil—o pai esfrega as mãos. —Impunidade é quando você comete
um crime e não é preso.
—E só tem tanta corrupção—emenda a mãe—porque tem muita impunidade, ninguém
denuncia, entendeu?
Ela de novo volta a brincar, mas antes de mais um intervalo vai até diante da mãe:
—Então você acha que, pra acabar a corrupção, a gente tinha de contar que o pai
rouba no imposto?
O pai pula da poltrona:
—Tá vendo?! Criança delatando pai só mesmo na Alemanha nazista! Eu falei que isso
não era conversa boa! Mas você e sua educação moderna!...
Sai batendo a porta, a mãe solta longos suspiros.
—Que que eu falei de errado, mãe?
—Nada, filha, nada. Mas você faz cada pergunta!..
JÁ NÃO SE FAZEM PAIS COMO ANTIGAMENTE (04)
Lourenço Diaféria
A grande caixa foi despregada do caminhão com Cuidado. De um lado estava escrito
assim: ―Frágil". Do outro lado estava escrito: "Este lado para cima". Parecia embalagem de
geladeira, e o garoto pensou que fosse mesmo uma geladeira. Foi colocada na sala, onde
permaneceu o dia inteiro.
À noitinha a mãe chegou, viu a caixa, mostrou-se satisfeita, dando a impressão de que
já esperava a entrega do volume. O menino quis saber o que era, se podia abrir. A mãe pediu
paciência, no dia seguinte vieram os técnicos para instalar o aparelho. O equipamento,
corrigiu ela, meio sem graça.
Era um equipamento. Não fosse tão largo e alto, podias se imaginar um conjunto de
som, talvez um sintetizados. A curiosidade aumentava. À noite o menino sonhou com a
caixa fechada.
Os técnicos chegaram cedo, de macacão. Eram dois. Desparafusaram as madeiras,
juntaram as peças brilhantes umas às outras, em meia hora instalaram o boneco, que não era
maior do que um homem de mediana estatura. O filho espiava pela fresta da porta, tenso. ~
A mãe o chamou:
—Filhinho, vem ver o papai que a mamãe trouxe.
O filho entrou na sala, acanhado diante do artefato estranho: era um boneco,
perfeitamente igual a um homem adulto. Tinha cabelos encaracolados, encanecidos nas
têmporas, usava Trim, desodorante, fazia a barba com gilete ou aparelho elétrico, sorria,
fumava cigarros king-size, bebia uísque, roncava, assobiava, tossia, piscava os olhos—às
vezes um de cada vez—, assoava o nariz, abotoava o paleta, jogava tênis, dirigia carro,
lavava pratos, limpava a casa, tirava o pó dos móveis, fazia strogonoff, acendia a
churrasqueira, lavava o quintal, estendia roupa, passava a ferro, engomava camisas, e dentro
do peito tinha um disco que repetia: "Já fez a lição? Como vai, meu bem? Ah, estou tão
cansado! Puxa, hoje tive um trabalhão dos diabos! Acho que vou ficar até mais tarde no
escritório. Você precisava ver o bode que deu hoje lá na firma! Serviço de dono-de-casa
nunca é reconhecido! Meu bem, hoje não!".
O menino estava boquiaberto. Fazia tempo que sentia falta do pai, o qual havia dado
no pé. Nunca se queixara, porém percebia que a mãe também necessitava de um
companheiro. E ali estava agora o boneco, com botões, painéis embutidos, registros,
totalmente transistorizado. O menino entendia agora por que a mãe trabalhara o tempo todo,
muitas vezes chegando bem tarde. Juntara economias, sabe lá com que sacrifícios para
comprar aquela paixão.
—Ele conta histórias, mãe?
Os técnicos olharam o garoto com indiferença.
—Esse é o modelo ZYR-14, mais indicado para atividades domésticas. Não conta
histórias. Mas assiste a televisão. E pode ser acoplado a um dispositivo opcional, que
permite longas caminhadas a campos de futebol. Sabendo manejá-lo, sem forçar, tem
garantia para suportar crianças até seis anos. Porém não conta histórias, e não convém
insistir, pode desgastar o circuito do monitor.
O garoto se decepcionou um pouco, sem demonstrar isso à mãe, que parecia
encantada. Ligado à tomada elétrica (funcionava também com bateria), o equipamento
paterno já havia colocado os chinelos e, sem dizer lona palavra, foi até à mesa e apanhou o
jornal.
A mãe puxou o filho pelo braço:
— Agora, vem filhinho. vamos lá para dentro, deixa teu pai descansar.
JOÃO E MARIA (05)
Esta é uma daquelas histórias que as pessoas juram que aconteceram, não faz muito,
com um amigo delas. Há anos você ouve a mesma história, sempre com a garantia de que
aconteceu mesmo. Há pouco, com um amigo. Nesta versão o amigo se chama João e a
mulher se chama Maria, para simplificar.
O João começou a desconfiar das constantes conversas da Maria com o José, amigo do casal.
Volta e meia o João pegava a Maria e o Zé cochichando, e quando se aproximava deles, eles
paravam.
—O que vocês dois tanto conversam?
—Nada.
Ou a Maria estava falando ao telefone e, quando o João chegava, dizia "Não posso
agora" e desligava.
—Quem era?
—Ninguém.
Não foi uma nem duas vezes. Durante semanas, o ninguém ligou muito. E um dia a
Maria anunciou que precisava viajar. Sua vó Nica. No interior. Muito mal. Nas últimas.
Precisava vê-la. Iria a sexta Lide manhã e voltaria no domingo.
—Logo na sexta, Maria?
—Por quê? Que que tem na sexta?
—Nada.
João telefonou para a sogra e perguntou como ia a vó Nica.
—A mamãe? Deve estar bem. Foi com o grupo dela fazer compras no Paraguai.
Maria só levou urna pequena sacola na viagem. Claro, pensou João. Só 0 que iria
precisar, no hotel em que se encontraria com 0 Zé para um fim de semana de amor. No fim
da tarde, só para confirmar, João telefonou do seu escritório para o escritório do Zé. Não, o
seu José não estava. Tinha saldo cedo e avisado que não voltaria Muito bem, pensou João.
Muito bem. Era assim que ela queria? Pois muito bem. Ele se vingaria. Levaria uma mulher
para casa. Sim, para casa. Uma mulher, não. Duas. Fariam um manager a troi, ou como quer
que se chamasse aquilo—na cama do casal!
Na boate, já bêbado, João perguntou para as duas mulheres, Vanessa e Gisele:
—Sabem que dia é hoje?
—Fala, filhote—disse a Vanessa.
—O meu aniversário. E sabe que presente a minha mulher me
—O quê? (Gisele)
—Cornos! E com o Zé. Com o Zé!
—Sempre tem um Zé—filosofou a Vanessa.
João desconfiara que uma das duas mulheres fosse um travesti, mas ao chegarem na casa, ele
não se lembrava mais qual. Decretou que os três tirariam a roupa antes de entrar na casa. As
mulheres toparam. Quando João conseguiu acertar o buraco da fechadura e abrir a porta, a
Gisele tinha pulado na sua costa e se pendurado no seu pescoço, e a Vanessa beijava seu
rosto, e era assim que eles estavam quando as luzes da casa se acenderam e todos que
estavam lá para a festa de aniversario que a Maria e o Jose tinham passado semanas
planejando gritaram "Surpresa!"
O RIVAL (06)
Cláudia amava Carlos, mas não amava Carlos sobre todas as coisas. Carlos tinha um
rival. Carlos um dia queixou-se para Cláudia que assim não era possível. Que se continuasse
assim, era melhor pararem. Que ele não agüentava a atenção que Cláudia dava ao rival,
muito maior do que a que dava a ele. Cláudia ficou de boca aberta. Que rival?
É preciso dizer que, mesmo de boca aberta, Cláudia era linda. Que Cláudia, além do
rosto perfeito, tinha um corpo... não vou dizer "escultural". Depois dos gregos, "escultural"
virou um adjetivo discutível. Se eu escrever "escultural", o leitor pode pensar numa escultura
do Giacometti e imaginar que Cláudia era magra e comprida e derramada como urna vela de
andor. Ou no Henry Moore, e pensar que Cláudia tinha um buraco no meio. Não, Cláudia
tinha um corpo tão bonito quanto o rosto, e o que fazia o rosto ainda mais bonito era o
cabelo loiro, o vasto cabelo que escorria copiosamente, borbotante, pelos lados do rosto, e
que Cláudia estava sempre ajeitando, tocando, sacudindo, desfiando, juntando atrás e
prendendo com um elástico e em seguida soltando, e sacudindo outra vez, e desviando para
trás da orelha, e apalpando, e desfiando, e enrolando no topo da cabeça, e deixando cair, e
cuidando no espelho, e sacudindo, e tocando, e ajeitando, e...
Era este o rival do Carlos. O cabelo da Cláudia. Cláudia amava seu cabelo mais do
que amava Carlos. Cláudia amava seu cabelo sobre todas as coisas.
—Que rival, Cacá?
E Carlos desabafou. Disse tudo o que queria dizer. Confessou a Cláudia que tinha
ciúmes dos seus cabelos. Sim, ela era carinhosa com ele. Chamava-o de Cacá e, nos
momentos mais íntimos, de Caquinho. Sim, mordia a sua orelha, inclusive em público. Mas
não lhe dava metade da atenção que dava aos cabelos.
Cláudia começou a rir.
—Que bobagem, Cacá! Ciúmes dos meus cabelos!
Mas ficou síria quando viu que Carlos estava decidido. Era melhor terminarem, disse
Carlos. E disse que ela nem se dava conta do cuidado constante que dedicava ao cabelo, dos
seus repetidos gestos de amor com o cabelo, do prazer sensual que obviamente tinha em
manusear o cabelo, e de como isso o aborrecia. E disse:
—Viu só? Viu só?
Pois, durante todo o tempo em que Carlos despejara suas mágoas e suas queixas
contra o rival, Cláudia não parara de se olhar no espelho, e apalpar o cabelo, e passar os
dedos pelos seus fios, e sacudi-lo, e ajeitá-lo, e...
Dias depois de brigarem, Carlos encontrou Cláudia com o mesmo cabelo e outro
namorado. Chamado Paulo Artur. Perguntou ao Paulo Artur como ele conseguia conviver
com Cláudia e o seu amor pelo cabelo. "Com humildade», disse Paulo Artur. E ficaram, os
dois, olhando para o cabelo que Cláudia atirava de um lado para o outro, e apalpava, e
desviava, e sacudia... Tinham que reconhecer. O cabelo era muito mais bonito e interessante
do que eles.
AQUELES TEMPOS (07)
No meio da conversa, ela disse: "Eu gostava do Lacerda." Ele ficou quieto, mas quem
prestasse atenção notaria que suas pupilas chegaram a dilatar. E ele quase se engasgou com o
gelo. Só quando já estavam no carro, voltando para casa, ele disse:
—Que história é essa de "eu gostava do Lacerda"?
—Gostava, uai.
—Cicinha, nós fizemos comício contra o Lacerda.
—E daí?
—Eu me lembro de você gritando "Corvo! Corvo!".
—Para agradar a você. Ele quase perdeu a direção do carro. Ela teve que gritar:
—Almiro! Ele só conseguiu falar de novo dentro do quarto, quando ela saiu do
banheiro depois de escovar os dentes e perguntou se ele tinha alimentado o gato. Ele disse:
—Não muda de assunto. .
—Almiro, eu não entendo por que você ficou desse jeito só porque eu...
—Não entende? Não entende? Você se dá conta da revelação que me fez esta noite?
Do significado da sua confissão, da sua duplicidade, da sua...
—Almiro, faz 40 anos!
—Exatamente! Durante 40 anos vivi com uma mulher que eu não conheço. Que só fui
conhecer agora. Há-40 anos durmo com uma estranha. Durmo com o inimigo!
—Você quer...
Mas o Almiro já tinha dado as costas. Ia dormir na sala.
No dia seguinte, a filha mais velha foi convocada. Sua missão: dissuadir o pai de sair
de casa e pedir o divórcio. Não tinham adiantado os argumentos da mãe, de que sua
duplicidade confessada era, na verdade, uma prova de amor, pois disfarçara sua admiração
pelo Lacerda para ficar com ele, sacrificara todas as suas convicções por um casamento feliz.
E era um casamento feliz. Tinham filhos maravilhosos, netos maravilhosos, uma vida
organizada, um gato que os amava... Se ele quisesse, ela renunciaria à sua admiração pelo
Lacerda. Se ele quisesse, iria até a janela e gritaria «Corvo! Corvo!" para o céu. "Pensa no
que você vai destruir, Almiro!" Ele só pediu à filha, que era advogada, que recomendasse
alguém para cuidar do divórcio. Não falava com traidores.
Em casa, a filha comentou com o marido:
—Coisa forte aqueles tempos, nó?
O marido só conhecia aqueles tempos de ouvir contar, mas concordou. Muito forte.
Esparadrapo (08)
Carlos Drummond de Andrade
Aquele restaurante de bairro e do tipo simpatia/classe media. Fica em rua sossegada, e
pequeno, limpo, cores repousantes, comida razoável, preços idem, não tem musica de triturar
os ouvidos. O dono senta-se a mesa da gente, para bater um papo leve, sem intimidades.
Meu relógio parou. Pergunto-lhe quantas horas são.
—Estou sem relógio.
—Então vou perguntar ao garçom.
—Ele também esta sem rel6gio.
—E o colega dele, que serve aquela mesa?
—Ninguém esta com relógio nesta casa.
—Curioso. E moda nova?
—Antes de responder, e se o senhor permite, vou lhe fazer, não propriamente um
pedido, mas uma sugestão.
—Pois não.
—Não precisa trazer relógio, quando vier jantar.
—Não entendo.
—Estamos sugerindo aos nossos fregueses que faz este pequeno sacrifício.
—Mas o senhor podia explicar...
—Sem querer meter o nariz no que não e da minha conta, gostaria também que
trouxesse pouco dinheiro, ou antes, nenhum.
—Agora e que não estou pegando mesmo nada.
—Coma o que quiser, depois mandamos receber em sua casa.
—Bem, eu moro ali adiante, mas e outros, os que nem se sabe onde moram, ou estão de
passagem na cidade?
—Da-se um jeito.
—Quer dizer que nem relógio nem dinheiro?
—Nem jóias. Estamos pedindo as senhoras que não venham de jóia. E o mais difícil,
mas algumas estão atendendo.
—Hum, agora já sei.
—Pois e. Isso mesmo. O amigo compreende...
—Compreendo perfeitamente. Desculpa ter custado um pouco a entrar na jogada. Sou
meio obtuso quando estou com fome.
—Absolutamente. Ate que o amigo compreendeu sem que eu precisasse dizer tudo
Muito bem.
—Mas me diga uma coisa. Quando foi isso?
—Quarta-feira passada.
—E como foi, pode-se saber?
—Como podia ser? Como nos outros lugares, no mesmo figurino. So que em ponto
menor.
—Lógico, sua casa e pequena. Mas levaram o que?
—O que havia na caixa, pouquinha coisa. Eram 9 da noite, dia meio parado.
—Que mais?
—Umas coisinhas, liquidificador! relógio de pulso, meu, dos empregados e dos
fregueses.
—An. (Passei a mão no pulso, instintivamente.)
—O pior foi o cofre.
—Abriram-o cofre?
—Reviraram tudo, a procura do cofre. Ameaçaram, pintaram e bordaram. Foi muito
desagradável.
—E afinal?
—Cansei de explicar a eles que não havia cofre, nunca houve, como e que eu podia
inventar cofre naquela hora?
—Ficaram decepcionados imagino.
—Não senhor. Disseram que tinha de haver cofre. Eram cinco, inclusive a moca
de bota e revolver, querendo me convencer que tinha cofre escondido na parede, no teto,
embaixo do piso, sei lá.
—E o resultado?
—Este — e baixou a cabeça, onde, no cocuruto, alvejava a estrela de esparadrapo.
—Oh! Sinto muito. Não tinha notado. Felizmente escapou, e o que vale. De gracas a
Deus por estar vivo.
—Já sei. Sabe que mais? Na policia me perguntaram se eu tinha seguro contra roubo.
E eu pensando que meu seguro fosse a polícia. Agora estou me segurando a minha maneira,
deixando as coisas lá em casa e convidando os fregueses a fazer o mesmo. E vou comprar
um cofre. Cofre pequeno, mas cofre.
—Para que, se não vai guardar dinheiro nele?
—Para mostrar minha boa fé, se eles voltarem. Abro imediatamente o cofre, e verão
que não estou escondendo nada. Que lhe parece?
—Que talvez o senhor precise manter um estoque de esparadrapo em seu restaurante.
Pijamas de seda (09)
Délio era tão mau caráter que enternecia as pessoas. Diziam "Flor de cafajeste" como
se dissessem "Figura,ca". E brincavam com ele:
—Delio, e verdade que você venderia a própria mãe?
—O que e isso—dizia o De1io, com modéstia.
Volta e meia alguém se apiedava de uma vítima do Delio. De urna das viúvas que ele
enganava. Mas logo aparecia alguém para defendê-lo. Quem se envolvia com o Delio, com
aquela cara de cafajeste, estava pedindo. Tudo que alguém precisava saber sobre o Delio
estava na sua cara. Só se enganava com o Delio quem queria. Ou achava que a cara estava
mentindo, que ninguém podia ser tão cafajeste assim.
Mas foi justamente uma viúva a responsável pela queda do Delio. Uma viúva e a fatal
atração do Delio por pijamas. Ele tinha uma coleção de pijamas, muitos herdados de
maridos mortos, presenteados pelas viúvas. E um dia um grupo foi visitar o Bonato no seu
leito de morte. O Delio e mais uns três ou quatro. Na saída do quarto do Bonato, estavam
todos impressionados com a cena dele nas ultimas, mal podendo respirar, e sua mulher, a
Leinha, segurando sua mão, e seu afilhado Davi, com sua cara de sono, mal contendo o
choro. O Delio comentou:
—Virarn só?
—Pois e. Pobre do Bonato. Esta nas últimas.
—Não, não—disse o Delio.—O pijama dele. De seda pura! E outra coisa: com
monograma.
Seria facílimo transformar o "B" de Bonato em "D" de Delio. O Delio tinha uma
cerzideira especialista em alterar monogramas.
Fizeram apostas no grupo sobre quanto tempo levaria para o Delio conquistar a
Leinha. Três meses depois do enterro, o Delio foi visto na rua carregando um pacote, feliz
da vida. Disse que estava levando os pijamas de seda do Bonato para a sua cerzideira. A
viúva estava no papo.
Depois o Delio sumiu. Todos imaginaram que ele e Leinha estivessem em lua-de-mel.
Talvez em Cancun. Mas um dia encontraram a Leinha e, quando perguntaram pelo Delio,
ela deu de ombros e disse: "Sei la." E Cancun, como estava Cancun? "Que Cancun?"
Finalmente, Delio apareceu. Deprimidíssimo. Só com o tempo e a insistência dos
outros foi contando o que acontecera. Tinha encontrado alguém mais sem caráter do que
ele.
—Quem, Delio?
—O Davi.
O Davi?! O afilhado do Bonato? Com aquela cara de sonso? "Exatamente", disse
Delio. Com aquela cara dissimulada. Pelo menos ele, Delio, não disfarçava sua cafajestice.
Ao contrario do Davi, que escondia a sua sob uma mascara de sacristão. Davi, o que mais
chorava no enterro do padrinho, embora ja fosse amante da Leinha. Davi, que chantageara
Leinha, ameaçando deixa-la depois da morte do Bonato. Fora para segurar Davi que Leinha
lhe dera os pijamas de seda do Bonato, com 0 "B" transformado, com tanta arte, em "D".
— Ela so queria a minha cerzideira! — queixou-se Delio, arrasado.
Em condições iguais, Delio não fugiria de uma disputa com Davi por Leinha e os
pijamas de seda. Mas era preciso haver um mínimo de lealdade. Tudo as claras, na cara, e
que vencesse o pior.
0 fiscal da noite (10)
Rubem Braga
Fui eu que vi o Cruzeiro erguer-se do mar e mais tarde chegar ate o horizonte de
minha varanda; vi duas estrelas muito brilhantes nascerem depois dele e subirem também
Analfabeto olhando as estrelas, segui sua navegação sem saber seus nomes; vigiei de meu
imóvel tombadilho.
Estava solitário, mas não triste; lembrei o velho dito dos bêbedos: "A noite ainda e
uma criança".
Mas o tempo avança. Agora medito no seio de uma noite madura, como a sombra de
uma grande arvore; de raro em raro, madura demais, cai uma estrela e se perde na escureza
do céu ou do chão. Quase não vejo o mar, apenas o pressinto e o sei arfando lânguido, sem
vento.
Deus me pos nesta rede a olhar a noite. Não tenho sono nem vontade de sair; não
telefonarei para ninguém. Sou como um débil mental a quem houvessem dado o emprego
de fiscalizar as estrelas, e acompanho com paciência sua marcha lenta. Devo dizer que
estão se comportando bem, tanto as mais novas como as mais velhas; andam de leste para
oeste de maneira morosa e sensata, guardando com atenção as respectivas distancias. Se o
major-fiscal me telefonar direi que não há nenhuma alteração. O nascimento da lua esta
marcado para as 2h 45 min da madrugada; espero que seja pontual e não me de
aborrecimentos. O numero de estrelas cadentes e diminuto.
Informarei: "Pequenas baixas; o desperdício de estrelas durante a noite a meu cargo
foi mínimo e, creio, inevitável;
nosso estoque e imenso, senhor major". O major comunicara ao coronel, este ao general,
este ao Presidente da Republica. O Presidente da Republica expedira mensagens
congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no Paraíso.
Adormeço na rede, e desperto assustado; mas o céu esta em ordem, e as estrelas
marcham sempre na mesma direção, como crianças bem comportadas. Deus me pos nesta
rede, e o Diabo me fez dormir. Felizmente a lua ainda não nasceu. Risco um fósforo para
olhar meu relógio ("a opinião do prefeito de Genebra sobre a hora de Ipanema"), meu
famoso relógio anti-magnético, anti-atômico e anti-lírico, e suspiro aliviado; ainda faltam
18 minutos para o nascimento da lua. Levanto-me e tomo posição em outro angulo da
varanda, murmurando: "Vamos providenciar isso".
A cesta (11)
Paulo Mendes Campos
Quando a cesta chegou, o dono não estava. Embevecida. a mulher
recebeu o presente. Procurou logo o cartão leu a declicat6ria destinada ao mando, uma
frase ao mesmo tempo amável e respeitosa.
Quem seria? Que amigo seria aquele que estimava tanto o marido dela? Aquela cesta,
sem duvida nenhuma, mesmo a uma olhada de relance custava um dinheirão. Como e que
ela nunca tivera noticia daquele nome? Ricos presentes só as pessoas ricas recebem. Eles
eram remediados, viviam de salários, sempre inferiores ao custo das coisas. Sim, o marido,
com o protesto dela, gostava de bons vinhos e boa mesa, mas isso com o sacrifício das
verbas reservadas a outras utilidades.
De qualquer forma, aquela cesta monumental chegava em cima da hora. E se fosse um
engano? Não, felizmente c nome e o sobrenome do marido estavam escritos com toda
clareza e o endereço estava certo.
Alvoroçada, examinou uma a uma as pecas envoltas em flores e serpentinas de papel
colorido. Garrafas de uísque escocês, champanha francês, conhaque, vinhos europeus,
patês, licores, caviar, salmão, champignon, uma lata de caranguejo japoneses... Tudo do
melhor. Mulher prudente, surrupiou uma garrafas e escondeu-as nas gavetas femininas do
armário. Conhecia de sobra a generosidade do marido: a vista daquela cesta farta, iria
convidar todo o mundo para um devastado banquete. Isto não tinha nem conversa, era tão
certo quanto dois e dois são quatro. Mas quem seria o amigo? Esperou o regresso do
marido, morrendo de curiosidade .
E ei-lo que chega, ao cair da noite, cansado, sobraçando duas garrafas de vinho
espanhol, uma garrafa de uísque engarrafado no Brasil, um modesto embrulho de
salgadinhos. Caiu das nuvens ao deparar com a gigantesca cesta. Pálido de espanto, não
tanto pelo valor material do presente (era um sentimental), mas pelo valor afetivo que o
mesmo significava, começou a ler o cartão que a mulher lhe estendia. Houve um longo
minuto de densa expectativa, quando, terminada a leitura, ele enrugou a testa e se
concentrou no esforço de recordar. A mulher perguntava aflita:
—Quem e?
Mais da metade da esperança dela desabou com a desolada resposta:
—Esta cesta não e para mim.
—Como assim? Você anda ultimamente precisando de fósforo.
—Não e minha.
—Mas olhe o endereço: e o nosso! 0 nome e o seu.
—O meu nome não e só meu. Há um banqueiro que tem o nome igualzinho. Esta na
cara que isto e cesta pra banqueiro.
—Mas, o endereço?
—Deve ter sido procurado na lista telefônica.
Ela não queria, nem podia, acreditar na possibilidade do equivoco.
—Mas faca um esforço.
—Não conheço quem mandou a cesta.
—Talvez um amigo que você não vê há muito tempo.
—Não adianta.
—Você não teve um colega que era muito rico?
—O nome dele e completamente diferente. E ficou pobre!
—Pense um pouco mais, meu bem.
Novo esforço foi feito, mas a recordação não veio. Ela apelou para a hipótese de um
admirador. Afinal, ele era um grande escritor, autor de um romance que fizera sucesso e de
um livro para crianças, que comovera leitores grandes e pequenos.
—Um fã, quem sabe e um fã?
—Mulher, deixa de bobagens... Que fã coisa nenhuma!
—Pode ser sim! Você e muito querido pelos leitores.
A idéia o afagou. Bem, era possível. Mas, em hipótese nenhuma, ficaria com aquela
cesta, caso não estivesse absolutamente certo de que o presente lhe pertencia.
—Sou um homem de bem!
Era um homem de bem. Pegou o catalogo, procurou c telefone do homônimo
banqueiro, falou diretamente com ele depois de alguma demora: não e muito fácil um
desconhecido falar a um banqueiro.
Ai, a mulher ouviu com os olhos arregalados e marejados:
—Pode mandar buscar a cesta imediatamente. O senhor queira desculpar se minha
mulher desarrumou um pouco a decoração. Mas não falta nada.
A mulher foi lá dentro, quase chorando, e voltou com umas garrafas nas mãos.
—Eu já tinha escondido estas.
—Você e de morte. Coloque as garrafas na cesta.
Vinte minutos depois, um carro enorme parava a porta subindo um motorista de
uniforme. A cesta engalanada cruzou a rua e sumiu dentro do autom6vel. Ele sorria,
filosoficamente. Dos olhos da mulher já agora corriam lagrimas francas Quando o carro
desapareceu na esquina, ele passou o braço em torno do pescoço da mulher:
—Que papelão, meu bem! Você ficou olhando para aquela cesta como se estivesse
assistindo a saída de meu enterro.
E ela, passando um lenço nos olhos:
—As vezes e duro ser casada comum homem de bem.
Negocio de menino (12)
Rubem Braga
Tem dez anos, e filho de um amigo, e nos encontramos na praia:
—Papai me disse que o senhor tem muito passarinho...
—Só tenho três.
—Tem coleira?
—Tenho um coleirinha.
—Virado?
—Virado.
—Muito velho?
—Virado há um ano.
—Canta?
—Uma beleza.
—Manso?
—Canta no dedo.
—O senhor vende?
—Vendo.
—Quanto?
—Dez contos.
Pausa. Depois volta:
—Só tem coleira?
—Tenho um melro e um cúrio.
—E melro mesmo ou e vira?
—E quase do tamanho de uma graúna.
—Deixa cocar a cabeça?
—Claro. Come na mão...
—E o cúrio?
—E muito bom cúrio.
—Por quanto o senhor vende?
—Dez contos. Pausa. —Deixa mais barato
—Para você,- seis contos.
—Com a gaiola?
—Sem a gaiola.
Pausa.
—E o melro?
—O melro eu não vendo.
—Como se chama?
—Brigitte.
—Uai, e fêmea?
—Não. Foi a empregada que botou o nome. Quando ela fala com ele, ele se arrepia
todo, fica todo despenteado, então ela diz que e Brigitte.
Pausa.
—O coleira o senhor também deixa por seis contos?
—Deixo por oito contos.
—Com a gaiola?
—Sem a gaiola.
Longa pausa. Hesitação. A irmãzinha o chama de dentro d'agua. E, antes de sair
correndo, propõe, sem me encarar:
—O senhor não me da um passarinho de presente, não?
Aspirador (13)
Fernando Sabino
Antes que eu lhe pergunte o que deseja, o gordinho começa a exibir-me uma
aparelhagem complicada, ainda na porta da rua. São tubos que se ajustam, fio para ligar na
tomada, escovinhas de sucção e outros apetrechos.
—Entre—ordenei.
Ora, acontece que jamais prestei sentido na existência dos aspiradores de pó. Por isso
e que fui logo cometendo a imprudência de convidar o gordinho a exibir-se de uma vez no
interior da sala. Na porta da rua venta e faz muito pó, disse-lhe ainda, tentando um
trocadilho infeliz. Entramos os dois, para a tradicional peleja entre comprador e vendedor.
Vi o gordinho desdobrar-se, suando, estica o fio, não da ate a tomada, arrasta a cadeira
um pouco para lá, não e isso mesmo? Assim, com licença, quer limpar esse tapete?
E um tapete que arrasto comigo há anos, por todos os lugares em que venho morando.
Já abafou meus passos em dias de inquietação, já recebeu alguns pulos meus de alegria, e
manchas de café, de tempo, de poeira dos sapatos. Pois olhe só—em dois tempos o
gordinho pos a engenhoca a funcionar, esfrega daqui e dali, praticamente mudou a cor do
meu tapete.
—Agora e que o senhor vai ver—anunciou, feliz, revelando-me a existência dentro do
aparelho, de uma sacola onde o pó se acumulava. Exibiu-me seu conteúdo com um sorriso
de puro êxtase, o tarado.
-Aquilo me decepcionou: pois se tinha de despejar o pó no lixo, por que não recolhe-
lo de uma vez com a vassoura? Evidente burrice da minha parte—o gordinho devia estar
pensando: com certeza eu esperava que o pó se volatilizasse dentro do aspirador, num passe
de mágica?
Deixei que ele me enumerasse as outras aplicações do miraculoso aparelho: servia
para escovar um temo, por exemplo, quer ver? E voltou para mim o cano da arma, que num
terrível chupão quase me leva a manga do paletó.
—Serve também para massagens. Com sua licença—e passou-me no rosto a ponta do
tubo. Minha pele foi repuxada sob a improvisada ventosa, deslocando-se ruidosamente num
violento beijo de cavalo.
—Basta!—protestei:—Estou convencido. Compro o aspirador.
—E digo mais—prosseguiu ele, sem me ouvir:—Serve para refrescar o ambiente.
Duvida? E só virar ao contrario...
—Não duvido não. Já esta comprado.
—... e funciona como um perfeito ventilador.
Fui buscar o dinheiro, paguei e despedi sumariamente o gordinho que, perplexo,
continuava ainda a recitar sua lição:
—Aspira o pó dos lugares mais inacessíveis: aspira atrás das estantes, aspira cinzeiros,
aspira...
—Obrigado, obrigado—e fechei a porta atrás dele.
Passei o resto da tarde me distraindo com a nova aquisição. De todas as maneiras:
aspirei cinzeiros, estofados, cortinas, ternos, aspirei atrás das estantes, fiz desaparecer, ate o
ultimo grão, o pó existente na casa.
Então tentei retirar das entranhas do aspirador a tal sacola, como o gordinho me havia
ensinado. Para meu jubilo, estava bojuda como um balão. Só não me lembrei foi de desligar
o aparelho que, como ele me havia ensinado também, virado ao contrario funciona como
um perfeito ventilador: de súbito, explode no ar uma bomba de pó acumulado. Tudo voltou
ao que era dantes, fui a cozinha buscar uma vassoura. Es pó e em pó reverteras—pensei
comigo.
ODABEB (14)
Rubem Braga
Contam de Murilo Mendes que um dia ele ia passando com um amigo por uma rua de
Botafogo quando viu uma mulher na janela de um sobrado. Deu uma coisa no poeta, ele se
deteve na calcada fronteira, ergueu o braço e gritou:
—Meus parabéns, minha senhora. Esta uma coisa belíssima! Mulher na janela! Há
muito tempo não se via! Esta belíssimo!
A senhora, assustada, fechou a janela bruscamente, achando que estava diante de um
louco. Mas o poeta prosseguiu seu caminho com o sentimento do dever cumprido.
Também contam que um bêbado ia pela rua e um enorme jacaré ia atrás dele. Cada
vez que o homem entrava em um bar o jacaré gritava: bêbado! Quando o homem saia de um
bar para entrar em outro, o jacaré gritava outra vez: bêbado! Ate que uma hora o homem
perdeu a paciência, agarrou o jacaré pelos queixos e o virou pelo avesso, jogando-o a um
canto da calcada. Quando saiu do bar o jacaré lhe disse— odabeb!—que e bêbado de trás
para diante.
Há outras historias, mas penso nessa. Não matamos o nosso jacaré, nem nenhum outro
bicho; apenas o que fazemos e vira-lo pelo avesso, o que e lamentável, mas ineficiente. E a
ultima mulher na janela foi lá dentro atender ao telefone. Os prédios são altos e se espreitam
traicoeiramente com binóculos na sombra. E, como todo mundo tem mais o que fazer, os
poetas se tornam incômodos. Vira-los pelo avesso não e solução. Eles não silenciam—e
você, que não entende os versos, pensa que ele não esta querendo dizer nada. Mas ―se meu
verso não deu certo foi teu ouvido que entortou, disse um mestre‖. Os pintores também
foram virados pelo avesso, mas continuam a pintar tudo tão insistentemente que, vendo suas
telas, uma pessoa mal informada pode pensar que o mundo e que foi virado ao contrario.
O MARIDO DO DR. POMPEU (15)
Ninguém estranhou quando, depois de 25 anos de casamento, filhos criados, a mulher
do Dr. Pompeu pediu o div6rcio. As razoes dela eram normais para a época: não queria
mais ser apenas uma dona de casa. Queria viver sua pr6pria vida, estudar psicologia, ter sua
própria carreira. Tudo bem. O escândalo, para mostrar como ainda existem preconceitos, foi
quando souberam que o Dr. Pompeu, em vez de outra mulher, arranjara um marido.
—Quem diria, hein? O Pompeu.
A pr6pria mulher foi pedir satisfações.
—Pompeu, você enlouqueceu?
—Por que?
—Todos estes anos, eu nunca desconfiei que você fosse... desses.
—Desses o que?
—Você sabe muito bem. Um...
A mulher se calou porque nesse exato momento chegou em casa o marido do Dr.
Pompeu. Um homem apenas um pouco mais velho do que ele, grisalho, ar respeitável. Um
empresário de muito conceito. Esta pensando.
—Alo... —disse o marido do Dr. Pompeu, um pouco constrangido.
—Oi!—disse o Dr. Pompeu, alegremente.
—Boa-tarde—disse a mulher, seca.
O marido do Dr. Pompeu foi tomar seu banho, ouvindo a promessa do Dr. Pompeu de
que o jantar estaria na mesa num instantinho. Quando a mulher ia recomeçar a falar, o Dr.
Pompeu a deteve com um gesto.
—Não e nada do que você esta pensando—disse.
—Que eu estou pensando, não, Pompeu. Que todo mundo
—Nos temos um acordo. Eu cuido da casa para ele, supervisiono o trabalho das
empregadas, faço as compras, faço tudo para que ele tenha uma vida domestica organizada
e feliz. Em troca, ele me sustenta. Não temos nenhum contato sexual porque nenhum de nos
e, corno você disse com tanta eloqüência, desses.
—Mas Pompeu...
—Eu não tenho do que me queixar. Meu padrão de vida melhorou. Ele me da dinheiro
para tudo de que eu preciso. Induzisse, alias, para pagar a sua pensão. E hoje eu posso fazer
o que sempre sonhei. Não trabalho, não me preocupo com as contas, com a segurança da
família, com todas essas coisas de homem. E o melhor: quando tenho que descrever minha
profissão, posso botar Do lar".
—Mas Pompeu!
—E agora me da licença que preciso tratar do nosso jantar. Depois do jantar ele vê o
Jornal Nacional e eu fico esperando a hora da minha novela. Passe bem.
FLOR-DE-MAIO (16)
Rubem Braga
Entre tantas notícias do jornal—o crime do Sacopa o disco voador em Bage, a nova
droga anti-tuberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com
foice, o possível aumento do pão, a angustia dos Barnabés—há uma pequenina nota de três
linhas, que nem todo os jornais publicaram.
Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d'água, nem do Ministério da
Guerra para insinuar que o país esta em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre
de avião. E assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que
a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio" esta,
efetivamente, em flor.
Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e
me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto
pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar,
providencias a tomar. Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela
manha ou a tarde, quando há sol—ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no
vento, e choram gotas e flores no chão.
Suspiro e digo comigo mesmo—que amanha acordarei cedo e irei. Digo, mas não
acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a noticia ficara no que
foi—um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da
inquieta~ao dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes e possível que me de
vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais
"flor-de-maior, e então pensarei que e preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro
outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em
maio nao sei se em alguma cidade haverá essa "flor-de-maio".
No fundo, a minha secreta esperança e de que estas cartinhas sejam lidas por
alguém—uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta
crônica a sua única substancia, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as
"flores-de-maio" do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa
informação saindo de casa e indo.diretamente ao Jardim Botânico ver a "florde-maio"—
talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.
Ir s6, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a única noticia boa de um dia
inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa.
Se entre v6s houver essa criatura, e ela souber por mim a noticia, e for, então eu vos direi
que nem tudo esta perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopas de paixões
desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda
poderá ser salva, e que as vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.
NO ÔNIBUS (17)
Jose Carlos Oliveira
Lá vou eu, num ônibus, pensando as minhas coisas. No Morro da Viúva, o cobrador
das aqueles gritos que chateiam todo mundo: "Vamos chegando para a frente! Tem lugar
na frente! Não acumula aqui atrás!". Como estou sentado, contemplo com distante
solidariedade os meus semelhantes, de ambos os sexos, que obedecem automaticamente,
avançando para os espaços ainda vazios no corredor do veiculo. Entre eles esta uma jovem
loura que esconde os olhos atrás de grandes óculos escuros. Ela foi empurrada e por sua vez
empurrou, de modo que conseguiu ficar perto do motorista, em situação melhor do que os
demais, dispondo de espaço para continuar lendo o jornal que traz na mão. Não me e
estranha. Mas de onde a conheço? Estou pensando nisso quando justamente ela para de ler,
move a cabeça na minha direção e me cumprimenta sorrindo. Respondo a saudação com
esta formula sem sentido: "Tudo bem?".
—Tudo bem—diz ela, achando graça—mas eu acho que você não esta me
reconhecendo.
Isso me desarmou. Sorri amarelo, não disse mais nada lhe dei as costas. Fui olhando a
paisagem pela janelinha, preocupado em saber: 1) de onde a conhecia; 2) se devia ceder-lhe
o lugar, mesmo antes de saber de quem se tratava. Mas na talvez ela também não soubesse
com quem estava falando, nesse caso seria penoso, para nos dois, qualquer iniciativa minha.
Lembrava-me de uma loura de belos olhos azuis com quem sai uma noite, mas era bem
mais alta e alem do mais alguma coisa ocorrera naquela noite—uma aventura de pessoas
adultas, agradável e sem drama ou compromisso. Não não podia ser a mesma pessoa.
No Flamengo, alguém desceu e ela sentou. Dobrou o jornal, apanhou papel e lapiseira
na bolsa, escreveu um bilhete e me entregou:
"Você e o J. C. O., ou estou confundindo?".
No mesmo papel, respondi:
"Sou eu mesmo. E você eu conheço dos Jangadeiros, certos?"
Ela examinou a resposta, sorriu com ar de zombaria e me enviou nova mensagem:
"Eu sabia que você não estava me conhecendo. Uma vez, você me deu um livro no bar
do Hotel Carlton."
Ah! Mas e claro! A namorada do Flavio! Alias noiva! Ele passara a tarde em outro
bar, tentando esquecer, em minha companhia, a minha atual colega de viagem de ônibus.
Estava gamado, mas ela parece que preferia casar com um belga, dai a dor-de-cotovelo que
o consumia. Mas tinha sido há tanto tempo... E agora? Decidi esclarecer a situação:
"Já me lembrei de você. Como vai o Flavio?"
Ela apanhou outro pedaço de papel, porque o primeiro estava coberto de mensagens, e
telegrafou.
"Não tenho visto."
Coração, caçador infatigável, detem-te! O Flavio pode ser um caso antigo, mas ainda
há outro na hist6ria. Mandei nova pergunta:
"Eu sabia que aquilo não ia dar certo. O Flavio e muito inconstante. E o belga, como
vai?"
Resposta:
"Também não deu certo".
Evidentemente, levantei-me e ancorei ao seu lado. Confessei que havia esquecido o
seu nome. Ela se identificou. E eu logo comuniquei, como quem não quer nada: "Alias, hoje
vou ao Jirau. Não quer ir?".
Não, tinha outro programa. O ônibus parou e eu saltei
Quem sabe Deus esta ouvindo (18)
Rubem Braga
Outro dia eu estava distraído, chupando um caju na varanda, e fiquei com a castanha
na mão, sem saber onde botar. Perto de mim havia um vaso de antúrio; pus a castanha ali,
calcando-a um pouco para entrar na terra, sem sequer me dar conta do que fazia.
Na semana seguinte a empregada me chamou a atenção: a castanha estava brotando.
Alguma coisa verde saia da terra, em forma de concha. Dois ou três dias depois acordei
cedo, e vi que durante a noite aquela coisa verde lançara para o ar um caule com pequenas
folhas. E impressionante a rapidez com que essa plantinha cresce e vai abrindo folhas
novas. Notei que a empregada regava com especial carinho a planta, e caçoei dela:
—Você vai criar um cajueiro ai?
Embaraçada, ela confessou: tinha de arrancar a mudinha, naturalmente; mas estava
com pena.
—Mas e melhor arrancar logo, não e?
Fiquei em silencio. Seria exagero dizer: silencio criminoso—mas confesso que havia
nele um certo remorso. Um silencio covarde. Não tenho terra onde plantar um cajueiro, e
seria uma tolice permitir que ele nascesse ali mais alguns centímetros, sem nenhum futuro.
Eu fora o culpado, com meu gesto leviano de enterrar a castanha, mas isso a empregada não
sabe; ela pensa que tudo foi obra do acaso. Arrancar a plantinha com a minha mão—disso
eu não seria capaz; nem mesmo dar ordem para que ela o fizesse. Se ela o fizer, darei de
ombros e não pensarei mais no caso; mas que o faça com sua mão, por sua iniciativa. Para a
castanha e sua linda plantinha seremos dois deuses contrários, mas igualmente ignaros: eu,
o deus da Vida; ela, o da Morte.
Hoje pela manha ela começou a me dizer alguma coisa —"seu Rubem, o
cajueirinho..."—mas o telefone tocou, fui atender, e a frase não se completou. Agora
mesmo ela voltou da feira; trouxe um pequeno vaso com terra e transplantou para ele a
mudinha.
Veio me mostrar:
—Eu comprei um vaso...
—Ahn...
Depois de um silencio, eu disse:
—Cajueiro sente muito a mudança, morre a toa...
Ela olhou a plantinha e disse com convicção:
—Esse aqui não vai morrer, não senhor.
Eu devia lhe perguntar o que ela vai fazer com aquilo, daqui a uma, duas semanas. Ela
espera, talvez, que eu o leve para o quintal de algum amigo; ela mesma não tem onde
planta-lo. Senti que ela tivera medo de que eu a censurasse pela compra do vaso, e ficara
aliviada com minha indiferença. Antes de me sentar para escrever, eu disse, sorrindo, uma
frase profética, dita apenas por dizer:
—Ainda vou chupar muito caju desse cajueiro!
Ela riu muito, depois ficou seria, levou o vaso para a varanda, e, ao passar por mim na
sala, disse baixo, com certa gravidade:
—E capaz mesmo, seu Rubem; quem sabe Deus esta ouvindo o que o senhor esta
dizendo...
Mas eu acho, sem falsa modéstia, que Deus deve andar muito ocupado com as bombas
de hidrogênio e outros assuntos maiores.
Moça do interior (19)
Tinham marcado um encontro, mesma hora (15 para a meia noite), mesmo lugar, um
ano depois. E na hora marcada ele estava lá, aflito, olhando em volta, será que ela vem? Não
vem. Esqueceu. Claro que esqueceu. Um ano antes tinham começado a conversar enquanto
esperavam os fogos, ela estava com a mãe e uma tia, ele com uns amigos, a meia-noite
tinham se abraçado meio sem jeito, beijinho, beijinho, depois conversado muito. A mãe e a
tia cansadas, querendo voltar para o hotel, os amigos querendo ir beber, e ele e ela querendo
ficar ali, conversando, ate o sol raiar. Só falando bobagem, ele nem lembrava bem o que, o
importante e que não queriam se separar. Quando finalmente se separaram, ele pediu o
endereço dela e ela—já se afastando, puxada por mãe e tia impacientes—gritou: "E longe!".
E ele: "Onde?". E ela: "l~o interior. Longe!". E ele: "Ano que vem! Aqui mesmo! Quinze
pra meia noite!". E ela: "Ta!".
Tinha esquecido. Claro que tinha esquecido. Que idéia, pensar que... E então ela
apareceu. Ainda mais linda do que um ano antes.
Com a mesma mãe e outra tia. 'Oi. 'Oi. Pensei que você tivesse... "O que e isso? Passei o
ano inteiro pensando neste encontro." "Eu também!" E quando viram, estavam de mãos
dadas. Seria possível que ele tivesse encontrado a mulher da sua vida, daquele jeito, por
acaso, na rua, numa noite de Ano Bom? Essas coisas não acontecem, pensou. Não assim.
Perguntou como tinha sido o ano dela. Ela disse "Legal" e perguntou como tinha sido o
dele. Ele disse que tinha sido bom, apesar de tudo, e comentou: "Que coisa, as torres, ne?".
E ela: "Que torres?". E ele: "As torres do World Trade Center, os atentados." E ela: "Eu não
fiquei sabendo." Foi quando ele pensou: era bom demais para ser verdade. A meia-noite se
abraçaram, não se beijaram porque a mãe estava de olho, mas ele já sabia que não ia dar
certo. Não tinha nada contra a moça ser do interior. Mas não tão do interior assim.
A fugitiva (20)
Carlos Drummond de Andrade
A ultima bomba H estava Irredutível. De modo algum abandonaria o seu refugio
lodoso, a 750 metros de profundidade, no Mediterrâneo.
—Não faça isso com a gente—suplicavam-lhe três mil oficiais, técnicos
mergulhadores, marinheiros e praças, empenhados há quase 90 dias em sua recuperação, e
que por fim a localizaram naquele fundo de mar, bem encolhida, bem desiludida.
—Daqui vocês não me tiram—respondeu-lhes a bomba. —O primeiro que me tocar,
eu explodo. Talvez este tempo de verbo não exista, mas pouco estou ligando a gramática de
vocês. A gramática e ao resto. Estou farta! Farta!
Os expedicionários insistiam. Aquele domicilio era impróprio para ela; não ficava
bem a uma bomba nuclear, talhada para altas missões, dormir no fundo das águas, que nem
peixe fugindo a caçada submarina. Que desmoralização para um artefato de 20 megatons!
Era em seu próprio beneficio que a estavam querendo tirar dali.
—Hmmm—resmungou a bomba, sem se deixar convence-lo
—Vamos. Suas companheiras de viagem caíram em terra, não deram trabalho. Foram
logo recolhidas, e ate agradeceram nossa solicitude em reavê-las. Uma bomba normal gosta
de voar, voar sempre sobre a terra inteira, divertindo se com o turismo aéreo nos
bombardeiros. Não e para destruir nada, nem sequer para assustar ninguém, pois vocês
viajam inc6gnitas. E por prazer. E você recusa esse prazer que nós lhe oferecemos?
—Prazer! Prazer! Que prazer sente uma bomba em não explodir! Afinal, que fizeram
as colegas em territ6rio espanhol?
—Coisinha a-toa. Apenas contaminaram as plantações em tomo de Palmares, mas nós
indenizamos os lavradores. Não queremos que nossas bombas dêem prejuízo a ninguém.
Uns pobres-diabos ate ficaram radiantes: há muito tempo que não viam dinheiro, e d61ar,
jamais.
—Quantos mortos?
—Fora os tripulantes dos aviões que se chocaram, nenhum. Você mesma, a dentro
d'agua, não assusta o pessoal. Nosso embaixador em Madri e o Ministro do Turismo da
Espanha vieram tomar banho lá em cima, para provar que você não e de nada. Venha, já
esta ficando tarde.
—Estão vendo? Eu não sou de nada! Nenhuma bomba e de nada! Para que foi, então,
que nos fizeram?
Como ninguém respondesse, ela continuou:
—Vocês, ao nos criarem, não deram somente uma nova angustia a humanidade. A n6s
também nos rechearam de angustia. Ficamos ansiosas por explodir—e nada. E hoje, e
amanha, e nunca se resolve. Acabamos ficando mais angustiadas do que as populações que
se angustiam por nossa causa. E vocês fazem disso um jogo, vocês e os outros. Estávamos
com grandes esperanças no Vietnã, mas qual o que. Vamos envelhecendo, outros engenhos
nos passam para trás, amanha a Lua será ocupada e equipada com armas fantásticas, astros e
planetas entrarão no brinquedo, e n6s apodrecendo por ai, sem uso, sem préstimo. Por isso
aproveitei o desastre de avião, e cai fora. Quero me livrar dos homens.
Falando, falando, deslocou-se entre as rochas, para melhor esconder-se. A turma
aproveitou o movimento e fisgou-a, alçando-a a superfície, sob protesto. Esta não escapa a
sorte de voar sobre a Terra. Depois de recondicionada.
Nem elas escapam.
Mães (21)
Mãe, mãe mesmo, só há duas: a mãe judia e a mãe italiana. Contam que o Giovanni
anunciou para a mãe que ia se casar. Depois de reanimá-la e ajuda-la a se levantar do chão,
deu o resto da noticia. A moça era judia.
—Dio!—gritou a mãe, estendendo as mãos para o alto como que pedindo para Deus
vir buscá-la imediatamente.
—Mama, você vai adorar ela.
—Eu vou ter que conhecer?!
—Claro, mnma!
—Vá você—disse a mãe, com um suspiro tão profundo que baixou o nível de
oxigênio do quarteirão.
Combinaram que na noite seguinte o Giovanni traria a noiva para apresentá-la a
mama, depois de participarem o noivado a famf1ia dela.
—Venham aqui primeiro—pediu a mama, com um mau pressentimento.
—Não, mama. Primeiro vamos na casa dela, anunciar o nosso casamento. Depois
viremos para cá.
—Vale mi Dio —suspirou a mãe, matando algumas plantas.
No dia seguinte, a mama se ocupou de preparar a recepção para a noiva do Giovanni.
Hesitou entre ter um enfarte e recebe-los a morte anunciando que de onde estivesse
abençoaria o casamento e usaria sua influência para tentar evitar que um raio interrompesse
a cerimônia, e preparar alguma coisa para comerem. Optou pela comida, mas reforçou as
olheiras. Prepararia uma ceia leve. Tagliateli. Rigatoni. Ravioli. Involtini. Talvez uma bela
insalata...
Quando Giovanni e a noiva chegaram, encontraram a mama perfilada atrás da mesa
coberta de comida, como um general atrás das suas tropas. A moça elogiou a gentileza da
futura sogra, elogiou os pratos e contou que, quando anunciara a sua mãe que lá se casar
com um católico, ela correra para a cozinha e botara a cabe, cá no forno.
Ao que a mama arregalou os olhos e perguntou, aflita com a perspectiva da falta de
apetite do casal:
—E vocês comeram?!
A mulher do Silva (22)
Foi um escândalo quando a frente da casa do Souza apareceu pintada, certa manha,
com uma frase sucinta sobre a, digamos assim, conduta moral da mulher do Silva, que
morava em frente. O Silva indignado, foi perguntar ao Souza:
—Quem foi?
—Não sei.
—Como, não sabe? A casa e sua.
—Não posso ficar na cal,cada cuidando pra não pintarem a fachada. Posso?
Não podia. Mas aquilo não ia ficar assim. Pior era que a frase nem citava a mulher do
Silva pelo nome. Ela era identificada como "a mulher do Silva". E, para que nao ficassem
duvidas: ".;.da frente".
—Apaga—pediu o Silva.
—Como?
—Com tinta branca. Pinta por cima.
—Mas a minha casa e amarela.
—Pinta de amarelo.
_ Só uma faixa amarela? ai ficar horrível.
—Então pinta a casa toda.
—E cadê o dinheiro?
—Eu exijo que você pinte a casa toda.
—Só se você me der o dinheiro.
—A casa e sua.
—Mas a mulher e sua.
Silva concordou. Pagou urna pintura completa da casa do Souza. Só reagiu quando 0
Souza sugeriu que ele pagasse também uma pintura interna, que estava precisando O Silva
pediu que o Souza nao contasse para ninguém Mas a notícia se espalhou pela vizinhança. E,
nao demorou muito, a casa do Moreira, que estava com a tinta descascando, apareceu com
uma frase na frente sobre certos supostos hábitos da mulher do Silva. O Silva foi lã.
—Apaga.
—Não sai.
—Quem foi?
--- Sei lá. Moleques.
—Pinta por cima.
—Só pintando a casa toda...
Quando saiu da casa do Moreira, depois de ter concordado em ~;~ ;i financiar uma
pintura completa, o Silva viu que na frente da casa do Santos, ao lado, estava escrito:
"Dou fé." Já entrou direto na casa do Santos para combinar o preço.
O quarteirão ate ficou bonito, com as casas pintadas de novo. Algumas casas, e claro,
ainda tem a pintura antiga. E todas as manhas o Silva as examina, prevendo o pior. Se bem
que, segundo alguns, ele também devia vigiar a sua mulher.
As time goes by (23)
Conheci Rick Blaine em Paris, nao faz muito. Ele tem uma espelunca perto da
Madeleine que pega todos os americanos bêbados que o Harry's Bar expulsa. Esta com 70
anos, mas nao parece ter mais que 69. Os olhos empapuçados são os mesmos, mas o cabelo
se foi e a barriga s6 parou de crescer porque nao havia mais lugar atrás do balcão. A
princípio ele negou que fosse Rick.
—Não conheço nenhum Rick.
—Esta lá fora. Um letreiro enorme. Rick's Café Americain.
—Esta? Faz anos que nao vou lá fora. O que você quer?
—Um bourbon. E alguma coisa para comer.
Escolhi um sanduíche de uma longa lista e Rick gritou o pedido para um negrão na
cozinha. Reconheci o negrão. Era o pianista do, cafe do Rick em Casablanca. Perguntei por
que ele nao tocava mais piano.
—Sam? Porque só sabia uma musica. A dientela nao agüentava mais. Ele também faz
sempre o mesmo sanduíche. Mas ninguém vem aqui pela comida.
Cantarolei um trecho de As time goes by. Perguntei:
—O que você faria se ela entrasse por aquela porta agora?
—Diria: "Um chazinho, vov6?". O passado nao volta.
—Voltou uma vez. De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em
Casablanca, para entrar.
—Nao volta mais.
Mas ele olhou, rápido, quando a porta se abriu de repente. Era um americano que
vinha pedir-lhe dinheiro para voltar aos Estados Unidos. Estava fugindo de Mitterrand. Rick
o ignorou. Perguntou o que eu queria alem do sanduíche de Sam, que estava péssimo.
—Sempre quis saber o que aconteceu depois que ela embarcou naquele avião com
Victor Laszlo e você e o inspetor Louis se afastaram, desaparecendo no nevoeiro.
—Passei 40 anos no nevoeiro—respondeu ele. Obviamente, nao estava disposto a
contar muita coisa.
—Eu tenho uma tese.
Ele sorriu.
—Mais uma...
—Você foi o primeiro a se desencantar com as grandes causas. Você era o seu pr6prio
território neutro. Victor Laszlo era o cara engajado. Deve ter morrido cedo e levado alguns
outros idealistas com ele, pensando que estavam salvando o mundo para a democracia e os
bons sentimentos. Você nunca teve ilusões sobre a humanidade. Era um cínico. Mas
também era um romântico. Podia ter-se livrado de Laszlo e ficado com ela, mas preferiu o
grande gesto e se igualar a Laszlo aos olhos dela. Por que?
—Você se lembra do rosto dela naquele instante?
Eu me lembrava. Mesmo através do nevoeiro, eu me lembrava. Ele tinha razao. Por
um rosto daqueles, a gente sacrifica ate a falta de ideais.
A porta se abriu de novo e n6s dois olhamos rápido. Mas era
O torcedor (24)
Jose Carlos Oliveira
Jogam Flamengo e botafogo, e meu coração se divide Como qualquer brasileiro, nasci
Flamengo; mas, aos 18 anos, decidi romper com todos os preconceitos, e mesmo com as
crenças mais sensatas que vinha acumulando. Para começa tudo de novo. Resultado: fiquei
sem um céu para onde ir depois da morte, e sem um time de futebol que me fizesse
experimentar simbolicamente, nos fins de semana, as alternativas de vitória e derrota em
que se resume a aventura humana. Uma tarde de domingo, jogavam Botafogo e Fluminense
em partida final de campeonato. Toda a cidade estava no Maracanã. Andei pelas ruas
desertas, indiferente a sorte do campeonato. Cheguei ao Metro Copacabana e entrei para ver
um filme infantil. Lá dentro eram raros os adultos. Na saída com o sol já se apagando, fui
andando na direção do Roxy, e na minha frente ia uma família muito jovem o marido com
uns quarenta anos, a mulher grávida de seis meses. O marido levava ao colo um menino
pequeno, e a mulher conduzia pela mão dois outros meninos. Fui andando a pensar na
alegria que eles teriam se dentro de três meses nascesse a primeira menina. Provavelmente
iriam ter o quarto filho apenas para alegrar o homem, cujo sonho era ser pai de uma gentil
criança do sexo feminino. A jovem senhora grávida era bela, de traços finos; usava
sandálias sem alias e mostrava uns pés verdadeiramente sublimes. fomos andando assim
quando topamos com um cidadão que, encostado a uma arvore, ouvia um radio de pilha.
Ao vê-lo, o homem, a mulher e as crianças ficaram paralisados. O homem e a mulher se
entreolharam em silencio e ficaram ainda algum tempo indecisos. Depois, o homem, sempre
com o filho caçula no colo, aproximou-se cautelosamente do cidadão que ouvia o radio e
falou:
—Por favor... Quanto foi o jogo?
—Seis a dois—disse o outro.
—Ah, seis a dois... Mas para quem?
—Para o Botafogo, naturalmente...
—Naturalmente!—exclamou então o pai de família, e a jovem senhora ficou com o
rosto iluminado. Os dois meninos que iam a pé pularam de contentamento. O pai entregou a
mulher o filho de colo, beijou-a na testa, deu adeus aos outros filhos e saiu correndo na
direção de um táxi que passava. Entrou no táxi e seguiu para o Túnel Novo.
Fiquei curioso para saber o que se passara. Contemplei algum tempo a jovem mulher
que seguia agora o seu caminho, com dois filhos pela mão, um terceiro no colo e um quarto
na barriga. Adiantei-me e lhe disse:
—Queira desculpar, mas... Que foi que houve?
—O Botafogo venceu—disse ela—e ele foi para a sede do clube comemorar.
—Mas—insisti—se ele gosta tanto assim do Botafogo, por que diabo nao foi ao
Maracanã? Por que se meteu no cinema?
—Para evitar o enfarte!—disse ela, com simplicidade e ; também com uma espécie de
triunfo na voz.
—Ah, sim... O enfarte...
A mulher e os filhos seguiram caminho. Entrei num bar e pedi um cafezinho. A partir
daquele dia o meu time seria o Botafogo.
A Legitima a Outra (25)
A Outra tanto fez que conseguiu entrar na UTI, onde encontrou a Legitima agarrada a
mão dele. Deitado de barriga para cima, com tubos e fios saindo para todos os lados e
conectando-o a aparelhagem em volta, ele parecia um avião recem-pousado depois de uma
longa viagem. Um Boeing com as turbinas apagadas, mantido vivo pelo pessoal de terra.
—Querido!—gritou a Outra, procurando uma parte dele que também pudesse agarrar.
A Legitima nem piscou.
—O que você fez com ele?—exigiu a Outra.
A Legitima nada
. —Eu sabia que cedo ou tarde você o mataria!—acusou a Outra
A Legitima, uma pedra.
—Só comigo ele tinha o carinho de que precisava. Você fez isso com ele! Você! Com
sua frieza, com sua maldade, com sua ...
Então a Legitima falou:
—Nos estávamos fazendo amor.
A Outra recuou como se tivesse levado um choque.
—Mentira!
A enfermeira fez "sssh", mas a Outra falou ainda mais alto.
—MENTIRA!
—Ele morreu nos meus braços—disse a legítima no mesmo tom triunfal.
—Ele nao esta morto—corrigiu a enfermeira.
—Morreu nos meus braços, esta ouvindo?
—Despeito! Despeito! Ele só fazia amor comigo.
—Sabe quais foram suas ultimas palavras?
A Outra tapou os ouvidos.
—Eu nao quero ouvir!
—Suas ultimas palavras foram "Agora cruza!".
—Nao!
—Sim! Sim! Nos estávamos fazendo o Alicate!
—NAO!
Um médico apareceu e ameaçou retirar as duas de perto do paciente. Elas nao lhe
deram atenção. A Outra soluçava.
—Nao. O Alicate nao!
—Sim! Tudo o que ele fazia com você, ele fazia em casa Experimentava em você para
fazer comigo.
A Outra interrompeu os soluços para espiar por entre os dedos que tapavam seu rosto
e perguntar, incrédula:
—A Borboleta também?
—A Borboleta, a Chinesa Assoviadora, o Baile dos Cossacos...
—NAO! —Sssshh!
—Tudo. Tudo! Você era um campo de provas. Eu era para valer. Com você era treino.
Comigo era pelos pontos!
Então a Outra gritou uma palavra indecifrável e avançou num dos aparelhos que
cercavam a cama, tentando arrancar os fios, ate ser controlada pelo medico e a
enfermeira e empurrada para fora do cubículo. Da porta a Outra ainda conseguiu gritar:
—O Salgueiro Despencado ele nao fazia com você!
—Fazia!Fazia!
Perfilada ao lado da cama, a Legítima respirou fundo. Depois
sentou-se. Ia pegar a mão dele, mas recuou. Em vez disso, cochichou no seu ouvido.
—Joca?
Insistiu:
—Joca?
Depois:
—Como era o Salgueiro Despencado?
Depois:
—Seu safado. Como era o Salgueiro Despencado?
E o Boeing quieto.
Serás ministro (26)
Carlos Drummond de Andrade
---Esse vai ser ministro—sentenciou o pai logo que o garoto nasceu.
—E você, com esse ordenado micho de servente, tem la poder pra fazer nosso filho
ministro?—duvidou a mãe.
—Então, só porque meu ordenado e micho ele nao pode ser ministro? A Radio
Nacional deu que Abraão Lincoln trabalhava de cortar lenha no mato, e chegou a presidente
dos Estados Unidos.
—Isso foi nos Estados Unidos.
—E dai? Nem eu estou querendo tanto pra ele. So quero uma de Ministro.
—Tonzinho, deixa isso pra la.
—Pra começar, a gente convida o Ministro pra padrinho dele.
—O Ministro nao vai aceitar.
—Nao vai por que? Trabalho no gabinete ha dois anos.
—Ele e muito importante, filho.
—Por isso mesmo. Com padrinho importante, o garotinho come~a logo a ser
importante.
—O Ministro e tão ocupado, você mesmo diz. Vê lá se tem tempo pra batizar filho de
pobre.
—Pois sim. Ele me trata com toda a consideração, de igual pra igual. Hoje mesmo eu
faco o convite.
Fez. O Ministro nao pode comparecer, mas enviou representante. Era quase a mesma
coisa. Na hora de dizer o nome do ~ai não vacilou; disse bem sonoro:
—Ministro.
—Como?—estranhou o padre.
—Ministro, sim senhor.
A mulher ia atalhar: "Tonzinho, nao foi Antonio de Fatima que a gente combinou?"
mas era tarde.
No cartório, também estranharam:
—Ministro por que?
—Porque eu escolhi. Acho lindo. —Nao e nome próprio.
—Pois eu cá acho muito próprio. Nao tem ai uma família chamada Ministério, alias
com pessoas distintas, médicos, dentistas, etc.?
—Tem.
—Pois então. Meu filho e Ministro, só isso. Ministro A1ves da Silva, futuro cidadão
útil a Pátria. Tem alguma coisa demais?
O garoto registou-se. Cresceu. Na escola, a principio achavam-lhe graça no nome.
Parecia apelido. Depois, o costume. Há nomes mals estranhos. Ministro nao era o primeiro
da classe, também nao foi dos últimos.
Já moço, o leque das opções nao se abriu para ele. Entre o oficio sem brilho e o andar
térreo da burocracia, acabou sendo, como o pai, servente de repartição. Promovido a
continuo.
—Eu nao disse?—festejou o pai.—Começou a subir. O Maximo que subiu foi
trabalhar no gabinete do Ministro. —Ministro, o Sr. Ministro esta chamando.
—Ministro, já providenciou o cafezinho do Sr. Ministro?
—Sabe quem telefonou pra você, Ministro? A senhora do Sr. Ministro. Diz que você
prometeu ir lá consertar umas goteiras e esqueceu.
—Ministro! Roncando na hora do expediente?! começaram os equívocos:
—Telefonema para o Ministro.
—Qual? O Ministro ou o Sr. Ministro?
—Este Ministro e um cretino! Me fez esperar uma hora nesta poltrona!
—Perdão, Deputado, o senhor esta ofendendo o Sr. Ministro.
—Eu? Eu? Estou me referindo a esse animal, esse...
Ate que se apurasse que o animal era Ministro, o continuo—que confusão!
O Ministro de Estado, ciente da confusão, recomendou ao assessor:
—Faca esse homem trocar de nome.
—Impossível, Sr. Ministro. E o seu titulo de honra.
—Então suma com ele da minha vista.
Mandaram-no para uma vaga repartição de vago departamento. Queixou- se ao pal,
aposentado, que isso de se chamar Ministro nao conduz a grandes coisas e pode ate atrasar a
vida.
—Ora, meu filho, hoje no bueiro, amanha no Pão de Açúcar. E você nao tem de que
se queixar. Num momento em que tanta gente importante sua a camisa pra ser Ministro, e
fica olhando pro céu pra ver se baixa um signo do astral, você já e, você sempre foi
Ministro, de nascença! de direito! E nao depende de governo nenhum pra continuar a ser.
até a morte!
Abraçaram-se, chorando.
LER SEM PRAZER (27)
Diorindo Lopes Júnior
A menina foi obrigada pela escola a ler um livro que escrevi, para uma prova. Enviou-
me um e-mail elogiando a história, o que muito me envaideceu, mas ao mesmo tempo fez-
me desanimado.
Não crio histórias para obrigar quem quer que seja a ler ou delas gostar. Escrevo
porque gosto, sou movido a leituras e escritas. Aprendi a fazer isso (mais ou menos) direito
ainda menino, 8 ou 9 anos.
Uma e outra, leitura e escrita, constituem o meu modo de vida, meu jeito de ganhar dinheiro
honestamente e, com ele, pagar as contas. Contudo, nem todo mundo é assim ou tem de ser
assim.
Ler, para mim, é fundamental. Foi lendo (muito) que aprendi a escrever sem precisar
me esforçar muito (decorar) para aprender as regras gramaticais.
A mensagem desta menina levou-me, sem que eu desejasse, a uma volta ao passado.
Tinha 14 anos quando fui "apresentado" a Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás
Cubas, que odiei. Reli-o já perto dos 30, compreendi e literalmente devorei o máximo
que pude de tudo que ele escreveu. Com outros autores, também foi assim.
Penso que as escolas têm mesmo de incentivar a Leitura, mas de uma forma
convidativa, lúdica até, sem essa FORÇA DE PROVA. Que os professores sugiram um livro
por mês e marquem uma aula para tratarem deste livro, discutirem-no em classe, sem valer
nota. Quem não leu, ouve quem leu comentar, mas, por favor, mestre!, não faça da Leitura
um inibidor da Leitura.
Ler sem ter vontade é algo parecido como ser obrigado a comer sem ter fome ou não
gostar do que é servido - ou lido. E Ler é, basicamente, prazer.
Graças a Deus, esta menina (de uma cidade paranaense) gostou do que escrevi. Muito
provavelmente, respondeu corretamente a questões formuladas, onde eu, autor, também
provavelmente erraria ou mesmo não saberia responder.
Ler é uma coisa, a interpretação de quem lê é outra. E, raramente, é a mesma. Afinal,
o que importa o que eu quis dizer? Importante, para mim, autor e leitor, é o que irão
interpretar ou o que eu vou interpretar. Comum, apenas a necessidade de reflexão a respeito
do que foi lido.
O resto, todo o resto, é purpurina. Perde o efeito de brilho em qualquer 4ª feira - nem
precisa ser de Cinzas.
HOMENS E LIVROS (28)
Diorindo Lopes Júnior
Devia ter uns oito ou nove anos quando alguém me disse que "um país se faz com
homens e livros". Ainda não havia lido Caçadas de Pedrinho ou Memórias de Emília, nem
sabia que o autor da frase era Monteiro Lobato. O sábio Tempo, contudo, ensinou-me sobre
sua autoria e, de certo modo, seu sentido inspirou minha futura maneira de enfrentar a vida -
tornei-me um leitor compulsivo de livros, revistas, gibis, jornais, etc.
Nunca fui um aluno CDF, de rachar nos estudos (jogar bola e namorar são atividades
muito mais interessantes, a partir dos doze anos), e o fato de "ler bem", desde menino,
facilitou bastante a minha relação com a escola. Se hoje ganho a vida como jornalista,
admito que aprendi a escrever de modo compreensível lendo e copiando autores e jornalistas
que dominavam o "ofício".
Ler, entre outras e muitas coisas, também me ensinou a perguntar, refletir, duvidar,
divergir, questionar, exigir, reivindicar, convencer, argumentar, propor, seduzir, participar,
defender, apoiar, etc. Atitudes indispensáveis para, ao longo do tempo, construir um cidadão.
Evidentemente ler, apenas, não torna ninguém um cidadão.
Cidadania não se adquire exclusivamente por leituras, envolve um amplo conjunto de fatores
que pode ser resumido em família, professores e bons exemplos de integridade, mas é certo
que contribui de maneira fundamental para que as pessoas sejam, ao menos, menos ferozes -
ou não.
Ler, e ser culto, não impõem exatamente que o leitor, culto, seja uma pessoa honesta.
Uma pessoa cidadã. Leitura, e conseqüentemente conhecimento e cultura, podem fazer uma
inteligência criminosa ainda muito mais perigosa, ainda muito mais destrutiva. E não falo de
psicopatas, de mentes doentias.Basta abrir as páginas, ver os noticiários da televisão.
Juízes, deputados, construtores, advogados, jornalistas, publicitários, médicos,
senadores, adolescentes estudantes, dentistas, sindicalistas, vereadores, procuradores,
policiais, economistas, universitários, presidentes, músicos, promotores, empresários,
professores, editores, militares, banqueiros, engenheiros, e todos os segmentos profissionais
dito letrados, até religiosos, dia sim e o outro também, ocupam espaço policial nos
noticiários - não me lembro agora de nenhum escritor envolvido com querelas policiais,
exceto os que foram presos (e torturados, e mortos) por posições políticas, mas esta é uma
outra e tenebrosa história.
Por lerem ou terem lido mais que a maioria da população, por terem tido mais
oportunidades (e que oportunidades!), essas pessoas constituem uma parcela da sociedade
que deveria melhor distinguir o certo do errado e não cometer transgressões. São pessoas
muito distintas do menino de rua que, munido de um caco de vidro, intimida um motorista
distraído no sinal de trânsito. Ou do maior abandonado que, arma branca ou de fogo nas
mãos, olhos esbugalhados por bagulhos, mata num só vacilo a vítima surpreendida e
desarmada.
A vida me ensinou que, se o conhecimento e a cultura podem ajudar em muito na
formação de um cidadão, da mesma maneira, podem também colaborar na criação de um
bandido - embora nem 10% da sociedade são compostos por bandidos, por gente que age
fora-da-lei.
E é por isso que a frase de Monteiro Lobato me parece bastante apropriada para, se
não explicar, pelo menos para que compreendamos um pouco melhor o momento brasileiro
atual. Aceitá-lo passivamente - este momento - é que não dá mais.
Um país se constrói com homens e livros, sim. E se alguns homens não se comportam
o ou não estão à altura da cidadania que a educação e a cultura lhes oferece, o problema não
está nos livros - e sim nesses alguns homens.
O que me leva a pensar na sabedoria dos feirantes: ao perceberem frutas podres em
meio a frutas sadias, simplesmente as retiram da banca e as jogam na lata de lixo.
O que não podemos é jogar o Livro na lata de lixo.
ENSINO, LIVRARIAS E DITADURAS (29)
Diorindo Lopes Júnior
Sou de um tempo em que escola pública significava educação de alto nível.
Para fazer o ginásio (hoje, 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental) havia um vestibulinho e as
crianças eram selecionadas e distribuídas, de acordo com sua classificação, entre as escolas
estaduais da cidade.
Passei todo o ano de 1968 ("o ano que não terminou", belíssimo livro do jornalista
Zuenir Ventura) fazendo um cursinho de admissão, junto com o que era chamado 4º ano
primário. Em dezembro daquele 1968 aconteceu o Ato Institucional nº 5 e o regime de
exceção instalou-se no país.
Quando as aulas começaram, em fevereiro ou março de 69, o ensino tradicional que
fazia a escola pública ser tão concorrida e disputada, havia sido trocado por um tal de
"sistema pluricurricular de ensino", ou coisa que o valha (faz tanto tempo...), cuja principal
característica era substituir provas narrativas e dissertativas pelo esquema de cruzinhas e as
notas, de 0 a 10, por conceitos estranhíssimos - suficiente ótimo (SO), suficiente
bom (SB), suficiente médio (SM), suficiente fraco (SF) e suficiente nulo (SN).
O leitor não pode imaginar a dificuldade que enfrentei para explicar à minha mãe que
meu SM em matemática não era exatamente o fim do mundo...! Fim do mundo foi ver o
professor de Ciências juntar todas as provas, botar um "gabarito" em cima, perfurar todas as
folhas com a ponta fina de um compasso e ir dando as notas, na hora.
Até então, eu só havia feito provas em folhas de papel almaço - quatro folhas pautadas
em azul cinzento, a margem era em vermelho, no lado esquerdo.. Existem ainda as folhas de
papel almaço...?
Pensando nisso, hoje, tenho certeza de que o ensino público começou a ruir ali.
Com a instituição dos conceitos, das cruzinhas, dos gabaritos, da ponta de um prosaico
compasso fazendo às vezes de uminstrumento de correção, e com o fim das provas
dissertativas e descritivas em folhas de papel almaço.
A ditadura militar estava jogando nossa identidade na lata de lixo da História!
Hoje, faz sentido. Um povo ignorante não resiste, não reivindica, não exige e não
participa. Abaixa a cabeça a ralos afagos e extasia-se lambendo as migalhas que lhes são
atiradas no chão. Graças a Deus, alguns professores (sempre os professores) não
compactuaram com a escrotice governista e cuidaram de nos recomendar livros, revistas,
jornais alternativos - enquanto os ditadores de plantão não perceberam e começaram a
proibir a leitura desses livros e jornais. Um "cuidado" também em vão. Tolinhos, os
poderosos armados não atentaram que transgredir é próprio da adolescência, e boa parte da
minha geração aproveitou-se desta ignorância fardada e transgrediu o quanto pôde. Lendo e
sabendo tudo que era proibido, censurado.
Durante anos, a Educação brasileira leu muito pouco, mas vieram os escritores com
uma linguagem voltada para o público infantil e adolescente e esta anomalia, aos poucos,
está sendo revertida. Penso que na literatura adulta o mesmo está acontecendo, mas não
tenho dados precisos.
Na minha opinião, ainda se lê muito pouco no Brasil, mas a indústria editorial (que
vive se queixando, também na minha opinião de barriga muito cheia...) cada vez mais
apresenta números crescentes e lucrativos. Recebo periodicamente boletins da Câmara
Brasileira de Livros e é impressionante a quantidade de feiras e salões literários que eclodem
pelo país, o ano inteiro. Se acontecem, é porque têm público - ou não?
O que ainda não engulo é a minúscula quantidade de livrarias que temos. Disseram-
me que só Buenos Aires tem mais livrarias que todo o Brasil - espero que não seja
verdade. Megas livrarias estão ocupando os shoppings das grandes cidades, as páginas
econômicas de jornais e revistas vivem fazendo reportagens a respeito de seus lucros, mas o
grosso do país tem apenas papelarias que, às vezes, também vendem livros.
A Internet veio atenuar um pouco este problema, mas o livro continua sendo um
produto bastante caro (como os computadores) e, também pela falta de livrarias, inacessível
à maioria da população brasileira - que não bastasse gritantes dificuldades de sobrevivência,
volta a enfrentar também a possibilidade concreta de ser relegada à ignorância e ao
obscurantismo cultural.
O pior é que, agora, não temos no poder nenhuma ditadura fardada para
responsabilizar e xingar. Não seria o caso de um projeto federal que financiasse a abertura de
pequenas livrarias em cidades menores, em bairros distantes dos grandes centros? E que
também pensasse em baratear os custos de produção dos livros, de financiar mais bibliotecas
públicas?
Ou será que, em vez de estar escrevendo essas lembranças românticas, não estaria
chegando a hora de eu estar começando a xingar uma ditadura intelectual, que se apresenta
como neoliberalismo democrático...?
FOME (30)
Uma importante autoridade governamental disse outro dia que a proposta de
solucionar a fome brasileira em quatros anos é demagogia da oposição. Comentava uma
declaração de um provável candidato opositor.
Concordo com a autoridade, eliminar a fome em qualquer canto do mundo é trabalho
para, pelo menos, quatro séculos. Talvez quatrocentos séculos. Mas, amenizar a fome, é
possível, sim.
Tem um exemplo aqui em São Paulo, distinta autoridade, se é que o senhor conhece
São Paulo, distinta autoridade. A TV mostrou uma reportagem na qual uma menina chorava
de fome e implorava por um punhado de comida. No mesmo dia, um montão de gente
ofereceu não só a comida implorada, mas ainda emprego, casa, brinquedos, sei lá mais o
quê, para a família dela.
Na seqüência, teve uma campanha de solidariedade aos famintos do Nordeste,
arrecadação organizada pela Cáritas, uma entidade religiosa extremamente confiável, que
conseguiu mais de mil e duzentas toneladas de alimentos, que foram levadas e distribuídas
ao Nordeste com fome, graças à solidariedade de empresas de transportes que emprestaram
carretas. E também da participação efetiva de todos os Credos, e escolas e empresas e mais
um punhado de gente anônima, que se comoveu e ajudou como pôde..
Como dizem os que não respeitam nossa Língua, de grátis. Tem outra campanha
rolando, o Natal Sem Fome. Pode até faltar brinquedo para a criançada, mas comida, não.
Pode não ter peru, mas feijão com arroz e macarrão, isso é que não. Podia ter alguns
livrinhos também, mas aí seria apelar muito de nossa pobre imaginação. E por falar em
livros, um grande supermercado, não faz muito, promoveu uma campanha de arrecadação de
livros para a Pastoral do Menor - que, a propósito, está concorrendo ao Prêmio Nobel, nobre
autoridade sabia disso? Não sei quantos exemplares foram arrecadados, digna autoridade,
mas é muito positivo quando uma instituição comercial/industrial move sua estrutura para
fins educativos.
Eu fui doar uns livros já lidos e tive de entrar numa fila...!
E por falar na Pastoral, soube que sua presidenta, a Sr.ª Arns, disse outro dia num
programa de televisão que a questão da desnutrição infantil e também de mães desnutridas
pode ser aliviada com pouco mais de oitenta centavos mensais, OITENTA CENTAVOS
MENSAIS, cara autoridade. Uma fórmula bastante simples: as voluntárias pegam aquelas
folhinhas verdes da cenoura, que ninguém come, juntam cascas de ovos, misturam com talos
de outras verduras e legumes, enfim, juntam tudo aquilo que geralmente é jogado fora,
batem num liquidificador e fazem um pó que, adicionado à pouca comida que essas mães e
bebês comem graças à generosidade de muitos, e dessa maneira esse pó garante a vida, ou
sobrevinda, de quem padece a agonia da fome.
Uma moça outro dia me contou: alimenta uma família de seis pessoas com cem reais
ao mês, menos que uma cesta básica, e sente-se bem demais com isso. Certo, cem reais não é
um dinheiro que todo mundo pode desfazer-se a cada mês, mas ela pode e faz e sente-se bem
fazendo isso, e sem fazer alarde de sua participação. Têm de ver o sorriso que ela mostra
quando volta de cada visita que faz à morada desta família.
U m programa televisivo, matinal e dominical, voltado à agricultura, estimou que este
ano a produção de grãos deve superar seus recordes anteriores, batendo em cem milhões de
toneladas. Como de hábito, uma parte deve ser desperdiçada no campo mesmo, outra no
transporte e outra, ainda, no armazenamento antes de ir ao consumidor e/ou ao exportador.
Não imagino como governos podem resolver isso, este desperdício, mas imagino que
parte da fome pudesse ser solucionada se alguma fatia do dinheiro destinado a acordos
internacionais fosse destinada a garantir preços mínimos aos produtores, a criar silos para
armazenagem, ou talvez fazer estoques sociais para combater fomos perenes que massacram
populações inteiras.
Sabem, nobilíssima autoridade e nobilíssimo opositor candidato, vossas excelências
estão redondamente enganados. A fome não vai ser extinta em quatro anos, quatrocentos
anos ou em quatrocentos séculos. Mas pode ser amenizada em quatro meses.
A população, nós, este povo generoso que somos, mesmo com nossas dificuldades
cotidianas, que autoridade alguma aplaca, ajudamos e na nossa frente ninguém morrerá de
fome. Sempre haverá uma cuia de farinha para engrossar o arroz com feijão e ovo, alguma
verdura, de todo dia. Sempre um ou outro alguém aparecerá com uns miúdos de carne de
galinha, de vaca, porco.
A assunção ao poder costuma mudar o discurso político das campanhas..
Dê um pouco mais de dinheiro para a Educação, caríssima autoridade. Faça uma campanha
entre seu partido, senhor candidato oposicionista, para doação de livros a escolas e
bibliotecas. Cidadão que lê, raramente passa fome, fica safo. Sei que aí complica um pouco,
porque cidadão bem-alimentado e que lê, exige mais, pensa muito antes de votar e eleger...
Mas, voltando à fome, a gente acaba com este flagelo em quatro meses, sim. Basta
vontade política, senhores autoridade oficial e candidato oposicionista, só vontade política.
O resto, o de imediato, o povo ajuda, sempre. Sempre ajudou. A demagogia da fome está no
poder, nas candidaturas; aqui, entre nós, o povo, a fome é combatida como se deve: com
comida. E, vez ou outra, com livros.
LER E GOSTAR DE LER ( O QUE É QUE OS PAIS TÊM A VER COM ISSO) (31)
Diorindo Lopes Júnior
Se você se interessou pelo título e começou a ler, eu respondo já: tudo. O escritor e
artista plástico Ziraldo Alves Pinto falou, pela boca do Menino Maluquinho, uma das mais
inabaláveis verdades sobre Educação já ditas neste país: ler é mais importante do que
estudar. A esta afirmação eu acrescentaria um saber, no início na frase, antes de ler. Saber
ler, e compreender o que se lê, é mais importante do que estudar.
Nesta recém-terminada Bienal do Livro, em São Paulo, soube de uma importante
senhora da Educação Federal um dado simplesmente aterrorizante: cresce assustadoramente
o índice de adultos alfabetizados que simplesmente não compreendem aquilo que lêem.
Esta informação, vinda de um membro de um governo capitaneado por um intelectual,
deveria bastar para que se invocasse a Lei de Segurança Nacional e botar todas as tropas da
Educação na rua, mas é melhor não pensarmos nisso porque, pelo que vimos nas
comemorações dos 500 anos, para este governo capitaneado por um intelectual, botar a tropa
na rua significa descer indiscriminadamente o porrete na população indefesa; os índios, no
meio. (E quando sabemos os salários de fome dos professores das escolas públicas, somos
obrigados a considerar que o governo intelectual quer matá-los à míngua...) Bem, voltemos à
questão da leitura. De sua compreensão.
Conheço uma moça que andou proclamando aos quatro ventos que havia matriculado
sua filha de sete anos em um colégio onde os alunos são obrigados a andar com um
Aurelinho (dicionário) debaixo do braço. Dia desses, conheci a menininha, já com dez anos.
Seu vocabulário cabe literalmente dentro de um dedal de costura. O que apenas
comprova uma verdade irrefutável: conhecimento não se adquire por osmose axilar.
(Neste caso, ou esta moça é muito boba ou este colégio deveria sofrer alguma sanção
prevista no Código de Defesa do Consumidor...)
Também conheço um sujeito que se pensa o máximo na educação do pimpolho, de
oito anos, no quesito leitura. Digo "se pensa" porque este sujeito até que se esforça bastante,
mas discuto o que ele considera "progresso" na educação do garoto.
Semana passada este sujeito esteve comigo em uma livraria, "programa" que faço três
ou quatro vezes por mês, mas ele, que apenas forçado "comparece" a uma livraria, estava à
cata de um livro que a escola pedira para seu mimoso filhote. A muito custo, convenci-o de
que devia levar, também, dois outros títulos para o garboso rapaz de oito anos. Um deles de
Ana Maria Machado, este monumento maravilhoso que acaba de (muito mais que
merecidamente) ganhar a láurea Hans Christian Andersen, uma espécie de Nobel para a
literatura infantil e juvenil. Pois não é que este sujeito meu amigo achou a aquisição "muito
cara..."?!
Este sujeito, e também a moça minha conhecida, cuja filha carrega um Aurelinho
debaixo do braço e tem um vocabulário que cabe em um reles dedal, evidentemente não
levam seus fedelhos brilhantes, lindos e maravilhosos a uma livraria como passeio de final
de semana, porque livro é muito caro. Com certeza, este sujeito e esta moça, minha amiga,
sequer cogitaram a Bienal do Livro, de São Paulo, como um programa legal para seus
amados petizes. É bem verdade que a Bienal, cobrando R$ 5,00 a entrada, mais R$ 10,00
pelo estacionamento, e oferecendo cheques-livro no valor de 10% de cada compra,
certamente não contribuiu em nada para que as vendas fossem maiores em volume (não em
numerário). Aliás, nesta Bienal, o que me chamou atenção foi o fato de as editoras venderem
seus livros pelos mesmos preços de capa praticados pelas livrarias.
Explico: se não têm, as editoras, de arcar com os custos (cada vez mais elevados!) dos
distribuidores, nem com o percentual (também elevado) cobrado pelas livrarias, por que
então os preços idênticos? É bem verdade que a montagem de um estande custa caríssimo, o
metro quadrado na Bienal tem quase o preço de um carro importado, mas repassar pura e
simplesmente este investimento para o bolso do público visitante parece-me falta de
marketólogos competentes nas editoras...
Fujo do assunto, a digressão é um dos meus defeitos mais marcantes.
Quero falar da responsabilidade que pais e mães têm na formação do gosto pela leitura
de seus filhos porque, para muitos, esta responsabilidade é das escolas – não é. As escolas
até que se esforçam, incentivando a leitura, mas ler é um hábito que se adquire em casa. É
com três ou quatro anos que menininhos e menininhas começam a imitar os pais, e se os pais
forem leitores (pelo menos de um jornal diário e uma revista semanal) é certo que os filhotes
serão atraídos pela leitura até mesmo pela curiosidade natural da idade.
Importante é que, em meio às festas de aniversários (e como eles fazem festas de
aniversário!), clube, zoológico, lanchonetes de grife, parques, cinema de desenhos animados
(observo que aqui estou falando de famílias que têm pai e mãe, ou só pai, ou só mãe, mas
que têm uma vida vamos dizer... normal), os pais também se preocupem em levar seus
maravilhosos e inteligentíssimos guris a teatros, livrarias, shows, e mesmo a prosaicas
bancas de revistas – gibi também é legal. Mais, que leiam com seus filhos, que conversem
com eles sobre o que leram juntos, uma conversa franca, divertida ou séria, mas sempre de
igual para igual.
Criança adora ser tratada assim, de igual para igual. O que me parece óbvio e muito
justo; afinal, são crianças, não débeis mentais.
O que me parece problemático é que, ao começar a juntar as letras, a compreender o
que está lendo, os famigerados petizes começam também a perguntar. Perguntas cabeludas
que muitos pais, a maioria eu diria, não estão preparados para responder. Preferem não
conversar a respeito, protegidos sob o manto do "ainda não é hora, ele/ela não tem idade para
isso". E consideram muitas perguntas inconvenientes, inadequadas.
Ora, se tem um indivíduo que não tem hora, este indivíduo chama-se criança. E, para
uma criança, como para os jornalistas, não existem perguntas inadequadas ou
inconvenientes. As respostas, sim, é que costumam ser muito inadequadas ou por demais
inconvenientes.
O que esses pais e mães não percebem é que a leitura é um ótimo, talvez o melhor,
instrumento para contribuir na educação que pretendem dar a seus fabulosos rebentos.
Porque permite conversa franca e desarmada, abre caminhos para dúvidas a esclarecer,
perguntas imprevisíveis que povoam o imaginário infantil.
Vou além: essas leituras familiares são a base para que, teens, esses meninos e
meninas não apavorem seus estressados pais porque deixaram de ler um livro que vai ser
objeto de uma prova na escola.
Vou mais além: lendo e conversando com os filhos, é mais seguro aos preocupados e
zelosos pais não terem, um dia, seus impressionantes herdeiros como reféns de um
famigerado traficante de esquina.
Talvez eu tivesse algo mais a falar, mas penso que já transmiti o que desejava.
Com a palavra, pais e mães.
A SAUDAR IEMANJÁ (32)
Mais uma jangada saiu pro mar. Vai navegando nela, provavelmente a assoviar uma
de suas próprias canções, o homem que cantou a Bahia e as baianas. Cantou Doralice e
Dora, rainha do frevo e do maracatu. Cantou Rosa, com a rosa no cabelo e o olhar de moça
prosa. Cantou Marina, morena Marina, que ousou se pintar, ela que já é bonita com o que
Deus lhe deu. Vai sumindo no horizonte a jangada do trovador Caymmi. Vai se despedindo
de seus personagens, os trabalhadores do litoral, curtidos pelo sol. E quando a jangada voltar
só, é porque, como ele mesmo já disse, o mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito.
Com ele, aprendemos sobre o canoeiro que joga a rede no mar, puxa a corda, colhe a rede.
Com ele, aprendemos que quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim, e olha que
quem vai ao Bonfim nunca mais quer voltar. Aprendemos também que o pescador tem dois
amores: o bem da terra, o bem do mar. O bem da terra é aquela que fica na beira da praia,
que chora e faz que não chora quando ele sai. O bem do mar é o mar, que carrega nas ondas
pra ele pescar. Em poucas palavras, aprendemos que tudo na Bahia faz a gente querer bem.
Dorival, depois de muito matutar em sua rede, concluiu que era hora de levantar e
partir para uma outra Maracangalha, de uniforme branco e chapéu de palha, para encontrar
Anália e os velhos amigos, Tom Jobim, Jorge Amado, Vinícius de Moraes. Alguém, depois
de tanto esperar, deve ter cobrado. ―Ei, Dorival! Deixa de lado essa pose e vem pro samba!
Vem sambar, que o pessoal está cansado de esperar!‖ E ele, que não é ruim da cabeça, nem
doente do pé, levanta e vai, copo na mão e o corpo mole, que é assim que o samba deixa a
gente. Ora, quando se dança, todo mundo bole, é ou não é?
Tudo isso, então, por saudade dos amigos. Ah, insensato coração! Mas se ter saudade
é ter algum defeito, como em outros tempos Dorival teve da Bahia, então que lhe reservem o
direito de ter alguém com quem se confessar. Se confessar e conversar, claro, sobre as
sacadas dos sobrados da velha São Salvador, com as lembranças de donzelas de outros
tempos, e tudo mais que há naquela terra, o vatapá, o mugunzá, o caruru. Realmente, a Bahia
tem um jeito que nenhuma terra tem.
Muita gente quis conhecer a areia e a morena de Itapoã, mas voltou decepcionado. Eu
mesmo ardia de curiosidade pela lagoa escura do Abaeté e fiz muxoxo diante de um lago
urbano perfeitamente normal, arrodeado de areia não tão branca, nada branca. Na minha
estultície, demorei a entender o óbvio. Que não é aquela a Itapoã de tantas saudades, nem o
Abaeté onde lavadeiras se benzem ao ouvir a zoada do batucajé. Como a Pasárgada de
Bandeira, as paisagens de Dorival Caymmi não são referências geográficas, mas poéticas.
Não existem sobre a terra, só no vento dos versos e em nenhum outro lugar. Melhor assim,
claro. Muito melhor assim.
Foram precisos 93 anos para apagar a voz límpida, de clareza ímpar, grave como
poucas, enorme desafio para os operadores de som do último século. Da boca que emitia as
vibrações intermináveis, mas suaves, vinha sempre também o sorriso amistoso de quem está
de bem com a vida, não teria por que não estar. Era alguém que sabia dos momentos na vida
em que, se a noite é de lua, a vontade é contar mentira e se espreguiçar. Dorival Caymmi
nasceu pequenininho, como todo mundo nasceu, depois tornou-se o porta-voz de uma Bahia
que deixa saudades em seus filhos. E de trabalhadores que se arriscavam no mar, enquanto
suas negas rezavam pra ter bom tempo e faziam suas caminhas perfumadas de alecrim.
As composições de Dorival tinham um despojamento calculado que associamos
normalmente à Bossa Nova. Não à toa, claro. Foi um dos primeiros autores a merecer
gravações na batida inovadora de seu quase conterrâneo e também gênio, João Gilberto. A
música corria com tanta força no sangue desse baiano pacífico da cabeleira branca, que
jorrou em notas sobre toda a descendência. Eis aí a dinastia formada e firme, tantos bons
músicos, Dori, Nana, Danilo.
Está certo o compositor, é impossível estacionar aqui para sempre. Muita coisa boa,
muita coisa a fazer, a aproveitar, a cantar, pois é. Mas não há bem que não se acabe. Assim
adormece esse homem que nunca precisou dormir pra sonhar, porque não há sonho mais
lindo do que a sua terra. Foi assim que mais uma incelença entrou no paraíso. Adeus, mestre,
adeus. Até o dia do juízo. E que descanse bem, porque é doce morrer no mar, nas ondas
verdes do mar.
CASO-ME PARA A SEMANA! (33)
Olá, amigo ouvinte!
Não conheço a senhora de lado nenhum. Não sei, tão-pouco, se ela me conhece,
pessoalmente. Penso que me conhecerá, talvez, e se calhar, por causa das minhas crónicas,
aqui, na Rádio. Pela conversa que ela me apresentou, tudo leva a crer que sim, que se trata
de uma ouvinte mas não tenho a certeza: Nunca lhe perguntei... nem ela nunca mo disse.
Sabe como é: às vezes há perguntas que gostaríamos de fazer... só que nem sempre
dá jeito perguntar; ou quando dá jeito nem sempre é oportuno ou conveniente!
O que sei é que já não é a primeira vez que me telefona. Seja por causa de assuntos banais,
seja porque tem algumas dúvidas. E porque tem mais confiança comigo, como ela diz –
apesar de não me conhecer- lá me vai telefonando de vez em quando...
---Está, está lá? É o senhor padre Júlio?
---Sim, quem fala?
---Olhe daqui fala a senhora que de vez em quando telefona para aí e que mora onde o
senhor sabe...
---E Então? – lá perguntei, eu, assim, depois de saber quem era, ou por outra, depois
de saber qual a terra onde residia...
---Óh senhor padre... preciso mesmo da sua ajuda...; nem tenho dormido!
---Então...?! – Lá perguntei, de novo, deste jeito. È quase uma muleta para mim esta
pergunta. Dei-me conta que, com esta palavrinha apenas, se pode dizer tudo e, é, ao mesmo
tempo, uma porta aberta para as questões mais complicadas...
---Oh, senhor padre, ando aflita; a minha vida está, agora, num inferno – Começou,
assim, para de seguida concretrizar:
---Eu tenho uma filha que está agora com 23 anos. É uma boa rapariga, muito
caseira, sai pouco... E por isso nunca pensei que isto me pudesse acontecer. O pai anda tão
abalado que já nem come: anda amuado pelos cantos...
- -- E então..?
- --Oh, senhor padre, então não é que a minha filha chegou ontem a casa, e sem mais
nem menos diz, de ―chapuz‖, que vai casar?!
--- Bem... idade para isso pelo menos ela já tem...- respondi, assim, ainda sem
perceber, a fundo, todos os contornos do caso...
--- Pois... senhor padre. Mas o problema é que ela diz que se não concordarmos com a
sua decisão ... que sai de casa e que se casa na mesma...
--- Sabe... quem se casa é ela... – Lá fui dizendo assim, por meias palavras, como que
a dizer que a decisão cabia, em ultima análise, à filha...
--- Está bem, senhor padre...mas o problema é que foi exactamente ontem que ficámos
a saber que ela namorava... já viu?! A gente nem sabe quem é o rapaz, se é filho de boas
famílias...; uma mãe preocupa-se sempre com os filhos... não é só ―botá-los‖ no mundo...
--- Pois! Também tem razão! – Respondi para, de seguida acrescentar:
--- A cama que ela anda a fazer é a cama onde ela se vai deitar ... diga-lhe isso!– lá
respondi assim...
--- Pois... é exactamente isso que eu e o pai lhe andamos fartos de dizer...mas ela,
qual quê?!; Não liga nada; diz que é maior e vacinada... e que a vida é dela, e que nós não
temos nada a ver com isso... ; e por isso ou se casa a bem ou se casa a mal....
--- ...
- Estamos fartos de lhe darmos bons conselhos... mas ... ―canté‖! Faz ouvidos de
mercador...; pensa que casar é só dormir juntos...mas não é, senhor padre; não é nada disso!
– respondeu esta mãe preocupada como se me estivesse a dar uma grande novidade...
- É complicado é! – Lá falei assim, comungando das preocupações desta mãe!
- Ah, pois é... E esta gente nova sabe lá o que é a vida! – Lamentou-se, para, acto
contínuo, me dar outra novidade:
- E isto... ainda não é tudo; o Senhor padre ainda não ―sabe a missa a metade‖...
- Então?
- Pois, então, não é que ela, ontem, chegou-me a casa, diz que conhece um rapaz... e
que se vai casar com ele, para a semana... ? – Rematou esta mãe, incrédula e estupefacta,
para de seguida, largar a chantagem que a filha lhe fizera, a ela e ao pai:
- E ainda teve lata para dizer: Se concordarmos tudo bem... senão que ainda faz algum
disparate... !!! Já viu o estado de nervos em que nós andamos?! Para quem pensava que a
filha não conhecia ninguém, e de um momento para o outro, ficarmos a saber que já conhece
um rapaz que a gente nunca o viu de lado nenhum e que se quer casar já para a semana ...
senão ainda se mata!...
- ...
- Já viu, Senhor padre?! Nós não podemos dizer sim, de qualquer maneira, sem
conhecer o rapaz, não acha? E se dissermos Não... ?! E se dissermos NÃO e ela fizer,
depois, algum disparate... ai, minha Nossa Senhora ―pro que a gente tava guardado!‖
Não sei como se chama, nem se me conhece. Sei apenas onde mora... Penso tratar-se de uma
ouvinte das minhas crónicas...
Volta e meia, liga para minha casa. Ontem voltou a fazê-lo. A sua vida está agora num
inferno A sua filha de 23 anos, que era tão boa menina e tão caseira... disse-lhe ontem, a ela
e ao pai, e de chofre, que conhece um rapaz e que quer casar com ele; E já para a semana!
Assim! Sem mais nem menos! Está toda decidida! ―É pegar ou largar‖...; Quer a mãe
queira quer não...
Se aceitar... tudo bem; se não aceitar... ainda faz algum disparate...
A mãe não sabe o que lhe há-de responder e passa as noites em ―claro‖! O pai, esse,
não come nada e já não é o mesmo...
Como pode disser sim... se nem sequer conhece o rapaz? E se 0disser não... e a filha fizer
algum disparate!?
Pois é amigo ouvinte!
Cá para mim, esta filha, até pode ter sido muito caseira ... mas, cá para mim, anda a
ver muitos filmes! Ou muitas ―histórias da vida real‖, na TVI, se quiser... como se casar
fosse uma coisa para se decidir num dia e fazer noutro...ou passada uma semana depois... o
que vem dar ao mesmo! Não é nem legalmente se pode fazer isto! Onde é que isto se viu?
Isto nem no big brother: Nem dá tempo para alugar a grua!
- ―E se ela se matar?‖ – perguntava esta mãe! Não, minha senhora! Não se mata,
esteja descansada! E mesmo que faça algum outro disparate... disparate maior é conhecer
hoje alguém e casar com ele uma semanas depois, ou não será?
Sim, a culpa não é sua! E se calhar até nem é da sua filha! Se calhar, é de todos nós...
quando, impávidos e serenos, assistimos a tudo, com a maior naturalidade do mundo... e
fazemos muitas vezes, não aquilo que temos que fazer...mas aquilo que vemos os outros
fazer ou dizer que fizeram... quando, na realidade, e se calhar, até nem fizeram nada!
Pois é! Continuo na minha! Cá para mim esta filha é muito caseira, mas anda a ver ...
muitos filmes! Não queira, você que é mãe, cair na mesma...‖fita‖!
Padre Júlio Grangeia
HÁ MAIS DE 200 ANOS... (34)
Ela encontrou-me por mero acaso. Depois dos cumprimentos de circunstância, o
pedido, esse, surgiu espontaneamente:
- Ainda bem que o encontro, senhor padre – começou, assim, para, logo, se justificar:
- Sei que, aqui, não é o melhor local para tratar destas coisas...mas, olhe, o tempo vai
passando, passando... e quando ―damos por ela‖... o tempo já passou mais depressa do que
aquilo que queríamos...
- E então? – lá perguntei, eu...
- Se o senhor padre pudesse ir lá, a casa, e estar um bocadinho com a minha mãe....
além da paga era um favor- respondeu, assim, esta filha para, de seguida, explicar melhor a
razão porque fazia o pedido que fazia...
- Sabe, Senhor Padre, ela sempre foi muita religiosa; ia sempre à ―missinha‖....
Agora, coitada, já não pode fazer nada disso; volta e meia tropeça, cai... fica
―variada‖, não diz coisa com coisa... e assim essas coisas; o senhor entende, não entende?
Lá acenei que sim para, de seguida, ouvir mais uma lamúria... desta feita já nem sei a
propósito de quê! Por momentos fiquei na duvida quem é que precisava mais de estar um
bocadinho a falar com padre: se era a mãe que era muito religiosa, e que agora estava em
casa... e ―variada‖, volta e meia... se a filha... que falava, falava... sem nunca a conversa ter
fim à vista...
- Oh, senho padre...é muito triste ser velho... e olhe ...é preciso, cá, uma paciência!! –
lá explicou ela, e assim, como se eu não soubesse a paciência que era necessária ter para,
naquele momento, também a escutar a ela e não ter de olhar para o relógio...
- Eu qualquer dia tenho ir a sua casa para falar consigo; aqui não dá!; Lá... explico
tudo, ―direitinho‖ como deve ser, deste o inicio... – respondeu, desta maneira, ficando eu,
naquela altura, a perceber que, afinal, isto era só os.... ―ameaços‖; mais, muito mais, pelos
vistos... estaria ainda para chegar..
- Sabe... eu tenho andado muito doente...já fiz umas poucas de anestesias gerais....
e...ah!... já me esquecia...- interrompeu ela o raciocínio para entrar, logo ali, e sem qualquer
nexo, no outro assunto que entretanto lhe viera à memória, deixando tudo aquilo que estava
a falar em ―Stand bye‖ ...
- Gostava muito senhor padre – começou ela, e assim, com novo assunto...- gostava
que rezasse muito pela minha filha. Sabe que ela, coitada... – e a culpa até nem é só dela; é
mais do marido...- então não é que ele... – lá começou, agora, e desta vez, a falar do marido,
deixando a filha, e os seus problemas para...segundas núpcias...
- Olhe, desculpe, agora não vai dar, mesmo; tenho mesmo que sair; depois falamos
melhor – lá tive eu, e assim, que a interromper, e de uma forma algo abrupta... até porque
efectivamente estava já atrasado...e realmente o local de conversa não era efectivamente o
mais apropriado - para recuperar o assunto fundamental da conversa....
- Então, quer mesmo que eu vá ter com a sua mãe, é isso?
- Sim, sim, senhor padre; não é muita pressa...mas logo que tenha um bocadinho... ela
iria ficar contente...
Marquei uma ida a casa dela para falar um bocadinho com a mãe, no dia seguinte, e
despedi-me um pouco ― à francesa‖ até porque o tempo, esse, já estava a ... ―queimar‖...
Ao outro dia, à hora marcada lá encontrei a simpática velhinha à minha espera.
Curiosamente, ou talvez não, não estava ―variada‖...mas muito lúcida, por sinal. Falámos um
bocadinho, confessou-se dos seus pecados, combinámos a melhor forma de alguém lhe levar
a comunhão... e despedi-me...
- Então estimo as suas melhoras e bom Natal, ti Maria!...
- Obrigado, senhor padre. Quanto é que lhe devo?
- Quanto é que me deve?! Quanto é que me deve?! Não seja tolinha não! Então isso
são perguntas que se façam?!– Respondi, assim, a brincar...
E despedi-me. Quando saía, o marido que, entretanto, se aproximara, volta à carga, com a
mesma conversa:
- Então, senhor padre... quanto é o seu trabalho?!
- Por amor de Deus... isto não é nada; tive muito gosto... e é a minha obrigação!
- Mau...! Mas eu é que não gosto disso assim...- respondeu com ar sério.
- Esteja descansado. Não é nada... não se preocupe!
- Não senhor.... fico chateado consigo, se não levar nada.- Explicou, assim,
resolutamente, para, de, seguida, acrescentar:
- Olhe...espere um bocadinho que eu já venho...
- Ouça...não é nada mesmo...
- ―Pere‖, faz favor!!!... – lá insistiu de novo, e assim, em tom imperativo, para,
poucos segundos após, aparecer com uma garrafa de vinho do Porto...
- Tome lá...; é para o seu Natal!
- Óh Senhor ―Manel‖... não quero nada...já lhe disse; estou a falar a sério!
- Mau, mau Maria! Não quer?! Se o senhor não aceitar faz-me uma desfeita...-
retorquiu com veemência, sem me dar qualquer hipótese...
- Olhe, tome lá esta ―garrafita‖; olhe que ela tem mais de 200 anos; foi o meu neto
quem ma deu...- exibiu orgulhoso a dita garrafa para, agora, a oferecer ao padre...
Olhei para a garrafa.... e percebi logo: Era uma garrafa normal de vinho do Porto. Teria, se
tanto, e para aí, uns 3 anos ...
Na garrafa lá estava, de facto, marcada a data de ―1800 e qualquer coisa‖. Sim...pois
estava; só que essa data não era a data que o vinho tinha mas a data da Fundação da Casa
que o fabricava...
Agradeci a simpatia, e o vinho do Porto de ―200 anos de idade‖... para todos os
efeitos. Sim... ele não o sabia... e ficou sem o saber. Era uma garrafa normal, pois era...mas o
que contava, mesmo, era a intenção. E isso, para mim, foi o que interessou mesmo: a
intenção com que ele ma dera! Sim... Ele tinha dado ao padre a sua melhor garrafa; a garrafa
mais antiga que tinha em sua casa...- pensava ele!
- É muito antiga, não é senhor padre?!
Sorri, reconhecido, e disse que sim! E foi também a sorrir que deixei aquele velhinho
simpático, feliz e orgulhoso, por ter dado ao padre a melhor garrafa da sua casa; a garrafa
que o neto lhe dera... a garrafa de ... ―200 anos‖!
Aquela garrafa não tem 200 anos...mas para mim é como se tivesse...
Foi a minha melhor prenda de Natal!
GRAVES E GREVES (35)
Nunca, mas nunca, há recolha de lxo no Natal em Lisboa. As pilhas de embrulhos já
são uma tradição. Fui lisboeta durante anos suficientes para saber que após a madrugada de
dia 25 tenho três a quatro dias - depende do tamanho da pont... greve, para espreitar o que
foram as prendas dos vizinhos, pelas caixas.
Outra empresa que tende a gostar muito do Natal são os CTT, plural este que está
incorrecto por culpa de a empresa, singular, CTT, ser para nós um serviço, plural, serviço
esse que tal como a recolha do lixo chateia muito não haver quando há mais correio ou mais
lixo, como... no Natal. Eu ainda estou à espera de encomendas do Natal de 2007.
Uma outra forma mais esdrúxula de greve é a recorrente-inconsequente-já-ninguém-
se-lembra-porque-é-que-estão-em-greve, com é o caso da Soflusa e os seus intermitentes
barcos entre o Barreiro e Lisboa. A malta da Ponte Vasco da Gama, ―donos‖, leia-se, não
utentes, agradece. A do IC32 nem tanto. A malta do Barreiro já nem o PC(P, entenda-se)
as cu-move, já nem protestam. E eles lá fazem, ano após ano, às 20, 30 greves por ano. Já
muito especializadas estas, é das 7 às 10 da manhã, das 5 às 9 da tarde, tudo horas aleatórias
para não prejudicar o utente deliberadamente, que o que queremos é lutar pelos nosso
direitos, não prejudicar as pessoas. Mesmo que mês após mês, ano após ano façam a mesma
greve, com as mesmas reivindicações e nada aconteça? Sim. Feliz Natal. Em Janeiro há
mais, quando começarem as aulas, obviamente.
Os transportes públicos, os Metros e Carris das nossas realidades locais, esses têm
especial apetência por greves em dias da semana específicos. Tão específicos como sexta e
segunda, em sendo feriado na quinta precedente ou terça subsequente. Olhando para o
calendário de 2009, que se percebe logo que não vai ser ano propício a greves desta precisão
cirúrgica, consegue-se identificar desde logo os dias em que irá ser necessário recorrer a
meios de transporte alternativos (que nunca os há porque também estarão em greve), o que
facilita desde logo imensamente o trabalho às administrações.
Façam greves, sim, mas façam-nas credíveis. Façam-nas de zelo, que são as que doem
nas empresas e não nos utentes. E lembrem os umbigos sindicais do erro que é ter a opinião
pública contra a nossa causa e a favor do poder governativo. É o que basta a qualquer
governo ou administração para não ter que ceder. É o que acontece. As administrações
gostam, governos gostam, partidos gostam, sindicatos gostam, eu, mexilhão, já nem tanto.
Não sabe o mundo a sorte de ser o Pai Natal oriundo da fria Lapónia. Fosse o cota
portuga e era certo e sabido que por esta altura já teríamos o pré-aviso de greve entre as
22h00 de dia 24 e as 08h00 de dia 25 de Dezembro..
KOMBI (36)
O transporte alternativo (vans, bestas, peruas, kombis) tomou conta das áreas menos
abastadas do Rio de Janeiro. Um fenômeno que ultrapassou os limites da cidade partida, em
que itinerários (zonas nobres) sequer entravam na linha desses veículos populares urbanos.
Com a proliferação de falta de ônibus para passageiros, inclusive nas áreas mais ricas, os
passageiros mais pobres se viram obrigados a ―contribuir‖ à crescente máfia (milicianos).
Então, o que era uma ajuda, ―alternativa‖, a chegada dos transportes alternativos, virou,
também, o braço direito dos novos donos do poder.
O poder público se viu obrigado a reconhecer o transporte alternativo como parte da nova
configuração urbana. No entanto, a criminalidade continuou a exercer uma ordem sobre
transportes nem tão alternativos, como é constatado nos jornais, quando vemos motoristas
assassinados por se recusarem a pagar taxas de ―pedágios‖.
Às vezes uso o transporte alternativo.
O que fazer, na madrugada violenta de uma cidade partida, onde os ônibus desaparecem
que nem morcego de dia, para chegar em casa com segurança? Da última vez que me meti a
andar a pé, numa noite estrelada, fui assaltado.
DENTRO DA MODA
A professora universitária Elegância sempre chega com um porte Chique à faculdade
de comunicação. Os alunos estão acostumados com esse modelo de passarela. No entanto, a
senhora Elegância deu lugar ao Básico (tênis) para um dia de aula. A turma logo percebeu
mudanças no vestuário. ―Espera aí!‖ ―Tem alguma coisa estranha hoje com essa mestre...‖.
A Elegância não lhe desprezou a conduta de glamour, embora as peças (vestimentas
elegantes) ainda fizessem parte do manequim naquele dia de Tênis. Certos estudantes
desaprovaram a ordem que alterou o produto = pouco charme para os olhos alheios
acostumados à mesmice do dia-a-dia. Não foi a turma inteira que criticou o inédito perfil da
oradora. Ainda havia um grupo neutro por ali.
O tempo de aula terminou.
Os ouvidos da Elegância, em momento algum, foram atacados pela análise estudantil
e sobre a híbrida vestimenta do dia.
Na saída: ‖Viu a professora?‖ ―Sim, ela hoje está diferente‖ ―Deve ter se sentido mais
à vontade com a nossa turma‖ ―É verdade‖ ―Por isso que ela hoje preferiu vir de All Star‖.
O PESADELO (CRONICA DE TERROR) (37)
Frio,tudo frio.Ela sentia o corpo se arrepiar pelo contato da água que ia na
cintura.Suas mãos tocaram a superfície e olhando ao redor era só viu água.
O lugar parecia uma área coberta de clube,a área das piscinas cobertas.O que estava
fazendo ali ela não sabia,apenas estava ali e a dor nos pés denunciava que a muito tempo.
Mergulhando ela começou a nadar sentindo-se começar a fazer parte da água.Logo teve que
retomar fôlego,ficando de pé ela continuava a só ver água."A piscina deve ser olímpica"
pensou.Boiando de costas ela nadou mais um pouco.Novamente só água...O frio começava a
incomodar,os músculos pediam por descanso.
Tentou nadar numa direção diferente,apenas água.Ela não podia sentar,nem deitar.O
corpo começou a doer.Na sua cabeça os pensamentos se misturavam.Ela só queria achar
uma borda,apenas um lugar onde não tivesse água.
E se ela não achasse?E se morresse ali?E se morresse,do que
morreria?Hipotermia?Fome?Ou simplesmente se afogaria?
Estava cansada,com frio e com medo.Não queria morrer assim,sozinha.Gritou,muitas e
muitas vezes.Ninguém veio.
Começou a sentir todo o corpo pesar,a água tinha se tornado quase
gelatinosa,tornando muito difícil se mover ali.As lágrimas dela se misturaram a tudo aquilo
enquanto ela batia repetidamente na água.Fechando os olhos ela ja pensava em desistir
quando...
- Hellena..Acorda Hellena!Teu celular tá tocando,eu posso atender?
- Que?Ah tah...Não,deixa que eu atendo. - Disse ela aliviada.
Passando as mãos nos cabelos molhados de suor,depois sorriu dizendo.
- Um sonho...
CRÔNICA DE AMOR (38)
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos,
simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é
chegado a fazer contas, não obedece a razão.
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo... Ninguém ama outra
pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-
se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela
quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela
não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho,
você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo,
nem no ódio vocês combinam.
Então?
Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais
viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem
nome. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que
encontra no armário.
Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele
não tem a maior vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue
despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita
de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte para
mim. Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do
Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É
bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas
as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de
música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom
humor, não pega no pé de ninguém.... Com um currículo desse, criatura, por que diabo está
sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma
equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o
Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons
motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!
NÓS; MEU FILHO E EU! (39)
Meu primogênito veio me visitar. Feliz da vida, festejei porque ele concluiu o ensino
fundamental e ele, por outro lado, comentou sobre a festa de formatura que ocorreria aquela
noite e, todo ―pimpão‖ - eita termo velho! – falou-me de seu traje; que, enfim, iria sair por aí
desfilando de terno. No ensejo, aproveitou para me pedir que eu lhe ensinasse a dar o nó na
gravata. Sem pestanejar pedi-lhe que me desse a gravata que eu deixaria o nó já feito para
uso.
Inconformado ele insistiu que queria aprender a dar o nó ele mesmo e não que eu
fizesse isso em seu lugar. Por herança genética desta linhagem à qual pertenço, ele padece
daquela presunção natural de que tudo pode aprender e fazer com a maior facilidade do
mundo. Em regra, entre os ―de Faria‖, isso é verdade, contudo, chamei a atenção para que,
no caso, é preciso não só aprender a dar o nó na gravata como, ainda, adquirir uma certa
prática antes que o resultado final seja suficientemente aceitável para ser exibido por aí
pendurado no pescoço.
Não teve jeito! Até sei a quem esse garoto puxou! Bateu o pé até que eu lhe desse as
instruções necessárias. E, assim, pus-me a demonstrar na prática como a coisa se dá: ―passe
por aqui, torça ali, puxe acolá...‖ Tudo isso, obviamente, enquanto eu fazia movimentos
mecânicos, adquiridos ao longo de décadas.
Algumas tentativas meu filho fez, contudo, em vão. Nada de o tal nó sair como
deveria. Mostrei-lhe umas outras tantas vezes, bem como, fizemos juntos, um mirando o
outro. Nada disso funcionou! Enfim, quando ele, minimamente, achou que já dava para se
virar sozinho, resolveu treinar na estatueta que tenho decorando minha sala de estar. Pena
que a estatueta não vá a festas, porque, por pouco, tivemos de decidir se cortávamos a
gravata ou quebrávamos a peça, já que ele conseguiu enforcar a coitada de forma quase
definitiva.
Como o tempo clamava por uma solução, ele acabou se dando por vencido e aceitou
que eu deixasse sua gravata com o nó já preparado. De qualquer maneira, lançou um
dramático vaticínio jurando que, em breve, daria nós em gravatas custasse o que
custasse. Saiu, mesmo assim, excitado pois que antecipava aquele evento de mais à noite.
Fiquei eu, aqui, ruminando toda essa situação. Meu filho está virando um ―hominho‖.
Contudo, tremo em pensar que, de agora em diante, suas dúvidas e incertezas tenderão a ser
cada vez mais complexas e profundas – muito além, é claro, de meros nós de gravata. Essa é
prática que se aprende por simples tradição. Afinal, as gravatas são, hoje, basicamente o que
já vêm sendo há muito tempo ao longo de gerações. O que me preocupa é que o mundo está,
cada vez mais, exigindo habilidades tantas que, confesso, não sei se eu mesmo estou
preparado para enfrentá-lo como deveria.
A vida é cheia de descobertas e desafios e isso tudo só aguça o entusiasmo do meu
garotão. Torço para que chegue logo o dia em que ele venha retribuir-me, ensinando algo
sobre nós que terá de aprender por sua conta e risco. Como sei de que matéria ele é feito,
penso que seu sucesso é inevitável!
AMOR E SEXO; COUVE E BACON (40)
Couve é nutritiva! Bacon, também é! Só que uma dieta composta essencialmente à
base de couve não tende a fazer mal ao organismo. Já, com o bacon...
Pois é! Existem vários motivos para se achincalhar o bacon nessa comparação. Bacon
é carne... e de porco, ainda por cima! Há quem recrimine o consumo de carne. Em se
tratando de carne de suínos, nem se fale.
Contudo – e isso pouca gente parece que tem a coragem de admitir – bacon é muito,
mas muito mais saboroso e prazeroso do que uma boa e saudável porção de couve.
Há quem seja intolerante ao bacon, porque ele é gorduroso e, dentre outros efeitos,
pode atingir em cheio aparelhos digestivos facilmente suscetíveis ou menos preparados, dada
a falta de costume fomentada pelo preconceito imposto pelo patrulhamento social.
Agora – convenhamos! – não é crível que alguém possa afirmar de cara lavada que
ingerir couve seja mais gostoso do que deliciar-se com um baconzinho fritinho e bem
crocante, salgando a boca e alma, refestelando o paladar.
Por outro lado, também não se pode esquecer o fato de que a couve, como outros
alimentos, leguminosos ou não, tem uma carga protéica e outros componentes que são
indispensáveis à saúde e, assim, é algo imprescindível numa boa dieta.
Epa! Peralá! Que tem tudo isso a ver com amor e sexo?
Tudo!
Amor é couve. Sexo é bacon. Eu não dispenso uma bela porção de couve, refogada na
gordura de um bacon que, em cubinhos, esteja ali para temperar como se deve a iguaria. Daí,
a refeição é completa! É nutrição e prazer na medida exata.
Os preconceituosos, os pudicos e os que não sabem como apreciar o bacon, que se
lixem dizendo que é possível viver só de couve pura!!!
MEU DEUS! ELA RONCA! (41)
Acordei durante a madrugada e, na semi-escuridão do quarto, ecoava estridente aquele
som que interrompera meu sono. Ainda zonzo, demorei a identificar o que seria.
Imaginei, no primeiro átimo de tempo, que aquilo viesse da tevê ligada, onde algum
filme ―B‖ exibisse horrendas criaturas mutantes. Mas não era! Àquela altura, o televisor
despejava um pastor ensandecido que expulsava demônios de créus espectadores que,
certamente, deveriam estar ligados àquele culto eletrônico sustentado noite adentro. Mesmo
isso, não seria capaz de me acordar, mas aquele ruído incomum o foi e, assim, passadas
frações de segundos, desde que despertei de meu sono, enfim, identifiquei a origem de meu
flagelo auditivo.
Era ela, que estava ali, dormindo a meu lado e, pasmado, exclamei mentalmente:
―Meu Deus! Ela ronca!‖. Só então lembrei-me que minha cama, habituada a acolher
somente a mim, tinha, hoje, uma ―convidada‖ a me fazer companhia. ―Meu Deus! E ela
ronca!‖.
De repente lembrei-me do ocorrido desde poucas horas antes, onde nos encontramos,
nos cooptamos mutuamente e, enfim, chegamos às famosas vias de fato. Inevitável, naquele
momento, perceber que o encanto original estivesse razoavelmente abalado porque, enfim,
ela ronca. ―Meu Deus! Ela ronca!‖. Logo, aquilo que poderia se transformar numa
decepção, na verdade, foi racionalizado rapidamente. Afinal, todos somos humanos e
ninguém está livre das idiossincrasias e reações que nos afetam
comezinhamente. Certamente, em outras oportunidades, outros tantos sons deveriam existir
e eu, compulsoriamente relutante, me esforçava para ver isso como algo natural.
―Meu Deus! Ela ronca!‖ Passados alguns instantes meus olhos já se adaptavam à
luminosidade do ambiente e, recém despertos de sono profundo, agora já podiam divisar,
entre luzes e sombras, o que de relevante se apresentava no ambiente. Nesse contexto,
vislumbrei ali, a meu lado, aquele corpo feminino, nu e gostosamente largado em descanso
repousante. Fitei as curvas, revivi a consistência das formas, a umidade da pele e o sabor da
volúpia.
Olhei para suas feições enquanto dormia e, de lábios semicerrados, ela parecia
sorrir. Parecia um sorriso de satisfação. Em função disso, foi inevitável que eu
complementasse minha exclamação: ―Meu Deus! Ela ronca!... Que charme isso! Não?‖
ENTRE A PENA E A ESPADA (42)
Passava eu por uma rua qualquer em que um grupo de meninos improvisava uma
pelada. De repente, a bola escapuliu em minha direção e um dos garotos deu o alerta:
―Chuta aí, tio! Manda pra nós!‖ Mais que depressa, com movimentos pouco elásticos que
denunciaram a titubeante agilidade deste corpo combalido, dei um pique até a pelota e
desferi-lhe uma portentosa canhota que a mandou a dezenas de metros do ponto para o qual
eu pretendia que ela fosse. Ou seja, a redonda foi pra bem mais longe da molecada que,
entre risos e impropérios, deixou bem claro o arrependimento de ter me convocado para o
resgate. Tentei me defender remetendo a culpa à minha perna esquerda, à qual acusei de
servir apenas ―pra subir no bonde‖. Nesse momento, passando por mim o heróico jogador
que teve a ingrata tarefa de ir atrás da bola, perguntou-me ele: ―Pra subir aonde?‖ Nem me
preocupei em dar maiores explicações e prossegui em meu trajeto.
Dei-me conta que, para aqueles meninos, bonde é algo jurássico e que jamais fez parte
de sua realidade. Quase não fez parte da minha, pois o último bonde a circular em São
Paulo fez sua última viagem quando eu tinha apenas sete anos. Sequer me lembro de como
era, de fato, um bonde pra valer. Essa idéia de ter sido contemporâneo dos bondes começou
a me incomodar e isso ficou martelando em minha cabeça, onde eu repetia pra mim mesmo,
como uma vitrola quebrada: ―Você tá velho, meu chapa!‖. Ocorre que as vitrolas, quebradas
ou não, já saíram de circulação há muito tempo, também, o que só fez agravar minha
angústia.
Pensei comigo: ―Melhor virar o disco.‖ Pra quê, eu não sei, porque os CDs têm
apenas um lado. Ai, ai, ai... Para aliviar meu mal estar resolvi convidar um amigo pra tomar
uma cerveja ou algo assim. Saquei do celular e, inadvertidamente, errei o número, razão
porque tive de pedir desculpas a quem estava do outro lado da linha, por ter discado errado.
Só que telefones já não possuem mais disco. A gente tecla, não disca. Ai, meu Deus!
Minha sensação de antiguidade só fez piorar. Mais do que nunca eu precisava ir tomar uma
cerveja pra afogar minhas neuras. Tornei a insistir em busca de meu amigo e, do outro lado,
uma mensagem eletrônica pediu que eu deixasse um recado e assim o fiz: ―Oi! Que tal uma
cervejinha mais tarde? Assim que der, me bate um fio no celular!‖ Só que as linhas móveis
não tem fio!!! Arre!
Fiquei me torturando com aquela idéia e notei que, além de estar ficando velho, eu
também me tornei um chato de galochas. Isso, apesar de não lembrar mais a última vez que
vi um par de galochas na minha vida ou, sequer, de algum lugar que ainda as vendesse. A
situação já estava ficando realmente crônica, quando cheguei em casa.
Obcecado pelas evidências do anacronismo de minha obsoleta existência, caí em
depressão profunda e me pus a escrever como forma de compensar tanta frustração. Essa é a
vantagem de quem escreve, pois não pensa em se matar. É o poder da pena sobrepujando a
força da espada... Mas que espada, que nada! Estamos em tempos de pistolas automáticas
e, por certo, estas mal traçadas linhas jamais poderiam sair de uma pena, mas sim, de um
teclado. Ou seja, sequer podem ser mal traçadas, quando muito, mal digitadas, talvez.
Não sei mais o que fazer! Sinto que minha geração está prestes a ser página virada na
história da humanidade... Ou será uma página deletada?
PASSEANDO NO CINEMA (43)
Era mais um domingão desses no dezembro paulistano e nós estávamos por aí ―Perdidos
na noite‖ e ―Sem destino‖. Nestes nossos ―Tempos modernos‖ o final do ano já não é mais
de esperar o Natal como um festejo cristão. As pessoas se imbuem de um irrefreável
sentimento consumista e, ao sair pelas ruas, parece mesmo que está ―Todo mundo em
pânico‖. O trânsito é de espantar com um volume atípico de veículos trafegando pelas ruas.
Mesmo estando nos estertores de um final de semana, mais parecia ―A hora do rush‖.
Caía um chuvisco fino e, ali, aprisionado no carro retido em um engarrafamento na
Marginal do Tietê, meu ímpeto era de sair correndo ―Cantando na chuva‖, porque um
sentimento claustrofóbico se apossou de mim. De repente, houve a sugestão de que fôssemos
dar uma volta num ―shopping‖ qualquer da vida. Eu me retorci por dentro porque, no meio
da turba desvairada, invariavelmente, me sinto ―Um estranho no ninho‖. Houve, contudo,
um acréscimo no convite para que fôssemos, não às compras, mas ao cinema. Isso tornou a
coisa mais interessante, até porque meu tédio – que é ―Duro de matar‖ – estava evidente e
eu, àquela altura, já me postava ―A espera de um milagre‖.
Fiquei em dúvida, por alguns instantes, esperando algum sinal que viesse d´―O sexto
sentido‖. Eu queria preservar meu bem estar, mas não queria decepcionar a quem me
convidava. Pensei comigo mesmo: ―Faça a coisa certa‖! Ainda, fui incentivado por uma
cobrança, porque, em algum momento – por certo, de―Psicose‖ – eu havia prometido ir,
algum dia, ao cinema. Então, me senti na obrigação de honrar meu compromisso e, assim,
naquele instante, aceitei a sugestão. Posso ser, vez por outra,―Um convidado bem trapalhão‖,
mas nunca deixo de ser ―O pagador de promessas‖.
Arrastávamo-nos, a essa altura, por algum trecho da marginal complicado pelo excesso
de veículos e não havíamos decidido, ainda, ao cinema de qual ―shopping‖ iríamos. De
qualquer forma, fosse onde fosse, qualquer saída daquela tortura seria ―Uma ponte longe
demais‖. Eu torcia para que, ao menos, as nuvens daquela chuva fina abrandassem seu
ímpeto ou fossem despencar em outro lugar. Eu queria muito que elas fossem embora ―... E
o vento levou‖. Agradeci aos deuses da natureza que, enfim, não―Esqueceram de mim‖.
Ao meu lado, ela falava e falava sobre os filmes na programação, com uma excitação que
não contagiava meu renitente desinteresse. Insensível, adormeci pesadamente ali mesmo,
sentado no banco do carro. Ainda bem que existe o cinto de segurança para reter ―Um corpo
que cai‖. Minha gafe foi notada e houve um suave pedido para que eu acordasse. Não
percebi ―O chamado‖. Daí, o tom de voz subiu e eu, enfim, acordei com ―O grito‖ que, de
tão estridente, deve ter causado uma dor de ―Garganta profunda‖.
Era ―Tempo de despertar‖ e, meio atordoado e sem saber exatamente onde estava, tentei
me localizar enquanto, ao longe, focava as ―Luzes da cidade‖. Ao me dar conta do que havia
acontecido e, embaraçado pelo fato, percebi que era necessária uma atitude que revertesse o
mal estar causado por minha atitude. Apesar do constrangimento, tive uma idéia e, enfim,
dei―Um golpe de mestre‖. Não tenho ―Uma mente brilhante‖, mas ―De ilusão também se
vive‖ e, naquela circunstância, pareceu-me que a melhor saída era fazer de vez
uma ―Proposta indecente‖ e, assim, rebati o convite para que o tédio fosse resolvido ―Entre
quatro paredes‖. ―Aconteceu naquela noite‖!
“FALTOU UM “BOA NOITE” (44)
Assim como eu, alguns ainda devem lembrar-se de uma série televisiva que fez
sucesso na década de mil novecentos e setenta: ―Os Waltons‖. Tratava-se das tramas de uma
família americana durante o período da Grande Depressão.
A família Walton, proprietária de uma montanha inteira – até a desgraça americana é
megalomaníaca – vivia a duras penas da atividade numa serraria. Lá viviam um casal que
tinha, se não me engano, uns oito filhos, além de sogro, sogra, cavalo, cachorro... papagaio
não havia. Tudo girava em torno de histórias de cunho ético e moral, retratando sonhos,
desenganos, encontros, desencontros e reencontros. Era bonito mesmo!
No final de cada episódio, sempre aparecia aquela ―casona‖ à noite, com as luzes das
janelas se apagando aos poucos e, assim, faziam-se ouvir as vozes do clã dos Waltons: ―Boa
noite, John Boy!‖; que por sua vez retrucava, ―Boa noite Mary Ellen!‖; e, assim, um a um,
iam se despedindo recíproca e mutuamente. Aquele ―boa noite, fulano‖, ―boa noite, cicrana‖,
etc era uma espécie de ―bordão coletivo‖ da série.
Sinceramente, na época eu não dava muita pelota para aquela sucessão de ―boas
noites‖. Achava, até, de uma breguice sem tamanho. Contudo, ontem à noite, estando eu
deitado aguardando o sono chegar, dei-me conta do que aquilo realmente significava. De
repente, fez-me uma enorme falta ouvir um ―boa noite‖. A percepção de que minha alma
estava devastada foi inevitável.
Não tenho dúvidas de que sou uma opção – aliás, uma boa opção! – pra muita gente.
Mas muita gente, mesmo! A minha tristeza é notar que não sou prioridade para ninguém.
Caso contrário, não teria me faltado um ―boa noite‖.
SEM PEGADA NÃO ROLA! (45)
ROSA PENA
Chutaria quarenta, talvez um pouco mais. Se ele afirmasse que tinha menos eu
desconfiaria um bocadinho, mas sem invalidar o charme umtantinho enrugado no canto dos
olhos e ligeiramente careca, que quase me atropelou. Não na vida, mas na via. A idiota aqui
corria cheia de sacolas de natal para pegar um táxi e por pouco não se atirou debaixo da
moto dele, uma bela Honda, que fique registrado. Ele, o motorista, freou cambaleando para
evitar o choque. Saltou, segurou o meu braço com a força exata e me deu uma bronca pela
desatenção, mas com a voz baixa e suave como se pedisse um vinho para dois.
Eu não ouvia mais o que ele dizia, pois só conseguia me lembrar das meninas que
sempre falam:
— Sem pegada não rola.
Ele não era atraente demais, nem de menos, muito menos um homem mais ou menos.
Era atraente o suficiente e tinha pegada! Fiquei sorrindo e me senti lisonjeada de ter sido
quase atropelada por um homem feio-bonito, perfumado e quevestia uma Ralph Lauren com
um jeansdesbotado de forma bem displicente. Ele certamente percebeu minha cara de "ai,
caramba!" e perguntou de um jeito quase infantil se o espelho da moto tinha batido na minha
cabeça. Dei uma gargalhada. E foi assim que se quebrou a garrafa do gênio da
menopausa. Os três desejos ficaram ao meu dispor:
—Que não solte jamais o meu braço! —Quero outras broncas dessas, ditas bem
baixinho! —Que fique para sempre com esse rostinho de querubim vadio!
O juízo, um eterno mal-amado, voltou apressado e eu ergui minha cabeça
educadamente. Pedi desculpas pela distração, sorri, dei tchau, ganhei a rua e o dia. Agora eu
sabia que o conjunto de barba por fazer, carinha de menino carente, um gesto brusco
mesclado com um meigo, um olhar masculino bem dado que faz uma mulher se sentir linda
desde a escova progressiva até o mindinho do pé é o que atualmente se chama de pegada.
Afê Maria! Pegada é o sinônimo do velho e conhecido borogodó acrescido de um ligeiro ou
intenso contato físico!
Peguei o celular e liguei pra minha filha.
— Querida quase fui atropelada por um cara que tem pegada!
— Mãe, você não acha melhor parar de fazer essa progressiva mensalmente? É muita
quentura na cabeça.
— Tem razão boneca. Esqueci que o mundo só começou depois que você nasceu para
me ensinar.