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A CULTURA DO FUMO NA BAHIA: DA EXCEL�NCIA � DECAD�NCIA

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A CULTURA DO FUMO NA BAHIA: DA EXCEL�NCIA � DECAD�NCIA
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A cultura do fumo na Bahia

da excelência à decadência



Augusto Sávio Mesquita*

José Mário Carvalhal de Oliveira**









A

trajetória do fumo no Brasil, desde a sua introdução como produto de

migrações indígenas, até a composição de um complexo e competitivo

agribusiness, demonstra, de modo inequívoco, a importância desta

lavoura para a economia nacional.

Se para os nossos índios o fumo encerrava um valor mítico e medicinal,

indispensável aos rituais de pajelança, para os negros constituiu-se em porta de entrada

para o cativeiro, em face ao seu uso em escambo nas transações dos brancos traficantes

de escravos com a Costa da Mina, na África.

A Bahia presenciou toda a história desta lavoura em território nacional. Berço

da produção brasileira, da qual manteve-se na liderança até o início da década de 1950,

este Estado viu florescer o complexo agroindustrial do fumo. De fato, é a partir de

meados do século XIX, que o Recôncavo Baiano enseja o surgimento da indústria

brasileira de charutos, ponteando uma trajetória marcada pela alternância de períodos

de prosperidade e de crise.

Assim, a lavoura fumageira construiu uma economia em torno de si,

responsável pela geração de renda e de milhares de empregos, servindo de sustentáculo

para municípios como Cachoeira, Castro Alves, Cruz das Almas, Maragogipe,

Muritiba, São Gonçalo dos Campos, São Félix, Sapeaçu, dentre outros do Recôncavo,

especialmente da “Mata Fina” - expressão cunhada pela indústria baiana do fumo para

designar a zona fisiográfica localizada na Região Econômica Recôncavo Sul, onde, em

face às especificidades edafo-climáticas, se produz o melhor fumo para charutos do

Brasil, de qualidade reconhecida internacionalmente. Criou-se, pois, uma verdadeira

cultura do fumo, cujos reflexos se estendem até os dias atuais, moldando costumes,

comportamentos, relações econômicas, sociais e políticas.

Com a década de 1960, a fumicultura baiana mergulha em uma espiral

decrescente. A produção primária experimenta sucessivos reveses, caindo do patamar

de 44 mil toneladas, em 1965, para inexpressivas 9,1 mil toneladas, em 2002, situação

demonstrada esquematicamente no Gráfico 1, passando, assim, para o modesto quinto

posto no ranking nacional e humilhante segundo lugar no nordestino, agora liderado

por Alagoas.





_____________________



*Engenheiro Agrônomo, Mestre em Política e Desenvolvimento Rural, Técnico da Delegacia Federal da

Agricultura na Bahia e Professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC; e-mail:

augustosmesquita@ig.com.br

**Engenheiro Agrônomo, Especialista em Economia Baiana, Diretor de Economia e Política Agrícola da SEAGRI;

e-mail: jcarvalhal@seagri.ba.gov.br

Gráfico 1

Produção baiana de fumo em folha, 1965/2002









Com o descenso da cultura, resultou a decadência das “cidades do fumo”,

fragilizando a economia regional e alargando o contingente de desempregados e

migrantes. Paulatinamente, a lavoura perde em produtividade e em qualidade,

aumentando o fosso tecnológico entre a produção baiana e a sulista. Na contramão do

processo de globalização, a fumicultura baiana ostenta o fraco rendimento médio de

856 kg/ha, duas vezes inferior ao sulista, espelhando a baixa competitividade no

contexto do agribusiness nacional.









 Contextualizando: a produção e

exportação de fumo no Brasil



O tabaco é hoje a principal planta não alimentícia cultivada em todos os

continentes. Sua produção anual está em torno de seis milhões de toneladas, com

crescimento previsto pela FAO de 1 a 1,5% ao ano, até 2005, quando deverá

movimentar cerca de US$ 20 bilhões.

Sem entrar no mérito das crescentes campanhas antitabagistas, tem-se que

admitir que o agronegócio fumo exerce grande importância na atividade econômica

brasileira, com reflexos positivos na esfera social. Esta atividade é responsável pela

arrecadação de grandes somas em impostos, envolve mais de 650 mil agricultores na

produção primária e emprega mais de 30 mil pessoas nas usinas de beneficiamento e

nas fábricas de cigarros, cigarrilhas e charutos. Ao longo de toda a cadeia produtiva,

desde o seu plantio até a comercialização, há o envolvimento de, aproximadamente,

2,2 milhões de pessoas.

O Brasil ocupa a posição de segundo maior produtor mundial de fumo,

conforme se depreende da visualização da Tabela 1.

Tabela 1

Produção de fumo dos principais países produtores

(em mil toneladas)

PAÍSES 1998 1999 2000 2001 2002



China 3.613 2.010 2.098 2.161 2.199

Brasil 596 505 629 570 655

Índia 561 572 587 599 530

Estados Unidos 729 604 527 408 405

Zimbábue 165 192 170 210 172

Indonésia 148 123 133 157 157

Outros 1.907 1.840 1.775 1.775 1.565

Total Mundial 7.722 5.848 5.923 5.883 5.683

Fonte: USDA, IBGE, SEAB/DERAL, Sindifumo.









Percebe-se que nos últimos cinco anos, a produção nacional passou de 596.000

t para 655.856 t, em 2002. Este aumento da ordem de 10% deve-se basicamente à

melhoria do rendimento médio dos cultivos, resultante da adoção sistemática de

tecnologias modernas pelos fumicultores, mormente no Sul do país, onde, ao revés do

que ocorre na Bahia, a atividade assume a dimensão de pujante agronegócio,

fomentado pela integração de grandes firmas, como a Souza Cruz. Ademais, a ausência

de intempéries climáticas expressivas, neste período, concorreu também para este

sucesso.

Deve-se destacar que a fumicultura brasileira encerra um quadro de dicotomia

estrutural, onde a Região Sul desponta como principal e progressista espaço produtivo,

representando 96% da produção brasileira com 623.311 t. Na safra 2001/2002, o Rio

Grande do Sul foi responsável por 53% da produção nacional, Santa Catarina por 31%

e o Paraná por 12%. Antagonicamente, o Nordeste assume uma posição marginal ao

cultivar fumo em escala reduzida e, via de regra, com baixo padrão tecnológico e

produção vinculada e dependente à exploração mercantil de um restrito grupo de

firmas exportadoras de fumo em folha e/ou fabricantes de charutos e cigarrilhas, em

quase sua totalidade subsidiárias de transnacionais. A Tabela 2 demonstra o panorama

brasileiro de produção desta commodity.

Tabela 2

Diagnóstico da produção primária de fumo em folha no Brasil, 2001/2002

ESTADOS ÁREA (ha) PRODUÇÃO RENDIMENTO

(t) MÉDIO (kg/ha)

Rio Grande do Sul 162.213 332.285 2.048

Santa Catarina 111.000 223.000 2.009

Paraná 39.095 77.026 1.970

Alagoas 10.300 10.780 1.047

Bahia 10.664 9.133 856

Minas Gerais 1.976 1.566 793

Sergipe 1.405 1.838 1.308

Outros 287 231 805

Total Brasil 336.940 655.856 1.947

Fonte: IBGE, SEAB/DERAL, Anuário Brasileiro do Fumo.





Perseguindo-se um enfoque didático, pode-se destacar os seguintes fatores

dentre aqueles responsáveis por essa hegemonia sulista:



 a instalação da indústria de fumo calcada no estreitamento das relações

entre o capital industrial e o capital bancário, deslocando o capital

mercantil do segmento produtor de cigarros;

 o sistema de produção integrada promovido pela indústria, implantado

desde 1918, assegura contratualmente assistência técnica integral à

lavoura, intermediação e aval no crédito rural, fornecimento de mudas

melhoradas e insumos agroquímicos, transporte e aquisição total da

produção, informações de mercado e garantia de preços mínimos,

previamente negociados;

 investimentos na geração e difusão de tecnologias fomentadas pela

parceria entre indústria, sindicatos patronal e dos trabalhadores na

agricultura, associações, Governos Estadual e Municipais. A instalação

da firma ProfiGen do Brasil Ltda, em 1996, em Santa Cruz do Sul, que

produz sementes a partir de biotecnologia e anuncia o breve lançamento

de fumo transgênico;

 organização do setor produtivo através de associações e cooperativas

estruturadas e competitivas, que têm na base cultural do camponês de

origem européia determinante fator de sucesso;

 preocupação com a sustentabilidade da produção, aderindo a protocolos

e acordos internacionais de proteção do meio ambiente, como o que

bane o uso do Brometo de Metila no tratamento da terra e nos expurgos

de produto armazenado.



Por seu turno, no Nordeste, a fumicultura concentra-se nos Estados de Alagoas,

Bahia e Sergipe, sendo especializada no cultivo de fumos escuros, apropriados à

manufatura de charutos, cigarrilhas, cigarros escuros e “fumo-de-corda”. Nesta região,

a produção se dá, de modo geral, em pequenas propriedades agrícolas familiares, de

dimensões significativamente menores que aquelas do Sul do país, havendo uma

concentração nos imóveis rurais de até 5 ha.

A despeito desse contraditório quadro de produção, o Brasil ocupa o primeiro

lugar nas exportações de fumo, objeto da Tabela 03, portando-se na vanguarda desde

1993 e aumentando significativamente sua participação frente aos demais

concorrentes, dentre os quais destacam-se os EUA, Turquia, Índia e Itália.





Tabela 3

Principais países exportadores de fumo

(em toneladas)

PAÍSES 1999 2000 2001 2002

Brasil 343.000 341.500 415.000 440.000

Zimbábue 168.804 215.744 182.072 185.000

Estados Unidos 211.917 189.379 182.517 185.000

Índia 81.790 119.643 123.185 125.000

Malawi 135.300 107.600 101.250 101.250

Total Mundial 1.920.389 2.069.950 1.965.828 1.951.091

Fonte: USDA, SECEX, CONAB, SEAB/DERAL









Embora tenha havido o progressivo aumento no volume exportado de fumo

pelo Brasil nos últimos anos, verifica-se um decréscimo no preço médio e,

conseqüentemente, uma redução da receita total, fato expresso na Tabela 4. É preciso

investigar as razões para esta situação e seus impactos na inserção brasileira no

mercado internacional, mas pode-se inferir que esta redução seja conseqüência das

campanhas anti-tabagistas, bem como da crise recessiva do capitalismo internacional,

mais severa aos países emergentes, que vêm sofrendo os reveses da globalização e do

protecionismo das nações centrais.

Não obstante, estima-se para as próximas safras uma redução da produção e

exportação dos EUA e do Zimbábue, importantes concorrentes do Brasil e o

incremento das exportações nacionais para o Extremo Oriente, principalmente para a

China, país que, progressivamente, vem comprando mais. Corroborando este cenário

favorável, especialistas prevêem uma redução da produção mundial, com a

conseqüente redução dos estoques de fumo, o que deve possibilitar a retomada dos

preços, embora se espere, cada vez mais, o impacto negativo das campanhas anti-

tabaco.





Tabela 4

Exportações brasileiras e preço médio do fumo, 1996 a 2002

ANOS QUANTIDADE US$/kg RECEITA TOTAL

(t) (em US$)

1996 282.364 3,82 1.078.630.480

1997 319.000 3,45 1.100.550.000

1998 300.500 3,30 991.650.000

1999 343.000 2,68 919.240.000

2000 341.500 2,52 860.580.000

2001 415.000 2,33 965.000.000

2002 440.000 2,39 1.050.000.000

Fonte: AFUBRA, SINDIFUMO, SEAB/DERAL









Diante deste quadro, não resta dúvidas de que a comprovada qualidade do fumo

brasileiro, e especialmente do baiano, cuja qualidade se iguala ao renomado produto

cubano, ao lado dos imprescindíveis investimentos em infra-estrutura e marketing,

descortinam a possibilidade de aumentar a competitividade nacional no mercado

externo.





 A trajetória do fumo na Bahia



Antes mesmo dos portugueses fundearem em águas baianas, o fumo, planta

provavelmente originária dos Andes da Bolívia, já era cultivado e utilizado largamente

pelas tribos indígenas, dentre as quais destacava-se os Tupinambá.

A evolução experimentada por essa lavoura em solos baianos, desde o período

da Colonização, quando encerrava valor de troca nas transações comerciais de

escravos entre a Bahia e África, até a constituição de um complexo agroindustrial de

projeção internacional, é permeada por períodos de euforia e crise.

A produção baiana de fumo já nasce integrada ao mercado internacional. Nos

primórdios, a necessidade crescente de escravos para exploração da cana-de-açúcar e

para as minas de ouro determinou a prosperidade do comércio de fumo brasileiro, que

se destinava basicamente a cinco mercados: Costa da Mina, na África, nutrindo o

tráfico de escravos; Europa, que representava 60% das exportações; Índia com um

volume insignificante; países do rio da Prata - Uruguai e Argentina - e o interno, que

absorvia em torno de 10% da produção, que girou em torno de 3.750 t no final do

século XVII, de acordo com Nardi (1985).

Ainda segundo essa fonte, em fins do século XVIII, ocorreu o auge do

comércio do fumo do Brasil Colônia, cuja produção, à época, conforme já se acentuou,

concentrava-se na Bahia. O início do século XIX, por sua vez, é marcado por

conjunturas interna e mundial desfavoráveis à fumicultura brasileira, que experimenta,

assim, sérios percalços. Porém, a difusão dos ideais do liberalismo econômico, com a

abertura dos portos brasileiros às nações estrangeiras, o desenvolvimento ainda que

incipiente da indústria e o crescimento do mercado interno, constituiu-se em fatores

que reaqueceram esta exploração. Somente a partir do final daquele século, com a

implantação de políticas agrícolas voltadas à expansão da fronteira agrícola, é que a

fumicultura se expande Minas Gerais, Goiás, São Paulo e, principalmente, para o Rio

Grande do Sul, com a chegada dos imigrantes europeus, em particular alemães.

A Bahia, por conseguinte, ao longo dos anos, especializou-se na produção de

fumos castanhos, do tipo dark air cured, cuja coloração varia do marrom bem claro a

uma tonalidade mais escura, gradação conferida pelo somatório de fatores

edafoclimáticos e diferenças de manejo durante o processo de fermentação. Essa

produção destina-se, basicamente, à exportação na forma de folha beneficiada ou de

charutos, produto mais nobre da fumicultura e de maior valor agregado, gozando de

excelente prestígio nos mercados internacionais, em face à sua qualidade intrínseca,

fato que determina a participação obrigatória do fumo Brasil-Bahia nos blends dos

mais renomados charutos consumidos no mundo.

Nos primeiros cinqüenta anos da década de 1920, a produção da Bahia e do Rio

Grande do Sul já representava 55,27% do volume total produzido no Brasil,

alcançando 79,93% na média do qüinqüênio seguinte. Em 1930, as produções destes

Estados praticamente se igualavam: a Bahia produzia 39,90 mil t e o Rio Grande do

Sul 30,34 mil t. Além das diferenças atinentes ao tipo de fumo produzido e suas

conseqüentes destinações, gradualmente estabelecia-se um diferencial tecnológico.

Enquanto que a Bahia permanecia secando ao sol ou em galpões (práticas usuais até

hoje), o Rio Grande do Sul, a partir de 1920, especializou-se em novos métodos de

secagem em estufa, aprimorando continuamente a qualidade. Os outros Estados, por

seu turno, produziam exclusivamente “fumo-de-corda” (NARDI, 1985).

Conforme já se evidenciou, nas últimas quatro décadas, a fumicultura baiana

sofreu redução drástica do volume produzido, saindo de um patamar de 44 mil t, em

1965, para 9.133 t em 2002, situação retratada na Tabela 5.







Tabela 5

Produção de fumo em folha da Bahia, 1990-2002

(em toneladas)

ANOS

1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002

10.549 11.617 7.583 5.261 11.250 11.970 12.944 9.630 10.508 9.491 8.429 8.851 9.133



Fonte: IBGE.









Em linhas gerais, a produção baiana de fumo reproduz a configuração geral do

modelo nordestino no que concerne à concentração da produção em pequenas

propriedades, havendo predominância naqueles estratos produtivos de até cinco

hectares. Por sua vez, os estratos detentores de áreas maiores referem-se aos plantios

próprios das firmas comerciais-exportadoras ou de firmas da indústria de charutos. O

Gráfico 2, construído a partir de dados do Censo Agropecuário do IBGE, de 1996,

demonstra este panorama.

Gráfico 2

Estratificação da produção baiana de fumo em folha, 1996







0,46% 0,14%

1,56%

0,03% . Acesso em: 30 set.2002.

NARDI, Jean Baptiste. A história do fumo brasileiro. Rio de Janeiro: ABIFUMO, 1985. 40p.



NARDI, Jean Baptiste. O fumo brasileiro no período colonial: lavoura , comércio e administração. São

Paulo: Brasiliense, 1996. 432p. ISBN 851113117-5.



SINAIS de fumaça. Globo Rural, Rio de Janeiro: Globo, p.63-68, fev. 1998.


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