Mem�ria | Gungunhana

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					Memória | Gungunhana
UM HERÓI PARA MOÇAMBIQUE
GRANDE REPORTAGEM 190, 28 de Agosto de 2004
Quarenta anos depois do início da luta armada pela independência
moçambicana (1964), o país olha para o passado à procura de mitos. Das
profundezas da História emerge o nome de Gungunhana, o mais poderoso
régulo do Ultramar português, preso por Mouzinho de Albuquerque em
1895. Neto do temível Manukuse, outro ícone da resistência à ocupação
europeia no século XIX, «Ngungunhane» nasceu na mesma província que
Eduardo Mondlane, Samora Machel e Joaquim Chissano, os três líderes
históricos da Frelimo: Gaza. Um punhado da terra do cemitério onde foi
sepultado jaz na Fortaleza de Maputo. Os seus ossos estão para sempre
perdidos em solo português, na lava da ilha Terceira, arquipélago dos
Açores.

Aos treze dias de Março do ano da Graça de mil oitocentos e noventa e
seis, Lisboa explode em festa. O África vomita os seus fumos céu acima,
dezenas de embarcações correm sem destino no Tejo, a multidão invade o
Paço em delírio. Num minúsculo pavilhão a estibordo do navio estão os
últimos troféus das guerras africanas da monarquia: cinco homens e dez
mulheres angunes, amontoando-se sombrios sobre os beliches
nauseabundos da clausura e do abandono. Gungunhana, deitado sem glória
numa esteira, tem a cara coberta. Quando a destapam, ergue-se com susto,
distribui o olhar desconfiado, muito negro, e volta a cobrir o rosto com as
mãos. É alto como só um chefe tribal, exibe a testa ampla dos grandes
líderes, mas a sua imagem não tem agora a altivez que tanto impressionara
Mouzinho de Albuquerque dois meses e meio antes, no dia do assalto a
Chaimite.
«Como os jornalistas e outras pessoas admitidas a bordo eram cada vez em
maior número e o espaço faltasse, foi ordenado que subisse a pretalhada
para a tolda, onde se faria a sua exibição», conta o Diário de Notícias do
dia seguinte, elogiando os «valentes expedicionários» de Mouzinho. E, de
repente, o «leão de Gaza» rebenta num pranto inesperado. «Digam-me o
que querem de mim. De que vos sirvo eu? Eu morro se não voltar a ver as
minhas terras!», grita. Em desespero, pede clemência, oferece a fortuna
em troco da libertação, chora muito – chora e implora pela primeira das
muitas vezes que chorará e implorará até morrer em Angra do Heroísmo,
baptizado, alfabetizado e alcoólico, quase onze anos depois.

Ao longo de décadas os compêndios europeus hão-de recordar o episódio
como um ícone da subjugação do negro inferior. Um epílogo feliz para a
mais longa e sofrida campanha portuguesa desde que o Mestre de Avis
comandara em triunfo a expedição a Ceuta, havia cinco séculos. Durante
os três meses que permanece internado no forte de Monsanto, como
durante os mais de dez anos que viverá desterrado nos Açores, ou as quase
oito décadas que África terá ainda de esperar pela libertação, Gungunhana,
filho de Muzila e neto de Manukuse, celebrizado como o mais poderoso e
sanguinário régulo de todo o Ultramar português, há-de emprestar o seu
nome como pretexto para as mesmas chacinas, os mesmos saques e as
mesmas mentiras que tanto apreciava, apenas protagonizados agora pelos
homens que mais odiava e temia.
Só depois a História olhará para ele a sério: só depois Mudungazi, o
homem que intitularam «o leão de Gaza» como tributo à sua crueldade – o
mesmo que a si próprio chamara Ngungunhane («Gungunhana», segundo
a ortografia colonialista) para imortalizar os seus feitos «terríveis» e
«invencíveis» – será submetido ao rigor da investigação histórica. E então,
uma dúvida emerge: quem é o verdadeiro Gungunhana: um preto
sanguinário que os portugueses subjugaram ou um imperador justo que os
brancos destruíram?

Em 1953, o filme Chaimite, de Jorge Brum do Canto, defendia a primeira
versão em prol da propaganda colonialista. Em 1995, Joaquim Chissano
celebrou em Chaimite e Coolela os cem anos da resistência do império
angune e inaugurou em Mandlakazi um busto do régulo, na tentativa de o
transformar numa referência nacional. «Ele é um dos nossos heróis»,
sublinha hoje Américo Pinto, adido cultural da embaixada moçambicana
em Lisboa. «O drama é que Moçambique precisa de heróis”, escreve em
1995 Nélson Saúte, romancista moçambicano, num artigo no jornal
Público em que cita vários intelectuais com a mesma opinião. E a verdade
é que o busto de Mandlakazi acabou vandalizado apenas três dias depois,
alegadamente por elementos da etnia rival chope, muito representada na
vila.
«Ngungunyana», como hoje lhe chamam os moçambicanos, continua por
isso um mistério: ele chorou de medo em Lisboa, sim, mas também havia
esmagado cruelmente todos os que se lhe tinham oposto no passado – e
entre eles contavam-se os antepassados de uma grande parte dos actuais
moçambicanos. Como compreender uma figura tão fascinantemente
contraditória?

Para a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), nunca houve
dúvidas: Gungunhana foi e é um herói. Quando em 1969 Samora Machel
tomou o lugar de Eduardo Mondlane como líder do movimento, foi ao
nome do imperador de Gaza que os partidários da unidade nacional
moçambicana foram buscar forças para relançar a campanha da
independência. Mondlane, o homem que iniciara o processo, tinha sido
morto com a conivência de alguns condiscípulos – e no seu lugar teria,
portanto, de emergir um líder forte, capaz de estimular a entrega e
dissuadir a traição, tarefa para a qual um simples ex-auxiliar de
enfermagem, como Machel, não parecia talhado. O boato de que o novo
dirigente era um parente distante de «Ngungunhane», por via de um avô
guerreiro chamado Maghivelari, foi o mote ideal – depois, o voluntarismo
de Samora e a marcha dos tempos fizeram o resto. A 25 de Junho de 1975,
pouco mais de uma década após o início da luta armada pela libertação,
sobre a qual passam em 2004 quarenta anos, a independência do novo país
é formalmente proclamada. Para quase todos os efeitos, o «leão de Gaza»
era um símbolo de triunfo.
Mas não para todos os moçambicanos. Três anos depois das insinuações
da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo, na oposição) sobre
novos massacres executados pela Frelimo, que ameaçaram colocar em
causa o acordo de paz assinado em Roma por Joaquim Chissano e Afonso
Dhlakama, em 1992, os partidários de Dhlakama continuam a contestar o
facto de tanto Eduardo Mondlane (nascido em Manjacaze, em 1920),
fundador do partido no poder, como Samora Machel (Chilembe, 1933) e
Joaquim Chissano (Malehice, 1939), seus sucessores e primeiros
Presidentes da República, serem todos de etnia changana – que provém de
Sochangane, nome anterior de Manukuse – e oriundos da província de
Gaza.
Ao mesmo tempo, os ossos de Gungunhana, solicitados por Maputo em
1983, continuam perdidos na terra de lava dos Açores, algures numa vala
comum do cemitério da Conceição, em Angra do Heroísmo, misturados
com os restos mortais de inúmeros anónimos. Muitos não o aceitam como
herói até que regresse a casa. E é como se faltasse ainda escrever uma
linha da História – como se um verso permanecesse em branco, à espera
do futuro, tal como diz o poema.

Samora Machel pediu a devolução dos ossos do rei de Gaza pouco antes
de uma visita oficial a Portugal, em Outubro de 1983. Eram os anos de
rescaldo da mentalidade colonialista, o momento de enterrar para sempre
as diferenças entre brancos e pretos, e tanto o presidente de Moçambique
como o seu homólogo português, Ramalho Eanes, esforçaram-se por
sublinhar o muito que unia os dois países, mais do que aquilo que os
distanciava. Um dos momentos mais simbólicos da visita foi precisamente
a entrega ao presidente moçambicano de um pote de cerâmica contendo
aquilo que seriam as cinzas das ossadas Gungunhana. Para incutir maior
solenidade ao regresso a casa do chefe angune – também dito «vátua»,
mas por engano –, Machel pediu que Portugal conservasse por mais algum
tempo os restos mortais do imperador, de forma a que o Estado
moçambicano pudesse preparar uma cerimónia de transladação condigna.
E a urna é então depositada na capela do Palácio das Necessidades, em
Lisboa, onde permanecerá durante quase dois anos.
Gungunhana despede-se finalmente de Portugal a 14 de Junho de 1985,
numa sessão solene a que assistiram os dois chefes de Estado e o então
presidente do Governo Regional dos Açores, Mota Amaral, bem como
oficiais da Marinha e do Exército portugueses. A urna preparada para
receber as ossadas é uma obra de arte: um caixão de jambirre e chanfuta
(madeiras moçambicanas), com dois metros de comprimento, 75
centímetros de altura, 225 quilos de peso e adornos com baixos relevos do
escultor Paulo Come. Quando no dia seguinte aterra em Maputo contendo
os ossos do herói, o DC-10 das Linhas Aéreas de Moçambique é recebido
pelos cânticos de alegria de centenas de pessoas, num cortejo que percorre
as Avenidas de Angola e Eduardo Mondlane, rumo ao Salão Nobre do
Conselho Executivo. É aí que ficarão os restos de Gungunhana até serem
definitivamente instalados na Fortaleza de Maputo, na capela de Nossa
Senhora da Conceição, a que depressa se subtrai a principal imagem da
Virgem.

A revelação de que o pote de cerâmica entregue a Samora Machel
continha apenas terra do cemitério da Conceição surge logo a seguir, nas
parangonas dos jornais portugueses. Moçambique opta primeiro pelo
silêncio, mas o assunto será recuperado com regularidade ao longo dos
quinze anos seguintes, nomeadamente quando, em 1995, se assinala o
centenário da prisão do régulo africano. Mas Maria da Conceição Vilhena,
estudiosa do Império de Gaza e biógrafa de Gungunhana, explica no seu
Gungunhana, Grandeza e Decadência de um Império Africano, publicado
em 1999, que a impossibilidade de localizar os ossos do chefe angune
sempre fora do conhecimento de Maputo e que, portanto, o punhado de
terra fora aceite como um símbolo.
O livro cita um ofício redigido pelo então Ministro da República para os
Açores, Conceição e Silva, em que se dá conta de que as ossadas são
irrecuperáveis, e relata mesmo um episódio em que Mota Amaral solicita a
devolução da terra do cemitério caso Moçambique decida recusá-la,
alegando que «às cinzas dos mortos tributam os Açorianos um profundo
respeito». Mas em 1998, quando o semanário Expresso retoma o tema, o
Governo moçambicano anuncia a criação de uma Comissão de Inquérito,
presidida pelo ministro da Cultura Mateus Kapupha, para apurar a
autenticidade das ossadas.
Hoje, cinco anos passados, a Comissão de Inquérito continua com o
«dossier», sem ter ainda apresentado quaisquer resultados. «O trabalho
prossegue», garante Américo Pinto. Investigadores açorianos
especializados no fenómeno Gungunhana garantem nunca terem sido
contactados para qualquer esclarecimento ou ajuda nas investigações, bem
como nunca terem sabido da deslocação de qualquer delegação
moçambicana a Angra do Heroísmo. A maioria dos jornalistas de Maputo
assegura que, tanto quanto lhe diz respeito, o assunto morreu. Mas,
enquanto os resultados da comissão não forem oficializados, dificilmente a
alma de Mudungazi descansará em paz – dificilmente se instalará em
definitivo nas margens do rio Limpopo, entre os espíritos que um dia
ofereceram ao exército angune a magia e a força para resistir durante 75
anos à pressão de portugueses, ingleses e alemães.

Fundado por um ramo zulu fugido à guerra que alastrava a Sul, o reino de
Gaza sobreviveu à cobiça europeia durante mais de sete décadas. Quando
Gungunhana foi preso por Mouzinho de Albuquerque em Chaimite, em
1895, parte do seu exército ainda conquistava terreno aos tsongas, aos
chopes, aos vandaus e aos bitongas, empurrados sucessivamente para
Norte e fugindo a todo o custo ao confronto com os métodos carniceiros e
esclavagistas dos angunes. No seu esplendor, o império de Gaza
espraiava-se do rio Icomáti à margem esquerda do Zambeze, do oceano
Índico ao curso superior do rio Save. Era o segundo maior reino africano
do século XIX, um território que, no mapa actual, ocuparia mais de
metade de Moçambique e um bom pedaço do Zimbabué, entrando ainda
pela África do Sul. Há cem anos, tinha uma população entre os 500 mil e
os dois milhões de habitantes.
A história da dinastia de Manukuse é a história da traição, da luta uterina
pelo poder, do assassinato a sangue frio. Quando o todo-poderoso primeiro
rei de Gaza morre, em 1858, a sua sucessão é disputada durante cinco anos
pelos dois filhos mais velhos, Mawewe e Muzila. As divergências
sucessórias nasciam da incompatibilidade entre a lei zulu e a lei angune
propriamente dita, e dessa incompatibilidade há-de resultar mais tarde o
mesmo tipo de disputa para a segunda sucessão. No primeiro caso,
Mawewe é empossado, mas faz tudo por provocar a ira de portugueses e
boers, que ajudarão Muzila a usurpar-lhe o trono após uma sangrenta
guerra civil. No segundo, depois da morte de Muzila, Mudungazi mata o
irmão primogénito, Mefamane, e obriga outros três a fugir para o
Transvaal, de forma a garantir o poder. É aí que adopta o nome de
«Ngungunhane».

O reinado do «leão de Gaza» foi marcado pela frieza sanguinária com que
o «kraal» (a corte) tratava os povos vassalos e pela habilidade política com
que o rei se relacionava com as potências europeias. De certa forma,
Gungunhana foi protagonista numa luta tribal, mas apenas figurante numa
disputa maior do que ele, muito maior do que o próprio continente negro.
Enquanto Portugal e Inglaterra lutavam pelo domínio da África Austral, o
seu ouro e os seus diamantes, discutindo o «Mapa Cor-de-Rosa»
português e a intenção inglesa de ligar o Cairo ao Cabo, Gaza foi jogando
numa política de sucessivas alianças com Lisboa ou com Londres, com
Londres ou com Lisboa, na convicção de que as divergências europeias
eram a sua maior força. Aquando do Ultimato inglês de 1890,
imediatamente aceite por Portugal e transformado em tratado no ano
seguinte, Gungunhana percebe que começa a perder margem de manobra.
Mas ainda joga um último trunfo, e desse trunfo há-de arrepender-se até
ao fim: em 1894 dá guarida a Mamatibejana (ou Zixaxa) e Amgundjuana,
dois dos régulos tsongas que haviam assaltado as posições portuguesas em
Lourenço Marques. E não mais deixa de ter o exército português à perna.
Eduardo Galhardo e Mouzinho de Albuquerque eram então os «nobres
representantes da civilização na luta contra a barbárie», como um dia
escreveu o primeiro. «Tudo o que não fosse o aniquilamento total de
Gungunhana não corresponderia aos sacrifícios pesadíssimos que o país
tinha feito», conta então o governador António Enes, citando ordens do
Governo de Lisboa. Por essa altura, os jornais portugueses atribuem ao
imperador angune epítetos como «sanguinário», «carniceiro» ou, mais
prosaicamente, «o terror de todos os governos portugueses». A prisão dá-
se a 28 de Dezembro de 1895, na aldeia sagrada de Chaimite, para onde o
Gungunhana fugira depois das derrotas em Coolela e Mandlakazi. Em
carta à mãe, pouco antes de suicidar-se, Mouzinho viria a considerar a
prisão do «leão de Gaza» como «a única coisa» importante que fizera «em
40 anos de vida quase inútil».

É aquele mesmo imperador todo-poderoso, capaz de assassinar esposas e
filhos, que estranhamente chorará ao desembarcar em Portugal, longe de
tudo o que construiu e destruiu – longe do seu «kraal», despojado para
sempre do tesouro que acumulara e avisado de que em breve terá mesmo
de deixar as suas sete rainhas, destinadas ao exílio em São Tomé.
Gungunhana chorou no Tejo, chorou em Monsanto e chorará ainda muitas
vezes nos Açores, depois de «pôr-se de joelhos» e «beijar as botas aos
brancos e pedir perdão», como conta Maria da Conceição Vilhena no
ensaio citado. E é isso que a História durante muito tempo não entenderá,
esgrimindo-se a si própria na tentativa de construção do perfil adequado
para um déspota aparentemente sanguinário que não teve coragem de
entregar o peito à morte.
No dia da prisão em Chaimite, o amigo e maior conselheiro de
Gungunhana, Mahune, não recuou perante as armas dos brancos: foi
fuzilado por sua própria sugestão e, no momento em que o atavam a um
poste para esperar os tiros, sugeriu com um sorriso que mais valia
desamarrarem-no, de forma a que pudesse cair quando as balas o
crivassem. «Mahune caiu de pé, perante a força do branco, ao contrário de
Gunhunhana que, assustado, caiu de joelhos», escreve Vilhena.

Feliz ou infelizmente para Gungunhana, Angra do Heroísmo nunca chega
a ser o «gulag» que se esperaria para «o terror de todos os Governos
portugueses». O ex-imperador é preso no promontório vulcânico do Monte
Brasil a 27 de Junho 1896, juntamente com Zixaxa, régulo seu vassalo,
Molungo, seu tio, e Godide, seu príncipe herdeiro. E, embora muitos
terceirenses nunca houvessem sequer visto um negro, como conta Pedro
de Merelim no artigo «Os Vátuas na Ilha Terceira» (Revista Atlântida,
1960), a empatia pelos prisioneiros foi imediata.
Os quatro africanos acomodaram-se então a uma vida marcada pela
melancolia, aceitando a alfabetização, submetendo-se ao baptismo e
afundando-se no álcool. Nunca foram julgados, mas permaneceram
cativos no forte, embora «em regime livre», ao abrigo das chamadas
«Medidas de Segurança Pré-Delituais», mais tarde muito apreciadas pela
polícia política de Salazar. Zixaxa, aparentemente o mais determinado dos
quatro, ainda conseguiu constituir família e deixar descendência,
ocupando os seus últimos dias a construir cestos de vime e a fabricar
xaropes medicinais. A Godide, o mais novo de todos, matou-o cedo uma
tuberculose. Molungo morreu de velho. Gungunhana, equiparado ao posto
de segundo sargento do exército, sucumbiu basicamente à solidão e à
saudade.
CRONOLOGIA
Principais datas e acontecimentos em torno da fascinante vida de
Gungunhana:
1820 (cerca de) – o povo nguni (ou angune) penetra em Moçambique e
subjuga os chope, tsonga, vandau e bitonga; Sochangane, mais tarde
chamado Manukuse, torna-se rei de Gaza.
1850 (cerca de) – nasce Mudungazi, mais tarde chamado Gungunhana,
filho daquele que seria o terceiro imperador de Gaza, Muzila.
1858 – morre Manukuse, fundador do Império de Gaza, avô de
Gungunhana. Mawewe sobe ao poder.
1863 – Muzila, irmão de Mawewe, consegue vencer a guerra civil pela
sucessão de Manukuse e ascende ao trono.
1884 – morre Muzila, pai de Gungunhana e terceiro imperador da dinastia;
Gungunhana ascende ao poder.
1885, Fevereiro – realiza-se a conferência de Berlim, que define o
processo de partilha de África pelas principais potências europeias.
1885, Outubro – Gungunhana envia uma embaixada a Lisboa, jurando
vassalagem a Portugal.
1887 – Portugal e Alemanha acordam as bases por que deverá definir-se a
partilha da África Austral; Portugal fica com o Mapa Cor-de-Rosa, que
prevê a união por terra de Angola e Moçambique, império de Gaza
incluído.
1889 – Gungunhana entrega à Inglaterra, a troco de um milhar de
espingardas, munições e um subsídio anual, a exploração de minérios,
com acesso ao mar através de Gaza.
1890, 11 de Janeiro – o governo britânico faz um ultimato a Portugal,
recusando as pretensões inscritas no Mapa Cor-de-Rosa; o rei D. Carlos
aceita as exigências no mesmo dia.
1891, Junho – Portugal e Inglaterra assinam o acordo sobre a partilha da
África Austral;
1894, Agosto – os tsongas revoltam-se em Lourenço Marques, numa
acção em que participa Mamatibejana, mais tarde chamado Zixaxa;
1895, 2 de Fevereiro – o exército português aniquila a resistência tsonga,
cujos régulos se refugiam em Gaza.
1895, 11 de Novembro – o exército português vence os angunes e arrasa
Mandlakasi, capital do Império de Gaza;
1895, 28 de Dezembro – Mouzinho de Albuquerque aprisiona
Gungunhana em Chaimite, a aldeia sagrada dos angunes.
1896, 13 de Março – Gungunhana desembarca prisioneiro em Lisboa, na
companhia de sete das suas mulheres, seu filho, seu tio, dois régulos
vassalos de Gaza, respectivas esposas e um cozinheiro; a população
celebra o feito.
1896, 23 de Junho – Gungunhana chega à ilha Terceira, nos Açores, onde
vai ficar exilado até à morte; na sua companhia seguem apenas Godide,
seu filho, Molungo, seu tio, e Zixaxa, régulo vassalo.
1902, 8 de Janeiro – Mouzinho de Albuquerque suicida-se.
1906, 23 de Dezembro – morre Gungunhana, vitimado por uma
hemorragia cerebral.
OS PRETOS DO MONTE BRASIL
Os retratos de Gungunhana feitos durante o período do exílio em Angra do
Heroísmo são os de um homem só, amargurado com a derrota, remoendo
em silêncio as memórias das suas muitas rainhas e do enorme tesouro que
acumulou à custa de dádivas, impostos e saques. «Aos poucos, a vida vai
nele arrefecendo, cansada de humidade, frio e céu cinzento», relata Maria
da Conceição Vilhena em Gungunhana, Grandeza e Decadência de um
Império Africano. «Os seus prolongados silêncios seriam sem dúvida o
espaço de um amargo rememorar. Um ócio arrastado, sombrio, de
desencantamento, que acelera o envelhecer. É o leão de Gaza
transformado num cordeiro.» Muitos açorianos recordam hoje histórias
familiares em que avós ou bisavós, ainda crianças, nutriam enorme ternura
por Gungunhana, correndo para ele nas ruas da cidade e aninhando-se de
um salto no seu braço vigoroso. O protagonista de algumas das histórias
seria provavelmente Zixaxa, mais adaptado à terra – outros relatos
nasceriam simplesmente na imaginação agridoce de quem temeu deparar-
se um dia com «os pretos do Monte Brasil» e, depois, absolveu a sua
presença                                na                              ilha.
Gungunhana morre a 23 de Dezembro de 1906, vítima de hemorragia
cerebral, segundo consta das notícias dos jornais. É enterrado na véspera
de Natal, numa cerimónia realizada segundo os princípios cristãos e a que
assistiram os seus três companheiros de degredo. Quatro dias depois
celebrar-se-ia o décimo primeiro aniversário da sua prisão. Mas tanta coisa
acontecera entretanto... Em Portugal, Mouzinho de Albuquerque havia-se
suicidado, a cidade do Porto resistira a uma peste bubónica, Lisboa assistia
a espectáculos frequentes de cinema. Ao redor do mundo, as mulheres
inglesas reclamavam direito de voto, os irmãos Wright haviam conseguido
pôr no ar o Flyer I, Einstein inventara a Teoria da Relatividade. A morte
de um pobre alcoólico, mesmo despojado de um império apenas
suplantado em África pelo califado de Sokoto, era uma pobre efeméride.
Gungunhana «morreu sem uma simples homenagem», lamenta então o
jornal Portugal, Madeira e Açores – outros jornais limitar-se-iam a
notícias breves. No cemitério da Conceição, no extremo-norte da massa
urbana de Angra do Heroísmo, os seus ossos ficariam na sepultura apenas
enquanto esse espaço não fosse indispensável a outro defunto. O seu
destino final, caso ninguém os reclamasse, seria a vala comum. O regresso
a Moçambique, na altura ainda uma província ultramarina, não passaria de
uma anedota ridícula.

				
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