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TEMPOS DE APRENDIZAGEM

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TEMPOS DE APRENDIZAGEM
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11/17/2011
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TEMPOS DE APRENDIZAGEM: DESAFIOS E CONQUISTAS



Grupo Temático: Práticas Escolares e não-escolares e Organizações Alternativas

Autoras: Hilda Maria Monteiro e Alessandra Marques da Cunha

Instituições: Prefeitura Municipal de São Carlos/UNICEP e UFSCar





Conjugar o tempo de aprendizagem da criança e o da professora com o tempo

da escola é um desafio permanente no cotidiano de instituições escolares. O tempo da escola é

regido pelo relógio e nem sempre coincide com o tempo da criança e da professora. O

descompasso entre esses tempos, muitas vezes, culmina em fracassos que geram ansiedades e

frustrações.

Este texto relata as estratégias de duas professoras e suas turmas de alunos e

alunas de 2ª série do ensino fundamental de uma escola pública da periferia de São Carlos/SP,

para que pudessem, todos, aprender e ensinar a linguagem escrita no espaço de tempo

estabelecido pela escola.

A urgência que caracteriza o aprender e o ensinar dessas pessoas se intensifica

por ser a 2ª série o final do primeiro ciclo, o que implica tomada de decisões sobre as

possibilidades dos alunos serem promovidos para o ciclo seguinte. Isso significava, para todos

os envolvidos, concentrar esforços para acompanhar o tempo da escola e, para alguns,

esforços maiores, visto que já estavam em defasagem em relação a esse tempo.

Investir em estratégias para que a aprendizagem da leitura e da escrita de

crianças se efetive sem ultrapassar os limites do tempo estabelecido pela escola é contribuir

para diminuir os futuros índices de jovens e adultos excluídos pelo sistema escolar.

Uma das turmas constitui-se de 33 alunos com idade de 8 a 13 anos, 7 deles

fazendo a 2ª série pela segunda vez e 1 pela terceira vez. A professora, lecionando pela 2 ª vez

em uma sala de 2ª série estava no seu 5º ano de experiência docente. No início do ano letivo,

12 alunos estavam alfabetizados e 21 encontravam-se em níveis anteriores ao alfabético1,

cinco deles no nível pré-silábico. Ao final do 3º bimestre, um aluno ainda não compreendia o

sistema alfabético da escrita.









1

Denominação dos níveis de desenvolvimento da escrita utilizada por Ferreiro (1985).

A outra turma constitui-se de 31 alunos com idade de 8 a 13 anos, 5 cursando a

2ª série pela 2ª vez e 4, pela terceira vez. A professora estava em seu 4º ano de experiência

docente, sendo o 3º lecionando em sala de 2ª série. No início do ano, 13 alunos encontravam-

se no nível alfabético e 18 em níveis anteriores de conceitualização da escrita, dois dos quais

no nível pré-silábico. Ao final do 3º bimestre, assim como na outra turma, um aluno ainda não

compreendia o sistema alfabético da escrita.

As estratégias desenvolvidas para facilitar os processos de ensino e de

aprendizagem encontram sustentação na Psicologia Histórico-Cultural2, em que os conceitos

de zona de desenvolvimento proximal e tomada de consciência vêm contribuir para o

esclarecimento de aspectos que revelam as conquistas dos alunos e alunas e suas professoras.

Para Vygotsky (1991), a linguagem escrita possui duas particularidades, com

as quais a pessoa que começa a escrever precisa lidar. Uma dessas particularidades é o caráter

abstrato da linguagem escrita, o que pressupõe “tomar consciência da estrutura fônica da

palavra, desmembrá-la e reproduzi-la voluntariamente em signos” (p. 231).

Outra particularidade da linguagem escrita é a voluntariedade. A pessoa possui

determinados conhecimentos no campo da linguagem e não sabe que os possui, ou seja, não

toma consciência deles. A função da escola é auxiliá-la a passar do plano autônomo ao plano

voluntário, intencional e consciente.

Para Vygotsky, esses dois aspectos – o caráter consciente e voluntário –são

essenciais para que o domínio da linguagem escrita seja possível.

O conceito de zona de desenvolvimento proximal assume aqui um papel

fundamental (Vygotsky, 1991). O pressuposto fundamental do conceito de zona de

desenvolvimento proximal é que em determinado estágio de seu desenvolvimento uma pessoa

consegue resolver certas tarefas apenas com a colaboração, com a ajuda e orientação de

alguém e mais tarde poderá resolvê-las de forma independente.





Estratégias para aprender e ensinar a linguagem escrita





Aproveitar todos os momentos disponíveis para intervir no processo de ensino

e de aprendizagem e investir em uma proposta de colaboração entre alunos-alunos,

professora-alunos e professora-professora foi uma das características deste trabalho. Uma





2

Entendemos por Psicologia Histórico-Cultural a teoria desenvolvida por Vygotsky e seus colaboradores a partir

de meados da década de 1920 na Antiga União Soviética, tomando por base a construção histórico-cultural da

mente.

outra característica foi sensibilizar o olhar de todos nós para a diversidade de saberes e

desenvolver atitudes positivas de incentivo em relação ao momento em que cada um se

encontrava em relação à aprendizagem da linguagem escrita.

Na sala de aula, as crianças com hipóteses diferentes - porém aproximadas -

sobre a escrita eram agrupadas em duplas e incentivadas a colaborarem entre si. Essa

colaboração era facilitada por terem, os alunos, a compreensão do seu processo de

aprendizagem. Isso era conseguido em função de poderem analisar a evolução de sua escrita

por meio dos registros de suas produções arquivados desde o início do ano letivo. Dessa

forma percebiam que a escrita do colega estava passando pela mesma etapa pela qual um dia a

dele próprio havia passado. O olhar dos alunos sobre o outro era de que ele "está aprendendo"

e nunca de que ele "não sabe".

As professoras, cada uma em sua sala, desenvolviam atividades coletivas e

intervenções específicas de produção de textos e análise da escrita de palavras com cada um

dos alunos. Como não era possível atender a todos diariamente, era feita uma agenda semanal,

para que todos fossem contemplados, dispensando um tempo maior àqueles que mais se

distanciavam da escrita alfabética. Nessas intervenções, desafios eram propostos e caminhos

eram apontados para que os mecanismos da escrita fossem compreendidos.

No horário em que os alunos tinham aula de Educação Física – dois dias por

semana – uma professora dirigia-se à sala da outra para ajudar com atividades de intervenções

individuais de escrita de palavras e textos. Essas intervenções eram feitas tentando provocar

conflitos na criança para que tomasse consciência da estrutura fônica da palavra. A partir da

análise das intervenções, outras ações eram planejadas pelas professoras.

Nos Horários de Trabalho Pedagógico Livres (HTPL), que somam três horas

semanais, cada uma das professoras organizou-se para oferecer apoio pedagógico a grupos de

4 a 6 de seus alunos por um período de duas horas. Nesses pequenos grupos a colaboração

entre alunos-alunos e entre professora-alunos era intensificada.

O fato de, ao final do 3º bimestre, cada uma das professoras ainda ter um aluno

não alfabetizado, embora os dois tenham aprendido muito, trouxe angústias e frustrações. As

professoras, na ânsia de acelerar o processo de aprendizagem dos alunos, algumas vezes se

surpreenderam exigindo um desempenho além do que eles eram capazes. Aqui ficam

evidentes as conseqüências do descompasso entre tempos de aprendizagem e tempo da escola.

Não se pode perder de vista que a intervenção educativa atua sobre indivíduos

necessariamente diversos e por isso é preciso respeitar o aluno como alguém que tem algo a

dizer e a contribuir no processo ensino-aprendizagem.

A teoria de Vygotsky vem ajudar a compreender como a interferência de uma

pessoa pode alterar o desempenho de outra pois a capacidade de se beneficiar da colaboração

de outra pessoa só irá ocorrer se a função a ser desenvolvida existir em potência no indivíduo.

Nesses momentos, o trabalho colaborativo é de fundamental importância pois

uma professora pode assinalar para a outra aquilo que ela não consegue perceber por estar

envolvida pedagógica e emocionalmente.

A busca de compreensão dos processos e tempos de aprendizagem de pessoas

com características tão diversas nos remete ao entendimento de homem como ser biológico e

social, membro da espécie humana e participante de um processo histórico (Oliveira, 1997).





Considerações finais





Apostar no aprender mais solidário contando com a ajuda de colegas é

conquistar, no ambiente escolar, espaços que propiciem trocas de experiências, trabalho

pedagógico coletivo e respeito pela singularidade humana. Administrar melhor os tempos de

aprendizagem para amenizar o descompasso entre o tempo da escola é contribuir para que

sejam interrompidos possíveis processos de exclusão escolar.

Aprender e ensinar, neste contexto, implicou olhar para as próprias limitações,

acreditando serem elas superáveis. Implicou explorar e compreender o “ainda não sei” como

uma possibilidade de vir a saber, incorporando ao cotidiano da sala de aula e da escola um

aprender e um ensinar mais solidário, em que uns eram ajudados por outros a realizar o que

nem sempre eram capazes de fazer sozinhos.





Referências Bibliográficas





FERREIRO, E. & TEBEROSKY, A. Psicogênese da Língua Escrita. 4ª ed. Trad. Diana M.

Lichtenstein et al. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

OLIVEIRA, M. K. Vygotsky. Aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-

histórico. São Paulo: Scipione, 1997.

VYGOTSKY, L. S. Pensamiento y Lenguaje. In: ______. Obras escogidas II. Madri: Visor,

1991.


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