JOHN LOCKE
Vida, época, filosofia e obras de John Locke
Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)
Teoria do Conhecimento, Teoria Política, Economia, Religião,
Educação e Principais obras, vide em Locke, continuação
Esta John Locke está entre os filósofos empiristas, assim chamados
página: devido a abrirem espaço para a ciência junto à filosofia, valorizando
a experiência como fonte de conhecimento. John Locke destaca-se
Primeiros pela sua teoria das idéias e pelo seu postulado da legitimidade da
anos
propriedade inserido na sua teoria social e política. Para ele, o
Estudos
Missão direito de propriedade é a base da liberdade humana "porque todo
diplomática homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa". O governo
Médico e existe para proteger esse direito.
Conselheiro
político
Locke estava interessado nos tópicos tradicionais da filosofia: o Eu,
Período na
França o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. É contemporâneo de
Exílio na Thomas Hobbes, mas, ao contrário deste, é liberal e tem convicções
Holanda parlamentaristas. Foi enorme a influência da obra de Locke. Suas
Últimos teses estão na base das democracias liberais. No século XVIII, os
anos
iluministas franceses foram buscar em suas obras as principais
idéias responsáveis pela Revolução Francesa. Montesquieu (1689-
....
Contacto:
1775) inspirou-se em Locke para formular a teoria da separação dos
Críticas, três poderes. A mesma influencia encontra-se nos pensadores
sugestões e americanos que colaboraram para a declaração da independência
alertas são americana em 1776.
bem vindos.
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Primeiros anos. John Locke nasceu na pequena cidade de
Opinião!
Wrington, em Somerset, na região sudoeste da Inglaterra, a 29 de
agosto de 1632, vindo a falecer em 1704. Foi criado em Pensford,
nas proximidades de Bristol. Sua família era da linha puritana da
religião anglicana. Seus pais, de origem modesta, foram John Locke, um pequeno
proprietário e advogado que trabalhava como procurador e como funcionário do
Juizado de Paz, e Agnes Locke, filha de um curtidor. Viviam em um chalé coberto
de colmo num conjunto de moradias de famílias do mesmo nível da sua. Dos
filhos do casal, John Locke era o mais velho de três, um morto na infância e outro,
Thomas, cinco anos mais novo que o filósofo. Seu pai deu-lhe educação severa e
correta, que Locke, adulto, reconheceu, votando-lhe respeito e afeição. Quanto à
sua mãe, sabe-se apenas que era dez anos mais velha que o marido e
provavelmente uma mulher bonita, a julgar por referências familiares escritas.
O período da infância e adolescência de Locke corresponde à fase ascendente da
nova filosofia que irá culminar no Ilusionismo. As descobertas de Galileu se
tornam conhecidas, Campanella publica trabalhos em Paris e aparecem as
primeiras publicações de Hobbes e de Descartes. É também o período da guerra
civil na Inglaterra (1642-1646): quando puritanos e presbiterianos escoceses
aliam-se contra o Rei Carlos I; Oliver Cromwell comanda os rebeldes. É uma fase
de tensão para sua família, envolvida mais de perto no conflito porque o pai de
Locke lutou contra a monarquia, como capitão de cavalaria, nas tropas vitoriosas
do Parlamento. Condenado pelo Parlamento, Carlos I é executado em 1649. Seu
filho e herdeiro, o príncipe de Gales (1630-1685), que depois seria Carlos II,
logrou escapar para a França, protegido por súditos leais, refugiando-se em Paris.
Estudos. Após a vitória dos Parlamentaristas, um colega de armas e amigo de seu
pai, o coronel Alexander Popham, tornou-se membro do Parlamento, em posição
de indicar alunos para famosa Westminster School, controlada por um comitê do
partido parlamentarista. Tendo 15 anos em 1647, Locke pode ser indicado e seu
nome foi aceito.
Na Westminster School, em Londres, - o velho Colégio de São Pedro que Isabel I
havia reformado quase um século antes, - Locke estudou principalmente grego e
latim. Está ao final de seus estudos em Westminster em 1651, quando Hobbes
publica "O Leviatã", cuja tese mais tarde ele irá criticar. Neste ano Hobbes retorna
de Paris, onde freqüentava a corte inglesa no exílio.
Em 1652 Locke estava em condições de concorrer à escolha para estudar na Christ
Church College, então o principal colégio em Oxford, o que dependia do bom
desempenho escolar, de uma composição em Grego e de amigos influentes. Foi
aprovado juntamente com cinco outros jovens. Seguiu para Oxford no final do
ano; contava então dezenove anos. Como a maioria dos estudantes que depois se
tornaram intelectuais ilustres na sua época, achou desinteressaste o curriculum de
latim, retórica, gramática inglesa, filosofia moral, geometria, grego, lógica e
metafísica, que era o ensino tradicional em seu tempo. Completou seus estudos de
bacharelado em artes, assistido por um tutor, conforme o sistema no Christ Church
College, no decurso de três anos e meio. Toda a comunicação com o tutor era em
latim. Recebeu o grau de bacharel em 1656. Buscou complementar sua educação
com a leitura de obras contemporâneas de filosofia, particularmente aquela que
ganhava momento, a obra de Descartes. Mas, acima de tudo, interessou-se mais
pela nova ciência experimental criada por Bacon (1561-1626) e lecionada em
Oxford por John Wilkins, e adquiriu formação médica. Seu interesse pela
medicina o aproxima de Richard Lower, que fez numerosas descobertas a respeito
do coração e que foi o primeiro a efetuar uma transfusão de sangue.
Tanto o mundo da medicina como o da filosofia fascinam a Locke. O que
escreveu nos anos seguintes, (1656-66), sua correspondência e seus livros
preferidos indicam seus interesses, que eram as ciências naturais, por um lado, e a
investigação social e política, por outro. Mas aquelas disciplinas básicas, no
entanto, que constituíam o método escolástico, lhe foram úteis mais tarde, como
filósofo. Em Junho de 1658, Locke fez jus ao M.A. Evidentemente ele conseguiu
satisfazer os requisitos escolares porque foi contemplado com uma bolsa de
estudante sênior em 1659 e, por ocasião do natal de 1660 foi eleito "Lecturer" (um
cargo próprio dos colégios ingleses inferior ao de professor, equivalente a tutor,
orientador ou instrutor de um grupo de alunos) de Grego no Christ Church.
O pai de Locke faleceu dois meses depois de sua nomeação. Deixou-lhe algumas
terras e alguns chalés perto de Pensford, e este patrimônio haveria de suprir Locke
com a renda para uma vida decente pelo resto de sua existência. Após o enterro do
pai, Locke voltou para Oxford para exercer suas tarefas de tutor. Nos três ou
quatro anos que se seguiram trabalhou no Colégio, onde também residia. Na
ocasião parece que pensou em abraçar o sacerdócio, ou que sua bolsa assim o
requeria, mas em 1666, obteve uma dispensa que lhe permitiu manter sua bolsa
sem se ordenar, residindo em Christ Church College por mais de trinta anos,
afastando-se apenas temporariamente para Londres ou em viagem ao estrangeiro.
Perdeu essa bolsa por mandato real em 1684, quando os monarquistas se tornaram
senhores da situação política no país.
O Protetorado de Cromwell durou de 1653 até a data em que morreu, em 1658.
Com a morte de Cromwell, o temor da desintegração do país levou o Parlamento a
chamar de volta à Inglaterra o herdeiro do trono, para a restauração da monarquia.
Carlos II foi coroado em 1660 e em 1662 casou com Catarina de Bragança, filha
de dom João IV. Este casamento garantiu importantes vantagens comerciais para a
Inglaterra que em troca dava a Dom João IV o que ele mais desejava, que era a
proteção contra a ameaça da Espanha de retomar seu domínio sobre Portugal. O
envolvimento inicial de Locke com a política começa em 1660, quando era,
contrariando a linha política paterna, um monarquista convicto. Nestes anos de
1660 e 1661 sua linha de pensamento era autoritária e dizia temer a anarquia.
Alinhava-se com o pensamento de Hobbes, contra o qual mais tarde haveria de se
voltar radicalmente. Escreveu contra a tolerância religiosa por essa época, tanto
em Latim como em Inglês em resposta a Edward Bagshawe, que pensava que um
governante deveria ter poder sobre as ações dos homens, porém devia deixá-los
seguir seus próprios caminhos religiosos. Locke discordava de Bagshawe ,
acreditando que o magistrado devia ter poder até mesmo sobre a religião de seus
súditos. Mais tarde suas convicções políticas, inclusive sua postura quanto à
tolerância, haveriam mudar radicalmente.
Nas décadas seguintes Locke prosseguiu em seus estudos privados, e parte dos
eventos sociais de que participava eram encontros em que discutia com amigos
questões filosóficas e científicas. Foi o período em que Locke avançou seus
estudos médicos e científicos assistindo aulas do fisiologista Thomas Willis
(1621-1675), que tentava explicar o funcionamento do corpo por interações
químicas, um renomado conhecedor do sistema nervoso, que foi professor em
Oxford de 1660 a 1675. Nesse período colaborou com Robert Boyle (1627-1691,
um dos fundadores da química moderna e seu amigo chegado, descobridor de que,
a uma temperatura constante o volume de um gás é inversamente proporcional à
pressão. Tanto quanto Locke, Boyle tinha preocupações religiosas, sustentando
que o estudo científico da natureza era um dever religioso. Conduziu seus
experimentos em Oxford e a partir de 1668 vivia em Londres. Ao final dessa fase
inclui-se outro amigo, Thomas Sydenham (1624-1689), um eminente cientista
médico, chamado "O Hipócrates Inglês" e que, pelo seu livro "Observações
Médicas" publicado em 1676, tornou-se o fundador da medicina clínica. Locke
escreveu então Essays on the Law of Nature, ("Ensaios sobre a Lei da Natureza")
em 1663-64, mas nunca publicou essa obra.
Locke foi eleito Censor de Filosofia Moral em 1663 e manteve o cargo por um
ano, ao fim do qual iria deixar Christ Church. Seu irmão morreu aquele ano em
Pensford e Locke decidiu passar algum tempo fora como diplomata, em lugar de
continuar na sua posição acadêmica ou estudos científicos.
Missão diplomática. A experiência diplomática que teve Locke, apesar de curta,
teve importante reflexo em sua filosofia. Ele foi o secretário da missão
diplomática de Sir Walter Vane a Brandenburg em 1665. Foi sua primeira viagem
ao continente. Lá, impressionou-o a tolerância entre as várias facções religiosas e
escreveu a esse respeito uma carta para Boyle, ressaltando que aquela paz devia-se
parte ao poder dos magistrados, parte à boa natureza e prudência do povo, que
mantinha diferentes opiniões sem nenhum ódio secreto ou rancor. Efetivamente, o
eleitorado de Brandenburg mantivera-se tanto quanto possível neutro na Guerra
dos Trinta Anos, - entre católicos, calvinistas e luteranos, - sofrendo, no entanto, a
invasão dos suecos. Quando Frederico Guilherme, o Grande Eleitor (1620-1688)
assumiu o poder em 1640, iniciou um programa de reconstrução do principado
incluindo desde obras militares de fortificação a obras civis como a construção de
canais de navegação, e efetivou a união da Prússia ao eleitorado, o que aumentava
consideravelmente seu poder e importância no contexto político europeu. A partir
dessa experiência, Locke começou a rejeitar a visão de Hobbes que ele antes
aceitava. Sua atuação na missão causou boa impressão a muitos na Inglaterra e no
seu retorno em 1666 lhe foram oferecidas numerosas oportunidades em postos
diplomáticos, inclusive de imediato na Espanha, os quais ele declinou devido ao
seu interesse em medicina, retornando ao seu refúgio em Oxford.
Médico e Conselheiro Político. Como médico chamou a atenção de Lord
Anthony Ashley Cooper (1621-1683) político parlamentarista, futuro primeiro
conde de Shaftesbury. O conhecimento começou acidentalmente em 1666, por
intermédio de Sydenham. Locke desejava permanecer em Oxford e obter o grau
de Doutor em Medicina sem ter que freqüentar todas as classes. Lord Ashley
obteve do Secretário de Estado uma carta para o Christ Church College
permitindo a Locke estudar sem as obrigações acadêmicas de aluno. Locke então
deixou a tutoria ao final do ano. Na primavera seguinte, em 1667, o Lord o
convidou para fazer parte da equipe de empregados de sua casa, servindo como
médico da família. Locke aceitou e viajou para Londres.
Lord Ashley era um político parlamentarista, ousado e agressivo, oponente radical
das medidas de Carlos II (1630-1685) que tentava fortalecer o absolutismo. Seus
ideais políticos eram a monarquia constitucional, a sucessão do trono por um
protestante, liberdades civis, tolerância religiosa, governo através do parlamento, e
expansão da economia britânica. Como tais ideais eram afins com os defendidos
por Locke, havia entre ambos amizade e um entendimento perfeito. Apesar de não
se dar bem com o clima de Londres, o período junto a Ashley foi certamente o
mais ativo da vida de Locke. Alem do Lord e de Thomas Sydenham, seu círculo
de cientistas e intelectuais amigos incluía, entre outros, também John Mapletoft e
James Tyrrell, este um colega médico de Sydenham e que era também um
"divine" (teólogo).
Locke encontrava-se ainda com representantes da escola de humanistas cristãos,
os Platônicos de Cambridge, intelectuais que, apesar de simpáticos à ciência
empírica, opunham-se ao materialismo por considerá-lo falho em explicar o
elemento racional na vida humana. Tendiam a ser liberais em política e religião,
porém tanto quanto eles ensinavam um Platonismo que se apoiava na crença em
idéias inatas, Locke não poderia segui-los; mas a sua tolerância, a ênfase deles na
prática dos costumes como uma parte da vida religiosa, e sua rejeição ao
Materialismo eram aspectos que Locke achava atraentes. Um destes humanistas,
adepto da existência de idéias inatas, era Ralph Cudworth, cuja obra "Verdadeiro
sistema intelectual do universo" influenciou consideravelmente o pensamento de
Locke, e cuja filha haveria de hospedá-lo em seus últimos anos. O livro I do
Ensaio de Locke é dedicado à crítica do inatismo defendido pelo amigo. A escola
humanista estava muito de perto de uma outra que influenciou Locke nessa época,
a do Latitudinarianismo, um grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana. Para
esse grupo, se um homem confessava Cristo, isto apenas deveria ser suficiente
para habilitá-lo a ser membro da Igreja Cristã, e acordo em coisas não essenciais
não deveria ser requerido, um grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana. Esses
movimentos prepararam Locke para a escola antidogmática e liberal de teologia
que ele encontraria mais tarde na Holanda, uma escola em rebeldia contra a
estreiteza do Calvinismo tradicional. Em 1667 escreveu um ensaio sobre a
tolerância que seria a base para o futuro Letters on Toleration.
Os interesses de Locke afastaram-se por certo tempo da medicina. Em 1668
Benjamin Whitcote, o teólogo ("divine") latitudinário líder da Cambridge School,
vigário da St. Lawrence Jewry, em Londres, atraiu Locke para sua congregação.
Esta professava uma forma de cristianismo que considerava a teologia como
racional, e isto acendeu o interesse de Locke pela religião e as escrituras, sobre o
que irá publicar um trabalho, mais tarde. Interessou-se também por Economia,
preparando o trabalho que publicaria anos mais tarde com o título Some
Considerations of the Lowering of Interest and Raising the Value of Money
("Algumas considerações sobre reduzir os juros e o aumentar o valor da moeda").
Porém retornou ao interesse médico quando Ashley adoeceu subtamente. Ele
salvou a vida do estadista por meio de uma habilidosa cirurgia, quando este
adoeceu em maio de 1668. Então Locke teve que por de lado qualquer projeto
para se entregar inteiramente a dar-lhe cuidados médicos. Diagnosticou a doença
como problema do fígado. Fez um cirurgião drenar um cisto, inserindo um tubo de
prata. Ashley recuperou maravilhosamente e concluiu que devia sua vida a Locke.
Locke era conselheiro pessoal de Ashley não apenas em matéria médica mas em
assuntos gerais. Fez os acertos para o casamento do herdeiro de Ashley com a
filha do duque de Rutland, assistiu sua nora em 1671, no seu resguardo, e dirigiu a
alimentação e a educação do recém nascido que viria a ser o III conde de
Shaftesbury, o famoso autor de Characteristics of Man, Manners, Opinions,
Times, obra que despertou grande interesse entre os intelectuais europeus,
inclusive Kant. Assessorou Lord Ashley em vários assuntos políticos importantes
e conviveu com os mais altos círculos intelectuais e políticos da época. Devido a
Lord Ashley ter direitos de propriedade na Carolina, Estados Unidos, Locke
participou da elaboração de uma constituição para aquele futuro estado americano.
Nesta época começa também a redigir o que seria "O Ensaio sobre o
Entendimento Humano" no que trabalhou por mais de 20 anos.
Nos anos passados em Londres Locke tornou-se também membro da Sociedade
Real, onde se procedia a discussões, experiências e demonstrações científicas. A
sociedade fora fundada cinco anos antes e como seu membro Locke estava em dia
com os avanços científicos; foi eleito em 1668. No entanto, seus próprios
aposentos eram uma extensão da Sociedade. Seus amigos certamente ansiavam
por aquelas horas de alheamento das preocupações diárias em que, na mais cálida
amizade, se reuniam nos aposentos de Locke para conversar sobre achados
científicos e sobre questões filosóficas. O próprio Locke iniciava os debates e
assim discutiu e anotou os pontos de vista sobre o conhecimento humano como
rascunho do que 19 anos mais tarde seria o seu famoso "Ensaio".
Período na França. A partir 1667 Lord Ashley ganhou poder, dando um passo na
direção do mais alto cargo do reino ao integrar o grupo de cinco membros do
ministério do Rei conhecido como a "Cabal", um trocadilho porque as primeiras
letras dos nomes de seus cinco membros formava a palavra cabal, o mesmo que
"cabala". Em 1672 Ashley foi feito Primeiro Conde de Shaftesbury e ao final
desse mesmo ano foi nomeado Lord Chanceler da Inglaterra, o mais alto cargo no
governo. Na ocasião Locke vinha sofrendo muito com a fumaça e a neblina de
Londres; no inverno Locke tossia dia e noite e tinha cada vez maior dificuldade
para respirar. Apesar de necessitar sempre da assistência de Locke, Lord Ashley
permitiu-lhe umas férias na França. Locke decidiu viajar com um grupo para a
França., em viagem de lazer. De lá foi chamado de volta à Inglaterra por Ashley,
primeiro para ser seu secretário de benefícios "Secretary of Presentations"; cabia-
lhe supervisionar assuntos eclesiásticos que eram afetos à chancelaria de Ashley.
No ano seguinte, passou a secretário do Conselho do Comércio e Agricultura
(Council of Trade and Plantations) que Ashley havia criado.
Após dois anos na secretaria do Conselho do Comércio Locke, muito incomodado
pela asma de que sofria, deixou Londres, voltando para Oxford, decidido a
finalizar os estudos requeridos para o bacharelado em Medicina, o que obteve em
fins de 1674. No início do ano seguinte foi indicado para uma das duas residências
de medicina do colégio. Receioso, no entanto, da situação política que se
agravava, Locke decidiu deixar a Inglaterra e passar uma temporada na França,
país do qual guardava agradáveis recordações de férias. Buscou o clima ameno do
sul da França, fez pelo interior viagens de lazer enquanto residia em Montpellier.
O diário que escreveu desse período contem suas observações sobre lugares e
costumes, e sobre as instituições do país. Contem também muitos pensamentos
que depois tomariam forma de postulados no seu "Ensaio sobre o Entendimento
Humano". Em Montpellier recebeu a notícia de que Lord Ashley havia sido preso
na Torre de Londres. Se estivesse na Inglaterra, teria sido preso com ele, do
mesmo modo que outros auxiliares imediatos seus foram detidos.
A permanência de Locke na França deixou de ser apenas interesse seu, quando se
tornou tutor do jovem filho de um amigo de Lord Ashley, que lhe escreveu uma
carta solicitando-lhe assumir aquele encargo. No caminho entre Montpellier e
Paris, onde iria encontrar o jovem discípulo, Locke sofreu o contratempo de uma
febre alta e precisou de um mês para recuperar-se e concluir a viagem até a
Capital, onde o jovem o aguardava.
Em Paris, Locke fez contactos que influenciaram profundamente sua visão da
Metafísica (A natureza do ser) e da epistemologia, principalmente com a escola
seguidora de Gassendi e particularmente com seu líder François Vernier. O já
falecido Pierre Gassendi (1592-1655) , filósofo e cientista, havia criticado a super-
especulação na filosofia de Descartes e defendera o retorno à doutrina de Epicuro,
isto é ao empirismo (enfatizando a experiência dos sentidos), ao hedonismo
(sustentando ser o prazer o bem), e à física corpuscular (com a realidade feita de
partículas atômicas). Gassendi sustentava que o conhecimento do mundo exterior
depende dos sentidos, porém o homem pode, através da razão, derivar muita
informação além da evidência ganha empiricamente.
Exílio na Holanda. Na primavera de 1678, após quatro anos na França (1675-79),
Locke retornou à Inglaterra e imediatamente para a casa de Ashley Cooper. Este
havia ficado preso um ano na Torre, mas, ao tempo da volta de Locke já estava
livre e fazendo política novamente, como presidente do Conselho Privado,
enquanto seus inimigos estavam prisioneiros em seu lugar. Locke era novamente
seu braço direito.
Lord Ashley, agora conde de Shaftesbury estava do lado do Parlamento e cada vez
mais se opunha às medidas de Carlos II (1630-1685) que tentava fortalecer o
absolutismo. Por outro lado, o herdeiro do trono, James, irmão de Carlos II, era
católico, e a maioria protestante liderada por Shftesbutry queria excluí-lo da
sucessão. Em 1681, por não conseguir conciliar os interesses do rei com os do
Parlamento, Lord Ashley foi demitido. Carlos II dissolveu o parlamento em 1681.
Em 1682 as disputas entre realistas e parlamentaristas reacendeu devido a Londres
estar confiada a cheriffs fieis à monarquia. Descontente com o controle firme dos
realistas sobre a política na cidade, e conseqüente perda de poder do seu grupo,
Lord Ashley pensou organizar uma revolta mas seus planos foram descobertos e
ele e seus auxiliares e amigos passaram a ser vigiados com olhos de falcão.
Espiões foram designados para vigiar inclusive a Locke. Pelo final do ano o
governo tinha evidências suficientes para prender Lord Ashley mas este, absolvido
por um jure de Londres, fugiu para a Holanda, onde veio a falecer no início de
1683.
Locke continuou sob vigilância na Inglaterra. A fama de Hobbes, morto em 1679,
foi logo sucedida pela de John Locke. Porém a permanência na Inglaterra tornou-
se para ele progressivamente insustentável. Em 1683 uma carta foi enviada da
Corte ao reitor do Christ Church College advertindo-o de que Locke, que era da
casa do conde de Shaftesbury (Lord Ashley) havia em várias ocasiões se
comportado facciosa e desobedientemente com o governo. Locke apresentou sua
defesa em uma carta e recebeu de um amigo, Lord Pembroke, a garantia de que
havia limpado seu nome com o Rei.. Porém Locke decidiu refugiar-se na Holanda,
confiando a um amigo íntimo, o parlamentar Edward Clarke, seus interesses na
Inglaterra. No ano seguinte seu nome foi incluído numa lista enviada ao governo
holandês de 84 traidores procurados pelo governo Inglês. Para escapar de ser
preso e deportado, Locke mudou de nome, fazendo-se chamar Dr. van der Linden.
Mudava-se de uma cidade para outra e visitava furtivamente seus amigos. porém
em breve pode mostrar-se novamente e viajar livremente por toda a Holanda. No
exílio sua saúde melhorou, e fez muitos amigos entre os intelectuais holandeses.
Por cinco anos Locke permaneceu na Holanda onde se deu muito bem, dedicou-se
à medicina, fez amigos e teve tranqüilidade para colocar em ordem seus
pensamentos sobre as questões filosóficas que o preocupavam e escrever,
principalmente mais alguns capítulos do Essay Concerning Human Understanding
e do Letters on Toleration. É a época em que Isaac Newton comunica à Royal
Society de Londres, em 1686, sua hipótese sobre a gravitação universal e Leibniz
escreve obras importantes (o "Discurso de Metafísica" e o Systema Theologicum).
De modo particular fez amizade com o teólogo intelectual Philip van Limbroch, o
líder do clero Remonstrant, uma linha dissidente do protestantismo holandês a
qual, tanto quanto os latitudinários ingleses, seguia a linha liberal do teólogo
holandês Jacobus de Arminius, em oposição à linha ortodoxa radical
predominante de Gomarus. Dedicou a Limbroch a Epistola de Tolerantia", livro
foi completado em 1685 porém publicado anonimamente na Holanda somente em
princípios de 1689 para logo depois ter uma edição corrigida na Inglaterra, em
1690. A controvérsia que se seguiu a este trabalho levou Locke a publicar, além
da segunda "Carta" de 1690, uma terceira, em 1692. Um abstract do "Ensaios" foi
publicado no Bibliotheque universelle Leclerc em 1688, um jornal no qual Locke
colaborou durante o seu exílio.
Locke permaneceu na Holanda até 1688, quando Jaime II, coroado em 1685, foi
derrubado. O casamento de Carlos II não deu filhos. Pouco antes dele morrer, a
rainha Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica. Com o seu
falecimento em 1685 Jaime II (1685-88), católico, seu irmão, ascendeu ao trono
inglês. Em 1692 Catarina retornou a Portugal. Parecia que o exílio na Holanda iria
ser longo para Locke. O rei católico, irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar
a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs; obrigando-o a fugir para a
França. Foi a célebre "Revolução Gloriosa". O Parlamento chamou Maria Stuart,
protestante, filha do rei deposto, (Maria II da Inglaterra 1689-94) que reinou
conjuntamente com seu marido Guilherme de Orange (Guilherme III da
Inglaterra) até 1694, quando falece Maria II, e 1702, quando falece Guilherme III,
e o trono passa, - ainda em vida de John Locke -, para a devotada anglicana Anne
(1665-1714), irmã de Maria II.
Últimos anos. A "Revolução sem sangue e gloriosa" ("the glorious bloodless
revolution") havia cumprido os ideais de Shaftesbury e Locke. Primeiro e
principalmente, a Inglaterra tornou-se uma monarquia constitucional controlada
pelo Parlamento; a partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa.
Segundo, após a revolução tornaram-se maiores a liberdade do indivíduo nas
cortes de justiça, a tolerância religiosa e a liberdade de pensamento e expressão.
Encorajado a voltar para a Inglaterra pela mudança política e também porque foi
convidado a morar com seu amigo Dr. Charles Goodall, Locke pôs seus negócios
em ordem, fez as malas e partiu para a Inglaterra em um domingo, 20 de fevereiro,
1689 a bordo do barco Isabella.
Após seu regresso o filósofo começou a freqüentar os salões do amigo Lord
Pembroke onde ele encontrou-se com alguns de seus mais famosos
contemporâneos, inclusive Isaac Newton. Locke trocou cartas com Newton a
respeito desde as órbitas planetárias como das Escrituras. Apesar da situação
favorável, Locke, desde sua volta participou pouco da política. O novo governo
reconheceu seus serviços pela causa da liberdade e lhe foi oferecido o posto de
embaixador britânico em Berlim ou Viena, o primeiro junto a corte de Frederick
III, que alguns anos depois haveria de fundar o reino da Prússia unindo os
territórios herdados de seu pai, Frederico Guilherme, em cujo reinado Locke
estivera em missão diplomática na antiga capital, Brandenburgo. Locke recusou
ambos os postos alegando seus problemas de saúde. Porém aceitou o cargo menos
importante de membro da Comissão de Apelação (Commission of Appeals) no
mesmo ano de seu regresso.
Por ocasião de seu regresso Locke contava cinqüenta e sete anos. Com problemas
de saúde motivados pela poluição atmosférica de Londres, deixava a cidade tantas
vezes quanto possível em visita a amigos no interior, hospedando-se finalmente na
mansão de Oates, uma pequena propriedade rural pertencente Sir Francis e Lady
Masham. Sua hospedeira era uma mulher que ele tinha conhecido por muitos
anos, por ser filha do já mencionado Ralph Cudworth, o professor platonista de
Cambridge que Locke admirava pelo tipo de teologia liberal; uma crescente
afinidade intelectual com a família levou-o a aceitar a oferta de moradia. Em casa
de Lady Masham. Sua saúde melhorou e de lá continuou sua influência política
como líder intelectual dos parlamentaristas Whigs. A maior tarefa deste último
período de sua vida, no entanto, seria a publicação de seus trabalhos, os quais
eram o produto de longos anos de gestação. Encontrou logo que retornou, editor
para seus dois grandes trabalhos, o famoso "Ensaio Sobre o Entendimento
Humano", e o igualmente importante Two Treatises of Government ("Dois
Tratados Sobre o Governo Civil"). Publicou este último anonimamente, porém tão
determinado a ocultar sua autoria dessa obra que destruiu todas as cartas e
manuscritos a ela referentes.
Em março de 1690 apareceu o longamente esperado Essay concerning Human
Understanding ("Ensaio sobre o Entendimento Humano"), sobre o qual havia
trabalhado intermitentemente desde 1671. O livro alcançou sucesso imediato e
provocou uma volumosa literatura de ataque e resposta. De uma parte os jovens
queriam introduzi-lo na universidade. Uma versão simplificada do Ensaio foi
publicada como introdução para estudantes universitários, e de outro as elites se
reuniram para descobrir um meio de suprimi-lo. Novas edições revistas surgiram
em 1694, 1695, e 1700. As últimas edições contêm muitas modificações devidas à
correspondência do autor com William Molyneux, do Trinity College, de Dublin,
um devotado discípulo, com o qual Locke tinha uma calorosa amizade.
Outros interesses também ocuparam Locke ao longo da década de 90. As
dificuldades financeiras do novo governo levaram-no a publicar em 1691 o acima
citado Some Considerations of the Consequences of Lowering of Interest, and
Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre a redução dos juros e
o aumento do valor da moeda") com um desdobramento em novas considerações
sobre a questão publicada quatro anos mais tarde. Assistiu o amigo Edward
Clarke, já citado, membro da Casa dos Comuns, na preparação de alguns atos que
o mesmo defendeu no parlamento: projetos em favor dos direitos do cidadão (ato
sobre o direito de busca em casa dos suspeitos) e sobre a liberdade de imprensa
(ato regulamentando as impressões gráficas).
Parece que a partir do simples gosto por cuidar da saúde das crianças, Locke
desenvolveu um interesse por normas úteis à sua educação. Ele havia escrito a
Clarke, da Holanda, uma série de cartas aconselhando-o quanto à melhor educação
de seu filho. Estas cartas formaram a base de seu influente Some Thoughts
Concerning Education ("Alguns pensamentos relativos à Educação"), saído em
1693, criando novos ideais no campo da educação.
Em 1695 ele publicou um tratado religioso com um elevado apelo por um
cristianismo menos dogmático, intitulado The Reasonableness of Christianity em
que dá as escrituras como "uma coleção de escritos destinados por Deus para a
instrução do grosso analfabeto da humanidade no caminho da salvação, e,
portanto, de modo geral e nas questões principais, para ser entendida no sentido
pleno e direto de palavras e frases". Publicou essa obra anonimamente. Durante
esse período participou também de um Club denominado "O colégio", um
agremiação destinada a discutir assuntos políticos e através do qual Locke suave e
discretamente influía sobre o Parlamento. Retornou ainda uma vez à vida pública,
quando, em 1696, foi escolhido pelo Rei para ser um dos Comissários para
Comércio e Agricultura. Para cumprir suas obrigações Locke foi forçado a mudar-
se de Oates para Londres, a despeito do agravamento de sua asma. Neste cargo
Locke tratava de assuntos de comércio com as colônias e agricultura, exercendo
uma mão firme dentro do conselho. Quatro anos mais tarde decidiu afastar-se do
Conselho devido principalmente a sua saúde decadente.
Últimos anos. Nos anos seguintes Locke raramente deixou Oates. Muitos amigos
o visitaram lá, como o amigo parlamentar Edward Clarke com a esposa e os
filhos, aos quais Locke dedicava grande afeição, e inclusive Sir Isaac Newton, que
não veio discutir matemática, porém as Epístolas de São Paulo, um assunto que
interessava muito a ambos. Outro visitante frequente era seu jovem amigo
Anthony Coolins (1676-1729) que mais tarde publicaria seu célebre Discouse of
Free-thinking (1713) além de dois tributos póstumos a John Locke publicados em
1708 e 1720.
Em seus últimos anos ocupou-se de principalmente de responder a críticas ou
revisar edições de seus trabalhos.
Uma das críticas teve maior repercussão; foi a de Edward Stillingfleet, bispo de
Worcester, que, no seu Vindication of the Doctrine of the Trinity (1696), atacou a
"nova filosofia". Sua crítica chamou atenção para um dos pontos menos
satisfatórios do "Ensaio", sua explicação da idéia de "substância". Locke
respondeu no início de 1697 em A Letter to the Bishop of Worcester. Stillingfleet
retrucou poucos meses depois e Locke aprontou logo uma segunda carta.
Stillingfleet fez nova replica em 1698 e uma extensa carta de Locke apareceu em
1699, ano em que a polêmica foi interrompida pela morte do bispo.
Ao fim de sua vida Locke ficou extremamente doente ao ponto de não poder
levantar-se do leito. Faleceu a 28 de outubro de 1704, aos 72 anos. Foi enterrado
na igreja paroquial de High Laver.
Rubem Queiroz Cobra
VIDE Locke, continuação para Pensamento e Obras
Aberta em 24/05/98