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O SONHO RACISTA DE UM POVO BRANCO

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O SONHO RACISTA DE UM POVO BRANCO
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CULTURA BRASILEIRA –

2O. SEMESTRE DE 2005









A CULTURA NEGRA

TEMAS PARA DISCUSSÃO



O SONHO RACISTA DE UM POVO BRANCO .......................................................................................... 1



DE ALHOS, BUGALHOS E ALI KAMEL - POR QUE VALEM AS COTAS? ....................................................... 4

AOS CONGRESSISTAS, UMA CARTA SOBRE COTAS ............................................................................... 7

INCLUSÃO PELA CULTURA: A BANDEIRA DOS NEGROS NO SÉCULO XXI .................................................. 9

DESCONHECIMENTO CRIA A IDÉIA DE UMA "SÓ ÁFRICA" ...................................................................... 13









PROF. DÊNIO MÁGNO

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 1



O SONHO RACISTA DE UM POVO BRANCO

José Carlos Ruy

Jornal dos Economistas, no. 190 – maio 2005, p. 6-7-

http://www.corecon-rj.org.br/pdf/je_maio2005.pdf

Durante o I Congresso Internacional das Raças, realizado em Londres, em julho de 1911, João Batista Lacerda

apresentou a tese Os mestiços do Brasil, onde garantia que em 100 anos – isto é, em 2012 – os negros

desapareceriam da população brasileira, e os mestiços estariam reduzidos a 3% do total.

Hoje, às vésperas do cumprimento daquela previsão, seu disparate é visível. Mas, na época, aquele era um

problema de enorme importância para a classe dominante brasileira, cujos intelectuais e cientistas, incapazes de

compreender as razões sociais do atraso brasileiro, atribuíam-no à presença da maioria de negros e mestiços em

nossa população. Tanto que a previsão de Lacerda deixou muita gente furiosa – achavam um século muito tempo

para que o Brasil se tornasse branco! Mas ele, que era diretor do Museu Nacional, resumia a ciência da época, e

também o preconceito racial dominante.

A preocupação com a composição racial do povo brasileiro cresceu nas últimas décadas do século XIX, na crise

final da escravidão, e o debate que tomou conta da imprensa e do parlamento brasileiros em busca do substituto

para a mão de obra escrava é esclarecedor. Houve propostas de todo o tipo – desde os abolicionistas radicais que,

em minoria, defendiam o fim imediato da escravidão sem compensações para os senhores, até aqueles que

defendiam uma extinção tão gradual e lenta que arrastaria aquele sistema iníquo até a década de 1930.

Outros queriam um período de transição em que os escravos seriam transformados em servos da gleba,

juridicamente livres, mas impedidos de sair das fazendas onde viviam.

Do ponto de vista racial, uns queriam aproveitar, nas fazendas de café de São Paulo e Minas Gerais, a população

livre e pobre do Nordeste, esbarrando na resistência da oligarquia nordestina. Outros queriam trazer chineses

(descobriu-se, recentemente, que o próprio imperador D. Pedro II pensava assim) ou colonos africanos, agora na

condição de trabalhadores livres. O racismo esteve na base da rejeição destas propostas, que foram descartadas.

O deputado Meneses e Sousa, num relatório de 1875, rejeitou a vinda de chineses dizendo que o Brasil precisava

de ―sangue novo‖, e não de ―suco envelhecido e envenenado‖. Os chineses, escreveu, constituem uma raça

―abastardada‖ e que ―faz degenerar a nossa‖. Outro que rejeitou a vinda de chineses foi Joaquim Nabuco que, em

1883, registrou por escrito seu temor de que poderiam corromper ―ainda mais a nossa raça‖ e que o Brasil poderia

ser ―mongolizado como foi africanizado‖.

Prevaleceram assim os que defendiam a imigração européia, principalmente italiana, idéia atraente por vários

motivos. Eram trabalhadores vindos de uma sociedade hierárquica e autoritária, e que entrara em crise profunda

depois da unificação da Itália; portanto, eram trabalhadores acostumados a uma cultura autoritária semelhante à

brasileira e que, esperavam os promotores da imigração, se adaptariam facilmente às condições de trabalho das

fazendas do café, ainda duramente marcadas pelas relações escravistas. Além disso, eram europeus e brancos,

correspondendo ao sonho de branqueamento da elite brasileira.



Os herdeiros de Cam: eclipse negro

Para os escritores brasileiros do período, entre as décadas de 1870 e 1930, não havia dúvida sobre necessidade de

embranquecer a população, principalmente quando tentavam explicar o atraso do país, pois, para eles, os negros,

índios e mestiços eram – em graus variáveis – incapazes de civilização, característica que seria própria dos povos

brancos.

Era uma tese que também correspondia aos interesses da oligarquia agro-exportadora, que dominava o país.

Joaquim Murtinho, que foi ministro da Fazenda do presidente Campos Salles e é um precursor do conservadorismo

neoliberal, justificou o favorecimento à agricultura dizendo que a indústria era uma característica própria dos povos

brancos!

Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo (1883), queria que a imigração européia trouxesse ―uma corrente de sangue

caucásico vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo‖. Na mesma época, o crítico literário José

Veríssimo pensava que ―mais cedo ou mais tarde ela [a raça branca] vai eliminar a raça negra daqui‖. Muitos

marcaram prazo para o total branqueamento do país.

Silvo Romero escreveu, em 1880, que ―a vitória na luta pela vida, entre nós, pertencerá, no porvir, ao branco‖, num

prazo de ―três ou quatro séculos‖. Mais tarde, considerou ―otimista‖ o prazo de um século estabelecido por João

Batista Lacerda, tempo que considerava pequeno para que desaparecessem o negro, o índio e o mestiço.

Em 1921, o jornalista Artur Neiva escreveu que ―daqui a um século, a nação será branca‖; em 1923 o deputado

Carvalho Neto encurtou o prazo: ―o negro, no Brasil, desaparecerá dentro de 70 anos‖; em 1930, Pandiá Calógeras

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 2



escreveu que ―a mancha negra tende a desaparecer num tempo relativamente curto, em virtude da imigração

branca em que a herança de Cam se dissolve‖ (os africanos eram considerados como descendentes de Cam, o

filho que Noé condenou). Mas, em 1938, o médico e escritor (de grande prestígio na época) Afrânio Peixoto esticou

o prazo dizendo que, em 200 anos, ―terá passado inteiramente o eclipse negro‖.

Em outro lugar, alargou ainda mais: ―Em 300 anos mais, seremos todos brancos‖. Levando o racismo a sério,

Afrânio Peixoto comparava o Brasil e os EUA e temia que, lá, o racismo impediria a absorção dos negros e o

embranquecimento da população: ―não sei que será dos Estados Unidos, se a intolerância saxônica deixar crescer,

isolado, o núcleo composto de seus doze milhões de negros‖. E terminou seu arrazoado com uma nota pessimista:

―Teremos albumina suficiente para refinar toda essa escória?‖

Apesar de marcado pelo racismo, o Estado brasileiro – que durante o Império foi um Estado escravista, não criou

uma legislação de segregação racial. Entretanto, a legislação de imigração criou obstáculos à entrada de africanos

e asiáticos, como o decreto 588, de 28 de junho de 1890, que abria as portas para os ―indivíduos válidos e aptos

para o trabalho‖, exceto ―os indígenas da Ásia ou da África‖, cuja entrada dependia de autorização do Congresso

Nacional. Ou o decreto 7.967, de 18 de setembro de 1945, que reiterou os obstáculos à entrada de africanos e

asiáticos, ressaltando a necessidade de ―desenvolver na composição étnica do país as características mais

convenientes de sua ascendência européia‖.

Uma tardia manifestação oficial daquele sonho de branqueamento está registrada, quase 80 anos depois da

Abolição, em um livro de propaganda difundido, em 1966, pela diplomacia do general Castello Branco, onde se diz

que o povo brasileiro é branco, sendo ―diminuta a percentagem de pessoas de sangue misto‖ na população.



Descendência indígena, africana e européia

A tese do branqueamento baseava-se em pressupostos cruéis de supremacia branca. Ela supunha que o Brasil se

tornaria branco, pois, a taxa de natalidade dos negros seria mais baixa, e haveria maior incidência de doenças e a

própria desorganização social, fatores que impediriam o crescimento do contingente de negros e mestiços.

Supunha também que o gene branco seria mais forte (transplantando para a genética a mesma estrutura

hierarquizada da sociedade, com os postos mais elevados ocupados pelos brancos, ou, os que se supunham

brancos; mais ―fortes‖, portanto), fazendo surgir da miscigenação uma população mais clara, mesmo porque,

esperavam, as pessoas de pele mais escura tenderiam a procurar parceiros de pele mais clara, reforçando aquilo

que imaginavam ser uma tendência ao predomínio branco.

―O auge da campanha pelo branqueamento do Brasil‖, escreveu Clóvis Moura, ―surge exatamente no momento em

que o trabalhador escravo (negro) é descartado e substituído pelo assalariado. Aí se coloca o dilema do passado

com o futuro, do atraso com o progresso e do negro com o branco, como trabalhadores.

O primeiro representaria a animalidade, o atraso, o passado, enquanto o branco (europeu) era o símbolo do

trabalho ordenado, pacífico e progressista. Desta forma, para se modernizar e desenvolver o Brasil só havia um

caminho: colocar no lugar do país dessa carga passiva, exótica, fetichista e perigosa por uma população cristã,

européia e morigerada‖.

A história, a dinâmica populacional e – em nossos dias – a genética, dissolveram aquele delírio embranquecedor,

mostrando que o resultado da mistura de gentes em nosso país seguiu – e segue – um caminho diferente e oposto

ao sonhado pelo racismo das classes dominantes e seus acólitos.

Em 1994, uma pesquisa conduzida pelo químico Marcos Palatnick, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,

calculou a taxa de miscigenação dos cariocas, concluindo que se tornavam uniformemente morenos. Era o

resultado de 15 anos de estudos com marcadores genéticos, revelando que os cariocas têm genes europeus e

africanos: os de pele escura tem 2/3 de herança genética africana; os mulatos, meio a meio; e os de pele clara, 1/3.

Aqueles resultados foram confirmados e generalizados para todo o país pela pesquisa divulgada, em abril de 2000,

pela equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenada pelo biólogo Sérgio Pena,

mostrando que entre a população brasileira que se autoconsidera branca, aproximadamente 30% têm genes que

provam sua ascendência indígena, outros 30% sua ascendência negra, e 30% têm ascendência branca.

E que a contribuição européia se deu principalmente através dos homens, e a indígena e africana, através das

mulheres. ―Somos descendentes de africanos, índios e europeus‖, escreveu Verônica Bercht. ―A elite racista do

começo do século havia sonhado promover, com a imigração européia, o branqueamento da população. Mas os

imigrantes não formaram quistos étnicos isolados. Incorporaram-se à população já existente,através dos

casamentos. Frustraram assim aquela esperança racista. Como os cientistas da UFMG mostraram, a mistura dos

imigrantes à população brasileira aumentou enormemente o número dos mestiços, muitos dos quais, à primeira

vista, são brancos, que caracterizam nossa população.‖

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 3



Ao contrário das previsões racistas, não foi o branco – ou qualquer outro contingente – que prevaleceu, mas todos

contribuíram para formar um povo novo – o brasileiro – cuja pele morena deriva justamente da mistura de gentes

que aqui se deu, através dos séculos.

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 4





De alhos, bugalhos e Ali Kamel - Por que valem as cotas?

José Luis Petruccelli

Jornal dos Economistas, no. 190 – maio 2005, p. 3-5







Em matéria publicada no jornal O Globo**, o jornalista Ali Kamel pretendeu ensinar a comparar ―alhos com alhos e

bugalhos com bugalhos‖, para evitar o que, segundo ele, os ―cotistas‖ fazem: comparar alhos com bugalhos e

concluir que os negros, no Brasil, vivem pior do que os brancos por causa do racismo. Arroga-se desta maneira a

virtude de fazer com que os ―números digam a verdade‖, sem enganar quem não os sabe ler. Assim, pretendeu

analisar de forma supostamente correta os dados de educação e pobreza no país e, também, supostamente, tirar

conclusões melhor fundamentadas, posicionando-se no debate sobre cotas para negros nas universidades.

Para tal fim, Ali Kamel pediu para um estatístico selecionar uma amostra de população, com os dados da PNAD de

2003, ―acessíveis num CD-ROM a todos os brasileiros‖, para fazer algumas tabulações. Esta amostra é constituída

por pessoas, ―brancas e negras, residentes em áreas urbanas, com um filho e rendimento familiar total de até dois

salários (pobres, portanto)‖. O porque desta escolha Ali Kamel nos explicou criticando o que fazem ―os

pesquisadores... pegar grandes grupos e compará-los‖, quando de fato, segundo ele, estes grupos são uma ficção:

―o branco médio só existe nas estatísticas. Assim como o negro médio também não existe na vida real‖. Porém, não

explicou porque a sua escolha existiria.

Também não nos disse que este pequeno grupo selecionado representa menos de 2% da população total

brasileira. Como, então, ousar afirmar a partir desta mínima amostra que ―esta pesquisa não deixa dúvidas de que

não é a cor da pele que impede as pessoas de chegar à universidade‖? Também não foi mencionado que, dentro

deste grupo de ―pobres‖, já apareça uma desigualdade racial significativa, desde que apenas 1,5% dos brancos se

encontram nele, enquanto 2,7% dos pretos e 2,3% dos pardos o fazem. Uma relação de um para quase dois entre

brancos e negros, no grupo de pobres que ele escolheu é, desde o princípio ocultado, evidenciando o tipo de

metodologia usada por Ali Kamel para mostrar as suas verdades.

E, principalmente, não nos disse que as informações cuidadosamente escolhidas e apresentadas em seu artigo são

apenas aquelas que não desabonam os seus pressupostos, ou melhor, seus preconceitos, dado que eles,

claramente, antecedem suas conclusões. Desta maneira, as informações apresentadas tornam-se meras

manipulações ideológicas, muito longe do propósito de fazer com que os ―números digam a verdade‖. Mas há de

ressaltar também que, descontando má fé ou ignorância sociológica, os dados escolhidos para serem apresentados

carecem de relevância teórica substantiva em fundamentar o que se pretendeu.



As desigualdades entre brancos e negros

Vejamos os indicadores apresentados para educação: percentual de pessoas que sabem ler e escrever, média de

anos de estudos, grupos de anos de estudo: entre 4 e 7 anos, entre 11 e 14 anos e mais de 15 anos. Aqui a

desinformação proporcionada por Ali Kamel é variada.

Em primeiro lugar porque saber ler e escrever já há muito deixou de ser um bom indicador de educação, tendo sido

substituído por analfabetismo funcional, por exemplo, que compara proporções com até o 3º ano do primário

completo. Em segundo lugar, porque, se bem entre os brancos e negros da pequena amostra analisada não

apareçam diferenças importantes, nas faixas intermediárias de anos de estudo, nos extremos – informações não

apresentadas por Ali Kamel – sim, elas apareçam.

Por exemplo, entre os que são classificados como sem instrução, ou menos de um ano de estudo, figuram 17,2%

dos brancos, mas 22% dos negros. Portanto, uma diferença significativa entre os dois grupos. Da mesma maneira,

entre os que têm 15 anos ou mais de estudo aparece 0,5% dos brancos, mas apenas 0,2% dos negros.

Evidenciando desigualdades sociais na própria amostra selecionada por Ali Kamel, por que estes números falariam

menos a verdade do que os apresentados no seu artigo? Como pode afirmar-se que ―o número de brancos, pretos

e pardos que concluíram ensino superior é desprezível‖, se com os mesmos dados verifica-se que é mais do dobro

o percentual dentre os brancos do que entre os negros?

Para tentar comparar alhos com alhos e não ocultar informação verificou-se, nas informações referentes ao total de

população do país, a distribuição de nível de rendimentos por anos de estudos, considerando negros e brancos. O

rendimento médio mensal familiar per capita foi separado em faixas de salários mínimos, comparando-se os

percentuais entre brancos e negros em todas as categorias de anos de estudo. Uma primeira olhada na tabela de

faixas de rendimentos mostra uma desigualdade na distribuição dos mesmos que não pode ser simplesmente

deixada de lado, como ficção estatística: entre os que percebem até ½ salário mínimo per capita estão 21% dos

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brancos e 44% dos negros. Por sua vez, entre os que percebem mais de três SM per capita figuram 17% dos

brancos e 4% dos negros. E considerando os que ganham mais de 10 SM per capita, ali se encontram 2,5% dos

brancos e apenas 0,4% dos negros.As diferenças falam por si mesmas, os dados indicam apropriações

diferenciadas dos rendimentos, sendo os brancos sempre os favorecidos.

Em relação aos rendimentos por anos de estudo, o percentual de negros é constantemente maior que o de brancos

nas faixas de menores rendimentos e este percentual aumenta com o número de anos de estudo. Ou seja, os

negros aparecem em maior percentual entre os que ganham menos e, à medida em que conseguem estudar mais,

maiores são as diferenças com a participação dos brancos, dentro das mesmas faixas de rendimentos. Observando

os que percebem mais de cinco SM per capita, por outro lado, o percentual de brancos é sempre maior,

independentemente dos anos de estudo. Estas informações indicam, sem lugar a dúvidas, que mesmo com

investimentos na educação, aumentando os anos de estudo, os negros aparecem sistematicamente discriminados

em relação aos brancos, com maiores percentuais nas faixas de menores rendimentos e menor participação nas

faixas de maiores rendimentos.

Como explicar, então, os dados apresentados pelo jornalista, com situação aparentemente de ―semelhança

constante‖ e a sua interpretação de diferenças numéricas entre negros e brancos ―estatisticamente desprezíveis‖?

Simplesmente com manipulação das informações, agregando categorias para formar grupos que compensem as

distribuições percentuais. Quando se trabalha com distribuições relativas, que somam 100, se algumas categorias

aumentam sua participação é porque outras diminuem; assim, somando algumas e apenas considerando a

população que ganha até dois salários mínimos, sem desagregar faixas de até ½, de ½ a um e de um a dois

salários mínimos, como aqui foi feito, as diferenças ―desaparecem‖.



Os excluídos:negros, negras, índios e índias

Ali Kamel escreveu que a pesquisa não deixa dúvidas sobre o que impede as pessoas de chegarem à universidade:

―a péssima qualidade das escolas que os pobres brasileiros, sejam brancos, pretos ou pardos podem freqüentar‖.

Mas, acontece que, segundo os dados do Censo Demográfico de 2000, entre a população de 25 anos ou mais de

idade, um em cada 10 brancos aparece com ensino superior concluído, enquanto apenas um de cada 50 negros

consegue o mesmo nível de educação. Uma desigualdade de resultados de tal tamanho que merece ser estudada

com algo mais de atenção e, principalmente, informações mais abrangentes que uma amostra de menos de 2% da

população brasileira.

No que diz respeito à questão central que nos ocupa, as cotas nas universidades, uma realidade não pode ser

ocultada: desde a fundação das escolas, faculdades e universidades no país, na segunda metade do século XIX, os

brancos têm ocupado, como mínimo, 80% dos lugares nelas. Os negros e indígenas apenas têm conseguido uma

participação sistematicamente marginal nos cursos universitários, especialmente nas carreiras de maior prestígio,

como Medicina e Engenharia, e não se pode desconhecer a conseqüência no atual panorama de desequilíbrios de

representação universitária por grupos sociais.

Que o péssimo ensino público tem contribuído muito para isso, também não temos dúvidas. Mas não se coloque

um falso dilema entre cotas para negros e carentes nas universidades e melhoria do ensino público fundamental e

médio. ―Investimento maciço em educação‖, escreveu Ali Kamel, e concordamos plenamente sobre esta imperiosa

necessidade. Mas, por um lado, está mais que demonstrado que, até hoje, mesmo nas épocas gloriosas do ensino

público, negros e indígenas não entravam na universidade.

Perguntamos a Ali Kamel: o que fazer com os 2 milhões de pardos e pretos entre 18 e 24 anos que concluíram

nível médio e que não conseguiram entrar na universidade? Como ele sabe, a maioria deles é pobre e suas

oportunidades de vida são escassas. Alguns podem não ter condições para enfrentar as exigências de um curso de

nível superior, mas a maioria deles vai ficar simplesmente de fora dessa oportunidade por não conseguir pagar um

cursinho no qual seja treinado para passar no vestibular.

Mesmo se hoje começassem a ser feitos investimentos maciços em educação, esta seria toda uma geração perdida

e o país teria ainda que esperar por uns 20 anos, até 2025, para que os jovens – negros e brancos, pobres e não

pobres – possam vir a se candidatar, melhor preparados, a vagas nas universidades com possibilidades mais

equilibradas de ingressar.

Finalmente, cabe assinalar que se existem pelo mundo afora publicações com estudos que pretendem mostrar

problemas aplicação de políticas afirmativas em diversos países, também existem estudos que mostram o contrário.

Podemos citar, por exemplo, o livro já publicado no Brasil, pela Editora Garamond e o Centro de Estudos Afro-

Brasileiros, da Universidade Cândido Mendes, ―O Curso do Rio: um estudo sobre ação afirmativa no acesso à

universidade‖, de Derek Bok, ex-reitor da Universidade de Harvard, e Willian Bowen, ex-reitor da Universidade de

Princeton.

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Os autores fazem uma defesa contundente do esforço de admissão de estudantes negros e ressaltam quão

notáveis foram os resultados alcançados. O estudo é fruto de uma meticulosa pesquisa quantitativa sobre o ensino

superior americano, e baseia-se num banco de dados da Fundação Andrew Mellon, com registros de mais de 80 mil

alunos do curso de graduação matriculados em 28 universidades e faculdades academicamente seletivas.

Os dois ex-reitores se mostram ferrenhos defensores do que foi feito nos últimos 40 anos em termos de admissão

de estudantes negros, nas melhores instituições universitárias americanas. Também podemos afirmar: ―Ninguém

devia deixar de lê-lo, especialmente os congressistas que estão prestes a apreciar uma matéria – a adoção de

cotas – que pode mudar o país‖. E agora de nossa lavra: para melhor.

Porque ações afirmativas e o caso particular de cotas para negros, indígenas e setores mais desfavorecidos da

sociedade representam o esforço urgente, emergencial e provisório que a sociedade brasileira deve realizar para

tentar resgatar, o mais rapidamente possível, o direito à cidadania dos grupos raciais e sociais sistematicamente

excluídos ao longo da história republicana do país.

* Pesquisador do IBGE.

** Artigo ―Aos congressistas, uma carta sobre cotas‖, publicado

em O Globo, do dia 16/11/2004.

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 7





Aos congressistas, uma carta sobre cotas

ALI KAMEL

O Globo - Opinião - pg. 07 - 16/11/2004



O ministro da Educação, Tarso Genro, pediu pressa aos congressistas para que votem logo o projeto de lei que

institui a adoção de cotas raciais e sociais nas universidades federais brasileiras. Eu peço o contrário: calma e

cautela. Os cotistas se baseiam na premissa de que os negros vivem pior do que os brancos por racismo. Com

apoio em números do IBGE, querem demonstrar que o nosso ideal de nação não passa de ficção: em vez de

sermos um país que se orgulha de sua miscigenação, seríamos uma nação bicolor, em que os brancos oprimem os

negros. Tenho escrito que os números não mentem, mas enganam quem não os sabe ler. O que os cotistas têm

feito é comparar alhos com bugalhos. Mas, para que os números digam a verdade, é preciso comparar alhos com

alhos e bugalhos com bugalhos. É o que pretendo fazer aqui.



Se alguém pegar a massa de números relativos a todos os brancos do país e comparar com a massa de números

relativos a todos os negros do país, como fazem os cotistas, não estará chegando a lugar algum. Porque a média

de todos os brancos somados — os paupérrimos, os pobres, os de classe média, os ricos, os milionários — são

uma ficção, o branco médio só existe nas estatísticas. Assim como o negro médio também não existe na vida real.

De pouco nos serve, portanto, saber que um branco em relação a um negro, em média, é tantas vezes menos

analfabeto, tem tantos anos a mais de escolaridade ou recebe um salário tantas vezes maior. É preciso comparar

brancos e negros de mesma característica. Se houver diferenças, aí, então, talvez, se possa buscar, entre as

razões, o racismo.



O máximo que os pesquisadores fazem é pegar grandes grupos e compará-los. Por exemplo: os 25% mais pobres

entre os negros e os 25% mais pobres entre os brancos. Mas estes dois grupos não são iguais: neles estão negros

e brancos residentes em áreas urbanas e rurais, com nenhum, um, dois, três ou quatro filhos, com rendas que

variam de zero até o limite máximo escolhido. Com tantas variáveis, os dois grupos não são comparáveis. E as

diferenças encontradas entre eles podem ter muitos motivos: racismo, número de filhos, área de domicílio (rural ou

urbana), renda.



Nem mesmo o critério de renda, isoladamente, resolve o problema. Suponhamos que se comparem brancos e

negros que tenham R$ 100 de renda per capita. Mesmo assim, os dois grupos não são iguais. Um casal negro com

quatro filhos, morador da Zona Rural, mesmo tendo uma renda per capita de R$ 100, tem uma vida completamente

diferente de um casal branco, morador de Zona Urbana, com renda per capita de R$ 100, mas sem filhos. O

primeiro, apesar de ter renda familiar total de R$ 600 (o casal, mais quatro filhos) talvez viva pior do que o segundo,

com renda total de R$ 200. Porque criar, em sentindo amplo (educar, divertir, vestir, tratar da saúde) quatro

crianças é extremamente dispendioso.



A meu pedido, o estatístico Elmo Iorio pegou os dados brutos da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar do IBGE

de 2003, acessíveis num CD-ROM a todos os brasileiros, e fez as tabulações relativas a brancos e negros,

residentes em áreas urbanas, com um filho e rendimento familiar total de até dois salários (pobres, portanto). São

grupos comparáveis, porque, ao menos em tese, têm as mesmas condições de vida, as mesmas possibilidades. É

comparar alhos com alhos. Eu poderia ter escolhido brancos e negros da área rural, com dois filhos e renda de três

salários-mínimos, ou brancos e negros com quaisquer outras características, não importa: o importante é que os

grupos fossem comparáveis. Se um grupo estiver numa condição social melhor do que a do outro, a razão pode ser

de fato o racismo.



Feita a comparação entre os dois grupos que escolhi, o resultado foi o que eu esperava: brancos e negros pobres

têm as mesmas dificuldades, o mesmo perfil. Onde está o racismo? Nas contas de quem confunde alhos com

bugalhos.



A pesquisa de Iorio mostra que a semelhança entre os dois grupos é constante e que as diferenças numéricas são

estatisticamente desprezíveis. 72% dos brancos, 73% dos pretos e 69% dos pardos sabem ler e escrever. A média

de anos de estudo, para os brancos, pretos e pardos é de 5 anos. 28% dos brancos, 28% dos pretos e 29% dos

pardos têm entre quatro e sete anos de estudo. 9% dos brancos, 9% dos negros e 7% dos pardos estudaram entre

11 e 14 anos. Praticamente nenhum branco, preto ou pardo estudou mais de 15 anos. O ensino fundamental foi o

curso mais elevado que 55% dos brancos, 56% dos pretos e 62% dos pardos freqüentaram. Já para 22% dos

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brancos, 22% dos pretos e 19% dos pardos, o curso mais elevado que já freqüentaram foi o ensino médio. O

número de brancos, pretos e pardos que concluíram o ensino superior é desprezível.



A vida é difícil tanto para brancos, pretos e pardos: 43% dos brancos, 44% dos negros e 45% dos pardos

começaram a trabalhar entre os dez e os 14 anos de idade; 25% dos brancos, 26% dos pretos e 24% dos pardos

começaram a trabalhar um pouco mais tarde, entre os 15 e os 17 anos de idade. A maior parte dos brancos, pretos

e pardos ou não tem carteira assinada ou trabalha por conta própria: 23% dos brancos, 24% dos pretos e 25% dos

pardos não têm carteira assinada; e 24% dos brancos, 23% dos pretos e 27% dos pardos trabalham por conta

própria. Há muitos outros dados, mas estes são os essenciais.



Esta pesquisa não deixa dúvidas de que não é a cor da pele que impede as pessoas de chegar à universidade, mas

a péssima qualidade das escolas que os pobres brasileiros, sejam brancos, pretos ou pardos, podem freqüentar. Se

o impedimento não é a cor da pele, cotas raciais não fazem sentido. Mas tampouco fazem sentido cotas sociais,

porque não é a condição de pobre que impede os cidadãos de entrar na universidade, mas o péssimo ensino

público brasileiro. A única solução é o investimento maciço em educação, e jamais soluções mágicas como cotas.



Onde quer que sejam adotadas, as cotas não beneficiam os mais necessitados, mas apenas os mais afortunados

entre os necessitados. Elas agravam os conflitos onde eles existem, em vez de atenuá-los, e fazem surgir disputas

mortais entre os potencialmente favorecidos e os não-favorecidos, grupos que antes conviviam harmoniosamente.

Tudo isto está provado em ―Ações afirmativas ao redor do mundo, um estudo empírico‖, livro de Thomas Sowell,

pesquisador da Stanford University, que estudou o efeito das cotas nos EUA, Índia, Malásia, Sri Lanka e Nigéria. O

livro, com prefácio esclarecedor do historiador José Roberto Pinto de Góes, está sendo lançado no Brasil até o fim

do mês pela editora UniverCidade. Ninguém devia deixar de lê-lo, especialmente os congressistas que estão

prestes a apreciar uma matéria — a adoção de cotas — que pode mudar o país. Para pior.



ALI KAMEL é jornalista.

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Inclusão pela cultura: a bandeira dos negros no Século XXI

Revista Multirio Ano 1 Número 10 - 2002





Negro. Na historiografia brasileira, povo escravizado, explorado, torturado e humilhado. Sem vez, sem voz, sem

direitos. Por mais de três séculos, viveu sob o regime de servid„o. Era considerado um bem, uma mercadoria.

Sofreu todo tipo de rejeiÁ„o. Cercado de preconceitos, foi colocado à margem da sociedade que ele mesmo ajudou

a construir. Com a assinatura da Lei ¡urea, em 1888, ganhou a liberdade. Mas n„o a liberdade do preconceito e da

discriminação„o por parte das instituições e da própria população„o até os dias de hoje. Apesar das evidências e

das cenas contundentes que vemos todos os dias nas ruas,há quem discorde, afirmando que, no Brasil, o racismo

não existe. Quest„o polêmica.

Para o professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Carlos Alberto Hasenbalg, Ph.D.

em sociologia pela Universidade da Califórnia e autor do livro Relações Raciais no Brasil Contemporâneo (Rio

Fundo Editora), o racismo no país é bastante claro e perceptível, depende apenas do olhar de quem o vê.

―Um indicador importante disso é a comunicação de massa ou a própria TV. Não há negros na publicidade. A

verbalização e a manifestação de estereótipos sobre o negro no Brasil seriam totalmente condenadas em outros

países. O racismo não é facilmente mensurável, mas há fortes pistas de que existe. Está na família, na escola, no

mercado de trabalho, no cotidiano‖, observa Hasenbalg. Na realidade, ninguém nasce racista. Trata-se de um

sentimento que não é inato ao ser humano. É, sim, uma construção social e cultural que se enraíza desde cedo nas

crianças e nos jovens durante o processo de socialização e de constituição de conhecimentos e valores, como

observa o sociólogo Hasenbalg: ―Os próprios pais negros e mestiços têm internalizada uma série de estereótipos

negativos a respeito deles mesmos, que são passados para as crianças‖.

Estereótipos, muitas vezes, apoiados na própria historiografia, sobretudo européia, que defendeu, por muito tempo,

a existência e a supremacia de algumas raças sobre outras. Raça é um termo, aliás, impreciso, associado à divisão

da humanidade em diferentes grupos populacionais, de acordo com o critério de descendência biológica comum.

Neste contexto, cada raça é identificada segundo um conjunto de características físicas, como a cor da pele ou do

cabelo, herdada de um mesmo grupo ancestral.

Todos fomos um - A historiadora e escritora Denise Rosalem, professora do Departamento de Serviço Social da

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), explica que os defensores deste tipo de classificação

queriam estabelecer hierarquias, justificar desigualdades ou, ainda, impor dominação econômica, social e política.

Atualmente, uma visão antiga e amplamente contestada. As pesquisas mais recentes sobre o assunto dão conta de

que os seres humanos descendem de um único ancestral, que teve origem na África.

Estudo publicado pela revista Nature, em dezembro de 2000, afirma que os Homo sapiens partiram do continente

africano, em algum momento dos últimos 100 mil anos. Dali, seguiram em direção à Europa, ao Oriente Médio e à

Ásia e promoveram a expansão para o resto do mundo. Mais recentemente, em julho deste ano, uma missão de

paleontólogos no norte do deserto do Chade, na África Central, desenterrou os restos de um hominídeo de 7

milhões de anos, sendo considerado o mais antigo representante da raça humana.

Portanto, a noção de várias raças humanas é, neste momento, errônea, tanto sob o ponto de vista genético quanto

pelos pontos de vista biológico e arqueológico. O que foi ratificado oficialmente, em 1963, quando a Organização

das Nações Unidas (ONU) aprovou a Declaração das Nações Unidas para a Eliminação de Todas as Formas de

Discriminação Racial. No seu primeiro artigo, o documento destaca que a discriminação entre seres humanos,

baseada em raça, cor ou origem étnica, é uma ofensa à dignidade humana e deve ser condenada. Três anos

depois, a própria ONU elegeu o dia 21 de março como o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação

Racial.



História - Mais recentemente, em agosto de 2001, foi realizada a III Conferência Mundial sobre Racismo,

Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlatas, em Durban, na África do Sul. Representantes de 177

países reconheceram a discriminação racial como crime contra a humanidade e se comprometeram a desenvolver

ações concretas para superá-la. A bandeira do encontro é por um mundo que respeite as diferenças. Lá, os

participantes concluíram que os povos não têm raça, não têm cor. Têm, sim, história. E é esta história que os afro-

brasileiros querem resgatar e valorizar. História, por sinal, riquíssima, cheia de detalhes, miscigenações, influências

e confrontos. Afinal, foram os negros, vindos de diversos pontos da África, que, por mais de 300 anos, subsidiaram

com seu trabalho escravo a produção da riqueza e da cultura brasileira.

Mesmo em um cenário opressor, desigual, recheado de focos de resistência, de lutas armadas e de rebeliões, o

negro conseguiu perpetuar a sua cultura. Provas disto estão na cozinha brasileira, no sincretismo, na dança, na

música e nos costumes.

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 10



No livro Casa-grande & senzala (Editora Record), o sociólogo Gilberto Freyre, em 1933, chegou a afirmar que os

negros foram mais importantes para a colonização do que os próprios colonizadores: ―Diz-se que o brasileiro foi

colonizado pelo português. Este conceito é convencional. Contra ele tenho sugerido outro. O negro no Brasil não foi

colonizado, foi colonizador‖, escreve ele.





Deixando de lado a ideologia da chamada democracia racial, defendida por Freyre, onde brancos e negros se

relacionavam harmoniosamente desde os primórdios da época colonial – pensamento hoje abolido -, a historiadora

Denise Rosalem concorda com o escritor: ―A história conta que os negros sempre foram vencidos. Mas o que os

livros não falam é que eles também resistiram muito e acabaram negociando a sua própria cultura. Atualmente, ela

está presente em todos os lugares. Não há como negar isto‖.

Resistência - A nova historiografia fala em um escravo mais ativo, apesar do período de escravidão, da mesma

forma que a sociologia recente descobre um negro resistente e lutador, mesmo sob forte opressão a que foi

submetido. Exemplos não faltam. O líder Zumbi dos Palmares é um deles. Liberata, a escrava que - como outros

tantos - entrou na Justiça contra o senhor, é outro. Reconhecer e valorizar esta riqueza deve ser, portanto, o dever

de casa de todos os brasileiros, não de forma folclórica, mas, sim, como parte integrante da história do povo. Como

explica a historiadora, é entender a diferença como diferença e somente isto: ―É entender que a diferença passa a

não ser uma desvantagem nem instrumento de hierarquização‖.

O problema é que a Educação brasileira sempre desconheceu, por uma questão de dominação, a riqueza e a

hegemonia dos contextos culturais dos afro-brasileiros. É o que afirma, por exemplo, o escritor e também

historiador Joel Rufino dos Santos, no artigo Educação e Cultura - Juntas ou Separadas: ―Os contextos culturais

trazidos da África são o núcleo pesado do processo civilizador brasileiro. Mas a sociedade brasileira não reconhece

isso. Supõe-se que quem tem cultura são os descendentes europeus que se instruíram no contexto cultural

moderno ocidental cristão. Trata-se de uma relação de poder, de uma forma de dominação‖.

Por conta disso, Manolo Florentino, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de

Janeiro (UFRJ), explica que ninguém em sã consciência se identificará com um povo sofrido, torturado, massacrado

e explorado durante séculos: ―Você acha que uma criança negra, ao abrir o seu livro de escola e se deparar com a

figura de um negro maltratado, explorado e humilhado, irá se reconhecer? Não há como. Ela se identificará com os

príncipes e princesas, que eram brancos. É isto o que acontece na prática‖.

Manolo defende uma Educação que abra espaço para a cultura afro-brasileira, dando visibilidade aos negros que

tiveram importância na historiografia do país: ―E é bom lembrar que não foram poucos. Por que os livros em vez de

dedicarem páginas e páginas para relatar a escravidão, não falam sobre os poetas negros, como Castro Alves,

Lima Barreto e João da Cruz e Sousa? Sem falar no Aleijadinho, no Mestre Valentim, em Nilo Peçanha, Machado

de Assis e tantos outros. Desta forma, abriria-se a possibilidade das novas gerações se identificarem com os seus

antepassados‖.



Pluralidade - As novas Diretrizes Curriculares Nacionais e a MultiEducação – Núcleo Curricular da Rede Municipal

de Ensino do Rio de Janeiro - tentam reconstruir esta história.

Defendem uma prática educativa que respeite as diferenças e que seja plural. A coordenadora do Projeto de

Geografia e História da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Ana Paula Teixeira Soares, alerta,

porém, que esta metodologia depende, e muito, da postura do professor: ―Antes de mais nada, isto tudo passa pela

visão ética do profissional que está na sala de aula. Ser plural, aceitar as diferenças e valorizá-las são atitudes

defendidas, mas que devem ser incorporadas pelo educador por uma questão de ética‖.



A pedagoga Renata Lima Aspis acredita que a partir do momento em que o educador faz com que o aluno elabore

um projeto de vida que contemple todos os indivíduos que vivem em sua comunidade, o estudante começa a refletir

sobre a importância da ética, da solidariedade, da troca, do respeito e da amizade. Em seu artigo Pensando sobre

ética, ela diz: ―Esquecemos com freqüência que um projeto de vida implica necessariamente em um projeto de vida

para todos. Só elaborando um projeto de mundo posso ter um projeto de pessoa. Se alguém não se sente parte do

outro, se não sabe que o outro é parte dele, dificilmente será ético. Se o homem não se sente parte da natureza, se

não se sente ligado aos outros homens e se desconhece sua dimensão cultural e histórica, é possível que pense:

para que ser ético? Para que respeitar os outros?‖

Este é, sem dúvida, um dos papéis da escola do novo século. Respeitar a diferença e valorizar a cultura de várias

etnias sem hierarquização fazem parte da agenda. O professor João José Reis, da Universidade Federal da Bahia

(UFBA), vai além e afirma que enquanto o negro brasileiro não tiver acesso ao conhecimento da história de si

próprio, a escravidão cultural se manterá no país.

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 11



Inclusão - Um bom exemplo vem da própria terra natal do professor. Em Salvador, o projeto Irê Ayó chama a

atenção por trabalhar exatamente desta forma. Crianças da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos aprendem

conteúdos de Matemática e de outras disciplinas a partir de referenciais da cultura afro-brasileira. Lá, os alunos

constituem conhecimentos e valores conhecendo os mitos africanos e as histórias dos orixás.

A pesquisadora e professora Vanda Machado, que acompanha de perto a metodologia, diz que a proposta busca

reconstruir a imagem do negro, das suas lutas e de sua verdadeira contribuição na formação do povo brasileiro -

informações que ainda não constam de muitos livros didáticos existentes: ―O Irê Ayó é uma proposta de trabalho

que incentiva o surgimento da arte e da alegria de ser, pertencer e participar da comunidade em que vive,

valorizando a cultura afro-brasileira, construindo a identidade, cultivando relações solidárias e elevando a auto-

estima de um grupo‖. O trabalho é reconhecido nacionalmente pelo Ministério da Educação (MEC) como referência

de inclusão da cultura afro-brasileira. Inclusão pela cultura. Esta é a bandeira dos negros no começo deste século

XXI, na avaliação da historiadora Denise Rosalem. Para ela, os negros hoje não lutam mais pela constituição de

partidos políticos nem pelo direito de ir e vir. Em um primeiro momento, logo após a abolição, eles buscaram sua

inserção na economia, no mercado de trabalho: ―Essa bandeira foi até a ditadura militar, quando o eixo muda de

foco. A luta passa a ser travada na esfera política. Assim como as mulheres, os pobres e boa parte da população

branca, os negros não tinham direitos. Não era privilégio apenas deles. Juntos, todos lutavam pela democratização

e pela cidadania. Hoje, vivemos em uma democracia, pelo menos oficialmente. Os direitos civis estão garantidos na

Constituição Federal. Neste novo cenário, surge então o sentimento de

identidade. Quem somos nós? O negro, então, luta pela sua inserção no âmbito cultural‖.

Não é por acaso que surgem em todo o país movimentos negros e organizações não-governamentais que

defendem e divulgam a cultura dos afro-descendentes. Ao mesmo tempo, as produções literária e acadêmica

crescem. Em março passado, por exemplo, a Universidade Cândido Mendes (Ucam) criou o Centro de Estudos

Afro-Brasileiros, um desdobramento de um dos programas do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, iniciado em 1973.

Em parceria com o Consulado Norte-Americano e com a Biblioteca do Congresso dos EUA, a Pontifícia

Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRio) promoveu, nos dias 25 e 26 de novembro, o seminário

Resistência e Inclusão – Encontro sobre Memória e História dos Afro-Brasileiros e Afro-Norte-Americanos.

Contradicão - O assunto ganha cada vez mais espaço tanto no meio acadêmico quanto na imprensa. Em maio

deste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados do Censo 2000. O

levantamento mostrou que, de 1991 para 2000, o número de pessoas que se autodeclararam negras passou de 5%

para 6,2% - chegando à casa dos 10,4 milhões. O que não deixa de ser uma grande contradição. Afinal, depois da

Nigéria, o Brasil é o país que concentra a maior população negra do mundo.

Mas sob o ponto de vista histórico, trata-se de um dado extremamente interessante, como explica o professor

Manolo Florentino: ―É um indicador extraordinário. Mostra que o negro está se valorizando. Mais interessante ainda

é o novo tipo de casal misto que vem se formando. Antigamente, havia pares de homens brancos com mulheres

negras. Hoje, crescem as relações entre homens negros e mulheres brancas. O que acaba promovendo, mesmo

que lentamente, mudanças profundas‖.

Mudanças de ordem social e cultural. A mãe, historicamente ligada à educação dos filhos, passa a valorizar

também a cultura e a tradição dos negros. O preconceito, se não desaparece, é amenizado. A criança do casal

cresce em um ambiente de respeito às diferenças e de valorização da cultura do ser humano, seja ela de que etnia

for.

Cotas - Ao mesmo tempo, os governos desenvolvem práticas de Ação Afirmativa - política criada nos Estados

Unidos na década de 1960, cujo objetivo era ampliar o acesso de minorias às escolas de qualidade e bons

empregos. Um destes exemplos foi dado pelas universidades do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Estadual do

Norte Fluminense (Uenf), que reservarão, anualmente, 40% do total de suas vagas para estudantes negros e

pardos. A lei de cotas foi aprovada no ano passado pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Já o governo federal anunciou que a administração pública destinará 20% de suas vagas para negros.

As medidas são polêmicas e geram um amplo debate. Até mesmo algumas representações de afro-brasileiros não

concordam com as decisões.

Mas, pelo menos, na visão do historiador Manolo, a questão do racismo, sob os diversos ângulos, está tomando

conta da pauta do dia dos brasileiros. Um bom sinal. ―O racismo existe no Brasil. Mas é um racismo envergonhado.

As pessoas têm vergonha de assumir que são preconceituosas. É um racismo singular na historiografia mundial. Se

é bom ou ruim? Não sei. Acho que é menos pior. Pelo menos, como já disse Gilberto Gil, aqui ninguém elegeria um

representante que defendesse a segregação racial, a exclusão dos negros da sociedade. Sou otimista. Acho que,

na verdade, o racismo tende a acabar‖.



Reflexões sobre o espaço do negro na mídia audiovisual brasileira

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 12





A presença do negro na televisão e no cinema brasileiros ou é inexistente – se comparada à do branco – ou é

interpretada, às vezes, de maneira folclórica. Até pouco tempo, o negro não era representado com as mesmas

características do branco. Uma peculiaridade da mídia audiovisual brasileira, em que prevalece a figura do negro

como subalterno. Quando aparece como médico, advogado ou empresário de sucesso o faz como exceção.



A mídia resiste, mas deveria enfrentar a situação e representar o universo do negro de forma mais fidedigna,

mostrando a diversidade de situações e a real contribuição da população negra. Mas chamo a atenção para

algumas produções interessantes. O cineasta Cacá Diegues, no filme ―Quilombo‖ (1984), mostrou outra visão da

origem afro-brasileira, resgatando o Quilombo dos Palmares e o papel da liderança do herói Zumbi. Em outro filme

do mesmo cineasta, ―Xica da Silva‖ (1976), a atriz Zezé Mota traz a extraordinária mulher negra mineira que soube

tirar proveito de sua beleza, influenciando os homens. Esta é outra representação da inteligência, da sedução, da

astúcia e do veneno da mulher brasileira. Uma figura feminina controvertida tratada de maneira digna, ressaltando a

importância do seu caráter.

Há três produções recentes: o seriado de TV ―Cidade dos Homens‖ e os filmes ―Cidade de Deus‖, de Fernando

Meirelles, e o documentário ―Ônibus 174‖, de José Padilha, retratam a vida da população negra no Brasil e mostram

o preço que esta população paga desde que chegou como escrava. E, mesmo assim, trouxe sua doçura, sua

energia, sua capacidade de trabalho e sua criatividade, e foi capaz de integrar tradições. Tanto sob o ponto de vista

espiritual quanto nas várias expressões da cultura e o que é mais marcante – traços de caráter, modos de mostrar

afetividade, de estabelecer relações – e que eu chamaria de doçura africana, são aspectos pouco valorizados pela

mídia.

Mas esses três filmes fazem diagnóstico cuidadoso do que essa população tem sofrido no Brasil e sua força de

reação, sobrevivência e superação, deixando claro que a população negra não é preguiçosa, desorganizada e

desconcentrada. Isto tudo é criação racista que a mídia incorporou e que impede a capacidade de entender o

diverso, o ponto de vista alheio e de saber conviver. Tais obras denunciam que negros e brancos vivem em

situação de abandono, embora ambos tenham direitos básicos idênticos de cidadania, moradia, segurança,

educação e cultura. Não necessidades, mas direitos consagrados e conquistados na Constituição.

No mínimo, as recentes produções abrem o debate. Como a população negra vem articulando suas reivindicações?

Mostra, também, como a população branca se equivoca na maneira de conviver com os negros. E o que fica

evidente é que não há, da parte da população, preconceito de raiz. As pessoas convivem, sejam elas brancas,

negras ou mulatas. Mas as estruturas oligárquicas criadas no início da nossa colonização permanecem fortes. Isto

é que tem que ser rompido, desmistificado. O documentário ―Ônibus 174‖ tem um trabalho de pesquisa que aborda

como as autoridades brasileiras têm lidado com a questão do negro, com a população carcerária, que é

majoritariamente negra e jovem, e como tem sido pensado o sistema de reinserção deles na sociedade.

Isto tudo nos leva a refletir. Como é que nós mesmos – uma equipe de brancos e negros que produzimos currículo,

publicações, vídeos, sites – trabalhamos com este tema e de que maneira estes problemas devem ser tratados na

escola com o apoio da mídia e do currículo? Não temos que falar apenas para os negros. Temos que falar para

toda a sociedade brasileira e desvendar, sim, sob o ponto de vista das lideranças negras, suas perspectivas dos

problemas vividos por carregarem uma cor.

A sociedade brasileira entende a necessidade de expressão de todos. Quando a população negra se articula e se

torna visível e muito eloqüente, abre para outras populações brasileiras caminhos de discussão e possibilidades de

transformações. O que significa, na prática, ser negro? Este debate deve ser ampliado para a população indígena

brasileira, que congrega 200 povos diferentes com uma cosmovisão única, um código de ética, de valores. A mídia

brasileira tem imensa responsabilidade e uma dívida com a população brasileira, que deve ter resgatado seu

espaço verdadeiro.

*Professora Regina de Assis - Presidente da MULTIRIO

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 13





Desconhecimento cria a idéia de uma "só África"

Revista ComCiência – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

10/11/2003 - http://www.comciencia.br/reportagens/negros/07.shtml





Iorubás, haussás, bornos, baribas. Para quem ouve pela primeira vez, essas palavras podem soar estranhas e sem

importância mas, desde o século XVII, elas estão estritamente ligadas à história do Brasil e, de algum modo,

contribuíram fortemente para moldar o país como o conhecemos atualmente. Se, para a maioria dos brasileiros,

essas palavras não fazem parte do vocabulário, na África elas são sinônimos de diferenças: cada uma delas

designa um povo com língua e costumes diferentes. Povos que, durante o período de escravidão, deixaram

forçosamente o continente africano para fincar raízes em solo brasileiro. "Povos diversos que foram se formando ao

longo de milhares de anos. Múltiplos povos com culturas diferentes", explica o pesquisador Valdemir Zamparoni, do

Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) e professor da Universidade Federal da Bahia.



Com a escravização, milhares de negros das mais variadas culturas acabaram se misturando e tiveram de passar a

conviver juntos, criando laços de comunicação e de socialização. A historiadora Marina de Mello e Souza, em seu

artigo "Destino impresso na cor da pele", relata que "ao serem arrancados de suas aldeias e transportados pelo

continente africano rumo às feiras regionais e aos portos costeiros, os escravos de diferentes etnias misturaram-se,

aprenderam a se comunicar, criaram novos laços de sociabilidade que se consolidaram durante os horrores da

travessia atlântica, e se institucionalizaram no seio da sociedade escravista colonial, à qual foram inseridos à força,

acabando por encontrar formas de integração".



Mas, para o pesquisador Henrique Cunha Júnior, que faz parte do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o

Negro Brasileiro (NEINB - USP), esses povos já mantinham contato intenso antes do comércio e do escravismo no

Brasil. "Os africanos tinham e têm imenso trânsito no interior do continente e externo a ele. Antes da vinda para o

Brasil, eles já haviam navegado no Atlântico e no Pacífico. Tinham comércio com o Caribe e a China", diz.



Se já tinham contatos antes ou se intensificaram esses laços durante a viagem nos navios negreiros e aqui, não é o

mais relevante. O fato é que milhares de negros vindos de várias partes da África aportaram em terras brasileiras -

principalmente na Bahia e, como explica o historiador João José Reis, da Universidade Federal da Bahia, o maior

número desses escravos pertencia a grupos do tronco lingüístico banto da África Centro-Ocidental, que inclui as

regiões do Congo, Angola e Moçambique. "No interior de cada uma dessas grandes regiões contam-se dezenas de

grupos étnicos que vieram para o Brasil no período colonial e imperial, até o fim do tráfico, em 1850", diz.



Segundo Reis, como esses escravos estavam concentrados na Bahia, identidades específicas foram reconstituídas

ou construídas novamente. "Os falantes do iorubá viraram nagôs os do grupo gbe (fon, mahi e ewe, por exemplo)

viraram jejes", compara. Na opinião do pesquisador, o reagrupamento dos negros no Brasil seguiu, sobretudo, a

lógica do parentesco lingüístico.



Para Zamparoni - que trabalhou no Centro de Estudos Africanos, em Moçambique, durante três anos -, a primeira

geração de negros vindos para cá guardou elementos de sua origem, mas as outras gerações já eram a síntese

das várias culturas. "O candomblé praticado no Brasil é diferente dos cultos aos orixás que acontecem na Nigéria.

Ele é fruto das criações culturais daqui", explica.



Mas, não foi somente no Brasil que diferentes povos tiveram de conviver. Por causa do processo de colonização do

continente africano, que teve início no século XIX, grupos étnicos diferentes tiveram de viver no mesmo país,

contribuindo para uma enorme diversidade cultural em cada Estado africano. "O desenho político dos países

africanos foi feito seguindo a geografia do colonialismo, daí que grupos étnicos historicamente rivais foram

colocados no interior de fronteiras culturalmente artificiais, assim como grupos mais ou menos homogêneos foram

divididos por essas fronteiras", afirma Reis. "Populações que, muitas vezes, não eram amigas no passado,

acabaram obrigadas a conviver dentro do mesmo Estado. O resultado disso é a instabilidade política de muitos

países", acrescenta Zamparoni.



Falta de conhecimento

Se tanto no Brasil como em cada Estado africano há tamanha diferença cultural, porque muitos vêem a cultura

africana como homogênea e têm a visão de uma só África? Parte dessa visão equivocada é decorrente do próprio

Cultura Brasileira – 2o. semestre – 2005 - 14



sistema educacional brasileiro, que não inclui estudos sobre a África e os escravos que vieram para o Brasil. "Esse

processo de exclusão da história africana da cultura nacional faz parte das políticas de desigualdades de classes

produzidas pelo escravismo e pelo capitalismo racista", explica o pesquisador Cunha, em seu artigo "A inclusão da

história africana no tempo dos parâmetros curriculares nacionais".



Segundo o pesquisador, "as percepções sobre o passado africano são desinformadas e racistas, e associadas às

noções de raça, tanto no cotidiano da sociedade como na educação, produzem um processo de representações

desfavoráveis à percepção igualitária e cidadã dos afrodescendentes".



Para Zamparoni, esse processo de homogeneização da cultura africana está relacionado a outros mais antigos.

Segundo ele, nos primeiros contatos, os europeus já puderam perceber que os africanos pertenciam a povos

diferentes, com culturas e hábitos diversos. "Mesmo assim, nada impedia os europeus de falarem sobre os hábitos

dos negros, usando julgamentos depreciativos", diz. Quando começa o tráfico de escravos, que se torna mais forte

a partir do século XVII, acontece um processo de desumanização, na opinião do pesquisador. "Havia aqueles

senhores de escravos e os traficantes que conheciam as características de cada povo. Mas, o negro passou a ser

tratado como unidade. Não se falavam mais de pessoas, mas de peças", afirma.



No século XIX, com o discurso do racismo científico, esse processo se acelera ainda mais. "A tese de raça abstrai

as diferenças culturais e busca denominadores comuns", diz Zamparoni. Os traços culturais são deixados de lado e

o que pesa é apenas o fundamento biológico. "Esse é o grande discurso homogeneizador e desumanizador",

ressalta ele.



Em outras palavras, os escravos eram vistos como "peças" iguais. Com a tese do racismo científico, todos os

negros passam também a ser vistos como iguais. "E passa, então, a existir a idéia de que existe uma África só."



A imagem de um continente africano semelhante a que é mostrada em filmes como Tarzan e a idéia da

uniformidade cultural são, na opinião de Zamparoni, fruto do desconhecimento, racismo e de "uma própria

ignorância".



Parte integrante

Para esses pesquisadores, as diferentes culturas africanas não apenas influenciaram, mas foram parte integrante

daquilo que hoje definimos como cultura brasileira. "Os escravos foram 'os pés e as mãos' não só dos senhores,

mas do Brasil. Do ponto de vista da cultura, deixaram a marca por toda a parte porque a escravidão existia por toda

parte. É difícil encontrar um setor da cultura em que a mão e o pensamento africano não tenham tocado", diz Reis.



Cunha vai mais além. "Tudo, absolutamente tudo que é cultura brasileira durante o escravismo criminoso foi fruto

de africanos afrodescendentes. As tecnologias, todas", diz. Como exemplo, ele cita as agriculturas comerciais

tropicais, que eram conhecidas dos africanos, e as fundações de ferro, geridas com o conhecimento africano.

"Mesmo a fauna e flora brasileira foram modificadas pelos africanos. Temos animais e plantas trazidos por eles. A

bagagem africana é muito rica", completa.



"É impossível pensar como influência, mas sim como fundamento da cultura brasileira", explica Zamparoni. "Somos

herdeiros das várias culturas africanas", diz. Nesse sentido, ele destaca a importância de estar consciente disso. "O

Brasil não vai se conhecer enquanto não estudar as culturas africanas e não as tratar com respeito."


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