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					O destino da União Européia está nas mãos da Irlanda
Na quinta-feira (12/6), os eleitores irlandeses irão às urnas para aprovar -ou rejeitar- o
Tratado de Lisboa. Um "não" colocaria UE em mais uma crise; as pesquisas mostram
que os críticos do tratado estão dominando a situação

Hans-Jürgen Schlamp

Gramados meticulosos diante de minúsculas casas, carros japoneses na calçada, crianças
jogando futebol com tênis Nike: Avondale Lane é um paraíso de classe média na cidade
irlandesa de Waterford, no Sul.

Há 15 anos, as casas aqui eram menores, os carros mais raros e as crianças mais sujas,
lembra-se o membro da Câmara David Cullinane, 31. Ele está vestindo uma camiseta com o
nome "Waterford-Alliance", de um grupo que se opõe ao Tratado de Lisboa da União Européia.
Toda noite ele e outros vão de porta em porta com algumas palavras amigas e pilhas de
panfletos coloridos. Os argumentos variam, mas a mensagem é sempre a mesma: diga não ao
Tratado de Lisboa.

"Certamente vou votar não", promete a moradora decidida no número 89, uma mulher de 30 e
poucos anos de camiseta sem manga e tatuagens pretas no braço e no peito. Afinal, diz ela,
ninguém se deu o trabalho de explicar a ela para que serve o tratado.




          Pedestres em Dublin passam ao lado de placa defendendo a rejeição ao Tratado de Lisboa

Cullinane está ali para preencher o vazio. É um tratado ruim, argumenta, porque diminui a
influência da Irlanda na Europa, ameaça a neutralidade do país, promove a energia nuclear e
os militares, corta salários e mina os direitos dos trabalhadores. "Pode contar comigo", grita a
mulher enquanto Cullinane se dirige para a próxima casa.

Uma decisão vital
A próxima vizinha segura com suas pernas uma criança e um cachorro dentro de casa,
enquanto Cullinane faz seu discurso. Ela ainda está indecisa, diz, mas gostaria de dar uma
olhada nos panfletos. As próximas poucas portas não se abrem. Depois, um senhor confuso
pergunta que tipo de mudanças um voto "sim" ou "não" traria ao hospital municipal, já que
sempre tem que esperar muito para ser atendido.

Nesta quinta-feira, 3 milhões de irlandeses lançarão seus votos sobre o Tratado de Lisboa -
uma decisão vital que afetará o futuro imediato da Europa. Os eleitores irlandeses podem abrir
o caminho para um acordo europeu que tornaria as decisões da UE mais democráticas e
transparentes e daria maior influência aos parlamentos nacionais.
O QUE O TRATADO DE LISBOA
DARIA À EUROPA

A introdução de um novo
presidente do Conselho Europeu,
a ser eleito por um mandato de 2
anos e seis meses. Até agora, a
presidência foi revezada entre os
países membros a cada seis
meses.

A introdução de um Alto
Representante de Segurança e
Relações Exteriores da UE. O
cargo representaria a UE em
questões de política externa.

Mais decisões feitas pelo
Conselho Europeu seriam
decididas com base na maioria
qualificada, apesar das decisões
importantes ainda terem que ser
unânimes.

A Comissão Européia seria
reduzida de tamanho, de seus
atuais 27 membros para apenas
18 no futuro. Os cargos seriam
revezados entre países membros.

O Parlamento Europeu receberia
maiores poderes legislativos do
que teve até agora.


Se os irlandeses votarem "não", o processo de reforma da UE seria efetivamente bloqueado. O
Tratado de Lisboa -um substituto da Constituição anterior, rejeitada em 2005 por um referendo
na França e na Holanda- deve ser aprovada por todos os 27 Estados membros da UE. Nos
outros 26, os parlamentos nacionais farão a decisão. Quinze deles, inclusive Alemanha, já
aprovaram o documento.

Somente na Irlanda os cidadãos terão voz -e o destino do continente subitamente ficou nas
mãos deles.

No centro nervoso da UE em Bruxelas, assim como em muitas outras capitais européias, a
incerteza reina. O que fazer se os irlandeses recusarem o tratado? Excluí-los da União
Européia? Fazê-los votar novamente até vencer o "sim"? Jogar fora o novo tratado
inteiramente?

Não há plano B para tal possibilidade, diz o presidente da Comissão Européia, José Manuel
Barroso. De fato, o "não" irlandês seria "um desastre para Europa", concluiu um recente estudo
da fundação Bertelsmann.

O crítico do tratado David Cullinane refuta essa opinião sombria. Em vez disso, diz ele, tal
resultado na quinta-feira de fato seria uma bênção. Ele também quer o melhor para a Europa,
mas melhor significa uma Europa sem essa "Constituição neoliberal", uma UE que existe "mais
para as pessoas e menos para as grandes empresas", diz ele.

Ponto de reunião dos críticos
Cullinane é ativista do Sinn Fein, pequeno partido visto como braço político do Exército
Republicano Irlandês durante os longos anos de guerra civil na Irlanda do Norte. Hoje, o Sinn
Fein é um ponto de reunião dos críticos.

Esses nacionalistas têm a companhia de alguns membros da igreja ultra-conservadora, que
temem a possibilidade do aborto, atualmente proibido na Irlanda, ser legalizado. E de
fazendeiros de gado temerosos que a UE permita maior importação de carne. E até de um
multimilionário carismático que está usando cartazes para fazer campanha pelo "não": o
tratado, diz ele, é "bom para os que estão no alto, ruim para nós".

Apesar da oposição ao tratado, porém, a maioria dos irlandeses de fato vê a União Européia
com bons olhos. Sua ilha que foi pobre se tornou rica, parcialmente graças aos bilhões de
euros transferidos de Bruxelas. A renda per capita irlandesa superou a média da UE há alguns
anos e está ainda mais alta do que no Reino Unido e na Alemanha. Todos os grandes partidos
políticos estão trabalhando por um "sim". Até recentemente, as pesquisas tinham um só lado:
há pouco tempo 41% eram a favor e 33% contra.

Mas, na última sexta-feira, começou o pânico. O "Irish Times" publicou uma pesquisa
mostrando que os números contra aumentaram para 35% e os a favor caíram para 30%.

Muitos eleitores ainda estão hesitando -e estão sendo fortemente seduzidos pelos dois lados.
Milhares de cartazes a favor enfeitam as ruas com lemas como "Bom para a Irlanda -Bom para
a Europa". O futuro, promete o grupo do "sim", é cheio de emprego, crescimento e segurança.

Entretanto, ao lado dessas mensagens, a oposição prevê a privatização da saúde e da
educação e maiores impostos. Os irlandeses também são lembrados de como seus ancestrais
deram suas vidas na luta pela liberdade -liberdade que não deve ser sacrificada pela fome de
poder de Bruxelas.

Temores do estabelecimento político
Os irlandeses já chocaram a Europa uma vez. Em 2001, a Irlanda surpreendeu o continente
quando rejeitou o Tratado de Nice que, como o de Lisboa, era um acordo que tinha como alvo
reformar os procedimentos decisórios da UE. Na época, as pesquisas antes do referendo
também mostraram uma clara tendência ao "sim". A explicação do fracasso foi simples: menos
de 35% dos eleitores compareceram às urnas porque os proponentes do tratado não foram.
Seus críticos, por outro lado, tinham se mobilizado.

Um ano depois, a Irlanda voltou às urnas, desta vez em números suficientemente maiores, e
aceitou o tratado. Mas uma segunda votação provavelmente não funcionaria desta vez. Além
disso, o Tratado de Lisboa é uma versão modificada da Constituição que foi rejeitada na
França e na Holanda em 2005. Se o texto for novamente revisado, todo o delicado processo de
ratificação terá que ser reiniciado -em todos os 27 países da UE.

Assim, os ministros irlandeses estão fazendo aparições incansáveis na televisão e em
shoppings. Também houve uma ajuda proeminente do continente europeu: a chanceler alemã
Angela Merkel falou bem do tratado em Dublin como "o melhor preparativo para o futuro da
Europa", e o presidente Barroso da Comissão Européia advertiu que a Europa -inclusive a
Irlanda -pagarão o preço se o tratado for rejeitado.

A confusão até cobrou um preço do ex-primeiro-ministro da Irlanda, Bertie Ahern. Sem o
referendo, ele provavelmente poderia ter esperado as investigações dos pagamentos dúbios
que aceitou quando ministro das finanças nos anos 90. Na atual situação, entretanto, os
políticos temiam que os eleitores expressassem sua frustração com seu líder votando no "não"
na quinta-feira. Ahern foi forçado a renunciar e substituído por seu vice, Brian Cowen.

Há apenas uma área na qual os que são a favor da Constituição da UE fracassaram tão
completamente quanto seus oponentes: ninguém conseguiu deixar claro para o povo irlandês o
que é exatamente o documento controverso. Na melhor das hipóteses, 250 dos 4,2 milhões de
cidadãos leram o texto completo, estima o Comissário Europeu da Irlanda Charlie McCreevy.
Ele mesmo leu apenas um sumário.

				
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posted:10/25/2011
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